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Cartas de uma Morta: testemunho da vida espiritual e da esperança cristã
Cartas de uma Morta: testemunho da vida espiritual e da esperança cristã
Rogério Duarte Fernandes dos Passos
Comentário. JOÃO DE DEUS, Maria (Espírito). Psicografia de Francisco Cândido Xavier. Cartas de uma Morta. São Paulo: Livraria Allan Kardec Editora (LAKE), 6ª ed., 1958, 147 p.
Neste clássico da Doutrina Espírita de Jesus, publicado no Brasil pela primeira vez em 1935, o médium Francisco Cândido Xavier, nosso Chico Xavier (1910-2002), psicografa uma obra do espírito de sua mãe, Maria João de Deus (1881-1915), quando encarnada em nosso orbe.
Após o desencarne da mãe, Francisco Cândido Xavier, tendo nove irmãos, foi entregue a terceiros para ser criado, padecendo grandes sofrimentos, até que seu pai se casou com Cidália Batista Xavier (1896-1931), que reuniu novamente toda a família e dedicou ao futuro médium afeto, compreensão e cuidados maternais.
Desde muito cedo, Chico Xavier, por intermédio de sua mediunidade, manteve contato com o espírito de sua mãe. Nesta obra, Maria João de Deus revela como foi sua chegada ao mundo espiritual, descortinando uma realidade que nossos sentidos e o estágio atual de nossa evolução ainda não nos permitem compreender plenamente, da qual conseguimos formar apenas uma noção aproximada.
Católica quando encarnada, Maria João de Deus enfrentou sua adaptação à realidade espiritual de forma bastante distinta das orientações religiosas que havia recebido na vida terrena, convivendo com mentores elevados, espíritos de escol e almas em sofrimento, ainda necessitadas do arrependimento para que, em futuras encarnações, alcançassem a expiação e o adiantamento espiritual.
Ao longo das comunicações de Maria João de Deus, constatamos a grande evolução por ela alcançada. Em um contexto de profunda humildade, revela a importância do pensamento benfazejo e da oração como força vibratória capaz de orientar espíritos sofredores em direção ao inefável caminho do bem.
Infinito, o progresso traduz-se em mundos ditosos, nos quais o trabalho frutifica em relações de fraternidade, caridade e cooperação. Em excursões instrutivas a outros orbes, Maria João de Deus obtém inspiração não apenas para o próprio progresso, mas também para compartilhar seus relatos, instruindo-nos e incentivando-nos a prosseguir com afinco em nossa jornada evolutiva. Isso se torna especialmente relevante porque o planeta Terra, embora se aproxime da condição de mundo de regeneração, ainda abriga espíritos com longa trajetória de provas e expiações a cumprir em benefício de si mesmos.
Da leitura desta obra, difícil é mensurar a emoção do próprio médium diante das elevadas revelações desse espírito tão caro. Trata-se de um texto capaz de impactar até mesmo as percepções mais endurecidas acerca do potencial de evolução infinita representado por um ideal de felicidade alicerçado no serviço e no bem, realidade que nós, ainda vinculados à experiência terrena, somos incapazes de conceber plenamente. Somos, assim, concitados à reforma de nosso repertório íntimo em favor de uma sublimação que, no amor do Pai Celestial, a nós mesmos beneficiará.
Em suas cartas, Maria João de Deus também nos conclama à paciência, à resignação, ao trabalho e à oração, refutando a descrença estéril quanto à ausência de sentido no sofrimento, posto que:
"Mas a dor, a dor soberana que aí na Terra dobra tôda a cerviz e subjuga tôdas as frontes, essa está igualmente aqui conosco, na aquisição de ensinamentos, exercendo a sua função de remodelar e de aperfeiçoar para a glória suprema da vida.
Todavia, Senhor, vós que sois a grandeza e a misericórdia suprema do Universo, estendei as vossas mãos magnânimas para a Terra, mansão de sombras e de provações, onde irmãos nossos se entregam ao mais proveitoso dos aprendizados.
Dai-lhes fortaleza de ânimo e resignação nos embates contra a adversidade dolorosa, alçando os seus olhos para os vossos impérios resplandecentes, onde compreendemos as luminosas afirmações da Vida Espiritual.
Protegei-os a todos, Senhor, integrando as suas consciências no caminho retilíneo da salvação e os seus ensinamentos na compreensão profunda das vossas leis. Que a Terra conheça a nova era do amor e da fraternidade espiritual" (MARIA JOÃO DE DEUS, 1958, p. 136-137) [grafia da Língua Portuguesa vigente à época].
A leitura de Cartas de uma Morta, indubitavelmente, constitui valiosa contribuição ao conjunto dos ensinamentos de Allan Kardec (1804-1869), expostos na codificação da Doutrina Espírita de Jesus. A obra apresenta-se como importante repositório para os que desejam estudá-la e tê-la como fonte de compreensão da existência e do correspondente compromisso de adiantamento moral, oferecendo uma descrição da realidade espiritual após a desencarnação e uma mensagem de consolação, progresso moral e esperança que permeia toda a obra psicografada por Chico Xavier.
Atualizado em: Dom 5 Jul 2026
