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Sentiu O Que Perdeu?
O celular tocou. Nívia ouviu a voz do outro lado e suas pernas tremeram. Reconheceria aquela voz a qualquer tempo. Ficou um segundo em silêncio e pensou no quanto esperou esta ligação no passado. Ele insistiu. Ela respondeu ainda um pouco atrapalhada. Viu-se a mesma menina de dezessete anos que se sentia sem palavras diante dele. Mas conversou sem deixá-lo perceber que estava toda trêmula.
Ao desligar ela reviu seu passado. Quase trinta anos se passaram desde aquela época. Conhecera Lauro em uma noite qualquer em um barzinho. Olharam-se quando ela passou. Na volta ele a puxou pela mão. Conheceram-se, conversaram e começaram um namoro. Ela quase uma adolescente, tímida, menina bobinha do interior. Ele, sete anos mais velho, estava ali a trabalho.
Ela se apaixonou perdidamente, ele se mostrava apaixonado, mas era um homem cheio de traumas e reservas. Era sombrio, enigmático, triste, amargo. Falava por meias palavras. Ela não entendia o seu jeito de ser, estava pronta pra amar e gostava das palavras claras e cristalinas. Era muito jovem e queria esperar o momento em que se sentisse segura para assumir um namoro mais sério. Ele a acusava de imatura e puritana.
Foram seguindo assim por quase dois anos. Ele a magoava e ela perdoava, ele sumia por dias e quando voltava ela o recebia. Ele dizia que precisavam se afastar, mas quando um outro se aproximava dela, fazia uma cena de ciúmes. Até que ela sentiu-se curada daquela paixão colocou um ponto final no relacionamento.
Agora ela estava divorciada e ele também. E de repente liga querendo uma conversa, um jantar. Ela nem sabia o que dizer. Nem sabia se ainda restava algum sentimento ou atração de tudo que um dia sentiram. Conversaram outras vezes por telefone. Até que marcaram um encontro.
Eles se olharam. Não mudaram tanto assim. Ele nem acreditava no que via. Ela estava deslumbrante. Depois de tantos anos sua beleza estava ainda mais cativante. Tímido e inseguro que sempre foi, sentiu-se trêmulo. Ao ver que ele ainda continuava o mesmo, ela sorriu. Já não era a garota tímida de quando o conheceu. Ele ainda era um homem bonito e charmoso, talvez mais charmoso com o passar do tempo.
Cada um viveu sua vida. Amores, carreiras, sonhos, experiências. E agora estavam ali frente a frente. Eram livres. Algumas cicatrizes, decepções, vivências boas e ruins. Conversaram muito. Tentavam saber onde ainda era seguro pisar. Falaram sobre muitas coisas, mas o que importava era o que pulsava nos silêncio, nos olhares, no arrepio da pele.
Ele ainda era contido, continuava carregando a delicadeza quase dolorosa de quem sente demais e diz menos. Ela era uma mulher segura, dona de si, mas não demonstrava que estava ali implorando por um toque, um beijo. Vieram outros encontros, vieram os toques, as vontades que não conseguiam mais disfarçar. Adiavam estar sozinhos e nem entendiam porque. Queriam que tudo fosse perfeito. Não havia pressa.
E por fim decidiram que era hora de ir pra um lugar só deles. No quarto, a luz tênue parecia conspirar a favor da paixão. Ele aproximou-se devagar e beijou sua boca. Ela gemeu baixinho e o abraçou. Sem pressa se despiram, se tocaram, se beijaram, cada carícia era um sonho que demorou muito pra se realizar. Havia uma sintonia em seus corpos, era como se já se conhecessem desde sempre. Estiveram ali se tocando e se amando por longas horas. Como se não houvesse amanhã.
Quando ele acordou, o quarto já não guardava o calor da noite anterior, a cama estava vazia. Sobre a mesa um bilhete. Suas mãos tremiam ao abrir:
“Sentiu o que perdeu? Era só o que eu queria.
Que você soubesse o que poderia ter vivido comigo e preferiu outro caminho.
Quando me conheceu, eu era apenas uma garota tímida, ingênua, boba.
Poderíamos ter crescido juntos e alimentado aquele amor tão lindo que sentimos. Aprendido sobre a vida e sobre nós.
Você não conseguiu compreender que uma mulher tem seu tempo, que ela precisa se sentir segura e preparada para se entregar a um amor.
Pra você era só o momento e o prazer, para mim era construir o momento certo, estar pronta pra me dar a você sem arrependimento, plenamente.
Hoje sou uma mulher segura, completa, resolvida. Quanto a você… ficou pelo caminho.
O que eu queria, experimentei esta noite. Foi sensacional. Mas não sou pro seu bico.”
Ele leu e releu várias vezes. O silêncio pesou como nunca. Com o bilhete ainda entre os dedos deixou que a verdade o atravessasse sem defesa:
—Eu sempre te amei. — disse em voz alta, como se ela pudesse escutar. O quarto permaneceu em silêncio.
Do outro lado da cidade, ela sentia a água quente do chuveiro tocar seu corpo com a mesma calma com que deixava o passado e as mágoas irem embora. Não se arrependia do que fez. Precisava se libertar da sensação de que algo ficou inacabado. Precisava sentir a liberdade do encerramento. Já não havia mágoas nem raivas contidas. Houve sim uma noite alucinante em que viveu tudo o que sonhou por anos a fio. E o ciclo se fechou.
Atualizado em: Qui 27 Ago 2026
