- Crônicas
- Postado em
Relativo
Dois velhos conhecidos encontram-se e trocam saberes sobre a vida.
- De onde surgiu a frase “você já parou para pensar que...”?
- De mais um descuido com o peso das palavras. Para que “parar para pensar”? Será que é preciso “parar para pensar”? Eu penso sem ter de parar.
- É o que me pergunto. Por que não dizer “você já pensou que...”?
- Você e eu sabemos que o certo, o lógico, não importam mais. A justificativa de que “hoje em dia, muita gente faz assim” basta para provar que tudo está certo como está.
- Outro dia li algo como “muita gente escreve assim, portanto, essa forma de escrever deve ser aceita como correta” e fiquei pensando nos erros cometidos.
- É a desculpa de quem não sabe o certo, nem se importa com isso.
- Eu respondi à moça “’segundo a sua teoria, se muitos homens baterem nas suas mulheres, isso deve ser aceito como certo.” Ela ficou enfurecida.
- E já foi assim, não? Bater nas mulheres já foi considerado necessário e amplamente tolerado. Até matá-las, em alguns casos, era justificado.
- Sim! Houve época em que ter escravos era símbolo de poder, de status. O cristianismo notabilizou-se por manter milhões de pretos escravizados.
- Exato. Em troca, as almas desses escravos eram salvas porque podiam ser convertidos e batizados. As doutrinas sempre encontram uma justificativa lógica para as suas ações. É a tal “continha de chegar”.
- Portanto, o acerto de ontem pode ser o erro de hoje, assim como o erro de ontem pode ser o acerto de hoje.
- Nós dois somos da época em que mulheres casadas só eram admitidas para trabalhar em fábricas mediante autorização manuscrita do marido.
- E isso derivava de ensinamentos paulinos de que o homem é o cabeça da família. Quanta maldade foi e é praticada sob inspiração de textos bíblicos?
- Maldade aos olhos de hoje. À época tudo era considerado certo e justo. No mundo tudo é mesmo relativo. Depende do caráter das lideranças...
Atualizado em: Dom 9 Ago 2026
