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Evelyn e a Lenda Ancestral - Capitulo 2

O jato de Evelyn trepidava em meio a tempestade enquanto avançava sobre o continente americano. O destino era a amazônia brasileira, mais precisamente um povoado indígena onde, de acordo com a carta de seus pais, ela nascera. De todos os acontecimentos e experiências mais incomuns em sua vida, até agora este fora o mais inusitado de que veio a saber desde o falecimento dos pais. Tudo sempre vai indo bem, as coisas estão entrando nos eixos, e então de repente algo vem à tona e muda o rumo, a percepção, os objetivos de vida de Evelyn... é como um tsunami... ela até tentou fugir das primeiras vezes, mas as consequências são inevitáveis, então ele decidiu encarar o que vier, até porque ela nunca teve medo das surpresas da vida.

E sua resolução foi colocada a prova com esta história de ter nascido em uma tribo indígena, no meio do mato, da forma mais primitiva possível, quando seus pais poderiam ter optado por qualquer uma das melhores clinicas obstétricas do mundo. A revelação veio por acaso, em um bilhete encontrado em um livro velho. Era comum Evelyn descobrir coisas em cartas no meio de livros, de papeis velhos, de tralhas, pois seus pais tinham esse costume de escrever no que estivesse a mão. Não havia muito no bilhete, somente coordenadas de localização e uma frase “Evelyn, você nasceu aqui. Foi primitivo, foi lindo, foi assustador. Vá conhecer!”

A tempestade lançava o pequeno Cessna para todos os lados e de repente uma grande explosão se ouviu, e Mike gritou...

– Estamos perdendo altitude... uma das asas está se partindo. Vamos tentar descer antes que esse avião caia de vez.

Evelyn se agarrou ao banco enquanto via o continente cada vez mais próximo, e não havia sinal de que o avião estivesse sob controle. Ela não acreditou no que estava acontecendo. Ia morrer no meio do nada, sem ninguém saber onde ela tinha ido, até porque não havia ninguém que se importasse o suficiente...

– Não consigo reduzir a velocidade da queda. Vamos cair. Se prepare!

Evelyn olhou uma última vez para as arvores agora visíveis, fechou os olhos e se preparou para absorver o impacto.




Um rugido muito grave e baixo se fez ouvir, e despertou Evelyn. Ela olhou em volta, tentando lembrar onde estava e o que havia acontecido. Em um esforço para mudar de posição, percebeu que estava presa a um acento e a realidade caiu como uma pedra pontiaguda sobre ela...

“Meu Deus... eu estava no avião... ele estava caindo... ai.. minha cabeça...”

O parte da cabine que conseguia ver estava todo esburacada, mas incrivelmente a maior parte da estrutura aguentou bem. Evelyn ainda não entendia como não havia morrido esmigalhada, e já estava soltando o cinto para sair dos destroços quando notou a oscilação da nave. Imediatamente parou e olhou de novo, só então reparando nos galhos de árvore que entravam pelas janelas destruídas e pela fuselagem, e através dos buracos pode ver que havia verde demais em volta do avião. Mike estava despertando também, alguns cortes em seu rosto, mas fora isso, tudo parecia no lugar.

– Mike... Mike... você.. está bem? Está machucado? Acho que caímos numa árvore... Estamos meio que equilibrados nos galhos... não consigo ver a que altura estamos... mas parece que qualquer movimento errado e já era...

– ...percebi... mas estou bem, alguns arranhões, acho que um galo na cabeça – Mike olhou em volta tentando absorver a situação e o pânico começou a transparecer em sua respiração...

– Meu deus Evelyn, também não consigo ver a que altura estamos.... vamos morrer Lyn! Não tem jeito, vamos despencar e morrer nesse nada – o pânico de Mike aumentava, e isso se refletia em seus movimentos, o que significava perda da pouca estabilidade da aeronave... Evelyn se apressou em tentar tranquiliza-lo.

– Calma Mike, calma, me deixe pensar.... me deixe pensar...

Olhando para todos os lados, ela tentou ver mais uma vez a altura em que se encontravam ou achar alguma coisa que pudesse usar, mas sua posição não permitia muito, e quando qualquer movimento desestabilizava o avião, os gritos de Mike eram inevitáveis. (“Sim, porque tudo que eu precisava era de um piloto que perde o controle na crise, fala sério” - Evelyn pensava em meio a um suspiro exasperado....). Não havia outra opção, teriam que agir ou ficar ali até que um animal, um vento mais forte ou mesmo um movimento involuntário de qualquer um deles (provavelmente do descontrolado Mike) terminasse de vez com essa aventura...

– É, Mike... temos que sair daqui.

– Mas como Lyn, não tem jeito, vamos cair... vamos morrer...

– Mike, escuta. Sim. Vamos morrer, de um jeito ou de outro em algum momento na vida, mas prefiro tentar adiar esse momento.... escuta o que vamos fazer: vamos lentamente soltar os cintos, muito delicadamente Mike, só mexa as mãos para isso ok? Vamos fazer isso agora.

– Ok.

Evelyn soltou o cinto tentando absorver ao máximo o impulso da trava. Quase ao mesmo tempo ouviu o cinto de Mike destravando e sentiu a nave balançar um pouco.

– Ok Mike, tudo certo. Você está ferido nas pernas ou de alguma maneira que te faça mancar ou ficar tonto?

– Nã...não eu acho.. as pernas estão ok. A cabeça também, só alguns cortes leves.

– Certo. Foco agora Mike, temos que ser muito precisos. Pelo que consigo ver, a maior parte do avião, a parte de trás, está presa nos galhos e cipós, e tem um galho forte que esta servindo de apoio para a parte onde nós estamos. No meu lado esta o tronco da árvore, consegue ver?

– Sim, consigo.

– Então, minha ideia é nos irmos até a saída de emergência e tentar sair por ali... sair do avião e usar o tronco. Vamos levantar, com os dois pés bem separados e colados ao chão.... agora... bem devagar – Ela podia ver o corpo de Mike se movendo e foi movendo o próprio corpo, tentando compensar os movimentos e não tirar o equilíbrio do avião. - Muito bem Mike, agora fique parado um pouco...

Enquanto o avião estabilizava novamente, Evelyn alcançou a mochila de camping que estava a seus pés, pegou uma corda e amarrou uma ponta a Mike e depois a si mesma, deixando uma grande parte enrolada em seu braço. Indicou que Mike deveria pegar a própria mochila. Eles as prenderam ao corpo, Mike visivelmente tremendo dos pés a cabeça e se atrapalhando com as travas...

–Agora Mike, respire fundo e tente se controlar ok? Vamos nos mover ao mesmo tempo. Um pé de cada vez. O avião vai balançar, mas não entre em pânico ok? Pânico é ruim. Vai nos matar. Se controle!

– Vou tentar Lyn... eu...

– Ok. Vamos agora.

Evelyn não estava com tempo para desculpas... queria sair logo daquela coisa para ver o próximo obstáculo... Os dois foram passo a passo, em meio ao balançar do avião, e alcançaram a saída de emergência... eles podiam ouvir os galhos e cipós rangendo e sendo puxados, e alguns começaram a ceder quando Mike tentou se aproximar mais de Evelyn, somando seus pesos e inclinando a nave perigosamente.

– Pare Mike. Fique parado. Acho que se tentarmos abrir esta porta juntos, o peso será demais e vamos despencar. Escuta: vou te passar minha mochila e você vai se afastar de mim até a corda estar esticada. Assim teremos algum equilíbrio. Vou acionar a porta e tentar nos amarrar a qualquer galho por segurança. E seja o que tiver que ser... Se prepare para qualquer coisa...

Evelyn respirou fundo e soltou a porta de emergência, que despencou com um tranco e desnivelou completamente o avião. Galhos e mais galhos começaram a se partir, e a nave inclinou mais ainda, presa apenas nos cipós enrolados na cauda. Mike começou a gritar e se jogou no chão Evelyn rapidamente avaliou a situação e percebeu que não conseguiria chegar em nenhum dos galhos, mas havia cipós por todo o lado.

– Mike, vamos Mike, me jogue a mochila!!!! O avião vai cair.

Ela prendeu a mochila rapidamente, ao mesmo tempo que enrolava um cipó firmemente a um dos braços.

O maior estalo de todos se fez ouvir quando o galho que segurava o avião se partiu, e Evelyn tentou alcançar a mão de Mike... perdeu seus dedos por milímetros quando tudo foi abaixo. O cipó enrolado ao braço de Evelyn a arrancou do avião, e ela gritou de dor ao ter seu braço distendido, e novamente quando a corda que amarrava seu corpo ao de Mike se esticou, fazendo com que ele batesse a cabeça e perdesse os sentidos. Mike e Evelyn ficaram suspensos enquanto o avião caia, se despedaçando ao bater nos galhos em seu caminho.

Agora Evelyn conseguia ver a altura em que se encontravam, e não era nada animadora. O braço preso ao cipó estava quase sendo arrancado de seu corpo, e por mais que ela tentasse, não conseguia alcançar o mesmo ponto com a outra mão para tentar içar o corpo e chegar a algum lugar seguro. Mike estava completamente inconsciente e seu peso deixava tudo mais difícil. Não havia nenhum galho forte nem próximo o suficiente (já que o avião arrancara todos) e ela não conseguia enxergar nenhuma alternativa. Gritava para tentar acordar Mike, mas sabia que não ia adiantar.

E foi então que ouviu um novo rugido. Exatamente como o que a despertou no avião. Era grave, claramente de algum felino grande... Evelyn não conseguia acreditar no absurdo da situação. “Era isso então né pai, mãe... já que nasci numa floresta, era lógico que eu deveria voltar e morrer nela... e um avião caindo não parecia ser suficiente né, precisava uma queda livre, e caso não desse conta, um animal terminaria o trabalho... legal.. muito legal...”

Ela não conseguia ver o animal, mas conseguia ouvir seu rugir crescente, e seu instinto de sobrevivência se ativou mais uma vez. Conseguiu alcançar um canivete na mochila, e ao mesmo tempo que o pegava, começou a dar impulso no cipó, em direção a uma outra árvore que estava no lado oposto de onde ela achou que vinha o felino. Quando conseguiu impulso necessário, soltou o cipó. E o maior de todos os rugidos chegou aos ouvidos de Evelyn enquanto ela caia. Parecia que o animal estava bem ao seu lado, protestando veementemente contra o pulo, e ela sentiu inclusive o vibração em seu corpo, como se ela mesma estivesse emitindo o som.

A árvore estava mais longe do que imaginava, e apesar da grande velocidade, Evelyn não chegou nem perto, e logo se viu despencando puxada pelo peso morto de Mike, que continuava desmaiado. Ela não teve escolha, cortou a corda que os mantinha presos e tentou se afastar um pouco no ar, até que algo se chocou contra seu corpo, impulsionando-a em um arco, fazendo-a girar em pleno ar e atingir o chão sobre o que a havia atingido. O impacto foi muito forte, expulsou todo a ar de seu corpo, e nos segundos que ela levou para recupera-lo, percebeu o que a havia atingido.

O animal era maior que ela. Enquanto ajustava seu olhar para tentar entender o que estava vendo, sentiu o pelo macio, o calor do corpo e um som entre um rosnado e um gemido. Logo conseguiu perceber que o pelo do animal era negro, e que suas patas eram enormes e a envolviam por completo, quase formando um casulo. O animal não parecia estar consciente, apesar de estar respirando. Provavelmente ficou com a pior parte do impacto, e Evelyn não sabia se continuava imóvel ou se tentava se soltar e se esconder da fera. Ainda não havia decidido quando sentiu o animal se mover sob ela. Ele girou o corpo, ficando de lado, e relaxou as patas, deixando que Evelyn deslizasse para o seu lado. E foi então que Evelyn conseguiu ver. Era um puma. Ela se viu com o rosto a centímetros dos olhos do animal, que estavam fechados. Ficou observando, paralisada pelo terror, imaginando que em questão de minutos viraria refeição crua, quando o puma abriu os olhos e fixou seu olhar no dela.

E então tudo que ela sentia no momento sumiu. Não havia mais dor nos ferimentos, não havia mais medo. Não havia mais incerteza sobre seu destino. Também não havia mais som, nem luz, nenhuma sensação. Naquele momento só havia a imensidão daqueles olhos amarelos, a imensidão expandiu e a engolfou, e ela se viu como se fosse o puma. Sentiu como se sua corrente sanguínea se estendesse para além de seu corpo, fosse absorvida pela terra e brotasse novamente abaixo do corpo do puma, encontrando brechas e se infiltrando nele, até alcançar cada partícula de seu corpo. E o mesmo acontecia do puma para ela. Aos poucos ela sentiu que todo seu corpo estava diferente, sendo atingido por aquele fluxo, e quando chegou a seu coração, sua respiração parou.
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Atualizado em: Sex 4 Mar 2016
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