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Evelyn e a Lenda Ancestral - Capitulo 4

Evelyn dormia. Estava naquele estágio em que a mente já se encaminhava para o despertar, mas o corpo queria permanecer apagado. Ela lutava para tentar distinguir o sonho das memórias reais… o avião? Sim, era real, ela estava viajando, voando… a queda do avião? Também era real, o pânico a invadia de forma muito real quando lembrava dos minutos pavorosos… o rugido? Hmmm, isso parecia real, mas não poderia ser, afinal estava no céu ainda quando lembrava de ter ouvido pela primeira vez… o pulo? Isso foi real até demais, sentia os sinais em seu corpo, apesar de achar que deveria sentir muito mais sinais… mas… o puma? Isso com certeza era sonho, provavelmente causado pelos rugidos imaginários anteriores.. era impossível acontecer… e havia algo mais, tão… intenso, tão.. inexplicável, mas tão poderoso que expulsava qualquer tom de realidade que pudesse haver em tudo isso.

Ainda sem abrir os olhos, resolveu testar o nível de dor em seu corpo, começando pelas pernas e braços. Cada pequena contração de músculo podia ser sentida… e isso a despertou ainda mais. Seus sentidos, que até então estevam dispersos e confusos, entraram em foco, e Evelyn percebeu que algo estava diferente. Talvez fossem os olhos fechados, intensificando sua audição, mas ela podia ouvir muitos sons… sons demais… como se todos os animais da floresta estivessem próximos a ela, como se o vento movesse toda e qualquer folha para perto dela. Podia ouvir conversas… muitas vozes, falando em uma língua desconhecida. Era estranho, pois conseguia imaginar a que distância estavam as pessoas umas das outras, quais estavam juntas ou em outros grupos, podia ouvi-los como se estivessem do outro lado da parede, mas ela também conseguia sentir que não estavam nem mesmo próximos do local onde ela se encontrava. E também percebeu que não estava sozinha.

Evelyn sentiu, mais do que ouviu, alguém se aproximando. Era muito silencioso, ela podia ouvir levemente o soar de seus passos, mesmo com sua super audição recém-descoberta… “Coisa estranha… Mike diria que estou desenvolvendo o sentido-aranha… nossa, Mike? O que será que aconteceu com ele? Preciso me mexer! Chega de devaneios”

Então, de repente, ela sentiu, e era forte, era como uma força magnética, que iniciava em seus pés e mãos e começava a percorrer seu corpo, cada vez mais forte, e quente, e estava se acumulando em seu peito, até que ela sentiu como se aquilo explodisse para fora de seu corpo, como uma onda, se voltasse para aquele que estava rondando silenciosamente. A onda o alcançou, e atingiu outra onda tão forte e poderosa que Evelyn arquejou ao senti-la (e ao perceber que podia senti-la, como se uma parte de seu corpo estivesse tocando em uma parte do corpo do desconhecido). Sem suportar a sensação, abriu os olhos, seu corpo se arrepiou e ela rapidamente se levantou, mas ao invés de se colocar sentada, ou de pé, seu corpo tomou as rédeas de suas ações e imediatamente se agachou, suas pernas afastadas e flexionadas, os braços esticados, as mão tocando o chão, e uma tensão se acumulando em seus músculos, que indicavam que a qualquer momento poderia saltar e correr à uma velocidade impossível.

A posição de Evelyn a colocou de frente com aquele que estava espreitando, e o que ela viu alertou todos os seus instintos de proteção, uma vibração subiu por seu peito, as sobrancelhas arquearam, os olhos se estreitaram, as narinas dilataram, seu corpo se encolheu mais ainda ao identificar o puma que a encarava. Sim, era o puma, aquele do sonho. Mas ele era real? Ele era lindo e assustador. Estava imóvel, apenas sua calda se movia, e nem mesmo piscava enquanto se olhavam. Evelyn não podia acreditar no que estava acontecendo. “Será que estou sonhando ainda? Será que estou num devaneio de quase morte? O que está acontecendo?”

A situação já estava muito estranha para Evelyn, e entre todas as coisas que ela absorvia do ambiente, como o fato de estar vendo muito mais detalhes das coisas a seu redor, podia sentir mais intensamente o odor de tudo, desde a madeira do estrado da cama em que estivera, a palha das paredes (paredes de palha? Que lugar é esse…), a terra sob seus pés, até cada item que havia em sua mochila, que ela localizara ao pé da cama. E mais intensamente ainda, podia perceber sinais que o puma emitia através de seu cheiro, sua posição, sua imobilidade: força, velocidade, agilidade e perigo.

Estavam os dois ainda nessa situação quando a porta abriu e uma mulher entrou.

– Vejo que está de pé pequeno espirito…

A mulher se aproximou do puma e acariciou sua cabeça entre as orelhas. Ele relaxou, sentando-se de forma despreocupada, sem tirar os olhos de Evelyn.

– Meu nome é Suari. Se quiser, pode descansar agora. Pode se sentar.

– Sentar… mas… o puma… – Evelyn estava confusa. O excesso de informações estava nublando seu raciocínio. Parecia que estava completamente fora de controle. Todos os seus instintos diziam para ela correr dali. Mas algo ainda mais forte não permitia que ela desse um passo em direção a saída.

– Ele não vai fazer nada. Utarra estava descansado assim como você, e também estava guardando você. Ferimentos de Utarra são profundos, mas seu despertar elevou sua própria força, e isso elevou a força dele.

– Me guardando.. como assim…

-Fique tranquila pequeno espirito. Logo você vai entender, antes precisa descansar mais. A noite teremos celebração e festa, o ritual dos espíritos ancestrais. Vou deixá-los para que descansem.

-Não, espera… vai me deixar com o puma?

– Sim.

– E meu amigo Mike? Ele estava comigo. O que aconteceu com ele?

– Ele está perto. Mas não bem. Como eu disse, vamos aguardar o ritual. Tudo se tornara mais claro então.

– Hm… ok.

– Pequeno espirito, como é seu nome?

– Evelyn, mas todos me chama de Lyn.

– Bonito nome Evelyn. Aqui, trouxe esta bebida, vai acalmar você, centrar sua alma, e trazer serenidade para esperar.

– Obrigada…

Evelyn sentou-se e tomou a bebida, que era quente mas refrescante e perfumada. Cada gole parecia mergulhar mais fundo em seu corpo, e logo ela se alongava, bocejava e pensava que talvez devesse dormir mais, já que não havia nada que pudesse fazer… Estava deitada quando lembrou do puma, como era o nome? Uta… Utana? Não, Utarra. Isso. Utarra não havia se movido, mas bastou um olhar curioso e amedrontado de Evelyn para que o animal também se alongasse. Lentamente ele andou até estar rente a cama, o focinho muito próximo ao rosto de Evelyn, se deitou e ficou observando, enquanto ela se acomodava melhor. O sono ia se apoderando dela, e sua mente se questionava o porquê de ela ainda estar ali, sozinha com um puma. Estranhamente, agora que se acalmara, não havia mais medo. A última coisa que percebeu antes de dormir foi que os olhos do puma, de um amarelo brilhante com pontos cinzentos espalhados, tinham exatamente a mesma cor dos seus.
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Atualizado em: Qui 10 Mar 2016
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