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  • A casa de trás

    Estrada para a Praia da Solidão, onde os pais do Gabi têm uma casa de veraneio. É a minha primeira viagem com meu novo namorado e, pelo que dizem, a tal “casa de praia” está mais para “palácio real de verão”. Sim, o cara é de família rica, mas antes que me julguem uma interesseira ou algo assim, eu explico: nós mantivemos uma amizade virtual por mais de um ano, antes de nos conhecermos pessoalmente. Fui saber que a família dele era abastada só depois do nosso segundo encontro, afinal ele não é daquele tipo que gosta de ostentar. É rico, porém simples, porque sempre teve grana. Minha mãe diz que ostentação é coisa de “novo rico” e, nesse caso, ela tem razão.
    Então aqui estamos nós, dentro do carro, em direção à praia, onde meus novos sogros estão nos esperando para me conhecer. Como é de meu costume em longas viagens, no meio do caminho eu apaguei. Só acordei com o Gabi me chamando, dizendo que tínhamos chegado e reclamando de ter virado alguma coisa na mochila dele.
    Os pais do Gabi já estavam aguardando nossa chegada e, assim que descemos do carro, eles vieram nos cumprimentar:
    - Você então é a famosa Lisa, hein? Estávamos ansiosos para te conhecer. Eu sou Cecília, a mãe do Gabi, mas pode me chamar de Ceci.
    - E eu sou o Antônio, o pai dele. É um prazer conhecer você, querida!
    - O prazer é todo meu, e agradeço pelo convite.
    Dados os cumprimentos formais, fomos em direção a casa. Realmente, era incrível: à beira-mar, dois andares, janelas de vidro enormes, varanda maior ainda, com uma rede bem convidativa. A suíte dos meus sogros tem uma sacada com vista linda para o horizonte.
    Como se trata de um balneário afastado da cidade, a Praia da Solidão é um lugar tranquilo e vazio, fazendo jus ao nome. Contei apenas quatro casas ao redor: a que estávamos e mais três, duas a leste e uma a oeste; mas sei que existe outra, localizada no terreno de trás da casa deles, cujos proprietários são amigos da família. Parece que ninguém aparece por ali há dois anos, com exceção de um caseiro que vai a cada quinze dias. Depois da morte da Rafaela, filha caçula dos donos da casa, os parentes não colocaram mais os pés por lá. A pobre menina morreu afogada aos oito anos, naquela praia. Uma tragédia total, que desestabilizou a família toda.
    Eu e Gabi largamos nossas coisas e fomos dar uma volta antes da hora do almoço. Ele queria me mostrar a parte de trás da casa, onde fica a piscina e o pergolado. Deitamos nas espreguiçadeiras e deixamos a energia do sol tomar conta do momento. Era um lindo dia de primavera e estávamos muito felizes por aquele fim de semana juntos. De olhos fechados e mãos dadas, ficamos curtindo aquela brisa maravilhosa e o cheiro de maresia que invadia o ambiente. Foi quando escutamos um barulho e, agora de olhos abertos, percebemos uma movimentação na casa de trás.
    - Deve ser o Chico, o caseiro.
    - Não é não Gabi, parece uma mulher, está até com uniforme de empregada doméstica, olha...
    E era mesmo uma mulher. O Gabi a reconheceu: era a Rose, empregada da família dos vizinhos da casa abandonada. Ele levantou para cumprimenta-la, aproximando-se do muro que dividia as duas residências e, ao chamar por Rose, ela olhou rapidamente para nós e disse:
    - Se afastem. Pelo bem de vocês.
    O Gabi achou a reação da mulher muito estranha, afinal ele me contou que ela sempre foi um amor de pessoa, simpática e prestativa, mas, enfim, todo mundo tem seus dias difíceis, né? Logo nos esquecemos da situação, pois já estava na hora do almoço e voltamos para casa. Só lembramos um tempo depois, na conversa do fim da tarde, quando contamos para a Ceci sobre o ocorrido e ela, surpresa, respondeu:
    - Que estranho, porque ninguém está lá. Eu achei que, depois da morte da Rafinha, a Rose havia até se demitido. Era ela quem estava cuidando da menina quando tudo aconteceu e, pelo que os vizinhos me contaram, a coitada da empregada se culpou muito.
    A noite chegou. Depois de um lindo passeio pela praia, eu e Gabi decidimos ir novamente para as espreguiçadeiras. Era nosso primeiro momento realmente a sós desde a nossa chegada, visto que o passeio de antes do almoço foi curto... E um tanto quanto perturbador. Deitamos juntinhos em uma espreguiçadeira e começamos a nos beijar. Foi quando uma luz muito forte nos atingiu, tipo um holofote, vindo da casa de trás.
    - Mas então tem alguém ali! Disse o Gabi.
    - Não vai lá não, pois pelo jeito, nós não somos bem-vindos! Respondi.
    Não adiantou eu advertir. Terminei de falar e ele já estava pulando o muro. Fiquei preocupada e segui em sua direção. Ao invadir a casa vizinha, algo muito estranho aconteceu: o pátio da casa - que conseguíamos ver um bom pedaço da sacada do nosso quarto – parece que havia mudado: era mais estreito, de pedra cinza claro e levava a uma escadaria que, ao topo, tinha uma casinha pequena, tipo uma guarita, com uma cruz no telhado. Se não estivéssemos em uma casa de praia, até poderia definir aquilo como um jazigo, ou algo do tipo.
    Decidimos subir as escadas, pois, se algo incomum acontecia por ali, Rose podia estar correndo perigo. O estranho é que, quanto mais subíamos, mais longe da chegada parecia que estávamos. A escuridão tomava conta do local, depois que aquela luz forte se apagou, e contávamos somente com as luzes dos nossos celulares. Confesso que a partir desse momento, comecei a me assustar.
    Um pouco antes de chegarmos ao topo da escada, aquela luz misteriosa acendeu e apagou novamente, olhamos para trás e vimos Rose à distância, no pátio da misteriosa casa, olhando em nossa direção, séria e... Molhada? Sim, era o que parecia. Rose estava encharcada.
    - Quer descer? Perguntou Gabi.
    - Não, agora vamos até o fim. Respondi.
    Ao seguirmos para o fim da subida, percebemos um vulto na janelinha da casa-jazigo. Subimos os últimos lances mais rapidamente e foi nesse momento que escutamos uma voz de criança chorando, dizendo:
    - Foi ela, Rose me matou!
    Mesmo assustados – e ambos ouvindo aquele estranho apelo infantil – forçamos a porta da casinha, para verificar o que tinha ali. Estava emperrada, porém, juntos, fizemos força e conseguimos abrir.
    Se lá fora estava escuro, a escuridão era ainda maior no interior da casinha. O estranho é que, do lado de fora, conseguíamos ver pela janelinha onde o vulto apareceu. Agora no interior, parecia que não tinha mais janelas. Novamente, a voz falou:
    - Ela me matou.
    - Ela me afogou.
    - A minha hora chegou.
    - Agora é a hora de vocês.
    Assustados, nos direcionamos à porta para sair dali. A porta também havia sumido. Com a luz do celular, procuramos desesperadamente a saída. A voz ficou mais alta, porém menos infantil.
    - Ela me matou.
    - Ela me afogou.
    - A minha hora chegou.
    - Agora é a hora de vocês.
    Mesmo tateando todos os locais, não encontrávamos a saída.
    - Ela me matou.
    - Ela me afogou.
    - A minha hora chegou.
    - Agora é a hora de vocês.
    Sem sinal para ligar ou avisar alguém pelo celular, começamos a gritar por socorro. O pavor tomou conta de mim.
    - Socorro, alguém nos ajuda!
    - Não adianta gritar, desgraçados, vocês são meus agora!
    - SOCORROOOOOOOOO...
    - Acorda gata, chegamos! Essa é a casa de praia dos meus pais!
    - Gabi, GABI! Ah, meu Deus, eu tive um sonho tão horroroso...
    - Ah não, minha loção pós-barba virou toda dentro da mochila, olha!
    - Eh, Gabi...
    - Espera aí, amor, olha aqui, sujou até meu notebook!
    - Você então é a famosa Lisa, hein? Estávamos ansiosos para te conhecer. Eu sou...
    - Cecília, mas eu posso chamar a senhora de Ceci. E o senhor é o Antônio, não é?
    - É... Isso mesmo querida, mas...
    Olhei em volta, e a casa era a mesma do meu pesadelo: à beira-mar, dois andares, janelas grandes, varanda enorme, rede e a sacada da suíte com vista linda para o horizonte.
    - Gabi, amor, precisamos ir embora. AGORA!
    FIM
  • Café, Rotina e um Pouco de Horror

    Essa sempre foi minha rotina no final da tarde: chegava do trabalho muito cansada, sem coragem até mesmo para usar as chaves e abrir a porta, deixar o café esquentar na cafeteira, enquanto jogava minhas roupas por todo lado da casa e procurava por algum filme na Netflix.
    Filmes de terror nunca me assustaram, mas ver pessoas tomando sustos e entrar em desespero me garantia boas gargalhadas antes de cair no sono. Hoje algo diferente e assustador aconteceu.
    Assim que cheguei e seguia rigidamente minha rotina, na cozinha aconteceu algo que para mim não passava de um acidente doméstico causado por algum descuido. Afinal, é comum que uma pessoa cansada coloque sua cafeteira na beirada da mesa de cozinha e ele caia com o chacoalhar da água fervendo. Pois bem, a cafeteira caiu, tomei um susto, mas ignorei e nem mesmo levantei para limpar o chão, apenas voltei para a TV, mas quando olhei, ela estava na página do YouTube e na caixa de pesquisa, tinha palavras como: demônio, rituais e suicídios. O que me deixou confusa foi o fato de que eu não lembro de abrir o YouTube. Enquanto tentava lembrar em que momento eu havia entrado naquela aba, algo ainda mais estranho aconteceu. Senti um frio na minha nuca, na verdade era como se alguém estivesse soprando em linha reta nas minhas costas, assustada, imediatamente virei sem saber o que procurar, pois estava sozinha e neste mesmo instante sentir um dedo subir por minhas pernas, a parti dos joelhos, em direção a minha virilha.
    Aquilo já era demais, eu tentei não acreditar, queria não acreditar. Corri em direção as minhas roupas espalhadas pela casa e tentei vesti-las o mais rápido possível. Ainda sem terminar de me vestir, com a intenção de sair, dei alguns passos até a poltrona onde deixei o controle da TV e o peguei, mas quando pressionei o botão de desligar, a TV nem mesmo piscava. Aproximei-me para desliga-la manualmente e ainda assim ela permanecia ligada, mas a angustia tomou total controle quando puxei o cabo de energia e ela não desligou, aquilo fez meu mundo desmoronar, não era possível.
    O frio aumentou e eu já podia sentir meus dentes tremer, e não sabia se era de frio ou medo. Olhei ao meu redor e tudo que passava por minha cabeça eram as palavras; suicídio e demônio. Corri até a porta, não queria passar nem mesmo mais um segundo ali dentro, mas antes de sair fui desligar a luz, a luz também não desligava, mesmo clicando várias vezes com muita raiva e isso pareceu dar mais força para tudo aquilo, pois o controle foi arremessado na parede, espalhando-se em alguns pedaços no chão. Senti minha pele umedecer em lágrimas, estava entrando em pânico. Pânico ainda não é suficiente para descrever o meu estado emocional naquele momento e foi por consequência que decidi fazer a única coisa que podia me tirar daquele pesadelo. Peguei garfo todo metálico e fui até a primeira tomada de energia e empurrei-o, eu esperava que fosse instantâneo, nada aconteceu, achei que estivesse fazendo errado e continuei tentando, mas quando percebi que nada aconteceria, eu dei um grito estridente e chorei ainda mais. Ajoelhada e sem esperanças coloquei as mãos nos ouvidos para não ouvir as batidas das gavetas de talheres que havia acabado de começar junto com uma almofada que foi arremessada em direção a janela, não pensei duas vezes quando a segui e pulei para fora da janela.
    Tudo ficou escuro por alguns segundos, seguido por um clarão. Eu estava acordada. Estava confusa. Peguei o controle da TV onde passava o vídeo de um homem com máscara de coelho e parecia contar uma história sobre demônios, quase me distraí, mas quando finalmente pressionei o botão, rapidamente ela desligou. Fui até a cozinha e a cafeteira estava inteira em cima da mesa e o café nem estava fervendo ainda. Mas eu continuava com muito frio!
  • CARMOND - CAPÍTULO III

    CAPÍTULO TRÊS
    O ponto de parada onde fora deixado era diferente de todos os outros já conhecidos e imaginados por Augusto. Ficava num lugar qualquer da estrada e não havia nenhum sinal de vizinhos, ou ainda, nenhum bar ou qualquer outro tipo de estabelecimento como são de costumes nesses lugares.
    A chuva não dava tréguas e tudo que ele fez foi correr até uma velha tapagem, já bem deteriorada pelo tempo, e ficou lá aguardando pelo motorista, no meio da chuva e do nada. Essa espera, permeada pelas lembranças da conversa que havia tido com os amigos, durou mais de uma hora, até que, finalmente, ele viu surgir bem distante, os faróis de um carro que deslizava nas estradas enlameadas.
    Graças a Deus! Ele balbuciou e já foi tratando de ajeitar as malas nas mãos na expectativa de deixar o quanto antes aquele lugar.
    _ Por acaso o senhor é o doutor que está vindo da capital para tratar do Coronel? O motorista perguntou de dentro do carro e com o vidro do lado direito entreaberto.
    _ Sim, sou eu mesmo! Me chamo Augusto.
    _ Prazer, doutor! Sou seu motorista. Pode me chamar de Piu. Venha! Saia dessa chuva.
    Augusto realizou o embarque rapidamente e os dois tomaram o caminho de volta até Carmond, o vilarejo que tanto amedrontava seus amigos.
    _ Demoraremos muito para chegarmos?
    O homem sorriu meio desanimado.
    _ Um cadinho, doutor. Ainda mais com essas estradas ruins como estão. O senhor tem pressa?
    _ Não trata-se de pressa. Acho que é apenas curiosidade mesmo! Já passei o dia todo dentro de um trem, penso que mais algumas horinhas viajando não me farão mal.
    Piu sorriu novamente e ergueu as sobrancelhas indicando o banco traseiro.
    _ Tem uma garrafa e dois copos aí no banco de trás. Faço o favor de pegá-los e servir um chá pra gente, se não for incômodo, é claro.
    Augusto achou aquilo maravilhoso. Estava precisando mesmo tomar alguma coisa quente, depois do banho de chuva que tomara enquanto aguardava.
    _ Não é incômodo algum, ao contrário, será um prazer. O senhor parece ter lido meus pensamentos.
    _ Eu nunca saio sem a minha garrafa, principalmente em noites como esta. Um chazinho quente é sempre uma excelente companhia para quem vive tão solitário.
    Augusto encheu um dos copos e entregou para Piu que segurando-o com a mão esquerda, continuava a guiar o veículo com a direita.
    _ Posso lhe fazer uma pergunta, doutor?
    _ Depois desse chá você pode perguntar o que quiser.
    Sorriram os dois.
    _ Pois bem, o que levou o senhor a aceitar o convite para vir até o nosso vilarejo?
    Inevitavelmente Augusto lembrou-se dos amigos.
    _ Por que isso parece tão estranho? O que há de errado com o seu vilarejo, meu senhor?
    _ Carmond não é o melhor lugar do mundo para se estar, doutor. Tudo lá é muito difícil, desde o acesso, como o senhor mesmo está podendo constatar, até nas outras coisas mais simples.
    _ Por exemplo?
    _ Qualquer coisa que é normal em outro lugar, lá o senhor verá que se torna difícil.
    _ E porque isso acontece?
    _ Pelo visto o doutor não conhece nada mesmo do nosso vilarejo, né?
    Augusto balançou a cabeça negativamente e virou o último gole do chá.
    _ Não, meu senhor. Tudo que sei são as histórias, ou melhor, as lendas que as pessoas inventam e acabam chegando até a capital.
    Piu entregou o copo para ele e voltou a segurar o volante com as duas mãos. Nesse instante estavam passando sobre a velha ponte que já havia sido carregada duas vezes em enchentes que atingiram a região, e fora restaurada pelos próprios moradores.
    _ Boa parte dessas lendas são verdadeiras, meu jovem. As pessoas podem até aumentar, mas elas nunca inventam, já diz o ditado.
    _ O que há de errado em Carmond? O que acontece por lá?
    Piu reduziu a velocidade e olhou para o rapaz.
    _ Saberás logo logo, meu doutor. Afinal, o senhor foi contratado para cuidar do maior de todos os problemas desse vilarejo.
    Augusto percebeu que as últimas palavras foram pronunciadas com certo rancor e ao mesmo tempo tristeza, e isso deixou-o ainda mais curioso.
    _ Então está me dizendo que o problema todo, ou melhor, a maior parte dele provém do Coronel? Mas até onde sei esse homem está à beira da morte.
    _ Não acredito que ele vá morrer tão facilmente, seria sorte demais, e o povo de Carmond aprendeu desde cedo que a sorte parece não gostar muito daqui.
    E foi com a cabeça cheia de interrogações que Augusto seguiu o restante da viagem e nem se deu conta ao entrar no vilarejo que tudo estava escuro, a única luz acessa eram as dos faróis que cortavam a chuva e iluminava a rua diante deles.
  • Clow Senderstein o palhaço de Elm Street parte 2: Senhoras e senhores

       Aós o incidente no Garden hotel, varias investigações começaram a ser feitas e vários circos foram proibidos de terem acesso a elm street.
    Pessoas ficaram desesperadas e se trancaram em suas casa. Com temor que nem a mídia poderia deixar de forma sutil, vários cidadãos se comprometeram a ter vigilância uns com os outros. Em estado de medo e alienação pura, os governadores se reuniram na câmara para  discutir sobre a situação e panico causado por Clow Senderstein. No noticiário, Senderstein aparece novamente e fala ao povo:

    - Atenção todos. Nesta noite, haverá um assassinato no apartamento 369 no edifício da rua Enter day 6766. Os próximos ataques serão realizados a prédios e hotéis de luxo. no mês que vem, em casas e condomínios. E lembrem-se do meu aviso: todos os que forem contra mim serão mortos. Assim como ocorreu com os policiais de ontem. 

     Unidades e viaturas começavam a cercar o prédio em quantidade imensa. Ninguém mais podia passar pela rua novamente. Os apartamentos estavam cheios de policiais por dentro e por fora. Helicópteros cercavam os edifícios e condomínios nesta rua. Policiais entraram no apartamento 369 e encontraram a família chacinada no chão e as crianças foram encontradas com um tiro queima-roupa no peito. Foi encontrado no chão também, um bilhete escrito:

    -SENHORAS E SENHORES, PREPAREM-SE PARA UM ESPETÁCULO.

     Quando um dos policiais leu isto em voz alta, o edifício explodiu. Senderstein apareceu no edifício ao lado e disse:

    -Ha ha ha ha ha ha ha, podem se tremer a vontade, pois outros ataques como este irão acontecer. e desapareceu na fumaça.

      Após isso, houve uma explosão de pipoca que se espalhou pelo chão da rua. Mas as pipocas eram apenas bombinhas que expeliam uma fumaça tóxica, e milhares de policiais morreram.
  • Coisas do escuro

    Àquela altura da vida, Lilian já esperava estar casada e fazendo planos para o primeiro herdeiro, com um emprego estável e um apartamento num bairro tranquilo do Rio de Janeiro. Agora, contemplando a vida real, pensava em como a vida é capaz de puxar o tapete.
    Lilian Borges estava sentada no sofá naquele final de tarde de uma sexta-feira de julho, contemplando a bagunça de sua pequena casa alugada num bairro comum da Zona Norte carioca, o máximo que seu salário atual conseguia pagar, pensando o quão longe ainda estava de conseguir colocar no mundo seu primeiro herdeiro se Rogério continuasse a enrolar. Ela não tinha nada do que reclamar de sua relação, mas estaria mais satisfeita se o namoro que se arrastava por quatro anos tivesse progredido um pouco. Respirou fundo, afinal, não fazia nada bem chorar sobre o namoro derramado.
    ― Seja bem-vinda ao bairro. – Tinha dito uma senhora idosa que passeava com um poodle pelo passeio da vila onde agora Lilian fixaria residência até conseguir juntar dinheiro suficiente para comprar o seu próprio canto. – Se precisar de alguma coisa, basta me procurar no 207. Sou Suzana. – Disse antes de voltar a caminhada com o animal após uns breves minutos observando o vai-e-vem de caixas.
    Agora, retornando os pensamentos para o sofá, quando aquele sol que a castigou durante todo o dia começou a sair de cena, deixando somente o ar abafado de um dia de inverno particularmente quente, Lilian mascava um sanduiche de queijo e um copo de guaraná natural comprado num bar ali perto. Seu glorioso jantar de boas vidas a nova casa. Em meio aos pensamentos, pensou em Rogério e em como seu noivo, ou namorado, ou qualquer porcaria que ela achasse que fosse, a deixou sozinha com três homens estranhos durante todo o processo da mudança. Era quase sete da noite e ele ainda não ligara nenhuma vez para saber como tudo tinha saído. Talvez fosse melhor repensar o relacionamento.
    O corpo estava moído e isso era um lembrete de que precisava procurar uma academia nas cercanias. Caiu na cama por volta das nove da noite após uma torrente de água fria e talvez isso não fosse um incômodo por conta do imenso calor do dia. Entretanto, aquilo era mais uma coisa a qual ela precisaria correr quando o dia raiasse. Precisava procurar um eletricista para a instalação do chuveiro elétrico. A vizinha simpática poderia lhe ajudar com essa questão. Qual era o nome dela mesmo? Isso não importava naquele momento. Tentou assistir um pouco de televisão, mas o pessoal da TV por assinatura só ligaria o sinal na segunda-feira e Lilian não conseguia mais assistir a pobre programação dos canais abertos. A única opção, e talvez a mais sensata, era dormir.
    O pessoal da mudança havia feito um trabalho decente ao transportar seus valiosos pertences, mas uma obra medonha na hora de colocar as coisas com um mínimo de organização, mesmo ela tendo etiquetado todas as caixas. Havia pertences de cozinha no banheiro ou artigos de banheiro na sala, mas a que ela achava o mais esquisito tinha sido o modo como sua cama havia sido colocado no quarto. Estava de quina virada para a porta. Ela soltou um palavrão baixo enquanto deixava um sorriso de descontentamento transpassar seu rosto cansado. Não faria uma arrumação daquela quando estava prestes a dormir. Somente jogou um lençol sobre o colchão nu, apagou as luzes e deixou o sono vir sorrateiro. Em menos de dez minutos, aquela mulher fazia sua primeira viagem à terra dos sonhos em sua nova casa.
    Lilian acordou sobressaltada. O coração batia acelerado dando a impressão que ele pularia pela boca a qualquer momento. Ela não sabia ao certo o que motivara o súbito despertar, mas olhava ao redor do quarto iluminado parcialmente pela luz da rua. Uma colcha velha usada para tapar a janela fora arrancada com o ventilador, mas a mulher duvidava se o cair do leve pano teria força suficiente para criar aquele susto dos infernos. Não tinha ninguém no quarto. Ela levantou e percorreu os outros três cômodos da casa. Verificou as trancas das portas e janelas. Nada violado. Tudo não tinha passado de um sonho? Voltou para a cama sentindo uma perturbação que lhe escapava. De repente, aquela mulher de vinte e seis anos começava a desenvolver um medo infantil, mas de quê? Deixou a cabeça cair no travesseiro e embora sentisse o corpo cansado implorando por uma noite tranquila de sono, Lilian demorou a dormir. Permaneceu um bom tempo acordada com aquela incômoda sensação lhe turvando os pensamentos.
    Foi uma manhã estranha. Lilian passou um café, sentou no sofá da sala com a caneca e duas torradas com geleia, mas não sentia fome. Foi um gesto puramente mecânico. Aquela mesma sensação ainda a afligia e por algum motivo, que a preocupava para ser honesto, o coração ainda batia acelerado. Havia uma inquietação constante.
    Saiu para comprar algumas coisas ou somente para espairecer, ela não tinha muita certeza. Saía da vila quando encontrou a mulher do dia anterior. Agora lembrava o nome da vizinha num rompante de iluminação.
    ― Bom dia, vizinha. – Cumprimentou Suzana com o poodle a tiracolo. – Passou bem essa primeira noite?
    Lilian era uma mulher transparente e sua expressão já devia retratar que havia passado uma noite do cão, mas estamos falando aqui daquelas velhas convenções sociais. Por mais que se encontre alguém que claramente não está tendo um bom dia, as pessoas são compelidas a desejar um bom dia e era aquilo que a mulher com o semblante de derrota pensou nos breves segundos antes de balbuciar uma resposta.
    ― Tirando o cansaço da mudança, posso dizer que foi um bom começo.
    ― Eu já passei por isso, minha filha. No dia em que nos mudamos, o Aquiles aqui também ficou uma pilha. É difícil se acostumar com a nova casa assim logo de cara, mas lembre-se que estou aqui para o que der e vier.
    Lilian sabia que devia cortar aquela conversa logo ou ficaria presa numa espiral de comentários esdrúxulos, entretanto, precisou de muita força para conter um sorriso ao ouvir o nome do cachorro. Um poodle chamado Aquiles era uma peculiaridade a qual ela não estava muito acostumada.
    O eletricista apareceu logo após o almoço. Um homem de uns quarenta e poucos anos recomendado por Dona Suzana em sua conversa de mais cedo. Aparentemente era o sujeito que atendia a todos os domicílios da região. Um técnico da companhia de eletricidade que, por um preço módico e discrição, poderia ligar um disjuntor a parte do relógio de energia. Sabe como é. Com essas altas tarifas energéticas de hoje em dia...
    A noite veio e a casa estava minimamente arrumada. O chuveiro quente já funcionava. O tal eletricista tinha feito outros reparos em tomadas e nos bocais das lâmpadas. A casa agora tinha um jeito de casa e não de um depósito de caixas. A maioria das caixas acumulavam na pequena varanda na parte dos fundos da casa onde havia um pequeno quintal de concreto, aparentemente construído com as sobras de material. Lilian ainda se intrigava com certos aspectos daquela construção. Como uma das paredes do quarto lhe parecia ter sido erguida na diagonal; ou um retângulo de concreto no teto do corredor, bem na entrada para o banheiro; ou uma espécie de alçapão no teto da cozinha. Talvez, um dia, Lilian tivesse a curiosidade de saber o que se escondia acima de sua cabeça. Um espaço de quinquilharias dos antigos donos. Vai saber.
    Por volta das onze da noite tomou coragem para deitar e essa era o exato sentimento. A mulher, mesmo cansada por mais um pesado dia de arrumação, precisava reunir coragem para apagar as luzes e deitar na cama agora posicionada de um jeito aceitável, mas de modo que ela conseguisse enxergar a sala. Uma dessas coisas psicológicas que sempre cismam em ficar dando pancadinhas dentro da cabeça. Lilian ficou por um tempo deitada de lado observado o mostrador do relógio digital posicionado sobre a estante da sala. Podia ser fruto de seu estado de espírito, mas a noite parecia bem mais escura. Os minutos foram passando e o cansaço era implacável. Sem perceber, a mulher assustada já dormir um sono profundo.
    Acordou durante a madrugada. Não por susto, mas por mero capricho de uma bexiga cheia. Foi até a cozinha e entornou um copo de água garganta abaixo logo após o banheiro. Não precisou acender as luzes. A iluminação dos postes da vila a deixavam caminhar pela casa sem problema embora ainda tivesse a sensação de tudo estar mais escuro do que deveria. Sequer estava com sede, mas são uma dessas cosias que se faz inconscientemente. Enquanto bebia, observou o tampo de gesso no teto da cozinha. O suposto alçapão. Por algum motivo ele parecia fora do lugar. Tentou se livrar daquele pensamento quando viu um vulto passar pela sala. A cena quase lembrava a de um filme de terror, mas Lilian não deixou o copo cair e se estilhaçar no chão como o velho clichê cinematográfico. Ela colocou o copo dentro da pia e foi de encontro a tal visão. Teria sido a mente da mulher lhe pregando mais uma peça? Não havia nada na sala, mas por que aquela estranha sensação estava mais latente do que nunca? Voltou para a cama e mal tinha se ajeitado debaixo das cobertas quando viu o vulto passar diante do relógio digital. Seu coração desatou a bater forte demais. Colocou as cobertas sobre a cabeça e ficou lá apenas esperando. Tinha quase certeza de que quem estivesse perambulando por sua casa, poderia ouvir as batidas dentro de seu peito.
    Agora podia ouvir passos se aproximado. Lilian tinha a nítida sensação de que alguma coisa estava com ela dentro do quarto. As lágrimas começaram a brotar no canto dos olhos. Era um pavor irreal que tomava conta de seu corpo. Sentia que se a urgência pedisse, a mulher não ter forças para correr. Tinha lido uma vez que em situações de alerta é lançado na corrente sanguínea uma carga de adrenalina que deixavam as pessoas mais despertas e mais fortes. Isso definitivamente não estava acontecendo no momento. Seu corpo parecia gelatina, se desfazendo no colchão. Sentiu o canto inferior da cama ceder como se alguém acabasse de sentar. Uma psicopata da Zona Norte com uma faca na mão e nesse momento ela só pensava em quanto Rogério era um péssimo namorado. Coisas estranhas para se pensar diante da morte, não é? A respiração chiada do invasor seria algo que ela levaria para o resto da vida caso conseguisse sair viva daquele encontro macabro.
    A coisa toda durou cerca de trinta minutos, mas que na cabeça de Lilian parecia ter demorado uma eternidade. Sem avisos, a cama voltou ao seu estado normal e os passos arrastados foram se afastando junto com aquela respiração dos infernos. Ela não dormiu e tampouco tirou as cobertas do rosto. Havia perdido o costume de rezar, mas durante todo o restante da noite entoou todas as orações ensinadas por sua avó durante a infância. A coragem só retornou quando os primeiros raios de sol entraram pela janela. Ela andou pela casa e procurou o sinal da invasão, mas as portas estavam trancadas. Teria tudo isso uma alucinação? Estava quase se convencendo quando notou o tampo do teto da cozinha. Estava lá, fechando uma passagem para o suposto alçapão, mas colocada ao contrário do que ela tinha reparado quando levantou para o banheiro. Foi nesse momento que seu coração deu um novo salto. Um misto de medo e curiosidade.
    Menos de uma semana após ter se mudado e o caminhão estava lá novamente, mas agora fazendo o caminho inverso. Lilian acompanhou tudo da calçada. Desde o incidente daquela noite fatídica, a mulher não passara mais um minuto sequer por lá, pedindo abrigo na casa dos pais que prontamente lhe assistiram dizendo, inclusive, que a menina, porque os pais sempre tratam seus filhos como eternas crianças, poderia ficar o tempo necessário. Do outro lado da rua, observando pela janela com seu poodle nos braços, Suzana via mais uma saída de vizinhos. A quarta pessoa a abandonar aquela casinha modesta naquela vila num bairro da Zona Norte carioca.
    Lilian estava ao lado de seu pai no banco do carona sendo seguidos pelo caminhão da mudança rumo a um novo endereço. Ele falava e ela respondia, mas seus pensamentos estavam pregados naquele alçapão. Até fez menção em abri-lo, chegou a puxar uma cadeira e coloca-la sob o buraco no teto, porém foi tomada por um pânico insano. Podia ser novamente sua mente lhe pregando uma peça, mas, por uns breves segundos, juraria ter ouvido o som da maldita respiração vinda detrás daquele tampo.
    Tratou de afastar seus pensamentos e embora fosse levar aquela curiosidade para o resto da vida, há coisas que é melhor ficarem sem explicação, principalmente as coisas do escuro.
  • ESCURIDÃO

    Solidão é a palavra que define meu atual estado: Tristeza, mas não aquela de chorar, eu não choro, não choro mais, e isso foi algo que decidi e consegui cumprir, contudo as lágrimas serem ou não derramadas não me vem ao acaso, não sou de sair, prefiro passar o tempo no meu quarto, perdendo horas e horas na internet, sei muita coisa, porque leio muita coisa e desde sempre até onde me lembro, claro, acredito que coisas que não deveriam existir nesse mundo, existem: Dêmonios, fantasmas, lobisomens, bruxas, e mais tudo que pode ser imaginado.
    Sempre tive medo do escuro, digo, quando eu era criança, mais precisamente não medo do escuro, mas o que nele habitava, morria de medo de dormir sozinho, separado do conforto e proteção dos meus pais, mesmo estando no mesmo quarto o medo me vinha e eu mau dormia a noite, ficava de cobertor erguido à cima da cabeça, pois sabia eu que se olhasse para o escuro veria o que evitava toda noite ver.
    Palhaços gigantes com enormes bocas e dentes afiados para me devorar, esqueletos usando becas voando pelo teto em vassouras e rindo, umas das coisas que mais me pertubou foi a mulher, enquando estava deitado na minha cama ao lado da dos meus pais, juro por Deus e por tudo, eu vi a coberta se levantar, uma vermelha e comprida que adorava, e assim que foi esguida do meu corpo ignorando o fato de eu estar segurando-a uma mulher deitou ao meu lado na cama e nos tapou, sempre que contava essa história eu ficava serio, foi real eu sabia que tinha sido, mas o que mais me espantava era o fato de que minha irmã tinha morrido quando era um bebê, eu ainda não era vivo, caso estivesse viva hoje seria ela uma mulher já feita.
    Mais uma noite veio e eu ansiava pela aurora e o calor do dia, pois se tinha algo que eu sempre dizia era: O mau não age na luz, seja o que for que dominava a escuridão na luz eles não poderiam me fazer mau, ainda no escuro, vislumbrei um lobo, sim, um lobo enorme e com olhos cinzentos que brilhavam, gelei, só o coração batendo enquanto meus olhos acompanhavam os seus lentos movimentos, e o suor começa a aparecer pela minha testa, ele andou e parou perto da lateral da minha cama, olhou-me nos olhos, sorriu, e sumiu, como fumo, e eu continuava a olhar e olhar, sentia os ombros tensos e o pescoço rigido, odiava aquela situação e não via a hora de crescer, pois quando se cresce as fantasias morrem.
    Nessa época meus pais levantavam cedo para ir trabalhar, como eu dormia na maioria das vezes com eles, ficava na cama até de dia e depois ia para casa da minha prima enquanto eles não retornavam, estava de férias no cólegio, não lembro a série, o fundamental  foi o período mais odiado por mim, e isso faço questão de não recordar, dos imbecis dos colegas, a implicancia, e o fato de estar sempre sozinho seja nas aulas ou no intervalo. Como ia dizendo eu esperava o dia adentrar para ir à casa da prima, ainda de madrugada, estava escuro, senti algo cutucar minha coxa, eu medroso já cerrei com força os olhos, tinha essa mania, achava que faria o indesejado desaparecer, nunca deu certo, descobri o rosto um pouco para espiar e me deparei com uma coisa sem rosto e de pela azul escura em cima de mim, nao gritei, nunca gritei(quem iria ouvir) apenas cobri rapidamente o rosto enquanto sussurava por favor, por favor, não sei quanto tempo havia se passado, quando olhei novamente a coisa tinha sumido, reparei pelas gretas da telha e vi luz, nunca me senti tão aliviado.
    Com o passar do tempo que fui crescendo, mudei para o quarto que fora construido para ser meu, no começo não queria, por causa do escuro, nunca disse a ninguém que tinha medo do “escuro”, mas a palavra de meu pai era lei, e eu obedecia, noite após noite e depois de um longo tempo nunca mais vi as coisas na escuridão, eu deitava e ficava encarando o canto entre as paredes, procurando um lobo ou esqueleto, mas nunca mais os vi, pensar nisso me fez me sentir sozinho, e eu fiquei confuso, detestava aquelas coisas bizarras que vinham toda noite me atormentar, só agora percebi que tinha me apegado à elas, eram monstros, mas estavam comigo e só partiam quando a luz ordenava.
    O que tenho hoje são sonhos, loucos e divertidos, sonhos de todos os tipos, as vezes os odeio, porque acordo e percebo que não passou de um simples e bobo sonho, mas eu me sentia tão bem que aquilo era mais real do que a realidade, aproveito ao máximo, até os pesados, pois um dia esses sonhos iram acabar, irei dormir de noite e acorda na manhã e saberei nesse dia que mais um amigo se foi, eram três, os monstros se foram sem eu nem notar a sua ausencia, sonhos ainda tenho, só temo o dia em que acabar e o terceiro e eterno amigo, que me aompanha para tudo conter lugar e sei, esse eu sei que nunca vai me abondonar a menos que eu faça primeiro. A solidão, pois não importa a ocasião eu sempre estou triste.
  • O Jogo da Morte: Véu Negro (continuação do cp 2 até cp 4)

    vinte minutos se passaram e as outras duas acordaram,ao ver a amiga toda desfigurada e morta,tentaram gritar,mas era inútil,pois suas línguas estavam na minha taça de champanhe,foi uma sensação incrível  quando eu bebi o liquido banhado com duas línguas nojentas,e melhor ainda foi ver a cara das duas vagabundas ao verem  suas línguas que um dia deram muito prazer pelas ruas da cidade,sendo degustadas por um sádico maluco.
    Como não podiam falar,eu mesmo fiz questão de escolher os utensílios que iria usar,para a vadia morena usarei uma furadeira e para loira falsa usarei um serrote,o que vocês acham garotas?,sensações corriam pelo meu corpo ao cortar o corpo de uma e perfurar o corpo da outra,gritos incubados eram sinfonias para os meu ouvidos,e no fim de tudo as três garotas estavam mortas e o véu negro estavam mais satisfeito do que nunca.
    E agora era só esperar,logo a gorda maldita estaria morta e queimando nas profundezas do inferno junto com as três prostitutas.
    O véu negro se aproximou de mim dizendo que alguém teria que ser culpado pela morte da gorda,então eu disse:
    -Que seja qualquer um menos eu.
    Atendendo ao meu pedido,levantou suas vestes negras e foi até o hospital onde a mesma estava internada,possuindo uma das enfermeiras e controlando cada passo que a pobre coitada dava,fez com que ela cravasse uma faca no coração da gorda,que sem reação,acabou morrendo,e graças ao véu negro aquela vadia não estava mais no meu caminho.
    Pela janela a morte saia e a enfermeira voltando a si,viu a paciente morta na sua frente,suas mão cheias de sangue e a faca caída no chão,sem entender nada,ficou paralisada até que os primeiros policiais chegaram e acabaram levando a “Criminosa” para a cadeia.
    Naquele momento eu ria mais alto que uma criança pura prestes a ser consumida pelo horror da humanidade,eu me deliciava com a sena na televisão e ao mesmo tempo eu sentia um pouco de pena da pobre enfermeira que por minha causa,iria passar o resto da vida numa sela suja,enquanto eu o verdadeiro culpado estava livre e acabando com mais vidas ordinárias deste planeta que não me oferecia mais nada a não ser o prazer do sofrimento.
    Desliguei a televisão e fui tomar um banho,ao mesmo tempo peguei  um dos meus bisturis e comecei a me cortar,aquilo foi incrível,eu estava me libertando pouco a pouco dos espíritos sofridos de cada um que assassinei.
    Naquela noite o véu negro me deu um pouco de descanso,as imagens das três garotas gritando de dor não saiam da minha cabeça,e foi ai que eu percebi que em minhas veias corria um sangue sádico para a coisa,pois sem a ajuda do véu negro,matei três pessoas a sangue frio e não me sentia culpado por isso,só fiz o meu trabalho.
    Liguei o radio e estava tocando uma musica que me fez lembrar de minha mãe adotiva,sim fui adotado quando eu tinha apenas cinco anos,nossa que falta minha mãe me faz,não esqueço do seu cheiro,dos almoços de domingo,pena que morreu em cima de uma cama,em um hospital psiquiátrico,deixando-me sua pensão.
    Quando eu tinha nove ,meu pai morreu ,minha mãe ficou meses trancada dentro de casa,um certo dia resolvi convida-la para ir ao parque,que ficava do outro lado da cidade,não sei o que houve pois ela aceitou,ao chegar no local,deixei-a sentada em baixo de uma arvore e fui ate o banheiro publico,ao colocar o primeiro pé dentro do ambiente,me deparei com uma cena perturbadora,um morador de rua abusava brutalmente de uma mulher,não me contive,peguei um pedaço de porcelanato de um vaso quebrado,e bati varias vezes na cabeça daquele imundo,restos de seu inútil cérebro se espalharam pelo banheiro,meu rosto ficou todo sujo de sangue,lambi minha boca,aquilo me excitou,e acendeu em mim o que por muito tempo ficou trancafiado em meu ser.
     O banheiro ficou gelado,parecia que o tempo havia parado,senti um gelo em minha espinha, uma tremedeira dentro de meu corpo e suavemente uma voz começou a falar.
    -Meu nome e véu negro,estou aqui porque senti que você pode me ajudar.
    -te ajudar em que,meu Deus será que estou ficando louco?
    -Depois do que você fez hoje e quando tinha nove anos,Deus não existe mais em você,mas eu posso começar a existir.
    -como assim?
    -podemos fazer um pacto;
    - que tipo de pacto?
    -toda vez que eu lhe pedir você terá que me dar uma alma,mas não é qualquer alma,e sim uma ruim,aquela que não poderá ser salva por aquele que no inferno não dizemos nem o nome,as mortes terão que ser cruéis.
    -mas eu não consigo fazer isso sozinho,o que você viu aqui hoje,foi apenas um momento;
    -isto não foi apenas um momento,você tem sangue para a coisa,sinto isso em sua alma,e não é de hoje que estou de olho em você,só esperei a oportunidade certa para lhe fazer essa proposta.
    -E o que eu ganho com isso?
    -você terá uma vida longa,quando morrer ficara em um lugar diferente,e poderá retornar mais uma vez para este planeta quando houver a oportunidade certa,terá minha ajuda por um tempo até que você consiga realizar todas essas façanhas sozinho,porem se você perder o jogo,este contrato será anulado,o que você me diz?
    -mas eu ainda posso ir para o céu,eu acredito nisto;
    Ele riu alto
    -o céu é para os fracos,você meu caro e muito forte e merece um lugar ao meu lado no reino das trevas.
    -como assim perder o jogo?
    -pense que a vida é um grande tabuleiro e as pessoas que ira matar são peça inúteis,neste jogo,então se você deixar de me entregar apenas uma alma,quando ela eu solicitar,você será considerado um perdedor e por fim terá que ser eliminado.
     Recusei o contrato;
    Tudo ficou meio quieto,comecei a sentir varias dores em meu corpo,algo estranho estava acontecendo,sem eu perceber ele tomou conta de meu corpo,quebrou o espelho do banheiro e com um dos pedaços ,começou a cortar a garganta da mulher,eu sentia suas veias parando de pulsar,confesso que aquela foi uma sensação incrível.
    Parado ao meu lado ele disse:
    -viu,não foi difícil,com o tempo você se acostumaria.
    Olho para trás,vejo minha mãe parada na porta,em estado de choque,o banheiro vertia sangue,e eu o filho que ela sempre amou,no meio de tudo aquilo,e com a arma do crime nas mãos.
    O véu negro se aproximou mais uma vez,senti sua mão fria encostar em meu ombro,e disse:
    -agora, ou você aceita meu acordo,ou farei você matar a sua querida mãe,e claro você passara tortuosos dias em uma sela imunda.
    -mas se eu aceitar,ela ira contar tudo o que viu aqui.
    -não se preocupe eu cuido dela.
    -você não vai mata-la,vai?
    -darei a ela apenas uma doze de loucura;
    -aceita ou não?
    -aceito
    E assim se iniciou o pacto com o véu negro.
    Depois de tantas lembranças de um passado não tão distante,Tive que limpar toda aquela bagunça do apartamento de michel,foi difícil tirar todo aquele sangue do piso branco,mas,depois de algumas horas e de muitos baldes de cloro,eu havia conseguido remover toda a podridão,sai do apartamento,eram mais ou menos nove e meia da manhã,fui ate uma loja na esquina e comprei alguns sacos plásticos resistentes,voltei ate o apartamento,cortei-as em pedaços e coloquei-as nos sacos,juntei tudo em um canto,e esperei anoitecer.
    Tocaram a companhia,olhei pelo olho mágico,um homem de mais ou menos cinquenta e dois anos ,gordo e careca,estava de pé em frente a porta,abri.
    O idiota se apresentou, como um morador do apartamento ao lado,veio reclamar do barulho da  noite passada ,eu com a minha perfeita educação,sorri e pedi desculpas, aleguei que havia dado uma festa pois eu era o novo morador do prédio,e que isso nunca mais ocorreria,o trouxa foi embora acreditando em tudo que eu disse.
    -Como esses seres humanos são Idiotas.
    Meia noite e meia ,era a hora perfeita,desci carregando os sacos,coloquei-os no porta mala e fui até um aterro sanitário,cavei um buraco bem fundo e lá enterrei todos aqueles corpos mutilados,aliviado ,entrei em meu carro e fui até um local mais seguro,estacionei, e fiquei olhando para o local,exatamente as três e meia da madrugada,chegou um caminhão vindo da cidade cheio de lixo,acendi um cigarro, e me delicie ao ver toda aquela pilha de lixo,sendo jogada em cima daquelas vadias.
    Jamais seriam encontradas, do lixo elas vieram e para o lixo retornaram.
    Pronto,agora era a hora de ir para a casa.
    Capitulo 3
    Já se passaram três semanas desde o incidente com a gorda e com as garotas de programa,muitas noites sem dormir e muitos pesadelos com o véu negro,promessas e dividas me atormentavam,deitado em minha cama as horas passavam.
    A fome bateu em meu estomago,eram quase oito e meia da manhã de um domingo,levantei, preparei o café,posso afirmar que ainda eu estava meio tonto com todos aqueles pesadelos, porem,o que mais me interessava naquele momento era o meu café,sem leite e com creme.
    Eu me sentia isolado,pois a mais de três semanas ele não me visitava,ou melhor não me dava uma nova missão,será que ele se esqueceu de mim?ou ele encontrou alguém melhor que eu?essas são respostas meio complicadas e perguntas idiotas para se pensar numa manha de domingo,acendi um cigarro e fui para o quarto,usei o banheiro.
    Deitei novamente em minha cama,mas não conseguia pegar no sono,então,tomei três comprimidos,e simplesmente apaguei.
    Uma nuvem negra,cobriu meu corpo e La no fundo da minha mente eu conseguia ver uma chama azul e vermelha,tentei chegar até ela,foi inútil,de repente,imagens de todas as pessoas que matei vinham em minha direção,todas queimadas, gritando por ajuda. consegui chegar até a chama.
    O calor era intenso,queimava a minha alma ,mas por algum motivo eu sabia que tinha que tocar naquela chama. Ao toca-la tudo se escureceu,eu não enxergava nada.
    Então meu querido véu negro me perguntou se eu estava preparado para saber de algumas  verdades, e com toda a certeza do mundo eu respondi que sim,então tudo começou a desmoronar,era como se todo o ambiente que eu estava se descascasse,luzes e chamas apareciam do nada,ele me estendeu a mão e disse que me levaria para um passeio,perguntei aonde,mas ele permanecia calado.
    1° fomos a um lugar sombrio,onde só se ouvia gritos e choros,(uma das camadas do inferno)a variação de temperatura era muito grande,almas ficavam ali jogadas,umas em cima das outras,o cheiro era insuportável,vermes se misturavam com seus corpos,a cena era perturbadora,mas para mim todos eles mereciam estar ali.
    2°fomos a um grande lamaçal(outra camada do inferno),todos que ali estavam eram pervertidos sexuais,Vivian de sexo,prazer e sofrimento,jogados como porcos no chiqueiro apenas digo,sem comentários.
    3°chegamos (a ultima camada do inferno),lá habitavam todas as almas perturbadas  e aflitas,sedentas de ódio e com sede se vingança,mas com aquele calor elas deviam estar com sede de água(brincadeira),neste momento o véu disse algumas palavra:
    -todos aqueles que desde o nascimento fizeram um pacto comigo e não cumpriram estão pagando sua pena com fogo e tormenta,e aqui também estão todos as almas que você e outros jogadores da morte mandam para mim todos os dias,lindo não?
    -maravilhoso,eu respondi !
    4°depois do inferno ele me levou até um local desértico,lá me mostrou três pessoas,servos leais que durante suas ultimas existências cumpriram os desejos e acordos com a morte e não perderam o jogo,então ficavam ali até chegar a hora de voltar entre nos humanos e trabalhar mais um pouco para o véu negro.
    Ao termino de nosso passeio eu tive a oportunidade de fazer uma única pergunta a ele,então sem pressa pensei em como fazê-la ,dizer tudo o que eu queria em uma única pergunta,mas era impossível enganar a morte.
    Então fiz a seguinte pergunta:
    - o que me resta depois de minha passagem terrena?
    Com um sorriso sarcástico,ela me respondeu:
    -para essa pergunta,você já tem a resposta,mas lembre-se do contrato.
    Com essas ultimas palavras,tudo se paralisou,der repente acordei.Confesso que eu estava meio preocupado,mas eu sabia que naquele momento o meu contrato estava realmente valendo,e que a minha querida morte era uma pequena professora,porem agora era por minha conta,se eu cumprisse o contrato eu iria para um lugar “melhor”,se não eu iria para o inferno,com as almas perdedoras,a escolha era somente minha.
    Capitulo 4
    Levantei e fui tomar um banho,confesso que me cortei um pouco,como eu já estava acostumado não sinto vergonha de contar para vocês,lembro-me que certa vez cortei minha perna e aquilo me deixou muito excitado,mas logo passou.
    Me enxuguei,coloquei uma roupa,quando ia saindo,reparei que a chave do apartamento de Michael ainda estava comigo,peguei-a  e fui ate sua casa,ao chegar La,desci do carro e toquei a campainha, reparei que a porta estava aberta ,entrei.
    -Michael você esta em casa?
    Comecei a Subir as escadas,entrei no primeiro quarto,não vi ninguém,derrepente ouvi um barulho no banheiro ,fui ate La,quando abri a porta Michael estava dentro da banheira cheia de água e com um secador de cabelos ligado em sua mão.
    -michael não faça isso,eu ainda te amo.
    -mas eu não me amo senhor c, até logo.
    Corri para desligar o secador da tomada,mas já erá tarde de mais,Michael morreu de uma forma chocante.
    CONTINUA..........
  • O jovem destemido

    Com pouco mais de mil habitantes, a cidade de Vila Velha era um refúgio dos grandes centros urbanos, e os únicos acontecimentos que agitavam a população do local eram nascimentos, casamentos e mortes, está última, sobretudo, quando se tratavam da Casa Mal-Assombrada que situava-se na cidade. Em mais de 150 anos de existência, a casa de dois andares, feita de madeira e com uma pintura há tempos desgastada fazia o mais corajoso dos homens suar frio ao se aproximar dela. E não é para menos: em todos esses anos, três famílias viveram no lugar e, segundo relatos, não sobreviveram para contar história.
    A primeira família, que construiu a casa, não vivera lá por mais de uma quinzena. Conta-se que, no meio da noite, gritos vindos da casa podiam ser ouvidos em todos os cantos de Vila Velha, e quando um grupo de pessoas decidiu entrar e ver o que estava acontecendo, os barulhos pararam de súbito e nada nem ninguém foi visto no local, incluindo a mobília. Não demorou muito para que o terreno fosse vendido, e uma nova família lá se instalasse. Naquele tempo a casa já tinha virado motivo de pânico para os mais supersticiosos, o que não afastou algumas pessoas nela interessadas. A segunda família, de sobrenome Turner, viveu lá por mais tempo. Foram aproximadamente cinco anos de uma estabilidade financeira razoável, porém um desequilíbrio emocional gigantesco por parte de marido e mulher. Brigas constantes um dia desencadearam algo muito maior: após vários dias sem nenhum movimento na casa e de um cheiro horrível exalar de lá, uma equipe policial acompanhada de alguns moradores entrou no local e presenciou uma cena um tanto quanto repulsiva: um corpo caído no chão com uma faca cravada no peito e outro corpo pendurado apenas pelo pescoço em uma corda presa ao lustre. Sem um exame preciso, era difícil discriminar homem de mulher.
    Depois desses dois acontecimentos, a casa caiu definitivamente no imaginário popular. Pessoa alguma chegava perto dela, que agora recebia o nome de Casa Mal-Assombrada de Vila Velha. Ninguém precisou ratificar nada, o nome simplesmente pegou. Por muito tempo, nenhum comprador interessado no imóvel apareceu, visto que ele teria supostamente matado seus dois últimos proprietários.
    Pois eis que surge então uma pessoa interessada na casa dita mal-assombrada, após exatos 50 anos. William Rayn era um jovem de apenas 20 aniversários, de baixa estatura, com os cabelos morenos até os ombros que deixava fluir toda sua juventude através de seu sorriso. Chegou à pequena cidade ainda de manhã, e pela primeira vez Vila Velha inteira parava para presenciar algo que não era um nascimento, um casamento ou uma morte. Dirigiu-se até a casa a pé, com uma multidão atrás dele. O padeiro parou de fazer pão; o barbeiro deixou um cliente à espera; os farmacêuticos e demais comerciantes fecharam seus estabelecimentos; todos largaram seus afazeres e foram imediatamente ver o novo dono da residência mais conhecida da região abraçar sua morte.
    William achou tudo aquilo engraçado, pois como uma simples casa poderia causar tanto medo nas mentes supersticiosas do povo do campo? O soar das suas botas ao andar davam a ele ainda mais confiança, e simplesmente deixou aquilo fruir: seu momento de fama estava lhe fazendo muito bem. Ao chegar em frente a casa e começar a subir os degraus da varanda, a multidão parou. Em sintonia, todo o barulho que os passos de meia cidade atrás dele faziam parou. William então virou-se para a multidão como se fosse uma celebridade e disse, tão alto para todo mundo ouvir:
    - Meu nome é William Rayn, e estou aqui para descriminar este lugar. Não haverá mais mortes, e vocês verão que não passou de pura coincidência. – Deu meia volta, tirou a chave da pesada porta de carvalho do bolso, a pôs na fechadura, girou e entrou.
    O odor do lugar não era o melhor que William já sentira. Além disso, o pó tomou conta da mobília que ali estava e a iluminação era muito precária. Ao subir as escadas, pegou um passarinho em flagrante entrando num buraco no teto, e pensou no mesmo instante que precisaria retificar aquilo o mais rápido possível. Largou sua única mala no maior quarto que achou e deitou-se na cama. Ficou ali por um tempo, pensando nas coisas que havia deixado para trás e como deveria ser dali para frente. William percebeu que a janela do seu quarto dava para um grande quintal atrás da casa, com uma grama incrivelmente verde e viva. Desceu as escadas e se certificou de que teria que fazer compras na vila, comida, aparelhos, roupas, tudo.
    O jovem rapaz saiu de sua nova casa e a multidão já estava dispersa. Tudo tinha voltado ao normal na cidadela. William então pôs-se a caminhar, lenta e tranquilamente, visitando mercados, farmácias, lojas de utensílios e de vestuário. Voltou para casa quando o sol já havia se posto, fazendo o mesmo trajeto de horas atrás. Subiu os degraus, parou na varanda em frente a porta, virou-se para a rua e, desta vez, com seu sorriso no rosto, deu um profundo suspiro de alegria. Observou as estrelas e as luzes das casas a sua frente e ouviu o cantar de alguns pássaros, provavelmente aqueles que estavam fazendo do sótão da casa seu lar. Virou-se para a porta e fez os mesmos movimentos, tirou a chave do bolso, a pôs na fechadura, girou e entrou.
    Willian ficou a maior parte da noite na cozinha, já que aquela noite faria uma macarronada ao molho branco com os mantimentos que comprou. Faria, se alguns acontecimentos estranhos não tivessem o deixado um pouco assustado. Ao primeiro sinal de fogo no antigo fogão à lenha da casa, uma rajada de vento fez com que a janela se abrisse e a brasa apagasse, além de um grande barulho de madeira contra madeira que a janela fez ao se chocar com a parede. Willian tentou algumas vezes mais acender o fogo, sem sucesso, pois todos os fósforos de dentro da caixa estavam literal e assustadoramente quebrados ao meio, o que dificultava seu manuseio. Por fim, desistiu e se convenceu a comer alguns produtos já prontos que comprou. Sua janta se limitou a bolachas de milho, frutas da venda da esquina de sua rua e alguns pedaços de pão dormido do mercado mais frequentado da cidade.
                Não passava das dez horas da noite quando Willian subiu ao seu quarto, com sua vela na mão, disposto a ler antes de dormir. Uma variedade imensa de livros existia no quarto principal, em uma estante dos antigos donos, e pensara que em até uma semana compraria uma estante nova para colocar todos eles. Curiosamente, estava apenas começando um livro que reunia os clássicos contos de Edgar Allan Poe, um dos mais incríveis escritores de terror de todos os tempos. Bem apropriado, Willian logo pensou.
                O primeiro conto era nada mais nada menos do que “O Corvo”, clássico absoluto do escritor. Não leu mais do que duas estrofes e, de repente, uma nova rajada de vento fez com que a chama da sua vela dançasse e quase se extinguisse e com que a janela batesse com um grande estrondo. Deu um pulo da cama, e com um ar sério e angustiado dirigiu-se até a janela, olhando para a noite. A lua era cheia e não havia nuvem no céu, e a Vila toda parecia ter morrido, pois luz alguma emanava de lugar algum. Isso deixou Willian ainda mais aterrorizado. Fechou a janela com rapidez e retomou seu lugar a cama, agora puxando o fino lençol para perto do peito.
                Retomou a leitura após alguns instantes de reflexão, dizendo a si mesmo que eram apenas coincidências e que nada teria de temer. Mas, logo que leu a primeira palavra, a rajada de vento se repete e a janela bate com ainda mais força. Dessa vez a chama não resiste, e a vela deixa Willian na completa escuridão, apenas com a luz da lua para iluminar seu quarto. De repente, ele percebe que um vulto negro entra pela janela recém aberta e pousa em cima do pé de sua cama. Willian não pensou duas vezes: atirou o livro ao chão e colocou-se por inteiro embaixo do lençol, deixando apenas a cabeça para fora.
                A figura negra ficou lá, imóvel, com os olhos brilhando em direção a Willian, que, nervoso, tremia incontrolavelmente. No momento de desespero, começou a pensar em todas as mortes que ocorreram na casa ao longo dos anos, na ave que estava parada dentro do seu quarto e no livro de contos de Edgar Allan Poe, tudo ao mesmo tempo em que tremia e guinchava de angústia. Foi no momento em que Willian controlou sua respiração e decidiu levantar e espantar a ave que, num rangido de madeira longo e contínuo a porta do seu quarto se abriu.
                A sombra de um homem alto apareceu diante da porta, e Willian corou de imediato. Nisso o corvo que continuava imóvel soltou o primeiro grunhido, e o homem avançou. Um, dois, três, quatro, cinco passos até chegar ao pé da cama e parar do lado da ave. Willian, aquela altura, já tinha encolhido o máximo que conseguia junto à cabeceira da cama e lágrimas já escorriam de seu rosto. Estava com medo, com muito medo. Ele sabia que             o homem o observava, junto com o corvo, mesmo não enxergando nada mais do que borrões brancos no meio da escuridão.
                Foi então que o homem levantou sua mão direita e, com uma incrível delicadeza, acariciou o animal que estava ao seu lado. Nesse momento seu olhar se desviou de Willian e focou no animal. O jovem não sabia o que fazer, nem o que pensar. Nada. Só conseguia ficar ali, paralisado pelo medo, com os olhos fixos na figura que estava parada a sua frente. Em um súbito momento de coragem, tentou exprimir alguma palavra, mas o que saiu de sua boca foi apenas um gemido, o suficiente para o homem a sua frente virar a cabeça em sua direção e afastar a mão do animal. Willian sabia que ele o observava. O mais novo dono da Casa Mal-Assombrada de Vila Velha estava tomado pelo medo, que se intensificou ainda mais quando o homem começou a andar em sua direção. Bastaram três passos para que ele ficasse perto suficiente de Willian e escutar o palpitar do seu coração que, naquele momento, quase saia pela boca.
                O homem pôs sua mão gelada como a neve no queixo do pobre rapaz e o levantou, fazendo-o ir de encontro com o dele, que ficava cada vez mais próximo, mais próximo, mais próximo até que, para seu alívio, Willian acordou. Acordou suado, com o livro de Allan Poe aberto em seu peito e com a janela e a porta devidamente fechados. Mesmo sendo um sonho, Willian não perdeu tempo: pegou suas roupas, livros e alguns de seus objetos, pôs tudo dentro da mala e saiu o mais rápido que pode de dentro da casa. Correu ainda de pijama até o fim da rua, onde havia a venda em que comprara comida no dia anterior, e pediu por um telefone ao comerciante que já estava encerrando mais um dia de trabalho. Willian chamou um táxi da cidade grande mais próxima, que chegaria em torno de vinte minutos. Vila Velha não tinha pontos de táxi, era pequena demais para isso, disse-lhe o comerciante. Durante todo o tempo de espera, não disse uma palavra, mas ficou em frente da venda, pois queria alguém por perto.  O táxi demorou um pouco menos do que o planejado, e Willian entrou tão rápido que nem se despediu do comerciante que o ajudara pouco tempo antes. Falou ao motorista que queria ir à rodoviária mais próxima. O mesmo consentiu com um aceno e acelerou. Não demorou muito para que o carro saísse da pequena cidade de Vila Velha e entrasse numa estrada de chão em péssimo estado. Mesmo assim, Willian não reparou nos solavancos que o carro dava e muito menos nas perguntas que o motorista fazia para tentar puxar assunto. Ele estava com a cabeça no sonho da noite anterior, querendo saber o que aquilo significava, o que havia acontecido e quem era aquele homem. Willian ainda sentia medo e sabia que o homem, de qualquer maneira, ainda o observava.
  • O Natal de Betinho

    Era fim de tarde e Betinho soluçava solitário encostado à porta da capela, a bunda magra torturada pelo frio da calçada. A palma da mão aberta mostrava uma moeda antiga deixada pelo pai em seu leito de morte, mas era antiga demais para comprar um presente para a mãe, outro para a irmã pequenina e doente, e outro para o irmão mais velho.
    Betinho odiava o Natal.
    Betinho odiava o Vigário.
    Há dias sua mãe não trabalhava mais para ele; não lavava o chão da igreja, nem ajeitava as velas do altar, nem tirava o pó das imagens... O vigário dizia que as beatas podiam fazer aquilo sem cobrar um centavo sequer, por quê pagaria a uma mulher preguiçosa e pouco religiosa como ela?
    Quando despediu a mãe do Betinho, o fez na sua frente, ignorando a existência do menino. Pensava que Betinho não entendia? Pensava que Betinho era burro?
    Betinho entendia tudo. Betinho sabia bem o significado da palavra “humilhação”.
    Por isso que Betinho odiava o vigário. Se pudesse dava-lhe um presente. Um presente tão asqueroso que o vigário jamais esqueceria.
    Mas aquela moeda não servia para nada, a não ser para lembrar da noite em que o pai se foi.
    Para quê ficar com ela? Para quê guardar aquela dor no bolso da bermuda, ou sob o travesseiro quando se deitava.
    Olhou bem para ela, a visão turva. As lágrimas partilhavam aquele momento. Das narinas escorria o catarro e a boca sentia uma mescla de sabores.
    Atirou a moeda para longe e enxugou a boca com o punho da camisa do irmão mais velho que usava quando estava suja. Só nessas ocasiões tinha um camisa: quando o irmão a atirava no cesto de roupa suja e usava a outra.
    Por que seu irmão tinha duas camisas e ele, nenhuma?
    Betinho odiava o irmão.
    Por que sua mãe nunca lhe comprou uma camisa e comprou duas para seu irmão?
    Betinho odiava sua mãe.
    E, ele agora pensava enquanto via a moeda rolar escada abaixo, sua mãe não lhe comprava uma camisa porque o dinheirinho que às vezes sobrava servia para comprar os remédios de sua irmã doentinha.
    Betinho odiava sua irmã doentinha.
    A única coisa que realmente amava era a lembrança do pai. O melhor a fazer era pegar a moedinha de volta. Descer aquela escada escura e fria apressadamente era o que devia fazer, caso quisesse reaver a moeda antes que algum delinquente o fizesse.
    Betinho desceu, os pés grudados nas costas, tamanha a pressa.
    Deteve-se no último degrau, junto ao chão.
    Um vulto esguio e negro como a noite que chegava segurava a moeda e abrindo-lhe um largo sorriso, perguntou:
    — Teu nome é Betinho?
    — Sim, senhor.
    — Queres comprar presentes de Natal com esta moeda?
    — Sim, mas não vale nada, senhor.
    — Vale bem mais que pensas.
    — O senhor acha?
    — Tenho certeza.
    — O que posso comprar com ela?
    — Muitas coisas. Mas antes, sentemos aqui, que te explico.
    O homem sentou primeiro naquele degrau.
    — Mas é tão gelado esse degrau! — Reclamava Betinho. — Prefiro ficar de pé, se o senhor não se importa.
    — Me importo, sim — o homem o encarou como se quisesse mata-lo, mas ao abrir um novo sorriso, continuou: — Por isso que já o esquentei para ti.
    Betinho sentou e mal pôde acreditar. O degrau estava quente.
    — O senhor é mágico? Está bem quentinho agora.
    — Não sou mágico. Sou um comerciante. E tenho uma proposta para ti. Quero te vender esta moeda.
    Betinho sorriu, inocentemente.
    — Mas esta moeda é minha!
    — Ora, mas é claro que não! Não a jogaste fora depois que descobriste que não queres mais lembrar do teu pai, que te amava tanto?
    — Como o senhor sabe disto?
    — Ora, mas não foi assim que pensaste quando jogaste esta moeda fora? Depois que descobristes que odeias o vigário, o teu irmão, a tua mãe e a tua irmãzinha doente?
    Betinho agora estava com muito medo. Com medo, mas com muita raiva e queria sua moeda de volta.
    — Dê-me a minha moeda, seu ladrão! — Gritou, avançando sobre aquele desconhecido.
    — Ela agora é minha porque a encontrei perdida nesta calçada — volvia ele, levantando-se e levando consigo o calor da calçada, transformando-a de volta naquela pedra de gelo. — Queres ela de volta?
    — Claro! — Betinho levantava-se e estirava a mesma mão que há pouco possuíra a moeda — Por favor!
    — Como disse antes, posso ti vendê-la.
    — Mas não tenho como pagar.
    — Claro que tens, olha só! Posso contar nos dedos! Conta comigo: O vigário, teu irmão, tua mãe, tua irmãzinha doente e teu falecido pai.
    Betinho sorriu. Agora havia descoberto: aquele homem era um louco qualquer, falava qualquer besteira que lhe passasse pela cabeça.
    — Por que ris? — Perguntou ele.
    — Porque o senhor é besta.
    — Sou mesmo?
    — Quer que eu pague com o vigário ou com meu irmão ou minha mãe ou minha irmã ou meu pai?
    — Sim, e por que não?
    — Está bem. Dê-me a moeda.
    — Não, não. Eu te vendo esta moeda. O que me ofereces em troca?
    — Deixe-me pensar... — Betinho nem precisou pensar muito. Era claro que já sabia. Era uma brincadeira, mas já sabia como brincar. —...O vigário.
    — Hum... — ele entregava a moeda a Betinho — Esta moeda deve valer muito para ti. Deste-me o mais valioso.
    — O canalha do vigário não vale nada — maldizia Betinho saindo correndo com sua moedinha de volta. Agora podia voltar para casa. Logo mais teria uma sopinha na ceia de Natal. Não era um peru, mas dava para encher a barriga.
    Enquanto cobria-se por uma densa nuvem de enxofre aquele homem dizia:
    — Verás o quanto ele vale.
    E lá ia Betinho feliz da vida para casa...
    A moedinha era sua novamente, agora era só entrar no beco e pronto já estava em casa.
    Mas, e aquele alvoroço?
    E aquela música? Não, não! Não era música, não! Era choro. Mas o que significava aquele aglomerado de beatas na frente da casa de Betinho? Que dor era aquela que todas sentiam em plena noite de Natal?
    Betinho pensou na mãe. O coração apertou quando entrou em casa e não a encontrou.
    — Cadê a mamãe? — Perguntou ao irmão, que ninava a irmã doentinha.
    — Foi na igreja cuidar das coisas do vigário.
    — Que tem o vigário?
    — Morreu, coitado. E parece que se enforcou, não sei porquê. Mas deixou uma carta que mamãe leu e correu para lá chorando como uma desesperada.
    — E o que dizia a carta?
    — Não sei. Mas tem teu nome, Betinho. Isso tem.
    Betinho correu para a porta, as beatas o olhavam com rancor, mas ele não entendia o porquê. Nunca havia dito nada que machucasse o vigário; o odiava, era verdade, mas somente seu coração sabia daquilo.
    Encontrou a mãe ao lado da cama onde o vigário jazia, coberto de flores brancas. Enquanto um terço pendia da mão que apontava para o alto em orações, uma folha de papel era esmagada pela outra, que se escondia às suas costas.
    Betinho olhou aquele papel que sua mãe segurava, mas antes que pudesse dizer qualquer coisa foi surpreendido por ela, que notou sua presença.
    — Betinho — ela virava-se e esbofeteava-o — viste o que fizeste?
    — Mas eu não fiz nada!
    — Toma! — Ela jogava-lhe o papel na cara. — Some daqui e lê. Depois verás o quanto fostes uma criança má.
    Betinho saiu resmungando “Eu? Eu não fiz nada! Não fiz nada, não! Ele morreu porque quis! ”
    Sentou-se num dos bancos e leu.
    Senhor Deus, me perdoa. Não fui um bom filho. Aprendi tantas coisas Contigo, todos os Salmos, toda a liturgia, os dogmas da Santa Igreja, mas não consegui ensinar o Amor a uma criança. Sim, ensinei o Amor a tantas outras que cresceram, tiveram filhos e eu ensinei o Amor a esses filhos e aos seus filhos e aos seus filhos e assim por diante, mas não consegui ensinar o Amor a Betinho.
    Sim, a Betinho. Esse menino falava demais nas minhas aulas e isso me irritava. E eu, pobre criatura miserável e pecadora, ao invés de entender o quanto sua alma é livre como o vento, reprimia-o, expulsava-o e ainda despedi sua mãe, tão boa para mim.
    Que adianta rezar o Amor se não consegui fazê-lo brotar no coração de Betinho?
    Que eu sucumba no mar de arrependimentos que invade minha alma.
    Perdoa-me, Betinho.
    Adeus! O malcriado não foste tu, fui eu.
     
    O coração de Betinho apertou. Deveria chorar?
    Deveria.
    Deveria correr até o quarto, jogar-se aos pés do defunto e pedir-lhe perdão?
    Deveria.
    — Mas ele não vai te ouvir.
    Betinho olhou para o lado e lá estava seu amigo coberto de enxofre.
    — Senhor, eu estava brincando. Por que o senhor matou o vigário?
    — Eu? Eu não matei ninguém. Tu o vendeste para mim.
    — Mas pensei que o senhor estivesse brincando.
    — Brincando? Numa noite como esta? Numa noite em que as casas estão celebrando a vida eu procuro celebrar a morte de alguma forma. 
    Betinho encheu os pulmões e gritou:
    — Chega! Esta brincadeira acabou agora!
    — Engano teu. Começou agora.
    A força com que Betinho sentiu a mão da mãe puxar-lhe os cabelos foi tanta que ele gritou, agora de dor.
    — Para de gritar dentro da igreja e vai para casa, pensar em tudo o que fizeste ao coitado do vigário todos esses anos, Betinho.
    — Mas, mãe. É culpa do diabo.
    — A culpa é tua, Betinho. Vai para casa, que não quero olhar para ti.
    Ele já descia as escadas, aos soluços.
    Sua mãe finalizou dizendo:
    — E pensar o quanto ele te amava...
    Quando chegou em casa o irmão chorava. A irmãzinha parecia uma boneca de pano em seus braços e estava branca como cera. O que havia acontecido agora?
    — Está morta, Betinho — dizia o irmão. — Agora que o vigário está morto, quem lhe dará a Extrema Unção?
    — Meu Deus! O que isto quer dizer?
    — Que as portas do céu não se abrirão para nossa irmãzinha e sua alma vagará pelo Vale do Sofrimento para sempre, Betinho.
    — Misericórdia!
    — Será que nem isto aprendestes na igreja?
    Betinho saiu porta a fora, mas antes pegou uma vela e foi até os fundos da casa, no quartinho dos livros que o pai lia para ele. Ali era um bom lugar para acender uma vela e pedir que todo aquele pesadelo acabasse. Sentia a presença do pai ali; quem sabe ele não pediria a Deus por Betinho...
    Acendeu a vela, ali mesmo sobre uma pilha de livros e rezou...qual oração se não aprendera nenhuma? E o que deveria pedir? Não sabia falar com Deus; nunca procurou aprender. Mas sabia que uma vela acesa já era meio-caminho andado.
    Agora deveria caminhar um pouco. Talvez se fosse até a padaria da esquina poderia conseguir um pouco de pão dormido para trazer para casa e comer com a família, mesmo em meio a tanto sofrimento...
    Saiu com aquela esperança no peito.
    Encontrou com a mãe no caminho, que perguntou para onde ele iria.
    — Para qualquer lugar onde não me culpem por algo que não fiz! — Ele estava com raiva.
    — E teu irmão está em casa? E tua irmãzinha?
    — Melhor a senhora mesma ir lá e vê.
     — Ó, meu Deus! — Ela adivinhava e saía correndo.
    Betinho caminhou um pouco mais e contou sua história ao velho corcunda da padaria, que compadecido, entregou-lhe uma sacola com alguns pães.
    Mas a fome era tanta que preferiu comer um pedaço do pão ali mesmo na praça. Depois comeu outro pedaço e outro e outro e outro...quando se deu conta havia comido tudo.
    E agora? Voltaria para casa e diria o quê?
    Que não havia ganhado pão algum.
    Pôs-se de pé e já ia voltar quando o clarão no céu o fez relembrar daquelas tardes quando o pai lhe levava até ali para ver o pôr-do-sol...
    Mas aquele clarão não era no céu, era logo mais abaixo.
    E havia fumaça também.
    — Corre lá, Betinho! — disse uma beata que passava. — Tua casa pegou fogo.
    Ele lembrava-se da vela sobre os livros.
    — Parece que tua mãe entrou por uma janela para salvar teu irmão, mas não deu tempo. Agora estás sozinho no mundo. Que tristeza.
    Totalmente em desespero Betinho presenciou os últimos momentos da grande fogueira que sua casa havia se transformado. Os vizinhos jogaram agua a noite toda e, de manhazinha tudo eram cinzas.
    Os três dias seguintes Betinho os passou sentado defronte às cinzas da casa, até que sentiu o cheiro de enxofre novamente.
    — O que o senhor quer agora, Satanás? Sei que o senhor é o diabo, agora. Não sei como consegui ser tão burro.
    — Não foste burro. Foste imprudente. Olhaste apenas para teu umbigo.
    — Mas agora está tudo perdido. O que mais o senhor quer?
    — Eu, que pergunto: queres mais alguma coisa?
    — Quero minha família de volta.
    — Sei. Mas não posso te dar.
    — Claro que pode! O senhor a tirou de mim!
    — Mas que calúnia! Nunca tirei tua família de ti. Eu a comprei, assim como comprei o vigário, de ti!
    — Pois eu exijo que o senhor me venda, de volta!
    — Tens como pagar?
    Betinho enfiou a mão no bolso da bermuda e entregou a moeda a ele.
    — Aqui está! Se com ela eu te vendi o vigário e minha família, com ela poderei compra-los de volta.
    — Certamente — ele pegava a moeda e a guardava no bolso. — Mas nesses três dias ela perdeu um pouco de valor, então ficarás me devendo um trocado.
    — Não devo nada ao senhor!
    Aquele homem acariciou a cabeça de Betinho e este se afastou rapidamente. A Nuca havia esquentado, parecia que ia ferver.
    — Pronto. Agora não me deves mais nada. Vai para tua igreja rezar. Quem sabe...
    O cheiro repugnante de enxofre fez com que Betinho se afastasse, correndo de volta para a igreja.
    Parou no primeiro degrau e pensou: tentarei subir rezando. Tentarei lembrar das aulas do vigário. Quem sabe, lembro ao menos do Pai Nosso.
    — Pai Nosso... — ele começava a subida —...que estais...no céu.... Santificado seja Teu Nome...
    Ele mal podia crer no que se passava. Conseguia lembrar. Não havia sido tão mal aluno. Sabia rezar, sim, senhor!
    No último degrau sentou-se e encostou na porta como há três dias o fizera. Respirou profundamente e fechou os olhos pensando em tudo. Na irmãzinha, no irmão, na mãe, no vigário...
    A porta abriu-se rapidamente e quase que ele tombou para trás, pondo-se de pé rapidamente.
    — Betinho, meu querido!
    — Vigário! — Betinho mal podia crer. — É o senhor mesmo?
    — E quem mais seria? Venha! Entre meu querido. Têm uns alunos que não sabem rezar como tu. Mas graças a Deus que tu me ajudas. És precioso!
    — Sou nada. Sou malcriado.
    — Tu? Malcriado? Tua mãe precisa saber disso.
    — Minha mãe? Ela está viva?
    — Mas que brincadeira é esta, Betinho? — o irmão chegava naquele momento. — Olha o que trouxe para ti.
    Betinho abria um pacote e sua emoção era grande. Lá estava a camisa que tanto sonhara ter.
    — Como é linda!
    — Não é lá das melhores — sua mãe chegava com sua irmãzinha nos braços. — Mas tua irmã está tão bem de saúde que não precisará mais de remédios e eu pude comprar uma camisa para ti para cearmos o Natal de logo mais à noite contigo, teu irmão e tua irmã bem vestidos.
    — E hoje teremos pão, sopa e peru — finalizou o vigário. — Nosso Natal será inesquecível.
    Betinho, emocionado, disse:
    — Com certeza. Jamais esquecerei de todos que amo tanto e deste Natal especial!
    Durante a noite a ceia foi perfeita. As músicas das beatas, as gargalhadas, os elogios da beleza de Betinho e do cuidado que ele tinha com a irmãzinha, o irmão e a mãe.
    Era uma noite inesquecível, não fosse um único detalhe. Detalhe esse que Betinho queria saber, mas não lembrava.
    De madrugada sua mãe veio apagar a vela que ainda iluminava seu quarto, mas ele não deixou.
    — Ainda não apaga, mãe. Queria perguntar uma coisa antes?
    Ela sentou-se ao seu lado na cama e perguntou:
    — Pergunta, filho. Se puder responder...
    — Bem eu queria saber uma coisa... — ele esforçava-se. — Queria perguntar sobre uma pessoa...só não sei quem é.
    — E como vou sabe, né? — ela sorriu, beijou-lhe a testa, apagou a vela e se foi.
    Minutos depois Betinho tornou a acender a vela e foi até o quartinho dos fundos. Talvez alguma coisa ali o fizesse lembrar.
    Ao abrir a porta...
    Não havia nada. Nenhum móvel ou objeto, nada.
    Como poderia lembrar?
    A nuca latejou e uma voz sussurrou rapidamente:
    “Agora não me deves mais nada”
    Balançou a cabeça e sorriu. Não havia nada para lembrar. Era melhor voltar para cama e aproveitar o restinho do Natal. Voltaria até no escuro. Gostava do escuro. Gostava de sentir medo, de vez em quando.
    Soprou a chama e se foi para a cama.
    Betinho guardaria aquela noite para sempre. Aquele havia sido um natal especial: a ceia com o vigário amigo, a sopa, o pão, o peru...A mamãe, o irmão, a irmãzinha, algumas beatas...
    Havia sido uma noite inesquecível; ele adormeceu pensando assim.
    Mas..e a moeda? Que moeda, afinal, se não havia lembrança alguma da moeda que o pai que tanto amara havia lhe dado em seu leito de morte.
    Pai? Que pai que havia retirado da memória no momento em que comprou o vigário e a família de volta?
    Pobre Betinho que vendeu a família e o vigário...
    Pobre Betinho sem moeda...
    Pobre Betinho sem seu pai...
    Fim
  • O Negro dos sonhos

    A Luz caiu
    Compreensível,afinal
    Lá fora da minha casa
    Caía um intenso temporal

    Sento em frente à janela,
    Meus pensamentos põem-se a voar;
    Apenas o fim da tempestade
    Todos eles pode findar

    Ouço um barulho seco
    Vindo do andar de baixo;
    ''Deve ser apenas um rato'',
    Penso,e relaxo

    Volto à janela,
    Onde é meu lugar.
    Quando, de repente,
    O barulho torno a escutar

    Dessa vez,aterrorizada
    Desço e vou checar...
    Haveria alguém lá embaixo,
    Pronto a me pegar?

    Minha pergunta se responde
    Em dos olhos um piscar;
    Acendo a vela no porão
    Mas não há nada para olhar

    Meu medo esquecido;
    Volto áquele lugar.
    A mesma janela,a mesma chuva;
    Mas não a mesma a observar

    Sinto-me diferente;
    Como se não fosse eu.
    Minha mente não é mais clara;
    Agora é só um breu

    Serei eu mesma,outra?
    Meu corpo já não se encaixa;
    Me sinto presa,sufocada,
    No canto obscuro da caixa

    Sinto algo tocar em mim,
    Rápida,olho para trás;
    Vejo um vulto negro,fugaz;
    Logo desaparece,aliás

    Mais barulhos,que estranho;
    Não são os mesmos de antes.
    Volto ao porão,
    Em passadas hesitantes

    Não apenas não vejo nada,
    Como vejo algo,sim
    Não vejo com meus olhos,
    Mas sinto atrás de mim

    Meus olhos se reviram,
    Minha boca se abre,
    Um esgar pálido me observa,
    Já face a face

    Os olhos da criatura
    Não demonstram piedade;
    Parece que veio determinado
    A cumprir sua finalidade

    Não sinto-me mais diferente
    Parece que passou.
    Agora a mesma mulher
    À frente da janela acordou.

    O Que teria sonhado?
    A Lembrança se esmaece
    Enquanto isso,calma,
    A chuva de novo aparece.
  • O Palhaço do Quindim

    Esta história aconteceu no bairro onde eu cresci e poderia muito bem ser uma daquelas lendas urbanas, mas não é. Era 1995, eu tinha oito anos e, como toda criança feliz, brincava muito na rua e tinha uma turminha: eu, a Lulu, a Tati, a Nina, o Gui, o Luquinhas e o seu irmão mais velho, o Piolho. Formávamos um grupo de crianças entre oito e onze anos. Sempre depois da escola, nos encontrávamos na Praça Central para brincar de pega-pega e comer picolé da carrocinha do Tio Maneca. Bons tempos. Ou nem tanto.
    No final da Rua Brasil, na casa amarela (que nossa turma apelidou de O Quindim), morava o Palhaço Roseta. Um artista circense muito misterioso: divertido como todo palhaço, mas meio macabro - como todo palhaço, também. Nunca alguém da vizinhança viu o Roseta sem sua vestimenta ou maquiagem de trabalho, nem jamais foi vista outra pessoa naquela casa, senão o próprio palhaço.  Segundo boatos, apesar de sua profissão, Roseta não gostava de criança e, se alguma ousasse entrar em sua casa ou roubar as laranjas da árvore do seu quintal, ele a comeria viva.
    Como toda criança, nossa turma adorava histórias estranhas. E também morria de medo do Roseta, apesar dele ser - pelo menos aparentemente - muito simpático com todo mundo. Incontáveis foram as vezes que marcamos (escondidos de nossos pais) de irmos à casa do Roseta para investigar o mistério do Quindim. Sempre desistíamos no meio do caminho – seja por medo do Roseta ou receio de sermos pegos por algum outro adulto.
    Foi em uma noite de sexta-feira treze, enquanto brincávamos na rua e contávamos histórias de terror que o Piolho, o mais velho do nosso grupo, anunciou:
    - É hoje! Vou invadir O Quindim, comer todas as laranjas do Roseta e descobrir o que tem lá dentro.
    - Você sempre diz isso, mas no final se borra de medo. Debochou a Nina.
    - Aposta quanto? Perguntou o menino.
    - Todas as minhas figurinhas da Copa 94, com álbum e tudo. Provocou o Gui.
    - Então tá bom. Vai buscar seu álbum, porque em menos de uma hora, ele e todas as figurinhas serão meus!
    Fomos todos em direção ao Quindim, vigiando se nossos pais não nos flagrariam. Quanto mais chegava perto, mais adrenalina sentíamos. Um misto de medo e curiosidade tomou conta de todos – menos do Piolho, que parecia estar muito confiante. Já o Luquinhas estava muito assustado:
    - Mano, tem certeza?
    - Tenho sim. Vou pular o muro, entrar pela janela, vejo o que tem lá dentro e  depois abro a porta para vocês entrarem.
    - Tá bom, só não vai sujar sua camisa polo nova, ou mamãe vai te matar!
    E lá se foi nosso amigo. Rindo muito e caçoando do irmão que estava quase chorando, o Piolho pulou o muro. Escutamos quando, já do outro lado, ele avisou que a janela estava aberta, portanto seria muito fácil entrar. Foi questão de segundos para ouvirmos nosso amigo falar: “entrei!”.
    O que ocorreu depois ficará eternamente em minha memória, pois nunca mais eu vi ou ouvi uma coisa tão assustadora. Acenderam-se todas as luzes da casa e do pátio, em um clarão fora do normal. A única luz apagada foi a da janelinha de cima, provavelmente de algum tipo de porão ou algo parecido. Nessa janelinha, vimos a sombra de um homem com nariz de palhaço. Apesar da escuridão do cômodo, conseguíamos enxergar algumas feições daquele ser estranho, por causa da iluminação externa. O homem era completamente deformado, com olhos saltados e mandíbula exposta, pois sua pele do queixo era totalmente corroída.
    Em uma das mãos, o homem segurava um menino pela gola do que parecia ser uma camisa polo. Na outra, ele apertava uma coisa com formato igual ao de um coração humano. Neste exato momento, um grito muito alto invadiu a rua:
    - Me ajudem!
    Com aquele grito estridente, toda a vizinhança saiu para ver o que estava acontecendo. Fomos obrigados a contar o que fazíamos em frente à casa do Palhaço Roseta, assim como o que havíamos acabado de presenciar. Adultos entraram na casa. A polícia chegou logo depois.
    Até hoje Rodrigo Farias – o Piolho - consta na lista de crianças desaparecidas da cidade. Diversas buscas foram feitas, pessoas deram depoimentos, mas sem sucesso algum. O Quindim ficou isolado por dias, semanas, mas nunca encontraram sequer uma pista. O Palhaço Roseta foi interrogado na mesma noite em que tudo aconteceu. Ele alegou que não viu ou ouviu coisa alguma, pois na hora do ocorrido, estava jantando no andar de cima.
    Tempos depois, Roseta se mudou e O Quindim nunca mais recebeu um novo morador. A casa tornou-se abandonada e, até hoje, é conhecida como mal-assombrada por crianças e pessoas que acreditam em maldições.
    No ano de 2013, li uma notícia na internet sobre a morte do velho Palhaço Roseta. Aposentado, ele vivia há alguns anos em uma região isolada de uma cidade litorânea. A causa da morte não foi informada completamente. Na notícia, constava apenas que o homem possuía “estranhos hábitos alimentares”.
    Desde aquela noite, eu e meus amigos nunca mais passamos em frente ao Quindim. Nem falamos no assunto. A única pessoa que ainda vive por aquelas bandas é, por incrível que pareça, o Luquinhas. Agora um homem casado e com um filho pequeno, fiquei sabendo que ele diz a todos que seu irmão foi engolido por um demônio e que, para evitar uma nova maldição, ele precisa se manter perto de onde tudo aconteceu. Por enquanto, está funcionando.
    FIM
  • O touro Agostinho

    Ela já contava com o atraso. Esperava sentada na fonte da praça do Giraldo, abraçando os joelhos junto ao peito e segurando os livros entre o abraço. Um calor difícil de sustentar debaixo de sombra, insuportável a descoberto. Mas era urgente retocar o bronze.
    Vestia tshit branca enfiada nas calças de cintura subida e tamancos pretos. Salto não muito alto.
    O opel corsa aproximou-se, arrastando a marcha e Simão arremessou o braço para fora da janela, muito concentrado sem mesmo retirar os olhos da estrada. Dora observou-o por breves segundos; postura rígida, pescoço reto. E como era de se esperar, depois de alguns  soluços, o corsa acabou mesmo por ir abaixo.
    "É seguro?", achincalhou ela da fonte.
    Ele não ouviu. Ficou a controlar do retrovisor se algum carro se aproximava.
    "Simão, acorda e ajuda-me a pôr a mala atrás", pediu ela carregando a mala com as duas mãos na frente
    "Espera aí, acho que vem uma carrinha."
    "Ela que espere. Faz-te cavalheiro e ajuda-me a carregar o raio da mala."
    Simão abriu a porta, ainda de olho na carrinha que entretanto parara ao fundo. A camisa xadrez a pender-lhe em torno da cintura. Carregou a mala sem fitar Dora, desajeitado e tropeçando nas próprias atitudes nervosas.
    "Entra rápido que a carrinha vem aí", avisou.
    Dora ficou parada do lado de fora a encará-lo antes de entrar.
    "Simão", começou ela. "Relaxa, estás uma pilha de nervos."
    "É que vem lá a carrinha e depois começa a apitar."
    Ela entrou de braços cruzados, para vincar o desconforto com a atitude do outro, que fez o carro engasgar-se para arrancar.
    Da praça do Giraldo até à saída de Évora foram cerca de dez minutos. Dez minutos de janelas escancaradas e o rádio a berrar qualquer música de Nirvana que ele também cantarolava e batucava com os dedos no volante. Depois exibiu o fio ao pescoço com o nome da banda, vangloriando-se por já ter comprado os bilhetes para o concerto.
    "Vou estar cara a cara com ele" gritou enfiando uma palmada na perna de Dora. "Kurt Cobain, o deus do grunge."
    Simão estava numa euforia excessiva. No fundo, Dora quase o invejava por não poder viajar sozinha também até Lisboa. Não pela música, mas pelo passeio.
    Ela fez questão de lhe dizer que não o achava preparado para viajar sozinho até Lisboa sem alguém experiente do lado, mas ele nem ouviu, ou fingiu que não escutou. Enfim, haja dinheiro, pensou ela. O carro era novo e o entusiasmo incontrolável.
    Simão continuou a divagar qualquer coisa acerca de Kurt Cobain. O cabelo estava quase como o do ídolo, mas ligeiramente mais ortodoxo, estilo cortina separado no centro para cada lado. No entanto, para Dora, a música resumia-se a berros de jovens mal resolvidos com a sociedade. E insistia no mesmo argumento.
    "Uma heresia", dizia Simão já enfadado.
    Mesmo assim não conseguiu impedi-la de quase arrancar a k7 do rádio. Ela não ia de maneira nenhuma até Beja debaixo daquela guerra de guitarras e gritos. As notícias da tarde eram mais interessantes para acompanhar o descampado de início de Verão que já se tingia de amarelos, salpicado de sobreiros descamisados.
    Informação de última hora, mais um agricultor desaparecido. Dora quase arrancou o volume para aumentar.
    "Shhh!", fez apontando o ouvido.
    “O que foi?”
    “Espera, deixa ouvir.”
    Falava-se do desaparecimento de um agricultor, na sequência da morte de outro coitado. Um total de três homens desaparecidos e um morto. Conflitos motivados por desacordos acerca de herdades e terrenos. Aparentemente existia um terreno problemático na junção de outros quatro, cujo os limites se interceptavam. Alguma coisa aquela propriedade tinha, que fomentava a discórdia. Ainda que o sujeito encontrado morto tivesse sido abalroado por uma manada de touros bravos. Não era certo de que se tratavam de assuntos relacionados, mas aconteciam na mesma área; bem ali onde Dora e Simão deslizavam a caminho de Beja.
    “Não é estranho?”, perguntou Dora, de atenção dividida entre o rádio e Simão.
    “Sei lá”, deu o outro de ombros.
    “Mas ouviste? Agora matam-se uns aos outros por um pedaço de terra? Voltámos à idade da pedra.”
    “Eles que se entendam. Não gosto de agricultores”
    Não era o desentendimento que preocupava Dora, eram as proporções que atingiam. Ainda que Simão o tentasse ignorar, havia por certo muita gente envolvida numa terra tipicamente tão recatada. Um problema a nível nacional de algo que acontecia nas suas barbas.
    “Mas este foi colhido pelos touros”, relembrou Simão.
    “Que por acaso também estava envolvido nas brigas… Não acredito em coincidências”
    Simão fixou o olhar no painel de combustível.
    Quase na reserva.
    Optou por não dizer nada mas o sinal amarelo não se conteve.
    “Estamos na reserva?”, perguntou Dora de olhos arregalados, assim que o sinal brilhou.
    Deu-se uma troca de quase insultos entre os dois. Simão revelava-se muito mais inexperiente do que ela ponderava. E ele insistia em afirmar que conseguiam chegar ao próximo posto com a reserva.
    Acabaram por encostar aos portões da quinta mais próxima. “Herdade do Girasol” lia-se na placa. A estradinha de terra afunilava à direita até ao casebre azul e branco no topo.
    “Vamos pedir ajuda antes de ficarmos sem a reserva”, disse Dora.
    "Eu ainda acho que chegávamos até à próxima..."
    "É melhor não arriscar", ela interrompeu. "Perguntamos se têm telefone, assim ligamos a alguém para nos vir buscar."
    Caminharam ladeados por uma cerca de pedra, e a meio do percurso ficava o portão do cercado.
    Aberto.
    Outra placa a indicar "Gado bravo". Pararam automaticamente, admoestados pelo receio.
    "Gado bravo e deixam o portão aberto. Por isso é que depois temos agricultores colhidos por manadas de touros"
    "Vou buscar o carro", sugeriu Simão.
    "Deixa, agora falta pouco. Corremos."
    E desataram a correr como crianças até à casinha azul e branca. Ela equilibrando-se nos tamancos, ele evitando o pó nos redley com a camisa à cintura quase a arrastar no chão.
    A casinha albergava o hálito fresco da cerâmica, e a velhinha muito magra limpava as mãos ao avental para servir dois copos de água.
    "O Alberto já liga o telefone aqui na sala", ia ela dizendo num sotaque cantado.
    As paredes sustentavam molduras a preto e branco de rostos jovens de lábios escuros, recordando outros tempos.
    "Beto, o telefone", gritou a velhota carregando os copos de água.
    Cabelo curto e grisalho, olhos concentrados em tarefas por cumprir.
    Beto entrou pela sala e deixou o telefone, branco amarelado na mesa. Já era de botões. O velhote voltou para dentro queixando-se das modernices, esquecera os fios para ligar à tomada.
    "Não sei se viu mas deixaram o portão da cerca lá em baixo aberto", avisou Dora. "Pode ser perigoso porque depois anda aí gente de um lado para o outro".
    A velhota parou, virada para a janela, de costas para os dois.
    "São touros que têm ali?", insistiu Dora. "A plaquinha da entrada diz girasol em vez de girassol. Mas é só um detalhe"
    "A menina faz muitas perguntas", respondeu a velhota numa súbita mudança de temperamento.
    Dora ia dizer que só estava a avisar mas foi interrompida pela voz esganiçada da senhora quase aos gritos:
    "Não tem que andar a espreitar a vida das pessoas, se o portão está aberto é para ficar aberto. Agente sabe o que faz."
    O rosto de Dora encheu-se de vermelho, os lábios apertados, olhos lacrimejantes. Simão conhecia aquela cara. Sabia que Dora não era menina de aceitar desaforos. E a velhinha continuou a carregar na mesma ferida.
    "Dora, não vale a pena", sussurrou Simão.
    "Isso é o que vamos ver. Era só o que me faltava", começou Dora. "Mas está aos gritos por quê? Eu ofendi-a? Deve ter algum problema na cabeça, só pode".
    A velhota revelou-se osso duro de roer e rapidamente a discussão tomou dimensões desmedidas. O pescoço de Dora inflamado em veias, o dedo da velhota no ar a ameaçá-la. Nem mesmo Simão conseguiria apagar o fogo que se alastrava como um rastilho de pólvora.
    "Vieram cá para vigiar?", perguntava a velhota. "Pois fiquem sabendo que daqui não nos tiram."
    "Mas do que está você a falar?"
    No meio do reboliço Dora mal teve tempo de ver a pá esparramar-se na cabeça de Simão. O sangue salpicou-lhe a tshirt branca, e o coitado ficou estatelado no chão, de fio ao pescoço exibindo as letrinhas "Nirvana". Dora ficou de boca escancarada a cruzar o olhar entre o velho e a tshirt. O velhote correu todo encarquilhado de pá prontificada também para cima de Dora
    "Você, não grita com a minha mulher", advertiu antes de investir com a pá no chão.
    Dora tropeçou nos tamancos quase caindo de costas. E de cotovelo a proteger a cara, ainda gritou: "Desculpem, eu não queria...". Coberto de ódio, o homem continuou de pá hasteada e ela correu, desequilibrando-se para a saída.
    A velhota berrava como uma galinha a ser degolada: "Vai buscar a espingarda, Beto"
    E o Beto já de pressão de ar em punho ainda apontou alguns chumbos a Dora que desejava ter trazido os ténis.
    É quando corre pela vida que o ser humano consegue as mais magníficas proezas; Dora galgou o muro de pouco mais de um metro e aterrou de mãos nas fezes de um qualquer bovino. Ainda se sentia o odor a feno embrulhado em travos de chiqueiro.
    Sentiu o leve cutucar de mão de criança, e a voz sussurrou.
    "Vem, aqui não te vão fazer mal."
    Ela olhou para cima, e eis um menino de cerca de dez anos, chapeu virado para trás, pele muito branca e macacão arregaçado na perna.
    "Atrás da árvore não nos conseguem ver", continuou ele, puxando Dora pela mão.
    Dora conseguiu recuperar a pulsação ao deixar de ouvir as chicotadas da espingarda. Debaixo da árvore, apertou os joelhos contra o peito e ficou a estudar o rosto do menino que a observava, apoiado na vara. Ela esperava que ele lhe entendesse os pensamentos. Mais do que isso, ela queria que o menino compreendesse o medo que o seu espírito carregava naquele instante. Os olhos como dois copos de água cheios, prestes a verter.
    Mas logo secaram quando a pouco mais de dez metros de distância conseguiu identificar, uma rocha? Indagou ela.
    Começou por descortinar os cornos, apontados na sua direção, o focinho brilhante, de narinas em riste, atravessadas pela argola.
    "Está um boi atrás de ti", disse ela com a voz trémula.
    O menino rodou apenas a cabeça, mantendo-se apoiado na vara e sorriu antes de dizer:
    "Ele não nos vai fazer mal. O Agostinho só está curioso."
    Depois, o miúdo posicionou-se de cócoras muito próximo de Dora.
    "É o chefe de todos os outros", completou ele apontando para os outros bois que entretanto surgiam por ali.
    Dora limpou o ranho do nariz, que insistia em pingar.
    "A avó deu nomes de padres famosos a todos. Ela diz que os touros são rigorosos como os padres e zelosos na distribuição da mensagem. Têm uma tarefa muito importante em mãos."
    Agostinho afastou-se num trote nervoso e desapareceu no horizonte.
    O menino continuou: "A avó está com medo que nos tirem da quinta por eles já serem velhos. Eu sei que está preocupada mesmo que tente esconder."
    "E os teus pais?", questionou Dora.
    "Morreram há uns anos. É por isso que os outros agricultores querem ficar com o que é nosso."
    "Eu tenho que ir buscar o meu amigo, ele ficou lá em cima", explicou Dora, em devaneio.
    "Anda", disse o menino segurando-lhe o braço. "vou mostrar-te um segredo."
    Caminharam pelo pasto até uma descida acidentada. Dora mantinha a atenção presa na casinha azul e branca, cada vez mais distante. E então o menino parou.
    "Consegues ver?", perguntou.
    Ela esforçou-se para entender o que via. Um amontoado de…
    "Vamos aproximar-nos mais. Não caias", avisou o menino.
    Conseguiu por fim decifrar o que via. O medo foi crescendo, drenando-lhe o rosto e acelerando o coração. Ela ficou quase morta de medo ao ver os corpos amontoados lá em baixo.
    "Queriam tirar a quinta à minha avó, mas enviei-lhes o Agostinho.", explicou ele com um sorriso rasgado nos lábios. O menino tinha olhos de gato, esverdeados, observou Dora. E uns lábios muito vermelhos. Era um menino bonito até.
    Ele voltou-se novamente para os corpos dos agricultores, precipitados no barranco. Dora encheu-se de energia, empurrou o menino para o chão e desatou a correr de volta ao muro. Não foi uma boa decisão, para Agostinho que emergiu ao fundo, de cornos rentes ao chão, um galopar de pernas curtas. Não esperou pelas ordens do menino, ele faria justiça e lidaria depois com as possíveis consequências.
    Dora não estava disposta a ser colhida pela onda de fúria prestes a rebentar-lhe em cima. Correu de pés descalços, e olhos fixos no muro de pedra. Os outros touros incentivaram Agostinho juntando-se à perseguição, fazendo o chão tremer. Apesar do calor, o céu carregava-se de nuvens escuras que coavam a luz solar.
    No momento em que Agostinho se prontificava para executar a sentença, Dora saltou cheia de destreza o muro de pedra, caindo de pernas assentes no chão. Agostinho esbarrou de cornos contra o empedrado, recuando sobre as patinhas delicadas, equilibrando toda a massa negra de músculos.
    Ela continuou a correr em direção ao carro. Apesar do terreno acidentado, não cedeu à dor nos pés que já sangravam.
    O carro permanecia de portas abertas. Sentou-se ao volante, num surto de desespero. Mas as chaves estavam nos bolsos de Simão, que jazia na casinha azul. E mesmo que as chaves ali estivessem, ela não saberia nem ligá-lo.
    Voltou a sair do carro. Seria mais sensato pedir socorro junto à estrada principal. Mas sentiu um peso forte na nuca que a fez aterrar de mãos no chão. A vista turva. O corpo a ser arrastado pelo pó.
    "Desta vez não me escapas", ouviu ela.
    Conhecia aquela voz rouca. Estava a ser arrastada pelo velhote, ainda de pá na mão.
    Os olhos não resistiram à dor e de um momento para o outro tudo escureceu.
  • Pré-Mentira

    “– Raphael may amech zabi almi – gritou o gigante. – Ó alma tola – respondeu Virgílio – fica com essa tua trompa, que está presa a teu peito, e faze uso dela para descarregar tua raiva! – e depois voltou-se para mim – Ele mesmo se acusa. Ele é Nemrod, o construtor da torre de Babel. Para ele, língua alguma faz sentido, portanto vamos deixá-lo, pois é perda de tempo tentar falar com ele”.
    (Dante Alighieri – A Divina Comédia – Canto XXXI) “
    Ele era o melhor investigador de toda a cidade, conhecido por Cherlóqui, por isso sabia que aquela chamada, em plena madrugada, só podia ser um caso muito sério. Chegou ao local do crime, onde se encontrou com o perito.
    “Qual a história?”
    “Homem, aparentando uns 35 anos de idade, teve a cabeça e os pés arrancados de forma violenta”.
    “Identificação?”
    “Não temos a arcada dentária, pois falta a cabeça”.
    “Arrancaram os pés para torturá-lo, depois deceparam a cabeça para dificultar a identificação?”
    “Não, nossa perícia indica que primeiro arrancaram a cabeça, depois os pés”.
    O investigador procurava compreender por que o assassino arrancaria os pés de uma vítima já morta, não era como se ela pudesse fugir faltando-lhe a cabeça.
    “Além disso, deixaram as mãos, com as digitais perfeitas”.
    O chamaram em plena madrugada para aquilo?A vítima seria facilmente identificada. “Qual o resultado da papiloscopia?”
    “Então, doutor, isso que é o pior?”
    “Não houve identificação?”
    “Sim, duas.”
    “Duas?Isso não é possível, algum erro no procedimento”.
    “Pior que não, doutor, repetimos o procedimento diversas vezes, o resultado é esse mesmo”.
    “Fascinante, a vítima são duas pessoas”.
    “É pior que isso, doutor”.
    “Como assim?”
    “As digitais da mão direita são uma combinação perfeita das minhas digitais.”
    “Do senhor? Mas isso não é possível, o senhor está aqui, vivo, não pode ser a vítima”.
    “Pois é”.
    “E as digitais da mão esquerda?”.
    “São do senhor, combinação perfeita”.
    “Eu?”
    “Sim”.
    “Mas isso não faz sentido, eu estou aqui, vivo”.
    “Pois é, eu também”.
    “Mais alguma prova?”
    “Sim, uma testemunha do crime”.
    “Ótimo, vamos falar com ela”. O perito indicou a um policial que fosse buscar a testemunha.
    “Esse é o corpo de delito mais estranho que já vi, por isso mandei chamar o senhor imediatamente”.
    “Fez muito bem, logo encontraremos a lógica disso tudo”.
    O policial voltou trazendo a testemunha pelo braço.
    “Então o senhor testemunhou o crime?”
    “Não”.
    “Encontrou o corpo?”
    “Também não”.
    “Mas por que está aqui como testemunha?”
    “Melhor dizer ao doutor tudo que você sabe”, disse o policial, sacudindo a testemunha pelo braço”.
    “Eu não sei de nada, estava visitando um amigo em Sapopemba, me pegaram e trouxeram pra cá”
    “Sapopemba?Mas isso é do outro lado da cidade”.
    “Pois é, eu nunca nem estive por esses lados da cidade”
    O investigador se via diante do maior desafio de sua bem sucedida trajetória profissional. Um crime com uma testemunha que não sabia nada do caso, provas periciais que apontavam para vítimas impossíveis, todos os elementos que indicavam uma grande conspiração, envolvendo os figurões mais poderosos da cidade, desmascarados pela lógica apurada do investigador Pauderney de Oliveira, mais conhecido como o Cherlóqui de Guaianazes.
    “Meus caros, estamos diante de um caso fascinante, talvez um dos maiores crimes da história, e digo isso com grande convicção”. Ao ouvir as palavras do grande Cherlóqui, testemunha, policial e perito se estenderam eretos, sentindo-se importantes por fazer parte de um caso de tamanha gravidade.
    “E a arma do crime?”, perguntou o investigador.
    “Mais um embrolho, doutor. Nossa perícia indica que os pés e a cabeça foram arrancados por meio de um cortador de unhas”
    “Cortador de unhas?”
    “Sim, cortador de unhas”.
    “Aquela faquinha que tem no meio, pra tirar sujeira debaixo das unhas?”
    “Pior que nem isso, doutor, foi o cortador de unhas mesmo”.
    “Mas isso não faz sentido. Quanto tempo o assassino ia levar pra cortar uma cabeça com um cortador de unhas?”
    “Pois é”.
    “Aliás, falando em tempo, qual o horário da morte”.
    “Mais um problema, doutor. Rigor mortis indica a hora da morte às 3h”.
    “E qual o problema?”
    “Bom, como foi usado um relógio de ponteiro, não sabemos se é 3 da tarde ou 3 da madrugada”.
    “Como assim?”
    “Pois é, doutor, não faz sentido”.
    Cherlóqui se via diante do maior enigma de sua vida. Um corpo com os pés e a cabeça arrancados por um assassino armado com um cortador de unhas, que o utilizou com grande destreza para mutilar sua vítima, cuja identificação permanece desconhecida. Estava diante de um assassino frio e impiedoso, que certamente agiria de novo. Mas como desvendar esse crime diante da completa ausência de lógica na cena crime?Cherlóqui acendeu seu cachimbo e começou a baforar, enquanto refletia sobre as possibilidades do caso. Os demais acompanhavam em silêncio, sentido o aroma do burley queimando.
    “Elementar, meus caros, já desvendei o caso, já sei de tudo”.
    “Mas como, doutor, sem provas, sem testemunha?”, indagou o perito, admirado.
    “Deduzi quem é a vítima analisando as peças do caso”.
    “Mas quem?”, perguntou a testemunha que nada havia testemunhado.
    “Vejam bem, temos um corpo do qual foram arrancados a cabeça e os pés a golpes de cortador de unhas, instrumento praticamente inviável para a prática desse odioso crime, um ato completamente sem sentido. Depois, temos a hora da morte, que pode ter uma diferença de até 12 horas, devido ao recurso a um relógio de ponteiros, conduta inexplicável por parte dos profissionais envolvidos Isso também não faz qualquer sentido. Se isso não fora o bastante, temos a prova pericial que apresenta impressões digitais com combinações perfeitas e cientificamente inquestionáveis com as impressões do nobre colega perito e aquelas do investigador do caso, ambos aparentemente vivos, e com os pés e cabeça intactos, como se pode facilmente comprovar”, disse Cherlóqui, abrindo os braços, como se permitindo que sua integridade física fosse avaliada pelos presentes, gesto repetido pelo perito. “Além disso, senhores, temos uma testemunha que nada viu, que nada sabe, que se encontrava em Sapopemba, fazendo sabe-se lá o quê, mas que, ainda assim, está aqui diante de nós como testemunha”.
    “Eu tava visitando um amigo, tenho culpa de ele morar lá?E desde o começo eu disse que não sabia de nada”, se justificou a testemunha, “cala a boca”, disse o policial, chacoalhando seu braço.
    “Doutor, mas esses fatos não fazem qualquer sentido”.
    “Exato, não fazem sentido para os leigos, mas para a mente experimentada nos caminhos da lógica, para o raciocínio apurado de um investigador, a conclusão é inevitável: a vítima é a história”, os três se entreolharam em dúvida com a resposta do renomado investigador.
    “Prezados, a vítima é a história, estamos diante de uma história sem pé nem cabeça”, concluiu o grande Cherlóqui.
    “Meu Deus, e a gente dentro?Eu quero voltar pra Sapopemba!!”, gritou a testemunha, desesperada, “já falei pra você calar a boca”, repreendeu o policial, sacudindo-lhe pelo braço.
    “Sim, meus caros, temo que sim, estamos dentro de uma história sem pé nem cabeça”, lamentou Cherlóqui.
    “E o assassino, quem é esse vagabundo, doutor?”, arguiu o policial.
    “Ah, estava quase me esquecendo, obrigado por me lembrar. Senhores, o assassino pode ser facilmente deduzido a partir da vítima, a lógica é impecável. O assassino é o autor.
    “O autor?”, perguntou o perito.
    “Sim, não resta dúvida, o assassino é o autor da história”, conclui Chelóqui.
    “Mas por que ele fez isso com a pobre da história?”, questionou a testemunha.
    “Boa pergunta, meu caro”.
    “Writer´s block?Um autor sem imaginação?”, especulou o perito.
    “Melhor não provocar”, recomendou o policial, “nossa vida tá na ponta da caneta do homem”.
    “Escritores costumam ser seres caprichosos, difícil entender a lógica que os guia, sempre muito carregada de subjetividade”, palpitou Cherlóqui.
    “O assassino é o autor dessa história sem pé nem cabeça, nosso destino está nas mãos desse facínora. E agora doutor?”, perguntou o perito.
    “Temo que sim, creio que precisamos descobrir uma maneira de restabelecer a lógica dessa história, e assim retornar ao dia a dia de nossas vidas”.
    O grupo refletia em silêncio, imaginando uma maneira de restabelecer o sentido daquela história.
    “E se tentássemos discutir temas científicos?Algo das ciências exatas?Nada mais lógico”, sugeriu o perito.
    “Tenho minhas dúvidas, algumas discussões científicas descambam para o que há de mais irracional. Além disso, todos os pressupostos que balizam o pensamento científico decorrem de mero ato de fé. Creio que discussões como essa apenas trarão mais confusão, complicando ainda mais a nossa já complicada situação”, argumentou Cherlóqui.
    “E se a gente falar de futebol?”, opinou a testemunha, mas ninguém lhe deu atenção, nem o policial que costumava chacoalhar o seu braço. Sem graça, ele voltou a fuçar seu nariz em silêncio.
    “Podemos discutir as possibilidades de livre-arbítrio diante de um autor autoritário e sem empatia”, sugeriu mais uma vez o perito.
    “Tenho minhas ressalvas, esses temas metafísicos são ainda mais complicados que a ciência”, opinou Cherlóqui.
    “O que é livre-arbítrio?”, perguntou o policial. A testemunha permanecia em silêncio, cutucando seu nariz.
    Apesar da situação desfavorável, Chelóqui contemplava tudo em um estado de êxtase, uma quase alegria, como que uma criança diante de um brinquedo novo. Já não tinha dúvidas de que havia chegado ao ápice de sua brilhante carreira, finalmente encarava o criador da história em pessoa, e toda sua lógica cartesiana não seria capaz de desvendar, necessitaria de um raciocínio quântico, de recurso às ciências ocultas. Nesse estado de contemplação, Cherlóqui simplesmente perdeu a noção do tempo-espaço, e mergulhou de cabeça no maior mistério do universo, indiferente a seus colegas de infortúnio. E foi nesse delírio, que finalmente viu a luz.
    “EUREKA!!!”, gritou Cherlóqui, excitado, “é isso, é isso”!!
    “Que foi, doutor?”, perguntou o perito, espantado”.
    “É isso, é isso, desvendei o enigma!!!”, Cherlóqui parecia possuído, sua face havia se transformado totalmente, não mais apresentava a expressão serena do lógico investigador, mas o sorriso abobalhado, o olhar distante, típico daqueles que perderam a razão.
    “Desvendei o enigma, desvendei o enigma. Meus caros, nenhuma história tem pé nem cabeça, nenhuma faz sentido, assim, não há nada de anormal nessa história na qual figuramos, é só mais uma consequência lógica da história das histórias, o final é sempre Deus Ex Machina, é tudo uma farsa, uma grande gambiarra ad hoc criada para nos iludir com a ideia de que existe algum sentido, quando nada faz sentido, NADA FAZ SENTIDO HAHAHAHA”.
    “Como assim, doutor?”, perguntou o perito. O policial já não entendia mais nada, e teve vergonha de perguntar o que era Deus Ex Machina. A testemunha continuava entretida com as entranhas de seu nariz, como se nada tivesse acontecido.
    “Pensem nas outras histórias que são contadas, nenhuma faz sentido. É esse o enigma, nada tem sentido, hahahaha”, os demais permaneceram calados, tinha o grande Cherlóqui sido acometido pela loucura?Tinha a história sem pé nem cabeça prejudicado seu juízo?
    “Por que o senhor está rindo, doutor?”, perguntou o perito.
    “Porque posso, o homem ri porque pode, não há necessidade de motivo, na verdade, rir sem motivo algum é a maior homenagem a esse vazio indiferente. É o riso imotivado que nos integra ao absurdo, ao absoluto, que não passa da maior história sem pé nem cabeça já contada”.
    “Mas o que vamos fazer pra sair dessa?”
    “Restabelecer o sentido é o único ato de resistência possível, decorrência natural da constatação de que nenhuma dessas histórias que nos contaram a vida toda faz algum sentido. Já pensaram nisso?A falta de fundamento dos pressupostos de nossas vidas?É assustador”
    “É verdade, pensa naquela história da Arca de Noé, onde ia caber tanto bicho?”, argumentou o perito, “sem falar que aquela bicharada toda ia se matar lá dentro, só ia sobrar o leão e outros animais dos mais fortes. Nem Noé e sua família escaparia”.
    “E o Pinóquio?”, indagou o policial, “o nariz do cara cresce, onde já se viu?Se cada vez que mentisse o nariz crescesse, daí ficava fácil, era só sair prendendo os narigudos. Mas eu já vi vagabundo sem unha que continuava mentindo, tem mentira que nem pau-de-arara quebra, é uma coisa poderosa demais, a mentira é mais forte que a dor”.
    E os três(a testemunha continuava cutucando o nariz, eventualmente comendo o que encontrasse) se empenharam em desnudar a falta de sentido de todas as histórias que já ouviram, desde a bíblia até os mais recentes filmes de Hollywood, e tudo parecia, enfim, ter algum norte.
    “Parece que está funcionando”, disse o perito, “estamos recobrando o sentido”.
    “Prezados, tudo indica que vamos, por fim, sobreviver a essa história sem pé nem cabeça”, disse Cherlóqui, otimista.
    “Socorro!!!Me ajudem!!Me ajudem!!!!A testemunha se transformou numa enorme barata”, gritou o policial, tentando conter as dezenas de braços que se agitavam pelo ar”.
    “Não vamos perder o foco”, disse Cherlóqui, “é só um livro do Kafka.
    “Quem?”, disse o policial, já se rendendo ao baratão.
    “É, há mais coisas entre o céu e a terra, do que julga a vã filosofia”, parabolou o perito.
    “Não!!!!!!!!!”, gritou Cherlóqui, mas era tarde. Um enorme abismo se abriu, exibindo aos três as profundezas do Inferno.
    “São os nove círculos do inferno de Dante”, gritou Cherlóqui, com os cabelos agitados pelo redemoinho de fogo que os envolvia, “eu falei pra evitar temas metafísicos”.
    “Mas era Shakespeare”, retrucou o perito.
    “Dá na mesma”, concluiu Cherlóqui.
    “Meu Deus, a barata foi engolida pelo quinto círculo”, gritou o policial, enquanto observava o inferno se aproximar cada vez mais deles.
    Encarando a imensidão do inferno que se abria, o grande Cherlóqui constatara a insignificância de sua vida diante dos caprichos do destino. Não era mais o grande Cherlóqui, a “Águia da Vila Carrão”, mas um mero ponto sem importância na vastidão do Universo. Havia algo ao mesmo tempo aterrador e magnífico na perspectiva que essa contemplação de uma força irresistível proporcionava ao investigador. “Ah, João Paulo, como tinhas razão, o homem é uma paixão inútil”. Toda a lógica, toda a razão, em todas as suas formas, se derretiam na corrente de eventos que se sucediam de forma simultânea, destruindo completamente qualquer concepção de tempo, transformando tudo em uma enorme pasta disforme, sem propósito, expressão material da eternidade. “eu me tornei a morte, destruidor de mundos”, pensou Chelóqui, ao entregar os pontos.
    “Deixai toda esperança, ó vós que entrais”, pronunciou o perito, “Cherlóqui, eu já consigo ler a placa do portal de entrada, e agora?”
    Resignado, Cherlóqui sentenciou seu destino: “Prezados, agora só nos resta dançar um tango argentino”.
    Na vertigem do nada infinito que se abria diante de seus olhos, eles decidiram encarar a música, deram as mãos solenemente, como se fossem fazer uma oração, e foram dançando a micareta em direção ao abismo.
    NOTA DO AUTOR: Prezados leitores, não é do meu costume me intrometer em minhas histórias, mas sinto-me obrigado a repudiar, com a mais eloquente veemência, as aleivosias imputadas contra minha pessoa no decorrer desse conto. Sempre pautei os meus textos pelos mais elevados padrões de ética, quem escreve sabe como, muitas vezes, os personagens fogem ao controle do autor, e a história toma um rumo próprio, independente da vontade daquele que escreve. Se alguma desgraça acometeu os personagens deste fatídico conto, mesmo que seja a eterna danação no último círculo do inferno de Dante, esses fatos decorrem única e exclusivamente das ações e escolhas dos próprios personagens, não podendo ser o autor responsabilizado por seu infortúnio. Peço desculpas aos leitores por essa indevida, porém necessária, intervenção, mas essa manifestação se fez necessária diante das inúmeras maledicências, infelizmente bastante frequentes nesses lamentáveis tempos de pós-verdade em que vivemos.
    Sobre os comentários injuriosos do senhor Cherlóqui de Guaianazes, meus advogados já estão tomando as devidas providências.
     
  • Psychotic

    Capítulo 01
    Bam!
    Levantou os olhos cansados, já não aguentando mais ficar naquele lugar. Seus braços estavam cruzados em cima da mesa, e sua expressão já deduzia tudo que queria dizer. Apesar de o homem ter lhe dado as costas, sabia qual seria seu destino dali pra frente...
    – "Plantão". – leu a palavras em vermelho apenas para confirmar. – Ah, não... – choramingou após rolar os olhos.
    Voltou pousar a cabeça em seus braços, começando produzir o som idêntico de um choro, porém não estava chorando. Só queria tirar três horas para descansar, ela também precisava dormir ninguém era de ferro!
    Mas mais um turno noturno, sendo este o seu terceiro. Até quando teria que aguentar? Melhor nem pensar, pois seu corpo não iria aguentar por muito tempo, suas energias estavam esgotadas, e sem querer ser indelicada, mas Amber não aguentaria mais uma noite acordada, nem mesmo se tomasse anfetaminas para manter os olhos abertos!
    – Amber? Tudo bem? – a médica mais velha, adentrou a sala privada dos médicos com uma caixa de objetos em mãos. – Amber...? – chamou novamente, colocando a caixa em cima da mesa, e se aproximando da mulher, que até então não fazia um movimento. – Amber? – a cutucou devagar, e então percebeu que ela tinha os olhos fechados e uma expressão maltratada. – Pobre bichinho, está exausto! – afastou os cabelos de Amber, passando acariciar sua face adormecida.
    O nome dela era Wendy Smith, ou, mais conhecida como a Vovó Wendy do hospital Joseph Louise Morgan. Ela tinha lá seus setenta e oito anos bem vividos, e sua própria aparência denunciava sua idade. Tinha olhos verdes, sobrancelhas finas, cabelos curtos e brancos com alguns – despercebidos – fios pretos. E o sorriso que estampava, quase sempre, em seus lábios tinha o dom de cativar qualquer iniciante na área hospitalar.
    Todos a consideravam a "vovó", por ser a única médica mais velha que aguentou segurar todas as pontas. Sua vida se baseou em controlar os enfermeiros, porém sua responsabilidade dobrou, assim que ganhou os médicos em sua lista.
    Sempre tinha o dever de estudar o paciente, antes de entregá-lo nas mãos de um dos médicos. Essa era sua função. Não acreditava que, estudar a pessoa antes de deixá-la nas mãos de um profissional capacitado, fosse necessário, pois dentro daquele hospital era onde se localizava os melhores médicos do país. Nenhum possuía ficha marcada, todos – sem exceção – executavam muito bem seus trabalhos.
    Wendy tinha um enorme significado, ela era a mãe de todos ali dentro. Sua doçura conseguia cativar a todos, até mesmo um médico orgulhoso e mal-educado, do qual ela conseguia transformar em um profissional respeitoso.
    – Vovó Wendy? – a porta da sala se abriu devagar. – Preciso tirar uma dúvida com a senhora. – ele começou, segurando a nova ficha que recebera do chefe.
    – Alex, Amber trabalhou a noite toda, ontem? – Wendy quis saber, fazendo carinho nas costas da jovem.
    – Ela substituiu o turno da Katy, não se lembra? – respondeu como se fosse óbvio.
    – Katy Hill não voltou pelo visto. – concluiu vendo Alex assentir. – Pobrezinha, ela tem que descansar um pouco. – pronunciou afastando uma mecha de cabelo do rosto de Amber. – Dr. King, não pode levá-la até a ala privada? – questionou encarando o homem docemente.
    – Vovó... – levantou os ombros. – Já estamos na ala privada. – disse como se ela não soubesse.
    – Não digo aqui Alex, me refiro às camas que o hospital disponibiliza para vocês, médicos. – explicou.
    – O chefe não irá... "Encrespar"? – fez aspas com os dedos, deixando sua pasta de documentos em cima da mesa.
    – Irei explicar a situação para ele. – respondeu, visualizando Alex se dirigir para o lado direito de Amber. – Agora, por favor, querido, leve a Dr. Anderson para um descanso, sim? – pediu.
    – Não saia daqui vovó, eu preciso falar com a senhora depois. – avisou antes de pegar o corpo adormecido de Amber, cuidadosamente.
    – Cuidado. – pediu observando Alex caminhar com o corpo da garota nos braços.
    Seus olhos o acompanharam até este empurrar a porta, que daria acesso ao cômodo das camas, com o pé. Assim que a figura de Alex desapareceu, passou prender seus glóbulos fuscos, em tom esverdeado, no documento que antes estavam nas mãos do rapaz.
    Seus dedos enrugados, que tinham envolvimento com a fina camada de pele com manchinhas, abriram o documento, encontrando com algumas fotografias presas por um clips de papel. Com sutileza, as separou, observando os rostos inocentes das crianças. Os lenços amarrados em suas cabeças, já deduziam que todas lutavam contra o câncer.
    O hospital tinha uma área reservada, especialmente para se dedicar as crianças com câncer. E dentro dela, se poderiam encontrar de todos os tipos de sorrisos, ninguém ali demonstrava tristeza!
    O câncer era um assunto bastante delicado para se tratar, e o melhor jeito de lidar com isso era através das visitas públicas, onde pessoas dedicavam um tempo precioso de suas vidas, para fazer almas inocentes rirem.
    – Pelo visto, já descobriu meu assunto com a senhora, vovó Wendy?! – Alex voltou, fechando a porta por onde acabara de sair, com sutileza.
    – Amber acordou? – não, ela não ignorou as palavras de King.
    – Apenas tomou um leve susto quando as costas tocaram o colchão. – respondeu já observando Wendy passar as fotografias. – Ele vai vir hoje! – disse de repente, recebendo os olhos surpresos da vovó.
    – Como sabe? – perguntou abaixando as mãos com as fotos.
    – Ele sempre visita o hospital, nas segundas. – deu de ombros puxando uma cadeira. – Acho gentil da parte dele, tirar algumas horas da rotina, para passar com as crianças. – revelou começando brincar com o elástico da pasta.
    – Ele é um padre, Alex, o que você esperava? – o rapaz rolou os olhos.
    – Nem todo padre, é verdadeiramente um padre! – deixou fluir, cruzando os braços em cima da mesa, deixando um sorriso brincalhão estampar em seus lábios.
    Wendy encarou aquele sorriso com receio. Não gostava quando Alex King, ria após exclamar uma possível suspeita. Odiava ficar em cima da corda. Tudo que Alex mais sabia fazer era imaginar hipóteses e expô-las para o público, como se elas realmente fossem reais, ou fossem se tornar realidade. E isso deixava a vovó cada vez mais incomodada, ele como médico, não deveria viver no mundo da lua!
    – O que quer dizer com isso Alex? – disparou.
    – Eu? Nada, é claro! – foi cínico.
    Alex riu, deixando seu corpo cair para trás. Com os pés apoiados no chão, deixou a cadeira ficar sobre duas das pernas. Levou as mãos para trás da cabeça, e continuou encarando Wendy, concluindo que ela estava louca para mandá-lo para fora dali!
    – Alex, ele é um padre! – exclamou com o tom de voz um pouco alterado, tentando colocar alguma coisa verdadeira naquela mente fértil.
    – E daí que ele é um padre? – o tom de voz desinteressado, estava deixando Wendy irritada. – Ser padre, não significa servir apenas ao Senhor; assim como todo ser humano, um padre está sujeito aos pecados, sendo eles dos mais fáceis de controlar, até os mais difíceis... Ah, quer que eu cite algum pecado tentador? – expôs sua magnífica carreira de dentes brancos.
    – Guarde seus pecados "tentadores", somente para si! – rebateu. – O monsenhor, Bruce Rodriguez, se entregou completamente à igreja. É um dos melhores padres da região, como ousa falar essas coisas dele? – Alex negou com a cabeça, parecendo arrasado.
    – Nunca devemos confiar nas pessoas. O monsenhor pode ser considerado uma pessoa religiosa, respeitosa, pura, porém nós, nunca saberemos o que ele faz quando está fora da área sagrada! – respondeu apertando os olhos conforme pronunciava. – Mas... – se levantou arrumando as fotografias dentro de sua pasta com o documento. – Meu tempo que é sagrado, e têm várias crianças me esperando! – declarou seguindo caminho a porta.
    Wendy rolou os olhos, no fundo, ter demitido Alex King quando o chefe lhe deu a chance, teria sido uma ótima escolha. Mas sentiu pena dele na época, afinal, em sua cabeça, uma pessoa não merecia perder o emprego por deixar um bisturi cair em uma hora de desespero.
    Mas Alex passou dos limites. Falar do Pe. Bruce Rodriguez daquela maneira e com aquele tom de voz cínico, foi demais! A vovó era capaz de esperar tudo vindo dele, menos aquilo... Onde estava o consentimento por ter ganhado uma segunda chance dentro do Joseph Louise Morgan? Que tipo de monstro King se tornou?
    Vovó Wendy não tinha as respostas, porém não tinha tempo para elaborá-las, havia uma paciente preste passar por uma cirurgia no fígado, do qual ela precisava estar presente. Mas se Alex achou que tinha escapado dos questionamentos, estava muito enganado, pois eles sequer começaram!
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    A dobradiça rangeu por um fio de ruído, mas as crianças não mostraram importância com a falta de óleo. Assim que a porta foi empurrada, Amber adentrou a enorme sala, recebendo os olhinhos brilhantes em cima de si. Sorriu, podendo ver duas das meninas correrem em sua direção.
    – Amber! – uma delas emitiu, abraçando a mulher pela cintura.
    – Amber, estava com tanta saudade! – a outra que tinha um lenço branco na cabeça, também a abraçou.
    – Também estava Carly! – sorriu, se abaixando para ficar da altura das meninas. – O que vocês, estão fazendo hoje? – perguntou mantendo seu sorriso.
    – Estamos brincando de casinha. – Carly respondeu.
    – Está na hora do banho, quer brincar junto com a gente, Amber? – a outra ofereceu.
    – Talvez mais tarde Lola. – respondeu, deixando seus olhos caírem sobre as figuras de Alex e Wendy. – Agora vão meninas! – incentivou, e as duas logo correram em direção do tapete, onde estava a casinha de bonecas.
    Sem mais delongas, caminhou em direção da vovó Wendy, que parecia estar dando uma belíssima bronca em Alex. Ótimo, o que ele tinha aprontado daquela vez? Mente fechada e complicada, só poderia resultar em confusão!
    Rolou os olhos assim que viu Alex com os olhos de um predador. O rapaz tinha as mãos na cintura e sua língua umedecida seus lábios, enquanto a vovó lhe ditava palavras que pareciam não agradar muito sua autoestima.
    – O que aconteceu? – foi direto ao ponto.
    – Alex está acusando o Pe. Bruce, de não ser realmente um padre! – Wendy respondeu e Alex riu.
    – Eu não acusei ninguém! – repreendeu tentando segurar o riso. – Eu só falei como uma hipótese. A vovó que está o considerando um infiel à igreja! – Amber mostrou-se confusa.
    – Eu nunca disse que ele era um infiel à igreja, você que citou os pecados "tentadores"! – vovó se defendeu, apontando o dedo no peito de Alex enquanto falava.
    – Alex! – Amber emitiu ficando surpresa com as palavras da vovó.
    – O que? – o ouviu pronunciar. – Sexo não é pecado! Todo e qualquer ser humano necessita. Sentir um pouquinho que seja de prazer, não mata ninguém! – Anderson rolou os olhos, enquanto Wendy cobriu o rosto com as mãos, sentindo vergonha.
    – Você ouviu o que acabou de dizer? – levantou uma sobrancelha. – Está falando de sexo. Um padre, a partir do momento que decide ser padre, nunca se entrega aos pecados tentadores do mundo! – pronunciou firme de si. – Somos todos seres humanos, capazes de cometer erros, e o Pe. Bruce não é diferente de nós. Mas ele possui um ofício, o dever de servir a Deus... Então pare de tentar ver coisas, onde não há! – seu tom de voz firme, talvez intimidasse Alex.
    Mas ele riu, estava debochando de todas as palavras de Amber.
    – Amber, por favor, até parece que nunca transou na vida. – continuou rindo, fazendo a mulher engolir em seco.
    Sexo era um assunto bastante delicado...
    – Isso não vem ao caso, Alex! – rebateu com a voz um pouco alterada.
    – Vem sim! – provocou seguindo com passos lentos, até estar cara a cara com ela. – Diga, não é gostoso sentir o prazer vivo em suas entranhas? Ouvir sua própria melodia; sentir suas pernas bambas com cada round; o suor desenhando por sua pele... É capaz de negar que não gosta? – direcionou o olhar convencido para o olhar, já irritado, de Amber.
    – Eu disse... Que isso, não vem ao caso Alex King! – rosnou entre os dentes.
    – Parem já, vocês dois! – vovó interviu, os separando a partir do momento que ficou no meio deles.
    Alex tentou avançar com seus passos, mas a vovó o impediu, fazendo-o recuar com o olhar raivoso. Amber o encarava profundamente, com série de dúvidas... Bruce não merecia ser visto daquela maneira, de modo algum ele faltou com respeito à igreja, então não havia motivos para Alex julgá-lo.
    Sinceramente, Alex King tinha uma mente que precisava passar por um tratamento!
    – Eu só estava tentando ser amigável em conversar sobre sexo com você, Amber Anderson. – sorriu sarcasticamente.
    – Eu não preciso que ninguém... – Amber ia se defender, mas a porta escolheu justo aquele momento para se abrir. – Acho que seu amigo chegou Alex! – provocou fazendo o rapaz rolar os olhos.
    Wendy abriu um sorriso largo, e se dirigiu em direção do novo indivíduo, deixando Alex e Amber livres para se atacarem.
    A mulher, por outro lado, ignorou a presença de King, não queria ter que trocar palavras com ele, homem desprezível que só pensava em sexo!
    Amber Anderson não gostava de conversar sobre sexo. Sentia-se envergonhada. Era virgem aos vinte e três anos, não que nunca ter transado fosse uma vergonha, mas se sentia desconfortável por conversar sobre tesão sexual com alguém experiente, como Alex.
    – Bruce te adora Amber, não quer ir lá conversar com ele? – ouviu a voz de Alex, e tudo que fez foi ignorá-lo. – Não quer trocar umas palavrinhas? – provocou novamente, e ela apenas rolou os olhos. – Vai me ignorar mesmo Amber?! – entrou na frente dela com as sobrancelhas arcadas.
    – Nunca mais fale sobre sexo comigo! – deixou claro.
    – E, por acaso, isso é algum crime? Você já transou Amber, então não é constrangimento algum falar sobre isso! – se explicou, e visualizou a mulher abaixar a cabeça.
    – Alex entenda... – envergonhada olhou para os lados para se certificar de que ninguém mais, além dele, ouviria. – Eu sou virgem. – falou baixo apenas para ele ouvir.
    – Wow... Amber eu... – ficou sem jeito. – Eu não sabia, pensei que você e Jackson já...
    – Não, eu não deixei. Nunca me senti segura, por isso ele terminou. – explicou.
    – Entendo... Mas se quiser, a gente pode resolver isso! – indicou o banheiro com o queixo.
    – Estúpido! – riu acertando um tapa contra o ombro dele.
    Alex não escondia, e era preciso apenas estudar o seu sorriso para ver que ele sentia uma atração por Amber. Eram amigos desde que ela entrara para o hospital, e sempre, desde o primeiro dia, sentiu uma atração muito forte por ela.
    Ele queria fazer parte de um pedaço da vida da mulher, porém isso tinha se tornado algo difícil. Toda vez que tentava conversar sobre relacionamento, tentava ser o mais delicado possível, mas Amber sempre mudava de assunto quando ele questionava sobre intimidade.
    Agora entedia. Ela era virgem!
    – Você já se masturbou, alguma vez, Anderson? – questionou de repente.
    – Eu, hã... – travou, mas foi salva.
    – Amber! Amber! – duas meninas começaram a gritar correndo na direção da garota.
    – Fale meninas. – foi simpática e Alex observou seu sorriso tão lindo...
    – O Pe. Bruce quer falar com você. – Zoe respondeu segurando a mão da mulher.
    – Ele disse que vai nos ensinar como fazer uma torta de maçã, mas você tem que ir junto! – já lhe puxava a outra mão.
    – Parece interessante a ideia, Carly! – sorriu, deixando-se guiar pelas duas meninas.
    Alex mordera os lábios, onde estava com a cabeça? No mundo da lua só podia ser!
    Era bem óbvio, pela cara de vergonha de Amber em revelar que era virgem que ela nunca tinha se masturbado. Mas homens, oh, criaturas burras, sempre estragam tudo!
    Alex King buscava ter uma chance com Amber, certo? Pois bem, acabou com todas as suas chances possíveis!
    Passou acompanhar os movimentos de Anderson, vendo-a abraçar o Pe. Bruce com um sorriso largo nos lábios. Aquilo o fez revirar os olhos. Será que ele era o único com pensamentos diferentes sobre aquele padre? Não era possível que ninguém acreditava nele, não necessariamente precisavam concordar, então pelo menos respeitar suas teorias já era o suficiente, mas ninguém, certamente NINGUÉM tinha capacidade para fazer isso!
    Até mesmo a vovó Wendy, que julgava sendo como uma mãe ficou contra si, isso sem comentar de Amber...
    – Eu vou vomitar! – exclamou rolando os olhos, saindo em direção da saída da sala, com certeza, papéis ou arquivos eram muito mais interessantes que ficar ali observando Amber sorrindo abertamente para o padre.
    Sabe o quanto ele daria para receber um sorriso daqueles? Melhor nem dizer...
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    A mão arrumou uma mecha de cabelo atrás da orelha, era ela simplesmente linda demais! A mulher mais bonita de todo o hospital Joseph Louise Morgan!
    Afastou o cigarro dos lábios, soltando a fumaça para o alto, a cor branca começou desenhar um lado obscuro do puro desejo e atração. Os traços da fumaça desapareceram com a força do vento, porém esse era o menor dos problemas.
    Amber Anderson, era a sua garota, a escolhida para viver anos ao seu lado. Afastando novamente o cigarro dos lábios, jogou-o no chão, fazendo questão de pisar em cima, ninguém poderia saber que ele fumava.
    Precisava manter sua imagem no hospital.
    Pela última vez, espiou a imagem de Amber agora conversando com Wendy, e um sorriso acabou dominando seus lábios, ela era realmente a melhor mulher que já encontrara!
    E antes que dois médicos pudessem sair do estabelecimento, se dirigiu rapidamente em direção de seu automóvel. Adentrara o lado do motorista começando checar seus pertences, que estavam dentro da caixa em cima do banco do passageiro, e assim que conferiu cada detalhe, fechou a caixa com a tampa. Ele não iria precisar mais daquilo, somente no dia seguinte, agora seu rumo seria outra residência...
    Girando a chave da ignição, pisou fundo no acelerador, cantando os pneus. A imagem de Amber estava gravada em sua mente, mas agora não poderia contar mais com ela, sua próxima parada exigia um talento que ele escondia nas próprias mãos!
    Dentro do hospital, Amber caminhava pelo corredor, segurando sua prancheta de pacientes em mãos. A noite finalmente caiu e cobriu todo o céu de San Rosie, e o hospital nunca ficou tão escuro e frio igual naquela noite.
    A mulher esfregava as mãos nos braços na tentativa de espantar o frio, mas era tudo inevitável. Seus pelos continuavam se arrepiando lhe alertando que aquele seria um dos seus piores plantões!
    – Amber! – parou imediatamente os passos, virando na direção da voz.
    – Como está sendo sua noite, Jacob, belíssima? – tentou colocar sarcasmo na voz, o que foi um fracasso.
    – Deve está sendo o mesmo que a sua. – respondeu dando de ombros, acompanhando Amber que seguia para o balcão na recepção.
    – Que coincidência, não? O chefe do hospital pegando plantão, como qualquer outro médico, chega até soar engraçado! – caçoou rindo.
    – Amber pare de agir como uma criança no jardim de infância! – exigiu, e ela fingiu não ouvir, estava ocupada demais assinando alguns documentos. – Nem parece que é médica e sim, uma faxineira que só resmunga! – comparou e logo Anderson se virou, ficando cara a cara com Jacob.
    – Se eu pareço uma faxineira, por que me contratou para servir o seu hospital? – disparou firme.
    – Amber... Eu ter deixado dois plantão na sua mão, já são provas o suficiente do que você significa para mim. – respondeu, e a mulher negou com a cabeça e um sorriso cínico.
    – Foram duas noites, Jacob! – rebateu seguindo novamente para o corredor.
    – Me deixa falar Amber! – emitiu, começando segui-la.
    – Eu não tenho nada do que falar com você! – emitiu continuando com seus passos.
    Jacob percebendo que nada iria adiantar para parar Amber resolveu aumentar a velocidade de suas pernas. Conseguiu, com muito esforço, entrar na frente dela, e a mulher em contradição somente parou e rolou os olhos impaciente.
    – O que você quer Jacob? – deu-se por vencida.
    – Você está livre do plantão de hoje. – resolveu despejar tudo na primeira oportunidade que tivesse.
    – Por q... Não, cadê o documento onde consta minha demissão? – esperou que ele retirasse alguma folha do jaleco e lhe entregasse, o que não aconteceu, ao contrário ele riu.
    – Acha mesmo que vou demiti-la só porque a dispensei do plantão? – riu mais uma vez, e Amber suspirou em raiva. – Não se preocupe Amber, enquanto eu estiver no cargo de chefe, você nunca será demitida. – deixou claro antes de seguir para a recepção, de onde antes estavam.
    Rolou os olhos mais uma vez. Jacob Write com trinta e dois anos conseguia mesmo ser surpreendente. De repente joga um plantão nas mãos de Amber e logo depois decidi retirá-la do plantão?! Que tipo de chefe era aquele?
    Enquanto tentava refletir sobre a mudança de plantão observava, na mesma posição, à figura morena de Jacob conferindo algumas pastas. A secretária ria de alguma idiotice que com certeza saiu pelos lábios de Write.
    Era incrível como todas as mulheres tinham uma queda pelo chefe!
    Claro, com seus cabelos castanhos, corpo esculpido – nada muito exagerado – sorriso colgate e olhos azuis, malditos olhos azuis, ele só poderia ter sido um erro genético!
    Jacob Write tinha apenas trinta e dois anos, como era possível ter aquela aparência? Tudo bem que os olhos azuis lhe dava o charme natural, mas com sua idade, o certo seria estar casado, com filhos e aparência velha, mas Jacob era totalmente o oposto de tudo, começando por estar solteiro.
    Homens do século XXI.
    Amber balançou a cabeça de um lado para o outro, retornando para sua caminhada pelo corredor. Já que não teria mais que ficar responsável pelo plantão, o que mais poderia fazer? Só lhe restava ir dormir, pois se voltasse para casa teria que encarar a figura de Alex e vovó. O que de fato não estava com determinação para encarar...
  • Psychotic

    Capítulo 01
    Bam!
    Levantou os olhos cansados, já não aguentando mais ficar naquele lugar. Seus braços estavam cruzados em cima da mesa, e sua expressão já deduzia tudo que queria dizer. Apesar de o homem ter lhe dado as costas, sabia qual seria seu destino dali pra frente...
    – "Plantão". – leu a palavras em vermelho apenas para confirmar. – Ah, não... – choramingou após rolar os olhos.
    Voltou pousar a cabeça em seus braços, começando produzir o som idêntico de um choro, porém não estava chorando. Só queria tirar três horas para descansar, ela também precisava dormir ninguém era de ferro!
    Mas mais um turno noturno, sendo este o seu terceiro. Até quando teria que aguentar? Melhor nem pensar, pois seu corpo não iria aguentar por muito tempo, suas energias estavam esgotadas, e sem querer ser indelicada, mas Amber não aguentaria mais uma noite acordada, nem mesmo se tomasse anfetaminas para manter os olhos abertos!
    – Amber? Tudo bem? – a médica mais velha, adentrou a sala privada dos médicos com uma caixa de objetos em mãos. – Amber...? – chamou novamente, colocando a caixa em cima da mesa, e se aproximando da mulher, que até então não fazia um movimento. – Amber? – a cutucou devagar, e então percebeu que ela tinha os olhos fechados e uma expressão maltratada. – Pobre bichinho, está exausto! – afastou os cabelos de Amber, passando acariciar sua face adormecida.
    O nome dela era Wendy Smith, ou, mais conhecida como a Vovó Wendy do hospital Joseph Louise Morgan. Ela tinha lá seus setenta e oito anos bem vividos, e sua própria aparência denunciava sua idade. Tinha olhos verdes, sobrancelhas finas, cabelos curtos e brancos com alguns – despercebidos – fios pretos. E o sorriso que estampava, quase sempre, em seus lábios tinha o dom de cativar qualquer iniciante na área hospitalar.
    Todos a consideravam a "vovó", por ser a única médica mais velha que aguentou segurar todas as pontas. Sua vida se baseou em controlar os enfermeiros, porém sua responsabilidade dobrou, assim que ganhou os médicos em sua lista.
    Sempre tinha o dever de estudar o paciente, antes de entregá-lo nas mãos de um dos médicos. Essa era sua função. Não acreditava que, estudar a pessoa antes de deixá-la nas mãos de um profissional capacitado, fosse necessário, pois dentro daquele hospital era onde se localizava os melhores médicos do país. Nenhum possuía ficha marcada, todos – sem exceção – executavam muito bem seus trabalhos.
    Wendy tinha um enorme significado, ela era a mãe de todos ali dentro. Sua doçura conseguia cativar a todos, até mesmo um médico orgulhoso e mal-educado, do qual ela conseguia transformar em um profissional respeitoso.
    – Vovó Wendy? – a porta da sala se abriu devagar. – Preciso tirar uma dúvida com a senhora. – ele começou, segurando a nova ficha que recebera do chefe.
    – Alex, Amber trabalhou a noite toda, ontem? – Wendy quis saber, fazendo carinho nas costas da jovem.
    – Ela substituiu o turno da Katy, não se lembra? – respondeu como se fosse óbvio.
    – Katy Hill não voltou pelo visto. – concluiu vendo Alex assentir. – Pobrezinha, ela tem que descansar um pouco. – pronunciou afastando uma mecha de cabelo do rosto de Amber. – Dr. King, não pode levá-la até a ala privada? – questionou encarando o homem docemente.
    – Vovó... – levantou os ombros. – Já estamos na ala privada. – disse como se ela não soubesse.
    – Não digo aqui Alex, me refiro às camas que o hospital disponibiliza para vocês, médicos. – explicou.
    – O chefe não irá... "Encrespar"? – fez aspas com os dedos, deixando sua pasta de documentos em cima da mesa.
    – Irei explicar a situação para ele. – respondeu, visualizando Alex se dirigir para o lado direito de Amber. – Agora, por favor, querido, leve a Dr. Anderson para um descanso, sim? – pediu.
    – Não saia daqui vovó, eu preciso falar com a senhora depois. – avisou antes de pegar o corpo adormecido de Amber, cuidadosamente.
    – Cuidado. – pediu observando Alex caminhar com o corpo da garota nos braços.
    Seus olhos o acompanharam até este empurrar a porta, que daria acesso ao cômodo das camas, com o pé. Assim que a figura de Alex desapareceu, passou prender seus glóbulos fuscos, em tom esverdeado, no documento que antes estavam nas mãos do rapaz.
    Seus dedos enrugados, que tinham envolvimento com a fina camada de pele com manchinhas, abriram o documento, encontrando com algumas fotografias presas por um clips de papel. Com sutileza, as separou, observando os rostos inocentes das crianças. Os lenços amarrados em suas cabeças, já deduziam que todas lutavam contra o câncer.
    O hospital tinha uma área reservada, especialmente para se dedicar as crianças com câncer. E dentro dela, se poderiam encontrar de todos os tipos de sorrisos, ninguém ali demonstrava tristeza!
    O câncer era um assunto bastante delicado para se tratar, e o melhor jeito de lidar com isso era através das visitas públicas, onde pessoas dedicavam um tempo precioso de suas vidas, para fazer almas inocentes rirem.
    – Pelo visto, já descobriu meu assunto com a senhora, vovó Wendy?! – Alex voltou, fechando a porta por onde acabara de sair, com sutileza.
    – Amber acordou? – não, ela não ignorou as palavras de King.
    – Apenas tomou um leve susto quando as costas tocaram o colchão. – respondeu já observando Wendy passar as fotografias. – Ele vai vir hoje! – disse de repente, recebendo os olhos surpresos da vovó.
    – Como sabe? – perguntou abaixando as mãos com as fotos.
    – Ele sempre visita o hospital, nas segundas. – deu de ombros puxando uma cadeira. – Acho gentil da parte dele, tirar algumas horas da rotina, para passar com as crianças. – revelou começando brincar com o elástico da pasta.
    – Ele é um padre, Alex, o que você esperava? – o rapaz rolou os olhos.
    – Nem todo padre, é verdadeiramente um padre! – deixou fluir, cruzando os braços em cima da mesa, deixando um sorriso brincalhão estampar em seus lábios.
    Wendy encarou aquele sorriso com receio. Não gostava quando Alex King, ria após exclamar uma possível suspeita. Odiava ficar em cima da corda. Tudo que Alex mais sabia fazer era imaginar hipóteses e expô-las para o público, como se elas realmente fossem reais, ou fossem se tornar realidade. E isso deixava a vovó cada vez mais incomodada, ele como médico, não deveria viver no mundo da lua!
    – O que quer dizer com isso Alex? – disparou.
    – Eu? Nada, é claro! – foi cínico.
    Alex riu, deixando seu corpo cair para trás. Com os pés apoiados no chão, deixou a cadeira ficar sobre duas das pernas. Levou as mãos para trás da cabeça, e continuou encarando Wendy, concluindo que ela estava louca para mandá-lo para fora dali!
    – Alex, ele é um padre! – exclamou com o tom de voz um pouco alterado, tentando colocar alguma coisa verdadeira naquela mente fértil.
    – E daí que ele é um padre? – o tom de voz desinteressado, estava deixando Wendy irritada. – Ser padre, não significa servir apenas ao Senhor; assim como todo ser humano, um padre está sujeito aos pecados, sendo eles dos mais fáceis de controlar, até os mais difíceis... Ah, quer que eu cite algum pecado tentador? – expôs sua magnífica carreira de dentes brancos.
    – Guarde seus pecados "tentadores", somente para si! – rebateu. – O monsenhor, Bruce Rodriguez, se entregou completamente à igreja. É um dos melhores padres da região, como ousa falar essas coisas dele? – Alex negou com a cabeça, parecendo arrasado.
    – Nunca devemos confiar nas pessoas. O monsenhor pode ser considerado uma pessoa religiosa, respeitosa, pura, porém nós, nunca saberemos o que ele faz quando está fora da área sagrada! – respondeu apertando os olhos conforme pronunciava. – Mas... – se levantou arrumando as fotografias dentro de sua pasta com o documento. – Meu tempo que é sagrado, e têm várias crianças me esperando! – declarou seguindo caminho a porta.
    Wendy rolou os olhos, no fundo, ter demitido Alex King quando o chefe lhe deu a chance, teria sido uma ótima escolha. Mas sentiu pena dele na época, afinal, em sua cabeça, uma pessoa não merecia perder o emprego por deixar um bisturi cair em uma hora de desespero.
    Mas Alex passou dos limites. Falar do Pe. Bruce Rodriguez daquela maneira e com aquele tom de voz cínico, foi demais! A vovó era capaz de esperar tudo vindo dele, menos aquilo... Onde estava o consentimento por ter ganhado uma segunda chance dentro do Joseph Louise Morgan? Que tipo de monstro King se tornou?
    Vovó Wendy não tinha as respostas, porém não tinha tempo para elaborá-las, havia uma paciente preste passar por uma cirurgia no fígado, do qual ela precisava estar presente. Mas se Alex achou que tinha escapado dos questionamentos, estava muito enganado, pois eles sequer começaram!
    ⓟⓢⓨⓒⓗⓞⓣⓘⓒ
    A dobradiça rangeu por um fio de ruído, mas as crianças não mostraram importância com a falta de óleo. Assim que a porta foi empurrada, Amber adentrou a enorme sala, recebendo os olhinhos brilhantes em cima de si. Sorriu, podendo ver duas das meninas correrem em sua direção.
    – Amber! – uma delas emitiu, abraçando a mulher pela cintura.
    – Amber, estava com tanta saudade! – a outra que tinha um lenço branco na cabeça, também a abraçou.
    – Também estava Carly! – sorriu, se abaixando para ficar da altura das meninas. – O que vocês, estão fazendo hoje? – perguntou mantendo seu sorriso.
    – Estamos brincando de casinha. – Carly respondeu.
    – Está na hora do banho, quer brincar junto com a gente, Amber? – a outra ofereceu.
    – Talvez mais tarde Lola. – respondeu, deixando seus olhos caírem sobre as figuras de Alex e Wendy. – Agora vão meninas! – incentivou, e as duas logo correram em direção do tapete, onde estava a casinha de bonecas.
    Sem mais delongas, caminhou em direção da vovó Wendy, que parecia estar dando uma belíssima bronca em Alex. Ótimo, o que ele tinha aprontado daquela vez? Mente fechada e complicada, só poderia resultar em confusão!
    Rolou os olhos assim que viu Alex com os olhos de um predador. O rapaz tinha as mãos na cintura e sua língua umedecida seus lábios, enquanto a vovó lhe ditava palavras que pareciam não agradar muito sua autoestima.
    – O que aconteceu? – foi direto ao ponto.
    – Alex está acusando o Pe. Bruce, de não ser realmente um padre! – Wendy respondeu e Alex riu.
    – Eu não acusei ninguém! – repreendeu tentando segurar o riso. – Eu só falei como uma hipótese. A vovó que está o considerando um infiel à igreja! – Amber mostrou-se confusa.
    – Eu nunca disse que ele era um infiel à igreja, você que citou os pecados "tentadores"! – vovó se defendeu, apontando o dedo no peito de Alex enquanto falava.
    – Alex! – Amber emitiu ficando surpresa com as palavras da vovó.
    – O que? – o ouviu pronunciar. – Sexo não é pecado! Todo e qualquer ser humano necessita. Sentir um pouquinho que seja de prazer, não mata ninguém! – Anderson rolou os olhos, enquanto Wendy cobriu o rosto com as mãos, sentindo vergonha.
    – Você ouviu o que acabou de dizer? – levantou uma sobrancelha. – Está falando de sexo. Um padre, a partir do momento que decide ser padre, nunca se entrega aos pecados tentadores do mundo! – pronunciou firme de si. – Somos todos seres humanos, capazes de cometer erros, e o Pe. Bruce não é diferente de nós. Mas ele possui um ofício, o dever de servir a Deus... Então pare de tentar ver coisas, onde não há! – seu tom de voz firme, talvez intimidasse Alex.
    Mas ele riu, estava debochando de todas as palavras de Amber.
    – Amber, por favor, até parece que nunca transou na vida. – continuou rindo, fazendo a mulher engolir em seco.
    Sexo era um assunto bastante delicado...
    – Isso não vem ao caso, Alex! – rebateu com a voz um pouco alterada.
    – Vem sim! – provocou seguindo com passos lentos, até estar cara a cara com ela. – Diga, não é gostoso sentir o prazer vivo em suas entranhas? Ouvir sua própria melodia; sentir suas pernas bambas com cada round; o suor desenhando por sua pele... É capaz de negar que não gosta? – direcionou o olhar convencido para o olhar, já irritado, de Amber.
    – Eu disse... Que isso, não vem ao caso Alex King! – rosnou entre os dentes.
    – Parem já, vocês dois! – vovó interviu, os separando a partir do momento que ficou no meio deles.
    Alex tentou avançar com seus passos, mas a vovó o impediu, fazendo-o recuar com o olhar raivoso. Amber o encarava profundamente, com série de dúvidas... Bruce não merecia ser visto daquela maneira, de modo algum ele faltou com respeito à igreja, então não havia motivos para Alex julgá-lo.
    Sinceramente, Alex King tinha uma mente que precisava passar por um tratamento!
    – Eu só estava tentando ser amigável em conversar sobre sexo com você, Amber Anderson. – sorriu sarcasticamente.
    – Eu não preciso que ninguém... – Amber ia se defender, mas a porta escolheu justo aquele momento para se abrir. – Acho que seu amigo chegou Alex! – provocou fazendo o rapaz rolar os olhos.
    Wendy abriu um sorriso largo, e se dirigiu em direção do novo indivíduo, deixando Alex e Amber livres para se atacarem.
    A mulher, por outro lado, ignorou a presença de King, não queria ter que trocar palavras com ele, homem desprezível que só pensava em sexo!
    Amber Anderson não gostava de conversar sobre sexo. Sentia-se envergonhada. Era virgem aos vinte e três anos, não que nunca ter transado fosse uma vergonha, mas se sentia desconfortável por conversar sobre tesão sexual com alguém experiente, como Alex.
    – Bruce te adora Amber, não quer ir lá conversar com ele? – ouviu a voz de Alex, e tudo que fez foi ignorá-lo. – Não quer trocar umas palavrinhas? – provocou novamente, e ela apenas rolou os olhos. – Vai me ignorar mesmo Amber?! – entrou na frente dela com as sobrancelhas arcadas.
    – Nunca mais fale sobre sexo comigo! – deixou claro.
    – E, por acaso, isso é algum crime? Você já transou Amber, então não é constrangimento algum falar sobre isso! – se explicou, e visualizou a mulher abaixar a cabeça.
    – Alex entenda... – envergonhada olhou para os lados para se certificar de que ninguém mais, além dele, ouviria. – Eu sou virgem. – falou baixo apenas para ele ouvir.
    – Wow... Amber eu... – ficou sem jeito. – Eu não sabia, pensei que você e Jackson já...
    – Não, eu não deixei. Nunca me senti segura, por isso ele terminou. – explicou.
    – Entendo... Mas se quiser, a gente pode resolver isso! – indicou o banheiro com o queixo.
    – Estúpido! – riu acertando um tapa contra o ombro dele.
    Alex não escondia, e era preciso apenas estudar o seu sorriso para ver que ele sentia uma atração por Amber. Eram amigos desde que ela entrara para o hospital, e sempre, desde o primeiro dia, sentiu uma atração muito forte por ela.
    Ele queria fazer parte de um pedaço da vida da mulher, porém isso tinha se tornado algo difícil. Toda vez que tentava conversar sobre relacionamento, tentava ser o mais delicado possível, mas Amber sempre mudava de assunto quando ele questionava sobre intimidade.
    Agora entedia. Ela era virgem!
    – Você já se masturbou, alguma vez, Anderson? – questionou de repente.
    – Eu, hã... – travou, mas foi salva.
    – Amber! Amber! – duas meninas começaram a gritar correndo na direção da garota.
    – Fale meninas. – foi simpática e Alex observou seu sorriso tão lindo...
    – O Pe. Bruce quer falar com você. – Zoe respondeu segurando a mão da mulher.
    – Ele disse que vai nos ensinar como fazer uma torta de maçã, mas você tem que ir junto! – já lhe puxava a outra mão.
    – Parece interessante a ideia, Carly! – sorriu, deixando-se guiar pelas duas meninas.
    Alex mordera os lábios, onde estava com a cabeça? No mundo da lua só podia ser!
    Era bem óbvio, pela cara de vergonha de Amber em revelar que era virgem que ela nunca tinha se masturbado. Mas homens, oh, criaturas burras, sempre estragam tudo!
    Alex King buscava ter uma chance com Amber, certo? Pois bem, acabou com todas as suas chances possíveis!
    Passou acompanhar os movimentos de Anderson, vendo-a abraçar o Pe. Bruce com um sorriso largo nos lábios. Aquilo o fez revirar os olhos. Será que ele era o único com pensamentos diferentes sobre aquele padre? Não era possível que ninguém acreditava nele, não necessariamente precisavam concordar, então pelo menos respeitar suas teorias já era o suficiente, mas ninguém, certamente NINGUÉM tinha capacidade para fazer isso!
    Até mesmo a vovó Wendy, que julgava sendo como uma mãe ficou contra si, isso sem comentar de Amber...
    – Eu vou vomitar! – exclamou rolando os olhos, saindo em direção da saída da sala, com certeza, papéis ou arquivos eram muito mais interessantes que ficar ali observando Amber sorrindo abertamente para o padre.
    Sabe o quanto ele daria para receber um sorriso daqueles? Melhor nem dizer...
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    A mão arrumou uma mecha de cabelo atrás da orelha, era ela simplesmente linda demais! A mulher mais bonita de todo o hospital Joseph Louise Morgan!
    Afastou o cigarro dos lábios, soltando a fumaça para o alto, a cor branca começou desenhar um lado obscuro do puro desejo e atração. Os traços da fumaça desapareceram com a força do vento, porém esse era o menor dos problemas.
    Amber Anderson, era a sua garota, a escolhida para viver anos ao seu lado. Afastando novamente o cigarro dos lábios, jogou-o no chão, fazendo questão de pisar em cima, ninguém poderia saber que ele fumava.
    Precisava manter sua imagem no hospital.
    Pela última vez, espiou a imagem de Amber agora conversando com Wendy, e um sorriso acabou dominando seus lábios, ela era realmente a melhor mulher que já encontrara!
    E antes que dois médicos pudessem sair do estabelecimento, se dirigiu rapidamente em direção de seu automóvel. Adentrara o lado do motorista começando checar seus pertences, que estavam dentro da caixa em cima do banco do passageiro, e assim que conferiu cada detalhe, fechou a caixa com a tampa. Ele não iria precisar mais daquilo, somente no dia seguinte, agora seu rumo seria outra residência...
    Girando a chave da ignição, pisou fundo no acelerador, cantando os pneus. A imagem de Amber estava gravada em sua mente, mas agora não poderia contar mais com ela, sua próxima parada exigia um talento que ele escondia nas próprias mãos!
    Dentro do hospital, Amber caminhava pelo corredor, segurando sua prancheta de pacientes em mãos. A noite finalmente caiu e cobriu todo o céu de San Rosie, e o hospital nunca ficou tão escuro e frio igual naquela noite.
    A mulher esfregava as mãos nos braços na tentativa de espantar o frio, mas era tudo inevitável. Seus pelos continuavam se arrepiando lhe alertando que aquele seria um dos seus piores plantões!
    – Amber! – parou imediatamente os passos, virando na direção da voz.
    – Como está sendo sua noite, Jacob, belíssima? – tentou colocar sarcasmo na voz, o que foi um fracasso.
    – Deve está sendo o mesmo que a sua. – respondeu dando de ombros, acompanhando Amber que seguia para o balcão na recepção.
    – Que coincidência, não? O chefe do hospital pegando plantão, como qualquer outro médico, chega até soar engraçado! – caçoou rindo.
    – Amber pare de agir como uma criança no jardim de infância! – exigiu, e ela fingiu não ouvir, estava ocupada demais assinando alguns documentos. – Nem parece que é médica e sim, uma faxineira que só resmunga! – comparou e logo Anderson se virou, ficando cara a cara com Jacob.
    – Se eu pareço uma faxineira, por que me contratou para servir o seu hospital? – disparou firme.
    – Amber... Eu ter deixado dois plantão na sua mão, já são provas o suficiente do que você significa para mim. – respondeu, e a mulher negou com a cabeça e um sorriso cínico.
    – Foram duas noites, Jacob! – rebateu seguindo novamente para o corredor.
    – Me deixa falar Amber! – emitiu, começando segui-la.
    – Eu não tenho nada do que falar com você! – emitiu continuando com seus passos.
    Jacob percebendo que nada iria adiantar para parar Amber resolveu aumentar a velocidade de suas pernas. Conseguiu, com muito esforço, entrar na frente dela, e a mulher em contradição somente parou e rolou os olhos impaciente.
    – O que você quer Jacob? – deu-se por vencida.
    – Você está livre do plantão de hoje. – resolveu despejar tudo na primeira oportunidade que tivesse.
    – Por q... Não, cadê o documento onde consta minha demissão? – esperou que ele retirasse alguma folha do jaleco e lhe entregasse, o que não aconteceu, ao contrário ele riu.
    – Acha mesmo que vou demiti-la só porque a dispensei do plantão? – riu mais uma vez, e Amber suspirou em raiva. – Não se preocupe Amber, enquanto eu estiver no cargo de chefe, você nunca será demitida. – deixou claro antes de seguir para a recepção, de onde antes estavam.
    Rolou os olhos mais uma vez. Jacob Write com trinta e dois anos conseguia mesmo ser surpreendente. De repente joga um plantão nas mãos de Amber e logo depois decidi retirá-la do plantão?! Que tipo de chefe era aquele?
    Enquanto tentava refletir sobre a mudança de plantão observava, na mesma posição, à figura morena de Jacob conferindo algumas pastas. A secretária ria de alguma idiotice que com certeza saiu pelos lábios de Write.
    Era incrível como todas as mulheres tinham uma queda pelo chefe!
    Claro, com seus cabelos castanhos, corpo esculpido – nada muito exagerado – sorriso colgate e olhos azuis, malditos olhos azuis, ele só poderia ter sido um erro genético!
    Jacob Write tinha apenas trinta e dois anos, como era possível ter aquela aparência? Tudo bem que os olhos azuis lhe dava o charme natural, mas com sua idade, o certo seria estar casado, com filhos e aparência velha, mas Jacob era totalmente o oposto de tudo, começando por estar solteiro.
    Homens do século XXI.
    Amber balançou a cabeça de um lado para o outro, retornando para sua caminhada pelo corredor. Já que não teria mais que ficar responsável pelo plantão, o que mais poderia fazer? Só lhe restava ir dormir, pois se voltasse para casa teria que encarar a figura de Alex e vovó. O que de fato não estava com determinação para encarar...
  • Quarto 362

    Sem dúvidas, Scarlet, teria ficado animada demais com o apartamento para qual estava mudando-se em  Chicago, ou no mínimo menos impassível, se não estivesse muito preocupada em ficar horrorizada com o clima sombrio e negativo da rua escura, não totalmente, ainda tinham dois postes de iluminação com a luz um tanto falha e amarelada, as quatro e únicas casas a vista, sendo duas abandonadas e um baquinho no qual um homem estava sentado olhando para a esquerda, tão imóvel que qualquer um poderia presumir que estivesse morto ou coisa assim  . Mas o clima só piora quando ela desce do taxi, qual foi uma luta para persuadir a levá-la até a tal rua, e depara-se com o prédio, que no momento em questão não quis acreditar que era o do seu apartamento, ele era tão hediondo, pintura mal-acabada, entre a janelas quebradas como se meninos arruaceiros tivessem arremessado pedras por todos os lados, formavam mofo e arbustos, a cor original da construção foi inteiramente  eliminada devido as frases que haviam sido rabiscadas, uma ou duas ainda permitiam ser lidas, pois o resto foram cobertas por preto com a inútil tentativa de apagá-las.
    “Os que entram não saem. Não vi...” murmurou, mas não pôde ler até o fim já que os restante foi apagado. Leu mais alguma “Os demônios vivem a..”  Desejou pedir um taxi e dar o fora dali o mais rápido possível, no entanto entrou no edifício. Se fosse um pouco mais observadora teria notado algo que com toda a certeza seria o motivo para ela ir embora o quanto antes: No décimo e ultimo andar, um homem com o rosto desfigurado, o maxilar absolutamente destruído, sentado na frente da janela, numa cadeira que balançava sem parar como a sua cabeça que também parecia não conseguir parar de mexer-se, além disso, uma cascata de sangue saía do que antes fora sua boca, e ele estava com um faca, mutilando-se, gargalhava com a mesma freqüência que a cadeira balançava-se.  Dentro do edifício, Scarlet deu uma olhadela rápida, no espaço pequeno, apenas uma mesa de centro cuja o tampo servia de assento para  um jarro, um balcão empoeirado manchado por algo que ela conclui ser tinta vermelha, o elevador, e um corredor que dava acesso a escada, a sala completamente vazia em relação a pessoas, até que um vulto passa despercebido pelo corredor e reflete no espelho redondo. O silencio paira por alguns minutos até que:
    “Pah!”.O coração da moça acelera, dá dois passos para trás e vira-se depressa, não tenho certeza do que causou o barulho, pergunte a esse espírito que está atrás de você. Scarlet olha para frente novamente e da de cara com um homem, barbudo, cabelos esvoaçados e uma cicatriz que estendia-se da têmpora à boca, antes mesmo de ela ter tempo de falar algo, ele a leva para o elevador. Num piscar de olhos e os dois já estão no corredor, a frente do apartamento destinado a moça, que não sabe o que sentir primeiro, medo ou irritação, estava quase chorando. Coitada, mal sabe ela o que esta prestes a acontecer. A todo tempo pensa em correr, sair porta a fora e voltar para casa.
    “Faz muito tempo desde que alguém pisa nesse apartamento.” O homem proferiu com voz seca. E então abre a porta do QUARTO 362.  A mulher não sabe se entra por ter medo de ficar mais um segundo com o cara sinistro ou se fica onde encontra-se por temer entrar no apartamento. Mas escolhe entrar. Quarto 362: Bem não era propriamente um quarto, mas também não possuía o tamanho para ser considerado um apartamento assim tão bom, qualquer   objeto decorativo que você imaginar naquele quarto teria cores escuras, do tipo preto, marrom etc. a mobília coberta por pó, e mais outras coisas aparentemente normais, contudo os quadros chamaram a atenção, o primeiro representava uma arvore onde havia sido amarrado uma corda, o fundo do lugar representado, era escuro e uma menina andava em direção a arvore, o título: Arvore forca, mais em baixo tinham os seguintes versos: “um homem se matou aqui, e agora convida o seu amor a se matar também.”. O segundo um quarto muitíssimo parecido com o em questão, onde existiam pessoas sendo mortas por espíritos, e dizia “Nascido para morrer.”, e o terceiro uma garota pulando do penhasco e mais outra menina suicidando-se com uma faca, titulo: Morte de verão.  Todos os três assinados por ‘Q362’. Scarlet não teve duvida, havia agüentado muitas coisas assombrosas até agora, e a cada segundo mais coisas  apavorantes apareciam, e a cada vez que elas surgiam o medo e os arrepios no corpo também vinham juntos, quis ir embora, então decidiu que iria, deu um passo para trás ainda olhando para o lugar afim de sair, mas a porta se fechou brutalmente rápido. Ela ficou mais amedrontada ainda, deu murros na mesma o quanto antes, implorando para ser tirada dali. E um bilhete surgi fixado a porta:
    “Suponho que você não tenha entendido  ou ao menos sido informada de que os que entram não saem. Não vivos.Não vivos- Q362.”         
    Subiu um arrepio por sua espinha, o coração palpitou rápido e ela se desesperou, não que tenha gritado e feito escândalos, ficou calada, contudo, com bastante medo e pavor, suou frio, as mãos gelaram como um congelador, o estomago revirou de nervoso. As luzes apagaram. Sentiu um vento passar atrás de suas costas, e no meio de todo o escuro passaram a existir olhos,  vermelhos escuros, fulminantes, o dono deles logo apareceu, um homem de rosto desfigurado, o maxilar absolutamente destruído, o mesmo que havia passado despercebido no décimo andar, continuava a sair a cascata de sangue seco do que antes foi sua boca, ele estava parado encostado na porta, com um sorriso malicioso. Agora sim eu digo: Scarlet pirou, entrou em pânico, começou a gritar estrategicamente alto, pensando que alguém fosse escutar. A brisa leve e calma do inicio da noite, tornou-se estranhamente rápida demais, graças a ela o vidro da janela explodiu e soprou caquinhos por todos os lados do quarto, um desses cacos bateu no rosto de Scarlet, provocando um corte enorme. O homem de rosto desfigurado não estava só, trouxe um garoto, devia ter uns vinte anos, de rosto pálido e magro, apareceu sentado numa cadeira do lado da janela, amarrado com os braços para trás, ele dava risada, muita risada, gargalhava alto, parecia estar alucinado, totalmente excêntrico, uma menina também surgiu, segurava uma faca, estava ensangüentada, com um sorriso no canto do rosto, minha sugestão é que estava procurando sua nova vitima. De repente, Scarlet viu-se cercada pelos três, o corte no rosto formava uma cachoeira   de sangue, continuou em pânico, aterrorizada, gritava sem parar, tampando as orelhas.Sua cabeça ficou um pilha de nervos, misturando medo com horror, pânico e vozes que vinham de todos os lados do apartamento, na mente a gargalhada alta do garoto amarrado, junto com a frase que produzia ecos e mais ecos: “Os que entram não saem. Não vivos.”. Scarlet começou a chorar, chorava mas permanecia gritando,  os três a encurralaram, ela no meio e os monstros  a cercando, cada vez mais aproximando-se da moça. O maluco amarrado, começa a cantar:
    “um homem se matou aqui, e agora convida o seu amor a se matar também.” E então o homem de olhar fulminante aproxima-se perto de mais, depois a garota com a faca, para que possam...
    A visão embaçada fazia esforço para ser capaz de enxergar mais do que a sombra em sua frente.  Respirou rápido e fundo repetidamente, parecia estar sendo sufocada, o ar lhe faltava, tanto que a melhor alternativa foi a respiração pela boca. Alguém acalma-a:
    “Acalme-se senhorita Scarlet. Você esta bem. Passou mal enquanto mudava-se de casa. Quer dizer a senhora nem chegou a sair de sua velha casa.”
    O alivio não cabia dentro do corpo de Scarlet, queria saltar da cama de tanta satisfação em saber que tudo não havia passado de um pesadelo, tanto que nem deu importância ao fato de ter passado mal durante a mudança para o apartamento novo, e que na verdade aquele com qual havia tido um mal sonho era só sua imaginação, e que o prédio para onde iria não era nada parecido com o qual havia tido aquele delírio. A enfermeira continua, na verdade ela ainda não havia parado de falar, Scarlet é que estava aliviada demais para se importar com o que ela estava dizendo, mas agora dava atenção:
    “Alias alguém mandou para você estas flores.” Levantou para o alto um jarros de flores, onde havia fixado algum bilhete. “A senhora quer que eu leia?” Ela assentiu com a cabeça, e a enfermeira deu inicio a leitura. “Os que entram jamais saem desse  pesadelo inacabável. O seu está apenas no inicio minha cara Scarlet. Espero que tenha entendido que os espíritos do mal agora andarão com você. Tenha um ótimo dia. –Q362”
    A partir daí, fica a seu critério imaginar as coisas horripilantes que começarão a acontecer com Scarlet. Cuidado, o próximo a enfrentar esse pesadelo inacabável do quarto trezentos e sessenta e dois será você, mas lembre-se os que entram jamais saem. 

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