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Escola Grasso 316 – Silêncio que Grita

Aviso ao leitor
Este Capítulo não é indicado para menores de 14 anos, ele aborda automutilação como parte da trajetória da personagem Ellie.
A automutilação não é romantizada nem apresentada como solução.
Se você se identificou com essa situação, saiba: você não está sozinho(a) e existem caminhos de apoio. Sentir dor emocional não faz de você fraco(a), e buscar ajuda é um ato de coragem.
Conversar com alguém de confiança, procurar um profissional de saúde mental ou acessar serviços de apoio pode fazer toda a diferença.
No Brasil, você pode ligar gratuitamente para o CVV – Centro de Valorização da Vida, pelo número 188, 24 horas por dia, ou acessar o chat online.
Se estiver em outro país, procure serviços locais de apoio emocional ou emergência.
Você merece cuidado, escuta e acolhimento.

Ellie está andando pelo corredor da escola. Ela está olhando para os lados, parecendo assustada, com medo de alguma coisa. Quando vira o corredor para ir ao seu armário, ela vê Nicole e Carol. Ellie volta rapidamente e dá de cara com Lory.
— Nossa, Lory! Que susto!
— Calma, Ellie.
— Você apareceu do nada na minha frente.
— Desculpa. Olha, vou lá na sua casa hoje à tarde, não se esquece.
Ellie olha confusa.
— Na minha casa?
— É para fazermos o trabalho de Literatura. Esqueceu que somos parceiras agora?
Ellie dá um sorriso.
— Claro que não, eu não me esqueci. Você pediu para o senhor Armstrong trocar de parceiro. Também, com o Johnny como parceiro, até eu pediria para trocar.
Lory sorri, um pouco sem graça.
— Na verdade, foi ele que pediu para trocar. Ele quis fazer dupla com o Michael. Disse que ele estava passando por um momento difícil e queria ajuda-lo.
— Deve ser problema com drogas. Ele estava andando com aquela menina, a Camila, e os dois estavam fazendo arruaça pelo bairro.
— Sim, eu ouvi isso também. Mas não se esquece, tá? Umas 16h30 eu chego na sua casa. Agora deixa eu ir para a aula de matemática antes que eu me atrase. Tchau.
— Tchau, Lory.
Ellie se vira para ir ao seu armário, mas Nicole e Carol ainda estão lá. Nicole a vê e vai em sua direção. Mas, de repente, Michelle aparece com uma expressão séria.
— Ellie, preciso conversar com você. Vamos para a minha sala agora.
— Michelle! É... claro, vamos lá.

Personagens Principais
Ellie Goes
Maju Braga
Vitor Ramos
Adryan Gomes
Carol Novak
Nicole Zangirolami
Peter Moretti
Zara Fernandes
Tom Prado
Lory Brown
Dani Pereira
Di Katsutani
Helena Moura
Rafa Costa
Gui Silva
Gustavo Assunção
Ana Castro
Paola Muniz
Nina Lacerda
Lila Fontán
Joana Hart
Sara Laursem
Agnes Montenegro
Camila Jung
Michael Laursem
Johnny Garcia
Michelle Boaventura
Lucas Montenegro
Lara Carvalho
Bella Carvalho

Enquanto isso, na sala do Clube Feminista, Agnes está falando.
— O próximo tópico é a reunião do Clube Feminista. Começaremos pelos discursos. — Agnes olha para Maju. — E Maju fica com a música.
Maju sorri.
— Já está tudo pronto.
Agnes olha para Vitor.
— E as sátiras...
— Em que eu interpreto “Homem dando em cima de mulheres na rua” — Vitor completou.
— O papel certo para você — Helena falou com ironia.
Vitor faz uma careta confusa e olha para Helena, sem entender. Maju recebe uma notificação no celular e a lê. Agnes continua.
— A Michelle pediu para falar sobre consentimento para o Primeiro Ano Agnes vê Maju olhando o celular.
— Maju... Mais mensagens?
Maju olha para Vitor e mostra a mensagem. Ele a lê em voz alta.
— “As pessoas só curtem a música chata da Maju porque ela é uma gata.”
— Que idiota — Vitor falou.
Maju olha para a tela do celular novamente.
— Recebo essas porcarias desde que “Não é Convite” foi para a internet. Estão piorando desde a semana passada em São Paulo. 
— O que eu posso fazer? — Vitor perguntou.
Maju olha para ele.
— Não suporto vê-la magoada assim.
Helena, que está atrás deles, olha séria. Maju sorri para Vitor.
— Tudo bem. Sei que você me apoia.
Agnes se aproxima um pouco mais de Maju.
— Isso vai te distrair da reunião amanhã?
— Não, claro que não...
Maju recebe outra notificação. Agnes senta ao lado de Maju e lê a mensagem em voz alta.
“Maju chata só escreveu aquela música feia porque é bipolar.”
Agnes olha para Maju.
— Jura que está tudo bem?
Maju fica irritada com a mensagem.
— O quê? Isso não é verdade.
— Não importa. Esses idiotas dirão qualquer maldade para te calar — Helena falou.
Maju começa a ler outras mensagens que escreveram.
— “A música dessa garota burra não é legal. Se eu descobrir onde ela mora, vou lá dar uma lição nela.”
— Meu Deus. Isso é horrível.
Novas mensagens começam a ser postadas, dizendo coisas horríveis para Maju. Ela olha para Agnes.
— Estarei pronta para a reunião, mas antes preciso dar um basta nisso.
Ela se levanta e sai.
 
Enquanto isso, Sara está em seu armário na escola, revirando tudo.
— Cadê você, livro de química.
— Está lá em cima — alguém diz.
Sara se vira. É Vini, que estende a mão e pega o livro. Sara sorri.
— Obrigada. Quanto tempo, hein?
— É, com certeza. Queria saber como você está desde que conversamos há algumas semanas. Essa história do Michael deve ser meio difícil.
— Realmente é. Felizmente ele está indo a um psicólogo. Obrigada por perguntar.
Vini sorri.
— É, então... Estou indo para a aula de português. A gente se vê depois?
Sara também sorri.
— É, espero que sim.
Vini sai. Lila e Joana se aproximam, dando gritinhos animados. Sara sorri e fecha seu armário.
— Sara: O retorno. Era só questão de tempo.
Sara olha para as amigas.
— Nós só conversamos. Nada demais.
— Tudo demais — Lila falou, com um sorriso exagerado.
Sara sorri. Lila continua.
— Enfim, vocês podem ser nosso casal de amigo, meu e do Joey.
— Talvez, mas o Vini nunca toparia.
Joana olha para Sara.
— É só que a aula de português para a qual ele foi é do outro lado da escola.
Lila sorri.
— Hum. Sara!
Lila sai, e Joana e Sara vão atrás dela.
 
Ellie está na sala de Michelle, impaciente. Ela balança levemente a perna e olha a hora no celular.
De repente, a porta se abre. Michelle entra com Marta e Roberto.
— Podem entrar e fiquem à vontade — Michelle falou.
Marta se senta em uma cadeira, ajeitando a bolsa no colo, e Roberto fica em pé atrás dela, com as mãos apoiadas no encosto da cadeira. Michelle também se senta, respirando fundo antes de começar.
— Bem, Sra. Marta, Sr. Roberto, eu chamei vocês aqui porque as faltas da Ellie aumentaram nos últimos meses. Na verdade, ela só tem comparecido às aulas de literatura avançada e de ilustração. Não sei o que está acontecendo, mas, se ela continuar assim, vai acabar reprovando o ano.
Marta olha para Ellie com preocupação.
— Querida, o que está acontecendo?
Ellie desvia o olhar para o chão e fica em silêncio, mexendo na barra da manga.
Michelle continua.
— A Ellie é uma boa garota. Ela estava indo bem no ano passado, com boas notas, boa frequência, mas este ano a coisa desandou de vez. Ela nem sequer fez as últimas provas de matemática.
Roberto intervém, com a voz mais firme.
— Raquel, sua mãe te fez uma pergunta e você não respondeu. O que está acontecendo?
Ellie suspira, visivelmente irritada.
— Nada, não está acontecendo nada. Só quero ir para casa.
Marta se inclina um pouco na direção da filha.
— Filha, se você não contar o que está acontecendo, não vamos poder te ajudar.
Ellie passa a mão pelo cabelo, impaciente.
— Não tem nada para me ajudar, mamãe. — Ellie olha para Michelle. — Me suspende logo e vamos acabar com isso.
Michelle cruza as mãos sobre a mesa e fala com calma.
— Eu não vou te suspender por isso, Ellie, e também não vou te dar detenção. Porque eu te conheço e sei que você não é assim. Mas você precisa parar de matar aula.
Ellie dá de ombros, tentando parecer indiferente.
— Ótimo, eu vou parar, beleza. Já que você não vai me punir, posso voltar para a aula?
Michelle observa Ellie em silêncio por alguns segundos. Depois olha para Marta e Roberto.
— Eu chamei vocês aqui para que pudessem estar cientes do que está acontecendo. Como eu disse, não vou dar nenhum tipo de punição para a Ellie, mas, se ela continuar assim, o conselho pode até expulsá-la da escola.
Roberto olha para Ellie. O olhar dele não é de raiva, mas de preocupação.
— Filha, isso é sério. Pega firme nos estudos e, se você precisar de ajuda, sua mãe e eu estamos aqui.
Ellie finalmente olha para o pai e força um pequeno sorriso.
— Eu estou bem, papai, de verdade. Vai ficar tudo bem.
Michelle pega um papel sobre a mesa e o estende para Ellie.
— Ótimo. Pode ir para a sala agora, Ellie. E toma aqui o passe de entrada na sala, entregue ao professor.
Ellie se levanta devagar, pega o papel e sai da sala sem olhar para trás.
 
Maju está em uma sala de aula vazia. Ela olha o celular.
— Droga.
Helena entra na sala.
— Helena, você tem um carregador? Estou quase sem bateria.
— Você passou a manhã toda discutindo com esses trolls maldosos?
Helena entrega o carregador para Maju.
— Tentando denunciar as contas. — Maju coloca o carregador na tomada e conecta o celular. — Mas o Instagram não faz nada. Será que eu devo só ignorar essa merda toda? Um idiota chamado “Homem de Verdade DPF” disse: “Maju é uma vadia feminista falsa que já pegou todos os caras da escola dela. Eu sei bem.” — Maju bate na mesa irritada. — Que absurdo.
— Sabe o que dizem sobre alimentar os trolls, né?
— É, eu sei, mas... tive uma semana tão difícil, e o Vitor tem agido de maneira estranha.
Helena abaixa a cabeça.
— É... falando nisso, eu tenho que te contar uma coisa.
Maju continua olhando o celular.
— Você não vai se safar, pervertido.
— Esquece. Eu te conto depois. Ei, Maju. Achei que a gente ia trabalhar na reunião. Deixa esse celular e vem aqui.
— Não dá, Helena. Quem vai me levar a sério falando sobre feminismo se eu aceitar todos esses abusos?
Helena olha o notebook e vê uma mensagem que a assusta.
“Endereço de Maju Braga
Rua Alameda Barros, 376 — Parque São Judas”
— Maju, você tem que ver isso. Explanaram você.
— Tá e o que isso significa?
— Publicaram suas informações pessoais online. Endereço, telefone...
Maju se levanta rapidamente.
— O quê? — Maju se abaixa olhando o notebook de Helena. — Então um maluco pode ir na minha casa? Isso é loucura, Helena.
— Provavelmente... não sei.
Maju olha assustada. Seu celular vibra. Ela se levanta e o pega.
“Vou dar um pulo na Rua Alameda Barros, 376, e dar o que a Maju merece no quarto dela.”
Ela olha para Helena.
— Helena, eu tenho que pedir ajuda.
 
Na hora da saída, Ellie deixa um livro em seu armário e sai apressada, olhando para os lados como se quisesse evitar alguém. Mas acaba encontrando Nicole e as líderes de torcida no corredor.
Ela tenta se virar discretamente, mas Nicole a chama.
— Ellie, vem aqui.
Ellie para por um segundo, respira fundo e se aproxima de cabeça baixa, claramente assustada.
— Vamos conversar ali na sala de aula. — Nicole olha para as amigas. — Meninas, fiquem de olho. Se vier alguém, me avisem.
As duas entram na sala vazia. A porta se fecha com um estalo seco. O silêncio deixa o clima ainda mais pesado.
Nicole se vira lentamente para Ellie.
— Raquel... eu não sei. Estava pensando aqui... acho que vou divulgar suas fotos.
Ellie arregala os olhos, o rosto perdendo a cor.
— Não, Nicole, por favor. Nós temos um acordo.
Nicole cruza os braços e dá um sorriso frio.
— Um acordo que você não está cumprindo. Passei a manhã inteira te procurando. Nos intervalos, no almoço, depois das aulas da tarde… — ela se aproxima um pouco mais. — Estou com cara de idiota pra você?
Ellie balança a cabeça rapidamente.
— Não.
— Eu já disse: me encontre no seu armário todos os dias. — Nicole fala devagar, como se quisesse que cada palavra pesasse. — Então me responde uma coisa. Amanhã você vai estar no seu armário?
Ellie engole seco.
— Sim.
Nicole sorri.
— Ótimo. E me traz alguma coisa boa.
Ellie hesita, quase sussurrando.
— Mas, Nicole… está difícil agora. Eu não tenho mais nada para te dar. E também não tenho dinheiro.
Nicole revira os olhos.
— Então arruma um emprego. Rouba alguma loja. Sei lá, se vira.
Ela se aproxima ainda mais, olhando direto nos olhos de Ellie.
— Porque se amanhã você não me trouxer nada de bom… todo mundo vai ver suas fotos.
Nicole abre a porta da sala e sai como se nada tivesse acontecido.
O barulho da porta ecoa pela sala vazia.
Ellie fica parada por alguns segundos, sem reação. Então se senta lentamente em uma cadeira.
As mãos começam a tremer. Seus olhos se enchem de lágrimas enquanto ela encara o chão, completamente perdida, sem saber o que fazer.
 
Enquanto isso, na casa de Sara, ela e Lila estudam.
— Certo, o que você respondeu na pergunta cinco? — Sara perguntou.
— Respondi: “Você e Vini, eu e Joey fazendo ioga de casal”.
Sara olha para Lila e revira os olhos, balançando a cabeça.
— Você está com dúvidas. É compreensível. Tenho a solução perfeita para você... uma lista de prós e contras — Lila sugeriu.
— Sobre o Vini?
Lila sorri.
— Deixa comigo, já arrumei tudo.
Lila pega o celular e começa a digitar.
— Pró: ele beija bem.
Sara faz uma careta.
— Como você sabe disso?
— Porque você me contou. Vamos continuar.
Sara começa a falar.
— Pró: ele nunca me magoaria.
Lila começa a digitar no celular. Ela para e olha para Sara.
— Você era muito mais feliz quando estava com ele.
— Tem razão. Eu me sentia muito mais feliz quando estava com ele, mas eu tive que estragar tudo o traindo.
De repente, Vinícius aparece.
— Oi, pode me dar a senha nova do wi-fi?
Sara olha assustada e surpresa.
— Vinícius! O que você está fazendo aqui? É bom ver você, mas por quê? — Sara perguntou, um pouco sem graça.
— Estava esperando o Michael voltar do psicólogo. Estou atrapalhando vocês?
— Sim, nós estávamos conversando... É...
— Sobre cólicas — Lila completou.
— É isso mesmo — Sara confirmou.
Vini dá um sorriso sem graça, esfregando a nuca.
— Me desculpem. Então eu vou deixar vocês conversarem sobre isso.
Ele sai. Sara olha para Lila.
— Ele é muito fofo. Como eu pude magoar ele daquele jeito?
 
Maju está na delegacia conversando com um investigador. Ele lê as mensagens que mandaram para Maju.
— Foi ótimo você ter salvado essas ameaças de assédio.
— Está vendo essas ameaças de estupro? — Maju falou, apontando o dedo para a tela do notebook.
O investigador pensa um pouco antes de falar.
— Isso deve ser horrível para você. Tem alguma ideia de quem está te assediando?
— Não, esse é o problema. — Maju se afasta, andando pela sala, irritada. — Você precisa achar esses idiotas e prendê-los.
Ela se senta ao lado de Eliane. O investigador começa a falar.
— Sendo realista, nenhuma dessas publicações tem informações de identificação. Se eles bloquearam os IPs usando VPN, não podemos rastreá-los.
— Mas não vai desistir, não é?
— Faremos o possível.
Eliane intervém, preocupada.
— Pode mandar um policial vigiar nossa casa?
— É, essa noite? — Maju completou.
— Se mandássemos um policial para a casa de cada mulher que recebe ameaças, não sobraria um nas ruas. — O investigador olha para Maju. — Olha, a verdade é que, em casos de assédio como este, atos de violência são raros.
— Mas acontece? — Maju questionou.
— Já pensou em excluir suas redes sociais? — o investigador perguntou.
— Eu vivo na internet. Todas as minhas músicas estão lá.
— Meu conselho é continuar guardando essas mensagens para o caso de fazerem algo. Enquanto isso, siga sua vida normalmente. Vou tentar descobrir algo, mas isso é tudo o que posso fazer por enquanto.
Eliane olha para Maju.
— Vamos, querida. Vamos para casa.
As duas se levantam. O investigador entrega o notebook para Maju.
As duas saem da sala. Maju suspira.
— Está cada vez mais difícil ser mulher. Não temos mais um minuto de paz. Olha esse louco sequestrando garotas... Essas notícias sobre feminicídio.
Eliane olha para a filha.
— É difícil, querida, mas temos que lutar, resistir e torcer para que as coisas melhorem algum dia.
 
Mais tarde, Ellie está sentada no chão do quarto. Seus olhos estão cheios de lágrimas. Na mão, ela segura um isqueiro. Ela o acende e aproxima a chama do antebraço, perto da axila. Ellie prende a respiração e geme baixo de dor por alguns segundos.
De repente, a porta se abre. Lory entra no quarto. Ellie se assusta e larga o isqueiro no chão. Lory olha para o braço dela e percebe imediatamente o que estava acontecendo.
— Meu Deus, Ellie… você estava se queimando?
Ellie limpa o rosto rapidamente, tentando parecer normal.
— São quatro e quinze, Lory. Você disse que chegaria às quatro e meia.
Lory ignora a tentativa de mudar de assunto e se aproxima devagar.
— Ellie… por quê?
Ellie desvia o olhar.
— Lory, por favor… não conta pra ninguém. Deixa isso pra lá, beleza? Não é nada demais.
Lory balança a cabeça, claramente preocupada.
— Ellie, isso é sério. Você precisa procurar ajuda.
Ellie se irrita, tentando se defender.
— Eu já disse que não é nada. Para de pegar no meu pé.
— Mas, Ellie…
Ellie levanta a voz, nervosa.
— Lory, por favor, para de falar sobre isso… Quer saber? É melhor você ir embora.
Lory fica parada por um momento, sem saber o que fazer.
— E o nosso trabalho?
— Não estou com cabeça pra fazer isso agora. Eu só… quero ficar sozinha.
Lory olha para Ellie com preocupação, mas percebe que insistir naquele momento poderia piorar a situação.
— Eu vou, mas a gente ainda vai conversar sobre isso, tá? Eu me importo com você.
Ellie não responde. Apenas fica olhando para o chão. Lory sai do quarto devagar, fechando a porta. Ellie permanece em silêncio, respirando fundo, tentando se recompor.
 
No dia seguinte, na sala de aula de matemática, Agnes está falando.
— Se olharmos para o triângulo da direita, podemos criar uma equação para calcular a área, que seria A = ½(ah). Depois, como isso não nos dá muita informação, podemos olhar o diagrama de novo e, usando o segundo triângulo, calculamos o seno...
Enquanto Agnes fala, o celular de Maju vibra. Ela pega o celular e lê uma mensagem.
“É hora de te colocar no seu lugar, @MajuBraga. Vamos atrás de VOCÊ.”
Ela começa a rolar a tela do celular, lendo várias mensagens. Ela deixa o celular sobre a carteira e suspira.
Um aluno que estava mais à frente se vira para outro aluno ao lado e mostra o celular.
— Cara, olha isso.
O aluno pega o celular e começa a rir. Maju se levanta e toma o celular da mão do garoto, mas era um site sobre notícias de esportes. Ela entrega o celular de volta para o garoto e se vira para voltar ao seu lugar quando escuta uma voz.
— Você vai morrer.
Ela se vira rapidamente para Agnes, que ainda está explicando.
— O quê?
— Eu disse: “Calcular o seno.” Você está bem, Maju?
Maju se senta em seu lugar sem dizer nada. Agnes continua explicando.
— Bom, gente. Como eu ia dizendo, vamos calcular o seno...
Maju recebe outra mensagem.
“Vamos explodir sua cabeça na reunião.”
Maju olha assustada para a tela do celular, se levanta, pega suas coisas e sai da sala.
 
Vini está guardando os livros em seu armário quando Sara se aproxima dele.
— Oi.
Vini se vira, e Sara continua falando.
— Desculpa por ter te expulsado ontem.
— Sem problemas. Fui visitar o Michael.
Sara dá um sorriso.
— Tá bom. Até mais.
Sara começa a sair.
— Mas é sempre bom saber que eu beijo bem — Vini falou.
Sara para e dá um suspiro.
— Lila.
Sara se vira.
— Para ser sincero, também fiz uma lista — Vini falou.
Sara fica surpresa e em silêncio por alguns segundos, procurando palavras.
— Então o justo seria eu vê-la.
Vini sorri.
— Sim, beleza.
Ele tira o celular do bolso e começa a ler.
— “Sara tem um cabelo lindo. Sara é sempre superlegal. Sara está sempre alegre.”
Sara está sorrindo, mas de repente fica um pouco mais séria.
— Vini...
— Não precisa dizer nada. Sinto o mesmo por você.
Sara olha para Vini. Ela não sabe o que dizer.
— Bom, te vejo depois.
Ela se vira e sai.
 
No corredor da escola, Ellie chega ao seu armário e encontra Nicole encostada nele, mexendo no celular.
— Raquel, o que você me trouxe?
Ellie engole seco.
— Nicole… eu não consegui nada. Preciso de mais alguns dias.
Nicole revira os olhos, impaciente.
— Você está me achando com cara de idiota?
— Não, Nicole, não é isso, eu...
Nicole a interrompe, irritada.
— Raquel, eu não quero desculpas. Quanto você tem de dinheiro?
— Nada. Nem aqui comigo, nem na conta do banco.
Nicole pega o celular do bolso de trás da calça e começa a mexer nele.
— Então sinto muito, mas todo mundo vai ver suas fotos.
Ellie se desespera.
— Não, espera!
Ellie abre rapidamente o armário e pega seu tablet.
— Eu tenho este tablet. Ele vale um bom dinheiro.
Nicole pega o tablet com desdém, olhando de cima a baixo.
— Este tablet? Esse lixo de tablet? — Nicole suspira. — Beleza, Raquel. Vai servir… por enquanto.
Ela guarda o tablet na bolsa.
— Vou te dar um tempo para arrumar mais coisas para mim. E, por favor, me traga coisas boas. Não sei como você vai fazer, mas isso não é problema meu.
Nicole dá um sorriso frio e se afasta pelo corredor.
Ellie fecha o armário devagar, tentando segurar as lágrimas, e também se afasta.
Nesse momento, Lory sai de uma sala de aula próxima. Ela está parada no corredor, com o rosto preocupado.
Ela ouviu toda a conversa entre Ellie e Nicole. Lory observa Ellie indo embora pelo corredor, claramente sem saber o que fazer, mas entendendo que a situação é muito mais séria do que imaginava.
 
Maju está em sua casa. Vitor se aproxima com duas xícaras de leite quente.
— Não precisava ter matado aula comigo.
Vitor deixa as xícaras na mesa de centro.
— É claro que precisava. — Ele se senta ao lado de Maju. — Faço qualquer coisa por você.
— É tão injusto, Vitor.
— Eu sei.
— Sei que as ameaças devem ser falsas, mas são tantas. Não me sinto mais segura. Escrevi uma música para me defender e me sinto tão frágil. Aí fico com raiva por me sentir assim.
— Queria encontrar um desses idiotas.
Maju se levanta.
— A culpa é minha. Eu os ignorei por muito tempo...
— Ei. — Vitor a interrompe. — Você não fez nada de errado.
— Eu sei. Estou muito triste por faltar à reunião. Agnes e eu trabalhamos muito nela.
Vitor ouve atentamente as palavras de Maju e então tem uma ideia.
— Talvez você não precise faltar. Você tem o celular da Agnes?
— Tenho, por quê?
— Podemos fazer uma live sua daqui.
Maju sorri.
— Posso participar da reunião sem sair de casa. — Maju fica séria de repente. — Mas e se isso piorar as coisas?
— Não é a solução perfeita e continua não sendo justo. Mas, pelo menos, você não vai se calar.
Maju sorri novamente.
— Você é incrível.
Ela o abraça por alguns segundos.
— Então vamos lá. Mãos à obra — disse Vitor, se afastando.
 
Na escola, Sara conversa com Lila e Joana enquanto caminham para a assembleia do clube feminista.
— Ele também fez uma lista.
— Então ele quer voltar a namorar — Lila falou.
Sara continua séria. Joana percebe.
— O que foi? A lista dele foi ruim?
— Não. Eram coisas do tipo: “Ela é legal e tem um cabelo legal.”
— Elogiou o seu cabelo? É o maior elogio — Lila falou.
As três entram no auditório.
— Eu não entendi. Você não o beijou? — Joana perguntou, se sentando.
Sara e Lila também se sentam.
— É tipo... da última vez que nós nos beijamos, ele tinha gosto de melancia.
Joana olha confusa.
— Tá, eu nunca beijei, mas tem algo que eu não sei?
Sara sorri.
— Não. É que, desde então, quando como melancia lembro desse beijo.
— Quando eu beijo o Joey, ele tem gosto de pastilha de hortelã — Lila falou, sorrindo.
Joana olha de volta para Sara.
— Enfim, “blá-blá-blá melancia”?
— Lembro desse beijo e de como as coisas terminaram mal. Agora fico me perguntando se eu gosto de melancia.
De repente, Agnes começa a falar no microfone.
— Boa tarde. Bem-vindos à reunião do clube feminista.
Lila olha para as amigas.
— Ótimo, é a hora de ficar entediada pela próxima hora. E, Sara, não se preocupe. Melancia é a fruta mais gostosa que existe.
— A não ser que você engasgue com as sementes — Joana falou.
Agnes continua falando.
— Hoje teremos o discurso de Maju Braga, falando por chamada de vídeo direto da sua casa.
 
Ellie está na escola andando pelo corredor quando, de repente, o sistema de som anuncia:
— “Atenção: Ellie Goes, comparecer à direção.”
Alguns alunos olham curiosos enquanto Ellie caminha até a diretoria.
Alguns segundos depois, ela abre a porta e entra. Lá dentro estão Roberto e Marta.
Ellie faz uma careta confusa.
— O que aconteceu agora?
Michelle olha para Ellie com expressão séria.
— Ellie, pode se sentar, por favor?
Ellie se senta, inquieta. Michelle continua:
— Vou direto ao ponto. Hoje mais cedo uma pessoa viu você entregando um tablet para a aluna Nicole Zangirolami. Você tem algo a dizer sobre isso?
Ellie força um sorriso.
— Está tudo bem. Eu só emprestei para a Nicole escolher uns desenhos para comprar. Depois ela vai me devolver.
Michelle mantém o olhar firme.
— Ellie, você não precisa mentir. Essa pessoa disse que ouviu a Nicole te ameaçando, pedindo coisas para você dizendo que divulgaria fotos suas. Isso é muito sério.
Ellie olha rapidamente para os pais.
— Isso não é verdade. Essa sua informante deve ter ouvido errado… ou está mentindo. A Nicole não me ameaçou.
Nesse momento, Marta se inclina para frente, mais perto da filha.
— Querida, por favor… se alguma coisa estiver acontecendo, você precisa nos contar.
— Mamãe, eu já disse. Está tudo bem. Não se preocupe.
Marta respira fundo, visivelmente preocupada.
— Não está tudo bem. Você não está comendo, está se machucando… como pode estar tudo bem?
Ellie arregala os olhos.
— Como…? A Lory te contou, né? Ela só entendeu errado e...
— Para de inventar desculpas, por favor. Você não está bem. A gente quer te ajudar — Marta interrompeu.
Ellie abaixa a cabeça. Uma lágrima escorre pelo rosto, ela resolve contar toda a verdade.
— Há alguns dias… a Nicole pegou meu celular. Ela pegou umas fotos minhas… depois disso começou a me chantagear, pedindo coisas dizendo que ia divulgar as fotos. Eu fiquei muito mal com isso. Mas eu não tinha como provar… e o medo dela divulgar minhas fotos…
Michelle fala com firmeza, mas com cuidado.
— Ótimo temos uma testemunha confiável, e acredito em você Ellie. Vamos tomar uma atitude quanto a isso. Vocês podem fazer um boletim de ocorrência e até abrir um processo judicial. Isso é crime, é grave e não vai passar impune. Vocês têm a minha palavra.
Ellie levanta a cabeça olhando para Michelle.
— E tem mais uma coisa, aquele desenho que eu fiz para o aniversário da sua filha, foram a Nicole e a Carol que destruíram.
Algum tempo depois, Ellie e Lara estão do lado de fora da sala de Michelle.
— Por que você não contou nada? — Lara perguntou.
Ellie suspira.
— Eu… foi difícil. Eu estava com medo.
Lara olha para Ellie. A culpa pesa no rosto dela.
— Me desculpa por não ter percebido o que estava acontecendo. Eu estava tão presa aos meus problemas com meu pai que nem percebi o que você estava passando.
Ellie tenta sorrir.
— Ursinha, isso não foi culpa sua. Você não precisa pedir desculpa.
De repente, a porta da sala de Michelle se abre, interrompendo a conversa.
Nicole, Carol, os pais delas, Roberto e Marta saem da sala.
Nicole passa pelo corredor com o rosto fechado, evitando olhar para Ellie.
Roberto e Marta se aproximam das meninas. Roberto segura o tablet de Ellie.
— Como foi lá dentro? — Ellie perguntou, nervosa.
Roberto respira fundo antes de responder.
— Bem… a Nicole e a Carol foram suspensas por um mês. Daqui a alguns dias vai ter uma reunião do conselho para decidir se elas serão expulsas da escola. E vamos fazer um boletim de ocorrência.
Marta coloca a mão no ombro da filha.
— Mas agora vamos para casa.
Ellie e Lara se levantam.
Roberto estende o tablet.
— E, filha o… isso aqui é seu.
Ellie pega o tablet devagar.
Ela olha para o objeto por um momento, como se finalmente estivesse recuperando uma parte de si mesma. Então guarda o tablet na mochila.
Os quatro caminham juntos pelo corredor e vão embora.
 
Maju faz uma live de sua casa que está sendo transmitida na assembleia, ela canta “Não é Convite”
Não é flerte, é invasão
Não é charme, é pressão
Não me toque, não me siga
Não me olhe como presa na escuridão
Eu não devo explicação
Não te devo atenção
Meu “não” é frase inteira
Não é jogo, não é provocação
Ela termina, todos aplaudem.
— Obrigada. — disse Maju, ela coloca o violão de lado. — Quando escrevi essa música, ainda nem me considerava feminista. Mas senti na pele como as mulheres são tratadas diferentes. Comigo foram coisas como, cantadas em um show, mas o assédio que tenho sofrido é pelo mesmo motivo. São as pessoas dizendo: “Posso fazer isso porque ela é só uma menina.” Palavras como “vadia” e estupro tem importância. Elas nos fazem sentir ameaçadas e desvalorizadas. Eles usam palavras que nós magoam e dizem que é nossa culpa por nós sentimos assim. Essas palavras querem nos calar, mas...
De repente um grito é ouvido da rua.
— Maju Braga.
Uma pede atinge o vidro da sala da casa de Maju seguida de uma explosão alta.
Maju e Vitor se assustam, todos na assembleia olham espantados. Vitor corre até Maju e a abraça.
— Você está bem?
— Sim estou.

Sara anda pelo corredor da escola. Ela chega ao saguão e vê Vini conversando com outro aluno. Ela se esconde e fica olhando. Rafa aparece.
— Engraçado. Não importa aonde eu vá, encontro você.
Ela se vira e revira os olhos.
— Você. Ótimo. Você fica me perseguindo para ficar me dando conselhos de merda?
— Beija seu dinheiro com essa boca?
Irritada, Sara parte para cima de Rafa.
— A última coisa de que preciso é de uma lição de moral sobre como não sou sincera comigo mesma.
— Tem razão. Vá falar com suas amiguinhas. Elas darão conselhos melhores.
De repente, Sara beija Rafa. Ela para e se afasta, envergonhada. Quando se vira para sair, Rafa a segura pela mão, puxa-a de volta até ele e a beija.

Sinopse do Próximo Capítulo – Por Que isso Não Pode Ser Amor
Vitor é chantageado para ficar em silêncio. Michael ajuda Camila, mas não se ajuda. Sara se assusta com Rafa e escolhe o caminho mais seguro.
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Atualizado em: Sáb 30 Maio 2026

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