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Dólar: o novo denario?
Se existe algo em comum entre os impérios que se formaram ao longo da História é que eles, inexoravelmente, terminam - pode não ser em uma explosão, em um dia, pode durar anos e até décadas mas tão certo quanto o fato de que um dia nasceram, com certeza, um dia se extinguirão. Contudo, este não é o único traço em comum entre eles: a iminência da derrocada sempre vem acompanhada de profunda arrogância, sentimento de superioridade e merecimento exacerbado e crescente ousadia, o que ironicamente acaba precipitando o fim. Aconteceu com os romanos (mas os tempos eram outros, já ouço os comentários...), também com os holandeses no final do século XVI, mais recentemente com os britânicos (embora tenha começado após o fim da WWII parece ser tempo demais para que possamos lembrar com precisão). “Tam magnus ut cadere non possit” seria a versão em latim de “Too big to fail”, o sol está sempre brilhando no império inglês - em referência ao fato de que eles tinham colônias literalmente por todo o planeta, Stalin tinha tanta certeza que o império soviético duraria para sempre que nem ele nem Hitler tinham problemas em matar milhões de pessoas pois seus objetivos eram muito maiores que ‘pessoas’. Só que não. Em todos estes casos (e muitos outros), impérios caíram, moedas mudaram, cabeças rolaram, abrindo espaço para novas estruturas, quem sabe novos impérios. Nas palavras de Heráclito: “nada é permanente, exceto a mudança”, embora tenhamos aqui a facilidade do distanciamento histórico para compreender os fatos: difícil mesmo é entender o que está acontecendo enquanto acontece.
Corta para 2026, Davos: líderes econômicos e políticos mundiais se preparam para o salamaleque bajulador de todos os anos, em que trocarão tapinhas nas costas e fingirão repudiarem os ideais que movem o mundo. E exatamente quando tudo estava preparado para ser tedioso e sonolento como de costume, o PM canadense explode uma bomba retórica no centro do palco, tornando impossível que as pessoas desviassem o olhar (expressão tão equivocada como ‘lançar um ouvidar’ mas mantenho pelo desafio à coerência semântica). Nesta versão modernizada de “A nova roupa do Rei”, Mark Carney aponta não só para constrangedora nudez do rei mas também para o engodo que a corte vive: o relacionamento da maior super potência do planeta (USA) tem sido injusto (e parcialmente benéfico para alguns aliados) mas está terminado: “uma ruptura, não uma transição”, acrescenta. A falácia de que todos países respeitam a soberania dos outros, que compromissos entre nações são fatos carregados de sentido: tudo isto deixou de ser verdade há tempos, mas ninguém teve coragem de anunciar. Um império cai exatamente neste momento: não quando a sua moeda perde valor, quando suas operações não são mais tão rentáveis, quando seu exército perde guerra atrás de guerra: um império cai quando aqueles que o mantém com sua confiança esmorecem, repensam o cenário e decidem depositar esta fiabilidade alhures. É o pleito e a exortação de Carney: “Países do mundo, uni-vos” em uma reedição do dístico marxista. Sua coragem foi sem precedentes, seu apelo varreu o planeta mais rápido que qualquer vírus, as palmas imediatas que ele recebeu se multiplicaram pelas citações de trechos de seus discurso por líderes mundiais; um novo Yanis Varoufakis, ousado, firme, educado e profundamente profissional. Nota de um sul-americano: que inveja! Quisera eu ter um político assim para poder votar no brasil.
O timing não poderia ser melhor (ou pior): o deficit em conta corrente dos USA em 2025 pode ter chegado a U$ 800 bilhões, o que inviabilizaria a economia de um país e o congelaria imediatamente, não fossem as Treasuries (os títulos que os americanos vendem e que o mundo inteiro compra, por achar que é um investimento seguro). Uma das razões que os países compram tantos destes títulos (e de quebra mantenham os USA com a cabeça para fora d’água) é para ter reservas internacionais (hedge) mas também por causa de um acordo de 1974 em que os USA (via Nixon e Kissinger) convenceram a Arábia Saudita (que se estendeu à OPEP) a cotar o petróleo em dólar, criando uma demanda virtualmente inesgotável pela moeda (e por títulos nela lastreados). É por isto que quando uma república das bananas imprime dinheiro para pagar contas, gera inflação no curto prazo (um tiro no pé equivalente a matar a sede com água do mar) mas quando os USA fazem isto (e eles fazem, muito) a inflação gerada é exportada para todo o mundo consumidor de dólares e de produtos cotados em dólar. Há um consenso entre os economistas de chamar isto de “privilégio exorbitante” que os americanos tem, à custa do resto do mundo. Carney já esteve à frente do Banco Central canadense e liderou o BC inglês no Brexit: ele entende que não precisa matar o rei: basta bradar aos quatro ventos que o rei está nu, ao mesmo tempo que cria alianças para evitar um caos pós deposição. Por isto ele foi para a China dias antes, por isto ele teve conferências com quase todos os líderes europeus antes de Davos. Não há problema em participar da fantasia coletiva de que as roupas do rei são lindas - se isto coloca pão na mesa, dá estabilidade e estrutura para que a economia prospere mas se isto estiver em jogo, se os riscos de participar desta farsa forem muito grandes (e não param de aumentar), é justo e certo ascender a luz, arrumar a casa e criar uma história nova, em torno da qual um período novo de prosperidade possa ser criado. A fundação deste império é bem menos sólida do que se imagina: se por um lado “basta acreditar”, por outro “é só deixar de acreditar”.
A possível invasão da Groenlândia (aludida no discurso de Trump como Islândia, 4 vezes) também serviu como a gota d’água para que nossos amigos europeus decidissem se movimentar. Quando os USA invadiram um país soberano, sequestraram seu presidente e se apropriam do petróleo (mesmo que seu presidente seja o Maduro), a Europa silenciou, assim como quando dos ataques aéreos na Somália, Líbia, Iêmen, Iraque e Síria (só em 2025) mas quando Trump ameaçou a Groenlândia (território autônomo dinamarquês), alguém sentiu que deveria ter uma espinha dorsal e tomar uma atitude: foi o Carney mas pior teria sido se não fosse ninguém. Sempre achei que não viveria para ver a queda dos USA como super potência hegemônica: hoje acho que o futuro vai chegar antes do que o previsto.
Atualizado em: Dom 15 Fev 2026
