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  • Deixe o Karl Cair - 10

    I. Amar denovo
    Não lembro a data e hora da primeira vez em que vi o Kaio, mas lembro perfeitamente o cheiro do seu perfume.
     Kaio era um completo estranho para mim: não havia estudado comigo nem frequentado os mesmos lugares. Tudo indicava que nossos círculos de amizade também não se cruzavam.
     Você pode se perguntar o por quê de eu ter me aproximado 
    repentinamente de um desconhecido, certo? Ele tinha duas coisas muito 
    peculiares: uma coragem insana e um passado misterioso (para mim que não conhecia).
     Praticidade fez parte dos nossos encontros... inclusive, marcamos esse primeiro contato na tarde anterior. Não tínhamos conversado mais do que um 
    "Oi, tudo bem?" , "Quem é você?" , "Legal e tu?" . 
     Foi tudo muito rápido então lá estava eu sentada no banco de uma praça muito ampla e arborizada, com o vapor do sol dos meio dia lutando para tirar   
    A primeira coisa que eu achei bem estranha foi que ele se atrasou mais do que eu. Quando ele chegou eu entendi o por quê: estava bem mais arrumado (desnecessariamente) que a personagem que vos narra.
     Vou descrever para vocês, tô tentando não rir disso, mesmo mesmo... 
     Assim que o vi, parecia gótico, vestindo preto dos pés a cabeça. A única coisa com cor ali era o cabelo dele no sol, que por sinal estava grande, do tamanho do meu para mais. Depois de uma breve conversa, entendi o "style".
     Perguntei-o várias coisas, que de fato eram respondidas rapidamente - 
    tramontina, corte rápido - Ele era sincero, muito sincero. Não demorou muito até que estivéssemos longe dali em um canto mais tranquilo e vazio.
     Eu conhecia aquele bairro e sua vizinhança como a palma da minha mão, por mais que eu tentasse me perder, alguém ia me achar. Foi dito e feito, sentamos em frente a um apartamento em que havia uma curiosa senhora nos observando do terceiro andar. 
     Ela ficava de minuto em minuto entrando e saindo para a sacada, parecia desesperada como se tivesse visto um fantasma.
     Avisei o Kaio que era melhor a gente parar de conversar para ver o que ela iria fazer. Ele quis saber o motivo, então eu disse: fica calado e senta direito que eu acho que ela vai descer para o térreo.
     A senhorinha depois de alguns minutos desceu para o térreo e começou a checar ansiosamente uma pequena bolsinha que carregava na mão direita. 
     Vendo ela assim mais de perto, percebi que era muito parecida com o meu professor de química: se ele fosse uns 20 anos mais velho e uns 15 centímetros mais baixo. 
     O que realmente me fez perceber quem ela era, foi o cabelo cor de fogo que tinha. Não sou muito de reparar em cores, mas que, na iluminação certa, posso ver outras.
     Kaio diferentemente de mim não perde tempo, perguntou se ela era professora. 
    A velhinha riu e disse que tinha sido professora, mas que havia se aposentado há muito tempo (provavelmente antes de eu nascer e com certeza do Kaio também). 
     Quando a senhora perguntou o por quê, respondi que suas feições me lembravam alguém, mas não era nada demais, me despedi dela antes que o Kaio ousasse fazer mais perguntas: a mulher já estava visivelmente incomodada

    II. Vinicius o retorno

    Já fazia três anos que eu não conversava direito com o Vinicius. Eu tinha inventado a maldita ideia de sempre parabenizá-lo em seus aniversários.
    Queria dar parabéns para ele por ter aguentado mais um ano, mas também queria dar um soco na cara dele e chamá-lo de idiota.
     Não sou boa com datas, de verdade. Datas e nomes somem da minha mente numa rapidez impressionante. Já a minha memória fotográfica é ótima, até porque lembrar de nomes parecidos tipo: Mariana, Maria, Mariano, Mariane, Marrie... é difícil. 
     E tem mais: Mateus, Matheus, Marcelo, Miguel, Michel, Manoel (ou Manuel ou Emanuel)...
     O que sobra de criatividade nos pais na hora de escolher o nome do filho, falta na minha capacidade de lembrar tantos nomes parecidos.
    Triângulos amorosos são o tema mais clichê que existe em histórias de romance - colegial - ficção e seus relacionados.
     Agora cá estamos, a personagem principal e dois garotos completamente diferentes (inclusive de idades diferentes, o Vini tinha 20 e o Kaio 17) e a decisão final recaiu sobre quem? ---
     Obrigada vida, por suas consequências e cobranças.
    ** Oh mama oh la oh la, 
    Don't know what this is
    Oh mama oh la oh la,
    What do I do know? **
     Fui encontrar o dito cujo "só o pó da rabiola"*
    * - cansada, exausta, de ressaca.
     Se eu dormi 5 horas foi muito. Me meti em confusão e dessa vez nem tinha sido eu a causadora.
     Só respirei fundo e fui dar de cara com o passado.
     Enquanto eu enterrava tudo, os sentimentos renasciam nele. Injusto, não? 
    KARMA, kar-ma. Não tinha para onde eu correr: ele estava parado em frente a porta do colégio.
    (Vinicius tinha estudado lá também, não sei se vocês estão lembrados). 
     É como se após ter assinado a carta de alforria, um escravo quisesse voltar a estaca zero e libertar outro. *
     * * Nota do autor
    Claro que isso é um tremendo exagero, porém o melodrama está aí para ser vivido.
    Fim da nota do autor * * 
     Disse que havia passado para uma Universidade Estadual com tudo incluso, uma das melhores do país.
     Nossa, fiquei super feliz! Apesar dos apesares eu tinha presenciado cada esforço da parte dele para chegar até esse momento.
     Os olhos dele brilhavam de emoção, os meus também.
     Opa opa, não pode rolar beijo aqui, vamos com calma _ disse a voz da consciência. 
    meus parabéns, disse que agora não precisaria mais aguenta-lo. 
     Detesto despedidas, com todas as minhas forças. Aquele momento definitivamente era um adeus.
     Dei as costas para ele, entrei na portaria, virei em direção ao campo de futebol e 
    meu celular apitou.
     Abri para ver de quem era, adivinha de quem? Só tinha três palavras escritas: 
    Eu quero você. 
     Ele estava se declarando para mim, tudo que eu queria era aceitar tudo isso. 
     "(...) mas foram tantos sim, que agora digo não. Porque a vida é louca mano, a vida é louca." Iza





    Next.....
    Capítulo 12
    O que você fez comigo Kaio?
  • Descoberta

    Capítulo 1
    Estava eu a procurar uma camisa no guarda-roupas do meu quarto, quando me dei de cara com um objeto um tanto rústico para o restante das pessoas que procurava há séculos — talvez fosse exagero meu —, meu cordão com uma pedra ônix fazia quase parte de mim, e estava aflito com medo de especular a possibilidade de tê-lo perdido para sempre, mas finalmente o encontrei. Passava das oito horas da manhã e já estava bem atrasado para a aula em minha escola. Certamente não desejaria levar mais uma advertência em menos de uma semana por falta de pontualidade nas aulas do senhor Janet.
    Janet era meu professor de literatura e era caçoado dos demais estudantes pelo simples fato de seu nome ser dito feminino, mas justificara isso, pois seu pai assistia muitos filmes quando mais novo, lia bastante e se deparara com um série de livros cuja a protagonista era uma mulher chamada Janet e se encantara pela mesma, prometendo a si mesmo que homenagearia a mulher colocando seu nome em seu primeiro filho, fosse homem ou mulher. Deu no que deu.
    Mais tarde, pelo meio da aula de literatura me veio na cabeça algo que havia esquecido de fazer - eu realmente estava tenso naqueles dias e necessitava de férias, caso o contrário precisaria de remédio controlado, a não ser que eu quisesse enlouquecer — Sei que tinha prometido algo a meu amigo Ferdinando e era algo de suma importância para o mesmo, mas nem com todo o esforço do universo eu conseguira me lembrar. Peguei-me em divagações quando fui chamado atenção pelo meu professor, que pedira pronto para me ferrar que eu me dirigisse para frente da turma e fizesse uma breve síntese do próximo livro que íamos ler com base em suas palavras — mas eu não havia escutado nada — sem alternativa acabei por afastar a carteira e segui como seu terrível plano de me ferrar — estava realmente paranoico, pois aquele era meu professor e minha aula preferida — quando cheguei à frente daquela turma que por incrível que pareça estava posta com toda a atenção deles ligados em mim, olhei com um impulso para o relógio de ponteiros pregado na parede e suspirei de alívio imperceptivelmente. A sirene tocou, salvo pelo gongo pedi desculpas ao senhor Janet e ele não aceitou assim tão facilmente, me deu um livro que até então nem sabia o título para que lesse em uma semana e apresentasse um resumo na frente da turma sem consultá-lo. Fui pego de surpresa, pois apesar de amar ler, eu certamente perderia toda a sanidade que restava em meu ser se me compromissasse com mais alguma coisa nesse final de semestre, porém não tinha opção. Era isso ou zero, e a nossa amizade não tinha o menor peso dessa vez.
    — Senhor Janet! O senhor quer me enlouquecer de vez?! Acha que não tenho o que fazer?! Acha realmente que só tenho as suas coisas pra dar conta?! Perdoe-me a grosseria, mas suas aulas não são as únicas nessa escola! — Bombardeei-o de forma impaciente e impulsiva.
    — Meu jovem, já se acalmou? — Perguntou rindo — Olhe só, eu entendo pelo que está passando…
    — Não parece! — Exclamei interrompendo-o.
    — Sei que está sobrecarregado, e com isso nem reparou no livro que lhe entreguei. Creio-me que será mais uma diversão do que um trabalho — falou ele virando o livro em minha mão deixando à mostra a capa que me saltou aos olhos.
    — Não estou acreditando que é sussurro?! É meu sonho lê-lo desde quando saiu o prólogo! — Falei animadamente erguendo o livro contra o sol que saía pela janela em uma ação ridícula que só reafirmava a demência que as várias tarefas inacabadas da minha vida estavam me causando. Dei de ombros para a minha própria loucura e agradeci a meu professor por me proporcionar a realização dessa leitura.
    — Sei que você queria ler esta série e estava sem dinheiro para comprá-la, então, como sei que é um bom aluno, resolvi adicioná-la em minha ementa das obras literárias de contos fictícios para que você tivesse essa oportunidade. Mas me prometa que vai agradecer ficando mais atento em minhas aulas — falou Janet de forma preocupada e singela em minha direção.
    — Está bem professor, me perdoe… Talvez esse livro me faça bem, ou me enlouqueça de vez — pensei — Bom começo de tarde ao senhor e até próxima aula — Janet assentiu com a cabeça e vi que a conversa havia terminado, então saí em direção ao corredor e só aí me lembrei de que Ferdinando não tinha vindo à aula, com esse relance levei à mão a testa e lembrei-me do favor que tinha que fazer ao meu amigo. Teria eu que dizer ao professor de literatura que o mesmo tinha ido ao hospital visitar seu tio que tinha sido atacado por homens há umas cinco noites e tinha sido agredido friamente, fazendo com que ele fosse levado para a UTI no centro da cidade as pressas. Enquanto andava pelo corredor me lamentando da minha falta de memória, passei em frente ao meu armário e resolvi pegar meu guarda-chuva, pois sei que o tempo incomumente esfriara e certamente choveria. Aproveitei e juntei os livros que estavam amontoados no meu armário e coloquei-os dentro da mochila preta com amarelo que eu ganhara de aniversário de dezessete anos — eu ainda era considerado um bebezão para toda minha família — fechei o zíper que prendeu em uma página de um dos meus livros, rasgando-a, e desejei amaldiçoar toda a família do zíper até a sua quinta geração, mas lembrei-me que não passava de um zíper. Abri novamente a mochila e soltei um suspiro profundo de alívio ao observar que era um livro de matemática e não um dos livros de literatura —não gosto de matemática, apesar de me dar superbem na disciplina — fechei novamente a bolsa e me dirigi até a saída central da escola.
    Meu colégio era enorme, e apesar de ser um prédio que foi construído em meados do século XIX, era bem conservado, por todos, e o Estado tinha um apreço maior ainda por ele, pois no passado o mesmo fora casa de um imperador que veio de Portugal se apossar dessas terras — que já tinha donos —,mas na verdade o que eu sei sobre esse tal imperador português é que ele não passava de um homem que foi destituído de seu cargo e se obrigou a fugir para o mais distante de Portugal para não ser morto pelos homens que lhe haviam usurpado o poder na época, e sinceramente não sei o porquê, mas essa história me perturbava. Minha escola se encontrava no coração da cidade próximo a um bairro rico que era conhecido por ser boêmio e esse tipo de coisa. Ela tinha seu nome em alto relevo na fachada escrito com letras maiúsculas IMPERADOR MIRIEL I de forma imponente como se quisesse exaltar a figura de tal homem. Era um palácio enorme com várias salas construídas com materiais da época, com incríveis quatro andares e um terraço logo acima, no qual se realiza palestras de extrema importância para a instituição, com uma paisagem lindíssima, que dava uma visão privilegiada para toda a cidade. O colégio ainda não tinha sido reformado e corria o risco de ser tombado como patrimônio histórico e cultural estadual — não conheço nada sobre essas ações, mas tinha em minha cabeça que se isso acontecesse eu precisaria mudar de escola, e apesar de tudo não queria que isso chegasse a acontecer. Gostava daquele espaço.
    Eram quase duas da tarde quando recebi várias mensagens de Ferdinando no WhatsApp, enquanto eu estava deitado pronto para abrir meu livro novo. A priori tomei um susto, mas me recuperei de forma imediata e desbloqueei meu Samsung preto desbotado que pedia outro. Observei as mensagens, na qual meu amigo me convidava para ir dormir em sua casa a noite, pois seus pais iam visitar seu tio Nathanel no hospital e não voltariam antes do meio dia da manhã seguinte. Ferdinando era filho único, mas odiava ficar sozinho, mas mesmo assim seus pais saíam muito, principalmente a trabalho. Posso dizer que sua família não era rica, mas passava longe de ser pobre. Classe média alta. Fui até a cozinha onde se encontrava meu pai e meu irmão mais novo de 16 anos e pedi a ele permissão para dormir na casa de Ferdinando e expliquei a situação, e ele assentiu positivamente com a cabeça.
    — E mamãe, será se ela deixa eu ir dormir na casa dele? — Perguntei a meu pai de forma preocupada.
    — Não se preocupe Arthur, eu converso com ela, certamente não implicará com isso, ela nunca se importou em você dormir fora, principalmente se for na casa de Ferdinando — Falou meu pai, me tranquilizando. Vi que meu irmão só observava nosso diálogo atentamente e percebi que queria que eu o convidasse para ir comigo, assim o fiz.
    — Felipe, deseja ir comigo? — Perguntei de maneira convidativa, olhando em seus olhos.
    — Ah, não se preocupe meu irmão, já tenho planos para essa noite. Já pedi até papai e mamãe, e eles já deixaram. Vou a minha primeira festa com meus amigos e estou ansioso por mais tarde. Ia até lhe chamar para ir comigo, mas vejo que já têm planos também — Respondeu ele animadamente.
    —Sendo assim, divirta-se! — Desejei a Felipe, saindo da cozinha em direção à sala onde estava meu celular para responder Ferdinando.
    Felipe é um menino animado, negro de pele clara igual a mim. Uns cinco centímetros mais altos que eu, consegue me humilhar parecendo mais velho. Um rapaz bondoso e superprotetor. Aparenta ser ingênuo, mas só aparenta. Tem mais iniciativa do que eu. Ele certamente me supera em tudo, mas não sinto inveja. Não sou de se jogar fora.
    Respondi Ferdinando, e combinamos que eu chegaria a sua casa às sete horas da noite. Bom, era melhor eu me apressar, pois só faltava uma hora e eu demorava muito. Meu pai sempre me dizia em tom descontraído que eu quando fosse me casar, atrasaria mais que minha noiva. Mas quem disse que eu queria ter uma noiva?! Fui até meu quarto, peguei minha toalha cinza e entrei no banheiro. Tirei minha roupa, e a pendurei no vidro do box. Depois de uns dez minutos me enxuguei e corri até o quarto para trocar de roupa. Abri a gaveta, peguei uma cueca boxer branca e uma camisa preta, um short branco e joguei em cima da cama. Lembrei-me que precisava levar outras roupas, já que ia dormir fora. Peguei minha mochila na parte superior do meu guarda-roupa cinza e tirei cadernos e canetas de dentro dela. Joguei-a em cima da cama, e então peguei uma blusa azul marinho e um short preto, e uma cueca do mesmo modelo de cor vermelha, então fiz o mesmo. Olhei para o relógio e decidi rapidamente qual das duas opções de peça eu escolheria para ir vestido. Optei pelas últimas que havia colocado sobre a cama, então as outras roupas prensei entre os livros dentro da mochila. Dei mais uma vistoriada e tirei os livros didáticos, deixando só os literários.
    — Agora sim, mais espaço! — Sussurrei comigo mesmo. Fechei definitivamente a bolsa, destranquei o quarto e sai correndo pela casa. Parei em frente a mesa de centro da sala e peguei minha carteira que havia esquecido lá em cima. Peguei o celular e avisei que estava saindo de casa para Ferdinando. Ele me respondeu e disse que eu telefonasse quando chegasse perto do portão do seu condomínio. Apesar de eu já ter ido à casa de Ferdinando inúmeras vezes, o porteiro insistia em não me conhecer, então tinha que realizar todo um ritual que eu já estava cansado para que o mesmo liberasse minha passagem.
    Saí correndo da minha casa que ficava perto do centro de Colina em direção à parada de ônibus mais próxima. Dei sinal para o único que me levava o mais próximo da casa de Ferdinando. Paguei minha passagem ao cobrador e passei a catraca que fez um barulho estridente que fez com que todos do ônibus focassem os olhares em mim. Fiquei constrangido, mas logo me coloquei de costas para todos me apoiando em uma barra de ferro suspensa de forma horizontal para os passageiros que não tiveram a sorte de conseguir cadeira. Desloquei minha mochila das costas para minha barriga, e então fiquei em pé, esperando que eu chegasse logo ao meu destino. Ao passar das duas primeiras paradas várias pessoas que estavam em pé desceram na Avenida 3, na quarta parada duas moças que estavam sentadas nos bancos a minha frente se levantaram e deram sinal para descer do coletivo. Aproveitei e me sentei. Três segundos depois ouvi a catraca estalar como a vez que eu passei, mas não olhei para trás. Um homem que aparentava ter uns 22 anos, negro de pele clara, com músculos definidos — mas não denunciava a prática de academia —, cabelos negros e olhos castanho-claros, vestindo uma camisa de manga longa de cor acinzentada e short branco e chinelo branco, pediu licença de forma fria, porém educada para sentar ao meu lado. Afastei-me para o banco próximo a janela e ele sentou-se próximo a mim. Encaramo-nos por dois segundos, mas eu desviei o olhar, pois me senti acuado com tal situação. Olhei para fora da janela, observando aquela multidão de carros em fileiras. Já passara das sete da noite e só estávamos um pouco mais a frente da metade do caminho.
    Desfoquei minha vista dos carros e desloquei-a até o outro lado da avenida. Olhando para o vazio, eu via o tempo passar. Quase hipnotizado pela escuridão que ali estava no outro lado da pista. Saí do transe quando senti um leve toque em meu ombro que o apertou, eriçando os pelos do meu corpo — talvez pelo susto. Olhei rapidamente para o lado de onde vinha o aperto e vi que era o rapaz de camisa cinza que havia me tocado. Percebendo a minha reação ele me acalmou.
    — Acalme-se rapaz, eu só preciso saber a hora — Falou o garoto rindo da minha reação de forma descontraída, tentando me tranquilizar. Os cantos de sua boca se levantaram, mas sua reação não era muito convidativa. Aqueles olhos me fitavam de tal maneira que chegava a me perder em meus pensamentos. Os círculos cor de mel me prenderam facilmente como em um labirinto no qual eu não saberia o caminho de volta. Talvez eu só estivesse de paranoia mais uma vez. Fiquei olhando para ele imóvel, quando recebi um estalo com os dedos diante dos meus olhos, me fazendo cair na real.
    — Oh, me desculpe, desculpe mesmo. São sete e vinte — Falei olhando para meu celular. Ele sorriu como forma de agradecimento, e por um momento lhe vi observando-me de cima a baixo. Fiquei muito assustado com aquilo, mas contive minha reação. Guardei meu celular no bolso e voltei meu olhar para a janela novamente.
    — Você não sai muito à noite, não é? Parece muito espantado com toda essa situação simples do cotidiano das metrópoles — Fiquei surpreso com o comentário. Um rapaz desconhecido estava querendo bater papo comigo? Estava com um pé atrás com a ocasião que se desenvolvera, mas coloquei em minha cabeça que só era mais uma paranoia que minha mente atarefada criara no meu cérebro. Afinal, não tem problema algum em eu conversar com um cara, ou quem quer que fosse em um ônibus a noite. Tinha muita gente, e eu não era mais criança. Aquela história de não falar com estranhos talvez já estivesse vencida quando completei 15 anos de idade. E outra, dali a conversa não passaria. Eu desceria na minha parada, ele na dele, e não nos veríamos mais. Simples. Só uma simples conversa.
    — Bem… Não é que eu não saia a noite — eu raramente saía — é que estava perdido em meus pensamentos, refletindo sobre as várias tarefas de conclusão de semestre que tenho que fazer e outras coisas que me afligem no momento. É.… e também porque a droga desse ônibus está demorando muito chegar à minha parada — Respondi ao rapaz, tentando explicar a minha situação.
    — Hum… Sei bem como é. Onde você vai descer? — Perguntou ele a mim, com a voz baixa. Hesitei em responder, mas não queria parecer grosseiro.
    — Vou ao bairro Limoeiro, para a casa de um amigo — Respondi certo de que ia me arrepender.
    — Que ótimo então. Também estou indo para lá. Desceremos na última parada da Avenida 3, poderíamos ir juntos até lá. Teremos mais tempo para conversar — Gelei imediatamente, e queria me matar pelo fato de que diria eu avisei para mim mesmo, mas esbocei um sorriso falso como quem estivesse gostado da ideia. A verdade é que tinha muito medo. Medo não do garoto em específico, mas medo de qualquer pessoa que pudesse me atacar. Agredir-me pelo simples fato de ser quem sou. No caso, todo mundo. Na escola, as pessoas me conheciam como o moleque covarde, e muitos caras me metiam medo. Geralmente, eles são bem maiores que eu, o que intensificava a minha insegurança. Mas resolvi me acalmar, mesmo estando à mercê de um estranho, eu tinha uma vantagem. Ele não me conhecia.
    Caminhávamos pela rua que dava acesso ao Limoeiro, por baixo de um viaduto que era decorado por pichações ilegíveis. Estava extremamente escuro. Apenas andávamos vacilantes à luz de alguns postes com lâmpadas incandescentes. Algumas pessoas nos acompanhavam, pois haviam descido do mesmo ônibus. Apenas desconhecidos, mas mesmo assim me sentia seguro, pelo fato de ter um número relevante de pessoas. Acalmei-me. Estava de demência novamente. Era só mais um amigo que eu pudera fazer. Fica sossegado, pensei.
    Chegamos à parada a qual eu deveria pegar outro ônibus em direção à casa de meu amigo. Já era quase oito da noite e estava extremamente atrasado, como sempre, impontual. Não trocara mais nenhuma palavra com o rapaz que eu acabara de conhecer, e nem ao menos sabia seu nome. Foi tudo estranho. Aleatório, mas não me importei mais. Meu ônibus chegava próximo e me despedi do carinha que continuava ao meu lado, me olhando, mas sem nenhuma expressão no rosto.
    — Esse é o meu ônibus, tenho que ir. Prazer em conhecê-lo! — Comentei apontando para o coletivo que se aproximava enquanto estendia a outra mão para cumprimentá-lo em despedida. Ele sorriu, mas não apertou minha mão. Reagi surpreso, mas dei sinal e subi. Sem entender nada que se passou dentro do coletivo que pegara perto de minha casa até agora, passei a catraca e sentei-me na primeira fileira. Olhei para a janela e o rapaz já não estava mais na parada. Me arrepiei, mas logo justifiquei o fato de seu sumiço instantâneo. Talvez tivesse ido comprar algo, ou atravessado a avenida. Desviei o olhar e esperei até que chegasse ao condomínio de Ferdinando.
  • Desventuras de um Adolescente.

    Alex era um adolescente como todos os outros, era um garoto bom, não era o melhor de sua classe mas também não ficava para trás, um garoto muito esforçado digamos assim, durante toda sua infância foi um garoto tímido, nunca foi de ter muitos amigos mas mesmo assim, valorizava os que tinha.
    1° dia de aula, os mesmos amigos, mas... Algo diferente chama a atenção de Alex, era uma garota nova em sua sala, morena, olhos azuis, ele da uma olhada para ela mas logo volta a conversa com seus amigos. Certo tempo depois ele vai conversar com ela, descobre que seu nome era Melissa depois de conversar por alguns minutos com a garota ele percebe que eles tinham muito em comum. Após esse dia eles conversam sempre, tinham virado bons amigos, mas algo estava diferente em Alex, o garoto acabou se apegando tanto a Melissa que o que sentia por ela já era maior que apenas amizade, mas ele preferiu não contar para ela, pelo menos não por enquanto.
    Certo dia a curiosidade acaba tomando conta de Alex, e ele pergunta para Melissa se ela estava gostando de alguém, a garota acaba ficando corada, e então responde que havia um garoto que estava chamando a sua atenção, Alex acaba perguntando o motivo dela nunca ter contado quem é a ele, e então Melissa responde:

    -Porque é você.
  • É ela

    Sorriso encantador,olhar devastador
    Cara,da onde ela surgiu?
    É tão linda que passaria a vida a te olhar
    Imaginando como seria poder te beijar

    Quando percebi já estava dominado
    Estava ali para qualquer coisa
    Que doidera,pensei em até em casar
    Imagina ter filhos com essa mulher?

    Nunca pensei em algo sério
    Sempre fui o vagabundo
    Que não queria saber de nada
    E agora eu a olho,nem sei o que dizer

    Vamos fugir de todo o mal
    Viver de frente pro mar
    Só nós dois a se amar

    Tudo isso a se imaginar
    Em apenas um olhar ao te encontrar
    E conto para todos
    Que o motivo do meu sorriso é você
    E vou contando as horas para te encontrar.
  • E Se o Céu Fosse Azul?

    E se o céu fosse azul?
    ---
    “É complicado explicar nossos sentimentos quando todos estão focados demais em seguir suas vidas dentro de um padrão. Assim como os ocidentais não conseguem entender a relação conjugal muçulmana, a massa populacional generaliza todo e qualquer bem-querer para suas simplistas e humildes categorias afetivas, simplesmente não conseguindo compreender a verdadeira beleza do amor.

    Não, não especificamente o amor de namorado e namorada. Não que alguém possa ser julgado por pensar dentro desses limites, visto que desde os antigos gregos as relações já eram categorizadas em apenas três tipos: o amor familiar, o amor de amigo e o amor erótico. Oh, mas pergunto eu, agora, nesta mais dramática e horrenda fase da vida, em meus castos dezesseis anos: será que nunca ninguém parou para pensar que coisas assim abstratas não devem e não podem ser categorizadas?

    Digo por experiência própria; sou perfeccionista e muito organizado. Etiqueto todos meus livros, e meus lápis-de-cor estão por ordem de marca e então de tonalidade, passo as noites classificando minhas ações diárias em boas ou más — que me desculpem os mimados filósofos, eu tenho uma crença dualista —, por que não iria tentar categorizar, decifrar e entender as causas de meus sentimentos? Graças a isso, percebi que o auto-sadismo é uma utopia tão grande quanto o comunismo. Dominar a nós mesmos? Ora, nem sequer conhecemos a esse “nós mesmos” para termos a nós em nossas próprias mãos!

    Talvez seja por ter tido meu chão arrancado de sob meus pés ao descobrir que não há limites na vida que eu perdoe a todos. Talvez seja apenas minha péssima memória, mas eu não guardo rancor de daqueles que nunca entenderam e que eu sei que nunca entenderão, pois se nem mesmo eu entendo, o que podem os outros?”

    Fecho o diário e o jogo contra a parede. Por Deus, como ando dramático esses dias. Os hormônios, dizem, a escola, a pressão jovial, a sociedade, o capitalismo, as estrelas, as ervilhas que você não comeu aos sete anos, Ad, eu avisei você que devia ter comido (vamos, mãe, depois a senhora não compreende por que não temos laços estreitos), há cada desculpa dita que as vezes penso em deixar de tomar a homeopatia para ver se minha imunidade baixa de vez e eu arranje uma pneumonia fatal.

    Mas não devo, porque poder, eu posso. Nem tenho real motivo, na verdade sou orgulhoso demais para admitir minha morte. Suicida, eu? Por favor, tenho um diploma de doutorado me esperando num futuro bem distante desse Ensino Médio medíocre que de bom grado curso, ainda tenho muito que apanhar neste mundo.

    E não só isso: seja, ou não, as ervilhas... Eu tenho aqueles que amo. Considere-se um deus, sabe para que negativos números de pessoas que eu conto a respeito de minhas relações? Exato! Simplesmente não entendo aquelas garotinhas de internet que espalham sua vida a todos e depois reclamam de falsidade, fofoca e essas coisas entediantes. Pelas divindades que esses seres humanos creem, quem deu saúde a vocês? Não que eu esteja condenando o estilo de vida “sou um livro aberto”, só apenas aquelas pessoas que não ligam a Física à vida em “Toda ação tem uma reação”, não associando seus atos com suas recompensas.

    Se bem que não mereço minhas recompensas. E lá vou eu novamente recolher meu diário da cesta de basquete em minha parede para cair novamente em uma crise de autodepreciarão e baixa confiança em minha capacidade.  Mas de fato, como eu gostaria de ter mais problemas em minha vida para justificar minha sede por atenção, a mesma atenção que eu rejeito da penca de pessoas que arduamente oferecem-na para mim.

    Eu sou um monstro. Mas um monstro com sentimentos. Um bem cruel, talvez, daquele que tem sua própria política de lidar com as pessoas, mas isso não convém aqui, não agora, não nesta parte da narração.

    Levanto da cama, a tal bem arrumada que eu odeio que sentem para não amassar a colcha. Calço os simples tênis sem cadarço, ponho um casaco fino, mais por ganhar um upgrade de bolsos do que pela estação, recolho a chave e o celular da escrivaninha e saio para uma caminhada reflexiva. Nesses dias que, perdoem-me as garotas, são piores que o mensal feminino, ficar trancado em casa com ar de melancolia apenas piora as coisas.

    Meus pais não estão em casa, não que isso signifique que eles estão sempre trabalhando e não podem dar atenção para mim, pois são um exemplar casal que visa a melhora da estrutura e padrão de vida familiar. A última parte até é verdade, mas eu passo um bom tempo com eles, mesmo que os ignorando. Ignorando apenas para depois reclamar da falta de atenção deles para comigo. Abaixo a cabeça e sigo em direção da porta me sentindo um lixo.

    Sentir o ar de outono me deixa melhor. Amo meias-estações por suas temperaturas agradáveis, moderadas e neutras, por sua impotência de atividades pré-definidas que deixa a maioria das pessoas zangadas. Seja por ser um jovem rebelde com minhas calças largas e zíper aberto, ou não, eu adoro isso.

    Na rua, sei para onde estou indo. Costumo desligar totalmente enquanto caminho, por isso estou sempre mais perdido que as pessoas que eventualmente me pedem informações. Mas neste bairro sei onde fica os lugares que vou, que tenho e que gosto de ir. Especialmente esse que me dirijo agora, o único lugar que sei que, independente de todos os defeitos que amo definir e categorizar, serei aceito e ganharei atenção, mesmo com toda manha de criança mimada que faço o tempo todo, como neste exato momento!

    Se estar doente faz qualquer um ganhar atenção, então ser doente não cumpriria minhas expectativas de vida? Houve um tempo em que achei que o simples contato social era o suficiente de atenção que eu precisaria conquistar, mesmo que me negasse a ganhar até mesmo isso. Porém, me superei, ultrapassei as barreiras de mim mesmo e fiz laços. Mas agora percebo que... preciso de mais. Eu preciso de muito mais do que apenas umas boas horas de conversa e de riso, eu preciso de contato físico.

    Sim, julguem-me, seus infelizes, admito ser mortal.

    É por esse imperador dos meus defeitos que acelero meus passos até começar a correr pela calçada, sentindo o vento refrescante me ajudando a ganhar velocidade, agitando meus cabelos e quase espantando meu choro. Chego à sua casa e aperto o interfone, cruzando os dedos para ele estar sozinho em casa também. Por mais que eu tenha veia artística para encantar a todos quem queira, com uma especialização em pais de amigos e colegas, não é um bom momento para tal coisa. Quando a habilidade e o mau momento se confrontam, minha reação quase sempre termina numa mistura de nazista com ogro canibal em frente de um ser da minha espécie, mas de etnia diferente.

    Al atende a porta com um olhar meio inocente de curiosidade e abre um sorriso ao me ver. Desce as escadas com a chave do portão, calmamente, do jeito que sabe que fico doido quando age tão vagarosamente. Minhas pernas estão balançando de forma violenta, flexionando os joelhos e os jogando para a posição normal novamente como se eu quisesse quebrá-los. Faço isso quando estou nervoso ou com excesso de energia. Ele testa chave por chave, como se não soubesse qual é a certa mesmo morando nesta casa por toda sua vida.

    — Anda logo, seu filho da mãe, eu quero entrar. — Coço o nariz com a manga do casaco e percebo que não consigo deixar meus braços parados também. Parece que necessito fazer milhões de coisas ao mesmo tempo para obter milhões de sensações ao mesmo tempo, exatamente a motivação que leva alguém às drogas psicoativas, como a cafeína. E olha que hoje eu nem cheguei perto da cafeteira.

    Al finalmente abre o portão fazendo um pequeno suspense e sorri para mim novamente. Parece que não percebe que estou — tão visivelmente — distante de uma recepção sorridente, mas na verdade sei que ele sabe. Sei que ele não entende, mas respeita e aceita essa limitação, o que faz dele a pessoa que mais amo nesse mundo.

    — Só não incendeie minha casa novamente que vai ficar tudo bem. — Ele me puxa pelo ombro, envolvendo-me num abraço. Sabe que sou orgulhoso demais para iniciar a ação, não importa o quão necessitado estou, sabe que sou um idiota. Sou um idiota maior ainda por nos meus bons dias ignorar e ter nojo da afetividade de Al, por isso me esquivo de seus abraços sempre que estou bem. Sim, sou mais fresco que um vegetariano num churrasco, ignorando até mesmo os formais abraços de despedidas, especialmente os de Al. Mas não agora, porque é por eles que agora estou aqui.

    Seus braços são fortes, apesar de não parecer, ou simplesmente os sinto melhor quando estou fraco. Eles me envolvem de forma tão paternal e aconchegante que é quase hipnótico, assim como seu perfume. Ah, o cretino parece fazer de propósito em usar o mesmo perfume forte que meu irmão mais velho, que divide o mesmo péssimo gosto de Al. Meu irmão não mora comigo, mas sempre que vem me traz um presente. Eu sempre quis abraçar meu irmão desta maneira, como ele me abraçava na infância, mas quando passei dos dez anos comecei a refutar o afeto. Por que sou tão patético?

    Estou com os dedos enterrados nas costas de sua blusa, absorvendo todo seu calor, tudo o que tem para me dar. Ele já passou por situações parecidas nesses anos em que começou a me chamar de amigo, essas minhas crises não são raras. Seu corpo é proporcional ao meu, mas neste momento parece muito maior, abrangendo não apenas meus ombros e costas, mas todo meu ser. Um nível muito mais abstrato e metafísico de abraço.

    — Adrian, seriamente, você está mesmo muito carente. Ache logo uma namorada. — Alberto se afasta, mas ainda mantém suas mãos pesadas sobre meus ombros. — E, eu não queria falar nada, mas você é muito mais legal quando está quase chorando.

    É tão verdade que ao invés de responder algo a altura apenas suspiro sonoramente para impor um limite de abuso verbal sobre a situação e me enrolo novamente num abraço, esfregando meu rosto na sua blusa para absorver melhor o perfume. E Al não se importa. Apenas dá uma risadinha afetuosa e me leva para dentro depois de trancar o portão comigo pendurado ao seu tronco como uma criança, que talvez, no fim, é mesmo o que eu queira ser neste momento. Voltar as coisas simples e objetivas de antigamente, onde o céu é azul e tem estrelas, e não uma confusa teoria de universo expandido e incerto.

                    Al me larga no sofá da sala para pegar o controle remoto da televisão. Não aparenta estar preocupado, zangado, aborrecido, não está tenso como qualquer um estaria quando um amigo apenas de más horas aparece na porta. Não me enxota, muito menos tenta me ajudar com perguntinhas de motivo, causa, intensidade; Al simplesmente me ajuda sendo Al nas horas certas. E é esse o problema.

    Logo que senta ao meu lado não consigo evitar de segurar sua mão, entrelaçando firmemente nossos dedos, não importando o que isso possa parecer. Meu nariz escorre as lágrimas que eu não posso nem vou derramar, e minha garganta sofre com meus sentimentos arranhando as grades da prisão.

    — O que quer assistir? Está passando a reprodução dos babuínos do canal animal. — Ele me olha com seus olhos brilhantes que não são descritíveis. Nenhum olhar é descritível no momento em que se olha nos olhos, pois você se obriga a retribuir, e todo olhar profundo vai além de globos oculares e seu reflexo de luminosidade, passa a ser uma conexão de almas. Todos sabem que almas não são plausíveis de serem postas em palavras.

    — Você está se alienando com essa televisão — respondi entre fungadelas.

    — Oh, desculpe, sou um burguês indigno?

    Seu tom de falsa preocupação acompanhada da risadinha estranha e pausada que faz com que seus ombros e peito mexam mais que o normal me abre um corte interior. Sua mão está quente e age como sal nessa ferida, porque sei que há mais um mundo inteiro de pessoas que acham “fofo” isso em Al. Ele não é fofo, é estranho, mas carismático o suficiente para ser adorado por todos aqueles que o conhecem, e admirado por aqueles que o acompanham mais de perto. Al é um exemplo de estudante, de colega, de amigo, o maldito de um garoto popular com compaixão por todos. Quantos não devem ter exposto, e oferecido, e empurrado seus sentimentos a ele, assim como estou fazendo? E quantos Al já não ajudou exatamente como está fazendo agora? Não sou único, não sou especial. Ele também me ama, assim como a todos.

    Mas eu infelizmente preciso dele, como muita gente. Às vezes sinto por ele, naqueles dias em que estou pensando e formulando uma visão mais concreta e administrável de Al, sinto realmente pena. Ele cuida de todos, mas essa massa não é suficiente para dar conta de seus sofrimentos. Aqueles que deveriam fazer isso simplesmente estão num nível superior de egoísmo, ocupados demais para lembrar dele. Mas não me importo, não é meu dever cuidar do meu amigo, não quando eu não tenho a mesma exclusividade que dedico a ele.

     Ele nunca será feliz, por isso deverá continuar contentando-se em cuidar de pessoas como eu. E estou contente com isso, afinal, sempre soube que nossa relação perduraria enquanto não existisse bons momentos entre nós, a tristeza e o sofrimento são o que nos mantêm unidos.

    — Você é uma família tão família que chega a ser mais que a minha família. — Al avança para cima de mim fazendo um ruído de coisas meigas e passa seus braços sobre mim, balançando nossos corpos de um lado para o outro no sofá. Seu rosto também é quente, o que me enoja um pouco. Tão gay.

    — Eu também te amo, Adrian, querido. — ele sempre teve uma adoração ridícula por colocar sotaque nas palavras para retribuir o afeto verbal ou físico das pessoas, especialmente daquelas que geralmente não fazem isso. Vai ver que é sua herança europeia dominadora cantando mais uma vitória.

    — Pare de ser gay.

    — Não sou gay.

    — Mas está gay.

    — Amiga, não brinque com isso.

    — Cale a boca que você ajuda mais.

    Ele riu mais uma vez. Sentir seu peito também quente quase febril colado ao meu ouvido quase me questiona que tipo de desejo sinto por Al. Mas já discuti tal assunto internamente milhões de vezes, já abordei em meu diário essa dúvida por pelo menos meses, somando todos os relatos, e foi assim que cheguei à conclusão que o amor não pode ser categorizado. Amo do fundo de todo meu ser esse cara, mas nunca poderei explicar como. Nunca conseguirei definir minha relação com ele a não ser superficialmente.

    E superficialmente, posso dizer que nunca o terei para mim, o que talvez seja o único motivo pelo qual eu ainda estime seu abraço tanto assim. Não sou conhecido por ter os relacionamentos mais duradouros, meu espírito neocolonialista me recorre a lógica do dominar, explorar e abandonar. Sou um monstro, um monstro nos braços da única pessoa que provavelmente iria para o paraíso no caso de apocalipse, por não se importar com esse meu jeito de considerar os outros.

    Não consigo mais me conter e minhas lágrimas escapam em pares ridículos. Al acaricia meus cabelos, compreensivo, e sinto raiva por ele já saber o que fazer. Odeio estar nessa frágil desvantagem. Odeio precisar parecer estar mal para conseguir atenção de meu amigo. Odeio ter que ver outros fazendo o mesmo, e odeio mais ainda aqueles que recebem sua atenção, necessitadas, mas se mantém firme em todos os momentos. Esses últimos são os piores falsos atores metidos a heróis que já vi, todos sabem que os melhores personagens são os vilões.

    Meu celular vibra, sei que é minha mãe. Está começando a escurecer mais cedo e ela se preocupa muito comigo, sei que sim. Mas não quero de modo algum voltar para minha realidade, mesmo que não consiga parar de pensar nela. Em minha mente, pensamentos são verdadeiros, mas são apenas pensamentos. Alberto é tão horrível por me mimar deste jeito...

    Ele me convida para passar a noite na sua casa, dizendo que podemos jantar sua macarronada especial e encontrar a melhor fórmula de enganar a professora de Matemática por não termos feito o dever de casa, mas rejeito o convite. Sei que é de coração, mas não posso aceitar.

    Levanto-me e respondo minha mãe por mensagem, limpando minhas lágrimas. Al pede então se quero companhia até em casa, e isso eu aceito. Guardo o celular o no bolso e seguro sua cintura delineada, que apenas consegue fazer com que sua afirmação masculinidade seja queimada e assoprada para longe do plausível.

    Ele passa o braço sobre meus ombros e já estou melhor. Eu sempre estou melhor depois de receber uma boa dose do meu amor físico e compreensivamente espiritual. Deste meu afeto que não posso classificar e deceparia um membro daquele que o tentasse fazer.

    — Vamos logo, eu ainda não fiz os deveres.

    O mundo é uma maldita competição, onde não há como sofrer por amor, mas só por sua falta. O que todos buscam é bastante abstrato e de certa forma coletivo. Há como separar e monopolizar, mas... Não se corta um membro para esse sobreviver, isso é certo.

    O caminho de volta sempre é doloroso porque já fico pensando na falta de carinho de Al que terei por aquela noite, na negligência de meu sonho de sonhar enrolado nessa bolha de afago que ganho dele. Por isso, passo o trajeto até minha casa apenas aproveitando a sensação de falsa exclusividade que Al me passa.

    Por que alguns abraços são melhores que outros? Será psicológico? Será um sensor da alma que diga “esse é bom, esse não, fique longe”, será a vontade e compreensão da outra pessoa para nós, necessitados? Será que varia da personalidade e despojo do outro, do medo de demonstrar proximidade em público? Não sei, mas parece não exatamente depender dos outros, é muito mais minha vontade e julgamento que contam.

    Chegamos e Al para, olha para mim e suspira. Suas sobrancelhas estão levemente franzidas e seus lábios contraídos nas extremidades, uso muito da minha percepção de desenhista para analisá-lo. Ele sabe que minha mãe não gosta que faça isso, mas mesmo assim beija minha testa e me manda entrar.

    — Está frio, vá para dentro logo. — Talvez minha mãe não goste de Al porque não compreenda verdadeiramente nossa relação. Se compreendesse, também não gostaria por julgá-la impura e prejudicial, como faz agora, mas levando esses adjetivos em outro sentido, o verdadeiro.

    — E você fique mais uns minutos aqui que talvez consiga faltar aula amanhã — respondo encontrando as chaves e abrindo o portão. Já está bem escuro, e minha irmã mais nova nos observa da janela. Sei que vou levar uma bronca por ter chegado tarde, não ter avisado que sairia, nem para onde, nem com quem, e ainda mais por voltar com um garoto para casa. Mas isso só acontece porque as pessoas categorizam os sentimentos.

    Um acesso de raiva toma conta de mim, sei que odeio todos dentro dessa casa, sei que não poderei conversar adequadamente com nenhum deles. Sei que vou tentar me controlar, mas vou acabar fugindo de todos e me trancar no quarto, vou pegar meu diário, falarei mal deles, desenharei Al e rasgarei a folha.

    Aceno uma última vez para meu amigo antes de entrar em casa. Pela luminosidade dos postes de luz sei que ele sorriu para mim antes de dar meia volta e ir para casa. Amanhã agirei como se nada tivesse acontecido e estarei todo sorrisos. Ignorarei Al e refutarei todo e qualquer sentimento negativo que tente chegar perto de mim. É um ciclo vicioso e desgastante, mas que semana que vem poderei recuperar minhas forças novamente. Antes de fechar a porta e encarar a realidade, murmuro para a solidão da rua:

    — Até semana que vem, Al.

      Como pode me odiar tanto assim?
    ---
                    — Agora, alunos — malas, lesados, ignorantes, pirralhos, pesos de porta —, caros alunos — morram, morram, morram e — por favor — MORRAM! — encontrem um colega que tenha a mesma cor de meia que vocês.

                    Foi assim que saí do inferno para trabalhar como burocrata do demônio. Menos sofrido, mas bem mais desagradavelmente complicado. Foi assim também que o coordenador escolar estava visivelmente se sentindo naquela linda manhã, aparentemente muito propícia para uma atividade de integração social de uma turma nova. Seus olhos corriam de um aluno para o outro gritando insultos enquanto por fora só vomitava palavras programadas, tipo quando um programa é censurado e na tela aparece aquela mensagem automática com um narrador estilo áudio do Google Tradutor.

                    Olhei ao redor. Olhei bem ao redor. Meu redor eram duas paredes de canto o qual eu me escondia das baratas humanas. De todos os insultos que o coordenador queria despejar na minha nova turma. Da atividade que ninguém queria realizar mas estavam sendo obrigados, porque, é claro, quem nunca achou sua alma gêmea ao esbarrar os dedos romanticamente no mesmo par de meias do mostruário? Quem nunca fez uma amizade de décadas por perceber que seu colega de academia sarado e peludo usa a mesma soquete branca suada que você?

                    Mas não. Ele não podia ser normal. Ele tinha que ser um grande cretino. Ele tinha que sorrir, ele tinha que ter um sorriso tão bonito, tão grande, tão monstruosamente grande que parecia que me faria vampiro igual a ele com aqueles caninos enormes. Era o único agitado, animado, pilhado como só alguém banhado em cafeína poderia estar, mas não, era apenas seu jeitinho natural. A cada novo desafio da atividade de integração se escolhia um novo par, o qual eram dados quinze minutos para conversar e se conhecer melhor, para no fim cada dupla apresentar à classe os interesses em comum que tinham achado. Ah, ele amava tudo e todos, sempre achava um lote inteiro coincidências para contar à turma no final. Todos saíam sorridentes depois de apenas quinze minutos de sua maldita ladainha.

                    Eram quinze atividades para fazer os estudantes bateram um papinho desconfortável entre si e quebrarem as panelinhas, e naquela sétima atividade eu tive a infelicidade de ter meias azuis-marinhas. Tinha pelo menos outros dez com meias azuis, mas ele veio até mim porque, no mínimo, eu devia estar poluindo a imagem mágica e purpurinada de turma feliz e unida que ele estava visando com meu mau humor de ódio à socialização. Ele precisava tirar o lixo do quadro colorido dele.

    — Ei, olha, que coincidência! — A ousadia em forma de uma mão cheia de dedos agarrou a borda da minha calça e levantou, mesmo que ela já estivesse curta e já fosse possível ver minhas meias. — Azul-marinho! — Estendeu sua mão com dignidade e quando não teve resposta agarrou a minha com firmeza. Machucou, e naquela hora eu prometi que me vingaria daquela indelicadeza.

    Com o outro pé posto sobre a borda, desci a calça até minhas meias sumirem de vista e minha cueca dar um oizinho ao pessoal. Até que o coordenador não pedisse para encontrar alguém com uma roupa de baixo da mesma cor estava tudo bem para mim.

    — Meu nome é Alberto, tenho catorze anos. Estudo na escola desde... Tipo, sempre. — ele riu alto. Eu encolhi meu pescoço. — Você é novo, né? Pode ficar comigo no intervalo.

    — Hum, Adrian. — Eu era meio tímido. — Obrigado.

    — Bem, então, Adrian, eu pensei.... — ele passou uma mão sobre meu ombro e foi me desgrudando do canto da sala, me guiando para o centro como se fosse um arquiteto indicando ao cliente onde ficariam as maravilhosas pinturas chinesas que ele havia enquadrado no meu projeto.

    Há uma quantidade quase obscena de garotos esquisitões que passam boa parte de sua vida encerrados no quarto gastando seu ciclo celular cerebral com algum RPG, e sendo sensato agora, dois por cento deles conseguirão seguir carreira nesse ramo porque estavam jogando em vez de estudar para trabalhar com tecnologia. Havia uma quantidade significativa de garotos esquisitões na minha antiga classe, eu era um deles. Mas naquele momento, no momento que Al me escolheu, fui diferente. Deixei tudo que me fazia ser eu de lado por um instante e posso explicar isso sem parecer delírio de uma obsessão.

    O que leva uma pessoa a ser solitária? Depende, é claro. Um trauma. Personalidade. Depressão. Chamar atenção, oh, sim, carência, esse é um fator bem interessante. Quem nunca teve uma fase emo-gótica-depressiva em sua miserável vida pode não acreditar nisso, mas se isolar do mundo pode significar apenas querer comprovar que é especial o suficiente para o mundo vir atrás de si quando der por sua falta. Imagine uma garota que desconfia que seu namorado, o Sr. Relações Sociais, esteja traindo ela. A mocinha briga com o namorado e o ignora determinadamente, não importa o que ele faça ou fale, não importa o quanto suplique ou peça para voltar, porque a única coisa que ela quer é sentir o prazer de tê-lo se importando consigo, uma massagem no ego e na autoestima.

    Claro que certas garotas mundo afora permanecem nessa tática por tanto tempo que Sr. Relações Sociais se cansa e vai embora, deixando-as realmente sozinhas dentro de uma depressão tão profunda que na certa enche a mente delas de “Eu não presto.”, “Ninguém me ama.” e “Sou uma forma a base de carbono desperdiçada nesse universo e não mereço essa miserável vida.” E aí se matam.

    Mas agora imagine com toda a fertilidade que tem sua mente: o que acontece quando todos esses caras esquisitos e solitários por causa de uma fase da vida meio violentamente conturbada pela mente fraca para mudanças e pseudo-depressivos por carência recebem atenção? Eles passam a depender das pequenas atenções como se fosse crack e fazem qualquer coisa para consegui-la, tornando-se quase arrogantes e bastante mimados.

    Foi assim comigo. Naquele momento em que Al passou seu braço sobre meus ombros eu entendi que nenhuma outra atenção seria como a que eu estava recebendo naquele momento, que aquilo era melhor que a comida da minha avó. Eu soube que precisaria conseguir mais doses daquela morfina relaxante para o resto de minha vida. Mas isso tudo correu pelo meu subconsciente por mísero um segundo, sem chegar em meu conhecimento explicitamente, porque na hora eu resisti até o último segundo para ceder conversar com Alberto, fui bem rude, um verdadeiro ogro.

    Sei que ele usou dessa habilidade com os outros também. Com os outros esquisitões, com os outros colegas sociais, com professores, todos, todos mesmo. Essa era a linda cadeia de vítimas da manipulação que Al tecia como uma grande aranha pernuda, peluda, nojenta e de traseiro grande. Era tão viciante, tão doentio, que a cada vez que Alberto falava comigo eu sentia que precisava de mais e mais, mas só para mim... Tinha dias que eu me sentia único; todas as brincadeiras eram a meu respeito, ele estava sempre perto da minha classe, sorrindo, sorrindo com aquelas presas enormes de quem me engoliria algum dia. Tinha vezes que nem bom dia eu recebia, que eu me sentia uma usina de tratamento de esgoto entupida e inútil e me perguntava constantemente o que havia de errado comigo, o que eu havia feito. Hoje sei que fazia tudo parte da teia, da manipulação; solte a linha, deixe ele nadar e então puxe de volta com força que terá o peixe em suas mãos.

    Sei que não fui só eu que caí nesse truque, sei que não fui só que eu que me obriguei a socializar mais com a turma, com muitas pessoas para conseguir ficar mais perto da Alberto, que entrei para seu fã clube, que me tornei seu cachorrinho, seu servo para carregá-lo numa liteira a espera de migalhas de sua atenção. Não foi ruim, por mais que eu tenha feito parecer com minhas próprias palavras, teria sido bem pior ter me suicidado por não ter ganhado atenção suficiente, teria sido bem pior não ter começado a me socializar, a estudar, a pensar na vida e no futuro. Al foi um ditador que cortou minha liberdade, mas me evoluiu de uma forma tão linda que seria o melhor treinador de pokemons que a humanidade já teria visto.

    Alberto me deu um futuro. E então comecei a pensar demais, em todos os segundos que estava longe dele eu preenchia minha mente com pensamentos sobre ele. Não posso afirmar como foi para os outros, mas depois que criar mil situações hipotéticas sobre o que poderia acontecer ou ter acontecido, me ocorreu, ineditamente, tentar entender o porquê de eu gostar tanto dele. Não, por que de eu depender tanto dele. Eu sequer gostava dele? Quem era ele?

    Todos sabem que o pior inimigo de qualquer governo é um povo culto e sabido.

    Ideias podres e nojentas vieram seguidas de reflexões e conclusões sobre a natureza, pela primeira vez no meu ponto de vista, negra e sombria de Al. Não perdi meu interesse por ele, pelo contrário, fiquei apenas mais obcecado em tentar entendê-lo e desvendá-lo como se fosse um cubo mágico de rosto anguloso e cintura fina. Mas tudo isso apenas me levou a um nojo terrível de Al e um asco perverso de mim, da minha infantilidade em cair nos braços de estranhos com tanta facilidade. Tudo isso fez com me eu me afastasse de Alberto numa — desta vez verdadeira — depressão reflexiva a respeito de sentimentos. Mas eu já estava ciente de que minhas relações eram necessárias e importantes e não as cortei, continuei um bom garoto social e ativo na escola, pelo menos uma fachada para garantir meus interesses.

    E Alberto surtou.

    Ele surtou. Não, na verdade apenas gosto de pensar que ele tenha passado noites em claro por minha causa, gosto de imaginar que ele tenha dedicado muito tempo de sua vida me odiando em segredo por ser o primeiro rebelde do sistema escravista que ele montara em sua vida, que ele me desenhara muitas vezes apenas para queimar a folha, que ele chorou em meu nome, apenas porque, no fundo, nunca deixei de ser um esquisitão carente. Tudo porque não o olhava do mesmo jeito, não abaixava mais a cabeça perante ele e o julgava mais severamente.

    Passei tempos de jejum de afeto para reflexão, questionei o sistema socialista de divisão igualitária de atenção e carinho em que viviam todos aqueles porcos. Mas não adiantou. Eu não ganhei a exclusividade que como objetivo toda a esquisitice carente me movera a agir.

    Alberto veio atrás de mim com toda sua boa vontade e altruísmo, questionou o que havia de errado comigo, como podia ajudar. Quase tive uma recaída ao pensar que ele se preocupava comigo, mas então lembrei que ele de fato se preocupava, mas isso não bastava para mim porque ele se preocupava com todos os outros também. Quando não me abri com meu amigo, senti seus olhos penetrantes e cristalinos nos meus e percebi que fui lido como uma mercadoria passada num leitor de código de barras: ele me compreendeu. Mas isso não fez diferença para o abraço do dia, o primeiro em muito tempo que eu rejeitei. Me tornei então a mercadoria defeituosa que voltou-se contra seu criador, mesmo que não importe o quanto eu tente me sentir um grande revolucionário vitorioso, sempre terei a culpa. Afinal, o culpado de ser um humano ingrato e insatisfeito não é ninguém mais do que minha própria falta de vontade de controlar minha natureza humana, e consigo sentir isso muito bem quando ainda me apoio nesse mesmo garoto em meus momentos de crise. Ainda que não me entenda por completo, me respeita e aceita essa limitação porque mesmo que eu o tenha deixado, ele não me deixou, não é?

    Especulo para meu próprio prazer que é apenas pose ele me tratar muito bem. Quando meu prazer é estar com ele, porém, logo minha fé nesse deus volta e tudo que sei desaparece novamente. Talvez eu só me mantenha são nos momentos de delírio porque a verdade de que ele nunca será feliz morrerá comigo, nem ele precisa saber disso.

    Este sou eu são. Este sou eu fora de uma crise. Este sou eu cuspindo na cara de Alberto num dia normal de aula quando ele tenta me cumprimentar com um abraço na frente de todos. Este sou eu no dia seguinte de ter humilhantemente derramado lágrimas no pescoço desse garoto, e de ter deixado a marca das minhas unhas na superfície daquela mão bem hidratada com creme de pitanga, de ter esfregado meu nariz naquela camiseta cheirosa e morna, de ter estado em paz e por sentir-me único para ele enquanto sentia o amor emanar daquele peito ronronante. Este sou eu, dono de mim mesmo, sentindo-me muito independente e confiante em meu conhecimento e sanidade mental de hoje. Por que eu guardo um preciso segredo que nenhum outro idiota nesta sala possui, uma propina em atenção que recebo quando estamos sozinhos para me manter calado em relação a verdade suprema que envolve todas as amizades de Alberto.

    — Pss, Ad. Ei, ei, Ad, olhe para cá. — Teve barulhos de alguém sem muita paciência se revolvendo na cadeira onde estava sentado, três classes atrás de mim e uma para a direita. — Ad!

    Hoje eu estava fiel à minha política de ignorar. Tão fiel que em pouco tempo teria que começar a pagar o dízimo para ela. Já disse que não me arrisco ficar perto demais de Al em público, nunca sei se estou agindo naturalmente ou não. E se parecer que estou feliz demais ao lado desse homem sem nem um mísero pelo na cara?

    — Ad, ei, Adrian, olha para cá! Aqui, eu, eu aqui! — Não. A aula parecia muito mais interessante.

    Remexi entre meus materiais, um bolo de papéis sujos, riscados e amassados misturados junto com lápis de três centímetros e canetas quebradas, tudo jogado dentro de um estojo velho com meu nome riscado com canetinha em grandes letras de forma, e achei um estilete cuja lâmina estava caindo da proteção de plástico. Qualquer um que me conhecesse apenas há três anos atrás poderia imaginar que eu estava prestes a deixar minha carta de despedida para o mundo antes de enterrar o metal frio e pontiagudo nos meus branquelos pulsos. Mas hoje não. Hoje tomo sol e meus pulsos tem cor de um brasileiro estereotipado bem-nutrido. Até porque, como já disse antes, só não deixo esse mundo por orgulho, mas nada me impede de brincar com a criatividade e a imaginação.

    Peguei dois tocos de lápis gastos e risquei com o estilete na madeira seguindo uma ordem: 17:30, lá, fazendo menção ao banco meio remoto de uma praça com parquinho infantil perto da escola. Pedi para a menina de rabo de cavalo cheio de fios soltos atrás de mim passar esses lápis coloridos, nada suspeitos de portarem uma mensagem de tão deprimentemente sujos que estavam. Quem não entenderia um bilhete sem nem mesmo olhar seu conteúdo? Materiais escolares que normalmente se troca e empresta com colegas são bem mais seguros.

    Al recebeu a mensagem em suas mãos, olhou para mim, para os lápis, para mim e sorrindo se pôs a revirar a madeira velha em busca de minhas palavras. Alinhou as duas partes do convite na palma de sua mão depois de ter achado as ranhuras malfeitas e leu com visível cuidado, movendo os lábios ridiculamente. Se fosse para os outros verem, meu querido Alberto, não acha que eu teria escrito na lousa ao invés de malditos lápis? Mas a frase travou no limite de meu cérebro enquanto suspirava o ar do arrependimento de ter feito aquilo. Às vezes não chego apenas a achar, mas ter mais certeza que Al se faz de idiota retardado do que garanto minha existência quando penso em, por exemplo, pudim de leite. Nosso amor ocorre melhor quando sou eu a criança da relação, porque não importa o quanto eu critique, ainda há uma dose maior do que eu gostaria de sentimentos entre nós.

    Em resposta, Al rabiscou em uma borracha tijolão de duas cores e a pôs em um voo curto e baixo até minhas costas. Juntei, fechando o látex fervido e condensado em minhas mãos, quase com medo de olhar a resposta. Meu lindo amigo aguardava minha reação com olhos maliciosos e queixo apoiado nas costas das mãos, sobre a mesa.  

    “Antes”. Fiquei sinceramente meio irritado com uma resposta dessas. Quem não ficaria? Faço de tudo para alinhar, com muita dificuldade, minha vida social, escolar e familiar com Al, como um grande homem de negócios, e Alberto parece ignorar isso nos momentos mais complicados para mim. Final de tarde, o dia todo nessa escola, prometi cuidar da Nanda para meus pais, um monte de trabalho de aula atrasado que procrastinei e precisava terminar... Não estava para as gracinhas dele.

    “Não”. Breve e muito autoexplicativo. Mandei a borracha de volta, agora com os dois lados riscados, ele recebeu e ficou olhando a borracha com uma cara estranha de sobrancelhas frisadas que só consigo encontrar em Al, o lábio inferior preso entre os caninos, esfregando a mão na lateral do pescoço como se tivesse com torcicolo. Deu-me uma outra olhadela indignada e mexeu a boca num pedido mudo para mim pelo menos esperá-lo no fim da aula. Assenti de mau gosto.

    O último período escorreu lentamente pelos meus olhos e tudo que consegui ouvir eram ruídos dos pés de Alberto batendo ritmicamente na lateral da classe, cada batida parecendo contar os segundos para o fim daquela tortura. Quando fomos dispensados joguei meu bem conservado estojo e os cadernos militantes das trincheiras russas na Primeira Guerra Mundial dentro do saco de mochileiro que arrasto diariamente por aí e fui saindo em direção à porta na frente de todos. Meus passos não eram rápidos, os outros que cismam em demorar mais que o normal para ficarem tricotando com os vizinhos de classe em vez de seguirem suas miseráveis vidas e irem para casa.

    Estava cruzando pela frente da sala, logo atrás do professor que entendia meus sentimentos de liberdade, mochila pendendo de um ombro, mãos nos bolos das calças de corte reto, olhando Al jogar suas trouxas nas costas, rápido, muito rápido para me alcançar com seu olhar de recriminação por eu não estar esperando como um bom amigo.

    Vamos, Al, eu não sou um bom amigo. Não sei de onde tirou essa ideia, de um desenho da Disney talvez, parece provável. Talvez esse mesmo desenho tenha te ensinado a caridade, perseverança, humildade, bondade e todos esses valores puritanos que fazem de você nunca largar ou se cansar de mim. Nunca olhar feio para mim. Nunca retribuir meu tratamento. Obrigado Walt.

    Mas fui calado, literalmente, antes de qualquer oportunidade de comentar a respeito disso. Al sempre fora estranho, em muitos e deturpados sentidos, mas naquele dia eu sentia que havia muito mais coisas erradas do que o normal. O meu normal. Nosso normal. O normal para nossa relação doentiamente não natural. Desde que o vi aquela manhã, soube que precisava evitá-lo o máximo que podia, e não apenas pela minha política de proteção à minha integridade moral (também conhecida como “o dia seguinte à minha crise”), havia algo mais que meu muito tempo de observação paranoica estava me avisando para ter cuidado. Infelizmente, só consegui confirmar meio tarde demais que aquele era o último momento para mim estar de frescura perto dele e isso alertou meus mirabolantes miolos para uma possível situação que eu ainda não programara e esquematizara, não tinha catalogada nem sob controle.

    Al estava tão... desafiante, sim, meio valentão como um galante corcel resfolegante num vasto campo verde, mesmo que faltasse muita massa muscular naqueles quartos traseiros para ser agradável de montar. Senti-me violentado por aquela atitude, parecia que minha confiança havia sido prensada contra armários de escolas americanas e sacudida até dar o dinheiro do almoço para aquele cara. Um Al rebelde. Não sabia ainda que tipo de sensação isso causava em minha pessoa. Rebelde. Repeti a palavra algumas vezes mentalmente até ele me alcançar na porta para ver como soava e comecei a ficar animado para cobrir o pouco de preocupação com a súbita e desconhecida mudança de humor de meu querido amigo.

    E se ele finalmente tivesse se irritado comigo? E se eu tivesse passado dos limites no dia anterior, colocado pressão e peso demais em suas costas? Talvez ele tivesse feito suas contas mentais e calculado que não valia mais a pena me sustentar, continuar vivendo em com minha chantagem, talvez aquele fosse o dia em que ele fosse finalmente, e pela primeira vez desde que o conheço, ser rude comigo. Quem sabe ele cortasse por inteiro nossa relação! Tinha consciência que deveria começar a ficar assustado e amedrontado, mas minha animação só crescia, ao passo que ele, ao meu lado, continuava anormalmente calado, me olhando quase sem piscar.

    Ah, e se todos vissem Al, o Grande Alberto, meu, seu, nosso, nosso querido Alberto perdendo o ritmo de Madre Tereza, acabando sem paciência com um dos muitos que ele acolheu e ensinou a ser civilizado, que hipocrisia! Talvez aquela fosse a tão aguardada chance de rolar aquele ditador escada abaixo, aquela que ele nos escravizara para subir tão arduamente apenas para mendigar sua presença. Ah, talvez eu até deixasse ele me socar, dar-me uma surra tão grande com aqueles braços ridiculamente sem definição beirando pernas de galinha alimentada com transgênicos.

    Sim! Era isso que eu faria. Apanharia como um bom garoto e a culpa seria dele, não deixaria que Al ficasse com as recompensas se caso fosse acabar de me aturar de vez; não, se era para ser o final de tudo, teria que ser o mais épico de todos os tempos, teria que fazer jus à grandeza que admito que meu oponente tem, teria que honrar toda a preparação que ele estava fazendo naquele momento, ao meu lado, me olhando ansioso, assim como ele teria que respeitar meu rápido aprendizado com ninguém menos do que ele próprio. Assista sua própria criação, meu querido.

    Se fosse para nunca mais poder me apoiar em Alberto, se fosse para nunca mais ganhar seu carinho... Então que pelo menos eu pagasse todo o mal que já fizera àquela pobre e infeliz criatura com não apenas uma dor interna. Talvez eu quisesse mesmo arrebentar o nariz para apenas me sentir melhor por todo o estrego que já havia causado, levar minha primeira briga a fundo, deixar marcas as quais sempre que olhasse lembrasse de meu querido Al. Meu precioso Al que agora se rebelava contra mim, mais que com razão. Uma vingança.

    Estava animado, uma animação superficial, uma animação nervosa, acabaria tudo, era a hora, aquela hora que, no fundo, sabia que aconteceria, mas nunca admitia porque sabia que sairia de meu controle. Mas no momento eu tinha tudo sub controle. Já sabia o que fazer, acabara de me convencer disso, já sabia o que Alberto faria, já calculara tudo. Não é só você que entende de cálculos psicológicos, ah, não.

    Estávamos ainda lado a lado, mais próximo do que eu permitiria num “dia seguinte”, atrasando os passos, sentindo os pensamentos um do outro tencionando nossos movimentos, os estudantes começando a nos ultrapassar e no meio daquela multidão era o local perfeito, nós dois entendíamos isso. Muitos vieram se despedir de Al, alguns poucos menos de mim, mas nossa concentração estava focada apenas em nossa despedida e em nada mais, cada um apostando na própria capacidade social de se virar no ato.

    E lá vinha. Senti meu pulso sendo agarrado, as mãos suadas e indelicadas escorregando contra minha pele, mas com força suficiente para me fazer girar no lugar e parado o encarar de frente. Parecíamos pedras impedindo o fluxo de um rio poluído que esbarrava em nossas costas, parando lentamente e desinteressadamente para ver o que fazíamos pregados ao chão.

    Percebi bem logo que aquela era sua primeira briga também, ele não tinha a posição que se espera de alguém que vai lutar. Seus olhos, brilhantes, isso nunca mudaria, eu sentiria falta, sentiria. Seu maxilar firme, os dentes trincados, garganta presa, era um novato, sua beleza social que abdicava hoje sempre o poupara dessa experiência... Ergueu sua outra mão em minha direção e apertei meus olhos a espera da dor lasciva que deixaria minha expressão odiável do avesso. Não, não poderia esperar isso de alguém tão inexperiente. A posição de seus membros, notei entre espiadelas, a proximidade que o impedia de pegar velocidade para um golpe forte, seu peito que encontrava o meu, sua mão que subia deslizando pelo meu braço desproporcional até meu pescoço a encontrar com aquela outra, me segurando mais próximo, seus lábios sobre os meus.

    E todos prenderam sonoramente a desnecessária respiração que fazem para sobreviver junto comigo quando se deram conta do que estava acontecendo. Seus malditos lábios prendendo os meus como doces garotinhas ruivas e hidratadas com manteiga de cacau humilhando as maltrapilhas bolsistas que com certeza reprovariam de ano por ter pegado a matéria pela metade. Era como me sentia, como se tivesse pego um assunto no fim, meio muito perdido no centro de uma cidade desconhecida, criticando um filme por não ter assistido seu começo.

    Uma atmosfera ilusória e instável de sonho engoliu tudo como fazia Alberto ao me encostar contra a parede, espalhando estudantes como um cardume assustado. Meus músculos tão rígidos que tinha medo que quebrassem caso tentasse fazer movimentos bruscos, os membros tão paralisados, mas que não podiam sentir menos do que antes, ao contrário, cada toque era percebido com cada detalhe e recebido com tanto pânico por meu cérebro que trabalhava para entender como e porque, onde foi que havia errado, que vírgula ou expoente colocara de fora da conta... Era tudo tão fantástico que poderia não ser real. Um sonho. Um daqueles em que eu esquecera de vestir-me e todos falavam da cor de minha cueca, um cheio de vozes perseguidoras de fundo, de gritos e gritinhos, tudo disforme, um pesadelo onde o suave toque dos dedos adolescentes de Al entre meus cabelos machucava, onde todos seus movimentos eram errados, onde eu era errado. E eu odeio estar errado.

    Não havia motivo. Não havia razão. Não havia explicação plausível para mim estar me engasgando com uma saliva que pela primeira vez estava duvidando ser minha, para mim estar recebendo um ar usado por outra narina, por outro pulmão, estar aspirando o gás carbônico que as células de sabe-se lá de que parte do corpo dele descartaram. Não havia motivo para ele ter se rebaixado tanto assim. Não podia ser verdade, de maneira alguma.

    Não sou uma pessoa criativa, longe disso, sou apenas um garoto comum com um pensamento e sonhos iguais ao de tantos outros. Mas sou imaginativo com uma mente curiosa dada a explorar partes desnecessárias dos meus desejos, descobri isso a pouco tempo. Descobri também que o maior defeito de uma mente ampla (não de conhecimento) assim é a exposição radioativa a situações absurdas, inimagináveis, que explodiria como um balão de aniversário as mentes comuns, mas que na minha nem mais cócegas fazem de tão habituada a idiotices e loucuras de pensamento que está. Talvez o maior defeito de meu cérebro seja aceitar e banalizar esses desejos inoportunos, seja acolher a todos essas pobres e necessitadas ideias tratando-as de igual para igual, sendo que se elas se concretizassem, eu morreria. Morto por ideia absurda materializada. Assassinado por um elefante rosa em minha sala, pelo choque de não saber lidar com a situação. Enfartado de preocupação por ter criado asas de demônio em minhas costas por não saber como escondê-las. Sufocado por Alberto por não saber como explicar às outras pessoas o que está acontecendo. Longe de minha mente, não sou ninguém perto da realidade.

    Mas a realidade estava ali. Os olhos de Al estavam fechados como se não quisessem me ver, os meus arregalados, encarando aquela pele lisa, perfeita. Aquele momento que parecia não acabar nunca mais, parecia infinito. Havia uma parcela adorável nisso, uma conquista interior de talvez ter o momento único de atenção do meu melhor amigo, do meu mais que melhor amigo, um peso que me aliviou em finalmente não precisar mais esconder minha necessidade afetiva da sociedade, de me livrar finalmente de toda a burocracia social que se tem que passar ao admitir que ama alguém, um certo ar de leoa de quadril largo gabando-se para as outras fêmeas que conseguiu ser a principal do chefe do bando. Mas isso era pressionado para um cantinho minúsculo do dedão da mão esquerda que era o único que pervertidamente continuava a empurrar Alberto contra mim.

    Só faltava o motivo. Isso me frustrava, isso me frustra até agora. Ele não seria idiota suficiente para se apunhalar junto comigo sendo que podia apenas me chutar com suas galochas coloridas. Talvez ele soubesse que isso iria doer mais, talvez ele soubesse que esse era seu único plano maquiavélico que eu ainda não havia cogitado. Ah, como ele era inteligente! Mais do que eu podia esperar, uma vingança bem elaborada, quem sabe, uma humilhação pública que levaria tudo que eu tinha, tudo que ele me dera, tudo que me ensinara a conquistar, tiraria de mim meu Al, exatamente, rapidamente e sem barreiras como ele fez com a bala que estava na minha boca momentos antes. 

    Com toda certeza subestimei o tamanho do ódio de Alberto por mim. E ainda que existisse uma excitação enorme em saber que pelo menos esse posto eu ocupava unicamente o primeiro lugar, também era um pouco deprimente. O que eu fizera? Como as coisas haviam chegado tão longe? Derrubar socialmente Alberto não parece tão divertido agora. Mas eu consegui e não posso mais me arrepender.

    Ele se afastou lentamente de mim, abrindo os olhos apenas quando pode garantir que conseguiria me olhar sem parecer um ciclope. Eu tremia e estava prestes a chorar, mas ele apenas sorriu e foi-se separando de mim aos poucos, ameaçando chegar para perto novamente se eu representasse perigo em alguma maneira. Desceu as unhas bem aparadas pela superfície frontal da minha camiseta até ela acabar numa barra feita à mão.

    — Não era isso que você queria? — Maior e de muito mais efeito que qualquer surto psicótico que poderia ter.

    Nisso, virou a cabeça como que envergonhado e foi embora ignorando todos que tentavam pará-lo para fazer perguntas, mas não, isso era o prêmio bônus que ele deixaria para mim. Ah, se eu soubesse o que tive que encarar logo depois sua partida, sua fuga, nunca teria desejado que ele saísse da minha frente. Se eu soubesse que aquele cretino tinha deixado um chiclete sem gosto no canto interno da minha bochecha, eu talvez teria criado um pouco mais de coragem para ir atrás dele tirar satisfação. Mas não, eu, como guerreiro vencido, deveria aceitar minha humilhante derrota, aceitar e reconhecer o seu esforço, respeitar todas as feridas e cicatrizes que ele adquiriu para acabar comigo e por isso enfrentar de cabeça erguida toda aquela multidão de adolescentes que acabavam de ganhar o assunto do mês, que já pegavam seus celulares para espalhar a desgraça, que já começavam a avançar para cima de mim. Infelizmente, eu nunca cheguei a respeitar Alberto, caso contrário isso não teria acontecido.

    Uma garota, muitíssima apegada a Al, chegou em mim para dizer:

    — Eu super apoio vocês, está bem? — ela enganchou seu braço no meu, fazendo-se de simpática, me levando para longe das outras garotas que também tentavam falar comigo — Vocês podem ficar juntos, eu vou ajudar vocês a superarem os outros, está bem? Eu entendo perfeitamente vocês, sei a dificuldade que estão passando, precisam ser fortes, está bem?

    Ah, sim.

    Somos muito fortes.

    Acabamos de sair de uma luta, não está vendo? Não está vendo minhas lágrimas héteras?

    Uma pequena confusão no início. Uma ignorância sem tato na lida conosco, uma burrice cega perto de nós, como se dormissem durante uma explicação de matéria de prova e agora, na hora da avaliação viessem pedir a nós a resposta por meio de perguntas desesperadas e objetivas.

    Mas assim como dois e dois são quatro não resolvem nossos problemas, posso dizer que sua razão não tem lugar em nossa consideração.

    E mais. Buscam respostas, mas sequer sabem a questão. A única que não me permite viver — ou deixar de — por me atormentar, por ser tão tentadora que nenhuma especulação minha foi digna de ser considerada: por que, Alberto? Por que se vingou de mim, de você, de nós tão brutalmente, meu querido?

    Terça à tarde
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    É Terça à tarde. Meu Deus, já é Terça à tarde. Se eu resmungar por uma terceira noite seguida à minha mãe que estou doente demais, febril, que juro que se tivesse um termômetro em casa ela veria como estava com pelo menos trinta e oito graus e meio, como estava fraco, com dor de cabeça e olhos pesados, ela não vai acreditar. Na primeira noite, ela nem entrou em meu quarto, me deu boa noite da porta e ofereceu um chá, dizendo que era melhor eu faltar aula no dia seguinte. Eu faltei. Passei a Segunda como tinha passado o resto de Sexta, Sábado e Domingo, deitado na cama com o olhar vago, sentado à escrivaninha com os pensamentos perdidos, jantando com a cara voltada para o prato e alheio ao que estava acontecendo ao meu redor. A cena se repetia e se repetia, de novo e de novo, sugava minha concentração como um acrobata nu no meio de um movimento particularmente difícil diante de uma plateia delirante, e esse era eu, eu estava delirando.

    Segunda à noite minha mãe veio sentar ao meu lado para pedir se estava tudo bem. Obviamente ela notou que havia algo de errado em eu passar três dias sem brigar com Nanda, sem discutir com o pai, muito menos sem questionar nada. Talvez ela tenha notado o pedaço de mim que foi arrancado da realidade e designado especialmente para reviver constantemente o que havia acontecido no fim da aula Sexta-feira, para manter Alberto em minha mente. Respondi que apenas estava indisposto, um resfriado, quem sabe, que tinha muita dor de cabeça, uma fraqueza de corpo terrível. Ela fez um olhar de reprovação e me deixou faltar aula novamente. Agora já é Terça à tarde e se eu ainda estiver de frescura ela me levará ao médico e ele fará perguntas, e de perguntas para responder eu não preciso de mais nenhuma além da que está me jogando na cama com o peso do mundo contra meu peito: por quê?

    Eu ainda não acredito. Não quero acreditar e é por isso que não fui à escola todos esses dias, porque tenho medo de passar a crer depois de ver Alberto na minha frente depois do... do seja lá o que ele fez comigo. Pegar no sono tem sido difícil, desacelerar meu coração, conseguir relaxar meus músculos para fechar os olhos, é tão difícil que tenho medo de tentar. Esse é mais um dos porquês vindo do porquê maior e mais avassalador, o porquê de toda vez que apoio a cabeça no travesseiro, tiro lentamente a tensão dos músculos e respiro fundo deitando as pálpebras, uma dor venenosa e aguda toma conta do meu peito, me trazendo todo o pânico que eu deveria ter sentido naquele momento... E mesmo quando, depois de muito me revirar na cama entre sucessivas injeções de angústia lasciva, consigo pegar no sono, Aberto me persegue.

    De olheiras feitas e cansaço para dois dias, faço bem meu papel de doente. Infelizmente descobri que passar dias vegetando não me levaria a conclusão alguma sobre o motivo que levou Alberto se destruir socialmente, na frente tanta gente que garanto que nunca mais olhará em sua cara por isso, apenas para me dar um tapa tão bem dado. Lógico, é tão encantadoramente inteligente que sabia que me dar um tapa de verdade não seria tão eficiente quanto... quanto... eu ainda não acredito. Alberto me beijou.

    Não acredito que ele me odeie tanto assim. Tenho vontade de jogar pela janela tudo que aparece pela minha frente, inclusive eu mesmo, só de pensar que o rancor que ele sentia por eu ter que ficar impondo regras tolas ao nosso relacionamento, por se arrepender de me mimar tanto, tudo de ruim que eu trouxe a sua vida embolado cuidadosamente para ser pago de uma maneira tão violenta e bem planejada.

    E apesar de estar muito provavelmente sozinho e incompreendido alheiamente, com um arrependimento maior que Alberto está sentindo agora, se é que está, e uma tristeza infinita por finalmente ter sido largado, eu me sinto bastante orgulhoso dele. Ele atuou muito bem. Uma forma descomunal de convencer a todos a seu redor, menos a mim, claro, pois ele precisava me fazer sentir mal. Estou orgulhoso do empenho dele, estou orgulhoso de mim por ter conseguido fazer ele se empenhar tanto em uma única pessoa, por ter pelo menos feito ele dar uma parte verdadeiramente única dele apenas para mim. Mesmo que para isso eu tenha aberto mão do pouco, mas frequente Al que tinha até então.

    Mesmo com todas essas considerações e conclusões, permanece: por que ele se rebaixou junto comigo? Se fechar os olhos e tocar a ponta dos dedos em meus lábios, consigo sentir a boca macia de Alberto ainda na minha, como se ainda estivesse aí para me dar um calafrio pela espinha e arrepiar os pelos do meu braço. Fiz questão de manter bem viva essa sensação como forma de não esquecer o sacrifício dele.

    Estou sozinho agora. Matei o único que me entendia.

    Matei em mim, claro, pois o real deve estar agora em sua casa, mais que satisfeito por ter me feito ficar e depressão por sua causa, por ter me rebaixado a nada novamente. Acho até que pode ter feito as coisas exatamente desse jeito para me deixar afogado nessas incertezas da causa que o moveu a fazer coisas dessa maneira, ele é mais manipulador que eu sequer posso imaginar.

    Nanda sai pela porta de frente e saltita até mim na sarjeta na frente de casa.

    — Que te aconteceu?

    Nanda tem oito anos e uma compreensão de mim que se limita às coisas que ela rouba do meu quarto. Às vezes tenho vontade de sufocá-la a noite para que ela não precise crescer nem sofrer com as amarguras que a vida vai aos poucos largando para cima de nós. Ela senta ao meu lado, bem viva.

    — Nem vem com essa história de que está doente, só a mãe que cai nessas. — Oito anos de pura inteligência, que orgulho.

    Paro para pensar um pouco no que responder. Não é uma questão de confiar ou não em Fernanda, é que ela não compreende o fato, não conhece a história toda. Mas sendo apenas uma criança, não se interessa sobre a história dramática do seu irmão adolescente, não me questiona sobre algo desinteressante. E é isso que eu preciso, diminuir as perguntas que até hoje só foderam com minha vida.

    — Briguei com um amigo. — Afasto os cabelos que me caíam sobre o rosto. Estou sentado no meio-fio, queixo apoiado nos joelhos unidos ao peito. Mato formigas que passam com um graveto.

    — Alberto? Brigou com Alberto, sério?

    Olho com o canto dos olhos para ela. Ela me encara incrédula.

    — Adrian, você é muito bobo, viu? — Ela agita uma mão me repreendendo infantilmente. — Ele é seu melhor amigo, não pode deixar que uma briguinha estrague a amizade de vocês.

    Solto um riso seco, olhando para o céu, desta vez. Viu? Para início de conversa, nunca tivemos uma amizade, depois, não foi apenas uma briguinha. Foi uma batalha final que eu induzi e perdi de modo humilhante.

    — Eu sei que você gosta muito dele. Ele gosta um monte de você também, eu sei disso, sabia?

    — Nanda, eu não.... Olha, eu e Alberto.... Não.... —Não há como explicar isso para uma terceira pessoa.

    — Você acha que só porque eu tenho oito anos você entende mais das coisas do que eu, né? — Ela se encosta em mim, passando a me abraçar. — Mas eu te vejo melhor que você.

    Isso, por algum motivo, crava mais fundo a agulha que estava presa às minhas costelas esses últimos dias. Puxo ela contra mim notando como estou confuso e andando sobre afirmações sem bases. Um toque de desespero motivador começa a agitar meu sangue.

    — Minha professora disse que quando temos problemas temos que compartilhar porque é por isso que vivemos com a família e vamos à escola com um monte de amigos. Quando temos dúvidas temos que perguntar para quem sabe e quando ninguém sabe a gente mesmo imagina a resposta. Mas nem sempre uma resposta inventada é certa, sabia?

    Ouço meu coração martelando em minha cabeça. Eu nunca deixarei a sensação quente e aconchegante do abraço de Al para trás, nunca conseguirei esquecer como ele me olhava de modo carinhoso, como colocava meus cabelos para trás quando caíam sobre minha face. Nunca tirarei isso de minha mente e carne se ainda tiver motivos para lembrar de tudo. E enquanto eu mantiver essa dúvida cruel, esse porquê, nunca afastarei Al de mim. Não posso desfazer o ato que o levou a acabar com tudo, nem me arrependo de reivindicar exclusividade, mas posso pelo menos tirar o gostinho doce do espírito daquele porco arrancando dele os motivos. Ainda não perdi a luta por completo, não vou deixar que ele continue me manipulando mesmo depois do fim do nosso relacionamento. Acabará não só para ele; vou tirar o resto de mim também.

    — Entende? É por isso que eu zerei minha última avaliação de matemática. Eu inventei as respostas e não estava certo. Aí a Gabriela brigou comigo porque ela não queria amiga burra, mas então a gente fez as pazes porque a professora mandou.

    Sinto uma brisa morna passando entre nós e entendo que mesmo que eu e Nanda não estamos falando da mesma coisa, ela ainda sabe mais do que eu sobre mim mesmo.

    — Tem razão, mana. Vou falar com ele. Agora mesmo.

    Mando ela entrar para casa e avisar nossa mãe caso ela chegar em casa antes de mim que estou na casa de Alberto. Corro mesmo me sentindo fraco e assustado, um covarde completo, e sinto também uma animação crescer dentro de mim. Afasto a euforia que seria encontrar Al, tento lembrar a mim mesmo que não vou lá para nada mais que fazer uma pergunta. Deus, como meu coração fica pesado a cada passo que dou, como é difícil convencer a mim mesmo que Alberto me odeia e que eu devo odiá-lo também para não sentir-me uma barata.

    A casa grande, de cerca cinza, lá está ela. Penso em tocar o interfone, mas nas Terças-feiras sua mãe tem folga e não quero que ela ouça nossa conversa. Pego meu celular e com dedos trêmulos digito seu número, eu o excluí, mas nada adianta quando se sabe os dígitos de cor. Penso em chamá-lo para fora e então conversarmos aqui mesmo na rua, terreno neutro. Sinto que não conseguiria me manter firme num ambiente perfumado com o cheiro hipnotizante de Alberto. Ponho o celular contra a orelha, ansioso, não sei por que, mas ansioso demais. O medo toma conta das minhas pernas.

    Ouço o toque dele da janela do segundo andar, onde é o seu quarto. Logo para e a ligação é encerrada.  Afasto o celular do rosto e como nada acontece, ligo novamente, o medo subindo para meu tronco. O toque vem novamente daquela janela, dura dessa vez um pouco mais, aquela música modinha que só Alberto mesmo para pôr de toque do celular, mas logo cessa e mais uma vez a chamada é finalizada.

    Engulo a saliva de maneira arranhada, talvez meu resfriado não seja de todo mentira, e ajeito meus cabelos para trás com as mãos começando a suar. Decido então tocar o interfone. Ele tinha que me ouvir, não podia ser tão cruel a ponto de me ignorar por completo.... Não ainda.

    A mãe dele abre a porta da sala e colocando a mão sobre a testa vem até mim. Desenchaveia a porta, tem rugas em sua testa e ela parece preocupada, o que me deixa preocupado, mais ainda, o medo sobe sobre meu estômago e sinto um enjoo que me faz engolir a saliva que não tenho.

    — Meu Deus, Adrian, que bom que veio. Ele ligou para você?

    Faço que não com a cabeça, não entendo o que essa senhora quer dizer.

    — Passou a tarde de ontem e hoje todinha trancado no quarto, não sei o que fazer com aquele menino, está me assustando tanto! Nunca ficou assim antes.

    Ela me puxa pelo braço para dentro me guiando pela sala, corredor e escadas, parando lá em cima. Eu sei o resto do caminho.

    — Ele não quer me contar o que ouve, mas você deve saber. — Um gelo percorre meu corpo, ele está subindo, o medo, está começando a me machucar. — Mas não me interessa se ele não quer me contar. A sua companhia deve melhorar o ânimo dele, vá lá. — Ela dá meia volta torcendo as mãos na blusa fina, soltando o ar preocupadamente. Desce as escadas e eu fico sozinho encarando a porta do quarto dele no fim do corredor.

    Vou até lá, estou decidido. Paro em frente ao cômodo, sinto-me desconfortável, há algo de errado nisso tudo. Retomo a mim mesmo o motivo de estar ali para afastar mais dúvidas além das que eu trouxe e endurecendo a postura bato na porta. Um “entra, mãe” veio de lá de dentro e eu abri a porta depois de um momento de hesitação.

    Al está encolhido em sua cama, com as cortinas fechadas, o lugar está escuro. Tem metade dos livros de sua estante jogados pelo chão e suas cobertas estão emboladas em um canto do quarto. Ele está de costas para mim e quando me aproximo vejo que seu peito sobre e desce de maneira irregular. Alberto está chorando.

    O medo chegou até meu peito e por alguns momentos de horror esqueço de como respirar. Estou em desordem, já estava, agora é um pandemônio interno que me estapeia com a ideia de Al chorando, me estrangulando então por vê-lo frágil daquele jeito.

    — Alberto... — sussurro indo em sua direção com passos vacilantes. Doía andar até ele.

    Ele se vira para mim, assustado com minha presença e se encolhe contra a parede desta vez. Segura suas pernas esguias entre os braços, mãos que rapidamente varrem os olhos e bochechas para limpar as lágrimas. Parece que se prepara para dizer algo, mas nada sai de sua boca, de seus lábios, foco neles e Sexta-feira volta, estou diante de Alberto, Senhor, como posso tentar retribuir o ódio de uma criatura dessas?

    Respiro fundo, paro diante da cama dele. Não posso me deixar levar. Não consigo encará-lo também, então foco nos desenhos do Mickey Mouse que saltitam por seu lençol.

    — Alberto, por que você....

    — Me desculpe. — Ele interrompe. Sua voz está falha e se vê claramente que luta para não cair no choro soluçante novamente. — Eu não devia ter feito aquilo. Fui longe demais.

    Isso me confunde e embaralha as palavras do discurso já pronto que tinha em minha mente, me fazendo ficar com os lábios entreabertos por alguns segundos, sem sair som algum, esperando ele continuar, esperando que algo lógico venha à minha cabeça para dizer. Aspiro o ar do ambiente fechado pensando em oxigenar o cérebro num grande suspiro, mas inalo junto o cheiro tão agradável de Al que está presente por todas suas coisas, por todo seu quarto e isso não me ajuda a refletir. É único. Algo forte, de garoto e desodorante, mas também algo carinhoso e aconchegante. Tem aroma de árvores de folhas finas, de uma floresta de pinheiros ao sol, só que frio e misterioso. Talvez como abraço e outono ou um abraço no outono. Talvez tenha apenas o infinito contido em sua essência e eu esteja captando pequenas partes de um todo mais complexo.

    — É sério, eu... eu não sei o que pensei naquela hora. Foi além do meu controle, quando vi, fiz. — Esfrega a palma na face, terminando levando os dedos até os cabelos, enterrando eles no meio dessa cabeleira lisa e clara, espetada de tão desarrumada e despenteada. — Me desculpe.

    Balanço a cabeça sem entender. Ele não devia estar reagindo assim.

    — Não, Alberto. — Coço a nuca, respiro, sou invadido pela essência de Al, Al está em todo lugar. — Não se desculpe. Só me responda. — Olho em volta, capturo aqueles grandes olhos azuis claros e úmidos, ah, Deus, estão me encarando tão profundamente, com tanta expectativa, com tanta fervura, ele só pode querer me ver dessa maneira, pressionado, desconfortável, sem palavras. — Por que fez isso?

    Ele deixa cair o braço que antes apoiava sobre a cabeça, largando-o sobre o colo, flexionando os dedos. Parece treinar estrangular alguém. Fica uns instantes quieto, apenas me encarando fixamente, analisando cada milímetro de mim, físico e metafísico.

    — Como é que vou saber? — Diz por fim, irritado com minha pergunta talvez inconivente, desviando os olhos. Levanta da cama com dificuldade e eu tenho o impulso de ajudá-lo, parece que nem forças para se levantar sozinho tem. Começa a recolher os livros que estão jogados pelo carpete. — Como caralhos eu vou saber, Adrian?

    Suspira sonoramente, parecendo uma velha. Nunca me senti mais ignorante em toda minha vida. Um completo inútil, ainda por cima, nem consigo entender a pessoa que mais me importa. Para diminuir essa sensação começo a ajudar na coleta dos livros. Fico uns instantes em silêncio, mas minha vontade é tagarelar infinitamente sobre o motivo do porquê vim aqui e fazer isso ser entendido, coisa que... parece que não estou conseguindo muito. Talvez meu Al apenas esteja jogando comigo novamente. Meu não. Al não é mais meu. Nunca foi, na verdade.

    — Adrian — começa, mas logo para. Está hesitante, parece confuso, ainda meio irritado. Do jeito que franze as sobrancelhas, o conheço bem, parece mesmo irritado. Mas Al nunca fica irritado de verdade. Ou pelo menos nunca demonstra. — Olha só, não sei bem se entendi por que você está aqui.

    Prendo a respiração. Determinação, determinação.

    Ponho os livros empilhados na borda da prateleira onde ficam normalmente, eu sei, eu conheço a ordem por assunto que ele criou, sei listá-las na ordem em que ficam postas, livros da escola, livros de idiomas, livros de leitura obrigatória, livros da infância, livros de heróis, modinhas infanto-juvenis, depressivos, de autoajuda, crônicas, nonsense, sagas medievais gigantescas, clássicos pequenos e monstruosos e sua modesta coleção de mangás.

    — Ou talvez — continua, vendo que me entreti com os livros e deixei sua pergunta sem resposta. —, simplesmente tenha sido você que não entendeu alguma coisa aqui ainda.

    Rio. Me viro para ele, desta vez sim sabendo que tinha resposta. Oh, e como eu sabia.

    — Eu entendi bem o que aconteceu, bem até demais, Alberto. Entendi que você me salvou, lá naquele dia que nos conhecemos, na oitava série, na atividade de integração, eu me lembro. Entendi que nunca em toda minha vida encontraria uma pessoa como você, e entendi também que você sempre foi tão incrível que nunca ninguém encontraria alguém como você e por isso todos gostam de ti.

    — Do que você está falando, seu idiota? — Sua voz começa a ficar embaraçada novamente, seus olhos úmidos me afetam, mas não posso mais parar.

    — Então entendi que por você ser a pessoa mais bondosa e carinhosa de todas, nunca rejeitaria o afeto de ninguém que salvou também, nenhum dos seus amigos, ninguém mesmo. Entendi que queria cuidar de todos de uma vez só como fazia comigo. Entendi que não era o único que dependia de você. Não era o único que te queria, nem o único que você queria.

    — Você por algum acaso está me chamando de puta? ­— Sim, ele está começando a chorar de verdade, chorando e gritando, ele está mesmo zangado agora, pela primeira vez na vida, mas agora não consigo mais parar.

    — Entendi que sua crueldade era boa e sua bondade era cruel e que isso era viciante. Entendi que você ia atrás de mim para me fazer depender de você, então quando eu me voltava a ti, você me dava as costas apenas para me ver indo atrás. Entendi que tudo isso não passava de um joguinho para você. Um joguinho social.

    — Adrian, meu Deus, do que você está falando, pare com isso... — Seu choro me corta, ele me abre, o medo já passou, ou simplesmente tomou conta de todo meu ser a ponto de eu não mais discerni-lo do resto do meu corpo. E agora tudo que eu quero é responder minha pergunta e ir para casa chorar tanto e com tanta vontade como Al está fazendo por minha causa agora.

    — Entendi tudo isso de você e ainda sim continuei necessitando de ti, porque você se tornou tudo para mim. Mas também entendi que apenas sua atenção, a mesma que você dava para todo mundo não era suficiente para mim, e sei, eu realmente sei, como fui cruel contigo. Porque minha raiva de mim mesmo por te querer era do tamanho da repulsa que tive por ti. — Nesse momento, Al se apoia na parede, como se ouvir o próprio sistema sendo posto em palavras, desmascarado por seu principal alvo, fosse demais para suportar. — Entendi que isso talvez tenha ido longe demais, que eu tenha ultrapassado os limites da sua paciência infinita, talvez fosse isso mesmo que eu queria. E entendi, por último, que, depois de tanto tempo sofrendo pela minha rebeldia você quis me largar de vez, pois eu era uma ameaça a você. Mas fez isso de uma maneira que podia se vingar de mim também, para que saísse vitorioso no fim. — Al me encara com olhos arregalados e vermelhos, me acusando, chorando com a face desfigurada, que beirava ora o furioso, ora o confuso, ora o atônito. Eu? Não sinto mais nada, nem se vivo ou se já morri para ser a assombração que agora atormenta Al em seu quarto. Talvez seja por isso que me olha assim. — A única coisa que não entendi, meu querido Alberto, é o motivo de eu estar aqui. Porque eu preciso seguir em frente, por favor, apenas me dê esse favor, porque eu respeito demais a ti, eu me orgulho da sua inteligência para todas essas estratégias que você bola, para toda essa organização e manipulação. E eu que pensava que estava a par de todas as suas ideias! — Rio sem achar graça de verdade. — Só me diga por que para acabar comigo em frente a todo mundo você teve que se afundar junto comigo? Se rebaixar a tanto?

    Quando acabo de falar, fica um silêncio desconfortável. De fala, claro, porque meu coração martela em meus ouvidos e tento recuperar o fôlego (por falar tanto) da maneira menos ruidosa possível, sem muito sucesso. Além dos grunhidos secos de choro sendo reprimidos por Al, que está me olhando mais pendendo para o desorientado agora. Me encara demais, ele, e começo a me sentir meio idiota por ter feito todo esse discurso para talvez sair daqui sem uma resposta.

    Espero Al se acalmar na expectativa dessa resposta. Preciso da resposta. Ele respira fundo, engole o choro e, Deus, ele estende a mão para a Dona Ira, essa vagabunda, que está ao seu lado.

    — SEU. IDIOTA. — Ele pega o primeiro livro que consegue alcançar e atira em mim, era O Pequeno Príncipe. — Como é que pôde pensar numa coisa dessas? — Os Treze Porquês. — Você é louco? Você é retardado? Tem problemas? — Memórias do Subsolo. Engraçado que na versão da L&PM foi traduzido como Notas do Subsolo. — Dos grandes, né? ­— Quando roça a mão na Dança dos Dragões, ao lado da versão integral dos Irmãos Karamazóv de capa dura, sei que não vou desviar e vai doer, vai doer mais que perder meu Al, mas não mais que sair sem saber o que vim saber.

    Pulo meio abaixado para frente e agarro seu pulso antes que consiga atirar o monstro literário em mim. Al se debate como uma bonequinha de pano, enquanto grita para mim soltá-lo, mas aqueles pulsos branquelos são gravetinhos em minhas mãos, me sinto rude e agressivo, mas não diminuo a pressão. Estou tocando Al, meu Al, mas não importa agora, eu só quero que ele fale para mim ir embora para sempre de sua vida.

    Ele só para de me xingar quando a força que faço, sem perceber direito, em seu pulso se torna tamanha que precisa me dar um soco para se soltar. Ele também não mede forças, aquele grande filho da puta, minha cabeça voa para trás e bate na porta. Finalmente solto seu pulso, está vermelho e não consigo me importar. Só quero que me diga. Não me importo com essa dor lasciva que arrebenta meu crânio e fica se chocando contra meu cérebro, fazendo um grande milk-shake cor-de-rosa. Só preciso saber.

    — Escute aqui, Adrian, — Ele massageia o pulso, face corada pelo choro e raiva, me encara profundamente, os olhos cristalinos e ensolarados agora tempestuosos, apesar de limpos, sempre limpos. Meu Deus, o que estou fazendo. — Você quer tanto saber essa merda de pergunta, tudo bem, eu lhe respondo. — Dá uma grande puxada de ar, e solta. — Porque eu te amo, imbecil. Eu gosto de você, você sempre foi meu amigo mais especial, mas eu não te vejo só como amigo, está bem?

    Não, não faz sentido.

    — Mas... — Hesito, esse poderia ser mais um de seus truques. — Sexta-feira passada você fez aquilo porque queria me destruir, foi nossa batalha final...

    — Batalha final, garoto? Você está doido? — Joga as mãos para cima, pasmo comigo. Não entendo o que ele diz, começo a me sentir confuso, perdido, nada comparado a antes. Minhas certezas que tinha certeza que eram certas começam a oscilar e só quero saber minha resposta, a resposta final para tudo acabar, não gosto quando contrariam minha versão das coisas, minhas verdades são sempre verdadeiras. — Eu te beijei simplesmente porque eu queria, porque eu desejo você. As pessoas se beijam quando amam, sabia?

    Minha cabeça dói da pancada agora, ainda por cima, estou começando a sentir dor cada vez mais forte e não gosto disso, e nada, nadinha faz sentido. Começo também a me sentir idiota, o sangue sobe minha face e queima, sobe a culpa, sobe o medo, sobe o arrependimento e não sei o que fazer. Embasbacado paro olhando Al declarar-se para mim em nossa despedida final.

    — Mas contigo foi sempre assim, não é? — Ele passa a mão no rosto, esmagando o nariz, ainda está zangado, mas parece se conter. Lágrimas começam a descer novamente por sua face. — Sempre foi difícil. Você não parece aceitar as coisas como elas são, simples, práticas, sem explicações, você sempre tem que problematizar toda a sua vida, e, adivinha? Você me puxou junto para esse buraco negro que você criou.

    — Mas você....

    — Sim, Ad, sim — Al me corta. — Eu tenho amigos, eu trato eles bem porque sou uma pessoa normal tentando ser simpático. Mas você... Puts, eu me apaixonei por ti. E você parece uma criança fantasiando mil e uma estratégias para negar isso não importando o quando eu deixe claro para ti. — Põe as mãos nos meus ombros, ele está quente, quente como um dia de verão, com o aroma de outono, me sinto em março, mas estamos em outubro e isso não ajuda a organizar as coisas. — Eu sabia desde o início que talvez você não sentisse o mesmo por mim, mas você sempre me tratou tão... com tanta...  Eu não sei, Meu Deus, você me deixa confuso, ora me abraça e sinto que gosta de mim, ora vira as costas e me sinto um lixo.

    Ele faz uma pausa, analisando cada centímetro do meu ser. Era mentira. Al não sabe tudo sobre mim e eu não sei nada sobre ele. E ao que parece agora, também não sei nada sobre mim. Ou da realidade.

    — Sei que esse tipo de relacionamento não é fácil. Pensei que era por isso que não queria ficar comigo na frente dos outros. Mas poxa, Adrian, você sabia que eu era gay! E você não falava nada, não dizia nem sim, nem não, apenas ignorava completamente e isso me deixava louco.

    Oh, meu Deus, Alberto é gay. Eu não sabia disso, mas de um jeito sabendo, creio. Minha cabeça dói tanto e eu sou tão idiota.

    — Então, se quer que eu seja mais específico, depois de tanto esperar, e esperar e esperar por ti, apenas sendo ignorado, Sexta eu resolvi deixar o mais claro que achei que conseguiria. Na frente de todos porque se não você iria me ignorar do mesmo jeito!

    Cai em soluços, esforçando-se para falar. Ele está tão perto, tão frágil, tão outra pessoa do que me lembro. Sequer consigo me lembrar direito do que me lembro, dói tanto....

    — Não sei, Adrian, juro que não sei. Parece que você tem uma memória seletiva, deleta tudo que não presta para seu joguinho doentio de criar historinhas. Quando vi que você não veio para a aula Segunda pensei estava passando um tempinho para tentar se esquecer disso também. Sério. Eu te amo. Mas você é uma máquina de sofrimento alheio, meu Pai. Eu não posso continuar com isso. Não dá mais. Não tem como. Não tem como se vivemos em realidades, em universos tão diferentes apesar do mesmo mundo.

    Então... Nossa relação não era complicada? E.... eu sou especial para Al?

    Assinto lentamente, percebo que lágrimas estão escorregando por minhas bochechas, mas não entendo o motivo. Não, hoje não há comparações, elas me fugiram e eu também não entendo. Alberto tira suas mãos de meus ombros, há uma expressão de dor em seu rosto. Deve estar doendo para ele também. Al me parece uma pessoa tão comum agora, não entendo o que aconteceu.

    — Então... se você puder ir agora, por favor, seria bom. Me desculpe por tentar amar você, cara. Agora por favor, eu preciso chorar amargamente.

    Me inclino para frente, seguro seu queixo entre o polegar e o indicador e ponho meus lábios sobre os dele, Alberto nada faz para me impedir. Afasto meu rosto um pouco, o suficiente para conseguir vê-lo. Al está horrível, choroso, e eu estou confuso. E nem pude sentir sua saliva. Me aproximo e experimento seus lábios novamente, dessa vez entreabrindo-os, e não encontro nenhuma resistência. Ele não escovou os dentes esta tarde.

    — Eu não sei, Al. Eu só... não sei.

    — Eu sei. Por isso estamos aqui, Adrian. — Ele me afasta delicadamente, parecendo se dilacerar por isso. Al, no fim das contas, ainda continua muito gentil, mesmo depois de me atirar parte de sua pequena biblioteca. — Este é o grande problema.

    — Mas eu queria saber.

    — Você sabe. Demais e muito, mas aquilo que não é necessário saber. Você pensa demais. — Dá um beijo em minha bochecha e como isso seca minhas lágrimas não sei dizer. — Agora vá embora, e tente explicar para minha mãe no caminho o que foi essa gritaria aqui dentro que ela deve estar, além de preocupadíssima, arrancando os cabelos de curiosidade.

    Hesito. Minha pergunta já foi respondida. Prometi que depois disso iria para casa e então tudo teria acabado.

    — Você ainda é meu amigo, Al?

    Ele sacode a cabeça e se vira de costas, juntando novamente os livros voadores.

    — Vá para casa, Ad. Não me machuque mais.

    — Mas você me ama ainda?

    — Muito. Agora vá embora antes que eu faça Crime e Castigo entrar fisicamente em seu cérebro.

    Sorrio, e dando meia volta vou embora. Tinha razão. Esse foi o fim de tudo, tudo acabou, terminou. Nossa relação complicada acabou e tudo deve mudar agora.

    Sinto-me ansioso para ver o que começa de agora em diante. O tudo que acabou, mas tem que começar de novo, apesar de diferente. O tudo mudou porque eu mudei, instantaneamente, e noto isso agora. Ai, Alberto, depois de tudo que faço por ti você ainda tem coragem de reclamar? Tsc, vou viver para cair nesses seus joguinhos, seu manipulador. Mas esse, agora, eu não vou perder.

  • Engolida por uma Estrela

    Eu vou reconstruir minha morada natural
    A partir dos destroços do infortuno círculo
    De substâncias falsas que tenta me encadear.
    Eu vou fazer da mais nítida transparência
    Da alma concebida serena
    E acalmar as conturbadas águas
    Dos sete mares de minha mente,
    Para que a ânsia dos meus pensamentos
    Possa assim não ser mera loucura.
    Vou despertar os deuses para que possam
    Ordenar os elementos da nossa existência
    E transformar em ouro o nosso amanhã
    Fazer de minha idade um dia doce.
    Fazer do que parece comum e banal
    A extraordinária fantasia
    De chuva de luzes sublimes
    Se atirando sobre nossos sonhos,
    Cobrindo de um espetáculo possuidor
    Da mais maravilhosa excentricidade.
    Eu vou fazer os planetas se alinharem, um a um,
    Apenas para que a nossa visão
    Tenha o inconstante privilégio da absurda beleza
    Que nasce do infinito.
    Eu vou abrir os mais enferrujados portões
    Dos destinos mais inesperados
    Para que em nossos caminhos
    Sempre estejam as inquietas estrelas
    A nos iluminar diante da infindável
    Sustentação mais fina que se mostra aos nossos olhos.
    Eu vou fazer do desconhecido,
    Um símbolo de nossas vidas,
    A vida de nossos delírios.
    Eu vou plantar nos jardins escondidos
    De nossos espíritos
    A flor de mais pura paz e de mais vívidas cores,
    Que será a cura indiscutível de toda intimidação.
    Eu vou me dispersar na terra de valor único
    E espantar a multidão tediosa
    E não convidada para meu banquete.
    Celebrar as lágrimas que derramam o tempo
    Nos vales da solitude amena em meu espaço.
    Eu vou gritar e ouvir o som nostálgico da minha voz
    Se espalhando sem rumo definido
    Pelas ruas onde o vento rodeia.
    Eu vou encher do sorriso mais expressivo
    Da vitória mais dificilmente alcançada
    Os rostos daqueles por quem,
    De alguma forma, tenho amor.
    Salvar a infeliz pronúncia de ódio
    Cantar a música da imaginação
    Na união de súplicas pela alegria.
  • Entre Lobos (conto-romance) 3/9

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          Mary e Katherine vinham caminhando sobre a calçada quando viram, surpresas, seu primo alçando voo de dentro de um estabelecimento poucos metros a sua frente. O rapaz caiu completamente desengonçado e por esse motivo tiveram razões o suficiente para crer que ele não teria condições de erguer-se novamente, mas ainda mais incrédulas, viram ele, ainda meio zonzo, pôr-se em pé. Correram dar-lhe suporte.

    — Mark! – Mary assustada sem entender o que estava acontecendo. — Meu Deus! O que foi isso?! – o investigava de cima a baixo como se buscasse a certeza de que não lhe faltava qualquer pedaço.

    — Varsóvia! – o outro disse ofegante apoiando-se sobre os joelhos. — Maldito desgraçado! – soltou usando o restante do fôlego.

    — O que?! – no primeiro instante a única coisa que conseguiu pensar foi que se ele estivesse bêbado ou  provavelmente estava delirando por causa da queda.

    — Varsóvia foi rendida – continuou falando. — E aquele filho da mãe – mirou para dentro do bar. — Acha que está seguro. – sacudiu a cabeça negativamente. — Não hoje!

    — Mas do que você está falando?

    — Cuidado! – então advertiu afasto-as da entrada antes que fossem atropeladas pelos dois rapazes que agora saíam porta a fora socando-se.

    Sobre a calçada, depois de apartarem-se, Derek e o grandalhão passaram a se espreitar, um estudava o outro esperando o primeiro equívoco, um simples deslize para aquele embate chegar ao fim.

    — Nem sei bem ao certo o porquê de estarmos fazendo isso, cara! – Derek de punhos cerrados, fixo no oponente.

    — É um bom motivo pra você se arrepender de ter entrado nessa, então! – o outro respondeu.

    Então, todos ouviram a sirene soar e a viatura policial encostar rente a calçada.

    — Mas o que está havendo aqui? – o oficial falou sem deixar o veículo.

    Ambos se recompuseram, mas ainda se encarando.

    — Desculpa, chefe. – Mark adiantou-se. — Foi só um desentendimento entre... amigos. – buscou o semblante de Derek e o outro.

    — Mas olhem só... – o policial reconheceu Derek. — Parece que a confusão da noite passada não foi o suficiente, hein rapaz! Por que não me admira que você esteja no meio desse tumulto?

    — Eu...

    — Foi por minha causa! – Mark novamente. — Me desentendi com o... amigo – indicou com a face o grandalhão. — E... cá estamos nós. – soltou sem de fato explicar a situação. — Mas não foi nada de mais, já estamos... resolvidos, certo? – fitou o rapaz novamente que não respondeu, apenas ergueu mais o rosto mostrando superioridade.

    — Então é melhor que todos se acalmem. – o oficial falou com autoridade. — Ou vão acabar encrencados de verdade! Todos vocês. – completou antes de dar partida na viatura.

    O grandalhão passou uma das mãos sobre o lábio e sentiu o gosto do próprio sague. Sorriu.

    — Nada mal! – começou a recuar lentamente e por fim dando as costas para todos e indo embora.

    — Mas afinal de contas o que foi tudo isso?! – Mary completamente confusa. — Não acredito que você anda se envolvendo em confusão, Mark! – reprovou. — Titia não iria gostar nem um pouco de saber que...

    — Não se preocupe. – disse num tom calmo. — A propósito esse é Derek! – apresentou o amigo. — E obrigado, cara. – agradeceu em seguida.

    — Por ter levado uns socos por você? – o outro descontraiu. — Como eu poderia ter recusado!

    — Bem, me parece que os dois valentões estão satisfeitos, não? – Mary ainda tentou repreende-los.

    — Não muito! – Mark. — Ser jogado daquela forma foi humilhante. – completou vendo o sorriso machucado do amigo. — Me senti menosprezado, droga!

    Derek se ria ouvindo o amigo desgostoso quando passou a reparar na demasiada indiferença de uma das moças sobre tudo o que estava acontecendo. De fato, a garota ser quer havia dito uma única palavra desde que elas apareceram por lá. Talvez fosse tímida ou simplesmente, assim mostrou seu delicado e refinado modo de se vestir, ele a enojava. A verdade é que dificilmente se saberia ao certo e, de qualquer forma, aquele rosto doce com olhos claros lembrando dois diamantes azuis sutilmente lapidados, já havia aguçado a atenção dele. Como provavelmente aconteceria, a moça percebeu o olhar descarado e persistente sobre ela. Tentou desvencilhar-se buscando pontos que o tirassem de sua mira, mas obtinha sucesso por poucos segundos. Não demorou muito para que Mary reparasse no que estava acontecendo.

    — Bem... – Mary continuou. — Eu e Katy já estamos indo e aconselho a você a ir para casa também antes que arrume mais confusão. – sugeriu.

    — Estamos bem. – Mark declarou. — Foi só um imprevisto. – completou.

    — Você não tem mais jeito mesmo, Mark! – adiantou-se dando passagem para Katherine. — Não tem! – reforçou.

    Derek encontrava-se com as ideias distantes.

    — Ei! – Mark chamava o amigo. — Dek! – próximo a entrada do estabelecimento chamava o amigo. — Acho que merecemos tomarmos outra, não?

    — Por que nunca me falou sobre ela? – Derek então soltou.

    — O que? – voltou-se para o amigo.

    — Nunca me falou sobre essa sua prima... Kathy, não é?

    — Não! Não, não, não. Esquece! – o outro já cortando o assunto. — Nem pense nisso, cara. Vai encontrar problemas, ali!

    — E acaso não estou acostumado com isso? – abriu os braços mostrando sua situação. — Maldita hora que resolvi me envolver na tua confusão Mark! Ela deve estar me achando um animal.

    — Coisa que você não é, certo? – o amigo debochando.

    — Pro inferno! – cruzou por ele. — Você me deve essa e sabe disso! – deixou claro.

    — Pois bem! – Mark seguiu dizendo vendo o amigo entrar no bar. — Te pago uma cerveja, então!

    — Não! Não é o suficiente. – voltou a sentar-se de aonde havia saído. — Mas já é um começo. – acomodou-se dizendo por fim.
  • Entre Lobos (conto-romance) 4/9

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    Naquela manhã de sábado Mark ligara para Derek pedindo para que o amigo viesse dar uma olhada na sua Formosa, apelido carinhoso que dera a sua motocicleta. Ainda perto do meio dia, ele apareceu por lá. Mark já o esperava disposto a dar cabo de tudo sozinho.

    — Ela não liga, Dek. – adiantou o problema. — Não está dando partida. – explicou ainda.
    — Vamos ver. – o outro disse depois de aproximar-se e cumprimentar o amigo que se mostrava preocupado com a situação.

    Já haviam se passado alguns minutos desde que Derek procurara desvendar o problema quando um automóvel escuro estacionou sobre o gramado em frente a casa. Sem dar atenção, ele continuou fixo no que estava fazendo, diferente de Mark que ao perceber quem chegara lgo  foi recepciona-los.

    — Mãe! – disse indo em direção ao carro. — Eles chegaram. – avisou.
    — Mark! – um senhor falou depois de desembarcar Do vveículo. 
    — Tio. – cumprimentou o homem com aperto de mão e um abraço.
     
    Em seguida uma mulher desembarcou acompanhada de suas duas filhas.

    — Ajude sua tia, sim. – sugeriu ao sobrinho. — Trouxemos algo para o almoço.
    Mark contornou o veículo e deu auxílio a Dna. May.

    — Deixe que eu levou tia. – adiantou-se pegando uma bandeja larga. — Olá Mary... Katy. – cumprimentou suas primas também.

    Então, Derek, voltou-se para trás e viu Katherine deixar o veículo. Mark, acompanhado pelos demais veio em direção a residência.

    — O que houve? – o homem parou por um segundo ao ver o que estava acontecendo.
    — Minha princesa não está bem. – Mark respondeu pelo amigo. — E esse é meu anjo da guarda – referiu-se ao amigo agachado — Dek esse é meu tio Alan e tio Alan esse é Dek. – os apresentou.
    — Me desculpe, senhor. – Derek pôs-se em pé. — Eu o cumprimentaria, mas... – estendeu as mãos mostrando o quanto estavam sujas.

    O rapaz não soube se seria muito educado cumprimentar o senhor daquela forma. Deixou de ter dúvidas quando percebeu que o homem lhe estendera a mão. “É o melhor.” Ouviu Mark falar logo ao lado do senhor.

    — Deixe disso, rapaz. – o homem disse. — Mãos como essas representam o progresso.

    A poucos passos as costas dos dois cruzou Katherine que o fitou discretamente. Mary o ignorou completamente assim como Dna. May. Na entrada da casa surgiu Sofya, mãe de Mark, uma mulher simpática e sorridente que agora as esperava calorosamente. Mark, juntamente com seu tio, seguiu para dentro de casa.

    — Já volto, Dek. – avisou e a verdade é que realmente não levou muito tempo até que estivesse de volta. — E então... como está indo? – pediu com certa preocupação.

     Sem responder, Derek prendeu novamente a mangueira a uma pequena saída do motor e pediu para que o outro tentasse dar partida novamente. Como por um milagre, a motocicleta respondeu imediatamente.

    — Eu sabia! – Mark contente. — Você daria um jeito, Dek!
    — Coisa simples...
    — Bem... Como minhas economias andam...escassas. – agora o outro explicava-se. — Não tenho como te pagar, mas – desligou a moto. — O que acha de almoçar com nós.
    — Não acho que seja uma boa ideia. – respondeu. — Me parece uma reunião íntima. – referiu-se ao encontro dele com os familiares.
    — Não, não! Deixa disso! – o convidou com um movimento de mão. — Meu tio provavelmente te interrogue, mas é uma boa pessoa. Pelo visto ele gostou de você.
    — E isso é bom?
    – Depende do quanto você corresponda as expectativas dele. – riu-se.

    Percebendo que não existiria uma maneira de impedir que aquele convite se desfizesse seguiu o amigo para dentro da residência.

    Derek sentiu-se um pouco acuado sentado à mesa. Diferente dos demais, ele usava uma vestimenta mais informal. Até mesmo Mark que entre todos era o que mais se assemelhava a ele, estava ou lhe pareceu aquele momento, especialmente bem alinhado.

    — E então... Derek. – o senhor dirigiu-se a ele. — Tem dom para concerto?

    Mark, então, o fitou como se lhe dissesse “Falei que isso podia acontecer”.

    — Bem... Trabalho na oficina de meu pai. – explicou objetivamente. — Ajudo a...resolver algumas coisas.
    — E vejo que se sai muito bem, não. – referiu-se a moto do sobrinho.
    — Obrig...
    — Ainda que se evolva em problemas nas horas vagas. – Mary soltou num sussurro, mas que claramente pode ser ouvido por todos.
    Mark posicionou-se.
    — Aquele dia foi apenas um... Equívoco.
    — Chame como quiser, Mark. – Mary. — A meus olhos vocês não passavam de dois baderneiros.

    Então, estalou-se um certo desconforto a mesa. Derek arrependeu-se no mesmo instante em ter aceitado aquele convite. Não tinha sido o suficiente ter passado a impressão errada na primeira vez, ainda teria que ser exposto ante a família inteira de Katherine, que tanto quanto a última vez, mantinha-se calada. Tanto ele quanto Mark foram envolvidos pelas desaprovações de todos.

    — Mas Dek não teve culpa. – Mark esclareceu. — Tudo o que fez foi ajudar.
    — Uma confusão sempre será uma confusão! – o homem colocou fitando os dois. — E não tolero baderneiros, Mark! São um atraso. E em respeito a memória do grande homem que foi teu pai, não vou tolerar ou permitir que você se torne um. – completou apoiado por sua irmã Sofya.
    — Obrigado, Mary. – então Mark dirigiu a prima. — Finalmente estou conseguindo ser visto como um delinquente. – debochou ao mesmo tempo em que abocanhava um pedaço de carne.

    Ela apenas ergueu as sobrancelhas lembrando algo do tipo “Não há de que”.
  • Entre Lobos (conto-romance) 5/9

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    (POSTAGEM TODO INÍCIO DE MÊS) Não se sinta perdido! LEIA os capítulos anteriores! TENHA UMA ÓTIMA LEITURA!


    — Que almoço, hein? – Mark na varanda riu-se com o amigo depois.

    Sem dizer nada Derek apenas calçou um cigarro entre os lábios. Apalpou os próprios bolsos, mas não achou seu isqueiro.

    — Tome. – o outro alcançou o seu depois de acender o próprio fumo. — Não ligue... Eles são assim mesmo. Conservadores.

    — Claro! – disse depois de soltar a fumaça do pulmão. — Mas então acho que já está tudo resolvido por aqui. – fitou a motocicleta do amigo. — Já é hora de eu ir.

    Assim que disse isso, viu atravessarem a porta de saída Mary e Katherine acompanhada logo atrás por seu pai e as duas mulheres.

    — Mas nos deixe na cidade, papai. – Mary. — Eu e Katy queremos conhecer o parque que chegou essa semana. – comentou.

    — Está bem. – o senhor respondeu. — E o que acha de fazer companhia a elas Mark? Seria de bom tom se agisse como um cavalheiro algumas vezes.

    — Não é necessá... – Mary

    — Claro! – Mark respondeu de imediato. — Assim aproveito pra testar a Formosa. – respondeu com semblante sorridente.

    — Mas pai... – Mary ainda não aprovando aquela ideia.

    — Sabe que não gosto que andem sozinhas, ainda mais em lugar tumultuados como esses. – o homem deixou claro. — Mark lhes fará companhia, sim. – completou aproximando-se de Katy e lhe acariciando o rosto. Seguiu em frente depois de despedirem-se de Sofya. Minutos depois o veículo deu partida e sumiu.

    — Mas e vocês? – A mãe de Mark perguntou sem entender o porquê de os dois ainda estarem por lá. — Já não deveriam ter ido encontrá-las? – completou voltando para dentro de casa.

    — Sim! Claro! – Mark de súbito. — O que acha Dek? – disse apoiando a ideia de tê-lo como companhia.

    — Bem... – Derek deu mais algumas tragadas no fumo e antes que pudesse dizer qualquer coisa o outro antecipou-se comentando.

    — Talvez tenhamos que aturar o humor inflexível de Mary. – brincou. — Mas pense nas lindas mulheres que por lá estarão. – deu um tapinha no ombro do amigo.

    Derek sorriu vendo a perspicácia do amigo.

    — Por isso você aceitou a sugestão do teu tio, não foi? – falou dano uma última puxada na fumaça e jogando fora o cigarro pela metade.

    — Tudo na vida tem um preço. – respondeu pondo seu capacete. — E nesse caso, vejo como uma... Troca de favores. – breve pausa. — As mantemos seguras enquanto bebemos e admiramos a paisagem. Perfeito, não? – concluiu antes de dar partida na motocicleta. Pegaram a estrada.

    O lugar realmente estava movimentado, mas não levaram muito tempo até que conseguissem encontra-las em meio aquela multidão. Derek aproximou-se com o amigo e parou próximo a Katherine que evitava o encontro de seus olhos.

    — Nós vamos caminhar. Deve ter muita coisa interessante por aqui. – avisou o primo. — E você – o mirou séria. — Conseguiria não criar problemas? – soltou antes de afastar-se com Katy.

    — Fique tranquila. – começou com um tom debochado. — Farei o máximo pra que não me diminua no próximo almoço. – então, embrenhou-se com Derek no movimento.

    — Ok! – Mark soltou em algum momento mais tarde já sentindo-se incomodado. — Preciso de uma cerveja e não acho que vou encontrar isso por aqui. – ainda mirando ao redor. Avistou suas primas em frente a uma barraca. Foram até elas. — Como estão se saindo?

    — Muito bem. – Mary respondeu. — Vamos só comprar um refresco. Logo papai vem nos buscar.

    — Acho que vou me contentar com isso. – ele sussurrou dando-se por vencido referinod-se a bebida.

    Assim que um pequeno grupo deixou o lugar depois de fazerem suas compras Mary adiantou-se acompanhada deMark. Katherine mirava a imensa roda gigante que estava a alguns metros longe de onde estavam, vendo sua atenção sobre a atração, Derek usou-a como um meio para em fim aproximar-se dela.

    — Imensa, não? – disse parando logo ao lado. Katy o fitou com o semblante liso e não disse nada. — Quer ir até lá? – perguntou.

    Katherine, pensou por um segundo e sorriu demonstrando ter deduzido o que ele lhe dissera.

    — Conhecer? – respondeu com a voz fraca. — Ela? – indicou com a face.

    — Sim! – ele disse. — Gostaria? – mostrou o caminho com um gesto simples.

    Katherine o observou e respondeu afirmativamente com a cabeça, mas sem pronunciar uma única palavra.

    — O que acha que está fazendo? – Mary então susrgiu como um fantasma.

    — Bem... Nós íamos até a roda gigante e...

    — Não, não vão! Não mesmo! – a outra posicionou-se. — Katy – voltou-se para a irmã. — Não pode agir dessa maneira... precisa ser mais cuidadosa. – reprovou a atitude da irmã.

    — Calma! Não há nada de errado. – Derek. — Só estamos conversando.

    — Não! Ela não está conversando! – respondeu com mais frieza. — Você quem a está importunando. – entregou um copo para a outra. — Deixe-a em paz! Sei muito bem o que você pretende com ela. – insinuou ainda. — Vamos, Katy. – deixou que a outra passasse a sua frente.

    — Mas... – Derek mirou o amigo que deu de mãos como se dissesse “esquece, esquece”.

    — Já te falei sobre isso. – Mark segundos depois. — Vai encontrar problemas ali. – referiu-se a Kety. — Tanto meus tios quando Mary... – pensou por um segundo. — Talvez não minha tia, mas os outros são bem rigorosos quanto a Katherine.

    — Não entendo.... – buscou uma explicação para si mesmo.  — Beata? – concluiu.

    antes mesmo de responder o outro sorriu parecendo debochado.

    — Mais complicado do que isso. – riu-se Mark. — Katy não é como as outras, Dek. – secou seu refresco. — Acho que a diversão acabou por aqui.

    — Vamos até minha casa. – agora Derek sugeriu. — Lá te um bom wisk e você aproveita pra me explicar melhor essa história.

    O outro concordou ao perceber que seu dia ainda não estava perdido.

    Agedeço a atenção!
    Confira também os outros títulos!
    Forte abraço!
  • Entre Lobos (conto-romance) 6/9

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    Não se sinta perdido(a), LEIA os capítulos anteriores! Tenha uma ótima leitura!
    Derek fumava escorado sobre o corrimão acompanhado de um copo de bebida e mais adiante, não muito distante de onde estava, Mark permanecia sentado sobre os poucos degraus que levavam a varanda. A rua em frente, monótona, estava tão quieta quanto os dois amigos.
    —... Quer me fazer de besta! Você está zombando de mim, Mark. – Derek então falou depois de soltar a fumaça do pulmão.
    — Acha que eu brincaria com uma coisa dessas? – o outro respondeu imediatamente. — Você deve ter percebido algo de estranho, não? Com ela. Queria saber o que esta havendo e estou te dizendo. – completou.
     — Mas... Impossível! Você mesmo viu o que aconteceu no parque! Por mais curta tenha sido nós tivemos uma conversa. – jogou contra. — Não? – riu-se.
    — Está bem, talvez a situação não seja exatamente como coloquei... Ao menos não ainda. Apesar de Katherine ter perdido grande parte da audição, não significa que não consiga nos ouvir. – tirou um gole da bebida. — Sinceramente fiquei surpreso que ela tenha se ariscado a falar com você, Dek. – comentou ainda. — Ela costuma ser extremamente reservada.
    O amigo ainda refletia sobre o que acabara de ouvir.
    — Reparando agora, isso explica muita coisa. – então, disse depois. — E como pode ser desfeito? – atencioso. — Isso pode ser desfeito. – reformulou a frase esperando que sua confirmação fosse apoiada pelo amigo.
    Mark negou com a cabeça antes de responder.
    — Não! – pesaroso com aquele fato. — E com o tempo só piora. Meus tios já procuraram todos os meios pra ver se ao menos isso pode ser interrompido, mas parece que vai chegar o dia em que ela simplesmente vai deixar de ouvir qualquer coisa, Dek. – esclareceu por fim. — E isso é muito triste de saber.
    Ficaram em silêncio.
    — Por isso, meu caro amigo, vou dizer uma última vez. – Mark pôs-se em pé. — Esquece essa história. Não vai querer essa situação pra você. Acredite.
    — Como?! – Derek surpreso. — Acho que não entendi direito. – precisou de confirmação.
    — Não, você me ouviu muito bem. – Mark afirmando o que havia dito. — Esqueça Katy.
    — Poxa vida, Mark! Achei que fosse ter ao menos o teu apoio! – insistiu.
    Antes de seguir falando o outro pôs seu copo vazio junto ao do amigo.
    — A surdez de Katy é só parte do problema, Dek. – continuou dando de mão em seu capacete. — Viu como Mary reagiu só de você trocar umas poucas palavras com ela, meu tio é tanto pior. – montou na motocicleta. — Acredite, cara! Se tem alguém que pode falar com propriedade, essa pessoa sou eu... Faça um favor a si mesmo. Esqueça Katherine ou isso pode não acabar bem.  E é tudo o que tenho a dizer sobre isso. – de ombros vestindo o acessório dando partida e indo embora.
    Derek continuou onde estava, fumando imóvel vendo o amigo levantar poeira da estrada. Não demorou muito e ouviu a porta atrás abrir e bater novamente. John aproximou-se dizendo
    — Deveria dar ouvidos ao que ele disse.
    — As espreitas agora? Não achei que o senhor agisse assim. – comentou vago buscando fitar o homem por cima do ombro.
    — Não pensa em levar isso adiante, não é? – o homem seguiu dizendo sem dar ouvidos ao que seu filho lhe dissera.
    — Bem... Parece que todos já sabem o que eu devo ou não fazer, não é? – respondeu tomando o restante de sua bebida e em seguida lançou o toco de cigarro na estrada antes de seguir para a porta de entrada.
    — Pense melhor, rapaz. – o homem sugeriu. — Essa não é como uma de suas brigas de rua. Ao mesmo consegue enxergar isso?
    — Claramente. – entrou deixando a porta bater. — Claramente. – repetiu.
    Na manhã seguinte, como de costume, John escutava os noticiários sobre o avanço da Alemanha. Foi surpreendido ao ver que Derek surgira mais alinhado com suas vestimentas, logo deduziu que seu filho preparara-se par uma ocasião mais formal.
    — O que merece todo esse cuidado? – falou.
    — Vou até a casa de Mark. – esclareceu o que deixou seu pai confuso. — Quero falar com os pais de Katherine e espero que ele me diga onde encontrá-los. – por fim.
    O home desfez-se do aparelho.
    — Mas que droga! Achei que tivéssemos resolvido esse assunto! – John sério. — Vai realmente insistir nessa história?
    — Já tomei minha decisão. – respondeu indo em direção a saída.
    — Não me dê às costas, rapaz! – o homem deixou o assento. — Não percebe o erro que está cometendo? Com pode considerar uma vida normal com alguém que um dia não vai nem escutar o que você diz?
    — Dane-se todos vocês! – Derek posicionou-se. — Não vou abrir mão daquilo que eu acredito por que vocês são covardes!
    — Cuidado, rapaz! – John o advertiu.
    — Covardes, sim! Não teriam coragem de enfrentar uma situação como essa e por isso se não conseguem mantê-la trancada querem impedir que o mundo não se aproxime dela.
    — E o que pretende fazer? Não tem culhões pra esse relacionamento, filho. – disse. — Mal consegue manter os bolsos cheios.
    — Ainda assim é o que pretendo fazer! – insistiu.
                — Pois bem. – deu de mãos abertas. — Resolva isso de uma vez, então! Quem sabe, depois de ser enxotado perceba quem está certo.
    Sem dar ouvidos Derek partiu.
    — Você enlouqueceu de vez, Dek! – Mark ainda sem acreditar no pedido do amigo. — Acaso ouviu alguma coisa do que eu disse ontem?
    — Cada palavra.
    — Cara, você realmente gosta dela, não é? – agora admirando a postura do amigo.
    — Assim que a vi, Mark. – respondeu. — Por isso preciso da tua ajuda. Não vou desistir sem que ela mesma deixe claro que não tem sentimentos por mim.
    Mark respirou fundo e soltou o ar.
    — Está bem! – então concordou. — Parece justo. Afinal de contas você já me ajudou tantas vezes. – estendeu a mão. Cumprimentaram-se com força. — Provavelmente meu tio me mate por dar apoio a isso, mas vejo que é sincero o que sente por Katy. Quem sabe eles também enxerguem...
    — Tudo de que preciso agora é do teu apoio. – Derek respondeu vendo transparecer na face do outro um sorriso de satisfação.
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    OBRIGADO a ATENÇÃO!
  • Entrevista com Fábio Gesse – editor da Revista Action Hiken

    1- Nos conte um pouco sobre a trajetória da Revista Action Hiken?
    R- Na metade de 2015, existia uma revista chamada Monthly Shonen Action, que por acaso, possui um nome bem parecido com uma revista japonesa. Era feita totalmente artesanal e semanalmente, com 3 ou 4 séries de capítulos de 10 páginas. Quando eu conheci o projeto, ele tava na sua edição 6 ou 7, mas estava em frangalhos. É extremamente difícil cuidar de um projeto assim, semanal então... Quando o projeto foi descontinuado pelo responsável da época, os próprios autores gostariam de continuar, então um deles, chamado Kleverson Lacerda (Autor de Varinha das Almas), que fazia parte do Estúdio Armon em outros projetos, trouxe o projeto e perguntou se eu gostaria de reestruturar e levar pra frente. Acabei aceitando, então pegamos os autores que já estavam lá (Kleverson, Ingrid Oliveira, Gabriel Silva) e para compor o resto da revista, fizemos um concurso. Daí veio o primeiro grande sucesso da revista, O Som da Coragem, de Eddy e Doryack. O primeiro ano foi difícil de manter, era tudo novo e dava muito trabalho. Logo estrearam mais séries que seriam sucesso, Age of Guardian e Two-Sided. Por volta da edição 7 ou 8, a revista quase deixou de existir, porque alguns artistas desistiram de suas séries. Precisei correr e organizar um novo concurso, porque como era algo novo, quase ninguém botava fé e não arranjava novas séries de jeito nenhum. Com esse segundo concurso vieram Berta The Witch e Whisper World, que não duraram muito também, com seus autores desistindo em poucos meses. A crise novamente chegou e me obrigou a buscar refúgio dentro de minha própria equipe e com isso, duas séries de integrantes do Estúdio Armon começaram, Sing e Talento FC. Logo, numa parceria com o Jayson Santos, outro sucesso se iniciava: Hooligan. Daí em diante, as coisas foram crescendo, novos autores querendo entrar, as edições foram ficando mais recheadas, e por mais que os autores falhassem nas entregas por várias vezes, sempre tínhamos one-shots para suprir, porque recebíamos muitos. Na edição 20 saiu o primeiro crossover entre equipes, onde a série Two-Sided teve um capitulo especial de 50 páginas com Nightfall, que era da revista Yuuji Magazine. Foi divertido fazer e chamou muita atenção. Logo em seguida, outro grande sucesso chamado Demon Hunters se inicia, abrindo fronteiras para autores lusófonos estrangeiros com Diogo Cidades. Tentando inovar, lançamos outro concurso (Como a galera pede concurso, meu Deus... rsrs), só que com a temática shoujo. Por mais que tenhamos recebido uma ou outra obra bem legal, foi um fracasso. Quase não tivemos inscritos o suficiente pra premiar. Enfm... Logo veio a épica edição 24, com os one-shots de Oxente e Valón, obras que mais tarde se tornariam as séries mais populares atualmente. Mas essa edição foi épica por diversos motivos. Um, porque marcou o início da parceria com a Craft Comic Books, que estava nascendo. Conheci o CEO de lá num evento em São Paulo e ele fez versões impressas daquela revista que, por 2 anos, tinha sido só digital. Passamos a oferecer todas as edições em formato impresso e sob demanda, algo que todo mundo sempre pedia (Acho que se teve uma pergunta que ouvi mais do que “como faz pra entrar na Action” foi “tem impressa pra comprar?”). Outro motivo da edição épica, é porque no ano seguinte, ela foi indicada ao Troféu HQ Mix, na categoria Publicação Mix. Não vencemos, mas a indicação valeu o ano. Como nem tudo são flores, nessa mesma edição, marcou o maior stress que já tive com o projeto. A briga com o autor da série Parrotman, que era um sucesso desde a edição 6. O autor iria enviar a obra pra um concurso, e ele exigia que ela não tivesse publicada em lugar algum. E o autor também não concordou em ceder a obra para as versões impressas, ou seja, no final de 2017, tive que reeditar 10 edições da Action para retirar todo e qualquer resquício de Parrotman do projeto. Deu mó trabalho e pensei em desistir ali também... Só que era uma época tão boa, então fui firme e continuei. E ainda bem, porque logo vieram as estreias de Anjo da Guarda e Oxente, que foram muito populares! Começamos a aparecer em vários canais de mídia, e logo as estreias de Valón, Cherry Lips e Fada Mortífera deram um gás pra fazermos esse concurso do final de 2018, que foi um sucesso. Através dele, colocamos os vencedores numa edição extra chamada Action Plus, com obras ótimas! E 2019 começou, com promessa de ser melhor ainda. Isso tudo sem falar dos encadernados das séries que o Estúdio Armon já lançou até agora, como Talento FC, O Som da Coragem, Sing, e os próximos, Demon Hunters, Age of Guardian e Oxente, que devem sair esse ano. Nossa, falei demais, desculpe. rsrs
    2- Como funciona o modelo de publicação no periódico?
    R- O modelo é bem parecido com a Shonen Jump, mas é diferente. O primeiro passo para um autor entrar, é enviar um one-shot. Seja resumo da série que quer trabalhar ou não. Se esse one-shot for aprovado pelos editores, o autor será agendado para um mês de publicação. A votação nos dirá se a obra for popular e promissora e caso seja, o autor terá permissão para apresentar um projeto de série. Caso seja aprovado, nós o orientaremos a produzir pelo menos 3 capítulos antes de agendar a estreia, para não acontecer hiatos tão facilmente. A partir da estreia, decidiremos se a série será mensal ou bimestral. A entrega de material acontece todo dia 25 (Capitulo e uma arte colorida para a capa) e a diagramação da revista, entre o dia 25 e o dia 30/31, com lançamento, atualmente, todo dia 1 de cada mês, digital, e a impressa, na semana seguinte lá no site da Craft Comic Books.
    3- Quais as maiores dificuldades para se manter uma revista dessa no Brasil?
    R- Bom, são vários... rsrs. Citando alguns aqui... A necessidade dos autores precisarem trabalhar em outras coisas para viver. Nisso, eles não conseguem ganhar a vida com os quadrinhos e acabam fazendo nas horas que podem, o que pode acarretar em atrasos, falhas na entrega ou mesmo cancelamentos. Outro é a falta de uma forma eficiente de distribuição. Só conseguimos vender impressos pela internet. E a edição digital, necessita de outras plataformas para chegar até o leitor e nem sempre elas agradam a todos. O preconceito cultural dos leitores que ficam comparando nossos materiais independentes, com mangás feitos profissionalmente no Japão há mais de 60 anos. É uma comparação bem babaca, mas existe muito. Não me lembro de mais nenhuma, acho que o maior desses obstáculos é o primeiro que falei mesmo.
    4- Como o público reage a produção da revista de modo geral?
    R- Há uns dois anos, posso dizer que 80% falava mal e difamava. Hoje, acho que se recebemos críticas negativas e maldosas de 20% de todo o feedback, é muito. Não querendo ser arrogante, nem nada, mas acho que evoluímos muito nesses 3 anos e consigo ver nesses autores atualmente, algo que pode ser maior ainda. Muitas vezes não depende do leitor gostar ou não... Mas de nós fazermos o leitor se interessar por aquilo e superar seu preconceito cultural. Estamos no caminho certo, acredito.
    5- Qual a possibilidade do Estúdio Armon se tornar uma editora no futuro?
    R- A possibilidade existe. Nesses 6 anos de existência, nos dedicamos a nossas próprias publicações, no estilo da Editora Crás. Produzindo e lançando o que nós mesmos produzimos. Esse é o foco que eu gosto de manter. A Action é uma publicação do Estúdio Armon, então é como se fossemos uma editora, por isso muita gente já nos chama de editora. Nesse final de 2018 também realizamos um trabalho típico de editora com o T-Hunters. Fechamos uma parceria com o autor Israel Guedes para editarmos a obra e lançarmos impresso. Foi uma espécie de trabalho de editora. Pode vir a acontecer mais vezes, mas não temos estrutura para fazer isso profissionalmente e acho que prefiro continuar por um bom tempo me dedicando aos nossos próprios conteúdos e só às vezes, lançar alguma coisa de alguém de fora da equipe. Nada impede que eu mude de ideia nos próximos anos e passe a seguir os passos da Editora Draco, por exemplo.
    6- Houve muitas tentativas de se publicar uma antologia de mangá no Brasil, embora os projetos fossem promissores, muitos fracassaram, porque a Action Hiken se tornou um modelo de sucesso?
    R- Não posso dizer com certeza porque não estive por dentro de tudo que aconteceu nos outros projetos. Não sei o que fizeram de errado internamente ou quais foram os estopins para fracassarem. Só tenho o olhar de fora da coisa. Uma coisa que eu faço com a Action (E com o Estúdio Armon como um todo) e que é muito criticado por todo mundo, acredito que seja o principal diferencial que está nos levando adiante. Essa coisa é ter um ritmo lento. Começamos do nada, sem pretensões grandes, só fazendo mesmo. Ouvimos criticas do tipo “seu trabalho é um lixo”, mas continuamos. Enquanto outras revistas se colocaram como projetos épicos e tiveram a primeira edição lançada em distribuição nacional, outras faziam concurso com premiação em dinheiro e nunca pagaram seus vencedores, ou prometiam revolucionar o mercado editorial, nós só continuamos fazendo quadrinhos. Muitos diziam “tal revista saiu impresso, vocês não tem a mesma visibilidade porque não tem impresso” e doía em mim ter que responder “não temos planos pra isso por enquanto”. Hoje, aquela que tinha impresso logo no primeiro mês de existência não existe mais, e nós estamos aqui, demorou, mas o impresso chegou. Temos pouquíssimas curtidas nas redes sociais, o engajamento vai crescendo aos poucos. Num país sem uma cultura de consumo de quadrinhos estruturada, chegar com alarde dizendo que vai revolucionar é um verdadeiro tiro no pé. Nossas conquistas vêm devagar, mas quando vem, são muito valorizadas. Sou do ditado que “devagar se vai ao longe” e nem preciso dizer que não importa quantas vezes se conta aquela velha história, a tartaruga sempre vence a lebre. Em 2015 éramos um lixo que deveria parar, 3 anos depois, fomos indicados ao Troféu HQ Mix. Enfim... Seguir devagar, sem atropelar meu planejamento para o projeto, e insistindo mesmo contra as críticas para evoluir a cada mês, talvez esses sejam os diferenciais.
    7- Quais seriam os carros-chefes da revista atualmente?
    R- Sendo bastante direto, acredito que Oxente, Demon Hunters e Valón são os pilares da revista hoje. São os que mais recebem fanarts, sempre vencem as votações e tem mais destaque da mídia, mas no meu coração, todos são carros-chefes. Somos uma frota. rsrs
    8- Qual o balanço geral que o editor pode fazer sem seis anos de publicação?
    R- São 6 anos de Estúdio Armon e tive altos e baixos o tempo inteiro. Mas aprendi MUITA coisa nesse tempo, não só sobre o mercado editorial ou sobre produção de quadrinhos, mas sobre a vida. Há 6 anos, eu não conversava bem com as pessoas, não sabia lidar com elas. Hoje, gerenciando uma equipe com pessoas variadas, aprendi a lidar com cada tipo de gente. Aos poucos vou aprendendo a gerir uma empresa, lidar com tramites que eu não fazia ideia que existiam. Não sei bem fazer um balanço geral, mas não sei qual atividade eu faria se não tivesse montado o Estúdio Armon a principio. Acho que eu seria metade do empreendedor que eu seria hoje... Ou ¼ dele. rsrs
    9 – Além da Revista Action Hiken, o Estúdio Armon oferece outros produtos, quais seriam?
    R- Opa, estava esperando alguém perguntar isso. Rsrs. Como a Action Hiken é a publicação que mais tem destaque (Acredito que seja pela frequência e pelo glamour de ser parecido com a ideia da Shounen Jump), muita gente até acha que o nome do nosso grupo é Action Hiken. É preciso deixar bem claro que a Action é só UM dos projetos de um grupo maior chamado Estúdio Armon. O Estúdio Armon tem vários outros projetos, temos duas séries de tirinhas sendo publicadas no nosso site (Maria Ana e Escovando os Dentes com João), lançamos encadernados das séries da Action ou de outros mangás da equipe, como eu disse na outra pergunta. Já tivemos uma campanha no Catarse para lançar a coletânea de contos de fada em quadrinhos Era Uma Vez, em 2016. Em 2017 lançamos a coletânea de one-shots Aventuras Cotidianas pela Editora Criativo, assim como os SketchBooks Custom de Cristiane Armezina e Eddy Fernanddes. Esse ano lançamos nosso primeiro livro, Penumbra – Contos Sombrios, com a temática de terror. Temos vários quadrinhos sendo lançados para leitura online, no site, no Agakê e outras plataformas (E são quadrinhos que não estão na Action) como Saga Sem Fim, De Repente, Shoujo!!, Utopian, A Lenda Esquecida (Que é exclusiva dos apoiadores do Apoia.se... APOIEM!) e várias outras. Em 2018 também vencemos o BMA da Editora JBC com duas obras (Planaltin Power, do Waldenis Lopes, ficou em 6º e vai estar na Henshin RED, e Estupefato Maldini, de Lucas Gesse, que ficou em 13º e vai estar na Henshin BLUE), que terão suas edições digitais lançadas agora em 2019. Organizamos concursos e collabs quase sempre. E tem o próprio T-Hunters que editamos no final de 2018 e fizemos financiamento pelo Catarse e será enviado aos apoiadores no fim de janeiro. Participamos de eventos, vendendo mangás, prints, adesivos e por aí vai. Ah, e todos os nossos encadernados estão a venda em nossa loja. Para quem acha que somos só a Action, temos bastante coisa fora dela, não? rsrs
    10 – Essa pergunta eu sempre faço, quais os planos para o futuro.
    R – Essa resposta eu sempre dou, mas não posso dizer muito... rsrs. Tá, vai... Se tudo der certo, esse ano teremos 2 lançamentos coletivos, com vários artistas do Estúdio Armon, outro concurso no fim do ano, talvez participação em um evento grande, novas estreias na Action, talvez no meio do ano. Encadernados de algumas séries bem populares. Mais ou menos isso... Sem dar muitos detalhes e sem projetar muito adiante. Rsrs.
  • Entrevista com Jazi Almeida – autor de Two Sided

    1- Quais as maiores dificuldades que um mangaká nacional enfrenta?
    R- Então, creio eu que seja a “falta de tempo” por que temos que trabalhar, estudar, cuidar de casa e fazer o mangá em si. E isso tudo é muito corrido (pelo menos pra mim).
    2- Com novas editoras investindo em artistas e obras nacionais, podemos vislumbrar um cenário mais positivo?
    R- Sim! Creio eu que sim, o Brasil tá passando por uma nova fase digital no mundo dos quadrinhos, e com tantos concursos internos surgindo, tá na hora de botar a mão na massa e fazer valer.
    3- A crise editorial parece não ter afetado a publicação de mangás no país, vide o número maciço de novas publicações, logo, o brasileiro não está lendo tanto como deveria ou as editoras não estão sabendo investir de modo adequado?
    R- Com tantas obras surgindo, fica difícil acompanhar todas elas ao mesmo tempo, além de termos mangás de fora que acompanhamos, temos que lidar com os nossos e tudo isso vira uma bola de neve que as vezes nos perdemos e nem sabemos mais o que estamos lendo.
    4- Como a internet está te auxiliando na publicação de mangás?
    R- Ajudando muito o cenário brasileiro, tanto em divulgação quanto em levar o mangá a pessoas que nem sabiam da existência disso no Brasil, então a nossa maior arma é a internet em si.
    5- Nos fale um pouco sobre a trajetória de Jazi Almeida, quem é Jazi Almeida?
    R- (risos) Bom, eu sou um garoto/adulto simples, tenho 23 anos e sempre sonhei em ser um mangaká ou pelo menos um ajudante, desenho desde sempre, o estilo oriental sempre esteve presente na minha vida. E a quem diga que não sou fã de carteirinha de obras de fora, assim como apoio muito as nacionais. Sou natural do Ceará e atualmente resido em Goiânia.
    6- Os concursos parecem ser uma porta aberta para o sucesso, como você enxerga essa possibilidade?
    R- Sim eles estão aí para serem aproveitados, eu sempre gostei dessa ideia, inclusive participei de um ano passado, mas não era muita coisa. Não dei o melhor de mim, mas não façam isso, se forem participar, deem o melhor de si.
    7- Como você definiria Two Sided e qual personagem você se identifica mais?
    R- Como todos já sabem, Two-Sided é bem clichêZÃO, tem todo esse universo de lutas, espadas, amizades, poderes especiais. O personagem que mais de identifico é o protagonista o Yui, por ser uma pessoa nova num lugar novo, enfrentou e enfrenta muitas dificuldades, sem falar que ele tem um conflito interno ao qual não consegue se livrar e o melhor, uma facilidade pra fazer amigos. Ah! Eu amo ele!
    8- Você participa de eventos? Nos conte alguma experiência sobre eles?
    R- Bastante! MESMO! Mas não levo Two-Sided pra vender, eu vou pelos amigos e pelos cosplays (risos), atualmente to nesse hobbies e já foram quase 20 cosplays no currículo...
    9 – Qual a maior dificuldade na criação dos capítulos dos seus mangás?
    R-A única dificuldade é só a falta de tempo, se eu trabalhasse só no mangá, conseguiria lançar um por semana. Mas minha vida é muito corrida e sempre sobra pouco tempo pra arte.
    10 – Quais os seus projetos para o futuro?
    R –Eu vou encerrar essa primeira fase de Two-Sided e dar uma parada de 1 mês pra respeitar, foram quase 3 anos seguidos sem parar haha, e logo retorno com um One-Shot (ainda surpresa) para então retomar a parte 2 de Two-Sided. Para mais novidades se liguem na página do Estúdio Armon e na Action Hiken, lá tem todo conteúdo novo e prévias dos capítulos da galera. Obrigado e até mais!
  • Entrevista com Yuji Katayama – autor de Templários

    1- Porque você define seus trabalhos como quadrinhos e não mangás?
    R- Bem, mangá é como são chamados as histórias em quadrinhos no Japão, assim como nos E.U.A são chamados de comics não vejo problemas em chamar meu trabalho de quadrinhos, HQ's ou gibis. Acho muito bom termos nossa identidade também.
    2- Ser descendente de nipônicos contribuiu de alguma forma para que você se tornasse mangaká?
    R- Eu acredito que não, eu ser descendente de japoneses de fato me ajudou a gostar muito mais da cultura japonesa e de querer conhecer o país um dia, quanto ao gosto pelos mangás e a paixão de fazê-los, acredito que veio mais do que eu consumia quando era criança e adolescente, ver os animes e comprar os mangás na banca só somou com minha paixão por desenhar.
    3- Estamos vivendo uma era digital onde é possível se autopublicar gratuitamente e e-books, como você encara essas possibilidades?
    R- Eu encaro com muito otimismo, acredito que não só na nossa área mas em muitas outras a tecnologia vai mudar tudo que estamos acostumados, até mesmo modelo de negócios. As HQ's digitais estão começando a ganhar muito terreno e a internet e as redes sociais se mostram armas poderosas que ajudam a divulgar nossos trabalhos, acredito que nós brasileiros temos um potencial muito grande para sermos grandes nesse ramo e ainda ser extremamente rentável e compensador.
    4- Existem muitas iniciativas no mercado de mangá brasileiro, em sua maioria, obras amadoras, com arte profissional, o que falta para nós garantirmos um mercado sólido?
    R- Cultura de consumo sem dúvida. É normal em países como Canadá, Japão Estados unidos e outros Europeus pessoas que tem a cultura e o hábito de consumir quadrinhos simplesmente comprarem muitas obras que nunca viram, principalmente em eventos como COMIKET e San Diego Comic Con onde os visitantes vão na ala dos artistas independentes e compram de muitas obras na esperança de acharem uma interessante. Acredito que os quadrinhos devam também ganhar seu espaço como mídia própria e não como um estilo diferente derivada de outras mídias.
    5-Você já tem vários quadrinhos publicados ao longo dos anos, nos conte um pouco sobre eles?
    R- Poxa, realmente já se passou tanto tempo e tantas páginas que ficam muitas coisas para falar hahahaha. Bem, o Templários foi meu primeiro trabalho e experiência com quadrinhos, é meu trabalho principal e mais importante para mim, tenho um carinho muito grande por ela não só por ser a primeira, mas por que é uma obra onde sinto que estou passando para as pessoas algo muito importante, que seria a história da ordem templária, a maçonaria e seu impacto mesmo nos dias de hoje.
    Minha segunda obra começou com algo despretensioso, Technology foi minha vontade avassaladora de produzir algo no campo de ficção científica SYFY que é o meu gênero favorito tendo em vista que sou fã de Star Wars, Star Trek, Yamato 2199, Interestelar, série Cosmos, Gundam, Alien e outros clássicos. Hoje é meu selo de Ficção Científica onde dou asas à minha imaginação e crio várias histórias fechadas deste tema. W.O.R.L.D eu deixei que minha criança interior voltasse à tona, peguei tudo o que eu mais gostava de histórias de ação mainstream que gostava, Naruto, Liga da Justiça, Jovens Titãs, HunterxHunter, Cavaleiros do Zodíaco... eu queria fazer uma obra tão empolgante e irada quanto essas, algo mais leve e simples mas muito envolvente com muitas cenas de luta. Outras obras para concursos e comemorativas também fizeram parte do meu repertório, Bombing Mission baseada no game de Final Fantasy 7 foi uma experiência única, onde eu já tinha roteiro personagens e falas todos prontos, só precisei traduzir do jogo para as páginas, e foi muito mais complicado do que parecia, por ser um jogo antigo não havia muitas cenas boas dos personagens, eles eram quase que personagens de Minecraft com um pouco mais de faces no seu 3D, e o que se fazia no jogo precisei adaptar para os quadrinhos par que o leitor pudesse realmente entender o que estava acontecendo.
    6- Os concursos de mangás estão de vento em popa no Brasil, você já participou deles? Qual sua avaliação?
    R- Participei tanto dos nacionais quanto dos estrangeiros, os brasileiros como BMA ainda precisam amadurecer como concurso, tem um ou outro que são realmente muito bons, com bons prêmios e divulgação. O Silent Mangá Audition com toda certeza é o melhor deles, pois exige uma habilidade avançada que é a de contar uma história sem falas ou balões, somente desenhos devem expressar sua história, fora que é muito inteligente, por não ter falas é muito fácil o mundo todo participar sem a necessidade que o autor ou os avaliadores precisem traduzir a história.
    7- Nos conte um pouco da mágica de fazer mangá, como é sua rotina de trabalho?
    R- Todas começam com um bom café hahahaha, quanto a magia, me atrevo a dizer que está só nos olhos de quem lê nossos trabalhos, é matar um leão por dia, primeiro começo com uma visão geral da história como um todo seja de um capítulo ou de uma história fechada, então faço um pré-roteiro onde desenho rapidamente 8 páginas numa folha A4 contendo o mínimo de desenhos e mais falas e informações escritas, é nessa etapa que gasto mais tempo projetando tudo, desde a história até o número de páginas e se estarão à direita ou esquerda  para não vacilar com as páginas duplas. Feito tudo isso vou para o segundo storyboard onde já faço desenhos mais completos, mas que ainda sofrerão mudanças, só então vou para arte final digital, para finalmente colocar falas e tons de cinza. Geralmente faço tudo isso em períodos que estou longe do trabalho, pois ainda tenho que trabalhar para me manter hahahahaha.
    8- Pergunta picante, quais suas maiores influências no mundo do mangá e qual não gosta?
    R- Yoshihiro Togashi com toda certeza é meu herói, acho que HunterxHunter umas das histórias mais bem feitas que já vi apesar do autor ser um pouco desleixado com os desenhos em algumas partes, mas, é uma história muito complexa que fez sucesso na Shonen Jump Magazine quebrando quase todos os requisitos, com diálogos expositivos constantes, que normalmente cansariam o leitor, mas é tão interessante que você simplesmente lê por que quer saber como aconteceu e por que aconteceu. Difícil ter um autor japonês que eu não goste 100%, mas, se tivesse que escolher um seria Massami Kurumada, não que Cavaleiros do Zodíaco seja ruim, mas eu não gosto de como Kurumada faz os personagens, em todas as suas histórias parece que o protagonista e alguns aliados são todos o Seiya, no anime vemos a diferença entre Ikki e Seiya por exemplo, mas no mangá os dois são praticamente iguais isso confundo bastante a leitura, chamamos isso no meio de síndrome da mesma face.
    9 – Como você enxerga o atual mercado de mangás e como você o vê daqui a cinco anos?
    R- Vejo dando passos curtos, saímos do engatinhar e estamos aprendendo a andar. Vejo o mercado daqui a 5 anos mais engajado nas mídias digitais, onde o custo de produção das edições é zero já que não há um impresso, não tenho como saber quanto ao modelo de negócios, acredito que cobrar pela mídia digital não seja o caminho mais adequado. Acho que 5 anos ainda é um tempo curto para o mercado madurecer, mas acho que serão anos que poderemos descobrir nosso próprio caminho para viabilizar nosso trabalho.
    10 – Yuji Katayama, quais os seus projetos para o futuro?
    R – Tenho um projeto em desenvolvimento com um roteirista para o Technology, onde será uma história longa e fechada, pretendo produzir em edição limitada pois será um encadernado grande, e pretendo disponibilizar em inglês na internet. Tenho alguns projetos que só farei caso meus planos de ir para o Canadá ocorram sem problemas. Espero conseguir colocar em prática meu app para leitura das minhas HQs ainda este ano também.
  • Espaços

    Fui fisgada por uma música
    Me lembrou dos tempos que eu costumava sorrir
    Belos tempos aqueles...
     
    Só me resta escrever em linhas tortas
    Falar sobre o amanhecer que eu queria ver
    Sobre a pintura que iria fazer...
     
    Me imagino caindo... Caindo
    Não com violência, mas quero ver o céu
    É como deitar numa avenida vazia, olhar pra cima e ter certeza de que a realidade é muito maior do que todos acham ser.
     
    Tudo é tão leve, eu sinto que poderia voar... Voar com meu guarda-chuva rubro, olhar toda a cidade lá de cima...
    Rodopiar pelo espaço, visitar Saturno e contar todos os seus anéis.
    Ir à Plutão, no meio de seu coração
    Plantar gatos
    Colher miados
    Escolher canções de uma geração jamais esquecida...
     
    Olhar as flores no jardim da lua
    Ver a Terra, tão pequena...
    Observar você regando seu bonsai
    Como eu queria teu abraço...
     
    As estrelas estão tão longe, mas as vejo tão de perto
    Me sinto tão bem girando, não queria pôr fim ao meu rodopio...
     
    Quero visitar as constelações
    Manchar de ciano meu corpo colorido
    Descolorir todo o universo e pintá-lo de purpurina
    Não deixar ninguém esconder um sorriso
    Fazer rir a mais bela mulher de vermelho
     
    Quero ser como um abraço
    Quero ser infinito
    Mas nada quero sentir
    Apenas um peixe nadando em Júpiter
     
    E eu estarei do seu lado

    Estarei, estarei, estarei
     
    E seremos infinito...
     
    Seremos.
     



    Escrevi esse poema em uma noite de quarta-feira, escutando "Space Song", de Beach House. 
  • Eterna Paixão

    Te dei o ar, o folego sentimento,
    Te dei a maresia, sorrisos calmaria
    Te dei a imensidão o conforto a paz
    Te dei a felicidade tirei a dor
    Tudo que vc smp quis e buscou
    [ Tome meu mundo, sinta-o profundo, esse sentimento não tem fim ]
    Respire constante 
    Siga avante, me queira assim
    Seja pelo que for, pelo que fui e por quem serei, seja assim, fique assim, queira por mim
    Esqueça a dor, viva o amor
    Liberte-se do possível, encontre a felicidade
    Perca-se da escuridão
    Viva essa louca paixão
    Tome meu mundo, sinta-o profundo, esse sentimento não tem fim
  • Eternas aventuras de meninos

    O que torna um livro clássico universal? Faço minhas as palavras de Ariano Suassuna quando diz que o livro universal é tão singular que pode retratar a vida do homem em qualquer lugar do mundo. Por mais paradoxal que isso seja, quando lemos Tom Sawyer de Mark Twain, não é tão difícil ver aquele garoto da nossa rua ou da nossa escola, se envolvendo em confusões, que para ele, não passam de grandes aventuras.
                Mark Twain é um famoso escritor norte-americano. Nascido sob o nome de Samuel Langhorne Clemens em 1835, numa cidade as margens do rio Mississipi, teve uma infância humilde. Com muito bom-humor e vontade de viver, começou a escrever sobre a vida cotidiana, as paisagens e as pessoas de sua cidade. Quando se deu conta, já era um escritor aclamado pelo público e pela crítica estadunidense.
                Na obra mais famosa do autor, vemos a trajetória de Tom Sawyer, um vívido garoto da pequena cidade de São Petersburgo. O cotidiano de um garoto levado é rico em sentimentos e emoções. Um menino em sua infância é um herói, todos os dias reencarna uma epopeia, seja como um pirata, Robin Hood ou um caçador de tesouros. Seus medos e seus amores são palpáveis, pois são intensos, verdadeiros.
                O menino vive com sua tia amável Polly, seu meio-irmão, o astuto Sidney e sua irmã Mary. O dia a dia de Sawyer é o sonho de qualquer criança: poder andar a esmo pela cidade e seus arredores sem ser importunado ou correr perigo, brincar e se sentir o que são, crianças. Ele usufrui disso da melhor forma. Com irreverência e traquinagens, consegue transformar um castigo num favorável momento de negócios.
                Tom é um garoto inteligente, mas também sensível, vide o seu tratamento com Huckleberry Finn (personagem tão maravilhoso que protagonizará o seu próprio livro logo depois). O garoto selvagem, pária da pequena cidade interiorana. Filho de um alcóolatra, de comportamento agressivo e de famosa má educação. É com o segregado de São Petersburgo que ele viverá uma das maiores aventuras de sua vida, se tornando melhores amigos a partir daí.
                Os heróis também amam, e quando o percebem, já é tarde! Se apaixonar pela filha do juiz da cidade tem lá seus empecilhos e suas emoções. Se a beleza de Becky Thatcher não lhe tivesse capturado o coração, talvez ele não tivesse tomado “aquela” honrosa atitude. É com pequenos atos de amor que o menino conquista a sua amada. Nunca a entrega de uma maçã foi tão romântica, sem ser piegas.
                Para movimentar a trama, logo no início da obra, Tom Sawyer e seu amigo Huck Finn vão ao cemitério realizar uma cura a verrugas, com direito a gato morto e versos mágicos. Mas o que deveria ser uma noite de diversão, acabou se tornando uma noite de terror. Muff Potter e Índio Joe acompanham o doutor da cidade, que deseja resgatar o corpo de Willians Cavalão da cova e estudá-lo.
                Mas, algo dá errado o doutor acaba morto na confusão. Tom e Huck se tornam testemunhas de um terrível crime. Durante todo livro vemos de modo dramático, e também divertido, como os garotos tentam lidar com a situação e quais as consequências do crime na vida de Muff Potter e do terrível Índio Joe. Como clássico da literatura universal, deve ser lido, relido, trelido, comprado, emprestado e dado de presente.
  • Eu Juro Que Não Sabia...

    Aquela festa estava destinada a ser inesquecível. Joe já havia bebido muito mais do que pretendia, ficando em um estado totalmente eufórico e imprevisível. Ela dançava no meio da pista como se não houvesse amanhã, remexendo de uma maneira chamativa e sedutora. De repente, ela sentiu uma mão agarrando seu pulso e a puxando para um local escuro e desolado do resto da festa. Era Josh, seu ex-namorado, que claramente não tinha suportado o término. Mas, como estava incrivelmente bêbada, Joanne não se importou com o fato de que tinha prometido à si mesma que não teria mais nenhum tipo de relação com o garoto e deu-lhe um beijo caloroso e equivocado, o deixando extremamente exitado.
         Depois de alguns minutos repletos de satisfação, Josh começou a empurrar a garota pelo quadril até o banheiro masculino, aonde os dois se trancaram em uma cabine e começaram a tirar a roupa um do outro. Porém, havia um detalhe. O garoto posicionou sem celular em um ângulo certeiro próximo a descarga do vaso sanitário que estava logo atrás do "casal". Assim, a câmera do telefone captou momentos que de maneira alguma deviam ser gravados na memória do um celular de um adolescente. Joe estava tão chapada que nem suspeitou de nada e apenas se deixou levar pelos seus instintos que buscavam o ápice do prazer. Mal sabia ela que aquelas gravações iriam gerar um tremendo rebuliço...
         No dia seguinte, Joanne acordou com uma dor de cabeça nefasta. A ressaca estava batendo de um jeito inacreditável. Ela então decidiu que não iria à aula e tentaria sossegar um pouco. Ela foi até a cozinha e tomou um bom café da manhã, depois se deitou no sofá da sala e abriu o seu computador. Seu Facebook estava repleto de notificações. Ao vasculhar um pouco a rede social, Joanne arregalou os olhos e começou a chorar. Todos estavam compartilhando um link que levava até o vídeo gravado por Josh. Joe tratou de pegar seu telefone e ligou imediatamente para o garoto. Felizmente, Estava na hora do intervalo, então o garoto pôde atender mesmo estando na escola.
         - Alô?- O espertinho não parecia nem um pouco preocupado.
         - Seu desgraçado!! Você me filmou fodendo com você sem nem me avisar e ainda espalhou o vídeo para todo mundo ver?!
         - Hey, puta, nem vem com essa que você SABIA que eu estava gravando. 
         - Ai, vai se foder!! É claro que eu não sabia...
         Josh simplesmente desligou na sua cara.
         Joanne ficou arrasada, se trancou no quarto e se pôs a chorar novamente. Se ela ficasse muito tempo ser ir à escola ela sabia que seus pais iriam suspeitar de algo. A pobre garota estava simplesmente perdida...
         Na semana que se seguiu, Joanne percebeu que já estava na hora de comparecer às aulas. Enquanto andava pelos corredores da escola, pôde perceber que todos os olhares se voltavam para ela. Todos riam, xingavam e cochichavam. Quando a aula de fato começou, inúmeros bilhetinhos ofensivos voavam em direção à carteira da jovem. Joe tentou ignorá-los, mas em certo ponto ela simplesmente desabou em lágrimas e pediu à professora para ir ao banheiro. Ela se trancou em uma cabine e esperou até a hora do intervalo. Porém, quando o sinal bateu e Joanne estava prestes à deixar a cabine... Dois garotos adentraram o banheiro feminino silenciosamente e esperaram até que Joe se mostrasse. No mesmo instante que a jovem se dirigiu à fileira de pias para se olhar no espelho, os dois encrenqueiros saltaram em sua direção e a pressionaram contra a parede.
        - Vamos fazer outro vídeo, vagabunda? - Um dos meninos disse tirando o celular do bolço.
        Joanne começou a gritar, porém o garoto mais forte e alto tapou a sua boca e deixou que o outro menino desabotoasse as calças.
       O que se seguiu fora uma cena horrível e extremamente revoltante. Após alguns minutos, os dois deixaram o banheiro correndo em meio a risadas eufóricas enquanto Joe simplesmente se encolheu em um canto, abraçou os joelhos e começou a chorar. Por que aquilo estava acontecendo justamente com ela?!
        Quando chegou em casa, a garota sentiu uma vontade incontrolável de contar aos pais o que havia acontecido, mas... devido à uma sensação horrível que misturava vergonha e medo, a adolescente desistiu e foi direto para a cama, aonde chorou como se o mundo estivesse prestes a acabar, ou... como se já estivesse em ruínas.
        Alguns dias depois, na hora do almoço, um bando de garotas se aproximou de Joanne e começou a xinga-la sem piedade alguma.
        - Ora, ora, ora, se não é a puta do momento... - Uma loira desprezível tratou de comentar.
        - Hahahah, ainda por cima, fica chorando no meio da aula para se fazer de coitada! - Uma outra acrescentou.
        - Me deixem em paz, por favor... - Joanne implorou.
        - Ou o quê?! - A loirinha retrucou.
        Joe respirou fundo e fechou os punhos... Mas não foi capaz de segurar seus instintos. Ela se levantou rapidamente do banco aonde estava sentada e se pôs a puxar os cabelos de uma das garotas ali presentes. A mesma começou a gritar, e logo surgiram pessoas de todos os lados para separar as duas. 
        Mais tarde, Joanne e o grupinho de garotas foram encaminhadas à diretoria e os pais de Joe foram chamados.
        - Por que você atacou a Srta. Manchester, Joanne? - O diretor balofo e mal-cheiroso tratou de perguntar.
        - Porque ela me irritou.
        - E posso saber o que ela fez para te deixar tão irritada?
        Foi aí que Joanne ficou sem palavras... Ela não podia contar o porquê.
        A garota acabou levando uma advertência para casa, aonde a mesma teve que ouvir inúmeros sermões dos pais sem nem ao menos poder se defender... Foi aí que ela teve uma ideia para acabar com tudo aquilo. De madrugada, Joanne se entupiu com os remédios da mãe que havia adquirido sorrateiramente e com uma faca da cozinha, ela simplesmente cortou os pulsos, escrevendo com sangue nas paredes da sala a seguinte mensagem: "Eu não sabia que ele estava gravando. Eu juro que não sabia...". E assim faleceu Joanne Valentine, mais conhecida como Joe. Uma garota forte, porém que não resistiu à mágoa e a humilhação supremas. Vamos acabar com o Bullying, para que a próxima Joanne Valentine possa ser salva... Obrigado pela compreensão.
  • FLORESTA NEGRA

    A chuva batia tão forte na janela do meu quarto que fiquei com medo que ela se quebrasse.  Os relâmpagos que cortavam o céu clareavam o quarto que estava dominado pela escuridão da madrugada. A floresta que rodeava a casa gemia com os ventos fortes da tempestade. Ouvi barulhos de passos se aproximando da porta do meu quarto. Ela se abriu e meu irmão mais velho Jacke acendeu uma lanterna.
    - Jacke? O que foi? – Perguntei me sentando na beirada da cama.
    - A tempestade cortou a energia. Provavelmente só irá voltar pela manhã. – Ele respondeu. – Não estou conseguindo dormir...
    - Quer conversar? – Perguntei. Eu sabia da situação que ele enfrentava.
    Ele deitou ao meu lado. Voltei a deitar também e ficamos nos entreolhando. Todas as camas da casa eram de casal, então havia espaço suficiente para umas três pessoas ali.
    - É irônico, não é? Nos mudamos para cá por que não estávamos acostumados com o frio da nossa antiga cidade. Dizem que aqui é um lugar quente, mas desde que chegamos só tem chovido. – Ele murmurou desdobrando uma parte da minha coberta e jogando sobre o seu corpo. – O que você acha que vai acontecer amanhã?
    - Eu não sei... Não consigo esperar muita coisa desse lugar. Com o número de habitantes que tem, o que poderíamos esperar?
    - Com certeza não teremos que nos preocupar com segredos. – Ele disse sorrindo. – E poderemos saber da vida de quem quisermos. De qualquer garota. Só precisamos perguntar para qualquer fofoqueiro
    Havíamos nos mudados para uma casa que ficava a menos de um quilômetro de uma pequena cidade do Canadá que não chegava a 3.000 habitantes. Uma cidade pacata onde todos provavelmente sabiam completamente da vida dos outros. Não tinha como haver segredos por ali.
    - Mas você não quer conhecer outra garota. – Afirmei. Era a verdade.
    - Não. – Ele demorou quase um minuto para continuar. – Deixar Anne foi a coisa mais difícil que tive que fazer. Quando eu disse a ela que precisava terminar por que iriamos embora... Aquele olhar me cortou o coração e não consigo parar de pensar nisso.
    - Eu diria que sinto muito, mas não entendo em que isso ajudaria. – Disse pegando em sua mão. Nem a escuridão pode esconder os seus olhos cheios de lágrimas. – Sabe que não deve culpar a mamãe por causa disso, não é?
    Eu havia notado desde que chegamos na casa nova que Jacke olhava nossa mãe como se ela fosse uma desconhecida qualquer.
    - Eu sei. É só uma fase difícil para mim. Para todos nós, mas vai passar. – Ele respondeu. – Sabia que não nos mudamos apenas por causa do mal tempo...  A mamãe estava com dificuldade para manter a casa desde que o papai morreu. Eu tentei arrumar um emprego para poder ajuda-la, mas ela não deixou. Acho que é por isso que estou tão magoado com ela. Se ela não tivesse recusado minha ajuda, eu ainda poderia ver a Anne.
    - Tayler... Jacke? Estão aí? – Ouvimos um resmungo curioso abrir a porta e entrar. Era a nossa irmã caçula de oito anos Sofie. Jacke lançou a luz da lanterna para iluminá-la. – Eu posso ficar com vocês também? A casa ainda me assusta e os trovões não me deixam dormir...
    - É claro. – Disse. – Está frio. Vem logo para cá.
    Ela se deitou entre nós dois. Às vezes eu achava que nossa família não era normal. Não éramos como os outros irmãos que víamos nos filmes. Éramos unidos, e tínhamos orgulho de ter o mesmo sangue. Ali comigo estava os melhores irmãos que alguém poderia ter... E os melhores amigos. Sofie fez com que cessássemos a conversa, mas ela logo adormeceu. Eu e Jacke também.
     
    ~~~ϿϾ~~~
     
    - Tayler! Acorda Tay! – Ouvi a voz animada do Jacke me chamar do sono profundo. Ele balançava meu braço enquanto eu ainda me despertava aos poucos. – Olhe lá fora! Está perfeito! Vai se arrumar, vamos sair em menos de uma hora!
    A luz invadia todo o quarto. As árvores estavam luminosas com o brilho do sol que batia nelas. O cheiro de terra molhada predominava no ar. Eu e Jacke apostamos corrida até o banheiro para quem iria tomar banho primeiro, mas como sempre ele venceu.
    - Bom dia querido, preparei uns bolinhos para vocês comerem antes de irem. – Disse minha mãe. – Primeiro dia de aula na cidade nova, como se sente? Ansioso?
    - Muito. – Disse sendo sarcástico. – Somos tecnicamente os intrusos no colégio mãe. Como acha que vai ser?
    - Ah querido deixa de neura! Vai ser legal! É uma vida nova, casa nova, cidade nova... No meu caso, emprego novo e vocês devem fazer amigos novos. – Ela continuou mantendo o sorriso. – É bom se acostumarem.
    Jacke saiu do banheiro enrolado no seu roupão. Ele passou por nós carrancudo. Minha mãe o encarou até que desaparecesse completamente pelo corredor.
    - Ah meu deus que horror. – Ela murmurou parecendo ofendida. – Não sei mais o que eu faço...
    - É temporário. Ele só está chateado... Vai passar. – Disse entrando no banheiro para tomar um demorado banho.
    Passei quase meia hora em frente ao espelho arrumando meu cabelo e mesmo assim estava me sentindo completamente ridículo. Antes de partir, comi alguns bolinhos da minha mãe enquanto ela se arrumava descentemente para nos levar para a escola.
    - Está bonito. – Disse Sofie á mim. – Aposto que está pensando em outra coisa além de apenas estudar...
    - Exatamente! Para quem não gosta muito de chamar atenção, você realmente está ótimo. – Disse Jacke rindo. – Mas você tem que ignorar as garotas que são populares... E as que te encararem.
    - E por que eu devo ignoraria as que me encararem? Isso não é algo bom? – Perguntei curioso.
    - Por que são apenas olhares de intenções. São essas que vão te decepcionar. Procure por aquela que não te olha quando estiver andado pelos corredores. A conquiste e ela te fará feliz. – Disse Jacke.
    - Isso não faz nenhum sentido. – Disse rindo. – Sério. É uma opinião sem completamente sem sentindo.
    - Ainda não entendo por que as outras garotas da minha antiga escola queriam crescer logo. – Disse Sofie devorando um bolinho. – Os adolescentes são complicados... E esquisitos.
    - Vamos crianças. – Disse minha mãe. – Já estamos atrasados.
    - Mãe?! Eu tenho quase 16 anos e o Jacke tem 17. A única criança aqui é a Sofie, sem ofensas maninha.
    Sofie revirou os olhos.
    - É só um modo carinhoso de dizer querido. – Ela protestou. – Não vou discutir isso. É desnecessário. Então, como não queremos nos atrasar mais, é melhor irmos crianças.
     
    ~~~ϿϾ~~~
     
    A cidade era completamente diferente de como havíamos pensado. As casas não eram velhas e assustadoras, os comércios não pareciam ser limitados e o colégio não era antigo e mal estruturado.
    - Que porra de escola é essa?!... – Murmurou Jacke impressionado ao ver o enorme edifício.
    O prédio tinha três andares, onde os dois de cima tinham as paredes da frente completamente feitas de vidro e aço. Um arco de metal enfeitado com um símbolo no centro cruzava o portão de entrada. Havia vários carros luxuosos no estacionamento onde os grupinhos de adolescentes maconheiros faziam a festa em volta deles. Minha mãe estacionou o carro próximo da entrada.
    - Agora preciso confirmar a matricula de vocês dois e depois correr para levar sua irmã no outro colégio. – Minha mãe disse enquanto saíamos do carro. Sofie reclamou por não poder estudar ali.
    O sino bateu enquanto estávamos na secretaria ouvindo burocracias e regras do coordenador. Minha atenção foi atraída por uma garota que estava na sala ao lado. As divisórias eram feitas de vidro, o que facilitava a identificação dela.
    - Estamos combinados senhor Tayler? – Perguntou o coordenador. Me assustei.
    - Que? Claro... Está tudo perfeito. – Resmunguei. Jacke pareceu querer debochar.
    - Certo, vou pedir para a secretária informá-los de suas salas de aula. Espero que gostem da cidade e da nossa escola. É sempre um prazer receber alunos novos de fora. – Ele disse pedindo para que sua secretária nos levasse para nossas salas. Depois se despediu da minha mãe com um aperto de mão gentil.
    Minha mãe entregou alguns trocados para mim e Jacke, caso precisássemos. Me despedi dela e acompanhei a mulher que levou primeiramente Jacke a sua sala. Depois seguimos para o andar de cima, onde me levou até a porta da minha sala. O professor me recebeu na porta. Achei que ele iria me pedir para ficar em frente a turma enquanto fazia um questionário sobre mim, mas tudo o que ele perguntou foi o meu nome.
    - Certo classe, esse é o Tayler. Ele irá nos acompanhar durante esse ano letivo. Espero que o tratem bem. – Ele disse.
    Eu não estava acostumado com tantos olhares... Eram tantos que apenas um aluno da classe não me encarava. Ele era o único que se sentava sozinho, e talvez por uma coincidência, o único lugar que ainda estava vago era ao seu lado.
    – Sente-se ali, com o nosso colega Luke.
    Ouvi risinhos e murmúrios se espalharem pela sala. Aquilo não importava, apenas me sentei ao lado dele, que continuou de cabeça baixa. O professor prosseguiu com a aula. Luke era branco, tinha a aparência de um garoto que gostava de rock pesado. Seu cabelo negro era arrepiado e uma parte dele caía ao lado direito do rosto. Ele usava um bracelete de couro e um anel escuro no dedo, ambos eram completamente descentes.
    - Oi. Então, parece que vamos estudar juntos até o fim do ano... – Tentei puxar assunto.
    - E isso é legal?  – Ele me interrompeu com uma pergunta.
    - Bem... Eu não sei. Se você deixar podemos ser... – Mas percebi que ele não estava afim de conversar então desisti. Parecia que meu primeiro dia de aula estava melhor do que havia imaginado.
    Fiquei o resto da aula em silêncio. De vez em quando escutava uma fofoca da dupla atrás de mim. Eles não falavam de mim, e sim do arrogante garoto ao meu lado. O professor se aproximou.
    - Taylor, como estamos na metade do bimestre e você perdeu trabalhos e atividades importantes, vou passar um único trabalho para que você possa recuperar a nota na minha disciplina. – Ele disse. – Vai ser um tema grande e complicado, mas talvez o Luke possa te ajudar, afinal ele tem nota mais do que suficiente comigo. Vou deixar que me entregue na próxima semana.
    - Obrigado senhor. – Agradeci pegando a folha com as instruções do trabalho da mão dele. O sino bateu logo em seguida. Embora as outras duplas não paravam de conversar entre si, eu e Luke permanecemos em silêncio pelos próximos dois tempos, até que chegou o momento do intervalo.
    Uma aluna da minha própria classe se ofereceu para me apresentar ao colégio. Depois que ela terminou, agradeci e peguei meu lanche na cantina. Procurei Jacke nas mesas do refeitório, mas ele estava rodeado pelos seus novos amigos, então não quis atrapalhar. Todas as mesas já estavam quase ocupadas, embora algumas ainda havia espaço, eu não queria me juntar a quem não conhecia. Olhei para a única mesa vazia no fundo do refeitório. Quase vazia. Luke era o único que estava nela. Acho que eu não teria escolha.
    - Posso me sentar? – Perguntei. Talvez fosse uma pergunta idiota por que nem resposta obtive. Me sentei mesmo assim.
    - Licença... – Disse uma voz feminina. Me virei para ela que me lançou um sorriso gentil.  – Me chamo Neyce. Como você é novo por aqui e provavelmente não conhece muita coisa, eu e os meus colegas gostaríamos que se sentasse conosco.
    Ela mostrou a mesa em que estavam. Um grupinho de adolescentes me encarava.
    - Eu acho que...
    - Por favor, podemos não ser os melhores da classe, mas nos importamos com os novatos... Não queremos eles indo para o mal caminho. – Ela disse de uma forma estranha, como se fosse para debochar de Luke. – Talvez possamos até lhe ajudar em algo que precisar.
    - Então Neyce, eu estou muito bem aqui. Talvez uma outra hora. – Disse. – Mas agradeço pelo convite.
    Ela se retirou desapontada. Luke sorriu.
    - O que? – Perguntei.
    - Recusar um convite para se juntar ao grupo de Neyce Witch... Vão pensar que você é louco. – Ele disse.
    - O que você vai pensar?
    - Que é um dos poucos alunos da escola que tem um pouco de inteligência na cabeça. – Ele respondeu. – Aquele grupo não passa de patricinhas e jogadores valentões.
    - Parece que você é meio rejeitado por aqui. Por que? – Perguntei curioso. Afinal ele não era tão estranho quanto parecia e era muito mais bonito e atraente do que eu e muitos garotos por ali.
    - Isso não importa.
    - Por que não gosta de conversar? – Insisti nas perguntas.
    - Por que não.
    - É satanista?
    - Isso é sério?! Claro que não!
    - Então por que é rejeitado e não gosta de conversar?
    - Por que não gosto de conversar e por que também não quero.
    - Por que não tem amigos?
    - Essa palavra não existe. – Ele respondeu. – É apenas uma ilusão que as pessoas criaram. O termo correto seria colegas.
    - Olá meninos. – Disse outra voz feminina se aproximando. A reconheci imediatamente. Era a garota que me chamou atenção quando estava na sala do coordenador. – Que bom que conheceu um amigo novo Luke, estava precisando. Talvez assim pare de ser tão rabugento.
    - Não somos amigos, nem colegas. E com certeza não quero falar com você hoje. – Ele disse. Não consegui saber ao certo se era uma brincadeira ou se era sério.
    - Arg!! Não tem jeito mesmo. Guri chato! – Ela se afastou zangada.
    - Você parece se dar muito bem com as garotas...
    - Foda-se as garotas, foda-se todo mundo.
    - Acho que estou condenado só por estar aqui falando contigo. – Disse reparando que os outros olhavam e fofocavam entre si.
    - Não pedi que se sentasse aqui. Você que se ofereceu. É só sair. – Ele respondeu sério.
    - Sabe de uma coisa, nem ligo se os outro estão falando mal. – Ignorei suas palavras. – Preciso da sua ajuda para fazer o trabalho do professor.
    - Sem chance.
    - O professor que sugeriu você. – Disse.
    - Sugerir não é uma ordem.
    - Então que tal você me ajudar por livre espontânea vontade?
    - Que tal você se afastar de mim enquanto ainda pode? Minha sugestão é muito melhor. – Ele disse.
    - Preciso de ajuda para fazer o trabalho, e o professor deixou claro que você é bom com essa matéria. – Insisti. – Que tal hoje as duas da tarde na minha casa? Minha mãe gosta de visitas e ela faz uns bolinhos muito bons.
    - Não gosto de bolinhos.
    O sino bateu e eu nem havia conseguido comer o meu lanche. Ele se levantou e me deixou sozinho para trás. Não consegui intender qual era o problema dele. Havia rabugice duplicada. Joguei meu lanche no lixo e fui ao banheiro o mais rápido que pude. Esbarrei com Jacke no caminho.
    - Irmão você é doido de ficar perto daquele garoto. – Ele disse rapidamente. – O pessoal fala que a família dele está envolvida em crimes terríveis.
    - Que crimes? – Perguntei curioso.
    - Não sei ao certo. Uns dizem uma coisa e outros dizem outras. Falaram que o pai dele estuprou uma criança de dez anos e a mãe já foi suspeita em um assassinato.
    - Isso é apenas o que dizem Jacke. As pessoas não sabem o que falam. – Disse. – Você que deve tomar cuidado com quem vai começar a andar. Não quero que te convençam a usar maconha e...
    - Sabe que eu não faria isso. – Ele protestou.
    - Você pode não querer fazer, mas podem te convencer ou te forçar.
    - Relaxa Tay, não vamos falar disso novamente. Agora preciso ir. – Ele disse se afastando. – Nos vemos na saída, me espere no portão.
     
    ~~~ϿϾ~~~
     
    Os dias estavam se passando rapidamente. Comecei a conhecer melhor os alunos da minha sala e estava me dando bem com todos. Conversar com Luke estava ficando mais fácil, pois a cada dia ele se abria aos poucos, respondia algumas das minhas perguntas sem protestar. Mas as fofocas não paravam. Todos me alertavam do quão doido eu estava sendo por ficar perto dele, e sinceramente não conseguia compreender. Inventaram tantas histórias sobre a família dele que eu não sabia qual poderia ser verdadeira, então decidi ignorar tudo o que falavam e o convenci a ir à minha casa para finalizar o trabalho que eu deveria entregar no dia seguinte.
    - Qual é a dele? – Luke perguntou ao perceber que Jacke passava em frente a porta do meu quarto a cada dez minutos.
    - Não é nada. Ignore. – Eu disse fechando a porta do quarto.
    Era incrível como ele dominava tão bem a matéria e também como ele conseguia explicar cada detalhe como se tivesse vivenciado. Concluímos o trabalho antes do esperado e depois de um lanche da tarde que eu mesmo preparei, saímos caminhando por dentro da floresta que se estendia no fundo do quintal da minha casa. Era de fácil acesso, pois não havia matagal, apenas a grama curta e as gigantes árvores, onde a maioria eram pinheiros.
    - Por que todos falam coisas absurdas sobre você? – Perguntei.
    - Talvez elas não tenham algo melhor para fazer.
    - Qual das histórias é verdadeira? – Arrisquei em perguntar.
    - Acredita em alguma delas?
    - Não sei se deveria.
    Houve um momento de silêncio no ar.
    - Por que insiste em conversar comigo? – Ele perguntou. Não havia um tom grosso em sua voz, como era de costume.
    - Eu sento ao seu lado em todas as aulas, não tenho escolha, então achei melhor tentar ser seu amigo do que ter que fingir em todas as aulas que não te conheço. – Respondi. – Mas tentar ser seu amigo é mais difícil do que pensei. Não sei por que você dificulta tanto.
    - Achei que você iria dar ouvidos ao que dizem sobre mim e iria se tornar igual a todos os outros que debocham e falam pelas minhas costas. – Ele disse. – Mas eu estava enganado... Quando estou perto de você eu começo a sentir algo que faz tempo que não sinto.
    - Como assim? – Perguntei estranhando.
    Ele demorou um pouco para responder. Talvez estivesse em dúvida se realmente falava ou não.
    - Estou gostando de você.
    Parei de caminhar e o encarei. Não consegui segurar e comecei a rir, mas parei ao perceber que ele não estava rindo também.
    - Não pode estar falando sério... – Eu disse ainda tentando acreditar que ele havia dito aquilo.
    - Sim, estou falando sério! Eu gosto de você. – Ele insistiu.
    - Luke, você não pode estar gostando de mim...
    - Eu sei o que sinto. Sei que estou gostando de você...
    - Para! Não sabe o que está dizendo! – Exclamei.
    - Não diga isso...
    - Mas você nem me conhece! – Exclamei. – E eu nem te conheço! Tudo o que sei de você é o que dizem!
    - Esse é o problema! Nem eu me conheço! Eu não faço a menor ideia de quem eu sou! – Ele disse. Havia magoa em sua voz. – As pessoas falam tantas coisas ruins de mim que estou começando a acreditar nelas!
    - Eu sinto muito Luke, mas estou tentando ser seu amigo, apenas isso... – O alertei. – Não sou contra esse tipo de sentimento...
    Ele se aproximou devagar. Tentei me afastar, mas ele foi mais rápido e me beijou. Meu corpo ficou paralisado e completamente arrepiado. Eu não podia acreditar que ele estava fazendo aquilo. O empurrei com força para trás e ele se chocou com o tronco de uma das árvores.
    - Você é louco! Não acredito que teve coragem de fazer isso!
    - Tay...
    - Sai! – Exclamei.
    - Por favor não...
    - Saí daqui! – Dessa vez gritei.
    Ele não hesitou. Virou as costas e voltou rapidamente pelo mesmo caminho que viemos. Me sentei apoiando minhas costas em um tronco de árvore próximo. Eu havia sido dominado pela sensação horrível de ter cometido algo proibido, embora tivesse sido a força, eu me sentia um ser humano desagradável... Mas eu tinha que admitir que nunca havia ganhado um beijo tão bom como aquele. Talvez eu devesse ter nojo de mim mesmo por admitir aquilo. Passei quase uma hora perdido em pensamentos perturbadores e depois voltei para a casa.
    - O que foi querido? – Perguntou minha mãe enquanto estávamos jantando ao redor da mesa de vidro. – Parece preocupado. É algum problema no colégio?
    - Não. Eu estou bem. Está tudo bem... – Respondi evitando encará-la pois minha mãe era muito boa em descobrir mentiras. Mas percebi que Jacke já havia descoberto.
    Após o jantar, ajudei minha mãe com a louça e depois subi para o meu quarto. Jacke me seguiu e fechou a porta logo depois de entrar.
    - Fala! – Ele disse.
    - Falar o que? – Perguntei.
    - Sou seu irmão! Conheço você mais do que a mamãe! Sei quando está acontecendo algo, está na sua cara! Você sempre foi péssimo para esconder as coisas. – Ele disse. – Desembucha e fala logo o que aconteceu!
    - Não aconteceu nada! – Disse.
    - O que ele fez?
    - Qualé Jacke. Você tem que parar com esse seu lado de se importar de mais com as coisas...
    - Eu sou o seu irmão! – Ele exclamou. – Sei o que dizem sobre aquele garoto! Além do mais o vi saindo da floresta e indo embora, enquanto você só voltou de lá uma hora depois! Ele te ameaçou?
    - Ele não fez isso!
    - Sabe que não vou desistir até você dizer a verdade né?
    Infelizmente eu sabia bem como era a insistência irritante do Jacke. Não havia muitas alternativas. Ou eu dizia a verdade ou inventava uma.
    - Ele disse que gosta de mim...
    - O que! Ele é gay? E disse que gostava de você?
    - E me beijou.
    - Não pode estar falando sério! Você deixou ele te beijar? Tayler você ficou maluco? Por que você não socou a cara dele? Não posso acreditar nisso! – Jacke parecia mais incomodado do que eu deveria estar.
    - Não deixei ele me beijar... pelo menos não muito. O empurrei... Foi muito rápido...
    - Eu vou arrebentar a cara dele!
    - Jacke você não vai fazer isso!
    - Está defendendo ele?! É isso o que estou ouvindo Tayler?! – Havia raiva em sua voz. – Você tem ideia do que ele fez?! Tem ideia do que vão falar se isso espalhar?!
    - Só não quero que complique mais a situação... Nem que arrume confusão.
    Ele me lançou um olhar esquisito. Jacke era um garoto bom, gentil e alegre, mas sabia ser violento. Ele disse boa noite e se retirou do quarto batendo a porta. Me joguei na cama com medo do que poderia acontecer no dia seguinte. Como eu olharia para Luke durante o resto do ano agora? Devia me sentir envergonhado? Furioso? Talvez eu devesse pedir para mudar de sala. Não! Acho que eu não estava sendo sincero comigo mesmo, pois eu havia realmente gostado. Era algo diferente, que eu nunca havia experimentado, e que era simplesmente bom. Por que eu me sentia tão ruim em relação a algo que havia sido bom? Apenas por que as pessoas diziam que era proibido e nojento? Desde quando as pessoas eram perfeitas para sair julgando as outras por elas fazerem algo que a sociedade abominava? Talvez eu não devesse ignorar ou se zangar com Luke, mas sim pedir desculpas a ele por eu ter sido tão rude na floresta.
     
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    Não sei dizer se foi um alivio quando entrei na sala de aula e o seu lugar estava vazio. O professor disse alguma lição de moral por eu ter chegado atrasado, mas nem dei atenção. Luke não havia ido em nenhum tempo de aula aquele dia. Eu queria falar com ele, queria satisfações... Queria ter certeza de algo.
    No intervalo, encontrei a única garota que ainda falava com o Luke.
    - Por que você quer saber onde ele mora? – Ela perguntou.
    - Preciso falar com ele urgente. Ele não veio hoje. – Disse.
    - Tudo bem, mas não diga que foi eu que te passei. – Ela disse escrevendo o endereço em um pequeno pedaço de papel e me entregando logo em seguida.
    Na hora da saída, pedi que Jacke fosse embora, pois não iria com ele. Menti sobre o que eu iria fazer. Ele me encarou desconfiado, mas não disse nada, apenas foi embora. Através das informações que a garota havia colocado no papel e da ajuda do GPS do meu celular, logo consegui encontrar o local indicado. Não era uma casa comum, era uma pequena mansão luxuosa. Me aproximei da porta com receio e toquei a campainha. Não demorou muito e a porta se abriu.
    - Boa tarde querido, em que posso ajudá-lo? – Disse uma mulher que devia ter idade suficiente para ser a mãe dele. Ela estava bem vestida e parecia ser uma pessoa gentil.
    - Desculpe incomodar, mas é que eu precisava falar com o Luke...
    - Luke? – Ela perguntou surpresa. – Você é amigo dele?
    - Bem... O Luke não gosta muito de ter amigos, mas eu tento.
    Ela sorriu.
    - Por favor entre, talvez esteja com fome ou queira tomar algo. – Ela disse fazendo um gesto para que eu entrasse.
    - Não quero incomodar senhora.
    - Oh querido, não está incomodando. Não recebemos muitas visitas... Principalmente o Luke. Entre por favor. – Ela insistiu gentilmente. Aceitei o convite e entrei, afinal, ela parecia muito feliz com a minha presença. – Se quiser pode esperar aqui na sala de estar, eu vou chamá-lo. Ele deve estar no quarto.
    Ela desapareceu pelo corredor da casa enquanto eu olhava alguns quadros e umas fotos de parede do passado da família. Parecia uma família feliz.
    - Eu acho que ele deve ter saído... – Ela disse voltando. – Agorinha ele estava aqui, mas acho que saiu.
    - Sabe onde ele poderia ter ido?
    - Luke não saí muito de casa, mas as poucas vezes que saí, ele geralmente vai em um riacho não muito longe daqui. Fica a um quilômetro fora dos limites da cidade, através da rodovia 26. – Ela disse.
    - Qual o nome da senhora?
    - Pode me chamar de senhora Heston. – Ela respondeu sorridente. – Mas também pode me chamar como você preferir, eu não me importo muito como me chamam.
    - Senhora Heston, posso fazer uma pergunta? Talvez uma pergunta estupida...
    - Claro querido. Se eu puder responder, assim farei.
    - A cidade inteira espalha histórias horríveis sobre a sua família. Não consigo entender o motivo... Afinal, nenhuma delas parece ser verdadeira. – Disse. Eu via o obvio ali. Aquela era uma família tão feliz quanto qualquer outra, e a senhora Heston não parecia uma assassina nem uma maconheira. – Por que inventaram tantas histórias?
    Ela pareceu triste com a pergunta, mas pediu que eu me sentasse em uma das poltronas luxuosas e confortáveis da sala de estar. Ela se sentou em outra que ficava ao lado.
    - Já faz quatro anos que meu marido matou o nosso vizinho Phil. O vizinho era uma pessoa que fazia de tudo para arranjar confusões com as outras pessoas, principalmente com o meu marido. Um dia Phil bebeu demais e tentou brigar com meu esposo que por si acabou revidando. Phil estava armado e tentou atirar nele, mas ele foi mais rápido e conseguiu tirar a arma da mão do Phil... Meu marido atirou logo em seguida. – Ela disse. – Por mais que meu esposo estivesse zangado naquele momento, não cabia a ele tira a vida do Phil, mas assim ele fez. Meu marido foi condenado a prisão, e a família de Phil espalhou todas as histórias que você provavelmente deve ter ouvido.
    - Eu sinto muito senhora Heston. Sei que seu marido é um homem bom e não quis tirar uma vida de propósito. – Disse. – Mas pelo menos agora sei a verdade. Saiba que desde o começo, não acreditei em nenhuma dessas histórias.
    - Obrigado querido. Meu marido era um homem bom sim. – Agora percebi que ela estava aflita. – Ele teve uma parada cardíaca o ano passado... Não conseguiu resistir...
    Fiquei sem palavras. Aquele clima foi quebrado quando Luke entrou na sala de estar pela porta da frente. Ele se assustou ao me ver.
    - Ai está o meu lindo. – Disse a senhora Heston. – Querido, seu amigo quer falar com você.
    - Não somos amigos. – Disse Luke mudando sua expressão. Percebi que ele estava zangado. – Mas talvez ele queira conhecer o meu quarto.
    A senhora Heston se retirou sorridente. Segui Luke até o seu quarto. O ambiente era aconchegante, e extremamente... Limpo. As paredes eram tão brancas quanto as nuvens e o chão era revestido por cerâmicas brancas e pretas, criando um enorme tabuleiro de xadrez. Havia um cheiro de perfume masculino no ar. A cama estava arrumada de um modo tão perfeito que me recusei a encostar um dedo no lençol. Havia algumas prateleiras de mogno branco embutido em uma das paredes, e nela estava organizado alguns livros da literatura americana.
    - Pode começar explicando o que está fazendo na minha casa. – Ele disse se sentando na beirada da cama e tirando o tênis.
    - Eu... Eu meio que quero falar com você...
    - Quer falar comigo?! Mas você foi bem claro ontem. – Ele disse zangado.
    - Preciso pedir desculpas por ter sido um idiota ontem... Acho que fiquei muito nervoso diante da situação...
    - Essas palavras não significam nada para mim. – Ele disse tirando a camiseta e colocando uma outra. – Eu não quero ver ninguém hoje, então se puder ir embora...
    - Me beija! – Disse antes que ele pudesse terminar de falar.
    Ele me lançou um olhar surpreso. Percebi que ele mexeu os lábios em uma forma de deboche. Me aproximei mais.
    - Vai. Eu quero que faça mais uma vez...
    - Não! Você quase me bateu ontem e então vem até a minha casa como se nada tivesse acontecido e me pede para beijar você novamente? Isso é ridículo! – Ele disse. – Por favor vá embora. Você não devia estar aqui.
    O encarei por alguns segundos. Eu não sabia ao certo se me sentia decepcionado ou magoado. A culpa era completamente dele por eu estar ali, daquele beijo proibido, mas que havia sido diferente e bom. Não me despedi, apenas virei as costas e me dirigi para fora da casa.
     
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    No dia seguinte, fingi que não o vi ao entrar na sala de aula. Sentei ao seu lado como se ele não estivesse ali. Percebi que ele me olhou de lado várias vezes durante a aula, mas fingi que estava prestando atenção na explicação da professora de Biologia. Na hora do intervalo, me sentei na mesa da Neyce e dos seus colegas apenas para provocá-lo. Assim que terminei meu lanche, me dirigi ao banheiro para fazer as coisas básicas como arrumar o penteado. Gelei quando o vi entrar atrás de mim logo em seguida.
    - Virou um dos brinquedos da Neyce agora? – Ele perguntou se aproximando.
    - Eu acho que não é da sua conta.
    - Se quer me aborrecer vai ter que ser melhor do que isso.
    Ele começou a tocar levemente minha cintura e depois senti o calor do seu corpo ao encostar no meu. Me arrepiei com o ar ofegante da sua respiração batendo no meu pescoço.
    - Para! – Me afastei sendo grosso. – Não posso... Aqui não. Na verdade, acho melhor não fazermos isso nunca mais. É o certo.
    - Mas você queria que...
    - Isso foi ontem! E você disse não!
    - Foi você que Zombou quando eu disse que gostava de você! Foi você que me empurrou quando te beijei! Naquele momento eu me senti o pior ser humano, me senti um nada...
    - Queria que eu agisse como?! Você chega em mim de uma hora para a outra e diz que gosta de mim e depois me beija sem a devida permissão... Como acha que eu fiquei naquele momento? Era algo novo, algo que eu nunca havia experimentado... – Disse aumentando o tom da minha voz.
    - Então por que não me deixa te tocar agora? Afinal você queria isso ontem...
    - E você disse não! Estou confuso! Eu não faço a menor ideia do que está acontecendo comigo! Uma hora eu me arrependo de não ter deixado você me beijar e então eu quero experimentar novamente, mas em outros momentos paro para pensar no quanto isso é errado e que se eu fizer isso vou decepcionar toda a minha família...
    - Não vai decepcionar... É a sua família! Eles te amam e devem te apoiar em suas escolhas, devem ficar ao seu lado.
    Alguns garotos entraram no banheiro fazendo barulho e brincadeiras um com o outro. Luke me lançou um último olhar e depois se retirou. Terminei de arrumar meu penteado e me retirei logo em seguida. Depois de uns dez minutos, o sino bateu e voltei imediatamente para a sala, mas Luke não estava mais lá. Seus pertences haviam desaparecido misteriosamente. Meu celular vibrou no bolso.
    “Ei. Estou indo embora. Não me espere na saída”. – Li a mensagem do Jacke.
    Passei as próximas três aulas seguintes sozinho, sem saber ao certo o que havia acontecido com Luke. Talvez tivesse passado mal ou pediu para ir embora mais cedo. Talvez ele estivesse tentando se afastar por que sabia que aquilo estava sendo difícil para mim. Mas eu não estava me conformando com pensamentos. Resolvi passar na casa dele para saber se estava tudo bem.
    Me assustei quando a porta da sua casa se abriu. Fiquei mudo, paralisado... Seu olho esquerdo estava completamente roxo e havia várias manchas avermelhadas espalhadas pelo seu rosto. Ele me encarou com receio.
    - O que aconteceu?! – Perguntei assustado.
    - Nada.
    - Fala! – Exclamei. Eu sabia realmente quem havia feito aquilo, mas queria que não fosse verdade. – Foi o meu irmão?! Foi o Jacke que fez isso?!
    - Olha eu estou bem...
    - Luke!
    Ele respirou fundo antes de começar a falar.
    - Depois que saí do banheiro, seu irmão me seguiu e dois colegas dele me seguraram enquanto ele encheu de socos. Ele foi bem especifico do porquê estava fazendo aquilo comigo... Você contou a ele sobre nós.
    Virei as costas para ele e fui indo embora. Eu estava com muita raiva, com muito ódio. Jacke não tinha o direito de fazer aquilo.
    - Tayler! – Luke me chamou enquanto me seguia. – Deixa isso quieto! Ele levou suspensão e eu estou bem. Afinal a culpa é minha mesmo...
    - Foi eu que contei ao Jacke sobre o beijo. A culpa é toda minha por ele ter batido em você. Eu juro que ele vai pagar por isso!
    Luke não me impediu, afinal devia ter ficado com medo do modo furioso que eu me encontrava. A caminhada foi longa até a minha casa e assim que cheguei, entrei e fui direto encontrar Jacke. O achei na cozinha preparando um sanduiche.
    - Tay... – Mas eu acertei a cara dele com um soco antes que ele pudesse dizer qualquer outra coisa. Ele cambaleou para trás. – Mas o que! Por que fez isso?!
    - Isso foi por ter batido no Luke. – Eu disse me aproximando e dando outro soco. – E isso foi pela sua covardia!
    Ele me empurrou forte, o que apenas me deixou mais nervoso. Corri e joguei meu corpo sobre o dele e caímos sobre a mesa de vidro da cozinha. A mesa se quebrou completamente e eu caí deitado sobre o seu corpo. Jacke me empurrou para o lado para se livrar do peso do meu corpo de cima dele. Continuamos deitado no chão.
    - Droga. – Resmunguei. – Você está bem?
    - Acho que essa foi a primeira vez que brigamos de verdade. – Ele disse rindo.
    - A mamãe vai virar uma fera. Ela adorava essa mesa.
    - Acho que cortei minhas costas. – Ele reclamou. De fato percebi que ele tinha vários cortes pelo corpo e um pedaço enorme de vidro encravado no braço direito.
    O ajudei a se levantar. Ele colocou seu braço por trás do meu pescoço e o ajudei a chegar até o sofá da sala de estar. Peguei uma toalha limpa e uma garrafa de álcool que nunca havia sido aberta.
    - Eu vou tirar isso do seu braço. – Disse. – Fique quieto. Se ficar se mexendo vou acabar machucando mais.
    - Tira logo! Está doendo!
    Fui puxando devagar enquanto Jacke gemia de dor. Assim que consegui remover o vidro, joguei o álcool sobre o ferimento e limpei com a toalha. Até que ele conseguiu suportar a dor sem gritar muito.
    - Por que me bateu por eu ter defendido você? – Ele perguntou. – O garoto merecia, afinal o que ele fez foi algo muito sério... Não sei por que está zangado comigo.
    - Por que eu gosto dele... – Disse.
    - Não pode estar falando sério...
    - Eu estou muito confuso ainda com isso, mas eu sei que gosto dele, sei que gosto de ficar perto dele... E eu preciso muito de você agora... Preciso muito que seja meu irmão e me apoie...
    Ele ficou mudo, como se não soubesse o que dizer, mas então quebrou o silêncio.
    - Eu nunca deixei de te apoiar um único dia... Nem você. Você sempre me apoiou e esteve comigo. Somos irmãos... Devemos ficar juntos, aconteça o que acontecer... Até mesmo na surra que vamos levar quando a mamãe chegar em casa.
    Eu ri e o abracei... Aliás Tentei, afinal ele estava todo machucado.
    - Vai tomar um banho. Eu vou dar um jeito de limpar a cozinha. – Disse indo procurar qualquer coisa que me desse segurança ao catar os cacos de vidro.
     
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    Eu levei duas broncas. Uma por ser o responsável por quebrar a mesa e a outra por deixar Jacke completamente ferido. Ele estava bem, mais ainda reclamava de dor. Desisti do jantar, pois queria evitar o olhar “maligno” da minha mãe.
    “Como você está?”. – Enviei uma mensagem para o Luke através do WhatsApp.
    “Meu olho ainda está roxo, mas já está melhor”. – Ele respondeu. Aquela era a primeira vez que conversávamos virtualmente.
    “Sinto muito por isso. Não vai acontecer novamente L”.
    “O que você fez?”.
    “Consegui quebrar a mesa da cozinha usando o Jacke *-*”.
    “○.o  Acho que sei o que me aguarda seu eu te irritar alguma vez... ♥☺”.
    “Nada vê. Não faria nada contigo.  ☻♥♥”.
    “Te amo S2”. – Ele mandou. Dessa vez demorei alguns segundos para saber o que mandaria de volta.
    “Eu também...”.
    Não obtive mais mensagens. Coloquei o celular ao meu lado e abracei o travesseiro, como se fosse o Luke. Eu costumava abraçar o travesseiro quando eu estava gostando de uma pessoa e ela não estava presente.
     
    A floresta estava sombria. O sol havia se escondido no céu nublado. Começou a chover e a trovejar. Luke segurava minha mão enquanto corríamos pela trilha tentando achar qualquer abrigo que nos impedisse de tomar um banho, mas foi em vão. Ele me puxou e nos jogou no chão lamacento.
    - Nãoo! Por que fez isso. Olha como estou! – Exclamei.
    - Está lindo. – Ele disse sorrindo e me dando um selinho rápido. Logo em seguida, o empurrei de leve e joguei uma bola de lama nele.
    Senti o chão a minha volta tremer e a rachar. Em menos de alguns segundos, fui sugado para uma imensidão escura, como se estivesse caindo em um poço sem fim.
     
    Acordei num pulo. Eu nem lembrava de como havia adormecido na noite anterior. Era sexta-feira, o dia da semana que todos odiavam, pois havia aulas chatas e sono acumulado. Jacke estava suspenso, então aquele dia era perfeito para matar aula com o Luke, ele só não sabia disso ainda. Minha mãe levaria eu e Sofie para o colégio e depois iria trabalhar. Me arrumei e tomei um café leve antes de partir.
    No colégio, encontrei Luke sentado em um dos bancos do pátio. Me aproximei devagar. Ele sorriu ao me ver.
    - Quer fazer uma coisa doida hoje? – Perguntei.
    - Que tipo de coisa doida?
    - Matar aula. Só nós dois... – Disse.
    - Isso parece errado. – Ele disse sorrindo. – E é legal fazer coisas erradas de vez em quando. E também por que se for com você, eu topo qualquer coisa.
    Sorri. Saímos rapidamente para fora do colégio. Tentamos não chamar muita atenção, mas as pessoas são curiosas... Elas têm olhos de águia, principalmente linguarudos e fofoqueiros.
    - Sabe que vão falar neh? – Ele me alertou.
    - Eu não me importo com o que as pessoas falam. Nunca me importei.
    Peguei em sua mão e o arrastei para uma padaria próxima, famosa por seus bolinhos recheados com nutella. Conversamos e rimos muito enquanto lanchávamos. Depois ele me mostrou um pouco da cidade, os lugares em que as pessoas mais gostavam de ir, as praças e os monumentos. Paramos em um monumento especifico.
    - Você namoraria comigo? – Ele perguntou.
    Demorei para arranjar coragem e dizer uma resposta sincera.
    - Estou aprendendo aos poucos a gostar de você... É esquisito as vezes, mas eu sinto algo. Pra ser sincero, acho que você me deixa mais confortável.
    - Confortável?
    - Eu gosto da sua companhia, gosto de estar perto de você. Acho que é o termo correto a se dizer. – Disse. – Alguma coisa mudou em mim, algo que surgiu logo após aquele beijo. Não paro de pensar no modo como aconteceu, a sensação... na forma em que eu queria que se repetisse...
    - Quer que eu te beije agora? – Ele perguntou de um modo tão fofo que eu não conseguiria recusar. Mas ele deu uma sugestão melhor. – Bem, se quiser podemos ir para a minha casa. Minha mãe não está lá.
    - Eu adoraria.
    Senti um certo desconforto quando ele me levou para o seu quarto. Talvez não fosse desconforto, mas vergonha. Ele segurou minha cintura carinhosamente e me puxou de encontro com seu corpo que estava quente. Senti ele acariciar minhas costas lentamente.
    - Não precisa ficar nervoso... Se quiser que eu pare...
    Mas o empurrei e o prensei contra a parede.
    - Me beija! – Pedi.
    Ele me beijou intensamente enquanto acariciava meu peito e minha barriga. Comecei a dar vários selinhos em seu pescoço de uma forma carinhosa. Tiramos a camisa um do outro e ficamos no carinho e no beijo por um bom tempo. Depois fomos para a cama decentemente. Deitei sobre o seu peito e ele começou a me fazer carinho e cafuné. Cafuné sempre havia sido o meu ponto fraco. Me deixava mole e com sono.
    - Eu amo você Tayler...
    - Sabe aquela pergunta? A resposta é sim. Eu ficaria feliz se pudesse namorar você. – Disse.
    Ele sorriu. Ficamos horas deitado e conversando. De vez em quando ele me beijava rapidinho e dizia coisas fofas. Pensei que iria cochilar em cima do peito dele, mas me lembrei que precisava voltar para casa.
    - Eu preciso ir vida. – Me levantei e coloquei minha camiseta novamente.
    - Mas eu queria tanto que ficasse mais... – Ele disse fazendo biquinho.
    Eu ri.
    - Mas eu quero, queria ficar o dia todo aqui, mas realmente preciso ir. Ninguém em casa pode suspeitar que eu matei aula. Se minha mãe souber ela vai jogar um monte de sermão em cima de mim. Espero que entenda... Mas a amanhã a gente se vê, ou podemos sair hoje à tarde.
    - Tudo bem meu amor. – Ele disse colocando sua camisa e me levando até a porta.
    Antes que eu pudesse sair, ele me deu um beijo de despedida.
    - Eu te amo.
    - Eu também.
    Enquanto voltava, eu pensava em tudo o que tinha acontecido, o quanto havia sido bom aqueles poucos momentos com ele. Mas meus pensamentos felizes cessaram quando entrei em casa. Muitas das nossas coisas haviam sido encaixotadas novamente. Jacke me encarou animado.
    - O que está acontecendo? – Perguntei estranhado a situação.
    - Querido? – Disse minha mãe surpresa ao me encontrar na sala. – Que bom que veio mais sedo, assim pode nos ajudar.
    - Ajudar? O que está acontecendo? – Perguntei.
    - Vamos voltar para nossa casa novamente. – Disse Jacke contente.
    - Espera! Por que? Não! Não podemos voltar! – Eu estava apavorado por saber sobre aquilo.
    - Querido, hoje recebi uma ligação do meu ex-chefe e ele me ofereceu outra proposta de emprego muito melhor do que eu tinha. – Explicou minha mãe. - É irrecusável. O salário que ele está disposto a me pagar vai nos ajudar a ter uma vida muito melhor.
    - Não podemos ir! – Exclamei. Jacke me olhou como se soubesse o que eu estava sentindo. Meu coração estava apertado... Eu tinha que tentar impedir aquela mudança.
    - Tayler! Não vou recusar a proposta... – Disse minha mãe com um tom arrogante em sua voz. – Precisamos melhorar a nossa vida...
    - Mas foi você que disse que isso era uma nova vida e...
    - Uma nova vida que ninguém queria! – Ela exclamou tão alto que me assustei. – Vocês mal olharam na minha cara quando estávamos nos mudando para cá e agora não querem voltar?
    Fiquei em silêncio. Meus olhos estavam cheios de lagrimas e meu coração estava destruído.
    - Arrume suas coisas... – Disse minha mãe. Ela parecia chateada por me ver daquele jeito. Mas nada a faria mudar de ideia. – Não temos tempo a perder. Vou buscar Sofie no colégio e depois volto para ajudar.
    Assim que minha mãe saiu, encarei o Jacke que parecia preocupado comigo.
    - Eu sinto muito...
    - Não! – Exclamei zangado. – Eu sei que é tudo o que você quer!
    - Tay...
    - Eu preciso fazer uma última coisa... Pode arrumar minhas coisas?! – Pedi.
    - Tudo bem. – Ele concordou com a cabeça.
    Saí e comecei a correr o mais rápido que pude em direção a cidade.
    Dizem que o bom dura muito pouco... Devia ser uma frase verdadeira. É em nossos momentos felizes que a vida dá uma rasteira e nos joga de cara na lama. A vida é assim, repleta de altos e baixos.
    Luke sorriu ao abrir a porta, mas escondeu o sorriso quando percebeu que eu estava quase chorando. Me aproximei rapidamente dele e o abracei. Um abraço forte e quente, como se fosse o último que eu daria em toda a minha vida.
    - O que foi amor? – Ele perguntou enquanto me levava para dentro da sua casa. – Por favor me fale o que está acontecendo...
    - Essa é a última vez que vamos nos ver... – Disse limpando as lágrimas. – Eu só queria passar mais alguns minutos com você...
    - Espera?! Por que?!
    - Vamos voltar para a nossa casa anterior. – Respondi. – Minha mãe recebeu uma proposta de emprego melhor e ela não quis recusar.
    Ele ficou em silêncio. Percebi o quanto aquilo o havia magoado. O abracei novamente e não o larguei.
    - Você não pode me deixar sozinho aqui nesse fim de mundo onde todos me odeiam... – Ele resmungou. – Não posso perder a única pessoa por quem me apaixonei...
    - Eu não tenho escolha...
    - Fica aqui comigo... Você pode ficar aqui em casa... Minha mãe não vai se incomodar... Ela...
    - Luke, você não faz ideia do quanto eu queria poder ficar. Queria que as coisas fossem simples... Mas tenho uma família que eu a amo tanto quanto gosto de você. – Disse. Ainda estávamos abraçados.
    Ele permaneceu em silêncio por quase um minuto.
    - Quero que deixe o endereço da sua outra casa. – Ele pediu. – Quero te mandar presentes...
    Assenti positivamente com a cabeça. Encarei seus lábios, mas a iniciativa de beijar foi completamente dele. Um beijo lento e delicado que me permitiu sentir o ar quente da sua respiração. Aquele foi o último beijo, um último abraço e uma despedida completamente dolorosa.
     
    ~~~ϿϾ~~~
     
     As árvores passavam rapidamente diante dos meus olhos enquanto minha mãe dirigia para fora dos limites da cidade através da rodovia 26. Vi rapidamente ficar para trás, o riacho em que Luke costumava ir. Eu sentiria muita falta daquele lugar. Jacke segurou a minha mão. Ele estava preocupado comigo, como sempre...
    A nossa vida voltou como era antes, Jacke estava feliz, minha mãe estava feliz, Sofie estava feliz... Mas ali não era mais o meu lar. Eu estava me afastando dos meus antigos amigos e das garotas que gostavam de mim. Comecei a passar mais tempo sozinho em meu quarto, perdido em pensamentos e evitando ao máximo mandar uma única mensagem para Luke. Conversas virtualmente apenas machucaria ambos. Eu precisava esquecê-lo... Mesmo que isso fosse completamente difícil.
    ~~~Ͽ 1 Mês Depois Ͼ~~~
    ~~~Ͽ 14 de Novembro, Sábado Ͼ~~~
    08:13h
     
    Aquele era um dos dias raros em que os moradores acordavam e o sol dominava a cidade. Não consegui dormir até mais tarde. A cama não estava agradável. Eu me virava de um lado para o outro e mesmo assim parecia que estava deitado sobre uma rocha. Então levantei e me arrumei para ir à conveniência mais próxima. As ruas estavam praticamente desertas, o que me preocupava, pois os moradores reclamavam de um suposto assaltante que rondava aquela área. Continuei mesmo assim. Só faltava uma quadra.
    - Tayler?! – Ouvi uma voz conhecida me chamar. Era um tom alegre, um timbre maravilhoso.
    Me arrepiei ao se virar. O sorriso que ele lançou ao me ver era o mesmo de alguém que tivesse acabado de encontrar um baú de diamantes, ou um punhado de ouro. Corri desesperadamente até ele e me joguei em seus braços com sorrisos de alegria.
    - Ah meu deus! Eu nem acredito que está aqui. – Disse alisando seu rosto enquanto ele gargalhava de felicidade. Aquelas era uma das poucas vezes que pude vê-lo sorrir de verdade. – Como você está?
    - Estou maravilhosamente feliz por estar aqui. Eu ia tocar a campainha da sua casa mas então vi você saindo...
    - Por que está aqui Luke...? – Perguntei estranhando. Era uma pergunta estupida da minha parte, mas eu via em seu rosto que ele não estava ali apenas de passagem ou apenas para me ver.
    - Ué eu quis vir... Queria te ver e... Eu pensei que iria gostar... Você me deu o seu endereço e eu não tinha nada a perder... – Ele parecia incomodado com a minha pergunta, pois gaguejava em algumas palavras.
    - Acredite, eu amei te ver. Não sabe o quanto estou feliz...
    Mas então ele entendeu a minha expressão no rosto e começou a explicar a situação.
    - Minha mãe faleceu semana passada... Não foi uma morte dolorosa. Foi silenciosa. Aconteceu enquanto ela dormia...
    Fiquei paralisado com aquela notícia.
    - Eu sinto muito... – senti um aperto no peito, não apenas pela sua perda, mas sim por que ele estava sozinho.
    - Não sinta. Ela está em um lugar melhor. Longe de tudo que a machucava... E está com meu pai. – Ele disse. – Depois disso, eu parei para pensar e cheguei a uma conclusão de que não havia mais nada para mim naquela cidade. Um lugar repleto de lembranças tristes e de pessoas que me viam como um monstro. Então vendi a casa e comprei um apartamento aqui perto. Cheguei com a mudança ontem. Eu queria ter vindo atrás de você antes, mas já estava tarde e eu estava cansado...
    - Então, como é que vai ser as coisas agora? – Perguntei.
    - Eu não faço a menor ideia... Vou estudar e arrumar um emprego... E se você quiser, podemos ir ao cinema todos os fins de semana. – Ele sugeriu sorrindo.
    - Só se eu ganhar um beijo depois de cada filme...
    - Bem, quanto á isso, vou adiantar. – Ele disse passando o dedo levemente nos meus lábios.
    E então me beijou.
    -------(FIM)--------
  • Fractal

    images
    Uma nova explosão de energia surge na borda exterior do universo, iluminando-o com cores brilhantes de vermelho, azul e amarelo. Eu observo a criação de uma nova galáxia da escotilha recém-consertada da minha nave enquanto começo mais um turno de reparos no tecido do espaço-tempo. “Uma xícara de café quentinho é a melhor maneira de começar mais um dia solitário nas fronteiras do espaço conhecido”, é o que dizia meu pai.
    Meu trabalho não é dos melhores, costurar tecido de realidade é um serviço tão aquém do que eu realmente gostaria de fazer, que era explorar as zonas externas, mas é o que sobrou para um dos cinco últimos fractais do universo desde que a praga alcançou minha civilização. Penso que não deveria estar aqui porque não sou o mais inteligente dos fractais... minhas notas na academia eram péssimas e de longe eu teria que me ocupar de uma função importante para os milhares de seres que ocupam o espaço.
    Pi! Pi! Pi!
    O bip do alerta de segurança apita, imagino que ainda preciso verificar as condições do tecido residual que se soltou quando um ser interdimensional tentou rasgá-lo ontem. Que droga! Essas criaturas tiram minha paz. Digito o velho código e...! O computador de bordo liga fazendo uma varredura completa do espaço criando um mapa holográfico que indica pontos probabilísticos de um incidente ou outro. Um deles faz a cor do mapa ficar vermelha, é a localização da zona morta da borda interna, um espaço de confinamento para o planeta Fractal, meu lar.
    Imagino que Solafta deveria estar responsável por esse setor. Será que somos apenas quatro agora? Não é possível, ela é uma das veteranas que restaram da colônia de Júpiter no quadrante da Via Láctea. Bem, de qualquer forma só poderei ficar em paz com o alerta se verificar a causa dele.
    – Computador, ligar propulsores para hipersalto, seguir coordenadas da nave de Solafta. Destino: planeta Fractal!
    Minha nave range com a propulsão dos motores de matéria escura. Parece que a carcaça da velha Gideon não vai aguentar muitos saltos pelas realidades. Por isso é melhor reduzir os ciclos para 109. Dessa forma não correrei o risco da minha nave se desintegrar na reentrada da realidade. O computador de abordo anuncia com sua voz mecânica que o salto está pronto e aguardando pelo meu comando.
    – Hipersalto liberado!
    A nave se desloca a 300 mil quilômetros por segundo antes de perfurar o tecido da realidade. Na dimensão de passagem, há apenas um borrão de cores, estou viajando entre as eras espaciais. O rangido da estrutura aumenta consideravelmente. O salto durará 45 segundos, tempo suficiente para que alguns parasitas de matéria corram atrás da nave. Computador, ligue o campo de energia. Eu não quero que nosso combustível acabe no meio da viagem. Os parasitas são um perigo para qualquer viajante do espaço. As esguias criaturas deslizam pelos propulsores, e com aquelas ventosas eles consomem toda matéria que serve de combustível. Quando pequeno, meu pai ficou preso na dimensão de passagem porque sua nave foi infestada de parasitas.
    Perigo! Perigo!
    – O que houve computador?
    Choque iminente! Perigo! Perigo!
    Como esqueci disso, eu não liguei o simulador de colisões hoje. Que droga! Qual a chance de impacto, computador?
    85% - 90% - 95% - 100%!
    Boom!
    O borrão da dimensão de passagem dá lugar a uma infinidade de pedaços de metal retorcido e fios.
    – Computador, qual a situação?
    Realizando varredura... pós-choque!
    Computador inútil, isso eu sei. Abro a escotilha da janela da sala de navegação. Lá fora há uma nave partida ao meio. Centenas de seus pedaços flutuam pelo espaço. Não há planeta próximo, sequer há sinal de galáxia. Como é possível que haja outra raça que viagem entre as bordas? Seria Solafta? Computador, faça uma varredura.
    Procurando forma de vida... confirmado!
    O alerta da Gideon soa outra vez. O velho pi, pi irritante. Qual o diagnóstico, computador?
    Forma de vida baseada em caborno...
    Respiração celular...
    Risco iminente de vida.
    Não acredito que pus a vida de alguém em risco. Computador, envie a direção para meu traje de costura.
    A interface holográfica mostra uma ampulheta girando com a seguinte mensagem abaixo:
    Enviando dados...
    10% - 20 % - 30% - 40% - 50% - 60% - 70% - 80% - 90% - 100%
    Upload completo.
    Saio da sala de navegação e corro para o compartimento de exploração. Passo por um corredor interminável de tubos de resfriamento. A Gideon é uma nave industrial, não é nada confortável morar nela. Entro no vestiário com os trajes pendurados. Coloco primeiro o capacete inteligente, verifico se todas as conexões com a Gideon estão funcionando. Tudo certo. Coloco o resto do traje, um tipo de tecido sintético escuro. Minha roupa foi desenhada para suportar o frio das bordas do espaço. Estou pronto. Sigo para a saída. Abrir escotilha, computador.
    A nave range e algumas luzes piscam, será que houve baixa de combustível? Dou um salto e... pronto. Estou flutuando no espaço. Olho no visor do capacete a trajetória até achar a forma de vida. A coisa está atrás de uma pilha flutuante de destroços. Vou me aproximando e desvencilhando de obstáculos. Sinto que estou suando por causa disso, o que irei encontrar, afinal? Quando me desconcentro um pouco, um pedaço de carcaça vem em minha direção. Sinto o metal bater nas minhas costas. Sou empurrado com o impacto.
    Meu traje avisa que estou fora da rota. Uso minhas mãos para girar em torno do objeto que me acertou e volto a flutuar tranquilamente. O visor do capacete mostra que estou a 50 m – 45 m – 30 m – 25 m – 20 m – 15 m – 10 m – 5 m – 1 m – cheguei.
    Um corpo humanoide flutua preso a uma poltrona ejetada da nave destruída. Aproximo-me e solto seu cinto. A cadeira daquele astronauta segue flutuando pelo espaço. Amarro seu corpo em volta do meu e retorno para minha nave pedindo para que o computador prepare a sala médica. O retorno é relativamente tranquilo, consigo reduzir minha atenção dos destroços. A escotilha da Gideon se abre lentamente, posso vê-la.
    O capacete redondo e o traje branco não são conhecidos do meu catálogo de raças exploradoras. Sem perda de tempo eu sigo para a sala médica. Os equipamentos de suporte à vida estão ligados conforme minha ordem ao computador. Ponho o corpo sobre a mesa, preciso remover seu traje. Retiro o capacete do visitante. Não é possível! Fico assustado com o que vejo: uma humana de cabelos castanhos desmaiada. Pego minha lanterna médica e abro um dos seus olhos. Sua posição revirada indica inconsciência por trauma físico.
    Pi! Pi! Pi!
    – Droga! O que foi, computador? Essa joça não responde nada direito.
    Pi! Pi! Pi! Alerta, alerta.
    Informe o ocorrido, computador. Sem resposta, preciso voltar à sala de navegação. Deixo a humana na sala médica e volto correndo para a sala de navegação. As luzes da nave passam de brancas para vermelhas. A voz mecânica do computador avisa que a Gideon entrará em modo de segurança. O que poderia estar acontecendo?
    Chego na sala de navegação e começo a digitar comandos no painel de controle. O computador abre sua interface holográfica, o pi, pi do alerta de segurança é ensurdecedor àquela altura. A escotilha da janela vai abrindo lentamente. Dou de cara com algo estarrecedor, lá fora, o tecido do espaço-tempo está se desfazendo como papel em chamas. É possível ver galáxias sendo puxadas pelo vácuo do exterior. Computador, qual o diagnóstico?
    Rasgo do tecido do espaço-tempo irreversível.
    Impossível! Eu saí apenas por alguns instantes. Sento em minha cadeira que por anos testemunhou meu trabalho ininterrupto e curvado apoio minha cabeça sobre minhas mãos para pensar.
    O computador de bordo avisa com sua chata voz mecânica: alerta de intruso! Alerta de intruso!
    Dou um salto da cadeira e observo a humana passando pela porta, ela chega perto de mim e em sua língua primitiva, diz:
    – Desculpe-me pelo o que aconteceu.
    Relaxo os ombros e a convido para perto de mim. Ela caminha lentamente enquanto a Gideon dá solavancos. Nos viramos para a janela e, amedrontados pelo o que estamos vendo, choramos silenciosamente juntos pela morte do espaço.
  • I miss you

    Ontem novamente senti sua falta, senti vontade de te abraçar de estar em seus braços, de sentir seu cheiro. Senti falta de estar com Você, como se não te visse a dias quando na verdade não havia passado nem um minuto.
    Você se foi. 
    Para seu ponto de ônibus (claro!)
    E eu fiquei ali com saudade, com vontade de estar com Você e torcendo para que no dia seguinte eu tivesse a coragem de Estar com Você, de estar ali pra ir e te abraçar, para dizer que sim, eu quero que você more comigo ou que quero que Você pelo menos me visite sempre, com nossos amigos pra gente se divertir, ou que venha só Você e que a gente assista Netflix juntos, abraçados, assista os filmes que eu nunca ouvi falar, mas que eu sei q por algum motivo estranho Você ama. E mesmo tendo a certeza de que enquanto Você vai estar super animado vendo o filme eu provavelmente vou dormir, vou querer assistir mesmo assim pois sei que vou acordar com um beijo seu, dizendo que o filme está em uma parte parada e que esse seria um bom momento pra “aproveitar o filme”, iríamos nos beijar, “brincar” e rir muito, em alguns momentos apenas olhar um para o outro, e continuar assim até o fim do filme.
    Nas noites mais tranquilas, depois do filme Você calmamente ira embora com aquele eterno sorriso de quem vai destruir minha vida, e eu te daria um tchau com som de “vai”, Mas com vontade de “fica” e finalmente não estaria mais ligando pro medo de Você me machucar.
    Pq mesmo que tenha, eu não vou pensar nessa possibilidade. Você vai me tranquilizar com esse mesmo sorriso. Ou com seu rostinho de surpreso de quando eu for grossa de propósito com Você. Ou com esse seu jeito foda-Se que de alguma forma me faz ficar bem, pois sei que Você não vai perceber as merdas que faço e falo a cada segundo. E que independente de qualquer coisa, vou continuar a ter a ansiedade de te ver na próxima visita, à sensação de te ver após dias, e me surpreender com seu rosto que a cada dia eu acho mais lindo, com seus olhos que me encantam, com sua altura que eu nunca vou saber lidar, que meus pés em “ponta” sempre vão reclamar, mas que eu não vou ligar pra nenhuma dor Pq sei q se estou assim é Pq estou com Você. E estar com Você é melhor do que qualquer momento “seguro”. Estar com Você é um risco, mas como um risco pode me deixar tão segura?
  • Julgamento

    Eu encontrei novamente razão para escrever;
    Por algum motivo, ou por pura coincidência, o céu voltou a ser azul no mesmo dia em que notei a forma como seus olhos se apertam quando você ri;
    Será que o azul está mesmo no tom certo?
    Desde então não vi chuva cair, como acontecia antes, e desde então, acordar todos os dias de manhã cedo não se tornou um fardo;
    Eu amaria aceitar tudo o que você tem para me dar;
    E amaria mais ainda entregar tudo o que tenho, tudo o que aprendi, tudo o que guardei por muito tempo;
    Mas, aos olhos dos que me julgam, dos pensamentos que me condenam, eu penso: aos olhos de quem, de alguma forma, estou certa?
    A minha palavra não prevalece, mas basta olhar nos meus olhos que vai ver que não sei mentir, não quando se trata de você.

     

  • Kidnapped - Sequestrada.

    POV'S Alessa Katherine Kendrick.
        - Se alguém tem algo contra este casamento, fale agora ou cale-se para sempre. - Disse o padre.
       - Amiga é agora! - indagou Courtney que estava sentada ao meu lado. E ao lado dela estavam Hanna e Babi. Éramos as damas de honra, e que honra. Sorri com meu pensamento.
        Olhei do outro lado e em outro banco estavam sentados os meninos que iriam nos ajudar. Meninos que estudaram conosco. Os olhei e pisquei.
       Um deles se levantou e veio até mim. Estendeu sua mão e eu segurei na mesma. Me pus de pé e estalei os dedos, como se fosse um sinal. Logo uma música começou a tocar. Uma música romântica. O que fez todos olharem maravilhados achando que aquilo faria parte do casamento. Meu pai olhou sorrindo achando que aquela era uma surpresa que eu havia preparado para seu grande dia. E realmente era!
       Logo a música ficou mais sensual. Soltei meus cabelos. Agora sim o jogo começou.
       Eu me movimentava conforme a música, subia e descia de costas para Daniel, o garoto que estava dançando comigo. Passei minha perna em volta de seu quadril e o mesmo segurou ela ali, fazendo com que meu vestido subisse mostrando parte de minha bunda. Pude ouvir vários murmúrios o que me fez sorrir.
        - Alessa! - advertiu meu pai.
        - Sim Papai? - o olhei com cara de desentendida.
        - Sente-se imediatamente! - disse mais vermelho que o normal.
        - Garota mimada! - retrucou a vadia petulante do altar.
        - Claro. - disse e realmente me sentei. Mas em cima do colo de Daniel, logo após deita-lo no chão. Comecei a rebolar e Daniel começou a se soltar, não pelo plano, mas sim porque o mesmo estava ficando excitado de verdade.
       Me levantei e fiquei em prontidão, logo as outras garotas se encontravam do meu lado. Ficamos paradas, imóveis, os outros garotos se levantaram e nos rodearam. Agora tocava “Love Me” de Lil Wayne. Os garotos continuavam a nos rodear. Eles colocaram as mãos nas nossas nucas e puxaram os fios amarrados do vestido, fazendo os mesmos caírem ao chão revelando nossas lingeries vermelhas idênticas e totalmente provocante. Caminhamos até os meninos que estavam parados uns do lado dos outros. Nos abaixamos em perfeita sincronia e puxamos as calças dos mesmos revelando as cuecas box idênticas, também na cor vermelha, logo puxamos o smoking e revelou seus peitorais muito bem definidos e com a gravata borboleta no pescoço. Podíamos ouvir vários "Óhh" das senhoras sentadas tapando os olhos de seus maridos. Logo começou a tocar “Side To Side” da Ariana Grande. Começamos a fazer a coreografia com os meninos. Havia as senhorinhas que nos encaravam e não sabiam o que fazer, umas até foram embora passando mal. Pude até ouvir uma delas dizer: “Barbaridade, no meu tempo não existia esse tipo de coisa”.
        Nos deitamos no chão e os meninos se deitaram por cima, se esfregando em nós, invertemos as posições e ficamos por cima, rebolando o mais que conseguíamos ou pensávamos estar sensual, sem parecer um bando de virjonas, tentando ser vadias só para estragar o casamento do pai.
       Com a música logo no final, olhei para o altar e a vadia tentava acudir meu pai que estava muito vermelho, a mesma abanava o rosto dele com um envelope. O padre estava estático.
       Peguei o vinho que eu deixei preparado na taça onde eu estava sentada e caminhei até ela, beberiquei o mesmo e ela já podia imaginar o que eu ia fazer.
        - Se você ousar... - joguei todo o líquido na cara dela, manchando todo seu vestido.
        - Ah... sua... insolente! – reclamou, passando as mãos pelo vestido branco, desesperada.
       A igreja se pôs de pé, comentando minha audácia, alguns jovens na flor da idade, com os hormônios à flor da pele, nos aplaudiam e assobiavam. Já os mais velhos estavam indignados, provavelmente achando que eu era uma filha ingrata e mal criada.
       Ouço o grito da vadia e olho para trás e vejo meu pai caído no chão. Droga! Isso não estava nos planos.
        - Aí, Alessa, fodeu vem! - disse Hanna me puxando para a saída.
       Saímos correndo e descemos as grandes escadas da igreja, todos da rua nos olhavam, por conta de nossas lingeries. Um garoto que estava de bicicleta, deu de cara no poste após prender sua atenção em nós.
        Nós, meninas, corremos para meu carro que era um Audi R8, que acabara de ganhar do meu pai de presente antecipado de aniversário. Iria fazer 18 anos daqui quinze dias e os meninos entraram no Porsche de Daniel logo atrás de nós.
        - Mano, isso não estava nos planos. - Comentou Babi.
        - É o meu pai. Preciso voltar! - disse com lágrimas nos olhos.
        - Aí Kath, deixa de ser dondoca! Ele apenas desmaiou. Se voltarmos agora, vai ferrar para todas nós! Conseguimos o que queríamos, agora é só esperar. O casamento não aconteceu.
        - Está certa! Está certa! Está certa! - dizia tentando confirmar a mim mesma.
        Parei em frente a uma praça.
        Logo quebramos o silêncio constrangedor com nossos risos escandalosos.
         - Meu, vocês viram a cara da vadia quando você jogou o vinho na cara dela?! - dizia Courtney nos fazendo rir ainda mais.
         - Aí, Alessa - chamou Babi -, depois dessa acho que seu pai vai te deserdar. - rimos de novo.
         - A essa altura nem me importo com grana. Sem contar que ele me deixou disponível na minha conta 5 milhões de dólares, mas eu só posso mexer daqui 15 dias quando fizer 18 anos. Além do mais, tem a fortuna da minha mãe que diferente daquela vadia, ela não se escorava em meu pai. É uma mulher independente! - disse orgulhosa.
         - Realmente. A tia é mó fodona. Admiro muito ela. Ainda mais os vestidos que ela faz. - disse Hanna se lembrando do vestido lindo de 15 anos que minha mãe havia dado de presente à ela a três anos atrás.
         Fomos para minha casa e já estávamos vestidas novamente com os sobretudo que havíamos levado de reserva no carro.
         Abri a porta de casa e adentramos a mesma.
        - Mas já estão de volta meninas? - disse minha mãe alegre. Quem olhasse para ela jamais diria que a mesma fora traída e abandonada pelo marido. Minha mãe era uma mulher que eu admirava muito, não demonstrava fraqueza, mas eu sabia que a noite ela chorava por falta de meu pai.
        - Mãe, foi maravilhoso! - sorri largamente pra ela.
        - É tia, fizemos tudo direitinho! - disse a bocão da Babi.
        - O... O que? - disse direcionando seu olhar para mim - Alessa! O que você aprontou? - disse autoritária.
        - Então... Sabe o que é mãe... - disse olhando feio para Babi - Bom...
        - Bom?... - disse me incentivando a continuar.
        - Ah mãe, qual é! Você aceitou esse casamento, mas eu não! E estou em todo meu direito de fazer um show e acabar com tudo. Não é só por você, é por mim, pelo papai e pela família que tínhamos e ele nem se quer levou isso em consideração. Não adianta nada ele depositar milhões de dólares na minha conta, me presentear com um Audi R8, me visitar e me tratar como princesa se no final do dia, ele vai voltar para aquela vadia, vai jantar com ela, se deitar com ela e acordar com ela! Pronto para construir uma família nova e eu vou estar pronta para me considerar órfã de pai se isso acontecer! - disse transbordando raiva.
         - Ah filha... - ela sorriu e me abraçou - puxou meu temperamento. Me conta todos os detalhes, derrubou vinho no vestido dela? Isso não pode faltar em nenhum lugar!
         - Sim mãe, joguei bem na cara dela! Olha como ficamos na igreja... - disse abrindo o sobretudo e revelando a lingerie vermelha. A mesma arregalou os olhos e soltou um gritinho histérico, logo nos puxando para o sofá e nos fazendo contar cada detalhe.
  • Livro das Sensações parte 1

    Um barulho forte e inconveniente chegou aos ouvidos de Júlia.

    Um som esperado, mas temido, seguido de gosto amargo na boca, arrepio pelo corpo...

    Aquelas sensações ruins que todas as manhãs a trazia impetuosamente de volta para a sua medíocre vida.

    Não estava sonolenta, o motivo de odiar tanto aquele trinnnn do despertador era outro. Ter que enfrentar sua realidade sem sal e sua vida sem cor.

    É certo que havia um pouco de masoquismo de sua parte, aquele barulho irritante poderia ser substituído por uma musica o que amenizaria aquele sofrimento agendado. Mas no fundo ela se punia pela vida sem raízes, sem sonhos, sem história.

    Desde muito cedo, Julia percebeu que lidava com a vida e suas lembranças de forma diferente. As experiências ruins eram lembradas apenas a grosso modo, e os detalhes eram substituídos por sensações: aperto no peito, gosto amargo na boca, cheiro de enxofre e...

    Uma experiência quase palpável, tão intensa quanto o fato. E isto a deixava cada vez mais distante e arredia com tudo que pudesse fazê-la sofrer.

    Se descobriu assim na infância, numa vida de privações com uma mãe muito dura e distante que morreu quando Julia ainda tinha doze anos e um pai sem escrúpulos.

    Aqueles quatro anos que viveu apenas com ele depois da morte da mãe...

    “É melhor deixar os fantasmas onde estão.”

    Um dia, o pai apareceu com um dinheiro bem suspeito. Ela viu que era sua oportunidade de fugir. Pegou umas peças de roupas, parte do dinheiro e entrou no primeiro ônibus para a capital.

    No início foi muito difícil sobreviver numa cidade estranha, mas conseguiu emprego numa loja de roupas e alugou um puxadinho, onde vivia até hoje.

    O despertador soou novamente tirando Julia de seus pensamentos. Aquele sábado seria longo e ela precisaria estar pronta para a esperada e temida noite. Levantou-se e foi para o trabalho.

    ***

    Numa rua cheia de comércios noturnos, um se destacava. A construção era antiga e sofisticada. Uma alongada escadaria dava ar misterioso à fachada. Na parede rústica, escrito com letras grandes e diferenciadas uma das outras:

    Galeria das SENSAÇÕES.

    Julia parou ali em frente e não pode deixar de pensar no pai. Desde que fugiu de casa, ficou sem comunicação com ele. Mas inesperadamente recebeu uma encomenda de uma antiga vizinha de sua família. Dentro, a notícia da morte do pai e todos os seus pertences.

    Sua vida, seu passado, sua história, tudo dentro de uma caixa de sapato. Uns documentos com as fotos envelhecidas, as certidões de óbito e um jogo de chá novo, que Julia lembrava muito bem, foi ganhado de presente da única tia que soube existir, irmã de seu pai. Foi visitá-los uma vez, visita rápida. Ficou sentada reparando perplexa na casa simples. Rica e prepotente, deixou algum dinheiro e aquele presente destoante da realidade.

    Nunca foi usado. Julia perguntou o motivo à mãe, que respondeu:

    “Vinho novo em odre velho, estraga o vinho.

    Vinho velho em odre novo, estraga o odre.”

    Na época, ela não entendeu, nem esqueceu. Mas agora com aquele jogo na mão, entendia. Pra sua mãe aquelas xícaras mereciam um café melhor, uma casa melhor, uma família melhor. Na verdade o vinho não era digno do odre.

    - Nós não éramos dignos do jogo de chá, nem das meninas da cidade, nem dos vizinhos. Por isto não nos relacionávamos com ninguém, estragaríamos o vinho.

    O isolamento e a sensação de inferioridade ainda acompanhavam Julia. Tinha medo de se aproximar das pessoas, nenhum namorado que fosse, nem um contato mais íntimo com ninguém. Apenas uma amiga, Anna, e mesmo assim porque ela era atrevida, entrava sem ser convidada. Escolheu Julia para amiga e nada mudaria isto. Ela se dava muito mais que recebia naquela amizade, mas aceitava numa boa.

    Se privar nos relacionamentos era uma herança que Julia ainda carregava, apesar de odiar. Agora as xícaras estavam ali intactas e a mãe morta. Teve vontade de jogá-las contra a parede, mas se conteve.

    Junto com a caixa um envelope lacrado destinado a seu pai, era um convite para a inauguração de uma galeria de Andrea Vicentine - a filha da tia que deu o jogo de xícaras.

    Um grupo de adolescentes rindo, falando alto enquanto andava pela rua, trouxe Julia de seus pensamentos. Olhou de novo para a galeria.

    “Minha única parenta viva, meu elo com o restante da humanidade. Sem ele, sou uma forasteira em um planeta estranho.”

    Apesar de não saber se tinha feito bem em vir, estava ansiosa para entrar. O lugar era atrativo, mas o medo crescia dentro dela.

    “Sensações em caps lock.”

    Fechou os olhos e uma enxurrada de emoções passou por ela deixando-a ainda mais amedrontada.

    Com as pernas trêmulas decidiu entrar e verificar pessoalmente o causador de sensações tão destacadas.

    Mulheres de vestidos longos finíssimos e saltos agulhas desfilando elegância e riqueza pela escadaria fez Julia se lembrar de verificar sua aparência. Deu uns passos atrás procurando por sua imagem na vitrine de uma loja ao lado. O espelho refletiu uma mulher adulta de corpo definido, bem diferente da menina de dezesseis anos, magricela e com olhar amedrontado que chegou àquela cidade. Ma focando nos olhos, encontrava guardado aquele ar selvagem amedrontado e frágil da menina.

    - No fundo nada mudou, adolescente num corpo de mulher.

    Disse Julia pra si mesmo enquanto arrumava o cabelo.

    A aquela altura estava arrependida de ser tão distraída com a própria imagem. Usando um vestido floral, sandálias rasteiras, brincos médios e batom discreto, estava bonitinha, pronta para um passeio no parque, num domingo à tarde. Mas para uma festa daquelas...

    Sua prima era com certeza muito rica, o lugar era imponente, luxuoso e estava lotado. Por dentro era ainda mais atraente, beleza contrastando sofisticação e simplicidade; rústico e brilho, nude e vivacidade.

    Era um centro de vendas e exposições, onde se encontrava de tudo, restaurantes, lojas, centro estético, artes das mais variadas formas..., Julia nunca tinha visto nada parecido.

    Apesar do medo e tensão, tentou relaxar e curtir a noite com promessa de grandes experiências.

    Por um momento desejou que Anna estivesse ali para partilhar com ela aquela experiência.

    A livraria era futurista e os livros expostos de forma que pareciam voar. Julia pegou um que estava nos destaques. Grosso, capa áspera e escrito em alto relevo, letras lisas contrastando com a textura da capa: Livro da sensações.

    Ela saiu à procura de um cantinho para olhá-lo melhor e uma estante lhe chamou a atenção. Uma variação da luz por alguns segundos lhe deu a sensação de ter visto uma falha na parede. Detalhista como era, se aproximou e olhou mais de perto e percebeu um remendo, como se a parede estivesse inacabada. Aproximou-se ainda mais. Não havia parede, eram apenas cortinas de um material resistente, que deslizavam abrindo passagem para outro ambiente.

    “O permitido e o proibido definido apenas pela luz...”

    Julia estava perplexa, esperou um momento que ninguém estivesse olhando, passou por traz da estante, correu a cortina e chegou ao restaurante.

    “Em que mundo estou?”.

    Continuou por toda a galeria entrando de ambiente em ambiente.

    Estava pasma como os ambientes mesmo sem paredes eram personalizados, luz, cheiro, ventilação, tudo característico proporcionando sensações totalmente diferenciadas.

    Aquelas trocas tão rápidas e drásticas de sensações deixou Julia meio atordoada. Atravessou a parede para o lado, na vertical e se deparou com um local grande e arejado. Era um galpão, rústico e mal acabado.

    Assim era de fato a galeria, o resto era artifício para manipular os sentidos.

    “E conseguiram, lugar mágico, atraente e misterioso.”

    Julia olhou pra cima e viu que as telhas eram móveis e estavam abertas, permitindo que a brisa noturna trouxesse ventilação natural. Por isto, apesar de ser um ambiente fechado, estava bem arejado, sem a artificialidade do ar condicionado.

    Explorou todo aquele espaço. Quando ouvia passos de alguém, se escondia. Era interessante ver toda a galeria ali da área de serviço, era como ver o espetáculo pelos bastidores, sem luxo, e muito trabalho.

    Os funcionários que lá fora sorriam como que em um mundo encantado, simplesmente perdiam a magia ao atravessar aquelas cortinas, e as princesas davam lugar a gatas borralheiras, com aparência de cansaço. Cansadas certamente do teatro que eram obrigadas a representar lá fora.

    Voltou para o ambiente dos convidados e foi até os banheiros. Numa das portas estava escrito "banheiro quebrado, não entre".  Mexeu nas cortinas, e estas se abriu como se estivesse num conto de fadas.

    “Que perigo”

    Pensou enquanto entrava.

    O banheiro era enorme. Se sentou num canto quase deitando-se, sem nem se preocupar com o fato de estar num banheiro. O peso do livro já estava fazendo doer seus braços.

    Apreciou por mais um tempo a capa do livro, e depois o abriu. Uma onda de sensações levou Julia para aquele ambiente imaginário... a textura da folha, o cheiro, a cor, tudo atraia-a para o mundo do personagem. Chamava-se Rodrigo.

    Começou a ler.

    Estava mais que só sentindo, ela vivia o que Rodrigo vivia, aliás, ela se relacionava com ele.

    Sentia-o a meia luz, alto, moreno, atraente, sussurrando aquelas coisas lindas e provocantes ao seu ouvido.

    -Meu Deus, que livro é este!

    As palavras eram reduzidas, mas recheadas de emoções. Cada vez que virava a folha, mudava o sentimento, e com ele também o cheiro, a textura, a cor, e uma nova emoção tomava conta de Julia.

    Era transportada para outro mundo, como se estivesse com ele na praia, fechasse os olhos e abrisse numa festa, e depois num jantar a luz de velas, diante de um perigo eminente e em tantas outras experiências que era melhor nem dizer.

    Às vezes ela sentia o coração batendo forte, a respiração ofegante, as pernas trêmulas..., ela já não diferenciava seus sentimentos dos sentimentos do personagem.

    O medo, a fome, o desejo, a paixão eram dela, como se tivesse roubado do personagem. Ou seria o contrário. A verdade é que Julia estava se sentindo viva como nunca, capaz de amar, desejar, se entregar...

    -Chega!

    Continue lendo no próximo post:
    Livro das sensações- parte 2
  • Lua branca

     Oh lua branca!
     Traz de volta meu amado.
     Que vagueia por esses pastos.

     Ele não me ama.
     Ele não me quer.
     Mas eu o amo.

     Oh lua branca!
     Mensageira.
     Leva isso a meu amor.
     Que nunca foi meu.

     Ele rejeita minhas doces palavras.
     Queima minhas cartas.
     Oh amor traiçoeiro!
     Queria que fosse recíproco.

      E agora eu olho para as meninas que o rodeiam.
     Tão belas e sorridentes.
     Amores de verão.
     Pobre de mim! A poeta. Que nunca prestaram atenção.
     
  • Me Espera

    Eu queria ter te dito
    mas estava com o coração doído
    eu me sentia tão bem
    com você aqui ? não sei

    parecia estar perdido
    ou em outro mundo distinto,
    tentando não lembrar
    sem querer outra vez me apaixonar

    não sei se é apenas uma distração
    ou algo mais que tenho em meu coração,
    esse seu olhar tão lindo
    achei que havia esquecido...

    (pré refrão)
    quase me perdi em tantos dias e sinto que não vivi nada sem você,sem você...

    (refrão)
    me espera,
    me deixa te dizer,
    o quanto senti sua falta
    o quanto eu quero você!

     

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