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O ventre do fracasso

Há uma certa raiva, há um certo ódio. Estão bem guardados, tá tudo lá no fundo, bem debaixo da carcaça. O fedor é forte. Impregna nas pequenas ações. É como uma tampa de privada que se levanta às vezes, expondo o que era pra ser jogado fora. O estrume de sentimentos, o fundo de um poço fundo, cheio de lodo e gosma. É feio. Dá pra jogar no ventilador e escatologizar o mundo.
Há sangue podre também. Sangue de machucados diversos, antigos, eternos. O coração pulsa e leva as impurezas pro resto do corpo, devia parar de pulsar de uma vez? Parar de sujar o que já está imundo. Doenças, feridas, verrugas, corizas, inflamações... todas parecem nada perto da sujeira que está debaixo do tapete vermelho. O som da bateria mais dura não se compara às batidas daquilo que se debate sem saber porquê.
Há uma angústia, um desgosto. Bem guardados? Acho que não. Talvez já esteja aparecendo. Já sinto o fel. Como um murro na boca que já sangrava antes. Como um machucado aberto, exposto a um mundo podre. Moscas já rondam. Abutres já vêm. Dá nojo, perco a fome, perco a vida. Perco o trabalho e todo o esforço que queria fazer um dia, se vão pelo esgoto.
Há um ócio, uma tristeza. Bem evidentes estes. Fétidos iguais. Cheira a mofo, dos piores. Cheira à pele queimada. A morte deve ser univitelina. Há uma dança descompassada, um ruído estridente. Há um tremor no queixo, um frio que sobe o corpo. Não há onde esquentar.
Há uma monotonia, uma repetição doentia de coisas que só causam dor. Estão explodindo. O pus está latente. A qualquer momento o asco virará realidade. Há uma ânsia, não quero segurar, quero por tudo pra fora. Dentro já não cabe mais, nunca coube. Fingia que sim. O corpo está mole, ficará duro mais cedo ou mais tarde. Não há forças.
Há pratos quebrados no chão e já já haverá mais, com certeza. Preciso quebrá-los. Há cacos dentro de mim que foram engolidos e deglutidos parcialmente, mas que ainda machucam meus órgãos, que ainda me rasgam por dentro. Meu cérebro pula, ferve, tenta sair, meu corpo não deixa. Ele está numa prisão. Os dois estão.
Há um dever a ser feito, há metas a cumprir. Não há meios. Presa no ventre que me deu à “vida”. Que ventre é esse? Há um sêmen espalhado, mau fecundado, mau querido. O sêmen é mais vivo que eu. Ele conseguiu atingir a meta. As partes que me formaram conseguiram formar algo sem forma. Algo sem jeito. Incrustado, esporrado, seco.
Crépida é a vida. Será a morte mais viva?
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Atualizado em: Qua 25 Jul 2018

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