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[Roteiros] ÚLTIMA HORA

17h50

- Vai fazer o que hoje a noite?

- Sair com uma amiga.


22h13

- Oi. Vem aqui. Esse vestido está incrível, você fica bem de salmão.


23h55

- Aqui onde?

- Deixa pra lá. Demorou muito para me responder. Sei que ficou me ignorando.

- Como assim?

- Nada.

- Estava no recanto?

- Sim.

- Eu também. Você não havia saído?

- Saí.

- Estava em que lugar? Não o vi.

- Você foi sozinha?

- Não.

- Por que não falou que ia? Foi com quem?

- Não importa. Sabe, eu não tinha planos para essa noite, cogitei te chamar para fazermos algo… Mas, você disse que ia sair. Acabei indo naquele Café e, de última hora, decidi ir na praça, jogar conversa fora com o meu primeiro amigo.

- Ah entendo… Poderia ter me chamado, eu iria. Mas, você já estava com alguém… então, de qualquer jeito, acredito que não me cabia.

- Não o chamei porque você saiu com a sua amiga. E, aliás, fui ao Café sozinha, não estava com ele. Somente quando eu já estava lá o chamei de última-hora e ele apareceu.

- Você pode sair agora?

- Eu acabei de entrar em casa. Poder, eu posso. Why?

- Ah sei lá, 00h00. Está afim de voltar lá?

- Por que? Queria me ver?

- Claro. Vou embora amanhã e nem vi você ainda. Aliás, escrevi algo e queria sua opinião.

- Hum, sei.

- Podemos nos encontrar no lugar de sempre. Você sabe, estou do lado, atravesso a rua e em um minuto…

- Exato, você está do lado. Eu, não. Infelizmente, como sempre foi, é um risco uma mulher estar na rua sozinha esse horário. E é um imenso pesar me privar.

- Esse bairro é morto… E eu te levo de volta. Não há o que temer.

- Poderia ter me chamado mais cedo. Não acha?

- Verdade.

- Pois é. Está aqui desde quando? Chegou antes do natal, não foi?

- Sim. Estava com planos de ir embora dia 26. Mas, acabei ficando para o reveillon.

- Eu lembro, você disse. Estávamos combinando de se ver, mas, não aconteceu. Uma pena.

- É, eu sei…

- Teve dias consideráveis para me chamar pra sair, não é?

- Até que sim. Olha, já entendi. Boa noite, irei dormir.

- É difícil quando sempre se é a opção de última hora.

- Não vai ser mais assim…

- Ah, mas não vai mesmo. Só você que, pelo visto, ainda não havia percebido.

- Como assim?

- São raras as vezes que saí de última hora para te ver. Pois, não se trata de uma eventualidade (hipótese que eu faria o impossível para ir). Mas, é o de costume e isso não me atrai nem um pouco.

- Eu entendo. Juro que entendo. Estou consciente disso…

- Ótimo. Ao menos, vai reconhecer essa atitude com as outras mulheres ou garotas sem que elas precisem falar.

- Sim. Você é surreal.

- Isso que eu faço… Não te incomoda?

- Você faz tantas coisas… sempre me surpreende. Tanto que vê tudo diferente e às vezes vê até demais, muitas vezes vê algo que eu sequer havia me dado conta. Você é o furacão que me assusta. Então, se refere exatamente a o que?

- Isso de eu sempre falar o que me desagrada sem me importar como você vai se sentir após eu escancarar, e entre outras coisas. Ser sem filtros. “Jogar na cara”. Faço bastante contigo…

- Não incomoda, eu gosto. Você sabe exatamente o que incomoda.

- Apenas aquilo? Nada mais?

- Não somente, mas também…

- Hum. Então, aponta uma outra coisa. Diga algo sobre mim para eu reconhecer, algo que acha que eu não perceba sobre mim mesma, seja lá o que for.

- Não tenho nada negativo em mente agora.

- É um bom sinal. Talvez seja porque evito fazer com os outros o que não quero para mim. Ainda que isso sofra exceções, óbvio.

- Já percebi isso. Já percebi que também não se incomodaria se qualquer pessoa jogasse “n” coisas na sua cara, desde que fossem todas verdades.

- Exatamente.

- E se você realmente fizesse algo absurdo? Ainda assim não se incomodaria com os rumores?

- Na ridícula hipótese de eu ser digna de qualquer “absurdo” que proferirem sobre mim, eu sou mulher o suficiente para “mastigar e engolir”, bem como para aceitar quando erro. Me conheço de tal forma a ponto de me conformar em “levar na cara” pelas consequências dos meus erros. Não me importaria se me julgassem por algo que realmente sou ou fiz. Mas, não admito ser rotulada por algo que não sou ou não fiz. Na ocasião, iria me ferir e com motivo.

- Diz isso porque nunca vivenciou algo assim. Você se faz praticamente uma anônima e se orgulha disso… não sei como conseguiu.

- A ideia de anonimato me agrada. “Muitos me vêem, mas poucos me conhecem”, eu gosto. Bom, muitas vezes a verdade é dura de se aceitar. É difícil. Corta. Precisamos estar preparados.

- Eu sei. Experimento isso com você.

- Absorve algo? Se não, o que faço é ridiculamente em vão. E isso é lamentável.

- O que acha?

- Que não. Que o que eu faço é um perda de tempo.

- Está enganada. Me importo na hora, me martirizo, mas depois esqueço. De qualquer modo, você sempre surge com uma coisa nova para me fazer questionar infindas coisas.

- É perceptível…

- Se acha que perde o seu tempo, por qual razão insiste?

- Francamente, não sei.

- Assume que esse meu jeito te enlouquece.

- Realmente enlouquece, não vejo sentido em você, em muitas coisas, falas, jeitos e posicionamentos. Vejo muito cinismo e contradição.

- Eu também vejo contradição… em você.

- Como assim?

- Se só vê coisas negativas em mim, porque permanece aqui?

- Não vejo somente elas, porém, aparecem muito quando estás frente a mim… quando me envolvem, não exito em escancará-las.

- Você sempre sai por cima, inacreditável.

- E o que você vê em mim, afinal?

- Um universo de qualidades.

- (…).

- Está sem palavras, não é? É assim que você me deixa a maior parte do tempo. Não é só quando te vejo… mas, diante de muitas falas também.

- E mais uma vez você caí em contradição.

- Porque?

- Como pode um “universo de qualidades” ser a opção de última-hora quando sequer deveriam existir “opções”?

- (…).


Janaina Couto ©
Publicado — 2020

@janacoutoj

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Atualizado em: Dom 28 Jun 2020

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