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Mangá topzeira – Classe A + 5 estrelas

Diferente da grande maioria das pessoas que moram nas regiões do Sudeste, Sul e Centro-Oeste que filaram aula de Geografia e História, o Nordeste não é um bloco monolítico e homogêneo separado do restante da Nação. A bem da verdade, a região nordestina é composta por 9 estados. Cada um deles tem sua própria constituição sócio-histórica, e de modo algum está desconectada do Brasil varonil.
          Cada um dos estados tem seu próprio relevo, clima, fauna e flora, mesorregiões, microrregiões ou territórios de identidades, relações socioeconômicas e cultura no seu sentido plural. Por exemplo, o autor dessa resenha é do interior da Bahia, e nem todo mundo aqui fala “Oh, meu rei”. Já a obra analisada aqui, Suriblade, é uma criação do Ever Sousa, jovem mangaká do estado do Ceará, cabra bom, cria de Lagoa Seca.
          Quando figo essa prosa, num é nem que vontade de lhe obrigar a alembrar de nome de tanto estado nem suas capitais. Eu quero é lhe fazer um convite pra você parar de ver nordestino como um “paraíba” ou “cabeça-chata”. A gente tudinho tem nome e sobrenome. Tire as escamas dos olhos o quanto antes e veja a diversidade que seu país tem, só assim você vai parar de olhar a sujeira da borda do seu umbigo cheio de verme.
          Se eu tivesse que recomendar a primeira compra de um mangá da Editora Estúdio Armon ou pra iniciar alguém nas leituras do mangá, eu indico: Suriblade! Motivo eu tenho de sobra. É volume único, tem dois one-shots, reúne nostalgia e diversão na medida certa. Pense que eu fiquei feliz quando li essa revista, macho. E mesmo sendo uma paródia do anime BayBlade, não deixa de ter sua originalidade.
          A trama segue a história de Juninho, ou Junin para os íntimos, e Serotin. Despois de se enfastiar de jogar gude, eles decidem fazer um minicampeonato de suriblade. Nego e Bruno se juntam a brincadeira e fazem partidas numa bacia de lavar roupa, que para quem num sabe, é o baydomo dos pobres. Infelizmente, acontece tanta de coisa até o resultado final que é bom eu deixar você ler pra saber, viu, seu sabidinho?
          A ideia de suricatos antroporformizados não causa tanto espanto quanto deveria, até deixou a parada furry, só que com tons áridos. Os personagens são um exagero de fofura e carisma. Para além do cenário outro fator de contextualização foi a linguagem. As gírias ambientam a história, pois, linguagem é cultura, e quando escrita por um nativo, a verossimilhança é muito maior que o poço de estereotipias que a mídia nos lançou.
          O primeiro one-shot extra é O conto do jovem babaca. O protagonista é o JY, adolescente virjão que quer uma mina pra... jogar truco. Brincadeira a parte, é uma obra que reflete sobre como a solidão na adolescência pode ser cruel, assim como o preconceito e se guiar erroneamente por opinião e valores alheios aos seus. É um drama romântico pra você refletir mesmo.
          O segundo one-shot é o Sonho desenhado, nele, um jovem mangaká chamado Kaic que, não consegue dar continuidade aos seus projetos porque é um manezão preguiçoso do caralho. Depois de passara por uma experiência sobrenatural, o personagem tem uma catarse redentora. É uma obra pra falar de sonhos, daqueles que necessitam mais do que se acreditar neles, precisam de práticas para que possam se tornar verdadeiros. A arte aqui é bem menos complexa, até experimental.
          Não sei se essas obras têm algum conteúdo autobiográfico ou se ele se inspirou em alguém, mas, são muito bem construídas. O autor tem uma capacidade de usar metáforas bem criativas, como a flor em O conto do jovem babaca. A arte de Suriblade remete aos kodomo, traço grossos e imagens mais claras, com poucos chapados de preto e retículas. Expressões eficientes, dando carga emocional aos personagens.
          O mangá tem mais de 140 págs. São cerca de 80, só do mangá, que originalmente foi publicado em cinco capítulos na Revista Action Hiken. Além disso possui um tutorial de como fazer sua suriblade, designer dos personagens, comentários do autor, galeria de fanarts, galeria de suriblades, e diversos outros extras. O volume único foi financiado pelo Catarse no ano de 2020.
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Atualizado em: Sex 1 Jan 2021

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