- Prosa Poética
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Colcha de retalho
Quando chorei, não estavam lá —
só a dor e o silêncio como testemunha.
Quando sangrou, não houve curativos —
só ferida aberta, exposta,
esperando que o tempo, generoso, a fechasse.
Quando a vida me jogou no buraco,
fui eu quem teve que levantar —
sozinha, suja e arranhada.
E quando, me reerguendo, cambaleando,
esbarrei em alguém e o machuquei,
fui massacrada.
Ninguém me olhou.
Eu também não me olhei.
Tinha medo do reflexo.
Parecia sempre distorcido.
E o espelho me iludia —
eu tinha que ser inteira, mesmo em pedaços.
Mas era tão injusto, tão cruel.
A vida foi cruel.
Eu fui cruel comigo.
Ah! Se Deus fosse justo,
ele me permitiria ter superpoderes.
Eu teria, sim, esse direito:
de voltar no tempo — dar-me à mão.
De calar as palavras duras —
gritarias ensurdecedoras que assustada eu aceitava.
De agir quando paralisei —
consentindo o que não era consentido.
De ter fugido —
mesmo sem saber para onde ir.
De apagar o que doeu —
deletando memórias, sentimentos e sensações.
De consertar os maus passos que dei — guiada pela dor.
De calar todas as vozes de julgamento que recebi —
quando criticaram meus tropeços,
mas não viram os empurrões que eu levava.
Mas eu não acredito nesse Deus.
Tampouco em superpoderes.
Tudo o que posso é recomeçar — agora.
Mesmo que remendada.
Costurada com o que sobrou.
Com minhas histórias,
meus pedaços
e recomeços.
Afinal, uma colcha,
mesmo de retalhos,
ainda assim aquece,
ainda assim acolhe,
ainda assim protege
durante as noites mais frias.
