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A Infraestrutura da Solidão

A chuva ampliava o brilho das vitrines. Paris parecia feita de superfícies: vidro, fumaça, reflexos, rostos que surgiam e desapareciam antes de adquirir permanência. As avenidas largas despejavam multidões continuamente, como se a cidade tivesse sido redesenhada não para encontros, mas para circulação.
Ele caminhava sem destino.
Parava diante das vitrines não pelos objetos, mas pelo fluxo. Pessoas atravessavam seu campo de visão como frases interrompidas. Nada permanecia tempo suficiente para se aprofundar. A cidade oferecia tudo em excesso e intimidade em escassez.
Talvez aquele tipo de homem só pudesse nascer ali. Não por escolha, nem por temperamento, mas porque certas arquiteturas acabam produzindo inevitavelmente certas formas de consciência. As novas avenidas exigiam circulação constante; a multidão exigia anonimato; o excesso exigia distância. Caminhar sem finalidade parecia a única maneira de absorver Paris sem ser absorvido inteiramente por ela.

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Já passava da meia-noite quando ele percebeu que não procurava mais nada específico.
O dedo continuava deslizando pela tela com a mesma naturalidade com que alguém atravessa uma avenida movimentada. Rostos apareciam e desapareciam. Opiniões, fotografias, anúncios, tragédias, humor. Tudo organizado em fluxo contínuo.
O feed nunca terminava.
Talvez aquela arquitetura não fosse tão diferente da outra. As avenidas de Haussmann haviam se tornado feeds, timelines e recomendações. A multidão física transformara-se em multidão de perfis. A antiga circulação urbana sobrevivia agora como scroll contínuo. As vitrines da cidade haviam cedido lugar às interfaces de conteúdo. Até a visibilidade parecia continuar obedecendo à mesma lógica — antes arquitetada pela cidade, agora por rankings algorítmicos invisíveis.
O caminhar virara scroll.
A cidade virara interface.
A multidão virara feed.
E talvez aquele sujeito também fosse inevitável.
Porque ambientes construídos para circulação permanente acabam produzindo pessoas incapazes de permanecer. Infraestruturas desenhadas para excesso inevitavelmente criam consciências fragmentadas. O movimento deixa de ser escolha e passa a ser condição do próprio ambiente.
Talvez fosse por isso que permanecia ali, deslizando sem urgência entre vidas alheias, absorvendo fragmentos de mundo sem jamais alcançá-los completamente. Não porque buscasse algo específico, mas porque sistemas como aquele pareciam feitos precisamente para produzir esse estado de deriva contínua.

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Baudelaire reconheceria imediatamente o velho flâneur naquela figura imóvel diante da tela. Não porque os dois mundos fossem iguais, mas porque a lógica permanecia a mesma: a infraestrutura reorganiza a percepção humana e produz os sujeitos necessários para habitá-la.
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Atualizado em: Sex 22 Maio 2026

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