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DE PASSAGEM

Quando o inverno chegar,

Eu quero estar junto a ti,

Pode o Outono voltar,

Que eu quero estar junto a ti.

Por que é primavera...

 

É fato, não tem jeito, a infância um dia acaba. Se você tiver sorte, mas muita sorte mesmo, o inverno vai chegar e você terá alguém junto a ti.

De preferência um amigo, alguém que te entenda, que rompa e reconcilie os seus conceitos de verdade absoluta. Alguém que te faça lembrar o passado, lhe dando a oportunidade de consertá-lo não no mundo, porque “o que passou, passou” mas no coração, onde o tempo não existe.

Um amigo, se tiver sorte, dois, se você for uma pessoa iluminada. Espero que no inverno da velhice, você tenha a benção de amizades plantadas no frescor da infância, onde era primavera!

O nome do filme é DE PASSAGEM, direção de Ricardo Elias e roteiro de Cláudio Yosida e Ricardo Elias. O filme é uma poesia, todos os seus elementos são detalhadamente pensados para dar coerência a poesia que se pretendeu construir.

Sabe-se que um roteiro não precisa ser, em regra, uma descrição exata da realidade, na verdade, a realidade nem precisa estar presente. O importante é manter a coerência das primícias do olhar, ou seja, captar uma impressão e desenvolve-la sem fugir do foco. De Passagem faz isso! O primeiro olhar do roteiro não foi o do lugar comum. Não foi o olhar do noticiário dizendo “cresce as estatísticas de violência no bairro de ....”, nem o ponto de vista áspero do “RAP SOU VERDADE” do grupo tal..., o olhar do roteiro, foi primeiramente uma Poesia.

Mas do que trata esse nosso poema? Se somarmos o título do filme com a cena de abertura, teremos nossa primeira revelação. Título, De passagem, três garotos aparecem em um morro, dois estão jogando bola. De fundo a imagem de casinhas amontoadas, típicas da periferia de São Paulo, o terceiro garoto, canta de maneira profunda “Primavera” de Tim Maia. A maioria pode pensar: “Uma cena bonita, com uma música bonita...e daí?”. E daí que não é apenas uma linda fotografia, que aliás vai percorrer o filme inteiro. O trecho da canção, que já descrevi acima não trata de juras de amor, neste caso, ele é uma promessa, o garoto promete que quando o inverno chegar (a velhice) ele quer estar junto aos amigos, que mesmo com os problemas (o outono) eles estarão juntos. O garoto é inocente e promete tudo isso com o coração puro, de quem acredita que é possível manter esta resolução. Acredita por um motivo simples, é primavera, ou seja, eles são crianças e estão na infância, mas o título avisa, estão ali de passagem.

Olhando por este ângulo, o filme inteiro ganha outra dimensão. Existem momentos na vida em que as coisas começam a mudar, são momentos transitórios, que dificilmente se sabe quando começam ou terminam. O filme tenta captar, e consegue, um desses momentos na vida dessas três crianças, Jefferson (Glennis Rafael da Silva) e Washington (Louhan Brandão) que são irmãos e Kennedy (Paulo Igor). O momento é o começo do fim da infância.

Mas tudo que vimos até agora é uma ilusão, ou melhor, uma lembrança. O filme ocorre no tempo presente, no qual todas estas coisas já aconteceram, e a primavera já passou. Na fase adulta, só restaram Jefferson (Silvio Guindame) e Kennedy (Fabio Neppo), Washington morreu. Jefferson estudou no Colégio Militar, se separando do irmão e do amigo que continuaram no bairro. A escola militar, não foi só uma opção, foi uma fuga. Nela Jefferson só precisava seguir as regras e tudo acabaria bem, é um mundo controlado e difícil, porém como ele mesmo assume no filme, mais fácil do que o que ele deixou pra trás.

Kennedy e Washington ficaram. Com eles ficou a parte difícil, as escolhas.

Uma delas, levou os dois para a Febem. O mundo das drogas...

Para, corta! O filme não trata disso! Nem da Febem, nem do racismo, nem das drogas, nem do emprego infantil. Nada disso! O filme é poético e trata da necessidade de crescer!

Os outros temas aparecem durante o filme como coisas que existem e devem ser mostradas, porém, a lente do Diretor não deixa que eles contaminem a poesia, o que dá ao filme uma credibilidade enquanto cinema autêntico, fugindo da necessidade quase que patética de fazer uma crítica social. De Passagem, não faz críticas, deixa isso para os técnicos. Prefere contar uma história que encontra legitimidade na sensibilidade de quem assiste.

Falando em técnica, que não é minha praia, é possível dar créditos extras para a preparação dos atores feita por Gabriela Rabelo, principalmente no que diz respeito às crianças. Os pequeninos dão um show!

Não por que são atores excepcionais, porque não o são, mas por conseguirem criar um clima que possibilita para quem assiste acreditar que aquele universo existe. A relação entre eles, incluindo as disputas, é de uma harmonia infantil.

Pulamos para o presente e encontramos Silvio Guindame e Fabio Neppo com uma coerência interpretativa pouco vista. Ambos, além de se parecerem com seus pares na infância, dão forma e gestos aos personagens, que te fazem crer que são as mesmas pessoas só que crescidas. Porém há um detalhe! Nestas interpretações, encontramos outra revelação da poesia do filme: A relação de Jefferson e Kennedy, mesmo adulto, segue de forma infantil até o momento da perda desta condição. Jefferson trata Kennedy de maneira dura, impositiva e as vezes até cruel, mas é uma relação de infância, tanto que os dois discutem e voltam às boas sem o rancor costumeiro dos adultos.

O filme tem duas fases: A infância e a fase adulta, A Primavera e o Inverno.

Boa parte deste texto foi direcionada para elogiar o filme como um todo, por que tudo é coerente, foto, arte, figurino, tudo combina. Os papéis coadjuvantes são feitos por atores, que emprestam ao filme o toque de verossimilhança necessário, com destaque para Luiz Amorim, sempre bom. Todavia, o grande elogio, ao meu ver, esta na trilha sonora de André Abujanra, que já provou ser um dos grandes nesta área.

A cena de abertura, nos apresenta um fator que seguirá durante todo o filme, a música! Durante toda a primavera do filme, temos uma trilha infantil que transpassa as relações e, detalhe, as crianças cantam. Elas estão sempre cantarolando algo, mostrando um fato típico da infância, existe música e ela é inocente.

Já na segunda fase, que tem início com o incidente do trem, no qual um policial morre, a trilha sonora muda radicalmente, mostrando melodias duras e tensas, qualidades típicas da vida adulta. Daí para frente as crianças não cantam mais, elas precisam crescer. Mais uma prova de que o filme é essencialmente poético.

No final do filme, ensaia-se uma reconciliação. Há uma possibilidade dos três amigos se reencontrarem. Será passível cumprir a resolução cantada no início do filme, ficarem juntos quando o inverno chegar?

A música final dá a resposta:

Eu sou só

Estou só

Só serei seu se for só.....

 

Não há reconciliação, não há volta para a infância que ficou pra trás, o que existe é o aprendizado e o crescimento. Um amigo, se tiver sorte, dois, se você for uma pessoa iluminada. Da infância, só boas lembranças e uma canção antiga:

Eu sou nuvem PASASAGEIRA

Que com o tempo se vai.........

A infância á uma nuvem que tá DE PASSAGEM.

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Atualizado em: Qui 4 Mar 2010

Comentários  

#1 tania_martins 15-03-2010 23:59
Parabéns!

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