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Reciclagem de palavras: Riçar Texto: Irque somache panicou

"De outra feita, conversando com um matuto, idoso, lavrador ainda, fui me interessando pelas palavras que usava e perguntando o sentido. "Eu riçava café", "o que significa riçava", ele explicava o procedimento de segurar o galho no seu nascente e puxar a mão fechada, para que os grãos caiam no pano que se armou no pé do arbusto". (Irque somache panicou. 03/04/2008) Riçar. Esta palavra me foi dita por um lavrador, para significar o processo de colher café e um professor de português o chamaria de idiota ignorante, o correto é derriçar. Não se deve negar que os dicionários não registram riçar no sentido dado pelo pobre coitado. É, contudo, uma análise superficial do problema, e muito egocentrada quando a correção se faz com um "você não quer dizer" derriçar? Não, se ele disse riçar ele queria dizer riçar e o fez. Para riçar, os dicionários registram o sentido de fazer riço; encrespar o cabelo, encaracolá-lo em forma de riço por meio de ferro próprio; fazer em anéis, frisar, encarapinhar; eriçar. Não apareceu no Raphael Bluteau de 1712, mas está no de 1887, pelas mãos do carioca António de Morais Silva, com o mesmo sentido dado atualmente nos dicionários. Com este sentido a palavra freqüenta os cabelos ou os pêlos em José de Alencar, Mãe, Til, O garatuja, O guarani e outros; em Eça de Queirós, Primo Basílio, A cidade e as serras, A Ilustre Casa de Ramires, O Crime do Padre Amaro; em Camilo Castelo Branco, Coração, cabeça e estômago, A Brasileira de Prazins; em Machado de Assis, Dom Casmurro; em Jorge Amado, A face obscura; Guimarães Rosa, Sagarana.

Riçar sai do dizer/fazer cabelereiro em Dina, 1866, de Lycurgo José Henrique de Paiva: Como serena riçava/A brisa a face do lago; em Euclides da Cunha, Contrastes e Confrontos: Os terrenos ondulam, riçados de gargantas; aquelas páginas severas riçadas de repentinos e vivos golpes de ironia; e, dele mesmo, em Os sertões: litoral revolto, riçado de cumeadas e corroído de angras; em Lima Barreto, Histórias e Sonhos: após longo decurso de tempo, lamentavelmente riçado por dificuldades, impedimentos, estorvos grandes; e em Érico Veríssimo, Solo de clarineta: andar descalço neste solo áspero, riçado de pedras pontiagudas. Na Internet há quem tenha feito mal uso de riçar, usando-o no lugar de frisar: "devemos riçar, como atentamos anteriormente, que". (Está na Internet, onde, enquanto estiver no ar, qualquer puçá o pega). Sempre com o mesmo sentido trazido de Portugal, não seria então um portuguesismo?

O lavrador disse que riçava café e explicou o processo de segurar o galho no seu nascente e puxar a mão fechada, para que os grãos de café caiam no pano que se armou no pé do arbusto. Por este meio o galho se torna liso, não enrugado ou cheio de anéis ou encaracolado, portanto, não lavrou ele esta preciosa palavra na leitura pilosa dos escritores. Putz! Diria eu se escrevendo HQ... O meu lavrador, em verdade, está é dizendo o inverso de derriçar, torna rliso o galho do pé de café, que riçado estava com os grãos. Não se tem, no banco de dados, um uso literário de riçar com o sentido dado pelo lavrador, e o xisariam com tinta vermelha! Não é possível recuperar a formação do sentido na mente deste meu lavrador fazendo asd perguntas que lhe não fiz no passado de nosso encontro. Contudo, outros usos há para riçar., descobre-se na Internet. Asséde Paiva, em Comunicação por Gestos e Sinais - Linguagem Não-verbal,dá o gesto e o sentido: puxar o colarinho riçando o dedo polegar por dentro , livrando-se do aperto desconfortável. Aí se compreende o sentido de riçando o dedo: é correndo o dedo. Na Internet também há anúncios de torres de riçar para dar brilho aos chapéus de feltro acabados, e dizendo Houaiss que riça é o pêlo que cai ou se tira dos chapéus quando escarduçados, conclui-se que riçar é tirar riças ao chapéu com uma escova própria (cadurça). Aí está o campo situacional que o lavrador descreve com o seu riçava café: escarduçando, correndo a carduça em o chapéu caem as riças ao chão e riçando o café, correndo a mão fechada pelo galho, caem os grãos na abada de pano que se lhe põe ao rés do chão.

Um superficialista diria que o lavrador, formado na escola da vida, não sei se alfabeto ou analfabeto, pode ter corrompido a palavra derriçar. Pode é ter colhido riçar na árvore do conhecimento, o Logos que circula na filosofia deste quando o homem aprendeu a esvaziar, sem pressa, os intestinos. Afinal, não lhe perguntei se era chapeleiro, de profissão ou de família. Não é suficiente definir a Língua como sistema, é preciso entendê-la como sistema e estudar mais sua inter-relação com a Fala. Para se fazer afirmativas adequadas sobre o lavrador e seu riçar café seria necessário saber muito mais sobre a história dele, sobre a história dos campos situacionais que vivenciou. Parece, no entanto, que ele colheu a palavra na "Arvore do Conhecimento", locução que cheira a Bíblia, mas que pode representar a primeira expressão da teoria dos sistemas. Se você conhece o sistema e suas regras pode fazer afirmativas e previsões quanto a seus elementos constituintes. Não tenho dados suficientes para afirmar que o lavrador, idoso, tenha percebido a Arvore do Conhecimento e colhido riçar para expressar o modo como colhia café de uma forma parecida como quem descreve o chapelar o feltro, nem sei se provém ele de família chapeleira.

Pelo levantamento que ora se faz, pode-se observar que as palavras derriçar e riçar estão relacionadas. Somando tudo o que aqui se leu, derriçar significaria tirar as riças do café, processo pelo qual o galho ficaria liso. O chapeleiro preferiu nomear riçar ao processo parecido com o tirar o pêlo que se gruda ao feltro, sendo riça os pequenos grumos que caem ao chão. Em termos de campos situacionais, o dizer/fazer se encontram em ambas as condições, do lavrador e do chapeleiro, que, de modo bem, bem... não há um nome a se usar aqui, digamos bem Árvore do Conhecimento, dizem a mesma coisa. A diferença é que a riça do chapéu é descartada, e a riça da colheita do café é o próprio grão de café.

É uma pretensão corrigir o que os estudiosos da Língua dizem, que o significado de uma palavra é convenção social. Não parece ser bem assim. Quando dizemos para a cachoeira chuá é onomatopéia, o barulho que ela faz. Quando estamos vivenciando um campo situacional, dificilmente não o internalizaremos com as palavras que, na cultura, o descrevem. A própria cachoeira ilustra o fato: se você disser que ela diz chuá chuá, poderá estar se confrontando comigo que escutei chuê chuê. Se vivencio um campo situacional e me encabulo com uma árvore, ela nada diz, mas um adulto diz árvore, esta palavra se cola à representação mental que da coisa faço e a repito, em onomatopéia do campo situacional que vivenciei. Não é convenção social: a palavra que se internaliza para a coisa real vivenciada é aquela que com a coisa real se internaliza. É o que ocorre se a palavra a ser internalizada é tree ou arbol. Deste modo, é uma convenção social se, e apenas se, o adulto que transmite o sentido da palavra estiver contido em um contexto social: se for excluído em algum grau, transmitirá o que é socialmente convencionado com ressalvas. Se for completamente excluído, a-ligado ao social, a-lienado, transmitirá única e exclusivamente o significado que construiu para si de uma palavra que represente uma coisa do real transformada em seu objeto. Temos que reconhecer que, se as coisas fossem na base de convenção social, o mercado livreiro seria o maior do mundo: só saberia falar a Língua quem fosse leitor, o restante mudo seria. O que a palavra tem a ver com a coisa que representa? Nada, além do fato de ter sido internalizada - ou fabricada no mundo interno - concomitantemente à coisa a que ela se cola. Irque somache panicou!
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Atualizado em: Qui 2 Out 2008

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