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Homem: o bufê

Vivemos um momento de transição (espero) em que os papéis sociais estão em franco desenvolvimento (não acho adequado usar a palavra evolução neste contexto). A pergunta costumava ser “qual o papel do homem nesta situação” ou “qual o papel da mulher nesta cena?” mas até mesmo esta formulação pode ser alvo de contestação para os que esposam as ideias que os papeis não estão relacionados à genitália ao sim ao constructo social heteronormativo do patriarcado (ainda bem que já fomos para a Lua pois acho que com tanta discussão epistemológica e linguística, acho que não chegaríamos nem na órbita baixa).
É impossível falar de papeis sem generalizações: não importa que a sua vizinha troque pneu do carro do namorado - é a exceção que justifica a regra. Em termos estatísticos é possível falar sobre “o que o homem quer” e “o que a mulher quer” sem que isto conflite com nossas não menos verdadeiras histórias pessoais. Se olharmos para o passado, veremos que o interesse masculino nunca coincidiu perfeitamente com o feminino, fazendo das relações feitos de negociação, flexibilização e concessão, cabendo ora a um ora a outro ceder espaço, abrir mão dos objetivos de curto e até longo prazo e em casos mais intensos, da lógica e senso comum. O que tornava esta selva de significado em algo possível de ser compreendido e administrado era o fato de que havia um entendimento prévio de quais eram os objetivos, quais eram os recursos que cada lado tinha e se dispunha a empregar, dentro de uma lógica de razoabilidade e compreensão.
A crise que vivemos hoje vai muito além de executar ou não tarefas: ela nasce na falta de consenso sobre quais são estes papeis, mesmo no cenário estatístico não pessoal e neste certame o homem parece ser cada vez mais o centro das atenções e sobretudo das insatisfações. Tolerância à frustração e rejeição sempre estiveram embebidos no DNA emocional masculino mas parece este este aspecto do contrato social também está mudando, em especial quando a própria mulher se mostra incrementalmente decepcionada com os resultados da alteração de paradigma proposta por elas próprias. Um dos resultados deste embaralhamento de regras é o aumento da quantidade de homens que ativamente busca não ter uma relação, preponderantemente por achar que mais que ofereçam o que está sendo pedido, nunca estarão a altura de requerimentos continuamente crescentes. Seja forte e protetor mas também sensível e compreensível, seja lógico e organizado mas também poético e divertido, trabalhe e ganhe mais dinheiro que ela mas não seja estressado nem preocupado demais, tenha profundidade emocional mas não a ponto de ocupar o tempo que deveria ser dedicado a ouvir os dramas dela, seja o último a sair do barco afundando ou do prédio em chamas mas não ouse entender isto de qualquer forma que lhe infle a autoestima, pague a conta (de preferência de forma discreta que não a constranja), ocupe os postos de trabalho que envolvam mais risco à integridade física, que construam e mantenham a infraestrutura que dá continuidade à sociedade atual mas esteja preparado para acatar o argumento que isto acontece porque são os homens que impedem as mulheres de trabalhar em minas de carvão a 500m de profundidade e prepare-se para ir para guerra, para morrer mais cedo, para estudar menos, para ter menos qualidade de vida.
Sensível a esta linha de argumentação, o homem tem mudado seu estilo de ser, tem se envolvido mais em tarefas historicamente não-masculinas e o resultado (para descontentamento geral da sociedade) tem sido o que chamo de ‘homo debilis’, com menos energia, menos iniciativa, menos testosterona e menos felicidade, frustrando também a mulher e realimentando o sistema que em breve entrará em inegável colapso. É por isto que entendo que estamos vivendo um momento de transição, onde estamos descobrindo quais novos papeis podemos ter sem que o preço que todos nós pagaremos seja alto demais. Todo movimento social é assim: é necessário ter paciência e desconfiar dos discursos inflamados que sugerem saber onde estamos e para onde vamos. Pode ser que estejamos vivendo um aspecto da evolução da espécie, uma extinção em massa sem asteroide (anunciado pelas baixas taxas de natalidade) que irá eliminar um certo tipo de homem que não tem recursos para prosperar nos dias de hoje, que não vê sequer sentido em tentar, como um pássaro dodô ou um mamute. Otimistamente, seus restos serão encontrados por pesquisadores do futuro que se questionarão, embasbacados, o motivo da sua derrocada.
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Atualizado em: Qui 12 Mar 2026

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