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DORALICE - Ação, coragem, paixão

            (ROMANCE  197 PÁGINAS AUTOR JOGON SANTOS  EDITORA AUTOGRAFIA)


                                                                        APRESENTAÇÃO


Ao contar a história de Doralice, uma mulher linda, guerreira e bondosa como poucas, o autor mostra como o medo pode influenciar a formação de uma criança e suas futuras ações e reações na vida adulta. Muitas vezes o mais, sublime e importante entre os sentimentos que nos são comuns, o amor pode não conseguir se manifestar em sua plenitude, bloqueado em nossa mente por experiências desagradáveis, vistas ou vivenciadas durante a infância. Quando o consegue pode ser também de modo extremo, fazendo com que nosso orgulho nos coloque acima do amor que sentimos atendendo ao nosso amor próprio e nos levando a perder a capacidade de perdoar e até ao desejo de vingança.
Este é um romance que convida à reflexão sobre o comportamento das pessoas no passado quando a falsa moral predominava, mas que nunca deixará de ser atual em sua essência, pois ainda que o ser humano consiga sobreviver por séculos, jamais se libertará de seu instinto e de seus temores.

Jogon Santos

 

                                                                                   OLHOS VERDES

                                                                                                              (um dos capítulos)

 

        Doralice formou-se enfermeira. Vestia-se como mulher obrigada pela profissão, mas não assumia nem dava vazão ao desejo que lhe queimava no peito e que também a amedrontava. Não deixava de admirar a beleza dos homens e sentia-se atraída por eles, mas imaginava que a natureza talvez lhe negasse o direito de ser feliz e completa como mulher, pois não se sentia capaz de amar alguém em especial. Permanecia nela um bloqueio a qualquer manifestação que o clamor do sexo fizesse brotar e nunca soubera verdadeiramente o que era um orgasmo. Algumas vezes, quando só, tentava provocá-lo, mas nunca chegava ao clímax e acabava frustrada, triste e perdida na busca de sua verdadeira identidade como mulher. Dedicava-se a cuidar dos pacientes internados no hospital público onde fora admitida, com carinho e piedade. Dirigia a eles o imenso amor que carregava dentro de si, sofrendo com suas dores e alegrando-se com suas melhoras.

        Era muito querida pelos médicos e colegas do hospital, que nunca poderiam imaginar que aquele lindo anjo vestido de mulher era na verdade uma infeliz criatura que travava uma batalha contra si mesma e que, apesar de muito cortejada, não se interessava por homem algum. Consternava-se por ser assim e não conseguir amar e ser feliz.

        Naqueles anos, os hospitais públicos não dispunham de muitos recursos. A medicina era bastante limitada para tratar e curar as enfermidades e os óbitos ocorriam muitas vezes por motivos que no futuro seriam facilmente evitados, não só por novos medicamentos, mas também com ajuda da logística de apoio com a invenção de variados tipos de aparelhos e exames que facilitariam diagnósticos.

        Aproximava-se um carnaval, que prometia ser de muito trabalho para Doralice. Como sempre durante esse evento, a previsão era de muitos acidentes e brigas. As emergências dos poucos hospitais viviam lotadas.

        A jovem e dedicada enfermeira nunca poderia imaginar o que o destino lhe reservaria naquele seu plantão de domingo.

        Um jovem ensanguentado era conduzido em uma maca à enfermaria. Mal se podia ver seu rosto, coberto pelo sangue que escorria da cabeça. Ele havia sido empurrado do bonde em movimento durante uma briga entre os inúmeros jovens que brincavam seu carnaval batucando e quebrando o veículo. Fato muito comum nos dias de carnaval, quando turmas rivais se encontravam nos vagões.

        O rapaz já estava em coma e foi levado para o que depois viria a ser chamado CTI, mas que na época era apenas a emergência superior, onde eram atendidos e internados os pacientes mais graves e de onde em geral saíam para o cemitério. Apesar da dedicação dos médicos, os recursos eram poucos e nos casos mais graves só se sobrevivia por milagre.

        Doralice era uma das enfermeiras que servia essa ala e coube a ela cuidar do jovem recém-chegado ajudando os médicos nos primeiros socorros. O rapaz havia sofrido grande traumatismo crânio encefálico, além de várias escoriações. Limparam o sangue empapado em seu cabelo louro e rasparam sua cabeça, mostrando o enorme talho desenhado em forma de raio pela queda para que os médicos pudessem suturá-lo após a cirurgia a que precisaria se submeter. O trauma talvez houvesse afetado seu cérebro, mas isso não foi confirmado depois do minucioso, mas insuficiente, exame pelo qual passara. Suas chances de sobreviver eram mínimas, pensavam os médicos, e se o conseguisse, ficaria talvez com sequelas, quiçá para o resto da vida. Seu quadro era desolador.

        Sua família acorreu ao hospital, mas nada podia fazer senão esperar que a natureza agisse a seu favor. Ele estava em coma profundo, mas a seu lado estava Doralice, uma guerreira e piedosa mulher que lhe dedicava todo cuidado, que sempre colocava o amor à frente de tudo o que fazia, mesmo em suas reações violentas, pois estava, com certeza, defendendo uma causa justa.

        A mãe do rapaz só podia vê-lo nos dias de visita, uma vez que na emergência superior não eram permitidas visitas diárias. Mesmo aos domingos e quintas-feiras, ela não podia passar mais que uma hora ao seu lado. Ela gostava de Doralice, pois via o carinho com que a linda enfermeira cuidava de seu filho.

        Dois meses se passaram sem que ele despertasse de seu sono, e com Doralice, durante seus turnos, cuidando de suas feridas e orando a Deus por sua recuperação.

        - Tenho notado que você anda triste, minha filha. Meu coração diz que algo a incomoda. Estou errada? - perguntou a mãe durante o jantar.

        Doralice nada comentava sobre seu trabalho. Na maioria das vezes as novidades não eram boas, mas não quis deixar a mãe preocupada:

        - Nada muito fora do comum no cotidiano de um hospital, mãe.

        - Não pense que vou me conformar com essa resposta. Percebo que você está escondendo alguma preocupação.

        Doralice já não tinha Maria nem Custódia próximas a ela para fazer confidências. As irmãs e os irmãos mais jovens já trabalhavam, estudavam ou namoravam, de modo que as reuniões da família já não eram completas mesmo durante o jantar. Os horários não coincidiam e não raras vezes ela jantava somente em companhia da mãe.

        - Não gosto de falar do meu trabalho, pois vejo muito sofrimento e não quero trazer isso para casa.

        - Ah! Mas eu tenho certeza de que existe alguém em especial com quem você se preocupa. Não quer desabafar com sua mãe?

        - Ih! Mãe, lá vem a senhora novamente insinuando homem em minha vida. Já lhe disse que não tenho namorado nem quero casar.

       - Ué! Mas eu não falei em homem, você é que está falando. Eu conheço seu coração e sei que você está assimilando a dor de alguém. Não esqueça que sou sua mãe.

       - Tá bom! Vou falar, mas não pense que seja algo mais que piedade, pois não é. Estou cuidando, entre muitos, de um paciente em coma, que, segundo os médicos, parece ser irreversível. Sua família já está perdendo a esperança, a mãe sofre muito vendo o filho tão jovem semivivo sobre a cama e alimentando-se pelas veias. É de cortar o coração. Eu faço a higiene dele diariamente, aplico-lhe os medicamentos, mas me parece que não há esperança de que ele desperte para a vida.

        Ah! A vida, essa perene caixa de surpresas a qual nunca sabemos se abrirá para que tornemos a ver os raios de sol de um novo dia ou se permaneceremos para sempre na escuridão da noite em que adormecemos.

        Chovia forte quando Doralice chegara ao hospital naquela manhã. A chuva a pegara no meio ao caminho. Ela tivera que aguardar embaixo de uma marquise por algum tempo, assim se atrasara um pouco e, quando iniciou suas funções e se dirigiu ao leito do jovem, deparou com a cama vazia. Disse consigo: “Finalmente, ele descansou. Que Deus o tenha.” Várias vezes ela tentara abrir os olhos do rapaz na esperança de que o gesto o ajudasse a despertar, mas tudo o que via eram duas pequenas gotas verdes e serenas no centro do branco daquele olhar apagado. Ela nunca esqueceria o tom daquele verde.

        - O que houve com o paciente do leito 27? Pensei que o prontuário estivesse ao lado da cama, pois não o encontrei e a cama está vazia - perguntou à colega quando retornou á bancada da enfermaria. - Ele faleceu?

        - Não! Menina, ele foi transferido para um hospital particular onde a mãe poderá acompanhá-lo. Ela tem esperança de que ele voltará a viver, o que, cá pra nós, aqui seria praticamente impossível.

        - Mas como os médicos permitiram sua remoção no estado em que estava?

        - Sua mãe preferiu arriscar, pois achava que se ele tinha uma chance de voltar a viver, isso não aconteceria aqui. Tanto insistiu que eles resolveram autorizar a transferência, fazendo com que os pais assinassem um termo de responsabilidade.

        Ele pode ter morrido durante o transporte, pensou Doralice.

        Uma tristeza enorme invadiu o coração da moça e nem ela sabia por que, afinal, ele era só mais um paciente e acabaria tendo que deixar o hospital para onde quer que fosse. Ela perdera a esperança de um dia poder ver aqueles olhos, pelos quais ela tanto pedira a Deus que voltassem a brilhar. 

        - Arlindo Gomes - repetia consigo o nome do rapaz que lhe despertara um sentimento diferente, uma mistura de piedade, carinho, vontade de abraçá-lo, acariciar suavemente sua cabeça raspada como chegara a fazer algumas vezes, sem se dar conta de que algo se modificava em seu interior. Ele se fora, mas deixara nela, pela primeira vez, a sensação de que poderia ser capaz de amar. Ela procurou Maria, sua irmã. Precisava falar a alguém sobre a transformação pela qual passava:

        - Sabe minha irmã, penso que me encontrei como mulher. Agora admito posso amar como qualquer outra. - E contou-lhe tudo desde o princípio.

        Maria ouviu todo o tempo sem interrompê-la e quando ela terminou:

        - Penso que você não deve perder a esperança de reencontrá-lo um dia. Por que não tenta saber para onde foi transferido?

        - Mesmo que soubesse não o procuraria, pois se eu descobrir que ele morreu, penso que sentiria também morta a esperança de conseguir ser feliz.

        O amor, quando tem raízes na comiseração, sublima o desejo da carne e transparece em toda a sua pureza. Faz com que as pessoas revelem o anjo bom que vive em cada um de nós e, às vezes, consegue transformar os corações mais endurecidos em massa de moldar nas mãos da pessoa amada. Talvez, inconscientemente, fosse isso que ela temia.

        Mesmo tendo pouca esperança de voltar a ver o jovem, ela sabia que sua vida nunca mais seria a mesma.

       Daquele dia em diante passou a ver-se como a mulher que era, como se aquele sentimento, ainda estranho para si, estivesse afastando o fantasma da violência que ela via por trás de qualquer homem que lhe fizesse a corte.

                                        

                                               

-                                                         



  
                               































                                                                                 
                                                                               
     



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Atualizado em: Qui 21 Maio 2020

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