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Estupidez funcional

Dietrich Bonhoeffer foi um teólogo alemão profundamente decepcionado com o processo de decadência intelectual e moral que a população alemã da era de Hitler vinha sofrendo ao longo de anos. Bonhoeffer sabia que a Alemanha era berço de pensadores, filósofos e poetas mas acompanhava estarrecido como a sociedade em geral era dominada por uma nova forma de pensar ou, mais especificamente, de não pensar, que criava uma horda de covardes. Depois de denunciar em inúmeros meios esta degradação, finalmente foi preso e seu trabalho mais precioso foi escrito no cárcere, onde morreu, 2 semanas antes da queda do regime nazista.
Segundo ele, a maldade (um grande inimigo do desenvolvimento humano) continha em si mesma a raiz do seu fim: um ladrão de banco sabia, no fundo, que aquilo que fazia era errado e que um dia seria finalmente julgado e preso. A estupidez, por outro lado, opera um dinâmica diferente na qual o ator (chamado de estúpido) se crê ao lado da verdade e da correção e portanto pode (ou pensa poder), de todo coração, afastar e agredir todos os que não concordarem com suas visões. Assim, a estupidez é, como obstáculo ao florescimento humano, ainda pior que a maldade, mais nefasta, mais ubíqua e mais pretensamente ética e desta forma merece ser estudada para melhor combatida. A primeira barreira na compreeensão da estupidez é acreditar que ela é um defeito intelectual: na verdade a estupidez é uma limitação moral (pessoas intelectualmente ágeis podem sucumbir a ideais estúpidos e ‘au contraire’ pessoas simples podem se negar a terceirizar seus raciocícios, por mais simples que sejam). Mais do que um fenômeno individual e psicológico, a estupidez aqui tem um caráter sociológico e costuma ter uma performance ainda melhor em grupos, como políticos, esportivos, religiosos, etc. Abdicar da posição autônoma e responsável de independência cognitiva em prol de aceitar sem crítica os slogans, brados e bordões da ideologia que o controla: esta é, em essência, a definição da estupidez funcional (Carl Jung já dizia: ‘pessoas não tem ideias; ideias tem pessoas”).
Como cantava Belchior “deixando a profundidade de lado ...” tais divagações só tem valia se constituírem ferramental útil para combater esta praga pois é bem sabido que a lógica, a instistência e mesmo a consistência dos argumentos não consegue convencer o estúpido. A liberação vem somente através do crescimento, do aprendizado, da abertura e coragem que uma pessoa deve ter para colocar à prova seus conceitos, seu ideario, sua doutrina. E infelizmente, quanto mais o tempo passa para uma pessoa, mais difícil é desenvolver estes recursos (embora sempre possível). Vejo, assim, com outros olhos a tragédia de ver uma criança fora da escola ou sem acesso à educação de mínima qualidade: o que está em jogo não é somente a tragédia de um destino pessoal, mais uma vida que vai ficar aquém do seu potencial: trata-se de mais um soldado que pode ser recrutado para o exército dos estúpidos, manipulável e portanto perigoso, obedecendo às ordens do político da ocasião, do chefe da tribo, do pastor/padre/xamã/dervixe. Mais do que nunca, vivemos um tempo onde estas mazelas vem e vão, como ondas de gafanhotos que deixam atrás de si só destruição. É preciso aprofundar o debate de como mais eficientemente combater estas tragédias, como evitar que elas aconteçam, como identificá-las o mais rápido possível, evitando que legiões de radicalizados formem maioria, escrevam o edital dos jornais, definam o politicamente correto. Vigilância é o eterno preço da liberdade.
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Atualizado em: Qua 6 Ago 2025

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