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Prólogo

     Minha memória nunca foi das mais exemplares, tanto a curto quanto a longo prazo. Sempre tive dificuldades em acessá-las em momentos oportunos, quando não as confundia, trocava ou mesclava com pedaços de lembranças perdidos no interior da minha cabeça. Não que esses fragmentos não tivessem o seu lugar apropriado, eles apenas não eram disciplinados, andavam a esmo; vale, porém, revelar um segredo para os desavisados com o mesmo problema: a medida que o tempo passa, só piora.
     Ainda assim, existem certos momento na vida que se fixam na memória, acredito que seja assim para todas as pessoas. Momentos que podem ser resgatos com odores, músicas, sabores, efim, sensações.
     Lembro-me de quando eu tinha seis anos de idade e minha tia, Luana, me desafiava a esvaziar minha mente, deixando-a um completo vazio. Tão vazio que nem o claro e o escuro, o antes e o depois, e até mesmo a própria mente, que tentavam suprimir a sua existência sem êxito, existiriam. O jogo era difícil; eu sempre perdia, mas não por acaso. O fato é que eu nunca quis realmente jogar. Meu prazer não se situava em parar a minha imaginação, mas sim em exercitá-la.
     Meu problema maior sempre fora em não conseguir dormir. Quando criança, minha mãe me dava um beijo de boa noite e apagava as luzes do meu quarto, mas a velocidade da minha mente superava a do sono e, assim, o tempo se dilatava enquanto meu corpo se girava ferozmente em busca de paz. 
     Meu ritual noturno pouco se alterou. Graças a ela, Clarisse, hoje me aproximo da cama com calma, para não acordá-la; pego meu travesseiro rouado por ela e apago a luz, no aguardo da costumeira dilatação do tempo. Depois de algumas voltas na cama, religo a luz e observo – abismado – sua expressão de felicidade por alguns minutos. Então desligo a luz e retomo o processo na esperança de conseguir dormir.
     Aliás, ontem, pois hoje ela foi embora. Culpa da minha imaginação, que há alguns anos criou um segundo problema muito maior que a insônia.
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Atualizado em: Dom 15 Out 2017
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