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DORALICE - Ação, coragem, paixão

 ( ROMANCE - 197 PÁGINAS - AUTOR JOGON SANTOS - EDITORA AUTOGRAFIA)

                                                                                         
                                                                                             Santa Bárbara?


       Quando os primeiros raios de sol forte do verão começavam a dourar os corpos dos que viviam sob os braços abertos e o olhar atento do Cristo, a cidade maravilhosa, vestindo-se como uma mulher eternamente jovem e linda em seus trajes não tão diminutos da época, saía a reverenciar seu mar como até hoje acontece, num convite irresistível ao lazer em suas praias. Também eram muitos os que se aventuravam mar a dentro em passeios de barco.

       Foi em um desses, para o qual fora convidada por uma médica amiga do hospital, que Doralice viu-se àquela manhã de domingo em uma escuna com destino a uma ilha no interior da baía de Angra dos Reis acompanhada do sobrinho predileto o filho mais novo de Maria. Ao desembarcarem do ônibus que os conduzira, o casal ficou sabendo que a escuna que os levaria sofrera uma avaria e tiveram que contratar outra embarcação menor, mas que comportava a todos.
       Tratava-se da comemoração do aniversário de trinta anos de casamento dos pais da doutora. O par resolvera patrocinar a rápida excursão com direito a banquete em um restaurante localizado numa das inúmeras ilhas, que como pequenas manchas verdes, se espalham na baía.
       O número de convidados passava dos trinta. A embarcação era um tanto modesta e substituía a que o casal havia inicialmente contratado, que apresentara um problema no motor. Contava com três mastros que suportavam velas que, abertas ao sol e estufadas pelo vento, marcavam como um ponto branco o mar, espelho azul do céu, para quem a visse de cima.

       Havia muita comemoração, muito vinho e cerveja ainda durante a viagem de ida. Doralice tinha certo temor do mar. A inconstância do equilíbrio provocada ao barco pelas ondas a deixava um tanto inquieta e não via a hora de chegarem, o que ocorreu sem maiores problemas.
       A mesa preparada para o almoço do grupo lembrava muito os banquetes oferecidos por Nero nos velhos filmes épicos italianos. Havia de tudo, tamanha era a fartura e a variedade dos pratos e sobremesas, capazes de humilhar o próprio Nero.
       Passaram o resto do dia banhando-se na pequena praia de águas limpas onde peixes não tão pequenos passavam por entre as pernas, indiferentes as suas presenças. O lugar era um verdadeiro paraíso.

       O dia, mesmo no verão, tem suas horas contadas, embora o sol não as respeite e insista em brilhar desafiando a noite. Antes que a tarde começasse a cair o comandante, após contar todos os componentes do grupo e certificar-se de que estavam todos a bordo, tomou o leme e começou a empreender a viagem de volta.

       Já em pleno mar, em princípio apenas uma rajada de vento forte surpreendeu o grupo, arrancando os chapéus das senhoras atirando-os a ele, já um tanto revolto. O vento enchia e balançava as velas dando ao barco uma velocidade inesperada. O que parecera somente um susto, porém aos poucos foi se confirmando no que todos temiam. Nuvens negras como imensas montanhas voadoras começaram a surgir no horizonte e a cobrir tudo. Logo um relâmpago clareou o céu, que enegrecera rapidamente e brilhou sobre as águas antes do estrondo do trovão, anunciando o início do espetáculo de terror que o grupo iria viver.

       A força do vento aumentara muito. O comandante tentava acalmar a todos:
       - Calma, pessoal, é apenas uma tempestade de verão, já passamos por isso. Por aqui é muito comum nessa época do ano. Rapidamente se vai. Vamos equilibrar o peso do barco dividindo metade do grupo à direita da cabina e a outra metade à esquerda - gritava ele com a voz abafada pelo ruído dos pingos grossos de chuva que caíam sobre o convés alagado e pelo atemorizante som produzido pelo choque das ondas, que faziam joguete da embarcação.

       Todos obedeceram embora já caindo uns sobre os outros. Alguns sentaram encostando-se à parede da cabina, outros tentavam manter-se de pé agarrados às cordas. As ondas batiam forte no casco, invadiam e inundavam quase todo o barco, já que as pequenas comportas não davam vazão à saída d’água. Ele adernava ora para um lado ora para outro, subia e descia ao balanço das ondas. O comandante gritava ordens aos seus apenas três marinheiros.
.
         Todos encharcados e apavorados rezavam pedindo a Deus que a tempestade cessasse, mas o naufrágio era iminente.
       Doralice lembrou o que nem o dono do barco e seus ajudantes, preocupados em controlar a embarcação, até então haviam sequer sugerido, talvez confiantes de que logo a chuva grossa e a ventania cessariam. As boias salva-vidas, uma vez que os pequenos botes de nada serviriam contra a fúria do mar.
       Aos tombos, ela conseguiu chegar até a portinhola abaixo da cabina à frente e acima da qual o homem tentava controlar a fúria do mar agarrado ao leme.
       Desceu ao pequeno porão em busca delas e para sua tristeza e espanto. Não passavam de dez. Não havia, portanto, o suficiente para todos os embarcados. Conseguiu, com muita dificuldade, carregá-las para cima. Guardou uma para seu sobrinho e atirou as restantes para quem as pegasse. Para si não reservou nenhuma.

       - Coloquem pela cabeça, segurem sob os braços e se agarrem a elas. Infelizmente não há para todos e vamos ter que nos ajudar uns aos outros caso o barco afunde. - Colocou a do sobrinho, estático pelo medo.

       A disputa pelas boias foi algo dramático. As pessoas se atracavam rolando pelo chão. O pânico tomara conta de todos e até parentesco era ignorado na luta pela sobrevivência.
       - VALHA-NOS DEUS! - gritavam desesperados. Muitos já haviam até bebido muita água das ondas que rebentavam em seus rostos apavorados. O céu estrondava após o clarão dos relâmpagos. Os raios pareciam rachar o céu negro da tarde.
       O barco adernou para a direita e o mastro da vela menor da proa rachou e se dobrou ligeiramente. Doralice então lembrou a antiga oração que sua mãe rezava em voz alta quando dos temporais que ameaçavam destruir o pequeno barraco em que viviam. Subiu encharcada até onde estava o comandante e em voz alta a repetiu:
       - Santa Bárbara se vestiu e se calçou antes do galo cantar, Jesus Cristo perguntou, Bárbara, aonde vás? Eu, Senhor, ao céu vou, acalmar as trovoadas. Dissipar chuva pesada e levar-te ao monte do Minho, onde não há nem o pão nem o vinho, nem a crença no Senhor pequenininho. Chagas abertas, coração ferido, Deus nosso Senhor Jesus Cristo que esteja entre nós e o perigo - Doralice repetia a oração seguidamente em voz tão alta e com tanta fé, que, apesar do barulho da chuva e do choque das ondas contra o barco, todos a ouviam.

       Estranha e rapidamente as nuvens começaram a se dissipar, a chuva foi parando aos poucos e o vento despediu-se com seu último assovio. O barco, ainda que um pouco adernado pelo peso da vela quase dobrada e que fora recolhida, conseguiu estabilizar-se, pois o mar também acalmara sua fúria.
       Todos ainda se refazendo do susto, porém agora mais calmos, ajoelharam-se e, de mãos postas, agradeceram a Deus, que, quem sabe por intercessão da santa, os havia salvado.

       Doralice também se acalmara, mas não deixou de repreender severamente o barqueiro:
       - O senhor é um irresponsável e merece ser denunciado à capitania dos portos. Se o barco houvesse naufragado certamente haveria mortes, pois não havia boias suficientes para todos.

       - Por favor, não faça isso. Eu não tive tempo de providenciar mais delas. O passeio foi tratado em cima da hora depois que a escuna maior que os traria apresentou avaria.

       Daquele dia em diante, nem ela nem o sobrinho quiseram sequer ouvir falar em passeio de barco. Claro que a tempestade cessou naturalmente como é comum no verão, mas ninguém tiraria da cabeça do menino a certeza de que Santa Bárbara ouvira sim, e atendera imediatamente, a oração de sua tia pela força do seu clamor.
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Atualizado em: Seg 16 Dez 2019

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