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A formação do preconceito

“O ser humano é socialmente construído por meio de interações e produto de discursos  cultural e historicamente contingentes.” BURR (1998).

Esse artigo visa colaborar com a discussão sobre alguns tipos de relutâncias que ocorrem na sociedade humana e que, por conta de choques ideológicos, perpetuam-se, discussão e preconceito, aquela de forma inócua, e esse, de forma inovadora, servindo de plataforma de eleições e criador de títulos acadêmicos, provocador da criação de substantivos que o nominam, mas que ajudam em sua identificação, como peneira coando água.

O motivo que nos levou a discorrer sobre esse tópico foi por entendermos que, embora seja o exemplo, o maior agente de transformação, a palavra, também tem peso, e é por ela que se dá o dom maior da existência humana, elemento mais importante na comunicação, mas também, forma enganosa, usada para deixar transparecer que algo está sendo feito, confundindo a sociedade e esquecendo que as palavras apenas movem, enquanto o exemplo arrasta.

Podemos também lembrar, que a palavra, por mais bem colocada, não expressa fielmente a situação, tal qual um recorte, uma foto. Quanto mais a usamos tentando elucidar um fato, mais possibilidades de entendimento criamos e, por vezes, nos distanciamos da realidade.

Talvez, isso seja porque pensamos e nos colocamos sob a égide dos costumes, do meio, da classe social... pelas convicções, além disso, todo parecer, alegação, declaração, manifestação, dá-se pela fala e não pela escuta.

Anterior ao conhecimento, a preconcepção está presente entre os diversos grupos sociais, transformando diferenças em desigualdades, dando forma aos muitos monstros que ocupam o interior humano, independentemente se pobre, rico, analfabeto, letrado, seja também qual for o grupo étnico, todos podem estar acomodando pensamentos discriminadores e excludentes.

O Jornal digital 2006, discorre sobre tipos de preconceitos/discriminação: “O preconceito não passa de um conceito que criamos antes de saber o que aquilo realmente é, onde, por esse falso conceito, muitas vezes maltratamos o próximo e nem pensamos nas consequências daquele ato”. https://jornaldigital2006.wordpress.com/tipos-de-preconceitos/ acesso 05/01/2024

A polissemia que cerca o substantivo, alvo dessa discussão, e as tentativas de explicá-lo, por vezes, não dão conta de expressar tamanha a abrangência do vocábulo, mas provocam, nessa incapacidade de produção, a abertura de campos semelhantes àqueles termos que reivindicam a paz causando guerra.

O preconceito cria agentes promotores de desconforto entre as categorias, e não somente entre humanos, visto que, se usarmos um simples exemplo como a questão dos animais de raça limpa e os denominados vira-latas, hoje tratados como SRD (sem raça definida), o nome da raça se sobressai à beleza e a resistência daqueles formados pela mistura, tal qual o povo brasileiro em sua maioria. É a diferença causando a desigualdade.

Conforme SANTOS, Doutor em Sociologia do Direito pela Universidade de Yale (1973) e Professor Catedrático Jubilado da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra: “Temos o direito de ser iguais quando a nossa diferença nos inferioriza; e temos o direito de ser diferentes quando a nossa igualdade nos descaracteriza. Daí a necessidade de uma igualdade que reconheça as diferenças e de uma diferença que não produza, alimente ou reproduza as desigualdades.” Boaventura de Souza Santos
 
O preconceito que presenciamos é resultado da inculcação proveniente ou remanescente do sentimento que moveu a tentativa de branqueamento e a desqualificação dos chamados pardos, nas primeiras décadas do século XX e final do século XIX. Nessa época, predominava os pensamentos voltados ao eurocentrismo, mas nos distanciaremos do objetivo se nos colocarmos na abordagem da questão racial, além disso, não faríamos jus à luta e sofrimento de todas as raças, como a dos indígenas brasileiros e a dos negros, certamente, ressaltaríamos a uma, em detrimento de outra.

O Prejulgamento e a maneira como vem sendo discutido, causam, sem sombra de dúvidas, um distanciamento entre o real e o ideal, pois esses, recheados de ideologias, são capazes de cegar e ensurdecer os seus defensores, e quando tratamos de promoção de igualdades, assistimos à eternização de discussões sobre demandas, às quais, só se resolvem, quando nos propomos a discuti-las despidos de nossas pseudo verdades, e assim aguçarmos o olhar em direção ao outro.

Uma questão interessante é o preconceito linguístico em um país como o Brasil, território povoado por diversas etnias, sejam elas referentes às nações indígenas ou em relação às muitas nações que colaboraram com a dita “civilização” territorial. Aceitamos que somos frutos do meio, influenciados, inculcados, mas, ainda nos espantamos quando ouvimos um oxente, uai, bichim e outros que nem sabemos como escrever, ainda mais, quando se ouve, além do sotaque, um mê (relacionado ao eme), rê (relacionado ao erre) e outros. Isso pode despertar em muitos a sensação de superioridade e aí, adeus entendimento.Conforme o escritor, professor, linguista e filósofo, autor do livro Preconceito linguístico (O que é, como se faz), Marcos Bagno, preconceito linguístico é: “todo juízo de valor negativo (de reprovação, de repulsa ou mesmo de desrespeito) às variedades linguísticas de menor prestígio social.” Então a polissemia passa a ser vítima da polifonia, a cultura perseguida pela aculturação, e instala-se um verdadeiro círculo vicioso. 

Essa questão, na forma abordada por esse artigo, se amplia no mundo socioeconômico, o qual, trata as expressões carregadas de regionalismos como a culturais, marginalizando seus portadores, prática, tanto daqueles que deduzem conhecer um livro pela capa, como dos senhores das letras que discriminam seus companheiros de profissão, até mesmo pela fama da faculdade onde foi formado. Daí, zás!! Damos à luz ao preconceito entre aqueles que deveriam combatê-lo, como os professores. Eis aí um grande exemplo e risco, pessoas com poder de comunicação lançam palavras, as palavras formam ideias e ideologias, às quais, para serem contraditas, só terão êxito se acrescidas de exemplos reais, pois palavras eternizam embates.

Esse promotor de discriminação, avança por campos extensos e fundamentais na vida humana, dá o poder a seus adeptos de criar opiniões sobre assuntos e pessoas, apenas por um olhar, uma fala, por saber qual classe social ou profissão, ao tempo que, desenvolve meios de exclusão entre pessoas, entre pessoas e serviços e aumenta a distância entre o eu e a autonomia.

Sabe-se, não haver ser autentico, por sermos forjados na polifonia cultural, étnica, entretanto, assim como o dito popular que diz “quem conta um conto aumenta um ponto”, também, cada indivíduo, voluntariamente e também de forma inconsciente, imprime sua marca na elaboração de formas de sofrimentos humanos.

É comum encontrarmos discursos que acedem às ideias do Professor Paulo Freire, o qual no livro Pedagogia da Autonomia (edição 55, 2017) propõe que, não há ser acabado, mas em sua evolução educacional o aprendiz ensina ao aprender, e ao ensinar também se aprende. Isso forma um círculo, e ao aceitar a possibilidade de detentores de conhecimento, quebra-se essa corrente, com isso promove-se a criação de Deuses temporários, insustentáveis e ideias ultrapassadas.

Na atualidade surgiram muitos adjetivos para melhor esclarecer ou identificar o preconceito, e percebe-se que, sempre estão ligados à condição racial, ao gênero, condição econômica, origem, expressão religiosa e deles surgem as nomenclaturas.

Conforme o site jornaldigital2006 no texto Preconceito /Discriminação:

Racial, ou Racismo é a tendência do pensamento, ou do modo de pensar em que se dá grande importância à noção da existência de raças humanas distintas e superiores umas às outras. 
Preconceito social é um juízo desfavorável em relação a vários objetos sociais, que podem ser pessoas, culturas.
Etnocentrismo é uma atitude na qual a visão ou avaliação de um grupo sempre seria baseada nos valores adotados pelo seu grupo, como referência, como padrão de valor.
Sexismo - Existem duas assunções diferentes sobre as quais se assenta o sexismo: Um sexo é superior ao outro
Machismo ou chauvinismo masculino é a crença de que os homens são superiores às mulheres.
Feminismo é uma expressão que hipoteticamente significaria um conjunto de ideias que considera a mulher superior ao homem, e que, portanto, deveria dominá-lo. Como um machismo às avessas.
Preconceito linguístico é uma forma de preconceito a determinadas variedades linguísticas.
Transfobia é a aversão a pessoas trans (transexuais, transgêneros, travestis) ou discriminação a estes.
Homofobia é um termo criado para expressar o ódio, aversão ou a discriminação de uma pessoa contra homossexuais, ou homossexualidade.
Heterossexismo é um termo que designa um pensamento segundo o qual todas as pessoas são heterossexuais até prova em contrário.
Xenofobia é o medo natural (fobia, aversão) que o ser humano normalmente tem ao que é diferente (para este indivíduo). 
Chauvinismo resulta de uma argumentação falsa ou paralógica, uma falácia de tipo etnocêntrico
Esteriótipo é a imagem preconcebida de determinada pessoa, coisa ou situação. 
A discriminação também é apresentada na bíblia quando cita a busca de Jesus Cristo por formar o conjunto de discípulos no livro de Matheus 9:9-13: “11 Alguns fariseus viram isso e perguntaram aos discípulos — Por que é que o mestre de vocês come com os cobradores de impostos e com outras pessoas de má fama?”

Levando em consideração que nascemos isentos de qualquer tipo de educação, e apenas providos de instintos, podemos depreender que não há nascidos preconceituosos, todavia, a sociedade é anterior ao indivíduo, como diz o sociólogo Émile Durkheim, quando cita o fato social, entretanto, essa mesma sociedade é também moldada e influenciada conforme a ação social citada por Max Weber.

Para Durkheim (1895), apud Juliana Bezerra, Bacharel e professora em história: “[...] o fato social é o conjunto de regras e tradições que estão no centro de uma sociedade. Assim, o fato social obriga o ser humano a se adaptar às regras sociais.” Enquanto o pensar da ação social de Weber (1922), ainda apud Bezerra “[...]só existe quando os indivíduos estabelecem relações comunicativas com outros da sociedade, ou seja, ela ocorre através das relações sociais.” https://www.todamateria.com.br/ 

Baseados nesses autores, podemos então depreender que somos ensinados a ser o que somos, até preconceituosos... Isto é corroborado pelo pensador John Locke, o qual, detalhando sobre sua Tese da Tábula Rasa (1690), expõe que o humano nasce isento de conhecimentos e tudo mais é adquirido pelas experiências com a sociedade, afirmação endossada, mas com um cunho mais ideológico, por Jean Jacques Rousseau (século XVIII), o qual afirma que o homem nasce bom, a sociedade é quem o corrompe.

Durkheim, Weber, Locke e Rousseau, cada um em seu tempo, mas todos voltados para afirmar que aprendemos uns com os outros, não nascemos assim ou assado, apenas nascemos. Conforme Durkheim (1895), apud Juliana Bezerra, Bacharel e professora em história:

 “[...] o fato social é o conjunto de regras e tradições que estão no centro de uma sociedade. Assim, o fato social obriga o ser humano a se adaptar às regras sociais.” Enquanto o pensar da ação social de Weber (1922), ainda apud Bezerra “[...]só existe quando os indivíduos estabelecem relações comunicativas com outros da sociedade, ou seja, ela ocorre através das relações sociais.” https://www.todamateria.com.br/ 

Diante de toda essa discussão, podemos inferir que ser preconceituoso, ou não, é opcional, mas nem tanto, se levarmos em consideração a imposição social da qual somos vítimas.

Jesus, na Bíblia, em um breve comentário sobre o que o povo, em geral, falava sobre ele, e ouvindo as respostas, diz aos discípulos: E vocês o que dizem? Aquelas pessoas, considerando a discussão entre os autores já citados no texto, também eram naquela época, fruto do meio, influenciados e influenciadores, mas, o que o mestre deles espera quando pergunta, e vocês o que dizem? Esperava uma resposta do senso comum, ou uma conclusão individual?

No século XVII, o matemático e filosofo René Descartes, buscando explicar a sua existência, cria a frase, “Cogito ergo sum” (penso logo existo), a qual ainda é muito usada no mundo acadêmico. Outro aforismo usado no meio acadêmico, “conhece-te a ti mesmo”, o qual, segundo historiadores, encontrava-se no pórtico de entrada do templo do deus Apolo, na cidade de Delfos, na Grécia, no século IV a.C. Estas máximas ressaltam a importância do conhecimento de si, a relevância do pensar por si próprio. Não podemos odiar por odiar, ou por consenso (odeio porque meu grupo odeia). A lei, antes de ir para o papel, deve estar escrita na consciência.
 
Entendamos a pertinência da reflexão sobre quem somos em nosso micro e macro mundo, e quiçá, a partir desse ato contemplativo de nossas ações e palavras, identificarmos o quanto atingimos os nossos pares com nossas taxas e influências particulares, daí, encontraremos argumentos para responder quem sou eu, você, nós, preconceituosos ou não?
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Atualizado em: Qui 1 Fev 2024

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