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CARMOND - CAPÍTULO III

CAPÍTULO TRÊS
O ponto de parada onde fora deixado era diferente de todos os outros já conhecidos e imaginados por Augusto. Ficava num lugar qualquer da estrada e não havia nenhum sinal de vizinhos, ou ainda, nenhum bar ou qualquer outro tipo de estabelecimento como são de costumes nesses lugares.
A chuva não dava tréguas e tudo que ele fez foi correr até uma velha tapagem, já bem deteriorada pelo tempo, e ficou lá aguardando pelo motorista, no meio da chuva e do nada. Essa espera, permeada pelas lembranças da conversa que havia tido com os amigos, durou mais de uma hora, até que, finalmente, ele viu surgir bem distante, os faróis de um carro que deslizava nas estradas enlameadas.
Graças a Deus! Ele balbuciou e já foi tratando de ajeitar as malas nas mãos na expectativa de deixar o quanto antes aquele lugar.
_ Por acaso o senhor é o doutor que está vindo da capital para tratar do Coronel? O motorista perguntou de dentro do carro e com o vidro do lado direito entreaberto.
_ Sim, sou eu mesmo! Me chamo Augusto.
_ Prazer, doutor! Sou seu motorista. Pode me chamar de Piu. Venha! Saia dessa chuva.
Augusto realizou o embarque rapidamente e os dois tomaram o caminho de volta até Carmond, o vilarejo que tanto amedrontava seus amigos.
_ Demoraremos muito para chegarmos?
O homem sorriu meio desanimado.
_ Um cadinho, doutor. Ainda mais com essas estradas ruins como estão. O senhor tem pressa?
_ Não trata-se de pressa. Acho que é apenas curiosidade mesmo! Já passei o dia todo dentro de um trem, penso que mais algumas horinhas viajando não me farão mal.
Piu sorriu novamente e ergueu as sobrancelhas indicando o banco traseiro.
_ Tem uma garrafa e dois copos aí no banco de trás. Faço o favor de pegá-los e servir um chá pra gente, se não for incômodo, é claro.
Augusto achou aquilo maravilhoso. Estava precisando mesmo tomar alguma coisa quente, depois do banho de chuva que tomara enquanto aguardava.
_ Não é incômodo algum, ao contrário, será um prazer. O senhor parece ter lido meus pensamentos.
_ Eu nunca saio sem a minha garrafa, principalmente em noites como esta. Um chazinho quente é sempre uma excelente companhia para quem vive tão solitário.
Augusto encheu um dos copos e entregou para Piu que segurando-o com a mão esquerda, continuava a guiar o veículo com a direita.
_ Posso lhe fazer uma pergunta, doutor?
_ Depois desse chá você pode perguntar o que quiser.
Sorriram os dois.
_ Pois bem, o que levou o senhor a aceitar o convite para vir até o nosso vilarejo?
Inevitavelmente Augusto lembrou-se dos amigos.
_ Por que isso parece tão estranho? O que há de errado com o seu vilarejo, meu senhor?
_ Carmond não é o melhor lugar do mundo para se estar, doutor. Tudo lá é muito difícil, desde o acesso, como o senhor mesmo está podendo constatar, até nas outras coisas mais simples.
_ Por exemplo?
_ Qualquer coisa que é normal em outro lugar, lá o senhor verá que se torna difícil.
_ E porque isso acontece?
_ Pelo visto o doutor não conhece nada mesmo do nosso vilarejo, né?
Augusto balançou a cabeça negativamente e virou o último gole do chá.
_ Não, meu senhor. Tudo que sei são as histórias, ou melhor, as lendas que as pessoas inventam e acabam chegando até a capital.
Piu entregou o copo para ele e voltou a segurar o volante com as duas mãos. Nesse instante estavam passando sobre a velha ponte que já havia sido carregada duas vezes em enchentes que atingiram a região, e fora restaurada pelos próprios moradores.
_ Boa parte dessas lendas são verdadeiras, meu jovem. As pessoas podem até aumentar, mas elas nunca inventam, já diz o ditado.
_ O que há de errado em Carmond? O que acontece por lá?
Piu reduziu a velocidade e olhou para o rapaz.
_ Saberás logo logo, meu doutor. Afinal, o senhor foi contratado para cuidar do maior de todos os problemas desse vilarejo.
Augusto percebeu que as últimas palavras foram pronunciadas com certo rancor e ao mesmo tempo tristeza, e isso deixou-o ainda mais curioso.
_ Então está me dizendo que o problema todo, ou melhor, a maior parte dele provém do Coronel? Mas até onde sei esse homem está à beira da morte.
_ Não acredito que ele vá morrer tão facilmente, seria sorte demais, e o povo de Carmond aprendeu desde cedo que a sorte parece não gostar muito daqui.
E foi com a cabeça cheia de interrogações que Augusto seguiu o restante da viagem e nem se deu conta ao entrar no vilarejo que tudo estava escuro, a única luz acessa eram as dos faróis que cortavam a chuva e iluminava a rua diante deles.
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Atualizado em: Qua 28 Jun 2017
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