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Vícios
Dois velhos conhecidos encontram-se e trocam saberes sobre a vida.
- Estive pensando em alguns vícios que encontro na nossa língua e estou tentando formular uma explicação para alguns deles.
- Vícios de linguagem? Como o pleonasmo, por exemplo? O tal do “subir prá cima”, “descer prá baixo”, “sair prá fora”, “entrar prá dentro” etc.?
- Exato. Esses que você citou são os mais comuns, os que mais agridem os ouvidos, mas há outros que são mais sutis.
- Mais sutis? Dê-me um exemplo.
- O termo prefeitura está associado a municípios, a cidades. Há outros usos, mas são esporádicos. Quando se fala em prefeitura, pensa-se num município.
- Entendi. Então, dizer prefeitura municipal seria um pleonasmo. De fato, é uma repetição desnecessária, pois o município está subentendido.
- Outro exemplo. Não sou perito em futebol, mas sei que no futebol só existe um tipo permitido de arremesso. Aquele que é chamado de arremesso lateral.
- Entendi também. Seria desnecessário dizer que o arremesso é lateral, pois não há outro tipo de arremesso, que não seja o lateral. Outra repetição...
- Mas isso nem é tão importante assim. Eu tenho pensado muito nas causas desses vícios e de outros que tomam conta da nossa língua.
- Isso também me interessa. Será que é aprendizado insuficiente, falho?
- Penso que seja mais que isso. Falta-nos a consciência da capacidade de expressão das palavras. Falta-nos o treino de pensar sobre o que falamos.
- Interessante, isso. Agora, refletindo um pouco, devo dizer que concordo. Eu mesmo não tenho o hábito de rever o que li ou o que falei.
- Isso! Esse “rever o que foi dito ou escrito” tem de ser crítico. Será que eu disse o que eu queria dizer? Será que empreguei as palavras mais indicadas?
- Não me lembro de ter trabalhado isso alguma vez na escola. E você?
- As escolas estão entre os últimos lugares onde se aprende a pensar.
Atualizado em: Dom 9 Ago 2026
