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Silêncios

Até onde vai a escolha de ficar?
Até pouco tempo atrás, Mariana responderia com uma dessas frases prontas que se encontram aos montes nos livros de autoajuda. Hoje, deita-se em uma das redes da sua varanda e observa as pessoas passando pela rua — os passos solitários e apressados de alguns contrastando com os sorrisos dos casais que caminham de mãos dadas pelo calçadão, cada um com sua história.
Suas lembranças viajam ao primeiro encontro com César e, mais uma vez, revivem aqueles instantes de mútuo encantamento — até que os pensamentos chegam ao início do namoro. E aos silêncios.
Quando ele parecia distante e ela indagava a causa, recebia o silêncio como resposta. Quando a pergunta era sobre o relacionamento anterior, o silêncio se instalava. Ela não entendia. Sobre ela, ele ouvira tudo. Por que não fazia o mesmo? Ela até havia insistido — mas um ríspido “não tem nada pra dizer” encerrou o assunto.
Mariana tornou-se inquieta. As dúvidas aumentando a cada resposta negada. Sentia o não dito ocupando cada vez mais espaço entre eles. Pensou em desistir, mas já estava apaixonada demais. Decidiu ficar.
Ele a amava — ou, pelo menos, ela acreditava nisso. Casaram-se. Vieram os filhos. Espaçados pelo tempo, outros silêncios ainda aconteceram. Disposta a não estragar o que tinham, pulava as casas proibidas do tabuleiro e seguia em frente.
O tempo passou. Os filhos cresceram. De tanto insistir, mudaram-se para a capital. Vida nova. Silêncios esquecidos. Ela se dedicava à família e via o marido fazer o mesmo. As dificuldades, mesmo com sacrifício, eram superadas. Os desentendimentos, quando aconteciam, não resistiam a um beijo reconciliador. As brigas, quase sempre resolvidas com um “te amo”. A paz, selada com uma noite de amor. À moda deles, eram felizes.
Uma gargalhada lá fora traz Mariana de volta ao presente. Ela abre os olhos. À sua frente, a outra rede está vazia. Na rua, um bêbado tropeça. Mas ela já não o vê — seus pensamentos alçaram voo outra vez. Imagens ainda quentes, presentes, apesar de um ano ter se passado. Ela tenta evitar, pensar em outra coisa qualquer, mas a cena vai se redesenhando na memória: César ali, na outra rede, o celular - a fonte de tudo - na mão:
— Viu a clínica que a Amanda vai abrir no interior?
A pergunta ainda permanece ali, ainda reverbera nas paredes.
Sim, ela havia visto a postagem no Facebook. Mas aquele nome — Amanda — tantas vezes silenciado e agora pronunciado de boca cheia, a atingiu como uma onda de choque. O friozinho na barriga foi instantâneo.
Não sabia o que significava aquilo. Imediatamente, duvidou dele – mas odiou-se por isso. O friozinho foi aumentando. Colocou-se na defensiva — disse não ter visto, nada saber.
Então aconteceu. Ele fez críticas, deu sugestões, falou da cor da fachada, do portão, da localização, das cadeiras. Ela pegou o celular, tentou acompanhar, mas seus dedos não encontraram as teclas. Ele recomeçou o monólogo. Falou das fotos, comentou detalhes, detectou erros que não cometeria e sugeriu modificações. Já não falava com ela – projetava-se naquelas fotos: movia móveis, trocava cores, ajustava ângulos para que tudo funcionasse à sua maneira.
O ar falta. Mariana levanta, anda pela varanda curta, indo e vindo repetidamente, de uma parede à outra. Os pensamentos não dão trégua. Ela para. Olha para o alto, fecha os olhos, respira. Não adianta. Desiste. Senta.
Se revê ali, sem achar um gesto, uma palavra. Ele levantando, saindo. E os velhos silêncios voltando, habitados por um nome, um rosto e uma história.
Pelo resto do dia não pensou em mais nada. Não jantou. Não encontrou sono. Virou a noite em claro, assombrada por dúvidas que julgava superadas.
Qual a razão daquele súbito interesse? Por que tanto cuidado com cores, luzes, cadeiras, serviços? Um zelo que jamais lhe foi oferecido.
Pensou na dedicação constante, na fidelidade dele, nas lutas vencidas a quatro mãos. No amor que sentia — ainda intacto apesar do tempo. Mas não sabia quanto ainda significava para ele. Percebeu que nunca soubera. Que tudo aquilo não lhe garantia nada. Que perdê-lo sempre fora uma possibilidade real — mas que nunca estivera tão presente.
Passou o dia seguinte calada. Amofinada. O outro dia também. E o outro.
Sim, ele percebera o seu silêncio, a sua dor — ela fizera questão de exibi-la. Esperou por uma palavra, um afago, um toque, um olhar. Mas nada aconteceu. Nada que lhe servisse de engodo, que a fizesse acreditar que tudo estava bem. Que a permitisse pular mais essa casa no tabuleiro. Nada.
No quarto dia, tentou conversar. Mas as palavras morreram na garganta. As poucas que saíram, em frases desconexas, não construíram uma linha de raciocínio plausível. Vencida, calou-se. Calada, capitulou.
Ele mostrou-se ofendido, irritado — e fiel ao velho costume, silenciou mais uma vez.
Mas só para ela.
Dali por diante os relatos entusiasmados daquele “namorico adolescente e sem importância” começaram a ganhar espaço. O assunto, antes proibido, tornou-se obrigatório. O silêncio, que era arma de defesa, cedeu lugar às lembranças compartilhadas com os amigos. O passado, subitamente resgatado, passou a ser exibido como um troféu.
Mariana levanta e, mais uma vez, busca o ar. Abre a porta da sala. Não entra. Fecha. Volta. Agarra as grades com força num movimento de sacolejo. Até que desiste e apoia a testa no ferro frio. Fica um tempo parada, sem saber a conta das vezes em que fingiu não ouvir, nem das outras tantas em que tentou seguir em frente — e fracassou.
Por isso continua a sentar-se ali e a conversar com o silêncio que agora habita entre eles. Um silêncio que não é paz. É corrosão. Que se alimenta do não dito, das respostas negadas. Das vezes em que falou sozinha, em que gesticulou para si mesma — ou para ninguém, em um bate-boca imaginário.
Um silêncio de quem permitiu que o medo de o perder se impusesse à necessidade de enfrentá-lo — e a sufocasse.
Mariana entra, vai até o banheiro. Por algum tempo, fica parada diante do espelho. Depois abre a torneira, coloca as mãos em concha e leva até o rosto. Sente a água fria. Repete o gesto até a pele se acostumar à temperatura. Não enxuga. Sai. A casa está quieta. Ela deduz que César está no quarto, talvez já dormindo. Ou talvez não. Na dúvida, ela volta para a varanda.
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Atualizado em: Seg 15 Jun 2026

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