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A concepção existencial de Deus na obra de José Herculano Pires

A concepção existencial de Deus na obra de José Herculano Pires

Rogério Duarte Fernandes dos Passos
Comentário. PIRES, José Herculano. Concepção Existencial de Deus. São Paulo: Paidéia, 1ª ed., 1981, 116 p.
1. Um filósofo espírita diante da questão de Deus
José Herculano Pires (1914-1979), nascido em Avaré e falecido na cidade de São Paulo, foi destacado intelectual, professor, jornalista e filósofo brasileiro, autor de romances, ensaios e estudos sobre a Doutrina Espírita codificada pelo pedagogo francês Allan Kardec (1804-1869).

Autor de mais de oitenta obras, neste volume intitulado Concepção Existencial de Deus, cuja primeira publicação remonta a 1981, o escritor brasileiro entrega-se a uma questão deveras difícil: situar, compreender e explicar Deus e Sua existência, refutando materialistas, filósofos, clérigos e céticos.
Como em qualquer obra de cunho filosófico, Herculano Pires, por meio de sua extensa bagagem cultural, oferece um verdadeiro curso de filosofia. É a partir desse vasto repertório que estrutura e desenvolve suas reflexões, utilizando o suporte gnosiológico para situar o leitor nos temas abordados e, em seguida, sustentá-lo nas ideias que esposa.
Dito isso, esclarece-nos que somos criaturas ainda imperfeitas e rudimentares em nosso processo evolutivo, apenas iniciando a jornada na teoria do conhecimento e no empirismo que, ao longo de muitas encarnações e aprendizados, nos elevará não apenas a uma concepção mais substanciosa de Deus e à melhor compreensão de Sua existência, mas também nos aproximará, com maior profundidade, do propósito benfazejo e infinitamente útil que o Criador nos reservou.
2. A crítica ao materialismo e ao antropomorfismo
Com críticas aos desdobramentos da nadificação do ser na filosofia existencial – tão em voga na segunda metade do Século XX –, bem como ao materialismo socialista, capitalista e militar, afasta a visão antropomórfica de Deus, esclarecendo que há aspectos de Sua natureza que ainda escapam à nossa compreensão. Contudo, em seu escorço epistemológico, afasta a concepção do "Deus dos Exércitos" do Velho Testamento e enuncia um Soberano generoso, desejoso do progresso de Seus filhos, promovendo verdadeira redefinição das relações entre Criador e criatura, que deverão ser permeadas pela razão e pela lógica – não apenas a aristotélica, mas também aquela contida na obra O Céu e o Inferno, de Kardec, publicada em 1865 –, trazendo à reflexão o Pai anunciado por Jesus Cristo, não punitivo e que, no bojo da bondade e do livre-arbítrio, inscreve o tribunal divino na própria consciência de Seus filhos.
Nesse contexto, Pires sustenta a inutilidade de sacramentos, rituais e dogmas religiosos para o engrandecimento da experiência espiritual. O autojulgamento e os labores dos filhos de Deus são sublinhados pelo bom pensamento e pela oração. Nesse sentido, sequer poderia ser diferente, pois, como defensor da pureza doutrinária espírita – livre de sincretismos e mistificações –, concebe-a, com eficácia, não apenas como um sistema religioso, mas igualmente como ciência e filosofia moral, concitando-nos a superar as brutalidades da Antiguidade e os obscuros pilares teológicos construídos durante o período medieval, dos quais, infelizmente, muitos de nós ainda somos herdeiros.
3. Evolução espiritual e consciência moral
Outrossim, sendo o ser humano responsável por suas escolhas morais, Pires estabelece um sistema coerente em que a evolução do indivíduo encarnado decorre das conquistas das gerações presentes, bem como do usufruto e do acúmulo de saberes legados pelas passadas, no ínterim de um processo apto a nos guindar a uma percepção cognitiva e espiritual cada vez mais elevada que, superando concepções mitológicas e místicas, desvela novos horizontes gnosiológicos e – também em superação ao panteísmo, que confunde Criador e criatura – permite-nos reconhecer Deus na essência e causa da criação e, sobretudo, em nossas próprias consciências.
Esse processo é exigível de todo ser humano, que precisa recobrar-se em humildade, esforço, estudo, consciência e maturidade, podendo ser sintetizado no seguinte desenvolvimento de José Herculano Pires:
"[...] A única idéia admissível é a de uma Consciência Cósmica, que não sabemos como surgiu ou se sempre existiu, mas que responde pela estruturação da realidade com que nos defrontamos no mistério do Infinito. Temos pelo menos a certeza do efeito, no qual nos integramos como parcela insignificante, mas pensante e espiritual" (PIRES, 1981, p. 84) [grafia da Língua Portuguesa vigente à época].
4. A crítica às soberbas intelectuais
Ademais, com grande percepção das soberbas intelectuais de sua época – sem abandonar, contudo, a esperança na mudança desse estado de coisas –, Herculano Pires lembra que ser materialista, em todas as suas vertentes ideológicas, já na década de 1970, constituía verdadeira moda e, dentro do curioso sistema de disputa e também de massagem coletiva de egos existente nos ambientes acadêmicos e intelectuais, funcionava muito bem como recurso de afirmação de superioridade moral e intelectual, como o próprio autor explica:
"É também uma suposta prova de superioridade intelectual dizer-se materialista, livre-pensador, homem liberto das ilusões metafísicas. Tudo isso podia produzir efeito ilusório no passado, mas não hoje. A Metafísica trata precisamente do que está além da Física. No entanto, a própria Física moderna entrou no plano da transcendência vertical de [Karl] Jaspers [1883-1969], obrigada pelas exigências inexoráveis do desenvolvimento científico. Onde e como se confirma a superioridade intelectual de um intelecto que, fugindo às crendices do passado, da mesma maneira que um pobre tabaréu foge do fogo-fátuo julgando-o assombração, recusa-se a tomar consciência das novas dimensões do conhecimento científico?" [inserção nossa entre os colchetes] (PIRES, 1981, p. 92).
Acresça-se que, no desenvolvimento de sua argumentação, como intelectual e filósofo seguro de suas proposições, Pires não abandona, como alicerce argumentativo, o escorço histórico, ainda que sem desconsiderar as imperfeições e inconsistências de alguns modelos teóricos da Antiguidade:
"[...] A idéia de um Deus Criador surgiu pela primeira vez, em termos filosóficos, com Anaxágoras [de Clazómenas ou Clazômenas, ca. 500 a.C.-428 a.C.], que o considerou como ordenador do mundo, criador da ordem natural. Anaxágoras chamou esse Deus pelo nome de Intelecto reconhecendo nele a Inteligência organizadora da realidade. Com Platão surgiria mais tarde o conceito do Demiurgo, ou seja, do construtor do mundo. Isso implicava a existência de um poder Superior a Deus, pois o construtor trabalhava a matéria que lhe era dada. Aristóteles [384 a.C.-322 a.C.] figurou Deus como O Primeiro Motor Imóvel que punha em movimento todos os demais motores da dinâmica universal. Sua vocação prática, e portanto científica, comprovada por suas pesquisas naturais, dava o primeiro passo contra a idéia do sobrenatural [...]" (PIRES, 1981, p. 97-98) [inserção nossa entre os colchetes] [grafia da Língua Portuguesa vigente à época].
A uniformidade argumentativa de Pires, que, em perspectiva lógico-dedutiva, conduz o leitor à percepção de Deus, apoia-se igualmente nos melhores argumentos de Kardec que, em sua trajetória de pesquisa e codificação da Doutrina Espírita, também desempenhou o hercúleo trabalho de refutar seus adversários mediante o uso da lógica e do bom senso nas publicações da Revista Espírita, editada entre Janeiro de 1858 e Março de 1869.
5. A Parapsicologia como ponto de inflexão crítica
Profundo entusiasta da Parapsicologia – em profusão teórica e experimental na década de 1970 –, José Herculano Pires demonstra grande admiração pelo trabalho do pesquisador Joseph Banks Rhine (1895-1980), especialmente por suas conclusões acerca da natureza extrafísica da mente. Entretanto, as contribuições parapsicológicas constituem o ponto destoante da obra, pois, a nosso julgamento, do ponto de vista da teoria do conhecimento, pouco acrescentam à substanciação epistemológica edificada ao longo do livro e, em determinados momentos, parecem revelar um materialismo às avessas, transmitindo a impressão que a mera experimentação de uma realidade imaterial não conseguiu trazer consigo os compromissos de natureza moral que se evidenciam com tanta clareza na obra de Allan Kardec.
6. Considerações finais
De qualquer forma, por meio da construção social e histórica do ser humano, associada aos ditames da lógica, da razão, do sentimento, da filosofia e do bom senso, José Herculano Pires apresenta uma concepção existencial de Deus, demonstrando não apenas Sua existência, mas também Sua essência revelada na criação, no fraterno compartilhamento das possibilidades evolutivas com a criatura e no referencial infinito de bondade presente em Suas atividades intrínsecas e extrínsecas, ainda pouco mensuráveis para nós.
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Atualizado em: Dom 5 Jul 2026

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