- Drama
- Postado em
Escola Grasso 312 – Procurando o Meu Lugar
Nicole está no refeitório da escola, conversando com uma amiga.
— Então você quer ir comprar roupas comigo e a Carol mais tarde?
A garota suspira.
— Podemos ir na Hearm’s. Hoje é o último dia da promoção — disse Nicole.
As duas se sentam à mesa onde Carol está quieta, encarando a bandeja.
Nicole continua:
— A gente precisa aproveitar tem bastante coisas com desconto. — ela encara Carol. — Voce só pensa nesse seu relacionamento idiota. Você vive inventando desculpas para não terminar com isso.
Carol ergue o olhar, ofendida.
— Nicole, você não precisa ser tão dura assim — disse a garota.
— Eu só estou sendo sincera. É só questão de tempo até o Adryan aparecer com algum gesto “super espontâneo e original” que ele viu em algum filme adolescente.
Antes que Carol responda, um violão começa a tocar do nada.
As três se viram.
Rafa está em pé perto das mesas, tocando, e Adryan começa a cantar, olhando direto para Carol.
“Desde o dia em que você sorriu pra mim
O mundo ficou mais fácil de enfrentar
Se eu me perco, você é meu início e meu fim
É no teu abraço que eu quero ficar
Não precisa de palco ou multidão
Só você pra fazer meu coração cantar”.
A garota cutuca Nicole, animada.
— Amiga… isso é muito fofo.
Carol tenta segurar, mas acaba sorrindo, os olhos brilhando.
Nicole revira os olhos.
— Impressionante. O amor sempre vence. Podemos voltar para a vida real agora?
Adryan termina a música sob alguns aplausos tímidos. Nicole se levanta antes mesmo de pensar duas vezes e vai até ele.
— Foi lindo. De verdade.
Adryan sorri, meio nervoso.
— Então… você quer dar uma volta comigo?
Nicole, que ainda está na mesa, cruza os braços.
— Ótimo. Vocês vão para o Luca’s comer batata frita e aproveitar promoção de casal, enquanto eu fico resolvendo tudo sozinha.
Nicole vira o rosto para ela.
— Você pode ir junto. Dois hambúrgueres pelo preço de um.
Carol balança a cabeça.
— Não, esquece. Eu vou resolver isso sozinha. Como sempre.
Nicole e Adriana saem, a amiga de Nicole também sai.
Personagens Principais
Ellie Goes
Maju Braga
Vitor Ramos
Adryan Gomes
Carol Novak
Nicole Zangirolami
Peter Moretti
Zara Fernandes
Tom Prado
Lory Brown
Dani Pereira
Di Katsutani
Helena Moura
Rafa Costa
Gui Silva
Gustavo Assunção
Ana Castro
Paola Muniz
Nina Lacerda
Lila Fontán
Joana Hart
Sara Laursem
Agnes Montenegro
Camila Jung
Michael Laursem
Johnny Garcia
Michelle Boaventura
Lucas Montenegro
Lara Carvalho
Bella Carvalho
Zara e Helena estão no banco de trás do carro de Leonora, a mãe de Zara, cada uma com o celular na mão, digitando rápido.
— Você também saiu sem tomar café? — Helena cochicha, sem tirar os olhos da tela. — Vamos pro Luca’s antes da aula? Hoje é dia da promoção: dois hambúrgueres por um.
Leonora observa pelo retrovisor.
— O famoso combo do amor! — Zara completou, segurando o riso.
As duas começam a rir alto. Leonora encara pelo retrovisor de novo, agora mais séria.
— Já que eu sou a motorista de vocês, podiam pelo menos fingir que estão conversando comigo. Quem foi que te ensinou a ser tão mal-educada, Zara?
Zara ergue os olhos do celular.
— Sei lá… talvez eu tenha puxado meu pai.
O clima pesa por um segundo. Leonora não responde. Apenas estaciona em frente à escola.
Helena cutuca Zara e vira o celular para ela ver a tela. Zara faz uma careta imediata.
— Credo! Você não presta.
Zara e Helena tiram o cinto abrem a porta e saem. Antes que Zara feche, Leonora chama:
— Zara, espera. Posso falar com você um minuto?
Helena percebe o tom e se afasta um pouco, fingindo mexer no celular.
Zara se aproxima da janela, apoiando os braços na porta.
— Desculpa. Eu sei que você não gosta quando eu falo do meu pai… seja lá quem ele for.
Leonora suspira, olhando para frente antes de encará-la.
— Não é isso. É sobre essa menina.
Zara franze a testa.
— A Helena?
— Ela está claramente interessada em você.
Zara dá uma risadinha nervosa.
— E… desde quando isso é um problema?
Leonora endurece o olhar.
— Você sabe como as pessoas falam. Eu não quero que comecem a achar coisas sobre você.
Zara sustenta o olhar da mãe.
— Que coisas?
Leonora hesita, mas fala mesmo assim:
— Que você é lésbica.
O sorriso de Zara desaparece. Ela fica séria.
— E seria tão ruim assim?
Leonora cruza os braços.
— Você tem outros amigos. Eu só acho melhor andar com eles. E evitar comentários desnecessários.
Zara olha para Leonora, claramente magoada.
— Entendi.
Ela se afasta do carro sem dizer mais nada. Antes de sair, lança um olhar rápido para Helena — um misto de confusão e tristeza.
Na aula de Empreendedorismo, o professor anda pela sala enquanto explica o trabalho.
— Quero ideias de negócios com aplicação no mundo real. Nada de projetos impossíveis. Vocês podem fazer em dupla ou individualmente. Caprichem, porque isso vale nota alta.
A sala começa a murmurar. Um aluno se inclina na cadeira e olha para Nicole com um sorriso.
— Nicole, você já tem dupla? Porque eu estou disponível para o trabalho... Ou algo mais.
Ela nem levanta os olhos do caderno.
— Continua sonhando.
Ele coloca a mão no peito, fingindo ofensa.
— Nossa, que frieza.
Ana, começa a rir alto demais para alguém que deveria estar discreta.
Nicole vira lentamente para ela.
Nicole estreita os olhos.
— Eu estou com alguma coisa nos dentes? — Ana perguntou.
Nicole suspira e fecha o caderno.
— Quer fazer esse trabalho comigo?
Ana pisca, surpresa.
— Você e eu?
— Somos as únicas garotas da sala. Já é motivo suficiente. E, convenhamos, somos facilmente as mais inteligentes daqui.
Ana pensa um pouco
— Hum… gosto dessa ideia.
Nicole continua, agora empolgada:
— A gente pode criar algo sério, com potencial real. E ainda mostrar para esses bobões como se faz.
Ana levanta as mãos, rendida.
— Está bem, está bem. Você me convenceu.
Nicole sorri, satisfeita.
— Então está fechado.
Ana pega o celular.
— Vamos nos encontrar no Luca’s depois da aula? Eu pago o café.
Nicole abre um sorriso, animada.
— Combinado.
No corredor da escola, Rafa distribui panfletos.
— Sejam voluntários amanhã no Centro de Reabilitação Nova Esperança!
Alguns alunos passam direto. Outros pegam o papel só para ele parar de falar.
Sara vem andando distraída, com um livro aberto nas mãos. Rafa a vê e muda o foco imediatamente.
Ele para na frente dela.
Sara tenta desviar, mas ele acompanha o movimento.
Ela levanta os olhos devagar.
— Está bloqueando o corredor por algum motivo específico ou é só hobby?
Rafa ignora a ironia e inclina a cabeça para ver a capa do livro.
— Spoiler: a vida não faz sentido.
Sara fecha o livro com o dedo marcando a página.
— Nem me fale.
— Mas não precisa ser assim.
— Ah, é? Você descobriu o segredo do universo e não contou para ninguém?
— Não para o universo. — Ele dá um sorriso. — Para você também não. Você já é um caso perdido.
Sara sorri.
— Nossa. Que abordagem incrível.
— Mas você pode ajudar quem realmente precisa. — Ele entrega o panfleto. — Eu coordeno atividades sociais para adolescentes.
Ela pega o papel, dá uma olhada rápida e devolve.
— Não estou exatamente na minha fase mais sociável. Estou bem ficando na minha.
Ela tenta sair. Rafa acompanha o passo dela.
— Faz sentido.
Sara para e se vira, já impaciente.
— O que faz sentido?
— Você é mimada de mais para se importar com os outros.
— Você não me conhece.
— Eu imagino. Boas notas por causa de professores particulares. Seu maior problema é um carinha que te deu um fora e agora se sente “perdida”.
O sorriso dela fica mais afiado.
— Então eu sou exatamente o seu tipo.
Rafa sustenta o olhar.
— Esses jovens tem problemas reais: vícios, violência, abandono. Gente que precisa de alguém presente. Não de alguém reclamando da própria vida perfeita.
O comentário atinge. Sara aperta o livro contra o peito.
— E o que, exatamente, eu faria?
Rafa percebe que ganhou espaço e muda o tom, mais animado.
— Esta semana vamos fazer uma atividade ao ar livre. Tipo uma guerra estratégica na floresta. Trabalho em equipe, resistência, cooperação. Você tem bolas de tênis.
Ela pensa por um segundo.
— Não, mais talvez eu posso conseguir. A Lila e a Joana são amigas da Franci Moretti. O irmão dela joga tênis. Posso tentar falar com elas.
Rafa levanta o panfleto de novo.
— Então posso contar com você?
Sara pega o panfleto se vira e sai andando, mas agora com um leve sorriso no rosto.
Ana está sentada em um canto mais tranquilo da escola, concentrada na leitura. Peter se aproxima com aquele jeito confiante de sempre.
Ele se senta de frente para Ana.
— Então eu estava pensando, por que não fazemos um almoço inapropriado? — Enquanto fala, ele desliza a mão até a coxa dela. Ana reage na mesma hora, afastando a mão dele.
— Não na escola, não quero que ninguém nos veja já te falei.
— Você e essas suas regras… “não na escola”, “não perto dos outros”, “ninguém pode saber”. Tem algum motivo ou você só gosta de complicar?
Ana fecha o livro com calma, mas a expressão está mais séria.
— Eu só não quero virar assunto no corredor. Já basta o que o pessoal inventa.
Ele inclina a cabeça.
— Mas é justamente isso que deixa tudo mais interessante.
— Para você, talvez. Eu prefiro manter as coisas… discretas.
Peter a encara por alguns segundos, depois abre um sorriso.
— Está bem. Você venceu.
Ele pega um livro da mochila.
— Vou me comportar. Serei um verdadeiro cavalheiro.
Ana não consegue evitar um sorriso.
Na frente da escola, Carol está conversando com Adryan. Do outro lado, Ana sai do prédio e dá de cara com Nicole.
— Oi — Ana falou, com um sorriso discreto.
— Oi. Quer dar uma volta comigo? Só para respirar um pouco depois dessa aula interminável?
Ana sorri de leve.
— Claro, eu estava mesmo precisando.
As duas começam a andar, mas Carol percebe e se despede rápido de Adryan antes de correr atrás delas.
— Nicole! Espera.
Nicole para.
— O Adryan e eu vamos assistir a um jogo de futebol mais tarde. A gente poderia ficar por aqui enquanto eu espero ele me ligar.
Ana troca um olhar rápido com Nicole.
— Ou você podia… sei lá… arrumar alguma coisa para fazer que não envolva esperar seu namorado.
Carol vira o rosto devagar para Ana.
— Desculpa, isso é da sua conta?
O clima pesa por um segundo. Nicole respira fundo antes de falar.
— Carol, ela não está totalmente errada. Você vive em função dele. Talvez fosse bom fazer algo pra você também.
Ana cruza os braços, mas com um sorrisinho provocador.
Carol fica visivelmente sem graça.
— Nossa, que dupla incrível vocês duas. Obrigada pelo apoio, de verdade.
Ela dá um sorriso forçado e se vira para sair.
Nicole observa.
— A verdade dói, né?
Carol para por um instante. Vira-se lentamente e encara Nicole. O olhar mistura mágoa e orgulho ferido. Ela parece querer responder… mas não diz nada. Apenas balança a cabeça e vai embora.
Ana e Nicole estão no Luca’s, espalhadas com cadernos, celular e um notebook aberto.
— Tá, vamos começar do básico — Nicole gira a caneta entre os dedos. — Do que as pessoas gostam? Roupas?
Ana levanta os olhos do caderno.
— Música. Tatuagens. Séries. Tudo que dá para transformar em tendência.
— Café. — Nicole aponta para o próprio copo. — As pessoas amam um bom café.
— Mas café tem em qualquer esquina. Até posto de gasolina vende.
Nesse momento, um bebê começa a chorar alto na lanchonete.
Nicole faz uma careta.
— Pronto. Ideia número quatro: ioga para crianças. Para ver se melhora o karma delas.
Ana ri pelo nariz.
O choro aumenta.
Ana olha na direção do som e franze a testa.
— Espera… eu conheço essa mulher. É minha vizinha.
Ela se levanta e vai até a mesa ao lado.
— Oi, Bia. Está tudo bem? O que houve com a Júlia?
A menina, claramente nervosa, balança a cabeça.
— Não sei. Ela não para de chorar.
Ana se aproxima com cuidado.
— Ei, pequena… o que foi?
Ela pega a bebê no colo com naturalidade e começa a balançar devagar.
— A dona aranha subiu pela parede…
A bebê para de chorar aos poucos e começa a encarar Ana. Em segundos, abre um sorrisinho.
Nicole observa, surpresa.
— Ok. Isso foi meio impressionante.
Ana dá de ombros, ainda ninando.
— Eu faço uns trabalhos de babá de vez em quando. Dá para tirar uma graninha boa. Mãe paga bem quando confia.
Elas voltam para a mesa. Ana aponta para um quadro de avisos cheio de anúncios.
— Olha isso. Metade é “procura-se babá”.
Nicole cruza os braços.
— O único problema é que eu odeio crianças.
Ana segura o riso.
— Beleza então, trocar fraudas e ser legal não são o seu forte, mas você é ótima e mandar em adolescentes.
Nicole pensa por alguns segundos.
— A gente não precisa ser babá.
Ana arregala os olhos.
— Como assim?
— A gente pode ser as intermediárias. Tipo… uma agência.
Ana se anima na hora.
— Uma agência de babás!
— As mães precisam sair, trabalhar, respirar. A gente conecta elas com garotas responsáveis.
Ana fecha o notebook com decisão.
— Esquece o trabalho de negócios. Isso aqui dá dinheiro de verdade.
Nicole sorri.
— Muito dinheiro.
Mais tarde, elas estão conversando com algumas garotas interessadas.
Nicole assume o tom mais sério.
— A nossa agência organiza os horários, agenda os serviços e garante pagamento certinho.
Ana complementa:
— Vocês só precisam ser responsáveis, pontuais e ter noção básica de primeiros socorros. A gente ajuda com isso também.
Uma das meninas pergunta:
— E vocês ganham como?
Nicole responde sem hesitar:
— Vinte por cento por serviço.
Ana olha para ela, surpresa.
Nicole continua:
— Trinta por cento em feriados.
Ana sorri de canto, orgulhosa.
— A gente cuida da divulgação, dos clientes e da organização. Vocês só precisam fazer um bom trabalho.
As meninas trocam olhares, animadas.
No dia seguinte, Ana e Nicole chegam juntas à escola. O sol está forte, o trânsito barulhento na frente do portão. Nicole responde um áudio no celular, claramente irritada.
— Não, Jéssica, você não pode levar o Chris para ser “babá” com você.
Ela encerra o áudio.
Ana ri de canto.
— Eles realmente não conseguem passar dois minutos longe um do outro.
Nicole dá de ombros.
— Tem gente que começa a namorar e parece que desinstala o próprio cérebro. Sério, é por isso que eu prefiro ficar solteira. Zero drama, zero dependência emocional.
Ana sorri, mas o sorriso dura pouco. Ela vira o rosto, pensativa por um segundo.
O celular de Nicole toca novamente.
— Ai, o que foi agora? — ela olha para a tela. — Adivinha… Jéssica de novo.
Ana abaixa a cabeça, olhando para o celular de Nicole, tentando ver a notificação… e quase esbarra em alguém.
— Ei, cuidado.
Ela levanta o olhar e dá de cara com Peter.
— Ana. Bom dia.
Ela demora meio segundo para responder.
— Oi, Peter.
Nicole imediatamente abre um sorriso simpático demais.
— Oi, Peter!
Ele retribui com aquele charme ensaiado.
— Olá, Nicole.
Ana balança a cabeça discretamente, como se já conhecesse bem aquele teatro.
Peter dá alguns passos para trás, andando de costas por um instante.
— Vejo vocês mais tarde.
O olhar dele para Ana dura um segundo a mais do que deveria.
Mais tarde, Ana e Nicole estão sentadas lado a lado, cada uma com uma boneca que simula um bebê. À frente, uma pequena banheira portátil sobre a mesa.
A instrutora de babas fala enquanto demonstra:
— O ideal é utilizar uma banheira portátil, sem torneira próxima, para evitar que o bebê bata a cabeça. E lembrem-se: sempre usar um pano limpo e úmido, sem sabão, principalmente nos primeiros dias.
Enquanto a instrutora explica, Nicole está completamente distraída, segurando a boneca torta demais dentro da água.
Ana observa.
— Nicole. O bebê está se afogando.
Nicole desperta e ergue a boneca rapidamente. Ela pisca algumas vezes, ainda distante.
— O Peter não está no time de natação?
Ana vira lentamente para ela.
Ana estreita os olhos.
— Eu não sei.
Nicole suspira, dramática.
— Eu não sabia que ele era tão legal. Quer dizer, além de lindo. E muito charmoso. E engraçado.
Ana segura o riso.
— Você está bem?
Nicole encara a amiga.
— Por que eu nunca falei com ele antes? Qual é a dele?
Ana sorri de canto.
— Qual é a sua? Parece que você gosta dele.
Nicole tenta manter a pose… falha.
— Não… — pausa. — Tá. Talvez. Um pouco. — Ela abaixa a voz. — Desde o nono ano.
Ana arregala os olhos. Nicole abaixa a cabeça.
— Eu não acredito que te contei isso.
Ana sorri.
— Nem eu.
As duas seguram o riso.
Nicole se anima de repente.
— Já sei. A gente marca um encontro duplo. Eu e o Peter… e a gente arruma alguém para você.
Ana quase derruba a boneca.
— O quê?
— Vai. Tem alguém da escola que você gosta?
Ana sorri sem graça e finge se concentrar no banho da boneca.
— Próxima pergunta.
Antes que Nicole pressione mais, uma aluna se aproxima, visivelmente nervosa.
— Oi… com licença. Eu não vou conseguir ficar de babá hoje. Prometi para minha mãe que ia ajudar em casa.
Nicole muda completamente a expressão.
— Como assim? Isso é hoje à noite. Onde eu vou achar uma babá em cima da hora?
A menina parece culpada.
— Desculpa mesmo…
Ana intervém rapidamente.
— Ei, tudo bem. Eu vou no seu lugar.
Nicole vira para ela.
— Você tem certeza?
— É o mínimo que eu posso fazer. A agência é nossa.
Nicole relaxa e sorri.
Zara está sentada em um banco no corredor interno da escola, o notebook aberto no colo e fones no ouvido. Ela parece concentrada demais para quem só está assistindo a uma série.
Tom desce as escadas, observa por um instante e se senta ao lado dela.
— Brigou com a sua mãe de novo?
Zara não responde. Finge que não ouviu.
Tom inclina o corpo para espiar a tela.
— Ginny & Georgia? — ele faz uma careta. — Isso explica muita coisa. Spoiler: a Ginny trai o Hunter com o Marcus.
Zara arranca um dos fones e lança um olhar mortal para ele.
— Você é insuportável.
— Eu sei. O que aconteceu agora?
Ela fecha o notebook devagar.
— Minha mãe me proibiu de ver a Helena.
Tom arregala os olhos.
— Ela descobriu?
— Não exatamente. Ela acha que a Helena gosta de mim.
— E você acha que a sua mãe está preocupada com a Helena?
Zara sustenta o olhar dele, tensa.
— Meus pais sabiam que eu era gay antes de eu mesmo saber. Foi quase constrangedor de tão fofo.
Zara solta um riso curto.
— Que bom para você. Mas minha mãe é católica fervorosa. Ela não vai reagir com abraços.
Tom fica mais sério.
— E você vai fazer o quê? Parar de falar com a garota de quem você gosta?
Zara hesita.
— Às vezes eu queria encontrar meu pai… perguntar o que ele pensaria de mim.
Tom inclina a cabeça.
— Você ainda está nessa teoria?
Zara gira o notebook na direção dele e mostra uma foto.
— Olha. Sabe o ator Caio Magalhães.
Tom encara a tela, incrédulo.
— Zara…
— Minha mãe foi figurante em Amor Rebelde. Ele também estava no elenco naquela época. Coincidência demais, não acha?
Tom continua olhando para ela.
— O que foi? Ele atua. Eu atuo. É possível. Olha o nosso nariz!
Ela aproxima a imagem, comparando.
Tom ri, desacreditado.
Tom ri, desacreditado.
— E agora? Você vai aparecer na porta da casa dele e pedir um teste de DNA ao vivo?
Zara olha para ele.
— Ele está na cidade gravando ”Dirigindo para o Oeste*”.
Tom suspira, sorrindo.
— Você definitivamente precisa dormir mais.
Ele se levanta.
— Te vejo na aula.
Zara observa ele ir embora e suspira, começando a guardar as coisas. Assim que fecha o notebook com um pouco mais de força do que o necessário, Helena desce as escadas.
— Eu vou com você.
Zara revira os olhos, mas o gesto é mais nervoso do que irritado.
— Ótimo. Vou ter que achar outro esconderijo.
Ela segura o notebook contra o peito.
— O que você ouviu?
Helena dá um sorriso.
— O suficiente. Inclusive a parte do seu pai famoso.
Zara fecha os olhos por um segundo.
— Acha que eu devo me tratar?
— Devemos perguntar a ele.
Zara a encara.
— “Devemos”?
— Se é por isso que tem andando tão estranha, então, vamos. Sinto falta da minha amiga.
O silêncio pesa por um instante.
Zara suaviza a expressão e finalmente sorri também.
Lila e Gui estão encostados no armário, se beijando sem a menor preocupação. Joana e Sara passam pelo corredor e quase precisam desviar deles.
Joana faz uma careta.
— Isso devia ser proibido dentro da escola. Sério.
Sara ignora Joana e muda de assunto.
— Você me acha mimada?
Joana para e vira lentamente para ela.
— Joana Hart não está disponível no momento. Deixe sua mensagem após o sinal. Piiii.
Sara cruza os braços, fingindo indignação, e fica de frente para a amiga.
— Então anota aí: eu não sou mais mimada. Decidi fazer trabalho voluntário. Vamos comigo?
Ela mostra o panfleto que Rafa tinha dado, toda empolgada.
Antes que Joana responda, Lila surge do nada, animadíssima.
— Cancelando todos os planos, amiguitas! Hoje a gente vai comemorar.
Sara sorri sem graça.
— Eu não posso.
Lila para na frente dela, chocada.
— Como assim não pode? Eu estou saindo com o Gui há duas semanas e praticamente não vejo mais vocês. Não quero virar aquela amiga que some.
— Eu prometi ao Rafa que ia começar o voluntariado hoje.
Lila faz uma expressão de desgosto.
— O Rafa? Aquele que garoto que só lava o cabelo aos sábados? Amiga, por favor.
Sara revira os olhos.
— Eu já me inscrevi. Não dá para cancelar agora.
Lila suspira dramaticamente.
— Tudo bem. Então vamos só eu, o Gui e a Joana. Um encontro a três. Super saudável.
Ela sai animada
Joana fica parada, completamente apavorada.
— Você não pode me deixar sozinha com eles.
Sara tenta manter a postura.
— Eu quero ajudar pessoas, Joana.
— Então me ajuda a não ficar sozinha com o cara de quem eu gosto e a amiga que passa o dia inteiro beijando ele na escola!
Sara respira fundo.
Nicole entra no Luca’s. Mais à frente, Michael e Camila estão claramente drogados, rindo alto demais.
Camila arranca uma bandeja da mão de um garçom que passa
— Ops.
Ela simplesmente vira a bandeja no chão. Copos e talheres se espalham. Ela e Michael caem na gargalhada.
O gerente surge imediatamente, vermelho de raiva.
— Vocês dois, fora daqui agora. Ou eu chamo a polícia.
Camila inclina a cabeça, debochada.
— Calma, tio. A gente já estava indo.
Michael dá uma piscadinha para o gerente.
— Respira. Faz mal para o coração.
Os dois saem rindo e passam por Nicole, que apenas revira os olhos, claramente enojada.
— Patéticos — ela murmura.
No estúdio de Dirigindo Para o Oeste, Zara e Helena saem de trás de um caminhão, olhando para todos os lados como se estivessem numa missão secreta.
— É aquele trailer ali. O nome dele está na porta — Zara sussurra, tensa.
— Você fala isso como se estivesse invadindo a Casa Branca — Helena murmurou.
Elas entram no trailer.
— Tá… e agora? — Helena cruza os braços. — Qual é o plano, Sherlock?
Zara olha ao redor, perdida.
— Eu não achei que a gente realmente fosse chegar até aqui.
— E se ele voltar?
Zara já começa a ir em direção à porta.
— É, talvez seja melhor a gente ir
Helena segura o braço dela.
— Espera. Procura um fio de cabelo. A gente faz um teste de DNA. Simples.
Zara congela.
— E se ele for meu pai… e não quiser nada comigo?
Helena revira os olhos, mas suaviza o tom.
— Então você vai saber. Pior é ficar criando teoria na sua cabeça para sempre.
Zara respira fundo.
— Eu não estou surtando.
— Está sim.
— Eu só… não sei se estou pronta.
Helena se aproxima.
— Você prefere viver na dúvida eterna ou lidar com a verdade de uma vez?
Zara pensa por alguns segundos.
— Tá. A gente pega um fio de cabelo e sai. Missão relâmpago.
Elas começam a procurar discretamente, mas a porta do trailer se abre de repente.
— O que está acontecendo aqui?
As duas congelam. Na porta está Caio Magalhães.
Zara tenta parecer calma.
— Nada. Quer dizer… a gente pode explicar.
Ele cruza os braços.
— Isso normalmente é a parte em que eu chamo o segurança.
Helena levanta as mãos.
— Ok, isso parece pior do que é.
— Sentem-se. As duas. Agora.
Elas obedecem, como duas alunas na diretoria.
Lila, Gui, Joana e Sara estão sentados em uma sorveteria. Lila dá uma colherada generosa no sundae, mastiga… e faz uma careta imediata.
— O que é isso?
Sara olha para o copinho dela.
— Amêndoa. O sorvete é de creme com amêndoas. Não estava exatamente escondido no nome.
Gui franze a testa.
— Você não tinha pedido creme com cookies?
— Tinha… — Lila revirou os olhos. — Mas eu não quero ser aquela cliente chata que manda trocar tudo.
Gui já se levanta.
— Minha garota pediu cookies. É cookies que ela vai ter.
Lila sorri, satisfeita, e vai com ele até o balcão.
Joana observa os dois e depois encara Sara.
— Isso é torturante.
— Então vamos embora — Sara respondeu. — Sério, o que a gente está fazendo aqui? Comendo sundae como se tivesse dez anos? A gente podia estar fazendo o voluntariado.
Joana arregala os olhos.
— E sair assim? Eles vão perceber que o namoro deles me incomoda.
Sara levanta uma sobrancelha.
— Mas incomoda.
— Eu sei! — Joana abaixa a voz. — Mas eu não quero que a Lila perceba. Vai ficar um climão.
Sara cruza os braços.
— Você escolheu não sair com ele quando teve chance. Não pode agir como se ele tivesse feito algo errado.
Joana respira fundo.
— Falou a garota que surtou por causa do Vinícius mês passado.
Sara fica em silêncio por um segundo.
Joana continua, mais suave:
— A gente te apoiou, lembra? Mesmo você dizendo que “não estava nem aí”.
Sara desvia o olhar, meio sem graça.
— Ok… ponto para você.
Antes que continuem, Lila e Gui voltam animados.
— Mudei de ideia! — Lila anuncia. — Peguei o Superkid.
Ela olha para Gui, encantada.
— Olha, tem um arco-íris em cima!
Gui ri.
Joana e Sara trocam olhares.
De volta ao estúdio, Caio anda de um lado para o outro dentro do trailer, falando ao celular.
— Não, elas estavam aqui dentro… Sim, eu posso esperar. Só resolve isso.
Ele desliga, irritado, e encara as duas.
— Isso é um mal-entendido — Helena falou.
— Engraçado. Amor Rebelde vai parar na Netflix e, do nada, aparece uma nova geração de fãs surtadas.
— Eu nem sei quem você é — Helena rebateu.
Caio aponta para a mão dela.
— Você está segurando a minha cueca.
Helena olha para a peça, faz uma careta e solta em cima da mesa como se estivesse contaminada.
Antes que ela responda, Zara dá um passo à frente.
— Eu sou sua filha.
Caio pisca, incrédulo.
— O quê?
— Minha mãe foi figurante em Amor Rebelde. Ela sempre deixou no ar que alguma coisa aconteceu.
Caio solta uma risada irônica.
— Isso é ridículo.
— A gente só precisa do seu sangue para fazer um DNA.
— Ninguém vai pegar o meu sangue. E eu não sou seu pai. Não tem a menor chance. Eu não misturo trabalho com vida pessoal. E nunca me envolvi com figurantes.
O silêncio pesa.
Zara respira fundo, segurando a decepção.
— Desculpa pelo constrangimento.
— Esqueçam isso. Saiam daqui — Caio falou.
— Com prazer — Helena respondeu, já se levantando.
Zara começa a sair devagar.
— Você vai ficar bem? — Caio perguntou, num tom menos defensivo.
Zara para, de costas para ele. Depois se vira.
— Eu não sei. Minha mãe não gosta muito de quem eu sou.
Caio franze a testa.
— Quem você é? Uma garota que invade trailers?
— Não. Uma garota que gosta de garotas. Relaxa, isso não é problema seu. É só que… — ela hesita — se você fosse meu pai, talvez eu pudesse morar com você. E talvez tudo fosse menos complicado.
O sarcasmo de Caio desaparece.
— Ei… vai ficar tudo bem.
— Então posso vir morar com você?
— Não, mas não ligue pro que sua mãe diz. Não pode viver uma mentira.
— Mesmo que ela me odeie por isso?
Caio pensa por um segundo.
— Olha, isso vai soar como um conselho de série adolescente, mas é verdade. A vida é sua, não dela. E só você pode se fazer feliz.
Zara balança a cabeça sorrindo.
— Posso te ligar qualquer dia desses?
Caio tira as mãos nos bolsos.
— De jeito nenhum.
Ele aponta para a porta. Ela sai. Caio fica parado, pensativo.
Sara chega ofegante até a quadra onde o grupo do voluntariado costuma se reunir.
— O que a gente vai jogar hoje?
Rafa está juntando caixas de pizza vazias. Ele nem olha para ela.
— Já jogamos.
— Não me diz que eu perdi.
Rafa fecha os olhos por um segundo, claramente tentando manter a paciência.
— Quer que eu diga que você perdeu… ou que você estragou?
Sara trava.
— Eu só me atrasei um pouco.
Ele joga as caixas no lixo com mais força do que o necessário e finalmente olha para ela.
— Duas horas, Sara. Duas.
E você não trouxe as bolas de tênis, então tivemos que improvisar. Sabe o que eles fizeram? Pique-bandeira. De novo. Pela milésima vez.
Sara abaixa um pouco o olhar.
— Desculpa. Eu tive que resolver uma coisa antes.
Rafa ri, mas não é de humor. Sara continua.
— Você nem tem Instagram, eu nem sabia como te achar.
Deixa eu adivinhar… emergência fashion? Crise de melhor amiga? Drama existencial? Sara esses jovens precisam de alguém que apareça. Que cumpra o que promete. Não de alguém que trata isso como plano B.
Sara respira fundo.
— Eu queria estar aqui. Eu prefiro estar aqui mais do que com minhas amigas bobas.
— Engraçado. — Rafa cruza os braços. — Porque você não estava.
O silêncio pesa.
Sara sente o golpe.
Rafa começa a se afastar.
— Eu posso melhorar — Sara falou.
Ele para e se vira lentamente.
— Duvido. Você parece viciada na ideia de estar sempre insatisfeita. Todo mundo que vem para cá quer mudar alguma coisa. Quer fazer diferença. Quer crescer. Todos menos você.
Rafa vai embora, deixando Sara sozinha, segurando as próprias mãos como se não soubesse o que fazer com elas.
Zara e Helena caminham pela calçada, ainda digerindo o desastre no estúdio. O fim de tarde deixa tudo meio silencioso demais.
Helena quebra o clima:
— Pelo menos você já eliminou um da lista. Agora só faltam… uns três bilhões e meio.
Zara para de andar.
— Você acha isso engraçado?
Helena suspira.
— Eu só estava tentando te fazer rir.
Zara passa a mão pelo rosto, frustrada.
— Eu não tenho pai. E minha mãe… minha mãe é horrível.
— Ela não é horrível.
Zara vira de frente para Helena, respirando fundo, segurando a raiva.
— Ela me proibiu de sair com você. Isso não é horrível?
Helena engole seco. Zara continua falando.
— Eu estou sozinha. — A voz de Zara falha um pouco. — Totalmente sozinha.
Helena balança a cabeça devagar.
— Você não está.
Zara a encara, séria.
— Sério? Então me diz. Quem eu tenho?
Helena se aproxima um passo.
— Você tem a mim, sua boba. A garota que invadiu um trailer de ator famoso com você. Isso conta muito.
Zara tenta segurar o sorriso… não consegue.
O silêncio entre as duas muda de peso. Fica mais leve. Mais intenso.
Zara se aproxima e a beija, rápido, mas cheio de sentimento. Um beijo que é menos sobre impulso e mais sobre escolha.
Quando se afastam, ficam se olhando, Zara sorri, ainda com os olhos brilhando, enquanto Helena ajeita a alça da bolsa.
Peter estaciona o carro em frente a uma casa. Ele sai, ajeita a jaqueta e toca a campainha.
Um Uber para alguns metros atrás. Nicole desce, ainda olhando o celular… até levantar os olhos.
Ela congela.
— Peter?
Antes que consiga reagir, o portão se abre. Ana aparece. Eles trocam um sorriso cúmplice se beijam e entram na casa.
Nicole fica parada na calçada, incrédula.
No dia seguinte, Nicole anda apressada pelos corredores da escola, quase esbarrando nas pessoas. Ela avista Ana no armário, pegando alguns livros.
— Ana. A gente precisa conversar.
Ana se vira animada demais.
— Carol! Onde você estava ontem? Eu te mandei umas cinquenta mensagens. Nossa agenda de babás simplesmente triplicou para o fim de semana!
Nicole olha sério para Ana.
— Agora a gente precisa de mais meninas.
Ana continua, empolgada:
— Não se preocupe com isso, já resolvi tudo. No almoço vou te apresentar as novas meninas. Todas com certificado de primeiros socorros e desesperadas por dinheiro. — Ela coloca a mão na cintura, orgulhosa. — O que você precisar, eu tenho.
Nicole mantém o olhar fixo nela.
— É. Você tem mesmo. Você tem até o Peter.
— Como assim?
— Eu vi vocês ontem. — A voz de Nicole fica mais firme. — Em frente à casa da Antônia. Eu fui lá levar o seu carregador que você esqueceu comigo.
Ana empalidece levemente. Nicole balança a cabeça.
— Que parceira incrível você é.
Nicole sai dado alguns passos pelo corredor, mas para de repente. Ela se vira devagar.
— Aliás… você sabe que essa parceria foi ideia minha.
Ana franze a testa.
— Não foi “minha” nem “sua”. Foi nossa ideia.
Nicole dá um sorriso frio.
— Tanto faz. Eu vou seguir sozinha.
Ana arregala os olhos.
— O quê? Nicole, a gente tem que apresentar o trabalho hoje à tarde.
— Eu peço prorrogação.
— Você está falando sério?
Nicole cruza os braços.
— Prefiro tirar um B do que continuar lidando com suas besteiras.
Ela se vira e vai embora sem olhar para trás.
Ana fica parada por alguns segundos, depois encosta no armário e solta o ar que estava prendendo, passando a mão pelo rosto.
Peter se aproxima, cauteloso.
— Isso pareceu… intenso. Você quer conversar?
Ana olha para ele, os olhos ainda carregados.
— Não, obrigada.
Ela fecha o armário com mais força do que o necessário.
— Agora eu entendi. Drama de garota não entra na sua descrição de trabalho, né?
Ela sai pelo corredor, deixando Peter parado, tentando entender como foi parar no meio daquela guerra.
Na aula de Empreendedorismo, o professor está em frente à sala, organizando algumas folhas.
— Então, eu recebi as propostas de vocês.
Nicole levanta a mão, firme.
— Professor, eu vou precisar de uma prorrogação. Houve uma mudança de equipe. Vou apresentar sozinha.
Antes que ele responda, começa a distribuir cópias.
— Na verdade, estou entregando o projeto da Nicole e da Ana para vocês terem uma ideia do quão bem estruturado ficou.
Nicole se vira lentamente para trás.
Ana está algumas carteiras atrás, tentando parecer normal.
— Você fez todo o orçamento? — Nicole perguntou, em voz baixa.
Ana dá de ombros.
— Eu tive um tempinho antes da aula.
O professor continua animado:
— Esse tipo de iniciativa mostra visão empreendedora. Fiquei impressionado.
Ana levanta a mão.
— Professor, o modelo de receita por comissão foi ideia da Nicole.
Algumas cabeças se viram para Nicole.
Nicole olha para trás outra vez, confusa.
— O que você está fazendo?
Ana respira fundo.
— Você precisa de uma sócia. E eu… não quero perder sua amizade. — Os olhos dela ficam marejados, mas ela sustenta o olhar. — A gente pode conversar?
Nicole desvia o olhar, encarando a folha do projeto.
Sara entra em casa distraída, largando a bolsa no sofá. Quando levanta o olhar, vê Vinícius na sala.
Ele também a vê.
Por um segundo, os dois ficam parados.
— Oi… — ele falou, meio sem jeito. — Desculpa, eu já estava indo.
Ele se abaixa para pegar a mochila no chão.
Sara franze a testa.
— Vini? O que você está fazendo aqui?
Ele dá um suspiro curto.
— Bom, fui idiota de pensar que o Michael ia me encontrar para fazer o trabalho de história.
Sara cruza os braços.
— Ele quase não vem mais para casa. Acho que está usando drogas.
Vini da um sorriso irônico.
— Ele está tomando a farmácia inteira, você tinha que ter visto ele ontem lá no Luca’s.
Os olhos de Sara se enchem de lágrimas de repente.
Vini percebe na hora. A ironia desaparece.
— Ei… o que foi?
Sara limpa rápido o rosto.
— Você não precisa mais fazer isso.
— Fazer o quê?
— Fingir que ainda tem que cuidar de mim.
Vini engole seco.
— Eu não estou fingindo. Você está triste. Eu estou aqui.
Sara balança a cabeça, perdida.
— Eu não... Eu não sei quem devo ser. Minhas amigas querem que eu mude, mas não sou a mesma entende? Tudo era mais simples ano passado. Era mais fácil... Ser feliz. Queria poder voltar. Mas eu não sou mais aquela garota de antes, entende? — A voz dela falha um pouco. — Ano passado era tudo mais simples. Era mais fácil ser feliz. Eu queria apertar um botão e voltar.
Vini olha com compreensão.
— Eu também queria.
Os dois ficam em silêncio por alguns segundos. Há muita coisa ali que nenhum dos dois sabe como consertar.
Vini coloca a mochila nas costas.
Ele caminha até a porta e sai.
Sara fica parada no meio da sala, olhando para a porta fechada, com culpa, saudade e confusão misturadas no olhar.
Na escola, depois da aula. A sala está vazia.
Ana respira fundo antes de começar.
— Olha… seja lá o que o Peter e eu temos, isso já está acontecendo há algumas semanas.
Nicole cruza os braços na mesma hora.
— Algumas semanas?
— Por que você não me contou antes.
Ana desvia o olhar.
— Eu não sei. Eu queria manter em segredo. Não queria virar assunto no corredor. — Ela dá um riso nervoso. — Eu nunca tive namorado, Nicole. Nunca fui a garota que os meninos notam. Minhas amigas namoram caras bonitos e populares… e eu sempre fui só “a amiga”.
Ela engole seco.
— Quando o Peter começou a falar comigo, eu…
— Quis aproveitar a chance — Nicole completou, mais baixo.
O silêncio fica pesado.
Nicole se senta em uma carteira, pensativa.
— Ele está apaixonado por você? E você, está apaixonada por ele?
Ana não responde. Nicole solta o ar pelo nariz.
— Então você precisa decidir. Ou o Peter, ou minha amizade.
Ana arregala os olhos.
— O quê?
— Você é linda, estilosa, inteligente. Se quisesse, teria uma fila de meninos querendo ficar com você. Não precisa dele.
— Não faz isso, Nicole… por favor. Eu gosto do Peter. Eu não amo ele, mas gosto de estar com ele. Ele me faz sentir… escolhida.
Nicole a encara por alguns segundos.
— Você quer um conselho de amiga de verdade?
Ana confirma com a cabeça, os olhos já marejados.
Nicole se levanta devagar.
— Isso não vai acabar bem. O Peter não é do tipo que namora. Ele vai se cansar, vai esquecer você e partir para a próxima. — Ela pega a mochila. — E quando isso acontecer, eu não vou estar aqui para juntar seus pedaços.
Ela caminha até a porta.
— Faz sua escolha, Ana.
Nicole sai.
Ana começa a andar de um lado para o outro na sala vazia, passando a mão no cabelo, tentando segurar o choro.
No dia seguinte, Nicole chega na escola e vê Ana e Peter conversando no pátio, Ela se aproxima, toca o braço de Peter de leve e sai. Peter solta um suspiro longo passa a mão na nuca e sai andando. Nicole apenas observa de longe.
Na hora do almoço, o refeitório está barulhento. Bandejas batendo, risadas espalhadas, conversas paralelas.
Nicole se aproxima de Ana. Ana olha para ela.… e então ela respira fundo.
— Está feito. Acabou.
Nicole não reage com surpresa.
— E você… está bem?
Ana faz uma careta pensativa.
— Eu estou meio em choque. — Ela dá um sorrisinho nervoso. — Aliviada… e apavorada ao mesmo tempo. Mas acho que é aquele tipo de decisão que precisava acontecer.
Nicole observa o rosto dela com atenção.
— Eu também pensei bastante. E vou escolher a nossa amizade.
Ana franze a testa.
— Como assim?
— Eu não vou ficar sofrendo por causa de garoto nenhum. Muito menos o Peter. Eu te falei, ele não é exatamente conhecido por estabilidade emocional.
Ana suspira.
— É… minhas amigas já tinham comentado isso.
Nicole levanta uma sobrancelha.
— Então você já tinha os avisos e mesmo assim entrou.
— Eu sei.
Ana dá um meio sorriso.
— Eu quis acreditar que comigo seria diferente.
Nicole amolece o olhar.
— A gente sempre acha que vai ser a exceção.
Silêncio breve. Mas você fez certo — Nicole continua. — Melhor terminar agora do que virar aquela história que a gente sabe que vai dar errado e mesmo assim insiste e depois acabamos nos machucando.
Ana sorri
— Obrigada Nicole, por tudo.
Nicole também sorri.
— Olha que você me deve. E eu tenho memória ótima. Vou cobrar.
— Combinado. Vamos sentar — disse Ana.
Nicole sorri, mas dessa vez não é aquele sorriso competitivo ou calculado. É leve. Pela primeira vez ela tinha uma amizade que não precisava controlar ou manipulador, ela sentia em Ana uma amizade verdadeira e sincera, não uma amizade por interesse. É sobre escolher ficar. E isso é novo. É assustador. Mas também é real.
Sinopse do Próximo Capítulo – Dançando Com O Erro, parte 1
Ellie desmaia na escola deixando sua família e amigos preocupados. Lucas tenta conquistar Lila.
*Dirigindo Para O Oeste é um programa de televisão fictício de drama adolescente produzido em Presidente Prudente.
A primeira temporada da série foi lançada em maio de 2026
Atualizado em: Ter 5 Maio 2026
