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Escola Grasso 309 – Não é Convite

Maju e sua banda estão tocando Tudo Em Mim, no Boston.

“No palco a luz me guia, a multidão me chama
Mas meu olhar te procura, acende essa chama
Cada nota que eu canto, é um grito do meu peito
Por esse amor que me consome, sem ter jeito.
(Refrão)
És a melodia que embala meu sonhar
A força que me move, me faz vibrar
Paixão que transcende, que não tem mais fim
Você é tudo que eu quero, tudo em mim”.

A música termina. O dono do bar se aproxima do palco.
— Legal… — ele diz, apontando para Rafa. — Foi você que compôs?
— Não. Foi ela — ele respondeu, apontando para Maju.
O homem olha para Maju com mais atenção agora.
— A música é boa. — pausa curta. — Mas aqui ninguém sobrevive com uma música só.
Maju endireita os ombros.
— Temos meia hora de originais e alguns covers.
Ele arqueia uma sobrancelha.
— A outra banda de meninas cancelou. — dá de ombros. — Vocês entram no lugar delas. Dez e meia.
Maju pisca.
— Da noite?
— É tarde pra você? — ele perguntou, já meio impaciente.
Maju sente o estômago apertar, mas sustenta o olhar.
— Não. Não é.
— Ótimo. E tentem se vestir melhor. Me ajuda a vender bebida. Se forem bem, a gente conversa sobre outros shows.
Ele se afasta.
Maju solta o ar devagar. Olha para Helena e Rafa.
— Certo… — ela falou, tentando soar calma. — Precisamos comprar roupas.
— Pra um cara que fala “banda de meninas”? — Helena revira os olhos. — Não.
— E daí se ele acha que somos mulherzinhas? — Maju rebateu.
Rafa abre os braços.
— Ah, então eu sou mulherzinha?
Maju não se aguenta e sorri.
— Gente… — a voz dela falha de empolgação. — A gente fechou nosso primeiro show.
Helena e Rafa sorriem
— Resolvido. Vamos fazer compras — ele falou.
Helena faz careta.
— Também gosto de ficar bonito — Rafa completou.
Helena ri, balançando a cabeça.
Mais tarde na casa de Maju, ela está com Vitor.
— Precisa de um roadie? — Vitor perguntou.
Maju o abraça, pulando.
— Ou um groupie? Posso ser os dois.
Eliane entra na sala.
— Posso ir? Ou vai ser mico levar sua mãe?
Maju se afasta de Vitor.
— É um lugar chamado Boston. — pausa rápida. — E você podia adiantar minha mesada… para comprar roupas.
— Boston? — Eliane franze a testa. — Isso não é um bar?
Maju olha para Vitor, pedindo ajuda.
— É… mas é tranquilo — ele respondeu rápido. — Tem um palco lá e bandas toca toda hora.
Eliane suspira.
— Desculpa, mas não.
Ela se vira. Maju sente o peito apertar.
— Mãe, eu trabalhei a vida inteira por uma chance dessas.
Eliane para. Não se vira ainda.
— Não vou deixar minha filha de dezesseis anos num bar cheio de bêbados no meio da semana.
— Ed Sheeran tocava em bar aos quatorze — Vitor insistiu.
Eliane se vira e olha para ele.
— Ed Sheeran é homem.
— E os direitos iguais? — Maju perguntou, a voz tremendo.
— Não quando envolve sua segurança.
Ela começa a andar. Maju corre atrás.
— Se eu desistir, ele vai achar que eu sou uma garotinha idiota!
Eliane hesita.
— Idiota não... Mas você é uma garotinha — Eliana falou.
Ela sai.
Maju fica parada, braços cruzados, tentando não chorar. Vitor se aproxima devagar.
— Não dá pra dizer que você está doente?
Maju levanta o olhar, decidido.
— Prefiro morrer a perder esse show.

Personagens Principais
Ellie Goes
Maju Braga
Vitor Ramos
Adryan Gomes
Carol Novak
Nicole Zangirolami
Peter Moretti
Zara Fernandes
Tom Prado
Lory Brown
Dani Pereira
Di Katsutani
Helena Moura
Rafa Costa
Gui Silva
Gustavo Assunção
Ana Castro
Paola Muniz
Nina Lacerda
Lila Fontán
Joana Hart
Sara Laursem
Agnes Montenegro
Camila Jung
Michael Laursem
Johnny Garcia
Michelle Boaventura
Lucas Montenegro
Lara Carvalho
Bella Carvalho

No dia seguinte na escola Ana e Lory conversam.
— Isso não faz sentido nenhum. O Dani é louco por você. Ele é praticamente um stalker — Ana falou.
Lory revira os olhos.
— Olha, eu preciso ir. Tenho que ir para a aula.
— Espera. — Ana segura o braço dela, de leve. — Me conta o que aconteceu naquela noite.
Lory suspira, impaciente.
— Pra quê?
— Pra eu te ajudar a entender. Porque isso não bate.
— O que aconteceu foi que a gente terminou. Ele não quis mais ser meu namorado. Fim.
— Não. — Ana balança a cabeça. — Isso não é fim.
— É sim.
— Não faz sentido, Lory. Ele planejou uma noite inteira. Jantar, roda-gigante… isso não é coisa de quem vai terminar. Ele vai se mudar?
— Não.
— Ele… tentou alguma coisa? — Ana hesita. — Tipo, ele queria…
Lory finalmente olha pra ela, tensa.
— Não, Ana. Meu Deus.
— Então tem outra pessoa?
— O quê? Não!
— Tem sim. É isso, né?
— Não. — Lory dá um passo pra trás. — Eu preciso ir.
— Ele acha que pode arrumar alguém melhor do que você?
Lory engole em seco.
— Tchau, Ana.
Ela se vira rápido e sai, sem olhar pra trás.
Ana fica parada, olhando a porta fechada, com a certeza incômoda de que não ouviu nem metade da verdade.

Na escola, Joana sai da sala com a prova de biologia ainda na mão. Gui corre pelo corredor e a alcança.
— Quanto você tirou? — ele perguntou, já puxando a prova dela. — Ele arregala os olhos. — O quê? Noventa e três? A gente precisa se ver mais.
— Se eu te ajudar, vou ficar sem tempo pra estudar — Joana respondeu, meio em tom de brincadeira.
— Eu tirei oitenta e nove, não preciso de ajuda. Estava falando de um filme. Tem um que eu quero ver no fim de semana. Vamos juntos?
Joana sente o rosto esquentar.
— Nossa… é… posso confirmar depois?
— Claro. Me avisa.
Gui se afasta. Joana ainda está parada quando Sara e Lila surgem, animadas.
— Ele te convidou pra sair! — Sara perguntou, sem conseguir esconder o sorriso.
— Então vamos comprar roupas novas para seu encontro — Lila falou.
— Ela já tem roupas ótimas pra um encontro — Sara rebateu.
— Ele não falou em encontro… — Joana hesita. — Pode ser só como amigos, né?
Sara cruza os braços.
— Joana, o Gui flerta com você.
— Ele flerta com todo mundo — Joana respondeu rápido demais.
— Ela tem razão — Lila falou, já pegando o celular de Joana. — Vamos ver sobre o que vocês conversam.
Lila lê em voz alta:
— “Você sabia que existe uma espécie de água-viva que vive pra sempre?” — ela faz uma careta. — Isso é algum código?
— Não. — Joana ri. — Ele curte biologia marinha.
— Muito nerd. — Lila conclui. — Definitivamente não é um encontro.
Ela continua rolando a conversa.
— Por que vocês ficam dizendo “vou tatuzar”? — Lila perguntou.
— Tatus dormem dezenove horas por dia — Joana explica.
Lila e Sara se entreolham, confusas.
— É o nosso ritual antes de dormir.
— Vocês têm um “boa noite” próprio? — Lila sorri. — Que fofo.
— Vocês fazem isso sempre? — Sara perguntou, mais séria.
— Quase toda noite — Joana respondeu.
Sara pensa por um instante.
— Talvez ele realmente goste de você.
Joana para de rir.
— Então… é um encontro?
— O Gui é um gato. Por que você não tá animada? — Lila perguntou.
Joana suspira.
— Porque eu só posso namorar depois que terminar a escola.
As duas ficam em silêncio.
— E se eu fizer supletivo? — Joana perguntou, meio brincando… meio séria demais.
Sara e Lila se entreolham, percebendo que agora a coisa ficou real.

Na hora do almoço, Lory está sentada com Nina e Paola.
— Então… como você está? — Nina perguntou, observando.
— Eu… estou bem. — Lory respondeu.
Nina inclina a cabeça.
— Como você está de verdade?
Lory dá de ombros.
— A vida continua, né?
Paola troca um olhar com Nina antes de falar.
— Eu vi o Dani hoje na aula de matemática. Fiquei na dúvida se te contava.
Lory levanta os olhos.
— Por quê?
— Porque… não sabia se você ia querer saber.
— Tudo bem. — Lory força um sorriso. — Ele falou alguma coisa?
— Não. — Paola faz uma careta. — Fingiu que nem me viu quando dei tchau.
Lory abaixa o olhar para o prato.
— Lory… — Nina se inclina sobre a mesa. — Você precisa ir na minha festa. Se divertir. Esquecer esse idiota.
— É verdade — Paola concorda. — Nem que seja pra rir da gente.
Lory respira fundo.
— Vocês têm razão. — ela falou, tentando soar mais firme do que se sente. — Eu vou na festa. Vou deixar o Dani pra lá.

Mais tarde, no Boston, uma banda termina uma música enquanto Rafa e Helena esperam perto do palco. O dono do bar se aproxima, impaciente.
— E aí? Ela vem ou não? — ele perguntou, olhando ao redor.
— Já está chegando — Helena respondeu, firme demais pra quem está começando a duvidar.
O dono do bar confere o relógio, faz uma careta e se afasta sem dizer nada.
Helena cruza os braços e olha para Rafa.
— Espero.
A banda encerra a apresentação sob alguns aplausos. Nesse momento, Maju surge.
— Gente, cheguei!
Vitor vem logo atrás, carregando um amplificador com dificuldade.
— Pode levar lá pro palco, por favor — Maju falou, já andando.
Vitor assente e sai.
— A gente achou que você não vinha mais — Rafa comentou, meio aliviado.
— Meus pais demoraram pra dormir. Mas eu cheguei. Vamos lá.
Eles sobem ao palco. Maju se agacha para ajustar os pedais, concentrada. Um homem se aproxima e se agacha ao lado dela.
— Precisa de ajuda? — ele perguntou, já estendendo a mão.
— Não. — Maju respondeu sem olhar. — Eu sei montar meu equipamento, obrigada.
— É que eu já tive esses pedais… — ele insiste. — Você conecta os dois cabos P10 perto do XLR...
— Eu sei. — Maju corta, agora encarando-o.
— Eu só tô tentando te mostrar.
— Ela disse que sabe, cara — Helena intervém, seca.
O homem se levanta, rindo de lado.
— Calma aí, princesa gótica. — ele disse. — Só tava tentando ajudar a loirinha.
Ele começa a se afastar.
Maju se levanta num pulo.
— Loirinha?
Rafa e Helena seguram Maju pelos braços antes que ela avance.
— Calma, Maju. — Rafa fala baixo. — Deixa esse idiota pra lá.
— Ele me tratou como se eu fosse uma idiota!
— Eu sei — Helena falou , ainda segurando-a. — Mas não dá esse gosto pra ele.
Rafa se coloca à frente dela.
— A gente pode focar no show agora?
Maju fecha os olhos por um segundo, respira fundo. Quando abre, o rosto ainda está tenso, mas controlado.
— Tá.
Ela se solta devagar, se agacha novamente e volta a ajustar os pedais. As mãos ainda tremem um pouco, mas o olhar agora está decidido.
O show vai começar.

Na casa de Joana, seus pais assistem tv. Joana estuda numa mesa próxima, cercada de livros e anotações.
— A IA já tá fazendo tudo isso? O futuro é aterrorizante — disse o pai de Joana.
— Fala mais baixo, querido. A Joana tá estudando.
O pai sorri, pega o controle e abaixa um pouco o volume.
A mãe então olha para Joana.
— Sinceramente, Joana… quando foi a última vez que você dormiu direito?
— O trabalho é para amanhã. — Joana respondeu sem levantar a cabeça. — “Treine duro, trabalhe mais duro ainda”, não é?
— E não se esqueça da diversão — a mãe completou
Joana gira a cadeira para encará-los.
— Falando nisso… li um estudo dizendo que a gente absorve qualidades das pessoas com quem convive.
O pai arqueia a sobrancelha.
— Está precisando de alguém para estudar com você?
— Meu par de laboratório me chamou pra ir ao cinema. — Joana sorri de canto. — E como meu par é muito inteligente, achei que sair com meu par podia aumentar minha inteligência.
O pai de Joana olha para a esposa.
— Alguém está se esforçando pra não usar pronomes.
— Seu par é um menino? — sua mãe perguntou.
— Vocês ainda ligam pra gênero?
— Joana… você conhece as regras — disse a mãe, séria.
— Minhas amigas saem com meninos.
— Garotas que saem em encontros têm mais chance de transar — disse o pai.
— Eu não — Joana respondeu rápido.
— Você acha isso agora — sua mãe falou, suspirando. — Mas eu vejo meninas da sua idade toda hora no hospital, grávidas.
Joana se inclina pra frente, argumentativa.
— Sair com o Gui pode melhorar minhas notas. Notas melhores, faculdade melhor.
A mãe estreita os olhos.
— Então ele se chama Gui?
— Ele é fofo, engraçado e uma boa influência.
— Se é tão boa influência assim, a gente devia conhecê-lo — a mãe conclui.
— Hã? — Joana pisca. — Precisa mesmo?
O pai dá um sorriso.
— Quer ir ao encontro ou não?
Joana suspira.

De volta ao bar Maju apresenta a banda.
— Eu sou Maju Braga, eles são Helena e Rafa.
Vitor aplaude e grita animado.
— Vai Maju!
Zara chega em seguida e senta ao lado dele
Maju começa a cantar a música “Entre o Ontem e Voce”

"A gente briga por nada, ri pra disfarçar
Diz que é só fase, mas volta a me ligar
Te vejo online, finjo não ligar
Mas toda música me faz lembrar
Refrão
Entre o ontem e você, eu fico sem chão
Prometo ir embora, mas volto então
Se isso não é amor, diz o que é então
Você complica tudo… e é tudo em mim"...

No meio da apresentação, enquanto a banda toca, uma voz alta corta o som da música.
— Sim, eu consegui abrir a conta…
Maju aperta os dedos no microfone, tenta ignorar.
— Sim, com limite alto — o cara continua.
Helena olha de relance para Maju, tensa.
— Você pode desligar o celular, por favor? — Maju pediu ao microfone.
Helena se inclina, sem parar de tocar.
— Maju, foco.
O homem continua falando.
— Vou pedir um cartão de crédito agora.
O sorriso de Maju desaparece. Ela respira fundo, dá dois passos para trás… e então sai do palco.
Rafa diminui o volume da guitarra e olha para Helena.
Maju se aproxima do homem.
— Você pode ir lá para o fundo?
Ele cobre o microfone do celular com a mão e a encara de cima a baixo.
— Eu fico onde eu quiser, vadia.
Por um segundo, tudo fica em silêncio para Maju. O bar, a música, o público somem.
Ela estende a mão, arranca o celular dele e, sem dizer uma palavra, joga o aparelho dentro do balde de gelo ao lado do balcão.
O homem grita. Algumas pessoas aplaudem, outras arregalam os olhos.
Maju volta para o palco com o coração disparado. Pega o microfone de novo.

No dia seguinte, Helena e Zara estão sentadas no Luca’s. Copos na mesa, barulho de gente conversando ao fundo.
— A gente não toca mais naquele bar. — Helena falou.
Zara olha pra ela.
— A Maju não podia ter se segurado até o refrão?
Helena solta uma risada curta.

Nesse momento, a porta do Luca’s se abre. Lory entra com Nina, Paola e Ana, ainda falando.
— Mas, se serve de consolo… ele parecia bem triste hoje.
Lory para por um segundo.
— Eu não quero que ele fique triste. — ela respondeu, mais baixo do que gostaria.
Nina observa o rosto dela.
— Lory, você tem certeza de que quer sair hoje à noite?
Lory cruza os braços.
— Por que todo mundo fica me perguntando isso?
— Porque você acabou de terminar um namoro. Eu ficaria em casa, ouvindo música triste, comendo chocolate e tomando sorvete.
— Não. Eu não vou ficar em casa. A gente vai pra uma festa. Vai ser ótimo.
Paola sorri, animada.
— Eu concordo com você. Se o Dani quis terminar, por qualquer motivo que seja, quem está perdendo é ele. Você tem mais é que sair e se divertir. 
Lory respira fundo, assentindo.
Ana observa em silêncio, percebendo que aquela empolgação ainda é frágil.

Joana, Sara e Lila estão sentadas na aula de mandarim.
— Eu não posso apresentar o Gui para meus pais — Joana falou, em voz baixa, inquieta.
Sara levanta a cabeça na hora.
— Por quê ele é traficante?
— Ex-traficante — Lila corrigiu. — Ele saiu da gangue.
— Mas ele foi esfaqueado — disse Sara.
— Foi só uma vez — Lila respondeu, dando de ombros.
— Que a gente saiba — Sara completou.
Joana passa a mão no rosto.
— E se acontecer alguma coisa no nosso encontro?
— Isso é passado. Qualquer garota sairia com o Gui. Ele escolheu você.
Joana olha para Lila, desconfiada.
— Define “sair”.
Antes que Lila responda, uma sombra cobre a mesa. A professora Liu está ali, impassível.
— É algo que nunca será perguntado nesta matéria — ela falou, em tom perfeitamente calmo.
Joana endireita a postura.
— Desculpa, professora Liu.
— Não se desculpe. Não em português. — a professora respondeu.

Enquanto isso, Maju caminha pelo corredor da escola com Zara e Helena. O barulho dos armários abrindo e fechando ecoa ao redor.
— Se eu der um celular novo para o cara… — Maju disse, hesitante — talvez deixem a gente tocar no Boston de novo.
Helena olha para ela.
— Se você se desculpar por ter se defendido, você dá permissão pra te tratarem mal.
Zara cruza os braços.
— Ninguém mandou ela jogar o celular na água.
Helena vira para Zara, indignada.
— A Maju foi chamada de vadia. E ninguém liga pra isso?
Maju suspira, cansada.
— Eu só quero tocar.
Zara inclina a cabeça, analisando.
— Para tocar, você precisa ser boazinha. Principalmente com os homens que controlam a indústria. Sabe por que tem tão poucas bandas de mulheres?
— Porque ninguém dá chance — Maju respondeu quase no automático.
— Porque é mais difícil pra elas. No palco, tem que ser durona. — Zara rebateu.
— A Maju aguenta — Helena diz firme.
Zara solta um sorriso irônico.
— Aguenta? Ontem ela se chateou bem rápido.
— O idiota mereceu — Maju respondeu.
Zara olha pra ela.
— Talvez. Mas você colocou o show em jogo. Você é só uma garotinha que não sabe controlar o temperamento.
Helena fecha o armário com força.
— “Garotinha”. É exatamente por isso que você não pode se desculpar.
Maju olha de uma para a outra.
— Mas… e a nossa oportunidade?
Zara suspira, menos dura agora.
— O que é mais importante? — Seus sonhos ou seu orgulho? Você só pode escolher um.
Maju fica em silêncio. O corredor continua cheio, mas tudo parece distante enquanto as palavras de Zara ecoam na cabeça dela.

Joana está sentada ao lado de Gui na aula de biologia. Sobre a bancada, um sapo morto, o bisturi parado na mão dela. A professora, se aproxima.
— Tive uma aluna que repetiu esse módulo. Não conseguia cortar — ela falou com um sorriso.
Joana engole em seco. A professora se afasta, como se tivesse deixado o peso ali de propósito.
— Você consegue — Gui falou.
Ele aproxima a mão da dela, guiando o bisturi. Joana respira fundo. Quando a lâmina perfura o peito do sapo, ela solta o instrumento na hora e puxa a mão de volta.
Joana olha para Gui.
— Eu não posso ir ao cinema com você.
— Talvez… outro dia?
Joana balança a cabeça, evitando encará-lo.
— Eu tenho objetivos importantes. Não posso me distrair agora.
Gui recolhe a própria mão.
— Então eu sou uma distração?
— Eu preciso focar no futuro — ela falou, mais para si mesma do que para ele.
— Parece que eu também.
A professora volta e observa o trabalho por cima dos óculos.
— Olha só… Você acabou atingindo o coração dele.
Joana segue o dedo da professora… e depois olha para Gui.

Mais tarde, Lory e Ana chegam à festa. A música já dá pra ouvir do portão.
— Essa é a casa da Nina — Ana falou, apontando.
Lory observa a fachada, impressionada.
— Meu Deus… que lugar longe.
— Eu te avisei — Ana respondeu,. — Festa boa nunca é perto.
Elas entram. A casa está cheia, luzes baixas, gente rindo, copos na mão.
Nina as vê primeiro e acena animada.
— Oi! Entrem, entrem!
— Nina, sua casa é linda — Lory falou, olhando em volta.
— Obrigada. — Nina sorri. — Vocês querem beber alguma coisa?
— Algo com muito álcool — Ana respondeu.
— Um refrigerante — Lory falou ao mesmo tempo.
Ana vira o rosto para ela.
— Nossa, larga de ser careta, Lory. Você está numa festa.
Lory olha para Ana.
— Primeiro: ninguém usa a palavra “careta”.
— Segundo: eu só não gosto do gosto do álcool.
— Terceiro… — ela inclina a cabeça — eu já fumei maconha.
Nina e Paola se encaram, surpresas.
— Quando você fumou maconha, Lory? — Ana perguntou, chocada.
— É uma longa história — Lory respondeu rápido, já andando.
As quatro seguem para a cozinha. Enquanto Nina pega os copos, Lory olha ao redor e então vê Johnny do outro lado do cômodo.
Os dois se encaram por um segundo a mais do que o normal.
Lory sorri, involuntariamente.
Johnny retribui.
Nina acompanha o olhar de Lory… e franze levemente a testa, desconfiada.

Enquanto isso, Maju entrou apressada no seu quarto com um saco de lixo nas mãos. Sem hesitar, começou a jogar suas fotos dentro do saco de lixo, sua mãe se aproxima.
— Maju, o que está acontecendo?
— Só estou jogando algumas coisas fora.
Eliane observou o saco quase vazio, depois as mãos da filha tremendo levemente.
— Ótima ideia. Porque você vai passar bastante tempo aqui. Está de castigo. Nada de sair. Nada de Vitor. Nada de ensaio com a banda.
Maju riu, um riso curto e amargo.
— Ótimo. Eu não quero mais saber de música mesmo!
Ela se jogou na cama e o controle que vinha segurando caiu no chão. O choro veio rápido, descontrolado.
— O que aconteceu? — perguntou a mãe, a voz mais baixa agora.
— Não quero falar sobre isso.
Eliane encostou as muletas na parede com cuidado e sentou-se ao lado dela. Esperou alguns segundos antes de falar.
— Maju…
— Você tinha razão — disse entre soluços. — Eu sou uma garotinha que não aguenta nada.
— Eu nunca disse isso.
Maju virou o rosto para o travesseiro, chorando ainda mais forte.
— Até aquele cara no bar sabe disso.
Eliane franziu a testa.
— Que cara?
— Ele disse que eu não era boa. Que talvez eu não tivesse talento. — A voz falhou. — Talvez ele esteja certo.
O corpo de Eliane ficou tenso.
— Quem disse isso? Alguém te machucou?
— Não fisicamente… mas…
Eliane se ajeitou na cama, aproximando-se mais da filha.
— Certo. Primeiro, respira. Se a música é o seu sonho, eu te apoio.
— Ontem você disse...
— Eu sei o que eu disse — interrompeu, com firmeza. — E você ainda está de castigo. Mas eu não vou deixar ninguém te diminuir desse jeito.
Maju enxugou o rosto.
— Então o que eu faço? O que você faria?
Eliane pensou por um instante.
— Você vai mostrar para eles que a forma como te trataram não foi legal.
Maju se virou de repente e abraçou a mãe com força.
— Eu vou te ajudar — disse Eliane, envolvendo-a nos braços.

De volta à festa, Lory, Ana e Nina estão juntas conversando algo aleatório. Paola está em um sofá mais afastado, distraída demais dando uns amassos no namorado.
— Por que ela se importaria? — Lory perguntou, confusa.
— Eu não sei — Nina respondeu, dando de ombros. — Mas ela ficou muito brava.
Antes que Lory diga algo, Ana as chama.
— Com licença, meninas.
— O quê? — Lory perguntou, seguindo o olhar dela.
— Aquele gatinho ali… — Ana sorri. — está vindo pra cá.
O garoto se aproxima, um pouco tímido.
— Oi.
— Oi. Eu sou a Ana. — ela aponta. — Essas são Lory e Nina.
— A gente já se conhece — Nina falou.
— É… — ele sorri, sem graça. — Eu sou o Murilo. Você gostaria de dançar?
— Ah, claro.
Ana tira a bolsa do ombro e a empurra para Lory.
— Segura pra mim.
Ana e Murilo se afastam
— Me dá isso. — Nina pega a bolsa. — Vou levar pro meu quarto.
Ela dá dois passos e para ao ver Rodrigo mais afastado.
— Quer saber? — ela volta e entrega a bolsa pra Lory junto com a chave do quarto — Leva você. Vou falar com o Rodrigo.
— Onde é seu quarto? — Lory perguntou.
— Sobe a escada, segunda porta à esquerda.
Lory assente e sobe. O barulho da festa fica abafado. Ela entra no quarto de Nina, coloca a bolsa sobre uma mesinha e sai quase imediatamente.
No corredor, Johnny está saindo do banheiro. Os dois param ao se ver.
— Oi — Lory falou, surpresa.
— Oi. — ele sorri de leve. — E aí… onde está seu namorado?
Lory hesita por um segundo.
— Ele… não é mais meu namorado.
— Por quê?
— Ele não quis ser.
Johnny franze a testa.
— Então ele é um idiota.
Lory sorri, triste.
— É. Ele é.
— Você acha que vocês vão voltar?
— Não. — ela balança a cabeça. — Ele parecia bem decidido.
Um silêncio curto se instala.
— Festa legal, né? — Johnny quebra o clima.
— É… — Lory dá de ombros. — Nada mal. Me deu até tempo de colocar a leitura em dia.
Johnny ri.
— Você é muito estranha, sabia?
— Obrigada.
— De nada.
Eles se olham por alguns segundos, Johnny se inclina e a beija. Lory corresponde por um instante, depois se afasta, sorrindo.
— O que foi? — Johnny perguntou, confuso.
Lory segura a mão dele.
— Vem comigo.
Ela o puxa de leve até o quarto de Nina, entra e fecha a porta atrás deles. Dentro do quarto, Lory e Johnny caminham até a cama e se sentam nela. Lory desabotoa a camisa de Johnny, a tira e o beija novamente.
— Você tem certeza? — Johnny perguntou.
Lory olha nós olhos dele.
— Sim e você?
— Sim — ele respondeu.
Lory parece esquecer de tudo e de todos e se entrega totalmente.

No dia seguinte, no Boston, Maju e a banda já estavam no palco. As luzes eram quentes, o barulho da plateia vibrava no chão de madeira.
Maju se aproximou do microfone, respirou fundo e sorriu.
— Olá, pessoal. Eu sou Maju Braga. — algumas palmas se espalharam. — Esses são Helena e Rafa.
— Vai, Helena! — Zara gritou do meio da plateia, levantando o braço com força.
Maju continua.
— Nem todo mundo consegue uma segunda chance aqui…
— Eu te dou uma segunda chance! — um homem gritou do fundo, rindo alto demais, esperando aprovação.
O riso dele ecoou sozinho. Algumas pessoas se entreolharam. Outras desviaram o olhar.
Maju inclinou levemente a cabeça, como se tivesse acabado de lembrar de algo.
— Ah, e antes que eu me esqueça… — apontou para o fundo do lugar — minha mãe está sentada ali atrás hoje.
O homem congelou, a expressão travando do sorriso. Ele seguiu o gesto de Maju com os olhos e encontrou Eliane, que levantou a mão e acenou com um sorriso calmo, quase educado demais para a situação.
Algumas risadas contidas surgiram. Alguém assobiou. O homem baixou o olhar, claramente sem graça, encolhendo no meio da multidão.
Maju apoiou as duas mãos no microfone.
— Bom… — ela sorriu, agora sem doçura — essa é a nossa nova música. E fala exatamente sobre cantadas idiotas.
A música começa.

Não é Convite

"Não foi o batom, nem a saia curta
Não foi meu passo, nem meu jeito de andar
Você confunde desejo com direito
E acha normal invadir o meu lugar
Sussurros sujos disfarçados de piada
Risos que cortam como lâmina no ar
Seu olhar me mede como mercadoria
Mas eu não nasci pra você me caçar
Pré-Refrão
Meu corpo não é vitrine
Meu silêncio não é “sim”
Se eu não chamei, não chegue
Se eu não dei sinal, é fim
Refrão
Não é flerte, é invasão
Não é charme, é pressão
Não me toque, não me siga
Não me olhe como presa na escuridão
Eu não devo explicação
Não te devo atenção
Meu “não” é frase inteira
Não é jogo, não é provocação
Verso 2
Mãos que avançam como se fosse brincadeira
Olhos que perseguem, querem dominar
Você chama de instinto, de coisa de homem
Eu chamo de medo de andar e respirar
Não sou cenário da sua fantasia
Não sou troféu pra você exibir
Enquanto você acha tudo exagero
A gente aprende a sobreviver aqui
Pré-Refrão
Respeito não é favor
É o mínimo, é o chão
Se você não entende limites
O problema não sou eu, não
Refrão
Não é flerte, é invasão
Não é charme, é pressão
Não me toque, não me siga
Não me olhe como presa na escuridão
Eu não devo explicação
Não te devo atenção
Meu “não” é frase inteira
Não é jogo, não é provocação".

Enquanto isso, Joana está em casa, conversando ao celular com Lila.
— Sobre o que conversaríamos? Tem a ciência, claro — disse Joana.
— Mas você não pode namorar a ciência.
Joana suspira.
— Exatamente.
Lila ficou em silêncio por alguns segundos antes de falar:
— Então você o superou? Não sente mais nada?
— Bom… eu não combino com ele.
— Então não ficaria triste se ele saísse com outra garota?
— Acho que não.
— Que bom ouvir isso.
— Por quê? — Joana perguntou, confusa.
Lila deu um sorrisinho.
— Eu sempre fui apaixonada pelo Gui.
Joana se levantou da cama, assustada.
— Você nunca me disse nada.
— Porque você gostava dele… Agora não gosta mais.
— Você quer sair com ele? — Joana perguntou.
— Ele me convidou para ir ao cinema. Eu quero aceitar… Tudo bem?
Joana ficou em silêncio. Lila continuou:
— Você não imagina como é gostar de alguém que está a fim de outra pessoa.
— Dá para ter uma ideia —Joana respondeu.
— Então tenho sua permissão?
— Vá em frente.
— Obrigada, Jo. Você é a melhor.
Lila desligou o celular, sorrindo.
Joana se deitou novamente na cama, com os olhos cheios de lágrimas.
— Essa sou eu. A melhor.

Sinopse do Próximo Capítulo – Isso Não É Da Sua Conta
Maju reflete sobre o feminismo, durante um protesto. Michael tenta controlar sua ansiedade. Lila inicia uma jornada de autodescoberta.
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Atualizado em: Ter 14 Abr 2026

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