person_outline



search
  • Drama
  • Postado em

Escola Grasso 310 – Isso Não É Da Sua Conta

Esse Capítulo não é recomendado para menores de 14 anos.
Lila estava no corredor da escola, ajeitando o cabelo enquanto usava o celular como espelho. O sinal toca. Lila caminhou em direção a uma das sala de aula onde alunos estão saindo, Maju, Vitor e Gui saem da sala conversando.
— Claro que não! Um tubarão faria picadinho dele. Ele tem cinquenta fileiras de dentes! — disse Vitor, gesticulando.
Gui balançou a cabeça, discordando.
— Mas a lula-gigante seguraria a boca dele com os tentáculos. Ela é enorme!
Antes que Vitor respondesse, Gui o agarrou pelo ombro e começou a sacudi-lo dramaticamente. Maju observava a cena sorrindo.
Lila se aproximou, cruzando os braços de brincadeira.
— Devo ficar com ciúmes? — perguntou, arqueando a sobrancelha.
Gui soltou Vitor.
— Ah… oi! — Ele sorriu rápido e apontou para os amigos. — Vocês conhecem a Lila?
Maju olhou de Gui para Lila, curiosa.
— Ela é sua namorada?
Vitor acompanhou a pergunta com um sorriso.
Lila sentiu o rosto esquentar.
— A gente… está se conhecendo ainda — respondeu, lançando um olhar rápido para Gui.
Ele concordou com a cabeça, sorrindo.
— Bonito cabelo — comentou Lila, tentando mudar o foco, olhando para Maju.
— Obrigada! Gostei do seu… — Maju parou no meio da frase, o olhar descendo até a mão de Lila. — Do seu chaveiro.
Vitor franziu a testa, confuso, seguindo o olhar de Maju até o objeto.
— É lindo, não é? — disse Lila, animada. — Ele vibra.
Ela apertou um botão, e o objeto começou a vibrar suavemente.
Um silêncio estranho se instalou.
— É… imagino que você tenha comprado por isso — comentou Maju, sorrindo.
— É ótimo pra aliviar o estresse — respondeu Lila naturalmente, pendurando o “chaveiro” no pescoço.
Gui desviou o olhar por um segundo, sorrindo sem saber onde enfiar a cara.
— Imagino… — murmurou Vitor.
Maju inclinou a cabeça, provocativa.
— Acho que só conversa não vai satisfazer ela, Gui.
— Tá bom, tá bom! — Gui interrompeu, rindo nervoso. — A gente vai se atrasar para a aula de física.
Ele saiu rápido, com Maju e Vitor logo atrás.
Lila ficou parada, sem entender nada.
Nesse momento, Sara e Joana se aproximaram.
— Meu Deus, tem prova surpresa? — perguntou Joana, aflita.
— Tem… — respondeu Lila distraída. Ela ergueu o objeto. — O que tem de errado com o meu chaveiro?
Sara suspirou.
— Li… isso é um vibrador.
— O quê?! — Lila arregalou os olhos. — Credo! Você acha que o Gui acha que eu uso isso?
— Provavelmente. Você devia explicar para ele — respondeu Sara.
— Mas a gente ainda está se conhecendo! Como vou falar disso com ele?
Sara e Joana trocaram um olhar cúmplice e começaram a se afastar.
— Boa sorte — disse Joana, rindo.
Lila ficou sozinha no corredor. Olhou para o “chaveiro”, depois suspirou, preocupada.

Personagens Principais
Ellie Goes
Maju Braga
Vitor Ramos
Adryan Gomes
Carol Novak
Nicole Zangirolami
Peter Moretti
Zara Fernandes
Tom Prado
Lory Brown
Dani Pereira
Di Katsutani
Helena Moura
Rafa Costa
Gui Silva
Gustavo Assunção
Ana Castro
Paola Muniz
Nina Lacerda
Lila Fontán
Joana Hart
Sara Laursem
Agnes Montenegro
Camila Jung
Michael Laursem
Johnny Garcia
Michelle Boaventura
Lucas Montenegro
Lara Carvalho
Bella Carvalho

Michael estava sentado no sofá, inclinado sobre um caderno, escrevendo com cuidado. Sua irmã Sara está sentada próxima e Arthur seu irmão mais novo, olhava o celular concentrado, mas falava alto demais.
— Anda! Mais rápido! O cara tá livre ali! — reclamou. Vamos, seus idiotas!
Michael respirou fundo antes de falar.
— Ei… dá pra falar mais baixo? Estou tentando me concentrar.
— Eu também! — Arthur rebateu na hora. — Isso é importante. Se o Colégio Braga ganhar a gente vai pra final!
Michael parou de escrever e olhou para ele.
— Tá, eu entendo. Mas precisa gritar?
Arthur fez uma careta, meio ofendido.
— Desde quando você faz dever de casa por vontade própria?
— Isso não é dever de casa — respondeu Michael, sério.
Sara estreitou os olhos, curiosa e se aproximou.
— Então o que é isso?
Ela pegou o caderno e começou a ler em voz alta.
— “Eu não ligava para os arranhões nos joelhos, só queria tirar aquelas rodinhas da bicicleta.”
Ela levantou o olhar, surpreso.
— Isso é… escrita criativa?
Michael estendeu a mão, pedindo o caderno de volta, um pouco sem jeito.
— Tem um site que publica redações de alunos do ensino médio — explicou. — O professor Marcelo disse que talvez publiquem a minha.
Sara abriu um sorriso grande, genuíno. Nesse momento, Cristina a mãe deles apareceu no corredor, atraída pela conversa.
— Publicar? — perguntou, animada. — O quê? Meu filho é um escritor agora?
— Preciso terminar de editar e mandar hoje. Então… será que vocês podem me deixar sozinho um pouco?
Arthur se levantou do sofá num pulo.
— Isso o colégio Braga venceu, estamos na final.
Sara, Michael e a mãe deles olha para Arthur.
— Vocês vão assistir ao jogo na escola né? — Arthur perguntou.
Michael sorriu, sincero.
— Claro que vou. Você é meu irmão.
— Vamos sim, Arthur. Fico tão feliz de ver meus filhos se dando bem.
Ela seguiu para a cozinha. Sara olhou para Michael e sorriu.
— Não acredito, não sou mais a filha favorita.
Michael voltou ao caderno, agora com um sorriso discreto no rosto.

No dia seguinte, na escola, Helena caminhava apressada pelo corredor, segurando um envelope contra o peito. Maju vinha logo atrás, tentando alcançar o passo dela.
— Não, você não pode ler — disse Maju, rindo e tentando pegar o envelope. — Eu ainda não terminei, é só um rascunho!
Helena desviou, protegendo o envelope com o corpo.
— Rascunho sobre o quê? Sobre Vitor e seus músculos?
Maju revirou os olhos, mas não conteve o sorriso.
As duas entraram na sala de música. Antes que Maju dissesse qualquer coisa, Helena estendeu o envelope, ainda sorrindo. Nesse momento, a porta se abriu de repente. Agnes apareceu acompanhada de outras garotas.
Helena franziu a testa na hora.
— A gente reservou a sala.
Agnes sorriu gentilmente.
— A gente sabe. É por isso mesmo que viemos. A gente ouviu “Não é um Convite”.
Maju arregalou os olhos.
— Como assim? Vocês estavam no show?
Antes que Agnes respondesse, Helena falou, meio sem graça:
— Eu postei o vídeo.
Maju virou o rosto devagar para ela.
— Você… postou?
Helena sorri.
Agnes deu um passo à frente.
— Gostaríamos que vocês tocassem para nós.
— Para o Clube Feminista? — Maju perguntou.
— Sim. Queremos transformar um banheiro masculino em feminino. “Não é Convite” seria o hino perfeito do nosso protesto.
Maju hesitou. O sorriso diminuiu um pouco.
— Não é bem um hino… A música fala de coisas que eu vivi.
Agnes não pareceu ofendida. Pegou um panfleto da mochila e entregou a Maju.
— Pensa com carinho. Obrigada.
Maju pegou o papel, meio surpresa. Agnes e as outras garotas saíram da sala.
Helena se aproxima de Maju.
— Viu só? Um show de verdade. Não pode ficar brava comigo.
— Para o Clube Feminista? — Maju repetiu, ainda processando.
— E daí? — Helena perguntou.
— Feministas ficam bravas por qualquer coisinha — respondeu Maju, em tom de brincadeira, tentando aliviar.
Helena riu.
— Mas um show é um show.
Maju olhou para o panfleto mais uma vez… e sorriu.

Enquanto isso, Lila caminhava pelos corredores da escola usando uma peruca vermelha chamativa e óculos escuros enormes, olhando para todos os lados como se estivesse fugindo de um crime.
— É ele? — sussurrou, tensa.
Sara analisou o corredor com calma.
— Não. E, olha… bela peruca. Mas você sabe que não dá pra evitar ele pra sempre.
— Se ela quiser evitar… — falou Joana.
As três seguiram andando. Lila suspirou e tirou os óculos, derrotada.
— Você gosta dele, não gosta? — Sara perguntou.
— Sim — Lila respondeu rápido demais. — Mas agora ele deve achar que eu sou uma perdedora que precisa… fazer aquilo porque não consegue um namorado. Ou pior: que eu sou uma ninfomaníaca pervertida que faz… aquilo na aula de matemática.
Joana fez uma careta.
— Eu sento do seu lado na aula.
Sara revirou os olhos.
— Lila, é só explicar pra ele que você não faz isso.
— Mas ele é do segundo ano! — Lila levou a mão à testa. — E se ele quiser que eu seja uma pervertida? — Lila parou de andar por um segundo, e coloca as mãos na cabeça. — Que desastre…
— Vocês só saíram uma vez — lembrou Joana.
— Todos os grandes romances da história começaram assim — respondeu Lila, abrindo o armário com força demais.
Joana fechou a mochila.
— Vou tentar ir ao banheiro antes da aula. Me desejem sorte.
— Tchau — respondeu Sara.
Joana se afastou. Sara abriu o próprio armário, mas parou ao perceber a expressão pensativa de Lila.
— Você realmente acredita nisso?
Lila olha confusa.
— Nessa história de pervertida? Sei que devem pensar assim... — Lila olha bem no rosto de Sara. — Meu Deus, você faz isso? 
— Shiii! — Sara olhou em volta rapidamente. — Fala mais baixo. E… não toda hora.
Lila levou a mão à boca, chocada.
— Sara!
— Calma — ela riu baixo. — É super normal. Não precisa fazer essa cara. Você só precisa pensar no que vai dizer pro Gui.
Lila abaixou a mão devagar e encarou a amiga.
— E… qual é a sensação?
Sara pensou por um instante, inclinando a cabeça. Então sorriu.

Enquanto isso, Michael estava sentado na sala de aula quando Camila deslizou discretamente um pequeno saquinho com comprimidos pela carteira. Ele guardou sem comentar. Nesse instante, o Professor Marcelo Ribeiro entrou na sala.
— Peter, seu conto ficou ótimo. Adorei as modificações. O site também adorou. Eles vão publicá-lo… e querem fazer um perfil seu.
Michael piscou, surpreso. Um sorriso lento apareceu.
— Sério?
— Sim — confirmou o professor.
— Minha mãe vai gostar muito disso — disse Michael, ainda meio incrédulo.
O professor enfiou a mão no bolso do paletó e tirou um cartão.
— Fiz jornalismo com o Fernando. Ele é excelente.
Michael pegou o cartão com cuidado, como se fosse frágil.
— Ele quer ver como é a vida de um gênio literário? — perguntou Michael, tentando brincar.
O professor sorriu, mas logo ficou mais atento.
— E vai falar sobre o seu conto. — Fez uma pausa. — Sobre o que ele é?
Michael baixou os olhos, pensativo.
— É… sobre o meu pai.
A expressão do professor mudou, ficou séria e respeitosa.
— Se você não quiser, tudo bem. Posso sugerir outro nome.
Michael respirou fundo.
— Não. — levantou o olhar — Eu vou fazer isso.
O professor assentiu, compreensivo, e seguiu em frente pela sala.
Michael voltou a se sentar ao lado de Camila. Pouco depois, Johnny se aproximou, observando-o com atenção.
— E como você vai lidar com isso?
Michael deu um sorriso cansado.
— É engraçado… quando eu estou bem, todo mundo fica preocupado.
— Talvez porque isso seja um sinal de alerta — respondeu Johnny.
Ele então pegou o saquinho de comprimidos da carteira de Michael.
— O que é isso?
Camila arrancou o saquinho da mão dele imediatamente.
— Lorazepam — disse seca.
Johnny franziu a testa.
— Que não foi receitado para você. Remédios para ansiedade podem viciar.
Michael olhou para Camila, pedindo ajuda com o olhar.
— Pode explicar para o loirinho aí que Lorazepam não vicia?
Camila ignorou a provocação e falou direto com Michael.
— Está ajudando?
— Está — respondeu ele, sem hesitar.
Ela então virou para Johnny.
— Então pronto.
Johnny soltou uma risada irônica. Michael percebeu.
— Eu não vou tomar isso pra sempre.
— Por que não? — Camila rebateu. — Você come todos os dias.
— Isso é remédio, não café com leite — Johnny insistiu.
Camila o encarou, séria.
— Cada um tem um jeito de lidar com o medo da morte.
Johnny respirou fundo.
— Você só pode tomar isso por algumas semanas.
Michael engoliu em seco.
— E o que acontece se eu parar?
Camila respondeu rápido demais:
— Você pega fogo. Literalmente.
— Estou falando sério?
Ela se inclinou para perto dele, o tom mudando para algo mais sombrio.
— O Michael simpático que você tem sido vai sumir toda vez que alguém falar… — Ela se aproximou ainda mais e cochichou. — Papai.
Michael desviou o olhar, tenso.
Johnny balançou a cabeça, frustrado e olha para Camila.
— Tomar esses remédios como se fossem água é tão louco quanto você.
Johnny se virou e se afastou.

Helena e Maju entram no Luca’s. Maju segura o cartaz do Clube Feminista com orgulho. Elas avistam Gui e Vitor sentados a uma mesa.
— Oi, pessoal! — disse Maju, animada. — Fechei mais um show!
Ela ergue o cartaz como um troféu.
— Essa é a minha garota — disse Vitor, sorrindo.
Maju e Helena se sentam. Maju se inclina e dá um beijo rápido em Vitor. Ele então repara no cartaz e franze a testa.
— Ué… você virou feminista?
— Credo — murmurou Gui, torcendo o nariz.
Helena virou o rosto devagar para ele, séria.
— Elas apoiam mulheres, seu idiota.
— Às custas dos homens — Vitor rebateu.
— Acham que o mundo seria melhor sem a gente. — Gui completou.
Helena arqueou a sobrancelha.
— Você está falando das feministas ou da menina que ignora suas mensagens?
Gui abriu a boca para responder, mas Maju se adiantou.
— Gente, calma. Feminismo só quer igualdade.
Vitor pegou o cartaz e analisou como se fosse um contrato.
— Tá. Se é igualdade, por que tirar um banheiro nosso? Vocês têm cinco, a gente tem cinco. Se tirarem um nosso, fica seis pra vocês e quatro pra gente.
Maju inclinou a cabeça, pensativa.
— É… assim realmente não parece igualitário.
Helena se inclinou para frente.
— Mas o banheiro do corredor de informática não fica sempre vazio?
Vitor olhou para ela, defensivo.
— Não fica vazio. Ele só é mais… privativo. Eu uso pra...
Vitor olha para Gui.
— Passar um fax — Gui falou.
Vitor sorri.
— Fazer o número dois.
— Largar a bota — disse Gui.
Helena revirou os olhos com força.
— Que nojo. Ok, já entendemos: fazer cocô.
Maju riu.
— Mas não dá pra fazer em qualquer banheiro?
Vitor deu de ombros, meio constrangido.
— Eu fico com vergonha de alguém ouvir.
A paciência de Helena finalmente acabou.
— Ah, fala sério, seu fresco! Nosso banheiro vive lotado.
— Vocês que têm que ser mais eficientes — respondeu Gui, rindo.
— A gente não tem o equipamento pra usar mictório — rebateu Helena.
Vitor então virou para Maju, agora mais sério.
— Olha… eu vou estar na primeira fila de qualquer show seu. Sempre. — Ele apontou para o cartaz. — Mas igualdade é igualdade.
Maju olhou para Vitor, depois para Helena… claramente dividida, sem saber o que responder.
O silêncio que se formou foi mais alto que qualquer piada.

Enquanto isso, em casa, Lila entrou no banheiro e se prepara para um banho. Ela prendeu o cabelo em um coque improvisado, se aproximou do box e parou ao ver o chuveirinho pendurado ao lado. Lila inclinou a cabeça, analisando-o como se fosse um problema de matemática difícil. Franziu a testa e ligou o chuveiro.

Em casa, Michael estava com Fernando. O jornalista folheava algumas anotações, visivelmente animado.
— Ficou muito, muito bom — disse ele. — Desde quando você escreve?
Michael olha para Fernando.
— Desde o pré. Também sei ler e fazer contas.
Fernando sorriu.
— Virou um hábito. Digo criativamente.
Fernando apoiou o celular na bancada, gravando a entrevista.
Michael pensou por um instante.
— Há um mês, mais ou menos. Nunca achei que fosse bom antes do professor Marcelo… é…
— Um mentor faz diferença — completou Fernando com naturalidade. — Me conta mais sobre Tirando as Rodinhas.
Michael pigarreou, procurando as palavras certas.
— É… um conto. Sobre aprender a andar de bicicleta.
— Mais especificamente — Fernando inclinou a cabeça — você aprende com o seu pai, certo?
A palavra pai caiu pesada no ar.
Michael fechou os olhos por um segundo antes de responder.
— Sim. Sim, isso mesmo.
Ele respirou fundo, mas o ar parecia não entrar direito. Fernando não percebeu a mudança e seguiu, empolgado.
— E o personagem principal parece ter uma relação bem complicada com ele.
Michael sentiu as mãos começarem a tremer. O som da voz de Fernando ficou distante, abafado. O peito apertou. A respiração ficou curta, irregular.
Cortes bruscos de pensamento. Memórias demais. Ar de menos.
Minutos depois, Michael estava deitado no chão do quarto, tentando puxar o ar como se tivesse esquecido como se fazia isso. Com os dedos trêmulos, pegou o celular e ligou para Camila.
Ela atendeu quase de imediato.
— Preciso de você — disse ele, a voz fraca.
— Três palavras que toda menina quer ouvir.
— Eu… eu não consigo respirar — falou, a voz falhando.
O humor de Camila sumiu na hora.
— Michael, eu falei pra não parar de tomar o remédio de uma vez. Tome um agora.
— Eu joguei no vaso. Eu sinto… sinto como se meu coração fosse explodir.
Camila respirou fundo do outro lado da linha, firme agora.
— Certo, isso é um ataque de pânico típico. Eu vou te ajudar a sair dele.
Michael fechou os olhos, tentando focar na voz dela.
— Escuta só a minha voz — continuou Camila. — A gente vai fazer isso juntos, passo a passo.
Michael apertou o celular com força, se agarrando àquelas palavras.

No dia seguinte, Lila estava no consultório médico, sentada na maca, enquanto a médica guardava os instrumentos e preenchia algumas anotações.
— Prontinho — disse ela, sorrindo profissionalmente. — Exames concluídos. Você é um exemplo de saúde. Então… nos vemos ano que vem.
Lila abaixou o olhar. Não se levantou.
A médica percebeu na hora e voltou a encará-la com atenção.
— Tem mais alguma coisa?
Lila respirou fundo, juntando coragem.
— Eu não funciono direito.
A médica franziu levemente a testa.
— Certo… acabei de fazer um exame completo. Ao que você está se referindo exatamente?
Lila hesitou, depois apontou discretamente para baixo, morrendo de vergonha.
— À minha… ali.
— À sua vagina? — perguntou a médica, com naturalidade.
Lila assentiu rápido, sem conseguir olhar para ela.
— Você fez algo nela? — a médica continuou.
— Fiz… e nada aconteceu.
A médica apoiou o corpo na cadeira, paciente.
— Ok. Ainda preciso que você seja um pouco mais clara.
— É que… — Lila engoliu em seco. — Eu descobri que uma amiga minha anda… se divertindo sozinha.
— Se masturbando? — perguntou a médica, direta, mas gentil.
— Isso. — Lila respirou fundo. — E eu tentei também. Só que… não funcionou.
A médica assentiu, como se ouvisse isso todos os dias.
— Entendi.
— Então… — Lila se apressou, a voz ficando dramática. — Eu sou anormal, né? Eu sabia.
— Lila você com certeza não é normal.
Lila arregalou os olhos.
— Viu?!
— Porque normal não existe — completou a médica. — As pessoas são diferentes. Cada corpo responde de um jeito, em tempos diferentes.
Lila relaxou um pouco os ombros.
— E… o que eu faço? Fisioterapia? Algum tratamento?
A médica riu de leve.
— Relaxa. Nada disso.
Ela se levantou, pegou alguns panfletos e entregou a Lila.
— Leia isso com calma.
Lila pegou o papel e começou a ler.
— Descobrir o próprio corpo é normal — explicou a médica. — E deve ser algo sem pressão. Não é prova, não é obrigação. E, principalmente, é para ser agradável, ok?
Lila assentiu devagar, ainda lendo.
— Ok.
Ela respirou fundo, um pouco mais tranquila do que quando entrou na sala.

Na escola, Agnes estava na sala, cercada de cartazes, conversando com outra menina.
— Que tal algo como: “A desigualdade precisa acabar” — sugeriu, pensativa. — Simples, mas direto.
Ela se se afasta e, ao se virar, viu Maju entrando na sala com a mochila pendurada em um ombro.
— Maju! Tudo bem? Veio falar sobre o equipamento que você vai precisar pro show?
Maju parou no meio do caminho. Respirou fundo antes de responder.
— Então… na verdade, eu não vou poder fazer o show.
Agnes piscou, surpresa, mas sem drama.
— Ah… que pena.
— É que… — Maju respirou fundo. — Eu não sou feminista. Sem ofensa.
— Nenhuma — respondeu Agnes, com calma. — Mas, só por curiosidade… por que você acha isso?
Maju pensou por um instante.
— Bom, pra começar, eu não sou contra os homens.
Agnes arqueou a sobrancelha.
— E você acha que todas nós odiamos homens?
— Não, mas tirar um dos banheiros dos meninos… isso não me parece justo.
Agnes cruzou os braços, mas manteve o tom tranquilo.
— Me responde uma coisa: você acha que homens e mulheres devem ganhar o mesmo salário quando ocupam o mesmo cargo?
— Claro que sim.
— E que meninos e meninas devem ter o mesmo acesso à educação?
— Isso é óbvio.
— Certo — disse Agnes, dando um passo à frente. — Mas a escola ignora uma coisa básica: meninos e meninas usam o banheiro de formas diferentes.
Ela inclinou a cabeça.
— Você já ficou presa numa fila enorme no intervalo?
Maju suspirou.
— Quem nunca?
— Pois é. Os meninos não ficam. E com intervalos de só sete minutos, muitas meninas se atrasam para aula, perdem conteúdo… e ainda levam detenção.
Maju franziu a testa.
— É… eu nunca tinha pensado nisso desse jeito.
— E você não acha que isso afeta a educação das meninas?
— Afeta, sim.
Agnes sorriu, daquele jeito de quem não quer vencer uma discussão, só provocar um pensamento.
— Então eu tenho uma novidade pra você, Maju. Você é feminista.
Maju ficou em silêncio por um instante. Depois, soltou uma risada curta, meio incrédula… mas não negou.

Camila e Michael pararam perto do vestiário feminino. Esperaram em silêncio até o último grupo de meninas sair. Quando o corredor ficou vazio, Camila entrou primeiro.
— A gente vai achar algum remédio aqui, né? — Michael perguntou em voz baixa, entrando em seguida.
Camila já vasculhava as mochilas.
— Garotas do primeiro ano na educação física? Tem algum grupo com mais ansiedade.
Michael se abaixou e começou a olhar as bolsas, claramente nervoso.
— Como você sabe qual procurar?
— Intuição — respondeu Camila. — Mochilas cheias demais. Tudo jogado. Duas alças tortas… — Ela parou e olhou ao redor. — Cadê as coisas da Joana?
Michael congelou por um segundo.
— Não acredito que você esqueceu seus próprios remédios.
Camila levantou o rosto devagar, encarando-o.
— Não acredito que você jogou no vaso os que eu te dei. — suspirou. — Estamos quites.
Michael passou a mão no cabelo, andando de um lado pro outro.
— E se a gente não achar nada? Eu perdi completamente o controle quando falaram do meu pai. Vou ter que ver ele no jogo do meu irmão.
— Você vai ficar bem.
Michael não parecia convencido. Continuou procurando até abrir uma mochila específica. Seus olhos se iluminaram ao ver um frasco.
— Eu sei que vou ficar bem… por causa disso.
Camila observou o frasco com atenção.
— Vai resolver, mais a dosagem é maior, vai fazer efeito mais rápido.
Michael abriu o frasco com pressa, respirando fundo, tentando se acalmar.
— Me parece bom.
Ele pega algumas pílulas coloca no bolso e sai do vestiário com Camila.

Mais tarde, na aula de mandarim, Lila estava sentada no fundo da sala, lendo escondida os panfletos que a médica tinha lhe dado. Ela passava os olhos rápido pelas frases, concentrada demais para perceber o resto.
À frente da sala, a professora Liu escrevia no quadro.
— Vocês podem usar esse padrão para indicar um verbo ou uma ação que está acontecendo agora — explicou, batendo levemente o giz no quadro.
Ela se virou para a turma e disse em mandarim:
他们正在唱歌。
Tāmen zhèngzài chànggē.
— Sara?
— “Eles estão cantando” — respondeu Sara, confiante.
— Muito bem — disse a professora, satisfeita. Ela percorreu a sala com o olhar. — Que tal outra?
Ela falou novamente:
他们正在笑。
Tāmen zhèngzài xiào.
— Joana?
Joana pensou por um instante, inclinando a cabeça.
— Eles estão… rindo?
A professora sorriu.
— Pegadinha. Essa frase também pode significar “Eles estão cantando”, dependendo do contexto. Vamos a outra.
Ela então disse:
她正在看,可是没有在看。
Tā zhèngzài kàn, kěshì méiyǒu zài kàn.
— Lila?
Lila deu um pequeno pulo na cadeira. Parou de ler o panfleto imediatamente e ergueu o olhar, assustada.
— Hã?
A professora então traduziu:
— Significa algo como: “Ela está lendo, mas não está lendo” — explicou a própria professora. — Quer dividir com a turma o que está lendo?
— Não, não precisa — respondeu Lila rápido demais, sorrindo de nervoso.
A professora cruzou os braços e disse em mandarim, com calma firme:
我坚持。
Wǒ jiānchí.
Ela então traduziu:
— Isso quer dizer: eu insisto.
Lila fechou os olhos por um segundo, suspirou… e se levantou devagar.
— Vai logo — disse a professora, sem dureza, mas sem recuar.
Lila abriu o panfleto, a voz trêmula no começo.
— “Masturbação é o estímulo ou manipulação das genitais…”
O silêncio durou exatamente meio segundo.
Depois, a sala explodiu em risadas.
A professora Liu arregalou os olhos, surpresa de verdade. Lila sentiu o rosto queimar e se sentou imediatamente, desejando desaparecer.
— Chega — disse a professora, batendo palmas uma vez. — Silêncio.
As risadas diminuíram aos poucos.
— Isso não é motivo para vergonha — continuou, agora mais séria. Ela olhou diretamente para Lila. O constrangimento vem do tabu, não do conteúdo.
A sala ficou quieta.
A professora respirou fundo.
— Desculpe, Lila — disse, sincera.
Lila assentiu, ainda vermelha, escondendo o panfleto dentro do livro.

O Clube Feminista estava em frente a um dos banheiros masculinos, cartazes erguidos como um pequeno muro de protesto. As frases, escritas em tinta grossa, chamavam atenção de quem passava pelo corredor.
Vitor se aproximou, diminuiu o passo e franziu a testa. Olhou para a placa do banheiro, depois para as garotas, como se estivesse tentando entender se aquilo era uma piada. Tentou passar por entre elas.
Agnes deu um passo à frente, bloqueando a entrada.
— Até segunda ordem, esse banheiro está “quebrando”.
Ela fez aspas com os dedos e abriu um sorriso calmo demais para quem estava claramente provocando.
Vitor soltou uma risada curta, nervosa.
— Isso é ridículo.
Agnes apenas deu de ombros.
Foi então que Vitor percebeu Maju agachada no chão, conectando cabos ao amplificador. A expressão dele mudou, alívio misturado com esperança.
— Maju. Pode dizer pra ela que eu preciso usar o banheiro?
Maju se levantou devagar. A camisa do Clube Feminista ficou visível. Vitor arregalou levemente os olhos.
— Você também, Maju?
Ela o encarou por um segundo, séria, antes de suspirar.
— Vitor… tem quatro banheiros masculinos funcionando perfeitamente.
Ele desviou o olhar.
— Mas eu não consigo…
Maju se aproximou um pouco mais, sem agressividade, mas firme.
— As garotas lidam com isso todos os dias. Agora é sua vez. Desculpa.
Ela se virou antes que ele respondesse, deixando o silêncio pesar sobre ele.
Maju caminhou até Helena, que ajeitava um sampler improvisado, não havia espaço para uma bateria no corredor apertado da escola.
Helena bateu o pé no ritmo, testando o som.
Maju pegou o microfone.
— Pessoal, vamos começar a festa.
A música explodiu no corredor, chamando olhares, celulares e cochichos.
— Assinem nosso abaixo-assinado! — Maju falou.
Maju se inclinou para o microfone e começou a cantar “Não é Convite”, enquanto Vitor permanecia parado, cartaz na frente, música alta atrás e uma sensação incômoda crescendo no peito.

Enquanto isso, Michael estava na escola de Arthur, assistindo ao jogo de futsal. Afundado na arquibancada, piscava devagar, lutando para manter os olhos abertos. A cabeça pendia levemente para o lado.
— O Arthur é muito bom — comentou seu pai, acompanhando a bola com atenção.
— Sério? — Cristina respondeu, sem tirar os olhos da quadra. — Não entendo nada dessas regras… só não quero que ele se machuque.
Michael soltou uma risada baixa.
— Claro que ele é bom. Ele é um Laursem. Não é, pai? — disse, esticando o braço e apoiando-o nos ombros do pai.
O pai riu, orgulhoso.
— Com certeza. Somos vencedores.
Michael acompanhou o sorriso, batendo palmas fora de ritmo. Por um instante, pareceu genuinamente empolgado.
— Vamos lá, Arthur! Vamos lá, Arthur!
Ele se levantou de repente, quase tropeçando no degrau da arquibancada.
— Vamos lá, Arthur! Vamos lá, Arthur!
Algumas pessoas ao redor se viraram. Arthur, em quadra, lançou um olhar rápido para a arquibancada e franziu a testa.
— Ei! — gritou, irritado. — O que você está fazendo? Está atrapalhando o jogo!
Michael não pareceu ouvir. Continuou avançando em direção à quadra, ainda aplaudindo.
— Vamos lá, Arthur, vamos lá…
Johnny se levantou num pulo e segurou Michael pelo braço antes que ele ultrapassasse a área permitida.
— Ei, cara — disse em voz baixa, firme. — Você tá estranho. Vem, senta.
Michael resistiu por um segundo, confuso, mas acabou cedendo. Os dois voltaram para a arquibancada.
O pai de Michael observava tudo agora, o sorriso já apagado.
— Michael… está tudo bem?
Michael inclinou a cabeça para trás, respirando fundo, e sorriu de novo.
— Sim. Estou adorando o momento em família.
Cristina não respondeu. O olhar dela ficou atento. Após alguns segundos, ela se levantou e foi até Johnny, que ainda observava Michael com preocupação.
— O que está acontecendo?
— Foi um dia longo — Johnny hesitou. — Tivemos uma prova.
Cristina cruzou os braços.
— Eu te conheço desde que usava fraldas, Johnny. Não minta para pra mim.
Ele suspirou, vencido.
— Tá bom… ele está usando drogas, pílulas. Esta dopado.
Cristina fechou os olhos por um instante, como se juntasse as peças. Em seguida, voltou até Michael e tocou de leve em seu braço.
— Vamos tomar um ar.
Michael se levantou sem questionar. Eles saíram do ginásio, deixando para trás o barulho da torcida e um silêncio pesado entre eles.

No quarto de Michael, Cristina puxava as gavetas com força, uma após a outra. Roupas eram empurradas para o lado, papéis caíam no chão.
— Onde elas estão?
Michael permanecia sentado na cama, olhando para um ponto qualquer da parede. Não respondeu.
Cristina respirou fundo, tentando se controlar, mas a voz saiu carregada.
— Você estava indo tão bem. Ia ter o seu conto publicado.
Michael soltou uma risada curta.
— Estou tentando ser o filho que você quer que eu seja.
Cristina se virou rápido demais, como se a frase tivesse sido um empurrão.
— Não está, não. — respondeu, dura. — Você ficou drogado na escola do seu irmão.
Michael levantou o rosto e sorriu com sarcasmo.
Cristina se aproximou dele, ficando de frente.
— Acha isso engraçado?
Ele deu de ombros.
— Não. Você tem razão. — fez uma pausa, a ironia escorrendo da voz. — Isso é horrível. Eu sou um filho horrível.
Cristina fechou os punhos, lutando para não gritar.
— Esqueceu de olhar a estante — disse Michael.
Ela hesitou por um segundo, como se percebesse o jogo, mas acabou se afastando. Foi até a estante e começou a mexer nos livros, afastando objetos com pressa, os movimentos cada vez mais tensos.
Michael observava em silêncio.

Mais tarde, na casa de Lila, Sara está sentada em uma cadeira, deslizando o dedo pelo tablet, concentrada na leitura. A luz da tela ilumina seu rosto.
Lila entra no quarto vestida com seu pijama.
— Estou há cinco horas sem olhar nenhuma rede social — ela falou, sentando-se na cama e olhando para Sara. — As pessoas ainda estão falando de mim? Eu não tenho coragem de ver.
Sara faz uma careta leve, sem tirar os olhos da tela.
— Eles não estão quietas sobre você.
Lila solta um suspiro frustrado e bate as mãos no colchão.
— Ótimo… perfeito. Era exatamente o que eu queria ouvir.
Sara olha para Lila.
— Por que estava lendo aquilo?
— Por que nunca falamos sobre isso.
— É particular.
Lila se ajeita na cama.
— Meninos falam disso o tempo todo. Berinjela, punho, gotas de chuva. Nem temos emojis para isso.
— Então o que dizia o folheto? — Sara perguntou.
Lila se inclina para pegar o folheto em cima da mesa, mas, antes que consiga, o tablet toca nas mãos de Sara. As duas olham para a tela.
— É o Gui — Sara comentou, erguendo as sobrancelhas. — Hora de encarar a verdade. — Ela entrega o tablet para Lila com um sorriso e se levanta. — Boa noite.
Lila solta um suspiro nervoso enquanto aceita a chamada de vídeo.
— Se você parar de falar comigo por causa disso, você é um idiota — ela dispara, antes mesmo de ele dizer oi.
Do outro lado, Gui arregala os olhos, pego de surpresa.
— Ei, calma. Eu não quero parar de falar com você. Por que você pensou isso?
— Não sei, você riu de mim.
Gui dá um sorriso sem graça.
— Todo mundo riu… Foi engraçado
O rosto de Lila fecha na hora. Ela abaixa a cabeça, claramente chateada.
Gui percebe e muda o tom.
— Desculpe. Podemos esquecer isso e almoçar amanhã? Posso chegar lá antes e pegar uns cookies de chocolate para você.
Lila sorri.
— Eu gosto de cookies.
— Vou considerar isso um sim. E mas uma pergunta. Só de curiosidade...
— Não é da sua conta, mocinho — Lila corta rapidamente, apontando para a tela.
Gui levanta as mãos, rendido, ainda sorrindo.
— Está bem. Nos vemos amanhã.
Lila encerra a chamada e coloca o tablet na mesa de cabeceira. Ela apaga o abajur… fica alguns segundos no escuro… e liga a luz de novo.
Em silêncio, pega o panfleto que a médica havia entregado mais cedo.
Ela hesita por um instante, respirando fundo, e começa a ler.

No dia seguinte, na sala de aula de literatura, o professor Marcelo caminhava lentamente entre as carteiras, com um sorriso satisfeito.
— A leitura obrigatória do fim de semana é o perfil do colega de vocês: o gigante literário Michael Laursem.
Michael sorri.
O sinal tocou logo em seguida, cortando qualquer reação maior.
Michael colocou a mochila no ombro e se levantou. Johnny se aproximou, hesitante, como quem pisa em terreno frágil.
— Ei… Não ficou tão ruim assim. Na verdade, ficou muito bom. Você escreve muito bem.
Michael parou por um instante.
— Sério?
— Sério. Seus pais vão ficar impressionados.
O sorriso de Michael se desfez quase imediatamente.
— E daí?
Ele pegou a mão de Camila e começou a se afastar com ela. Johnny deu um passo à frente e pousou a mão no peito dele, impedindo-o.
— Olha… me desculpa por ter contado pra sua mãe. Eu fiquei preocupado.
Michael congelou. Soltou Camila devagar.
— Não precisava. Ela revirou meu quarto inteiro atrás de drogas.
Johnny engoliu em seco.
— Ela achou alguma coisa?
— Não. E nem vai. Ela não sabe onde procurar.
Ele mexeu numa caneta, como se fosse apenas um tique nervoso tirou duas pílulas de dentro dela e entregou uma para Camila.
— Onde você conseguiu isso? — Johnny perguntou, alarmado.
Michael olhou para Camila antes de responder, como se buscasse confirmação ali.
— Da única pessoa que realmente se importa comigo.
Camila sorriu de leve. Ela bebeu um pouco de água de uma garrafa, e entregou a garrafa de água para Michael.
Johnny balançou a cabeça, frustrado.
— Você não precisa fazer isso, cara. Se for ansiedade de verdade, tem médico, tratamento…
Michael respirou fundo, cansado.
— Não, Johnny. Eu cansei de tentar ser o bom filho.
Ele colocou a Pílula na boca e tomou um pouco de água, evitando o olhar do amigo.
— Quando você aceita que sempre vai ser uma decepção… — fez uma pausa — fica impossível decepcionar alguém.
Johnny não respondeu. Não havia mais espaço para argumentos.
Michael saiu da sala ao lado de Camila.

Maju se aproximou de Agnes, ainda com o celular na mão.
— Oi… recebi sua mensagem. Por que esse sorriso todo?
Agnes tentou disfarçar, mas não conseguiu. Os olhos brilhavam.
— Bem… graças em parte a você, conseguimos duzentas assinatura e o apoio do conselho de pais.
Maju arregalou os olhos por um segundo, depois sorriu largo.
— Então… a gente conseguiu?
Agnes levantou a placa de banheiro feminino como se fosse um troféu.
— Exatamente. — inclinou o corpo para a frente, provocando. — Quer fazer as honras? Ou isso vai chatear seu namorado?
Maju riu, pegando a placa com naturalidade.
— Não, ele tá tranquilo. — elas começam a andar em direção ao banheiro. — Expliquei pra ele que igualdade nem sempre quer dizer que tudo tem que ser igual.
Ela parou em frente à porta e completou:
— Agora ele só vai ter que aprender a não comer dois x-burgueres no almoço.
As meninas ao redor riram, o clima leve, quase comemorativo. Elas se posicionaram diante do banheiro.
Maju virou-se para Agnes e estendeu a placa.
— Vai lá. A ideia foi sua.
Agnes hesitou por um segundo. Respirou fundo, como se sentisse o peso simbólico daquele gesto. Então sorriu, foi até a porta e colou a placa com cuidado, alisando as bordas.
Todos aplaudem.
Agnes voltou até Maju, ainda meio sem acreditar.
— E agora? — Maju perguntou, com um sorriso aberto.
— Como assim?
Maju cruzou os braços, animada.
— Está brincando? Isso foi incrível. — deu um passo à frente. — Vou entrar pro clube.
Agnes piscou, surpresa, e depois sorriu um sorriso orgulhoso e sincero.
— Bom… Nesse caso… seja bem-vinda.

Sinopse do Próximo Capítulo – Perto de Mim
Lory fica angustiada ao descobrir que Paola e Dani se tornaram parceiros em um projeto científico. Ana e Peter ficam responsáveis pela peça da escola. Mais, quando o lindo e popular garoto começa a flertar com ela, Ana mantém distância e diz que nunca cairia em suas investidas. Ou será que cairia? Bella se vê dividida entre seus pais e sua irmã Lara.
Pin It
Atualizado em: Seg 27 Abr 2026

Curtir no Facebook

Autores.com.br
Curitiba - PR

webmaster@number1.com.br