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Escola Grasso 319 – Esperando Por Você, parte 1 

Este Capítulo não é indicado para menores de 14 anos, ele aborda automutilação como parte da trajetória da personagem Ellie.
A automutilação não é romantizada nem apresentada como solução.
Se você se identificou com essa situação, saiba: você não está sozinho(a) e existem caminhos de apoio. Sentir dor emocional não faz de você fraco(a), e buscar ajuda é um ato de coragem.
Conversar com alguém de confiança, procurar um profissional de saúde mental ou acessar serviços de apoio pode fazer toda a diferença.
No Brasil, você pode ligar gratuitamente para o CVV – Centro de Valorização da Vida, pelo número 188, 24 horas por dia, ou acessar o chat online.
Se estiver em outro país, procure serviços locais de apoio emocional ou emergência.
Você merece cuidado, escuta e acolhimento.

Quarta-feira 
Na escola, Adryan abre o armário e uma explosão de purpurina toma o corredor. Ele fecha os olhos na hora, tossindo enquanto tenta afastar o brilho do rosto. Alguns alunos ao redor riem.
— Sério...? — ele murmura, limpando a camiseta.
Dentro do armário, há uma carta. Ele pega, ainda desconfiado.
Carol, encostada nos armários ao lado, já está sorrindo, claramente se segurando para não rir mais.
Adryan ergue o olhar para ela.
— Foi você?
Ela cruza os braços, tentando parecer inocente, mas falhando completamente.
— Lê primeiro.
Um sorriso aparece no canto da boca.
— “Claro que vou ao baile com você...” — ele olha para ela, meio rindo — Eu já tinha te convidado.
Carol dá de ombros, se aproximando.
— Eu sei. Mas eu queria fazer direito.
Adryan sacode a cabeça.
— Então você decidiu jogar purpurina em mim?
— Valeu a pena, vai.
Ele ri baixo.
— Só que você vai ter que limpar isso depois.
Carol chega mais perto, quase colada nele, ainda sorrindo.
— Eu só queria que fosse especial. Tipo… muito especial.
Adryan segura o olhar dela.
— E vai ser. Vai ser tudo o que a gente sempre quis.
Carol abre um sorriso maior, animada de novo.
— Então… eu estava pensando nas fotos. A gente podia fazer lá no seu quintal. Você de terno, eu com o vestido… ia ficar perfeito.
Adryan trava por um instante. Quase imperceptível.
— Fotos… no meu quintal?
— É! — ela continua, empolgada — Sua mãe tem um jardim lindo. Parece cenário de filme.
Ele hesita, mas força um sorriso.
— É… pode ser.
Carol não percebe a tensão. Ela se inclina e dá um beijo rápido nele.
— Vai ser incrível.
Ela sai andando, leve, ainda sorrindo.
Assim que ela vira o corredor, o sorriso de Adryan desaparece.
Gustavo se aproxima, olhando a bagunça de purpurina.
— Cara… você manda bem, hein. Ela está feliz.
Adryan passa a mão no cabelo, inquieto.
— Tem um pequeno problema.
Gustavo já entende pelo tom.
— Claro que tem. Qual?
— Ela quer tirar as fotos lá em casa.
Gustavo franze a testa.
— E qual é o problema disso?
Adryan olha para os lados, baixando a voz.
— Meus pais não podem nem ouvir o nome dela. Por causa daquela história com a Ellie… Eu disse que a gente tinha terminado de vez.
Gustavo faz uma careta.
— Se ela descobrir, vai dar muito ruim.
Adryan dá um sorriso de lado, meio cansado.
— Nossa, você sempre sabe como me animar.
Gustavo dá um tapinha no ombro dele e se afasta.
Adryan fica parado, olhando para dentro do armário ainda cheio de purpurina. O brilho agora parece mais um problema do que uma surpresa.
Ele suspira, já tentando pensar em alguma saída.

Personagens Principais 
Ellie Goes
Maju Braga
Vitor Ramos
Adryan Gomes
Carol Novak
Nicole Zangirolami
Peter Moretti
Zara Fernandes
Tom Prado
Lory Brown
Dani Pereira
Di Katsutani
Helena Moura
Rafa Costa
Gui Silva
Gustavo Assunção
Ana Castro
Paola Muniz
Nina Lacerda
Lila Fontán
Joana Hart
Sara Laursem
Agnes Montenegro
Camila Jung
Michael Laursem
Johnny Garcia
Michelle Boaventura
Lucas Montenegro
Lara Carvalho
Bella Carvalho
 
Na aula de química, o professor explicava enquanto andava entre as bancadas:
— Vocês devem sempre usar os óculos de segurança. Coloquem antes de começar qualquer experimento com fogo. E quem tem cabelo comprido, prenda bem.
Enquanto o professor falava, Adryan se aproximou discretamente de Gustavo.
— Cara, você precisa me ajudar com essa história da Carol.
Gustavo nem olhou para ele de imediato, continuando a mexer no material.
— Então por que você não conta a verdade para os seus pais?
Adryan soltou um suspiro curto.
— Porque não é tão simples assim.
Gustavo deu de ombros.
— Vai dar ruim.
Adryan forçou um sorriso, meio sem graça.
— É… você tem razão. Eu vou ter que contar.
Gustavo finalmente virou o rosto para ele, com uma expressão calma demais.
— Eu estava falando do seu experimento.
Adryan franziu a testa.
— O quê?
Gustavo fez um gesto com a cabeça, apontando para trás.
Adryan se virou a tempo de ver o líquido no béquer borbulhando de forma estranha, quase transbordando.
— Droga!
Ele correu até a bancada e diminuiu a chama rapidamente.
Carol, que observava a cena, soltou um sorriso leve.
— Essa foi por pouco. — disse Adryan.
Adryan soltou o ar devagar, ainda meio tenso.
 
Na hora do almoço, Ellie e Lara estão na parte de fora da escola, sentadas um pouco afastadas, com bandejas intactas.
Ellie cutuca a comida, sem apetite. Lara observa. Preocupada.
— Você não comeu nada hoje.
— Não estou com fome.
Lara solta o garfo, perdendo a paciência aos poucos.
— Você nunca está com fome.
Ellie revira os olhos, ainda evitando contato.
— Lara, não começa.
— Eu não estou “começando”. Eu estou tentando entender.
Ellie empurra a bandeja para longe.
— Não tem nada pra entender.
Lara inclina o corpo para frente, mais firme.
— Tem sim. Você sumiu, parou de responder todo mundo, vive inventando desculpa… e acha que ninguém percebe?
Ellie cruza os braços, defensiva.
— Eu só quero ficar na minha. Qual o problema?
— O problema é que você não está bem.
Ellie finalmente olha para ela o olhar frio, cansado.
— Você não sabe disso.
— Sei sim. E você sabe também.
Ellie desvia o olhar na mesma hora.
— Não preciso de uma psicóloga, tá?
Lara respira fundo, controlando a frustração.
— Não é sobre “precisar”. É sobre se ajudar.
Ellie suspira.
— Você fala como se fosse simples.
— E você fala como se ignorar fosse resolver.
A tensão cresce. Alguns alunos ao redor começam a notar.
— Eu não estou ignorando nada!
— Então por que você foge de tudo?
Ellie se levanta rápido, a cadeira arrasta no chão.
— Porque eu não quero ficar falando disso o tempo todo!
Lara também levanta, agora mais irritada.
— Eu não estou pedindo “o tempo todo”. Eu estou pedindo uma vez!
Ellie balança a cabeça, frustrada.
— Você não entende!
— Então me faz entender!
As duas ficam em silêncio. Ellie trava. Por um segundo, parece que vai falar… mas não fala. Ela se levanta.
— Esquece.
Ellie sai andando rápido. Lara fica parada, magoada.
— Claro… você sempre faz isso.
Ellie não olha para trás.
Lara solta o ar, irritada, e vai para o lado oposto.
O banheiro está vazio. O som do corredor fica abafado. Ellie entra rápido, tranca uma cabine. Ela respira fundo, tentando se controlar. As mãos tremem levemente. Ellie se senta, abre a mochila devagar, por um momento, ela hesita, então, procura algo lá dentro. Ela tira um isqueiro e fica olhando para ele. O barulho distante de risadas ecoa do lado de fora, Ellie fecha os olhos, a expressão dela mistura cansaço, raiva e algo difícil de nomear, ela aperta o isqueiro na mão e o acende.
 
Mais tarde, depois da aula, Adryan estava em casa quando Ellie entrou pela porta.
— Oi, baixinho.
— E aí, Ellie.
Ela deu alguns passos pela sala, observando ao redor.
— Adry… o que são esses balões?
Ele coçou a nuca, meio sem jeito.
— São da Carol. Foi por isso que te chamei. Você pode me ajudar com uma coisa?
Ellie arqueou a sobrancelha, curiosa.
— Depende… o que eu tenho que fazer?
Adryan soltou o ar, já tenso só de pensar.
— Você só precisa me ajudar com a minha mãe.
Ellie fez uma careta confusa.
— Como assim?
— Eu estou tentando descobrir como contar para os meus pais que ainda estou com a Carol.
Ellie cruzou os braços, pensando rápido.
— Eu posso falar com eles. Digo que eu e a Carol já resolvemos nossos problemas.
Adryan negou com a cabeça na hora.
— Isso não vai adiantar. Você conhece os meus pais.
Ellie soltou um suspiro curto.
— Conheço… e sei que eles vão fazer de tudo para vocês não ficarem juntos.
Nesse momento, a porta se abre e Débora entrou com sacolas nas mãos.
— Cheguei! — Ela parou ao ver Ellie na sala. — Ah, oi, Ellie.
Ellie sorriu, educada.
— Oi, tia Débora.
Débora seguiu direto para a cozinha. Ellie olhou de lado para Adryan e falou mais baixo:
— Só seja sincero. Eu estou aqui, te dando apoio.
Antes que ele respondesse, Débora voltou.
— O que vocês estão aprontando aí?
Adryan se levantou rápido, meio travado.
— Então… o baile de inverno. Eu comentei com você…
Débora nem deixou ele terminar:
— Sim, você vai com o Gustavo e o Dani. É tão bom ver que vocês não ficam nessa obsessão por garotas e encontros.
Ela voltou para a cozinha, tranquila.
Ellie virou para Adryan com um sorriso torto.
— Nossa… super fácil ser sincero assim, né?
Ela começou a rir.
Adryan continuou sério, balançando a cabeça em negativa.
 
A noite Ellie está em seu quarto, a porta está entreaberta. O quarto está silencioso, uma batida leve na porta. Lara aparece, já entrando com certa intimidade.
— Pomponzinho… você viu meu isqueiro?
Ellie levanta o olhar rápido por um segundo, tensa, mas disfarça.
— Não vi.
Lara entra de vez, encostando na porta.
— Acho que perdi na escola. — Ela dá um sorriso, tentando manter o clima leve. — vou pegar uma caixa de fósforo da sua mãe.
Ellie força um sorriso de volta.
— Ela não usa palito de fósforo. — Um pequeno silêncio, Ellie respira fundo, mais séria agora. — Ursinha… eu queria pedir desculpa por hoje.
Lara cruza os braços de leve, mas sem agressividade.
— Você foi meio grossa.
— Eu sei. É que… está tudo meio… demais pra mim.
Lara observa, o olhar suavizando. Ellie levanta os olhos de novo, sincera.
— Mas eu estou tentando, tá? De verdade. Você, meus pais, a Esther, o Adryan… vocês estão me ajudando muito.
Lara se aproxima alguns passos.
— É pra isso que a gente está aqui.
Ela chega mais perto.
— Pra isso… e pra outras coisas também.
Ellie deixa escapar um sorriso pequeno.
Lara se inclina e a beija. Ellie corresponde, ainda um pouco contida no começo.
O beijo se aprofunda aos poucos.
Ellie se afasta só o suficiente para falar, meio sem fôlego.
— Ursinha… meus pais podem aparecer.
Lara olha para a porta… e simplesmente vai até lá e fecha.
— Seu pai saiu. E sua mãe está na sala.
Ellie ainda hesita.
— Mesmo assim, ela pode...
Lara não deixa ela terminar e a beija de novo, descendo para o pescoço.
Ellie fecha os olhos por um instante… mas não relaxa totalmente.
Quando Lara começa a puxar a blusa dela, Ellie segura a mão dela, gentil, mas firme.
— Ursinha… melhor não.
O clima quebra um pouco. Lara para, olhando para ela.
— Ei… tudo bem.
Ellie força um sorriso leve, tentando não deixar a tensão aparecer demais.
— Eu vou beber água.
Ela se levanta rápido demais, quase como uma fuga, vai até a porta, abre e sai. Lara fica sozinha no quarto, ela se senta na cama, soltando o ar devagar um misto de frustração e preocupação no rosto. Ela olha na direção da porta, pensativa.
 
Quinta-feira 
Na manhã seguinte, bem cedo, Adryan caminhava ao lado de Carol, guiando-a com cuidado. Ela estava vendada, mas sorria.
— Adryan, onde a gente está? A gente vai se atrasar para a escola…
Ele deu uma risadinha baixa.
— Relaxa, não vai demorar.
Carol inspirou fundo, sentindo o ar ao redor.
— Esse lugar… está com um cheiro incrível.
Eles pararam. Adryan se posicionou na frente dela, animado.
— Pronto. Pode tirar a venda.
Carol levou as mãos até o rosto e puxou o tecido. Assim que abriu os olhos, olhou ao redor, surpresa.
— O Jardim Botânico? — Ela sorriu na mesma hora, encantada. — Eu sabia! — ela riu, olhando em volta. — Eu estava sentindo o cheiro das flores… mas o que a gente está fazendo aqui?
Adryan desviou o olhar, um pouco tímido, mas sorrindo.
— A gente passa por aqui quase todo dia… achei que seria o lugar perfeito para tirar as fotos do baile.
Carol o encarou, claramente tocada.
— Isso foi muito fofo da sua parte.
Adryan se aproximou um pouco mais.
— Sem pais, sem gente enchendo… só eu, você e o nosso lugar.
Carol não respondeu com palavras. Ela se inclinou e deu um beijo nele.
Adryan sorriu quando ela se afastou.
— Vou considerar isso um “sim”. — Carol riu de leve, ainda perto dele. — É mais que um “sim”. É o começo perfeito para a nossa noite… do jeito que a gente sempre imaginou.
Eles se beijaram novamente, dessa vez com mais calma, como se quisessem guardar aquele momento.
 
Mais tarde, Gustavo, Dani e Adryan caminhavam pelo corredor da escola, desviando de outros alunos.
Dani olhou para Adryan, curioso.
— Então… o que aconteceu?
Adryan abriu um sorriso que entregava tudo.
— Ela disse que quer tornar a noite especial.
Gustavo virou a cabeça na hora, interessado.
— Especial… tipo especial mesmo?
Adryan lançou um olhar de lado.
— Você quer que eu desenhe?
Dani soltou uma risada, e Gustavo levantou as mãos, rindo também.
— Tá, já entendi.
Adryan balançou a cabeça, ainda sorrindo.
— Mas não é só isso. Eu quero fazer direito… ser romântico, legal.
Dani deu um leve empurrão no ombro dele.
— Olha só, o cara virou príncipe agora.
Gustavo apontou para frente.
— Então bora resolver isso logo. Vamos pegar nossas roupas.
Os três entraram em uma sala cheia de ternos e roupas sociais.
Antes de entrar, Dani olhou por cima do ombro e viu Lory passando pelo corredor. Ele hesitou por um segundo, depois voltou alguns passos.
— Ei!
Lory parou e se virou, sorrindo de leve.
— Oi.
Dani se aproxima um pouco mais, tentando parecer casual.
— Você vai ao baile?
— Vou, sim. E você?
— Vou com o Adryan e o Gustavo. A gente veio pegar as roupas.
Lory assentiu.
— Legal.
Dani inclinou a cabeça, curioso.
— E você, vai?
— Com a Ana, a Paola e a Nina.
Dani sorriu.
— Vocês não se desgrudam, né?
Lory riu baixinho.
— Nem um pouco.
Por um instante, os dois ficaram ali, meio sem saber o que dizer, mas ainda sorrindo.
Dani deu um passo para trás.
— Então… a gente se vê no baile.
— Com certeza.
Lory acenou de leve e seguiu pelo corredor.
Dani observou por um segundo antes de voltar para a sala.
Assim que entrou, Gustavo lançou um olhar provocador.
— Demorou, hein…
Dani revirou os olhos, tentando disfarçar o sorriso.
— Cala a boca.
Adryan riu.
 
Mais tarde, na casa de Adryan.
Ellie estava encostada no sofá, observando ele andar de um lado para o outro, claramente animado.
— Então vocês voltaram mesmo?
Adryan abriu um sorriso confiante.
— Voltamos. E dessa vez é pra valer. Hoje à noite vai ser perfeita.
Ellie fez uma careta exagerada.
— Nossa, você está insuportável.
Adryan riu, sem se abalar.
— Eu vou arrasar, Ellie. Já planejei tudo.
Antes que ela respondesse, a voz de Débora surgiu do corredor.
— Adryan!
Os dois se viraram. Débora apareceu com o celular na mão.
— Acabei de falar com a Liv. Ela e o pai dela vão passar o fim de semana aqui na cidade. O Carlos vem ver o seu pai sábado.
Adryan olhou para a mãe.
— Sábado? A Liv também vem?
— Claro que vem.
Ele se levantou na hora, já preocupado.
— Mãe, sábado é o baile de inverno. Eu preciso ir.
Débora respondeu com naturalidade, como se fosse simples.
— Ótimo, então você leva a Liv.
Adryan soltou uma risada curta, incrédulo.
— Mãe… ela é minha ex.
Débora deu de ombros.
— E vocês continuam amigos, não continuam?
— Sim, mas...
Ela o interrompeu, firme, porém tranquila.
— Filho, eu sei que o baile é importante pra você e para os seus amigos. E agora você já tem um par.
Adryan travou por um segundo, sem saber como argumentar.
— Mãe, a Liv nem tem roupa pra isso.
Débora já começou a se afastar, pegando o celular.
— Eu ligo para ela e peço para trazer um vestido. Tenho certeza de que ela vai adorar.
Adryan passou a mão no rosto, frustrado.
— Claro… perfeito.
Débora continuou, animada:
— Ah, e vou ligar para o seu tio Afonso. Talvez ele consiga uma limusine.
Adryan abaixou a cabeça completamente sem entusiasmo.
— Legal — ele falou, com um tom irônico.
Débora já estava longe, falando no telefone.
Adryan se virou lentamente para Ellie.
Ela estava olhando para ele com um sorriso que misturava diversão e curiosidade.
— Olha… se tudo der certo, isso pode acabar sendo uma coisa boa.
Ellie riu.
Adryan soltou um suspiro longo.
— Eu estou ferrado.
 
Sexta-feira
Na manhã seguinte, Lara e Ellie chegam na escola. 
— Sério, eu nunca vou entender por que a gente precisa de matemática pra viver.
Lara ri de lado.
— Eu até gosto… mas, sim, podia muito ser uma matéria opcional.
— Exato. Tipo… quem quer sofrer, sofre por escolha.
Lara dá uma leve esbarrada nela.
As duas sobem a escadaria principal juntas e entram na escola.
Já dentro da escola, Lara ajusta a mochila.
— Pomponzinho, vou procurar o Sr. Armstrong pra entregar um trabalho de inglês.
Ellie faz uma careta de leve.
— Boa sorte com isso.
— A gente se vê no almoço?
— Sim.
Lara sorri e se inclina, dando um beijo rápido nela.
Ellie solta um sorriso.
Elas seguem em direções opostas.
Ellie caminha pelo corredor, mexendo na alça da mochila. De repente, ela para, o mundo ao redor parece diminuir.
— Nicole?
Do outro lado do corredor, Nicole está conversando com Michelle.
Michelle diz algo baixo para ela. Nicole se afasta.
Ellie não se move, as mãos começam a tremer. Duas alunas passam por ela, conversando.
— Eu não acredito que a Nicole não foi expulsa depois daquilo.
— Ah, com o pai que ela tem? Era óbvio. Advogado, rico, manda na escola inteira praticamente…
As vozes vão ficando distantes, o som começa a distorcer. Ellie puxa o ar rápido demais.
Outra vez.
E outra.
A visão dela fica meio turva.
Ela dá um passo para trás… quase tropeça.
E então sai andando rápido. Depois mais rápido.
A porta do banheiro abre com força. Ellie entra, ofegante, ela tenta respirar… mas não consegue controlar. As mãos tremem mais, ela encosta na parede… escorrega até o chão.
O ar não vem direito ela aperta a própria camiseta, como se isso ajudasse.
Nina sai de uma das cabines do banheiro , ela vê Ellie no chão e entende na hora. Nina corre até ela, se ajoelhando ao lado.
— Ellie, ei, olha pra mim.
Ellie tenta, mas está perdida.
— Você está tendo uma crise de ansiedade, tá? Eu estou aqui com você.
Nina segura de leve o rosto dela, sem forçar.
— Foca em mim. Só em mim.
Ellie tenta acompanhar.
— Respira comigo… devagar.
— Puxa o ar… segura… solta.
Pouco a pouco… a respiração começa a desacelerar, ainda tremendo, mas menos descontrolada. Nina não sai do lado dela.
 
Adryan, Dani e Gustavo estavam no ginásio, ajudando a montar a decoração do baile. Adryan ajustava algumas cadeiras, claramente irritado.
— Sério… minha mãe deve achar que a Liv é minha futura esposa.
Gustavo soltou um riso curto.
— Também não exagera, né.
Adryan largou a cadeira no chão com mais força do que precisava.
— Eu não estou exagerando. Ela adora a Liv. Ficou arrasada quando a gente terminou e vive dizendo que ela seria a nora perfeita.
Dani se aproximou e apoiou as mãos nos ombros dele.
— Cara, relaxa. Isso é coisa de mãe. A minha falava a mesma coisa quando eu namorava a Lory.
Gustavo deu um passo à frente, olhando para Adryan.
— Só que agora você está com a Carol.
Adryan pegou outra cadeira e se afastou, visivelmente incomodado.
— Eu sei!
Dani trocou um olhar com Gustavo e foi atrás dele.
— Ei, calma. Primeiro: você precisa resolver isso. Segundo… Ele fez uma pausa dramática, abrindo um sorriso. — Como você conseguiu duas garotas para o baile e eu nenhuma?
Adryan parou, pensou por um segundo… e então virou com uma ideia.
— Já sei. Você pode ir com a Liv.
Dani piscou, pego de surpresa, e coçou a nuca.
— Não sei, cara… isso parece uma péssima ideia.
Adryan se aproximou, animado.
— Eu falo com ela, explico tudo. Tenho certeza de que ela topa. Eu preciso fazer isso dar certo com a Carol.
Dani cruzou os braços, ainda em dúvida.
— Não estou convencido…
— Eu pago seus ingressos.
— Ainda não…
— Eu te busco de limusine.
Dani segurou o riso.
— Você está apelando.
Adryan juntou as mãos, quase implorando.
— Por favor, cara. Me ajuda nessa.
Dani soltou um suspiro longo, rendido.
— Tá… eu faço isso. Mas você vai ficar me devendo.
Adryan abriu um sorriso aliviado.
— Fechado. Valeu mesmo.
Nesse momento, Carol se aproximou com um caderno nas mãos. Dani e Gustavo perceberam e se afastaram discretamente.
Carol parou na frente de Adryan, curiosa.
— Então… qual era a surpresa que você queria me contar?
Adryan respirou fundo, tentando parecer tranquilo.
— Eu consegui uma limusine pra gente. Vamos dividir com o Dani… e com a pessoa que vai com ele.
Carol arregalou os olhos, surpresa.
— Uma limusine?
— Sim.
Ela abriu um sorriso animado.
— Adryan, isso é incrível!
Ela se aproximou um pouco mais, empolgada.
— Ah, e eu fiz um teste ontem… sobre personalidade e essas coisas.
Adryan assentiu, meio distraído.
— Legal.
Carol inclinou a cabeça, observando ele com atenção, ainda sorrindo.
— Você está nervoso?
Ele franziu a testa na hora.
— O quê? Não.
Ela riu de leve.
— Que fofo. O teste disse que isso podia acontecer.
Adryan cruzou os braços, tentando se recompor.
— Eu não estou nervoso.
Carol deu de ombros, tranquila.
— Tudo bem. É normal… hoje vai ser a nossa primeira vez juntos. — Ela sorriu com confiança. — Confia em mim, vai ser perfeito.
Carol deu um beijo no rosto dele e se afastou, ainda sorrindo.
Adryan ficou parado por um segundo… e então um sorriso enorme apareceu no rosto dele.
 
Ellie está no armário, organizando os livros… mais devagar do que o normal. Ainda um pouco abatida.
Nina se aproxima com cuidado.
— Ellie… você está melhor?
Ellie fecha o armário, tentando parecer normal.
— Estou. Nina… obrigada de novo. Sério. Nem sei o que teria acontecido se você não estivesse lá.
Nina dá um sorriso, mas continua observando ela com atenção.
— Você já teve isso antes?
Ellie hesita por um segundo.
— Já… uma vez. A Michelle me ajudou.
Nina se aproxima um pouco mais, abaixando o tom.
— Se você quiser conversar…
Ellie corta, rápida demais, quase automática.
— Não, está tudo bem. É só… umas coisas. Vai passar.
Nina cruza os braços, nada convencida.
— Ellie… não está tudo bem quando você tem uma crise daquelas.
Ellie suspira, tentando manter o controle.
— Eu sei. E eu agradeço, de verdade. Mas eu estou cuidando disso.
Nina levanta uma sobrancelha.
— Está mesmo?
Ellie sustenta o olhar, firme, mas com um fundo de insegurança.
— Estou.
Um silêncio curto. Nina percebe que não vai conseguir insistir agora. Ela muda de assunto.
— Então… hoje à noite a Lory, a Ana, a Paola, vão lá em casa.
Ellie levanta levemente as sobrancelhas.
— Noite das garotas?
Nina sorri.
— É… mais ou menos isso.
Ellie deixa escapar um sorrisinho.
Nina continua.
— Se você e a Lara quiserem ir… pode ser legal. Distrai um pouco.
Ellie pensa por um segundo.
— Tá… eu vejo com ela.
— Perfeito. — Nina dá um passo para sair. — Então até mais. E… se cuida, tá?
Ela se vira.
— Nina — Ellie a chama.
Nina olha para trás.
Ellie hesita. Baixa um pouco a voz.
— Não conta pra Lara o que aconteceu… por favor. Não quero que ela fique preocupada.
Nina observa Ellie por um instante. Ela apenas assente, sem pressionar e vai embora.
Ellie fica parada por um segundo, respirando fundo.
Logo depois, Lara se aproxima, leve como sempre.
— O que a Nina queria, Pomponzinho?
Ellie vira para ela.
— Ela chamou a gente pra ir na casa dela hoje. Vai a Paola, a Ana, a Lory…
Lara anima na hora.
— Hum… interessante. E o que vai rolar?
— Filmes, conversa… essas coisas.
Lara faz uma cara divertida.
— Conversar sobre garotos? Já estou até vendo.
Ellie ri de leve.
— Provavelmente.
— Mas e aí, você quer ir? — Lara perguntou.
Ellie sorri, mas dessa vez o sorriso é mais sincero.
— Quero.
Lara sorri, satisfeita.
— Então a gente vai. Se você estiver bem mesmo.
Ellie segura o olhar dela por um instante.
— Eu estou.
Ela entrelaça o braço no de Ellie, puxando ela pelo corredor.
Ellie acompanha… mas, por um breve momento, o sorriso desaparece e a preocupação volta.
 
Mais tarde, Adryan chegou em casa e fechou a porta atrás de si.
— Adryan, é você? — a voz da mãe veio da sala.
— Sou eu, mãe.
Ele caminhou até a sala ainda distraído… mas parou, surpreso ao ver Carlos e Liv ali.
Carlos se levantou imediatamente, simpático, estendendo a mão.
— Adryan! Que bom te ver de novo.
Adryan demorou meio segundo para reagir, mas apertou a mão dele.
— Oi, senhor Carlos… bom te ver também.
Carlos sorriu.
— Eu sei que combinamos de chegar amanhã, mas conseguimos adiantar a viagem. Acabamos vindo direto… eu estava ansioso para rever o seu pai.
Adryan assentiu, ainda processando, e então olhou para Liv.
Ela já estava de pé, com um sorriso leve, meio tímido.
— Oi.
Adryan soltou um pequeno sorriso de volta.
— Oi… bom te ver de novo.
Eles se aproximaram e trocaram um beijo no rosto, um pouco mais cuidadoso do que o normal.
Quando se afastaram, nenhum dos dois falou nada de imediato.
Ficaram se olhando por um instante — aquele tipo de silêncio meio estranho, cheio de coisas não ditas.
Adryan desviou o olhar primeiro, coçando a nuca.
— Então… você chegou mais cedo.
Liv deu um sorrisinho de canto.
— Pois é… surpresa.
Ela cruzou os braços de leve, ainda observando ele.
Adryan soltou um riso curto, sem saber muito o que dizer.
Um silêncio rápido se instalou, menos desconfortável, mas ainda carregado.
 
Lara e Ellie caminham de mãos dadas pela calçada.
Lara olha de canto para Ellie, claramente pensando em algo.
— Pomponzinho… eu esperei a gente sair da sua casa pra perguntar.
Ellie já suspeita.
— Pode perguntar.
Lara para de andar.
Ellie dá mais dois passos antes de perceber e parar também.
— Por que você não me contou da crise de ansiedade hoje na escola?
Ellie solta o ar pelo nariz, incomodada.
— A Nina te contou.
— Claro que contou. Ela ficou preocupada. Eu também estou.
Ellie cruza os braços, na defensiva.
— Eu não queria te preocupar.
Lara dá um passo mais perto.
— Ellie, eu me preocupo muito mais quando você não me conta as coisas.
Ellie desvia o olhar. Lara continua.
— Quando você se fecha, quando finge que está tudo bem… quando claramente não está.
Ellie se irrita, a voz sobe um pouco.
— Eu não estou fingindo!
— Está, sim! Você acha que eu não percebo?
Ellie passa a mão no rosto, frustrada.
— Eu só não quero transformar tudo num drama.
— Não é drama, Ellie. É sério.
Ellie balança a cabeça, teimosa.
— Eu não preciso de ajuda.
Lara trava por um segundo magoada.
— Precisa, sim. — a voz falha levemente. — E eu estou aqui pra isso… mas você não deixa.
Ellie fica em silêncio. Lara continua, mais cansada
— Eu estou tentando, de verdade. Mas você não quer ser ajudada. E eu já estou chegando no meu limite… Não sei até quando consigo lidar com isso sozinha.
O silêncio agora é mais pesado.
Ellie respira fundo, tentando organizar o que sente.
— Lara, eu…
— Você o quê?
Ellie hesita. Olha para ela… depois para a própria bolsa, ela abre a bolsa e pega algo e estende para Lara.
— Eu achei o seu isqueiro. Não quero ficar com ele mais do que o necessário.
Lara olha para o isqueiro… depois para Ellie e o pega devagar.
Ellie fala com a voz baixa.
— Eu tive aquela crise… porque vi a Nicole hoje.
Lara muda na hora a raiva dá espaço à preocupação, Ellie continua. 
— Ela está na escola. Como se nada tivesse acontecido. Eu só... — Ellie fica em silêncio por alguns segundos. — Desculpa por não ter te contado. Eu não quero brigar com você.
Lara suaviza, mas ainda há emoção ali.
— Eu também não quero. — Ela dá um passo mais perto. — Mas, por favor… não me esconde essas coisas. Eu preciso saber quando você não está bem.
Ellie assente, mais sincera agora.
— Tá bom.
— Um pequeno silêncio, agora mais leve. Lara estende a mão e Ellie segura.
As duas voltam a andar pela calçada, de mãos dadas.
Dessa vez, mais próximas, mas o clima ainda carrega um resto de tensão… como algo que ainda não foi totalmente resolvido.
 
De volta à casa de Adryan, todos estavam jantando: Débora, Juvenal, Carlos, Liv e ele. O clima era tranquilo, mas Adryan ainda parecia um pouco tenso.
Carlos apoiou os talheres no prato e olhou para ele com interesse.
— Então, Adryan… o que você pensa em fazer depois de terminar a escola?
Adryan engoliu antes de responder, mais seguro do que antes.
— Eu gosto muito de atletismo. Quero fazer Educação Física… e, quem sabe, um dia representar o Brasil nas Olimpíadas.
Carlos abriu um sorriso, impressionado.
— Isso é ótimo. Mas você não cantava em uma banda no ano passado?
Adryan deu um meio sorriso, um pouco sem graça.
— Cantava, sim. Mas saí da banda. Eu ainda gosto de música… só que agora é mais um hobby.
Carlos assentiu.
— Entendo. Mas uma coisa não impede a outra. Se você for bom nas duas, pode muito bem ser atleta e músico. — Ele apontou levemente com o garfo, animado. — E no salto em distância, eu sei que você é muito bom.
Adryan relaxou um pouco com o elogio.
— Valeu, Carlos.
Juvenal entrou na conversa, orgulhoso:
— Teve uma competição na escola semana passada. Ele estava com uma lesão na coxa e, mesmo assim, ficou em quarto lugar.
Carlos olhou de volta para Adryan, impressionado.
— Sério? Então tenho certeza de que você teria ficado em primeiro se estivesse 100%. — Ele sorriu e continuou. — A Liv também está na equipe de atletismo da escola. E, sem querer me gabar, mas já se gabando… ela é considerada a melhor atleta dos 100 metros rasos da equipe feminina.
Adryan olhou para Liv, com um sorriso sincero.
— Isso não é surpresa nenhuma. Ela já era a melhor da Grasso. A equipe perdeu muito quando ela saiu.
Liv sorriu de leve, meio tímida, mas claramente feliz com o comentário.
Por um segundo, o olhar dos dois ficou preso ali… confortável, mas com algo por trás.
Adryan quebrou o momento, levantando-se.
— Bom… deixa eu levar esses pratos.
Liv se levantou logo em seguida.
— Eu te ajudo.
Débora reagiu na hora, quase rápido demais:
— Não precisa, você é nossa convidada.
Liv sorriu, educada, mas insistiu.
— Tudo bem, eu faço questão.
Ela então olhou para o pai, como se tivesse uma ideia.
— Pai, você não queria mostrar as fotos da viagem?
Carlos abriu um sorriso na hora.
— Verdade! Sul da Itália. Está tudo no meu notebook.
Juvenal se animou.
— Ah, quero ver isso.
Débora já se levantou também.
— Vamos, então.
Os três saíram da mesa, conversando animados, deixando Adryan e Liv sozinhos.
Por um instante, ficou em silêncio.
Os dois se olharam… e sorriram quase ao mesmo tempo.
 
Na casa de Nina a sala está aconchegante. Almofadas espalhadas, cobertores, biscoitos Orion e cookie na mesa de centro.
Nina e Paola estão sentadas no sofá e no chão. Lory, Ana, Lara e Ellie chegam.
— Até que enfim! — disse Nina.
— Minha mãe trouxe a gente — Ana falou.
Lara já se joga no sofá.
— Tá, o que a gente vai ver primeiro?
— Eu votei em filme de terror — disse Paola.
Ana também se senta no sofá.
— Claro que você votou.
Lory sorri.
— Se for terror, eu não vou dormir aqui depois.
As meninas riem.
Ellie se senta mais quieta no começo, observando.
Nina percebe e se senta ao lado dela, puxando assunto.
— A gente também pode só ficar conversando, se quiserem.
— Conversar sempre vira fofoca — disse Lara.
Paola se senta em uma poltrona.
— Exatamente por isso é ótimo.
Ellie ri de leve, mais solta agora. 
— Tá, então começa: quem está gostando de quem? — Ana perguntou.
Lara olha sorrindo para Ellie.
— Pronto, começou.
— Gente vamos só assistir um filme — Lory falou.
— Você quer saber também Lory. — disse Paola.
As meninas começam a falar ao mesmo tempo, brincando.
O clima fica leve. Risadas, comentários, pequenas provocações.
Ellie participa mais aos poucos, sorrindo e conversando. Por um momento… ela parece realmente bem.
Nina e Lory chegam com as pipocas.
— E Então já escolheram um filme? — Nina perguntou.
— Sim, vamos começar com um clássico, De Repente Trinta.
Lory sorri.
— Essa foi minha escolha.
Ellie se levanta.
— Nina onde fica o banheiro?
Nina a ponta para o corredor.
— Segue esse corredor segunda porta a esquerda.
Ellie caminha pelo corredor, o som das risadas ficando mais distante. Ela entra no banheiro e fecha a porta. A iluminação é mais baixa ali. Algumas velas aromáticas estão acesas perto da pia. Ellie se aproxima devagar e observa parada por alguns segundos. O reflexo dela no espelho parece mais cansado do que antes.
Ela olha para a porta como se checasse se está realmente sozinha e volta o olhar para as velas, ela puxa a manga da blusa e então estende o braço. Ellie fecha os olhos por um instante. O maxilar tensiona, um movimento rápido, ela puxa a mão de volta.
Ela fica em pé se olhando no espelho.
 
Na cozinha da casa de Adryan, ele e Liv lavavam a louça lado a lado.
— Então… basicamente, ela saiu de casa e está morando com a Ellie — disse Adryan, enxaguando um prato.
Liv assentiu.
— Isso eu já sabia. A Bella me contou.
Adryan lançou um olhar rápido para ela.
— Vocês ainda conversam bastante?
— Conversamos. Na verdade, vamos nos ver amanhã, antes do baile.
— Legal…
Houve uma pequena pausa.
— E a Ellie? A Esther? Os pais delas… como estão?
Adryan apoiou as mãos na pia por um segundo, mais sério.
— Estão bem… quer dizer, mais ou menos. A Esther está na faculdade, tudo certo com ela. Mas a Ellie…
Liv franziu a testa.
— O que aconteceu?
— Ela não está comendo direito.
Liv ficou imediatamente preocupada.
— De novo? Eu achei que ela tinha melhorado.
Adryan soltou o ar, frustrado.
— A gente também achava… mas não percebemos que ela ainda estava mal.
Liv desligou a torneira, já decidida.
— Eu preciso ir ver ela.
Adryan assentiu, mais leve.
— Vai. Ela vai gostar.
Os dois ficaram em silêncio por um instante, se olhando… um clima estranho, mas confortável.
De repente, o celular de Adryan começou a tocar sobre a bancada.
Liv olhou de relance para a tela… e viu a foto de Carol.
— Carol? Quem é Carol?
Adryan deu um sorriso sem graça, já tenso.
— É… minha namorada.
Liv piscou, surpresa, mas logo sorriu de leve.
— Ah… isso é bom. Você devia ligar para ela de volta.
— É…
Adryan secou as mãos pegou o celular, abriu o WhatsApp… mas parou no meio do movimento. Ele olhou para Liv, sério.
— Tem uma coisa que eu preciso te contar sobre o baile.
Liv cruzou os braços, já desconfiada.
— Fala.
— Eu vou com a Carol.
Liv ficou em silêncio por um segundo… e então deu um passo para trás, entendendo.
— Entendi. E seus pais não sabem… e me chamaram achando que eu iria com você.
Adryan assentiu, sem jeito.
— Eles não sabem da Carol.
Liv soltou uma risada curta, incrédula.
— Adryan… vocês têm o quê? Doze anos? Por que você não conta logo?
Ele passou a mão no cabelo, nervoso.
— É complicado. Eles não gostam dela.
— Como assim? Ela é tão ruim assim? Porque, sinceramente, sua mãe gostava da Jaque…
Adryan suspirou.
— A história é longa. A Ellie sofria bullying… e não contava para ninguém.
Liv congelou por um segundo.
— Não me diz que…
— A Carol fazia parte disso.
Liv ficou em silêncio, absorvendo.
— E agora?
— Ela se arrependeu. Pediu desculpa. As duas estão bem hoje… mas você conhece meus pais. Quando pegam implicância, não voltam atrás.
Liv assentiu devagar.
— Eu entendo… — ela pensou por um instante. — Eu também gosto de alguém, e não é simples. Então… o que a gente faz?
Antes que ele respondesse, a campainha tocou.
Os dois se olharam.
— Eu vou ver que é.— disse Adryan.
Ele foi até o portão e abriu.
— Carol?
Ela estava ali, claramente incomodada.
— Por que você não está atendendo o celular?
Adryan olhou ao redor, nervoso.
— O que você está fazendo aqui?
Carol levantou o pulso, mostrando corsage.
— Eu queria ver se sua flor de lapela e meu corsage combinam. Todo mundo vai combinando…
Adryan já estava desconfortável.
— Carol… agora não é um bom momento.
Ela franziu a testa.
— Como assim?
Nesse instante, Liv apareceu na porta, sem perceber.
— Adryan, seu pai...
Ela parou ao ver Carol.
O silêncio ficou pesado.
Adryan se apressou, nervoso demais:
— Essa é a Liv… ela é o par do Dani para o baile.
Liv forçou um sorriso pequeno.
— Eu vou… voltar lá para dentro.
Ela saiu, deixando os dois.
Carol olhou de volta para Adryan, os olhos já marejados.
— Essa é a Liv… sua ex?
Adryan assentiu, sem saber como consertar.
— O pai dela é amigo do meu pai. Eles estão aqui em casa.
Carol deu um passo mais perto, a voz mais baixa.
— Olha pra mim… e não mente, por favor.
Ele hesitou.
— Você não contou para os seus pais que a gente voltou, contou?
Adryan não respondeu. Apenas balançou a cabeça, confirmando.
Os olhos de Carol se encheram de lágrimas.
Ela respirou fundo, tentando se segurar.
— Espero que você e a Liv se divirtam muito no baile.
Ela se virou e saiu sem esperar resposta.
Adryan ficou parado por um segundo… então fechou os olhos e soltou um suspiro pesado.
 
Sábado 
Na manhã seguinte, Ellie entra na cozinha ainda meio sonolenta… mas para assim que vê a mãe.
Marta está parada perto da mesa, braços cruzados, expressão dura.
Ellie estranha na hora.
— Cadê todo mundo?
— Seu pai foi ao mercado. A Esther está trabalhando. E a Lara já foi pra escola ajudar a organizar as coisas do baile, eu pedi para ela não te chamar.
Ellie assente, meio desconfiada… até que repara na mesa, vários potes. Sanduíches e comida dentro. Marta dá um passo para o lado, deixando tudo ainda mais visível.
— Achei isso no seu quarto.
Ellie tenta se recompor.
— Eu guardei pra comer depois, só isso.
— Não mente pra mim, Ellie. — disse Marta o tom é firme.
Ellie sente o impacto, a defesa vem na hora.
— Não mentir? Então o que você quer que eu diga?
— A verdade. A Lara me contou que você ainda não está comendo direito… — Marta aponta para os potes. — e agora eu encontro isso.
Ellie desvia o olhar, sem resposta imediata.
O silêncio pesa. Marta continua, mais controlada, mas firme.
Eu falei com a sua tia.
Ellie levanta o olhar.
— Expliquei tudo. Ela me indicou um lugar em São Paulo. Um hospital que trata esse tipo de situação.
Ellie fica completamente tensa.
— O quê?
— Você vai arrumar suas coisas.
Hoje à noite você viaja.
Ellie balança a cabeça, já entrando em desespero.
— Mamãe, não. Eu não posso. E a escola?
— Você vai estudar lá.
— Eu posso procurar ajuda aqui! Um psicólogo, qualquer coisa.
— Raquel, não. Já está decidido.
Ellie sente os olhos marejarem, mas tenta segurar.
— Seu pai foi comprar sua passagem. Segunda-feira ele resolve sua transferência.
Ellie abaixa a cabeça.
— Eu não quero ir.
Marta suaviza só um pouco, mas mantém a decisão.
— Eu sei que não. Mas é pro seu bem.
Ellie balança a cabeça, recuando.
— Não… não. Eu não vou.
Ellie simplesmente vira… e sai, ela anda rápido. E corre até a escola, onde alunos decoram o espaço do baile. Lara está ajudando, Ellie aparece.
— Lara… vem comigo, por favor.
Lara nem olha direito, ocupada com algo.
— Eu estou ocupada, Ellie. A gente precisa terminar isso.
Ellie perde a paciência e o controle.
— Esquece esse baile idiota!
Lara se vira, surpresa.
— Só… passa o dia comigo. Por favor. Eu preciso de você.
Lara percebe na hora que tem algo errado.
— O que aconteceu?
Ellie só balança a cabeça.
— Depois eu explico. Só vem comigo.
Lara hesita por um segundo… olha ao redor… depois volta pra Ellie.
— Tá. Vamos.
Ela larga o que estava fazendo, as duas saem, Lara segurando a mão de Ellie.
— Seu celular está com você? — Ellie perguntou.
— Sim.
— Então desliga ele e me dá aqui, vou guardar na minha bolsa.
Lara estranha.
— Por quê?
Ellie olha pra frente. Pensativa.
— Hoje eu só… não quero ninguém interrompendo.
Lara observa ela, agora ainda mais preocupada, mas resolve desligar e entregar o celular, Ellie o coloca em sua bolsa, as duas saem da escola de mãos dadas.
Enredo 18
Na escola, Carol caminhava pelo corredor, claramente tentando evitar contato. Assim que viu Adryan mais à frente, desviou o caminho, apressando o passo.
— Carol, espera! — Adryan foi atrás dela. — Me dá um segundo.
Ela parou, mas não se virou de imediato.
— Não fala comigo.
Ele diminuiu o tom, tentando se aproximar com cuidado.
— Eu sei que ontem foi péssimo… mas eu estou fazendo isso por nós.
Carol virou de uma vez, magoada.
— Por nós? Mentir pra todo mundo e me esconder agora é “por nós”?
Adryan passou a mão no cabelo, frustrado.
— Não é assim. Se meus pais não souberem, eles não ficam no meu pé toda vez que eu saio. É o único jeito de a gente continuar junto agora.
Carol ficou em silêncio por alguns segundos, absorvendo aquilo.
— Então… eles realmente me odeiam, né?
— Ninguém te odeia.
Ela deu um sorriso pequeno.
— É bem claro de quem eles gostam.
Adryan respirou fundo, mais sério.
— A Liv estar aqui não muda nada. Nem o que eu sinto por você.
Carol cruzou os braços, ainda desconfiada.
— Então você quer ir ao baile comigo?
Adryan abriu um sorriso, sincero.
— Claro que eu quero. A pergunta é… você ainda quer ir comigo?
Carol hesitou por um instante… mas o olhar dela suavizou.
— Quero. — Ela deu um passo mais perto. — Contanto que estejamos juntos nada mais importa, certo?
Adryan assentiu.
— Certo. E… estão até falando que a gente pode ganhar como rei e rainha do baile.
Carol arregalou os olhos, surpresa.
— Sério?
— Sério.
Ela deixou escapar um sorriso animado.
— Isso seria incrível.
— Eu sei.
Ele se inclinou um pouco, mais empolgado.
— Então… eu, o Dani e a Liv vamos passar pra te buscar na limusine.
O sorriso de Carol vacilou por um segundo ao ouvir o nome.
— Ah… claro.
Adryan, sem perceber totalmente a reação, deu um beijo rápido nela e se afastou.
Carol ficou parada, olhando ele ir embora. O sorriso dela diminuiu, dando lugar a uma expressão mais incerta. Ela soltou um suspiro, ainda incomodada.
— Ótimo…
 
Os alunos terminavam os últimos preparativos para o baile no ginásio.
Carol ajustou a decoração na parede, deu um passo para trás e analisou o resultado. Então abriu um pequeno sorriso.
— Voilà!
Nicole, encostada em uma mesa, cruzou os braços e olhou para ela.
— Uau, ficou ótimo. Isso com certeza vai manter certos convidados inconvenientes bem longe.
Carol revirou os olhos.
— Você realmente não muda, né?
Nicole deu de ombros, despreocupada.
— Fui expulsa da equipe de líderes de torcida. Quer que eu mude pra quê?
O sorriso de Carol desapareceu um pouco.
— Você gosta de machucar as pessoas, Nicole. Olha o que aconteceu com a Ellie.
Nicole suspirou, impaciente.
— Tá, eu passei do limite com ela. Mas, sinceramente… metade das pessoas daqui não aguenta uma brincadeira.
Carol ficou séria, mas antes que respondesse, Ana se aproximou, claramente animada com fofoca.
— Vocês ficaram sabendo? O Dani vai levar a Liv Oliveira para o baile.
Nicole se endireitou na hora.
— A Liv? Ela não estava na Inglaterra?
Carol respondeu antes, tentando soar tranquila:
— Voltou… não sei se de vez.
Ela olhou para Ana, como se quisesse encerrar o assunto.
— E, aliás, a Liv e o Dani nem são um casal de verdade.
Ana deu um passo mais perto, interessada.
— Como assim? Explica isso direito.
Carol hesitou por um segundo, mas acabou falando:
— O pai do Adryan é amigo do pai da Liv. A mãe dele aproveitou que eles vieram pra cá e chamou ela para ir ao baile com ele.
Nicole franziu a testa.
— Espera… ele não vai com você?
Carol soltou o ar, já cansada.
— Sim, mas os pais dele não sabem que a gente voltou. Eles não gostam de mim… por causa do que aconteceu com a Ellie.
Nicole virou para ela na hora.
— Mas você não fez nada. Fui eu.
Carol abaixou o olhar.
— Eu ajudei. Não dá pra fingir que não.
Nicole ficou em silêncio por um instante, menos defensiva.
— É por isso que você está distraída?
Carol forçou um sorriso.
— Não é nada demais.
Ana inclinou a cabeça.
— E por que ele não conta logo a verdade?
Carol suspira, frustrada.
— Ele tentou… mas não adianta. Os pais dele já decidiram o que pensam de mim.
Nicole olhou para ela com um pouco mais de empatia.
— Me desculpe Carol eu arruinei sua vida.
— Não, tudo bem, o importante é que vou para o baile com Adryan.
Nicole ergueu uma sobrancelha.
— Então a flor da lapela dele combina com o seu corsage… ou com o dela?
Carol travou por um segundo.
— Eu… não sei.
Ana soltou um riso curto.
Então você vai deixar ele ter e comer o bolo? 
Carol sorri nervosa.
— Não tem bolo.
— Tem bolo sim — Nicole respondeu, na hora.
 Carol deu um sorriso nervoso, o silêncio caiu por um instante.
Carol respirou fundo e tentou se recompor.
— Olha… eu e o Adryan gostamos um do outro. A gente vai estar junto no baile. É isso que importa.
Ela sorriu… mas dessa vez não convenceu ninguém. Nem a si mesma.

Continua...
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Atualizado em: Dom 5 Jul 2026

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