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O "Che" de cada um.

Assisti a um documentário no Festival do Rio de 2007, que se chamava "Personal Che". A princípio não entendi bem o título, ainda que o resumo publicado no jornal se referisse ao filme como abordando a "lenda" Che Guevara ao redor do mundo. No entanto, este nome me remetia a algo como um Che para cada um no sentido mercadológico, mais ou menos como um "personal-trainer" ou um "personal-stylist", algo para se impor no mundo contemporâneo em termos de efeito de realização estética, uma aproximação nada convencional da idéia que eu tinha de Che, o "nosso" herói sul-americano de juventude, valente, rebelde, idealista, altruísta, que no fim é acossado, injustiçado, embora não tenha jamais se calado, como demonstra todo o nosso saudosismo ao redor do tema e as imagens relacionadas a ele que contribuem para a idealização... Um dos diretores, o brasileiro Douglas Duarte, rapaz simpático, nada pretensioso - e, como vi depois, talentoso - falou antes do filme começar, agradecendo a alguns membros de sua equipe técnica e a platéia pelo comparecimento. Pelo clima descontraído, também deu para notar que esta se compunha por uma considerável parte de amigos seus, todos empenhados e divertindo-se na tarefa de prestigiá-lo, o que é esperado. A surpresa e o encantamento com o que aconteceu naquela projeção é que foi totalmente inesperada e digna de nota aqui...

Logo no começo, pelos depoimentos dos habitantes de la Higuera, na Bolívia, a cidade onde Che morreu, vê-se confirmada a imagem que temos dele, quase santificado naquele lugar: um idealista, herói, amante da América latina e dos valores de liberdade, justiça e igualdade. Lá ele é tido por santo milagreiro, com direito a altares com fotos em várias casas, pedidos, orações e uma enorme estátua que virou ponto turístico da remota vilazinha do interior, juntamente com o local onde foi colocado seu corpo após a execução, para fotografias que comprovassem ao mundo o desaparecimento do mito e que eternizaram um guerrilheiro mártir, como um crucificado que espera seu sudário para ser enterrado e ressuscitar... Encontram-se agradecimentos, pedidos e mensagens escritos em toda a parte, a exemplo dos lugares santificados que temos muitos no Brasil, com os seus ex-votos. Porém, o surpreendente do filme é que aos poucos, essa primeira imagem "cristã", vai dando lugar a outras, nem sempre as convencionais: comercial, política, ideológica, histórica, literária, idólatra... Há os biógrafos intelectualizados, que falam sobre a idealização do personagem, pontuando que tal se deve, em grande parte, ao carisma de Che e à sua beleza quase arquetípica, de fortes traços masculinos numa expressão de coragem e num ideal de pureza. Há o obsessivo colecionador, um inocente salvadorenho que vive de biscates e gasta o pouco que ganha em aumentar a sua coleção, numa megalomania que sonha em criar o maior acervo de quinquilharias "Che Guevara" já reunido num museu. Há o membro do parlamento de Hong Kong que faz propaganda justamente contra o governo comunista, conclamando seus representados para manifestações e pronunciando-se nas sessões parlamentares com uma camisa que ostenta a mais popular foto de Che. Há a peça musical libanesa, que retrata a vida de Che, com direito a Fidel e outros guerrilheiros de uniforme verde e boné em plena Beirute, e cujo protagonista, que se disfarça de barba e farda, para se identificar totalmente com líder, a despeito do proeminente nariz semita, confessa ter sempre admirado o personagem. Para comprovar, não hesita em compará-lo ao califa omíada que iniciou a expansão árabe medieval e representa o que foi outrora a supremacia de um povo que realmente perdeu, não diria "o bonde", mas a "caravana da história" e, passados mais de mil anos, ainda não se conformou... Há o artista plástico americano que a partir da famosa foto de Che mostra as diversas variações sobre o tema, até mesmo a de um "Che Gay" e entrevista pelas ruas um desiludido desempregado, com passagens pela justiça que ajudou a pintar um mural em que Che aparece com o dedo apontado, como que inquirindo todos os infelizes moradores daquele bairro pobre a reagirem contra o imperialismo que os atraiu para o país do consumo e da riqueza e a realizarem o ideal revolucionário latino-americano ...Há os jovens neonazistas alemães, que vestem a camisa de Che e o comparam a um Hitler injustiçado, um verdadeiro visionário, um revolucionário que amava seu povo acima de tudo e queria defender sua terra contra a dominação estrangeira...

E foi mais ou menos nessa parte do filme, se bem me lembro, que um espectador que até então devia estar acumulando sua indignação, se levantou, explodiu e xingou o filme e o diretor, mandando todos, inclusive a platéia, que a esta altura já o estava vaiando, a "tomarem" naquele lugar, finalizando com um "o Che não era isso!", e saindo furioso. Passado o susto inicial e a vontade de rir, pelo inusitado da situação, eu me dei conta de que se reproduzira ali, sem câmara nem iluminação, a partir do puro elemento surpresa, mais um, poderíamos chamar, "depoimento" do filme. Só que esse era inesperado, ao vivo, até mesmo "teatral", se não fosse tão real... Não só a exasperação do revoltado espectador, mas também a defesa apaixonada da platéia que, por amizade ao diretor ou não, também mostrou-se indignada com as ofensas à obra que estava apreciando, manifestando-se então com vaias e exortações para que o sujeito se calasse.

E então, percebi a provocação daquele filme que me deliciava a cada nova revelação. O "personal" Che, imortalizado no seu Gólgota boliviano, com os olhos abertos num corpo inerte, cuja fotografia o filme mostra pela primeira vez revelada a um ardente fã cubano que mobiliza toda a família na sua idolatria, a ponto de ter dado ao filho o nome Ernesto e que, não fossem os cineastas, continuaria sem vê-la, cuidadosamente que foi todos esses anos escondida pelo regime de Fidel; aparecia, então, justificado, santificado e coroado na frase de decepção daquele companheiro de platéia mais atrevido. Fosse ele um pouco mais paciente, e assistiria, em seguida, a uma discussão numa rua norte-americana entre o fanático rapaz salvadorenho e idosos cubanos exilados por Fidel e contemporâneos de Che, que sofreram as violências da Revolução cubana e que manifestavam seu desapontamento com o fato de um estrangeiro, que nem mesmo vivera em sua época, defender "um assassino no país dos outros". Talvez até mesmo risse quando uma passante, fiel defensora da democracia norte-americana, entra na discussão e acaba ouvindo um "você deve ter sido enviada por Fidel!" Talvez até mesmo vaiasse o truculento ex-agente da CIA que participou da execução de Che e vangloriava-se de tê-lo feito, filmado embaixo de condecorações e fotos de homenagens com Bush (pai), alegando que o guerrilheiro era um assassino sanguinário e tirano, que usava o argumento de liberdade para levar o terror às populações miseráveis, esquecendo-se dos feitos de seus conterrâneos e companheiros na ativa no Iraque...

Mas sem dúvida, aquele espectador em algum momento compreenderia o que eu compreendi plenamente com a ajuda do seu manifesto: que o Che que cada um carrega na mente e no coração - e por incrível que pareça, pelo mundo afora! - é, sem dúvida, pessoal. Ainda que estereotipados, polarizados em imagens idealizadas, o "Che" dele, o meu "Che", os vários "Che", não mudaram nem foram destruídos com aquele filme. Ele apenas revela de forma simples, honesta e divertida o quanto nosso mundo cria e multiplica imagens subjetivas que se perpetuam através dos tempos, da história, ou da falta de história. Mas acredito, - e agora quem fala é o "meu Che" - que, julgando-as inebriarem a consciência do povo, Che realmente acreditasse ser capaz de modificar e derrotar de uma vez essas "falsas imagens". Que tenha sido em nome de uma causa, em nome do amor que nutria pelas pessoas, ou até mesmo em nome de uma vaidade ou necessidade de poder, foi acima de tudo, aquilo que o fez lutar até a morte, independente das muitas imagens contraditórias que deixou.
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Atualizado em: Seg 19 Jan 2009

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