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Máscaras de Carnaval
Não sou filho único. Sou caçula. Para ser sincero, é uma posição que gosto de ocupar na árvore da família. Mas como tudo no universo, os privilégios também têm seus castigos e o meu era ter uma irmã. Não gostar de quem me deu a posição familiar que tanto estimo é, sem dúvida, uma ironia.
Duda e eu éramos muito parecidos, tanto fisicamente quanto na personalidade. Sua feminilidade era de filmes, ela tinha um corpo esbelto, curvilíneo, seios fartos, cabelos longos e ondulados, negros como a noite. Veja, ela não me fez nada de mal, era a beleza dela que me incomodava. Ter desejos não é pecado, mas não realizá-los é um castigo, um castigo familiar.
Quando crianças, sempre fomos acostumados a tomar banho juntos e isso perdurou até mais ou menos a adolescência. Me lembro do dia que nossos asseios cessaram. Estávamos nus no chuveiro, brincando, quando ela foi retirar o xampu dos cabelos e pediu para usar a fonte de água por inteiro. Naquele momento que me afastei e fiquei no canto, só pude admirar a cena – espuma caindo por todo o corpo de Duda, dando um aspecto de pele lisa, cabelos que timidamente escondiam seus seios. Aquele momento era apenas meu e não exigi de mim controle algum.
Infelizmente, Duda percebeu toda minha admiração se tornar visível e desde então nunca mais compartilhamos os momentos de limpeza. Daquele dia só me restam lembranças.
Em fevereiro de 1968, recebi um convite de um amigo da família para um baile de máscaras, aquelas orgias carnavalescas que nos oferecem a carne em troca do vinho, prontamente aceitei. Não havia ninguém que pudesse me impedir de participar, aja vista que meus responsáveis estavam viajando.
Na noite dos prazeres, quando entrei no salão, pude sentir o cheiro da luxúria banhada em bebidas fermentadas, era como um odor narcótico, tão logo era inalado já lhe causava efeitos. E eu havia sido contagiado.
Uma moça se aproximou de mim, sua máscara era simples e não chamava muita atenção. Da boca daquela mulher não saíram palavras, apenas beijos franceses e mordidas fortes e excitantes, todas endereçadas a mim. Se a luxúria se personificasse e nos observasse transando, certamente, teria inveja e passaria ser o primeiro pecado pecador.
Quando tudo acabou, fui para casa, pensativo e satisfeito, finalmente na face da terra tinha uma mulher capaz de tirar da minha cabeça os meus desejos torpes com minha irmã. Mas qual seria o nome dessa mulher? Como seria seu rosto? Eu não sabia, meu único alento era que ela também poderia estar com a mesma angústia, caso quisesse me encontrar de novo.
Chegando em casa, vi a luz da sala acesa. Seja lá quem fosse não iria estragar minha felicidade, me repreendendo por ter chegado tarde em casa ou coisas bobas do tipo. Entrei. Era Duda. De costas. Foi se virando.
- Meu irmão! Acabei de chegar de viagem! Foi o melhor carnaval de todos.
Ela estava com uma máscara nas mãos.
Atualizado em: Seg 29 Abr 2019
