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[Roteiros] CIGARROS

— Quanto tempo. Está me procurando... O que houve? O que quer?

— Com tédio. Estou querendo ir na praça. Aquele lugar sempre remete você, sei lá. Vou ir.

— Deve estar um deserto.

— Não me importo. Eu gosto da calmaria.

— Vai, chama alguém… Ou vai sozinho mesmo, pensar na vida. É gostoso.

— Está ocupada?

— São 23h40 e eu estou no busão… vou descer a serra… encontrar um pessoal e passar o feriado na praia.

— Espero que seja quente.

— Eu também, mas como essa madrugada pelo jeito vai ser gélida, já não tenho tanta esperança.

— Eu queria era um maço de cigarro. Mas não posso gastar.

— Vícios. Não há o que se fazer, a vontade vai te corroer até tragar.

— Fuma há quanto tempo? 2 anos?

— Menos.

— Hum. Quantos maços por dia?

— Não fumo todos os dias. Mas quando fumo mesmo, uns 4. Às vezes mais.

— 4 maços? Cacete.

— Não, 4 cigarros.

— Ah, menos mal. Eu acho. Meu pai fuma 3 maços por dia.

— Já não há uma parte do pulmão que salve.

— Acho um absurdo.

— Eu fumo com meu pai. Sempre quando vamos trocar um papo de vida, estamos fumando juntos.

— Eu sou asmática. O cheiro do cigarro me enoja e dá pigarro.

— Fresquinha.

— Não, sensata. Jamais gastaria grana com o que me destrói.

— Pode ser.

— Conselho: Nunca pare de fumar por alguém. As pessoas te abandonam, o câncer não.

— Essa frase não fez sentido

— Era para ser um humor pesado. Não é pra ter sentido.

— Ah tá, entendi.

— Fuma qual cigarro?

— Lucky Strike. Mas, com o tempo, me acostumei e passei a achar fraco. Passei a fumar Marlboro e não me satisfazia. Agora, Hollywood está suprindo as necessidades.

— Marlboro fraco??

— Sim, acredite.

— E o Ministér? Já fumou?

— Não.

— Sempre achei o Marlboro forte. Insuportável.

— O cheiro?

— A gente precisa conhecer o inimigo

— Você sempre odiou o cheiro, não vai dizer que começou a fumar…

— O cheiro, sim, é insuportável. E nāo, eu nāo fumo.

— Então não entendi.

— Eu nāo consumo o que me destrói. Okay? Apenas.

— Ingere açúcar?

— Infelizmente, sim. Mas, quando possível, evito. Nesse sentido, me destruo. Pouco a pouco. Lentamente. Mas, eu dou a ele esse poder. Ainda assim, estou no controle.

— Ninguém está. Então, é a mesma coisa.

— Não. Pois, os cigarros que fumam perto de mim, me degradam sem o meu querer. Inalo. Me faz mal e eu não posso evitar. É exterior ao meu querer. É bem diferente. Agora, se eu quiser fumar, okay… a escolha foi minha. Eu dando o poder a coisa que me faz mal. Eu e minha vontade. Eu decidindo por mim. Ainda assim, no controle, alteridade…. até se tornar um vício. Aí fode. Mas, coisa que de uma forma ou outra, foi fruto das minhas ações.

— Às vezes a gente faz coisas para suprir necessidades que nós mesmos fazemos ser necessárias, mesmo sabendo que tal coisa nos faz mal. Bebida, cigarro, entre outras coisas. É o que eu acho.

— Sim. Vício. Você descreveu o que acarreta. É muito metafísico isso. Concorda?

— Com o que disse? Sim.

— Vício. Dá para fazer uma puta comparação ou intersecção com as pessoas.

— E ao que disse lá em cima sobre câncer. Cigarro causa sim câncer, mas não como dizem.

— Muita coisa causa câncer.

— Sim, mas demora muito, em alguns pode ser em algumas dezenas de tragas, mas em outros pode nunca nem acontecer.

— Sim. Como quem nunca tragou pode desenvolver.

— Sim.

— Porém, é evidente que quem é fumante está mais propenso. Seja ele passivo ou ativo.

— Uma série de coisas que ingerimos, assim como vários temperos, causa câncer. E ninguém liga pra isso.

— Cara, agrotóxico. Uma centena de coisas.

— Eu não ligo pra nada disso, tô foda-se. E não quero me importar ou me preocupar.

— Você diz estar “foda-se” para uma série de coisas. A questão é: Até onde isso é verdade? Já se questionou se diz isso a si mesmo apenas na tentativa de se auto convencer? Dizendo alto e em bom tom?

— Nunca me perguntei. Mas não acho que seja.

— Hum. É, pode ser. Ou simplesmente nunca se questionou.

— A questão é que mesmo sabendo que é errado. A gente costuma, eu costumo, me apegar aos vícios e eles me controlam. Passo a agir por eles a ponto de fazer qualquer coisa para suprir meu desejo.

— As vezes a gente deseja o que destrói e isso é duro de aceitar e lidar.

— Concordo.

— Isso explica muito sobre nós.

— Eu sei… Eu sou a merda do cigarro não é?

— Sim. E eu tô tentando parar de fumar.

— E hoje um alguém te encarou e acendeu a porra de um cigarro na sua frente.

— Exatamente. Justamente enquanto estou lidando com a abstinência.

— A merda da abstinência.

— Ela é sufocante porque os segundos correm e só o desejo com mais veracidade.

— Ainda que cada trago seja intenso, pouco a pouco tudo se desfecha em cinzas.

— Você sabe, você vê.

— Não importa o quanto eu queira…

— Eu sou nocivo.

— Não pode continuar a me dar o poder de destruir você.

— Eu dei o poder e luto para tomar ele. Já havia se tornado um vício.

— Tenho sede do seu trago.

— Dizer isso não me ajuda.

— Desejo você para cacete a ponto de ser egoísta, te querer só para mim. É forte a ponto de te fazer mal. Eu sou a merda de um nocivo. E você tem a porra de um vício. Me desculpa.

— Eu queimo em intensidade e incendeio ao queimar o cigarro.

— E é nesse momento em que me tem nas mãos. E eu me desfaço. Momento que sou teu. Momento que você, pelo prazer, me dá o poder.

— Eu detesto você por tudo isso. E detesto ainda mais a mim.

— Tudo poderia ser suave. Mas, como você falou, o controle só existe enquanto não há o vício.

— Sim.

— São pequenos esforços diários...

— Eu sei. E hoje, eu não vou tomar minha dose de você.

— (…).


Janaina Couto ©
[Publicado — 2019]

@janacoutoj

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Atualizado em: Dom 28 Jun 2020

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