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Os três últimos jogos da Alice

Uma área rural, menos povoada, costuma atrair mais bestas. Especialmente quando é abandonada, como aquela fazenda era. Havia alguns pés de milho, abóbora e feijão que sobreviveram o último ano. Estavam fadados a morrer ano que vem, é claro. Essa plantação principal era cortada no meio por uma estrada de terra batida. Ou lama, no verão. Já era noite de junho quando o carro preto, prestes a atolar, chegou ao local vazio e quieto. Esse carro moveu-se sobre a terra sem balançar — como sobre gelo — e perfeitamente estacionou em frente ao casebre abandonado. As janelas eram sombreadas, então só quando o motorista abriu a porta e saiu junto de seu assistente que seus rostos se fizeram visíveis para os coelhos que comiam os restos da plantação.
O ajudante quase escorregou em uma poça. Ele se segurou na porta do carro e arrumou seu terno ansiosamente. Então checou o seu revólver, se certificou de que estava carregado e virou para seu chefe. Parece que era a sua primeira vez em uma missão em campo, por isso tocava em seu equipamento compulsivamente. Também estava a cada segundo tirando o cabelo da frente dos seus olhos com aquelas mãos fraquinhas. Enquanto o aprendiz tinha uns 160 centímetros de altura e poderia cair com uma brisa, seu supervisor era uma geladeira eletrolux. O terno que ele usava era antigo e não cabia nele a esse ponto. Talvez tivesse recebido esse terno no começo de sua carreira, já que seus cabelos grisalhos médios em rabo de cavalo e duas cicatrizes paralelas no rosto fariam sentido com essa teoria. Além da roupa formal — uniforme obrigatório para esses dois agentes —, ele também tinha um revólver, uma adaga escondida e um monóculo com armação de prata, que era limpo religiosamente. Naquele momento, o monóculo estava no seu bolso, onde ele colocou com muito cuidado. 
— Sabe, eu sempre achei estranho que nós somos obrigados a viajar de carro. A maioria do nosso trabalho é nessas áreas rurais, eu diria que faz mais sentido cavalgarmos ou viajarmos de bicicleta. Mas é claro que a central discorda de mim… Aqueles jovens… — Toda fala dele era cortada por uma tosse, uma doença leve que ele acabou contraindo. — Bem, só de estar aqui, eu consigo sentir que há um. Sabe, essa é uma coisa que você eventualmente vai perceber. Dá pra sentir o cheiro. Não do apodrecimento, mas das coisas em si. Mesmo sem o monóculo eu consigo perceber.
— Mas é? Eu cresci nessa região e parece tudo normal, tem certeza? — O ajudante raramente entendia.
— Talvez seja apenas uma intuição, mas os muitos anos de trabalho que eu tive me apuraram o olfato, então agora eu não consigo não perceber um leve odor característico. Me pego realizando alguns trabalhos mais simples sem nem usar o monóculo, de fato. — Ele estava olhando para a lua minguante, como se estivesse lembrando de alguém que o abandonou muito atrás. — Mas é claro, deve sempre se lembrar: O monóculo faz você ver a realidade, mas ele não faz você cheirar ou ouvir a realidade. 
— Sim, eu ouvi as palestras com muito cuidado, as ilusões podem afetar todos os sentidos, até mesmo além dos 5. Embora eles também disseram que geralmente é um ou dois sentidos por indivíduo.
— Ah, então você prestou atenção? Sabe, foi o meu mestre que coletou uma grande parte da informação que é usada ainda hoje. Ele era incrível, eu só vou dizer isso. — Ele tossiu e suspirou, arrumando as luvas que não cabiam em sua mão. — Uma pena que ele desapareceu misteriosamente.
 Os dois falaram tudo isso andando em direção ao casebre. Apesar de ser de alvenaria, estava mal acabado, caindo aos pedaços. As paredes sequer tinham reboco, as janelas estavam barradas. Pior, não havia porta em lugar algum. O mestre colocou seus monóculos e estreitou os olhos, como se perscrutando a escuridão da parede. Tirou seu revólver, o carregou com toda a calma, empunhou com uma técnica perfeita, e atravessou a parede, andando como se ela não existisse. É sempre uma surpresa quando tijolo e cimento agem como ar, como vácuo. Aquela parede vazia era um exemplo de uma das ilusões bizarras, que o monóculo de Çõwina do chefe consegue apagar. O seu aprendiz o seguiu, passando pela parede. O interior do casebre estava vazio. Nenhum ruído, nenhuma luz, apenas um cheiro de apodrecimento. Mas, como antes, o chefe chutou um pouco acima do chão. Apareceram troncos podres e cortados como lenha, infestados por um fungo ciano entranhado na madeira.
— Sim, exemplo perfeito da técnica de alimentação. Agora, meu caro aprendiz. Essa é uma sala sem muitos obstáculos. Claro, essa noite está escura, mas não há nenhuma criatura escondida na escuridão, eu acho que ainda consigo perceber essas coisas. Não há sótão ou porão, nenhum buraco no teto ou chão. Portanto, onde a nossa presa está? Claro, ela está assustada, nunca deve ter acontecido na vida dela que uma ou duas pessoas atravessaram uma ilusão com tanta confiança. Ela não consegue me atacar, certamente, mesmo que queira tanto.
— Bem… Não sobra muito espaço… Eu não sei, onde estaria a nossa presa. — O mestre atirou para cima, ainda encarando o seu aprendiz. Do teto, que não era lá tão alto, caiu um ser humanoide de cor pálida azulada. Ela tinha os olhos vesgos, orelhas pontudas, garras e dentes caninos e molares muito desenvolvidos. Embora tomasse uma forma humana, não seria estranho a chamar de besta, se arrastando pelo chão e uivando de dor. — Elas também conseguem escalar as paredes?!
— Elas conseguem muita coisa. Eu entendo que essa é a sua primeira missão, e você só aprendeu teoria até o momento. A próxima coisa que precisa aprender é estacar exatamente onde o coração de um humano ficaria. Se não fizer isso, ela geralmente pode só curar qualquer dano. — ele falou, com toda a calma, pisando sobre a criatura, sacando a sua adaga e fincando nela, ignorando os ensaios de arranhão e o sangue similarmente azulado espirrando para todo lado. — Esse é o núcleo do fungo simbiótico, digamos desse modo. A coisa importante é que se sair azul suficiente desse núcleo, o bicho morre.
— Estranho, ele não estava fraco demais? Eu li que esses “Teitê” conseguem levantar carros e dobrar metal, e você pisou nesse quase sem nenhum esforço…
— Depende da idade, geralmente. Esse devia ter uns três anos, no limite. Geralmente é assim mesmo, eu não lembro de nenhum Teitê desses que passou de uns vinte anos. Agora vamos, me ajuda a botar o corpo no carro, a minha coluna tá me matando. — Os dois levantaram o corpo e levaram até a mala do carro, onde também colocaram os troncos em decomposição dentro de sacos especialmente preparados. A brisa da noite levou o cheiro de podre direto às narinas do assistente. De fato, sem a ilusão dessas criaturas, é pateticamente fácil as encontrar. Quando ele ia fechar o porta-malas, o supervisor segurou sua mão e apontou uma última coisa. — Muito importante. Esses bichos se acham bons, e tentam se disfarçar entre os humanos. Botam roupas, escondem as garras, botam chapéus e fingem fazer um trabalho qualquer. A maioria não é assim, a maioria parece um humano à primeira vista. Mas no fim, são criativos. Nunca pare de prestar atenção, entendeu? Eu já vi um desses bichos em um show de horrores de um circo itinerante ilegal.
— Então eles costumam viver em cidades? Faz sentido, se comem humanos. — O supervisor soltou uma boa risada, tão alta que espantou os pássaros comendo o milho ao redor do carro. — Não? Eu errei?
— Eu só encontrei uma dessas criaturas em uma cidade grande, geralmente elas estão em vilas muito menores. E essa coisa de comer gente não é feita por eles desde pelo menos uns cinquenta anos, eu acho. O meu mestre me falou que não via tanto essa coisa como antes. — Eles entraram no carro, o supervisor no volante de novo. — Olha, de acordo com o que eu li e com a experiência, os massacres ocorreram de verdade lá no começo da invasão, pra 1916 até mais ou menos a década de vinte. Ao longo do tempo, os bichos foram parando. Não sei direito por quê, mas é isso. Agora vamos para— Aaaaaah! Ai…
— Aconteceu alguma coisa, chefe?! — Ele agarrou o seu peito de repente, algum mal súbito acometeu o seu coração. Socou o peito. Estava melhor. Suando, respiração pesada, braço dormente, mas melhor. — Não quer que eu dirija?
— É melhor. Esses ataques, do nada, eu tenho que ir logo ao médico.
Assim eles dirigiram de volta para a cidade de São Paulo, atravessando as ruas de forma completamente cotidiana. O supervisor estava bem preparado, tinha materiais para disfarçar o cheiro, então ninguém suspeitaria deles no caminho. De fato, a viagem foi muito tranquila, os dois voltaram jogando joguinhos de estrada, como com meus olhos eu vejo… O assistente sentiu que aquela era a vida que ele queria ter, especialmente com o que ele vivia antes. Aquilo, mesmo com o sangue, era paraíso comparado àquela casa. Por fim, chegaram num prédio comum, estacionaram na garagem e o instrutor foi a uma porta escondida. Bateu quatro vezes, de dentro saíram dois agentes idênticos. Antes que o assistente pudesse se dar conta, o carro foi descarregado e limpo de quaisquer vestígios. O aprendiz estava apoiado na parede, olhando pro processo, até o mestre passar, afrouxando a gravata, e os dois fizeram um toca aqui.
— Eu sei que você foi despejado de casa, não tem muitos caçadores aprendizes com uma. Por isso, vai passar essa noite na minha. Aliás, você tem que puxar um ferro, eu quase quebrei o seu braço com esse toque. 
O assistente, de nome Miguel Ferreira, seguiu o seu instrutor Manoel José. Geralmente não se diz não ao chefe, é claro. A casa do Manoel era próxima, a apenas três quadras de distância. Não era exatamente grande. Ou uma casa. Era um apartamento de dois quartos e um banheiro. No caso, uma sala de estar/jantar e cozinha mais um banheiro e um quarto. Ainda assim, ele construiu uma boa vida nessa fração do mundo. Quando chegou, o Miguel se jogou no sofá, exausto. Ainda tinha que revisar tudo que tinha aprendido. Deixaria isso para amanhã ou depois de amanhã. Manoel, enquanto isso, estava como sempre. Com um rosto em repouso sério e duro, olhando para cinco garrafas de álcool.
— Hm, eu tenho um vinho Bordeaux de 1991, que meu mestre me deu quando eu matei o meu primeiro Teitê. Vai ter que me desculpar por eu não ter um Bordeaux 2026 para te dar, mas acho que a gente devia abrir esse prêmio antigo para comemorar a sua primeira missão em campo.
O Miguel concordou na hora e bebeu uma taça e meia. Ficou um pouco grogue, mas ainda bem. Enquanto isso, Manoel tomou todo o resto da garrafa e parecia tão sóbrio quanto antes. Falou de missões do começo da sua carreira a noite toda, até depois do Miguel revirar os olhos de sono. Quando este precisou ir ao banheiro, o Manoel também se levantou e foi até a porta da frente. Quando o Miguel voltou à sala de estar, viu seu mestre lendo uma carta.
— O que tá escrito aí?
— Resultados do meu teste. Sabe, da tosse e dos ataques do coração?
— Ah, e descobriu por quê? Pode só ser coisa da idade mesmo, não?
— É um pouco estranho. Eu não sou idoso ainda, então pedi à central um exame médico. Deixa eu ler o resultado — Ele rasgou o envelope, abriu a carta e leu. Seu rosto foi de sério para preocupado. 
— O que é? É doença de velho mesmo?
— Hã? Ah, não. — Ele guardou a carta de volta no envelope e colocou dentro de um armário perto da entrada. — Não, não, é que eles não conseguiram achar uma causa… Deve… Ser coisa de velho mesmo. Só pode ser coisa de velho.
— Ah, tá bom. Bem, eu vou preparar o meu colchão e dormir, tá?
— Hm? Sim, claro, vá em frente.
O Miguel dormiu sedado aquela noite, em um sono profundo como um submarino. Enquanto isso, Manoel não pregou o olho a noite toda. Talvez ele precisasse que o quarto estivesse um pouco mais escuro? Bem, de qualquer modo, contou todas as manchas no teto do quarto.
A mulher acordou no quarto totalmente escuro de sempre. Todos os dias, ela acorda pálida e desgrenhada como um cadáver afogado. Nesse dia específico, a sua namorada estava ao seu lado, em um sono de pedra. Tinha vindo ver o jogo do Brasil e fugir da sua casa. Bem, tanto faz. A mulher ficou de pé e foi ao banheiro, tomou uma ducha rápida e começou o ritual diário. Escovou e checou os dentes, as orelhas — que são uma insegurança para ela — e liberalmente passou protetor solar e uma base bege.
Ela sempre foi muito pálida, provavelmente por adorar as trevas. Não as figurativas da sua cegueira, mas locais escuros literais. Suas cortinas costumam estar sempre fechadas, ela era uma bióloga que estuda fungos. De fato, tinha caixas espalhadas pela casa, cheias de amostras de um fungo que ela estava estudando. Apalpou o corpo todo, checando em busca de quaisquer imperfeições. Até que duas massas de gordura apareceram em frente ao seu rosto.
— Bom dia, flor do dia. Dormiu bem? — A jovem namorada da bióloga se apoiou em sua cabeça. — Hoje você não tem aula na universidade, né? Quer fazer alguma coisa?
— Ah, eu estava me sentindo um pouco… Animada, sabe? Queria fazer um pouco de… Exercício… — ela falou, de modo sedutor.
— Bem, hoje parece um bom dia para ir a um parque, não acha? — A jovem se jogou na cama, não muito interessada. — Não quer? Eu queria andar um pouquinho hoje. 
— Ai, tá bom, pode ser, mas eu acho chato.
O nome delas era Maria Laura, que estudava análise de dados, e Alice Costa. Bem, esta não recebeu um verdadeiro nome de nascença. Por muitos anos, a maior parte de sua vida, foi chamada de Teek!yyk!y. Mas tantas quanto, Pynqbok!yy. Ela já tinha vivido por muitos destes anos, então acabou assumindo alguns nomes. Maria, ou Malau, como era carinhosamente chamada por alguns, só sabia o nome mais recente: Alice Costa. As duas se vestiram, Malau com um lindo traje digno de passarela de um dia de outono. Alice, entretanto, colocou uma camisa de manga curta e um shorts. As duas então andaram um pouco e chegaram no Ibirapuera.
O sol daquele fatídico dia não estava forte, mas gentilmente morno. Junto de uma brisa e da vegetação local, era um dia de clima perfeito. No parque, além do casal previamente mencionado e diversas pessoas de todos os tipos e sabores, havia uma dupla que parecia pai e filho, sentados tomando sorvete. O “pai”, vestindo uma camisa social e gravata frouxa, tomava sorvete de chocolate belga amargo, parte que ficou no bigode e barba. Ele ainda estava com o monóculo em um bolso da camisa, é claro. O “filho” estava de bermuda, sandália e regata, tomando sorvete de pistache. Diferente do “pai”, ele não estava com o equipamento de trabalho, o revólver e a adaga.
— Você sempre usa roupa formal? De camisa e gravata, no dia de folga. Eu nem vi nenhuma roupa casual no seu armário.
— É, eu trabalhei tanto que só tenho roupa desse estilo. Você vai entender quando…
Ele virou para a direita, na direção oposta do seu aprendiz, já com a mão próxima do revólver escondido, deixando o sorvete cair. Na calçada, em frente ao banco, passou um casal. Duas jovens, uma delas cega, andando com uma bengala e óculos escuros. Por algum motivo, parecia que o Manoel ficou fissurado na cega?
— O que aconteceu? Que que tem?
— Quando as duas passaram, eu senti cheiro de Teitê. — Uma pausa. — É a cega. — O Miguel olhou para as duas pessoas completamente normais e seu mestre, que colocou o monóculo e não viu nenhuma ilusão. Apenas mais confusão e preocupação para o coitado. — Tenho certeza absoluta, veja o andar dela.
— O que? Parece bem normal. Talvez um pouco rápido para alguém que precisa de bengala pra andar, mas ainda assim.
— Presta atenção. Esse andar é perfeito demais. É como se um físico estivesse desenhando um passado ideal com régua e compasso… Como se ela tivesse treinado anos para tirar todos os defeitos… Ou seja, falso.
— Não tem nada de especial, é só um andar completamente genérico.
— Exatamente, completamente genérico, é o mais genérico possível. Algo que não apareceria na multidão… Olha, você só viu um Teitê na sua vida, eu tenho certeza. — Ele ficou de pé e desfez o rabo de cavalo, afrouxou mais a gravata e virou para seu aprendiz, o puxando. — O que você trouxe para o parque? Só o celular?
— Não, só a câmera analógica instantânea do meu avô.
O Manoel arrancou a câmera e andou até as duas. Algo estranho, que só o Manoel percebeu, foi que a cega o notou antes da sua namorada. A Alice também sentiu um cheiro estranho, mas que não fazia sentido para ela, não conseguia nomear ou apurar. Talvez, na verdade, fosse um cheiro que ela sempre sentiu, e de repente sentia de um lugar que ela não reconhecia.
—  Oh, que lindo casal! Sabe eu acho que esse é um dia tão lindo, queria perguntar se vocês querem uma foto instantânea, não? — Ele, misteriosamente, fez um sotaque italiano perfeito e o cabelo solto ficou bem na frente das suas cicatrizes, que começavam nas têmporas
— Desculpa, moço, eu não tenho dinheiro… — a Malau ensaiou 
— Não, é que eu presto muita atenção na comunidade LGBT, o meu filho faz parte dela, e eu queria fazer uma bondade hoje, sabe?
— Ah, mas a gente tá com pressa…
— Pressa pra quê, querida? O homem só quer tirar uma foto, tudo bem, pode tirar. — A Alice, com muita experiência, quis ver onde isso ia levar.
— Bem, tá bom, pode ser.
As duas se abraçaram e posaram para a foto.
— Digam xis! – Dois lindos sorrisos. No caso, o da Alice estava impecável, enquanto o da sua namorada tinha até um dente faltando. A foto saiu perfeita, embora só a Malau pudesse apreciar.
— Aliás, o seu filho é de que parte da comunidade LGBT? — a Malau perguntou.
— Ah, ele tinha dito algo sobre aroace? — Tudo invenção. Já estava planejando como verificar o próximo sinal de Teitê. — Eu não lembro direito. Mas os seus brincos, são tão lindos! A outra senhorita não usa?
— Ah, obrigada! — a Malau respondeu.
— Não, eu não gosto da ideia, não tenho nem furo. — Ela mostrou a orelha. Também perfeita em curva e massa.
— Ah, sim. E as unhas, também, estão perfeitas, pintadas de roxo! — As unhas da Alice eram também literalmente perfeitas. 
— Eu tenho muito o costume de roer elas, então nem passo esmalte… Só iria pro estômago, sabe? — Léguas de diferença de irregularidade na ponta dos dedos da Malau comparada com a Alice.
Assim, o Manoel foi quase que forçado a recuar. “Nenhuma ilusão. Ela não exibe nenhum dos sinais. Sem garras, as orelhas nada pontudas, falta de olhos para serem vesgos… Só tenho o cheiro e esse instinto de que algo é perfeito demais.” Um fracasso. Teek!yyk!y já confrontou cinco caçadores em sua vida, e quatro vezes eles perderam todas as suas suspeitas na hora. Esse seria o sexto. “Claro, é só lixar os molares e caninos, as garras e cortar parte da orelha, para depois forçar a regeneração de um jeito específico. E arrancar os olhos, é claro. Coitado, esse é obstinado, vai ficar obcecado por… Uns três dias, eu diria. Quer saber, é um espécime interessante. Acho que vou brincar um pouco com ele.”
— Bem, muito obrigado, V… — Ele mal conseguiu manter a compostura. De trás dele, ouviu uma voz falando “Qii”, de novo e de novo. Parou como se alguém passasse uma lança pela sua espinha.
— Ah, quer tomar sorvete, querida? Acho que tem uma barraca logo ali.
E as duas passaram ao redor do caçador atordoado e confuso, que estava cerrando o olho em seu monóculo. As ilusões dos Teitês são ouvidas e vistas por todos que podem as perceber, já que são indiscriminadamente liberadas através de esporos ao ambiente. Mas aquela Teitê não era chamada de Teek!yyk!y por qualquer motivo. Ela fez os sussurros terem como origem as orelhas do Manoel, logo atrás delas. Geralmente, os Teitês não têm um controle tão fino de suas ilusões, e uma vasta maioria não consegue criar sons, que dirá palavras e frases articuladas. O Manoel se viu com as pernas bambas pela primeira vez em décadas. Ainda assim, sentia sua experiência pesar, mesmo em um momento tão depressivo. Apesar do monóculo não poder filtrar alucinações sonoras, ele ainda conseguia identificar, mesmo sem o contexto, que essa voz era uma ilusão.
— Thun runpa qbaanqbuntire thaa kaxin xxon zaanfy qdu nik!o, qgaakbiqbure qii qii ma kafe wimatuutuu, thun xxuwa xasate, thun qgoonkbiin zethi zeekuuk!a qdu qiink!yy. — Ele ouviu com atenção. Aquela era a língua nativa dos Teitê. Ao longo do tempo, com muito estudo e interrogação, ele acabou aprendendo. Era um desafio, provavelmente a sua melhor opção. Mesmo se ele tivesse provas absolutas que a Alice é um Teitê, tirar o revólver e a adaga em plena luz do dia seria insanidade. O Miguel chegou para seu mestre, já tendo tomado o sorvete. 
— Ah, você tinha derrubado o seu sorvete… E então, ela é só uma pessoa mesmo?
— Sete horas no café Imaruru… Parece um desafio. Miguel, acho que vou precisar ir sozinho. — Ele até esqueceu de arrumar o seu traje, que bagunçou para o disfarce. 
— E você vai cair nessa armadilha tão óbvia? É maluco?
— “Não importa a tempestade fora ou dentro de nossos corações, não importa as chances se acumulando fatalmente contra nós, todo caçador de Teitê deve tomar qualquer oportunidade que se apresentar.” Nós fizemos esse juramento, lembra, garoto?
Para todos os espectadores, as duas tomaram sorvete e foram para casa. Mas a verdade é que elas andaram até o nada, agiram como se existisse um caminhão de sorvete e saíram lambendo o ar acima de suas mãos. Todos as viram como normais, todos exceto o Manoel, que usava o monóculo de Zonwik!a. Ninguém acreditaria nele. Elas voltaram para a casa da Alice, e esta fez mais outra ilusão, de que as duas tiveram uma agradável “noite” de amor em pleno entardecer. Quando estava dormindo bem cedo, saiu às cinco da tarde.
O dia estava colocando o pijama quando Manoel saiu de casa, de terno e gravata, seu traje habitual. Ele entrou no metrô, muito ansioso, e desceu em uma estação próxima. Andou duas quadras e virou à esquerda e viu o café Imaruru, e a Alice em frente a ele. Ele se aproximou, com um toque de confiança, embora frágil. Uma leve brisa atravessava o terno dele, mas o frio do ambiente não conseguiria justificar a quantidade de frio que o Manoel sentia de fato. Nem uma ilusão da Teitê justificaria. Era apenas ele, uma parte que nunca conheceu de fato, gritando para ele que aquela não era uma situação em que ele queria estar, não era uma situação em que ele poderia estar. Ainda assim, o caçador avançou contra a presa.
A Teitê estava com o relógio de pulso ao lado do ouvido, ouvindo com muita atenção. Esse relógio contava também os segundos, fazendo um ruído audível ao portador. Ao “ver” o Manoel, tirou o relógio do ouvido e colocou seu rosto na direção de seu oponente, como se o vendo de longe e apenas esperando. Ela usava algo que não condizia com o clima da situação, uma camisa de manga curta e casaco amarrado na cintura, e uma saia média com um shorts por baixo. E uma sandália sem meia, claro. Naquele momento, fazia quinze graus, mas ela não tremia nem parecia se aquecer. O Manoel chegou até ela, os dois na mesma altura, um olhando fundo para a sua oponente, até ela começar a falar.
— Sete e um minuto. Eu acho que deixei bem claro quando falei antes da segunda sete… Irei assumir que é um suicida, me insultando assim. — Diferente de antes, que tinha um tom sereno e entretido, naquele restaurante ela parecia estar tratando da aquisição de um competidor. — Eu espero que você consiga aprender a ler o relógio. Se não, você poderá figurar em uma tragédia.
— Me desculpe, senhora, o metrô atrasou, eu fiquei parado em uma das estações por um bom tempo. — Os dois estavam bem cientes de que aquilo era uma mentira, e a Alice demonstrou essa informação com um simples sorriso de canto de boca. — Já fez uma reserva para uma mesa?
— Esse não é um restaurante francês seis estrelas Michelin tradicional, não tem como reservar uma mesa. A gente entra, pega uma mesa pra dois e pede. Eu não desperdiçaria o meu tempo com esse tipo de tarefa irrelevante. Já desperdicei demais do meu tempo.
O Manoel sentou em uma mesa próxima à saída primeiro, e a Alice o copiou, se sentando à sua frente. Ela colocou uma pasta que estava carregando em cima do seu colo e a abriu, calmamente tirando um tabuleiro de dentro dela. O Manoel só podia estar tenso perante essa oponente, que meticulosamente separava pecinhas de três cores, ignorando o açougueiro que já havia trucidado incontáveis de sua espécie, alguns sem sequer suar. Por isso ele tentou acalmar a situação para si.
— Você disse que já desperdiçou demais do seu tempo, não é como se os Teitês vivessem muito tempo, não é? Todos os que eu encontro falam que viveram algo em torno de um ano. Eu ficaria surpreso se você me dissesse que sobreviveu por muito tempo. Especialmente em uma área tão populosa. 
Ela sorriu assim que o Manoel começou a falar. Novamente, os dois sabiam que ele estava enganado, os dois sabiam que ela não era um bebê. As ilusões eram o sinal mais óbvio, o Manoel nunca viu algo daquela complexidade. Para deixar mais claro, a Alice parecia ser uma pessoa com a aparência de vinte ou vinte e cinco mas a idade real nos trinta. 
— Ah, talvez eu seja um pouco uma raridade. Bem, deixe-me colocar em termos que você consegue compreender… Eu lembro da última vez que o cometa Halley apareceu no céu. Bem, você também lembra. Mas eu acho que tem mais… Sim, eu lembro de ver em 1962 o teste da Tsar Bomba. Foi bem interessante… Falando nisso, acho que eu lembro de ler no jornal da época falar das bombas de Hiroshima e Nagasaki. Mas claro, acho que tenho algo de mais interessante para falar: Eu me lembro de quando a grande guerra acabou.
Ou seja, quase um século. Ela não deixou claro o ano exato, e talvez só não soubesse, mas essa era uma quantia aterradora. Um humano da idade dela devia estar doendo só de sentar naquela cadeira de banco ruim, mas ela parecia não se importar. Ela tinha uma namorada universitária, para exagerar tudo mais.
— Ah… Eu não consigo acreditar nisso…
— Não é uma questão de acreditar. Assim como muitos filósofos afirmam, uma árvore que cai em uma floresta vazia fará barulho. O ar vibrará e as moléculas mudarão, mesmo que você não esteja ciente.
— Mas… Não… Como você sequer sobreviveu? Eu chequei todos os sintomas, e você é quase que idêntica a um humano… Sem usar nenhuma ilusão.
A Alice apoiou seus dois braços sobre a mesa e recostou o seu queixo em suas duas mãos. Até tomou todo o cuidado para que não bagunçasse o tabuleiro e as peças que arrumou tão organizadamente. O sorriso, um ensaio de sorriso, se recusava a sair de seu rosto, zombando de seu inimigo impotente.
— Na verdade, eu diria que foi mais sorte do que qualquer coisa. Eu havia brotado bem no meio de um cafezal, e o dono da fazenda ficou muito interessado. A senzala ia ser demolida, já que não era usada faz um tempo, mas ele me trancou lá. Eu não gostava na época, mas aquela foi a melhor decisão que ele podia ter tomado. Nunca contou para ninguém que tinha aquela criatura, e ao longo dos anos, só me ensinou tudo que eu precisaria para sobreviver. Me ensinou como lixar os dentes, as orelhas, arrumar o andar, sobreviver sem as ilusões. Bem, na época não existiam caçadores e seus monóculos, mas ele percebeu que essas ilusões não apareciam em fotografias, então fez com que eu me escondesse sem aqueles “truques baratos”. Quando eu cheguei aos meus dez anos iluminada pelo sol, ele não conseguia mais andar e cuidar de mim, então eu fui contratada como uma criada, exclusivamente para cuidar dele. Acho que a esposa havia falecido a muito, então eu passava muito tempo ao lado da sua cama. Os seus três filhos basicamente o abandonaram, então eu na verdade recebi uma boa parte da herança em dinheiro… Bem, isso é o que me lembro. Me desculpe se falei muito, apenas queria relembrar esse tempo tão nostálgico.
Aterrador. Ela havia vivido por quase um século? Ele sentiu todos os pelos do corpo eriçarem, sem certeza absoluta do motivo. Tentando ignorar seus instintos, ele colocou a mão em cima do tabuleiro de quadriculado de madeira, como de xadrez.
— Esse é o jogo nativo dos Teete, o Naank!yyruun. — A Alice percebeu na hora que o Manoel estava olhando para o tabuleiro, embora ele estivesse em completo silêncio. — Já deve até ter visto alguma vez e achado que era damas. Não é a mesma coisa, claro. O Naank!yyruun é um jogo muito popular entre os Teete Thoon e Moqy, embora haja um pouco de diferença entre as suas versões. Enfim, como muitos jogos de tabuleiro, ele acabou sendo usado para muitas coisas. Ensinar estratégia para crianças, mostrar superioridade de raciocínio entre nobres e até para resolver disputas entre indivíduos ou clãs. Eu queria testar o quão forte você é em um jogo simples como esse. 
— Ah… Claro, eu posso jogar com você, mas não conheço as regras.
— Sim, esperado. O Naank!yyruun não é tão famoso entre os humanos. Bem, ele originalmente não era jogado em um tabuleiro quadriculado, mas quando eu fui “publicar” o jogo, percebi que ele pode facilmente ser jogado em um tabuleiro de xadrez, se metade dos espaços não forem usados. O objetivo é levar uma peça da sua cor até a linha do seu oponente. Digamos que eu seja as brancas. O meu objetivo vai ser levar uma das minhas peças da linha 1 até a 8, e vice versa. 
— Esse jogo é tipo xadrez? Eu não gosto muito de xadrez, acho muito complexo. — Assim que ela começou a explicar, ele perdeu todo o interesse. Ele só queria matar aquela Teitê e acabar com tudo aquilo. E aí passar para o próximo.
— Não, é mais próximo de damas ou mancala, tem só três tipos de peça: os guerreiros de cada time e o gado. No seu turno, você pode colocar uma nova peça, guerreiro ou gado, na sua linha de casa, ou mover uma pilha toda. Você move uma coluna pegando todas as peças em um quadrado, movendo ela para uma das quatro direções, deixa a peça de baixo da pilha onde você moveu e repete até acabar. Você só pode mover uma pilha que tenha um guerreiro seu em cima do guerreiro do seu oponente, ou se só tiver guerreiros seus.
— Eu não entendi…
— Tudo bem, vai entender quando começarmos a jogar. Ah, mais uma coisa: Dá para empilhar peças, quando uma peça ocupa o mesmo que outra, ela só fica em cima. Cada pilha só pode ter três gados e dois guerreiros no máximo, e para ter dois guerreiros, precisa de pelo menos um gado. Depois de um jogador terminar a sua jogada, as colunas que estiverem infringindo essa regra perdem a peça no topo da coluna até não infringir a regra mais. Pode começar.
Ela já tinha preparado o tabuleiro, colocando dois gravetos bloqueando metade das colunas. Então eles só jogaram nas colunas A, B, C e D, mas em todas as linhas. O Manoel colocou um gado na sua linha do tabuleiro mais à esquerda possível. Todas as três peças eram de damas, os guerreiros do Manoel eram brancos, os guerreiros da Alice eram pretos e os gados eram bege.
— O que você jogou? Eu não consigo ver o tabuleiro, você tem que me falar as jogadas usando o sistema de coordenadas como no xadrez. É só ler a legenda no canto do tabuleiro.
— Ah, claro, gado em A1.
— Eu coloco guerreiro em B8. Aliás, você tem que fazer as minhas jogadas, eu não consigo ver o tabuleiro físico.
— Claro, desculpa… Sei lá, gado em A1 de novo.
— Gado em B8.
— Pode ter três gados no máximo, então… Gado em A1?
— Guerreiro em B8.
— A sua coluna parece uma bagunça… Guerreiro em A1?
— Gado em B8.
— Hmm… Guerreiro em A1 de novo.
— Gado em B8.
— Tá, aí eu pego essa coluna… Eu vou andar para frente cinco vezes.
— Hmm, que irritante. Guerreiro em A8
— Eu não consigo mais avançar? Hmm… A5 vai para trás
— A8 para A7
— Eu imagino que seja melhor juntar o meu gado, então A4 para trás duas vezes.
— B8 para B7, B6, C6, D6 e D5.
— Eu entendo que é melhor ter gado na pilha, então A6 para B6.
— B7 para B6. Estou com pena de você, então vou te explicar: Agora eu estou controlando essa pilha, já que o meu guerreiro está em cima do seu.
— Hmm, é assim que se come uma peça, então?
— Eu não diria que isso é como as capturas de xadrez ou damas, é diferente. É a sua vez.
— Eu nem sei direito o que fazer… A2 para frente duas vezes?
— Guerreiro em D8
— A4 para trás?
— D8 para D7
— Hmm, eu também não consigo avançar essa torre…Gado em A1
— D7 para D6
— Guerreiro em A1
— C6 para C5
— A1 para frente duas vezes 
— Guerreiro em A8
— Droga, eu estava quase ganhando… Sei lá, guerreiro em C1
— D6 para D5 e D4
— Gado em C1
— Guerreiro em D8
— Hmm, vou te copiar, parece uma boa ideia. Guerreiro em C1.
— Com licença, algum dos dois gostaria de pedir alguma coisa? — Um garçom de repente surpreendeu o Manoel. A Alice já tinha percebido ele, mas fingiu surpresa.
— Ah, eu não tinha olhado o cardápio direito, um arroz com feijão e café, por favor. — O garçom olhou para a Alice, que balançou a cabeça, dizendo não, e foi embora. — Eu esqueci o jogo, tenho que olhar de novo.
— Café? A essa hora? Você não dorme?
— O que? Eu costumo ficar acordado bem tarde, caçando vocês filhos da puta que não dormem nunca, matar vocês é muito cansativo.
— Ziq!anre thaa qdu teete pari fy, wemikgaa q!antee. Maanparire teeqowyyn qbunqbun. — Ela começou a falar na língua Teitê, Q!antee. Uma tradução próxima é “Se você vai falar abertamente dos Teitês, escolha Q!antee. Caçadores devem esconder suas presas.”
— Me desculpa, faz muito tempo que eu estudo Q!antee, então eu só consegui entender o que você falou…
— Eu sinto que você ainda sabe, e continuará sabendo mesmo após esquecer. Mas tudo bem no momento. A minha jogada vai ser D8 para D7.
— Nossa, eu me esqueci do jogo, deixa eu só rever o tabuleiro… Tá, gado em C1.
— D7 para D6
— Gado em C1 de novo, para terminar a pilha.
— A7 para A6
— Merda, eu não sei o que fazer. Guerreiro em A1.
— A6 para A5
— A1 para A2?
— Bem, B6 para C6, C5 e B5, o seu guerreiro em C5 morreu de fome.
— Meu deus… Tem como ganhar nessa posição? 
— Eu tenho, você talvez não tanto
— Tá. A2 para direita e para frente.
— D6 para D5.
O Manoel fez uma longa pausa, olhando atentamente para o tabuleiro. Logo após essa jogada, a Alice percebeu que cometeu um erro.
— Eu posso mover essa pilha…
— A sua jogada vai ser A3 para B3, C3, C4, D4 e D5
— … Sim, exatamente.
— Bem, guerreiro em C8 é forçado.
— Nossa, a posição mudou em um turno. Espera, é uma boa os guerreiros do oponente terem gado, aí eu posso controlar eles. Então D5 para a esquerda três vezes e para a frente uma–
— Que nojo. A5 para B5
— A6 para frente
— Guerreiro em B8
— Guerreiro em D1
— B8 para B7
— A7 para A6
— A8 para A7
— A6 para B6
— A7 para A6
— D1 para D2
— Isso é apenas adiar o inevitável. D4 para D3
— Um momento, estou sentindo algo aqui no peito. 
Ele bateu no peito duas vezes, suando, e logo se recuperou. A Alice levantou uma sobrancelha, mas afastou as suas dúvidas.
— Certo, bem melhor. Guerreiro em A1.
— Guerreiro em C8
— A1 para A2
— Gado em C8
— A2 para A3
— Gado em C8
— A3 para A4
— C8 para C7, C6 B6
— Ah, sim, agora eu estou entendendo um pouco mais, sim. Bem, meio que a minha única resposta real é A4 para A5
— B7 para B6
— Gado em A8
— C7 para C6
— Guerreiro em A1
— C6 para D6, D5, D4
— Gado em A1
— B6 para C6
— Guerreiro em A1
— C6 para D6
— Gado em A1
— D6 para D5, C5
— Sim, aqui eu tenho uma tática! Você talvez tenha perdido. A1 para A2, A3, A4, A5 e A6. Eu perdi um guerreiro, mas posso controlar a sua coluna!
Alice fez uma pausa, parecendo olhar para o tabuleiro com muita atenção. Até virar o rosto para o seu oponente, apresentando uma face claramente cansada.
— E?
— E daí que eu chego bem mais perto de ganhar o jogo!
— Bem, C5 para C4, C3 e B3
— Não é possível. Eu tenho que defender em A1
— Não falei isso ainda, mas o Naank!yyruun não tem “xeque mate”. Ainda assim, eu acho que essa próxima jogada seria análoga a essa estratégia do xadrez. Na verdade, existem duas nessa posição, uma delas mais linda que a outra. Você quer qual?
— Só acaba com isso logo, eu estou ficando cansado.
— Bem, então eu vou com a mais complexa, já que eu gosto mais dela. B5 para C5, C4 e C3. Assim, a minha pilha em C3 está atacando duas das suas casas, e você não tem como defender ambas ao mesmo tempo. Portanto, não importa o que você faça, eu ganhei.
De repente, o garçom trouxe a comida e bebida do Manoel. Ele pegou o prato quente e colocou no canto da mesa, quase caindo. O garçom foi embora assim que entregou o café, atendendo um casal que acabou de chegar. Percebendo que estava sem espaço, e sem paciência de ficar segurando o prato, ele ignorou a Alice organizando as peças e o tabuleiro em suas caixas lindas e separadas, juntou tudo em uma pilha e jogou nas caixas de qualquer jeito. A Alice “olhou” para ele com um rosto desapontado. Ela terminou de guardar o jogo silenciosamente enquanto o seu inimigo mortal comia um prato cheio.
— Eu achei que poderia brincar com você, mas me responde sendo tão rude assim? As únicas coisas que pensa é comer, dormir, beber e caçar Teete? Você não tem nenhum amor pela vida? Parece uma criatura que caça dia após dia apenas para sobreviver e caçar no dia seguinte. Eu já vi animais mais felizes do que você.
— Sim, eu preciso proteger a vida das pessoas inocentes — Era muito raro a Teek!yyk!y ficar brava. Ela já não estava sorrindo devido à rudeza do caçador, mas aquela resposta a fez se levantar. 
— Proteger as pessoas? Proteger as pessoas. Eu não irei tocar o fato que os Teete educados não consomem pessoas faz décadas, e os ignorantes morrem logo. Você acha que protege uma bela rosa, sacrificando a sua pele por ela, chorando pela sua pele perdida, para então sair de perto dessa linda flor. — Ela não tinha como separar as pecinhas pela cor, então desistiu e só jogou tudo de volta na pasta. — Eu achei que você estava pronto para ser um oponente interessante em um combate físico e mental, mas parece que o seu cérebro é feito de puro músculo. Glúteos, especificamente.
O Manoel até parou de comer. Se fosse qualquer outro Teitê, ele na hora riria e continuaria a garfar o seu arroz. Mas aquela, ele sequer tocou o resto do jantar. Foi um monólogo que deixou suas pernas bambas e sem ar. Depois de uma respiração muito consciente, decidiu aliviar a situação do melhor jeito que pudesse.
— Me desculpe, senhora, eu estou um pouco cansado depois do jogo nesse espaço apertado, então fui tomado por uma fome estranha. Deixe-me arrumar o jogo, as peças foram completamente bagunçadas.
Ela “olhava” para baixo, em direção ao Manoel, como se ainda tivesse olhos. 
— Não, se você está tão claustrofóbico, acho melhor sairmos e tomarmos um ar. A noite está linda hoje, afinal.
Ela se levantou, ignorando qualquer opinião que o Manoel não formulou. Os dois andaram por duas quadras, guiados pela memória fantástica da Alice. O Manoel parou em uma encruzilhada com confiança, uma postura sólida e chamou a Alice, que avançou um pouco mais.
— Acabei de lembrar uma coisa, posso mostrar algo nessa direção? — O Manoel falou, apontando para uma rua mais fechada, escura, escondida e quieta.
— Ah, antes de você tentar qualquer uma de suas papagaiadas, eu irei te mostrar algo muito mais importante para a sua vida no geral. A única coisa que eu consigo pensar que pode melhorar a sua vida. Bem, não é o que eu quero, mas vai ser engraçado te mostrar isso.
O Manoel acatou e a seguiu. Foi rápido, passaram por um terreno baldio, uma estação de metrô e um armazém. Então a Alice virou e abriu os braços, apresentando o seu truque de mágica.
— E daí?
— E daí?! E daí? Você é alérgico a pensar? Descreva o que acabou de ver, não precisa nem ser muito específico.
— Bem, a gente passou por uma estação de metrô, que eu geralmente vejo todo dia; um terreno baldio e algumas lojas. 
A Alice inspirou profundamente, tossiu, se recompôs e continuou seu monólogo. O Manoel também tossiu, mas não pelo mesmo motivo que a Alice.
— Eu acho que você de fato é alérgico a pensar e a ver qualquer coisa que não seja esfregada na sua cara. Sem ver um metro quadrado da paisagem, eu sei que, além do metrô, também existe o terreno baldio e a tabacaria. Eu te pergunto, o que se vende em uma tabacaria? 
— Bem, tabaco, para fumar, imagino.
— Sim, drogas. Tabaco cabe perfeitamente, e com folga, na definição de drogas. Além da tabacaria, no terreno baldio, que eu sei que você consegue ver, tem algo ainda mais relevante.
— Eu só vejo duas tendas azuis.
— Duas tendas. Por que teria duas tendas em um terreno baldio? Simples, duas pessoas vivem lá. Duas pessoas que não têm um teto sobre suas cabeças, duas pessoas que passam os dias revirando latas de lixo e suplicando por comida, duas pessoas que poderiam cair mortas na rua, e o único transtorno que causariam seria o caminho que elas bloqueariam.
— Certo, e daí? Isso acontece em quase qualquer lugar.
— Isso acontece em qualquer lugar. Você consegue olhar para uma infraestrutura pública essencial para a vida de centenas de pessoas ao lado de cidadãos lentamente morrendo por diversas causas facilmente evitáveis e um antro de drogas, e você decide caçar teete como trabalho de vida. 
— Hã? O que uma coisa tem a ver com a outra?
A Alice estava sorrindo, mas quase que prestes 
— A sua justificativa idiota para caçar outros hominídeos é que “eu estou protegendo a sociedade e os seus cidadãos”. Mas se tornar um ativista, se tornar um doutor, se tornar um advogado, se tornar um faxineiro, se tornar um político, se tornar bombeiro, se tornar engenheiro, se tornar enfermeiro, se tornar policial. Qualquer coisa, qualquer coisa ajudaria mais pessoas diretamente do que caçar teete.
Ele sentiu alguma coisa no seu corpo girar, mas não sabia o que. Embora tenha criado cinco justificativas para continuar seu trabalho de caçador, todas desvaneceram no mesmo segundo. Ele teria desistido, se a Alice não tivesse o puxado para o mesmo caminho que eles vieram.
— Pronto, pode me mostrar o que queria. Eu só queria o lembrar disso mesmo, já que imaginar o seu rosto destruído era muito cômico.
O Manoel não respondeu. Apenas seguiu a sua oponente e viraram na viela em que o Manoel havia depositado tanta esperança. A Alice parou e se virou novamente para o seu inimigo, sorrindo como sempre.
— Então, o que queria tanto mostrar? 
O Manoel inspirou e fez os movimentos mais rápidos de sua carreira. Em segundos, abriu o seu coldre de cintura, sacou o seu revólver e apontou na direção da Alice. Esta, contudo, respondeu com o décimo movimento mais rápido de sua carreira, estendendo o braço, agarrando o revólver e puxando para perto de si, desestabilizando o Manoel.
— É uma Nerf? Eu achava que elas eram de melhor qualidade. — Ela esmigalhou a arma em sua palma. E, como umas conchinhas, trouxe para perto do rosto, para então jogar no chão sem cerimônias. — Você pode se machucar com esses brinquedinhos, tome cuidado.
Sem sequer consertar a postura, o Manoel usou o impulso para sacar também a sua faca e perfurar a Alice. Essa, por sua vez, fez algo ainda mais cômico. Agarrou a faca pela lâmina em movimento de pinça, chutou o Manoel para longe e entortou a lâmina usando apenas os dedos.
— Cuidado, você pode se cortar assim. Deixe-me deixá-la mais segura. — ela disse, entortando de tal modo que agarrar a faca com força cortaria a mão do usuário. E claro, jogou no chão. — Tem mais alguma proposta de brincadeira?
Derrotado, se viu apoiado, cansado e com dores no torso, em uma mal iluminada e suja parede de tijolos. Tinha ainda uma carta na manga — um quatro de copas — que sua inimiga aceitaria. Provavelmente devido a uma confiança justificada em desviar desse trunfo.
— Bem, eu tive uma última ideia… Aceitaria simplesmente… Andar pela rua?
— Claro, eu estava ficando cansada mesmo.
O Manoel estava guiando ela dessa vez. Um pouco mais normal, já que agora era uma pessoa cega sendo guiada por uma não cega. Ainda assim, a cega sabia mais sobre o ambiente do que o caçador. Finalmente, eles chegaram em uma ponte sobre uma rodovia. O Manoel parou e fingiu olhar para a vista, mas a Alice parecia desconfortável e entediada apenas.
— O que o idiota quer me mostrar nesse lugar chato e barulhento?
— Bem, nada demais. Apenas isso.
Ele agarrou a Alice e se jogou na avenida embaixo. Pelos poucos segundos em que eles estavam caindo, a tensão do Manoel se esvaiu quando ele viu o asfalto se aproximar e o rosto da Alice fluir de irritado, mas ainda sorrindo, para completamente vazio — para reunir todo o seu foco. E nesses pequenos momentos, do tipo que deixam memórias maiores que anos da vida nos dois, o Manoel aceitou e apreciou o seu destino.
— Trágico.
A primeira ideia que a Alice teve foi utilizar as ilusões para fazer os motoristas pararem ou mudarem de faixa. Essa ideia foi esquecida assim que formulada claramente, já que as ilusões são criadas por substâncias expelidas pelo fungo simbiótico do Teitê, o Zonwiq!a. Geralmente as ilusões precisam de preparação para serem realizadas. 
— Portanto vai ter que ser à moda chata.
Assim, ela jogou fora os planos e foi puramente por instinto. Se segurou no Manoel e girou os dois de modo que eles estavam de cabeça para cima. Segurando o Manoel um pouco acima, pisou com toda a força no carro que estava prestes a atropelar eles — esmagando a carroceria e matando o motorista e passageiro — para os jogar de volta para a ponte.
— Duas vítimas para a conta.
Por fim, ela agarrou o corrimão da ponte, jogou o Manoel sobre ela feito uma jogadora de basquete e, por fim, se jogou por cima do corrimão em uma magnífica cambalhota, ao maravilhoso som de duas batidas de carro.
— E a plateia vai à loucura.
O curto período de êxtase do Manoel se esvaiu tão subitamente quanto veio, substituído por alguma outra emoção desconhecida que ele foi forçado a reconhecer, já que a Alice o segurava no corrimão, pronto para cair de volta na avenida. O mesmo sorriso de antes bordava o seu rosto, mais esnobe do que antes. Tudo isso fez o Manoel novamente perder o fôlego antes mesmo da Alice falar qualquer coisa. Ninguém estava reagindo à situação, claro, porque a Alice criou a ilusão que havia um armário naquele lugar exato na ponte.
— Saiba, meu caro, que eu podia só ter ficado parada e você teria tentado se matar sem nenhum benefício. Saiba, meu caro, que você nunca teria ganhado naquela partida de Naank!yyruun. Saiba, meu caro, que não importa qual lâmina ou qual cano você apontasse para mim, todos acabariam do mesmo jeito. Saiba, meu caro, que diversas pessoas morreram por sua culpa. Saiba, meu caro, que é possível que os Teete se tornem mais famosos por sua culpa. Saiba, meu caro, que se você fosse de fato uma ameaça, eu poderia ter te matado a muito tempo. E saiba meu caro, por fim, que, se por algum motivo eu não pudesse te matar, nada me impediria de fugir daqui a qualquer momento, de me tornar qualquer outra coisa. Você sabia disso assim que chegou ao café e ignorou a sua própria mente. Não, enganou a sua mente, mentindo a si mesmo que ia rivalizar comigo, ia lutar de igual para igual. O único motivo para eu não te jogar para longe nesse momento é…
Ela chegou desconfortavelmente perto. O Manoel se viu inconscientemente fechando os olhos, mas ainda tendo a visão horripilante do sorriso de olhos fechados da Alice, incrustando na mente dele.
— Esse cheiro estranho. Eu conheço ele, mas não o seu nome. Se não fosse por ele, você morreria. Para minha sorte, você também não consegue fugir. Não pela honra ou pelo trabalho, eu sei que alguém como você precisa provar que não é um covarde incapaz. Eu te darei essa chance, mas saiba que você me é sub humano. Ainda não me decidi se você é um brinquedo ou ferramenta divertida.
— Eu… O que? — Ela socou o estômago dele, que tossiu sangue e segurou o seu peito.
— Não ouse tomar o lugar do silêncio, peste. — Ela jogou o caçador no corrimão, de terno rasgado e todo arrebentado. — Sabe, os caçadores de Teete sentem uma grande superioridade quando descobrem como a interação entre minha espécie geralmente ocorre. “Ah, a dominação é à base da força, em que o mais forte arrebenta o mais fraco e faz ele fazer o trabalho dele, que horrível!”. E eles estão corretos, são sistemas completamente diferentes. Nós somos honestos. Eu me sinto asqueroso ao ver qualquer um falar grandes bostas dos seres humanos, que fazem a sua dominação igualmente, mas fingem estar em um lindo paraíso. O dono de uma empresa demitir cem pessoas para comprar um iate não tem nenhuma culpa quando essas mesmas cem pessoas passam a morar nas tendas dos terrenos baldios. Bem, tanto faz, não é problema seu, você tem que “proteger a bela rosa que são os humanos”, causando um acidente que matou pelos menos dois.
— Me desculpe, senhora, por favor. — Ela socou ele no rosto dessa vez, quase quebrando o monóculo, mas bagunçando todo o cabelo e barba.
— Thun Q!antee. — “Em Q!antee.”
— Kbiqbu Zanxoo… — “Senhora, desculpe…”
Outro soco no estômago.
— Xii fy zanxoo — “Eu não sou senhora.”
— Kbiqbu pynqbok!yy qgin… — “Me desculpe, lorde”
E um último soco no rosto. A Alice anotou em um papel um número, colocou no bolso do terno do honrado caçador e foi embora caminhando.
— Ah, que droga, a minha pasta caiu na avenida. Bem, eu tenho um tabuleiro reserva em casa. Não posso deixar de jogar o meu jogo favorito, claro. Kbah, boa noite, incapaz.
Um bom tempo se passou, o sol mostrou a sua testa, iluminando o quase idoso que parecia apenas um bêbado. Várias pessoas sussurraram algo sobre caminho e drogado, mas ele não ouviu. Aquele caçador tão bem sucedido estava perdendo a consciência e retomando uma sopa de pensamentos, tossindo mais que respirando. Finalmente, um carro estacionou ao seu lado, um jovem escorregou para fora do carro e olhou o seu professor de cima a baixo.
— Posso assumir que acabou não matando ela?
Nada além de murmúrios incompreensíveis.

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Em sua casa, na sala de estar, o Manoel estava com a televisão ligada. O jornal passava, relatando qualquer coisa da qual ele não conseguia entender direito. Até que apareceu uma notícia que ele entendeu.
— Últimas notícias! Um desastre ocorreu na avenida General Falhes. Não havia nenhum bloqueio na avenida, mas subitamente um carro teve o teto amassado, como se um grande peso tivesse caído sobre ele, criando uma reação em cadeia que levou a cinco mortos e sete feridos. O que causou de fato esse acidente é desconhecido, contudo testemunhas falam de uma mulher que caiu, pulou de cima do carro em questão e voltou para a ponte, carregando um homem. As testemunhas que estavam na ponte de fato quando o acidente ocorreu não relataram nada de anormal, contudo as mais distantes concordaram com essa descrição. Permaneça ligado para mais atualizações. A seguir, o clima de hoje.
O Manoel virou o resto da sua garrafa de Vodka para se recuperar da noite anterior. Bem, recuperar é uma palavra forte. Ainda estava com hematomas no abdômen por baixo da roupa e dores por todo o corpo, mas por sorte não sentia as dores que deveria. O álcool é uma droga potente, afinal. O Miguel estava tomando um banho, já que ele estudou a história dos Teitês e o Q!antee durante a noite, apenas foi buscar o Manoel na rodovia após o trabalho ser concluído. Se jogar da ponte era a opção desesperada, que nenhum dos dois esperava ser necessária. O Miguel saiu do banho e vestiu o terno dos caçadores de Teitê para encontrar o seu professor na sala, um pouco desapontado.
— Senhor, o que a gente faz agora? Temos que ir atrás da Teitê, né? Tem alguma pista de como podemos alcançar ela?
Ele tirou o terno arrebentado do seu chefe e checou os bolsos, encontrando o papel com o número de telefone. Sem pensar duas vezes, pegou o celular do Manoel e a adicionou como contato. Mandou um “Bom dia” e desligou.
— Quer que eu leve esse terno para o alfaiate?
— A gente não vai ao alfaiate, só joga esse terno no lixo. — O Miguel não pareceu muito feliz com a ideia de jogar fora esse terno perfeitamente consertável, mas acatou a ordem do mesmo jeito. — Eu não sei o que fazer. Hoje eu quero descansar.
— Senhor, nós temos de tomar quaisquer oportunidades de caçar Teitês, se jogar no chão do apartamento e dormir quando nós temos o contato de uma dessas não é tomar uma oportunidade. — O celular começou a tocar, uma ligação da Alice. O Miguel aceitou imediatamente. — Alô? Com quem eu falo?
— Você não é o senhor Manoel, não? Quem seria você, o aprendiz dele ou alguma coisa?
O Miguel hesitou. Checou se a ligação estava sendo automaticamente gravada, como a central exije, e respondeu à Alice.
— Sim, eu sou o aprendiz do Manoel. Pode falar quem você é antes de eu passar o telefone para ele?
— Você já sabe quem eu sou, o seu professor ou mestre ou seja lá o que for certamente já te contou quem o deu a maior surra da vida dele. 
Ele não tinha o que responder, então silenciosamente passou o telefone para seu mestre.
— Alô? O que você quer comigo?
— {Qginota thaatha q!aqiinqin. Kekdunq!e qii qgin thun wiipy.} — Ela novamente estava falando em Q!antee. “Eu sei que vocês gravam essas ligações. Todo o nosso contato será feito presencialmente.”
— O que?
— {Maanwiipyre qiiqgin thun k!yyqiin fitho, thun kafe foqben. Qgikbiqbure qii thun k!yyqiin kgunra xxon kgunrara} — “Me encontre hoje no mesmo café. Você estará ocupado amanhã e depois de amanhã. ”
— Isso é uma ameaça?
E a ligação foi desligada. O Manoel calmamente deslizou o seu celular para cima da mesa ao seu lado e derrubou a mesa inteira com um rápido movimento do braço, encharcando o piso com a sua bebida, ou o que restou dela. O Miguel estava dividido entre pegar um pano para limpar o chão e ajudar o Manoel a se levantar e lavar o rosto. No fim, o próprio Manoel se levantou e foi até o banheiro, colocou um novo terno e se sentou em uma cadeira. O Miguel entendeu e sequer se deu ao trabalho de limpar o chão. Pegou o celular do seu chefe e o ajudou a se levantar da cadeira. 
Assim, os dois seguiram pelo mesmo caminho que o Manoel tomou para encontrar a Alice pela primeira vez. Como antes, não demorou muito, o Manoel ainda estava grogue quando os dois saíram da estação. O Manoel estava um pouco confuso, tanto que parou na rua em frente ao café e virou o rosto na direção da rua que a Alice o mostrou ontem. Retomou parte de sua compostura e seguiu o Miguel para dentro do café.
— Meu Deus, que criatura é essa? Tire esse animal da minha frente. — A Alice falou para o Miguel, que fazia um esforço para manter seu mestre de pé e o levar ao banheiro. — Tão triste como essa juventude decaiu, bêbados em plena manhã quase tarde. — A Teitê sussurrou para si mesma.
— Falou alguma coisa, amor? — A Malau estava ainda mais inebriada que o Manoel, com amor ao invés de álcool.
— Não, nada, só pensando coisas da pesquisa.
— Não, para com o trabalho hoje, é dia de descanso. Bem, assim como ontem. Mas eu te proíbo de pensar na pesquisa. — A Malau suspirou, colocou o cardápio sobre a mesa e brincou com o cabelo da Alice. — Aliás, aquele foi o cacra que a gente encontrou ontem, por que você está falando com ele?
— Bem… Depois de a gente se encontrar no parque, o achei familiar e lembrei que ele foi o meu professor na universidade, até tenho o contato dele. Por isso decidi chamar ele para tomar uma, sabe?
— Bem, parece que ele está bem adiantado, será que esqueceu que vamos beber juntos?
— Eu não lembro dele ser tão beberrão na época. Talvez tenha sido demitido? Isso seria um pouco triste.
O Manoel passou água no rosto, se segurando à pia. Entendendo que o seu mestre estava indo bem sozinho, o Miguel saiu do banheiro para se juntar às duas que os esperavam. O Manoel esperou mais um pouco antes de se juntar aos três. Quando o fez, estava assim como durante o seu horário de trabalho, pronto para resolver qualquer conflito presente. 
— Me desculpe, eu não dormi muito bem ontem. — Agora, ele estava perfeitamente sóbrio, ao que parece. — Já pediram alguma coisa?
— Não, estávamos esperando você. — O aprendiz estava um pouco sonolento, mas ainda atento. — De onde você conhece elas? 
— Ah, o Manoel era o meu professor da universidade. De biologia, mas acho que ele foi demitido, né? — O Manoel concordou com a cabeça, os dois entenderam qual era a ideia. 
— Sim, mas eu fui demitido uns dois anos depois, infelizmente. Mal lembro das coisas direito?
— De repente, assim? Que estranho. — A Malau soltou a sua namorada para comer os aperitivos que a mesa recebeu. — Qual foi a sua tese? Você ensinou especificamente biologia de fungos, humana ou, tipo, genérica?
— Hã? Bem, a minha tese estudou o efeito da exposição à luz prolongada em fungos Shiitake. Eu era professor de biologia fungal, é claro.
— E você acha que muitas pessoas já não estudaram o Shiitake? Além do mais, não existe a palavra “fungal”… Eu estou achando que você foi demitido por um bom motivo.
— E qual é o seu nome, garoto? — A Alice na hora tentou mudar a conversa para outro assunto, mas mesmo se apoiar sedutoramente na namorada não fazia ela tirar os olhos semi cerrados de cima do Manoel. — Eu acho que te vi no parque, mas o Manoel não me disse quem você é.
— Ah, eu sou o Miguel. — Pausa ansiosa. — Eu sou o filho de um amigo dele, que morreu recentemente. — Após responder isso, apenas pensou: “Por que diabos eu falei isso? Eu assumi que era para criar uma história ou algo do tipo, por que eu escolhi algo tão trágico?”
— Sim, claro, mas eu queria te perguntar mais uma coisa. Manoel, quais são os cinco reinos? — A Alice começaria a suar, se os Teitês tivessem um sistema de suor desenvolvido como os humanos.
— Quais cinco reinos? Tipo eu acho que a Europa tem mais que cinco reinos, não? — O Manoel estava confuso, e a Alice perdeu o sorriso. Todo o seu foco estava no Manoel e na Malau, já que este idiota precisa responder como um professor universitário de biologia conseguiria, para que uma peça essencial do disfarce não vá embora e a denuncie. 
— Hmm… Qualquer um que trabalha com biologia saberia algo tão básico, eu lembro disso do ensino médio. Por que você mentiria isso?
— Não, desculpa, o álcool não passou ainda completamente, e eu não faço nada de biologia faz um tempo. — Agora eles estavam tentando reparar o dano que foi feito.
— Deixa ele responder mais uma pergunta, você viu como o coitado chegou. — A Alice culpou a si mesma pela situação. “Eu devia ter previsto que esse idiota bêbado não conseguiria responder a uma pergunta como essa. Agora tenho que consertar a situação.”
— Certo, quais são os filos dos fungos, já que estes são a sua área de pesquisa?
— Bem, os fungos são divididos, de acordo com a taxonomia amplamente aceita na comunidade científica, em sete filos. — A Alice tomou as rédeas da situação, fazendo uma ilusão que o Manoel responde a pergunta perfeitamente. — Os Chytridiomycota, Blastocladiomycota, Microsporídia, Glomeromycota, Ascomycota e Basidiomycota.
— Ah, claro, você conseguiu responder a pergunta sobre os filos dos fungos, algo que poucas pessoas memorizaram. Mas no mesmo estado mental, você não conseguiu responder quais são os cinco reinos da biologia?
— Como disse, ainda estava um pouco cansado e não entendi a pergunta a princípio. 
A Alice se levantou apoiando as palmas sobre a mesa.
— Está bom, eu vou pedir a conta e a gente pode ver isso lá fora. Eu convidei o senhor Manoel e Miguel para um lugar interessante depois do café, e acho que precisamos todos ir lá relaxar. — Logo, a conta foi paga, e eles saíram do café até uma rua próxima. — Certo, o lugar é bem próximo da minha casa, na verdade, e eu estou percebendo que esqueci o celular lá, então seria melhor eu subir para buscar.
A Alice tinha um plano dessa vez. Seria estranho se o Miguel e o Manoel também entrassem na casa delas, então ela fez a ilusão que o elevador estava quebrado, entraram nas escadas, e deu uma porrada na cabeça dela.
— Por que você fez isso? — O Miguel não entendeu nada.
— Eu não posso desacordar a minha namorada sob vista das câmeras, e o jeito mais fácil seria aqui nas escadas.
— Primeiro; por que e segundo; não podia apenas criar alguma ilusão pra esconder a gente.
— As ilusões não funcionam assim, elas só afetam os sentidos de humanos, não conseguem fazer nada sobre uma câmera, por exemplo. E bem, ela estava no nosso caminho, eu não tinha o que fazer. De fato, não é a melhor opção, terei que resolver a situação depois, mas temos assuntos mais urgentes a tratar. Miguel, eu confio que você consegue manter a Malau presa aqui pelo tempo que eu precisar. Nem se dê ao trabalho de destruir as minhas reservas de Zonwiq!a, você não sobreviverá para ver o próximo nascer do sol.
O Miguel e o Manoel levaram a Malau para o apartamento da Alice e o Miguel a amarrou. Assim, o Manoel abandonou o seu aprendiz e se juntou à sua inimiga. Eles saíram do apartamento calmamente e a Alice o levou até o ponto de ônibus mais próximo. Eles pegaram um ônibus até fora da cidade, na divisa entre São Paulo e um próximo município. Eles sentaram no ponto, até que um carro preto esportivo sem placa apareceu, dirigindo lentamente, e parou em frente aos dois. A Alice bateu na porta, e esta abriu automaticamente. A Alice entrou sem pestanejar, mas o Manoel olhou para o banco da frente, viu um homem de terno e chapéu dirigindo o carro, e então entrou no carro. Ele ainda não pôde ver o rosto do motorista, pois o retrovisor foi removido, por algum motivo. Com isso, o combate verbal começou. 
— Os tempos estão difíceis? Demitiu seu chofer? — Finalmente, a situação estava sob o controle da Teek!yyk!y.
— Ah, acho estranho quando alguém não faz algo que consegue fazer sozinho. Mas eu tive que te coletar em um ponto de ônibus, onde foi a riqueza que você conseguiu do seu “pai”?
— Eu tive que pagar algumas coisas para manter a minha produção de Zonwiq!a mais secreta. É uma necessidade de honra minha continuar na cidade, e a minha escolha de apartamentos é deveras seletiva. — A Alice bocejou, coçou os olhos e apoiou a mão sobre a coxa. Por que estava cansada? Em teoria, havia dormido o suficiente. Estava perdendo alguma coisa? Esqueceu de considerar algo? — Estou surpresa que você não cobriu o meu rosto e do meu parceiro, para nos impedir de ver o caminho e voltar à sua central.
— Eu cobriria o que do seu rosto? Você já arrancou os seus olhos por mim. E eu sei que você lembrará cada virada para a esquerda ou direita e cada buraco na estrada, e voltaria. Até por isso escolhi um lugar qualquer e não a minha central de operações.
— Sendo honesta, não me seria surpreendente se o K!yyk!opyn decidisse trazer a sua oponente para a própria casa.
— Não, você não cairia em uma lógica tão básica e checaria esse local do mesmo jeito. Isso é, se você tivesse mais algo a tratar, já que, se não me engano, esse é o nosso único assunto ainda não resolvido.
— Bem, faz um tempo que não nos vemos, então devo ter esquecido alguma coisa. 
— Ah, que pena. Deveríamos colocar o contato em dia. Acha que vai ter algum dia livre nesta semana?
— Veremos na minha agenda quando chegarmos lá… Ah, é bem aqui. 
O carro estacionou em um estacionamento abandonado, no meio de uma estrada. A coisa mais bizarra não era a escolha de lugar, mas o fato que há um estacionamento sozinho ao lado de uma rodovia vazia. Quem iria querer estacionar ali? Para ver a placa mais de perto?
— Sabe o mais engraçado, acho que fui eu que encomendei esse estacionamento para uma construtora, como um plano extra caso o meu apartamento na cidade fosse descoberto.
— E o seu plano extra extra? 
— Uma caverna que eu encontrei aleatoriamente. Acho que ela até tinha um túnel nos fundos, então eu conseguiria fugir se fosse encontrada.
— Ah, essa é a Teek!yyk!y que eu conheço. Falando em conhecer, quem é esse jovem humano que você trouxe consigo? Não acho que ainda fomos introduzidos.
Agora o carro entrou no estacionamento e começou a subir um andar por vez.
— Esse é o Manoel, caçador de Teitês. — Ela ignorou que o Manoel ia se introduzir e o fez ela mesma. — Eu queria um pouco de auxílio, já que recentemente estive um pouco cansada.
— Pode ser a idade, a velhice alcança todo mundo. 
Finalmente, eles alcançaram o topo do estacionamento. O motorista estacionou ocupando quatro vagas e todos os três desceram do carro ao mesmo tempo. O K!yyk!opyn colocou a chave do carro sobre o capô e desceu junto de seus convidados para o penúltimo andar. Lá, havia preparado um tabuleiro de Naank!yyruun e muitos capangas claramente Teitês, eles nem tentam esconder os sinais. Finalmente, o chefe se sentou em uma cadeira de escritório muito confortável em frente ao tabuleiro, e virou o rosto para os dois.
Todos os sinais de Teitê estavam perfeitamente visíveis nele. Um olho no tabuleiro e o outro nos seus oponentes, as orelhas pontudas, nem uma mecha de cabelo, apresentando uma careca ainda mais visível depois que ele tirou o chapéu para jogar, os caninos afiados como um lobo, as garras perfeitas para segurar as peças do jogo… Todos os sinais eram gritantes. A memória muscular do Manoel quase fez ele tirar o revólver e atirar em seu inimigo ali mesmo.
— Me desculpe, Manoel, eu não esperava que receberia companhia além da minha querida amiga e professora. Mas de fato, eu queria apenas jogar uma partida amistosa com ela, para definir quem será o vencedor dessa disputa. 
— Antes, posso perguntar como vocês permanecem escondidos em plena luz do dia? — Ele se sentou e começou a separar as peças.
— Mas é claro. É simplesmente pois nós não nos escondemos. Onde vivemos, não precisamos esconder o que as pessoas já sabem. — Ele finalmente terminou e continuou a observar o seu caçador, como uma criança em um banco. — Em nossa comunidade, nós somos o governo, então nada mais justo que eles garantirem a nossa segurança e um lugar para crescermos nossas forças, em troca. Afinal, sabe quanta madeira a gente consegue só derrubando uma árvore?
— Vocês… Tomaram o controle de uma comunidade humana inteira?
— Não, não é como se fosse ideia original nossa. Alguns dos membros de nosso clã, do qual eu sou o k!yy, perceberam que em alguns lugares, o estado se tornou tão fraco que clãs de humanos tomaram o controle. Então nós nos infiltramos neles e copiamos a ideia. — Ele pegou um copo que um dos seus lacaios trouxe e bebeu um líquido ciano calmamente. — Hmm, suco de Suwútwe, meu favorito. Enfim, acho que nós estamos alcançando os milhares em terras distantes, a esse ponto. Claro, somos mais fortes no Nordeste, onde os nossos túneis abriram.
O Manoel ficou um pouco chocado com essa revelação, uma quantidade tão incompreensível, números de Teitês que ele ouviu terem ocorrido apenas nas primeiras levas, quando os túneis jorravam desses monstros como hidrelétricas em enchente. Até se viu apoiado em uma pilastra próxima, forçado a ver a sua inimiga se sentar frente ao novo rei demônio, que já fazia a primeira jogada. 
— Guerreiro em B1. Eu sei que você, sendo uma Deso, está acostumada ao Nadolu maior, diferente de mim. Como um bom anfitrião, te preparei a situação com a qual você está mais acostumada. Não poderia te deixar constrangida, claro.
— Gado em B8. Muito obrigada, meu velho amigo. Acho que deveria dizer aprendiz, já que ainda tenho muita coisa para te ensinar, como fazia tanto antes. Mas a esse ponto, já está muito auto suficiente, diria.
— Gado em B1. Fico quase constrangido de aceitar esse elogio, mas nós dois temos muito a aprender, como essa partida pode te mostrar. Afinal, eu estive estudando a teoria desse divertido joguinho e assisti às suas partidas. Acho que você não está acostumada à abertura da torre Gwywodo.
— Gado em B8. De fato, eu geralmente utilizo a abertura do furão, mas é sempre bom tentar algo novo. Especialmente quando pode mostrar algo de divertido para alguém mais jovem.
— Gado em B1. Ah, é sempre estranho ouvir alguém me chamar de jovem e de fato ter nascido antes de mim. Bem, aquele caçador deve ser um pouco mais velho que eu. Provavelmente vai morrer logo, então.
— Gado em B8. De fato, é provável que ele vá desaparecer logo. Me lembra muito um caçador que eu conheci a alguns anos, acho que o único que conseguiu me danificar significativamente. 
— Guerreiro em B1. Ah, você se expõe demais, eu acho que nunca enfrentei um caçador até agora, e eu nem preciso me disfarçar. Seria muito bom ter você em nosso clã, pensando bem.
— Guerreiro em B8. Eu estou bem ciente, mas no momento tenho outras coisas a fazer, e gerenciar um clã tomaria todo o meu tempo. 
— B1 para B2, C2, C3 e C4. Eu não falei de gerenciar o clã, já que eu sou o Do dele. 
— Guerreiro em B8. Bem, eu não sei de que modo eu poderia entrar em seu clã se não fosse tomando o posto de K!yy, já que eu sou a Teek!yyk!y em pessoa. E poderia te demolir de olhos fechados.
— B2 para B3. Bem, parte disso está correto, contudo teríamos de testar essa última parte com um experimento. Eu não tenho tanta certeza da diferença entre nós dois, afinal. 
— Guerreiro em C8. Confie em mim, há muita diferença.
— C4 para C3. Veremos, veremos.
— Gado em C8.
— Guerreiro em C1.
— Gado em C8.
— C1 para C2.
— Gado em C8.
— C2 para C3 e C4.
— Guerreiro em C8.
— C4 para C3.
— Eu cansei, vamos abrir esse jogo um pouco. B8 para B7, B6, B5, B4 e C4.
— Corajosa. Guerreiro em A1. Bem, eu estou muito melhor que você nessa posição, preciso apenas esperar você cometer um erro. Ou, na verdade, poderia simplesmente criar uma torre ou duas, acredito.
— C8 para C7, C6, C5, B5 e A5. — Na hora, o rei demônio, que antes se curvava para trás na cadeira, trouxe o rosto, a mente e os dois olhos em direção ao tabuleiro.
— Isso só pode ser alguma armadilha estranha… Aquele gado não está sendo defendido e leva a uma vitória forçada, mas não é possível que você cometeria esse erro tão cedo… Não, é uma armadilha, A1 para A2. Eu joguei muitas partidas contra você, e isso não acontece.
— Mesmo após perder essa chance tão simples, essa posição ainda está boa para as brancas. A5 para B5
— Espera, você só cometeu um erro?
— Sim. Para ser honesta, eu dormi mal, estou um pouco cansada. — É o que ela acredita, mas a verdade é que ela teve uma boa noite de sono. Ninguém sabe de fato por que a Teek!yyk!y esteve cansada recentemente. O oponente levou a mão ao rosto e arrancou um pedaço da testa. Um ferimento leve, então se recuperou assim que terminou de decidir a sua próxima jogada.
— A2 para A3. Que desastre. Bem, o jogo ainda não acabou.
— C7 para C6. Deveria ter acabado.
— A3 para A4.
— C6 para B6, B7
— A4 para A5
— B4 para B5
— B3 para B4
— B7 para B6, C6
— Guerreiro em A8
— A5 para A6
— A8 para A7
— Guerreiro em D1
— B5 para B6, A6, A5 e B5
— Ah, uma bela armadilha, eu de fato deveria ter visto ela. A6 para A7 e A8.
— A7 para A8
—Guerreiro em A1
— Guerreiro em C8
— O que? O que você está fazendo? O que seria isso? Vai apenas me deixar pegar território? A1 para A2.
— C4 para C5
— Mas é claro. Sinto que essa torre de três gados do lado da sua casa está sendo um pé no saco, não? Bem, A2 para A3, nada a ser feito.
— C6 para C5
— E agora solidificou a torre. A sua técnica é impecável, até onde eu estudei. A3 para A4
— Gado em C8.
— Eu me sinto uma formiga tentando arranhar as ideias inescrutáveis de um mortal, aqui tomando território, e você decide criar uma nova torre? D1 para D2
— Pare de me bajular, eu não faço a menor ideia do que fazer nessa posição, ela está muito trancada. Gado em C8
— E qual torre você planeja formar? Não tenho certeza se consigo calcular ela corretamente. D2 para D3
— Guerreiro em C8
— D3 para D4
— Gado em C8
— Mas o que? Quer tentar pegar uma das minhas? Não me importa, eu posso defender facilmente. D4 para D5
— C8 para C7, C6, C5, C4 e B4.
—- Ah, agora eu vi a situação. Ideia simples, mas ingênua. Eu deveria ter tentado fazer alguma coisa sobre ela. Guerreiro em C1.
— C4 para B4
— Guerreiro em B8
— A8 para A7, B7
— B4 para B5, C5 e C6
— D5 para D6
— C7 para C6
— D6 para D7
— Guerreiro em D8
— D7 para C7
— Guerreiro em C8
— Guerreiro em A1
— C5 para C4, B4, B3, A3, A4
— Essa é a segunda vez que tranca uma das minhas peças, não é? A4 para A5 e A6
— Não, acho que agora é a segunda. D8 para D7
— Guerreiro em A1
— B3 para A3
— B1 para B2
— B4 para C4
— B2 para B3
— A3 para B3, B2 — O Rei demônio estava ficando visivelmente cansado de toda a situação, tanto por isso que ele provavelmente cometeu um erro como esse.
— Guerreiro em B1
— C4 para B4, B3
— Guerreiro em D1
— B3 para B2, C2, D2
— A1 para A2
— B5 para B4
— A2 para A3
— B2 para A2
— Guerreiro em A1
— A5 para A4
— B1 para B2
— A4 para B4
— Guerreiro em B1
— Guerreiro em A8
— A3 para A4
— A8 para A7 
— A4 para A5
— Guerreiro em A8
De repente, o rei demônio passou a mão pelo tabuleiro e tirou todas as peças. Seu olhar voltou para a visão vesga comum dos Teitês.
— Parabéns, você ganhou uma vitória não merecida, eu devo aceitar. Mas sabe que o verdadeiro modo de resolver disputas entre os De é em um combate de fato, não é?
Os dois repentinamente se levantaram ao mesmo tempo e afastaram, sem tirar os olhos (bem, a Teek!yyk!y não os colocou) um do outro.
— Me é tão claro quanto uma fonte límpida.
A Teek!yyk!y disparou para trás na hora, agarrou o Manoel e jogou ele para baixo, o salvando de uma barragem de tiros. Continuando a proteger seu inimigo, o puxou pelo pé, correndo pelo teto e desviando de mais salvas de tiros e até algumas lanças e machados. Por sorte, havia uma parede baixa no andar debaixo, atrás da qual ela conseguiu esconder o Manoel.
— Eu não considerei que eles usariam armas de fogo. Um pouco trapaceiros, se for honesta. Bem, faça o que conseguir, eu vou estar distraindo eles de qualquer modo.
Por cima da cabeça deles, passava mais tiros, lanças e machados. Suspirando, a Alice agarrou uma lança que passava sobre sua cabeça, antes de acertar a parede. E então, usando a maior parte da força que restava, pulou na parede de trás, desviando dos projéteis, se agarrou ao teto e correu. Cinco teitês tiveram o pescoço perfurado na hora. Era bizarro o quão bem aquela cega conseguia desviar dos tiros e armas arremessadas. Ela não estava prevendo quando seria atirada da próxima vez, apenas reagia e se movia sobrenaturalmente rápido. Em dado momento, ela agarrou um tiro de sniper com os dedos em formato de pinça.
Mesmo acumulando pilhas de mortes espalhadas pelo andar do estacionamento, parecia uma onda interminável de Teitês armados. Pouco a pouco, a Teek!yyk!y foi empurrada de volta para o refúgio onde ela deixou o Manoel, forçada a defender ao invés de atacar. Por fim, dois machados voaram em sua direção. Ela foi capaz de defender um, e o outro a decapitou e jogou ao lado do Manoel, atrás da parede. Até aquele momento, o K!yyk!opyn gradualmente foi de uma face séria até uma expressão de trinfo, jogado no apoio da cadeira e rindo aos berros. Até que sua inimiga foi decapitada, e ele congelou. Seus lacaios avançaram de armas em mão, prontos para destruir a tão odiada inimiga.
— Parem! Não avancem mais, é uma armadilha! — Subitamente, o tirano gritou.
— O que? Mas ela só trouxe um humano qualquer, nós podemos só avançar e capturar eles, se você não quiser matar eles.
— Isso é uma armadilha, obviamente. Ela não trouxe simplesmente uma pessoa qualquer, é um caçador profissional de De, ela não iria se deixar ser decapitada sem mais nem menos.
— Mas ele é só um humano, a gente consegue atordoar ele e matar os dois, não tem nada que eles conseguem fazer.
— E vocês acham que ela não pensaria nisso? É óbvia a armadilha. Nós apenas não conseguimos ver ela. Cerquem a parede e se preparem, é o melhor que conseguimos fazer.
O Manoel não entendeu nada. Os Teitês estavam falando em uma língua que ele não entendia e nunca ouviu na vida. Parecia estranhamente familiar, mas não era Q!ante. Na perspectiva do Manoel, quando o tirano inimigo limpou o tabuleiro, ele se viu violentamente jogado para trás da parede, e a Teek!yyk!y lutou por poucos momentos antes de ser decapitada em frente a ele. Se o combate tivesse sido mais lento, dando mais tempo para ele processar o que aconteceu, um grito de pânico com a visão da aliada poderia ter ocorrido. Mas tudo foi tão confuso que ele se viu paralisado, forçado a “apreciar” a visão de um pescoço cortado no meio que crescia e começava a formar uma cabeça. A Teek!yyk!y, por toda a sorte, teve tempo suficiente para regenerar a cabeça. Mas a regeneração ocorreu de tal modo que, quando ela retomou a consciência, se viu revivendo o resto da vida ao invés da situação que se desenrolava no momento presente.
A Malau acordou. Ela estava amarrada com uma corda e mordaça da Alice, olhando diretamente para um relógio de pêndulo. Ela tentou se soltar, mas apenas percebeu que estava em um sofá. Virando a cabeça, ela conseguiu ver apenas a mesa de jantar e televisão mais ao fundo. Desligada, os únicos ruídos da casa eram a própria Malau, se mexendo no sofá, e água fervendo na cozinha, acompanhada de batidas de pé ao ritmo de uma música que a Malau não reconheceu. A água terminou de ser fervida, e o fogo foi desligado. A pessoa misteriosa mexeu alguns potes, colocou algum pó de um pote para outro, e encheu algo com a água fervida.
— Ah, você acordou? Me desculpa, me disseram para te segurar e eu não soube o que fazer. — O Miguel parou antes de voltar para a sala, como se tivesse lembrado de algo. — Acho que eu devia te deixar cega, não é? Não deveria te deixar ver o meu rosto.
Pela voz, ela na hora percebeu que era o Miguel, mas ele colocou a venda nela de qualquer modo. Começou a beber o café, sentou à mesa de jantar e ligou a televisão e colocou uma partida de futebol, a partida entre o Brasil e o Japão. Logo, ele se levantou e pegou o jantar da Malau, que ele ia almoçar, já que a Alice não tinha nada na geladeira. Ele o esquentou no microondas e se sentou de volta à mesa de jantar.
A Malau pensou o que fazer, mas não parecia haver nada. Ela tentou desfazer o nó, escondida pela luz e som do jogo. Ela passou um bom tempo desfazendo o nó, sem sucesso, até que o Japão fez um gol. A televisão e o Miguel gritaram tão alto que ela conseguiu se jogar no chão. Por pura sorte, o Miguel deixou cair a faca que ele pegou para cortar o churrasco, e a substituiu pela adaga parte do equipamento dos caçadores de Teitê. Por pura sorte que a faca caiu perto da Alice, e ela pôde a ouvir e agarrar. E foi pura sorte que o jogo conseguiu distrair o sequestrador por tempo o suficiente para cortar as cordas em seus pulsos, tirar a venda, a mordaça e cortar as cordas nos pés. O Miguel havia se sentado perpendicularmente à Malau e à televisão. Ela esgueirou para debaixo da mesa e esfaqueou o pé do Miguel para disparar em direção à porta da frente. Ele gritou e caiu para trás, batendo a nuca na parede. Sobreviveu e não sangrou, dando o tempo necessário para a Malau abrir, atravessar, fechar e trancar a porta da frente.
O Miguel se viu desorientado e sem a refém, ao mesmo tempo que um gol do Brasil foi feito. Ele levou a mão ao revólver escondido, mas lembrou que os vizinhos ouviriam, então guardou de volta na cintura, trocando pela adaga. Ele não entendeu como ela poderia ter se soltado e encontrado uma faca, mas decidiu agir primeiro e pensar depois. Tentou abrir a porta. Trancada, de algum modo. Passou os olhos pela sala e agarrou o molho de chaves reserva. Nesse meio tempo, a Alice chamou o elevador e ligou para o 190.
— Alô, rua Ajaré 720, invadiram a minha casa, apartamento 51. Pelo amor de deus, venha o mais rápido possível.
A ligação foi interrompida pela chave da porta que começou a girar. A Alice correu o mais rápido possível e subiu as escadas. O Miguel ouviu os passos pesados e, lentamente, seguiu a Malau. Ela subiu um andar e esmurrou a porta de um vizinho, um homem de meia idade, que foi guerrilheiro durante a ditadura e agora estava aposentado. Ela não esperou pela resposta, se enfiou pela porta e bateu ela.
— O que aconteceu? — Ele trancou a porta e pegou um machete da cozinha. 
— Sei lá, um maluco que me atacou. 
— Tá armado?
— Não sei, deve estar.
O Miguel socou a porta. O vizinho esperava ao lado dela, encostado em uma parede, pronto. Após poucos murros, desistiu e desceu tão rápido quanto podia. Ou seja, um passo a cada cinco segundos. No fim, ele não conseguiu escapar, uma viatura o capturou, e ele foi detido por múltiplos crimes. 
— Acho que ele foi embora. — O vizinho guardou a machete e serviu um chá para a convidada desesperada.
Desesperada não mais com a própria segurança, muito menos com o jantar. Mas pois ela viu que o Miguel estava acompanhado do Manoel, e a Malau só pôde assumir que eles fizeram algo com a sua namorada.
Um chão enlameado. Uma mão fria e esquelética segurando os tornozelos de uma criança, esta que arranhava a parede com suas longas garras. E claro, a tempestade despencando do lado de fora criou barulhos que a criança nunca ouviu na vida, invadindo o ouvido dela e consumindo todos os pensamentos que não fossem de terror, confusão e desespero. Poucos arranhões na parede foram feitos, sem nenhum grito, até que a porta da senzala fez ruídos estranhos de pedras batendo umas nas outras, no fim gerando um rangido lancinante. Ao abrir, revelou um homem de terno e algo na mão, ocasionalmente iluminado pelos raios.
Ele deu dois passos para dentro do frio cômodo, bateu a porta atrás de si, acendeu um fósforo e uma lamparina. Finalmente, ela pôde ver o rosto sério, acentuado por um chapéu de abas largas e bigode volumoso grisalho, carregando uma tábua com objetos estranhos. Ele colocou a tábua em frente à fera assustada, deu dois passos para trás e vagarosamente se sentou.
— Pode comer. — Ele falou. Os trovões e a chuva caindo no telhado não ajudaram a jovem estrangeira a entender o que aquele humano estava falando. — Não está me entendendo? Será que só sabe uma língua primitiva?
— Munxiire pynqbok!yy teema? — Ele assentiu com a cabeça, pegou uma batata, mordeu e mastigou do modo mais cartunesco possível, mantendo contato visual com um dos olhos da criança. O outro estava inteiro na tábua de comida. — Qgaaxiire fy thaa sonwiq!a.
— Bem, pode estar assistada demais para comer. Volto amanhã, tudo bem. — Ele tentou se levantar sem cerimônias, mas a coluna e os joelhos não permitiram movimentos tão rápidos. Quando saiu, a criatura inspecionou a comida. Arroz com batata e feijão, nada especial. Ela sequer reconheceu como comida. Na hora, vomitou uma gosma ciana, e esperou.
A noite seguinte demorou uma eternidade. Não mais chovia canivetes, mas igualmente as pedras bateram na porta, e ela abriu. O homem, dessa vez com um terno bege, entrou carregando uma bandeja idêntica, com a mesma comida. Mas ao invés de imediatamente sentar como antes, tomou alguns momentos para observar a tábua anterior e a criança, depois de acender a lamparina novamente, claro.
— Os seus machucados se recuperam muito rápido, que estranho. — Ele colocou a tábua no chão e puxou a outra mais para perto. — Eu nunca vi esse fungo na minha vida, ele não é nativo daqui ou da Europa. Além disso, vendo mais de perto, sua pele é azulada e pálida, não pode ser dos primitivos. Mas por que é vesga e tem orelhas tão pontudas?
Ele não se aproximou até uma distância desconfortável, mas viu claramente quando um dos olhos dela parou de observar o homem.
— E nenhuma pessoa deveria ser capaz de mover os glóbulos oculares assim. E essas garras, também, são muito estranhas. Eu teria encontrado um demônio?
Ele se afastou e sentou, olhando para a bandeja de comida mais antiga. O fungo era comparativamente simples, a comida foi coberta pelo micélio ciano esbranquiçado, e três bolotas com um chapéu pequeno brotavam dessas raízes. O homem colocou o novo prato de comida em frente à criança e pegou uma das bolotas. Olhou bem perto para ela e comeu.
O sol da manhã seguinte não tinha janelas pelas quais passar naquela senzala. Ainda assim, o relógio interno do homem era tão preciso que ele ainda acordou com as galinhas. No canto, perto da parede, ainda estava a criança e o novo prato de comida, já infestado por mais fungo. Essa criança, agora, tinha os dois olhos apontados para o dono da senzala. 
— Você estava aí, que bom que não fugiu. 
Ele se levantou, na completa escuridão, e checou o quão imundo estava o terno. De repente, a porta abriu, banhando toda a senzala de luz.
— Pelo amor de Jesus, o que aconteceu, bebeu é? — Era uma empregada do homem. Ele virou para a garota, mas ela havia desaparecido, ao que parecia.
— Não, só bati a cabeça quando fui inspecionar a senzala.
— Não vai matar a casa grande de susto assim, imagina, o patrão só desaparece!
Ele foi até a porta. Não, as correntes estavam trancadas. A demônia ainda estava acorrentada à senzala, apenas se escondendo de algum modo, era a única justificativa lógica possível. Portanto, com toda a calma, José Gonçalves de Almeida, barão do café, saiu, trancando a porta atrás de si e foi tomar o café da manhã.
A nuca, mais metade da cabeça da Alice se regenerou. A visão do cérebro se reconstruindo em frente aos seus olhos durou horas para o Manoel, que viu tudo do começo ao fim sem ser capaz de fazer qualquer coisa. Para todos os outros, durou pouco mais de um minuto. Ela estava começando a adquirir a consciência por tempo suficiente para juntar duas palavras em Q!antee, apenas para novamente voltar para um nada. Finalmente, a regeneração estava chegando no córtex pré-frontal. A boca já havia crescido de volta, com todos os dentes animalescos. 
Era um bar relativamente tranquilo, à noite. Ainda passavam carros na estrada, junto de várias pessoas pela calçada bem iluminada. O próprio bar estaca com poucas pessoas obviamente bêbadas. E em frente ao balcão, estava a Alice ao lado de duas “amigas”. Elas estavam conversando muito, embora a Alice não tivesse falado quase nada. Na época, ela ainda tinha os olhos, que ela forçava apontarem na mesma direção, como um humano. Era cansativo, e ela não estava com o mínimo interesse na conversa. Elas falavam aos berros sobre política e concordavam que um candidato era ruim, mas a crítica e análise delas não ia mais longe que “Bando de bandido, todos esses políticos são ladrões.” A Alice só estava lá para reforçar o seu disfarce. Enquanto elas grivatam entre si, a Teek!yyk!y bebia gotas de água. As outras duas tragavam chopp, claro.
Isto é, até que um homem de meia idade chegou ao bar, pediu um copo de vodka e se sentou ao lado da Alice. Espiou o copo dela, bebeu sem engolir parte da própria bebida. E, quando ninguém percebeu, ele cuspiu a vodka em um pano que trazia consigo. Finalmente, cutucou no ombro da Alice. Ela percebeu ele assim que entrou no bar, claro. Aquela época era no seu ápice de força, inteligência e percepção. Especialmente já que ela ainda tinha seus olhos.
— O que você quer? Eu tenho namorado.
— Esse namorado seria um tal de Fernando Costa? — Ela estreitou os olhos, o revistando de cima a baixo.
— Esse é o nome dele sim. Por acaso eu te conheço?
— Não, mas ele me falou sobre você, nós somos colegas de trabalho. Alice de Almeida, né?
Era uma mentira descarada. A Alice nunca teve namorado, Fernando Costa era uma mentira que ela fabricou para o seu disfarce entre os humanos. Então ele já estava se revelando como alguém que sabe demais ou de nada.
— Entendo. Ele nunca me falou do trabalho dele, muito menos dos colegas.
— Ah, estamos no ramo da investigação privada, digamos assim. — Ele sabia demais. — E uma pista nos levou até você, de algum modo.
Quando falou isso, ele sutilmente trocou os dois copos de lugar e bebeu um pouco da água da Alice. Ela percebeu, claro, mas escolheu fingir não notar. Tomou um gole, cuspiu e colocou de volta na mesa.
— Acho que a gente trocou de copo. 
— Ah, me desculpe, nem percebi. 
Era mentira, os dois sabiam que aquele homem tomou decisões intencionais. Mas parecia que o plano não tinha funcionado. Mesmo assim, ele exalava confiança.
— E o que você quer?
— Eu não gostaria de te incomodar, mas preciso te levar para interrogatório, em nossa agência. Imagino que aceite facilmente.
Ela virou o copo de água, esperando que ele faça mais maquinações estúpidas.
— Me desculpe, mas eu estou ocupada hoje, não posso fazer algo como…
De repente, a visão dela ficou turva, e seus olhos voltaram a ficar vesgos, apontando para a esquerda e a direita. O homem passou o pano pela bancada e o jogou no lixo, antes de se levantar e puxar a mão da Alice. Ela estava atordoada por algum motivo, os olhos giravam erraticamente conforme ela dava passos bêbados pela calçada. 
— Olha só, eu até pareço o Fernando Costa, não é? — A Alice parecia bêbada, a situação não parecia tão estranha quanto era de fato. Alguém olhando de fora de fato acharia que era namorado e namorada.
— Desgraçado, o que você fez? — Ela começou a espumar assim que eles viraram em uma viela.
— É um veneno simples. Não posso te dizer qual, infelizmente. Mas ele estava naquele meu pano, digamos assim. Acho estranho que você não percebeu.
Ele chutou ela, a fazendo cair para trás. Não havia ninguém ali, então provavelmente seria perfeito. 
— Só por formalidade, irei te explicar por que estou aqui. Até o momento, eu cacei noventa e nove Teitês a minha vida toda. Agora, estou me aposentando, então queria que o meu centésimo fosse um bem especial. Pois bem, havia um mistério em nossos registros, pois os dois fundadores da central, o João e Davi de Almeida, não eram os únicos na herança do pai. Também constava uma tal de Alice. Ela pegou o dinheiro que era justo e desapareceu. O mais bizarro é que parece que ela era uma Teitê, pelos registros do José Gonçalves de Almeida. Desde então, todo caçador te Teitê que se preze definiu, como objetivo máximo da carreira, te encontrar e executar.
Ele recarregou o revólver e mirou perfeitamente na cabeça da Alice.
— Nesse momento, você deve estar ficando cega, surda e sem olfato. Mas não se preocupe, vai sentir perfeitamente toda a dor da sua morte.
De fato. Ele não parecia estar sentindo nenhuma culpa ou tristeza por executar a Alice em plena luz do dia. De fato, os olhos dele estavam sendo escondidos por um grande óculos escuros.
— Esse revólver, inclusive, está com uma bala fragmentária, o seu cérebro vai ficar bem destruído. Gostaria de poder ver ele de perto, mas acho que não será possível.
A Alice rugiu e tentou se levantar. O tiro, entretanto, acertou perfeitamente o alvo. A testa abriu como uma flor que desabrocha. Ele deixou o revólver apontado, esperando por algum movimento da criatura. Parece que estava tudo seguro. Ele baixou a mira, apontando para o coração. Assim que atirou, a Alice chutou o chão, indo para trás, e recuperou a testa. Os olhos foram destruídos, e não daria tempo de os regenerar. Ela também estava sem a audição ou o olfato. Contudo, de algum modo, ela ainda conseguia sentir as correntes de ar. O caçador de Teitê teve a cabeça esmagada em uma parede por aquela criatura confusa, que foi movida apenas pelos próprios instintos. E esse dia foi quando ela começou a regredir, deixando o seu ápice de força, inteligência e percepção. Principalmente devido ao dano à cabeça e às balas que permaneceram alojadas lá. Essas balas que foram atiradas pelo professor do Manoel.
Mas no presente, a cabeça havia se regenerado. As balas que lá estavam alojadas, envenenando o cérebro da Teek!yyk!y, desapareceram. Ela se levantou, olhando para os vários Teitês que a cercavam, e diretamente para o seu rival. Dessa vez, ela estava de fato olhando. Não só o chumbo foi removido, mas seus olhos voltaram. Olhos que revistaram todos os oponentes e observavam todas as direções. Naquele momento, a Teek!yyk!y não voltou ao seu ápice antigo. Mas atingiu um novo nível de simbiose com o fungo dentro de si. Atingiu um nível nunca antes visto de poder na sua espécie.
— Idiotas. Por que não me atacaram quando eu estava imobilizada?
— O lorde nos disse que era uma armadilha! — Um soldado leve respondeu. 
— E qual seria a armadilha? Esse caçador? Eu nem sei porque trouxe ele, pensando direito.
— Então está dizendo que eu simplesmente teria ganhado? — O rei demônio se levantou da cadeira, olhando apenas para a Alice.
— Se tivesse me atacado enquanto eu estava morta, sim.
— Mas você está cercada e certamente cansada da regeneração. Nossas armas e nossa força é o suficiente para derrubar tanques, que dirá uma criatura equivalente a um soldado leve?
— Eu estou cercada apenas de futura comida. — Em um tempo menor do que um humano consegue reagir, ela foi até um soldado, atravessou o tórax dele com a mão, agarrou o núcleo de fungo Zonwiq!a dele, comeu e segurou a sua lança. — Faz um bom tempo que eu não uso uma arma tradicional. Embora, para ser honesta, essa é um pouco estranha para mim.
De repente, bateu uma dor de cabeça. Ela estava recuperada, apenas cansada e faminta. Mas ela se fez uma pergunta muito importante: “Por que eu me lembrei daquelas duas situações? Elas eram de tanto tempo atrás. E não tinham nada a ver com a situação atual.”
E as salvas de tiros voltaram. Ela parecia andar entre flores caindo de um ipê, perfurando soldados inimigos e desviando sem esforço dos tiros. Vários caíram, e ela se aproximava mais e mais do K!opynk!yy. Quando ela estava a poucos metros dele, ele se levantou e saltou pela janela mais próxima. Eram muitos andares, mas ele ainda sobreviveu com pouco a nenhum dano. Vendo isso, os outros soldados também começaram a descer, fugindo da Alice que permaneceu parada.
— E pronto, acabou.
Ela se colocou em posição, segurando a lança ao contrário, e arremessou. A perna do rei demônio foi perfeitamente atravessada, e ele foi carregado pelos seus soldados para longe. Naquele momento, o Manoel pôde ver todas as características dos Teitês. Os olhos vesgos como camaleão, as garras longas como gato, as orelhas pontudas como morcego e os dentes grandes como um tigre.
— Agora tenho que saciar essa fome.
Ela virou em outra direção e desceu calmamente até o primeiro andar, seguida pelo Manoel com o rabo entre as pernas. Em um canto mal iluminado daquele andar, havia uma porta escondida que dava para um porão. E dentro desse porão jazia pilhas e mais pilhas de cadáveres humanos, já tomados completamente pelo micélio do Zonwiq!a. E pela escuridão. 
— Talvez esses estoques sejam suficientes?
— Mas uma Teitê precisa de tanta comida?
— Parece que eu ficaria gorda, mas para gastar toda aquela energia, eu preciso repor. Não importa o quão eficiente eu seja, energia é energia.
Ela tragou tudo que conseguia passar pela boca, ignorando as sirenes abafadas da polícia. Bem, o Manoel percebeu claramente, correu para a porta.
— Nós temos que fugir, a polícia está vindo atrás de nós!
— Talvez você tenha que fugir. Eu estou muito bem escondida.
Ele sentiu que estava ficando maluco. Ela desapareceu, a pilha de cadáveres estava intocada. Mesmo com o monóculo de Zonwiq!a, permanecia igual. Mas ele sabia que era uma ilusão da Alice. Uma ilusão de Teitê. Com as sirenes chegando mais perto, ele se viu forçado a fugir correndo, e deixar a criatura para trás. Deixar a criatura terminar de comer a sua refeição.
— Notícia de última hora. Hoje às 14:37, a polícia respondeu a uma chamada de uma jovem, que disse ter sido desacordada e sequestrada em sua própria casa. Depois foi clarificado que era a casa da namorada, na qual ela estava para fugir da família. Por um milagre, ela conseguiu esfaquear o invasor e fugiu para a casa de um vizinho, permitindo que a polícia capturasse o criminoso Miguel Freitas no térreo do prédio. Normalmente, esse seria um caso de um drogado qualquer, até que foram descobertos cogumelos alucinógenos ainda não identificados na casa da namorada, identificada como Alice de Almeida, suspeita do incidente da avenida General Falhes.
O jornalista que apresentava essas notícias recebeu mais papéis, os quais ele leu e começou a apresentar.
— E esse não parece um evento isolado. Em um estacionamento abandonado da rodovia BR-XXX, foram ouvidos sons de tiro e luta, que se cessaram dez minutos antes das forças policiais chegarem. Quando os dois esquadrões. Entraram no edifício, encontraram o suspeito Manoel Gomes, depois confirmado cúmplice de Miguel Freitas. No último andar, foi encontrado um carro sem placa. E no penúltimo, uma mesa, duas cadeiras e um tabuleiro de um jogo de tabuleiro desconhecido. Mas mais que isso, fuzis automáticos, buracos de tiro pelas paredes e teto, lanças, machados e a cabeça, mas não o corpo, da Alice de Almeida. Por fim, no primeiro andar, foi descoberta uma porta que leva a um porão no qual muitos cadáveres humanos, infestados por um fungo similar ao da casa da Alice. Todos os policiais disseram que apenas o Manoel estava no estacionamento, o que corrobora com os vídeos.
Na tela passava um vídeo da operação gravada pela polícia. Mas o bizarro era que ele mostrava a Alice comendo o fungo que estava nos cadáveres. Ela estava sendo iluminada pelas lanternas, sem se preocupar em se esconder, mas os policiais andavam ao redor dela, agindo como se ela não estivesse lá. 
— Mas aquela não é a Alice de Almeida? Ela não estava morta? Os policiais falaram que não viram ela?
E o vídeo acaba com ela olhando para a câmera com um dos olhos e à pilha de fungo com o outro.
— Bem, atualizaremos nossos espectadores assim que descobrirmos novas informações. A seguir, relatos indicam fraude no banco—
A Alice desligou o celular e engoliu o naco de Zonwiq!a que tinha mastigado. 
— A minha casa, esconderijo secreto e disfarce todos se tornaram inutilizáveis em um mesmo dia, é? 
Ela coçou a nuca e se levantou do chão, pisou no celular e saiu pela porta.
— Bem, hora de voltar às raízes. De fato, talvez toda essa civilização só tenha me feito mal.

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Os dois caçadores foram colocados na mesma cela de prisão. O Miguel foi dormir primeiro na cama de baixo, e o Manoel ficou sentado no chão frio. A cela estava bem iluminada, tão bem iluminada que ele não conseguia ver a luz da lua cheia.  O Miguel dormiu que nem um rochedo, não acordou nem mesmo quando dois policiais entraram na cela. Esses dois policiais agarraram o Manoel e o levaram a uma sala de interrogação, onde ele foi ordenado a sentar em uma mesa. Eles prenderam ele, com uma algema, ao pé da mesa de metal. Após poucos minutos de espera, nos quais o Manoel parecia estar reconsiderando sua vida, um jovem detetive se sentou em frente ao preso e se espreguiçou na cadeira, apoiando no assento. Ele não tinha mais que vinte e oito anos.
— Boa noite, me desculpe por te acordar no meio da noite.
— Eu não dormi.
— Ah, que pena. Enfim, imagino que tenha alguma familiaridade com interrogatórios.
— É claro, fiz muitos em minha carreira.
— Poderia elaborar quanto a esta frase.
— A minha vida pode estar em risco se eu elaborar.
— Então, nós concluímos que uma mensagem avisou que pode. Quando abrimos o seu celular, uma das mensagens vinha de um Silva e dizia: “A central dissolveu. Tava podre, mas só caiu agora. Faz o que quiser.” Seria correto dizer que você pode elaborar, portanto?
O Manoel suspirou.
— Depende do quanto você quer acreditar.
— Vamos do começo. Que gangue matou os 57 no penúltimo andar do estacionamento?
— A Alice de Almeida.
— Mas encontramos a cabeça decapitada dela, e uma só pessoa não é capaz de tudo aquilo.
— Eu te garanto, detetive. Ela usou as mãos, as garras, as presas e uma lança para matar cada um dos 57 guerreiros armados no estacionamento.
“Isso estranhamente condiz com a perícia. Mas ele tem que explicar o resto.” O detetive pensou.
— Mesmo após ela ter sido decapitada?
— Após ser decapitada, ficou mais forte, mais rápida. Aí eles fugiram.
— Como assim? Ela só cresceu uma nova cabeça?
— Sim. Infelizmente, eu vi tudo com os meus próprios olhos. Olha, o líder da gangue levou a gente em um carro, jogou uma partida com a Alice e a luta aconteceu. Eu e ela descemos, ela achou o porão e foi comer, e aí a polícia chegou.
— O que você disse até o momento pode condizer com a nossa investigação, mas nós investigamos o porão e não encontramos a Alice, o seu corpo ou qualquer saída além da principal. Se ela ficou comendo carne como você diz, teríamos a encontrado, correto? Não havia para onde fugir, estacionamos três soldados no corredor até a operação ser dada como concluída.
— Fico feliz que ela permaneceu escondida, teria sido um massacre se tivessem a encontrado.
— Sem especulações, como ela permaneceu escondida?
— Certo. Ela fez uso de um fungo simbionte que consegue emitir um gás que causa alucinações controladas em humanos. — O detetive estreitou os olhos. Isso era algo que apenas um louco diria com tanta certeza. — Se vocês tiverem um vídeo, deve dar para ver o que aconteceu de fato. Se estivesse vendo de longe, tipo com uma luneta, também provavelmente daria para ver.
“É exatamente igual ao vídeo da câmera corporal dos policiais, e ele não viu o noticiário. Ele não parece estar mentindo nem inventando, de algum modo. Só preciso perguntar mais algumas coisas.”
— O incidente da avenida General Falhes…
— Eu estava tentando matar a Alice. A gente foi até uma ponte, eu me agarrei a ela e joguei nós dois na avenida. Ela sobreviveu causando o acidente.
— Nenhuma testemunha…
— As que estavam mais distantes provavelmente podem confirmar a minha história.
O detetive apoiou as mãos na mesa e olhou fundo nos olhos do Manoel. Este os fechava e abria, lutando contra um sono que desaparecia quando se fazia completo.
— E como um civil sabe tanto sobre a Alice, se ela tem tantas dessas habilidades para se esconder?
— Eu e o Miguel, que era o meu subordinado, trabalhávamos para uma agência secreta especializada em caçar esses Teitês. Então nós realmente sabemos tudo sobre eles. Ou o máximo que pode ser descoberto com observação.
— É surpreendente que uma agência como essa conseguiu continuar secreta.
— Foi basicamente um milagre. Poucas das nossas operações eram em áreas habitadas, isso pode ter ajudado. Mas não fico surpreso, com esses eventos recentes, que a agência acabou.
— Certo… — O detetive olhou para o teto e esfregou o rosto com ambas as mãos. Então voltou com alguma emoção forte em seus olhos. — Certo, agora eu e todos os outros policiais dessa delegacia sabemos sobre essas criaturas. Que mataram pelo menos uma centena de pessoas, apenas dentre as que nós temos conhecimento. Manoel, você estaria pronto para ajudar uma operação visando extinguir esses monstros, especialmente a Alice?
O Manoel não conseguiu conter uma leve risada, mas também não perdeu a compostura.
— Me perdoe, jovem, mas a agência já age a quase um século fazendo exatamente isso. E nós não chegamos perto desses objetivos.
— Mas temos de pelo menos capturar a Alice, se ela causou tantas mortes. Não podemos deixar esse monstro andar livre!
O Manoel espirrou logo antes do detetive terminar sua fala. E ficou parado pensando por um minuto.
— Então, um fato divertido para você: A Alice está viva há mais de um século. É apenas por causa disso que ela está como hoje. Se você mata quatro Teitês, o quinto se torna uma nova Alice. Eu acho que o que quer que vocês estejam pensando não vai funcionar, só vai causar morte colateral. Pode confiar em mim, eu tentei.
— Certo, muito obrigado. Você sabia que pode pedir por um advogado, não é? 
— Eu só decidi que não seria lá tão útil. Eu quero que as pessoas saibam de algo que eu só percebi agora.
O detetive saiu da sala de interrogação. Passou um minuto e o Manoel foi escoltado de volta para a sua cela, de onde o Miguel foi retirado. Bem, nada havia a fazer. O Manoel se sentou no mesmo lugar de antes e olhou pela mesma janela. Dessa vez, a luz na cela estava desligada. E a lua havia se posto. Amanhã ou depois de amanhã ele iria a tribunal e seria certamente julgado pelos seus crimes. Ele não estava ansioso com isso ou qualquer coisa. Apenas sequer conseguia fechar os olhos. Apesar do sono.
— Então você entende que terá liberdade condicional até a operação for concluída, contanto que nos auxilie? — O coronel encarregado da operação, sentado em sua poltrona de couro, bebia whiskey enquanto falava. — Essa é uma segunda chance, nós não teremos mais tolerância.
— Não se preocupe. A esse ponto, essa é a minha terceira chance, não haverão erros para serem tolerados.
O Miguel respondeu em postura militar perfeita.
— Muito bom, muito bem. Eu vou dormir agora para a operação amanhã. Mas antes, me diga, quais são alguns pontos que você gostaria de ressaltar?
— Certo. Para começar: O nosso alvo, sendo uma pessoa dentre duzentas milhões, consegue permanecer anônima indefinidamente. O segundo ponto é que qualquer combate deve ser realizado ao ar livre e o mais distante possível, devido ao alcance limitado das ilusões dela.
— Entendo. E quais são as suas propostas?
— Estacionar esquadrões de reconhecimento em prédios altos pela cidade e especialmente sobre prédios vizinhos aos dois últimos locais relevantes; o estacionamento abandonado e o antigo apartamento. Especialmente com o fato que ela precisa se alimentar de fungos cultivados em locais especialmente preparados, ela tem acesso confirmado nesses dois locais. — Ele parou para ver o que o coronel estava pensando, que parecia ser positivo. — A capacidade de criar as ilusões clássicas dos Teitês é excepcional, de outro mundo. Se qualquer um de nossos soldados estiver no mesmo cômodo. Não, no mesmo andar, a uns quinze metros ou mais de distância, esse soldado pode ser dado como morto. Por isso é de suma importância posicionar soldados com rifles de precisão em pontos estratégicos e elevados.
— Excelente. Veremos o que fazer direito amanhã. Por hoje, durma bem. Esteja forte amanhã e nos dias seguintes. Pelo que o Manoel disse, precisaremos disso.
— Mesmo que ele seja um covarde, que não acredita na força da humanidade, eu o conheço. Ele é confiável. 
A Alice, após aqueles eventos, passou dois dias em anonimato. Cortou, raspou seu longo cabelo, lixou novamente os dentes e as orelhas e usou muita maquiagem para mudar a fisionomia, de tal modo que agora ela mais parecia um homem, talvez pedreiro, do que uma mulher foragida. Também aproveitou esse curto tempo organizando o que ela precisava para viver, quase um plano. Roubou novas roupas, já que as antigas estavam rasgadas e não seriam úteis como disfarce. Pegou uma calça, camisa, casaco de gola alta e boina. Também especificamente uma mochila e colete à prova balas. Ela sequer foi identificada, pois tomou muito cuidado ao usar ilusões, destruir as câmeras de segurança e usar uma máscara.
No fim do segundo dia, ela sentiu que seu novo disfarce estava pronto. Ou pelo menos pronto o suficiente. Ela andou a noite toda até chegar à sua antiga casa, onde bizarramente dois soldados com escopetas esperavam na entrada. Ela seguiu caminho do mesmo modo, cumprimentando os dois. Não quis arriscar muito, então usou as ilusões com cuidado, apenas para melhorar seu disfarce ainda incompleto.
— Senhor, eu preciso de seu nome e documento.
— Ah, terão que me desculpar, eu o esqueci em casa. 
— Certo. Qual é o seu apartamento?
— 52. — Era o apartamento em frente ao dela, no qual ela sabia que um homem morava. Um dia, ela o viu na rua e o assassinou, tomando a sua identidade. — José Matos da Silva.
— Está certo. Só vou precisar que vire suas costas para gente e tire a boina.
— Ela não entendeu a ordem, mas acatou do mesmo modo. Mas fez a ilusão que estava a um metro de onde ela estava de fato. Ouviu os guardas e eles não estavam fazendo nada. Ao varrer a paisagem com os olhos, contudo, viu ao longe dois homens no terraço de um prédio duas quadras para frente. Um deles tinha um binóculo e o outro tinha um rifle de precisão apontado na direção dela. Ela teve pouco tempo para desviar do tiro, o qual ela demorou para ouvir. Ele ia direto no coração, e era supersônico. Ela só conseguiu desviar pois percebeu uma leve mudança nas correntes de ar e viu o sniper dando o tiro.
— De fato, há um limite físico para as ilusões de Zonwiq!a. Teria fortes chances de funcionar antes de eu ser decapitada. — Ela inspirou fundo. — Bem, vamos resolver isso.
Ela agachou, agarrou o tiro da parede e o arremessou perfeitamente no homem com a sniper, que caiu. O outro imediatamente pegou o seu lugar. Ele demorou uns momentos para levantar o rifle, mas a portaria foi fechada com uma barreira de metal assim que o primeiro caiu.
— Ah, uma barreira me impedindo, em teoria, de subir as escadas. Realmente, eu não quero ficar batendo a minha cabeça nesse metal. — Os dois guardas com escopetas as levantaram e atiraram na ilusão, já que a Alice não escondeu a barreira sendo levantada. — E eu tenho que me livrar de vocês.
Ela abaixou a sua ilusão anterior e levantou a mão, apontando a palma em direção aos dois guardas. — Um gesto dramático sem efeito real. Eles mal tiveram tempo de apontar suas escopetas antes de começarem a espumar pela boca e cair no chão gritando e se debatendo. Um segundo tiro errou a Teek!yyk!y por pouco, mas ela desviou usando apenas sua percepção das correntes de ar, como ela faria uns cinco dias atrás.
— Certo, vamos para casa agora.
Ela correu ao redor do prédio, parou se escondendo do sniper usando o prédio. Então, andou subindo as paredes como se fosse chão até o sexto andar. Ela espiou pela janela e violentamente se jogou, quebrando e estilhaçando o vidro. Assim que pousou os pés no chão e deu um passo, o vizinho a atacou com sua machete. Ela deu um giro e chutou a machete para longe e, com o mesmo pé, deu um chute na barriga dele, o desacordado. A Malau parou na porta, observando a criatura que acabou de invadir o apartamento. Não era Alice. A pele tinha a mesma cor e o corpo era o mesmo. Mas aquela tinha olhos vesgos e uma frieza incomparável, a ponto de não olhar para a pessoa à sua frente.
— Você não é a Alice, né?
— Se a Alice existe, seria eu. Pelo menos eu fiz o papel dela.
— A Alice nunca existiu, né? Eu amava uma ilusão?
— Talvez, de certo modo.
A Malau tirou a mão da maçaneta e se aproximou.
— Muitas pessoas me chamaram de Teek!yyk!y. 
— Eu não consigo nem pronunciar isso.
— Você não era uma dessas pessoas, de fato.
A Alice permaneceu parada.
— A Alice existiu em algum lugar?
— Como disfarce. Mas de fato, eu nunca te amei.
A Malau ficou em silêncio por uns momentos.
— Eu sei que era praticamente a única pessoa cuidando de você, sinto muito. Ainda tenho um pouco de dinheiro, fique com ele.
— Não, eu estou com pena de você.
Agora a Alice. Não, a Teek!yyk!y ficou quieta.
— Você pode estar matando e rindo de soldados armados, mas sequer quer viver. — Um tiro quebrou uma das janelas do apartamento. — Você poderia ter se enfiado em uma caverna qualquer, mas ainda escolheu criar um disfarce. E esse disfarce foi desfeito tão de repente.
— Era uma questão de orgulho, honra.
— Eu entendo, mas não vai nunca ser capaz de descansar sem medo.
A Teek!yyk!y tentou falar, mas fechou a boca. Ela não queria adicionar mais nada. Pulou pela mesma janela em que entrou e subiu o prédio até o telhado. Outro tiro. Esse acertou um alvo cansado e indeciso, atravessando a perna. Nenhum dano, ela regenerou na hora. Ela olhou diretamente para o sniper e saltou do prédio do qual viveu por anos, saindo dele pela última vez.
O Sniper viu ela pular e pousar ao lado de um civil. Cinco pessoas que andavam pela rua naquele momento gritaram, mas logo acabaram assim como os dois guardas tendo algo que parecia um derrame. Ela jogou sua mochila em direção ao sniper, bloqueando um tiro e fazendo um barulho estranho de metal. Então, ela correu prédio acima, também desacordando todas as pessoas que abriram a janela para ver os barulhos. Uma delas, no derrame, caiu pela janela e morreu. 
O sniper viu uma pessoa voar cinco metros e pousar logo atrás dele. Ela permaneceu parada, sequer olhando para o sniper. Ele pensou enquanto recarregava e atirou onde a Alice não estava, atrás dele, adivinhando que a primeira era uma ilusão. Do nada apareceu a Alice com um tiro fundo no coração, assim como o sniper havia torcido. Ele jogou a arma no chão e suspirou, comemorando. Até que seu coração foi arrancado, e ele ouviu uma voz átona.
— Atrás de você.
O Miguel e o Coronel observaram todo o combate através de câmeras nos capacetes, coletes, binóculo e armas dos soldados. Eles não viram as ilusões, por estarem dentro de um bunker. A última coisa que eles viram foi a Alice pegando uma câmera, dando um longo beijo e a destruindo em sua mão. O coronel engoliu um copo de whiskey enquanto o Miguel só permaneceu chocado, concentrado.
— Como essa operação não deu certo? Todos os planos foram seguidos perfeitamente!
— Para ser justo, coronel, nenhum Teitê desviou de um tiro hipersônico. Tudo funcionaria perfeitamente se não fosse por isso.
— Um bicho que consegue desviar de um tiro desses… O que o exército consegue fazer contra uma coisa assim?
— Eu não sei. Mas perdemos qualquer pista de onde a Alice pode estar. Pelo menos ela não pode se alimentar, já que toda a comida do apartamento foi removida. 
— Apesar de perdemos quatro homens.
— Quanto mais cedo extinguimos esse monstro, menos vítimas cairão. Temos que formular um novo plano nessa noite.
— Eu não tenho mais idade para isso, veja com o tenente-coronel Freixo. — E o coronel foi dormir. O Miguel não tinha o mesmo luxo, e de fato ficou junto do tenente-coronel a noite toda. 
À noite, o Manoel continuava sem dormir, vendo a Lua. A essa hora, a lua ainda não apareceu pela janela. O Manoel fechou os olhos por um segundo, e no próximo, a Alice com o novo disfarce desfalcado repousava, se segurando nas barras da janela. O Manoel olhou diretamente para ela, a qual franziu as sobrancelhas.
— Então veio me visitar?
— De certo modo. — Ela fez uma nova ilusão tentando atordoar o Manoel, mas ele teve uma leve dor de cabeça. — Você não deveria conseguir me ver.
— E ainda assim, você está em sua forma verdadeira, a poucos metros de mim.
Ela estava cansada do dia, então ao invés de quebrar o concreto ou as barras, apenas quebrou as próprias articulações e se espremeu pela janela. O Manoel observou tudo, sem pestanejar. As articulações se curaram imediatamente, então a Alice já se levantou e olhou no peito do Manoel, desconfortavelmente perto.
— É uma nova técnica? Planeja fugir usando ela de novo? 
Nenhuma resposta. Ela novamente rasgou a roupa do Manoel e olhou com atenção. Finalmente, percebeu uma mancha azul,e olhou para o rosto dele. Um novo ataque do coração, arremessando o caçador para trás.
— Não é perfeito, mas parece que o Zonwiq!a se instalou no seu corpo com sucesso.
— Como?
— Você deve ser ligeiramente mais adaptado ao Zonwiq!a do que os outros humanos. E com o vasto contato que teve com nossas ilusões e especialmente com nossos bancos de comida, você foi… Não infectado, mas ele se instalou em você.
— E então, você não vai assassinar esse humano que subitamente não é afetado pelas suas ilusões?
— Não. Vai ser mais dolorido para você continuar a viver sabendo que está sendo consumido pela comida da tua presa.
Um guarda chegou armado com uma escopeta na porta da cela do Manoel. A câmera do pátio da prisão registrou a Alice invadindo o complexo e atravessando a janela, e o guarda mais próximo foi mandado para verificar a cela do Manoel. A Alice não estava em perigo de qualquer modo, mas aquilo era tudo que queria fazer. Ela andou até a parede na qual a janela estava. O guarda apontou a escopeta e bizarramente a soltou. De repente, o braço direito do guarda parou de funcionar, pendendo ao lado do corpo.
— Me desculpe, caro inimigo. Dessa vez, não irei jogar com você, tenho alguns compromissos. Adeus!
Ela quebrou o pé de metal da cama e cavou um buraco na parede, pelo qual fugiu. O Manoel se deitou na cama e finalmente conseguiu dormir.
O coronel acordou naquele dia e tomou um copo de café, trocou para a farda e andou até a sala de operações, onde o Miguel e o tenente-coronel estavam assistindo a um vídeo da Alice se movendo e desviando de tiros. Ela havia alcançado os portões do quartel, atirando com o rifle em todos os que estavam distantes demais, e os outros tiveram o derrame estranho. Não é um derrame de fato, a Alice só sobrecarrega o cérebro dos humanos dentro do alcance de tal modo que eles fiquem atordoados ou inconscientes.
— Mas como assim, ela só chegou aqui e está trucidando nosso homens?! Jogue tudo que temos contra ela!
De fato, todo o equipamento e soldados daquele quartel confrontaram a Alice e foram mortos ou desacordados. Ela andou pelo ar livre como uma terça feira à tarde quando todos os residentes da base foram neutralizados. De um morro distante, de repente um tiro voou e acertou o torso da Alice. Ela levou a mão à barriga. O tiro destruiu apenas uma costela, graças ao colete à prova de balas. Ainda assim, ela andou calmamente até a construção mais próxima do quartel e rasgou a camisa para encontrar o buraco da bala. Com suas longas garras, tirou o tiro do buraco, a costela quebrada, e deu uns momentos para tudo se recuperar.
— Não fazem mais armadura como antigamente. Tenho que arrancar esse lixo logo.
Ela tirou a boina, o casaco, a camisa e o colete à prova de balas, e vestiu de volta a camisa. Ela tirou a mochila e abriu. Dentro, havia uma arca metálica cheia de carne infestada de Zonwiq!a. Ela engoliu metade do balde, até onde o fungo ainda não havia crescido direito. Querendo mais, enfiou a mão fundo e tirou a cabeça do sniper de lá. 
— Ah, ainda não deu tempo. Bem, depois eu faço outra pilha, agora estou cansada, vou acabar com isso logo. 
De um armário, pegou uma adaga e uma pistola.
— O que nós fazemos? Ela está vindo até nós armada, e não temos nada para fazer. — O tenente-coronel pegou o telefone para pedir por reforços, mas o Miguel segurou a mão dele. — Por que está me impedindo? Quer morrer?
— Se nós chamarmos reforços, ela só vai nos matar e fugir. Acho que temos uma chance, ela não iria só nos matar como qualquer animal. Prepare-se.
O coronel sacou o revólver do bolso e os três oficiais ficaram olhando para a porta de metal. Todos os outros soldados saíram, deixando o coronel com um revólver, o tenente-coronel com uma metralhadora e o Miguel, que tinha uma adaga, nada. Sons de tiros ecoaram, fazendo os oficiais suarem baldes, até o último choro de dor ser silenciado.
Lentamente, a porta trancada de ferro do bunker se abriu. Os militares dispararam toda a munição que tinham. Quando o tenente-coronel acabou com toda a munição, e o coronel percebeu que estava com uma bala sobrando, então eles ouviram o Miguel gritando. Ele “roubou” o monóculo de Zonwiq!a de seu mestre e fechou o olho que ainda estava sob as ilusões.
— Ela não abriu a porra da porta, vocês só desperdiçaram toda a munição, idiotas!
— Muito obrigada, eu não queria ficar chutando esse pedaço de metal.
Ela derrubou a porta e entrou de fato no recinto. O coronel, em um último ato de heroísmo, levantou o revólver. A Alice levantou o braço e o coronel deixou o revólver cair. O Miguel não entendeu.
— O que você fez com o coronel? Por que ele soltou a arma?
— Tenta abrir o olho. Não se preocupe, eu não vou atacar vocês.
O Miguel tirou o monóculo e viu a ilusão que a Alice tinha feito. O braço do coronel desapareceu. Um momento, e o braço misteriosamente voltou. O tenente-coronel sacou a adaga e partiu para cima da Alice. Ela atirou nele sem cerimônias. Continuando a fazer suas ações do modo mais seco possível, varreu todas as peças de estratégia e planejamento de cima da mesa no centro da sala e colocou três cadeiras ao redor dela. Se sentou em uma e sinalizou que os dois sobreviventes se sentassem do lado oposto. Assim eles o fizeram. O coronel estava quase caindo, mas o Miguel reuniu todo o foco, qualquer que fosse o desafio.
— O seu mestre já conhece o jogo, mas eu não sei se ele te ensinou. E tenho certeza que o coronel não deve conhecer. — Um tabuleiro de Naank!yyruun surgiu na mesa, junto das peças. — Portanto irei tomar a liberdade de os ensinar as regras de um modo não convencional.
A cabeça deles foi bombardeada por diagramas explicando as regras do jogo nos menores detalhes. O coronel tossiu e caiu da cadeira, mas logo voltou ao jogo. O Miguel conseguiu absorver e pegou as peças pretas. Antes de jogar, contudo, fez uma pergunta.
— Como encontrou esse quartel?
— Não lembro direito. Mas acho que só pesquisei o capitão ou algo do tipo dos seus soldados e achei o nome. Não importa, estou aqui agora. E você deveria focar em sobreviver.
— Certo… Não é mais complexo criar um tabuleiro interagível do que um estático?
Dessa vez, a Alice estava vendo as jogadas. Ainda tinha que memorizar tudo, já que as ilusões dos Teitês não os afetam.
— Pois é, muitos Teete têm dificuldade com isso. Mas eu percebi que as ilusões, quando se atinge uma certa maestria, são tratadas como a realidade pela mente dos humanos. Então, ao invés de definir algo de modo muito estrito, você mais sugere. E o cérebro prefere continuar acreditando na mentira e iludindo a si mesmo do que tentar ver a realidade. Eu não sei explicar direito, mas é bem intuitivo quando se consegue pela primeira vez.
— Claro, entendo. É de fato muito simples.
— Pode começar o jogo.
— Mas as brancas não começam?
— Tradicionalmente não, mas se você insiste.
Todas as jogadas foram feitas pelo Miguel, que ignorava alguns raros conselhos que o coronel deu. O militar não costumava jogar jogos de tabuleiro, então aceitou quando o caçador dizia que ele estava errado.
 
A Partida ocorreu do seguinte modo:
Gado B1 — Guerreiro B8
Guerreiro B1 — Gado B8
Gado B1 — Gado B8
Gado B1 — Gado B8
Guerreiro B1 — Guerreiro B8
B1 > B2, B3, B4, B5, B6 — B8 > B7, C7, C6, C5, C4
B6 > C6 — Guerreiro C8
Guerreiro B1 — C4 > C5
B1 > B2 — B7 > C7 ??
E, finalmente, a jogada decisiva do jogo: C6 > C7, B7 ! —
 
Nesse ponto, o vencedor foi definido. O Miguel pegou a torre em C7, mas o coronel segurou a mão dele. Olhou para o tabuleiro, olhou para a Alice — Que exibia um sorriso sereno — e disse.
— Você tem que colocar um guerreiro em B8 para adiar a derrota. Ou mover o guerreiro de C8 para B8.
— Não, mas isso perde a torre em C7. Eu posso colocar o guerreiro dela em B8, que está sendo atacado, e colocar um gado em cima do guerreiro em B7. — O coronel sentou na poltrona assim que o Miguel fez a jogada: — C7 > B7, B8, C8.
— O seu companheiro estava correto. Vocês perderam na jogada anterior de qualquer jeito, mas ele está certo. B7 para A7 e A8.
O coronel tomou três goles do seu copo de whiskey e olhou para o chão, deixando os outros dois metaforicamente sozinhos. O Miguel colocou o monóculo de Zonwiq!a e olhou para a Alice e para o coronel. E de volta para a Alice. Em um último ataque de desespero, tentou esfaquear a Teitê. Ela deu um tapa na mão dele, o desarmando, e o chutou no chão. O Miguel começou a chorar de olhos fechados. 
— Eu só queria fazer alguma coisa nessa vida, talvez ter tido uma vida normal, deixado a minha marca no mundo… Mas você não deixou, criatura! Besta! Monstro! Essa vitória era a minha passagem para uma vida confortável!
— Cale-se. Serei direta; Você será concluído assim como os Teitês que vocês mataram ainda juvenis.
Antes que o Miguel gritasse, ela atravessou a mão pelo torso dele e delicadamente arrancou o coração do guerreiro fracassado. Ela pôde ver a vida saindo dele, até que terminou de resistir e finalmente morreu de fato. A Alice tirou o pé de cima do cadáver e virou para o coronel. Nenhuma reação. Ela chegou perto dele. Nenhuma reação.
— Tem um último desejo?
— Por favor, me dê dois minutos.
E ela deu dois passos para trás, segurando o relógio de pulso ao ouvido para contar os tiques. O coronel deu um tapa no copo, o fazendo cair no chão e pegou o celular. Mexeu pouco e fez uma ligação.
— Alô? Querida? Fale para as crianças que hoje eu vou atrasar para o jantar.
Quando ele levantou os olhos para ver a executora, quando os dois minutos se passaram precisamente, viu um bunker vazio, com dois cadáveres apenas. Ele se levantou da cadeira e deitou em um colchão qualquer.
— Últimas notícias! Um quartel localizado no interior de São Paulo foi encontrado massacrado essa manhã, junto de quatro soldados residentes nele que foram posicionados para vigiar o prédio do antigo apartamento da Alice de Almeida. Junto desses soldados, testemunhas relatam “um homem ou mulher subindo prédios e caindo desses prédios”, e logo após foram desacordados. Ao que tudo indica, a Alice de Almeida foi novamente a culpada direta desses dois ataques, junto de uma visita noturna ao Manoel, atualmente em julgamento acusado de 20 assassinatos. De algum modo ela passou por uma janela pequena demais para qualquer ser humano e abriu um buraco no concreto com um pé do beliche. Um guarda relatou estar impotente perante essa infiltradora, apesar de ela estar aparentemente desarmada e ele estar com uma escopeta. O atual paradeiro da Alice de Almeida é desconhecido, — E com essa fala, a criatura em questão entrou na sala em que a gravação estava ocorrendo e se sentou ao lado da repórter. Todos no recinto agiram como se ela não estivesse lá, mas ela ainda estava sendo gravada. — e só podemos torcer que ela seja encontrada e capturada.
— Olha, o primeiro passo foi feito. — E a ilusão de invisibilidade foi desfeita. Todos os olhos voaram na direção da Alice, que estava quase igual a quando o Manoel a viu pela primeira vez. Exceto pelos olhos, que ela deixou fechados ao invés de arrancados da cabeça. — O segundo não vai ocorrer, mas enfim. Estavam falando sobre mim?
— O que, como você entrou aqui? Quem te deixou entrar?!
— Então. Quando você é basicamente invisível e não produz nenhum som, qualquer porta não trancada é uma parede a menos. Precisei mentir apenas duas vezes e achei a sala fácil fácil.
— Como assim invisível?! Do que está falando?!
— Acho vergonhoso e entediante ficar sempre explicando para cada pessoa tudo isso, então decidi explicar tudo para todo mundo que está assistindo. No fim do século retrasado, buracos se abriram e pessoas, para as quais eu estou cunhando o termo científico Homo Sapiens Subterraneus, vieram para a superfície. O nome da minha cultura em específico é Teete, levando ao nome popular Teitê. Na segunda década do século passado, em 1916 ou 1917, houve uma crise de superpopulação de Teitês na superfície, tantos e tão desorganizados saíam dos túneis que eles começaram a comer carne humana. Assim, no Brasil, surgiu uma agência governamental que caçava esses Teitês. Lentamente, nossos números diminuíram, e nós estávamos indo à extinção.
— Como?
— Ou é o que parecia. Para ser honesta, nós apenas nos tornamos melhores em nos esconder. Os que conseguiam viver nas cidades eram ignorados pela agência e clãs de Teitês se formaram na superfície assim como no subterrâneo. Ainda assim, somos um número muito pequeno que costuma tirar a subsistência de madeira ou plantas genéricas.
— São onívoros?
— E agora, a agência acabou. Os eventos recentes foram um fiasco, um caçador causou um acidente e eu tive que resolver uma rixa antiga com um aprendiz meu em um estacionamento abandonado.
— Ah, qual foi o motivo da rixa?
— Espera, qual é o nome… — A Alice roeu as unhas enquanto pensava. — Ah, sim. Eu apostei uns vinte reais com ele e a gente não conseguiu concordar quanto a quem ganhou no fim. Eu nem lembro no que a gente apostou, acho que foi uma rinha de galo e aí os dois morreram ao mesmo tempo.
— Então cinquenta e sete caíram ilegalmente por causa de vinte reais?
— Sim. Ou eram vinte cruzados, eu realmente não lembro. Enfim, queria os informar o que acho relevante. Se você acha que um conhecido seu é um Teitê, eu não me preocuparia com isso. Nós somos bem inofensivos quando não atacados, e mesmo se fôssemos, a chance de uma pessoa qualquer ser um Teitê é ínfima. Eu recomendaria parar de dirigir um carro se é tão paranóico com a própria vida.
— Mas dizem que você matou mais de cem pessoas, sozinha! Como pode dizer que são inofensivos?!
— É, seu monstro! Você deveria morrer! 
Um homem de terno se aproximou da repórter e da Teitê. Ele preparou um soco, mas a Alice balançou a mão e ele caiu na bancada e no chão.
— Você apagou ele?!
— Não, ele só acha que não existe mais, exceto pelos órgãos vitais, então não consegue mais se mexer. Peço que não façam esse tipo de coisa, é chato ter que filtrar as ilusões para que elas afetem apenas uma pessoa.
— Mas Alice, como podemos dormir tranquilos sabendo que qualquer um desses Teitês pode só decidir causar mais mal do que um pelotão?
— Bem… Eu sou um caso a parte, que não deve ser considerado. Para ser honesta, não conheço ninguém mais velha que eu. E o fungo que vive dentro de nós só melhor se adapta ao corpo com a idade. E a habilidade com essas ilusões vem apenas com a experiência. A maioria dos Teitês é basicamente um humano que consegue fazer truques de mágica e esconder coisas incrivelmente. 
— Entendo… Você tem mais algo para dizer à audiência?
— Ah, apenas mais uma coisa. — Os dentes, garras e orelhas da Alice voltaram para o normal da sua espécie, horrorizando quem assistia pela televisão e ao vivo. — Pelo bem das pessoas ao seu redor e o seu próprio: Não tente bancar o herói.
E ela se levantou e saiu pulando por uma janela. O Manoel na prisão perpétua iria assistir a esse episódio e soltar uma leve risada. Uma faísca em uma vida agora vazia.
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Atualizado em: Seg 17 Ago 2026

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