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Da apatia à histeria: 10 segundos na cabeça de um zoomer

   Um meme é um conceito fantástico, cunhado em 1976 por Richard Dawkins e representa como uma ideia ou um comportamento pode se espalhar entre pessoas, como se fosse um gene, mas com características de mímica: um gene mimético. Só anos depois o termo foi apropriado e pervertido pela internet, com sentido de um conteúdo, em geral humorístico, que se espalha rapidamente pela rede. Nem todo conteúdo vira meme (a barreira de entrada é grande) mas quando vira, ele entra em um esquema de realimentação positiva onde não só cada vez mais pessoas de identificam e replicam o meme mas (ainda mais assustador) mais pessoas passam a copiar aquele comportamento, ampliando ainda mais seu horizonte, até que um novo meme apareça e o assassine como se fosse um imperador romano.

   Há inúmeros videos, animações e imagens fazendo alusão à forma com que os adolescentes interagem, com o mundo e entre si e, como é mandatório para uma classe de memes, todos obedecem a um conjunto de regras gerais, frequentemente não enunciadas mas claramente comprendidas. O ciclo é sempre o mesmo, iniciando pela apatia, o olhar bovino sobre o mundo, em uma náusea que só não é sartriana por falta de leitura, seguido de um descompasso histérico (seja de felicidade, medo e quase sempre ansiedade), com a possibilidade de reiniciar o ciclo e repetir o padrão de instabilidade mental, muito semelhante a um chihuahua bipolar. Várias observações podem ser feitas sobre este padrão (que é real e crescente, o meme é só uma forma de expressão poderosa que catalisa a adesão) e dificilmente qualquer uma delas aponta no sentido do amadurecimento, seja intelectual ou afetivo. O primeiro ponto de parada obrigatório é horrorizar-se com o quão pouco é necessário para transformar um jovem em pústula pulsante de emoções incontroláveis: uma abelha, uma encomenda que chegou como conteúdo errado, uma comida, uma série que não foi renovada. E antes que alguém diga que intensidade não é um problema, cabe lembrar que este tipo de desarranjo emocional é incapacitante, privando temporariamente de funcionalidade o indivíduo, como um taser mental, e entre espasmos e faniquitos alguns minutos transcorrerão até que ele possa, otimistamente, agir de forma coerente. O segundo nível de espanto é perceber como é possível mapear quase qualquer destas destemperanças simplesmente a padrões de comportamento infantil. Crianças em geral tem uma tolerância à frustração ainda pequena (que precisa ser desenvolvida e ampliada) mas até lá suas reações serão violentas, incompatíveis com a boa educação, por vezes egoístas e com baixa compreensão do contexto social, colocando seus próprios interesses imediatos muito acima dos demais. Claro, não é porque anda com um pato, nada com um pato, grasna como um pato que … mas fica a latente e inconveniente parecência com um pato e, do ponto de vista mais prático: é um pato, funcionalmente - mesmo que não geneticamente. A grande diferença é que quando uma criança expõe, recorrentemente, um padrão de comportamento antissocial ou claramente inadequado, há um entendimento (antigamanete universal) que é papel dos educadores de plantão ajudar a criança na gestão destes sentimentos; no caso dos adolescentes, este tipo de reação começa a ser vista como ‘normal’, autorizada por um novo conjunto de normas, daquelas que falam de espaços seguros e de não premiar vencedores para não desestimular os momentaneamente privados de êxito fático. Memes, neste sentido, são ferramentas bem mais poderosas que simples artefatos humorísticos: são formadores de opinião, moldam padrões de comportamento e sancionam aberrações temperamentais.

   Nossos certames digitais, como YouTube, são palcos onde milhões de experimentos são feitos a cada minuto, testando uma forma de falar, de gesticular, de conduzir-se frente ao público, punindo com menos exposição aqueles com menos curtidas. Este darwinismo algorítmico é uma máquina poderosa e silenciosa, ubíqua e distribuída, sem uma clara cabeça e sem que nós tenhamos capacidade de antecipar seu resultado. Assim como na vida, a estratégia errada produz menos descendência enquanto as melhores soluções se espalham, não mais em tempo paleontológico mas em tempo informático, fazendo eras acontecerem em minutos. Somos ao mesmo tempo partícipes, vítimas e executores deste drama, que se renova a cada grito dramático que rapidamente se espalha sem controle. Entender o mecanismo é o primeiro passo para, idealmente, dirigi-lo de forma mais consciente e esclarecida.
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Atualizado em: Ter 18 Nov 2025

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