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Um passeio no Brás
Desço do ônibus na Avenida Rangel Pestana. O povo na calçada apressado com sacolas, mães com crianças, ambulantes para todo o lado, ouço uma senhora convidando para entrar em sua loja antes mesmo de terminar a descida do coletivo! Gente gritando, placas de "Compro Ouro" e vejo as roupas simples deles com chinelos nos pés! Caminho e meu interesse é comprar uma camiseta. Os preços são bons e quem sabe não levo duas por uma? Paro diante de algumas estendidas ao chão, um vendedor chega e pergunto:
- Qual é o preço desta da seleção brasileira?
- Sessenta reais. É ano de Copa. Aproveita.
- E esta da Argentina?
- Para o senhor, cem reais.
- Pega GG da seleção brasileira, por favor.
Ele passa a mão na testa secando o suor, abaixa e pega a camiseta. Consulto o bolso, peço chorinho, levo por cinquenta! Falo:
- Obrigado. Bonita camisa! Será que ganha a Copa?
- Sei não, hein! Seleção é sofrimento.
Ele dá um assobio chamando um outro para trazer mais mercadorias, agradeço e saio fora.
Ando um pouco em sentido Celso Garcia e o cheiro do espetinho desperta a fome! Só tomei um café da manhã na fábrica e invisto no espetinho de carne!
- Quanto é?
- Dez reais, senhor. Promoção.
- Bem passado.
Entrego o dinheiro e aguardo. Distraído, olho livros físicos numa mesa desmontável e esqueço do churrasco! Pergunto para a pessoa:
- Quanto está a Revolução dos Bichos?
- Dez reais.
- Já li uma vez e preciso reler.
- É ótimo. Mexe com o cérebro!
Pago e volto para o espetinho. A jovem esqueceu e fala:
- Desculpa. Torrou um pouco!
- Tranquilo. Obrigado.
Devoro o espetinho andando pela Rangel Pestana. Guardo o livro na sacola e a camiseta da seleção canarinho. Jogo o palito de espeto fora e já adentro um bar entre a Rangel Pestana e a Rua do Hipódromo, vejo quem encontraria e falo:
- Cheguei, Arnesto. Bem aí, meu irmão?
- Pega um copo.
Boto a mão dentro do balcão, estendo o copo e Arnesto enche com cerveja. Ele pergunta:
- E a fábrica?
- Tô meio período para não ficar parado. Cadê o pessoal do samba?
- Não chegou ainda.
Papo vai e vem, peço uma, duas, três garrafas! Comento:
- O samba miou.
Acendo um cigarro usando palito. Sento e começo a balançar a caixa, Arnesto já "animado", começa:
- Se o senhor não está lembrado, dá licença de contar...
Canto e ele acompanha com batidas de leve no balcão. A noite adentra. Uma "marvada", outra rodada cerveja, o dono fala:
- Esta é a última. Vou fechar.
Bebemos e Arnesto olha o relógio:
- Vinte para onze! O trem!
Vou ao banheiro, volto e deixo o troco com o dono pela paciência! Arnesto volta do banheiro e saímos abraçados, dou uma cambaleada e ouço:
- Desse jeito você vai morrer aqui no Brás!
Caio na risada e apressamos em direção ao Largo da Concórdia. Antes, separo o dinheiro para pagar as passagens e uma discussão começa:
- Eu pago.
- Não, eu pago! Tá na mão!
Um apito e o trem para. Entramos e a veloz máquina toma a Rua Barão de Ladário. Ouvimos três apitos e caímos na risada. O samba não pode parar!
Atualizado em: Qui 12 Fev 2026
