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Grasso: A Próxima Geração 108 – Mentiras

O carro para em frente à casa. Sophia tira o cinto, sorrindo. O clima é leve.
— Obrigada por hoje, pai. Eu gostei muito mesmo.
Ele sorri, sincero.
— Eu também gostei. Foi bom passar esse tempo com você. E olha… já estou até animado para ir à sua escola. Esse convite do Professor Kimmich foi uma ótima ideia.
Sophia sorri.
— Vai ser incrível! O pessoal vai achar muito legal.
— Espero não decepcionar.
— Relaxa, você vai arrasar na palestra.
Eles trocam um sorriso. Sophia abre a porta.
— Tchau, pai. Até mais.
Ele acena com a mão.
— Até, filha.
Sophia sai do carro e entra em casa, ainda animada.
Pâmela está na cozinha organizando algumas coisas. Sophia entra animada.
— Oi, filha. Como foi o almoço?
— Foi ótimo! A gente ficou conversando um tempão.
Pâmela observa, interessada.
— Sobre o quê?
— Ah, várias coisas. Ele me contou das viagens que fez… tipo, uns lugares que eu nem sabia que existiam. Teve uma história de quando ele se perdeu numa cidade lá fora… foi meio caótico, mas engraçado. — Sophia ri, animada. — E ele vai na escola como palestrante! O Professor Kimmich convidou.
Pâmela hesita por um instante.
— E… ele falou mais alguma coisa?
Sophia estranha a pergunta, franzindo levemente a testa.
— Não… por quê?
Pâmela rapidamente muda o tom, disfarçando.
— Nada, eu só estava sendo curiosa… como sempre.
Sophia dá de ombros, sem desconfiar muito. Ela pega um copo de água, ainda sorrindo, enquanto Pâmela observa em silêncio.

Personagens Principais 
Gaby Merino
Mateus Merino
Luiza Souza
John Doho
Stefy Prioste
Sophia Rodrigues
André Kimmich
Edu Mariano 
JP Djanikian
Giovanna Kuhlmann
Rick dos Anjos 
Daniel Fernandes 
 
Na manhã seguinte, o sinal ainda não tocou. Alunos conversam em pequenos grupos. Stefy, Sophia e Gaby estão sentadas em um banco. 
Stefy abre um medalhão dourado em forma de coração. 
— Meu pai deu para minha mãe no primeiro aniversário, ela deixou pra mim depois que ela morreu.
Gaby sorri admirada.
— É lindo Setfy!
Sophia se inclina para ver melhor.
— Sua mãe era tão linda.
— Meu pai a chamava de “minha estrela de cinema. — Stefy sorri sem graça. — Eu sei que é idiota.
Sophia olha para Stefy.
— Não é, é fofo. Você se parece muito com ela.
Há um pequeno silêncio respeitoso. Gaby olha para Stefy 
— É muito especial, Stefy.
Sophia concorda balançando a cabeça.
— De verdade… é lindo.
Stefy sorri.
Mateus passa por elas.
— Bom dia meninas, não vão se atrasar pra aula.
Elas sorriem.
Mateus sai.
Stefy olha para Sophia.
— Então o que sua mãe está achando que seu pai voltou?
— Sei lá, ela falou umas coisas estranhas ontem.
Gaby olha confusa.
— Estranhas como?
— Tipo indiretas. Eu fui almoçar com meu pai e depois ela ficou perguntando se meu pai tinha falado “alguma coisa”.
Stefy e Gaby trocam um olhar rápido.
— Mais alguma coisa tipo… o quê? — Gaby perguntou.
— Então, eu não sei. Foi isso que me deixou confusa.
Gaby continua.
E você perguntou?
— Perguntei, mas ela desconversou na hora. Disse que era só curiosidade.
Stefy olha confusa.
— Estranho isso.
Sophia concorda.
— Sim, espero que não seja nada demais.
 
Gaby avista Rick mais à frente, andando sozinho, meio fechado, ela se levanta e vai falar com ele.
Ela acelera o passo.
— Rick, espera. A gente precisa conversar.
Ele nem diminui o ritmo.
— Agora não, Gaby.
— Rick...
Ele para de repente e se vira, já irritado.
— O que foi?
Gaby chega perto, tentando manter a calma.
— Por que você está estranho comigo?
Rick solta o ar pelo nariz, impaciente.
— Eu ouvi o que o seu pai falou de mim.
Gaby franze a testa, confusa.
— O quê?
Ele olha serio.
— Que não confia em mim… por causa do meu “histórico violento”.
Ela pisca, surpresa.
— Mas… quem liga pra isso? Isso nem é verdade não é?
Rick não responde. Só olha pra ela.
O silêncio já diz tudo.
Gaby engole seco.
— Rick… são só boatos, não são?
Ele desvia o olhar por um segundo… depois encara ela de novo.
— Você sabe por que eu vim pra cá?
— Você veio de Florianópolis pra morar com seu irmão.
Rick balança a cabeça, sério.
— Eu agredi um garoto lá.
Gaby fica imóvel.
— Eu… perdi o controle. — Ele fala mais baixo agora, quase travado. — Eu bati nele, ele perdeu a audição de um ouvido.
O barulho da escola parece diminuir ao redor deles.
Gaby olha pra ele, sem saber o que dizer.
— Rick…
Ele passa a mão no cabelo, nervoso.
— E o pior é que… quando eu fico com raiva, eu sinto que posso perder o controle de novo.
Gaby se aproxima um pouco mais, com cuidado.
— Mas isso não quer dizer que você é assim o tempo todo.
Ele olha pra ela, rápido.
— Eu nunca faria nada contra você. Nem com ninguém… se eu conseguir me controlar.
— Eu sei — ela responde, firme.
Rick respira fundo, ainda tenso.
Gaby continua, mais irritada agora.
— E meu pai não tem o direito de sair falando isso de você. Mesmo que… seja verdade.
Rick abaixa a cabeça, pensativo.
O clima pesa.
— É melhor a gente não se falar por um tempo.
Gaby franze a testa.
— O quê?
— Sua mãe trabalha aqui. Se ela vê a gente junto… complica.
Gaby dá um passo à frente, sem aceitar.
— Rick, eu não quero parar de falar com você.
Ele olha pra ela, dividido.
— Não é pra sempre. Só… por enquanto, tá?
Gaby segura o olhar dele, mas não responde.
Rick se vira e começa a ir embora.
Ela fica parada, olhando ele se afastar, claramente afetada.
 
Enquanto isso no sétimo ano, o palhaço da turma, JP, atira um aviãozinho de papel na aula de imersão em mídia digital. Ele passa voando perto da cabeça do Professor Kimmich.
O Professor para de escrever lentamente e se vira.
— Quem foi?
O silêncio toma conta da sala. Alguns alunos tentam segurar o riso. JP olha para frente, tentando parecer inocente, mas com um leve sorriso no canto da boca.
Kimmich pergunta, mais firme
— Eu perguntei quem foi.
Os olhares começam a se cruzar. A tensão cresce por um segundo.
De repente, Kamilly se levanta rapidamente e vai até a frente da sala.
— Fui eu, professor.
A turma reage com surpresa. JP olha, sem entender.
Kamilly mantém a postura, mesmo um pouco nervosa.
— Desculpa, eu não devia ter feito isso.
O professor a observa por um instante.
— Não devia mesmo. Isso atrapalha a aula. Não faça de novo.
— Não vou fazer.
O professor faz um gesto para ela voltar ao lugar.
Kamilly se vira e volta para sua carteira. Ao passar por JP, ele a olha, surpreso e meio culpado.
 
Depois da aula, Manu, Edu, Luiza e JP estão perto dos armários.
Edu olha confuso.
— Eu ainda não entendi o que foi aquilo.
Manu sorri.
— Do nada ela levanta e assume a culpa? Muito estranho.
JP, olha para os amigos.
— Ela é estranha.
Luiza se aproxima, um pouco mais.
— Vocês estão mesmo confusos? É óbvio. Ela tem uma queda pelo JP.
JP faz uma cara de puro desgosto.
— O quê? 
Edu tenta segurar o riso.
Nesse momento, Kamilly se aproxima do grupo.
— JP. — Ela estende a mão com o aviãozinho. — Acho que isso é seu.
JP pega, meio sem graça.
— Obrigado, mais não precisa assumir a culpa.
Kamilly dá um leve sorriso, tranquila.
— Bem você se mete em tanta encrenca, alguém tem que ficar de olho em você.
Luiza sorri.
— Isso é muito gentil da sua parte Kamilly.
Manu segura o riso.
Kamilly olha para JP, mais séria.
— Ah, a e a propósito, está na hora do Juliu's ter um aluno do sétimo ano como foto da semana, então eu escolhi você.
JP olha confuso.
— Por que? 
— Bem, todo mundo sabe que você vai ser famoso um dia, então eu só queria dizer que te entrevistei primeiro.
JP olha para Edu e sorri.
— Legal.
Kamilly continua.
— Então entrevista depois da aula.
Ele pensa um pouco.
— Sim.
Kamilly sai.
Manu olha sorrindo para JP e começa a cantar com Luiza.
— "JP e Kamilly sentados em uma árvore, ela está apaixonada, sim"
JP revira os olhos.
— Nada haver isso aí, ela não está apaixonada.
Edu sorri e balança a cabeça em negativa.
— Claro que não. — disse ele, com ironia 
 
Mais tarde a turma do sétimo ano está na aula de português da professora Jéssica.
JP lê um poema.
— Poesia é crime.
Não tenho a menor ideia de como rimar.
Uma perda de tempo estúpida.
Alguns alunos riem, outros batem de leve na mesa. Manu e Edu trocam um olhar divertido. JP volta para o lugar.
A professora Jéssica segura um sorriso antes de falar.
— Um poema sobre odiar poesia… Já que poesia é justamente sobre colocar os sentimentos para fora, então… de certa forma, funciona. — Ela olha diretamente para JP. — Bom trabalho, JP.
JP levanta as sobrancelhas, meio surpreso por não ter levado bronca.
A professora olha para a sala.
— Quem é o próximo?
Kamilly levanta a mão rapidamente, quase sem hesitar.
— Kamilly, venha.
Kamilly se levanta, ajeita a roupa discretamente e vai até a frente. Ela respira fundo antes de começar.
— Sorriso como um raio de sol.
Meu coração está subordinado ao seu coração.
Você me mantém na luz do seu amor.
Kamilly mantém o olhar fixo em JP enquanto termina. Ela sorri de leve.
JP percebe… e trava por um segundo, sem saber como reagir. Edu cutuca ele de leve com o cotovelo.
JP olha sério para ele.
A professora Jéssica parece genuinamente impressionada.
— Kamilly… isso foi muito bonito. Talvez pudesse ajustar uma sílaba ou outra para ficar mais fiel à estrutura, mas… Os seus sentimentos estão muito claros. Ótimo trabalho.
Kamilly sorri, e volta para o lugar. Ao passar por JP, ela dá um olhada rápido para ele.
JP solta um suspiro curto, meio irritado, enquanto a aula continua.
 
Na aula de Informática e Mídia Digital, a turma do oitavo ano, está mais atenta que o normal. O Professor Kimmich está ao lado de Ederson Rodrigues, pai de Sophia, que conversa com os alunos.
— Eu comecei na construção civil bem novo. Não era fácil, mas foi onde aprendi muita coisa. Teve um dia que eu nunca esqueço… uma barra de concreto se soltou e acabou me atingindo.
A sala reage com surpresa.
— Fui parar no hospital. Por pouco não foi algo mais grave.
Giovanna levanta a mão.
— E você ficou com alguma sequela?
— Felizmente não. Só precisei de um tempo para me recuperar.
Giovanna faz outra pergunta.
— E você voltou a trabalhar depois disso?
Ederson sorri.
— Voltei. Com mais cuidado… e mais experiência também.
Alguns alunos assentem, impressionados.
O professor André olha para a turma.
— Pessoal, prestem atenção. Esse tipo de relato mostra como a experiência prática também ensina muito.
Giovanna levanta a mão de novo.
— Você já trabalhou fora do país também, né?
— Sim, passei um tempo na Europa.
A turma reage com interesse.
Sophia cruza os braços, meio tímida, mas com um leve orgulho.
Mais tarde depois da aula. Sophia caminha com Gaby, Stefy e Giovanna.
Gaby olha para Sophia.
— Seu pai manda bem contando história, hein.
Stefy concorda.
— Sério, eu fiquei até presa na aula.
Giovanna sorri.
— Querida, ele é muito interessante. E… ele é bonito, para um homem mais velho,
Sophia para de andar por um segundo, encarando.
— Giovanna… Ele é meu pai. Isso é muito estranho.
Giovanna sorri.
— Tá bom, desculpa. Mas falando sério… por que ele se separou da sua mãe?
Sophia hesita por um instante.
— Ele se mudou para a Europa. Foi meio… inevitável. Não havia muito que minha mãe pudesse fazer.
Giovanna inclina a cabeça, desconfiada.
Sei lá… às vezes tem outra mulher envolvida.
Sophia franze a testa, incomodada.
Não. Ele não tem namorada há muito tempo. — Sophia pensa enquanto fala. — Na verdade… isso até me faz pensar que… Talvez eles possam voltar.
Gaby e Stefy trocam um olhar rápido.
 
Edu caminha distraído pelo corredor, quando ouve a voz de JP sussurrando, abafado.
— Edu… Edu!
Edu para, olha em volta, confuso.
Edu segue o som até um armário meio aberto. Ele franze a testa e puxa a porta.
JP está encolhido lá dentro, espremido entre mochilas.
— O que você está fazendo aí dentro?
— Estratégia.
Edu cruza os braços, tentando não rir.
— Você está se escondendo da Kamilly, né?
JP aponta para ele, como se tivesse sido descoberto.
— Exatamente.
— E você esqueceu que tem uma entrevista com ela hoje?
JP congela.
— Eu não esqueci… eu só estava adiando.
— Se escondendo num armário.
Kamilly se aproxima.
— JP.
Ele força um sorriso, completamente sem graça.
Oi.
Kamilly balança a cabeça, tentando não rir.
— Onde você estava?
Antes que ele responde. Ela pega o celular rapidamente e tira uma foto de JP dentro do armário.
Ei! — exclamou JP
Ela guarda o celular.
— Material para a matéria.
Ela dá um passo para trás.
— Vamos?
JP sai do armário meio travado, ajeitando a roupa.
Ela começa a andar, já assumindo que ele vai seguir.
JP suspira e vai atrás de Kamilly, ele olha para trás, como se pedisse socorro silenciosamente.
Edu acena de longe, achando tudo ótimo.
 
Enquanto isso, Sophia e seu pai chegam em casa, ela tira o sinto de segurança.
— Sério, pai… foi muito legal hoje. — Ela se vira para ele, ainda sorrindo. — Todo mundo gostou. E eu também.
— Eu gostei de estar lá.
Sophia baixa um pouco o olhar, tímida, mas feliz.
— Eu estou feliz por você estar de volta.
Ele a observa por um segundo.
— Eu também estou feliz por estar aqui. — Há um pequeno silêncio confortável — A gente podia… conversar melhor. Com calma.
Sophia anima de leve.
— Pode ser.
Nesse momento, Pâmela aparece na entrada da sala. O clima muda sutilmente.
— Oi.
Ela olha para Ederson, mantendo certa formalidade.
Pâmela então volta a atenção para Sophia.
— Filha, você pode ir entrando? Eu preciso falar com seu pai.
Sophia hesita, olhando de um para o outro.
Mais sai do carro e começa a entrar, caminhando devagar. Ao passar pela sala, diminui o passo.
Sophia para perto da parede, parcialmente escondida, e olha de volta discretamente, ela vê seus pais conversando animados.
 
Gaby chega em casa e abre a porta com um pouco mais de força do que o normal.
Gaby entra. O pai está na sala, mexendo no notebook.
— A gente precisa conversar.
Ele levanta o olhar, já percebendo o clima.
— Está tudo bem?
— O Rick ouviu o que você falou dele, ele está chateado.
Ele franze a testa, sem entender de imediato.
— Filha...
— Você disse que não confia nele por causa do passado dele — ela interrompeu.
Silêncio curto.
O pai suspira.
— Isso não é assunto pra você se preocupar.
— Não é assunto pra eu me preocupar? — ela ri, de nervoso. — Você está falando de um amigo meu.
— Um amigo seu com histórico de violência.
O tom dele é firme, mas não agressivo.
Gaby cruza os braços.
— Você nem conhece ele direito.
— Eu sei o suficiente.
— Não, não sabe!
A voz dela sobe um pouco.
— Você ouviu uma coisa e já decidiu quem ele é.
O pai se levanta, agora mais sério.
— Eu estou tentando te proteger.
— De quê? De alguém que errou uma vez?
— De alguém que pode perder o controle de novo!
O silêncio cai pesado.
Gaby respira fundo, tentando se segurar.
— Ele não é assim.
— Você não pode ter certeza.
— Nem você!
Eles se encaram.
O pai passa a mão no rosto, tentando manter a calma.
— Gaby… pessoas não mudam tão fácil assim.
Ela balança a cabeça, frustrada.
— Você fala como se ele fosse um perigo o tempo todo.
— Eu estou dizendo que existe um risco.
— Sempre existe risco em tudo!
Ela se aproxima um pouco mais.
— Você confia em mim?
Ele hesita.
— Confio.
— Então confia que eu sei com quem eu estou falando.
Arthur fica em silêncio, Gaby continua.
— Ele me contou tudo. Ele não escondeu.
O pai olha pra ela, surpreso.
— Ele te contou?
— Contou. E ele tem medo disso. Ele sabe que errou.
A voz dela suaviza, mas continua firme.
— Isso não parece alguém que quer machucar os outros.
O pai fica em silêncio, processando.
— E você… — ela continua — você saiu agiu como se ele fosse só… aquilo.
Ele abaixa o olhar por um instante, sentindo o peso.
— Eu não devia ter feito isso.
Gaby não responde, mas o olhar dela suaviza um pouco.
— Eu só… — ele tenta explicar — eu fiquei preocupado.
— Eu sei.
O pai respira fundo, pensando.
— E eu ainda acho que você precisa tomar cuidado.
— Eu vou.
Ele olha pra ela, avaliando.
— Você vai me contar se alguma coisa te deixar desconfortável?
— Vou.
Ele fica em silêncio por alguns segundos.
Então ele cede, ainda relutante.
— Tá.
Gaby espera.
— Você pode continuar falando com ele.
Ela solta o ar, aliviada.
— Mas com limites.
— Que tipo de limites?
— Nada escondido. Eu quero saber com quem você está, onde você está.
Ela pensa por um segundo… e concorda.
— Tá bom.
Ele aponta pra ela, meio sério, meio carinhoso.
— E se eu perceber qualquer coisa estranha…
— Eu sei. — disse Gaby.
Os dois ficam em silêncio por um instante.
A tensão diminui.
Gaby dá um passo pra trás, já mais leve.
— Obrigada.
Ele apenas acena, ainda pensativo.
— Só… toma cuidado, filha.
Ela segura o olhar nele.
— Eu vou.

Mais tarde, na cozinha, Sophia conversa com a mãe.
— Mãe, você precisava ter visto hoje.
Pâmela olha para ela, curiosa.
— Foi tudo isso mesmo?
— Foi! Todo mundo gostou dele. Tipo, de verdade. — Ela se encosta na bancada, empolgada. — Ele contou as histórias, respondeu todo mundo… até quem nem presta atenção ficou interessado.
Pâmela sorri de leve, com um ar meio nostálgico.
— Ele sempre teve esse jeito. — ela faz uma pausa. — Para ser sincera… eu ainda acho ele o homem mais charmoso e bonito do planeta.
Sophia arregala um pouco os olhos, surpresa com a sinceridade.
Então… — Ela dá um meio sorriso, esperançosa. — Talvez isso signifique alguma coisa, né?
Pâmela franze levemente a testa.
— Como assim?
— Ah… sei lá. Vocês dois se dando bem, você falando assim dele… Talvez vocês possam voltar.
O sorriso de Pâmela desaparece.
— Não, Sophia.
Sophia estranha a firmeza.
— Por quê?
Pâmela hesita, procurando as palavras.
— Porque não é assim que funciona.
Sophia cruza os braços, incomodada.
— Então como funciona? — Silêncio breve. — Desde ontem você está estranha. Fazendo perguntas, desviando de assunto… — Ela encara a mãe. — Parece que vocês estão escondendo alguma coisa de mim.
Pâmela respira fundo, tensa.
Sophia se aproxima mais da mãe.
— Ele encontrou outra mulher?
A pergunta sai rápida, quase defensiva.
Pâmela fecha os olhos por um instante, como se tomasse coragem.
— Não.
Sophia olha, confusa.
— Então qual é o problema?
Pâmela finalmente olha direto para ela.
— O seu pai… não se envolveu com outra mulher.
Sophia franze a testa, sem entender ainda, Pamela continua.
— O seu pai é gay.
O tempo parece parar por um instante.
Sophia fica completamente imóvel, processando, encarando a mãe, chocada, sem conseguir esconder.
No dia seguinte na escola, Sophia, mal-humorada e irritada, está sentada no refeitório, enchendo um copo de leite com achocolatado. 
Stefy, Gaby e Giovanna se aproximam, trocando olhares entre si.
Stefy se senta com cuidado.
— Você está bem?
Sophia dá um gole no achocolatado, sem paciência.
— Estou ótima.
As três trocam olhares.
Giovanna olha para Sophia.
— Não parece.
Sophia suspira, já irritada.
— Eu já disse que estou bem.
Gaby toca o braço de Sophia.
— Se quiser conversar.
Sophia puxa o braço.
— Eu não quero.
Giovanna observa Sophia por um momento, pensando.
— Você disse que não está muito apegada à sua mãe… e que seu pai está solteiro há um tempo, né? Você já pensou que… talvez ele possa ser gay?
O silêncio cai pesado na mesa.
O rosto de Sophia muda, ela se levanta.
De repente, ela pega o copo e joga o leite direto no rosto de Giovanna.
— Cuida da sua vida.
Ela pega a mochila e sai, sem olhar para trás.
Gaby pega guardanapos rapidamente e entrega a Giovanna, ela limpa o rosto, ainda meio em choque, mas tentando se recompor.
— Eu só estava tentando ajudar. Meu irmão mais velho é gay.
 
Kamilly está sentada com Manu e Luiza, comendo ao ar livre.
Ela olha discretamente para longe.
JP está com Edu, rindo de alguma coisa.
Manu olha para Kamilly 
— Você nem tocou na comida.
Kamilly suspira.
Vocês acham… que eu deveria chamar o JP para sair?
Manu e Luiza trocam um olhar rápido.
Luiza apoia o queixo na mão, analisando.
— Olha… estranho não é.
Manu completa.
— Só pode dar errado.
Luiza balança a cabeça.
— Ignora ela. Se ele também gostar de você, não tem problema nenhum.
Kamilly volta a olhar para JP, agora com um sorriso mais aberto.
Do outro lado, JP olha na direção delas… e percebe o olhar de Kamilly.
Kamilly trava por meio segundo e desvia o olhar rapidamente, fingindo naturalidade.
JP está com Edu, ainda olhando na direção de Kamilly.
Você viu isso? Ela está me olhando de novo.
— Porque ela gosta de você.
JP faz uma cara de desespero leve.
— Eu não gosto dela.
— Então fala com ela.
— Eu preciso encontrar uma maneira de falar com ela sem magoa-la. 
JP passa a mão no cabelo, pensando.
— Tá, eu tive uma ideia. Lembra da história do pai da Sophia?
Edu franze a testa, confuso.
— O que tem?
JP fala mais baixo, como se fosse genial.
— Eu vou fingir que sou gay?
Edu encara ele por um segundo… ele coloca a mão na testa e balança cabeça não concordando.
 
Enquanto isso, Rick está encostado na parede, mexendo no celular, isolado do resto dos alunos.
Arthur se aproxima. Ele observa Rick por um segundo, como se estivesse confirmando se é mesmo ele.
Então vai até ele.
— Rick?
Rick revira os olhos.
— Olha… eu queria falar com você.
Rick cruza os braços, esperando.
Arthur respira fundo de novo.
— Eu não devia ter falado aquilo de você.
Rick olha pra ele de novo, surpreso pela sinceridade.
— Eu não te conheço direito — Arthur continua — e mesmo assim saí falando como se conhecesse. Isso foi errado.
Rick fica em silêncio por um instante, sem saber muito como reagir.
— Não é como se o que você falou fosse mentira.
— Mesmo assim — Arthur responde na hora. — Não me dá o direito de fazer o que fiz.
Rick observa ele, mais atento agora.
— A Gaby me contou que você foi honesto com ela.
Rick olha para Arthur, meio travado.
— Eu não tinha por que mentir.
Arthur cruza os braços, mas o tom dele agora é menos duro, mais sincero.
— Eu ainda me preocupo. Mas eu também sei que as pessoas podem mudar.
Rick segura o olhar dele, sem desviar dessa vez.
— Eu estou tentando.
Arthur assente devagar.
— É isso que eu queria ouvir. Eu não vou fingir que estou totalmente tranquilo com tudo isso… Mas eu também não vou te julgar só pelo pior momento da sua vida. — Um silêncio mais leve agora. — A gente se vê por aí — disse Arthur, já se afastando.
Rick fica parado ali por alguns segundos, processando.
 
Dentro da escola, o corredor está movimentado. JP olha de um lado para o outro, inquieto, claramente procurando alguém. Ele vê Kamilly passando com alguns papéis na mão.
— Kamilly! Espera.
Ela para, surpresa.
— Oi… aconteceu alguma coisa?
JP se aproxima rápido demais, meio nervoso.
— Eu preciso falar com você. Agora.
Kamilly estranha o tom, mas concorda com a cabeça.
JP olha ao redor e a puxa suavemente pelo braço até um espaço mais escondido, debaixo da escada.
— Eu preciso te contar uma coisa, mas você tem que prometer que não vai contar para ninguém.
Kamilly franze a testa, curiosa e um pouco tensa.
Ela hesita, mas acaba concordando.
— Tá bom. Eu prometo.
JP respira fundo, como se estivesse fazendo algo muito importante.
— Eu… sou gay.
Kamilly pisca algumas vezes, tentando processar.)
— Você está brincando, né?
JP balança a cabeça, tentando parecer sério.
Kamilly perde o sorriso aos poucos.
— Então… você não gosta de garotas?
JP força uma expressão firme.
— Não. Eu precisava te contar. Para você não… sei lá, entender errado.
Kamilly respira fundo, se recompondo.
— Tá. —Ela levanta o olhar, agora mais contida. — Eu não vou contar para ninguém.
JP percebe a mudança, mas não comenta.
— Obrigado.
Kamilly apenas faz um leve aceno.
— De nada.
Ela sai debaixo da escada, sem olhar para trás.
 
Do lado de fora da escola, Sophia, está sentada a uma mesa. Ela está quieta, com o olhar perdido.
Ederson se aproxima devagar. Observa a filha por um instante antes de se sentar à frente dela.
— Oi.
Sophia não responde de imediato.
— A mãe já te contou, né?
Ederson suspira de leve.
— Contou. Eu ia te contar, Sophia. Só… não naquele momento.
Sophia solta uma risada curta.
— Claro. Porque nunca é o momento certo, né?
Ederson tenta manter a calma.
— Você era muito nova quando tudo aconteceu.
— E agora eu não sou mais, mas mesmo assim ninguém me contou. — O tom dela começa a subir. — Eu precisei descobrir desse jeito.
Ederson abaixa o olhar por um segundo.
— Eu sei que não foi da melhor forma. Mas também não foi fácil para mim.
Sophia olha magoada.
— E para mim foi? — Sophia respira fundo, tentando organizar o que sente. — Se você… já era… por que casou com a minha mãe?
A pergunta sai mais baixa, mas carregada.
Ederson pensa antes de responder.
— Porque eu a amava. E ainda amo. Mas não da forma que um relacionamento precisa.
Sophia evita olhar para ele por um momento, depois volta com outra pergunta, mais direta.
— Você já… ficou com outros homens?
Ederson não foge.
— Sim. Meu namorado, o Christopher.
Sophia congela.
— Christopher…? — Ela encara ele, tentando ligar os pontos. — Aquele cara que você disse que era do trabalho? — A expressão dela muda completamente, de confusão para raiva. — Você mentiu para mim.
— Eu tentei te proteger.
— Mentindo?
Ela se levanta abruptamente.
Alguns alunos ao fundo começam a olhar.
— Você passou a maior parte da minha vida escondendo coisas de mim!
Ele se levanta.
— Sophia, tenta...
Ela dá um passo para trás.
— Você podia ter sido honesto. Só isso. — A voz dela falha levemente. — Mas você escolheu mentir. — Ela balança a cabeça, decepcionada. — Eu nem sei mais o que é verdade.
Sem esperar resposta, Sophia vira e sai.
 
O corredor está mais tranquilo. Kamilly encosta perto dos armários, com um caderno na mão. JP se aproxima, um pouco tenso.
— Ainda bem que te achei.
JP força um sorriso.
— Oi…
Kamilly folheia o caderno, animada de leve.
— Eu estava organizando a matéria. Já tenho um título provisório.
JP olha para ela.
— Ah… é?
— Sim. Vai ser sobre como adolescentes lidam com a própria sexualidade.
O sorriso de JP desaparece na hora.
— Como é?
— Eu pensei que sua história podia ajudar outras pessoas. Tipo… falar sobre isso, se aceitar… — Ela fala com cuidado, sincera. — Eu achei importante.
JP olha para os lados, claramente desconfortável.
— Kamilly, eu… — Ele passa a mão no cabelo, nervoso. — Eu preciso te falar uma coisa.
Kamilly percebe o tom e fecha o caderno devagar.
— O quê?
JP respira fundo.
— Eu não sou gay.
Kamilly pisca, sem reação imediata.
— O quê?
— Eu menti.
Pausa. O rosto dela muda, a decepção aparecendo.
— Então… aquilo tudo…
— Foi só...
Ele trava, sem saber como terminar.
— Uma desculpa?
JP não responde, mas isso já diz tudo.
Kamilly respira fundo, segurando a emoção.
— Você fingiu ser gay… para não sair comigo?
JP abaixa o olhar.
— Eu não sabia como dizer.
Kamilly ri nervosa.
— Sério? — Ela encara ele. — Era só falar “não”.
JP levanta o olhar, meio sem graça.
— Eu não queria te magoar.
— E você achou que isso não ia? Você me fez sentir idiota.
JP tenta se aproximar um pouco.
— Não foi a intenção...
— Mas foi o que aconteceu.
Pausa. O tom dela fica mais firme.
— Você não precisava inventar nada. Era só ser honesto.
JP fica sem resposta.
Kamilly segura o caderno com mais força, claramente magoada, e sai.
JP fica parado no corredor, claramente arrependido.
 
Gaby está sentada em um banco, distraída.
Rick se aproxima devagar.
— Gaby.
Ela levanta o olhar na hora.
— Rick.
Ela já percebe pelo rosto dele que tem algo diferente.
— Aconteceu alguma coisa?
Rick para na frente dela, meio sem saber por onde começar.
— Seu pai falou comigo.
Gaby arregala levemente os olhos.
— Ele… o quê?
— Ele veio aqui. Hoje.
Ela fica completamente surpresa.
— E…?
Rick solta o ar, ainda processando.
— Ele pediu desculpa.
Gaby leva a mão à boca, sorrindo, sem acreditar.
Rick também dá um sorriso.
Ele se senta ao lado dela e observa ela, um pouco mais leve.
— Ele ainda está preocupado.
— Isso é muito a cara dele.
Os dois riem de leve.
Uma pausa.
O clima muda um pouco, mais calmo, mais íntimo.
Gaby olha pra ele com mais cuidado.
— E você… está bem?
Rick dá de ombros, mas sincero.
— Estou. Melhor do que eu esperava.
Gaby sorri, aliviada.
— Eu fico feliz.
Os dois ficam ali, meio sem saber o próximo passo.
Gaby quebra o silêncio, mais cautelosa agora.
— Então… a gente não precisa mais se evitar?
Rick pensa por um segundo.
— Não. Mas…
Ela já entende que vem algo.
— Mas?
Rick olha direto pra ela.
— Eu ainda acho melhor a gente ir com calma.
Gaby não reage na hora. Só escuta.
— Eu não quero estragar nada — ele continua. — Nem te colocar em nenhuma situação complicada.
Ela respira fundo, assimilando… e concorda com a cabeça.
— Eu também não.
Rick da um pequeno sorriso.
— Amigos?
Ela sorri.
— Amigos.
Eles se encaram por um segundo a mais do que o normal.
 
Mais tarde, Sophia está parada em frente ao armário, mexendo nas coisas com mais força do que o normal.
Ela fecha o armário com um pouco mais de força do que deveria.
Stefy e Gaby se aproximam com cuidado.
— Sophia… o que aconteceu?
Sophia respira fundo, tentando se segurar… mas não consegue.
— Meu pai não é só gay… — Ela engole seco. — Como também largou a gente para ficar com o namorado.
Gaby fica sem reação imediata.
— Sophia...
Stefy observa, séria. 
Sophia cruza os braços, defensiva.
— Eu não acredito nisso. E sabe o pior? Todo mundo sabia menos eu. — Ela suspira. — Eu fui a última a descobrir.
Stefy coloca a mão no ombro de Sophia.
— Sophia…
— Eu não quero falar sobre isso — Sophia interrompeu. — Na verdade, eu já decidi.
Gaby e Stefy trocam um olhar rápido.
— Decidiu o quê? — Gaby perguntou.
Sophia fala rápido, impulsiva. 
— Eu vou cortar relações com ele.
Stefy reage na hora.
— Você não está falando sério.
Sophia se vira, irritada.
— Estou, sim. Você não faz ideia do que eu estou passando!
O impacto da frase atinge Stefy na hora. Ela fica em silêncio por um segundo… depois responde, mais firme.
— Faço, sim. Eu sei exatamente o que é você está passando. E isso é uma bobagem.
Sophia olha irritada.
— Não é bobagem.
Stefy olha mais séria.
— É sim, sua situação não é tão ruim quanto você pensa. Minha mãe morreu e nunca mais voltará. Enquanto você ainda tem dois pais. A diferença entre nós duas é que você tem uma escolha na vida e não deve fazer a escolha errada.
Gaby abaixa o olhar, sentindo o peso. Sophia fica sem reação por um instante.
Sophia tenta reagir, mas não encontra palavras na hora.
O olhar de Stefy é firme, mas não agressivo, é sincero.
O clima fica pesado. Sophia desvia o olhar, afetada, mas ainda resistente.
Gaby observa as duas, sem saber o que dizer.
Stefy respira fundo e dá um passo para trás, dando espaço.
Sophia fica parada, processando tudo, ainda magoada e confusa.

Este episódio compartilha o título da música de 1992, “Mentiras” de Adriana Calcanhotto.

Sinopse do Próximo Capítulo - Quero Te Encontrar
Quando Gustavo, o querido irmão mais velho de Mateus e Gaby, vem de São Paulo para visita-los, Mateus fica radiante. Mas Gustavo veio contar um segredo a família. O relacionamento de Sophia e John está em perigo quando John quer passar todos os dias na casa de Sophia. Enquanto isso, Luiza está lidando com um problema próprio. De vez em quando, suas emoções se misturam, de gritar a chorar. 
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Atualizado em: Dom 5 Jul 2026

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