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Jacinto, o domador de burros

Córrego do Bom Jesus, Minas Gerais. Idos de 1940. Cidade pequena, servia apenas de passagem para tropeiros e romeiros. O povo vivia de pequenas roças: milho, arroz, feijão, fumo e um pouco de gado leiteiro.
Homens rústicos, talhados no trabalho árduo, de sol a sol. A lida era diária.
Dentre eles se destacava Jacinto.
Era o domador de cavalos, mulas e burros da cidade. Homem bruto, de poucas palavras. Vivia com um chicote na cintura e, por qualquer motivo, fazia ele estralar.
Muitos tinham medo dele.
Diziam que já tinha matado homem numa briga no Paraná, numa colheita de café. Era temido — respeitado pelo medo.
Não tinha medo de nada.
Jacinto morava a uns quatro quilômetros da cidade, num sítio da família. Uma casa pequena de pau a pique, um curral no terreiro e um riacho na porta. Era o que ele precisava.
Todos falavam que ele era o melhor domador do sul de Minas Gerais. Vinham animais de outras cidades, até de outros estados, para ele amansar.
O seu trabalho era no chicote.
Sem dó. Sem pena.
Cavalos, burros e mulas se dobravam pelo medo. Depois de apanhar por dias, semanas, muitas vezes sem comida ou água, o animal cedia.
Era o método da época.
Ninguém contestava.
Ele se gabava disso nas vendas, nos bares de beira de estrada. Falava pouco, mas sempre dizia que suas palavras eram por meio do chicote. E que cortaria até o diabo no meio, se aparecesse em sua frente.
Numa dessas noites, sentado no fundo da venda, veio uma voz.
Era Tião.
Primo de Jacinto, parente de sangue. Mas não gostava nem dele, nem de seus métodos. Já tinham brigado por isso antes. Jacinto uma vez chamou Tião de frouxo — e isso nunca foi esquecido.
— Jacinto — disse Tião —, será que você prova toda essa macheza mesmo?
Jacinto levantou os olhos, encarando.
— Estão falando que na estrada pra sua casa… na bica d’água antes da capela… tem aparecido um saci. Ele anda mexendo com as pessoas, trançando a crina dos cavalos, perturbando os animais. Tá fazendo muita traquinagem. Dizem que é coisa do demônio.
Fez uma pausa.
— Você podia dar um jeito nele… pro bem da cidade... As pessoas estão ficando com medo de passar ali à noite.
Jacinto soltou um riso seco.
— Isso é besteira, história pra criança… ou pra gente frouxa.
Disse isso olhando fixo nos olhos de Tião.
— Mas se tiver um demônio por lá… eu corto ele no chicote.
Terminou a cachaça, levantou, montou no cavalo e foi embora.
Na venda, o silêncio ficou pesado. Alguns olharam para Tião. Outros desviaram.
Jacinto seguiu sem olhar pra trás.
Orgulhoso. Arrogante. O tipo de homem que não abaixava a cabeça pra ninguém.
No caminho, ao se aproximar da capela, ouviu o som da água correndo na bica d’água. Parou para o cavalo beber.
A noite estava estranha.
Escura. Fria. Sem vento. Sem som.
Nenhum piu.
Jacinto olhou ao redor e gritou:
— Onde tá você, demônio? Onde tá o saci, moleque covarde que vou cortar no chicote.
E riu alto.
A resposta veio.
Um assobio.
Fino. Agudo. Estridente.
O cavalo levantou a cabeça, arrepiou as crinas e bufou.
Jacinto segurou firme a rédea.
— É você, Tião? Fazendo graça, justo comigo? Vou te deixar na cama! Disse com raiva.
Outro assobio.
Mais alto.
Quase um grito.
O cavalo empinou, assustado, derrubou Jacinto e saiu em disparada.
Jacinto se levantou rápido, pegou o chicote e estralou duas vezes no ar.
— Apareça! Eu ordeno! Covarde!
O assobio voltou — mais forte que antes.
Jacinto levou as mãos aos ouvidos.
De repente, o ar começou a girar.
Folhas, poeira, galhos — tudo rodopiando num redemoinho.
O barulho aumentava.
Jacinto avançou e desferiu uma chicotada no meio do redemoinho.
Mas algo segurou a ponta do chicote.
E puxou.
Jacinto foi arremessado ao chão.
Antes que pudesse reagir…
veio a primeira chicotada.
Nas costas.
Forte.
Cortando a pele.
Depois outra.
E outra.
Era o mesmo golpe que ele dava nos animais.
Agora… nele.
Jacinto tentou se levantar.
Outra chicotada.
No rosto.
O sangue quente escorreu pelos olhos, pelo nariz, pela boca.
O homem temido da cidade…
estava no chão.
Indefeso.
Apanhando como um animal.
Como ele fazia.
O chicote não parava de cantar.
Na madrugada, trabalhadores que iam para a roça, com enxadas nas costas, viram algo caído perto da capela.
Um corpo, ainda com vida,
Ensanguentado, todo cortado, quase nu.
Irreconhecível.
O caminhão de leite que passava recolheu o corpo e o levou de volta para a cidade, dentro da igreja viram que o tal homem era Jacinto, mas ninguém sabia o que tinha acontecido.
Dalio levaram para o hospital em Pouso Alegre, onde Jacinto ficou internado por longos três meses.
A mãe, irmãs, a família o visitaram no hospital, mas ele não falava uma palavra sequer.
Não dava qualquer explicação do que aconteceu naquela noite.
Saiu de lá outro homem.
Desfigurado.
Com cicatrizes pelo corpo.
Costelas quebradas.
Coxo de uma perna.
Um resto do que já foi, um moribundo que nada lembrava o homem que fora um dia.
Na volta pra casa, desapareceu na rodoviária.
Nunca mais foi visto.
Medo?
Vergonha?
Ninguém soube dizer.
A família nunca mais teve notícias dele.
Procuraram por meses. Perguntaram em cidades vizinhas, em vendas, em pousos de estrada.
Alguns diziam ter visto um homem mancando, pedindo comida.
Outros diziam ser só conversa fiada.
Com o tempo… o assunto morreu.
Mas não completamente.
Porque na estrada da capela…
tudo mudou.
Nunca mais houve assobio.
Nunca mais redemoinho.
Nunca mais cavalo com crina trançada.
O povo dizia que o saci foi embora.
Ou que terminou o que precisava fazer.
Tião nunca mais tocou no assunto.
E anos depois, um velho contou uma história numa venda:
Disse que viu um homem no mato, tentando domar um burro.
Mas sem chicote.
Falava baixo.
Passava a mão no animal.
Esperava.
E o bicho obedecia.
Não por medo…
Mas por respeito.
Perguntaram o nome.
O velho pensou… e disse:
— Nome eu não sei… mas o rosto… parecia que já tinha brigado demais com o mundo.
Nunca se confirmou.
Mas no interior, até hoje se diz:
Quem bate demais…
uma hora aprende…
apanhando.
C.F.T.
Abril de 2026
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Atualizado em: Seg 27 Abr 2026

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