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O amor hipermétrope
Em “As aventuras de Pi” (para quem não viu, não é um filme sobre matemática, como eu pensava), o protagonista, em terna idade, vê-se entorpecido pelos avassaladores olhos de um tigre que por muito pouco não lhe dilacera o rosto. Seu pai, em tempo, salva-o e explica-lhe (sem muito tempo para dourar a pílula) que aquele animal não tinha alma, vontade e mesmo sentimentos: o que Pi via naquele momento não era nada além do reflexo e projeção de si próprio, da sua alma, da sua vontate e, no caso, da sua ingenuidade e desconsideração pelo perigo. A cena, que poderia passar despercebida pelo drama, contém um insight filosófico sobre a alma humana - geralmente inacessível para tantos: não vemos o mundo como ele é mas sim conforme as grossas e por vezes pegajosas lentes da nossa individualidade, que amiúde transfiguram e pervertem tal realidade.
Em nenhum outro lugar a substituição da realidade pelos modelos que criamos se faz tão intensa e causa tanta confusão quanto nas relações humanas, em especial as românticas. Isto vai bem além da incorreta interpretação que ‘ela não tem defeitos’ ou ‘que original o hábito dele dormir logo após se embebedar’. Claramente, este não é um assunto novo: os gregos chamavam (com toda propriedade) de ‘pathos’ o estado emocional de emoção profunda - que chamaríamos de paixão, não por coincidência a mesma raiz de patologia, psicopatia e outras. Nesta toada, Aristófanes dizia que no início os humanos eram completos, esféricos, tinham quatro braços, quatro pernas, dois rostos (em uma cabeça) e dois órgãos sexuais e exatamente esta potência do ser humano desafiava os deuses. Zeus acabou dividindo o ser humano ao meio, como punição pela ousadia, condenando-os a uma saudade visceral que os obrigava a passar uma vida buscando a sua outra metade. Esta história sobre a gênese do amor relata simplesmente que este drama remonta ao berço da nossa sociedade e não parece que estejamos mais próximos de uma ‘solução’ do que nosso amigo Ari.
O drama sofisticou-se, é verdade, ficou mais complexo e profundo mas a teia básica ainda é fundamentalmente a mesma: enquanto seres sociais a maioria de nós encontra sentido em uma vida compartilhada (em geral com outra pessoa mas atualmente pode ser um software, tamagochi, IA, etc). Passaram os séculos e os Irmãos Grimm, a Disney e outros formadores de mitos definiram o que é uma vivência digna, válida e de qualidade (em geral envolve um príncipe em um cavalo). No mundo persa, Sinbad vem em cavalo de ébano, na China Guan Yu é um general leal e justo que monta um cavalo vermelho e na tradição indígena americana, o cavalo é um realista baio mas todas são variações do mesmo tema que uniformizaram e pasteurizaram as expectativas femininas, fortemente dirigindo a linha de atuação masculina (aqui os termos masculino e feminimo estão sendo usados de forma reducionista e estão mais focados no papel desempenhado do que na genitália do ator - nota do advogado do autor).
A despeito de tudo isto, o real encontro entre duas pessoas não se dá diretamente (o amor tem hipermetropia) e possivelmente envolve bem mais do que estas duas pessoas. Se considerarmos que estas pessoas sequer conseguem se ver com discernimento (sobretudo assim que se encontram), todos os aspectos desconhecidos e vazios são preenchidos com as mesmas projeções que nosso amigo Pi: com material que vem de nós mesmos. Ainda, se considerarmos que muitos de nós sequer sabem quem são, sequer conseguem identificar ou reconhecer seus próprios sentimentos e motivações, qual a real chance que consigam avaliar os sentimentos de outra pessoa e, mais importante, que sentimentos serão estes no futuro?
Em uma hipotética casa de apostas sentimentais, o êxito deste arranjo pagaria algo em torno de 25 para 1. Todas as circunstâncias apontam para o fracasso, para o erro, para a falta de sincronia e, mesmo assim, escravos do mito de Aristófanes, seguimos, focados, desafiando os números, por vezes o bom-senso e a legislação de alguns países, na busca da outra metade, que dará sentido, valor e significado a nós mesmos. A menos que para você faça sentido a ideia de buscar e encontrar valor em si mesmo, antes de projetar suas inseguranças e necessidades nos ombros da pessoa que, por falta de palavra melhor, disse-lhe ‘sim’.
Atualizado em: Seg 23 Jun 2025
