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Quando a realidade não emociona mais

Uma mesma realidade, vivida por pessoas diferentes, pode ser interpretada de formas muito distintas, ao ponto de que um acontecimento positivo pode trazer sentimentos negativos a depender das vivências, crises e situações que uma pessoa já enfrentou. Isto é, ao mesmo tempo, confuso e poderoso. Para enfrentar dificuldades assim, às vezes usamos o recurso de criar enredos (nem sempre 100% aderentes à realidade como as outras pessoas veem), narrativas que por vezes nos protegem, nos eximem e nos afastam dos erros. É o mesmo padrão que faz com que quando o time de um torcedor fanático ganha, ele diz “nós ganhamos” mas quando o time perde, a frase muda para “eles perderam” e, em certa monta, é um mecanismo típico, do qual nos fazemos valer, eventualmente.

Nas palavras de Paracelso, “o veneno está na dose” e, neste contexto, o excesso se traduz em um constante afastamento da realidade, um divórcio cada vez maior entre a realidade compartilhada e as percepções individuais, levando a adoção de crenças cada vez mais exóticas. O que uma terra plana tem em comum com a convicção que o homem não pousou na Lua? Qual a ligação entre reptilianos e a substituição de Paul MacCartney por um sósia? Seria a mesma que liga horóscopo com “física quântica”? Todas estas iniciativas parecem ser ardentes estratégias de fugir do enorme aborrecimento que é a vida. Seria como constatar que o contato que temos com a realidade se mostra tão monótono e pouco glamuroso que é necessário criar uma visão paralela para dar cores mais vivas à nossa existência. Seria como se a fotossíntese não fosse, em si, um espetáculo digno de uma trilogia de filmes da Disney, como se a Evolução das Espécies não fosse um salto ornamental em direção a um entendimento mais profundo de questões que habitam quase todo ser humano. Surpreendentemente, o ET de Varginha parece capturar (a palavra é esta mesmo) o interesse coletivo, serve de motivo para pesquisa, vende jornal (metaforicamente) e, a partir dele, amplia e sofistica ainda mais a fantasia, em uma espiral de criatividade que em algum momento arremessa a pessoa para longe do senso comum, fato diminuído só pela ironia de que muitas pessoas vão junto, diluindo um pouco o que se chama de bom senso.

De onde vem esta proclividade pelo fantástico que a fantasia proporciona? Será da ideia de ser um dos primeiros a “enxergar a verdade”? Ou de oferecer resistência ao status quo? Talvez da aversão à ideia de estar sendo enganado por uma conspiração ainda maior, que mantém os ET´s presos na Area 51? Qual o sentido de negar o que tantas gerações anteriores construíram de conhecimento senão um interesse próprio, privado e, talvez, inconfessável? Fato é que se uma notícia real se dispersa com certa velocidade e penetração, um boato dá a volta ao mundo muito mais rápido, atinge uma quantidade maior de pessoas. Na savana africana, nossos ancestrais que ouviam um barulho entre a relva e achavam que não era nada, estatisticamente foram mais comidos do que aqueles que achavam ser um tigre ou algo assim: quem sabe este padrão não é um inútil eco de tempos passados?

De qualquer forma, a pergunta que precisamos fazer é: qual o papel da educação neste contexto? Para quem (como eu) acha que o que vemos é o resultado de um fracasso institucional que não conseguiu despertar interesse e admiração no cidadão médio, o que temos é um vazio que pode facilmente ser preenchido com o estapafúrdio - desde que, claro, ele seja simples e fácil de embalar em uma narrativa, melhor ainda se envolver a noção de poder. Se você conhece alguém que acha que Elvis está vivo e Steve Wonder não é cego, arrisco dizer que esta pessoa não foi tocada (no sentido adequado) por um professor, parente ou mesmo amigo que a marcou com o gosto pela cultura, pela admiração pela ciência, pela genialidade do pensamento filosófico. Já dizia Carl Sagan, o mundo assombrado por demônios é bem diferente daquele iluminado pelo conhecimento.
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Atualizado em: Qua 29 Abr 2026

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