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  • E então, brasileiros?

    Ontem, às três horas da tarde 

    já era noite em são paulo,

    pessoas olhavam para o céu:

    o apocalipse está chegando.

     

    A Amazônia pega fogo há 16 dias,

    animais morrem há 16 dias,

    plantas queimam há 16 dias

    e há 16 dias ninguém sabia disso.

     

    Hoje, às seis horas da manhã 

    um ônibus foi sequestrado no rio,

    o criminoso tinha uma arma de brinquedo,

    seu sangue escorria e a “vida era celebrada”.

     

    A internet está revoltada,

    os stories estão indignados,

    os posts estão chocados,

    e vc, brasileiro? como se sente? 

  • Entre Lobos (conto-romance) 1/9

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    Estados Unidos 8/12/1941

    “...Peço que o Congresso declare que, em vista do ataque ardiloso e não provocado do Japão no domingo, 7 de dezembro, um estado de guerra passa a existir entre os Estados Unidos e o Japão”
    Franklin Roosevelt


    Minnesota, condado de Todd, final de tarde. Dias após o ataque a frota naval americana.

         Escorado sobre a mesa da cozinha, John tentava estabilizar a frequência da radio. A todo instante era transmitido notícias sobre a guerra que partira da Alemanha nazista sobre a Europa. Agora, com a participação do seu país na batalha após o ataque em Pearl Harbor, todo jovem americano era bem vindo ao exército e isso o deixava tenso, pois, Derek era seu único filho e possivelmente iria acabar envolvido àquela causa. Sua concentração era tamanha sobre os noticiários que se quer havia reparado que o próprio chegara e de fato só deu-se conta disso depois que seu filho largara um envelope a sua frente.

          — O que é isso? – perguntou sem tocar na correspondência.
          — Aqueles desgraçados vão pagar caro pelo o que fizeram! – Derek respondeu com precisão. — Vou me juntar ao exército! – declarou.

          O homem escorou-se na guarda da cadeira e tomou fôlego. Desfez-se do ar e levantou sem dizer uma única palavra deixando que a transmissão da rádio encontrasse seu próprio jeito de se consolidar. Foi até o armário e retirou um cigarro da carteira e em seguida escorou-se à porta de saída. Acendeu o fumo e tragou a fumaça profundamente antes de começar a falar.

          — Só espero que não esteja fazendo isso por causa daquela def...
          — Deixe Katy fora disso! – Derek interferiu-se. — Isso nada tem a ver com ela. – esclareceu. — E agradeceria se o senhor não a chamasse dessa forma novamente. A caso tem simpatia pelos ideias daquele tal Führer? – finalizou em um tom mais sério.
          — Não diga bobagens, rapaz! – o senhor firme contra aquela injúria. — Mas está bem! Faça como quiser. Não vai mais me ouvir dar um “pio” sobre essa garota, mas saiba que está criando a ti mesmo um grande problema! – deu outra tragada no cigarro.

          Derek não soube ao certo se seu pai se referia a sua entrada ao exército ou ao seu relacionamento instável com Katherine. Em meio aquele breve silêncio em que se encontravam, ouviram a chegada de um visitante. O rapaz deixou sua motocicleta junto a de Derek e foi de encontro a ambos, agora, parados em frene a  entrada da casa.

          — Sr. John! – o rapaz o cumprimentou respeitosamente antes de falar com Derek.
          — Olá, Mark! – o homem respondeu. — E as novidades, rapaz?
          — Bem... – mirou Derek. — O senhor já deve estar sabendo da nossa... Inclusão! – orgulhoso, referiu-se ao alistamento militar.
         — Claro que sim! – demonstrando não estar surpreso em saber que os dois estariam juntos também naquela empreitada, John respondeu com um pigarro rouco. — Afinal de contas, onde um estaria se não estivesse o outro? – riu-se com certo deboche.
          Mark apenas respondeu com um sorriso na face.

          — Precisamos conversar! – Mark dirigiu-se ao amigo logo à sua frente.

         Percebendo que seria um assunto que não lhe dizia respeito, John deixou que os dois rapazes ficassem a sós. Depois de trocarem algumas poucas palavras Mark deixou clara a razão de ter vindo. De dentro de sua jaqueta, retirou uma folha de papel dobrada e entregou ao outro. Era de Katherine, escrita por sua irmã Mary.

          — Ela está preocupada, Dek! – Mark comentou. — Acha que a ideia de termos entrado no exército foi meio... impulsiva. – descontraiu.

          A mensagem falava sobre a repulsa de Katherine sobre o alistamento de ambos e do quanto ela tronara-se mais reclusa após o término do relacionamento com Derek. Informalmente, pedia ainda para que ele viesse vê-la, deixando claro que os pais dela agora mostravam-se mais receptivos quando a presença dele.

          — Como ela está? – Derek pediu sobre Katy.
          — Até onde sei, mal tem deixado o próprio quarto... – breve pausa. — Pra uma pessoa que adorava fazer passeios isso deve significar alguma coisa, não?
          — Nada disso precisava ter acontecido. – Derek soltou. — Sabe que não foi por minha causa que...
          — Não os tenha mal. – Mark o interrompeu. — Meus tios sempre foram muito cautelosos a tudo o que envolvesse Katy... Só pensam na segurança dela.

         Ficaram em silêncio por alguns segundos.
         — Então, você não vêm? – perguntou.

         Derek o fitou condenando a possível chance de o amigo ter lido sua correspondência.

         — Não, não! – Mark logo se defendeu ao perceber a reação do outro. — Elas só me fizeram prometer que te convenceria ou te levaria amarado até lá. – brincou pondo novamente o capacete.

          Ainda que aquele convite lhe parecesse, num primeiro instante, estranho, Derek sabia que era preciso aceita-lo já que lhe restava pouco tempo na cidade e a verdade é que pouco importava se os pais de Katy, por causa da atual situação da filha, apenas iriam tolera-lo. Ele ainda a amava e nada sabia do que estava por vir assim de partisse para longe dela.

          — Vou dar uma saída! – esquivando parte de seu corpo para dentro da casa avisou seu pai que respondeu erguendo seu copo munido de whisky enquanto ainda fumava e fuçava na transmissão da rádio.

    Confira o capítulo seguinte! 
  • Entre Lobos (conto-romance) 4/9

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    Não se sinta perdido. LEIA os capítulos anteriores! Tenha uma ÓTIMA leitura!

    Naquela manhã de sábado Mark ligara para Derek pedindo para que o amigo viesse dar uma olhada na sua Formosa, apelido carinhoso que dera a sua motocicleta. Ainda perto do meio dia, ele apareceu por lá. Mark já o esperava disposto a dar cabo de tudo sozinho.

    — Ela não liga, Dek. – adiantou o problema. — Não está dando partida. – explicou ainda.
    — Vamos ver. – o outro disse depois de aproximar-se e cumprimentar o amigo que se mostrava preocupado com a situação.

    Já haviam se passado alguns minutos desde que Derek procurara desvendar o problema quando um automóvel escuro estacionou sobre o gramado em frente a casa. Sem dar atenção, ele continuou fixo no que estava fazendo, diferente de Mark que ao perceber quem chegara lgo  foi recepciona-los.

    — Mãe! – disse indo em direção ao carro. — Eles chegaram. – avisou.
    — Mark! – um senhor falou depois de desembarcar Do vveículo. 
    — Tio. – cumprimentou o homem com aperto de mão e um abraço.
     
    Em seguida uma mulher desembarcou acompanhada de suas duas filhas.

    — Ajude sua tia, sim. – sugeriu ao sobrinho. — Trouxemos algo para o almoço.
    Mark contornou o veículo e deu auxílio a Dna. May.

    — Deixe que eu levou tia. – adiantou-se pegando uma bandeja larga. — Olá Mary... Katy. – cumprimentou suas primas também.

    Então, Derek, voltou-se para trás e viu Katherine deixar o veículo. Mark, acompanhado pelos demais veio em direção a residência.

    — O que houve? – o homem parou por um segundo ao ver o que estava acontecendo.
    — Minha princesa não está bem. – Mark respondeu pelo amigo. — E esse é meu anjo da guarda – referiu-se ao amigo agachado — Dek esse é meu tio Alan e tio Alan esse é Dek. – os apresentou.
    — Me desculpe, senhor. – Derek pôs-se em pé. — Eu o cumprimentaria, mas... – estendeu as mãos mostrando o quanto estavam sujas.

    O rapaz não soube se seria muito educado cumprimentar o senhor daquela forma. Deixou de ter dúvidas quando percebeu que o homem lhe estendera a mão. “É o melhor.” Ouviu Mark falar logo ao lado do senhor.

    — Deixe disso, rapaz. – o homem disse. — Mãos como essas representam o progresso.

    A poucos passos as costas dos dois cruzou Katherine que o fitou discretamente. Mary o ignorou completamente assim como Dna. May. Na entrada da casa surgiu Sofya, mãe de Mark, uma mulher simpática e sorridente que agora as esperava calorosamente. Mark, juntamente com seu tio, seguiu para dentro de casa.

    — Já volto, Dek. – avisou e a verdade é que realmente não levou muito tempo até que estivesse de volta. — E então... como está indo? – pediu com certa preocupação.

     Sem responder, Derek prendeu novamente a mangueira a uma pequena saída do motor e pediu para que o outro tentasse dar partida novamente. Como por um milagre, a motocicleta respondeu imediatamente.

    — Eu sabia! – Mark contente. — Você daria um jeito, Dek!
    — Coisa simples...
    — Bem... Como minhas economias andam...escassas. – agora o outro explicava-se. — Não tenho como te pagar, mas – desligou a moto. — O que acha de almoçar com nós.
    — Não acho que seja uma boa ideia. – respondeu. — Me parece uma reunião íntima. – referiu-se ao encontro dele com os familiares.
    — Não, não! Deixa disso! – o convidou com um movimento de mão. — Meu tio provavelmente te interrogue, mas é uma boa pessoa. Pelo visto ele gostou de você.
    — E isso é bom?
    – Depende do quanto você corresponda as expectativas dele. – riu-se.

    Percebendo que não existiria uma maneira de impedir que aquele convite se desfizesse seguiu o amigo para dentro da residência.

    Derek sentiu-se um pouco acuado sentado à mesa. Diferente dos demais, ele usava uma vestimenta mais informal. Até mesmo Mark que entre todos era o que mais se assemelhava a ele, estava ou lhe pareceu aquele momento, especialmente bem alinhado.

    — E então... Derek. – o senhor dirigiu-se a ele. — Tem dom para concerto?

    Mark, então, o fitou como se lhe dissesse “Falei que isso podia acontecer”.

    — Bem... Trabalho na oficina de meu pai. – explicou objetivamente. — Ajudo a...resolver algumas coisas.
    — E vejo que se sai muito bem, não. – referiu-se a moto do sobrinho.
    — Obrig...
    — Ainda que se evolva em problemas nas horas vagas. – Mary soltou num sussurro, mas que claramente pode ser ouvido por todos.
    Mark posicionou-se.
    — Aquele dia foi apenas um... Equívoco.
    — Chame como quiser, Mark. – Mary. — A meus olhos vocês não passavam de dois baderneiros.

    Então, estalou-se um certo desconforto a mesa. Derek arrependeu-se no mesmo instante em ter aceitado aquele convite. Não tinha sido o suficiente ter passado a impressão errada na primeira vez, ainda teria que ser exposto ante a família inteira de Katherine, que tanto quanto a última vez, mantinha-se calada. Tanto ele quanto Mark foram envolvidos pelas desaprovações de todos.

    — Mas Dek não teve culpa. – Mark esclareceu. — Tudo o que fez foi ajudar.
    — Uma confusão sempre será uma confusão! – o homem colocou fitando os dois. — E não tolero baderneiros, Mark! São um atraso. E em respeito a memória do grande homem que foi teu pai, não vou tolerar ou permitir que você se torne um. – completou apoiado por sua irmã Sofya.
    — Obrigado, Mary. – então Mark dirigiu a prima. — Finalmente estou conseguindo ser visto como um delinquente. – debochou ao mesmo tempo em que abocanhava um pedaço de carne.

    Ela apenas ergueu as sobrancelhas lembrando algo do tipo “Não há de que”.
  • Entrevista com Larissa Gomes – autora de Cidadolls

    1- Com certeza você é uma das autoras mais promissoras que nosso atual mercado editorial nos apresentou. Como você definiria a escritora: Larissa Gomes?
    LG - Bem, definiria como uma fuga do óbvio e ir além do realismo. Puxando a imaginação, em imagens que surgem por músicas e sonhos.
    2- As editoras independentes tem mostrado como se publica livro em tempos de crise econômica. Essa crise é sentida nos autores independentes de que forma?
    LG - A crise é sentida de uma forma forte e triste, principalmente na área literária. Não é grande a população brasileira que é ligada à leitura e ultimamente a venda de livros tanto físicos quanto virtuais teve queda.
    3- Como a crise das grandes livrarias afeta as pequenas editoras e plataformas de publicação alternativas no seu ponto de vista?
    LG - As livrarias muitas vezes costumam adquirir livros de inúmeras editoras para o catálogo, porém com a crise elas costumam priorizar editoras de nome maior no mercado.
    4- Qual a maior dificuldade de se trabalhar em um romance do gênero terror?
    LG - O terror, por ser um gênero que instiga o imaginário em várias formas e aumenta a visão dos horrores do consciente, pode ser um desafio para escrever. O cuidado é para não ultrapassar o desconforto em um nível que deixa de ser apenas a adrenalina de uma boa trama.
    5- Todo escritor tem um acervo básico de referências na cachola. Se você tivesse que citar suas maiores influências, quais seriam e porquê?
    LG - Minhas maiores referências vão desde escritores há diretores de cinema. Mencionarei dois aqui, que inspiram minhas horas: Edgar Allan Poe e Tim Burton. Ambos, apesar de universos diferentes trazem o ar gótico e estilo excêntrico que amo me inspirar nas obras.
    6- Seu livro une terror e steampunk, um pouco de fantasia, bonecas e tem até um escritor como protagonista! Como é que você uniu tantos elementos diversos e formou a trama do livro Cidadolls?
    LG - O livro traz as referências que coleto na minha vida, além dos toques de surrealismo vindos de meus sonhos. As imagens da trama vêem com músicas e estímulos externos, se formando em um universo novo misturando estilos.
    7- Pergunta indiscreta: existe bloqueio criativo ou falta de gestão de tempo?
    LG - Bloqueio criativo, creio que sempre tem. Em um momento, a história trava e chego a pensar que não vai ir mais. No entanto, quando deixamos a mente descansar tudo retorna bem.
    8- Como um autor independente faz para brigar por um espaço ao sol com os livros estrangeiros de autores já consagrados?
    LG - Divulgando. Creio que divulgando bastante e tentando ampliar os locais onde sua história é ouvida, pode trazer mais espaço e um reconhecimento que se aproxime do que esperamos para a arte que fazemos.
    9 – Uma autora prolífica como você deve estar produzindo algo aí, nos conte tudo e não esconda nada! Quais os planos para o futuro?
    LG - Estou escrevendo ultimamente a continuidade da saga Cidadolls, além de um livro de fantasia que pretendo seguir adiante.
    10 – Qual lembrete a autora gostaria de deixar para os seus leitores?
    LG – O que eu peço para eles, é apenas uma coisa: Nunca esquecer a imaginação. Creio que, deixar-se imaginar é uma porta para mundos incríveis e viagens que a realidade pode estar longe de proporcionar.
    Deixe abaixo links e endereços para que os leitores possam visitar:
    Instagram  — @larissaactress, @ditebowery
    Mais informação do livro na bio do Instagram @editoraimmortal.
    https://www.facebook.com/EditoraImmortal/
    https://www.clubedeautores.com.br/livro/cidadolls#.XP_CFdJKgfc
    https://www.amazon.com.br/Cidadolls-Larissa-Gomes-ebook/dp/B07L2LMY7W
  • Entrevista com Matheus Braga – autor de O Landau vermelho

    1 – Quem é Matheus Braga e porque você resolveu contar a história de um carro assassino?
    R – Já começamos com uma pergunta difícil, porque sou péssimo para falar de mim mesmo, rsrsrsrs. Bem, posso dizer que sou um sonhador. Sou uma pessoa que sonha com a cabeça nas nuvens e os pés no chão e corre atrás da realização desses sonhos. Sou uma pessoa determinada, resiliente, apaixonada pela natureza, que ama animais e a-do-ra carros desde que se entende por gente. Pode-se dizer que aprendi a nomear carros antes mesmo de aprender a falar “papai” e “mamãe”, rsrsrs. Quando pequeno, meus brinquedos favoritos eram as miniaturas de carros e meu Ferrorama, e sempre gostei muito dos filmes cult sobre perseguição de carros como Encurralado e Christine – O carro assassino, e foi daí que, anos mais tarde, vieram algumas das inspirações para meu livro.
    2 – Como foi o processo de produção do seu romance de terror O Landau Vermelho?
    R – Gosto de dizer que O Landau vermelho foi um livro construído ao longo de muitos anos. Como já disse, sempre nutri uma paixão muito grande por carros e sempre tive vontade de escrever algo dentro desse universo, mas nunca havia tido a ideia para isso. Eu estava sempre esboçando plots e cenas separadas, mas nunca havia chegado a um enredo satisfatório. Este só veio quando num dia, ao organizar minha pasta de arquivos no computador, acabei lendo todas as cenas separadas em sequência e, baseada numa dessas cenas em específico, intitulada Corrida Infernal, formou-se a ideia para o livro. Também me inspirei nos filmes clássicos do gênero “carro assassino” para me ajudar a enxergar melhor a história. A partir desse ponto, foram mais dois anos e meio de escrita e muita pesquisa para finalizar o livro, e depois ainda precisamos de uns 5 ou 6 meses de revisões pontuais antes que a versão final finalmente saísse em e-book e, agora, em versão impressa. Cabe aqui uma curiosidade: quase todo esse processo aconteceu tendo como trilha sonora a música Two black Cadillacs, da Carrie Underwood, cujo videoclipe também conta a história de um carro assassino.
    3 – Quais suas maiores influências no mundo da escrita?
    R – Sempre me identifiquei muito com o gênero de romance policial, e minha maior influência foi o mestre Sidney Sheldon. É dele o primeiro romance policial que li, Conte-me seus sonhos, e o estilo narrativo dele sempre foi o que mais me fascinou. Ele constrói as cenas de forma quase cinematográfica, explorando as sensações e percepções tanto dos personagens quanto do ambiente em si, de forma a obrigar o leitor a continuar lendo, e lendo, e lendo até que, quando dá por si, o livro já acabou. Venho praticando muito para conseguir escrever dessa forma também, como pode ser percebido no meu romance O Landau vermelho. Mas além do Sidney Sheldon, também sempre li muito Harlan Coben, Stephen King e Agatha Christie.
    4 – As editoras independentes estão dando um show de como se publicar livros no Brasil, muitas vezes exportando esses livros para a Europa e EUA. Como você percebe essa mudança no nosso mercado literário?
    R – Infelizmente a mudança ainda é relativamente sutil no mercado como um todo, mas já é perceptível para quem está atento. As grandes livrarias e editoras sempre dominaram o mercado literário de forma cavalar, quase sempre valorizando autores já expressivos ou que possuam o famoso “Q.I.”, mas com o advento da internet é possível perceber um crescimento das publicações de editoras menores e autores independentes, principalmente no que diz respeito aos e-books. Tal crescimento tem se mostrado uma grata surpresa aos leitores de plantão, pois tem revelado autores talentosíssimos e histórias extremamente deliciosas de se ler. É bastante notável que estes novos autores quase sempre vêm do mundo das fanfics, que já é bastante popular desde a época dos fóruns, no início dos anos 2000, e temos sido agraciados com grandes talentos que até então estavam ocultos ou não tinham uma divulgação expressiva de seu trabalho, e estes talentos acabam por ser a nossa esperança de que, apesar do mercado literário ter entrado em declínio nos últimos anos, ainda poderemos desfrutar por muito, muito tempo deste prazer indescritível que é a leitura de um bom livro.
    5 – Quais as maiores dificuldades para um escritor iniciante conseguir sua primeira publicação?
    R – Sinceramente não tenho propriedade para responder esta pergunta, pois a editora Immortal foi a primeira e única para a qual enviei o original de O Landau vermelho e ele já foi aceito para publicação, rsrsrsrs. Mas acredito que a dificuldade maior seja justamente encontrar a editora certa para a publicação. Escrever em si já é algo muito difícil, mas encontrar uma editora onde sua história se encaixe da forma devida pode ser um tanto delicado, pois pode haver divergência entre a mensagem que o autor quer passar com a história e a interpretação que a editora dará para ela. Além disso pode haver também o fator financeiro, pois não são todas as editoras que se dispõem a publicar o livro antes para colher os lucros depois, e também não é fácil para um autor iniciante dispor de determinada quantia financeira para investir na publicação, mesmo que a realização de um sonho não tenha preço. De qualquer forma, acredito que com a devida paciência tudo pode se ajeitar.
    6 – Qual sua preferência de leitura: e-book ou impresso? E porquê?
    R – Impresso, com certeza. Além de adorar o cheiro de um livro novo, sou muito tradicional nesse quesito, e ter o livro em mãos me proporciona uma experiência de leitura muito melhor. Gosto da sensação de folhear as páginas e consigo imergir melhor na história e absorver a mensagem do livro de forma mais satisfatória. Ler e-book é algo que requer muita disciplina, pois nos aparelhos eletrônicos as distrações são constantes (WhatsApp, Facebook, Instagram, etc...) e eu sempre acabo desviando minha atenção com outras coisas. O engraçado é que leio fanfics com constância no meu celular e não desvio tanto minha atenção, rsrsrs, mas simplesmente não consigo ler um e-book.
    7 – O autor tem outros hobbies além de escrever? Quais são?
    R – Meus principais hobbies além da escrita são o colecionismo/modelismo e o trekking. Tenho várias coleções, desde miniaturas de carros e trens até minifiguras de Lego e moedas raras, e sempre que disponho de um dia livre ou feriado prolongado gosto de fazer caminhadas ao ar livre para serras ou cachoeiras, pois adoro estar em contato com a natureza. Ainda tenho o sonho de montar um “carro projeto” apenas por hobby, que é comprar um carro antigo e fazer alterações no estilo e na performance dele para um uso mais divertido, mas ainda não tenho condições financeiras para isso, rsrsrs.
    8 – O mercado editorial passa por mudanças, elas já são perceptíveis ao ponto de dizermos que temos um novo mercado ou não?
    R – Acredito que a maior mudança que o mercado editorial vem passando nos últimos tempos é a popularização dos livros digitais. Apesar de admitir isso a contragosto, os e-books são bem mais práticos e acessíveis do que os livros impressos, principalmente para fins acadêmicos e profissionais, e podem ser a melhor opção para pessoas que querem passar a ter o hábito de ler mas não abrem mão da conectividade. Com isso, acredito que é seguro dizer que sim, temos um novo mercado, com novas estratégias de vendas, marketing e lucros adaptadas à nova realidade dos leitores.
    9 – Nos conte quais os planos para o futuro desse escritor?
    R – Adoro fazer planos e sonhar com o desenrolar deles, mas sempre mantendo os pés no chão. Entre os principais planos na minha vida hoje estão: morar sozinho, para finalmente conquistar minha independência; publicar mais um livro até o fim de 2019; conseguir mais uma promoção no meu emprego para me estabilizar financeiramente; e no segundo semestre, quem sabe, começar uma das minhas pós-graduações.
    10 – Como e onde os leitores podem adquirir o seu livro e em que projetos está envolvido ultimamente?
    R – Meu livro pode ser adquirido diretamente com a Editora Immortal ou pelos sites Amazon e Clube de Autores, tanto o e-book quanto a versão impressa. Os links estão no meu perfil e na página da editora. Meu próximo projeto é uma participação na antologia Contos do desconhecido, também da Editora Immortal, que será uma compilação de contos de terror onde estarei participando com os contos originais Ferrorama e Sussurros à meia-noite.
  • ESCURIDÃO

    Solidão é a palavra que define meu atual estado: Tristeza, mas não aquela de chorar, eu não choro, não choro mais, e isso foi algo que decidi e consegui cumprir, contudo as lágrimas serem ou não derramadas não me vem ao acaso, não sou de sair, prefiro passar o tempo no meu quarto, perdendo horas e horas na internet, sei muita coisa, porque leio muita coisa e desde sempre até onde me lembro, claro, acredito que coisas que não deveriam existir nesse mundo, existem: Dêmonios, fantasmas, lobisomens, bruxas, e mais tudo que pode ser imaginado.
    Sempre tive medo do escuro, digo, quando eu era criança, mais precisamente não medo do escuro, mas o que nele habitava, morria de medo de dormir sozinho, separado do conforto e proteção dos meus pais, mesmo estando no mesmo quarto o medo me vinha e eu mau dormia a noite, ficava de cobertor erguido à cima da cabeça, pois sabia eu que se olhasse para o escuro veria o que evitava toda noite ver.
    Palhaços gigantes com enormes bocas e dentes afiados para me devorar, esqueletos usando becas voando pelo teto em vassouras e rindo, umas das coisas que mais me pertubou foi a mulher, enquando estava deitado na minha cama ao lado da dos meus pais, juro por Deus e por tudo, eu vi a coberta se levantar, uma vermelha e comprida que adorava, e assim que foi esguida do meu corpo ignorando o fato de eu estar segurando-a uma mulher deitou ao meu lado na cama e nos tapou, sempre que contava essa história eu ficava serio, foi real eu sabia que tinha sido, mas o que mais me espantava era o fato de que minha irmã tinha morrido quando era um bebê, eu ainda não era vivo, caso estivesse viva hoje seria ela uma mulher já feita.
    Mais uma noite veio e eu ansiava pela aurora e o calor do dia, pois se tinha algo que eu sempre dizia era: O mau não age na luz, seja o que for que dominava a escuridão na luz eles não poderiam me fazer mau, ainda no escuro, vislumbrei um lobo, sim, um lobo enorme e com olhos cinzentos que brilhavam, gelei, só o coração batendo enquanto meus olhos acompanhavam os seus lentos movimentos, e o suor começa a aparecer pela minha testa, ele andou e parou perto da lateral da minha cama, olhou-me nos olhos, sorriu, e sumiu, como fumo, e eu continuava a olhar e olhar, sentia os ombros tensos e o pescoço rigido, odiava aquela situação e não via a hora de crescer, pois quando se cresce as fantasias morrem.
    Nessa época meus pais levantavam cedo para ir trabalhar, como eu dormia na maioria das vezes com eles, ficava na cama até de dia e depois ia para casa da minha prima enquanto eles não retornavam, estava de férias no cólegio, não lembro a série, o fundamental  foi o período mais odiado por mim, e isso faço questão de não recordar, dos imbecis dos colegas, a implicancia, e o fato de estar sempre sozinho seja nas aulas ou no intervalo. Como ia dizendo eu esperava o dia adentrar para ir à casa da prima, ainda de madrugada, estava escuro, senti algo cutucar minha coxa, eu medroso já cerrei com força os olhos, tinha essa mania, achava que faria o indesejado desaparecer, nunca deu certo, descobri o rosto um pouco para espiar e me deparei com uma coisa sem rosto e de pela azul escura em cima de mim, nao gritei, nunca gritei(quem iria ouvir) apenas cobri rapidamente o rosto enquanto sussurava por favor, por favor, não sei quanto tempo havia se passado, quando olhei novamente a coisa tinha sumido, reparei pelas gretas da telha e vi luz, nunca me senti tão aliviado.
    Com o passar do tempo que fui crescendo, mudei para o quarto que fora construido para ser meu, no começo não queria, por causa do escuro, nunca disse a ninguém que tinha medo do “escuro”, mas a palavra de meu pai era lei, e eu obedecia, noite após noite e depois de um longo tempo nunca mais vi as coisas na escuridão, eu deitava e ficava encarando o canto entre as paredes, procurando um lobo ou esqueleto, mas nunca mais os vi, pensar nisso me fez me sentir sozinho, e eu fiquei confuso, detestava aquelas coisas bizarras que vinham toda noite me atormentar, só agora percebi que tinha me apegado à elas, eram monstros, mas estavam comigo e só partiam quando a luz ordenava.
    O que tenho hoje são sonhos, loucos e divertidos, sonhos de todos os tipos, as vezes os odeio, porque acordo e percebo que não passou de um simples e bobo sonho, mas eu me sentia tão bem que aquilo era mais real do que a realidade, aproveito ao máximo, até os pesados, pois um dia esses sonhos iram acabar, irei dormir de noite e acorda na manhã e saberei nesse dia que mais um amigo se foi, eram três, os monstros se foram sem eu nem notar a sua ausencia, sonhos ainda tenho, só temo o dia em que acabar e o terceiro e eterno amigo, que me aompanha para tudo conter lugar e sei, esse eu sei que nunca vai me abondonar a menos que eu faça primeiro. A solidão, pois não importa a ocasião eu sempre estou triste.
  • Escuridão

    O caminho era longo. Todo final de semana, ele pegava um ônibus em direção à Bérnaba, uma viagem que durava cerca de sete horas e meia. Fazia isso somente para ver a sua namorada e, após o final do mês, a sua noiva. Isso, é claro, se ela aceitasse o pedido que seria feito exatamente na data de aniversário de namoro.
    Normalmente não conseguia dormir durante a viagem. Mesmo quando estava muito cansado, cochilava e acordava constantemente. Às vezes era por causa de alguma dor no pescoço e em outras porque a sua cabeça encostava no vidro que, ao tremular, o acordava. Nessa, entretanto, conseguiu dormir profundamente. Agradeceu aos céus por ter conseguido comprar uma almofada de pescoço que o deixava sem dores e o impedia de colocar o seu rosto contra a janela.
    No meio da noite, acordou pela primeira vez. O ônibus parou subitamente no meio da estrada, todas as suas luzes apagaram e nada funcionava. Ainda sem compreender nada corretamente, ele esfregou os olhos e tentou ligar o celular para saber que horas eram, mas a tela continuava escura. Acabou acreditando que a bateria havia acabado e o guardou.
    Ainda em sua busca de descobrir o horário, abriu a cortina da janela e tentou achar algum indício do nascer do sol. Lá fora estava tudo extremamente escuro. A única coisa que conseguia enxergar era uma montanha já no horizonte. Ela parecia ser composta por três picos: o primeiro era maior que o segundo, e o terceiro era o maior de todos. A única cor que ela tinha naquela escuridão era o preto, mas não era um preto qualquer. A sua cor, que parecia como a de uma sombra mais escura do que o próprio preto, hipnotizava o seu admirador e parecia congelá-lo no tempo como se nada mais importasse.
    Ele ficou ali até ser interrompido pelo barulho da porta que os separava do motorista ser aberta. Ele pediu para que todos que estivessem aptos a empurrar o ônibus para irem lá fora e ajudá-lo a colocar o veículo no acostamento. O intuito disso era evitar acidentes já que a pane elétrica havia acontecido bem em uma curva e algum carro desatento poderia bater neles.
    Ele foi um dos primeiros a se candidatar para a tarefa. Fez isso mais para sair do ônibus do que para ajudar. Sempre odiou ficar em locais muito fechados, pois lhe causava um extremo desconforto conforme o tempo passava. Lá fora havia quinze pessoas de um total de vinte e nove no ônibus. Ninguém tinha lanternas, a não ser a do motorista que havia quebrado quando ele saiu do ônibus pela primeira vez. Não se enxergava muito bem, o alcance máximo devia ser de um metro ao forçar a vista. Ele não fazia ideia de qual era a fonte dessa pequena luminosidade já que não havia lua no céu e nem sequer uma estrela, mas a sua intuição acreditava que aquela montanha era a iluminadora.
    Ele se posicionou na extremidade esquerda da traseira do ônibus e usou toda a força que tinha para deslocá-lo. Inicialmente, ele andava muito lentamente, porém, em questão de segundos, o ônibus começou a andar rapidamente como se estivesse descendo uma ladeira. Nesse instante, com a mudança súbita de força necessária a ser aplicada, acabou indo para o chão. Sentiu uma dor nos seus cotovelos já que eles foram a primeira parte do corpo a atingir o chão, mas a dor não o abateu. Rapidamente, ele se levantou e começou a caminhar na direção na qual estavam empurrando o ônibus. Não conseguia enxergar nem o que tinha a trinta centímetros de distância, mas sentia que o terreno não era íngreme.
    Ele não conseguia achar o ônibus. O desespero começou a tomar conta da sua mente. Começava a cogitar que estava andando para o lado errado, então começou a girar lentamente e a gritar. Esperava que algum outro passageiro ouvisse e desse um sinal de onde eles estavam. Entretanto, o silêncio reinava. A montanha havia sumido junto com qualquer chance de se localizar por meio dela. A sua garganta já começava a doer de tanto gritar por ajuda. Os seus pensamentos começaram a implorar por uma resposta ou até mesmo para que um carro aparecesse com farol alto e o atropelasse. A escuridão, a falta de localização e de sinais de vida estavam começando a deixá-lo desesperado. O medo corria por todas as suas artérias, veias e capilares nesse momento.
    O medo aumentou quando sentiu alguma coisa correndo alguns metros atrás dele. A sua respiração começou a ficar mais curta por causa do medo. Aconteceu mais uma vez, porém dessa vez sentiu que ela passou pelo seu lado direito com uma leve brisa o atingindo. Começou a cogitar que podia ser a sua mente pregando peças nele. Essa paranoia devia ser muito comum em alguém em estado de pânico. Mesmo assim, ao sentir aquilo pela terceira vez e perceber que estava cada vez mais próximo, começou a correr o máximo que podia para a direção em que estava virado. Não sabia se estava na estrada ou saindo dela. Ele somente não queria parar, pelo menos não até se sentir minimamente seguro e isso significava ter alguma fonte de luz. Entretanto, isso não foi possível. Ele caiu, bateu a cabeça e desmaiou, não sabendo se algo o perseguia, o que o perseguia, se foi atingido ou se tropeçou.
    Acordou no ônibus. O sol brilhava com algumas poucas nuvens brancas prestes a encobri-lo. Via alguns pássaros do lado de fora cantando suavemente e conseguiu relaxar. Entendeu que tudo deveria ser parte de um pesadelo bem vívido, então tentou fechar os seus olhos e descansar um pouco. Apesar de inúmeras tentativas, os seus olhos permaneciam abertos. O desespero retornou. Tentou levantar os seus braços e tocar o rosto com as suas mãos, mas nada acontecia. Sentia que estava dentro do seu corpo, porém não tinha controle nenhum sobre ele. Não sentia parte alguma dele, embora estivesse vendo tudo. Era como se fosse um prisioneiro amarrado em uma cela minúscula tendo uma única janela para ficar observando o mundo lá fora.
    O ônibus parou. Sentia um desespero cada vez maior. Se tivesse controle sobre os seus pulmões, tinha certeza de que a respiração estaria cada vez mais curta quase a ponto de desmaiar. Mas não tinha e pensou se, algum dia e de alguma forma, conseguiria restaurar o controle sobre o seu corpo. As suas dúvidas aumentaram quando viu o seu corpo desafivelar o cinto de segurança, pegar a mala e sair andando completamente sozinho enquanto era um mero passageiro dos olhos.
    Quando viu a sua namorada na rodoviária, tentou pela primeira vez gritar por socorro. O som saia, mas somente na sua mente. A boca não se movia nem mesmo um milímetro. Queria chorar, mas lágrimas não saiam dos seus olhos. Nunca tinha sentido tanto medo na vida, nem mesmo durante a noite passada.
    Finalmente um som saiu da sua boca, embora ele não tivesse lançado comandos para isso. A fala era completamente normal e a conversa totalmente amigável, mas não era ele falando. Talvez a pior parte de tudo isso fosse a impotência que sentia. Nem mesmo fugir ou pensar em fugir podia já que de nada adiantaria.
    Durante o trajeto até a casa da namorada, começou a tentar a se acalmar e a elaborar hipóteses para o que estava acontecendo. A mais plausível, embora ainda considerasse difícil de ser a verdade, era que o medo que sentiu na noite anterior o tenha feito desenvolver alguma doença mental e ele ser a voz secundária de uma esquizofrenia ou uma outra personalidade de um transtorno dissociativo de identidade.
    Depois de muito tempo numa prisão na qual não podia fazer nada além de observar, chegou a noite e a hora de dormir. Durante todo o dia, nada de anormal havia acontecido. Tudo o que ele teria feito normalmente, o seu corpo fez. Agora teria que dormir, mesmo sem saber como, e desejar que tudo voltasse ao normal no dia seguinte.
    Em cerca de meia hora, o seu corpo desligou. No meio da noite, estava ligado novamente. Tinha sentado na cama de repente e com o movimento havia acordado. Verificou se tinha retomado o controle do corpo ao tentar piscar, mas ainda nada acontecia. Sentia um sorriso se formando no rosto e a sua mão lentamente indo para a mesinha ao lado da cama. Dessa vez, estava sentindo tudo o que fazia sem precisar olhar para nenhum lado. Sentia, embora não controlasse. A sua mão pegou uma caneta e o seu tronco se virou para a namorada que estava em um sono profundo. O seu braço levantou até acima da sua cabeça e depois desceu rapidamente em direção ao peito dela. Fez aquilo repetidas vezes. A caneta deve ter atingido o coração porque o sangue jorrava e diversas vezes respingava no seu rosto formando gotas que desciam pelo nariz e pelas têmporas.
    Ele fazia força para tentar retomar o controle, se concentrava ao máximo no braço para ver se ele parava, mas nada acontecia. Quanto mais esforço fazia parecia que com mais força segurava a caneta. Gritava com o máximo de força que tinha, mas o som só soava em sua mente. Queria chorar e sentia que estava fazendo isso, mas do seu rosto só descia o sangue dela que se depositava em sua testa. Sentia aquelas gotas quentes se formando como se água fervente fosse jogada na pele. Quando viu a caneta quebrando, acreditou que tudo pararia. Ela já estava morta, sabia disso mesmo que a sua mente ainda tentasse procurar algum resquício de esperança. Mesmo assim, o seu braço não parava. Finalmente, o desespero e o sofrimento fizeram com que desmaiasse. Talvez não fisicamente, mas pelo menos mentalmente.
    Acordou no dia seguinte na mesma posição em que tinha desmaiado. Ainda sem controle do corpo e, dessa vez, sem conseguir sentir os músculos. Quando a sua cabeça se moveu na direção dela, não viu nada de anormal. Ela estava lá, dormindo e sem nenhum sangue ou sinal de ferimento a sua volta. Não entendia como, mas estava feliz que estivesse daquele jeito.
    O dia foi tranquilo como os seguintes. Tinha anunciado para ela que ficaria a semana toda e, na sua prisão mental, ficou com medo do porquê disso. Descobriu o porquê nessa noite e nas seguintes. Novamente acordou no meio da noite e a matou cruelmente. A cada noite uma arma diferente era usada, podendo ser um abajur ou uma tesoura. Logo depois ele desmaiava devido ao terror e acordava no dia seguinte com tudo acontecendo normalmente.
    Entretanto, quando chegou na quarta noite, conseguiu manter a calma. Estava prestes a matá-la sufocada com o travesseiro, mas mesmo assim se manteve totalmente calmo. Repetia sem parar que tudo aquilo não era real. Deu certo, não caiu no desespero enquanto matava ela, mas, mesmo assim, desmaiou após ter terminado o serviço.
    Acordou no dia seguinte e ela já estava em pé. O sol batia no seu rosto e sentia a pele esquentar de forma bem suave e agradável. Pensou que tinha recuperado o controle, mas ainda não conseguia nem sequer mexer um dedo. Mesmo assim, pensou estar lentamente recuperando o controle. Sentiu os músculos se moverem enquanto se levantava e caminhava na direção da sua namorada. Seu braço direito levantou e acertou um soco bem no olho dela. Ela gritou de dor. Sentiu uma dor nos nós da sua mão e uma confusão atingiu a sua mente. Não era noite e ela estava acordada, portanto não via o porquê de está-la atacando. O desespero estava retomando o controle. Tentava pensar que não era real, mas era difícil quando tudo ou pelo menos os principais detalhes se modificavam. Mesmo assim, tentava se convencer de que era tudo uma alucinação.
    Quando tinha começado a se convencer disso, o que demorou menos de dez segundos, o seu corpo lançou novamente aquele sorriso e voltou a agredi-la com um chute na barriga. O seu pé sentiu o impacto. Logo em seguida, o seu corpo se montou em cima dela e começou a socar o rosto dela sem dar pausas. Os punhos doíam e sentia os ossos da face dela quebrando a cada golpe desferido. Mesmo assim, se mantinha calmo. Tinha certeza que logo desmaiaria, acordaria novamente e tudo estaria bem.
    O seu corpo parou de socar depois de uns vinte minutos de esforço físico ininterrupto. Estava ansiosamente esperando para a hora em que iria desmaiar, mas, ao invés disso, o seu corpo pegou o telefone e ligou para a polícia. Quando ele fez isso, passou a não entender nada. O sofrimento que sentia era gigantesco, então entendeu que tudo havia sido verdade. Pela primeira vez, o seu corpo permitiu que chorasse. Mesmo assim, parecia que o sofrimento só aumentava ao rolar de cada lágrima.
    Tinha sido preso e o seu corpo confessou o crime descrevendo cada detalhe. A parte que mais doeu foi quando falou que tinha gostado de fazer aquilo. A sua mente xingou o corpo com todas as palavras que sabia, mas de nada adiantava.
    Na prisão, ele arranjava briga com todos só para que a mente sentisse a dor física. O recorde dele fora da solitária ou enfermaria foi de somente dois dias. Chegou a matar algumas pessoas em brigas, mas já não ligava tanto como antes. O sofrimento que sentia por estar numa prisão dentro de outra prisão, em uma cela solitária dentro de outra solitária, já o tinha feito totalmente indiferente a tudo.
    A única boa notícia é que o corpo havia revelado o que tinha causado isso. Num sonho que tivera no primeiro dia de prisão tudo tinha ficado claro. Ele estava novamente correndo na estrada sem conseguir enxergar coisa alguma quando conseguiu ver uma placa da mesma cor da montanha que dizia “Bem-vindo a Escuridão!”. A escuridão havia consumido ele e talvez todos aqueles que estavam no ônibus.
  • Eu coleciono brinquedos

    Eu acho que já faz um mês. Eu coleciono brinquedos
    Acordei como mais um dia, a rotina de sempre; despertador às seis da manhã, um bom banho e um café reforçado antes de ir para o trabalho.
    Provavelmente você não saiba, mas eu tenho um hobby estranho (pelo menos o chamam assim), amo colecionar brinquedos antigos, amo acordar de manhã e olhar para a velha estante de madeira que fica no meu quarto com os brinquedos expostos, tenho diversas peças; carros, bonecos de ação, carrinhos de controle remoto, bonecas de pano… você entendeu... naquele dia eu jurei que havia algo diferente nela, como se alguns objetos houvessem sido mudados, mas a noite foi de um sono péssimo, a chuva na madrugada insistiu em balançar tudo lá fora e fazer todo barulho possível, se eu dormi 3 horas eu dormi muito, um homem com sono não consegue raciocinar direito, não é mesmo?
    A semana foi excêntrica. As madrugadas tiveram muitas chuvas, mas, graças a Deus, mais fracas que daquele dia, só que meu sono havia piorado, piorou tanto que as poucas horas que dormia eram a base de remédio, eu estava tomando doses cavalares de calmantes e durante o dia vivia a base de energético e remédios para dor de cabeça, todos os dias isso.
    Por sorte a semana terminou e finalmente era sábado, meus amigos viriam para tomarmos uma cerveja, jogarmos um pouco e conversar, costumávamos fazer isso toda semana, minha casa era considerada um “santuário” dos rapazes, sou o único que aos trinta anos ainda era solteiro, não tenho mais meus pais e nem irmãos, então minha casa era nosso lugar de ficar de boa, eu também gostava um pouco da ideia de quebrar a solidão do resto da semana com os amigos no sábado. Porém, quando estavam indo embora uma chuva forte começou, eles já haviam bebido então preferiram não correr riscos dirigindo no asfalto molhado, com isso decidimos fazer uma boa e velha “noite de adolescente”, posso dizer que foi uma noite incrível, nunca rimos tanto, nem bebemos tanto, quanto essa noite, mas como a chuva não passou dormiram em minha casa, deitamos as quatro da manhã e, diferente das últimas noites, logo eu dormi, apenas para ser acordado duas horas depois com um forte barulho e um grito. Saltei da minha cama para dar de frente com meu amigo caído no chão com a estante de brinquedos sobre sua perna, eu e os outros rapazes tratamos de tirar a prateleira, por sorte a chuva havia passado, apesar das ruas molhadas já estávamos mais sóbrios após o susto, então saímos para o hospital, por pouco ele apenas quebrou a perna, a prateleira era pesada, mas ele se livrou de algo mais sério, depois de tudo isso cada um foi para sua casa. Mais uma noite sem sono.
    Domingo foi um dia para arrumar minha coleção, por conta dela aprendi algumas coisas para o reparo dos brinquedos e para manter eles sempre em bom estado. Com a queda da prateleira alguns ficaram danificados, por isso passei o dia consertando alguns detalhes, sempre bom pegar aquelas relíquias que já foram de alguém e consertar, saber que além da sua história com aquilo, tem a história de outros, isso é algo que poucos podem sentir, pegar aquele velho Action Man e saber que… desculpe, me perdi em devaneios, não estou aqui para falar sobre meu hobby. 
    O que me chamou atenção foi encontrar uma velha boneca de pano, costurada a mão, ela já estava meio acabada, fiz questão de restaurar ela, apesar de eu não lembrar de ter ela, eu não vi problema, talvez fosse alguma boneca antiga da família da mulher do meu amigo que derrubou a prateleira, até porque, como ela cairia sem ninguém mexer nela? Bom, guardei esse pensamento para quando encontrar ele agradecer pessoalmente. Terminei os ajustes e já estava tarde, então fui dormir, tentar dormir para ser mais exato, mas a noite foi do mesmo jeito, regada a calmantes, não preciso nem dizer que passei mal o próximo dia inteiro, saí no meio do expediente direto para o hospital, o médico me disse que com o tanto de remédio que eu tomava teria uma overdose logo, ou como ele mesmo disse “Senhor, ansiolítico não é balinha, muito menos pílula mágica do sono.”, pouco me importei com isso, o cansaço me destruía, cheguei em casa rezando para poder dormir, mas me deparei com todos os brinquedos caídos no chão, eu vi, mas eu ignorei, deitei na cama e busquei dormir, estava morto de sono, mas não dormia, meu celular vibrou e vi a mensagem do meu amigo da perna quebrada, a mensagem era “Ei, eu acabei esquecendo de me desculpar. Eu vi aquela sua nova boneca de pano, sabe aquela meio antigona e surrada? Eu fiquei tão interessado que queria olhar de perto, espero que não tenha quebrado nada. Sinceras desculpas, qualquer coisa eu pago por o que quebrou.” fui perguntar aos meus amigos se alguém era dono da boneca e deixou lá, mas ninguém a conhecia, nunca viram ela antes, o resto dos dias foram eu digerindo o choque, acabei por não tocar nos brinquedos caídos… ainda nessa semana meu chefe quis conversar comigo, meu desempenho havia diminuído drasticamente e eu estava agindo estranho com os colegas de trabalho… fui demitido.
    Tudo isso em um mês… duas semanas? Eu nem sei mais que dia é… mas após essa notícia cheguei em casa destruído, meu corpo doía, minha cabeça doía, estava cansado, eu não sabia mais se tudo isso era real ou só um pesadelo, mas quando cheguei no meu quarto eu vi, no chão, os brinquedos que antes estavam caídos agora estavam destruídos, com exceção daquela boneca, minha mente se desligou, eu pisei nos brinquedos e rasguei tudo que fosse de pano, juntei em um saco plástico e joguei no lixo, quando voltei pro quarto percebi ter esquecido aquela boneca desconhecida, minha mente queria soltar suas frustrações, ela queria culpar essa boneca por algo, então peguei uma caixa de sapato, coloquei a boneca dentro e enrolei com fita adesiva, quando terminei me olhei no espelho do meu quarto e vi aquele homem estranho, cabelo bagunçado, olheiras profundas, sorriso cínico… era eu, peguei a boneca e corri para o carro, fui juntar o útil ao agradável, dirigir pra me acalmar e arremessar aquela caixa no rio mais distante possível, ela não merecia o fim no lixo, eu queria fazer algo mais… dramático… é. Depois disso dirigi mais um pouco e voltei para casa, vi que o correio havia jogado uma caixa para dentro do quintal de casa, provavelmente algum dos brinquedos novos que havia pedido “o primeiro Max Steel, finalmente” pensei para mim, agarrei a caixa e levei para a minha mesa de reparo, meu objetivo era consertar o Max Steel e dar para uma criança, talvez juntar outros brinquedos e doar…
    Agora eu estou escrevendo isso, espero que alguém possa ler… eu abri o pacote… eu estou olhando para essa merda de caixa ensopada cheia de fita adesiva sobre minha mesa, eu não consigo fazer mais nada a não ser registrar o que penso, como fizeram isso? Quem fez isso? Eu não vou mais encostar nessa caixa, vou tomar meus remédios e dormir.
    Homem. 32 anos. Causa da morte: Overdose.
    Uma caixa encharcada foi encontrada vazia em seu quarto.
  • Febre

    Aquela região seca não encanta ninguém a um olhar de relance. Mas, obrigados, eu e Edgar, a pararmos devidos alguns problemas no veículo, contemplamos a água que ao cair do céu, não molhava o chão. Tocávamos os galhos retorcidos para comprovarmos se estavam molhados, mas não.  A água escorria, mas a areia continuava seca.  Segundos antes, se soubéssemos daquele raro fenômeno, não teríamos passado horas em vão dentro do carro, visto que a chuva, estranhamente, também não nos encharcava.
    Fez-se noite. Sinto, repentinamente, minhas costas deitadas em algo macio.  Um homem, cuja brancura da roupa ofusca meus olhos, emerge da escuridão. Aproxima-se de meu amigo e pergunta-lhe o porquê de estarmos aqui. Edgar, calmamente, responde problemas mecânicos. Vejo a lataria do carro deformar-se. Edgar também, contudo, nada demonstra. Outro vulto áureo surge da escuridão, aproxima-se de mim. Não vejo mais Edgar. Ele toca-me. Meus olhos estão sangrando agora. O vidro do carro estilhaça-se. Não sinto mais o meu próprio corpo. Ele pergunta-me algo, entretanto, não compreendo o que diz.
    Depois, uma multidão de vultos emerge da escuridão. Um caminha em direção a uma criança, antes ignorada pelos meus olhos. O carro capota, vê-se indício de fogo. O homem, brutalmente, arranca dos braços da menina morta uma boneca. Depositando o cadáver no saco preto, priva-a dos cuidados de sua pequena mãe.
    A chuva continua, os vultos estão molhados. Subitamente, vejo inúmeros outros carros parados, outros capotados. O carro de Edgar não mais existe, o fogo já o devorou. Meu coração não mais bate. Acordo, tudo está escuro. Levanto-me à procura de luz. Apesar de uma singela tontura, encontro-a. Ao acendê-la, deparo-me com os corpos de Edgar e da menina. Eu não estava morto. Recordava-me do acidente. Chovia. Abri a janela. Toquei na água que escorria, minha pele permaneceu seca. Escuto alguém bramando lá do fundo do corredor, caminho na sua direção. Mas, à medida que buscava aquela voz, meu corpo desfazia-se, ela, mais intensa, rachava as paredes do local. As paredes precipitam-se. Sou soterrado. Escuridão. Acordo. De relance, contemplo minha mãe, da porta do quarto, gritando a fim de que eu, ainda que argumentando não poder levantar-me em decorrência de relevos de febre, acordasse mais cedo e não perdesse o horário da escola.
  • FELICIDADE NA DOR: PARTE 1

    Flávio estava deitado no sofá de casa assistindo uma partida de futebol. Seu time em noite inspirada vencia e convencia. Em dado momento a campainha tocou, aborrecido por desgrudar os olhos do jogo foi atender. Era a sogra Carmen, alinhara com Julia de lhe aguardar pós trabalho. O casal havia se mudado a pouco e a moça aceitou a ajuda da mãe para arrumar alguns objetos. Notou de imediato o clima festivo do alucinado torcedor, pois seus olhos brilhavam eufóricos, a recepcionou com um abraço e não querendo  incomodar tratou de ir para a cozinha.  As tarefas pareciam óbvias afinal eram copos, talheres dentre outros intensílios necessitando de organização.

    Eram vinte e duas horas e trinta minutos, enquanto organizava as coisas Carmen ouvia os gritos do genro alucinado.  A vizinhança colaborava afinal o time era popular na cidade. A exibição de gala merecia gritos, xingamentos e toda espécie de desabafo. Talvez aquela não fosse a ocasião propícia, olhou para a bolsa trazida a tira colo e buscava decidir se faria ou não aquilo. Os pensamentos a levaram, momentos inesquecíveis e não teria volta.

    O time fez mais um gol, necessário para classificar a próxima etapa do torneio. Eram fogos de artificio, buzinas de carro e todo tipo de som para comemorar. Flávio embalado seguia em puro extase e a roquidão tomou conta.  Carmen a cada explosão sentia o corpo flamejar, as mãos tremulas, suor e mente desgovernada. Foi quando levantou da cadeira, pegou a bolsa e foi até a sala. A aproximação foi notada e ao virar-se percebeu a sogra tirando algo, era uma arma calibre trinta e oito. Foi tudo muito rápido e quando menos esperou já havia recebido três tiros no peito. A atiradora chegou perto e observara o corpo estirado. Ele susurrava por socorro, o medo estampado no olhar enquanto dava os últimos respiros.  E a sogra ali, com certo prazer, feliz, mesmo observando dor.

    CONTINUA...
  • Fractal

    images
    Uma nova explosão de energia surge na borda exterior do universo, iluminando-o com cores brilhantes de vermelho, azul e amarelo. Eu observo a criação de uma nova galáxia da escotilha recém-consertada da minha nave enquanto começo mais um turno de reparos no tecido do espaço-tempo. “Uma xícara de café quentinho é a melhor maneira de começar mais um dia solitário nas fronteiras do espaço conhecido”, é o que dizia meu pai.
    Meu trabalho não é dos melhores, costurar tecido de realidade é um serviço tão aquém do que eu realmente gostaria de fazer, que era explorar as zonas externas, mas é o que sobrou para um dos cinco últimos fractais do universo desde que a praga alcançou minha civilização. Penso que não deveria estar aqui porque não sou o mais inteligente dos fractais... minhas notas na academia eram péssimas e de longe eu teria que me ocupar de uma função importante para os milhares de seres que ocupam o espaço.
    Pi! Pi! Pi!
    O bip do alerta de segurança apita, imagino que ainda preciso verificar as condições do tecido residual que se soltou quando um ser interdimensional tentou rasgá-lo ontem. Que droga! Essas criaturas tiram minha paz. Digito o velho código e...! O computador de bordo liga fazendo uma varredura completa do espaço criando um mapa holográfico que indica pontos probabilísticos de um incidente ou outro. Um deles faz a cor do mapa ficar vermelha, é a localização da zona morta da borda interna, um espaço de confinamento para o planeta Fractal, meu lar.
    Imagino que Solafta deveria estar responsável por esse setor. Será que somos apenas quatro agora? Não é possível, ela é uma das veteranas que restaram da colônia de Júpiter no quadrante da Via Láctea. Bem, de qualquer forma só poderei ficar em paz com o alerta se verificar a causa dele.
    – Computador, ligar propulsores para hipersalto, seguir coordenadas da nave de Solafta. Destino: planeta Fractal!
    Minha nave range com a propulsão dos motores de matéria escura. Parece que a carcaça da velha Gideon não vai aguentar muitos saltos pelas realidades. Por isso é melhor reduzir os ciclos para 109. Dessa forma não correrei o risco da minha nave se desintegrar na reentrada da realidade. O computador de abordo anuncia com sua voz mecânica que o salto está pronto e aguardando pelo meu comando.
    – Hipersalto liberado!
    A nave se desloca a 300 mil quilômetros por segundo antes de perfurar o tecido da realidade. Na dimensão de passagem, há apenas um borrão de cores, estou viajando entre as eras espaciais. O rangido da estrutura aumenta consideravelmente. O salto durará 45 segundos, tempo suficiente para que alguns parasitas de matéria corram atrás da nave. Computador, ligue o campo de energia. Eu não quero que nosso combustível acabe no meio da viagem. Os parasitas são um perigo para qualquer viajante do espaço. As esguias criaturas deslizam pelos propulsores, e com aquelas ventosas eles consomem toda matéria que serve de combustível. Quando pequeno, meu pai ficou preso na dimensão de passagem porque sua nave foi infestada de parasitas.
    Perigo! Perigo!
    – O que houve computador?
    Choque iminente! Perigo! Perigo!
    Como esqueci disso, eu não liguei o simulador de colisões hoje. Que droga! Qual a chance de impacto, computador?
    85% - 90% - 95% - 100%!
    Boom!
    O borrão da dimensão de passagem dá lugar a uma infinidade de pedaços de metal retorcido e fios.
    – Computador, qual a situação?
    Realizando varredura... pós-choque!
    Computador inútil, isso eu sei. Abro a escotilha da janela da sala de navegação. Lá fora há uma nave partida ao meio. Centenas de seus pedaços flutuam pelo espaço. Não há planeta próximo, sequer há sinal de galáxia. Como é possível que haja outra raça que viagem entre as bordas? Seria Solafta? Computador, faça uma varredura.
    Procurando forma de vida... confirmado!
    O alerta da Gideon soa outra vez. O velho pi, pi irritante. Qual o diagnóstico, computador?
    Forma de vida baseada em caborno...
    Respiração celular...
    Risco iminente de vida.
    Não acredito que pus a vida de alguém em risco. Computador, envie a direção para meu traje de costura.
    A interface holográfica mostra uma ampulheta girando com a seguinte mensagem abaixo:
    Enviando dados...
    10% - 20 % - 30% - 40% - 50% - 60% - 70% - 80% - 90% - 100%
    Upload completo.
    Saio da sala de navegação e corro para o compartimento de exploração. Passo por um corredor interminável de tubos de resfriamento. A Gideon é uma nave industrial, não é nada confortável morar nela. Entro no vestiário com os trajes pendurados. Coloco primeiro o capacete inteligente, verifico se todas as conexões com a Gideon estão funcionando. Tudo certo. Coloco o resto do traje, um tipo de tecido sintético escuro. Minha roupa foi desenhada para suportar o frio das bordas do espaço. Estou pronto. Sigo para a saída. Abrir escotilha, computador.
    A nave range e algumas luzes piscam, será que houve baixa de combustível? Dou um salto e... pronto. Estou flutuando no espaço. Olho no visor do capacete a trajetória até achar a forma de vida. A coisa está atrás de uma pilha flutuante de destroços. Vou me aproximando e desvencilhando de obstáculos. Sinto que estou suando por causa disso, o que irei encontrar, afinal? Quando me desconcentro um pouco, um pedaço de carcaça vem em minha direção. Sinto o metal bater nas minhas costas. Sou empurrado com o impacto.
    Meu traje avisa que estou fora da rota. Uso minhas mãos para girar em torno do objeto que me acertou e volto a flutuar tranquilamente. O visor do capacete mostra que estou a 50 m – 45 m – 30 m – 25 m – 20 m – 15 m – 10 m – 5 m – 1 m – cheguei.
    Um corpo humanoide flutua preso a uma poltrona ejetada da nave destruída. Aproximo-me e solto seu cinto. A cadeira daquele astronauta segue flutuando pelo espaço. Amarro seu corpo em volta do meu e retorno para minha nave pedindo para que o computador prepare a sala médica. O retorno é relativamente tranquilo, consigo reduzir minha atenção dos destroços. A escotilha da Gideon se abre lentamente, posso vê-la.
    O capacete redondo e o traje branco não são conhecidos do meu catálogo de raças exploradoras. Sem perda de tempo eu sigo para a sala médica. Os equipamentos de suporte à vida estão ligados conforme minha ordem ao computador. Ponho o corpo sobre a mesa, preciso remover seu traje. Retiro o capacete do visitante. Não é possível! Fico assustado com o que vejo: uma humana de cabelos castanhos desmaiada. Pego minha lanterna médica e abro um dos seus olhos. Sua posição revirada indica inconsciência por trauma físico.
    Pi! Pi! Pi!
    – Droga! O que foi, computador? Essa joça não responde nada direito.
    Pi! Pi! Pi! Alerta, alerta.
    Informe o ocorrido, computador. Sem resposta, preciso voltar à sala de navegação. Deixo a humana na sala médica e volto correndo para a sala de navegação. As luzes da nave passam de brancas para vermelhas. A voz mecânica do computador avisa que a Gideon entrará em modo de segurança. O que poderia estar acontecendo?
    Chego na sala de navegação e começo a digitar comandos no painel de controle. O computador abre sua interface holográfica, o pi, pi do alerta de segurança é ensurdecedor àquela altura. A escotilha da janela vai abrindo lentamente. Dou de cara com algo estarrecedor, lá fora, o tecido do espaço-tempo está se desfazendo como papel em chamas. É possível ver galáxias sendo puxadas pelo vácuo do exterior. Computador, qual o diagnóstico?
    Rasgo do tecido do espaço-tempo irreversível.
    Impossível! Eu saí apenas por alguns instantes. Sento em minha cadeira que por anos testemunhou meu trabalho ininterrupto e curvado apoio minha cabeça sobre minhas mãos para pensar.
    O computador de bordo avisa com sua chata voz mecânica: alerta de intruso! Alerta de intruso!
    Dou um salto da cadeira e observo a humana passando pela porta, ela chega perto de mim e em sua língua primitiva, diz:
    – Desculpe-me pelo o que aconteceu.
    Relaxo os ombros e a convido para perto de mim. Ela caminha lentamente enquanto a Gideon dá solavancos. Nos viramos para a janela e, amedrontados pelo o que estamos vendo, choramos silenciosamente juntos pela morte do espaço.
  • Guerreiros das Sombras

    A reunião já se estendia por horas afinco de debate e todos se mantinham concentrados em tudo o que estava sendo falado. Um pequeno detalhe poderia fazer toda a diferença. Até que um estrondo vindo da porta da frente deixou todos alarmados e alguns se colocaram imediatamente em posição de combate. A porta da frente havia sido arrombada e um rapaz careca de pouco mais de vinte anos, surgiu com o corpo de perfil. Três outros rapazes se juntaram a ele.
             - Quem são vocês e o que querem!? – Disse o líder do grupo, um rapaz de pouco mais de vinte anos e com os fios de cabelo espetados.
             - Queremos sangue. – Respondeu o jovem careca, de forma maliciosa.
             - É muita petulância de vocês virem até aqui... Mas foi bom, nos poupou o trabalho de procurá-los.
             O rapaz careca mostrou um pequeno sorriso, deixando em evidência suas presas afiadas.
             - Isso vai mostrar aos outros que nenhum amaldiçoado é páreo para os Amorfs.
             O jovem caçador voltou o olhar para os seus companheiros e em seguida falou.
             - Eu cuido deles sozinho.
             Sem qualquer arma em mãos o jovem caçador se lançou para atacá-los e imediatamente os três vampiros, que acompanhavam o rapaz careca, se lançaram para o confronto. Aos olhos de qualquer um aquela não era uma luta muito justa, mas não para o jovem caçador ou para os seus companheiros, que estavam acostumados a entrar em um confronto sempre em desvantagem.
             As três criaturas o atacavam ao mesmo tempo, obrigando-o a redobrar a atenção para não ser ferido com gravidade. O caçador deu um salto mortal para trás de um dos vampiros e rapidamente sacou uma estaca, que estava presa a cintura, e golpeou a criatura fatalmente. Os outros vampiros lançaram um olhar raivoso e desferiram um ataque duplo contra seu adversário, que conseguiu se defender habilmente. O vampiro mais alto o atacou com um soco, bloqueado pelo guerreiro, em seguida o caçador o segurou pelo braço e o jogou contra a mesa. Um dos caçadores se aproximou da criatura, pegou um pedaço de madeira do chão e desferiu um golpe fatal.
             O único vampiro ainda de pé soltou um curto urro enquanto partia para atacá-lo. Desferiu um soco contra o caçador, atingindo apenas um espaço vazio, em seguida o golpeou com outro soco, atingindo-o na face e fazendo-o dar alguns passos desequilibrados para o lado. O caçador passou as costas da mão no canto da boca, limpando um pequeno filete de sangue e voltou a encará-lo com o olhar raivoso. Ele se lançou para atacá-lo e desferiu uma sucessão de socos contra seu agressor, todos bloqueados pelo vampiro, que em resposta o golpeou na face. O caçador o atingiu com um chute na altura do pescoço jogando-o contra o solo, e rapidamente pegou sua estaca. Saltou sobre o corpo de seu oponente, cravando-a em seu coração.
             O rapaz careca que, junto com os demais, apenas observava o confronto, começou a bater palmas caminhando na direção do caçador. Todos os guerreiros lançaram um olhar curioso para o vampiro, que sorria com a situação.
             - Meus parabéns, você acabou de matar três jovens vampiros que não demonstraram ter tanta serventia. Espero que não esteja cansado, seria uma pena perder toda a diversão. – Olhando-o com sarcasmo.
             O rapaz soltou um assobio estridente e um grupo de vinte vampiros e vampiras adentraram o local, todos armados com espadas e pistolas automáticas. O caçador se juntou aos demais e olhou para o grupo a sua frente, apreensivo. Uma das vampiras, que segurava duas espadas, se aproximou do rapaz careca e as entregou a ele.
             - Que comece a festa. – Com o olhar malicioso.
    Curioso?
  • Iniciando o pecado

    Por sorte conheci Ângela.
    Era magra, um pouco alta, loura, seus cabelos caiam sobre seus ombros com leves ondulações, era branca, suas bochechas eram rosadas, seu nariz avermelhado e lábios finos com um tom bem claro.
    Era adoravelmente simpática, seu sorriso era bem quadrado, como se fosse uma dentadura. Estava no segundo ano de medicina. Só sabia falar sobre isso.
    Falava como o cheiro hospitalar era viciante. Contava curiosidades sobre o corpo humano. Explicava sobre as partes inúteis do corpo.
    Era engraçada.
    O clima ficou tenso quando começou a falar sobre seu ex. Um cara qualquer. Futuro advogado. Um babaca que queria que ela desistisse da faculdade.
    Eu não me importava com nada que ela dizia.
    Mas queria me importar. Seus olhos claros, verdes ou azuis. Não lembro. Eram tão bonitos, tinham um brilho. Como se a vida dela até aquele ponto fosse tudo perfeito. Mas não era.
    Há alguns meses sua irmã ficará paraplégica num acidente de carro. Algo que me fez sentir mais próximo dela, já que tínhamos isso em comum.
    Seu foco na área, era descobrir um meio de fazer sua irmã voltar a andar.
    Ela tinha fé, mesmo dizendo não acreditar em Deus. Diferente dela, eu tinha uma crença enorme no pai divino. Eu era o escolhido. O filho de Deus.
    Minha avó começou a me levar para a igreja após a morte da minha mãe. Dizia que encontraríamos a paz lá. Encontrei a paz alguns anos depois numa missão divina.
    Ângela me perguntou sobre meu passado. Inventei uma historia, onde eu tinha uma família perfeita, feliz e viva. Contei coisas engraçadas sobre minha mãe. Contei sobre o arroz que ela queimou uma semana antes.
    Tudo mentira. Ângela ria.
    A festa já havia começado. A conversa estava tão boa que nem percebemos.
    Umas trinta pessoas estavam ali. A casa não era grande, tendo apenas um quarto, sala, cozinha e banheiro. Não era muito confortável, os cômodos eram minúsculos. Mas aconchegantes.
    Percebi que Ângela foi conversar com outros amigos. Fico sozinho. Algumas pessoas que passavam por mim, falavam comigo e ofereciam bebidas. Mas recusei. Jamais havia bebido álcool.
    Tentam puxar assunto, mas ignoro-as. Vejo os passos de Ângela, observo aquele sorriso saltar de conversa em conversa. Com a mão direita ela coloca uma mexa do cabelo atrás da orelha. Olha-me e sorri. Então some na multidão.
    A música esta cada vez mais alta. As luzes coloridas fazem minha visão ficar turva. De repente alguém grita ao pé do meu ouvido.
    “Quer ir ao quarto?” – era Ângela, rebolava e bebia uma bebida colorida.
    “Fazer o que?” – Pergunto... Atualmente me envergonho disso.
    Ela se inclina e me responde com um beijo.
    Um beijo de língua, sinto o sabor do álcool, mas não recuo, sinto o calor da sua língua, dança na minha boca.
    Beijo termina. Ela sorri.
    Agarra minha mão me puxa em direção ao quarto. Minúsculo quarto.
    Meu coração estava batendo o mais rápido possível. Ela abre a porta branca e entramos naquele pequeno espaço, com uma cama que tem um abajur na cabeceira, uma arara com diversas roupas espalhadas. Sobre a cama, estava um cara de porte físico bem atlético, junto de uma garota ruiva, totalmente nus.
    Ângela faz sinal para que saiam, foi quando notei, que ela era a dona da casa.
    Os dois obedecem, sem retrucar. Saem e fecham a porta.
    Ângela ri. Começa a dançar.
    Sou virgem. Ela sabe disso. Segura minhas mãos e põe sobre em sua barriga. Estava quente.
    Ainda segurando minhas mãos, sobe devagar sobre aquele seu corpo macio, fazendo com que eu tire sua camiseta. De sutiã preto ela rebola.
    Aquele excesso de informações, misturado com a bagunça que meus hormônios faziam dentro de mim, me deixava meio perdido.
    “O que eu faço?” Pensava frequentemente. Mas Ângela me dava às direções.
    Soltará o sutiã. Aquele belo par de seios do tamanho de maçãs, me fez vidrar ainda mais naquele corpo. Belas maçãs rosadas. Ela continua controlando minhas mãos. Passa elas sobre as maçãs, meu corpo esquenta. Ela mordisca meu lábio e se entrega num beijo estalado. Um beijo forte, com fogo e paixão.
    Ela deita. Olha-me nos olhos.
    Como se meu cérebro tivesse recebido instruções através daquele beijo, ele passa a fazer tudo automaticamente. Passo minha língua naquelas belas maçãs rosadas, desço pela sua barriga e abro seu short. Retiro-o e fico olhando para sua calcinha roxa com lacinho preto.
    Sem pensar duas vezes retiro toda minha roupa, não me importo em ficar nu. Deito sobre aquela garota de seios rosados, ela esta toda nua agora. Faço os movimentos no quadril como se estivesse programado no meu instinto.
    Movimentos repetidos. Corpos quentes.
    Sinto suas unhas arranharem minhas costas. Passo a mão em seu rosto. Em seu cabelo. Em seus braços, peitos. Beijo seu pescoço. Ela me agarra com mais força.
    Acelero o movimento. Ida e volta sem pausa.
    Novamente ela segura minha mão, leva até seu pescoço, o seguro e a beijo. Beijo firme.
    Ida e volta. Vai e vem sem pausa.
    Ela se contorce de prazer. Suas unhas arranham minhas costas, mais e mais. Suas pernas se contraem. Ela geme. Gemido abafado.
    Sinto minhas costas arderem. Seus olhos estão revirados e sua boca aberta.
    Gozo.
    Então foi quando percebi. Ela estava sufocando. Já havia sufocado, estava morrendo. Suas mãos caem sem força sobre a cama.
    Penso em pedir ajuda, mas minha voz não quer sair. Aqueles lábios que me beijavam há pouco tempo atrás estavam arroxeando. Ela não se move. O abajur na cabeceira da cama havia caído por causa do vai e vem.
    Entro em pânico. Corro para o banheiro e vomito. Vomito muito. Sento ao lado do vazo e começo a chorar.
    “O que houve?”
    “O que eu fiz?”
    Essas perguntas varriam minha mente. Eu precisava de ajuda. Ninguém me ajudaria. Minha avó ficaria louca. Choraria sem parar.
    “Você se tornou como sua mãe.” – Diria ela gritando e tentando furar o cerco policial.
    Eu estava sozinho. Ninguém poderia me consolar. Mas no meio daquele choro, tive forças para ficar em pé. Deixo o corpo do meu corpo sobre a pia, enquanto me olho no espelho. Vejo meu reflexo. Aparentava ser bem mais jovem. Cabelos bagunçados, nada de barba e olhos inchados. Aquela imagem me faz rir. Estar totalmente em pânico e não ter nenhuma saída, me fazia rir.
    Rir era a única coisa que poderia me ajudar.
    Penteio o cabelo com um pente que estava ali. Estou mais calmo. Respiro fundo. Mesmo sem entender o que aconteceu. Sorrio para o reflexo e ele me imita.
    Volto para o quarto.
    Ângela ainda esta lá. Nua e linda. A luz reflete sua pele pálida. Deito-me ao seu lado. Aconchego minha cabeça sobre seu ombro.
    “Como isso aconteceu?” – Pergunto a ela.
    “Perdoa-me, ok? Foi sem querer” – Tento me redimir com ela.
    A cubro para que não sinta frio. O som estava bem alto, poderia atrapalhar seu sono.
    Sono profundo.
    Sua boa ainda esta aberta, assim como seus olhos, que mesmo revirados são lindos.
    “O que eu fiz?”
    “o que estou fazendo?”
    Minha mente esta tentando me trazer para a realidade. Matei mesmo aquela garota. Sem motivo algum.
    Matei por ela ser linda? Não.
    Matei por que me apaixonei? Não.
    Não havia explicação, apenas duvidas. Coloco minha roupa e a visto também. Desculpa Ângela. Coloco seu corpo no meio das roupas que estão jogadas na arara. E me despeço. Sinto vontade de beija-la, mas minha sanidade ainda falava comigo. Ainda
  • Janela

    Há pelo menos uma coisa que todos os humanos, sem distinções, fazem com frequência: dormir. Isso é algo bom, saudável e almejado, principalmente depois de um dia longo de trabalho. Entretanto, tudo isso tem um problema. Afinal, como saber como é não estar dormindo?
    A maioria das pessoas acredita saber quando está acordada por simplesmente terem nascido sabendo. Há aqueles que acreditam inclusive que conseguem controlar o sonho, então, se não podem controlar outra realidade, logo não é um sonho. Entretanto, não pode ser possível que a pessoa esteja em um sono tão pesado que ela simplesmente tenha perdido o controle sobre o seu subconsciente?
    João não pensava muito nessas possibilidades. É claro, já estava dormindo menos de três horas pelo quarto dia seguido quando finalmente terminou o seu projeto para a faculdade, então não pensava em muitas coisas fora isso. Não se lembrava ao certo de como acordou, se passou desodorante ou se escovou os dentes, mas isso era normal já que essas eram somente partes corriqueiras do dia e não estavam incluídas na ação do cotidiano. Uma ação que era monótona, mas que movimentava intensamente os seus sentimentos e causava tanta agonia em certos momentos que chegava a se assemelhar a um pesadelo.
    Assim que enviou o arquivo com o seu trabalho para o e-mail do professor, foi dormir. Não queria pensar em mais nada por umas doze horas seguidas e, por isso, somente se jogou na cama, se cobriu com um cobertor que não estava cheirando tão bem e fechou os olhos. Não precisou se dar ao trabalho nem de relaxar os músculos ou ficar pensando em algo para pegar no sono, simplesmente dormiu.
    Quando acordou, não se lembrava de ter sonhado algo. Tudo ao seu redor estava escuro, mas estava sonolento demais para se importar. Ele estava se sentindo bem mais relaxado e totalmente renovado, embora ainda sentisse a preguiça de ter acabado de acordar. No momento exato em que se levantou, todas as luzes acenderam. Não estava mais no quarto em que foi dormir, mas em uma cabine com paredes totalmente brancas. Não havia portas ou janelas, somente as quatro paredes que o confinavam em um espaço minúsculo. A sua respiração se encurtou com o medo e começou a pensar rapidamente nas possibilidades da causa de estar onde estava. Pensou desde abdução até um teste ilegal do governo e só depois disso pensou na possibilidade de ser um sonho. Essa era a resposta, tinha que ser isso. Mas, ao pensar mais um pouco, não parecia ser um sonho. Afinal, tudo parecia real demais, tanto que sentia a textura lisa e macia das paredes ao tocá-las.
    Não conseguia entender nada com total certeza e isso o frustrava. Com os olhos cheios de lágrimas que se recusavam a descer, ficou rodando o minúsculo lugar em que se encontrava para tentar solucionar o maldito quebra-cabeças em que estava. Quanto mais rodava, mais se esquecia dos detalhes daquela realidade que julgava ser a real. Toda a sua família, embora conseguisse ver com clareza o rosto de todos, parecia ser uma lembrança distante e quase tudo que pensava saber sobre eles não parecia totalmente certo. Sobre o seu irmão mais novo, por exemplo, ele se lembrava de ter ido na formatura dele da faculdade, mas agora, por algum motivo, sentia que ele era muito mais novo do que isso. Por não saber mais se poderia confiar na sua memória, a raiva gerada pela frustração começava a aflorar.
    No momento em que pensou que não sabia mais quem era, percebeu que o eu dessa realidade também não se lembrava de muitas coisas. Isso não era muito animador já que podia haver diversos motivos para ter tido perda de memória e aquilo ter sido o subconsciente tentando lembrá-lo de algo por meio de um sonho. Mas, de algum modo sútil, indicava que não podia confiar em nenhuma das duas realidades já que ambas podiam ser verdadeiras, nenhuma delas ou somente uma delas.
    O único jeito de saber no que confiar era testando a realidade em que estava. Não podia saber se o primeiro cenário era real porque agora só estava em suas memórias, mas ele estava no segundo cenário. Buscou em sua mente todas as lembranças sobre coisas que falaram de sonhos, embora não conseguisse saber nem quando, onde ou quem havia dito essas coisas. Lembrou-se de diversas coisas e por elas sabia que era difícil ler em sonhos por tudo estar embaçado e mudar de repente, que normalmente se sonha com locais conhecidos, e que, quando se percebe que está sonhando, é fácil de controlar o que acontece a sua volta. Infelizmente, só restava a última possibilidade já que não tinha nada para ler e com certeza não conhecia o local em que estava.
    Decidiu sentar em cima dos seus joelhos porque sabia que essa era uma das posições de meditação e com certeza iria necessitar da máxima concentração possível nessa hora. Fechou os olhos e imaginou aquelas paredes brancas explodindo e uma ilha paradisíaca surgindo a sua volta. Abriu os olhos estando mais calmo e relaxado. Quando terminou, a decepção caiu sobre a sua mente uma vez que tudo estava exatamente igual. Tentou repetir todo o processo e de diversas maneiras: olhos abertos, em pé, deitado e em mais umas outras dez posições. Nada. Absolutamente nada. Tentou também mudar a realidade dentro do quarto branco ao imaginar objetos e diversos possíveis superpoderes que queria ter. O máximo que conseguiu foi se sentir como uma criança de oito anos após assistir ao x-men e acreditar que talvez também pudesse ser um mutante.
    Todas as tentativas o deixaram exauridos mentalmente e sentimentalmente. A combinação gerou a raiva e essa fez ele começar a esmurrar as paredes com total ferocidade. Depois de uns vinte minutos socando o chão, o teto e cada uma das quatro paredes, atingiu um local que não havia nem encostado até aquele momento. Seria na altura de um interruptor e longe o suficiente da quina formada no encontro das duas paredes para que fosse construída uma porta se essas coisas existissem no quarto.
    No exato momento que atingiu esse suposto interruptor, uma das paredes começou a se levantar. João correu até ela pensando que podia ser uma saída. Entretanto viu que se tratava de um vidro cuja espessura não conseguia identificar. Assim que a parede parou de subir ao atingir o teto, uma vista surgiu através do vidro. Nunca tinha visto uma imagem como aquela. Estava na beira de um penhasco num dia ensolarado, talvez no meio da manhã, e de lá via um rio que vinha atrás de onde aquele quarto branco estava, passando distante o suficiente à sua direita para não simbolizar um perigo. Descia o penhasco em uma alta cachoeira e lá embaixo se tornava uma rápida corredeira até que entrava em uma floresta como um rio calmo e de correnteza não tão forte. Essa floresta não era muito densa, sendo composta principalmente por pinheiros. No fim de um mar verde de árvores, havia uma cordilheira de montanhas com um tom levemente azulado e com neve no topo da maioria delas.
    Ficou admirando aquela paisagem durante alguns minutos. Era extremamente reconfortante enxergar aquilo tudo depois de passar sabe-se lá quanto tempo somente vendo a cor branca. Depois de se acalmar, começou a encostar em cada parte do quarto em busca de algum outro botão. Afinal, se existia uma janela poderia existir uma porta. Provavelmente horas se passaram, mas a única coisa que conseguiu foi o fracasso. Deve ter percorrido todo o quarto umas cinco vezes antes de desistir sem achar nada.
    Após desistir, ficou muito tempo sentado na extremidade oposta a janela encarando a paisagem. Novas questões começaram a atormentar a sua mente: será que isso é mesmo uma janela? Não pode ser uma televisão? Essa seria a saída? Se fosse um sonho, durante a queda ele acordaria? Se não acordasse e morresse no sonho, morreria na sua outra vida? E se essa fosse a realidade, acabaria por se suicidar sem querer? A cada nova pergunta e possibilidade que surgia, abaixava a cabeça e colocava as mãos nos ouvidos os pressionando. Sentia o tormento de ter que tomar uma decisão importante. Então, esperaria para tentar recuperar pelo menos mais um pouco da memória e achar uma outra saída ou se jogaria contra o vidro esperando não se machucar e essa ser a solução para todo o seu tormento?
    Hesitava em tomar uma decisão. Sabia que não tinha como voltar atrás no momento em que pensou nas possiblidades que tinha. Nesse exato instante, soube que a sua mente iria atormentá-lo com as possibilidades que tinha de maneira eterna, principalmente se tomasse a decisão mais errada. E é claro que ele também sabia que não tomar uma decisão também seria somente a escolha de uma possibilidade. Não havia nenhuma chance de escapar disso, pelo menos não depois de ter pensado.
    Infelizmente, quando se tem que escolher por um caminho, não é possível ver o seu interior e também não é possível retornar. Também não se pensa muito no ter que escolher, se focando nos caminhos mais atraentes a sua frente. Talvez seja por isso que João não percebeu que ficou somente encarando aquele vidro e, por um longo tempo, escolheu involuntariamente ficar parado enquanto se perdia em seus pensamentos.
    No meio da bagunça da sua mente, encontrou uma trilha que o levou a uma afirmação. Ele percebeu que não valia a pena ficar parado em sua prisão sem fazer nada e que talvez ir na direção da morte valeria mais a pena do que viver muito em um cárcere agoniante. Embora nem sempre fosse assim, nessa situação tinha convicção de que o risco valia muito mais que a certeza. Por isso, se levantou lentamente e, assim que terminou de ficar em pé, gritou o mais alto que pôde para afastar os seus demônios. Se sentiu mais aliviado e gritou uma segunda vez, mas nessa começou a correr o mais rápido que pode. Atingiu o vidro com o máximo de sua força e usou o ombro como ponta de lança. Cacos de vidro se espalharam para todos os lados e começaram a cair de uma altura gigantesca junto com o corpo de João. Ele sentia o vento frio que entrava em contato com a sua pele quente e a sensação de liberdade que isso criava o fazia crer que podia voar, embora caísse em uma velocidade extremamente alta. Via rapidamente diversas partes da paisagem, tendo rápidas visões do verde da floresta e da queda d’água que estava ao seu lado. Talvez por ter simplesmente se livrado do peso de ter que tomar a decisão ou por algum outro motivo que ele nem sequer entendia, João gritava ao mesmo tempo em que tentava esboçar um sorriso. Com certeza estava feliz nos últimos segundos antes de acordar.
    Abriu os seus olhos lentamente, ainda confuso com tudo o que estava acontecendo. Só conseguia ver luzes e paredes brancas, o deixando com o coração acelerado. Os seus movimentos estavam limitados, mas não entendia o porquê disso. Ouvia vozes que pareciam estar muito distantes e que foram lentamente se aproximando. Depois de um tempo, conseguiu ver uma imagem ainda um pouco desfocada que conseguiu identificar como um médico.
    Aos poucos conforme os seus sentidos melhoravam, as notícias começaram a ser dadas. Depois de umas duas horas que havia enviado o trabalho, o professor havia respondido com as diversas mudanças necessárias. João foi acordado com o aviso do computador de recebimento de e-mail e, como o prazo era curto, resolveu acordar, ir até alguma loja que estivesse aberta e comprar energético, café e qualquer outra coisa que o deixasse acordado. Ele foi de carro, pois a única loja aberta durante a madrugada era a de um posto de gasolina que ficava muito distante. No fim, bastou uma batida para deixá-lo em coma por cinco anos e meio.
    Era difícil não deixar de pensar que podia ter saído do coma a qualquer momento desde que aquela janela apareceu. É claro que ele não tinha total certeza da relação entre as duas coisas já que pode ter tido muitos sonhos e esse ter sido somente um deles, mas os seus instintos tinham a certeza. Talvez muito tempo pudesse não ter sido desperdiçado e o seu corpo não definhado tanto se tivesse feito uma outra escolha. Ele não sabia na época que às vezes o tempo não tinha tempo para se ficar pensando nas escolhas.
  • Jurema, A Porca

    Tuntum, município de nome onomatopeico no coração do Brasil, tinha somente uma rua asfaltada, ladeada por umas tantas casinhas que desciam a colina até chegar ao riacho. Uma cidade tão carente de eventos que merecem ser lembrados, que acabava por cultuar a memória de Jurema, aquela que havia sido sua única grande personalidade. Não, não havia e nem haveria alguém como a grandessíssima Jurema. Lembrar-se de Jurema era como atestar que a cidade sim existia, sim estava viva, pois quando não se tem o que recordar, morre-se.
    Jurema era uma porca, porca mesmo, Jurema era bicho, pelo menos assim havia nascido, mas o tempo mostrou que Jurema tinha coração de gente humana. E coração bom. Jurema nasceu e criou-se em sítio Monte Alegre, onde viviam os Monteiro, gente simples e honrada. José Monteiro, o patriarca, era casado com Maria Aparecida, e os dois juntos tiveram um total de treze filhos. Quatro morreram antes dos cinco anos de idade. Jurema veio para encher aquele lar de amor, “uma benção” dizia Maria Aparecida, erguendo os braços sempre que o nome de Jurema fosse pronunciado, em claro gesto de agradecimento a Deus. José Monteiro também tinha em mais alta estima a Porca, “nunca vi mais trabalhadeira”, eram suas lacônicas palavras para falar de Jurema. Não é preciso dizer, mas digo: os cinco irmãozinhos e as quatro irmãzinhas amavam à Jurema com todo o coração.
    Jurema era a primeira a estar presente na hora do terço todos os dias às seis da tarde, e até emitia ruídos que a família interpretava como: amém.
    Tuntum todinha queria bem a Jurema, a Porca, que sempre estava disposta a ajudar quem precisasse. Conhecido foi quando Amélia Maria estava parindo, e o bebezinho todo invertido no ventre, estava a se enforcar com o próprio cordão umbilical. Jurema fez-se parteira, salvou a vida da mãe e do bebê. O menino foi batizado de Juremo, em homenagem à salvadora, e hoje trabalha lá em São Paulo, é funcionário do Banco do Brasil. Poderia encher páginas e páginas só contando as boas ações da Porca Jurema. Santa! Jurema era uma santa, sim senhor!
    Mas veio a seca, a grande seca, a pior de todas as secas. A fome alastrou-se pela cidade, os estômagos roncavam. Para ilustrar como a coisa estava feia, fique sabendo que no sítio dos Araújo, a família inteira colocou-se ao redor da única galinha, rezando para que ela botasse um ovo. Um único ovo que seria repartido entre mais de vinte bocas famintas. Naquele tempo José Monteiro deu-se a beber, e certa madrugada, bêbado, caminhou horas pelo sítio, gritando desaforos, amaldiçoando a sorte e o dia em que nasceu. Decidiu matar a Porca. Jurema estava dormindo em sua rede, e foi surpreendida quando o paizinho se atirou violentamente sobre seu corpo. Jurema tanto gritou e esperneou que a família inteira foi acordada. No começo a família tentou fazer José Monteiro desistir, mas depois trataram de ajudá-lo. Jurema, que esperava a ajuda dos outros - ela que tanto havia ajudado - viu-se em apuros. Os irmãozinhos davam-lhe muros e beliscões, e Maria Aparecida foi a cozinha buscar a faca, entregando-a ao marido. O aço gélido da arma foi cravado em seu flanco. Um liquido espesso e vermelho escapou-lhe pelo focinho cartilaginoso, as patas curtas se enrijeceram num espasmo. Restou a pobre Jurema aceitar o trágico destino. Morreu.
    No dia seguinte, o corpo de Jurema foi levado ao centro da cidade. Fizeram uma enorme fogueira e assaram a porquinha Jurema. A carne, deliciosa, foi repartida entre toda a gente. Jurema, a Santa Porca, deu-nos de comer por mais de uma semana!
  • Labirinto

    Aquela foi a minha primeira viagem de barco. A saída de Manaus é muito bonita, as águas do Rio Negro e Solimões não se misturam, o rio fica dividido, escuro de um lado e claro do outro. O barco, chamado São Pedro, santo protetor dos pescadores e navegantes, tinha uma carranca na proa. A carranca, muito bem esculpida, era uma harpia com feições humanas. Contaram-me que estas carrancas servem para espantar os maus espíritos que vivem nas águas e teimam em virar as embarcações. Dentro do barco, no primeiro andar havia alguns móveis; duas geladeiras; muitas malas e mochilas; dezenas de cães; e mais ou menos duas centenas de redes amontoadas, onde dormiam a maior parte dos passageiros. Subindo uma escadinha, chegava-se ao segundo andar, onde havia alguns camarotes, eu fui um dos que acabaram por pagar um pouco mais por aquele luxo. No terceiro andar ficava a cabina do capitão, uma cozinha, e um pequeno bar com cadeiras de plástico onde nos sentávamos para apreciar a bela vista proporcionada pela Amazônia. Na segunda noite de viagem, eu já me encontrava bastante entediado, e decidi juntar-me a um pequeno grupo no bar, para beber cerveja quente, ouvir música sertaneja e brega, jogar cartas e contar histórias. Eu e o capitão éramos os únicos brasileiros, havia um outro uruguaio, um alemão - que suponha exercer alguma função eclesiástica, pois ia para cima e para baixo carregando sempre uma enorme bíblia - , dois franceses, e um outro sujeito que não pude precisar sua origem pois permanecia todo o tempo calado. Em determinado momento da conversa, o Capitão contou-nos, enquanto dava tapas no ar tentando inutilmente afastar as carapanãs, sobre os piratas da Amazônia, que constantemente atacam as embarcações que singram aqueles rios que funcionam como artérias, alimentando as duas metrópoles amazônicas, Manaus e Belém. Eram, os piratas, o maior perigo que teríamos durante a viagem, mas que não nos preocupássemos, pois ele, o Capitão, era um navegador experiente. Sua fala era simples e recheada de expressões regionais, sua voz, porém, guardava certo timbre próprio dos homens que exercem algum cargo de comando. Os franceses começaram a contar como agiam os piratas somalis, e logo todos estávamos envolvidos por animada conversa. O tema dos piratas adquirira caráter quase fantástico, pois todos íamos aos mais esquecidos rincões de nossas memórias, buscávamos alguma história de piratas que havíamos lido quando crianças, alterávamos alguns detalhes para deixá-las mais realistas, e compartilhávamos com os companheiros de viagem. Porém, logo minha atenção se voltou para o homem que permanecia calado. O rosto humano é uma bela paisagem, toda a história de um homem encontra-se estampada em sua face, à vista de todo aquele que for dotado de um aguçado senso de observação.  A testa, sim, a testa é onde se percebe se um homem tem uma vida cheia de preocupações. A testa daquele sujeito tinha uma porção de rugas bastante profundas, indicando uma vida cheia de atribulações. Esqueci-o por alguns minutos, o uruguaio contava como os corsários ingleses, em meados do século XIX, aterrorizavam Montevidéu, quando, inesperadamente, fora interrompido pelo homem silencioso. Senhor M., como se apresentou, pareceu-nos bastante rude, desconhecedor das normas mínimas que regem uma boa conversação, interrompia os demais interlocutores, às vezes gritando, às vezes praguejando em demasia. Recordo-me que era impossível determinar a origem daquele sujeito, pois falava um português com um sotaque que remetia a todas as línguas do mundo. De repente, todos nos calamos, e a única voz que se escutava era a de M., que iniciou o que mais parecia um solilóquio macabro: 

    -Falam de piratas, aventuras, eu já viajei por todo o mundo, porém, minhas viagens não foram motivadas por negócios, tampouco por prazer. Viajei e viajo para fugir da maldita Bruxa! A Bruxa que eu amei e hoje me aterroriza. Fomos, eu e a Bruxa, casados por sete anos. Tínhamos um casamento feliz, porém, sem filhos. Um dia, minha amada esposa decidiu passar algumas semanas em uma de minhas propriedades no interior, para curar-se das terríveis enxaquecas que a torturavam. Quando regressou, estava diferente. Mais introspectiva, calada, evitava-me, até que a verdade foi revelada: minha esposa, a qual amei e cuidei por sete anos, estava grávida. Eu, senhores, fui abençoado por Deus com uma imensa fortuna em dinheiro, porém, nem tudo são graças, também sou amaldiçoado. Sou estéril. Como podia ela estar grávida? Tranquei-me em minha biblioteca e me pus a refletir. Depois de algumas poucas longas horas, tudo fez sentido em minha cabeça. Aquela sua estadia no interior, naquela quinta que herdei de meu avô, espremida entre gigantescas montanhas, era, já todos sabiam, habitada por inúmeros demônios. A criança concebida naquele maldito lugar, bastardo que habitava como parasita as entranhas de minha mulher, tinha como pai o próprio Diabo! Minha esposa, sem poder lutar contra o instinto materno que a escravizava, acabou por aceitar o Diabo em seu leito para assim poder engravidar. A princípio foi o que pensei, amava-a e a tratei como uma vítima, cometera o pecado por simples fraqueza de caráter. Engano! Descobri que ela era uma Bruxa, um ser maligno, no dia em que a matei com uma martelada no crânio - ainda me lembro bem do barulho oco que seu corpo emitiu quando caiu no assoalho. Matei. Na noite em que cometi o crime, tive o mais terrível pesadelo que já habitou as noites de qualquer homem em qualquer época. Quando acordei, os raios de Sol levaram parte do pesadelo para longe de minha alma, contudo, o que me recordo contarei: a minha mulher aparecia mostrando suas mãos, porém já não eram as mãos que tanto havia beijado, que tanto me haviam acariciado, suas mãos haviam se tornado garras horrendas! Depois, abaixou as mãos, zombava de mim, e dizendo ser uma Bruxa - algo que parte de minha mente já sabia - disse que todos que eu amava seriam mortos por suas garras, e quando já não restasse mais ninguém, eu seria o assassinado. No mesmo dia morreu um tio que eu mal conhecia, no dia seguinte morreram meus dois primos, no terceiro dia morreu minha querida irmã que morava no estrangeiro, e assim continuou, todos os meus familiares morreram, depois todos os meus mais estimados empregados. A morte é algo natural, mas como aqueles pobres coitados morreram...só poderia ser obra da Bruxa! Precisava escapar, eu não queria ser mais uma, a derradeira, vítima da Bruxa. Que fazer? Que fazer?! Lembrei-me de quando criança, sempre que tinha medo corria ao leito materno. Minha mãe era uma mulher frágil e muito doente, não me seria muito útil caso fosse atacado por algum dos muitos monstros que habitavam minha imaginação infantil, eu procurava esconderijo nos aposentos de minha mãe, pois era o sítio que se localizava mais no fundo da casa. Eram tantos os corredores, salas e quartos que se entrepunham entre a entrada de nossa casa e seus aposentos, que, certamente, nem mesmo a mais astutas das criaturas poderia encontrar-me. Precisava embrenhar-me em um gigantesco labirinto, onde a Bruxa jamais pudesse chegar até mim. Mais ou menos como o Minotauro, cativo e liberto em seu labirinto. Dei-me conta de que não havia labirinto mais formidável que o mundo! A Bruxa jamais me encontraria! Passei os últimos anos de minha vida viajando pelo mundo: cruzando as escaldantes areias dos desertos; as densas florestas dos trópicos; percorrendo as mais altas montanhas que mais parecem majestosos gigantes dorminhocos e as neves eternas que lhe cobrem os cumes são como vastas cabeleiras alvíssimas; naveguei pelos oceanos, rios caudalosos que muito se parecem a mares; escondi-me mesmo nos mais sombrios becos de todas as metrópoles dos dois hemisférios. Sei que a Bruxa segue em meu rastro, mas até agora, eu, EU ainda não fui alcançado pela maldita! 

    Depois de tão sinistro relato, o homem afastou-se. O alemão acendera um cachimbo e fumava pensativo; os franceses conversavam entrei si em sua própria língua; eu, o Capitão e o uruguaio bebíamos a última cerveja. O dia já estava amanhecendo, o Sol surgia desde o Leste, e seus primeiros raios dourados avançavam sobre as águas tranquilas, dando-nos belo espetáculo. 
    Durante todo o restante da viagem evitei o máximo que pude a presença de nosso estranho companheiro de viagem. Alguns dias depois, chegávamos a Santarém, conhecida como A Pérola dos Tapajós. Neste trecho do rio as águas são cristalinas, e a cidade tem uma enorme extensão de belas praias que lembram um pouco o Caribe. Justamente em tão belo lugar, o Senhor M. - autor daquele fantástico relato que ainda me assombra, sobretudo durante as noites - tornara-se assunto das conversas do barco São Pedro: o homem desaparecera sem deixar vestígios. Evaporou-se. Devo confessar - ainda que me envergonhe por tecer tão absurdas e ridículas conjecturas a respeito do desaparecimento - acredito que, por fim, a Bruxa o apanhou, ou que temendo que a terrível criatura o aguardasse em Santarém, decidira-se por abandonar o barco na véspera da chegada, quem sabe, arrojando-se no rio. O Capitão, homem sensato, acreditava que o homem houvesse sido raptado pelos temidos piratas da Amazônia. De qualquer maneira, seguimos sem outros incidentes de qualquer natureza até o nosso derradeiro destino, Belém do Pará. 
  • LUNA .

    Olá,meu nome é Kieran Luna Bellini. 
    Tenho a sensação de que te conheço...bom ,preciso te avisar que minha história não é sobre como eu queria morrer nem como foi a minha vida mas como eu te encontro nela.
    Não prometo romance nem acasos,tudo aqui é preciso e real muito real,o mundo que você conhece nunca mais será visto com os mesmos olhos.
     
     
    " -  Apagar as luzes para mim não é uma 
    escolha e sim minha realidade."
     
                               

    PRÓLOGO

     


    Rio de Janeiro,2001

    Apagar as luzes para mim não é uma escolha e sim minha realidade.
    Abri os olhos e vi somente uma imensa escuridão,sem saber ao certo o que tinha acontecido só sentindo meu corpo inerte,frio e molhado ,mas tenho que te contar o que aconteceu antes de você me conhecer aqui.
     
    - Kieran ! Acorda que preciso adiantar as coisas para amanhã . - Camila ,gritou.
     

    Meu nome é Kieran,tenho 8 anos e nesse exato momento te digo que minha melhor parte da vida é quando venho para a casa da minha irmã Camila .
    Na manhã seguinte será o aniversário da nossa tia então era correr contra o tempo para ajeitar tudo e eu amo essa parte!

    - A Triz vai dormir aqui pra nos ajudar ,e os meninos estão te chamando lá fora . - Minha irmã disse,como sempre tudo pra última hora.
    Comecei a organizar as coisas quando vi Tiago e Jean chegando.
    A amizade é uma coisa muito louca,por exemplo, minha amizade com o Tiago começou no alto de um monte de barro em frente a casa da minha irmã,ele me empurrou,me sujei e amizade feita. Desde então nunca mais nos desgrudamos,já o irmão dele Jean foi diferente...não sei se existe amor a primeira vista mas se existe ele foi meu primeiro amor porém meus pés são bem no chão e me contentei com a sua amizade.
    Final da tarde chegou e a fome bateu como sempre,me despedi dos meninos e fui correndo lanchar e esperar a minha prima Triz chegar.
    30 minutos depois ela chegou, era muito bonita,alta,13 anos e cabelos levemente ondulados e que eu saiba já tem lá seus namoradinhos e desde que chegou aqui não desgruda do celular.
    - Oi prima! Você está enorme,uma mocinha! Estava com saudade. - E eu super animada pra brincar e aprender crochê que ela prometeu me ensinar.
    Estava aqui na casa da minha irmã mas meus pensamentos estavam na minha casa,meus pais brigam muito e eu fico muito preocupada,vir pra casa da minha irmã é uma válvula de escape.
    - Ky ,vem jantar e depois disso as duas podem arrumar a cama de vocês na sala,aqui estão os lençóis,travesseiro e passa o repelente que tem muito mosquito- Gritou ,Camila.Ela arrumou tudo e foi deitar.
    Esperei a Triz terminar de tagarelar no celular,eu quando tiver meu namorado acho que não vou falar tanto assim no celular,que tanto papo é esse,prefiro minha tv globinho. Enfim ela desligou o celular,arrumamos as camas e eu só queria uma boa noite de sono e aproveitar o dia seguinte.
    - Boa noite Triz . - me virei e fechei os olhos esperando o sono vir ,quando estava quase pegando no sono senti uma mão passeando no meu corpo e na hora parasilei. A mão foi descendo até chegar no meu bumbum e eu queria gritar a irmã mas não saia nada ,e comecei a sentir muito medo.
    - Você gosta disso?. - Triz! mas porque ela está fazendo isso? Eu quero correr daqui mas não consigo fazer nada a não ser esperar ela terminar e ir dormir.
    Fiquei ali parada de olhos fechados suando frio esperando que ela iria parar mas não,ela continuou,me virou de frente pra ela deitada e tocou minha parte íntima,muito rapidamente apalpava os meus seios como se fosse algo normal e eu permanecia ali travada sem saber o que fazer mas eu sabia que aquilo que ela estava fazendo era errado.
    - Agora não se mexe ,eu já vou terminar- Ela falou e subiu em cima de mim esfregando sua virilha na minha muito rápido segurando meus seios,senti muita ânsia de vômito mas fechei os olhos,senti sua boca encostar na minha e tranquei a boca para não receber beijo,que nojo! Porque ela fez isso?.
    Não sei quanto tempo passou mas eu só pedia muito que terminasse ou que minha irmã escutasse os grunidos dela e viesse me ajudar mas isso não aconteceu ela terminou e eu só consegui falar .
    - Amanhã eu vou contar tudo a minha irmã.
    - E você acha que ela vai acreditar em você? Todos não vão acreditar,minha mãe amanhã vai chegar é a sua também! Acha que a minha tia vai acreditar? Vai ser maior escândalo,alguém pode até morrer! Você quer que sua mãe passe mal?
    O que eu fiz foi porque te amo muito mas não vou fazer de novo,amanhã você vai ficar quieta senão eu vou contar do meu jeito e você quem vai apanhar
    Chorei em silêncio tentando entender o que tinha acontecido e me sentindo muito culpada. Não consegui dormir,apenas cochilei querendo muito que tivesse sido um pesadelo.
    Amanheceu,ela levantou como se nada tivesse acontecido,arrumei os lençóis da cama improvisada,lavei o rosto e tentei encarar a minha irmã pra tentar dizer tudo que tinha acontecido mas não consegui. Todos chegaram,o povo aqui de casa é animado,tudo é churrasco! Segui aquele dia como se não houvesse acontecido nada.
    Tudo correu bem e todos se divertiram,eu brinquei e não consegui dizer nada. A partir desse dia eu nunca mais fui a mesma.

     
    1∆
    SOLAR

    Cansada. Me debrucei na mesa e apoiei a testa no pulso,não tinha dormido direito a noite inteira pensando em como iniciar esse ano.
    Já fazia 3 anos que eu havia me mudado para Portland,minha mãe decidiu vir pra cá já que minhas tias moravam aqui..depois que meu pai faleceu não havia mais motivos para ficar no Brasil.
    Até agora estava em modo automático tentando processar os fatos,a proposta de trabalho da mamãe,o falecimento do papai...esse segundo fato de alguma forma me trazia um certo alívio ,depois de tudo que aconteceu seria um descanso pra todo mundo e particularmente não sentia falta dele. Ele já não morava mais com a gente depois de tentar matar mamãe,vamos dizer que Alexsander precisava urgentemente de um psiquiatra mas  dizia não precisar,acabava que eu e mamãe pagamos o pato juntas e isso me irritava ao ponto de não querer mais ficar na mesma casa ,então fiquei morando em um quartinho nos fundos.
    Observando como ainda não tinha conseguido sair do poço,não me sentia muito eu e me sentia tão só mesmo com pessoas a minha volta,isso me fez lembrar quando conheci Skylar,sorri e voltei a me escorar na mesa pra acompanhar a minha lembrança.
    Eu estava chegando na cidade e não conhecia ninguém,respirei fundo e caminhei até o pátio da escola olhando toda aquela muvuca que me causava fobia,passei por todo mundo o mais rápido que eu pude quando alguém me jogou na parede.
    - Ei! Não olha por anda?. - Falei esfregando meu braço inconscientemente  como se a dor fosse passar. Quando me virei pra ver quem era a maluca que quase arrancou meu braço,me deparo com uma menina de cabelo preto e curto na altura dos ombros,fui descendo o olhar e  cheguei no seu rosto que exibia um sorriso debochado juntamente com uma maquiagem elaborada demais pra ser usada de dia...
    - Não? E tá me olhando assim por que? Vai me beijar? Sei que sou linda e etc mas te manca!
    Fiz um "O" com a boca enquanto a metade do colégio nos observava,ela falou tantas palavras ao mesmo tempo! Como alguém conseguia falar tanto em tão pouco tempo? Não queria confusão logo no meu primeiro dia então resolvi deixar pra lá tratando logo de me resolver com essa estranha.
    - Tudo bem, não está doendo mesmo. A propósito meu nome é Kieran Luna e não,não quero beijar você. - Torci o nariz e fiz uma careta pra tentar descontrair.
    A observei e vi sua carranca imitando algo como uma vilã,ela parecia ser muito teatral. Fiz sinal de que iria continuar meu caminho já que ela não se identificou,quando sinto um catucão.
    - E o meu é Skylar Kanda e sobre me beijar realmente  não deveria,é um vício. Sinto que vamos ser melhores amigas,garota! Unha e carne com toda a certeza,mas sou vegetariana só pra constar.
    Sai rindo da minha lembrança e vendo que a vida não tinha sido tão ingrata pra mim ,de alguma forma pelo menos Skye eu consegui ter na minha vida.
    - Cara,você devia relaxar. - Skyie falou baixinho para o professor não escutar. Tomei um susto saindo dos meus devaneios .
    - Skylar Catherine Kanda se você me assustar mais uma vez eu juro que te mato. -falei dando pequenos tapas no rosto pra tentar acordar.
    - E se você me chamar meu nome todo de novo eu te enterro nos fundos do Forest Park.
    Revirei meus olhos por causa da ameaça da Skyie e tentei me concentrar na aula do Professor Hall ,quem sabe não esqueceria toda aquela história.
    Hoje o dia se arrastou, não pensei que iria fazer tantas amizades mas devo ter um ímã pra gente maluca porque Skylar ,Evrett ,Deon e Mayo não eram normais . Em uma semana estavam me colocando em cada furada...vivendo perigosamente em Seattle. Skye era a pior mas suas intenções eram sinceras porque queria me animar então relevava.
    Estudava em casa e minha mãe achou que seria melhor interação humana para Ky,assim ela disse dando pulinhos pela casa.

    Minha cabeça estava muito pesada então resolvi ir pedalando ao Cook Park,mandei mensagem para mamãe e no grupo de amigos.
    Cheguei ao parque e estranhamente estava vazio então deixei minha bicicleta encostada na árvore e andei até o lago.
    - Você tem sérios problemas ,sabia?. - Disse Skye quase me fazendo cair dentro do lago.
    - E você é outra que tem uns bem gigantes,quer me matar de susto? Por pouco não tomei um banho de graça agora. - Peguei uma pedrinha e joguei no pé dela .
    - Ai! Eu não quero te matar mas você pelo visto...quando vi sua mensagem corri o máximo que eu pude, veio fazer o que aqui nesse breu?
    Cheguei mais perto do lago novamente,na verdade nem sei o que fui fazer ali... então algo na minha cabeça começou a apitar, será que ela tinha razão? Eu estava pensando em me matar?Olhei para a Skyie que estava me olhando preocupada.
    - Eu não sei,acho que só queria ficar pouco sozinha pra pensar. - Balancei os ombros como quem não quer nada,mas não sentia muita segurança no que estava falando.
    - Então dá próxima vez pense no seu quarto amada! Eu não sei se você percebeu mas eu não sou atleta pra ficar correndo a cidade inteira atrás de você,sossega esse seu bumbum senão eu espeto ele. - Falou colocando a mão na cintura e quase me engolindo viva.
    Ri,ela é definitivamente a melhor amiga que tenho nesse momento mas o sorriso não durou muito tempo,tinha que dar um jeito nisso.
    - Você vem? Eu marquei com os meninos na lanchonete Bar da Darla.
    - Pode ir,daqui a pouco chego lá. - Não muito animada pra ir mas se não fosse eles iriam me encher a semana inteira.
    - Ok , então...eu apostei uma cerveja que você iria então não me decepcione.
    - Não acho que você deveria beber , não está cedo demais?. - Levantei a sobrancelha ,não sei como alguém consegue engolir isso.
    - Abri aqui minha mochila por favor?
    - Pra que?. - Abri achando que era algo urgente .
    - Pra saber aonde eu coloquei aqui " Preciso da opinião da Kieran".
    - HA HA HA,nossa você é muito engraçada. - Joguei a mochila longe.
    - Eu sou mesmo e você deveria me valorizar mais,te espero lá. - Ela pegou a mochila e saiu correndo em direção a estrada.
    Esperei ela sumir do meu raio de visão e continuei olhando na direção do lago,algo me chamou atenção...será que estava ficando louca? Eu juro que vi alguma coisa girando no meio do lago. Cheguei mais perto ,era como um imã que puxava cada vez mais pra perto.
    - Oi ,Luna. - dei um pulo correndo pra longe da margem tropeçando em uma pedra.
    - Quem é você?. - Ok! Eu estava falando com...o que era aquilo mesmo?.
    De repente começou passar o filme da minha vida inteira sobre os meus olhos,quando parou exatamente na parte que mais me machucava .
    - Já chega!. -Gritei com todas as minhas forças,senti as lágrimas queimando sobre as minhas bochechas e muita raiva.
    - Eu preciso que você esteja preparada para o que vai acontecer,aliás já está acontecendo só você ainda não percebeu criança,abra os olhos pra saber quem realmente é seu destino.
    Da mesma forma que a voz apareceu ,sumiu e eu fiquei ali no chão tentando decifrar o que tinha acontecido. Tirei a sujeira da roupa em vão e comecei a sair da floresta ,meus amigos devem estar preocupados.


    2∆
    PERSEGUIÇÃO

    Ainda estava atordoada com o que tinha acontecido, não sabia de quem era a voz , aliás queria me internar e usar uma camisa de força urgente. Caminhava em passos lentos até o bar aonde meus amigos me esperavam, entrei já me sentando e pedindo um copo com água bem gelada .
    - Kieran ?. - Deon me chamou com os olhos arregalados.
    - Ky? Mulher ! parece que você viu Pennywise!. - Skyie falou praticamente gritando chamando atenção do bar inteiro.
    Eu deveria ter ido pra casa,minha cabeça está latejando,coloco a mão na testa esfregando tentando me livrar em vão da dor chata que ficou morando ali.
    - Oi Deon e Oi pra você também Skyie, alguém pode pedir um saco de gelo por favor?. - Olhei para a mesa e vi faltando alguém.
    - Bellini está achando que isso aqui é o delivery do McDonald's? Gelo a vontade? Isso é um bar mas vou quebrar esse gelo pra você...nossa essa foi péssima. - Skylar pediu o gelo rindo do trocadilho péssimo que fez ,Skylar sendo Skylar.
    Olhei em volta e vi as pessoas animadas,algumas no canto solitário bebendo sua cerveja outros cantando no karaokê ,hoje definitivamente o clima estava estranho.
    - Aqui,gelo saindo para a garota da Floresta. - Skylar e sua língua grande.
    - Floresta?. - Deon falou virando pra mim preocupado.
    - Sim...eu resolvi dar uma volta no Forest Park.
    - Sozinha? Poderia ter nos chamado, até poderíamos ter ido a praia. - Assenti colocando o saco de gelo na testa .
    - Deon não se preocupe,eu estou bem. - Falei sem ter realmente certeza de que estava bem.
    - Esse papo tá muito down pelo amor,vamos! Estou aqui pra me divertir,anda logo Ky!. - Sky já levantou me puxando para o mini espaço para dança.
    Estávamos dançando,eu tentando dançar. Mayo e Deon já tinham encontrado um par pra dançar enquanto Skye se divertia dançando com Evreet e eu me vi dando passos soltos na pista sozinha quando vi uma menina entrando e então a observei.
    Os cabelos longos e cacheados ,o rosto sereno foi o que pude observar na iluminação do ambiente,tive uma sensação de dejavú...dei mais umas esticadas com as mãos e resolvi ir ao banheiro,quem sabe um pouco de água gelada no roso ajudasse,o dia estava sendo difícil.
    Entrei no banheiro que estava vazio...estranho,fui direto para a torneira lavei o rosto e quando abri os olhos vi uma menina me olhando,continuei o que estava fazendo tentando a ignorar.
    - Oi,sou nova na cidade...estou procurando a casa da minha tia e acabei me perdendo,poderia me ajudar?
    Olhei o rosto dela que me parecia familiar,de repente começou a crescer um sentimento de amizade mas ignorei ,pisquei os olhos sem entender nada mas a respondi.
    - Ah...claro,meu nome é Kieran...e o seu é?
    - Samantha Tala,mas pode me chamar de Samy.
    Ela estava sorrindo pra mim? E porque eu estava com esse sorriso idiota no rosto também?
    - Entendi...meus amigos estão lá fora ,quer me acompanhar? É bom que você já se enturma.
    Saímos do banheiro indo em direção a mesa esperando o pessoal voltar.
    Todo mundo voltou pra mesa desconfiados e curiosos com a garota do meu lado mas não fizeram nenhuma pergunta creio que eu que esperando alguma explicação educadamente...
    - E então? Quem é você?. - Skye falou dando uma golada na décima caneca de cerveja.Olhei pra ela emitindo um sinal de aviso com olhos,mesmo assim ela me ignorou e assentiu para a Samantha se explicar. Respirei fundo e cutuquei a garota pra falar logo.
    - Meu nome é Samantha,estou procurando a casa da minha tia...sou nova na cidade e meio que entrei aqui primeiro porque estou morrendo de fome e também preciso de informações.
    - E aonde entra a gente nessa história?
    - Skye!. - Todos falaram juntos.
    - O que? Só estou perguntando o óbvio. - Quando isso tudo terminasse eu iria dar uns cascudos nessa moça.
    Todos pararam para analisar com muita atenção Samantha que agora estava devorando um hambúrguer com um copo imenso de refrigerante. Esperamos ela terminar de comer pacientemente.
    - Como eu disse, preciso de ajuda para encontrar a casa da minha tia e a Kieran disse que vocês iriam me ajudar.
    Coloquei a mão no rosto já esperando a revolta de todos juntos,realmente procurar casas pela vizinhança não era o melhor programa da tarde.
    - Por mim tudo bem. -Mayo foi o primeiro a se voluntariar,claro que com as suas segundas intenções.
    - Nós também. - Deon e Evreet juntos concordaram só restando uma pessoa...
    - Bom ,não é o meu programa preferido mas se todos vão eu tenho que ir. - Skylar falou como se estivesse sendo levada para a guerra.
    Pagamos a conta,nos despedimos do Alfred o dono do bar e seguimos em direção a rua. Eu estava no automático até agora,não digerindo o que tinha ocorrido mais cedo. Coloquei na minha cabeça que aquilo foi fruto da minha imaginação misturado com meu desgaste emocional.
     - Kieran eu preciso falar com você urgente. - Samy me puxou pra perto da calçada enquanto os outros  do outro lado da rua tentavam descobrir aonde era a casa da tia Haven.

    Olhei de soslaio e vi Mayo,Deon e Evreet concentrados em achar o endereço por meio do gps ,mais a frente observei uma Skylar revoltada dando "pequenos" socos no celular e xingando palavras nada educadas então retornei meu olhar para a Samy. Não ignorando o que passei mais cedo,essa semana estava sendo complicada pra mim e com toda certeza quando colocasse meus pés em casa seria banho e cama.
    - Sim?. - Perguntei desinteressada,estava cansada.
    - Não existe tia Haven. - Ela disse mas eu só consegui arregalar os olhos e comecei a pensar se isso tinha alguma ligação com o que aconteceu mais cedo. Dei dois passados para trás e fechei os punhos involuntariamente.
    - Espera! Me deixa explicar primeiro. - Samy estendeu as mãos em sinal de rendição,então eu decidi manter aquela pequena distância para escutar.
    - Eu juro que quero entender e que seja rápido. - Olhei rapidamente de lado e vi que Skye nos observava mas estava dividida entre ver o que eu fazia e o celular ainda que parecia estar travado.
    - Me expressei errado,ela existe mas eu sei aonde ela mora. Inventei essa história porque eu precisava de um tempo pra falar com você,é sobre mais cedo..lembra?
    - Não do que você está falando,aconteceu exatamente nada. - Sai correndo em direção aos meus amigos deixando ela para trás e nem me atrevi a olhar.
     
  • Model Beauty

      




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                    O dia dezessete de julho de 2020 nunca mais seria o mesmo para a vaidosa Lorenna de Capri. Os seus olhos esverdeados, cabelos longos de cor escura e pele branca como a neve passariam por uma transformação diabólica, tudo graças ao prêmio sorteado pela empresa  “Model Beauty” que contemplaria para  a ganhadora um kit de beleza caríssimo.
                    A protagonista desse conto além de encontrar com a morte desfrutaria de algo maior, um marco inicial que colocaria um fim em quase metade da humanidade. Mas para você caro leitor entender melhor voltarei a algumas horas atrás quando tudo começou.

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                    O céu amanheceu chuvoso, o frio intenso era típico da época do ano. O inverno em Monte verde continuava charmoso atraindo diversos turistas, entre eles duas melhores amigas em busca de sossego. Como de costume  Lorenna e Brenda Finner decidiram viajar tendo os seus destinos finais o  Hotel Grand Magestic. Uma excelente rede hoteleira recomenda pela alta classe social devido aos atrativos luxuosos como: Bailes de gala,opera, peças teatrais e os famosos leilões de artes. Porém, dessa vez o que chamou a atenção foi uma empresa internacional que divulgava gratuitamente os seus produtos americanos voltados à estética. A recepção calorosa e deslumbrante com certeza lembrava uma cena de filme.
                    - Sejam bem-vindas! Sou Caroline Alencar esteticista da “Model Beauty”. Posso apresentar nossos produtos? 
                    - Olá Bom dia. Acabamos de chegar estamos com nossas malas ainda. – Retrucou Brenda.
                    - Tudo bem. Posso deixar dois cupons para o sorteio que faremos hoje ás 17 horas?
                    - Claro! Desculpa não darmos a devida atenção, o caminho foi longo e queremos um bom banho quente. — Respondeu Lorenna com um sorriso carismático.
                    - Eu vou então anotar os seus dados e coloco na urna. Boa sorte meninas!
                    - Agradecemos e vamos torcer! Particularmente sou azarada. – Murmurou Brenda.
                                                                   *******************
                    O elevador social banhado a ouro, o quarto com duas camas macias, a banheira, a sacada com vista para as montanhas, todo o contexto causava um alvoroço sem tamanho nas exaustas paulistanas. A tarde seria regrada de champanhe, massagem, petiscos diversos e um delicioso passeio pelas lojas de roupa. O centro era a poucos metros e o termo gastar soava como remédio para qualquer cura contra o “stress”.
                    - Já são seis horas?
                    - Sim, Lorenna! Acha mesmo que o tempo não para. Ele não é infinito igual seu crédito no cartão.
                    - Nossa! Virou humorista a minha querida. Onde quer jantar?
                    - Que tal um caldo verde? Soube que o chefe do hotel é Italiano e faz deliciosos pratos.
                    - Perfeito. Vou pegar a nossa chave, será que a camareira arrumou a zona que você deixou?
                    - Não seja ridícula. Umas toalhas molhadas, meia dúzia de lixo e garrafas de chandon. Não é para tanto. – Risos altos e calorosos saltavam feito pipoca da boca de Brenda enquanto Lorenna arrastava o seu corpo até a recepção.
                    - Por gentileza vim pegar a minha chave do quarto 235.
                    - A sim! Aqui está. A Sra. é a Lorenna correto?
                    - Sou sim. Por- quê?
                    - Caroline Alencar deixou uma cesta no seu nome. Você foi à ganhadora! Os meus parabéns.
                    - Não acredito! Obrigada mesmo! Isso é incrível. – Gritou eufórica.
                    - O problema devo ser eu. Vamos subir e abrir os  seus presentes. Quero ver cada item e experimentar um por um. – Falou Brenda com um tom enciumado.
                    - Vamos minha querida. Deixo você usar um pouco para ficar menos feia.
                    - Não te xingo agora Lorenna por estar de bom humor rs.
                                                                   *******************
                    Os dedos suavemente tocavam na pele macia de Lorenna o creme rosado massageava nariz, bochechas, pescoço, testa até mesmo as orelhas não escaparam. De roupão e toalha na cabeça a pequena cobaia sentia um aroma de morango exalar dos potes.
                    - Está tudo bem ai? –Gritou Lorenna.
                    - Sim. Não me interrompa. Essa Hidro arranca os meus suspiros. – Gemeu Brenda.
                    - Venha arrumar a sua carcaça logo. O Garçom logo mais chegará.
                    - Peça para ele entrar! Gatinho demais.
                    - Brenda é normal sentir a pele formigar e queimar como fogo? – Lorenna começou a se olhar no espelho quando reparou um tom avermelhado em todo o seu rosto.
                    - Não! Lave depressa. Pode ser alergia. Lorenna? Lorenna? – Brenda vestiu o seu roupão e saiu correndo quando se deparou com uma cena horrível.
                    Em choque, ajoelhada no centro do quarto Lorenna recolhia o que seria o seu olho esquerdo do chão, a orelha direita estava pendurada por um fio de músculo e a sua pele completamente enrugada. O sangue jorrando por todos os lados criavam uma obra de Stephen King.          
                    - Meu Deus! Socorro ! - Brenda em disparada bateu de porta em porta para que todos pudessem ajudar. O clima de medo e angustia aflorou no seu peito achando que perderia a sua melhor amiga.
                    - Amiga se acalme. Respire fundo. A ambulância já vai chegar.
                    - Eu...não...quero...morrer... – Lorenna por mais que tentasse não conseguia se quer pronunciar uma frase por inteiro. A sua consciência perder ia-se em poucos segundos.
                    - O que aconteceu com você? Isso é veneno e não um produto de beleza. – Choramingou Brenda.   

                                                                   *******************
                    Após o suspiro final de Lorenna outras mulheres sucumbiram do mesmo mal. O que ninguém esperava era que todas voltariam à vida como zumbis. E do resto, nós já sabemos: mordidas, infecções, proliferação da nova espécie, canibalismo e bilhões de mortes. O vírus TKHMN1 criado em laboratório acidentalmente foi um dos piores feitos do homem.  Mesmo punindo os culpados o estrago era irreparável. Diversas vacinas e antídotos testados, porém sem sucesso. Fugir passou a ser a única salvação.  

    O bilhete a seguir foi achado junto a um zumbi antes de ser executado.

    “Deixo essa carta, pois me resta pouco tempo meu nome é Brenda e há anos estou fugindo. Vim para a Amazônia e encontrei dois médicos Thomas e Lucas, ambos escaparam do ataque que sofremos na base e estão indo para o norte. Descobrimos que a planta Vitória – Régia tem efeitos medicinais capazes  de reverter o quadro dos infectados. A fórmula é simples e precisa ser aplicada até dez minutos após o contágio. Temos água e comida enlatada nos armários, duas pistolas com munição dentro do cofre que está aberto. Tomara que você tenha mais sorte que eu. Não abra o hducsnngfhfsfhehf refrrmcvtmeyrnctwruwmi0qr95rm498tu,,9ruwercuwxy”
  • MYSTICA STATERA por Lux Burnns O tomo para iniciantes

    Sumário
     Agradecimentos..........................3
     Introdução......4
     Capítulo 1- O nascer e o torna-se.....5
     Capítulo 2-Realizando a magia.......12
     Capítulo 3- A magia é vida, mas não é um ser 
    vivo....20
     Capítulo 4- O mundo sem o véu..........26
     Capítulo 5- O fanatismo, o grande o veneno mágicko......33
     Capítulo 6 - A verdade liberta, mas é dolorosa....39
     Capítulo 7 - DIY mágicko.............47
     Capítulo 8 - A bruxa que vive entre os santos e os pecadores............ 54
     Capítulo 9 – Os Deuses, e o Fim da farsa da Realidade Dualística...... 59

    Agradecimentos
    Minha gratidão é voltada para o meu companheiro Soul, que me apoiou desde o início desta caminhada, me ajudando a melhorar ainda mais como ocultista, e jamais desistir das minhas convicções, mesmo quando o mundo inteiro, parecia discordar das mesmas. Também deixo minhas graças aos meus amigos: Lua Negra, Srtoa Gamab, Milliato, Rivendell, Srta Rabbith, Mandy, Tha, a Witch born on fire, e Isa, que me ajudaram a perceber quê este tomo poderia ser útil as próximas gerações. Por fim reconheço também o auxílio de minha mãe Silvana, que apesar dos pequenos atritos pelas crenças diferentes, sempre acreditou em mim e nos meus ideais. Obrigado a todos vocês, que me deram ânimo para chegar até aqui, e terminar este projeto. Não sei o quê me aguarda depois disso, mas certamente é um feito e tanto, e me orgulho por plantar esta semente, que vocês com carinho e paciência regaram.

    Introdução 
    É válido mencionar, que jamais tive a intenção de escrever um livro voltado para o aprendizado dos demais. Afinal há muitos autores, infinitamente melhores do quê uma velha bruxa, em um corpo não tão jovem. 
    Mas devido ao grande número de desinformados, que se acham conhecedores do mistério, e tudo o quê mesmo representa, vejo que é hora de assumir o meu manto de ocultista outra vez, e trazer-lhes algumas verdades nada convenientes. 
    Não estou aqui para lhes ensinar fórmulas, que vão mudar as suas vidas num estalar de dedos. Muito menos sobre como devem adorar seus deuses, ou o quê é o certo e o errado. Não sou uma bússola moral para tomar tal partido, apenas viajo de mundo em mundo, para libertar aqueles que aceitam o preço da liberdade. A ignorância pode ser uma benção, mas é a coragem que determina quem tem a chave do tudo. O inimigo é astuto, logo devemos ser justos, mas isto não significa dissociar, e se abster, e sim que devemos está preparados. Você pode não compreender estas palavras no momento, mas logo entenderá o quê cada frase significa.
     Se escolheu decifrar este livro, é porquê ouviu o chamado, mas não estou falando dos filhos do sol, e sim de algo mais amplo e intrigante.
    Há memórias de um mundo que querem te fazer acreditar que não existe. Há poderes que um ou nenhum dos seus parentes consegue explicar. Há mistérios em teu íntimo, que quer desvendar.
    As respostas estão presentes aqui, mas está pronto para ouvir o quê a primeira causa tem a dizer? Não será um caminho fácil, por isso é necessário que esteja pronto para esta jornada, que saiba no mínimo o quê é a espada e o escudo, e como usá-los. Do contrário será devorado pelos teus demônios, antes mesmo de ouvir a palavra da força geradora.
    Eu sei, parece o roteiro de algum filme de ficção científica bizarro, porém tudo o quê for mencionado aqui, será focado na minha experiência real como bruxa, e no aprendizado que isto me trouxe no decorrer do tempo. Está preparado? Então vire a página, pois a aventura o aguarda jovem peregrino.
    Capítulo 1
    O Nascer e o Tornar-se 
    Vivemos numa sociedade cheia de liberdade, que acredita bastante no ideal de igualdade, e que todos podem entrar no mundo da magia, sem discriminações de espécie. 
    Não estou aqui para me impor sobre tal coisa, porém acredito -e é o quê devia ser ensinado- que há aqueles que nascem com a predisposição para a magia, e os que infelizmente, não foram agraciados pelas divindades.
    Isso faz com que estes sejam mais fracos? Não. Eles devem ser escorraçados, e friamente criticados ? Também não. Apenas devem ter consciência de quê a sua busca, certamente será mais trabalhosa e longa – ou não se souber usar os meios certos, mas não vem ao caso – Por isso jamais devem se comparar aos que possuem habilidades naturais, pois tal atitude culmina em desencontro com o propósito inicial, de descobrir-se neste caminho.
    Não pense em nenhum momento, que o fato de ser somente humano te faz inferior, isso não significa muita coisa, quando você sabe que há meios de melhorar as suas habilidades.
    Já os predispostos, deveriam entender que o fato de terem recebido dons da natureza, não os faz automaticamente deuses, apenas lhes dá alguma vantagem em relação aos outros. Mas uma vantagem, não significa uma vitória garantida, portanto devem estudar e se preparar, tanto quanto os que não foram agraciados, para superar suas limitações, que sim existem.
    Não importa o quê são capazes de fazer - se levitam, se incendeiam, se preveem, manifestam, projetam, e tudo mais-  isto não os faz bruxos, apenas são detentores de habilidades especiais. Tanto o filho de um deus, quanto o filho do homem, precisam de treinamento, e conhecimento, para poder serem dignos de tal alcunha.
    É nos ensinado desde o começo, que precisamos andar em grupos, para poder obter o grau de bruxo, mago, ou feiticeiro. A sociedade mágica insiste em seguir essa premissa, mesmo nos tempos atuais, e isso atrasa bastante a vida de um novato.
    Grupos, como: Ordens e Covens, Podem até servir para ajudar no entendimento de certos assuntos, mas a realidade é que se queres realmente o poder, não deve seguir com ninguém mais, além de ti mesmo.
    Afinal de contas, o ocultismo no fim é apenas uma forma de encontrar-se, e não é no meio da multidão, com suas ideias diversificadas, que conseguirá te achar, no máximo ficará ainda mais confuso e perdido.
    Você se encontrará apenas quando não houver ninguém por perto, quando estiver sozinho num quarto escuro ou claro, questionando-se sobre o quê é, como, e o porquê das coisas.
    Por isso não acredite em líderes, que fazem questão de impor que precisa deles, acredite em ti mesmo, e naquilo que vai de acordo com a tua personalidade, e o quê tu consideras certo ou errado.
    E este tópico nos leva a outra questão. A magia tem se tornado um grande alvo do entretenimento. Para onde olhar  há “bruxos” ou “seres místicos”. O quê é uma coisa boa, mas somente para a diversão, pois tudo o quê se encontra nos filmes, seriados, desenhos e afins, são apenas fragmentos de textos ocultistas, e qualquer um de bom senso sabe, que não dá para entender o texto com apenas um verso, pois o mesmo pode servir para expressar diversas possibilidades, e se apenas escolher ler tal parte, jamais entenderá o contexto para que foi criado, por isso não use tais meios para aprender sobre o caminho. 
    A verdadeira magia, influencia o ambiente, mas o ambiente não influencia a magia. Logo uma obra midiática pode ser inspirada em algo oculto, só o quê o oculto, não pode advim de uma obra midiática, do contrário todo o entendimento se perde, e em vez de formar a sua inteligência divina, apenas a degrada e a transforma em loucura vã.
    Um bruxo de verdade- homem ou ser mágico- Sabe disto por instinto próprio. Entretanto com tantos jovens adotando posturas erradas, por conta do quê assistiram, é sempre bom frisar tal fato.
    Como disse antes são verdades inconvenientes, por isso não espere que eu vá apoiar uma conduta tão inapropriada para o ocultista.
    Queres ser um bruxo? Então leia, pesquise, estude, questione-se, e faça-se um. 
    Não espere que apenas porquê mudou o caminho, e deixou de seguir com as ovelhas, tudo será mais fácil. Verdade seja dita, se quer conforto, e evitar desafios que podem te fazer desmoronar, seu lugar não é aqui. Não importa se tem o sangue, sem essência jamais conseguirá sair do lugar.
    A magia não é um caminho simples, nunca foi. Apenas os que se encantam por sua versão comercializada de luzes e pó brilhante, acreditam nesta falácia.
    O agraciado deve aprender a controlar seus dons, para não ferir os que não merecem receber tal castigo, e o humano deve procurar meios, de melhorar seu espírito, ou DNA cósmico, para garantir que conseguirá manifestar alguma habilidade.
    Só que ambos precisam passar pelo mesmo processo árduo e cansativo. O agraciado, que nasceu com poderes sobrenaturais, precisa torna-se aquele que tem controle de si, e o humano que tem o controle da sua mente, precisa destruir todas as barreiras impostas, para então nascer como um ser sobrenatural.
    Ambos são como a metade um do outro, mas precisam focar em suas limitações, pois o primeiro poderá sofrer consequências desagradáveis, e o segundo precisa achar meios, de fazer-se tão forte quanto o outro, mas no fim os dois se encontram no mesmo patamar, por isso seus caminhos, ou o quê são , não interessa.
    É dito que para ser um bruxo, é necessário uma iniciação, canalizada por sacerdotes e sacerdotisas, que receberam o chamado dos deuses, e toda aquela parafernália, que estamos cansados de ouvir.
    A iniciação é um processo necessário sim, mas não precisa vim das mãos de alguém que diz ter sido “tocado” pelos deuses. 
    Haverão aqueles que certamente discordarão de mim, pois são tão tradicionalistas quanto os cristãos ortodoxos, contudo esta é uma verdade inegável.
    Não estou dando pontos a favor de rituais de meia tigela, encontrados na vasta rede, que fique claro. Apenas acho justo mencionar, que tais postos – sacerdotes- não torna os homens e as mulheres detentores da verdade, pois para aqueles que podem ver, a mesma   é revelada dia após dia, fora dos templos “sagrados”. 
    Aliás creio que o grande segredo, é apenas um pedaço de papel vazio, que nada diz, pois o axioma está no vento, na água, na terra e no fogo, não nas palavras ditas por um mestre.
    Você é o quê acredita ser, não o quê os outros impõem sobre ti.
    A iniciação nada mais é que um processo psicológico, no qual você condiciona o teu cérebro, para se abrir a possibilidades, que por anos foram lhes ensinadas como impossíveis.
    É importante pois o poder, embora se manifeste em nossos genes, vem da mente. 
    É um fato científico, pois por mais que muitos duvidem, a magia é sim ciência, pois pode ser estudada, verificada e comprovada.
    Os neurônios são responsáveis por tudo o quê fazemos, seja bom ou ruim. Assim se você acredita firmemente, que ao chegar do outro lado de uma rua, vai acabar caindo, esses impulsos químicos captam a mensagem, e fazem com quê sofra o acidente, porquê os manipulou para isso.
    Este é um caso simples, mas há situações ainda mais “inexplicáveis”, nas quais as pessoas sofrem de males mentais, que podem provocar sintomas físicos, mesmo que não haja aparentemente nada para causar dor, são as chamadas doenças psicossomáticas.
    É por isso que um bom bruxo, precisa ter um ótimo preparo mental, ou a sua magia não obterá resultados.
    Não adianta nada você nascer com a predisposição, ou procurar pela essência sem acreditar nelas, pois em ambos os casos, não conseguirá despertar suas verdadeiras habilidades.
    Já viu que pode levitar, ou incendiar as coisas por exemplo, só que na hora de provar os teus poderes, há um bloqueio.
    Sozinho chega ao teto, queima a toalha da mesa. No entanto na presença de amigos, é visto como louco, pois seus pés não saem do chão, ou acreditam que usou o isqueiro, para forjar provas.
    Isso te faz achar que enlouqueceu, que os outros estão certos, e que é melhor evitar as suas “habilidades imaginárias”. Não é?
    Esse certamente é o caminho mais fácil, mas como disse antes o caminho é difícil, não adianta fugir no primeiro obstáculo.
    Esta é apenas a prova, de quê precisa tornar-se aquele que controla a si mesmo, para poder provar aos outros, do quê realmente é capaz.
    É a evidência de quê a predisposição, não é o suficiente, se em nada acredita – Principalmente se duvida de si.
    Já no caso dos humanos, a situação é um pouco diferente, pois este ainda não manifesta nada, mas precisa se desamarrar das correntes de concreto da sociedade, na qual foi inserido.
    De outra maneira, achará apenas os que lhe oferecem um lugar, servindo aos deuses, mas jamais um acento do lado dos mesmos.
    O ser humano, está acostumado a ter tudo nas mãos, e a seguir sempre aquilo que o torna o maior dos maiores, e é isso que tem que acabar.
    Há uma hierarquia no mundo mágicko, que deve ser respeitada. Só que o fato de hoje ser apenas homem, não implica que amanhã também será, então é preciso que aprenda a aceitar as suas limitações, e a conhecer melhor as possibilidades.
    Seu mundo é pessimista demais, ou exacerbadamente otimista, você não tem equilíbrio, vive mergulhado em caos, engolindo os ideais daqueles que supostamente estão acima de ti, sem nunca levantar a voz.
    É preciso que entenda que você tem sim voz, que o quê sente importa, que há muito mais do quê somente um planeta abrigando a vida, e -comprovado por Galileu Galilei- A Terra não é o centro do Universo.
    Desse modo, quase tudo o quê lhe ensinaram até o momento, pode ser mentira, ou uma verdade mergulhada em mentiras, ou seja há fatos que são claramente falsos, e outros embora pareçam como tais, são verdadeiros.
    É preciso que entendam suas limitações, ou a magia nunca funcionará.
    A iniciação além de expandir a sua mente e elevá-la, é também o  desenvolvimento de uma conexão mental do seu eu e o cosmos, e por isso deve ser considerada “sagrada.” 
    Assim sendo quando for realizá-la, não vá procurar por “receitas de bolo” prontas, como se houvesse alguma nova bruxa, que fosse a Ana Maria Braga da Magia, pois não há - se houvesse todos teriam poderes e entendimento, e não é o que acontece.
    Somos todos mestres e aprendizes de nós mesmos, mas devemos sempre procurar sermos a melhor versão. - É importante frisar, porquê se tu é o teu mestre, logo irá crer que pode fazer o quê quiser, como se ser um mestre, significasse que é Deus, e pode mandar e desmandar. Mas não é bem assim.
    Ser o teu próprio mestre, significa melhorar-se nos aspectos necessários. Crescer, e desenvolver-se, para alcançar os teus objetivos, não interessa se são bons ou ruins, pois bem e mal é relativo -O quê é bom para mim, pode não servir para ti.
    A iniciação, mesmo que realizada por tuas mãos, ainda é um ritual, e por isso dependendo do Deus que escolher seguir, deve respeitá-la como tal.
    Se queres obter sucesso e expandir teus pensamentos, é preciso que ouça a tua voz interior. Mas esta voz não nasce do nada, ela não é uma ideia absurda que lhe vem ao pensamento, e tu executas, isso se chama criatividade, não o chamado interno.
    Para realizar uma iniciação de sucesso, é necessário, que conheça os cultos anteriores dedicados ao Deus com o qual escolheu aprender. É uma forma de honrá-lo, e a ti mesmo também, para quê não passe vergonha entre os outros ocultistas, e consiga calar a boca dos iniciados.
    Eu escolhi aprender com Satã, logo me utilizei de velas negras,  símbolos profanos, e materiais de corte, para realizar a minha auto-iniciação.
    Sou uma predisposta, nasci numa família, que embora hoje sirva a Yaweh sob a luz, um dia serviram ao seu lado negro, conhecido como Adonai.
    Por isso consegui aprender muita coisa, sem a interferência de mestres e iniciados. Já tive a oportunidade de andar com grupos. Mas os “mestres” que apareceram em meu caminho, mais me atrasavam, do quê me ajudavam a entender a minha verdade.
    Entendo muitos conceitos místicos, por intermédio dos deuses do abismo. Eles me ensinaram a ser mais forte, e me indicaram o quê procurar, para achar as respostas, por isso sou muito grata a eles, e defendo minha versão da veras mística. (Ou verdade mística)
    É significativo mencionar que os deuses, embora nos guiem pelo caminho, eles jamais podem andar por nós, sendo assim não espere que o Deus escolhido, te entregue todo o material, que precisa para alcançar o teu objetivo, eles te darão a chave, mas a porta quem procura é você.
    Outra coisa, se teus caminhos se abrem com facilidade, há apenas duas explicações: O teu papel é pequeno, logo suas limitações são fáceis de superar, ou já sofreu o suficiente, para entender como alcançar aquilo que mais deseja.
    Após passar pela iniciação, e receber sinais – isso mesmo sinais, e não sinal- de quê o Deus escolhido te acolheu entre os seus, você agora vai definir como deve estudar, e mensurar o teu aprendizado, por isso precisará de um caderno, e uma caneta, para registrar, cada coisa incomum que te ocorreu, com data, hora, condições mentais, respostas plausíveis, e tudo o quê for necessário, para provar que teu relato é verídico.
    Se é um predisposto, poderá medir a melhora do controle de teus dons, se é o primeiro da tua linhagem, poderá transmitir isso para o próximo que colocar o manto, que certamente vai aparecer, podendo ser um filho seu, ou algum outro parente.
    Coisas incomuns vão acontecer, é inevitável, faz parte da jornada. Como lidarão com elas, é que vai definir se são ou não bruxos, magos, ou feiticeiros de verdade.
    Ou acreditaram mesmo que bastava um ritual, para se tornarem algo?
    Não, não é tão simples. Se fosse, se chamaria cristianismo, e não paganismo.


    Capitulo 2 – Realizando a magia

    Poderia encher as páginas com vários sistemas mágickos, como: Herméticos,  Satânicos, Caoístas, Streghes, Célticos, Gregos, Egípcios etc. Alguns conheço a fundo, outros apenas de maneira superficial, mas não o farei. 

    Se queres conhecer cada um deles, sugiro que faça uma pesquisa, extensa e detalhada, para entender o conceito apresentado, por estas filosofias de maneira profunda.

    Como disse antes não estou aqui para ensiná-los, como adorar os seus deuses, até porquê o ato de “adoração”, é algo que me dá nó estômago, mas vai de cada um.

    Então você escolhe com o quê quer trabalhar, minha função é apenas te ensinar, a realizar o ato mágicko. (Note que há um k extra, é proposital, para separar magia de ilusionismo, e foi proposto por um famoso ocultista.) 

    Primeiramente lembre-se sempre: O poder vem da mente, e com a linguagem certa pode programá-la. Sendo assim os resultados mágickos (como respostas, questões, ou atos) são genuínos, mas o processo para se realizar o ato, pode ser provocado pela mídia. 

    Não estou me contradizendo, a magia sempre influencia, mas a mídia não deve fazê-lo, pois faz do entendedor um tolo. No entanto, se souber usá-la, pode ser bastante benéfica, na hora de preparar a sua mente, para desbravar a Terra Oculta e suas maravilhas.

    Você Não deve aceitar a verdade escrita no roteiro, pois é uma meia verdade, e toda meia verdade é uma mentira.

    Todavia se for esperto o suficiente, fará bom uso de tais artifícios, e em vez de acabar mergulhado nas trevas da insanidade, será um exímio ocultista.

    O tolo irá ouvir a música milhares de vezes, e se deixará ser controlado por ela, tornando-se mais dos zumbis da cultura popular. O astuto utilizará a mesma música, para domar a si mesmo, pois tem conhecimento dos seus efeitos e que a própria serve para controlar a mente, por isso sabe como programar a canção, para atingir o seu objetivo.

    O ingênuo assistirá um filme, e criará diversas histórias em sua mente, acreditando que aquela é a sua realidade, sem de fato ser. O desperto verá na mesma obra, aspectos que condizem com a sua jornada, e os quê também contradizem seu aprendizado. – A magia estará presente ali mas o verdadeiro ocultista, saberá sobre o quê se trata o seu contexto.

    O hipócrita utilizará lendas urbanas, para validar as suas experiências “mágicas”, e recuará quando for abordado. O consciencioso saberá que a verdade sobre as lendas urbanas, é tão pequena que passa despercebida, por isso fará o possível para detalhar o seu relato, de maneira que coincida com o quê tal criatura realmente é, pois tem o entendimento de quê lendas nascem da má interpretação dos povos sobre determinados seres. Lobisomens por exemplo podem ser criaturas provindas de Sirius B, Vampiros podem ser membros da constelação de Alfa Draconis, e por aí vai.

    A voz do coletivo precisa ser ignorada, até que se faça necessário ouvi-la, ou seja o conhecimento empírico tem de ser esquecido, até que haja uma explicação científica para o mesmo, ou uma forma de validá-lo de maneira, que não seja uma experiência pessoal.

    Encontrar-se a si mesmo é importante, contudo depois de achar-se, deve focar-se em descobrir se realmente é o quê acredita ser, pois é a mente é uma caixinha de surpresas.

    No mundo em que vivemos, o ceticismo doentio é louvado, por isso devemos dançar de acordo com a música, para poder criarmos nossos passos. Isto é necessitamos abraçar o conhecimento concreto, antes de realizar a magia. Porquê embora o espírito preceda ao corpo, a mente funciona como nossa alma, e quando a mesma é atingida, nossos resultados mágickos podem falhar.

    Não adianta tentar empregar a magia pela magia, numa sociedade que te obriga a ter respostas para tudo. 

    Foi-se o tempo que não havia explicações para os fatos naturais, e bastava curva-se para os deuses para conseguir as suas graças.

    Não é mais a Era de Ouro, os Deuses não estão mais entre nós, eles abandonaram este planeta há muitos anos, e até os seus filhos estão por conta, por isso conectar-se com os mesmos não é tão simples.

    É imprescindível que o predisposto tenha consciência disto, pois muitos filhos dos deuses, acreditam do fundo de seus corações, que nossos pais cuidam de nós, por 24 horas, como se fossem como os humanos que nos acolheram em suas casas, mas a realidade é outra.

    É, eu lamento, lamento de verdade. Mas os deuses tem seus próprios afazeres, e embora nos visitem algumas vezes, deixando rastros incontestáveis de sua presença, eles não ficam ao nosso lado todo o tempo.

    Novamente estou ciente de quê muitos tentarão me “apedrejar” por isso. Só que como disse antes, as verdades são inconvenientes, e trago a liberdade para os que aceitam o seu preço, e neste caso o preço é abandonar a carência de seus coraçõezinhos, e aceitar que o pai, a mãe, ou ambos nem sempre podem ficar presentes.

    Se vocês os veem, ou os ouvem constantemente, é porquê ainda estão acordando, e as memórias da vida passada, estão se manifestando, de acordo com a forma com a qual eles se comportavam com vocês, no outro mundo.

    Eles nunca aparecem por nada, sempre há uma motivação para realmente virem ao nosso encontro, e quando vem, fazem com que saibamos que estiveram conosco.

    Lúcifer e Lilith são meus pais, sou a primeira de sua linhagem, e isso pode ser confirmado no meu site antigo, que disponibilizarei no fim deste livro. Por quê digo isto? Bem uma famosa série, retratou tal fato recentemente, só que antes do mesmo acontecer, já havia escrito no meu site, que esta primeira era eu. Então pode ir conferir na prática, que o oculto influencia mídia mas a mídia não interfere no aprendizado místico.

    Quando Lúcifer me visita, sempre há todo um contexto por trás disto, ou é para me dá um alerta, como em 2013 quando me mostrou que Belzebu é um traidor, que quer o seu trono. Para me proteger de alguma criatura nociva, que tentou me destruir, enquanto caminhava pelo mundo inferior. Ou me convocar para alguma reunião importante. - Eu sei parece cômico, mas já fui chamada uma vez, para ir com o mesmo no conselho celestial.

    Como sei que de fato era ele? Eu jamais tinha visto Belzebu como um traidor. Mas após este sonho e outros nos quais fui perseguida pelo Senhor das Moscas,  fiz uma extensa pesquisa, e encontrei relatos de pequenos ocultistas, que defendiam a mesma teoria. Alguns que falavam que Belzebu se opõe a rebelião de Satanás, outros que ele era como um exorcista, mencionado na bíblia.  Mas pareciam tão dissociados da realidade, que me desanimei e aleguei insanidade.

    Contudo algo em meu interior, me levou a pesquisar ainda mais, e acabei encontrando um belo artigo dedicado ao mesmo, no site da Penumbra Livros, onde faço grande parte dos meus estudos esotéricos atualmente, devido a enorme fonte de conteúdo gratuito disponível ali.

    De fato não só Belzebu era traidor, como já tinha conquistado o trono do Inferno uma vez, fazendo com quê 49 dos 72 demônios que caminhavam com Lúcifer o servissem, e isto já tinha até se tornado o roteiro de uma revista em quadrinhos da Vertigo inclusive.

    Até aquele momento eu nada sabia, mas Lúcifer veio e me mostrou um fato, que não era uma fantasia, e podia ser comprovado.

    Além disso no dia do dito sonho, ocorreu um evento quase cataclísmico em minha cidade, ligado ao vento, que é um dos elementos que o representa, e minha mãe literalmente viu um anjo dentro do nosso lar, muito bonito segundo a mesma.

    Já na outra vez, foi como se ele enviasse uma mensagem através de uma médium, na qual me mandou tomar cuidado, pois coisas terríveis iriam acontecer em breve. 

    É claro que duvidei, para mim a possessão, é apenas um processo psicológico, no qual o “possuído”, na verdade é um predisposto, que desconhece seus dons, e acaba manifestando habilidades sobre-humanas, que fazem com os quê os padres interpretem de maneira errônea, e na época, achava que se tratava de uma insanidade maior que a minha, só que ainda sim, é no mínimo suspeito tudo o quê aconteceu depois.

    Minha casa foi saqueada, e levaram todo o meu material de registro de eventos sobrenaturais, os homens reviraram o meu quarto todo, e deixaram o da minha mãe arrumado. Procuraram pelo notebook, onde tinha fotos, teorias, e vídeos, sobre a minha caminhada oculta, levaram a minha câmera, e até o quê eu usava para me distrair do mundo, o meu playstation 2, que já não valia muita coisa na época, e acreditei ser o disfarce perfeito, para o quê realmente fizeram.

    Foi como se declarassem guerra a mim, e a minha sanidade, pois eu analisei os fatos, bati cabeça dando explicações para mim mesma, e a verdade é que até hoje não consigo ver como um mero assalto, pois o mesmo começou, segundo a perícia no momento do incêndio da rua debaixo, que havia começado por causas naturais, e não por intervenção humana.

    Isso não foi a única coisa, naquele ano e até o inicio do outro fiquei muitas vezes a beira da morte. Escapando de acidentes por muito pouco, ou sobrevivendo as tentativas de suicídio, mesmo sem querer continuar de pé, porquê não suportava mais o fardo de ser filha de Lúcifer e Lilith. – Ou achou que somente o não agraciado sofreria? 

    Não foi fácil, e depois que tudo o quê era meu foi levado, fiquei isolada do mundo, e saiu a notícia de quê as contas estavam sendo vigiadas pelos americanos, e como se isto não bastasse, a minha página com apenas 150 curtidas, tinha sido apagada da rede, como se o link estivesse quebrado. O quê convenhamos, é no mínimo suspeito.

    Mas Lúcifer havia me avisado, e eu não dei ouvidos.

    Já Lilith sempre foi mais sutil, aparecia em corpos bonitos, e transmitia mensagens de importância sentimental, que me impediriam de me meter em furadas - Entretanto eu não ouvia, e por isso me machucava sem necessidade.

    No meu primeiro contato com a mesma, esta me revelou que o meu namorado na época, não era digno, nem me pertencia, e que era um erro tomar posse do mesmo, pois este era infantil e malévolo, e não era o quê tinha escolhido para mim.

    Duvidei de imediato, pois a moça que me disse, parecia ter sentimentos pelo rapaz. Só que anos mais tarde, vim saber que as suas predições estavam corretas, e que o cara era realmente um traste.

    Não haviam sinais plausíveis, que nos ligassem de fato, somente aqueles que vinham da sua capacidade de me estudar, para saber o quê eu queria - como um sociopata adolescente - e que o fato de me juntar a ele, não trouxe nada mais que:  Desentendimento, culpa, tristeza, e desespero. Como se o mesmo tivesse sido colocado na minha frente, somente para atrasar a minha descoberta, sobre quem e o quê de fato era, pois tal informação certamente tinha grande valia, e lá na frente falarei sobre isto.

    Por estas e outras que digo, eles só vão se manifestar em casos de extrema importância, por isso não espere que apareçam apenas por quê é a tua vontade.

    É preciso entender que a linha da realidade e a ficção por vezes se cruzam, mas a ficção é apenas uma expressão exagerada da realidade. Se não compreender isso, certamente não vai suportar os desafios, e acabará por enlouquecer. – Foi o quê quase aconteceu comigo, depois de 6 anos no caminho.

    Por isso use os artifícios midiáticos apenas para controlar a ti mesmo, para atingir o teu objetivo, ou por diversão. Mas jamais faça uso dos mesmos, para o teu aprendizado. Eu sei deve ser a 3° ou a 4° vez que repito, mas é para que entre em suas cabeças.

    O preparo mental é o primeiro e mais importante nível, porquê é através deste que vai destravar todo o teu potencial oculto, e trazê-lo para a luz.

    Por isso é necessário cuidar da tua mente, como se fosse o teu corpo, absorvendo somente aquilo que é capaz de suportar, e que favoreça o teu entendimento, ou a realização do teu propósito.

    Dias antes de fazer o ritual, faça uma boa playlist de músicas, que te ajudem a se sentir mais forte e capaz, de filmes que te façam crer no mundo oculto, de games e quadrinhos que seguem o mesmo roteiro, e quebram o padrão do impossível, tornando-o possível.

    Pois assim é criada a atmosfera mística mental, e isto te ajuda a ficar pronto para realizar o teu ato místico.

    Feito isto, agora é hora de seguir para o segundo nível.

    A atmosfera mental já foi desenvolvida, você se sente pronto para fazer o seu primeiro ritual, e não há nada que te faça duvidar de suas capacidades.

    Então agora deve expressar isso de maneira física, desenhando símbolos em teu altar, utilizando as velas certas, o incenso necessário, e o ambiente favorável ao teu rito.

    Por isso precisará conhecer cada símbolo que for utilizar em teu ritual, do contrário pode acabar libertando uma coisa, que deveria ficar no outro mundo- Falo por experiência, passei 9 anos sob a influência de Carreau, por ter o libertado em um dos meus rituais, e só há pouco tempo me livrei do mesmo. Então tome muito cuidado, com os símbolos que vai utilizar, pois cada um tem significado específico, e não é o teu desejo de alterá-lo, que vai promover a mudança de uma egrégora que está presente neste planeta há anos.

    Feito isto, agora é colocar em prática o teu aprendizado, então vá adiante.

    Já estudou, já conheceu os símbolos, e leu tudo a respeito dos cultos dedicados ao deus que tu escolhestes, então porquê não se arriscar com um rito próprio? 

    Você já aprendeu a respeito do ser escolhido, sabe o quê pode, ou não fazer, o quê o honra ou desonra, então dê asas a tua imaginação, pois uma imaginação sem recursos é criatividade, mas quando a mente foi preenchida com conteúdo, a imaginação pode abrir as portas, para quê consiga ouvir a tua voz interna. Quer dizer que se você apenas fizer um ritual, seguindo a tua imaginação por nada, pode falhar e cometer erros graves, mas se souber moldá-la, pode servir de ponte entre você e o deus que te aceitou entre os seus.

    Os predispostos precisam está preparados, pois quando a sua voz interna surgir, vários fatos intrigantes vão acontecer, inclusive coisas de origem sobrenatural, que parecem obra de um poltergeist, mas provavelmente virão deles mesmos. 

    A forma de saber se vem de si mesmo, é medindo sua temperatura corporal, pois o excesso de energia, fará com quê a mesma suba bastante, independente do seu elemento, mesmo os que tem afinidade com o gelo, poderão sentir a sensação de calor intenso.

    Ou tentando mensurar o seu comportamento psicológico, pois se estiver sob o estado de muita adrenalina, também poderá acabar por influenciar o ambiente com a tua força oculta.

    Já os humanos não precisam se preocupar, também podem empregar a sua energia oculta num ato mágico, sem ter alcançado o poder divino. É claro que no caso dos mesmos, coisas sobrenaturais serão raras, e provavelmente se acontecer, dificilmente virão dos mesmos. Contudo isso não significa que não há nada que possam fazer.

    O poder dos homens está em sua mente, um pouco mais que no caso dos predispostos, e os humanos podem usar a sua força, para realizar sonhos típicos da espécie, como: Ganhar muito dinheiro, um bom emprego, atrair o amor de suas vidas, melhorar a aparência etc.

    Não será algo instantâneo pois são limitados, por serem a imagem de seu Deus Jeová, mas mesmo assim, com o método certo, e os 2 níveis mental e físico, eles certamente atingirão as suas metas.

    Pois há uma energia oculta poderosa, que está disponível para todos, inclusive os humanos, e é através desta que podem inclusive, abandonar a condição de homens, para se tornar algo mais próximo dos predispostos, ou ainda mais poderosos que alguns.

    Capitulo 3- A Magia é vida, mas não é um ser vivo.

    A magia não é feminina, nem masculina, ela está acima de teorias tão mundanas.

    Atualmente vemos constantemente que a magia é algo especificamente feminino, que a mulher é detentora de uma enorme energia oculta, porquê somente a mesma é capaz de produzir a vida, e todo aquele blá, blá, blá feminista, do qual até mesmo Lilith já está por aqui.

    Ou pior ainda que o homem, por conta de seu intelecto voltado para o modelo mais racional da realidade, é naturalmente aquele que manifesta as forças de um verdadeiro deus, ou outras besteiras machistas que nos fazem entender, porquê o feminismo existe para se opor a tal pensamento.

    Nem o homem ou a mulher são os provedores de tal energia. Não separados pelo menos. Pois a mulher embora tenha o ambiente perfeito para gerar a vida, não pode fazê-lo sem a semente que existe dentro do homem.

    É totalmente desnecessário provar a sua superioridade através do seu sexo. Isto não é coisa de um bruxo real, mas sim de alguém que tem sérios problemas consigo, e precisa validar-se pelo quê tem no meio das pernas.

    No caso das mulheres, é como adotar uma postura semelhante ao machismo, que supostamente desprezam. No caso dos homens é apenas seguir sendo como os outros, quando, como ocultista , deveria ser melhor que os demais.

    Baphomet representa a união do feminino e masculino, e é uma das figuras mais poderosas do ocultismo, pois não expressa apenas a dualidade, mas a totalidade, que é o uno. A união  do céu e o inferno, do sagrado e o profano, e provavelmente é a imagem perfeita, de como a primeira causa seria, se a mesma se manifestasse em forma física, portanto aprenda a lição mostrada por esta imagem.

    A Magia não tem Religião.

    Muitos defendem abertamente que bruxaria cristã não existe, porquê a igreja perseguiu inúmeros bruxos na santa inquisição. – Até os 16 anos acreditava no mesmo, mas hoje tenho 24 anos, e sou obrigada a desiludi-los mais uma vez.

    O conceito amplamente defendido é que a magia pertence ao paganismo, e logo não pode ser praticada dentro das igrejas, ou por seus fiéis.

    Quem faz tal defesa, provavelmente se encontra no inicio da caminhada- Mas se já passou vários anos, e ainda acredita nisso, precisa urgente deixar de seguir a “massa mística” (O quê é irônico, pois nem deveria haver uma.) e conectar-se  com os deuses, pois apesar do quê imaginam, não estão nem os servindo, nem caminhando com os mesmos.

    Eles sentem como se a nossa cultura estivesse sendo saqueada dos templos sagrados, e entregues aos cristãos.

    E não estão errados, pois isto é o quê de fato aconteceu, antes da chegada de Cristo. – A bíblia sagrada cristã é um mosaico de textos ocultistas de outras culturas.

    Portanto o “roubo” já aconteceu há muito tempo, não é algo novo, e desta forma muitos fiéis já tiveram tempo suficiente para desenvolver os seus cultos. Existe até mesmo uma linha do cristianismo, voltada para os misticismos, então a bruxaria cristã não é algo novo, aceite isso.

    Além disto os grandes ocultistas conhecidos, estudaram as mesmas filosofias criadas por estes fiéis, antes de fundar as suas escolas de pensamentos. É o caso de Aleister Crowley - conhecido como “To Mega Therion”, a  “Besta 666”, “O homem mais cruel do mundo” - que ingressou na Ordem da Aurora Dourada, antes de criar seus Libers. Porém o quê poucos sabem, é que embora o mesmo tenha sido expulso da escola dominical, a Ordem que o recebeu, foi fundada através do ensinamentos distorcidos de Agrippa, que era um grande homem, e devoto do divino.

    Então não há necessidade de espancar e cuspir naqueles que descobriram tal possibilidade, pois pode até servir para contribuir em alguma coisa.

    Há tanta coisa que merece mais tal ódio, que realmente me dói a vista, ler tanto desgosto voltado para os que resolveram seguir um caminho diferente do nosso.

    Do momento em quê erguemos nossa espada para os homens apenas por conta da sua religião, estamos sendo tão sujos e hipócritas, quanto os inquisidores, que apenas apontavam o dedo para aqueles que discordavam da sua versão do mundo. – E eu sei que você não quer ser comparado com o teu rival, então não haja como tal.

    É importante frisar, que a magia supostamente foi trazida aos homens por aqueles que desceram dos céus, por isso a mesma não pertence a humanidade, e logo não deve ser julgada como se fosse.

    Lúcifer e os caídos ensinaram as mulheres, e lhes deram o poder, para realizar os próprios intentos. Mas de onde Lúcifer veio e onde a magia residia antes? Isso mesmo no plano celestial, ou a Deusa Desceu a Terra para ensinar os humanos a praticar a magia, e os guiar para o seu mundo. Quando não mais pôde ficar enviou a sua filha, para continuar o seu trabalho. Mas é sempre seguindo a premissa de quê a magia foi transportada de outro reino, que não é o quê vivemos.

    Então por favor, pare de usar esse contexto absurdo, de quê a magia pertence somente a um grupo, pois até nos textos antigos, pode ser comprovado, que “não é assim que a banda toca”. Hermes Trismegisto já dizia: O quê está acima, é o quê está abaixo. Entenda de uma vez por todas este conceito.

    A magia não tem política.

    Se você é de : direita, esquerda, liberal, fascista, socialista, ou qualquer outro partido conhecido, não importa.

    Novamente é algo mundano, que deve ser deixado em seu devido lugar.

    Não traga suas convicções partidárias para dentro da sociedade ocultista, pois não é bom misturar as coisas.

    Hitler e o Vrill estão aí para provar. 

    Ele obteve um grande sucesso ao realizar a sua missão, mas a sua mensagem real jamais foi ouvida, e pior ainda acabou por ser distorcida, com o decorrer dos anos. Sendo tratada como um massacre desnecessário, ou desumano, ou o grito de horror de inocentes, que nem eram tão inocentes assim. – A sua luta não era contra os judeus, e sim os sionistas, que supostamente queriam dominar o mundo, mas conseguiram fazer parecer que esta era a vontade de Adolf.

    Esta é a versão da verdade que conheço e acredito, pois a filosofia sionista e illuminati, em muito coincidem.

    Mas é algo em quê Eu acredito. Não significa que você é obrigado a crer no mesmo. Por isso saiba que há um espaço para a magia, e outro para a política, não é porquê um influencia o outro, que devemos misturá-los.

    O Tudo é o Todo, e o Todo é Um. Só que é preciso compreender suas metades, para poder entender como se complementam.

    A Magia não tem etnia.

    Não importa se tu és negro, branco, hispânico, índio, ou qualquer outra raça conhecida. Todos são humanos, ou ao menos meio-humanos, no caso dos predispostos. Assim sendo devem respeitar uns aos outros.

    Se o branco quer fazer parte da gira, deixe-o entrar. O mesmo vale para o negro que anseia entrar num sistema mais elitista como o luciferianismo ou o satanismo.

    Salvo apenas exceções para filosofias voltadas para o racismo como a Skull and Bones por exemplo. Porém creio que tais ideais são como feminismo e machismo, e precisam ser abolidos da face da Terra, pois só servem para validar a vontade, de gente tão pequena que se define por sua cor ou sexo.

    A magia não tem estilo.

    Vocês encontrarão gente de todo tipo no caminho. Mulheres com roupas provocantes, homens maquiados, moças de turbante, rapazes de dread, gente de preto, gente de branco, e isso não significa absolutamente nada.

    A roupa que a bruxa veste, não representa o seu poder, apenas expressa a sua mais forte emoção, aquilo que mais gosta, e tem alguma afinidade.

    Ou seja não é porquê uma bruxa veste preto, que ela trabalha para Satã, ou porquê uma bruxa usa vestes coloridas, que esta serve a deusa e o deus.

    A diversidade neste meio é muito grande, logo nem tudo o quê aparentemente é, de fato é. Quer dizer há casos de bruxos que se vestem como anjos, mas trabalham com energias bem densas, e o mesmo ocorre com aqueles que se vestem como demônios, mas praticam magias menos pesadas, pois é o quê podem suportar.

    Há bruxos que pouco estudam, mas conseguem obter grandes resultados. – Embora mais tarde acabem achando que o hospício é o lar doce lar.

    Há ocultistas que procuram estudar mais do quê necessário, e quê embora criem barreiras no seu desenvolvimento, se sentem mais confortáveis, em suas limitações.

    Então não adianta ditar que a magia é um estilo de vida, pois cada um é livre para encontrar o tipo de vida que o mais o agrada. – É claro que adotar a prática diariamente, certamente vai te ajudar a obter bons resultados, pois condiciona o cérebro a destruir o empecilho do impossível. Entretanto isso não é uma obrigação, nem uma regra. Você decide o quê se adequa a tua condição. - Até porquê há aqueles que compartilham seu lar com outras pessoas, que não apoiam as suas práticas, e por isso precisam de outros meios, de gerar uma boa atmosfera mágica, que não implique em desrespeito aos que lhe oferecem um teto, e seja viável para executar.

    A magia é uma energia.

    A magia é formada de átomos de energia positiva e negativa, e você é o nêutron que rege tais forças. 

    A magia não tem voz, ela apenas te ajuda a encontrar a sua. A magia não pode ser um corpo, mas te ajuda a moldar o teu. A magia não ouve, mas te faz ouvir. A magia não vê, mas te ilumina para enxergar. A magia não sente, mas te impulsiona a sentir. A magia não pensa, só que intervém em teus pensamentos.  

    A magia é uma força gigantesca, que se bem canalizada, pode criar ou destruir a vida, mudar ou colocar as coisas no lugar, alterar o fluxo ou mantê-lo, incendiar ou apagar o incêndio. É a mais perfeita expressão da linguagem divina, proveniente da Primeira Causa. É a matriz de onde tudo nasce, da qual pode beber de sua energia.

    A magia é vida, pois é movimento, e ausência do mesmo, é luz, é sombra, é claro e escuro, é impulso, é neutra, é causa e efeito, mas não é um ser vivo.

    Consequentemente não pode ser tratada como tal. A vista disto não lhe atribua as características de um humano, fazendo-a ter: sexo, política, etnia, ou estilo, pois esta é muito maior que tais convicções.

    Capitulo 4- O Mundo sem o véu.

    Já trabalhamos em cima da atmosfera mística , e a importância do aspecto mental, para criar tais condições, e portanto aplicar a energia mágicka. Mas como é que o mundo se torna, após quebrar a barreira do impossível? 

    Primeiramente o mundo de concreto, continuará o mesmo, são seus olhos e o olhar que se tornarão diferentes. 

    Provavelmente deve ver diariamente a batalha entre os céticos e os ocultistas. “Só confie na ciência pois há como comprová-la e a magia é apenas crendice.” Dizem os apaixonados pela ciência. “Abra seus olhos, há um mundo mágico por trás deste, e somente a fé nele é o suficiente para manifestá-lo. A ciência é uma tolice, um insulto as forças divinas.” Dizem os aficionados a magia.

    Você pode de imediato concordar com a segunda visão, mas ambas estão erradas. – Embora a parte do conceito metafísico (o mundo por trás do mundo) seja correta.

    Quando se encontra de fato com o oculto, você percebe que magia e ciência, servem para dar as mãos e não se destruírem, como se fossem inimigos velados.

    Essa rivalidade trivial, não é digna de um ocultista, pois o mesmo tem consciência, de quê muito do quê temos hoje antes era visto como místico.

    Imagine-se em 1500 com um celular em suas mãos, certamente as pessoas do tempo, ficariam maravilhadas, e depois iriam temê-lo, ao ponto de queimá-lo vivo, sob a declaração de prática de bruxaria. – Mas nos tempos em que vive, sabe que se trata de ciência, e isto o faz rir.

    Essa perspectiva a princípio pode deixá-lo desnorteado, só que é um fato. Eles nem parariam para estudar a respeito, pois naquela época a Terra era movida pelo medo.

    Muitos cientistas foram tidos como hereges no seu tempo, e jogados no fogo purificador dos santos, então tentar separar o inseparável é bobagem. – Todavia é significativo que saiba que não basta compreender as metades, é necessário entendê-las a fundo.

    A ciência é um meio de comprovar se um fato é real ou falso. Embora seus métodos, pareçam servir somente para desbancar a existência de seres maiores que a humanidade. Eles também podem ser usados, para por exemplo separar, quem realmente viveu uma experiência sobrenatural, e os que apenas precisam de tratamento psiquiátrico. – Lembrando que alguns eventos de natureza mística, podem ser tão devastadores, que causam este efeito de estresse pós-traumático.

    Logo se a ciência serve para medir o evento, o esoterismo é o evento– Uma manifestação nua e crua da natureza, que para muitos foi esquecida, e que tem mistérios a serem desvelados.

    Desta forma o primeiro ponto é esse: A inexistência de um padrão dualista, e percepção de que o universo é realmente um, cujas as metades unidas, o fazem completo.

    Além disso, quando você se conecta de fato com o cosmos, ele também se junta a ti, e assim desenvolve o quê é conhecido como inteligência divina. – Não que vá conseguir resolver cálculos matemáticos complicados em segundos, como no filme Transformers, mas certamente libertará uma sabedoria, bem diferente da dos demais, e que vai te ajudar a se compreender melhor.

    No caso daqueles que tem a predisposição, poderão descobrir mais sobre a linhagem, através das memórias dos deuses, que vão lhes transmitir informações sobre a sua missão, e o nível dela. – Se será fácil ou cheia de obstáculos.

    Já os humanos, terão como resolver as suas grandes questões, a respeito de quem são, e de onde vieram de fato, podendo inclusive conhecer o criador da sua espécie, e lhe pedir a dádiva divina. – Mesmo que tenha um preço alto a se pagar.

    E este é o segundo ponto: Saberá sem ter visto nada antes. – Mentalize a seguinte situação: Você é um estudante de médio conhecimento sobre a Deusa Afrodite. Tudo o quê sabe é que é a Deusa do Amor, e que seu par é Hefestos, o ferreiro do Olímpo, e outras pequenas coisas. Do nada seu corpo se desliga, e você tem a visão de Afrodite na cama de Ares, o Deus da Guerra dos Gregos, e Hefestos quer provar a sua traição. Você retorna, acha aquilo estranho, e decide pesquisar sobre isso, então lá está o quadro que retrata a sua visão. É o quê vai acontecer, quando libertar este tipo específico de aprendizado.

    Novos mundos irão se apresentar a ti, mas eles não serão físicos. Sempre que meditar, terá visões do teu verdadeiro lar, que não é este planeta, e ao fazer a viagem astral irá sentir, como  são as outras civilizações.

    Há chances de prestigiar o mundo, em que o Deus que te acolheu habita, e assim receber dele algumas direções, para te ajudar a cumprir o teu propósito.

    É quando começará a entender a teoria de Giordano Bruno, sobre os milhares de planetas, que existem além da Terra, e a diversidade presente nos mesmos.

    Deixará de crer em filosofias como criacionismo ou evolucionismo, e aceitará o design inteligente, que lhe parecerá a resposta mais plausível, para a origem das espécies existentes.

    Verá que a panspermia cósmica, é uma ideia incompleta, pois a vida não se forma do nada, é preciso de uma causa que a gere, e esta é ninguém menos que o próprio Uno, que você conhece como Universo.

    Ao entrar no plano invísivel , começará a duvidar se está vivo, ou preso em um sonho, do qual acorda todas as noites, e retorna para casa. – É lindo, porém se você criar afinidade com apenas o outro lado, esquecerá que não habita nele, e isto te trará consequências terríveis, como buscar o abraço gélido da morte por exemplo, e ao fazê-lo, se levará a dimensões sombrias, que deram origem ao termo adotado como Inferno, o quê atrasará ainda mais a sua volta.

    É preciso que se lembre sempre, de quê embora a sua casa seja a anos luz daqui, há pessoas que precisam de você, e tu tens uma missão a cumprir, antes de retornar para aquele lugar que te faz tão bem. – Quando fizer a projeção, tenha ciência de quê está fazendo uma visita, e não se mudando pra lá.

    Alguns rapidamente encontram o caminho de volta para as estrelas, outros demoraram, pois não estão prontos para aceitar, que aquele canto maravilhoso, o aguarda, mas ainda não é o momento certo. – Ou pior, devido as espécies superiores e inferiores, que vem se aniquilando há milênios, não há pra onde ir, e só pode aprender com o quê restou, da sua civilização materna.

    Outra coisa, é importante também ter conhecimento de quê, tudo o quê tem no outro mundo, não pode trazer para o físico. O máximo que conseguirá, é uma versão fantasma da coisa em questão.

    Portanto se atravessar o mundo dos dragões para este, montando em um deles, o mesmo não vai se materializar em teu quarto, como se fosse um animal comum, e somente os que desenvolveram A Visão, poderão enxergá-lo, (ou nem isto, pois há os que escolhem com quem interagir).

    Há muitas críticas no meio sobre o quê os bruxos já viram ou experimentaram.  Qualquer magista que tenha  visto duendes ou dragões, e se juntado a estes numa experiência mística, é friamente julgado. Então mesmo que adentre no outro lado, é preciso que não fale isto para quem não presenciou o mesmo, pois dificilmente vão compreender. – Salvo exceções aos que se dizem ocultistas, mas precisam de substâncias alucinógenas para adentrar no outro mundo. Estes realmente possuem pouca credibilidade sobre o quê presenciaram, pois as drogas não te ajudam a conhecer a outra dimensão, no máximo consegue refletir o teu interior. Isto não significa que me oponho ao seu uso, pois cada cabeça tem uma sentença, e sabe o quê é melhor para si. No entanto quando se trata de experiências extra-sensoriais, o uso de tais artifícios pode lhe ofuscar A Visão.

    Não estou falando da visão física, mas sim do terceiro olho, o olho que tudo vê, o olho que não enxerga somente o concreto, mas os átomos que o compõem, e vibram na mais baixa frequência, para torná-lo pesado.– É o olho que desmembra a realidade, para que conheçamos cada um dos seus mais profundos mistérios, e certamente você não querer perder essa capacidade. Pois uma vez que encontra o plano místico, os seres do plano místico te encontram também, e nem sempre isso é algo positivo, pois a maioria detesta os seres esquecidos na Terra, e anseia destrui-los, para que não retornem ao mundo deles, com medo de serem “infectados” por ideias humanas.

    E aqui é que a situação piora, pois os seres que odeiam os meios- terrestres, e terrestres em sua totalidade, fazem de tudo para que  os bruxos, não consigam atravessar a ponte do astral, para o Etérico – O plano acima do astral, (que também pode ser reconhecido como o Consciente Coletivo de Jung) terão as respostas necessárias, para evoluírem suas consciências, sobre quem são.

    Eu sei parece o roteiro de algum RPG, e se quer saber a realidade, o mundo invisível não é tão diferente do mesmo. Então se anseia entender a respeito, sugiro que comece a jogar, e estude todo o sistema, para quê saiba de suas limitações.

    Aliás creio que quando disseram que Deus jogava com dados, se referiam a isto, pois tudo depende das circunstâncias. Deus lhe oferece alternativas, e você no início, quer seguir adiante, e derrotar o monstro com um golpe de misericórdia. Contudo Ele no poder de mestre do jogo, prefere que lute contra o monstro, da forma mais humilhante que há, e perca teus braços e pernas. Ambos atiram seus dados no tabuleiro. O resultado dele é 7 o seu é 2, sua vontade é alterada para que a dele seja atendida, e você nobre peregrino, acaba por perder teus membros na batalha contra o gigante.

    Pois não importa o quanto digam que A Tua Vontade é A Lei, seus artigos podem ser alterados pela diretoria, que foi gerada pela Lei Imutável dos Antigos. 

    A sua vontade, não é o suficiente para alterar algo monumental, principalmente quando se trata do seu encontro com o Mestre do plano Superior. Pois naquele lado há uma egrégora poderosa, que foi alimentada por milhões, e a diferença do milhão para um é muito grande.

    Você certamente deve está pensando, se é assim que graça tem em praticar magia? A mesma de jogar. Pois quando você segue dentro dos padrões sociais, apenas está sendo parte do cenário, e não tem controle das próprias ações.

     Mas quando modifica o rumo, ao menos tem a chance de escolher, ou seja está pegando os seus dados, e se preparando para alcançar a glória do verdadeiro livre- arbítrio.

    Porém assim como para jogar um RPG, você precisa muito do quê o dado, na magia não é diferente. É necessário escolher um personagem, ou no caso do ocultismo, uma vertente, como a magia draconiana por exemplo.

    Feito isto, não basta apenas manter o personagem, é preciso fortalecê-lo, para encarar o mundo que o aguarda. No RPG com armaduras, joias, e outros apetrechos. Na magia com sigilos, círculos, linguagens desconhecidas, etc.- E mesmo que seu personagem esteja no nível máximo, sempre haverão aprimoramentos, para torná-lo cada vez mais capaz de alcançar os objetivos, que lhe são apresentados na jornada.

    Portanto antes de adentrar de vez no mundo translúcido, ou tentar remover o véu do mundano, se prepare devidamente, pois nem sempre o mestre vai com a cara do seu personagem, e no seu caso essa potência é ninguém menos que o próprio Deus. - Não o Deus dos Ocultistas, que é a força ilimitada e geradora. Mas sim o quê foi criado por uma egrégora de humanos ambiciosos, e mal intencionados, que conheceram um ser, que achou que poderia tomar a coroa cósmica de quem o gerou, e o fortaleceram o suficiente para ser aquele que hoje comanda muitos mundos. É, eu sei parece a história de Lúcifer, mas este é um clássico caso, em quê o vilão se denuncia pela sua versão deturpada dos fatos, e quem tem o bom senso consegue perceber as entrelinhas. – Leia o Antigo Testamento, como um livro comum, e verá que o Deus do Amor, é na verdade uma expressão do mais puro Ódio. 

    Além destas alegorias, há muitas outras, então fique atento, e aprenda a jogar, ou siga como a massa permitindo que o mestre controle o seu destino, sem jamais se opor a tudo o quê te acontece, e ficando grato pelo pão e o vinho na mesa, assim como pela morte dolorosa de toda a sua população, porquê este quis assim.

    Capítulo 5 - O fanatismo, o grande veneno mágicko.

    No capítulo 4, abordei sobre o outro mundo, mas primeiro expliquei sobre o maior dos empecilhos para chegar lá, pois é importante que esteja ciente, de quê nem tudo são flores.

    Posso ter passado a impressão de quê estou em cima do muro, sobre Deus e o Diabo. Mas o fato é que, quando se conhece ambos os lados, fica claro que a ideia do preto e branco, não serve para nada.

    É claro Jeová é cruel, é o Deus dos homens, dos pecadores. Contudo é um verdadeiro Ares da religião judaico-cristã, não há quem duvide da eficácia de suas estratégias, e isto é admirável. – Apenas discordo de algumas metodologias dele.

    O mesmo ocorre com Lúcifer, ele é meu pai, e certamente me orgulho disto. Porém não concordo em evitar a massa. Apesar de não pertencer a ela, seus tipos de entretenimentos são bem agradáveis.

    Então é aqui que se percebe, a razão para não apoiar fanatismos. Se fosse obcecada por Lúcifer, concordaria com tudo o quê dissesse, mesmo que fosse contra aquilo que gosto, somente para ser o quê ele supostamente espera de mim.

    Isso é errado. Além da grande falta de amor próprio, há também o risco de ser manipulado por entidades maléficas, que não caminham nem com a luz, nem com as trevas, apenas servem a si mesmos. – O quê não é errado, mas do momento que atrapalha a vida do outro, se torna prejudicial.

    São seres que passaram grande parte da sua vida, sob a sombra dos senhores, e que jamais conseguiram ascender como eles, e por isso na primeira oportunidade, os apunhalaram pelas costas, e assim foram jogados num mundo caótico, de onde vez ou outra saem para atormentar, sob a forma de fantasmas, que sussurram coisas em nossos ouvidos. – É como se fossem os empregados que se dedicaram a empresa, sem terem recebido uma proposta de aumento, e mesmo assim esperaram subir de cargo, e quando nada aconteceu, começaram a destruir o prédio para que ninguém mais trabalhasse. 

    Uns os chamam de demônios, mas isto é um insulto aos seres do mundo inferior. Então prefiro seguir com o conceito da umbanda, de espíritos obsessores, e embora grande parte diga que se tratam apenas de seres humanos, poucos sabem que não são apenas os homens, que tem problemas para evoluir.

    São criaturas que em vez de terem visto alguma oportunidade, abraçaram as limitações como desculpa, para concentrar a sua ira em algum foco.

    E porquê estou falando nelas? É bem simples na verdade. Porquê tais seres encarnados ou desencarnados, costumam se aproveitar da fé alheia, para que cumpram seus objetivos atrozes, de destruir a base das filosofias, que supostamente os abandonaram.

    Portanto quando você se entrega demais a fé, não consegue perceber as armadilhas dos mesmos.

    Imagine duas situações: Primeiro há um padre de uma cidade pequena, cheia de gente analfabeta, mas com muita fé em compensação.

    Eles acreditam que apenas a palavra de Deus, proferida por seu padre, é a verdade imutável da vida.

    Contudo tal líder, pouco se importa com as palavras divinas, apenas as estudou, para ter poder sobre as pessoas, e assim usá-las como bem entender.

    Ele tira das mesmas: o seu dinheiro, os seus filhos, a sua liberdade, e os faz segui-lo cegamente, em rumo a completa perdição, pois sabe que está condenado, e quer levar quem puder junto.

    Como se não bastasse, para garantir-se, diz que é a vontade de Deus, toda vez que o questionam, e pior ainda, faz com que seus seguidores, repudiem qualquer figura pública, que pode desmistificar a sua falácia. – E se a tática funciona, mostra as suas garras, é quando por exemplo reúne os mais devotos, e os influencia a matar alguém, alegando que a pessoa está sob possessão demoníaca. (Não que discorde da existência da mesma, mas creio que eu, que o quê parece palhaçada para quem entende, é assustador para o ignorante, e o medo, sempre gera caos, se mal empregado) 

    No segundo caso, a mentira é um pouco mais articulada. O sacerdote diz que você é livre, que não precisa mais seguir nenhuma regra do “Nazareno”, que a vida começa agora, e os pecados não passam de uma bobagem.

    No início nenhum centavo é tirado, eles apenas promovem festas de orgia. – O quê não é ruim se for solteiro, mas o verdadeiro preço, que vem depois sim.

    Você se envolve nas palavras do sacerdote: Não há Céu, Não há Inferno, somente o aqui e agora, então façam valer a pena do jeito que o diabo gosta!

    Assim como o padre, tal sacerdote não está interessado no crescimento do seu grupo, somente quer arrastá-los para o fundo do poço, para que precisem dele, e é aqui que o golpe se torna mais evidente.

    Pois toda vez que a pessoa quer sair da tristeza por sua vida vazia, surge um novo motivo para deixá-la em tal estado. – É, o sacerdote, não carrega tal acunha, sem ser praticante de magia.

    Após fazer com que a vítima de seu magnetismo ( e alguns espíritos), comece a enlouquecer, vem as ofertas absurdas. “Mate um bebê para Satã, e ele te libertará destas correntes.” Diz o mesmo. Mas convenientemente, esquece de contar que a criança escolhida, é filha da ex com o atual - que percebeu o bosta que ele era, e o deixou.

    Eu sei parece inacreditável, mas a situação somente se agrava, pois no fim das contas, o padre e o sacerdote, se encontram longe dos olhos de todos, e assumem que suas jogadas, estão sendo bastante eficazes. Pois se os cristãos ficarem longe da magia, que os levam a questionar, e os satanistas evitarem o sentido de certo e errado, nunca conseguem atingir o estado da iluminação, para descobrirem a quem de fato servem, e que não é nem ao Diabo, nem a Deus.

    Estas criaturas são ainda mais inescrupulosas que Jeová, pois enquanto o mesmo ainda recompensa os seus, estes seres apenas fazem os demais afundarem, e nunca reconhecem os seus esforços, porquê como disse antes, sentem-se injustiçados, e que todos merecem a sorte que tiveram, por serem tão tolos ao acreditarem neles.

    Então não deixe que a sua fé te domine, mesmo que seja parte do plano superior. – Ela pode abrir portas, mas se não souber onde pisa, acabará indo para uma selva, e mergulhará em areia movediça.

    Somente a fé, nos faz ficar cegos. Da mesma forma como seguir somente a ciência, nos faz deixar de perceber, o tamanho da plenitude do universo, e que nem tudo se resume ao que é “concreto”. – A verdade mística não pode ser medida por filosofias dualistas da humanidade, pois esta se perdeu há muito tempo.

    Então como nos impedir de chegar a esse ponto? 

    Não há um método certo, e que tenha 100% de eficácia. Mas após várias pesquisas de campo, com base em observação, percebi algumas formas, que listarei a seguir:

     Evite defender a sua fé com paixão. – Não estou dizendo que não deve amar o quê faz, mas sim que precisa saber a diferença, entre o amor e a paixão. Amor é uma chama pequena, que serve para nos aquecer numa caverna. Paixão é um incêndio, que se alastra, destruindo toda a floresta, e se não ficou claro Paixão é um caso de amor intenso, impulsivo, e descontrolado. Amor é quando duas pessoas completas, compartilham uma vida juntas, sem desistir de quem são, pois escolheram andar com o par, e não dominá-lo.

     Estude tanto o seu opositor, quanto aqueles a que apoia. – Não estou dizendo que precisa se tornar um cdf de magia. Todavia é preciso sim ter conhecimento do quê faz. Então antes de julgar o inimigo, tente descobrir sobre as suas motivações para agir de tal forma. Concordar ou não, está fora do caso, mas é importante ver até onde o boato relatado é real.

     Haja como cético. – Apesar da correlação com o item anterior, é importante nos focarmos no fato, pois ser cético, é duvidar bastante da história, antes de aceitá-la como verdade, e é esta postura que deve tomar, sempre que uma coisa, que desconhece, surge na tua porta.

     Procure informações imparciais – Se o bruxo diz que a sua deusa é santa, e a religião a condena como “demônio”, é bom evitar ouvir ambos, e buscar por uma voz, que trabalha todos os aspectos da deusa, desde os puros, aos mais pecaminosos.

     Não fale sobre sua filosofia com eles. – Um fanático não tem nada para acrescentar na sua busca por conhecimento, a não ser, que queira estudar sobre transtornos de personalidade, ligados a estresse pós- traumático. Mais terrível ainda, pode te levar pro fundo do poço junto com ele, pois te faz crer no mesmo mundo maravilhoso, em que os seus superiores o colocaram. Então se tem um(a) amigo(a) que sofre disto, fale sobre qualquer assunto, menos deste.

     Rejeite as palavras do fanático – Não precisa humilhar a pessoa, por conta do seu fascínio. Afinal o fanático em si, é apenas uma pessoa apaixonada, sendo controlada por terceiros. Então sempre que notar os traços de fanatismo, lembre-se de que ela é apenas o papagaio repetindo o quê ouviu, e não sabe o quê fala.

     Conheça os traços de fanatismo. – Um ser tomado por esta paixão doentia, manifesta alguns sintomas como: 

    Palavras vazias. – O(a) sujeito (a) fala como se entendesse do assunto, mas ao ser confrontado, e obrigado a defender os interesses, com ideias próprias, fica mudo, ou tenta alterar o rumo da conversa. Fingem sensatez e calmaria. – Frases como “O mundo é injusto, por causa de...” são bem comuns no seu vocabulário, pois estes conhecem o Uno, mas são incapazes de entendê-lo.

    III. São agressivos. – Se mudar o rumo da conversa, não funcionar, eles começam a se irritar bastante, e por isso se tornam violentos.

    Não suportam a verdade. – Diga-lhes que Satã é bom, ou que Deus é engenhoso, e verás o fanático demonstrar, a escuridão mais profunda daquilo a que serve. São iludidos. – Não conseguem extrair a verdade de um material fabricado para entretenimento, e pior ainda, tomam para si o todo como verdade absoluta. (Depois saem matando hereges ou sacrificando virgens porquê o programa ensinou.) Veem sinais onde não há nada. – Que há sinais no universo, todos nós sabemos, porém achar que tudo é sinal de alguma coisa, sem antes avaliar os aspectos psicológicos, entorno de tal possibilidade, é sim um erro. Se você sonha com um homem te perseguindo, após ter assistido um filme de terror, ou vários, isto certamente comprova que no fundo, não suportou tão bem quanto pensava. Agora se você sonha com anjos te ajudando, quando a sua vida, é totalmente voltada pro satanismo, é bom avaliar o quê significa.

    VII. Carregam olhos vazios, e parecem está sob efeito de drogas pesadas. – Eles podem tentar forçar o riso, para demonstrar que estão 100% satisfeitos, mas se olhar bem, verá sinais físicos, que denunciam a sua infelicidade como: Olhos de quem foi vítima de hipnose, sorriso que não condiz com os mesmos, magreza ou gordura extrema, tremedeira, e fala lenta, cheia de pausas excessivamente longas, (mesmo que não condiga, com a sua regionalidade) ou discurso caloroso e agitado demais.

    VIII. São ativistas do templo. – Que há fiéis enjoados dentro das igrejas voltadas para o culto cristão, já estamos cansados de saber. Mas sim, também há fanáticos no templo pagão. São bruxos e bruxas, que vivem querendo impor a sua crença, mesmo que isto não seja bom para a própria imagem.

    Não tem noção do quê fazem – São como crianças de 3 anos, que repetem os gestos dos líderes. Nunca questionam os seus superiores. – Nem conseguem, pois a lavagem cerebral intensa, os tornou submissos.  Te amam, somente enquanto concorda com eles. – Discorde de uma ideia sobre a sua conduta, e eles te queimam vivo (literalmente ás vezes).

    Em algum momento da vida, podemos apresentar, alguns destes sinais, já que independente do caminho que seguimos, nós o amamos, não importa o quão complexo seja. Mas é bom lutar contra tais atitudes, pois elas só servem para nos envergonhar, e também nos distanciam dos deuses, e consequentemente do quê é real e falso.

    Capítulo 6 – A verdade liberta, mas é dolorosa

    É, nobre forasteiro, se a vida tem sido fácil, e as verdades que descobriu até o momento, não lhe trouxeram nenhum problema, ou representaram tudo aquilo que sempre quis, sem algum esforço, e nem sangue ou suor foi derramado. – Significa que a parte boa está acabando, e é melhor está preparado, ou você é vítima da sua própria mente.

    No segundo caso, é algo muito comum atualmente. É o quê chamo de iluminação de holofote. Trate-se de uma pessoa, que sai dizendo que é superior aos demais, ou força transparecer que já atingiu o nível máximo da evolução cósmica. – Mas antes dos beijos de luz, deixa subentendido que te quer “queimando no inferno”.

    A verdade nunca é aquilo que serve para compensar uma perda, mas sim confrontar a existência do ser, por ter sido pré-estabelecida há muito tempo, e isso nos leva a um tópico interessante: Os bonecos que pensam ser filhos dos deuses.

    Hoje em dia tem muitos filhos de Lúcifer e Lilith por aí. Se for contar nos grupos de magia do Brasil, há mais ou menos “mil” deles. – Razão pela qual, prefiro me manter em silêncio a respeito disto, pois me sinto envergonhada.

    Assim como há também as crianças Percy Jackson – Jovens entre 11 e 18 anos, que se encantaram pelos programas, que são focados na visão etérica (e distorcida) do mundo, e saíram mundo a fora, batendo no peito, e dizendo eu sou um (a) semideus!

    Em ambos os casos é algo bastante incômodo, pois se for falar com tais seres, muitos são vítimas do fanatismo midiático, e não só não possuem habilidades, como também mentem, para dar a impressão de quê são “especiais.”

    Chego a sentir dó dessas crianças, pois o tempo que gastam tentando provar o quê não são, poderiam usar para adquirir conhecimentos, que os levassem a encontrar os deuses, e dependendo do contexto, serem abençoados por eles, ao ponto de desenvolverem algum dote.

    Não seriam semideuses, mas e daí? Quantas lendas maravilhosas serão necessárias, para que entendam, que nascer humano, não significa morrer como tal?

     Olhem o exemplo do conde Vlad III, o turco, que empalava os seus inimigos vivos, e deu origem ao vampiro mais famoso das décadas. Ele iniciou como humano, mas hoje, para muitos, é visto como um Deus Noturno.

    Então novamente o quê você é no momento não importa, o quê pode vim a se tornar, após a caminhada sim, portanto pare de perder tempo, forçando ser o quê não é, e abrace quem é de fato.

    A verdade, não é aquilo que deseja, e sim o quê necessita.

    Você pode morrer gritando aos 4 ventos, que é filho (a)  de um deus (a) mas se não for, sempre haverão ausências de sinais legítimos, e a magia não vai se manifestar, mesmo que a sua fé seja grande, pois haverá um forte bloqueio em teu caminho.

     Porém quando realmente é algo, até as coincidências, serão ligadas ao deus com o qual sente a conexão.

     É o meu caso. Quando me foi revelado que era filha de Lúcifer, me opus a isso, com toda fibra do meu ser. – Tinha acabado de ler Lex Satanicus, e via Lúcifer e Satã como seres distintos. Sendo Lúcifer, o belo e inteligente, que tem repulsa ao mundano, e Satã um charmoso nerd, que se divertia em qualquer lugar.

    Jamais pensei em Lúcifer, como sequer meu semelhante, pois apesar de ter problemas para me socializar, não desprezava a sociedade, como ele, e isso foi um grande baque para mim.

    Como se não bastasse, além de ser filha do ser mais inteligente e cheio de conquistas, também me foi revelado que eu era um anjo, e foi a gota d’água, porquê detestava celestiais, e todo o plano superior na época. – Tinha 17 anos, e os hormônios agiam com grande potência em meu organismo.

    Não foi da noite  para o dia, que consegui aceitar. Receber a notícia de que era filha de Lilith foi fácil, pois já tinha notado traços de personalidade, bem semelhantes aos da deusa antiga, que ao contrário do quê a maioria pensa, não nasceu de um mito Judeu, mas sim Sumério, sob o nome de Kiskill-Lila, a filha legítima da deusa Terra, ou Antu, também conhecida como Tiamat, pelos Babilônicos. – Então sei que Lilith não é a deusa suprema, e também que não foi criada para o Adão.

    Lilith era uma deusa lasciva, hipersexualizada, que seduzia os homens, para torturá-los. Tinha ódio da humanidade, por ter sido substituída, por uma mulher inferior. Gerava abortos, para não mandar suas crianças sagradas, para este buraco conhecido como planeta Terra.

    Eu a admirava, me sentia como ela, sentia seu poder em minhas veias, e gostava muito da sensação. Mas como disse antes a verdade não é algo que tapa buracos, por isso tinham aspectos negativos, sobre ter o seu sangue.

    Meu impulso agressivo era muito forte, meu desejo sexual também, ás vezes manipulava as pessoas para o benefício próprio e nem percebia, e pior fui inclinada a uma vida pecaminosa de traição, que por muito esforço, não foi física. – Com exceção ao homem com o qual sou casada, mas ele era meu amante, e não o traído.

    Além disto, como carrego duas naturezas divinas em meu DNA cósmico, tenho peso de consciência sempre que pratico atos de maldade, com aqueles que não deveriam receber a escuridão de mim. – Mas os que a merecem, ou esqueço, ou me vanglorio da vitória.

    Saber destas e outras coisas, foi um enorme desafio, principalmente porquê não entrei no caminho, achando que era um ser celestial ou demoníaco. Apenas o fiz para entender, porquê minha família toda, possuía um passado de histórias fantásticas ou sombrias, e coisas estranhas aconteciam comigo desde criança.

    Quando bebê, meu andajá  se ligava sozinho de madrugada, e isto causou tamanho pavor nos meus pais, que estes queimaram o objeto. Já um pouco mais velha, quando me irritava as coisas caíam sem tocar, se sentia muito ódio, os eletrônicos pegavam fogo perto de quem me magoou, ouvia passos há metros de distância, encontrava objetos perdidos através de sonhos, e literalmente deslocava  meu espírito de um mundo para o outro. – Na infância entrava numa espécie de transe, que me levava para uma dimensão, onde os belos eram maus, e os seres horrendos me protegiam, mas não sabia o porquê. Assim como costumava dizer que o bicho papão era meu amigo, muito antes de lançarem filmes sobre o tema ( quando o entretenimento era voltado para bom é bonito, e mal é feio.) Tal capacidade assustava a minha avó materna, que me pegava falando “sozinha”, e acusava que eu conversava com demônios.

     Como se isso não fosse o suficiente, quando estava na quarta série, e estudava numa escola de esquina para o cemitério, chamada Guanabara, cheguei a me deparar com o mundo sobrenatural, e creio eu que a própria morte, pois era um ser de mortalha negra, que apareceu em meio a penumbra, iluminada por pequenos raios de sol, depois de ter me encontrado com torneiras, que se abriram sem o auxílio de mãos alheias. Não fiquei lá para conversar, tinha 10 anos na época, por isso sai correndo, e ao entrar em contato com meus colegas, tentei não parecer que tinha medo, ou visto algo. Dentre outras histórias, que vieram depois, mas que se eu citasse seria difícil de crer, então vou parar por aqui.

    Quando me abri para o satanismo, não tinha a intenção de ser uma das filhas de Satã, ansiava apenas por ser uma soldada, que guiaria as pessoas para os seus devidos caminhos.

    Por isso ao ser confrontada com visões, e gente muito mais surtada do quê eu mesma, acabei por duvidar de tudo. – “Ah tah eu sou filha de Lúcifer e Lilith, e a herdeira do Inferno, Aham, acredito” ou “Este é o cúmulo da infâmia”. “Tanta gente lá fora, querendo isso, e eu aqui apenas seguindo a minha jornada sem acreditar que sou eu.” “Por quê Lúcifer e não Satã?” – Relembrando que na época via-os como gêmeos negros, não uma totalidade de opostos complementares.

    Não foi algo simples, e pra piorar fiz uma cota de inimigos, que achavam que eu não era digna. – E não ligava muito, pois também concordava com isso, só brigava quando se tratava de mim, não da minha suposta “herança”.

    Até hoje sigo duvidando, mesmo que bem lá no fundo, saiba que é verdade, e que aceitar isso é o melhor caminho. Só que sou muito cética, para abraçar tal fé sem provas mais consistentes, e outra eu nunca quis sentar no lugar de Lúcifer, só de está na sua presença, com meus dragões, e meus aliados, já me sentiria feliz. –Apesar das reservas, que tenho, por ele ter interferido para que soubesse, como era ser a ovelha negra da família, e iniciar uma conquista, com apenas as asas e a essência. Todavia há sinais de quê sou da sua linhagem, e vou citá-los, para quê fique claro, quando alguém é um filho, e quando não é. São eles: 

     Nascimento que parece milagroso, mas é maldito: Quando minha mãe engravidou, ela teve rubéola, e o caso foi tão grave, que o médico mandou-lhe me abortar, mas ela se opôs a isto, e fez promessa a uma santa, para garantir minha segurança, e vim saudável. — A igreja Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, quase pegou fogo em 2013, quando houve um incêndio de grandes proporções em Macapá- AP, que foi inclusive noticiado no jornal nacional, mas a causa por muito tempo, foi um mistério insolúvel.

     O meu número da sorte ligado a data do meu aniversário: 15/02/1995 foi quando nasci, e 15 é o meu número da sorte desde criança. – Afinal ganhava festas e presentes. O mesmo dígito é considerado o número do Diabo no Tarot. Além disto se somar todos os algarismos de maneira cabalística, resultará em 5, que lembra o pentagrama, um símbolo bastante comum na magia, e o 1,5 é uma das partes presentes da Deusa Babalom, de Aleister Crowley, representada em sua totalidade por 156.

     Os fenômenos de 15/02: O dia é marcado por grandes eventos históricos, ligados a Nova Era, e ao mesmo a antiga. É no dia 15 por exemplo, que comemora-se a Lupercália, o “dia dos namorados pagão”, em que se celebra Lupercos – que é tido como uma das faces de Lúcifer na Itália – e o dia da fundação de Roma. Foi também no dia 15, que logo após o Papa renunciar, um meteorito caiu na Rússia, e muitos acharam que era um sinal apocalíptico. Desde então no mesmo dia: O exército de fanáticos, chamados de gladiadores do altar se levantou – Estes são responsáveis pela destruição ilegal de terreiros.  Até o material midiático foi direcionado para o caos do fim do mundo. Procure pela série mais assistida por quase um mês: The Umbrella Academy que foi baseada na HQ da Dark Horse, e Doom Patrol, um dos poucos sucessos da DC comics. – Que a propósito, fazem parte do meu gênero favorito de programação, e soou como um presente. Mas você já deve saber, afinal o oculto influencia a mídia... e o resto já deve ter gravado não é?

     Sinais físicos: “Os olhos são a janela da alma”, já dizia o ditado popular. – Embora tenha nascido sem uma alma, meu espírito segue me precedendo. Portanto vez ou outra, os olhos se alteram de maneira expressiva, (quase inumana em alguns casos).

     A minha descendência física: É evidente que carrego uma grande herança Africana, mas o quê poucos percebem, é que a minha forte ligação é com a Itália, inclusive meu sobrenome é dessa origem, e tenho parentes originalmente italianos. Por quê é um sinal? Lá é único lugar onde as bruxas cultuam, e aceitam que Lúcifer teve uma filha enviada a Terra, e também o primeiro local do mundo, onde ouviu-se o nome do Deus Romano. – E eu não sabia disto até 2016. Quando tive um sonho, sobre ter ficado adormecida por 500 anos, que me levou até um conflito na terra da minha descendência de sangue, onde até mesmo encontrei, uma música relevante ao meu nome secreto em 2013. Mas nunca tinha pesquisado mais a fundo, até aquele dia, quando tive o estalo “E se eu focasse na minha magia hereditária para me desenvolver?”.

     A falta de empatia satânica: Lúcifer não é aquele que se diverte entre os demônios, é o quê os mantém na linha, então é normal, que muitos demônios, ou espíritos perturbados, tenham aversão a mim, pois sou filha do “carcereiro da prisão cósmica”.

     Poderes, que podem ser terríveis ás vezes: Odeio ferir pessoas inocentes, mas por vezes a minha ira, se manifesta de tal forma, que consigo interferir neste plano. – Se você é um de nós ou dos nossos, sabe bem a que me refiro.

     A ausência de Lúcifer e Lilith: Eles são deuses, tem seus afazeres, não podem ficar me mimando a cada 24 horas, só porquê vim deles. – A não ser que eu necessite exclusivamente de sua proteção. No entanto é mais fácil enviarem guardiões, antes de tomarem partido, pois querem filhos fortes e dispostos a lutar.

     Loucura racional: Não pertenço a um lado, estou ligada ao todo. Conceitos separativos pertencentes a humanidade, me parecem antiquados. “Magia não pode se unir a Religião” é o tipo de frase que me faz rir por exemplo.– Mas sigo respeitando cada crença, assim como quero, que a minha seja respeitada.

     Relatos autênticos: Devido ao conhecimento sobre os grimórios – e a grande quantidade de gente cética sobre quem sou – registrei tudo datado num site, que serviu como meu diário por um tempo. O nome do mesmo é: Os pensamentos infernais de Carry Manson. – Tenha em mente que na época eu tinha 18 anos, havia acabado de aceitar que era a primeira filha de Lúcifer, e meus textos soavam completamente insanos (e até vergonhosos.) Além disso há os livros Sobre mim de 16/05/2018 e The Angel In Earth de 28/05/2019 no site da Autores, onde podem ler melhor sobre a minha história, e tirarem as suas conclusões. – Os conceitos apresentados acima, são apenas para diferenciar a fantasia do verdadeiro.

    Queria dizer que a verdade é o máximo, um conto de fadas, ou tudo o quê aparece na TV, em quê do nada os esquisitos se tornam legais, e imediatamente são reconhecidos como os maiorais da história da Terra. Mas não é assim que funciona.

    Diga que é filho de um Deus, e prepare-se para as risadas, insultos, e pessoas que imediatamente se acham melhores que você.

    Levante-se contra aqueles que não tem consciência, e eles vão apontar o dedo, achando que surtou, e se por acidente acabar os machucando, farão a tua caveira.

    Estou revelando sobre mim, não para que venham tirar satisfações mais tarde. – Mas se quiserem tenho muito mais material para provar quem sou.  – E sim para lhes mostrar, que há sim semideuses entre os humanos, e que nem todos pertencem ao 90% dos mergulhados em mentiras, somente para aparecer.

    Vocês não estão sozinhos. Eu posso ouvi-los, e acreditar em suas histórias, se forem sinceros sobre o quê houve. – Quem realmente é, percebe as inconsistências dos fatos, por isso é mais fácil saber, quem carrega a mesma dádiva ou maldição.

    Cada de nós tem uma missão, seja ela grandiosa, ou parte de um grande plano, e seria bom que nos apoiássemos, pois o universo é grande o suficiente para quê todos consigamos, alcançar a merecida glória. – E isso vale para humanos e predispostos.

    Acham que apenas por ser filha de Lúcifer e Lilith, sou uma criatura suprema e imbatível? Não, não é por aí. Há os filhos que nasceram da própria Tiamat ou de Apsu, e outros Titãs, que são muito mais poderosos. – No entanto ter muita energia, não significa  automaticamente, que sabe usá-la.

    Capítulo 7 – DIY MÁGICKO

     DIY é um conceito em inglês que significa Do it Youself, ou Faça você mesmo, e foi adotado por alguns grupos dos E.U.A que preferem fabricar seus materiais, e se abstém do uso das grandes marcas conhecidas. É claro que tal ideal parece implícito para muitos, e embora haja uma corrente chamada Magia do Caos,  que foi desenvolvida Austin O. Spare, e trabalha com isso de maneira bem expressiva, é importante que saiba como praticar.

    Você pode naturalmente criar feitiços, rituais, e cerimônias, para cultuar o teu deus, e lhe mostrar a sua devoção. Mas infelizmente há leis que por hora são permanentes.

    Não adianta por exemplo usar um baphomet para fechar um portal, quando o mesmo é usado a décadas por diversas seitas satânicas, para invocar os príncipes infernais.

    Assim como não adianta tentar invocar um demônio, atribuindo energias negativas ao pentagrama, que há muito tempo é considerado pelas bruxas, como um símbolo de proteção. – Pode até funcionar devido o grande descaso da sociedade, que segue achando que é o símbolo do Diabo, mas a entidade em questão vai rir de você.

    Sempre crie meios de se proteger, mesmo que seja na hora de criar um servidor – No caso da Chaos Magic. – Você pode ter a linhagem dos demônios, sem saber, e atrair um ser de luz, que tenta te destruir, somente porquê tu nascestes como determinado herdeiro. – E vá por mim, luz não significa ausência de combate violento.

    Verifique as condições ideais para realizar a prática mágicka. – Não só a atmosfera mística, como a física também.

    Se a lua é negra, e não condiz com o teu objetivo, evite-a, ou vibre de acordo com o instrumento, de onde saiu o acorde.

    Se o tempo está ruim, (e você não foi responsável), vivem te perturbando, e tudo parece dá errado no dia em questão, já tem a resposta para o teu intento, que é: Não. O universo está se manifestando contra, então fica por sua conta e risco. – Caso queira ir adiante.

    Procure conhecer os presságios. O chamado do universo é comum, por seguir um padrão lógico de repetições, que foge do binário computacional 0 e 1, e passa a ser 0,0,0 ou 1,1,1 – Quanto mais frequente, mais chances há de ser o Cosmos falando de maneira silenciosa. – Será um alerta, se Todos os itens estiverem presentes:

     Números: Números iguais, são portais de consciência – e energia mágicka – se abrindo. Mas quando surgem várias vezes, em conceitos diversos, é bom avaliar o quê significam através do estudo da numerologia, cabala, e gematria em geral.

     Sonhos : O plano onírico é um dos mais interessantes, pois revela sobre o mundo, que há dentro do ser. – Freud estudava os sonhos, para compreender melhor seus pacientes, e você também pode, embora o método não seja recomendado, pois dificilmente será objetivo para ter resultados plausíveis. Além disto, se o indivíduo está conectado com o oculto, tem a capacidade, de prever as linhas dos próximos acontecimentos. Assim sendo deve-se avaliar, quando um sonho, é apenas sonho, ou um sinal. 

    Por ex: Se você tem tido sonhos com elementos semelhantes isolados. Como: a presença constante de pregos em evidência. O resto do contexto se aplica a ti, mas a presença dos pregos é um comunicado. – Como se fosse um código morse do Universo.

     Frases incomuns: Sejam de ameaças, ou que transmitam segurança. – Devem ser avaliadas, se sentir algum tipo de calafrio na espinha, quando as ouvir. Não importa se é da boca de um estranho, na tela do pc, ou em uma canção, pesquise sobre a questão, e tente decifrar o quê significa.

    É relevante salientar que o Padrão Ressoante é a chave, e que embora tenha citado apenas 3 exemplos, o fato de o presságio acontecer 3 vezes, não é o suficiente para se definir como um sinal. Será um sinal, se houver persistência do oculto em te mostrar a mesma mensagem, do contrário pode ser somente uma bela coincidência. A(o) Bruxa (o) saberá intuir a partir disso, e definirá se quer seguir tal caminho, ou optar por outro.

    Respeite as Leis Antigas, apenas atribua algo condizente a tua personalidade no Culto a teu Deus.

    Se lá no teu grimório diz que deve usar a violeta, use a violeta, não o  eucalipto – Com exceção a sacrifícios humanos e de animais, sem razão lógica. Como por ex: Mate um carneiro para o deus, e se livre do cadáver. (Se for para matar um bicho, que seja para deleitar-se da sua carne, ou trazer alívio para alguma dor.)

    Siga os antigos, estude-os, respeite-os, mas adore somente aos deuses. – Não trate grandes nomes da vertente da magia, como se fossem a entidade a que te dedica. – Por ex: Aleister Crowley Não É Um Deus Supremo. Em vista disso não haja como se fosse. ( Leia seus escritos, mas sempre com a consciência crítica, do quê condiz com a tua realidade.)

    Você pode imitar alguns rituais, feitiços, e poções. Mas o ocultismo é o campo da criatividade, então quando estiver pronto, inove, entregue-se, e DIY (Faça você mesmo) – Não é porquê fulana usa sempre os métodos 100% tradicionais, que tu devas utilizar também, afinal para ela pode ser fácil, arrancar a cabeça de um cervo, e para ti não.

    Como é errado falar de um ideal, sem aplicá-lo na vida, a experiência que lhes trago é a minha própria língua, que batizei de Lovlicos, pois me baseei em escritos de H.P Lovecraft, e nos sinais da linguagem cósmica, e ela consiste em: 

    Alfabeto tradicional  português- BR. 3 Palavras abreviadas com 3 siglas no total.

    III. Formação de frases, com no máximo 3 sentenças.

    Dicção forte, com acentos ocultos, que somente 

    quem já presenciou os mistérios do universo, 

    consegue aplicá-los.

    Timbre doce para o uso benéfico, timbre

    sombrio, beirando o demoníaco para o

    maléfico.

    Ex: 

    Em português é: 

    A lua brilha sem parar

    Em Lovlicos é: 

    Alub separ

    Em português é:

    Sim e não, talvez

    Em Lovlicos é:

    Sie nata

    Em português é:

    Não vou

    Em Lovlicos é:

    Navo

    Parecem palavras de uma raça antiga de alienígenas – ou com os Enn’s demoníacos que conheci ano passado. Mas é apenas um sistema simples, que apliquei aos meus rituais, e até agora rendeu bons resultados. – Ainda que alguns fatos tenham me assombrado, pois apesar de não ter uma egrégora forte (por ser minha criação) é uma expressão muito poderosa. – A melhor explicação, é que o cérebro se impressiona com coisas estranhas, e o uso das mesmas, intensifica o poder mágicko.

    A intenção aplicada nela pode variar, mas pelo que percebi com as minhas experiências e análises, é uma força que mexe com a ordem mundana, e traz a tona o quê é considerado impossível. – Tanto pro bem, quanto pro mal.

    Fora a Lovilicos, também realizo meus próprios rituais, baseados na filosofia com a qual tenho mais afinidade. – Uma qualidade, que me fez inclusive criar uma seita chamada Sees- Seguidores da Estrela, que obviamente representava Lúcifer, mas para acessá-la bastava acreditar em algo. -  Através dela introduzi algumas pessoas no mundo místico, após comprar-lhes a sua alma. – Quando acreditava em tais falácias.

    O Sees tinha um propósito comum: Realizar desejos, sejam eles nobres ou atrozes. Assim como também gerava consequências, para aqueles que traíssem o círculo.

    No total formávamos 4 componentes. Todos os membros eram femininos, e a nossa crença no poder oculto, era tão grande, que quando nos tornamos A constelação – O quê uma sente, as outras também. – O efeito foi imediato.

    Da mesma maneira que quando uma das moças, escolheu um homem, em vez do círculo. Acabou possuída, e tentou matar o seu amado, diante dos familiares. – Tinha 16 anos na época, e até chorei, me sentindo culpada, por um demônio tomar-lhe posse. – Nem sempre ter poder, é um sonho, na maioria das vezes parece mais um pesadelo. (Ao menos para mim.)

    Nossos rituais incluíam derramamento de sangue, como prova de lealdade, e devorar as doces frutas do cemitério, onde nos reunimos para realizar nossas práticas ocultas. – Que fique claro, não tolerava sacrifício de animais, o fluído da vida, vinha das moças, que faziam parte do círculo.

    Era pura brincadeira de criança, como uma versão da vida real de jovens bruxas. – Mas não cheguei a me tornar uma maníaca como a Nancy, apesar de me vestir como tal.

    Tivemos poucas reuniões, pois após chegarem as consequências, duas garotas, queriam pular fora. Uma perdeu o namorado, e a outra começou a ver as sombras, e isso lhe fez ter medo de onde colocava o pé. Então só restou eu e outra garota, que me apoiou por um bom tempo. – E até me ajudou quando minha vida ficou em risco, após romper o círculo de vez.

    Lembro-me do nosso último encontro. Foi o mais marcante de todos, pois ali tive o primeiro vislumbre da vida passada. – Fomos até o cemitério, e lá um estranho homem de chapéu branco, e camisa vermelha nos recebeu, fazendo perguntas interessantes, a respeito de estarmos ali para passeio ou trabalho, e nos avisou para tomar cuidado com as visagens (termo para espíritos) minha companheira riu, disse temer só os vivos, e eu disse que a morte era uma escapatória para os covardes, frase esta que não saia da minha cabeça.

     Ao ouvir a minha resposta, ele fez uma reverência, e sumiu no meio do matagal. Após a sua partida, as sombras começaram a ganhar forma, e tanto eu, quanto a menina vimos coisas. Primeiro vi uma mulher enforcada no topo de um pinheiro, por um cipó cheio de espinhos, e logo deduzi que era uma bruxa. Em seguida seu corpo sem vida caiu, e um ser de chifres meio homem meio touro, veio para recolhê-lo. Tão grande foi a minha surpresa, ao ver como ele a pegava nos braços. Não a arrastava para o inferno, nem levava como um pedaço de carne, parecia mais que era a sua noiva, e tinha um aparente carinho por ela. – Conseguia sentir que aquela imagem, era um retrato da minha vida passada, e aquela conexão era fantástica. – Ambos desapareciam na névoa, e 7 ou 8 rostos, não lembro ao certo, apareceram, sendo 5 femininos e os restantes masculinos. Nós voltamos para a causa da minha amiga, e acabei por desmaiar sem razão aparente.

    Mais tarde a noite, quando estava sozinha em meu quarto, vi que haviam várias sombras chifrudas ao meu redor, e as mesmas pareciam que iam sair das paredes. – Isso me deu um calafrio tão grande, que naquela noite, resolvi dormir no sofá. – Neste tempo nem imaginava que era a herdeira de Lúcifer, então não tem como ser algo influenciado por tal descoberta, que veio acontecer no ano seguinte, e só foi aceita, quase 2 anos depois, pois precisei analisar toda a gama de fatores, para poder aceitar tais fatos.

    Então tome muito cuidado com o quê aplica no seu DIY mágico, pois tudo o quê fizer, expressará a sua real natureza. – É por isso que estou lhe dando estes conselhos de maneira direta, pois apesar de ser uma conhecedora dos mistérios, com grandes saberes, por ter estudado sempre sozinha. Queria que alguém tivesse me dito estas palavras, para evitar todos os desastres que aconteceram.

    A magia independente do quê faça, sempre trará consequências. Mas não é como colher o quê plantar, e sim por causa do valor que atribui a tua responsabilidade pelos atos. Portanto sempre pratique, somente aquilo que a sua consciência é capaz de suportar, do contrário além de ser taxado como louco pela sociedade, vai realmente acabar como um. – Ouça esse conselho de quem foi recentemente diagnosticada com transtorno de personalidade, após inúmeras tentativas de suicídio e agressão, antes de conhecer formas de lidar com a própria escuridão.

    Capitulo 8 – A bruxa que vive entre os santos e os pecadores.

    Viver em sociedade é uma tarefa difícil para um bruxo. Sabemos de tantas coisas maravilhosas, e verdades indizíveis, que nos sentimos criaturas superiores, que precisam interferir na jornada dos demais, para que experimentem de toda a beleza ou conhecimento que adquirimos. – Isso é inegável, mesmo que sirva a luz da magia, e diga que acredita que todos são iguais, a igualdade não é a resposta para o quê quer.

    Imagine que todos no mundo são lagartas, e que algum dia se tornarão lindas borboletas. – Se você interferir no processo, eles certamente morrerão, antes de conseguirem sair do casulo. Este é um exemplo que li em Lex Satanicus, e achei algo absurdo na época, mas hoje percebo que é o melhor a ser feito.

    Assim como as pessoas, podem ser simbolizadas como insetos majestosos, também podem ser descritas como música, e cada uma tem um ritmo ou melodia própria, que pode ou não agradar os nossos ouvidos. – Portanto procure sempre andar, com aqueles que tem um ideal em comum contigo.

    É lindo abraçar as diferenças, mas uma coisa é aceitar o outro, outra bem diferente, é querer ser como ele. – A verdadeira beleza do mundo, não está em rostos padronizados e iguais. Mas sim em suas peculiaridades. O quê quero dizer com isso? Seja fiel a ti mesmo, e se aceite acima de tudo, não tente se adequar aos demais, somente porquê eles não te aceitam. Procure pelo teu próprio nicho, pois não importa qual seja, sempre há um espaço para ser ouvido. 

    Evite se expressar em sociedade, se não aceitam a tua crença mística. – Não é porquê você respeita os outros, que eles farão o mesmo por ti. – “Mas Lux você falou para não me adequar aos demais!” Sim, e não se adequar, significa ser leal aos teus ideais, não importa o ambiente em que se encontra. – Eu sou bi, e mesmo em meio aos héteros, continuarei sendo, não importa o quê digam. E se encontrar aqueles que me apoiam, me abrirei e direi a verdade, se não, seguirei em silêncio, pois o mundo é um lugar perigoso, e há aqueles que em seu fanatismo, apenas precisam de um “A”, para virem para cima. – E não quero mais responsabilidades por danos aos outros. É uma questão de sobrevivência.

    Enfiar nossas crenças na goela alheia, é como forçar a pessoa a aceitar nossas filosofias. – Eu sei que funcionou para os cristãos, mas o medo é tão eficaz, que hoje os fiéis se uniram a outras crenças, por não aceitarem a intolerância religiosa. Então o temor, embora funcione, não se compara a força do amor pelo quê se faz. Por isso se quer mesmo trazer, alguém para o seu lado – Vá na mãe de santo mais próxima, e coloque o nome da pessoa numa roda. Brincadeira!

    Tente explicar-lhes sobre a sua fé, e quando for confrontado, apenas faça comparações, que o ajudem a perceber que no fim seu amor pela divindade, não é tão diferente, do quê o quê sentem por Cristo. – Sua vida está tão difícil por quê não larga dessa tal magia e abraça o nosso senhor? Já me disseram e respondi Da mesma forma que você ama o seu senhor, apesar das dificuldades, eu também amo a Lúcifer, e assim como tu se identificas com Cristo, eu me sinto mais confortável andando com o deus romano. Foi o suficiente para seguir em paz, nunca mais tocou-se no assunto, e a amizade seguiu  a mesma.

    Não tente humilhar ninguém, a não ser que a pessoa realmente mereça tal castigo. – Eu pessoalmente odeio “lacrações”, porquê é algo desnecessário para sociedade, e trata-se de gente, que quer “arrasar” apenas repetindo o discurso alheio, como se fosse uma verdade absoluta. A pessoa aparentemente refletiu sobre algo, mas no fundo não se deu o trabalho de questionar, e apenas uniu a ideia do autor, a coisas que ouve no cotidiano. Chega a ser – me perdoe pela expressão – Patético, pois a preguiça intelectual se torna mais do quê evidente. – Por isso fica a seu critério Expor a sua ideologia ou não–  Mas lembre-se Bruxos (a) de verdade, não tomam os problemas da sociedade como seus. – Eu sei soa frio, todavia é assim que funciona, pois devido a enorme gama de poder, que um ser desses possui, se ele coloca as suas emoções em jogo, certamente isso traz consequências, que dificilmente são agradáveis. Hoje destrói um ditador, amanhã impede o seu país de prosperar, e todos acabam na miséria por exemplo.

    Não estou dizendo,  que não deve defender aquilo em quê acredita, estou apenas esclarecendo, que precisa ter noção do quê defende, antes de ir as ruas ou redes sociais. – Não seja mais um papagaio da fé, e somente parta para a guerra, se o conceito do outro, realmente te ferir, de uma forma, que precisa colocar todo o ácido para fora. – Este livro não é para passivos, ou atacados, mas sim guerreiros que sabem quando devem erguer a voz.

    Isto nos leva a um tópico interessante. Não ataque a tudo e todos, apenas porquê não te aceitam. Aprenda a si amar, e não ligar para opiniões repulsivas. – Não ligar mesmo, ou seja ouvir, e entrar por um lado e sair pelo outro, sem sair por aí dizendo “Eu não ligo! Não adianta tentar me atingir! Pois não vai conseguir!” já que se o fizer, estará claramente agindo de maneira contrária, ao que disse.

    Aprenda a controlar a sua raiva, ou ela te controlará. – Não haja por impulsos, pois isto pode custar muito caro para você, ou os seus colegas. – A ira nos faz ter pensamentos num segundo, cuja responsabilidade pesa por uma década.

    Haverão muitos grupos, que exaltarão a fúria, e te dirão para destruir tudo e todos. Mas não te falarão, que você pode ferir alguém gravemente, ou até mesmo matar o alvo escolhido. – Porquê a maioria que venera estas forças, não se dá ao trabalho de conscientizar os seus do perigo.

    Aprender a controlar a sua raiva interior, não te fará mais fraco. Mas sim capaz de realmente arrancar o coração, de um inimigo velado, sem sequer se importar se isto pesa ou não na consciência, pois terá ciência, de quê se chegou a tal ponto, foi algo necessário, e será mais difícil de se arrepender. Só que se o fizer, apenas por causa de um segundo de raiva, a culpa mais tarde vai te consumir, e caso isto não aconteça, sugiro que vá urgente ao psiquiatra, pois a sua falta de empatia, é algo assustador.

    Aceite a natureza, e a proteja, não tente modificar a ordem das coisas. – Nós somos carnívoros, está no nosso DNA, desenvolvemos caninos para devorar carne. Se você quer cuidar da natureza, comendo apenas frutas e vegetais, tudo bem, mas não venha tentar obrigar os outros a seguirem a tua doutrina. – Cada um em seu nicho lembra?.

     “Um leão pode devorar um ser humano, mas o ser humano não pode devorar o leão”? A onde isto é natural na cadeia alimentar? Por quê o leão tem que ser superior ao homem, em vez de haver um termo de igualdade entre ambos? A ciência não tem dito a anos, que o homem tem parentesco com os primatas, e logo é um animal também? – Eu sei isso pode ser desagradável, mas o natural não se baseia em veados e leões, andando lado a lado como amigos, da mesma forma, não pode acontecer com os humanos e os seus irmãos animalescos. Não importa se é racional. A falta do instinto caçador, nos torna dóceis, e mais fáceis de sermos manipulados por entidades obsessoras. – É claro esta é a minha opinião, escolher seguir ou não é de você, mas antes de sair levantando bandeiras a favor do meio-ambiente, pelo menos conheça o quê defende.

    Isto significa que eu, Lux Burnns, sou um monstro, a favor da caça por diversão, e outros meios de entretenimento humano, que humilham os animais? Não, o preto e branco, não se encaixa a mim. Uma coisa é respeitar a natureza, outra é usá-la como posse, da maneira que bem entender. – Por mim as fábricas de comida, deveriam promover o abate misericordioso, semelhante aos dos banquetes de festividades africanas.

    Sempre respeite a crença alheia. Você ama Odin e seu parceiro a Lúcifer. Mas e daí? Cada um segue a divindade que desejar, e aprende com a mesma. – Novamente lembre-se da metamorfose da borboleta, se mexer no casulo, ela morre.

    O mesmo vale para os seus pais. Se você vive com eles, lhes deve muito, por te darem um teto, comida, e as vezes até roupa lavada. Então não os desafie, ou os desmereça por causa de crenças diferentes. Vocês são de tempos diferentes, foram colocados juntos, para aprenderem uns com os outros, não se destruírem. – Seja maduro, saiba argumentar, e lutar como um nobre, pelo seu ponto de vista. Se agir assim, eles provavelmente verão, que a tua filosofia está te tornando alguém melhor, e que não precisam se preocupar. Agora se sair berrando, quebrando os móveis da casa, batendo a porta do quarto, mesmo que eles só queiram conversar, tudo o quê vai ganhar com isso, é mais abordagens, que demonstrem medo do caminho que está tomando. – Falo por experiência. Iniciei minha vida mágica da pior forma, e só depois que adotei esta postura, por causa de Anton Lavey, a guerra em casa acabou. Rebeldia com causa é algo louvável, mas rebeldia por rebeldia, nada mais é que tolice. – Se eles  ainda sim, não permitirem que faça os cultos dentro de casa, vá para fora, se for ruim, procure algum canto seguro, onde possa praticar, sem causar problemas em seu lar. – Nem sempre será um método efetivo, mas é melhor ter aliados dentro de casa, do quê inimigos.

    Por fim sempre tenha em mente, que sentir-se superior, não significa ser superior. Para torna-se assim, terá que ter atitudes que condizem com tal postura. – Não me mande beijos de luz, se a sua única intenção é me queimar. GsolitaryDevil.

    Capitulo 9 – Os Deuses e o Fim da farsa da realidade dualística.

    Este é o fim da sua jornada comigo, e o ínicio de algo ainda maior. Como disse lá no início, há autores infinitamente melhores, e não estou aqui para me apropriar dos seus cargos ou teorias. – Apenas estou apresentando-as com uma linguagem mais direta, para que saibam exatamente o quê praticam, de acordo com a interpretação aceita por outros ocultistas. 

    Até aqui temos trabalhado sobre as grandes causas sociais, que afligem a comunidade mística, e muitas vezes defendi que a realidade não é dualística. Mas para fechar este pequeno guia, me aprofundarei nesta questão com uma explicação mais extensa. – É neste ponto que você vai decidir, se quer continuar sendo ocultista, ou prefere tomar o caminho mais simples, adotando alguma religião por exemplo.

    Desde que éramos jovens, nos ensinaram a dividir o mundo entre homens e mulheres, bem e mal, fogo e gelo, guerra e paz. Nossos pais – na maioria das vezes – nos diziam “No mundo há Deus que é o bem, e há Satanás que é o mal. Deus é luz, Satanás escuridão. Deus é água, Satanás é chamas.” 

    Apesar de não discordar, dos conceitos acima apresentados – com exceção a Deus ser luz, mas é pessoal – creio continuarmos a segui-los é errado. Já aprendemos muito sobre as duas metades, então por quê deveríamos continuar trabalhando-as de maneira separada? 

    Está certo, a iluminação é importante, mas as sombras também são. É preciso que haja um ou o outro, para quê o todo exista. Não adianta tentar tirar um dos números da equação, senão dificilmente encontrará o valor de X ou Y.

    Devido a minha conexão cósmica, estudei não somente astrologia, como astronomia, física, e biologia. Pensei a príncipio, como muitos magos, que era apenas uma imposição social, para nos manter ignorantes perante a verdade do universo. Mas foi então que percebi, que a culpa da divisão não era dos cientistas, em sua maioria religiosos, e sim dos novos filósofos da internet, que empregam o conhecimento científico, apenas para atender os seus próprios conceitos mesquinhos.

    “Deus não existe.” Dizem todos os ateus, que esqueceram-se de questionar, adotando uma conduta massificada, e muitas vezes tomam como prova inconstetável, as palavras de grandes pensadores, que foram queimados como hereges. Oras meus amigos, se Deus não existe, naturalmente nada mais do mundo místico é real também. Inclusive Lúcifer, Odin, Hel, Osíris, Ísis, Seth, Zeus, Deméter, Amon, Baal, Krishina, e vários outros deuses, pois se o suposto supremo não é real, o resto dificilmente pode ser considerado como tal. O velho barbudo de sandálias que conhecemos, nada mais é do quê uma imagem criada por homens, que compilaram antigos escritos, num livro chamado bíblia sagrada. – Então quando se entrega a crença, de adorar o Deus do impossível, você indiretamente está se conectando com alguma destas divindades do velho mundo, por isso o uso de versículos, para atingir determinados objetivos.

    Espera Lux Burnns, filha de Lúcifer e Lilith, neta da gigante Tiamat, você está sugerindo que devo me converter? Calma! Não, isso jamais. Alimentar a ideia de quê este deus é supremo, é o quê torna ainda mais forte, não lembra? 

    Só que também não se pode descartar o inegável, de quê esse grande mosaico mal feito, também é parte da nossa cultura, e que desprezar alguns dos seus fatos, é o mesmo que massacrar a própria doutrina. – Por isso se prender ao lado A ou B, é errado. 

    “Ah mas a deusa x é maior que o deus y.” ou “O deus y é maior que a deusa x” Já chega de se prender a isso. Queres realmente acessar o poder máximo, nesta realidade limitada? Então pare de abraçar apenas a causa que te convém, e aceite que o quadrado é feito de dois triângulos, ou o círculo é formado pela união dos mesmos. – O quê isto significa? Que a realidade não se resume, a deuses C e D, e que não é necessário comprar as suas brigas, para que adquira o seu respeito, ou realizem os seus objetivos.

    Nem mesmo estes deuses são originários do príncipio feminino ou masculino, mas sim da união de ambos, que nasceram do verdadeiro ser supremo, que não é Jeová, Cerridween, ou nem mesmo Tiamat, apesar do quê muitos acreditam.

    Se você é iniciante, será um choque, mas a realidade precisa mostrada desde aqui, para que entenda a perda de tempo, que é lutar apenas de um lado. Então prepare-se, pois a origem do universo, de acordo com os antigos, lhe parecerá absurda, se ainda continua abraçado apenas a positivos e negativos:

     Mitologia súmeria

    Cosmogonia

    “Antes de todos os antes, nada existia, a não ser Nammu, o abismo sem forma. Um dia, Nammu resolveu espreguiçar-se, e novamente voltou a enrolar-se. Com esse gesto, ele criou Ki e Anu, respectivamente a Mãe Terra e o Firmamento. Deles nasceriam todos os demais deuses, o tempo e, no futuro, o homem, que seria feito de argila.”

    Superinteressante 28/05/2019

     Mitologia Egípcia: 

    Cosmogonia 

    Neterus Primordiais:

    São os deuses mais importantes os quais estão associados com o mito de criação (origem do universo):

    • Nun (Nu ou Ny): simbolizava a água ou o líquido cósmico que deu origem ao Universo.• Atum (Atum-Rá, Tem, Temu, Tum e Atem): representa a transformação de Nun, sendo considerado aquele que deu origem a explosão do Universo (semelhante ao Bing Bang) e que gerou os diversos corpos celestes, separando assim, o céu e a Terra.• Amon (ou Amun): esposa de Mut, ele é considerado o rei dos deuses.• Aton (Aton ou Aten): relacionado ao sol, ele foi o deus do atomismo que estava relacionado com o disco solar.• Rá (ou Ré): deus da criação, sendo um dos principais deuses do Egito.• Ka: força mística que representava a alma dos deuses e dos homens.• Ptah: marido de Sekhmet e de Bastet, representava o deus criador e protetor da cidade de Mênfis. Além disso, era considerado deus dos artesãos e arquitetos.• Hu: representava a palavra de criação do Universo.

    Toda Matéria 28/05/2019

     Mitologia Hindu

       Comosgonia 

    A Mitologia Hindu está fundada nos Vedas, que são os livros sagrados dos hindus. Segundo a crença, o próprio Brahma os  escreveu. Brahma é o Deus supremo da tríade hindu. Seus atributos são representados pelos três poderes: criação, conservação e destruição, que formam a Trimuri ou trindade dos principais deuses: Brahma, Vishnu e Shiva, respectivamente, da criação, da conservação e as destruição.

    Brahma é o deus criador de todo o universo e de todas as divindades individuais e por ele, todas serão absorvidas. Ele se transformou em várias coisas, sem nenhuma ajuda externa e criou a alma humana que, de acordo com os Vedas, constitui uma parte do poder supremo, como uma fagulha pertence ao fogo.

    Infoescola 28/05/2019

     Mitologia Grega

    Cosmogonia

    No princípio de todos os mitos, houve um tempo em que nada existia no Universo além do Caos – a mais antiga, a mais inexplicável, a mais absurda das divindades. Nenhum poeta e nenhum filósofo grego imaginava o que teria existido antes dele: era o primeiro dos deuses, a sombra de loucura e confusão que está nas profundezas de tudo o que existe.

    O Caos ocupava todo o espaço do Universo. Nele, estavam misturadas as sementes de todas as coisas futuras: mas não havia ordem alguma, apenas um turbilhão sem sentido e sem fim. No poema As Metamorfoses, escrito no século 1 a.C., o poeta romano Ovídio descreve assim a terrível divindade que deu origem a tudo: “Antes que a terra, o mar e o céu tomassem forma, a natureza tinha apenas uma única face, chamada Caos: uma massa crua e desestruturada, um conglomerado de matéria composta por elementos incompatíveis… Nenhum elemento estava em sua forma correta, e tudo estava em conflito dentro de um mesmo corpo: o frio com o quente, o seco com o molhado, o pesado com o leve”.

    O Sol não iluminava o dia, e a Lua não brilhava à noite. Não havia chão para firmar os pés, nem mar para se nadar – todos os elementos estavam misturados num caldo primitivo. E as coisas, embora sempre em convulsão, não saíam do lugar: pois não havia sequer direita e esquerda, em cima ou embaixo, Norte ou Sul, dentro ou fora. O Caos era tudo e, ao mesmo tempo, nada.

    Superinteressante 28/05/2019

     Mitologia Nórdica

    Cosmogonia

    A narrativa das Edas conta que, no princípio, não havia nem céu nem terra, apenas uma enorme abismo sem fundo e um mundo de vapor, no qual flutuava uma fonte. Dessa fonte surgiram doze rios que, após longa viagem, congelaram-se e com o acúmulo das camadas de gelo umas sobre as outras, o abismo se encheu.

    Ao sul desse mundo de vapor, havia um mundo de luz, que soprando vapores quentes, derreteu o gelo que havia se formado. Esses vapores, ao elevarem-se no ar, formaram nuvens e destas surgiu Ymir, o gelo gigante e sua geração. Surgiu, também, a vaca Audumbla, que alimentou o gigante com seu leite e alimentava-se da água e sal contidos no gelo. Certo dia, quando a vaca lambia o gelo, surgiu o cabelo de um homem; no segundo dia, a cabeça e no terceiro, todo o corpo, com grande beleza, força e agilidade.

    O novo ser era um deus e dele e de sua esposa surgiram Odin, Vili e Ve, que mataram o gigante Ymir. Com o corpo do gigante morto, fizeram a terra, com o sangue, os mares, com os ossos ergueram as montanhas, dos cabelos fizeram as árvores, com o crânio fizeram o céu e o cérebro tornou-se as nuvens carregadas de neve e granizo. A moradia dos homens foi formada pela testa de Ymir e ficou conhecida como Midgard ou terra média.

    Infoescola 28/05/2019

    Notou uma semelhança? É novato, e A e B nada mais são que A+B, que resulta em AB, que é a resposta sobre o quê o cosmos é. Eu detesto matemática, mas é um cálculo aceitável. Só que esta presença de uma força, que é a soma de partes, não se encontra presente apenas no misticismo, ou em algebra.

    Na física por exemplo um átomo, é formado por prótons e elétrons, que significa respectivamente o positivo e o negativo trabalhando juntos. Isto é algo caiu para mim na sexta-série, mas estava tão focada em renegar o aprendizado mundano, que não pude perceber, o quanto isto podería me ser útil.

    Na biologia há os casos de partogênese, quando uma espécie assexuada, gera uma prole. Mas isto só é possível, porquê as mesmas carregam tanto os genes xx quanto o xy. 

    Esta é a natureza meu caro, esfregando em sua face, que as espécies não são definidas por machos ou femêas, e sim por aqueles que são dotados de capacidades, para dominar o reino em quê habitam. – No reino dos insetos a louva deus fêmea, fica no poder, porquê o ambiente a tornou capaz. No reino felino, especificamente dos leões, é o leão quem comanda, e assim por diante.

    Os humanos, pré-dispostos ou não, continuam sendo animais, por isso também são livres, para definir quem é apto ou não para determinado cargo, desde que estejam cientes, de quê os gêneros feminino e masculino, atuam como formas da valor equivalente, não desigual. Já que novamente, um sem o outro, tem poder, mas os dois juntos, geram a perfeita união que representa o nosso Universo.

    Portanto não se entregue a falácias dualístas, que só agregam valor a determinado grupo. Abrace o todo, entenda-o, e perceba que a união de muitos, é o quê realmente faz a força.

    Por fim guarde isto em sua mente: Bem e mal é relativo sim. Mas uma conduta, realmente correta, pode ser alvo de piada entre os demais. Não importa, se tu segues a luz ou as trevas. Sempre que resolver pensar fora da caixa, haverão aqueles que tendem a te “apedrejar” ou “queimar na fornalha ardente”, por sua postura nobre.

    Um satanista pode sim ser amigo de um cristão. Um bruxo pode sim ser amigo de um mundano. A única coisa que me parece imperdoável, é que ambos continuem, a tentar se destruir, por comprar a briga de seres, que claramente andam de mãos dadas.

    Sem o Inferno não há quem puna os criminosos pelos seus pecados terríveis, da mesma maneira que sem o Paraíso não tem recompensas maravilhosas. Sem a Guerra, não há razão para o Amor existir. Sem a luz não dá para ver na escuridão, assim como sem um pouco escuro, é impossivel enxergar na luz. Sem o fogo para aquecer, o frio nos congela. Sem o frio para nos aliviar, o calor nos queima. Sem a lança para atacar, o escudo pode não ser mortal. Sem o escudo, não há como se defender da espada. A magia branca nos ajuda a alcançar nossos objetivos, mas a magia negra, nos ajuda a sobreviver. O tudo é o todo, e o todo é a junção de todas as metades.

    Agora a sua jornada se encerra comigo, nobre peregrino, e espero ter te ajudado a encontrar o teu cálice dourado. Pegue-o, encha-o do vinho do saber, e embriague-se de conhecimento, pois como pôde ter notado, não importa o caminho que tomares, o destino sempre será o mesmo, mas é a perspectiva do conceito, que te trará paz ou desespero.

    Com muito carinho, Lux Burnns.

  • O Anjo da Fazenda

    1
    Andy, meu querido Andy.... O conheci em uma tarde nublada. Pobre figura que apareceu em nossa porta. Mas isso é me adiantar na história. Acho que o antes preciso fazer as devidas apresentações. Eu morava em uma fazenda com minha esposa, após anos lutando pelos direitos negros, resolvemos que queríamos uma criança. Achamos melhor nos afastar de toda a turbulência dos protestos e da violência policial. Às vezes, me parecia uma causa perdida, às vezes parecia que dávamos passos curtos adiante.
    Assim, Sasha e eu decidimos nos mudar. Ela acabara de completar vinte e dois anos. Era meu amor de infância, nos conhecemos quando ela tinha apenas quatro anos e eu virava dos oito para os nove. Tivemos um pequeno romance infantil, andávamos de mãos dadas o tempo inteiro. Alguns meninos tiravam sarro, alguns branquelos nos agrediam. Isso nunca importou para nossa relação, sempre soubemos que éramos a coisa certa, sabe? Feitos um para o outro, o amor verdadeiro.
    Nunca nos separamos, abandonei o ensino médio para trabalhar, ela foi um pouco além. Sasha sempre foi um doce, a mulher mais inteligente que já conheci na vida. Também é a mulher mais linda do mundo para mim, mas se me perguntar a verdade, eu poderia dizer que ela parece que nasceu do avesso... Eu não sou lá essas coisas também, o importante é que nós dois nós amávamos... Sempre foi assim e sempre será. Nunca teria outra mulher.
    Com sete anos eu já lhe dizia que iríamos casar. Assim que ela completou dezoito fugimos e nos casamos. Foi uma cerimônia linda, apesar de ter sido pequena, apenas eu, ela e o padre. O padre, meio bêbado, nos casou em uma madrugada, éramos a senha cinquenta e sete, e atrás de nós havia uma fila enorme. Não foi o casamento dos sonhos, foi algo simples, feito por dois adolescentes fodidos e sem dinheiro, mas era o nosso casamento e ficamos felizes com a forma que aconteceu, aquele pedaço de papel de nada valia, O sentimento é que já éramos casados desde que nos conhecemos.
    Logo cedo trabalhei como empacotador em um supermercado, não era o melhor emprego do mundo, mas era fácil e pagava uma merreca. Sasha, com toda sua inteligência, conseguiu um emprego melhor e foi ser secretária em um escritório de advocacia. Foi quando os tumultos aconteceram, não lembro qual foi o estopim, contudo agora todos queriam lutar por um país melhor. No início participávamos, acreditávamos que traria mudanças. Bastou um policial mudar as balas de borracha por balas de verdade e uma dezena de protestantes morreu alvejada pela polícia. As coisas se tornaram violentas muito rápido.
    No protesto seguinte o número de mortos foi maior, cerca de vinte e sete. O terceiro foi um abatedouro, a quantidade de feridos passou de cem, não sei ao certo, acho que chegou perto da segunda centena. Os mortos foram quarenta e três, muitos por balas, muitos pisoteados. Foi quando decidimos ir embora daquela cidade grande. Com o dinheiro que guardamos. Conseguimos comprar uma pequena fazenda, nela colocamos nossa caixinha de correio escrito “Carter” na entrada. Aquele lugar era um lixo, precisou de muito trabalho e amor para se tornar a casa que os Carter mereciam.
    Tínhamos cerca de duzentos quilômetros entre nós e qualquer possibilidade dos tumultos, deixamos aquela cidade grande para trás, sem arrependimento algum. Um pouco mais próximo de nós, uns quinze qu quilômetros, tínhamos uma cidadezinha pacata para fazer nossas compras. Apenas o xerife da cidade nos visitava. Seu nome era Franklin, gostava dele, desde o começo nos tratou bem. Assim, resolvemos convidá-lo para almoçar em nossa casa, nunca vi um policial recusar uma refeição grátis. Depois de um tempo nos tornamos amigos, ele aumentou o perímetro de sua ronda para incluir nossa casa, sempre dividíamos as refeições, às vezes ele trazia algo, às vezes nós fazíamos e sempre tínhamos uma conversa agradável.
    Agora, lembro-me como eu adorava aqueles almoços saborosos sempre feitos por minha doce Sasha. Sim, ela fazia o almoço para nós dois e para as visitas que raramente apareciam, o xerife era o mais recorrente. Nosso combinado funcionava assim, o café da manhã era minha responsabilidade, às vezes levava na cama para ela, às vezes comíamos na sala, às vezes do lado de fora da casa. O jantar revezávamos, às vezes ela fazia, às vezes eu, mas sempre preferi quando fazíamos juntos.
    Em nossa pequena fazenda tínhamos paz, tranquilidade, uma vaca para o leite da manhã, seis galinhas para ovos e uma plantação suficiente para vender o excedente na cidade, na época certa.
    Eu não conseguia ir à cidade sozinha para vender nossos tomates e nossas cenouras. Por mais que não gostasse de deixar a casa sozinha, precisava que Sasha fosse comigo à cidade vender nossa colheita. Pretendíamos ter um filho e gostaríamos que ele tivesse as oportunidades que não tivemos e, meu amigo, oportunidades custam caro. O trabalho era duro e fazíamos apenas os dois. Acordávamos às cinco da manhã e acabávamos tudo perto das dez da noite.
    Depois de trinta e sete anos tentando ter uma criança, descobri que não poderia ter filhos, alguma coisa sobre baixa contagem ou fragilidade. Eu, honestamente, não sei, parei de escutar o doutor quando ele disse “você nunca poderá ter um filho”. Ainda tentávamos, minha doce Sasha sempre dizia que os médicos erram sempre nessas coisas e que se não fosse para ter meu filho, ela não teria com mais ninguém. Sabíamos que nunca teríamos uma criança e naquela região do país era difícil conseguir uma adoção.
    Foi quando meu aniversário de sessenta e sete anos chegou. Sasha fez um bolo de amora delicioso, como só ela sabe fazer. Sentamos em nossa varanda e passamos o dia conversando. Ela já estava doente nessa época, o sangue em sua tosse era normal de se ver. O médico disse que o câncer nos pulmões já era irreversível, que não havia muito a ser feito, não lhe faria bem algum ficar no hospital, presa e entubada. Sua recomendação foi que deveríamos aproveitar o tempo que nos sobrara. Nossa rotina não mudou muito, embora cada tosse dela fizesse meu coração partir um pouco mais.
    Foi quando o vi pela primeira vez...
    Andy apareceu em nossa porta. Era uma tarde nublada, chovera um pouco mais cedo, tornando a terra à beira da estrada em lama. Andy surgiu carregando uma pequena maleta de couro e vestia um terno surrado, grande demais para ele, e tinha lama até o joelho. Por sua aparência suja eu poderia jurar que ele caíra pelo menos uma vez em algum lamaçal, pobre criatura.
    - Senhor, desculpe lhe incomodar nesta linda tarde de verão, mas poderia lhe pedir apenas um copo de água, para que eu possa seguir minha viagem?
    Apenas um pouco de água para continuar sua viagem.... Olhando aquela aparência frágil, julguei que ele precisava de muito mais do que isso. Nós dessas cidades pequenas gostamos de ajudar, nos interessamos pelos outros, normalmente. Sua cara de bebê exclamava sua pouca idade, não tinha pelos no rosto, não poderia passar de vinte anos. Mas não caia nessa, nunca confio em um branquelo batendo na minha porta, sua educação sempre esconde alguma coisa. Achei melhor mandá-lo embora.
    Foi quando Sasha, que é quem tinha o coração maior, apareceu ao meu lado.
    - Boa tarde, menino, qual o seu nome?
    - Sou Andy Robbins, senhora. Muito prazer e uma ótima tarde. Teria a honra de saber o seu nome?
    - Somos os Carter, sou Sasha e este é meu marido George. Vou buscar sua água, espere um instante.
    - Muito obrigado.
    Sou uma pessoa muito sincera e preciso dizer que não fui com a cara de Andy. Não gostava de sua educação, não gostava de sua pouca idade e não gostava do fato de ele estar a pé, sendo que, por onde ele vinha, a cidade mais próxima tinha mais de cem quilômetros de distância. A parada de ônibus era mais perto, apenas uns três quilômetros, mesmo assim algo não me cheirava bem nele.
    - Para onde você está indo, branquelo?
    - Estou indo para a cidade, quero distribuir alguns currículos para conseguir algum emprego.
    - Você tem a cor certa para isso, não?
    - Desculpe? – ele indagou com uma expressão de dúvida.
    - A cidade que você quer está vinte quilômetros de distância, pelo menos se você for para oeste, para o leste terá que andar mais de cem.
    - Obrigado, senhor. Estou indo para o oeste, tenho uma boa experiência em trabalhos de fazenda e nunca estive em uma cidade grande, estou ansioso e com um pouco de receio. Sabe, desde que meu papai morreu e o banco tirou nossa terra, decidi arriscar na vida urbana.
    - Vem uma chuva forte por ai – diz Sasha voltando com um copo de  água – você não pode ir a pé até a cidade nesse clima. Por que não fica a noite aqui? Podemos armar uma cama no celeiro, se não se importar de dormir com Bibi, nossa vaca.
    - Amor, – eu disse em um tom baixo – não acho que devemos fazer esse convite.
    - Ora, George, você acha que um menino franzino e sujo desses pode.... – ela foi interrompida por um pequeno surto de tosse – Desculpe. Acha que ele pode fazer algum mal?
    Eu vi um pouco de sangue em sua boca, sujou seu queixo e ela não reparou. Mordi o lábio inferior com meu canino, para segurar a lágrima que queria escorrer. Não acho que ela se atentou a isso, então achei melhor concordar.
    - Por favor, entre. – Disse Sasha em sua doce voz melodiosa – já vamos almoçar. Você pode tomar um banho e depois se juntar a nós. George lhe emprestará alguma roupa limpa.
    Andy não falou muito naquele almoço. Tentamos descobrir de onde ele vinha, contudo, suas respostas eram vagas, como se fosse doloroso lembrar. Seu olhar era de certa forma vazio e penetrante. Quando lhe dirigíamos a palavra ele hesitava em responder, quando respondia, olhava em meus olhos como se pudesse ver o fundo de minha alma e, de certa forma, eu podia ver a dele. Não engoli aquela história de perder a fazenda para o banco, mas comecei a imaginar que, talvez, algo mais triste do que isso tivesse acontecido.
    Naquela noite, Andy se mostrou muito prestativo e, enquanto, fazíamos o jantar, ele pediu para ajudar. Não permiti, fazer o jantar era o momento especial em que passava com Sasha, assim, pedimos que ordenhasse a vaca para que tivéssemos leite fresco. Quando voltou o balde estava cheio.
    Na manhã seguinte acordei cedo e vi que Andy olhava nossa plantação. Andava entre os tomates e as cenouras, resmungava algo para si mesmo e voltava.
    - O que está fazendo, Andy?
    - Sabe George, se você plantar coentro com os tomates pode reduzir um pouco o número de pragas. Ele atrai predadores naturais dessas pragas, sua perda seria menor. Estou vendo muitos tomates estragados e isso meu deixa triste. Papi sempre dizia que a plantação cresce melhor se sua planta tiver uma companheira. – ele disse com um sorriso sonhador e encantador.
    - Sim, temos perdido grande parte da plantação. Não gostamos de usar esses agrotóxicos. Sua ideia pode ser útil, vamos tentar.
    Era uma ideia interessante, iria pesquisar alguns dados nos dias seguintes para saber se ele tinha alguma base. Primeiro precisaria lidar com Andy, aquele sorriso encantador não me parecia algo de uma pessoa ruim. Se estava dizendo a verdade sobre quem era, não teria chances na cidade. Era um garoto de fazenda e, por mais que eu odeie admitir, precisávamos de ajuda, Sasha não tinha muito tempo, um ano no máximo, e já não podia fazer esforços para cuidar do plantio.
    - Querido, por que não o convida para ficar conosco? Ele pode dormir no celeiro e trancamos tudo à noite. E uma mão para ajudar com a plantação nos faria bem, poderíamos crescer um pouco mais e você não ficaria sozinho quando.....
    - Sasha Carter, não se atreva a dizer isso! – minha voz soou falhada.
    - Quando eu me for, meu amor. Temos que falar disso. Sabemos que eu não tenho muito tempo e que não tivemos um filho. Com Andy você pelo menos terá companhia por algum tempo.
    - Quando você se for, eu vou junt....
    A batida da palma de sua mão contra minha face foi dura e ardida (não deixou de ser merecida). Ela colocou o dedo na minha frente. Não tive coragem de encará-la, apenas abaixei o rosto e chorei.
    -George Carter, você vai viver e vai viver por muito anos. – seu rosto estava vermelho e sua expressão não era exatamente de raiva, era uma mistura de repreensão e incredulidade, algo parecido com uma mãe que ouve seu filho dizer um palavrão - Se realmente me ama, e tenho certeza de que ama, pois nunca existiu um homem que tratasse tão bem uma mulher, você vai viver para honrar a minha memória. – Ela foi interrompida por uma crise de tosse - Poderá encontrar outra pessoa e cuidar de Andy, se ele precisar. Prometa isso, você viverá!
    - Eu prometo, mas nunca encontrarei outra pessoa.
    Nos próximos dias éramos uma família feliz. Sasha, Andy e eu. O menino sabia se virar na terra, para meu alívio. Sua ideia de planta companheira parecia dar certo e tínhamos um produto novo para vender. Com certo receio de minha parte, deixamos que ele se mudasse do celeiro para nossa casa, tínhamos um quarto vago. Eu lhe pagava pelos serviços que prestava, Sasha não precisava mais me ajudar, podia ficar em casa enquanto vendíamos a produção na cidade. A vida era boa, se não fosse pela doença de meu amor.
    Tudo isso iria mudar...
    2
    Com o passar dos meses a doença de Sasha se agravara, Andy tornou-se o filho que nunca tivemos, eu poderia passar mais tempo com minha esposa que raramente deixava o quarto. Agora todos os dias recebia o café da manhã na cama, o almoço na cama e o jantar na cama.
    Se não fosse por Andy a fazenda teria morrido naqueles meses de primavera e teríamos falido. Eu não conseguia deixar Sasha sozinha, não conseguia trabalhar e com certeza não conseguia ir até a porcaria da cidade vender nossas cenouras e nossos tomates e coentros. A vida fora daquele quarto não fazia sentido. Sua respiração era difícil e barulhenta. Eu chorava todos os dias, eram os únicos momentos em que saia de perto de Sasha, não queria que ela me visse nesse estado, embora ela soubesse.
    - Você é um bom homem George. Por favor, cuide de Andy, ele tem sido tão bom conosco, um verdadeiro anjo em nossa vida.
    - Sim, eu cuidarei.
    - E tenha uma vida longa, meu amor... Por favor, deixe-me um pouco, preciso fazer minhas pazes com Deus.
    Não contive as lágrimas, apenas levantei e saí. Acho que foi a primeira vez que Sasha me viu chorar. Lembrei-me de como via minha esposa, aquela mulher tão cheio de vida, ternura e bondade, morrer aos poucos, dia a dia, em um sofrimento que parecia não ter fim. Bom, o fim estava chegando, esse pensamento não me alegrou nem um pouco. Encontrei Andy na cozinha, ele olhou para mim e me abraçou. Tinha aquele sorriso encantador de Andy no rosto e foi em direção ao quarto.
    - Não, Andy, não entre ai! - Eu queria gritar, mas a voz saiu fraca.
    Ele seguiu seu caminho, entrou no quarto de Sasha, minha doce e frágil esposa, ela se assustou e permaneceu imóvel, com o ruído de sua respiração sendo ouvido de fora do quarto.
    - Andy, por favor, me deixe só. – Ela disse em sua voz amorosa.
    - Andy, SAI DAQUI! – foi rude de minha parte, ele tinha o direito de se despedir dela.
    Ele continuou se aproximando dela, seus passos eram firmes e decididos. Ele sorriu, ela retribuiu o sorriso.
    - Por favor, deixe-me ver.
    - Tudo bem, querido Andy.
    Ele a tocou, colocando suas mãos nas costelas dela, uma de cada lado. Eu não entendi o que ele tentava fazer, fiquei nervoso e decidi tirá-lo dali à força. Foi quando um brilho surgiu em suas mãos, o quarto inteiro ficou um pouco mais quente, um calor gostoso e reconfortante como uma lareira em uma noite de neve.
    Não entendi o que acontecera. Era realidade? Aquele brilho aconteceu ou tive um derrame pelo nervoso e alucinava?
    - Respire Sasha, encha seus pulmões. – falou em um tom descontraído.
    Eu vi o peito de Sasha inflar como não via há anos. Então ela soltou todo o ar, sem barulho algum.
    - Andy, meu querido, você realmente é um anjo?
    Ela não respondeu, apenas sorriu. Veio em minha direção e disse:
    - Não... Não sou um anjo. E ela não viverá para sempre, está vivendo em tempo emprestado agora..... Sabe, esse câncer é algo muito violento mesmo, os pulmões dela estavam quase mortos, ela não iria sobreviver até amanhã.
    - Muito obrigado, Andy. Ela está bem mesmo? Você a curou?
    - Por hora sim, ela viverá mais...
    - Eu consigo respirar amor... Eu consigo respirar! – ela chorava, dessa vez de alegria, como não fazia há muito tempo.
    Andy saiu do quarto sem dizer mais uma palavra e foi para o celeiro. Fui atrás dele e quando cheguei, ele já dormia em sua cama. Não sei que tipo de poderes aquele menino tinha, só sei que era algo exaustivo. Conversei com Sasha para fazermos um jantar especial para ele naquela noite e que arrumaríamos o quarto da casa para que ele não precisasse mais dormir no celeiro. Um anjo não deveria dormir ali com os animais.
    Quando Andy acordou já era quase meia noite. Mesmo assim sua aparência era de cansaço extremo. Ele andou vagarosamente até a casa e nos reunimos na sala de jantar. Gastamos um pouco mais em um champanhe, era uma ocasião única e o esperamos para o jantar tardio.
    - Andy, gostaríamos que você se mudasse aqui para casa, temos um quarto pequeno com algumas tralhas, vamos limpá-lo depois da janta, porque gostaríamos que viesse ainda hoje
    - Obrigado, senhor George. Fico muito grato por isso, mas não precisa de pressa, podemos fazer isso amanhã, com calma. Hoje à noite vocês deveriam aproveitar a companhia um do outro.
    - Tudo bem, Andy – disse Sasha – vamos aproveitar o jantar que é uma ocasião muito especial e tudo graças a você.
    Ele sorriu, pareceu um pouco desconfortável, embora seu sorriso tenha sido simpático, como sempre.
    - Posso fazer um pedido?
    - Claro Andy. O que quiser.
    - Poderiam guardar esse segredo? Também não seria bom se as pessoas vissem a senhora Sasha bem nos próximos meses.
    Concordei com ele, imaginei o que aconteceria se as cidades vizinhas soubessem de nosso anjo milagreiro. Com certeza a notícia se espalharia como fogo no feno seco. Logo o garoto teria que se exibir todos os dias. Percebi sua exaustão e o que aquilo lhe causaria. Será que aquele anjo poderia morrer por causa disso? Não sei, de qualquer forma esconderíamos Sasha e isso seria fácil, afinal, a única visita regular que tínhamos era do xerife que, geralmente, passava por ali uma vez a cada quinze dias e para demonstrar sua preocupação com minha esposa. Depois de alguns meses eu poderia falar sobre alguma cura milagrosa, afinal essas coisas acontecem.
    3
    A felicidade voltara aos meus dias, a vida fazia sentido novamente, Sasha e eu parecíamos um casal de adolescentes apaixonados depois de seu “renascimento”. Tudo porque Deus enviou seu pequeno anjo magrelo para nos ajudar. Andy seguia trabalhando em nossa fazenda, o rapaz tinha uma resistência incrível, às vezes imaginava se ele realmente dormia. Sempre acordava antes de mim e quando eu ia dormir o ouvia andando fora da casa. Era bom ter essa juventude por perto.
    Naquele começo de tarde resolvi ir com Andy até a cidade para fazer as compras do mês. Sempre que lhe perguntava sobre o paraíso e sobre o todo-poderoso, mas ele, delicadamente, mudava de assunto. Entendi que não era um assunto que quisesse falar (talvez nem pudesse).
    Enquanto entravamos em minha caminhonete Chevrolet vermelha, toda suja de terra, tentei conseguir alguma informação celestial dele.
    - Diga-me, Andy, quantos anos você tem? De verdade.
    - Eu não sei... – ele perdera aquele sorriso lindo e apenas encarava seus sapatos, no assoalho do carro.
    - Sabe há quanto tempo está na Terra?
    - Não, tenho apenas flashes, lembro-me de uma família antes de vocês vagamente, mas não consigo ver seus rostos. A lembrança dói, não sei por quê.
    - Então não é sua primeira vez na Terra?
    - Senhor George, desculpe. Poderíamos falar de outra coisa?
    - Claro Claro. Entendo que este assunto é delicado para você. Por favor, perdoe minha indelicadeza.
    - Não se preocupe. – ele finalmente olhou para mim, com seu sorriso de Andy – Não ligue o carro, o xerife está chegando. Ele ainda não sabe sobre mim, não é?
    - Fique sentado aqui no carro e abaixe a cabeça. Eu cuido disso.
    Desde que a doença de Sasha se agravara o xerife não entrou mais em nossa casa, nem me viu na cidade. A essa altura não achei que seria uma boa ideia ele saber da existência de Andy. Sai do carro e andei até Franklin.
    - Boa tarde, xerife. Em que posso ajudá-lo hoje.
    - Olá George. Como está a Sasha?
    - Está mal... Mas ainda temos esperança... Gostaria de convidá-lo para entrar, só que....
    - Você está de saída, não? Acha prudente deixar sua mulher sozinha nesse estado?
    - Preciso fazer as compras do mês, não pretendo ficar muito tempo longe.
    - E quem está no carro seu carro, o rapaz que abaixou a cabeça quando você saiu?
    -...
    - Vamos lá, George, somos amigos. O que está acontecendo?
    (ele nunca iria acreditar que um anjo estava morando comigo e que curou minha esposa. Talvez se eu mostrasse Sasha para ele, só que ai quebraria a promessa que fiz para Andy. Isso seria uma afronta a Deus? Achei melhor não arriscar)
    - É apenas um garoto que está ajudando nas tarefas. Ele não cobra muito caro e faz bastante. Não queria que você ficasse preocupado por termos um estranho por aqui, mas ele estava procurando trabalho e pareceu inofensivo.
    - E qual o nome desse rapaz inofensivo que está lhe ajudando?
    - Andy Robbins. Não sei ao certo de onde veio, para lhe dizer a verdade, nunca perguntei.
    - Tudo bem, George. Vá até a cidade, se não se importar, darei umas voltas por aqui, caso Sasha precise de algo. Quando você voltar me avise.
    - Claro Franklin. Muito obrigado.
    Enquanto saia da fazenda, reparei nos olhos azuis do xerife nos observando severamente, eu o vi daquela forma antes, não era raiva nem nada do tipo, era o olhar que ele tinha quando desconfiava de alguém, sempre me disse que era algo frequente em seus tempos de investigador. Talvez ele não tenha engolido a história e aquilo me preocupava.
    Quando voltamos o Sol já se punha, Franklin nos aguardava na porta da fazenda.
    - George, seu filho da mãe, safado. Meu turno já acabou há meia hora e ainda estou aqui te esperando. Sabe que não entraria na sua casa sem permissão, ainda mais na condição em que Sasha se encontra.
    - Tudo bem, Franklin. Desculpe a demora, trouxemos bastante coisa.
    - Sabe do que você precisa, meu velho? De um desses – ele disse retirando seu smartphone do bolso – Aí poderíamos conversar melhor. – Você pode me ligar, se Sasha precisar de algo eu não preciso ficar aqui do lado de fora esperando o pior. Olha só, ele faz tudo, – eu vejo um flash que quase me cegou – até tira fotos.
    - Olha xerife, você sabe que não me dou bem com tecnologia –respondi rindo – por isso nem máquina de lavar roupa nós temos. Sasha e eu somos de outra época e estamos felizes assim.
    - Eu sei bem disso. Não vou mais lhe incomodar. Boa noite George, se cuide.
    - Você nunca nos incomoda Franklin. Por favor, volte quando quiser. Boa noite.
    Na semana seguinte, vi a viatura do xerife todos os dias passando em frente à fazenda, aquilo me preocupou. Do que ele desconfiava?
    - Andy, você já viu o xerife? Já falou com ele?
    - Não lembro. Talvez... Talvez com a outra família... Eu não me lembro. Acha que é por isso que ele tirou a minha foto?
    - Tirou sua foto?
    Como eu pude ser tão burro? Ela não queria me mostrar a porcaria de um celular, ele queria uma foto do meu anjo (sim, eu já julgara aquele anjo como meu, talvez esse tenha sido meu pecado).
    - Não acredito que ele fez isso. Amanhã vou descobrir o que ele está tramando.
    Passei a noite rolando na cama, até que Sasha me expulsou do quarto. Desci para tomar um leite gelado. Minha cabeça era dominada por diversos pensamentos. O que aquele xerife de bosta estava tramando? Qual o interesse dele no meu anjo? Isso não poderia ficar assim. Olhei para o relógio e vi que eram cinco da manhã. Ele deveria estar acordando, não perdi tempo e fui para meu carro. Vi que a porta de Andy estava aberta, talvez ele estivesse vendo a plantação, sempre acordou cedo aquele rapaz.
    Dirigi rápido, como um garoto inconsequente. Em minha pressa esqueci de trocar o pijama. Isso não importava, Franklin iria ouvir poucas e boas de mim. Consegui chegar em sua casa antes que saísse para a delegacia.
    - Bom dia, George. O que lhe traz tão cedo aqui?
    - Precisamos conversar, Franklin! Eu quero sab....
    - Sim, precisamos. – ele disse com firmeza - E tenho um assunto muito sério para tratar com você. Ia te chamar na delegacia um pouco mais tarde. Já que está aqui, por favor, me acompanhe, tenho cópia de tudo aqui em casa.
    Ele me levou até um quarto com diversos recortes de jornais, fotos e desenhos. Três fotos em particular eu reconheci, foram em minha fazenda, todas eram de Andy. A que ele tirou em meu carro, uma arando a terra e outra entrando em minha casa.
    - O que é tudo isso Franklin?
    - Apenas veja que irá entender. Olhe esse recorte.
    A notícia dizia:
    “HERÓI SALVA FAMÍLIA DE INCÊNDIO.
    Segundo testemunhas, o homem entrou no imóvel sozinho e entre cinco e dez minutos depois saiu com toda a família e seu cachorro pela porta da frente.
    Andy Mitchell não concedeu entrevista e se esquivou de qualquer foto.”
    - O bombeiro chefe era meu amigo, disse que não entendia como a família toda sobreviveu. Eles passaram tempo demais lá dentro, respirando fumaça e em um calor absurdo. Todos deveriam ter morrido, até a porra do cachorro escapou. Olhe essa foto, está em preto e branco, um pouco desfocada, mas.... é ele. E não parece ter envelhecido um único dia.
    O nome embaixo da foto dizia “Andy Mitchell” e o que mais me impressionou foi a data... era de 25 anos atrás. Isso só queria dizer que meu anjo operou outro milagre. Ele falou sobre outra família que não lembrava, talvez seja isso. E tentou se esquivar das fotos para não ser reconhecido, ele não quer publicidade.
    - George, ainda está comigo? Isso é importante.
    - Mas só mostra que ele é um herói.
    - Não. Olhe esse outro recorte.
    “FAMÍLIA RESGATADA DE INCÊNDIO É ESQUARTEJADA 4 MESES DEPOIS”
    - Eu era o investigador encarregado desse caso. Eu tinha certeza de que tinha sido esse tal herói, só que ele sumiu. Ninguém ouvia dele desde o incêndio. Acabei arrancando do pai da família, Brandon Brooks, que esse tal Andy morava com eles, em segredo. Isso foi uns três dias antes das mortes. Tá vendo esses recortes e casos na parede? Desconfio que todos têm a participação dele e não consegui provar ainda. Essa chacina da família Brooks é o único que conseguiram uma foto e um nome. Esse cara parece que sabe onde uma tragédia vai acontecer, ajuda as pessoas e depois mata quem salvou. E é por isso que estou patrulhando sua casa desde que o vi. Se a Sasha ainda não melhorou temos tempo, se bem que eu não faço ideia de como ele poderia ajudá-la. Mas também não faço ideia de como ele não envelheceu em tanto tempo.
    (ela está vivendo em tempo emprestado...)
    (ela está vivendo em tempo emprestado...)
    (ela está vivendo em tempo emprestado...)
    A frase martelava na minha cabeça. O mundo girou ao meu redor e senti que iria desmaiar. Não, não podia ser verdade. Não o anjo Andy que curou minha esposa.
    - Eu... Eu.... preciso sair daqui.
    - Você está bem George?
    - Sim, eu preciso ir para casa.
    - Tudo bem. Eu tenho alguns compromissos agora pela manhã. Tudo bem se eu passar na sua casa no final da tarde? Gostaria de ter uma palavrinha com esse Andy.
    - Tudo bem... eu só preciso ir...
    Não me lembro do caminho de volta, nem da velocidade que atingi, apenas sei que o motor gemeu o caminho inteiro.
    - Sasha! Amor! Você está ai? ANDY???
    (por favor, Deus, que ela esteja cuidando das galinhas)
    Entrei correndo na casa, não ouvi nenhum ruído e ninguém me respondia. Subi as escadas para o cômodo em que amei Sasha pela maior parte de minha vida e a porta estava fechada.
    - Sasha? – perguntei com a voz falhando
    Girei a maçaneta, temendo o que poderia encontrar. Abri a porta e o que vi, não imaginaria em meus piores pesadelos. O corpo desfigurado de Sasha jazia no chão. Onde as mãos salvadoras de Andy encostaram para lhe devolver a vida havia diversas perfurações com o líquido vermelho escorrendo. O sangue dela pintava as paredes do quarto, como uma obra impressionista pintada pelo próprio Satã, retratando a cena de horror que ali se passara, apenas poucos instantes antes de minha chegada. E o mais horripilante foi ver Andy, banhado em sangue, sentado na cama, com minha esposa a seus pés, a faca ensanguentada na mão e aquele sorriso de Andy no rosto.
    - Por favor, senhor George. Não se assuste. Eu pretendia limpar tudo antes que o Senhor chegasse. Eu lhe disse que ela viveria em tempo emprestado... Chegou o dia do pagamento. Uma vida salva vive de tempo emprestado... Ás vezes dura bastante, ás vezes não. Você aproveitou um bom tempo com sua esposa, eu deveria ter cobrado antes, mas gostei muito do senhor, sabia que iria sofrer no dia que o pagamento fosse devido.
    Eu ajoelhei no chão, incrédulo com o que via, com aquele anjo... Não, aquele demônio... Não pude pensar em nada, apenas na pergunta mais idiota que veio a mente...
    - Por que?
    - Entenda, Senhor George, o tempo emprestado dela acabou, eu apenas recolhi o que era justo....
    De alguma forma, aquilo parecia fazer sentido para ele, como se fosse a verdade absoluta e irrefutável. Talvez isso... não, o sorriso, com certeza foi o sorriso que me fez explodir. Arremessei-me em direção a Andy, como nos tempos em que brigava com a polícia em nossos protestos, contudo a idade não era mais a mesma. Não fui páreo para a juventude dele, pelo menos para a juventude que ele aparentava ter. Ele me dominou facilmente, me jogou contra a parede e encostou a faca na minha garganta, aquela faca ainda tinha o sangue da minha amada, que agora escorria em mim.
    - Acabei de salvar a sua vida, Senhor George – ele disse perdendo o sorriso do rosto – Eu não queria fazer isso, não com o senhor, mas você me obrigou e agora também está vivendo em tempo emprestado – ele disse jogando a faca para longe.
    Não lembro exatamente o que aconteceu, apenas que a raiva me dominou e pulei em cima dele com ambas as mãos apertando seu pescoço. Ele sorriu para mim, de novo. Isso apenas aumentou minha ira.... E continuou sorrindo daquele jeito encantador até a vida sumir de sua face.
    Naquele dia eu matei Andy com minhas próprias mãos. Queria enterrá-lo no porão. Depois pensei melhor, não queria aquele corpo perto de mim. O coloquei no porta-malas da caminhonete, enrolado no cobertor, que ele usou por tanto tempo em minha casa e joguei alguns tomates em cima para disfarçar.
    Depois de morar tantos anos em uma fazenda afastada, você sabe todos os lugares da região que seriam bons para esconder um corpo. Não que você pense nisso, só que na hora em que você precisa, esses lugares vêm à mente. Lembrei-me de uma vala que eu poderia colocá-lo, ela tinha algumas falhas, o exército costuma treinar explosivos por ali uns 10 anos antes. Ninguém passa por ali, seria preciso apenas jogá-lo no buraco e colocar um pouco de terra em cima. Seria temporário, depois de uma semana eu voltaria para achar um lugar melhor.
    Chegando em casa precisaria limpar o quarto e enterrar Sasha com dignidade. Ninguém poderia ver o corpo e todos acreditariam que ela morreu de câncer. No dia seguinte compraria um caixão e a enterraria no quintal. Faria uma lápide para ela, não era a melhor solução, era a única que tinha.
    Foi só então que lembrei de ver o quarto de Andy por seus pertences, vi algumas roupas que comprei para ele e sua pasta de couro. Quando a abri, não havia nada ali dentro, como se nunca tivesse sido usada. Queimei tudo e apreciei ver aquilo ardendo, imaginando que o corpo dele estaria ali. Talvez eu devesse ter queimado ele. Pensaria durante a semana qual opção seria melhor.
    No final da tarde Franklin apareceu. Eu disse que Andy fugira, talvez por ver a polícia rondando mais a área, também disse que Sasha estava piorando, não deveria viver muito tempo. Ele pediu para vê-la. Consegui chorar e pedi para que não entrasse na casa, ele acreditou e foi simpático comigo, deu-me um abraço. Foi a segunda vez que nos abraçamos, na primeira, quando descobrimos a doença de Sasha, foi algo rápido, com dois tapinhas nas costas. Este não, foi longo. Eu chorei, e de verdade, pela primeira vez com outro homem. Franklin me deu um celular velho, disse que se eu precisasse de qualquer coisa, a qualquer horário, poderia ligar e ele apareceria. Pedi para ele vir almoçar em uma semana. Já havia decidido enterrar Sasha antes dessa visita.
    Na semana seguinte, já havia arrumado a casa, limpado qualquer vestígio do que acontecera por ali e na caminhonete. Depois de uma pequena cerimonia solitária para enterrar Sasha, era hora de mudar de lugar o corpo daquele desgraçado. Eu passei quase um dia inteiro cavando uma cova em um lugar isolado, desisti da ideia de queima-lo, de certa forma me parecia um sacrilégio. E, pensando bem, no dia que encontrassem esse filho da puta, eu já teria morrido há muito tempo e Franklin me enterraria ao lado de minha esposa. Passei a semana inteira refletindo e decidi que contaria toda a verdade para ele em nosso almoço no dia seguinte. O que eu tinha a perder?
    Dirigi até onde larguei o corpo de Andy e joguei a faca que ele usou por ali, era a única evidência que poderia ser usada contra mim, só que estava bem limpa e era uma faca comum jogada em lugar nenhum. Não me preocupei com isso.
    Peguei minha pá e, embora cansado, consegui desenterrar o cobertor em poucos minutos. Quando o puxei para fora da vala, algo não batia. O cobertor estava leve demais. Meu coração parou por um instante e o choque percorreu meu corpo todo. Minha boca ficou seca e permaneci completamente imóvel. Tive medo, muito medo, então puxei o cobertor para ver que não havia nada ali. Nada de Andy, nada de corpo.
    Dei dois passos lentos para trás, meus olhos vidrados naquele pano grosso, cheio de terra e vazio. Corri para o carro e procurei o telefone, era hora de falar com o xerife. A porcaria ficou em casa. Liguei o Chevrolet e pisei fundo.
    Por Deus, será que alguém encontrou Andy e tirou o corpo de lá? Por que deixariam o cobertor enterrado? A terra não parecia remexida quando eu comecei a cavar. Será que eu errei o lugar e tudo foi uma incrível coinc....
    - Andy?
    Aquele sorriso... Ele me olhou com aquele sorriso... no fundo de meus olhos. Andava tranquilamente pela terra ao lado da estrada. Isso me perturbou profundamente e perdi o controle do carro. Encontrei um poste e nunca descobri se agradeço ou não pelo cinto de segurança.
    4
    Passei duas semanas no hospital, esse ossos velhos demoram para cicatrizar. Franklin me visitou quase todos os dias, ele se tornara um grande amigo por isso pedi desculpas por ter lhe escondido a história toda. Na primeira chance que tivemos sozinho eu lhe contei tudo, como Andy aparecera em nossa porta, com aquele sorriso encantador, como mesmo sem pedir ele nos convencera a abrigá-lo, como ele salvara a vida de Sasha, como ele a esquartejara e como eu o estrangulei com todas as minhas forças. Então, respirei fundo e lhe disse o motivo de meu acidente.
    Ele acreditou em tudo que lhe disse. Também me falou de um detetive particular com quem trabalhara certa vez, um tal de Sean Corbyn, que investigava alguns casos estranhos, Franklin acreditava que talvez pudesse ajudar. Eu disse que não. Queria apenas me recuperar e ir para casa. No mesmo dia o xerife verificou os locais que falei, até o corpo de Sasha. Olhou nos meus olhos e disse, com certo ressentimento, que se não me conhecesse diria que eu sou culpado de ter esquartejado a minha mulher. Eu queria espancá-lo quando disse isso, ele pediu desculpas, por ter escolhido as palavras erradas, mas que acreditava em tudo que eu falei e que iria me ajudar no que fosse preciso. Apenas agradeci e pedi para que fosse embora.
    Foi a primeira noite que Andy me visitou...
    Estava dopado de morfina, então minha memória não é muito clara, ou certa. Lembro das luzes apagadas, era tarde da madrugada. Ouvi passos caminhando em minha direção, o que eu ouvi em seguida foi mais horripilante.
    - Boa noite, senhor George. Não era assim que eu queria que aproveitasse seu tempo emprestado. Espero que me perdoe por causar seu acidente.
    - Enfermeiraaaaa!!! ENFERMEIRAAAA!!!! – gritei a plenos pulmões.
    A enfermeira de plantão apareceu correndo com uma médica. Nenhuma delas viu ninguém nem ouviu nada. Disseram que poderia ser algo da minha cabeça e fizeram diversos exames. Eu sabia que não era nada da minha cabeça, foi por isso que decidi ir embora do hospital assim que minhas dores melhoraram.
    Franklin era contra eu ir para casa tão cedo, talvez não acreditasse na visita de Andy. Mesmo assim, resolveu me visitar todos os dias. Andy também.
    Eu o via andando na rua em frente à minha casa, ás vezes ele apenas parava e observava. Eu ouvia sua voz nas paredes da casa. Pedi ao xerife um rifle emprestado. Ele foi contra, contudo cedeu algo menor, uma Smith Wesson 9mm que não saia de minha cintura. Um pente nela e outra em meu bolso.
    Quatro dias depois de sair do hospital, vi a porta do celeiro aberta e eu sempre tranco aquela porcaria depois de colocar a Bibi lá dentro. Eu tinha certeza de que era ele, Andy voltara para sua antiga cama e me aguardava. Peguei minha pistola e sai da casa, fui em direção ao celeiro. A escuridão lá dentro era intensa, mesmo com a fazenda banhada pelo luar. Ouvi movimentos e atirei. Cinco tiros no escuro, um mugido e uma queda ao solo. Bibi agonizava, por minha culpa.
    Liguei as luzes para revistar aquele lugar, sem sinal de Andy. Dei um último tiro de misericórdia em Bibi e estava cansado demais para qualquer coisa. Deixe-a deitada ali, sem vida. Ela não iria a lugar nenhum mesmo. Voltei para minha cama. Naquela noite sonhei com Andy batendo na janela, com aquele sorriso encantador, falando “senhor George”.
    Acordei tarde, perto do meio dia. Não tinha ânimo para sair da cama, então ali continuei até as duas da tarde. Quando levantei, vi o carro de Franklin na porta. Contei-lhe das visitas de Andy e como matei Bibi na madrugada. Ele se espantou:
    - George, não acha melhor me devolver a pistola?
    - Não Franklin. É minha única proteção.
    -Tudo bem. Por favor, tome cuidado. Agora me mostre o animal.
    - Eu a deixei lá no fundo. É por aqui.
    Seguimos nosso caminho até o celeiro. A porta estava trancada. Eu não lembro se a tranquei antes de ir dormir. De qualquer forma, desde que Sasha morreu, a chave sempre fica no meu bolso. Destranquei a porta e a abri. Foi quando ouvimos.
    - Muuuuuuu.
    - Essa é a Bibi, George?
    - Eu não entendo... Acho que sim...
    - Ela não me parece morta.
    - Eu a vi. Dei um tiro de misericórdia ainda. Andy.... ele trouxe ela de volta à vida! Só pode ser isso.
    - George... Não há nem sangue aqui, não há nada.
    - Você não entende....Cada dia eu ouço a voz dele mais forte.... Ele fica andando por aqui, me observando.... Ele tirou minha mulher de mim e agora tira minha sanidade, mesmo depois de morto.
    - Você não quer ir ao hospital comigo? Podemos pedir para o médico ver se há algo errado com você. Eu realmente acredito em você, mas não temos nenhuma evidência, além de um cobertor sujo e sua mulher esfaqueada.
    - E você precisa de mais do que isso? Ou você acha que eu matei minha mulher? O amor da minha vida, que passei todos os meus anos idolatrando?
    - Por favor, George. Eu não disse isso. Tenha calma.
    - Saia da minha propriedade! E só volte aqui com uma porra de um mandato!
    Ele não teve coragem de pedir a arma de volta. Pediu desculpas e foi embora. Naquela tarde não vi nem ouvi Andy. O que foi um alívio. Também não fui no celeiro ver Bibi, aquele animal me assustava agora. Decidi ir à cidade para tentar espairecer. Minhas voltas me levaram até um mercado e uma garrafa de Jack Daniels. Eu nunca fui muito de beber, mas acho que não havia hora melhor para começar.
    Metade da garrafa se fora e eu estava de volta ao volante, em uma mão a Smith Wesson, na outra minha garrafa que transitava entre mão direita, meio das pernas e minha boca. Seguia em direção à fazenda amaldiçoada. Sim, era isso. A fazenda era amaldiçoada pelo espírito de um demônio, de uma vaca e do meu amor. Olhei para o lado e vi Andy sentado ao meu lado na caminhonete. Não pensei, usei meus dois pés no freio e dei três tiros. Consegui estourar minha garrafa, o vidro do carro e não faço ideia de onde foi parar o terceiro, a única coisa que sei é que não foi para a cabeça de Andy.
    Chegando a fazenda, vi um clarão atrás da casa. Eu já estava bem bêbado e meus movimentos eram difíceis, contudo consegui abrir o portão, só esqueci a caminhonete do lado de fora e entrei com a pistola na mão. Nos fundos da casa, vi aquele fogaréu. Eram minhas roupas queimando em um semicírculo e, no meio, estava Bibi, morta de novo. Quando me aproximei, vi encravado profundamente em sua pele “Vivendo em tempo emprestado”.
    Cai de joelhos e atirei algumas vezes sem direção alguma. Gritei
    - ANDYYYY!!!! ANDYYYY!!!!
    Não tive resposta. Não sentia minhas extremidades, não sabia se por medo ou pelo álcool. Ouvi o som das chamas, o que era reconfortante. Andy me trouxe para o inferno, é de onde ele veio, não?
    Olhei para frente, consegui focar meus olhos embriagados e Andy surgiu em meio ao fogo. Ele tinha sua pasta de couro na mão direita. Ele a abriu e de dentro tirou uma faca... com sangue... por Deus, será a mesma faca que matou Sasha? Será o Sangue de Sasha?
    Dei três tiros em sua direção, acertaram seu peito. Com a mão tremendo, levantei a mira e atirei mais três vezes. O primeiro atravessou seu olho, deixando um buraco aterrorizante, o segundo foi no meio da testa, de onde escorreu um fiapo de sangue, o terceiro lhe decepou a orelha direita. Nenhum fez com que ele parasse. Embora com o rosto disforme, ainda tinha aquele sorriso de Andy, mesmo ali era um sorriso bonito. Como eu odiava aquele sorriso.
    Foi quando senti sua mão gelada em volta de meu pescoço, apertando com força, uma força que aquele rapaz franzino não deveria ter.
    - Você.... deveria..... você deveria estar morto... Eu te matei e enterrei.... Por que, Andy?
    - Hoje é dia de pagar a vida emprestada Senhor George. Saiba que não tenho prazer nenhum em tirar sua vida.
    Seu sorriso sumiu. Ele olhou para baixo, viu minha pistola e deixou sua faca cair na grama. Uma pequena lágrima escorreu do olho que ainda tinha. Sua mão alcançou a minha. Por Deus, como ele é forte. Ergueu a pistola até minha têmpora direita. Então atirou.
  • O ANJO DO JULGAMENTO

    Prólogo
    A maldade silenciosa.
    Vivo num mundo cruel e sem salvação. Onde monstros se disfarçam de homens, e crianças são tratadas como adultos. Sigo por ruas pavimentadas, pagas com o sangue dos trabalhadores, e a dor dos inocentes. Criminosos crescem como pragas, e andar por qualquer cidade, já não é mais seguro. Ligo minha TV para esquecer que a perversão cresce lá fora, e me deparo com materiais doentios direcionados aos menores. A maior rede social de vídeos do mundo, proíbe minhas denúncias, garantindo que o material não chegue aos adormecidos. Mas minhas palavras não podem ser caladas. Há uma inútil luta na sociedade, para saber qual religião é melhor que a outra, ou se o homem é maior que a mulher, e vice e versa. Enquanto todos dão atenção para assuntos tão triviais, verdadeiros males ocorrem em torno do mundo com um único objetivo: manter a dominância de uma Elite doentia, que tem pervertido a magia, desde que o homem era somente um projeto de uma raça superior. Não me diga que ainda acredita, que os demônios vivem abaixo dos seus pés, e que Deus não é uma inteligência magnânima, que deu origem a isto tudo. Não, não me confunda como uma religiosa fanática, pois estou bem longe de ser. Não, também não me chame de satanista, este é um nome que não cabe a mim. Estou muito além destes rótulos, para ser definida somente por eles, por isso peço que me respeite, e me chame apenas por anjo do julgamento. Já que estou acima do bem e do mal, e apta para determinar a sentença dos seus homens e mulheres. Vim para este mundo, como uma de vocês, nasci de uma barriga humana, embora fique cada vez mais claro, que não sou deste mundo. Cresci como uma criança normal, sem saltos no tempo, ou perseguições de um grupo secreto. Porém sempre carreguei comigo, uma maldade gigantesca, que me levava a manipular, me aproveitar, e torturar os outros. Talvez tenha sido uma menina psicopata, talvez somente acima da média, mas uma coisa é muito clara, esta crueldade frívola nunca me abandonará, e dado as atuais circunstâncias, é melhor que assim seja. Na minha fase adulta, o meu destino ficou cada vez mais claro, quando seres poderosos, entraram em contato comigo através de pensamentos obscuros, e sinais nos céus, que jamais cessariam, até eu aceitar a minha conduta. Em janeiro de 2020, fui seguida por um grupo de frades tradicionais, após ter tido vários pesadelos, com inúmeras mortes causadas pelas minhas mãos. Eu senti medo, pois após tantos anos de terapia, enfim tinha descoberto que sofria de um mal psicológico, que poderia me transformar numa assassina de uma hora para a outra, o quê para mim, era cruel e demoníaco, e eu precisava controlar, senão vidas inocentes iriam pagar pelo meu problema. Eles me chamaram por um nome, que tentei esconder debaixo do tapete, todavia evitar o quê era, não foi o suficiente para me deixarem em paz, e assim tive de seguir com eles. Muito antes de evitar as minhas asas negras, já havia imaginado que um grupo viria até mim, e me levariam a algum lugar sombrio, por isso implorei aos deuses para me protegerem, ou me deixarem escapar. Infelizmente cheguei ao meu destino, e ninguém me salvou. Eles eram assustadores, e tentaram me atacar, mas o meu desejo insaciável por sangue, me levou a ficar viva e ilesa. Manchada de vermelho, me afastei do monte de cadáveres, pronta para me entregar a polícia. Só que dois padres surgiram, e aplaudiram o meu desempenho. “Ela é perfeita.” Concordaram entre si, e fiquei desconfiada, esperando que me dessem uma explicação. Eles pestanejaram, e me vi obrigada a puxar a faca. “Digam quem são, e o quê fazem aqui.” Perguntei sentindo a adrenalina fluir. “Somos os filhos de Jesus. Pertencentes a ordem sagrada de Cristo.” Eles me responderam, e eu gargalhei. Afinal o quê uma ordem de tamanho poder religioso, iria querer com um anjo caído, que negava a própria alcunha? Eles me disseram que precisava ir com eles ao mosteiro de Santa Marta, e que lá receberia explicações mais detalhadas. Naturalmente opinei por não ir, contudo cedi a minha curiosidade, e com eles eu segui. Muitas horas se passaram, até me levarem ao topo de uma montanha rochosa. Outra vez o medo de ser destratada, e sofrer torturas preencheu o meu ser, até que o vi. Era um homem loiro, de cabelos escuros, olhos penetrantes e claros, que intercalavam entre o rio e o mar, muito bonito , que vinha em minha direção. “Minha filha.” Ele disse, e eu não segurei o riso. Até ali tinha noção que de quê havia conhecido o paraíso, porém filha daquela figura bíblica? Era cômico demais. “Preferes desta forma?” Disse ao fazer chifres de bode crescer em sua cabeça, enquanto o corpo mudava. “Não pode ser.” Fiquei catatônica, e acabei por desmaiar em seus braços. Ao acordar ele me explicou tudo, e pude reagir de outra maneira, o abraçando forte, por saber que estava diante do meu verdadeiro pai. Assim me tornei uma dos seus seguidores, e me dediquei a cumprir a minha missão, de destruir os ímpios, e iluminar a terra, com a minha chama sagrada. Pois ele só havia voltado, para que o julgamento se iniciasse, e o mesmo só poderia ser feito com o poder da sua amazona, e filha mais velha, a própria morte, ou seja eu. No início senti culpa pelas vidas que ceifei, no entanto bastou ver a lista dos culpados, para que o arrependimento se transformasse em paz. Não estava tirando aqueles homens e mulheres de suas famílias, e sim devolvendo demônios de volta para o inferno, do qual nunca deveriam ter saído, e seguiria fazendo isso até limpar o planeta, desta maldita escória de covardes.
    Capitulo 1- Verdades
    Inconvenientes
    A MORTE NARRA:
    Um dia eu tive uma amiga, que acreditei que seria para sempre, mas agora era somente outra neblina de inveja e prepotência, que precisava se dissipar. Ela era bonita, e de corpo desejável, mas embora tivesse tais atributos, não era feliz ou satisfeita consigo mesma, por mais que escondesse isso, através de um sorriso tão vazio quanto a sua cabeça sonhadora. Sei que parecem sinais de ódio, todavia posso assegurar-lhes que é somente mágoa. Eu confiei nela, depositando em suas mãos todos os meus sonhos, medos, e anseios, como se fosse a única confidente que tive na vida, e o quê achei que duraria até o Armagedom, hoje era apenas um motivo de dor e tristeza. Ela seguiu uma vida criminosa sem retorno a cidadania de bem. Algo que tentei lhe alertar, que não teria um fim nobre. Já eu me juntei a Ordem secreta, que conhecia as duas faces do demônio, e passei a julgar os meliantes que trucidavam inocentes. Desde sempre estava claro, que éramos o lado diferente da moeda. Só que para a minha surpresa, não fui eu, a servir as trevas, cometendo iniquidades, apesar dos demônios que sempre me acompanharam, nas profundezas da minha mente. “Thamara.” Meu superior me chama, enquanto sigo pelo escritório, olhando os relatórios da empresa, com um par de óculos, que por intervenção divina, não mais necessitava, porém precisava para manter as aparências. “Seu desempenho foi excelente neste mês. Logo se formará com louvor.” Ele me elogia, e o olho sem muito interesse nas finanças. “Que bom. Não vejo a hora de terminar o curso, e voltar a trabalhar em casa.” Deixo escapar, e isso o magoa, já que acha que eu não valorizo seus esforços para me sentir bem ali. Não me importo muito, pois após ter conhecido tantos que usavam a máscara de bons moços, para esconder seus crimes. Gentilezas não mais me atraem. “Tha.” Ouço a voz do meu amado, e sorrio ao ver o belo moreno de terno que vem na minha direção. Ao chegar o abraço com todas as minhas forças, pois ele é a minha luz, neste mundo sombrio. Nós terminamos as simulações de compra e venda de ações, e descemos pela escadaria. Ao entrarmos no carro, nossas feições de alegria mudam, e ele segura a minha mão. “Sei que não será fácil. Mas é preciso.” Diz tentando me dá forças, e eu aceno com a cabeça, me preparando para tempestade que há de vir. Ele estaciona o carro, eu desço com o cabelo amarrado, num coque para trás, luvas, e tudo o quê é necessário para cometer um crime. Estamos numa floresta densa e escura, e o cheiro de morte impregna o ar. “Ela esteve aqui.” Aviso, ao o seguir sem fazer muito barulho. “De fato.” Meu marido pega duas cabeças de recém-nascidos, mortos, que tiveram seus olhos arrancados, e pela quentura do sangue, percebo que o infanticídio foi praticado a poucas horas. “Droga!” Esbravejo furiosa, e nós abandonamos o local do sacrifício. Assim me livro das vestimentas que nos ligam aos assassinos, exatamente como os filhos de Jesus me ensinaram, e seguimos como inocentes. Meu celular toca, e o atendo com grande desgosto.
    _Thamara.
    _Não chegamos a tempo de capturá-la.
    _Eu sei. Sua irmã pode ser uma
    cabeça oca, mas ordem a qual ela
    serve, é cheia de membros
    perigosos.
    _Para uma menina, ela tem me
    causado uma bela dor de cabeça.
    _É porquê tem sentimentos por ela,
    e no fundo se sente culpada pelo
    caminho que tomou.
    _Pai. Eu sou o monstro da família.
    Se tivesse controlado meu ego,
    talvez pudesse salvá-la.
    _Não, não poderia. Ela tinha o livre
    arbítrio, e optou por seguir para
    as trevas.
    _Ela não é tão má. Eu sei, porquê
    na hora das mortes...
    _Thamara. Você desliga as emoções
    , para julgar os que merecem. Ela o faz
    para sorrir, se divertir, e você já viu.
    Não há comparação.
    Meu pai estava certo. Minha irmã, e antiga melhor amiga, agora era um monstro imparável, que não se preocupava com o dia de amanhã, e já tinha cometido mais de 10 assassinatos, em nome da Ordem das Corais. Uma seita religiosa que tem planos malignos para o planeta, e precisa ser detida, pois apesar de seu número ser pequeno, a mesma é responsável por todo o serviço sujo, da ordem piramidal dos Iluminados. Algo terrível, que me trouxe memórias cruéis... “Katherine!” Gritei ao vê-la arrancar a cabeça de uma criança, mas ela me ignorou, tinha se entregado a escuridão, e nada poderia ser feito para regressar. “Ela nunca vai parar.” Conclui retornando aos tempos atuais. Era hora de matá-la, mas não sabia se teria a mesma frieza que desenvolvi ao exterminar os outros.
    A viagem de volta para casa foi longa e silenciosa. Bartolomeu sabia o quanto aquela situação me afetava. Ao chegarmos, notei que os portões da minha luxuosa casa estavam abertos, então coloquei um dos pares de luvas, e amarrei os cabelos. “Thamy.” Meu marido segurou o meu pulso, assim que coloquei o pé para fora, já com a adaga na mão. Meus olhos subiram, e vi a silhueta de minha mãe Lina, brincando com minha filha e cópia Ramona. “Não traga os seus trabalhos para casa. Seu pai jurou que manteria sua identidade protegida, e enviaria os melhores guardas para cuidar do nosso lar. Confie na palavra dele.” Ele me disse, porém não quis ouvir, andava tendo visões de que a casa seria invadida pela Ordem das Corais, e seria arrastada pelos Iluminados para dentro de um abismo, e não podia abaixar a guarda. A noite...Jantamos lasanha, com muito refrigerante, agindo como a família normal que não éramos, para manter a mente de Ramona sã. Um acordo que firmei com Bart, para garantir que a menina tivesse a infância que não tivemos, e somente mais tarde viesse a saber O quê nós somos. A pequena sempre carinhosa, nos deu beijos de boa noite, e foi para o seu quarto, ler seus contos favoritos dos irmãos Grimm. Apesar de sua doçura, ela sempre teve inclinações para assuntos obscuros, pois as histórias contadas para outras crianças, lhe davam sono. Era uma prodígio, e por isso eu ficava cheia de dores de cabeça, quando minha mãe vinha em casa. “Thamy você tem que colocá-la numa escola especializada.” Disse minha mãe, enquanto eu colocava os pratos na lava louça. “Já falamos sobre isso. Nem eu, nem Bartolomeu gostamos da ideia. O mundo não é seguro para uma garota gentil como ela.” Respondi esperando o furacão Lina, derrubar todos os objetos da cozinha, mas a idade a deixou mais calma, e isso me surpreendeu. “Filha você sempre reclamou por não termos explorado o seu potencial quando criança. Nós não fizemos isso, porquê não percebemos, seu pai não percebeu, mas você e Bart veem, não acha justo lhe darem a oportunidade?” Usou o velho argumento irritante, de quê fui um prodígio não reconhecido, por culpa do meu pai terrestre, e isso me chateou muito, contudo respirei fundo, e sentei a mesa, ligando o meu notebook. “Venha aqui.” Chamei-a, e a mulher baixinha e empinada, se juntou a mim, com seus óculos fundos. “Está vendo estas notícias?” Mostrei o novo sistema de pesquisa inteligente, conhecido como SIP-I. O programa que substituiu o Google em 2022, quando a Deep Web, deixou de ser uma rede subterrânea, para se tornar superficial, devido a grande popularidade de materiais distribuídos como inofensivos. Ao contrário do programa do Bill Gates, o SIP-I, era controlado por uma inteligência artificial, criada por um gênio e pai de família, que a desenvolveu exclusivamente para garantir que os filhos, ficassem longe dessas mídias danosas. O Google ainda existe, porém é uma ferramenta usada por criminosos, que agora podem agir a olho nu, graças a intervenção da Elite, para satisfazer seus desejos doentios. A policia, os guardas, os seguranças, os advogados, e todas as ferramentas para se fazer a justiça, não passam de teatros financiados pelo grupo piramidal, para fingir que ainda há um meio de salvar a todos. Sim, o mundo está um completo Caos, e não posso colocar a minha preciosa herdeira do verdadeiro Novo Mundo, nas garras dos monstros do atual. Não tive todo o cuidado de filtrar a sua programação, lhe formar em cursos a distância, para agora entregá-la de mãos beijadas ao sistema deles. “Menina de 10 anos, é estuprada em banheiro unissex por garotos da mesma idade. -Menina desaparece em escola, sem deixar rastros- Menina é agredida ao voltar para casa sozinha- Meninas tendem a sofrer 75% das agressões e abusos no país -Professor é preso por molestar as alunas. Preciso ler mais?!” Disse ao configurar o SIP-I com a minha biometria, para conteúdo adulto no meu computador portátil. “O mundo não é só isso Thamara.” Ela tenta me convencer, e eu acabo rindo, pois praticamente todo mês tenho que matar muitos, por conta da perversão que se expandiu. “Pode até não ser. Mas tudo o quê vejo é esse descontrole, e enquanto Ramona não for capaz de matar, em vez de ser morta, ela fica em casa.” Disse com frieza, e minha genitora se calou. A conversa que tive com a Dona Lina, me deixou bastante apreensiva, e trouxe de volta demônios, que há anos não me perturbavam. “Cuidado em casa.” Disse uma das vozes de minha consciência. “Você não deve confiar em nenhum homem.” Repetiu, e o medo se apoderou de mim. A passos lentos segui pelo corredor do quarto da minha menina, a porta estava entreaberta, e o meu bebê de 10 anos dormia totalmente embrulhado em sua coberta lilás, que por meu intermédio havia se tornado a sua cor favorita, desde que era menor. Entrei no cômodo, e me sentei ao seu lado, fiquei lhe fazendo cafuné, e vi o seu sorriso. “Você é a coisa mais importante do mundo para mim.” Disse-lhe, e ela me abraçou forte. Foi então que ouvi ruídos, e me vi obrigada a me esconder. Como não tinha para onde ir, usei um dos poderes da morte, a invisibilidade. Bart apareceu ali, e sem perceber acabei por deixar a menina descoberta, com o seu pijaminha de short curto. Respirei fundo, se algo ruim fosse acontecer, teria que ser naquele momento, pois meu marido pensava que eu ainda estava a conversar com a sua sogra. Ele a observou sorridente, e a cobriu, dando-lhe um beijo no rosto. “Sua mãe e você, são tudo para mim.” Falou com ternura, e eu não consegui me conter. Meu corpo tremulou entre o intangível e tangível, e acabei por surgir no canto da parede. “Thamara? Mas o quê faz aqui?” Disse já incomodado. “Eu precisava ver se a Ramona estava bem.” Foi o meu primeiro impulso a dizer. “Se era só isso, por quê se escondeu atrás da cortina?” Questionou com o ar de inteligência, sabendo no fundo o quê aquilo significava. “Nem precisa dizer.” Concluiu me deixando para trás, e sai atrás dele, pronta para me explicar.
    _Bart.
    _Thamy. Você lida com o mal o tempo todo.
    Como é que ainda pensa isso de mim?
    _É só que você é todo liberal, e gosta muito
    de mim, sendo que pareço uma menina
    de 14 anos.
    _15. Mas você tem 24, há diferença.
    _Até o dia que envelhecer...
    _Primeiro se envelhecer, sempre será a minha
    mulher. Segundo você não envelhece, é
    parte de ser a morte.
    _Mas se não consigo julgar nem a Katherine,
    que é minha irmã, imagine a você que é
    o amor da minha vida?
    _Eu não sou a Katherine. Tenho prazer de matar
    pela mesma razão que você. Pra limpar o mundo
    dessa escória maldita, que se tornou uma
    epidemia!
    “Tem prazer de matar? Pela mesma razão que ela?” Ouvi uma terceira voz na discussão, e meus olhos se arregalaram, lá estava a minha mãe na porta do quarto da minha filha, que se escondia atrás da sua longa camisola azul. “Ah! Fantástico!” Explodi, e ele lutou para se manter calmo. “Agora todos os meus planos para a Ramona foram por água abaixo. Está feliz?!” Deixei fluir o ódio. “Espera, vai me culpar? Foi você que iniciou a discussão!” Ele rebateu, e embora tivesse razão, preferi negar a culpa, e inspirei “todo o ar do ambiente”, até me tranquilizar, para explicar tudo o quê tinha acontecido, pois embora tivesse o dom de tirar a vida das pessoas, não tinha a capacidade mudar seus rumos. O tempo nunca volta para a morte, isto se dá por uma força maior que a minha, e até mesmo a de meu pai.
    Nos sentamos a mesa, a mesma onde deveriam haver conversas comuns e entediantes, em vez do grande “elefante” que estava entre nós. Ramona ficou a me observar com seus olhinhos negros, que estavam esperando uma explicação, enquanto minha mãe tremia como um rato diante do gato, achando que minha doença, tinha enfim chegado ao estágio final, e agora eu matava sem ter um código de conduta. “Eu poderia mentir para vocês, e acreditem em mim quando digo: Adoraria fazer isso. Mas esconder a verdade, as levariam a pesquisar por conta, e tirarem conclusões mais absurdas que o próprio axioma, por isso vou lhes contar tudo.” Tentei soar culta e fria, mas por dentro temia que não me entendessem, e me jogassem numa casa de apoio emocional e psicológico, um nome bonito para hospício do século XXI. Bart mesmo magoado pela acusação, segurou a minha mão me dando apoio, e apesar de meus demônios o odiarem, por me fazer tão fraca, uma pequena parte de mim, se sentiu segura por tê-lo ali, e assim ambos sorrimos sem vontade, um para o outro. “Lembram-se quando sumi por mais de 6 meses, quando estava perto de fazer 28 anos?” Iniciei o meu relato, com uma pergunta, para adaptá-las ao ambiente do passado. “E que Bart lhes disse que tínhamos tirado um ano de férias longe da Ramona, que tinha se tornado cada vez mais pestinha?” Conclui, e a velha conservada Lina, revirou os olhos, já se recordando do fatídico tempo. “É claro que sim, foi o seu ato mais egoísta em relação a pobrezinha.” Resmungou seca, e isso me fez sorrir com satisfação, pois agora ela se calaria com a verdadeira razão do meu sumiço. “A verdade é que eu tinha sido recrutada por uma antiga Ordem que...” Tentei terminar mas a avó, já veio atropelando a minha narrativa. “Você entrou para os Iluminados?! Depois de tudo o quê me falou sobre eles e sua maldade e...” Desta vez eu atropelei suas palavras. “Não! Eu entrei para a Ordem de Cristo. Na qual os verdadeiros devotos da luz celestial, ou estrela da manhã, são treinados pelo filho de Deus, para limpar o mundo de tamanha crueldade, provocada pela má interpretação das Escrituras Sagradas, que foram corrompidas pelo homem, para atender suas ambições.” Respondi quase automaticamente, e ela ficou emudecida. “Mas você é má. Como o filho de Deus, a aceitaria em seu rebanho?” Inquiriu desapontada com o seu grande ídolo divino. “Eu sou má, porquê preciso ser, e Jesus me escolheu porquê sou a filha dele e Madalena.” Disse com desgosto. Após ter entrado em tantas casas, para matar homens merecedores desta sorte, não gostava de ser associada a maldade diabólica, pregada por palavras vãs, de homens loucos por poder. “Mas você não é filha de Lúcifer?!” Ela ficou ainda mais confusa. “Tive a mesma reação ao descobrir. Mas sim Lúcifer e Jesus são o mesmo ser.” Esclareci, e ela cuspiu a água que tinha começado a beber. “Meu pai cometeu muitos erros mãe. Um deles foi tentado introduzir neste mundo, virtudes para os quais não estava preparado.” Baixei a cabeça, lamentando pelo surgimento da outra face, do príncipe do mundo. “Seu pai é o Alexandre! Esse homem que a induz a matar é um blasfemo!” Gritou como uma fanática, e com o meu dedo indicador apontei minha energia para a planta no meio da sala, que por “mágica" começou a secar, enquanto meus olhos mudavam de castanho para violetas. “Tudo é um, e o um é tudo.” Disse ao abrir a palma, e soprar a vida de volta para a flor, que brotou ainda mais linda e brilhante.
    _Como fez isso? Esse Homem. Esse homem é um alien?!
    _Não, bom é, mas não da forma que está pensando.
    Eu sou o cavaleiro do Apocalipse mãe, eu sou
    a Morte.
    _Mas como isso é possível? Sua gestação foi normal,
    embora houvessem complicações!
    _E você rezou a Nossa Senhora do Perpétuo Socorro,
    para que eu não morresse, e me chamou de seu
    milagre.
    _Minha filha. É um peso tão grande para carregar.
    _Eu sei que é mãe. Sei que posso ficar louca. Mas pela
    primeira vez na vida, tudo realmente faz algum sentido,
    e principalmente, eu não preciso mais ficar de braços
    cruzados, vendo o mundo ruir.
    _Mas você é tão jovem, bonita, e inteligente.
    Ele não pode escolher outra em seu
    lugar?
    _Eu tenho 666 irmãos. Mas nenhum deles tem o
    meu poder mãe.
    _Eu sabia que um dia isso ia acontecer.
    _Não tá planejando me colocar no hospício não é?
    _Não, não minha filha. Apenas espero que saiba
    o quê está fazendo, pois um erro e...
    _Mamãe eu não morro.
    _Mas pode se ferir, e depois de tudo o quê já passou, não
    quero que se machuque ainda mais.
    Ela me abraçou, e Ramona ficou calada, ponderando sobre tudo o quê sabia a respeito de Cristo e Lúcifer. Naquela madrugada tive de falar tudo a minha pequena, de uma forma que ela pudesse entender, e acabamos por adormecer.
    O MISTERIOSO MARIDO NARRA:
    Thamara dormiu junto de nossa filha, e eu fiquei a mesa, arrumando os pratos, cheio de doces que devoramos ao ouvir as palavras da minha esposa. Lina não conseguia dormir, por isso ficou sentada no sofá com o olhar vazio. Embora quisesse transmitir confiança a filha, ainda não tinha aceitado os fatos, e suas mãos tremulantes, alegavam que estava a beira de um surto. Olhei-a por cima dos ombros, e respirei fundo. Se não a ajudasse agora, a Thamy iria sofrer as consequências mais tarde, e não podia deixar isso acontecer. Como quem não quer nada, sentei-me ao seu lado, e ela como que por desespero virou-se para mim, dando-me um baita susto, com seus grandes olhos vermelhos e enrugados, marcados pelo pânico do desconhecido.
    _Bart.
    _Eu mesmo Lina.
    _Thamara não me contou como você foi envolvido
    nessa matança.
    _Ah, é simples. O par da Morte, sempre será
    o Peste.
    _Espera você também acredita que é um dos Cavaleiros
    do Apocalipse?
    _Mas é claro que sim. Fui treinado junto com
    a Thamy.
    _Isso é loucura Bart!
    _Não, não é. Basta parar de ver a Thamy como somente
    sua filha, que verá os sinais entorno dela.
    _Vocês tomaram alguma droga, quando conheceram
    esse guru que acha que é Cristo?!
    _Lina. Se acalma. O tal “guru" salvou sua filha de ficar
    cega.
    _Então é um alien! Um alien maldoso!
    _Lina. Ele é realmente Cristo, sua filha é a Morte, e
    eu sou o Peste. Precisa aceitar isso.
    _Por quê?!
    _Porquê com você como nossa aliada, podemos
    iniciar o quanto antes, os treinos de Ramona para
    esta seguir o destino que lhe foi escrito.
    _E seria?
    _Herdar nossos poderes e manter o mundo
    em equilíbrio.
    A conversa com Lina, não me pareceu muito proveitosa. Era evidente que Thamara tinha puxado a cabeça dura dela. Todavia obtive algum êxito, e por isso pude dormir em paz naquela noite. “Você tem que matá-la.” O sussurro de minha própria voz passou pelos ouvidos. Minha esposa não estava de todo errada, haviam demônios na minha mente, só que ao contrário do quê ela pensava, não representavam perigo algum a nossa filha, não da forma que com veemência me acusava, pelo menos. Meus pensamentos eram mais piedosos, me falavam sobre matar a família inteira, e depois a mim mesmo, não torturá-las com maldade, como fazia com minhas “vítimas”, ou de maneira sexual, como algumas das “vítimas” faziam com terceiros.
    Mergulhado no vazio obscuro dentro de mim, eu os vi. Eram vários de mim, cada um com uma ideia de diferente, e como eu sou o rei deste Inferno mental, caminhei lentamente entre eles, mostrando-lhes a minha força e imponência. O meu eu assustado se recolheu de imediato, ou meu eu raivoso, saltou na minha direção, e por isso o peguei pelo pescoço. “Ela nunca vai te amar! Não é capaz de amar a alguém!” Ele gritou e isso me fez sorrir, ao puxar seu crânio ensanguentado para fora do esqueleto. “Eu que mando aqui, e se não respeita a minha amada deusa, deve morrer como todos os outros.” Esclareci, e o frio e calculista veio até mim. “Ela não é controlável como a Célia. Não é um bom negócio, seguir com aqueles que estão além dos fios de nossa manipulação.” Olhou para mim, e eu lhe acertei com um machado que projetei. Não tinha tempo para ouvir as asneiras, de partes minhas, para as quais somente a Thamara ainda dava vida. “Ele seguiu por aquela direção.” Disse o meu eu viciado em violência, e por isso segui cautelosamente até a escuridão, que crescia da direção em que aquele demônio tinha se enraizado. “Ela te deixou uma vez.” Foram as suas primeiras palavras. “Ela seguiu com Dave, e te ignorou. Só retornou porquê Dave não a ama.” Continuou com seu monólogo de mágoa. “Só há uma razão para odiá-la tanto. Sr. Tristeza.” Brinquei ainda atento ao ataque dele. “É Sr. Melancolia.” Ele gritou enfurecido. “Pra mim parece mais o bebê chorão. Aquele tempo se foi Bart Melancólico.” O alfinetei, e depois recobrei o sentido, se somos o mesmo, não cairia numa provocação barata. “Não para mim. Eu ainda a vejo nos braços do outro, exatamente como ela desenhou.” Respondeu com mais intensidade, e pude chegar até ele, porém ao pisar no topo de uma colina, iluminada pela luz da lua, percebi que aquela voz vinha do meu inconsciente. “Ela nos ama. Me ama, e é só o quê importa.” Disse ao olhar para baixo. “Não é tão simples.” Suas sombras se materializaram, agarrando meus pés como tentáculos, e me arrastando para dentro do breu. Uma vez disse a Thamara que eu tinha entrado em depressão quando me deixou, mas eu menti, ela tinha criado algo muito pior dentro de mim, pois nunca havia amado tanto alguém antes dela, e agora esse mesmo monstro queria me puxar para o fundo, com o intuito de se tornar o 70% de mim, que controlava os meus outros demônios. Isso já tinha acontecido uma vez, e até hoje sofro com consequências do Bart Melancólico, que me levou a trair a minha esposa, mesmo que só emocionalmente, e ela nunca me perdoou. “Ela irá fugir com o primeiro homem bonito que aparecer.” Ele disse tentando me desnortear, mas desde que tinha completado 30 anos, não era o garoto de antes, o emprego e pequenas intervenções de Thamy, tinham me tornado atraente o suficiente, para não me sentir ameaçado, caso surgisse mais um novo rival, na batalha pelo coração da minha companheira. Por isso concentrei raios de luz na minha palma, e cortei os braços da criatura, antes de chegar na ponta do precipício. “Eu não entendo por quê você ainda existe. Eu já superei o passado, então faça o mesmo. Não importa as batalhas que perdemos, e sim que vencemos a guerra, e teremos a Thamara para sempre.” Disse iluminando o meu corpo ao máximo, para ser intocável pelo poder obscuro, do ser que habita as profundezas da minha cabeça. “Dave, Thomy, e outros, não foram os últimos.” Ele me disse, e retornei ao meu estado ativo.
    Já eram 7: 30 da manhã, e Thamara já havia iniciado suas negociações com o Robô da Ibov. “Me atrasei?” Brinquei com o meu sorriso mais sem graça, e ela seguiu com os seus olhos vazios, procurando por algo que nem a mesma sabia. “Está atrasado em 15 minutos, e só não perdeu 140 USD, porquê entrei em seu Login.” Respondeu seca, e isso me preocupou bastante. Se ela soubesse a luta que vivo toda noite, para continuarmos juntos, talvez valorizasse o meu amor, ou não. Conhecendo a senhorita “Não te amo há muito tempo.” Certamente não. “Obrigado meu peixe.” Agradeci citando o nosso apelido próprio, na intenção de alcançar as suas emoções. Só que ela seguiu inerte, me ignorando, e isso fez com quê o pesadelo da noite passada, parecesse bem real. Sentei-me do seu lado, meio desarrumado, tinha apenas escovado os dentes, e lavado o rosto. Sua pequena e delicada mão procurou pela minha, e isso me fez sorrir. “Não Bart Melancólico estava errado. Ela me ama sim.” Pensei tentando esconder o riso de alegria, e sem dizer nada ela se encostou no meu ombro, ainda focada na tela da FT. Era o seu jeito de dizer Eu te amo, sem o uso das palavras, e eu adoro isso, pois depois do carinho silencioso, sempre vem o beijo, e neste sinto toda a sua energia amorosa fluir com bastante gosto.
    A MORTE VOLTA A NARRAR:
    Ainda estava enfurecida pela noite passada, ele me traiu com uma garota mais jovem, de 18 anos, quando tinha 22. O quê quer que eu pense? Que é um homem digno que não se interessa por garotinhas? É difícil. Pois achei que o fato de ser 2 anos mais nova, me dava uma vantagem que as outras não podem ter. Afinal desde nova, sempre sofri muita rejeição dos caras da minha idade, e recebi bastantes pretendentes mais velhos. Assim conclui que meu par teria de ter sempre um ou dois anos acima de mim, do contrário sempre seria sempre um fracasso. Meus planos caíram por terra! Mesmo sendo mais nova, ele procurou por uma ainda mais nova, 4 anos mais nova. O quê me levou a concluir que se tivesse 17, teria um relacionamento com uma menina de 13 anos, algo tão patético, quanto o quê Roger, o lixo que me desvirginou fez. Depois de tal fato, nunca mais o vi com os olhos do encanto, porém ainda sim, mesmo ferida, e quebrada por dentro, não deixei de amá-lo. Só que como ele nunca valorizou os meus esforços, para manter longe os abutres que queriam destruir o nosso relacionamento, sempre que esse rancor crescia dentro de mim, acabava por dizer que não sinto mais nada, pois a verdade é que não queria sentir, mas por alguma razão era o único que não era capaz de deixar de amar totalmente. Talvez fosse o pacto que fizemos, quando ele tinha 18 e eu 16, ou quem sabe somos almas gêmeas. Já não sei mais, pois cansei de fazer inúmeros rituais para nos desamarrar, e continuarmos voltando aos dias de intensa paixão da juventude, e nos amando ainda mais. Como uma maldição sem fim, da qual nunca poderia escapar. Karma também é uma opção, consequência por desafiar a ordem divina. Contudo poderia ter me prendido a um homem cachaceiro, que me bateria, ou não me reconheceria nem mesmo com magia. Porém acabei junto dele, e apesar de ter sido o maior dos idiotas, foi a melhor opção, entretanto se pudesse voltar no tempo, eu teria impedido essa união de todas as formas, e com certeza me espancaria até desmaiar, antes de juntar nossas gotas de sangue, e transformá-las numa só, envolvendo o nome de Lúcifer e Lilith. Talvez fosse melhor ter invocado a própria Afrodite e o seu Adônis endeusado, mas isso é duvidoso, pois muitos no círculo dos magistas alegam que Lilith é Vênus, e se isso é verdade, então Lúcifer seria Áries ou será que era o pobre Efestos? Aquele que foi expulso do Olimpo pela própria mãe, e se tornou um Deus por sua cruel astúcia, ao descobrir as fraquezas daqueles que um dia o humilharam. Tanto faz. Só sei que rezei aos deuses errados, pois mesmo que a minha vítima cedesse, passamos por vários problemas ligados a este bendito ritual diabólico. O amo muito, ele é a minha vida, não vivo sem ele, parece que quem se amarrou fui eu. É duro sentir tal coisa, sendo que nunca tive tal emoção, por nenhum outro homem antes, e pior ainda é gostar dele deste forma, depois de tudo o quê aconteceu. Eu piso, humilho, chuto como se fosse outro psicótico a ser julgado, e na hora de partir o agarro forte, e faço o quê estiver ao meu alcance para não deixá-lo ir. Meus médicos dizem, que é culpa do meu mal, que não o amo de verdade, só gosto de sua submissão, e de torturá-lo friamente. É tudo tão simples para eles, que chega a me dar raiva. Não é que não o ame, pois se assim fosse, não perderia a cabeça só de imaginar ele com outra. “E isso se dá porquê o trata como sua posse, e acredita que ninguém mais pode tocá-lo.” Já até ouço o Doutor Fernand dizer, e reviro os olhos. Oras se não quero que ninguém toque nele, é porquê é importante para mim, e as mãos impuras de terceiros não devem corromper o meu imaculado amado.
    _O quê está pensando Thamy?
    _Nada.
    _Olha lá a mentira patológica gente.
    _Não importa.
    _Ainda é sobre aquele assunto irritante?
    _Em parte sim.
    _Hm.
    _O quê quer para o café?
    _Nada.
    _Isso só funciona comigo. Deixa de graça.
    _Eu realmente estou sem fome.
    _Então vou fazer bolinhos de queijo
    , presunto, salsa, e recheio de
    requeijão.
    _Quero 2.
    _Ótimo. Vou aguardar você terminar
    aqui.
    Sorri da maneira mais cínica, e isso o contagiou. É nessas horas que percebo o quanto me ama. “Eu vou. Mas só porquê me garantiu 140 dólares ainda pouco.” Fez a face de senhor da razão, e eu gargalhei. Está querendo enganar a quem querido? É evidente que expande a quantidade de oxitocina no seu organismo por mim. Tomamos o café-da-manhã, já em clima de harmonia, sorrindo como se por alguns minutos todos os males tivessem ido embora. Uma perfeita relação abusiva, na qual para surpresa de todos, era a mulher que estava pisando de salto alto nos sentimentos do homem. O telefone tocou, e fechei a cara, pois não era Lúcifer que estava me ligando, e sim a minha irmã que tinha se bandeado pro lado dos Iluminados.
    _Luciféria.
    _Pai!
    _Precisa vim a Santa Marta o quanto antes.
    _O quê? Por quê?
    _Sua irmã despertou da lavagem cerebral
    das Corais, e está a beira da morte!
    _Ela... O quê?
    _Venha ao mosteiro, e explicarei tudo.
    _Está bem.
    Ele desligou, e eu olhei para Bart. Nós entramos no carro, e dirigimos até o monte dourado. Katherine estava totalmente desidratada, caída no piso, como se implorasse pelo seu último suspiro. Sem dizer nada, afastei todos os frades, e me ajoelhei diante dela. Concentrando minhas energias na palma, vi ambas se tornarem esferas de luz radiante, e soprei para dentro da sua boca, infelizmente minha irmã não estava só morrendo, e sim tinha sido acometida por um vírus, e somente o sangue do Peste, poderia curá-la. “Vai em frente.” Disse ele estendendo o pulso, e com minha unha de energia, perfurei sua pele rasgando-a, até pingar gotas vermelhas na língua da moça, que pouco a pouco se restabeleceu de sua doença.
    Passadas algumas horas...Caminhei pelo mosteiro, e fumei um cigarro de maconha para me acalmar. Meu pai viu, e sorriu, erguendo a mão, para tirá-lo da minha. Sem questionar o entreguei, e para a minha surpresa, ele o levou aos lábios, e puxou toda a fumaça com gosto. “Parece que o lado Lúcifer segue aí dentro.” Brinquei, e ele olhou para o céu. “Lúcifer nunca irá embora, Magda.” Respondeu com calmaria. “É Luciféria, Luciferiel.” O corrigi. “Luciféria no céu, Magda na Terra, Arádia na Magia, Matheuccia na Religião...São apenas nomes. O quê importa é a sua essência, pequena princesa.” Citou meus “20 nomes", e me fez entender o seu propósito. “De fato. Lúcifer no céu, Jesus Cristo na Terra, Agrippa na Magia e na Religião.” Devolvi na mesma moeda, e ele riu com compaixão. “Então reconheceu minhas palavras, até mesmo através de um homem? A eduquei direito pelo visto.” Olhou para o lado, e ergui os ombros. “Quando falou que o Ar não era um elemento, e sim uma cola que unia os outros 3, como se o mesmo fosse o mais poderoso dos elementos, ficou bem óbvio na verdade.” Completei, e ele seguiu a fumar a erva sagrada, que aos olhos do sistema, era maldita, pois fazia o cérebro trabalhar mais rápido, e se tornar menos passivo ao controle. “Pena que nem todos os meus filhos aprenderam direito a respeito da palavra sagrada.” Olha para a frente, e a silhueta de violão da Coral, surge querendo se aproximar de nós. “As deixarei a sós.” Ele de imediato se retira. “Espera, ela é sua filha. A minha está em casa lendo e aprendendo.” Resmunguei colocando minha mão em seu peito, não o deixando passar. “Mas quando sua mãe criou ódio dos homens, você cuidou dela, como se fosse sua. Queria uma chance de se redimir? É esta.” Me relembrou, e acabei por ficar sem argumentos. Como uma criança, a morena veio até mim, e eu segui com a postura fria de mágoa.
    _Lucy.
    _É Thamara.
    _Pra mim sempre será Lucy, a minha irmãzinha
    mais velha.
    _Irmã mais velha, não venha com diminuitivos
    para despertar meus sentimentos.
    _Como sempre fria como gelo não é?
    _Diria mais fria como a Antártica.
    _Não vai querer saber como te encontrei?
    _Você sempre se fez de lesa, mas é inteligente.
    Não há nada surpreendente em ter chegado
    até aqui.
    _Eu ouvi um elogio da Sra. Crítica?
    _O quê quer aqui Katherine? Já não nos traiu
    o suficiente, ao se misturar as Corais?
    _Isso está além do quê pode compreender
    Thamara Mary.
    _Que você tinha sede de poder, e se meteu
    com as pessoas erradas? Não, é bem
    fácil.
    _Se me ver como a velha Lilá, sim, é só isso.
    Mas entrei na Ordem das Corais, para vigiá-las,
    e te entregar constantes relatórios sobre os
    crimes.
    _É Agarath e disso eu me lembro. Então num fatídico dia, simplesmente me levou para uma armadilha, e por pouco não morri.
    _Eu me apaixonei Lucy, e assim como você
    e Bart, ele era o meu parceiro de outras
    vidas.
    _Outro loiro de olhos claros com o rosto
    de uma estátua grega?
    _Guarde o seu sarcasmo. Ele era moreno,
    de olhos castanhos, e sem um gigante
    porte físico.
    _Deixe-me adivinhar, era o líder das Corais?
    _Não. Era outro subalterno como eu, e quando as
    Corais descobriram que tinha traído elas, juraram
    matá-lo, e me entregar o seu coração numa
    folha.
    _Então por um amor de verão traiu
    alguém de seu próprio sangue.
    Interessante.
    _Ele não era um amor de verão Lucy!
    Estávamos juntos, desde que me infiltrei
    na Ordem das Corais!
    _E já se passou pela sua cabecinha infantil,
    que ele pode ser o vigia delas, para testar
    a sua lealdade queridinha?
    _Já! É claro que já! Você me treinou lembra?
    _Então como ainda pode me trair?
    _Porquê ele era diferente do John. Me ligava,
    Mandava flores, fazia planos comigo, e me
    fazia ver que Bart não era o único homem
    na face da Terra, a amar uma mulher.
    _Não te usava? Não te ignorava? Não
    pisava em você? Não dava sinais claros
    de manipulação, e que não estava
    afim?
    _Não. Havia tanta devoção da parte dele,
    que várias vezes as Corais tentaram o matar,
    somente por me proteger.
    _Então te amava mesmo.
    A conversa prosseguiu, e vi os olhos de Katherine. Apesar dos sinais de um amor realmente recíproco, estava claro que aquela história não tinha tido um final feliz.
    A MEMBRO CORAL NARRA:
    Quando entrei no clube das Corais, que até aquele momento não era uma ordem reconhecida pelo mundo, tinha apenas um objetivo, orgulhar a minha mestra, irmã, e segunda mãe que já tinha conhecido. A tarefa era simples, apenas observar os relatórios através do Whatsapp e repassá-los para a minha superior, que havia praticamente retornado dos mortos. Contudo praticamente da noite para o dia, o Clube das Corais, ganhou destaque, e passou a ser notado por diversos países. Assim em vez do pequeno grupo que só tinha conversas online, agora os membros ganhavam passagens, para se encontrarem pessoalmente. Entrei num lugar com estátuas de Gárgula, cheio das mais diversas artes clássicas e góticas. Quem tivesse conhecido a líder antes, não acreditaria, que Ane Marrie agora era uma das mulheres mais ricas do Brasil. Mas isso tinha um preço, que era caro demais para pagar. “Olá meus filhos. Eu sou a deusa. Lúcifer não virá, mas os homens de Cristo, bateram a nossa porta, e não podemos deixá-los esperando.” Disse Ane, enquanto os 9 membros principais, se aproximavam de seu trono de mármore, uma regalia necessária, oferecida por ninguém menos que os iluminados. “Luz é o quê este mundo precisa, e é a ela que agora serviremos, sem perder a nossa autonomia.” Prosseguiu, sentindo-se a dona do mundo. “Se Lucy assistisse a essa cerimônia, teria revirado os olhos, e cochichado algo sarcástico.” Pensei ao me ajoelhar perante os pés da “deusa Marrie". A festa foi bastante recatada, até o momento em que ela pediu que nos despíssemos. Tremi um pouco, pois só havia eu e mais uma garota, chamada Pauline, e um dos homens veio até mim. Seu nome era Timothy, e o olhar cheio de desejo, me fez ter repulsa, por achar que era um pervertido qualquer. Porém quando segurou minha mão, e a beijou, soube que mesmo sendo um tarado, era um cavalheiro. “Não é bem o lugar para ser educado.” Joguei verde, para ver se era um teatro e ele riu. “Com alguém tão bela quanto você, é sempre hora de ser educado.” Ele me olhou com os seus escuros olhos penetrantes, e sem graça deixei meu riso escapar. Após o evento, em que por nome dos deuses tivemos de copular, Ane Marrie notou uma conexão entre nós, e nos fez um par, segundo ela éramos deuses antigos, que agora tinham reencarnado para clarear a sociedade. Novamente se Lucy ouvisse tal coisa, iria surtar, pois parecia uma cópia malfeita da historia dela e do marido, e se saísse da minha boca, certamente brigaríamos, pois ela iria pensar que a ideia teria sido minha, por conta dessa “mania de poder". Timothy andava pela cidade, sentindo-se o Senhor das Ruas, por conta do título que a “deusa" lhe proporcionou. Eu seguia ignorando isso, minha deusa era outra, e a mesma dizia que eu só me tornaria como ela, no dia em que finalmente despertasse, de maneira tanto física quanto intelectual. Só que o meu parceiro achava mesmo que Ane Marrie, era alguma entidade poderosa, por isso tentava fazer a minha cabeça para ver a sua grandeza, e jamais seguir a renegada filha de Lúcifer, que não fazia parte das Corais, por ser uma egocêntrica, metida, que achava ter mais poder que a “nossa" majestade. “Sempre não é Lucy?” Mas estes embora pareçam ser defeitos, no fim eram suas qualidades, e eu admirava esse desempenho frio e turrão de ser. Percebendo que a glória da Rainha Cobra, não me tocava o coração, ele desistiu de falar de seus feitos, e passou a mudar de assunto. “Obrigado Satã por sinal.” Foi então que vi que Timothy, não era só um ingênuo seguidor da “deusa nada virgem", como Lucy costumava chamar, e pouco a pouco, meus pensamentos sempre focados na minha irmã, foram desaparecendo, e sendo substituídos por todos os segundos e minutos que ficava perto dele. É claro cometíamos muitos crimes hediondos, em nome dos Iluminados, por intermédio da majestosa Marrie. Mas tudo o quê ficava na minha mente, eram os milk-shakes com hambúrguer que comíamos na volta para casa. Os meses se passaram, e a minha aproximação com ele, se tornou cada vez maior. O quê deveria ser somente uma parceria de negócios, logo se tornou um romance, e quando dei por mim estávamos vivendo juntos, no apartamento simples dele, que nós chamávamos de ninho do amor. Mesmo que um filho de Eva morresse em minhas mãos todos os dias, tudo o quê importava, era o calor do seu colo no final da noite, pois nada mais era importante além de nós dois, ou assim pensei.
    Certa noite cheguei em casa, e Timothy não estava lá. Somente o nosso cachorro Vlad, se encontrava no apartamento. Logo o medo de algo ter acontecido invadiu o meu pensamento. Liguei em seu telefone, e o mesmo estava desligado. Estaria ele aprontando sem mim? Questionei. Só que o meu amor, me deixou um pouco mais lúcida, e por isso decidi verificar os meus recados. “Amor. O Vlad tá com saudades.” Foi a primeira mensagem, as 7:30. “Amor hoje vai ter pizza na janta, quer escolher o sabor?” Foi a segunda, na hora do almoço. “Amor trouxe sua pizza favorita, com muito queijo e...” A ligação caiu as 19:45. “Merd...!” Deixei escapar, e fui para a próxima e última mensagem. “Sabemos de sua conexão com a deusa renegada, e se quiser ouvir outra declaração patética do seu amado, vai ter que fazer o seguinte...” Anotei as instruções com a mão trêmula. Sabia que Thamara jamais me perdoaria, pelo que ia fazer. Contudo Timy era o amor da minha vida, e eu não me perdoaria se algo acontecesse a ele. Precisava tomar uma decisão, que mudaria a minha vida sempre, e tinha apenas alguns minutos para cruzar a linha da traição. Foi então que segui o plano delas, e enviei uma falsa localização para a minha irmã, que a enviaria direto para o abate. Ela não havia despertado ainda, mas assim como eu tinha alguém que me amava, ela também tinha, e certamente ele iria resgatá-la, e caso isso falhasse, havia uma força celestial disposta a mudar o tempo, para salvá-la, e sendo assim ela era importante o suficiente para o universo intervir. Ao contrário do Timothy que tinha menos de 2 horas de vida, e poderia desaparecer para sempre, pois era um criminoso, e mesmo sendo um filho do Inferno como eu, ficaria preso ali, por sua afronta a ordem natural, ao seguir as leis erradas. Era o fim da minha parceria com a minha irmã, e por isso não conseguia aguentar as lágrimas, mas mesmo assim, eu segui em frente, e entrei naquele depósito. Timy estava preso dentro de um vidro cheio de água, acorrentado até o pescoço, com panos brancos que estavam vermelhos de sangue. Só haviam 7 minutos de vida agora, e eu precisava encontrar o painel. Corri de um lado para o outro, tentando achá-lo, até que notei os olhos do meu amado, e segui na direção indicada por estes. Quando o líquido já tinha ultrapassado o queixo, eu consegui desligar, e sem pensar duas vezes, entrei no tanque, e usei a chave que me entregaram, após mandar minha irmã para a morte. Ao nos encontrar nos abraçamos mais forte do quê nunca, e nos beijamos ali dentro. Mas após ter comprometido toda a Ordem das Corais, eu mesma paguei o preço. O tanque se fechou, na parte de cima, e a própria Ane Marrie, veio nos executar. Pensei que ia morrer, pois agora não só subia água, e sim um liquido verde, que segundo a mesma estava contaminado, com um vírus que tinha ficado adormecido há 7 mil anos. Eu gritei, e me debati, enquanto Timothy ficou parado. Não entendi a razão, até ver a enorme e gosmenta criatura na sua nuca, que brilhava mais que neon, e que seus olhos estavam vazios. “Este? É um presente da nossa bióloga renegada, que antes de sair me ensinou sobre todos os poderes da ciência... e seus malefícios.” A rainha sorriu, e entrei em desespero. Sem saber o quê fazer, passei a me empurrar na ordem contrária ao apoio do tanque. A queda poderia me machucar, só que era melhor que morrer. Empurrei várias vezes, impulsionando o meu corpo, até que a cúpula caiu no piso e se partiu. Me arrastei entre os cacos, e peguei a mão do meu namorado. Sabendo que não éramos mais bem vindos, sai correndo até a saída mais próxima. Nós dois corremos até a floresta, e quando vi um frade passar por ali, gritei pedindo por ajuda. “Eu sou Úrsula, a outra irmã de Thamara a filha mais velha de Cristo!” Foi tudo o quê pude pronunciar, antes de desmaiar. Se falasse meu nome verdadeiro, eles não nos ajudariam, Thamara tinha deixado isso bem claro, na sua “doce” carta de despedida, por isso fui obrigada a mentir. Mas ainda bem que fiz isso, pois me trouxe até o único lugar, em que Timothy pôde ser curado, para que possamos iniciar uma nova vida, longe dos crimes da Ordem das Corais. Sei que somos dois ímpios, mas se meu pai é mesmo Cristo, ele ensinou os outros a perdoarem, e certamente não negaria uma segunda chance, para uma das suas filhas, e o sobrinho, filho de seu irmão Belial.
    _Então mentiu para chegar aqui?
    _É só o quê ouviu?!
    _Não, foi apenas a parte mais marcante, pois pensei
    que tinha me rastreado de alguma maneira, algo mais
    inteligente, do quê apenas sorte.
    _Foi inteligente, do contrário Timothy teria morrido.
    _E agora espera que a Ordem de Cristo os abracem
    , e ofereçam um banquete pela sua chegada?
    _Queremos somente redenção Thamy.
    _Sem coroas, deuses, ou as velhas regalias que
    foram ofertadas por Marrie, para tentá-los ?
    _É claro que sim.
    _Estão prontos para o trabalho duro,
    que lhes confere alguma nobreza
    entre nós?
    _Se tiver um quarto, comida boa, e bons
    livros.
    _Acha que está no direito de exigir?
    _É o mínimo para um ser humano.
    _Então terá de se dirigir ao pai.
    Ele quem lida com essas
    coisas.
    Thamara era bastante firme em suas palavras, porém era evidente o alívio que sentia no peito, por me ter de volta ao seu comando. Uma vez irmã, sempre irmã, e mesmo com toda a frieza, ficava claro que se importava do contrário, não teria feito o seu marido “O Peste" me dá o sangue da cura.
    A MORTE NARRA:
    A volta da minha irmã mais nova deveria me trazer alegrias, mas por mais feliz que estivesse pela sua volta, não podia me esquecer dos males que tinha causado, e de quê nem Ramona escapou das suas teias diabólicas. Inspirei fundo, e caminhei para longe dela, deixando-a sem respostas. Tudo sempre foi muito fácil para Katherine, então não me admira a sua “cara de pau”, de vim até Santa Marta em busca de perdão. Nosso pai poderia lhe perdoar, afinal ele sempre foi o cara que perdoo as faltas do mundo, mas eu neste sentido, era tão implacável quanto minha mãe Madalena Lilith.
    A noite... Timothy e Katherine ficaram agarrados um ao outro, sorrindo, ao beberem a sopa do nosso chefe e padre João. Quem os visse ali, pensaria que eram almas gêmeas, puras e inocentes, entregues aos desejos da juventude. Fiquei com o cotovelo apoiado na mesa, pousando a mão abaixo do queixo. Os observando com cautela e fúria. Vendo o meu estado, Bart deitou sua cabeça no meu ombro, dando-me beijinhos no pescoço, até me fazer rir, e sussurrou para nos afastarmos de todos. De mãos dadas, nós seguimos até a beira do rio cristalino, e nos sentamos na ponta da terra, deixando a água cobrir os nossos pés. “Não gostei da volta dela.” Ele iniciou, e dei graças aos deuses, por não ser a primeira a dizer. “Ela é minha irmã, mas eu também não estou satisfeita com isso.” Concordei, e ele se deitou no meu colo, deixando a água fria cobrir metade do seu corpo, já que a fenda estava rasa, e “secando”.
    _Por pouco você e Ramona não morreram
    naquele dia. Não é algo fácil de se perdoar.
    _Se Ele não tivesse parado o tempo...
    _E ainda tem essa. Graças a ela o Arcanjo voltou.
    _Ciúmes, bonitinho?
    _Sempre terei ciúmes de você. É o amor da
    minha vida.
    _Você também é o amor da minha...
    _Mas?
    _Você sabe...
    _Está muito magoada comigo, para sentir
    alegria por isso.
    _Olha, não é que é esperto?
    _Engraçadinha.
    _Sou mesmo.
    _Eu te amo Thamy. Sei que falhei feio contigo, como marido,
    mas não vai se passar um dia da minha vida, que não deixarei
    de lutar para ser digno do seu perdão.
    Ele ergueu a face para cima, e pude vê as estrelas se refletirem nos seus olhos. Aquelas íris brilhantes, e a pupila tão dilatada ao olhar para mim, me fizeram entender porquê mesmo depois de tantos anos, sofrendo por ser incapaz de dar uma segunda chance a alguém, ainda seguia ao seu lado, e afastava todos os possíveis pretendentes, tornando-o minha primeira e única opção. “Também te amo Bart. É difícil pra mim perdoar, qualquer pequena falha que seja. Mas por você estou tentando.” Me esforcei para me declarar. Escrever é fácil, porém falar dos meus sentimentos, sempre foi algo complicado, pois é como se eu não fosse capaz de amar, ao ponto de literalmente esquecer de mim, e levar um tiro para proteger alguém que não está dentro desse corpo. Contudo Bart era o único por quem eu realmente me esforçava para ser melhor, e por mais que o Dr. Fernand ou o Dr. Augusto dissessem o contrário, isso para mim, era o mais perto do amor que podia conhecer. Sem que percebesse, meus dedos fizeram carinho em sua cabeça, e meus lábios foram até os seus. Talvez amar, não fosse algo que trouxesse somente felicidade e satisfação, e sim a caminhada longa e tortuosa, na qual os dois enfrentam todas as barreiras para continuarem juntos.
    O PESTE NARRA:
    Outra vez seus impulsos românticos a traíram, era óbvio por causa da sua face corada de vergonha, ao afastar o rosto depois de me beijar, e praticamente criar alguma distância emocional, ao se recostar para trás. Ainda bem que tínhamos voltado a brigar por nosso relacionamento, não queria me lembrar, do dia em que quase perdi a mulher da minha vida, e o fruto desse amor que nunca se apaga. Droga. Estou começando a lembrar outra vez...Já ouço o som do temporal que caia, e a voz dela ao telefone. “Bart por favor me ajude.” Foi tudo o quê ouvi, antes de ligar sua localização, e seguir até o meio da mata escura. A mesma em que há poucos dias, havíamos encontrado sacrifícios infantis, em nome dos “ofídios em forma de humanos”. O sangue estava espalhado por toda parte, - ao contrário do quê fizeram com Marcele, outra membro que abandonou as corais, antes da mesma se transformar numa ordem mundialmente famosa, por suas atrocidades. – Eles queriam mesmo executar a Thamara, sem fazer parecer suicídio. Minha respiração era calma, porém a cada passo que dava, o medo crescia dentro de mim, e os suspiros pouco a pouco se aceleravam. As folhas se quebraram abaixo dos meus pés, mesmo tentando ser sorrateiro, e isso fez meu coração subir até um pouco acima das costelas. Um pouco trêmulo, me aproximei das árvores, para observar o ambiente. Sentindo a força de Gaia fluir pela copa, ganhei energia para enfrentar os monstros que tinham levado a minha amada, e a minha filhinha. Minha áurea obscura cresceu, e por alguns segundos o Bart viciado em violência, tomou 70% do controle do meu corpo, pois estava pronto para me “banquetear” com a carne de certas corais. Meus dedos arranharam o tronco, como se fossem obsidianas, e por um momento senti que meus olhos queimaram, e se tornaram amarelos como ouro, dando-me o poder de ver no escuro. Foi então que a vi, nos braços dele, e minhas íris se tornaram vermelhas como rubi, pois o Bart melancólico quem assumiu. “O quê faz aqui?” Perguntei ao ver o homem de longos e cacheados cabelos negros, que segurava a minha esposa, e ficava ao lado da minha filha, me encarando com seus olhos azuis, que brilhavam de maneira tão inumana quanto os meus. “Se soubesse cuidar dela. Eu não precisaria intervir.” Ele me respondeu, e isso me fez rir de raiva, pois jamais deixava de salvaguardar a minha amada. “O quê aconteceu?” Perguntei lentamente, pronto para matá-lo com todos os requintes da maldade, assim que me entregasse a minha companheira. “As corais vieram atrás dela.” Disse sem parecer se importar, e ela despertou. “Você?” Perguntou para ele, com certa mágoa, e este sem querer sorriu. “Estou fazendo hora extra.” A colocou no piso, e levantou voo. “Ela precisa de proteção. Não importa quem você seja, sabe que somente o Pai tem tal poder.” Disse ao passar por mim. Apesar de ser um engomadinho celestial, ele estava certo, porém conhecendo a mulher que tinha, havia a certeza de quê ela não seria a favor de tal intervenção, por isso só deixei escapar um barulho de lata de refrigerante sendo aberta.
    No caminho de volta para casa...Thamara ficou em completo silêncio, segurando Ramona que tinha dormido em seus braços. Pelo retrovisor pude vê-la. Seu olhar era vazio, tinha marcas de garras nos ombros, o lábio estava roxo, como se tivessem torturado e depois a forcassem a beber veneno. Eu queria saber o quê tinha acontecido, mas ela parecia sem reação. Ao passar pela entrada de casa, ela pulou no meu colo e me abraçou forte. “Ela saiu. Eu preciso ir embora.” Foram as suas palavras. Sem pensar, a segurei contra o meu peito. “Não.” Foi tudo o quê consegui sussurrar, e ela me deu um beijo no rosto, seguido de um beijo na boca, que pareceu sugar as minhas energias. Era como se ela fosse a Hera Venenosa das revistas em quadrinhos, mas seus olhos ficavam violetas e vítreos, quando minha vida era engolida por sua boca roxa. “Eu te amo muito. De verdade. Mas meu ódio pode te machucar, então adeus.” Ela disse e dei o meu último suspiro, caindo desmaiado no piso.
    Os dias se passaram...Minha sogra entrou em desespero, e veio para dentro da nossa casa, me oferecer ajuda para cuidar de Ramona, enquanto eu procurava por minha esposa. Cheguei a voltar a beber e fumar, coisa que só fiz na adolescência após termos terminado por conta dos seus inúmeros pretendentes, e querer vivenciar todos os prazeres da juventude. Ela certamente diria que o fez, pra ficar com o tal Dave, porém anos mais tarde, vim saber que não tinha só o babaca, outros estavam aos seus pés. Não acho isso negativo, porquê eu também era o homem de muitas, após termos nos afastado. Pra mim isso só significava que a separação nos tornou duas criaturas frias e maldosas, que deixaram um rastro de destruição por onde passaram, mas se reencontraram mesmo nas trevas, pois eram perfeitos um para o outro. Infelizmente acho que ela não via assim, e por isso tinha partido de vez. Ela, seu outro Eu sempre saia em momentos de adrenalina. Então isso pra mim, era uma desculpa mais do quê esfarrapada. O sino da porta do bar tocou, e foi tudo muito rápido. Um grupo de mascarados, com uma braçadeira vermelha, jogaram um frasco ovalado no piso, que se partiu e deixou todos doentes.
    No meio daquela névoa verde, eu via mulheres e crianças gritando, ao chorarem lágrimas de sangue, enquanto os homens vomitavam sem parar pelos cantos, e alguns tremiam como se sofressem o efeito colateral de um remédio psiquiátrico. O quê quer que seja, era mortal, mas me sentia normal, por isso caminhei por ali, até chegar a saída, onde encontrei um grupo de homens de túnica branca. “Eis que o filho do nosso senhor enfim aparece entre as sombras, iluminando-as com a sua luz.” Disseram em coro, e ergui uma sobrancelha de incredulidade. “Saudamos-te ó grande cavaleiro iluminado, que deve acompanhar a amazona negra que com a sua mortalha e foice limpará o mundo.” Eles se ajoelharam diante de mim, com itens em suas mãos. “Eu sonhei que muitas pessoas morriam por minhas mãos.” Me recordei, com a voz dela. “Não podia ver o rosto, mas andava a cavalo com um guerreiro de armadura prata, que me levava até os outros dois. Era como se eu fosse a Morte” Foi o segundo lampejo. “E se um dos cavaleiros, não for apenas uma corrupção machista, e a Morte na verdade é uma amazona?” Foi o quê me fez ter certeza que era dela que se tratava. “Onde ela está?!” Peguei um deles pela túnica, e ergui contra a parede, pronto para destrui-lo caso tivesse feito mal a minha amada. “Está em Santa Marta, porém assim como a mesma está treinando, você deverá fazê-lo, para terem controle dos seus poderes, e não serem controlados por eles.” Me respondeu aquele ficava ao lado do outro. “Olha pra minha cara. Vê se eu me importo com isso? Só quero achá-la.” Disse com impetuosidade. “Se quiser ver a minha filha. Terá de ser merecedor dela.” O quarto e último homem impôs, e quando olhei para trás, vi seus olhos brilhantes como uma lâmpada no escuro. “Lúcifer?” Questionei desconfiado. “É apenas um dos meus nomes, meu filho rebelde.” Me respondeu. “Ela está bem? Não estão abortando seus filhos, e lhes dando o feto para comer não é?” Inqueri me recordando das terríveis visões da minha companheira. “Não somos Os Iluminados. Nosso treinamento é mais rigoroso e evolutivo. Ela está aprendendo a controlar o poder da Morte, e não se tornar o próximo grande Demônio, já temos você pra isso.” Respondeu e brincou no final. “Do quê está falando?” Perguntei sem entender a razão de tal acusação. “Então o bloqueio de memória foi um sucesso.” Se aproximou de mim, e pousou a mão no meu ombro direito. “Infelizmente Baal Hadad, não poderá viver para sempre nesta mentira, de quê só Thamara Mary, viveu no Inferno, e tem o meu sangue.” Tais palavras me deixaram um pouco receoso. “É hora de enfrentar o seu grande demônio, e fazer juiz ao fato de ser o príncipe deste mundo.” Ele prosseguiu. “Esse não é o teu título?” Perguntei com certa curiosidade. “Eu sou o novo Deus, meu filho, o título de Diabo é, e sempre será seu.” Ele me respondeu, e meus olhos se engrandeceram. “Isso não seria uma blasfêmia para o Altíssimo?” Notei os aspectos bíblicos dos quais Thamy sempre falava. “Seria, se ele não tivesse concedido esta glória, para se tornar o sucessor do seu bisavô.” Outra vez ele respondeu algo de quê não tinha muito conhecimento, a não ser pelas aulas da minha linda descendente dele.
    _Eu tenho um bisavô?
    _É muito para explicar. Mas sim. Você é parte da terceira
    gerações dos deuses.
    _Então este bisavô é o Caos da mitologia nórdica?
    _Sim, e dele nasceram os primeiros deuses supremos,
    que são os seus avós.
    _É muito para processar...
    _Ficará mais fácil depois que desbloquearmos sua memória.
    _Não.
    _O quê? Por quê?
    _Se sou mesmo o Diabo, não quero machucar Thamara
    ou minha filha, é melhor deixá-lo adormecido.
    _Isso é um excelente sinal. Porém embora tenha machucado
    muitos com a sua frieza e sadismo, tenho certeza que não
    praticou algum mal contra elas.
    As palavras de Lúcifer me acalmaram, e por isso segui com os frades, para receber o devido treinamento de meu poder, e ver a minha amada outra vez. Foram 6 meses de teorias e práticas, sobre o meu porte físico e espiritual. Os cientistas da ordem diziam, que minha saliva era uma fonte de doenças nocivas, que se transformava no quê minha mente desejasse, e que o meu próprio sangue, continha antígenos praticamente sobre-humanos para cada um desses males. Por vários meses fui estudado numa estufa, ás vezes dentro de um tanque, outras numa maca, para definir o limite dos meus poderes, que faziam de mim, uma bomba biológica, com a cura para as mesmas doenças que causava, por isso me chamaram de Peste. Contudo embora fosse parte das minhas habilidades, ter esses vírus vivendo em meu corpo, e os curar, não era todo o meu poder, pois graças aos seres microscópicos, poderia modificar o meu DNA, para me tornar qualquer ser existente na galáxia...Mas não vem ao caso, como dizia...No sexto mês finalmente pude encontrá-la, ela continuava linda e radiante como a lua. Como tanto gostava, estava usando um vestido preto longo e decotado, sendo seguida por homens e mulheres cobertos por capuzes amarelos. Ao contrário dos costumeiros olhos vazios, parecia tão serena quanto na adolescência, e sorria com a confiança, que nós dois acreditávamos que tinha morrido.
    _Bart?
    _Thamara...
    _Como chegou até aqui?
    _Digamos que nossos caminhos se cruzaram.
    Você não é a única filha cósmica.
    _Sério? Eu sabia! Você é meu par eterno!
    _Não, não sou. Sou apenas o deus que ficou
    louco de amores por você, e não te deixou
    viver na solidão.
    Eu segurei em sua face e a beijei com carinho. Ao sentir o seu corpo no meu, meu coração pulsou com muita intensidade. Foi assim que as memórias do passado tomaram conta da minha mente... Eu era somente um garoto loiro, semelhante um viking, quando nos reencontramos. Ela era somente uma menina de cabelos vermelhos, com olhos violetas e vítreos. Nós discutimos no começo, pois a figura baixinha, tinha contas para acertar comigo. Mas como sempre fomos estranhamente um atraído pelo outro, acabou por me contar a verdade. Sentia-se vazia, e nem sempre do nada, nascem as melhores coisas, por isso ela tomou a pior decisão. Com o uso dos seus poderes, ela abriu a porta da minha cela, e me soltou no universo. Então o quê Deus havia decretado como um caso resolvido, voltou para lhe assombrar. Pouco a pouco me infiltrei no paraíso, e fiz com quê os anjos ficassem encolerizados. Os fracos pereceram diante de meu poder, e o caos se fez no cosmos. Para mim, era como uma festa sem fim, com muitos gritos, sangue, e desespero. Mas para ela, era como uma falha grotesca, que precisava ser corrigida antes que descobrissem o quê fez. Eu espalhei entre as multidões, todo o sofrimento possível para me fortalecer, e ela veio com a sua foice, para lhes dá paz mesmo no Inferno, entre os seres materializados. Seu pai tinha sido o anjo que tirava a vida dos vivos. Porém após o seu nascimento, ele foi coroado como príncipe celestial, e outro teve de assumir o seu posto. Muitos dos seus bravos filhos, lutaram para provar que eram dignos de tal glória. Assim eles limparam a galáxia, ceifando todas as almas que pudessem, com suas armas especiais. Contudo foi na única menina, que o poder se manifestou, e por isso esta que recebeu a sorte grande. Ao contrário dos irmãos, ela não matava somente para se provar merecedora da foice de seu pai, mas sim de acordo com o seu código de conduta, no qual os culpados eram friamente punidos, e os justos levados cuidadosamente para o outro lado. Seus irmãos só se focavam em quantidade, ela não, e esta era a virtude secreta do seu pai, quando ele atuava como tal. Eu a admirava, tanto pela sua impetuosidade violenta com os ímpios, quanto pelo cuidado que tinha com os inocentes. Por isso também tomei a pior decisão. Certa vez a Morte, estava a tomar banho no rio sagrado, e eu entrei na água, infectando-a, para lhe tornar inofensiva. Ela lutou com valentia, usou seus poderes para tentar curar a água, mas por algum mistério da natureza, a pobrezinha não tinha forças para vencer a mim, pois eu era a própria doença, era o vírus que carregava outros dentro de mim, era a própria Peste, em forma humanoide. Ela não suportou a enfermidade que lhe provoquei, e caiu em meus braços. Estava fraca, e bastante vulnerável, quase irresistível. Passei a mão por sua face pálida, ela me olhou preocupada, quase dizendo "não" para a minha proximidade, porém mesmo assim a beijei, e a tomei para mim. Por alguns anos, ela desapareceu, e os homens deixaram de respeitar o poder celestial, assim como acreditaram que não havia punição para os seus crimes, pois eu também não atuava. "Vou beber até cair hoje, pois o meu fígado não mais adoce vadia!" Disse um bêbado ao espancar a esposa, que segurava o símbolo dos celestiais. "Deus porquê não me permite morrer, e me deixa sofrer? Não pequei tanto para acabar assim!" Chorou com a boca toda ensanguentada. Ela não era a primeira a perder a fé. Outros estavam em níveis mais avançados, chegando até mesmo a acreditar, que Deus os tinha abandonado a mercê do mal, do qual tinha lhes prometido proteção. Inúmeras criaturas iam as ruas, protestar contra as iniquidades divinas, e haviam os que tentavam assumir o papel, da única juíza consagrada pelos deuses, deste universo. “Então você queria encontrar a paz, depois de tudo o quê me fez?" Um homem num plano de vingança, apontou a arma para a cabeça de outro. "Eu lamento te informar, mas não existe mais morte, e por isso sou livre para estourar a tua cabeça, quantas vezes desejar." Atirou na testa do culpado, várias e várias vezes, com um sorriso cada vez maior, que o tornava pior do quê aquele que ele julgava. Este não era um caso isolado, os assassinatos se expandiam mais do quê as doenças, que costumava espalhar. Para uns era um parque de diversão macabra, e para os que não tinham tal coragem, parecia a visão mais do quê realista do Inferno dos mortais. Cabeças decepadas, gritavam pelas ruas, e os sádicos lhe perfuravam os olhos, e chutavam-nas para a lama, afogando-as sem parar. Pessoas que tinham perdido o corpo na briga para sobreviver, se arrastavam pelos cantos, para tentar se livrar daquela tortura sem fim. As mulheres se uniam em instalações, para cuidarem uma das outras, já que nesta realidade sem final ou consequência, os pervertidos também ganhavam espaço, e se sentiam no poder de abusar das mesmas. Nem mesmo as crianças, conseguiam manter a inocência, e por isso ficavam divididas: Entre aquelas que matavam, e as que corriam. Meu ato egoísta, tinha feito da galáxia, o próprio Tártaro dos Gregos, e o Inferno dos Católicos, pois eu os privei de manter a bondade, e de receber a devida a punição, ao levar a nossa Morte, para o único lugar, no qual somente o seu Eu daquela realidade, tinha a permissão de julgar, e esta era somente como qualquer criatura que habitava aquele Cosmo. Como desde cedo trabalhei para o céu, como o auxiliar do meu pai, o veneno de Deus. Sabia de todos os pontos fracos da Morte, desde a sua jurisdição, até o quê poderia prendê-la para sempre. Acorrentada no fundo do universo, ela brigava para sair, amava o seu trabalho, e não queria ver ninguém lhe substituir. Só que nunca me dirigia a palavra, e evitava até olhar em meus olhos, devia me odiar bastante. Todavia eu não conseguia deixá-la ir, pois só o fato de tê-la por perto, era o suficiente para me sentir bem, e não me importava com quantos sofreriam no processo. "Já não basta o quê fez?" Ela finalmente disse, com seus braços presos ao aço, banhado com a luz do buraco branco, que sintetizei para imitar o poder supremo, do pai do príncipe celestial. "Foi culpa de nossa mãe, e você sabe." Respondi de imediato. "É só o quê sabe dizer. Mas se fosse forte, teria dito não." Ela retrucou. "Você não pode me culpar por aquilo para sempre. Se soubesse lutar, também teria impedido.” Rebati, e ela ficou indignada. “Vai culpar a vítima? É sério?” Sua voz era alegre, mas cheia de raiva. “Eu sou o Peste. O quê esperava? Que eu me arrependesse? Fui treinado para ser impiedoso!” Mostrei a minha ira, e ela voltou ao silêncio. “Ao menos sentiu algo por mim?” Aquele tom me deixou desnorteado, parecia triste, quase magoada. “Você sabe que sim. Haviam dois destinos naquela noite: te possuir, ou te fazer desaparecer para sempre da minha realidade.” Desabafei com tristeza, quase me encolhendo de vergonha. “Eu não podia ficar sem você.” Segurei em sua face, erguendo seu queixo, e olhei no fundo daquela neve, coberta pela luz do rouxinol. “Mas você sempre foi o pior dos filhos. O Forte, O Implacável por ser incapaz de amar.” Argumentou, sem acreditar. “Parece que a única fraqueza da Peste é a própria Morte.” A beijei, e mesmo com as mãos acorrentadas, ela me puxou para a si. Aquela atração mortal e doentia, tomou conta de nós dois, e a boca mais fria que existe, pareceu quente por uns minutos. Com suas pernas salientes e fatais, ela montou em mim e me arranhou, se entregando a enfermidade do amor. Logo arranquei a sua mortalha, e tirei a sua armadura, enquanto ela me despiu as vestes de cavaleiro. Minhas mãos desceram pela sua costa frágil e nua, a sua boca não quis desgrudar, e quando o fez, foi somente para me beijar o corpo inteiro, e voltar ao meio das coxas, onde fez vários movimentos de vai e vem, deixando sua doce saliva escorrer por meu membro. Contudo não a deixei somente me satisfazer. A deitei no piso, segurei seus pulsos, e passei a minha língua por entre os seios delicados, descendo, até chegar no ponto do prazer, do qual bebi todo o júbilo com gosto, até escorrer pelo canto dos lábios, e quando vi que praticamente implorava, para que a completasse, sorri maldosamente. “Você realmente me deseja ?” Beijei-lhe a virilha, e ela corou de vergonha. “Sim.” Respondeu com sua voz doce como chocolate amargo, o meu favorito. “Então peça por mim.” Impus, e ela relutou, até que se deu conta de quê só havia nós dois, como na segunda vez, em que estivemos juntos, e cedeu a sua vontade. “Me possua Peste.” Aquelas palavras me deixaram eletrizado, e por isso entrei dentro dela com ímpeto, arrancando-lhe suspiros tão intensos, que foi capaz de suar. Aquele rosto, aquele sorriso, aquelas bochechas rosadas de prazer, seguido de seus gemidos, me deixaram louco. Por dias repetimos o feito, e creio que a Morte, foi a primeira a desenvolver a Síndrome de Estocolmo, por isso esta doença é vista de maneira tão mórbida. Mas ela não mais se importava, nem sequer ligava para o quê fazia, só com quem fazia. Se ela me amava, eu não sabia, acreditava que estava usando seu charme fatal somente para ganhar a liberdade. Porém no dia que enfim a libertei, esta saiu voando para fora do cativeiro, e se deparou com a luz de uma das luas do planeta em que estávamos. Estava tão feliz, que pensei que nossos momentos de amor doente, ficariam para trás, assim que retornasse, para impor a ordem ao nosso “mundo". “Vamos?” Segurou em meu pulso, e fiquei paralisado. “Quer que eu vá? Eu o Peste, o demônio, o...” Me silenciou com o dedo indicador. “Nem tudo é preto e branco Peste. Você causou sim muito sofrimento, mas graças a ti famílias se mantém unidas, homens mudam a conduta, e mulheres valorizam a felicidade.” Seus olhos eram de uma criatura sã, contudo suas palavras me pareciam insanas. “Se isso é verdade, por quê sempre atrapalhou a minha tarefa? Como se quisesse me corrigir, após ter me libertado?” Questionei incrédulo, e ela sorriu. “Porquê tua execução é tão sombria e implacável, que mesmo as vítimas dos criminosos, se apiedavam destes. Que de acordo com o meu dever, mereciam uma punição ainda mais severa, por toda a eternidade.” Ela explicou. “O meu erro foi te libertar, mas você quem escolheu atender o meu pedido. Portanto é só você que pode corrigir isso. O quê já se passou, não dá para voltar atrás, sem alterar todo o equilíbrio já existente. ” Ela completou, e eu percebi que estava errado, não era uma falha grotesca que tentava controlar. Nós retornamos para a nossa galáxia natal, tudo estava destruído, e muitos imploravam por seu regresso, enquanto me destetavam mais do quê nunca. Pouco a pouco, ela fez o seu trabalho, não haviam muitos para receber o atestado de óbito, por isso eliminou os executores com punhos de ferros e sem piedade, e trouxe enfim o descanso para os que tinham temido, que aqueles dias jamais teriam fim. Nosso pai quis julgá-la, porém eu assumi a responsabilidade por tê-la raptado, e assim a livrei de perder o manto que tanto adorava. Achei que após a confissão, voltaria para a cela, contudo por ter me provado um pouco mais maduro, o pai decidiu me tornar o segundo juiz consagrado, que auxiliaria a Morte em seu trabalho. Tão grande foi a minha alegria, ao ouvir tal coisa, pois em vez de me afastarem dela, nos juntaram como a metade oposta e complementar da mesma moeda. Desde então, as duas criaturas mais perigosas do universo, seguiram de mãos dadas por toda a eternidade, se amando de uma maneira que os mortais não seriam capazes de compreender. Já que onde Morte fosse, a Peste certamente ali estava... “Bart?” Ouvi a voz dela dizer, e outra vez estávamos a beira do rio. Todavia enquanto me perdia em lembranças passadas, já havíamos trocado de lugar, e agora ela tinha se sentado em meu colo, e ficava a olhar para os peixes na água, ao entrelaçar seus dedos aos meus. “Oi...” Falei olhando para as nossas alianças, próximas uma da outra, por causa da união das palmas. “Promete nunca me deixar?” Disse se encolhendo, quase sem voz, e a luz da lua brilhou sob o aço dos anéis. “É claro que sim meu amor. Não importa o quê os astros digam, sempre seremos um do outro.” Beijei sua cabeça, e ela retribuiu beijando as minhas mãos.
  • O Apocalipse é logo ali...

    A temática do Apocalipse já rendeu ótimas obras na literatura. Seja no plano da ficção científica ou terror, incluindo os seus subgêneros, o tema atraí não apenas a criatividade de diversos escritores, bem como leitores ávidos atrás de emoção. A Elemental Editoração acerta mais uma vez ao publicar o sexto volume da série de coletâneas A Arte do Terror, reunindo diversos autores nacionais numa seleção de textos voltado ao terror e horror.
                O desafio dos escritores era elaborar um conto mostrando uma visão apocalíptica do planeta Terra, todos inéditos. Os autores não fizeram feio e por meio de 35 textos, vemos o fim do mundo não como algo distante, mas tão próximo que o sentimos no cotidiano. Invasões alienígenas, distopias, rebelião das máquinas, epidemias zumbis, catástrofes climáticas e intervenções de forças sobrenaturais compõem as diversas opções da hecatombe global.
                Dentre os textos, pudemos ver como os escritores e escritoras se dedicaram na tarefa de criar o pior cenário possível. As vezes recorrendo a ciência, a degradação humana ou até mesmo a fantasia, sempre obscura e desprovida de sensação de maravilhamento. A natureza muitas vezes surge como solução final para a extinção humana. Animais também acabam servindo ao propósito de mergulhar ainda mais a raça humana no caos. Os finais são sempre lúgubres, e a salvação, uma falsa esperança.
                O livro é organizado por três escritores que também publicam seus contos sobre o fim do mundo na coletânea. O livro foi lançado na versão impressa e em e-book. A versão e-book pode ser baixada gratuitamente, e conta com dois contos exclusivos que não aparecem na versão impressa: Anatomia do Caos, escrito por mim, e Crônicas da Matilha, do autor Lucas Viapiana Batista.
                Quando se trata de coletâneas ou antologias, eu costumo comentar dois dos melhores contos e os dois que menos gostei, segundo minha opinião, lógico. Os contos que mais gostei foram escritos por Eric Bortolato, onde A mulher vestida de sol, descontrói ou reconstrói a profecia da tradição judaico-cristã, com direito a visão teleológica e tudo, o conto tem uma narrativa poética e melancólica, o autor tem muita expressividade em sua narração. O segundo conto, Céu Vermelho, é escrito por Old Folk, que utiliza uma narração interativa, inspirada livremente nos livros-jogos, algo que os RPGistas conhecem muito bem. Foi uma grata surpresa essa referência, é divertido e assustador!
                Já os dois contos que menos gostei foram escritos por dois dos organizadores. O primeiro é A Criatura de Beatriz Costa, embora goste de contos de terror e horror com referências a Lovecraft, esse me pareceu “os melhores momentos do Lovecraft”, são muitos elementos da narrativa lovecraftiana que não formaram uma narrativa muito bem definida, mais orgânica. O segundo, O fim do mundo com vista para o mar, é do autor e capista do livro, George Au Costa, nada contra a narração, mais uma vez, minha crítica vai ao plot: achei estranho dois adolescentes fugindo de uma epidemia zumbi se sentirem à vontade para tomar banho de mar! Parecia que não havia o fim do mundo, igual viagem de férias, foi estranho para um conto de terror.
                Posso dar vários motivos ao leitor para ler o livro A Arte do Terror Vol.6 Apocalipse: primeiro o e-book do livro é gratuito, formato e-pub e tem dois contos exclusivos; segundo, o impresso é formato de luxo, com capa papel cartão 250 com laminação em brilho, miolo com papel offset 122, e tamanho 16x23; terceiro e último, são mais de 220 páginas de histórias incríveis sobre o fim dos tempos, contos curtos e bem construídos, um livro que pode ser devorado numa viagem de ônibus ou no metrô, ou numa noite escura qualquer...
                O livro, como uma iniciativa independente, possui alguns erros de português, que não chegam a prejudicar a leitura, mas merecia um cuidado maior dos revisores responsáveis. O designer da capa ficou ótimo, mas a resolução da imagem poderia ter sido maior. Até o seguinte momento, o impresso só pode ser comprado por boleto, enviado direto pela Elemental Editoração para o e-mail do interessado, o livro está custando por volta de R$ 39,00.
                Para adquirir o livro, acesse e entre em contato:
    seloee.weebly.com
    aartedoterror.weebly.com
    aartedoterror@gmail.com
    elementaleditoracao@gmail.com
               
  • O Coringa - Um conto de terror carnavalesco

    Haviam mais dois casais na delegacia naquela noite. Todos nós esperávamos o atendimento do delegado, fitando nossos pés, evitando trocar olhares a todo custo. A folia ainda estava a todo vapor naquele final de tarde daquela terça-feira de carnaval. Até parecia que quanto mais perto a quarta-feira de cinzas estava perto, mais as pessoas estavam desesperadas por folia e prazer. Bom, quem eu estou julgando? Eu era mais um no meio daquela galera a umas 10 horas atrás... Nós éramos...

    A porta da sala do delegado se abriu e o primeiro casal foi chamado. Ana Clara e Rodrigo, a voz do delegado ficou ressoando na minha cabeça logo depois que ele chamou o primeiro casal. Nem os olhei na cara, nem vi como eles estavam vestidos...

    *bvvvvvp*

    O relógio começou a vibrar no meu pulso avisando sobre um ‘alerta vermelho de temporal’, dei uma rápida olhada pela porta de vidro no outro lado da sala e notei as nuvens pretas carregadas se espalhando pelo céu alaranjado. Olhei mais uma vez o relógio, dessa vez para consultar a hora. Mal havia se passado 10 minutos que acabará de chegar, mas parecia que fazia horas que estava ali. Ok, talvez seja hora de eu relembrar tudo o que aconteceu nas últimas horas.

    ...

                    Thaize e eu estávamos saindo para acompanhar mais um bloco de carnaval pelas ruas de Laguna. Deixamos nosso apartamento alugado por aplicativo e seguimos rumo a festa a pé, já que o começo da festa seria a umas duas quadras de distância dali. Além do mais, quem que consegue andar de carro no meio do caos de um bloquinho de rua? Os caras estão tão bêbados que são capazes de subir no teto do carro e ficar pulando até que se consiga tirar o carro do meio da muvuca. Enfim, o negócio é que eu estava empolgado para a bagunça, esse ano eu e minha esposa chegamos num consenso de que poderíamos dar encima de quem quiséssemos, mas sem beijo na boca ou qualquer coisa a mais. Mas claro que eu já tinha o plano de embebedá-la a ponto dela não se lembrar de nada e eu poder sair um pouco da mesmice do casamento e, quem sabe, dar uma pulada de cerca com algumas garotas e talvez, por acaso, alguns caras. O que tem de mais? Carnaval é pra essas coisas, certo? Aproveitar a vida ao máximo, ainda mais se rolar sexo sem ter consequências disso depois. Quem sabe eu pudesse até participar de alguma festinha particular com os rapazes da faculdade que estão tão bêbados que topam qualquer coisa.

    O bloco que estávamos participando se chamava “Os Mascarados do Frade”, e óbvio que todos que participavam tinham que usar máscaras que tampasse os olhos ou o rosto todo. Atravessamos toda a extensão da ‘praia do mar grosso’ seguindo o trio elétrico que tocava de marchinhas clássicas até os funks pesadões. Não demorou muito até que Thaize ficasse completamente fora de si e saiu beijando qualquer cara, chegando até a passar a mão onde normalmente me deixaria com ciúmes, mas dessa vez o álcool e o tesão falaram mais alto de mim e tratei de me afastar dela. Peguei uma loira peituda, uma morena que tinha um perfume gostoso, logo estava beijando o pescoço da Thaize que estava muito bêbada. Depois beijando os peitos de outra, até que percebi que um cara estava me encarando demais. Fui me aproximando dele, agarrei ele pelo pescoço e o beijei como nunca havia beijado um cara antes. Ele escorregou a mão por dentro da minha cueca e eu fiz o mesmo, e não é que era bom? Me certifiquei de que Thaize não estava por perto e quando vi, estava rodeado de caras me beijando, abraçando e passando a mão pelo meu corpo. Depois disso o álcool fez o resto e só consigo me lembrar de flashs do que aconteceu até um momento específico. Quando o tesão estava falando tão alto, me deixei ser convencido por um cara a ir para o apartamento dele para irmos mais fundo. Ele foi me puxando para fora da folia pela cueca, enquanto eu olhava ao redor para me certificar de que Thaize não estava por perto.

    Quando finalmente chegamos à calçada, notei que uma figura um tanto peculiar parecia estar me seguindo. Não consegui identificar se era homem ou mulher pois estava inteiramente fantasiado como um tipo bobo da corte, ou um coringa, que vestia uma roupa verde e branca e uma máscara com múltiplos rostos de porcelana que dava a volta em sua cabeça e um chapéu com sinos de natal em cada uma das duas pontas, vinha atrás de mim mantendo certa distância. Ele andava devagar, com passos longos na minha direção, enquanto eu era puxado pelo cara para fora da bagunça.

    Comecei a me sentir hipnotizado e tão atraído em observar aquela figura estranha que nem havia percebido que eu tinha voltado para o meio da bagunça, e o cara que estava super afim de transar comigo não estava mais me puxando. O tal coringa parou a alguns metros de mim, observei que os rostos da sua máscara estavam com uma feição séria, neutra, e ele só me observava, parado, sem fazer nada. Foi quando ele começou a fazer uma dança bizarra, agachando, juntando as mãos atrás e na frente de seu corpo, rodando de um lado para outro que eu nem podia mais saber se ele estava de costas ou de frente para mim. Ele dançava e rodava mantendo a distância, e não sei dizer se era a bebida ou se alguém pôs alguma droga no meu copo, mas parecia que a criatura possuía olhos em cada buraco da máscara, e todos eles se mantinha fixos nos meus enquanto ele girava e dançava de um lado para outro. Foi quando Thaize apareceu do meu lado, sorrindo, toda feliz.

    - Que bizarro esse cara – disse ela apontando para o coringa – Querido, eu fiz um amigo e vou no apartamento dele. Acho que vou quebrar nossa promessa e vou transar com ele, você me entende né? – Notei que o coringa agora estava parado e seu vários olhos se fixaram nela, inclinando a cabeça de um lado para outro, lentamente – Eu vi que você estava se pegando com uns caras e, quer saber? EU SABIA QUE VOCÊ QUERIA MACHO! Mas amor, tô nem aí, pega quem você quiser. Logo o carnaval tá acabando e vai ser só eu e você de novo, na nossa vidinha de casal. Mas sabe o que quero agora? É dar praquele cara gostoso ali.

    Eu olhava para ela, tentando prestar atenção no que ela dizia, mas o jeito que aquele palhaço olhava para ela começou a me assustar. Na verdade, eu estava prestando bem atenção no que ela dizia. Ela queria sair com um cara, e queria transar com ele. Estava tudo bem, ela podia transar com ele se quisesse, estava tudo bem... O coringa começou a se aproximar de nós dois, um passo de cada vez, seus rostos começaram a abrir um sorriso macabro e largo... Não, minha mulher pode dar pra outro cara, eu ia dar pra um cara também, tá tudo bem... O coringa chegou perto de Thaize e a tocou. Ela começou a tirar a roupa e chamar por Douglas, um cara de quase dois metros, que chegou e agarrou minha esposa na minha frente. Ele também tirou as roupas e começou a fazer sexo com ela bem ali, na frente de todos. Ninguém parecia notar, ninguém parecia ligar para aquela cena, só eu e o coringa que agora olhava para mim enquanto dançava de novo.

    Eu estava horrorizado em ver minha mulher fazendo aquilo bem na minha frente, até que não suportei mais assistir a tudo aquilo e a puxei para longe do cara. Mas eu estava tomado de tanta raiva e ciúmes que dei um soco na cara dela e a chamei de puta vadia na frente de todos. Mas ela não estava nua, não estava transando com ninguém. Ela estava na minha frente, com uma de suas mãos no rosto, me olhando horrorizada enquanto seus olhos se enchiam de lágrimas, e todos ao nosso redor me olhavam incrédulos. Thaize se virou e começou a correr cambaleando para longe de mim no meio da multidão. Eu tentei ir atrás dela arrependido do que acabara de fazer, mas as pessoas ao meu redor me agarraram e não me deixaram ir atrás dela. Alguns gritavam me xingando, outros gritavam para que a polícia viesse me levar.

    ...

                    Ok, então foi assim que parei aqui. Agora lembro de ficar tão louco a ponto de bater na minha própria esposa. Meu braço esquerdo estava algemado a cadeira, dali eu não iria sair tão cedo. Já passava mais de 2 horas que eu estava ali, até os dois casais já haviam sido atendidos e ido embora.

                    - Roberto Oliveira? – Disse o delegado saindo de sua sala, rodando um molho de chave na mão, vindo até onde eu estava sentado. – Vamos conversar um pouco na minha sala. – Ele se agachou ao meu lado, abriu a algema da cadeira e prendeu no meu pulso solto. Me puxou com ele e me levou para dentro da sala e me mandou sentar em frente sua mesa

                    - Senhor Roberto, me chamo delegado Fabrício. Soube que o senhor agrediu uma moça durante o bloco de carnaval. Você conhecia a moça? – Ele se sentou no outro lado da mesa, e jogou seu corpo para trás ficando confortável

                    - Sim, é minha esposa.

                    - É mesmo? E qual o nome da moça?

                    - Thaize Silva Oliveira.

                    - Qual o motivo da agressão?

                    - Nenhum, eu...

                    - Roberto, deixa eu ser direto. Em época de carnaval as pessoas ficam bastante fora de si e agem por impulso por conta da quantidade de álcool e sabe-se lá o que mais elas costumam usar. Só hoje se passaram uns 30 rapazes dizendo que a mulher estava bêbada e ops... Acabou que elas beijaram o cara errado na hora errada e eles, por conta do álcool ou mais alguma coisa acabaram agredindo suas parceiras. Esse foi mais um caso?

                    - Sim...

                    - Então vocês tinham o consenso um do outro?

                    - Sim, mas...

                    - Quando chegou aqui, o senhor fez um teste de bafômetro e o nível de álcool foi bem alto. O senhor teve um ataque de ciúme e agiu por impulso, né?

                    - Foi, mas ela estava transando com um cara na minha frente...

                    - Como?

                    - Não, desculpe... Eu não vi isso

                    - Então você teve alucinações? O que mais você usou?

                    Ao olhar através da grande janela atrás do delegado, aquele coringa apareceu de novo, saindo de entre as árvores no jardim que havia do lado de fora. Ele veio dançando de novo em minha direção...

                    - Senhor Roberto, fale comigo.

                    O coringa se aproximou, e me senti congelado, sem ação. Os vários olhos dele estavam fixos nos meus, até que ele chegou mais perto da grande janela de vidro e passou a encarar o delegado, inclinando a cabeça de um lado para outro. Logo ele começou a sacudir a cabeça rapidamente e pude ouvir os sinos do seu chapéu tocando.

                    - Senhor Roberto me responda ou...

                    O coringa começou a sorrir novamente e a dançar.

                    -... ou terei que te dar uma lição. Caras como você não entram na minha sala sem levar no rabo.

    O delegado se levantou, veio até mim e me liberou das algemas. Ele me jogou de bruços na encima da mesa, me virou e me deu um tapa na cara enquanto tentava arrancar minhas calças. Comecei a gritar por socorro, olhei desesperado em direção da janela e o coringa estava esfregando as mãos rapidamente no vidro, como se quisesse entrar desesperadamente. O delegado tapou minha boca com uma das mãos, puxou uma faca e passou no meu rosto fazendo um corte.

    - Ou você cala boca, ou vou fazer pior do que você fez com sua esposa.

    No meio do desespero, comecei tentar a empurrá-lo para longe de mim até que sua arma caiu da cintura encima da mesa. Continuei gritando, mas ninguém parecia me ouvir, a não ser o coringa do lado de fora que agora estava com um sorriso que dava a volta na cabeça e dava cabeçadas no vidro. O delegado arrancou minhas calças, se levantou e tirou as calças dele. Gritei mais alto, até que ele veio para cima de mim, seminu, puxou a faca mais uma vez e se ergueu.

    - EU MANDEI FECHAR A PORRA DA BOCA, SUA BICHINHA DE MER...

    Puxei a arma que havia caído da cintura dele e apontei na direção do peito dele, que o fez cambalear um pouco e cair para trás.

    Me levantei seminu, com gotas de sangue na minha barriga, ainda segurando a arma com as duas mãos. Olhei para a janela e o coringa havia sumido de novo, quando a porta do escritório se abriu e o delegado Fabrício entrou e me viu seminu e o corpo de minha esposa se esvaído em sangue. Ele puxou a arma da cintura e me mandou largar a tesoura que eu devia ter pego da mesa dele. Olhei mais uma vez para o corpo da minha esposa que deveria ser o delegado e cai de joelhos no chão, não acreditando no que acabara de fazer.

    ...

  • O cruzamento

    1

    O som alto, próximo do máximo, ilustrava sua viagem. Tocava thunderstruck do AC/DC, a música preferida de Alfred que pisava no acelerador com vontade. Sentia o assoalho do carro impedindo o pedal de ir além. Sorriu quando o velocímetro passou dos 110 km/h. Era madrugada e não havia uma alma na rua. 

    Balançava a cabeça no ritmo da bateria, e as vezes dedilhava guitarra no volante. Lembrou-se de quando foi ao show da banda, aqueles canhões no palco, a garota inflável, Angus dançando de cuequinha naquele frio de 3 graus.

    (Melhor banda de todos os tem....)

    See you walking 'round like it's a funeral

    Not so serious, girl, why those feet cold?

    We just getting started, don't you tiptoe

    Porra, sério que você saiu de um AC/DC para Cake by the ocean? Eu nem sei de quem é essa música? Qual a lógica dessa setlist? – grita para ninguém, o jovem embriagado que ria divertidamente, contudo, não trocou a música e já balançava a cabeça no ritmo da batida.

    Alfred deixa a melodia continuar e lembra da festa que acabou de sair. Várias garotas bonitas por lá, conseguiu diversos números, alguns devem até ser verdadeiros, foi um evento incrível. A bebida era servida a vontade e totalmente inclusa no preço do convite. Deve ter tomado uma garrafa inteira de Jack Daniels e não ligava. Transou com a garota mais gostosa dali atrás de um banheiro químico, só não lembra se usou camisinha ou não. Provavelmente a garota não lembraria dele no dia seguinte também. Não conseguia lembrar se ela lhe deu o número de telefone ou não. Não importa, estava no topo do mundo a 115km/h.

    Um vulto branco passa rápido no cruzamento, ele aperta o freio com os dois pés e joga o carro para a direita. Não deve ter tido um centímetro entre seu carro e aquele BMW. O filha da puta do outro carro nem desacelerou, nem buzinou e nem nada, apenas continuou com o pé no acelerador.

    - Babaca!

    O carro morreu, isso só aconteceu porque Alfred esqueceu de desengatá-lo ao levantar de seu banco, para xingar o outro motorista. Não tem problema, girou a chave na ignição e continuou seu caminho. O celular preso ao para-brisa por um ventosa, dizia a localização das blitzes e radares de velocidade, passava um pouco das duas da manhã e até agora nenhum problema. Voltou a acelerar e testou toda a potência de seu motor 2.0. Chegou aos 125km/h, talvez um pouco mais, não conseguia ter certeza em seu velocímetro analógico, que apresentava-se, estranhamente, embaçado. Passou pelo próximo cruzamento como um raio, no segundo decidiu diminuir um pouco, já no terceiro desacelerou para 70km/h.

    O solo de bateria inicial do First Date do Blink 182 começara. Ele acompanhou com seu pé e nas mãos, embora nunca tivesse chego perto de uma bateria na vida. Foi quando viu faróis brancos vindo da sua direita. Tentou brecar e perdeu o controle. A tentativa de bateria, bebida e manobra rápida não foram uma boa combinação. Bateu no poste à sua esquerda com força. O air bag não funcionou, sua testa encontrou a direção com força. Ficou grogue por alguns instantes, pelo menos vivo. O cinto lhe ajudou, provavelmente, salvou-lhe a vida.

    Ficou sentado ali no banco do motorista, passou a mão na testa e sentiu o úmido grudento de seu sangue. Ele tem um pano no porta luvas, é uma flanela velha

    (dane-se deve servir).

    Coloca pressão ali e não percebe que a música ainda toca no volume máximo, então fecha os olhos. Ele não reparou os dois homens do lado de fora de seu carro.

    2

    - Cara, você tá vivo?

    - Cara, você tá vivo!?

    - CARA, VOCÊ TÁ VIVO!!!!!!!!?

    Alfred olha para a esquerda e desliga o som do carro. Ele vê dois sujeitos morenos, com os braços cheios de tatuagem. Em um deles outras tatuagens eram visíveis no pescoço e no rosto. Vestiam regatas pretas, um de boné azul e outro de gorro preto. Ambos usavam óculos escuro para o Sol das duas da manhã. Do carro deles conseguiu ver fumaça saindo pelas portas e um cheio de mato queimado no ar.

    - Droga! Que merda que eu fiz - diz Alfred saindo do carro. - Vocês estão bem?

    - Sim, nós brecamos a tempo. Para falar a verdade, se você tivesse seguido reto nada teria acontecido.

    - Bom saber, da próxima vez vou correr mais – diz Alfred rindo sozinho.

    - Cara, isso é sério, você podia ter se matado, olha como está sangrando. Olha como seu carro está detonado.

    - Estou vendo. E vejo que nada aconteceu com vocês, não é?

    - Não é bem assim, tivemos que usar bastante nosso freio, dá para ver a marca no asfalto. Estávamos indo para um racha e agora não chegaremos a tempo, também não é bom arriscar com os pneus gastos. Ficamos uns 30 minutos gritando com você, até conseguir te acordar!  Achei que tinha morrido. Cara, vamos perder muita grana por sua causa

    (eu desmaiei? Tenho quase certeza de que não. Mas talvez sim)

    - Não se preocupe. Quanto você costuma ganhar nesses rachas?

    - Facilmente uns 2000 reais por noite. Nosso carro é um dos campeões e atração de lá.

    - E quanto custa os pneus novos?

    - Acho que conseguimos o conjunto por uns 700 reais.

    (um pouco caro, não? Quanto dinheiro estão me tirando aqui? Foda-se, eu tenho de sobra)

    - Você tem conta? – diz Alfred lhes mostrando o celular na tela de transferência com o valor de 5.000 reais.

    - Cara esse valor está ótimo – diz o outro motorista digitando sua conta.

    - Espero que compense vocês por qualquer inconveniente. E aqui está o meu cartão caso tenham algum problema. Minha assistente irá lhes ajudar.

    - Tá na paz, irmão. Precisa de carona ou alguma coisa?

    - Não, acho melhor esperar aqui pela ambulância, afinal, bati a cabeça bem forte.

    A dupla vai embora em seu Mitsubishi Lancer preto que solta uma pequena labaredas pelo escapamento

    (Essa foi por pouco)

    Sim, Alfred. Foi por pouco, mas foi a última que você escapou por causa de seu dinheiro...

    3

    O cruzamento que Alfred se encontrava era delimitado por quatro fábricas abandonadas e seus longos muros altos, pichados, de tijolos com arames farpados, enferrujados, no topo de seus cerca de 5 metros. O asfalto daquela região era bem castigado, repleto de buracos

    (fui louco de correr tanto por aqui),

    o poste em que bateu não sofreu muitos danos, o que era bom, se ele caísse era tchau, tchau, querido Alfred.

    Pegou seu celular e ligou para o serviço de emergência. Todas as linhas ocupadas (MERDA!), então sentou em seu carro e ligou o som novamente. Abaixou o volume, cogitou que seria melhor não incomodar ninguém na região, e abriu uma garrafa de cerveja da pequena caixa que comprou no mercado, depois que saiu da festa. Não estavam muito geladas. Contudo, aquele primeiro gole foi saboroso e voltou em um arroto alto, seguido de risadas. Os goles seguintes desceram bem também, era o mais importante, logo, metade do líquido maravilhoso daquela garrafa já havia sumido.

    - Quanto tempo tenho que esperar essa porcaria de resgate!? – gritou para ninguém.

    Pegou o celular de novo e viu sua barra de sinal vazia. Tentou ligar para a emergência, mesmo assim, e nada conseguiu.

    - PORRA! Porcaria de celular! Acabei de usar, como pode perder os sinal assim?

    Tentou reiniciá-lo. Sua paciência se esgotava rapidamente. Quando isso não deu resultado jogou-o no banco de trás com raiva e sentou no porta malas terminando sua cerveja, arremessando a garrafa contra um muro e  abrindo a segunda.

    O vento soprava gentilmente um ar frio, mas não era uma sensação desagradável. Uma persiana balançava na fábrica e batia contra a parede bam....bam.... BAM! BAM! Esse último ruído soou bem mais forte e chamou a atenção de Alfred. Então olhou para trás e viu a persiana caindo. Era uma altura considerável e ao acertar o chão fez um estrondo ensurdecedor. Sem perceber sua reação, tampou os ouvidos e fez uma careta, como qualquer pessoa assustada faria, e logo se recompôs, contudo a cerveja respigara em sua camisa clara.

    Ia xingar novamente, quando ouviu um choro infantil...

    - Meu Deus, será que aquilo caiu em alguém?

    Alfred procurou seu celular no banco de trás, demorou um pouco para encontrá-lo no assoalho. A porcaria deve ter quicado e caído. Ligou a lanterna e procurou, em vão, alguma entrada ou portão naquele paredão de tijolos. Provavelmente o portão estaria na avenida principal e teria que dar a volta naquele quarteirão enorme. Com isso em mente, resolveu se aproximar do muro para analisá-lo mais de perto.

    - Tem alguém ai? Precisa de ajuda? – Gritou para o além.

    - Socorro... – respondeu uma voz frágil – Por favor, me ajuda...

    - Estou indo, não se preocupe!

    Olhando ao redor viu uma grande fissura no muro e se aproximou, reparou que, na verdade, era um buraco de tamanho considerável, grande o suficiente para se passar, abaixado e um pouco espremido. Deixou sua garrafa na calçada, com cuidado para que não caísse, e se esforçou um pouco para caber naquela pequena passagem.

    Do outro lado viu o cimento interminável no chão, todo rachado. Em alguns pontos era clara a batalha entre homem e natureza, pois pequenas plantas lutavam contra aquele solo cinzento, tentando se erguer e algumas conseguiam. Também via lixo espalhado, em sua maioria garrafas de plástico, isopor e um colchão de casal. Imaginou como alguém poderia ter jogado aquilo por cima daquelas muradas enormes.

    Andou com cuidado, com seu celular iluminando o caminho. Não deveria estar longe de onde a persiana caíra e não via nenhum sinal dela ou da criança.

    - Cara, eu bebi demais ou isso está ficando estranho? Melhor ir embora daqui! – murmurou em voz baixa.

    Alfred acelerou seu passo e foi acompanhando o muro para encontrar sua passagem de volta e o caminho para seu carro. Andou e andou, até chegar onde os dois muros se encontravam em 90 graus e não viu aquele maldito buraco.

    - Eu tenho certeza de que ele deveria estar aqui! Não andei tudo isso. Mas que porra. – resmungou, chutando um tijolo exposto.

    Seguiu seu caminho na direção contrária, dessa vez mais devagar e examinando o muro com cuidado. Não havia nenhum sinal de dano algum.

    - AAAAAAAHHHHHH!!! – era um grito alto e agudo, vinha de dentro da fábrica.

    - O que foi isso? – disse Alfred encostando suas costas contra a parede.

    Achou estranho que o muro pareceu fofo quando encostou. Então virou-se, devagar, afastando-se dois passos. Viu que agora os tijolos sumiram, ou ficaram cobertos de grama vertical e musgo.

    - O que? – Diz Alfred incrédulo – Como isso é possí...

    - SOCORROOO! ELE ME PEGOU!

    Foi um grito apavorado, como Alfred começava a se sentir. Ele tinha que sair dali de alguma maneira, não poderia escalar aquele paredão, teria que encontrar um acesso à rua. E o único jeito era atravessando aquela fábrica sombria...

    4

    Uma ponte estreita levava à uma pequena porta de ferro, fechada por uma corrente com um cadeado, que provavelmente era o maior que Alfred vira em sua via. Não conseguiria entrar por ali. Certamente era a rota mais rápida, provavelmente, apenas uma linha reta até o outro lado da fábrica. Espiou lá dentro e era possível ver a porta de saída do outro lado. Tentou chutar aquela porta algumas vezes, sem resultados. Agora seria necessário descer naquele fosso e tentar alguma passagem pelo subsolo.

    Não foi preciso muito empenho para descer. Tratava-se de uma altura de uns três metros e era possível descer por uma espécie de escada escavada na terra. Dali encontrou uma outra porta. Esta era de madeira frágil e seu estado de conservação era péssimo, sendo visível sua podridão. Com cuidado, puxou-a sem nenhuma resistência e conseguiu adentrar na fábrica escura.

    O subsolo da fábrica era composto por diversos corredores e muito deles levavam a fornalhas e caldeiras, Alfred imaginou que foram utilizadas pela última vez meio século atrás.

    Caminhando por aquele prédio, ouvia-se ratos se movendo rapidamente a procura de comida

    (espero não virar essa comida)

    e teias de aranha a toda volta, o que gelava a espinha de seu visitante. As paredes em tijolos deveriam ser lindas à luz dos raios de sol da região, contudo, nesta escuridão, mesclado com musgo e teias, formavam uma cena arrepiante.

    - Por favor... me ajude... – soou como um sussurro no além.

    - Quem está ai? Onde posso te encontrar?

    Não houve resposta.

    Alfred seguiu seu caminho no labirinto que era aquele piso inferior, quando sentiu um calor intenso e observou um clarão vigoroso a sua frente. Era uma fornalha acesa. Aquilo não fazia sentido, porém, contra todos os seus instintos, ele foi verificar o que acontecia.

    Chegou até a fornalha e o cheiro horrível de carne humana queimando invadiu suas narinas como um soco. Olhou para o lado e viu uma pequena criança, branca como a neve, com ambas as cavidades oculares escavadas e metade de seu crânio exposto. Jazia ali, deitada no meio das chamas. Seu rosto pendeu para o lado, como se olhasse diretamente na alma de Alfred.

    -AAAAAAAAAAHHHHHHHH

    O grito era ensurdecedor, Alfred se jogou para trás, bateu com as costas na parede e caiu sentado. Foi quando diversas crianças surgiram daquele fogo infernal. Todas brancas como a neve, mesmo sujas, com tufos de cabelo saindo de partes da cabeça, crânios expostos e muitas com membros faltando como braços ou pernas. Era possível ver marcas de mordidas que arrancaram pedaços de barriga, peito ou pescoço. Outras marcas pareciam ser de pancadas e outras ainda eram similares a cortes profundos. A cena era aterrorizante e todas encaravam o intruso em absoluto silêncio, interrompido apenas pelo crepitar das labaredas.

    - Meu Deus, o que é isso? – disse Alfred levantando-se rapidamente.

    Não sabia para onde ir. Por um instante pairou a dúvida se arriscava voltar e tentar outro caminho ou se seguia mais a fundo naquela fábrica macabra.

    - Foda-se, vou voltar, é mais seguro lá fora!

    De súbito, todas as crianças pareciam gritar de pavor, um gritos agudos e aterradores. Alfred tampou os ouvidos e começou a se dirigir para o caminho de onde viera. Foi quando avistou outro ser. Aquela criatura deveria ter dois metros de altura, com formas semelhantes a de um homem. Observou que sua boca era costurada, os olhos eram brancos e o rosto tinha marcas de queimaduras intensas, além de cortes profundos. Vestia um sobretudo rasgado, velho e sujo que cobria toda a imensidão que era seu  corpo. Também, arrastava, vagarosamente, uma espécie de martelo enorme no chão, atrás de si. O ruído que emitia fez com que as pernas de Alfred tremessem fora de controle, seu coração palpitava descoordenadamente e a criatura veio em sua direção.

    Sua opção agora mudara, Alfred seguiu correndo para o desconhecido. O caminho a sua frente bifurcou, escolheu a direita e correu mais alguns metros, até perder completamente o fôlego. Parou e colocou a mão dos joelhos para recuperar o ar.

    Sentiu uma tremida de seu celular e viu uma barra de sinal. Não perdeu tempo e ligou para a emergência. Foi em vão, o sinal logo caiu novamente. Contudo, a iluminação de seu smartphone mostrou que ele entrara em um fornalha, uma espécie de cômodo enorme, circular com apenas duas saídas. A porta pela qual ele entrara e o topo da chaminé, com mais de cem metros de altura. Tentou voltar pela porta que acabara de utilizar, deu o primeiro passo, cauteloso, em sua direção, e quando deu seu segundo naquela direção, a porta ela se fechou em uma batida forte a alta.

    Correu para tentar abri-la, mas parecia trancada. Forçou-a de todas as maneiras e a maldita coisa não se movia. Um tijolo caiu ao seu lado levantando uma pequena nuvem de poeira.

    - Droga, esse lugar está caindo aos pedaços.

    Iluminou ao seu redor para ter certeza de que não havia nada nem ninguém por ali, também tentou encontrar uma outra saída, não viu coisa alguma. Apenas uma porta, tijolos e o céu acima dele, agora, cheio de nuvens carregadas.

    - Há quanto tempo estou aqui? O céu estava limpo quando entrei na fábrica. – resmungou baixinho.

    As primeiras gotas de chuva encontraram seu rosto. Trovões eclodiam no céu. Uma tempestade logo se formou. O chão da fornalha também era de tijolos com poeira ou areia, Alfred não sabia diferenciar em seu estado, mas viu pequenos ralos então a chuva não seria um problema muito grande.

    Seu telefone vibrou em seu bolso. Ele sempre deixava aquela coisa para vibrar, não gostava de atrapalhar os outros com seus toques espalhafatosos e, se fosse bem sincero, gostava de ter uma desculpa para ignorar ligações. Entretanto, era um número desconhecido. O temor em seu estômago lhe dizia para não atender, todavia, sua teimosia e curiosidade venceram...

    - Alô?

    - Boa noite, já temos sua localização e enviaremos a ambulância para seu acidente o mais rápido possível – era uma voz feminina simpática e amigável.

    - DEUS! Muito obrigado.

    - De nada, Alfred...

    - Espera ai, como você sabe meu nome?

    -...

    Tuuu tuuu tuuu

    A linha caiu.

    5

    A chuva apertou, tornando-se quase uma tempestade e ensopou Alfred. O frio era intenso e ele começou a tremer encolhido em um canto

    (só espero que essa fornalha continue desligada, não quero acabar como aquele garoto...)

    e torcia para que a chuva parasse. Sua sanidade sentia a dificuldade de entender o que acontecia. Crianças apareciam e gritavam, uma criatura medonha o perseguiu, aquela chuva não poderia ter começado tão rápido e a porta fechara à sua frente, sem nenhuma alma por perto.

    (Estou sonhando? Estou louco? Ainda estou desmaiado em meu carro?)

    Alfred sabia que tudo aquilo que acontecia era a mais horripilante realidade e isso lhe embrulhava o estômago, sentia vontade de chorar, raiva e era completamente incapaz de mentalizar qualquer solução. Contudo, sentia-se seguro naquela fornalha, pensou que o pior passra, até ouvir aquela voz feminina e suave, mas apavorante.

    - Alfreeeeeed..... Alfreeeeeed...

    - Quem está ai?

    - Aposto que você não se lembra mais de mim....

    Ele olhou para trás e viu uma mulher, ligeiramente familiar, com metade do cabelo na altura dos ombros, e a outra metade não existia, via apenas seu escalpo, com o crânio amassado e sangue escorrendo, vagarosamente, por fissuras em toda sua cabeça. Seu rosto era desfigurado, com ferimentos profundos, os lábios rasgados, mas ainda se mostravam carnudos e, de certa forma, vívidos.

    (seria possível que essa mulher desforme use batom?)

    Vestia uma calça jeans rasgada, andava mancando pois seu fêmur direito aparecia para fora da coxa, seu tornozelo esquerdo fazia pelo menos duas curvas erradas e seu pé era virado para trás. Ela tinha apenas um braço, sua mão era incrivelmente impecável e delicada, com suas unhas pintadas por esmalte rosa e sua camisa preta do Ramones, rasgada e suja, expunha parte de seu intestino dentro de sua barriga.

    - Que confusão você se meteu querido Alfred. E dessa vez seus amigos ricos não irão te salvar.

    - Quem é você?

    - Não se lembra do seu pequeno acidente, dois anos atrás?

    - Mary? Você morreu. Eu não pude fazer nada, liguei para a ambulância, eles disseram que não havia nada a ser feito.

    - Eu ainda respirava... Podia ser salva... Eles te conheciam, sabiam que era melhor sumir comigo...

    - Eu.. eu... eu sinto muito Mary... O que vai fazer comigo?

    A mulher se aproximava, morosamente, em um caminhar que beirava a sensualidade, embora mancasse acentuadamente.

    - Eu não vou fazer nada Alfred... Você já fez tudo o que podia por mim. Mas fique tranquilo, não busco vingança, sei que ela chegará em breve, não precisa ser pelas minhas mãos, não meu querido. Você sempre dirigiu bêbado, não é? O dinheiro sempre te livrou de tudo, não é?.... Quem você irá subornar agora? Deus? O diabo? Não Alfred, não... Nenhum deles está aqui esta noite. – sua voz mantinha-se em um tom baixo e suave, quase um sussurro sinistro aos ouvidos.

    O rosto daquela mulher encontrava-se a centímetros de Alfred. O horror daquela pessoa, daquela face macabra, lhe paralisou. Balbuciou alguma reza, não tinha certeza se as palavras eram as certas, aprendera quando era criança e sua mãe o obrigará a fazer a catequese. Não sabia há quanto tempo fora isso, apenas sabia que se tratava de uma época longínqua, quando ainda acreditava em um Deus maior do que o dinheiro.

    A criatura lhe deu um beijo no rosto, a sensação era gelada e o lábio parecia, simplesmente, errado. Também sentiu alguns vermes ou insetos estranhos rastejarem dela para ele e rapidamente teve sua cabeça completamente cercada por esses seres nojentos. Em um acesso de pânico Alfred tento expulsá-los com a mão e, sem se dar conta, tropeçou em si mesmo e bateu a cabeça na parede de tijolos.

    Acordou, minutos depois com o barulho de um novo trovão, sem saber quanto tempo se passara (espero que não tenham sido horas). Passou a mão no rosto para se certificar de que não havia mais nenhum inseto por ali e viu que seu super cílio abrira novamente. Olhou para cima e abriu a boca, sua sede era enorme e não parecia ter problema algum beber água da chuva, aproveitou para esfregar seu ferimento. Foi então que reparou na porta aberta. Poderia sair e não perdeu a oportunidade, correu o máximo que pode. Chegou novamente à bifurcação, imaginando que agora voltaria pelo caminho que veio.

    Seguiu aquela trilha apertada, começou correndo, mas, logo, andava vagarosamente, seu físico não era dos melhores. Finalmente alcançou a bifurcação novamente. Viu todas aquelas crianças bloqueando a passagem de volta, sentiu o desespero, seu coração bateu acelerado, suas pernas tremiam descontroladamente em pequeno compasso, por pouco sua urina não escapou. Seu suor era frio e deslizava em grande parte por suas costas, sentia sua camiseta grudando em seu corpo, neste ponto já não tinha certeza se aquele molhado que lhe cercava era por conta da chuva ou de sua transpiração que fluía ferozmente.

    O medo dominava seu ser e o sangue havia abandonado suas extremidades, assim, ficou pálido e de aparência frágil. Atrás das crianças que surgiram à sua frente avistou Mary, que apontou, delicadamente, para o caminho da esquerda, com um pequeno sorriso diabólico, como se dissesse “siga por ali, meu querido”.

    (não tenho outra opção)

    Alfred seguiu pelo caminho indicado. Logo, a escuridão consumiu seu redor, tentou alcançar seu telefone em seu bolso, mas não o encontrou (merda, deve ter caído quando bati a cabeça). Olhou para trás e viu aquele grupo sinistro parado, diversas crianças mórbidas e a aparição de Mary com aquele sorriso demoníaco, lhe observando de longe. Fixou seus olhos na mulher, apenas por um instante. O sorriso dela crescera, revelando a falta de diversos dentes. Então, ergueu a mão com o celular, aquele pequeno brilho de esperança, logo foi esmagado por uma mão frágil de um ser nefasto.

    Sem opções, Alfred seguiu seu caminho tropeçando e se erguendo até encontrar claridade. Chegou em uma passarela de metal que o guiou a uma escadaria e outra passarela. Essa era alta, passava perto do teto da fábrica. Lá de cima, de relance, viu a saída, bastava atravessar aquela passarela e descer a próxima escadaria. Seu coração se encheu de esperança, logo, poderia deixar aquele pesadelo para trás e seguir com sua vida.

    6

    A passarela se estendia por cerca de 100 metros, atravessando toda a extensão da fábrica e deveria ter, pelo menos, 20 metros de distância do solo. Alfred podia imaginar o capataz ali em cima, observando seus trabalhadores, mas aquela não era uma fábrica normal, agora ele sentia a energia maligna que aquele local emitia.

    (Quanto sofrimento se passou neste lugar? O que essas crianças sofreram? E por que Mary está aqui?)

    Nada fazia sentido, só que não se fazia necessário entender naquele instante, afinal, sua única preocupação era sair dali.

    Alfred se aproximava da escadaria para descer rumo à liberdade, contudo, sua visão era encoberta por uma coluna de tijolos. Não se importou, seguiu o mais rápido que pode, sem se importar com o barulho tenebroso que causava na passarela de metal, que balançava de maneira mais acentuada a cada passo.

    A escadaria jazia há apenas 1 metro ou 2 de distância, quando sentiu o impacto daquele martelo esfarelando os ossos de seu joelho direito. Alfred caiu, gemendo de dor e chorando copiosamente. Aquele ser enorme o encontrara. Pegou-lhe de surpresa e as lágrimas em seus olhos lhe impediram de ver o segundo golpe que destroçou seu ombro esquerdo.

    A dor se intensificava, contudo, não era hora de se preocupar com isso. Sua vida dependia de uma ação rápida. Com seu braço bom, rapidamente secou os olhos e,  em seguida, agarrou o corrimão da passarela. Usou toda a força que ainda tinha em seu corpo, usou sua perna esquerda para impulsionar seu corpo e ficou de pé. Conseguiu manter-se em um posição ereta, meio cambaleante, e o próximo golpe do martelo acertou o piso metálico, com um barulho aterrador .

    Pulando com uma perna só, gemendo de dor e se equilibrando com a mão apoiada no corrimão, Alfred retrocedeu pelo caminho que veio, apenas para ver Mary e algumas crianças do outro lado. Ela, sorrindo, fez o gesto de não com a cabeça.

    (Essa é sua vingança? Pelo menos aquela vadia morreu rápido, não posso acreditar que estava viva quando os médicos chegaram. Disse a verdade que não iria me matar? Talvez, prefira não sujar suas mãos mortas, não é?)

    O perseguidor de Alfred movia-se vagarosamente, contudo seus golpes eram intensos e faziam a passarela tremer. Logo aquela merda de estrutura velha iria desmoronar.

    (Se vou morrer, pelo menos controlarei como.)

    A criatura levantou seu martelo e golpeou o corrimão, errou o braço bom de Alfred, por pouco. E quando levantou para o próximo ataque, Alfred concentrou todas as suas forças e se atirou na direção dela, derrubando ambos daquela plataforma.

    Durante aqueles breves segundos de queda livre, Alfred abraçou a criatura e se posicionou acima dela. Isso não era importante, a dor já não era importante, a conta bancária recheada não era importante, a garota que fodeu no banheiro naquela noite não era importante. Se ia morrer, pensou em se redimir

    (desculpe Mary, eu acabei com sua vida de uma maneira tola e descuidada, mereço tudo o que me aconteceu nesta noite. Espero que algum dia possa me perdoar),

    mas não sabia como. Era tarde, o impacto com o chão veio, era possível ouvir a criatura se quebrando por dentro. De alguma forma, Alfred sobreviveu. Sentia suas costelas quebradas, claro, a dor incessante naquele joelho que não existia mais e no ombro, só que estava vivo e pôde sorrir ligeiramente.

    Com muito esforço, conseguiu virar com a barriga para cima e tossiu. Olhou aquelas crianças ao seu redor e Mary.

    - Mary, você está linda.

    Agora lembrava daquela mulher que atropelara dois anos antes. Não tinha certeza, mas talvez fosse perto dali. Lembrou de seu lindo cabelo negro, olhos negros e sardas. Alfred adorava sardas, não havia mais vermes ou lesões, quando olhou para ela ali perto de si, apenas uma forma linda, com seu jeans intacto e camiseta preta do Ramones, amarrada para mostrar aquela bela barriga torneada.

    - Obrigado tio. Você nos salvou.

    - Era isso? Vocês realmente queriam apenas a minha ajuda?

    - Sim, o grande Hammond era o capataz da fábrica, nos mal tratava há anos, ele pegava e destruía as crianças para sempre.

    Alfred tossiu duas vezes, sentiu um gosto metálico, mas não saiu sangue, talvez não estivesse tão mal assim. A ambulância logo chegaria e poderiam ajudá-lo. Voltaria para sua vida normal, negociando contratos, enganando clientes para que lhe pagassem mais e esbanjando seu dinheiro em festas chiques ou em bebidas caras. Encheu os pulmões de ar e expirou, a pontada de dor foi intensa, contudo, seus músculos conseguiram relaxar. Com certo esforço, e aos poucos, conseguiu se ajoelhar.

    - Fico feliz em ajudar. – tossiu mais duas vezes, dessa vez um pouco de sangue saiu em sua mão – tem algo mais que eu possa fazer?

    - Sim... Você pode morrer. – disse a criança abrindo a garganta de Alfred com seus dedos nus.

    7

    Eram 4h da manhã quando a ambulância chegou...

    - Central, chegamos ao local e não há nenhum veículo acidentado. Provavelmente foi apenas um trote, embora veja vidros no chão.

    - Confirmado. A noite está devagar, se quiserem dar uma olhada por mais alguns minutos, não farei oposição. Depois lembrem de ir para casa, seu turno acabou. Câmbio desligo.

    Frank olhou para seu colega Antony, com um sorriso peculiar.

    - Pro inferno com esse chamado. Não tem nada aqui.

    - Cara, há quanto tempo essas fábricas estão abandonadas?

    - Eu sou da região, elas tiveram um incêndio enorme há uns 70 anos, o pessoal da época não sabia ou não se importava, mas diversas crianças trabalhavam aqui, quase como escravas. Eram crianças de rua, e o dono da fábrica as pegava e colocava ai, uma história bem trágica e ninguém ligava. Se não me engano, todas morreram nessa época.

    - Acho que não tem nada aqui pra gente. Vamos embo....

    BAM!

    - Socorro... – respondeu uma voz frágil – Por favor, ajudem. Eu me machuquei – disse uma voz infantil.

    - Meu Deus Antony, parece uma criança dentro da fábrica, temos que ajudá-la!

    - Sim, rápido. Eu vejo uma fenda no muro, acho que podemos passar por ali, se nos apertarmos bem.

  • O Esquarterjador

    Eu caí em desespero. Vi meus punhos fecharem e a minha garganta secar ao me deparar com aquela cena. Ela estava morta, bem na minha frente. O corpo, caído ao lado da cama, todo ensanguentado, a cabeça espatifada e os braços esticados, igual Jesus Cristo na cruz. Não sabia o que fazer e como fazer. Comecei a caminhar de um lado ao outro daquele cômodo, mas parei de repente, com medo de que algum vizinho do andar de baixo pudesse ouvir aquela orquestra de passos regida por mim.
    Chamar a polícia não seria uma boa ideia, pois me colocariam como suspeito número um e isso me poria em maus lençóis. Ela estava ali. O corpo envolvido em sangue seco, os dedos dobrados e a camisola rasgada, quem a matou foi cruel e sem escrúpulos. Sentei na beirada da cama e fiquei ali admirando aquele cadáver e pensando em como resolver aquela terrível situação.
    Fui para a cozinha. Abri as gavetas e as portas dos armários na tentativa de achar algo que pudesse me servir para uma ideia que tive. Seria muito simples. Eu cortaria cada parte do corpo, meteria em alguns sacos plásticos, e sairia com os restos por aí, em seguida os jogaria bem longe, num lugar onde ninguém suspeitaria. Depois voltaria e limparia tudo. Nem a polícia, caso viesse investigar, conseguiria descobrir algo, de tão bem feito que eu fizesse o serviço.
    Armei-me com uma faca de cortar carne, daquelas bem grandes e com dentes afiados e uma serrinha de cor vermelha, aquelas eram as únicas coisas ao meu alcance naquele momento. Parti em direção ao quarto. Abri a porta. O corpo permanecia ali. Aproximei-me, me abaixei e olhei, mais uma vez para aquilo. Comecei a cortar. Felizmente não espirrou sangue. Minha roupa ficaria limpa, sem nenhum vestígio e isso seria mais um álibi a meu favor. Botei os braços e as pernas no primeiro saco. O tronco, dividido em três partes meti em outro e o que lhe sobrara da cabeça, inclusive os olhos azuis foi colocada em outra. Pronto, serviço feito. Com pressa desci as escadas, não esperei pelo elevador. Imaginem me deparar com algum vizinho. Eu com aqueles sacos nas mãos e ele ou ela me olhando desconfiado.
    Meu carro estava parado na vaga a mim reservada. Com um clique na chave abri o porta malas e enfiei tudo lá dentro. Entrei no carro, arrumei o retrovisor, olhei para trás e não vi pessoa. Virei à chave e o maldito veículo não ligou. Só faltava ter acabado a gasolina, mas o painel mostrava o contrario, tinha combustível o suficiente para ir até a lua e voltar.
    Finalmente o carro ligou e eu saí. A rua estava escura e uma floresta de prédios me envolvia. Nada de árvores, muito menos, de plantas, tudo cinza e triste. Desci com meu carro numa estradinha de terra batida, nenhuma casa, nem um sinal de vida humana naquele lugar. Parei e com os faróis baixos continuei com aquilo que me propusera a fazer. Cavei um buraco fundo e enterrei os restos mortais daquela pobre mulher. Bati com a pá em cima do túmulo, pisei e fui embora.
    Capítulo 2
    Estava tudo limpo, cheiroso e organizado. Era madrugada e finalmente poderia dormir. Seriam poucas horas de sono, pois toda aquela tarefa havia me deixado exausto. Despertei com o barulho do despertador do celular, peguei o aparelho, olhei para a tela e vi que eram sete horas da manhã.
    Calcei meus chinelos e vesti minhas calças, dormi sem roupa por causa do calor. Estava pronto para ir ao trabalho. Vestia um terno preto, sapatos da mesma cor e gravata num tom mais claro, cinza é a cor mais apropriada a se dizer. Cheguei ao escritório. Aquele prédio imponente, todo espelhado e a enorme fila do elevador.
    - Atrasado dez minutos, senhor Fabiano!- Era meu chefe, doutor Bernardo, um velho de mais se setenta anos, magro igual a um esqueleto e com os olhos grandes e saltados para fora do crânio.
    - Me perdoe! – Eu disse.
    - Tudo bem, mas que isso não se repita! - Falou ele me lançando aquele olhar desafiador.
    Comecei a trabalhar naquela empresa há pouco tempo. Desculpe, mas não me apresentei. Meu nome é Fabiano Batista, tenho 26 anos e sou contador, sim, formado em contabilidade, cálculos e mais cálculos invadem o meu cérebro diariamente. Com muito esforço consegui entrar nessa empresa, muita gente trabalha aqui, todos legais, com exceção do meu chefe, o doutor Bernardo Villela. Um filho da puta asqueroso e nojento, um comedor e menininhas, garotas essas que vem trabalhar com ele e que rapidamente são levadas para a cama com promessas de presentes e aumento de salário, coisa que nunca aconteceu.
    Minha mesa estava do mesmo jeito, uma bagunça sem igual. Um a um fui distribuindo oi, bom dia e como vai para todos os meus colegas de trabalho. Amigos? Bem, havia poucos, três para ser mais exato. O mais próximo era o Ruan, um rapaz da minha idade, gordinho e inteligente pra caramba. Os outros dois eram a Rose e a Kátia. O Ruan era apaixonado pela Rose, um espetáculo de mulher, loira, seios e bunda grande, o rosto bem redondo e os cabelos lisos. A Kátia, coitada, era o avesso, baixinha, com alguns quilinhos a mais e a pele do rosto bastante ressecada devido à falta de protetor solar.
    Liguei o computador e iniciei meu dia. Tinha muito trabalho a fazer e eu adorava, principalmente porque precisava apagar certas coisas da memória. Fechei os olhos por um instante e a imagem daquele corpo que eu não matei, mas esquartejei vieram na hora. Abri os olhos, assustado. Todos me olhavam, um deles me perguntou:
    - Tudo bem por aí, Fabiano?
    Tentando disfarçar a tensão, respondi:
    - Sim, tudo ótimo. Só foi uma tontura, mas já passou.
    O sujeito se deu por satisfeito e não me questionou mais, ainda bem. Não estava com vontade e muito menos paciência para ficar explicando certas coisas, principalmente sobre o que ocorrera em meu apartamento na noite passada.
    Capítulo 3
    Faltavam alguns detalhes para fechar o serviço daquele dia. Já tinha até passado da minha hora, mas tive que ficar mais um pouco devido ao meu atraso. Precisava ir, estava com sono e cansado. Meus braços doíam e as costas, pobre delas, pareciam que iriam se quebrar a qualquer momento. A dor era suportável até certo ponto, mas bastava me mexer um milímetro para tudo arder feito brasa quente na pele.
    Quase pulei de alegria quando vi a hora no relógio de parede da firma. Arrumei rapidamente a minha mesa, peguei minhas coisas e saí em disparada. Meu carro estava a minha espera e a minha cama também. Saí a toda velocidade; na rua pessoas saindo de seus empregos e indo embora para suas casas. Umas iam a pé, outras de ônibus e poucas iam de carro, ainda bem que eu tinha meu. Não era lá grande coisa, mas dava para me levar para onde eu quisesse.
    Abri a porta do apartamento e o encontrei tudo limpo e em ordem, nada de anormal acontecerá por lá, a não ser pela noite anterior, no entanto, isso era coisa do passado. Fui direto para o chuveiro, necessitava de um bom banho. Deixei a agua quente escorrer pelo meu corpo. Coloquei a cabeça embaixo da água e permaneci naquela posição por alguns minutos. A cabeça estava quente por culpa de um desgraçado que deixou uma moça morta dentro do meu apartamento.
    Já trocado eu fui arrumar algo para comer. Na geladeira havia apenas ovos e algumas salsichas, seria aquilo mesmo. Cozinhei as salsichas em uma panela pequena e fiz ovos mexidos, comi tudo vigorosamente. Fui para cama de banho tomado, barriga cheia e consciência tranquila. Dormi com os anjos.
    Capítulo 4
    Decorria mais de um mês desde que eu esquartejara aquela pobre moça. Coitada! Aquela tinha sido uma noite diferente de todas as demais noites desses meus vinte e seis anos. Lembro-me de ter dado uma festa para o pessoal do escritório e de ter bebido um pouco a mais da conta. Mas não me recordo de ver ninguém ser assassinado, também pudera como alguém no meu estado de embriaguez poderia se rememorar de algo?
    O trabalho no escritório de contabilidade ia muito bem obrigado. Os honorários foram tão bons que eu decidi convidar a gostosa da Rose para sair. Queria comer aquela mulher! O Ruan que se dane! Se ele se interessou por ela, mas não comeu primeiro, problema dele.
    Fiquei numa esquina próxima ao prédio do trabalho. Esperei por alguns minutos até ela surgir. Naquele dia ela estava mais deliciosa como de costume. Vestia uma saia de couro marrom, uma blusa branca que lhe mostravam bem seus seios enormes e usava um batom vermelho. Que espetáculo de mulher era a Rose.
    Ela entrou no carro e logo de cara consegui ver suas coxas, eram lisas e bem grossas.
    - Oi Fabiano, me desculpa pelo atraso. - Disse ela dentro do meu carro.
    Estava hipnotizado por aquela mulher, tanto é que demorei alguns segundos para responder.
    - Não tem importância. – Respondi.
    - Para onde nós vamos? – Ela questionou
    - Para um motel. – Respondi para eu mesmo, mentalmente. – O que acha de uma pizza?
    - Bem, acho uma boa, afinal hoje é sexta-feira.
    Liguei o carro e saímos. Conversamos por todo o trajeto. Ela me contou que morava com os pais e que teve poucos namorados, ou seja, eu estava ao lado de uma quase virgem. Rose tinha 23 anos, mais nova do que eu que tenho 26 atualmente.
    Parei o carro numa rua perto da pizzaria, desci, dei a volta pelo veículo e feito um Lord inglês abri a porta para ela. Rose riu da minha atitude, não por deboche, mas eu agi de forma estranha ao fazer aquilo. Queria agrada-la.
    Comemos e bebemos. Rimos e conversamos ainda mais. Aos poucos fui tentando convence-la de ir comigo para o meu apartamento, Rose era difícil, ou se fazia, não sei.
    - A gente mal se conheceu e você tá querendo me levar pra sua casa. – Falou ela, num tom nada agradável. Parecia estar me condenando.
    - Não é nada disso. – Disse eu. – É que nesse lugar não podemos ter nenhum tipo de intimidade.
    Foi aí que ela jogou o balde de água gelada sobre mim.
    - Mas eu não quero ter nenhum tipo de intimidade com você Fabiano. Sou tua amiga apenas.
    Não sabia o que falar. Estava literalmente sem chão naquele momento.
    - Tudo bem, me desculpe.
    Ela tirou um papel da bolsa e com ela limpou o batom dos lábios.
    - Por favor, se for possível me leve até a estação de metrô mais próxima. – Pediu ela.
    Tentando ser gentil e ao mesmo tempo tentando contornar a situação sugeri:
    - Posso te levar para casa, se quiser.
    - Não precisa, é só me deixar na porta de qualquer estação, que eu me viro.
    Fomos embora. Durante o caminho até a estação palavra nenhuma foi trocada, antes de sair, sem jeito, ela me deu uma boa noite que eu correspondi sem graça. Esperei ela sumir da minha vista para começar a dar murros de raiva no volante. Estava entorpecido de cólera.
    Dormi o resto da noite. Não queria mais saber de mulher por um bom tempo, a Rose seria uma delas. No dia seguinte, um sábado, despertei de meu sono, descansado e revigorado. Como não costumo ficar em casa durante a semana, a não ser à noite para repousar, decidi fazer uma faxina. Armado de balde, vassoura, rodo, pano de pó e produtos de limpeza, iniciei uma senhora faxina. Comecei pelo banheiro, passei pela sala, quarto e finalmente a cozinha. Estava orgulhoso de mim. Suado por causa do trabalho em casa, fui tomar um banho. Deitei no sofá e entediado resolvi sair para dar uma volta na rua, algo não muito bom martelava a minha cabeça.
    Capítulo 5
    Passou um bom tempo desde o fora que eu levei da Rose, e para a minha felicidade, isso se eu posso chamar assim, o Ruan, meu melhor amigo, também não se deu bem no flerte e levou um sonoro não. O problema é que o infeliz resolveu cantar a gostosa da Rose dentro do escritório. Assustado ele me confessou certa preocupação com um processo por tentativa de assedio.
    - Eu te avisei Ruan. – Falei, tentando dar uma de experiente no assunto.
    - Como eu ia adivinhar, me diz? – Perguntou ele.
    Dei uma breve olhada para os lados, me certificando de que ouvidos alheios não estivessem a nos ouvir:
    - Que fique entre nós. Mas há dias eu tentei levar ela para o meu apartamento. A convidei para ir a uma pizzaria. Conversa vai conversa vem, então resolvi dar o bote, tomei um belo de um fora. – Contei. – E tem mais Ruan. Mulheres como a Rose, não são fáceis de conquistar.
    Não me intrometeria mais no caso. O idiota do Ruan poderia muito bem resolver os problemas dele, da Rose, momentaneamente, eu desejava distância. A minha preocupação não era me ferrar junto com ele, e eu tinha coisa pra caramba para me inquietar.
    Depois de uma longa conversa na sala do senhor Bernardo, o dono da empresa, foi decidido que tanto a Rose a acusadora, quanto o Ruan, o acusado, não seriam demitidos, eles apenas trocariam de horário. Ela trabalharia pela manhã e ele no período da tarde, tudo resolvido, Ruan veio em minha direção, à camisa molhada de suor e o rosto vermelho de tensão.
    - E aí, como foi? Resolveu alguma coisa? – Perguntei.
    Aos poucos o semblante do Ruan foi melhorando e ganhando uma coloração mais agradável.
    - Sim! – Ele respondeu monossilábico.
    - Que tal uma cerveja depois do expediente? Você tá precisando relaxar. – Sugeri.
    - Não é uma má ideia, vamos sim, tem um bar aqui perto.
    - Combinado então. – Falei.
    O dia transcorreu normalmente. Nada de anormal dentro do escritório de contabilidade. Como sempre eu estava muito atarefado, tão atulhado de coisas a serem feitas, que mal eu pude olhar para os peitos da Rose. A piranha reclamava de assédio, mas dava motivo para tal. Andava sempre com saias curtas e com um decote enorme, deixando a vista dos homens seus belos atributos.
    A cerveja estava gelada e a conversa melhor ainda. O Ruan era um sujeito incrível. Bom de papo, inteligente, mas um verdadeiro Zé Mané. Vivia reclamando de falta de mulher, mas foi ficar, justamente, de olho na Rose. Mas fazer o que, não se pode mandar no coração alheio. Bebemos três ou quatro cervejas, não me recordo. Fomos embora juntos em meu carro. No trajeto, visivelmente embriagado, fui obrigado e ficar ouvindo seus intermináveis lamentos.
    Capítulo 6
    Conheci o meu chefe na faculdade de contabilidade. Bernardo Villela foi um dos meus professores ao longo de todo o curso, um excelente educador, mas um tremendo de um mau caráter. Se na sala de aula ele era o cara rígido com seus alunos, da porta pra fora ele mostrava sua verdadeira face. Bernardo tinha como costume convidar alunas para sair, algumas aceitavam tantas outras, não. O velho era insistente em suas investidas. A armadilha era armada por ele da maneira mais torpe possível. As presas favoritas eram as alunas com notas baixas, que necessitavam de uma ajudinha do professor para passar tranquila no semestre, e muitas das garotas se sujeitavam a transar com o desgraçado em troca de uma nota.
    Ele as levava para um apartamento longe dos olhares dos mais curiosos e ali ele realizava suas fantasias. O maldito concretizava suas libertinagens, mas muitas garotas afirmavam em alto e bom som que o velho babão era ruim de cama e que tinha o pau pequeno, o que gerou em toda a faculdade o apelido de peru mole. Bernardo odiava ser chamado pelo apelido, mas a coisa pegou tão forte que outros professores começaram a chama-lo assim.
    Minha relação com ele era de professor e aluno, nada mais do que isso. Logo após me dar aula, ao final de mais um semestre, me convidou para uma cerveja, e lá me fez o convite. Trabalharia no escritório dele, um dos maiores da cidade, quiçá, do país.
    Pensando que os convites para noites de sexo se restringiam somente ao âmbito acadêmico, me surpreendi ao descobrir que ele fazia o mesmo com algumas de suas funcionarias.
    Depois disso sempre fiquei com um pé atrás com ele. Não gostava do modo em que olhava para as pessoas, inclusive seu olhar para com as mulheres me causava nojo e repulsa. Por vezes vi a Rose sair da sala dele totalmente sem graça e desconcertada. Mas infelizmente não podia fazer nada. Acusar o velho de algo seria assinar minha sentença de morte e o fim do meu futuro profissional. Bernardo era conhecido no meio de todos os contadores e um telefonema dele para qualquer um de seus amiguinhos poria minha carreira em risco.
    Por diversas vezes o vi sair de carro com varias secretárias, o destino, claro, era o apartamento do filho da mãe. De lá elas saiam enojadas e ele ficava feliz e satisfeito por ter traçado mais uma, entre tantas de sua enorme lista. Mas porque elas nunca o denunciaram? Fico com essa pergunta sem resposta, porém, levanto algumas hipóteses. Ameaça? Medo? Exposição? Ou ele simplesmente comprava o silêncio de cada uma delas?
    Capítulo 7
    Cheguei ao trabalho e logo de cara percebi uma movimentação um tanto quanto estranha. Meus colegas de escritório formavam uma roda e conversavam sobre algo que a principio eu não compreendi. Curioso para saber do que se tratava me aproximei para ouvir a conversa.
    - Como assim desaparecida? – Disse um de meus colegas, um magrinho de óculos e bigode mal feito.
    - Faz um tempo, ela simplesmente nunca mais veio trabalhar. O doutor Bernardo ligou para ela tentando encontra-la, mas até o momento nenhum sinal.
    Deixei o papo rolar entre eles, esperando uma boa oportunidade de colocar a minha colher no meio daquilo tudo.
    - Quem é essa moça de que estão falando? – Perguntei.
    - A Patrícia. Lembra-se dela? – Disse uma moça de cabelos curtos e loiros e olhos bem azuis.
    Então comecei a puxar pela memória, mas não recordava de nenhuma Patrícia. Aquele escritório era muito estranho, pois havia um rodizio grande de funcionários, principalmente mulheres.
    - Sinceramente não me lembro. – Disse eu enquanto me afastava do burburinho.
    Foi aí que veio um misto de susto, surpresa e pitadas de taquicardia. A moça loira de cabelos curtos sacou o celular e mostrou-me uma foto da tal Patrícia, tal qual foi a minha surpresa ao perceber que se tratava justamente da moça que apareceu morta em meu apartamento.
    Meu coração disparou. Tudo começou a rodar feito carrossel e eu simplesmente apaguei. Acordei com o Ruan, a Katia e a Rose quase que em cima de mim. Faltava-me ar, me faltava explicações, só me sobravam medo e desespero. Aquele povo em cima de mim não me deixava respirar. Já recuperado e devidamente sentado em uma cadeira confortável e com um copo de água na mão, comecei a ser interrogado pelos colegas.
    - Você saiu com essa moça? – Alguém perguntou.
    - Não, não sai. – Respondi.
    Veio outra pergunta e mais outra resposta negativa. Duvidas e mais duvidas e eu ficando cada vez menos a vontade com toda a situação. Não sabia mais o que fazer, até que o Ruan intercedeu por mim. Com seu jeito gentil e educado foi aos poucos tirando aquela gente chata do meu caminho. Mas quando eu pensei ter me livrado de um milhão de problemas, eis que o meu anjo protetor, meu salva-vidas se senta ao meu lado e dispara:
    - Essa moça estava em seu apartamento naquela noite da festa, não estava?
    Não poderia mentir, verdade seja dita, não teria como. O Ruan ficou com aquela moça, mas foi embora, ou pelo menos eu penso assim, entretanto eu estava totalmente embriagado, não me recordo de certas coisas realizadas naquela maldita noite, regada a bebida, cigarro e muitas drogas.
    - Estava sim, mas depois eu não a vi mais. – Inventei uma desculpa qualquer. Por nenhuma hipótese não poderia dizer a ele: meu caro amigo Ruan, sim, eu vi a Patrícia, morta, toda ensanguentada e com a cabeça espatifada feito melancia quando cai no chão. Mas foi evidente que menti e omiti a esse respeito.
    - E como ela foi sumir assim tão de repente? – Ele perguntou.
    - Não sei. Só sei que preciso comer. Não coloquei nada na barriga ainda. – Falei, mentindo sobre tudo, inclusive sobre a fome.
    . Saímos juntos para comer. Durante o breve lanche o assunto foi a Patrícia. Só o meu amigo falava e eu de boca cheia concordava com tudo, tentando disfarçar a tensão estampada em meu rosto.
    Capítulo 8
    Os dias pareciam tranquilos desde os derradeiros acontecimentos. Abri a janela do apartamento. O sol brilhava e os raios solares vinham em minha direção, tudo estava bonito e calmo. Na rua pessoas passeavam com seus cachorros, casais andavam de mãos dadas e um silêncio gostoso invadia meu ouvido me convidando a voltar para cama. Era meu dia de folga e fazia um bom tempo que isso não ocorria, e eu precisava aproveitar a oportunidade para sair um pouco.
    Vestido com uma bermuda da cor creme, camiseta branca agarrada ao corpo e sandálias, sai pela rua. O carro ficaria na garagem, iria a pé para algum lugar, um parque, sei lá. Apesar de morar em uma grande cidade, às vezes eu ouço o canto de alguns pássaros. Não sei especificar quais, porém, é bom escutar a natureza de vez em quando.
    Desde o sumiço da Patrícia minha cabeça anda a mil por hora. Por que ela foi aparecer morta no meu apartamento e por que eu fiz a besteira de sumir com o corpo? Sentado em um banco de cimento, em uma praça perto de casa, comecei a analisar os fatos. Quem eu convidei para aquela festa? Provavelmente o pessoal do escritório inteiro, menos o doutor Bernardo. Será que os meus convidados levaram alguém de fora? Talvez.
    Levantei-me. De longe avistei um homem e seu carrinho de sorvetes, fiz um sinal, o homem parou e eu fui a sua direção. Comprei um picolé e continuei andando, o sol cada vez mais forte e a pela queimando, não passei protetor solar, muito embora não tivesse um. Resolvi voltar para a casa.
    Já em meu apartamento liguei o rádio numa altura suficiente para não incomodar o vizinho de baixo, uma velha de uns oitenta e tantos anos, seu nome era Quitéria e sofria de reumatismo, doenças de gente igual a ela. No som tocava um rock antigo, Led Zeppelin, Stones... não tenho ideia, só sei que a melodia era muito boa. Comecei a dar uma ajeitada na bagunça, meu quarto estava um verdadeiro caos. A cama desarrumada, e algumas camisas jogadas pelo chão. Aos poucos fui recolhendo a roupa e dando um jeito no meu leito de dormir. Tudo estava devidamente em seu lugar, só restava agora relaxar, abrir uma cerveja e assistir televisão.
    Capítulo 9
    O tempo passou e o assunto Patrícia sumiu das bocas e das rodinhas de fofoca do escritório. Mais ninguém ousava ao menos pronunciar tal nome. Se ela sumiu, o problema era da família e posteriormente das autoridades competentes. Não havia nada a fazer, e eu em meu lugar só esperaria, com certa cautela, pois fui o responsável pelo sumiço do corpo, entretanto, não tenho participação alguma com seu triste fim.
    Ruan veio falar comigo. Vestia uma camisa rosa e gravata de um tom mais escuro, suas bochechas estavam vermelhas e seu andar engraçado.
    - Tudo bem parceiro? – Perguntou ele enquanto me dava um leve tapinha nas costas, algo que eu detestava.
    - Sim, estou ótimo! A folga me fez bem, estava precisando, o serviço anda meio puxado, como pode perceber. – Falei, mostrando a correria dentro do escritório.
    Ruan olhou, fez cara de estar pouco ligando para a situação.
    - Tem razão Fabiano. – Ele disse por fim. O vi se afastar e levar toda aquela banha nojenta para longe de mim.
    Fiquei ali no meu lugar, com meu computador, minhas coisas. De longe a Katia me deu um oi e eu retribui o gesto. A gostosa da Rose me deu uma piscada bem safada seguida por um sorriso que me fez por pouco não cair da cadeira. Tudo ia bem, até o doutor Bernardo surgir ao lado de dois homens desconhecidos por mim.
    Os três caminhavam lado a lado e pareciam vir em minha direção. A mão começou a suar e o coração a bater um tanto quanto confuso. Tremi. Senti a mão de o velho encostar-se a meu ombro:
    - Oi Fabiano! Quero lhe apresentar os senhores Duílio e o doutor Saavedra. - O primeiro era alto e gordo, a barriga cobria a cinta que segurava a calça, o outro era o oposto. – Eles são investigadores de polícia e vieram até aqui para te fazer algumas perguntas.
    Fudeu! Lasquei-me! Estou frito! Vou ser preso! Não poderia demonstrar o mínimo sinal de nervosismo. A voz deveria ser firme e as minhas respostas tinham de passar o máximo de confiança possível, e o meu álibi precisava ser o melhor dos melhores.
    - Podemos conversar em particular? - Questionou um deles, o mais magro.
    - Claro!
    Levantei-me e apontei para uma das varias salas ao redor do escritório. Fui à frente e os dois me seguiam. Notei o olhar de julgamento de ambos para mim, o jeito como me encaravam me dava medo. Já na pequena sala composta por uma mesa redonda, cadeiras almofadadas, um telão que era usado eventualmente para chamadas de vídeo conferência. Convidei-os a sentar e lhes ofereci café de uma maquina presa na parede perto da porta.
    - Bem. – Os dois me olhavam mais ainda.
    - Muito bem- Disse um deles, o sorriso sarcástico no rosto e os olhos injetados de cólera a me observar como uma presa fácil. – O seu nome é Fabiano Batista, correto?
    - Sim senhor.
    - Tem 26 anos, nasceu na Bahia, e atualmente mora...
    - Tatuapé. - Completei.
    - Isso mesmo. - Complementou.
    Enquanto o Duílio me perguntava, o Saavedra parecia estar no mundo da lua. Ele olhava insistentemente para o teto e batia com os dedos na mesa, e isso me irritava, mas era obvio que eu não podia demonstrar.
    - Como e quando o senhor conheceu a senhorita Patrícia Andrade?
    - Ela trabalhava aqui.
    - Alguma vez conversou com ela, dentro ou fora do ambiente de trabalho?
    - Aqui quase todos os dias, pois sempre trocamos informações uns com os outros, isso é normal por aqui.
    - Entendi.
    - É verdade que o senhor deu uma festa em seu apartamento e que a senhorita Patrícia era uma das convidadas?
    - Dei sim, e além dela estavam também outros colegas da firma, só o doutor Bernardo que não.
    - A festa tinha algum objetivo? Era seu aniversário?
    - Não. Faço aniversário em outubro, dia quatro.
    Ok! Todas essas pessoas aí fora participaram da sua festa?
    - Todas. Menos aquela moça ali. – Falei apontando para a secretária nova, uma jovem de cabelos loiros e corpo roliço, seu nome era Helen.
    - Correto. Você suspeita do que pode ter acontecido? Se ela tinha algum relacionamento? Consta aqui nos autos que ela havia terminado um namoro poucas semanas de seu desaparecimento. Alguma vez o senhor ouviu ou viu alguém aqui do escritório mencionar algo a respeito?
    Parei para pensar. Então respondi.
    - Sinceramente não. Chego aqui, faço meu serviço, pego meu carro e vou pra casa. Às vezes convido o Ruan, meu melhor amigo para irmos a um bar aqui perto, pra tomar uma gelada, porém, ele nunca sequer tratou de um assunto parecido com esse.
    Os dois me olhavam, provavelmente suspeitando de algo, e esse era naquele momento o meu maior receio. Meu temor cessou quando o Duílio se levantou me estendeu a mão e me disse:
    - Obrigado pelos esclarecimentos senhor Fabiano. Se precisar nós sabemos aonde encontrar o senhor.
    - Tudo bem, estou à disposição. – Falei, com vontade de fugir o mais depressa possível daquela sala.
    Os dois saíram. O Saavedra sem dar tchau, foda-se ele. Não preciso de machos nojentos e muito menos de dois policiais babacas me bajulando. Foi sair da sala para o Ruan vir em minha direção.
    - E aí o que eles queriam? – Questionou.
    - Me interrogar. A Patrícia sumiu no dia que eu dei aquela festa.
    De repente o Ruan começou a tremer, sua voz ficou diferente, parecia estar com a língua pesada, pois sua voz saia um tanto quanto estranha de sua garganta.
    - Você falou de mim pra eles, que eu fiquei com ela.
    A minha vontade era ter falado, mas livrei meu grande amigo de uma roubada.
    - Nem sequer disse teu nome, meu caro. Agora vamos voltar para o trabalho. – Disse colocando a mão em seu ombro.
    Capítulo 10
    Aquele depoimento realmente mexeu comigo. Foram noites longas até o telefone tocar no meio de uma madrugada de forte chuva e o meu coração disparar:
    - Alô? – Silêncio do outro lado da linha. Apenas um leve chiado podia ser notado, no entanto, me preocupei.
    Fui ao banheiro, encostei-me a pia, levantei a cabeça e vi meu reflexo no espelho. Eu estava realmente cansado, morto de sono. Joguei uma água na cara e fui caminhando em direção ao meu quarto quando de repente ouvi batidas, ou melhor, pancadas na minha porta. As batidas não cessavam. Corri até a cozinha e tirei uma faca grande da gaveta, instrumento, aliás, que me ajudou na terrível missão de esquartejar a pobre da Patrícia. Andei pé sobre pé, bem vagarosamente. Fiquei ao lado da porta, abri de uma vez, mas não tinha ninguém.
    Olhei de longe. O corredor outrora escuro se iluminou devido a minha presença ali, o maldito sensor de presença. Avistei alguém descer as escadas de emergência e resolvi ir atrás. A faca na mão e o coração acelerado no peito, finalmente eu pegaria o assassino e daria cabo naquele desgraçado. Segui a toda pelas escadas, degrau após degrau e o meliante ia fugindo. Com as trevas era impossível ver quem era, mas dava para notar que se tratava de um homem, ou ao menos parecia ser um. Vi o safado sumir da minha vista e eu parar bem detrás do meu carro. O porta- malas estava aberto e o que tinha ali dentro era deveras assustador.
    A cabeça da Rose parecia um bolo espatifado, ali não havia nada além de massa encefálica e sangue, muito sangue. Recuei um passo sem saber o que fazer. Senti a faca pesar em meus dedos. Admirei aquele corpo com um desejo fora do normal. O acariciei. Coloquei minha mão em seu seio esquerdo, puxei e dei um corte. Um dos deliciosos peitos da Rose agora estava em minhas mãos. Beijei aquele estranho objeto, lambi, mordi, fiz de tudo. Parecia uma criança faminta e um homem excitado, meu pênis quase saia da calça devido ao enorme tesão que passei a sentir ali.
    Depois do seio, comecei a destrinchar a Rose. Cortei seus braços e pernas, seu sangue jorrou em minha face, mas não liguei. Suas coxas eram lisas e grossas. Mesmo morta dentro do meu carro senti vontade de penetrá-la e assim o fiz. Estava louco, ensandecido, então resolvi parar.
    Sai a mil por hora de lá. Os pneus cantando e a adrenalina subindo. Tudo era tão forte e fora da realidade. As ruas estavam vazias de gente, mas cheias de silêncio. O assobio do vento batendo nas árvores me causava medo e minhas pernas tremiam, tinha as mãos sujas de sangue. Parei o carro em uma rua sem saída. Nada de luzes, nada de vida humana, mais calmaria para os meus já agitados nervos.
    O corpo jazia em meu carro, mais uma vez não fui eu quem matou, porém eu o esquartejara, assim como fizera com a pobre da Patrícia. Coitada dela e de sua família.
    CAPÍTULO 11
    Não quero me recordar onde eu desovei o corpo da Rose e muito menos o que eu fiz antes com ele. Depois que esse pesadelo acabar irei atrás de tratamento, um psiquiatra talvez seja a melhor escolha. Descobrir quem é o filho da puta que mata e coloca os corpos em meu caminho era a meta do momento. Há se eu pegar o desgraçado. O faria em picadinho, cortaria cada pedacinho dele igual os açougueiros fazem com os bifes no açougue.
    Estava transpirando, ansioso, preocupado. No escritório todos estavam preocupados pelo atraso da Rose que era sempre uma das primeiras a chegar e a iniciar seus trabalhos. Além de pontual era bastante prestativa e atenciosa com todos. Quando comecei na empresa, a Rose me ensinou muita coisa importante e isso tem me ajudado até hoje. Pobre mulher. Assassinada de forma cruel por um louco, e esquartejada por outro, pior ainda. Tirar a vida de alguém é algo muito ruim, mas destrinchar o corpo é muito pior Mas por via das dúvidas o melhor era permanecer em silêncio.
    Estava decidido. Sairia na caça do verdadeiro assassino e acabaria com ele, mas para isso teria que pedir afastamento das minhas funções. Levantei-me da cadeira e fui caminhando até a sala do doutor Bernardo. Girei a maçaneta e a porta se abriu com um estalo, com certeza era falta de óleo, pois o barulho se parecia muito com caixões se abrindo naqueles filmes de terror com vampiros.
    - Posso falar um minuto com o senhor?
    Sentado em sua poltrona giratória, Bernardo levantou a cabeça o suficiente para notar a minha presença em sua sala.
    - Se for pra pedir aumento, esqueça.
    A sala era grande e lotada de quadros. Diplomas, fotos de família, viagens, certificados de bons serviços. O chão era todo acarpetado e as paredes pintadas na cor creme. Os móveis eram escuros e muito bem cuidados. Todos os dias, a dona Marli limpava cada canto daquele lugar como se ali fosse à casa de um santo.
    - Não senhor. Gostaria de me afastar da empresa por um tempo. – Disse.
    Os olhos do velho brilharam de surpresa e de espanto:
    - Qual o motivo? Posso saber?
    Pensei em várias desculpas durante meu breve trajeto entre a minha mesa e a fortaleza que era sala do grande chefão, mas na hora inventei outra, provavelmente a mais convincente.
    - Minha mãe está muito doente, pode morrer a qualquer momento.
    - Sinto muito. – Ele falou. – O que ela tem, posso saber?
    Ele não poderia saber, pois ela não tinha nada e gozava de boa saúde. Oxalá eu tivesse a sorte da dona Antônia. Nunca ficou doente na vida, a não ser uma pneumonia forte na infância, mas depois dessa nunca teve mais nada. Aos sessenta e cinco de idade ela toma vitaminas, e faz caminhada todos os dias. Já eu, vivo o meu sedentarismo diário, prestes a ter um ataque do coração a qualquer momento.
    - Câncer, ela tem câncer, senhor.
    - Meu Deus.
    Lágrimas mentirosas começaram a brotar dos meus olhos. E como um ator experiente, iniciei uma das maiores encenações da minha breve carreira. Falei de todo o sofrimento dela, das dores, das trocas de hospitais, da cirurgia que por pouco deu errado e até clamei a Deus pedindo uma intervenção divina. A minha interpretação era perfeita, e isso convenceu o doutor Bernardo a me liberar pelo tempo que eu precisasse. Na saída do escritório ele me deu um abraço, me desejou força e pronto restabelecimento a minha pobre mãezinha.
    Peguei minhas coisas e fui embora. Precisa chegar a casa, sentar e pensar em uma forma de pegar o desgraçado. Ninguém, nem mesmo o Ruan meu melhor amigo saberia disso, seria um segredo só meu.
    Capítulo 12
    Deixei o tempo passar só para ver como as coisas caminhariam. Por falta de provas as investigações da polícia deram uma estagnada, porém, eu poderia resolver toda a situação; não à maneira deles, mas sim do meu jeito. Precisava pensar em como atrair o verdadeiro assassino para perto de mim, no entanto seria arriscado. A hipótese de servir-me como isca estava descartada, porque eu já sabia que o desgraçado tinha preferência por matar mulheres e não homens, muito provavelmente por elas serem mais frágeis e não terem força o suficiente para revidar, isso se os crimes fossem limpos, é claro.
    A sorte estava lançada. Passei os últimos dias trabalhando bastante em um plano perfeito, ao menos para mim ele era. Era tarde da noite, alguém bate a minha porta, faço silêncio. Aproximo-me e dou uma espiada pelo olho mágico e vejo que são os dois investigadores, abro a porta e cumprimento lhes apertando as mãos.
    - Olá, que surpresa, não esperava receber os senhores aqui. – Disse, tentando disfarçar o nervosismo.
    Saavedra deu uma geral com os olhos em todo o apartamento, estava uma bagunça só. Passei os dias estudando sobre o maldito assassino e me esqueci das tarefas de casa.
    - Você mora aqui há quanto tempo? - Ele perguntou.
    - Três anos, se eu não me engano, sou ruim em datas.
    Os convidei para entrar e sentar. Ofereci café, mas recusaram, eles só queriam me fazer algumas perguntas. O interrogatório durou mais de uma hora. Questionaram-me sobre a minha rotina, meus horários, meus hábitos, se eu gostava do meu trabalho, se estava satisfeito com ele, e é claro, se eu tinha inimigos. Não menti em relação a isso, só omiti quando me perguntaram sobre a Patrícia e a Rose. Os dois queriam saber de mim tudo sobre elas, mas não disse muita coisa. O Duílio era um sujeito legal, diga-se de passagem. Magro, calvo, usava óculos e era às vezes brincalhão. Já o Saavedra era o oposto. Sério e bastante observador. Enquanto o Duílio me fazia às perguntas olhando diretamente nos meus olhos, ele ficava em pé andando pelo apartamento, fuçando em tudo, parecendo procurar alguma prova que comprovasse que eu era o responsável pelo sumiço das moças, na verdade eu era, em parte, e essa situação estava me deixando péssimo. Finalmente foram embora. O Duílio parecia satisfeito até então, entretanto, o Saavedra, nem um pouco, o que me fez ficar um tanto quanto preocupado.
    O dia amanheceu e eu despertei de um sono nada bom, mal consegui cochilar, dormir, era algo improvável no momento. A arapuca estava pronta. Se o assassino veio até mim há poucos dias, seria fácil atrai-lo, mas para isso precisava me armar. Decidi desaparecer por uns dias, uma semana ou um pouco mais. Era mais do que necessário tirar um tempo longe de todo burburinho para arejar as ideias. Iria visitar minha pobre e doente mãezinha, coitada, um câncer estava lhe comendo tudo por dentro, ri baixinho.
    Capítulo 13
    Estou de volta! Descansado, renovado e com as baterias recarregadas. Agora era chegada a hora de acabar com tudo aquilo que tem tirado o meu sossego. O plano estava pronto. Resolvi dar uma festa em meu apartamento, convidando a todos inclusive o doutor Bernardo, meu suspeito número um. Era uma noite de sábado. Estava muito quente naquela noite. Aos poucos meus convidados foram chegando, um a um eles paravam seus carros, outros chegavam a pé. Recebi meus convidados na porta, apertei a mão e abracei muita gente. Pronto, a festa, mas principalmente a armadilha estava armada, agora era só aproveitar e esperar o assassino morder a isca.
    A festa rolou a noite toda, álcool e drogas, as minhas reuniões eram regadas a muita cocaína e heroína. Tudo andava muito bem, até eu ouvir um grito, fraco, quase inaudível vindo do meu quarto. Sem aparentar alarmismo sai, andei poucos metros e descobri que veio de dentro do meu quarto. Lentamente girei a maçaneta e me deparei com algo assustador, era a Katia, toda suja de sangue ao seu lado com um buraco na cabeça estava Ruan, meu melhor amigo, morto. Parei. O cenário era de um filme de terror. O vestido branco que a Katia usava naquela noite estava tingido de vermelho. O corpo do Ruan com os braços abertos, igual Jesus Cristo na cruz. Ajoelhei-me, levantei meu olhar em direção a ela e a questionei:
    - Por que fez isso comigo? – Ela me olhou por um instante viu a janela aberta e se atirou rumo à morte.
    Fui preso, acusado pelos crimes que não cometi julgado e sentenciado a passar o restante dos meus dias preso em um manicômio judiciário. A promotoria alegou que eu era perigoso para a sociedade, quanto aos corpos esquartejados, ninguém sabe. Escrevo esse relato de dentro da minha cela, cansado, após fazer picadinho de mais um, se isso vai acabar um dia, eu não sei, mas se precisar matar alguém mande o corpo que eu sei o que fazer com ele.
    Fim...

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