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Os infernos de Juliano - Parte 2

- Até que enfim te achei em, Ju, se estava querendo se esconder conseguiu ou tinha conseguido, falou rindo.
                - Oi Mari.
                - Nossa! diz espantada, o que foi isso, seu rosto, ta muito inchado Juliano.
                - Ah! Isso, disse tocando de leve no rosto, nada demais eu... cai
                - Caiu? Tá muito feio para ser uma queda em. – Acontece, disse forçando o riso.
                Na noite passada, como em todas as noites meu pai chegou bêbado, vem me abraçando meio apoiando perguntando se estou bem, digo que sim e falho em tentar me libertar dele, que olha em volta e depois pergunta da minha mãe, digo que está dormindo e ele apenas fala um tá, seco e vazio. – Tá bem?, pergunta de novo e mais uma vez assinto, isso já dura anos, esse inferno, ele sempre diz que vai mudar, que não vai mais beber, mas nunca cumpre suas promessas, perdi a conta de quantas vezes já o ouvir discutindo com minha mãe, nos dias que antecedem o final de semana ele é um bom pai, trabalhador e honesto, porém tudo isso se perde com a chegada do final de semana, sai para beber e volta tarde, caindo das pernas e parece que está piorando, numa discussão com a Elena, do meu quarto pude ouvir coisas se quebrando, achei melhor não ir ver e deixei assim mesmo.
                - Cadê sua mãe?
                - Dormindo, disse meio irritado, o hálito fedia a bebida, não aguentava conversar frente a frente.
                Quando percebi que ele ia ao quarto fiz o mesmo, mas fui para o meu, deitei na cama pronto para dormir, só que estava com uma sensação ruim e a minha boca se amargou, levantei e fui em direção ao quarto e quando vi ele a segurava pelo pulso e ela chorava, agi por instinto o empurrando. – Para! Gritei, franzindo as sobrancelhas com raiva.
                - Que isso menino, perdeu a cabeça, dizia ele tentando manter o equilíbrio, álcool demais.
                - Deixa ela em paz e vai dormir, pelo amor.
                - Olha como fala, disse segurando minha camiseta pela gola.
                - O empurrei mais uma vez, minha cabeça doía, a tensão e os soluços da minha mãe ajudavam a piorar, antes de perceber sua mão veio na direção do meu rosto, cai no chão, levantei com punhos e dentes cerrados e só não fui para cima dele porque minha mãe me abraçou, ele nos olhou com indiferença, como se não tivesse feito nada, senti o vermelho me subir o rosto e a bochecha com leve ardência, me soltei dela, e a deixei ali antes de sair do quarto me virei seus olhos encontraram os meus, queria abraça-la e dizer que tudo iria ficar bem, não fiz isso apenas caminhei em direção ao meu quarto, passei pela sala, e ele estava dormindo no sofá embolado com a capa cinza listrada, cerrei os punhos e fui para o meu quarto, fechei a porta com força – descontando a raiva, deitei e procurei dormir o mais rápido possível.
                - O que foi Ju, parece triste, sabe que pode me contar qualquer coisa né?
                Queria realmente contar, contar tudo, sobre meus pais, sobre o que fazer depois do ensino médio, contar sobre como estou sempre triste, os meus infernos e procurar refugio nela, um lugar só para mim, para ir quando quiser escapar de tudo, mas nada disso disse, contei sobre o passado, coisas que já se foram e que sinto falta. Uma breve memória de quando era criança não lembro muito bem, mas estou com meus pais e estamos saindo, indo em um restaurante para comer, sempre íamos nos finais de semana, éramos felizes, Meus pais riam e se divertiam éramos uma família. Isso foi se quebrando com o tempo e agora se quebrou, não sobrou nem os cacos para recordar, guardo essa lembrança, pois sei que é a única feliz que terei, deitei minha cabeça em seu colo, fechei os olhos e fiquei esperando o intervalo acabar enquanto ela falava sobre como tinha sido as suas três primeiras aulas, estava adormecendo quando ela me trouxe de volta, o sinal estava soando, era hora de voltar para o inferno da sala de aula.
                - Ju...
                - Oi, parece triste, vi isso nos olhos da Mariana, ela iria me contar algo, mas não falou, tenho essa impressão, de que ela quer falar, mas morre na garganta. Me despedi dela e fui para minha sala, a penúltima aula passou bem rápido e já estávamos na ultima, estavam à minha volta conversando, o Lucas e o Davi, falavam das garotas e quais delas eles queriam, não sei se eles sabem, mas elas não são surdas estão todas o ouvindo, essas ai eles perderam, pensei.
                - O que você acha, Juliano?
                - Que?
                - Priscilla, po, ou presta atenção cara, o Davi aqui é afim dela desde o primeiro ano.
                - E? Perguntei sem interesse nenhum.
                - Acorda cara, dá uma ajuda ae.
                - Ajuda? E por que eu?, não estava estendendo nada. Como esses caras me cansam.
                ­- Fala com ela, é a melhor amiga da sua namorada, então você tem mais chances, vamos lá, arruma a garota, pro seu amigo Davi aqui.
­                - Inferno, falo com ela depois, e ele não é meu amigo; não disse essa parte, não alto.
                Me encontrei com a Priscilla no termino da aula, pedi para ela me esperar, disse que tinha algo que queria falar com ela e as amigas logo se animaram, paciência. Estava usando um rabo de cavalo, caiu muito bem com o cabelo longo e volumoso dela.
                - Sabe o Davi, conhece ele desde o primeiro ano né?, comecei.
                - Sim, ele anda com a gente é nosso amigo né, falou sorrindo.
                - Por que não dá uma chance para ele? sabe ele é afim de você já faz um tempo.
                - Ah! Sim, eu sei disso, mas não disse nada para ele, não estou interessada nele. Agora e você, não quer uma chance?
                - Já entendi, ela gosta de mim, pensei; sabe que não né, tô junto da Mari, sabe muito bem disso já que ela é sua melhor amiga. Ficou quieta um instante, comecei a ficar ansioso, ela nada disse , contudo pude ouvir um barulho vindo da porta no instante que ela me beijou, fiquei sem reação, era estranho, mas bom, pude sentir o perfume um cheiro doce e agradável que me fez fechar os olhos por um instante, ela recuou sorrindo. – guarde segredo, disse piscando. Inferno, se alguém viu isso é o fim.
                Na volta para casa curvei a esquina e fui em direção à praça, joguei a mochila e me sentei no banco, algumas árvores e flores, a grama é bem bonita, um monumento em homenagem ao criador, nada demais; a essa hora o movimento é bem fraco, nunca tive medo de ser roubado nem nada do tipo, como se eu tivesse muito para ser levado, deixei escapar um risinho com esse pensamento. Agora tinha mais uma coisa para me preocupar, preciso ficar o menos possível em casa não aguento olhar para o meu pai, parece que depois de uma noite bêbado e sóbrio no outro dia ele se esquece de tudo ou pelo menos fingi que se esquece, logo de manhã veio falar comigo como se nada tivesse acontecido, desviei dele e sai para a escola o ignorando por completo, um trabalho nos finais de semana seria bom, claro fazendo isso estaria acrescentando mais um inferno na minha vida, mas esse espero que seja melhor do que o chamado casa, minha mãe não está conseguindo nada e já tem um tempo que está desempregada, ela é enfermeira ou era, diz que está esperando uma vaga no hospital e já faz um mês e meio, acho até que ela já se esqueceu, talvez esqueceram dela, preciso me virar e logo. Meus pensamentos estavam longe e quando voltei percebi que minha atenção se voltou a uma família que passeava, conversando e rindo, achei que não me incomodaria ver pessoas felizes, incomodou. Peguei a bolsa rumo à casa. Quando entrei percebi que Elena não estava conversando com o Marcio, bom muito menos eu, fui direto pro quarto e tranquei a porta, peguei o livro de matemática e sentei no chão, ia resolver os problemas da escola, não os meus, mas sim os da escola, nada vinha na mente, fórmulas ou teorias, só o beijo, o beijo da Priscilla, sorri mesmo sabendo que era errado, não que eu amasse a Mari, eu só não sou esse tipo de pessoa, ou estou tentando não ser. Agora estava com ela só não sabia se queria levar a serio o namoro ou... não sei, falei para mim mesmo, não sei de nada, estou cansado de pensar, por que sempre tenho que pensar?, que inferno.
                Precisava me distrair, estava muito entediado fiquei fitando o telefone tanto tempo que não percebi que estava tocando, era a Mariana, ligou para perguntar se eu estava bem, respondi que sim e evitei perguntar o mesmo, começamos a conversar, pela primeira vez ela me contou sobre a família, os pais estavam brigados e ela acha que estão pensando em se divorciar a irmã mais velha se mudou por causa do trabalho e ela estava sentindo muito sua falta, pensei em contar sobre os meus, contudo engoli essa ideia, as horas passaram e os assuntos foram variando do mais importante ao mais banal, eu estava rindo, pela primeira vez esqueci dos problemas e estava rindo, falar com ela era bom, te-la era bom, ela era boa, e eu preciso de algo bom na minha vida para equilibrar com o mau. Quando desliguei, pensei nela, e sorri; já havia decidido, iria levar a serio.
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Atualizado em: Dom 20 Ago 2017
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