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Reciclagem de Palavras: aba

Nossa língua está morrendo! É o que se pode constatar na fala do povo. A Língua é rica, os vocabulários pobres. Ainda por cima, contamos com professores que se usam da mídia para serialkilerizarem a preposição a, a mais econômica da família e ensinaremcomo se deve falar-correto-de-forma-errada. Daí, os usuários comuns da língua ficaram perdidos, já se podendo encontrar em pesquisa na Internet quem anuncie quadros em óleo. Só falta encontrar quem anuncie barcos que usam velas (não de espermacete) para se moverem aproveitando a energia cinética dos ventos quando desejarem vender barcos a vela. Escrever tem disto também, quanto mais escrevemos mais percebemos que nosso vocabulário é restrito. Percorrendo alfarrábios, percebe-se que há palavras que estão caindo em desuso, sendo comidas pelas traças, e palavras que foram faladas, mas não foram colocadas como pertencentes à Língua, por não terem sido registradas em textos literários.

Nossa proposta é fazer respiração boca a boca no coração da língua e reinventar usos de palavras que estão presas em dicionários. Sem evitar o trocadilho bobo, dicionário que se preze é aquele que dá a palavra junto com uma frase em que foi usada. Guia-me um dicionário que cita um uso, mas não como hábito. Não importa, a fonte é a boca do povo, só pode estar no dicionário se alguéns falaram. Quando só um fala, é sinal de loucura, falta de comunicabilidade, e não de conhecimento do grande tesouro que nos escondem os clássicos que agora pouco são lidos e os falares dos escravos, negros e índios, que pouco deixaram escrito. Como aparecem prestidigitadores nas revistas, jornais e televisão, para exterminar com algumas palavras e locuções de uso consagrado pelas bocas populares, muitas palavras serão enviadas aos museus lingüísticos, outras ainda estão enterradas como cacos nos subsolos das senzalas. Estes exterminadores do passado parecem que não têm o hábito de ler ou escrever, aliás, muitos deles só sabem escrever o x com que se determina que uma questão de prova tenha sido respondida errada. Vou usar o Dicionário Escolar de Dificuldades da Língua Portuguesa, de Cândido Jucá, o filho, para dele extrair palavras que vão deixando de formar significados na mente de quem as recebe, por inexistência de quem os dá. Poderei usar palavras de dialetos familiares, se conseguir dar hipóteses do motivo porque foram inventadas. Outro mecanismo será o uso da pesquisa de livros da Google, quando atingimos fragmentos de como foram usadas as palavras em várias épocas. Aí está Artaud, não se cria com o todo, mas com fragmentos do todo. Uma das motivações é aderir aos esforços para unificação dos falares do português pelo mundo afora, bem como a incorporação de vocábulos africanos que não ganharam status de Língua, mas que, com certeza, foram falados aqui nestes Brasis. Daí um aviso, muitas informações não serão dadas completas, visto estar se trabalhando com fragmentos de livros colhidos na Internet. Uma dificuldade é que na Internet não estão assentadas as palavras com acento, portanto, poderemos nos referir a uma palavra xxxa, podendo estar no original escrito xxxá.

Uma conseqüência de revirar os pós por debaixo do que na mente foi internalizado, o que tecnicamente se chama de tempestade cerebral, é surgir sínteses inesperadas. Tem-se de colocar sob o telescópio as inter-relações da nuvem de poeira que se levanta, transformando o nome do processo para chuva-de-água-em-pó cerebral, e ficar atento aos mil choques interiores que aconteceram no cimento físico-químico do pensamento, como ensina Artaud. Se surgir uma palavra que não existe como costumam nomear alguns portuguesólogos, procuraremos analisar como se deu a formação.

Como só se pode começar do começo, abro o dicionário na letra a. Das outras vezes, ou estarei com uma palavra na cabeça ou abrirei o dicionário ao acaso. Sigo a linha artaudiana, abaixo a sintaxe, ou seja, não estarei muito preocupado com gramática, mas com os processos mentais que nos levam a formar palavras, portanto, que nos sirvam à comunicação verbal. A primeira palavra é a própria letra a, que os recursos de procura por computador recusam. A preposição encontra-se no dicionário de dificuldades, pois seu emprego é difícil, muito antes de portuguesólogos de plantão complicar a sua vida. A segunda palavra é aba. A palavra parece ser simples e, à primeira vista, não atino com o motivo de estar em um dicionário de dificuldades da língua. Permitam-me, neste inicio de procura, deixar de lado abá, que se descobre palavra nagô, significando o mais velho, com certeza usado no falar das senzalas, ou no dizer de Eduardo Araia, Cultos afro-brasileiros: candomblé e umbanda, de 1988, tendo o sentido de a autoridade paternal do terreiro de umbanda, podendo ser também a esperança de paz, de tranqüilidade espiritual ou de fim de um período deprovações. Não deixemos de registrar aba significando cabelo e aba apixaî, significando cabelo encrespado, como registrado por Ernesto Ferreira Franca, Chrestomathia da lingua brazilica, em 1859, ou seja, antologia do palavreado brasileiro. Repete-se, se foi colocado em uma antologia deste tipo é por ter tido algum uso por tempo prolongado. Do nagô, uma das principais línguas importadas pelo tráfico escravagista, registrado por Eduardo Fonseca Júnior, no Dicionário yorubá (nagô)–português, de 1983, a palavra significa empório, mercado, produto ou artigo principal do país, ou, incubação de ovos ou bactérias, natural ou artificialmente. Convenhamos que esteja mal explicado, pois quando escravos eram trazidos da África nos Navios Negreiros de Castro Alves não se falava em bactérias, apenas no que elas provocavam. Não aprofundemos, mas quem não reconhece em aba apixaî, o cabelo encrespado, pixaim? Daí, parece africano, mas pode não ser. Teodoro Sampaio registra, em 1914, O Tupi na geographia nacional, que a aba de origem indígena, tupi. podendo significar cabelo, pêlo, lã, gente, pessoa, homem, varão, o mesmo assentando a Revista do Museu Paulista, de 1895, acrescentando ser humano, o índio, o gênero masculino. Agenor Lopes de Oliveira, em 1957, dará estes significados, acrescentando feiticeiro, médico, sacerdote, pajé, sob o título de Toponímia Carioca, querendo isto dizer que aba foi falado, e talvez, com estes significados, conste de textos do Rio de Janeiro Antigo.

Segundo Laudelino de Oliveira Freire e J. L. de Campos. em Grande e novíssimo dicionário da língua portuguesa, de 1939, o significado é a parte pendente de certas peças do vestuário e a carne da costela inferior da rês, entre a mão e a perna, e que os veterinários de plantão localizem isto. António Martins Barata, Dicionário prático de locuções e expressões peculiares da língua portuguesa, de 1989, registra aba do mar, como o mar na praia, no litoral e a locução puxar pela aba da casaca de alguém, chamando disfarçadamente a sua atenção para algo. Simões da Fonseca, no Novo diccionario encyclopedico illustrado da lingua portugueza: vocabulos de 1926, dará o significado de extremidade, parte extrema de. Osmar Barbosa, no Grande dicionário de sinônimos e antônimos, não tem pão-duragem e nos dá os significados de beira, lado, margem, costa, riba; barra, beiral, borda, extremidade, falda, sopé, enconsta, vertente, amparo, proteção (viver às abas de alguém); arredores, cercanias, proximidades, vizinhanças.

Estamos à procura de um caminho, de uma verve que instrua uma série de textos que ressuscitem palavras já faladas e que não encontraram registro como Língua, ou palavras da Língua que caíram em desuso, assim, paremos por aqui a procura das abas da palavra aba.

Fiquemos, por enquanto, apenas com Antenor Nascentes, Dicionário etimológico resumido, em que aba é a parte pendente, anexa a alguma coisa, dando ao termo uma origem árabe. Não farei pesquisas que confirmem tudo que disser, mas até parece que a palavra veio à luz pelas mãos dos fabricantes de chapéu, e dali saiu, por analogia, para outros usos. Só que a criatividade andava em baixa entre os autores clássicos que cataloguei, a maior parte só fala aba de chapéu, alguns se referem a aba de fraque, aba da serra, tudo muito direto, sem exigir do leitor um mínimo de uso neuronal. Em O Garatuja, José de Alencar ousou escrever aba(s) 8 vezes, em de chapéu, da cidade, da mesa, mas pôs um belo cidade, ainda conchegada às abas do Outeiro de São Januário, registro que faz Osmar Barbosa em Grande dicionário de sinônimos e antônimos, de 2000, e, em as abas de baeta preta que desciam da mesa, quando é preciso pensar um pouco para saber que se trata de uma toalha de mesa, em que baeta é pano de lá felpudo. Só este significado já justifica a palavra aparecer em um dicionário de dificuldades da língua. Não encontrei um uso que me exigisse a atualização, na mente, de fímbria, ribanceira, como as abas do rio, por exemplo, e, à exceção dos dicionários citados, não há um uso africano ou indígena (tupi, guarani, ou outro).


Física quândica

Minha mãe me criou
apenas a aba do que me concebeu
e me sinto uma placenta viva
a vagar divagar,
pouco gozando as abas de teu ser
à procura infinita do meu.

Ah!
Só conheces as fímbrias
de minha alma,
e meu mar só tinge as areias
de tua alma.

Vem,
quero viver contigo
em uma fusão nuclear.

Quando?

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Atualizado em: Dom 8 Jun 2008

Comentários  

#9 Aline Pottier 21-08-2008 18:57
Oi Gilberto,
Como sempre adorei o que escreveu. Você se expressa de maneira divertida, inteligente e de muito bom gosto.
Um abraço da amiga,
Aline
#8 Aline Pottier 21-08-2008 18:57
Oi Gilberto,
Como sempre adorei o que escreveu. Você se expressa de maneira divertida, inteligente e de muito bom gosto.
Um abraço da amiga,
Aline
+5 #7 Aline Pottier 21-08-2008 18:57
Oi Gilberto,
Como sempre adorei o que escreveu. Você se expressa de maneira divertida, inteligente e de muito bom gosto.
Um abraço da amiga,
Aline
#6 guenia 19-07-2008 17:08
Gostei muito deste artigo.Sou do tempo em que se estudava verbos em todos os seus tempos, e que se perdia pontos até na falta de uma vírgula no lugar certo. Menção honrosa para o velho e bom dicionário, tão esquecido pelas "maiorias".
#5 guenia 19-07-2008 17:08
Gostei muito deste artigo.Sou do tempo em que se estudava verbos em todos os seus tempos, e que se perdia pontos até na falta de uma vírgula no lugar certo. Menção honrosa para o velho e bom dicionário, tão esquecido pelas "maiorias".
#4 guenia 19-07-2008 17:08
Gostei muito deste artigo.Sou do tempo em que se estudava verbos em todos os seus tempos, e que se perdia pontos até na falta de uma vírgula no lugar certo. Menção honrosa para o velho e bom dicionário, tão esquecido pelas "maiorias".
#3 Alfhonso 12-06-2008 08:41
Vivendo e aprendendo, parabéns obrigado por nos brindar com este artigo. :-)
#2 Alfhonso 12-06-2008 08:41
Vivendo e aprendendo, parabéns obrigado por nos brindar com este artigo. :-)
+5 #1 Alfhonso 12-06-2008 08:41
Vivendo e aprendendo, parabéns obrigado por nos brindar com este artigo. :-)

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