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O Lobisomem

O assobio da chaleira indicava que a água estava fervida. O barulho vinha de uma casa simples e pequena na região norte da cidade. Ao ouvir o chiado da chaleira, o homem levantou-se da poltrona velha e foi até a cozinha com um sorriso de satisfação. O som muito lhe agradava. Preparou o café sem pressa e beliscou algumas bolachas de aveia. Retornou para a sala com a xícara quente de café. Sentou-se na poltrona outra vez como se estivesse se acomodando numa cadeira reservada para um nobre ou príncipe. Tomou alguns goles de café e retornou a leitura de um livro antigo e mofado.

A noite foi tornando-se mais profunda e fria. A vizinhança estava quieta, não se ouvia nada nem mesmo o latido de um cão. O homem gostava do silêncio da noite. Seus olhos negros estavam fixos nas páginas do livro. Lá fora brilhava uma majestosa lua cheia prateada. O homem se sentia inspirado por ela.
De repente, o som agudo de uma porta rangendo fez o homem saltar da poltrona e fixar seus olhos numa única direção: a cozinha. O som veio da cozinha. O homem se deu conta de que, ao retirar o lixo, acabou não fechando a porta corretamente. Portanto, concluíra que sua casa tinha sido invadida. Permaneceu imóvel ao lado da poltrona por um momento, escutando. Escutou, para sua surpresa e completo terror, um grunhido feroz e uma pisada funda. Quase entrou em desespero ao pensar que aquilo poderia ser um urso negro, seu maior pesadelo. A cabeça do homem começou a trabalhar a mil e seu corpo encheu-se de adrenalina. Quis sair correndo para o quarto, mas seu corpo não respondeu à sua vontade. Ao invés disso, caminhou nas pontas dos pés, o mais rápido que pôde, para o corredor. Estava a poucos metros de seu quarto agora. A criatura estava muito perto dele, seus passos se aproximavam da sala. O homem cobriu a boca com a mão para não soltar um grito de terror. Sentia seu corpo paralisado. E foi com esforço que conseguiu caminhar em silêncio até a porta do quarto. A criatura já estava na sala. O corpo do homem estremecia. Antes de abrir a porta, olhou uma última vez para o fim do corredor e, sem que mais nada pudesse controla-lo, gritou em desespero:
— Socorro!

A criatura havia chegado ao corredor e o encarava. Tinha olhos amarelos, uma boca cheia de dentes, garras, um corpo peludo e alongado. Seu olhar era frio e mortal. Quando o homem girou a maçaneta da porta, a criatura soltou um uivo e correu em sua direção. O homem conseguiu entrar e trancar o quarto. Seu coração batia aceleradamente, como se fosse pular pela boca. Sua respiração estava agitada. Logo depois, veio uma batida forte que fez a porta estremecer. E outra. Então o homem correu até a janela e olhou para a rua. Veio outra pancada. Ele pensou: “Preciso pensar em alguma coisa rapidamente, esse monstro vai arrebentar a porta e me devorar”. Mas não havia muito tempo para ficar pensando e por instinto de sobrevivência, o homem abriu a janela e pulou para a rua. Não houve problema com isso, pois era uma janela baixa. Outra pancada e a porta cedeu. O homem pôde ver a criatura lá dentro, encarando-o. Nesse momento, o desespero atingiu seu mais alto patamar e o homem correu como um louco ao longo da rua, gritando em alta voz:
— Socorro! Alguém me ajude! Ele vai me pegar!

A criatura não tinha ficado parada e veio atrás do homem. A barulheira fez com que algumas luzes nas casas fossem acesas. Por causa do barulho, uma porta se abriu mais à frente e um homem idoso botou a cabeça para fora. Viu o homem correndo na sua direção e, um pouco atrás, mas não tão distante, um estranho animal, que fez seu coração disparar.
— Santo Deus! — disse o idoso com a voz quase falhando. Abriu a porta completamente e gritou alucinado — Corra, corra!
O homem e o idoso conseguiram entrar na casa aos tropeços. A porta foi trancada. Pouco depois, veio uma pancada feroz. Os homens estremeceram. O idoso olhou para o homem perguntando o que diabos era aquilo e não obteve resposta para essa pergunta.
— O que interessa? Temos que sair daqui imediatamente ou nos esconder! Você tem um porão? — gritou o homem assustado, perdendo completamente o senso de educação. Naquele momento só queria salvar a pele. Veio outra pancada. O idoso olhou para a porta com os olhos quase pulando para fora.
— Não, não há! Mas eu tenho uma espingarda no quarto.
— Ótimo, vamos usá-la para matar esse cão demoníaco! — disse o homem exaltado, mas decidido. Mais uma pancada veio e com bastante força. A porta quase cedeu. Os homens saíram dali. Subiram vários degraus e chegaram ao quarto. O idoso trancou a porta. Em seguida, ouviram um barulho alto. A criatura havia adentrado a casa. O quarto do idoso era pequeno e a janela que dava para a rua não era tão baixa. Pular sem se machucar iria requerer alguma habilidade, mas o homem descartou essa hipótese, pois não deixaria o idoso sozinho para morrer. Quando o idoso passou a longa espingarda para as mãos do homem, sua mão pequena e enrugada tremia. O homem olhou para ele, seu rosto continha uma expressão de pavor. Ele próprio estava apavorado. Carregou a arma sem maestria, mais na base da tentativa e erro, por causa da pressa e angústia. A criatura iria chegar a qualquer momento. Estavam ali, juntos, enfrentando um monstro que não conheciam, arriscando suas vidas. O som do caminhar da criatura foi ouvido. Era pesado. Parou em frente a porta e com extrema violência, bateu. Os homens andaram para trás, até encostarem as costas na parede. Veio outra pancada. O idoso se desesperou.
— Ele vai entrar! Ele vai entrar! — gritou. O homem tentava controlar seu medo e se concentrar no alvo, assim que surgisse. De repente, viu o idoso levantar a janela.
— Você é louco! Se pular vai quebrar ambas as pernas. Aqui temos uma chance! — disse o homem furioso, mostrando a espingarda. Veio outra pancada. A porta estava cedendo. O homem, numa atitude inesperada, deu alguns passos a frente e mirou a arma na porta. Suas mãos tremiam. — Essa é a única esperança. Preciso acertar esse tiro. — disse baixinho, como para si mesmo, mas o idoso escutou.

A porta finalmente rangeu e abriu. E ali estava a criatura aterrorizante. O homem disparou a arma e acertou o tiro, mas despertou a fúria da criatura. O tiro pareceu não ter lhe causado dano algum. A criatura partiu para cima deles. Inesperadamente, o homem sentiu um empurrão. O idoso, tencionando salvar a si mesmo, empurrou o homem para ser devorado pela criatura e voltou-se para a janela. Com o empurrão, o homem tropeçou e mesmo assim conseguiu atirar outra vez. Mas, desta vez, a criatura desviou e, com isso, seu foco pairou no idoso que tentava pular a janela. Não deu tempo. O idoso sentiu uma mordida funda na sua perna e gritou de dor. Do lado de fora, algumas pessoas saiam de suas casas. Então o idoso foi arrastado para dentro do quarto outra vez. Estava se debatendo e gritando horrorizado. A criatura o devorava. O homem, caído ao chão, observava estupefato a carnificina e pegou a arma mais uma vez. Logo a criatura iria se banquetear com seu sangue. Mirou para o monstro e deu vários tiros. Para sua sorte e felicidade, acertou todos e abateu a criatura. Era o fim. Ficou ali parado por muitos minutos, até que algumas pessoas começaram a chegar. Todas elas ficaram em choque ao ver o monstro e o idoso devorado. Houve muitas lamentações e perguntas. O homem não pôde se safar delas, mas, naquele momento, só queria cair fora dali. Seja o que fosse aquela criatura, ele não tinha estômago e ânimo para respostas. Mas, no meio de todo o alvoroço, ele viu um sujeito estranho dizer: Lobisomem.
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Atualizado em: Sex 8 Set 2017
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