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TAPA COM LUVA DE PELICA

Pagaria qualquer coisa agora só para ver a cara do autor Tiago Santiago, afinal de contas, do alto de sua arrogância, em meados de agosto de 2008, quando a novela "A Favorita" passou pelo seu primeiro revés, ele não mediu palavras, dizendo a todos os órgãos da mídia nacional: "Quero ver como João Emanuel Carneiro, o autor de A Favorita, segurará a novela, se o principal mistério (Quem matou Marcelo?) está sendo revelado com a história ainda nos seus dois primeiros meses".

Sua ironia foi um balde de água fria na cabeça do então jovem escritor, alçado ao horário nobre da Rede Globo devido ao sucesso de suas duas outrora produções no horário das sete ("Cobras e Lagartos" e "Da cor do pecado") . Lembro-me bem, João não se manifestou, enquanto Tiago, por meio dos recursos das "Organizações Universais", zombou de tudo e de todos, dizendo até que os "Mutantes - Caminhos do Coração", de sua autoria e veiculada na emissora rival, daria uma "ajudinha" para afundar ainda mais rápido o que ele taxou de "A Renegada".

E o mais interessante é que os "Mutantes" ajudaram mesmo. O clima inicial da trama recordiana, com suas histórias mirabolantes, atores canastrões e efeitos de quinta, só utilizados pelos estúdios de qualidade duvidosa de Hollywood, perdeu fôlego e o público mudou de canal para sintonizar a trama global. Tiago subestimou a criatividade de João, o discípulo-mor de Sílvio de Abreu (TV) - aquele que transformou o fracasso "Rainha da Sucata", telenovela das 20h do início dos anos 1990, num dos maiores fenômenos de exportação da Vênus Platinada - ao não acreditar que ele daria a volta por cima e transformaria sua trama numa das mais comentadas dos últimos anos.

Não há quem não curtisse as maldades provocadas por Flora, a protagonista nefasta vivida pela estonteante Patrícia Pillar. Que papel o dela! As maldades de Odete Roitman, a personagem maquiavélica de "Vale Tudo", de 1988, eram fichinhas perto das praticadas pela ex-detenta. É claro, todo esse sucesso é atribuído também à escolha da respectiva atriz para o papel de vilã (e olhe que há quem dissesse, no Projac, que Pillar não estava à altura de uma protagonista de novela das 20h. Imagine, então, se ela estivesse!) O mesmo aconteceu com a Donatela, de Cláudia Raia. Acostumada a papéis cômicos, Raia saiu-se bem como a garota de costumes bregas que é perseguida pela irmã de criação. Mas, com toda a franqueza, não havia quem ofuscasse os olhares ora impiedosos, ora satíricos de Pillar. Sua composição cênica era de uma maestria singular. Da mesma forma que assassinava, conquistava corações alheios com seu modo doce de falar.

E o mais interessante, Flora pisava em quem quer que fosse para alcançar seus objetivos, fazendo questão de dizer a todos que ela era a vilã, ainda que isso soasse à loucura. Mérito de Pillar, que se consagrou como a melhor atriz do ano ao ser condecorada com o prêmio da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA), um dos mais importantes do segmento. Ponto também para Ary Fontoura, o Silveirinha, que do alto de sua humildade, permitiu ser a escaleta para o sucesso de Pillar. Sem ele, o clima de mistério enveredado pela trama se esvairia. A novela termina como sendo um dos maiores sucessos do horário, permanecendo para sempre na memória dos principais manuais da teledramaturgia nacional, assim como Flora e sua intérprete.

Tiago pagou pelo que escreveu ao menosprezar o talento daquele a quem coube levar o roteiro de "Central do Brasil" à indicação ao Oscar. E o pior, agora é a sua própria habilidade autoral que está em xeque, afinal, a Record pensa em cancelar a já anunciada 3ª temporada do clone dos "X-men nacionais", uma vez que a tal audiência não anda lá essas coisas. Vale aí o ditado: "Não cuspa para cima para não cair na testa".
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Atualizado em: Ter 20 Jan 2009

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