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Evelyn e a Lenda Ancestral - Capitulo 1

      Robert e Stella não cabiam em si de felicidade. Suas vidas eram tudo aquilo que queriam que fosse: viagens, aventura, surpresas, descobertas. E agora a maior realização dos dois estava prestes a chegar.

      Stella sentia muitas dores, cada parte do seu corpo luzia coberta de suor, sua barriga enorme em destaque, enquanto as mulheres da tribo a cercavam de cuidados e preparações para o grande momento. Fazia mais de quatro horas que as dores haviam se tornado intensas, e estava tudo encaminhado para que o helicóptero os levasse ao hospital local para a realização do parto. Stella suportava bem, suas dores amenizadas por uma bebida feita com ervas. Suari, a pajé da tribo, monitorava o tempo das contrações, ao mesmo tempo que murmurava cantigas em sua própria língua.

      Do lado de fora, com os homens, Robert também se preparava para o grande momento. Estava no centro de um círculo formado por todos que já eram pais, e cada um deles pintava símbolos em seu corpo, cobrindo costas, peito e braços com um aprendizado que cada homem escolheu para compartilhar e transmitir ao novo pai. O ritual completo também continha símbolos que eram pintados na mãe, mas como os enfermeiros do hospital sempre removiam as pinturas das mulheres da aldeia, Suari transformou sua essência em um creme que ficava incolor ao ser absorvido pela pele, e assim o ritual era mantido até o fim.

      Suari percebeu que o momento final estava chegando rápido, mas não havia nem sinal do helicóptero. Em seu lugar, ventos confusos podiam ser vistos empurrando alguma nuvens. Enquanto observava o movimento no céu, ela entendeu os sinais dos espíritos de sua tribo. O helicóptero não viria. Stella não iria ao hospital. A criança precisava nascer ali, nos modos tradicionais de seu povo. Apesar de ser um deles, o bebê viria ao mundo sem a interferência dos civilizados. Com a ajuda de duas jovens, Suari recomeçou a pintura de símbolos em Stella, agora com suas tintas usuais. Assim que terminou, foi aos homens e contou a Robert o que ia acontecer. Mostrou os sinais da tempestade que vinha rápido, mas disse que a criança seria ainda mais rápida, e que seu choro seria ouvido antes do som da chuva tocando a terra. Ao retornar para a taba, sem nem mesmo olhar para o rosto assombrado de Robert, Suari declarou: “Sem medo. A chuva é bom sinal. A criança é bem vinda. É querida pelos ancestrais do meu povo e pelos espíritos da floresta. Tudo será como tem que ser.”

      Assim que entrou, Stella deixou escapar o primeiro grito, e Suari correu. As outras mulheres começaram a cantoria do ritual, chamando a força dos espíritos ancestrais para conduzir a criança. Ela viria pela própria força, abriria seu próprio caminho e seria recebida como filha da terra, da floresta, do vento e do rio. A cada grito de Stella, Robert sentia uma dor física, como se uma parte dele fosse arrancada a cada vez. O ritmo entoado pelos homens combinava em contraponto com o das mulheres, e era pontuado por trovoadas mais e mais fortes. Até que se ouviu o último grito. E junto dele o maior trovão. E ao mesmo tempo que se ouviu o choro da criança, um rugido se levantou da floresta. E então a chuva caiu.

      Com a mesma velocidade que veio, a chuva se foi, o céu pode ser visto e logo o som das hélices do helicóptero se fez ouvir. Robert e Stella contemplavam a linda menina, agora adormecida. Suari não estava em nenhum lugar a vista. Ela percebera o rugido. Tinha identificado os sinais. Chamou Tenoa e juntos seguiram para para a floresta.

      Logo avistaram o grande animal. Era uma puma negra, fêmea, das mais raras. Os olhos amarelados semi-abertos e a respiração rasa indicavam o grande esforço realizado. Suari nunca havia visto animal tão lindo. Seus sentidos foram inundados por sua preciosidade, até que percebeu um movimento junto ao corpo. Era um filhote. Era o que Suari viera procurar. Tenoa se aproximou da fêmea e a examinou.

      - Ela não está bem. Não vive além desta hora.

      - Não imaginei que viveria mais. Ela já cumpriu sua missão aqui. Nos trouxe ele.

      Suari segurou o filhote, uma cópia fiel da mãe, olhou em seus olhos, e recebeu um olhar firme de volta. Aconchegou o pequeno animal em seus braços e declarou.

     - Sim, os sinais estão certos. Este é um espirito ancestral.

 
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Atualizado em: Sex 26 Fev 2016

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