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  • Elleanor - conto/ficção

    elleanor02
    natal
    A traição será Vingada!

    ano:2019
    gênero: Fantasia / ebook
    autor: Marcos dos Santos
  • Em nome do pai

    - Ê vício maldito, hein?! – Diz um segurança a uma garota de programa que está na porta de um bordel segurando um cigarro enquanto atira fumaça para o alto depois de uma tragada.
    Seu nome é Francine, 21 anos, cabelos compridos e loiros, corpo magro e seios pequenos. Faz a vida para sustentar a dela, uma maldita vida de puta. Francine olha pra trás e responde:
    - Essa é a única coisa boa que a vida de puta da pra gente, o prazer de fumar um cigarro depois de uma boa trepada.
    O segurança ri quando ouve a resposta de Francine.
    - E sem nenhum chato pra te azucrinar, não é mesmo?
    - Como não tenho? E você, seu chato?!
    Os dois caem na gargalhada. Mas a alegria dura pouco. Frequentadores de uma igreja vizinha passam e olham para Francine, vestida apenas com um short curto preto e um sutiã vermelho de renda cobrindo os seios. Uma mulher vestida com saia azul marinho e camisa abotoada até o pescoço dispara:
    - Pervertida, pecadora, merece ir para o inferno!
    Francine enfurecida não deixa por menos.
    - Vá a merda sua crente filha da puta!
    Enfurecida a mulher para, vira de costas e mostrando a bíblia fala:
    - Eu vou fazer de tudo pra tirar esse antro de perdição daqui. Não é certo um... um....
    - Puteiro? É isso que a senhora tá querendo dizer? – Completa Francine.
    A mulher decide ir embora, Francine termina o cigarro, joga a bituca no chão e atravessa a avenida. Chegando ao ponto de ônibus ela tira o celular do bolso e começa a digitar. Distraída não percebe a aproximação de um rapaz montado em uma bicicleta e continua digitando, quando de repente o telefone é tirado de suas mãos.
    - Filho da puta!                   
    Seu coração dispara por causa do susto. Trabalhava por aquelas bandas há anos. Por tantas vezes presenciou gente sendo roubada, apanhando, mas nunca pensou que um dia poderia ser a vez dela, mas a hora dela havia chegado.
    E não demorou muito para os curiosos aparecerem, principalmente pessoas da igreja vizinha do bordel onde Francine trabalhava.
    - Tudo bem com você, moça? – Perguntou um homem, todo vestido num terno azul marinho.
    Francine, sentada em um banco levantou a cabeça um pouco, viu o rosto do homem de relance.
    - Tô sim, obrigada.
    O homem estendeu a mão para ela, mas Francine não o cumprimentou, pois viu que ele segurava uma bíblia em sua mão direita.
    - Há, me desculpe. Meu nome é Ezequias Custódio.
    Para não parecer chata Francine apertou a mão de Custódio, um pouco sem graça.
    - Há, meu nome é Francine. – Disse ela.
    Conversaram por alguns minutos até o ônibus de Custódio chegar e ele ir embora. Francine ficou pensando o porquê de aquele homem ter tradado ela tão bem. No dia seguinte dentro de seu quarto no bordel, ela ajeitava as coisas. Calcinhas estavam espalhadas pelo chão, sutiãs jaziam pendurados na cabeceira da cama e preservativos usados esparramados pelo chão, uma verdadeira usina de sujeira dentro do local de trabalho de Francine.
    2
    Custódio vestia sua farda de policial. Na cintura um cinto prendia o coldre onde ele guardava um revólver, tinha também as algemas, um cassetete e um frasco pequeno contendo spray de pimenta, essas eram suas armas no combate contra o crime. Saia de casa todos os dias bem cedo e junto de outro parceiro de farda fazia rondas por um bairro pobre da cidade. À noite, logo após o termino do expediente trocava a roupa de policial pelo terno e gravata, e substituía as armas por uma bíblia com capa de couro.
    O culto era sempre cheio. Homens, mulheres e crianças, todos de pé e de braços erguidos para o céu gritavam glórias e aleluias a cada frase gritada a plenos pulmões por um pastor que andava de um lado para o outro do púlpito, a camisa social ensopada de suor; e quando tudo acabava, as pessoas pouco se importavam com a camisa empapada e o abraçavam e como retribuição ele as abençoava, dizendo “deus vai te dar a vitória, é só você crer”.
    E Custódio gostava da bondade do pastor, do seu jeito com as crianças e isso o fez lembrar a esposa, falecida há pouco menos de três meses.
    - Tudo bem, Custódio? – O pastor tocou em seu ombro, em seguida os dois trocaram um afetuoso aperto de mãos.
    - Culto abençoado pastor Cláudio. – Falou Custódio.
    - Verdade.
    E ficaram os dois em pé conversando, eis que dona Matilde surge.
    - Oi pastor, posso falar com o senhor?
    Cláudio pede licença e olha para Matilde que não está com a cara muito boa. Custódio sai da igreja.
    - Oi irmã, o que deseja? – O tom de voz de Cláudio era um balsamo.
    Exaltada, Matilde começou a falar:
    - Eu exijo que o senhor expulse esses pecadores aqui do lado.
    Ele arregalou os olhos:
    - Como assim expulsar? Não entendo?
    - Ora, não seja tão ingênuo. Não passam de pecadores pervertidos, eles desonram o nome do senhor Jesus.
    O pastor segura uma das mãos de Matilde.
    - Matilde, eu também não concordo com as práticas dessa gente, mas quem sou eu pra julga-los.
    - Não seja tão...
    - Tão o que?
    - Deixa pra lá, eu mesmo darei um jeito de tirar esse bordel daí.
    Quando chegou a casa, Custódio tomou um banho, vestiu seu pijama e foi se deitar. Deitado na cama virou para o lado viu metade da cama vazia, era ali que sua finada esposa dormia.
    3
    Já era madrugada quando Francine entrou no quarto com seu último cliente daquela noite. Tratava-se de um homem gordo, vestido com calça jeans e camisa xadrez, seus cabelos penteados para trás tinham um aspecto sujo, além do cheiro forte que deixou Francine nauseada. Ela odiava aquilo, mas não havia alternativa. Lentamente foi tirando a roupa. O homem deitado na cama foi arrancando os sapatos e as meias e atirando para o lado, em pouco menos de dois minutos ele estava nu, a barriga escondendo o órgão genital flácido. Mesmo contrariada ela montou em cima daquele homem e ao se aproximar dele não foi capaz de suportar o cheiro que ele exalava, era de cerveja barata, a porcaria da cerveja servida como cortesia aos homens que frequentavam o bordel.
    Nem pensou duas vezes e de lá saiu, andou nua pelo corredor onde ficavam os quartos. Desanimada encostou-se à parede e foi deixando o corpo cair; sentada chorou com as mãos escondendo o rosto. O homem ainda com o genital flácido saiu segurando as roupas debaixo do braço; irritado, passou na frente de Francine jogando uma nota de cem na cara dela.
    - Toma aqui sua vagabunda. – Já com as calças vestidas ele desceu as escadas, e soltando uma variedade imensa de palavrões foi embora.
    Não demorou muito para Quitéria, a dona do bordel, surgir e ir tirar satisfação com Francine.
    - Que porra aconteceu? – Quitéria era uma mulher linda apesar da idade avançada, tinha os cabelos loiros e bem compridos, as pontas eram enroladas. Seu rosto era arredondado e com traços bem definidos.
    Francine respirou fundo, e ao mesmo tempo em que tentava se acalmar ela buscava explicações.
    - Eu não aguentei o cheiro dele, me desculpa.
    Quitéria colocou as mãos na cintura e caiu na gargalhada.
    - Vá se fuder Francine. Não querer dar pra um cliente por causa do cheiro dele é o cúmulo. Agora some da minha frente, acabou por hoje, amanhã bem cedo à gente conversa melhor, preciso recepcionar os outros clientes.
    Francine nada falou e saiu andando.
    4
    No dia seguinte quando o sol entrava pela fresta da janela, Francine despertou; de banho tomado e, trajada com uma calça e uma camiseta, desceu as escadas em direção à cozinha. Quitéria e as outras meninas estavam em volta de uma mesa, todas sentadas, a dona do bordel no centro. Na mesa pães, bolo, xícaras fumegantes cheias de café e um pote de manteiga aberto com uma faca sem ponta apoiada nele.
    - Bom dia. – Disse Francine, no entanto, ninguém respondeu. Era como se ela fosse uma estranha ali dentro. Francine olhou ao redor e percebeu olhares acusadores para com ela, por isso resolveu sair dali.
    Na rua, carros e gente passando de um lado para o outro; no alto um céu azul e o sol brilhando com força. Foi à praça para distrair a cabeça e pensar na vida. Sentou em um banco e acendeu um cigarro, deu uma baforada e com o cigarro entre os dedos relaxou. Por algumas horas não teria preocupações, não precisaria dar satisfações para ninguém, e isso deixava ela aliviada. Odiava trabalhar naquele bordel, mas não tinha alternativa, era ali que ela tinha uma cama para dormir e um prato de comida. Por tantas vezes arrumou suas coisas com a certeza de ir embora de lá, mas desistiu ao perceber que sem experiência não conseguiria trabalho e por consequência viveria nas ruas, igual àquelas pessoas que perambulavam pela praça onde ela ficava por horas para tentar se distrair de sua vida tão cruel.
    Cigarro findado, jogado no chão. Levantou-se e saiu andando. Atravessou a rua e voltou ao bordel, ao entrar deu de cara com Quitéria, essa sentada em uma cadeira.
    - Onde a senhorita estava?
    - Na praça, por quê?
    - Por nada. É porque a senhorita tem deveres para com esta casa.
    - Peço desculpas.
    -Ok, pode ir.
    Depois disso o restante do dia transcorreu normalmente. Quando a lua empurrava o sol para o seu lugar de descanso, as meninas, incluindo Francine, se arrumavam para mais uma noite. Francine, sentada em frente ao grande espelho de seu quarto, penteava os cabelos, passava pó no rosto, em seguida cobriu os lábios com batom vermelho bem forte. Depois de maquiada faltava apenas se vestir. Do guarda-roupa ela tirou um short minúsculo, uma mini blusa com rendinhas em volta do pescoço e completou tudo com um salto alto.
    Ao descer para o salão principal chamou a atenção de todos, Francine estava deslumbrante, nem de longe parecia à moça frágil que recusou um cliente por causa do cheiro dele. Quitéria a viu e foi em sua direção.
    - Você está muito linda Francine!
    A moça sorriu agradecida. Em seguida foi para o bar e ali ficou olhando os homens e sendo admirada por eles; e não demorou muito para um deles se aproximar, pegar na mão dela e os dois subirem para o quarto. Enquanto subia as escadas de braços dados com o homem um sorriso radiante iluminava seu rosto.
    5
    Entre glórias e aleluias, em meio a uma igreja completamente tomada, o pastor Cláudio gritava a plenos pulmões para uma multidão ensandecida. Homens, mulheres e crianças; todas com as suas melhores roupas, mas com seus rostos de fisionomia humilde, cada um em busca da salvação divina.
    Cláudio era um sujeito simples. Em suas horas vagas trabalhava com representante comercial. À noite pegava seu carro e partia rumo ao bairro da Lapa, na zona oeste da cidade de São Paulo, lá, ele pregava todos os seus conhecimentos a respeito da palavra de Deus. No início poucas pessoas se espremiam em um espaço pequeno, com o tempo o número de frequentadores foi aumentando; tudo isso fez Cláudio buscar por um local maior. Foi aí que ele mudou de endereço, a Rua Scipião foi à escolhida e um salão enorme foi alugado. A reforma foi bancada graças às doações dos fiéis, no entanto uma coisa o incomodava. Ter um bordel bem ao lado não era nada bom, daria má impressão, principalmente quando as moças que lá trabalhavam saiam para a rua exibindo suas vergonhas em trajes minúsculos e provocantes. Confusões eram sempre comuns. Principalmente envolvendo dona Matilde, uma senhora que não gostava muito de falar de sua vida particular para os outros, e isso causava muita curiosidade dentre os demais seguidores do pastor Cláudio.
    Para resolver o problema o jeito seria ir até o bordel e conversar com a dona, mas a coragem sempre andou distante. Cláudio se recusava, e também proibia qualquer fiel de ir até lá. Confusões envolvendo fieis e frequentadores do bordel eram recorrentes. Por incontáveis oportunidades a polícia precisou intervir para que nada de mais sério acontecesse.
    6
    Mais um dia e lá está Francine, de cigarro enfiado entre os dedos e o pensamento há 300 km de distância. Pobre dela. Foi expulsa de casa pelo pai, logo após a morte da mãe. A coitada morreu de desgosto depois de ver a filha menor de idade deitada com um homem mais velho. E não era qualquer pessoa, se tratava do prefeito da cidade onde viviam. Para abafar a situação, e ao mesmo tempo não ficar mal falado, o pai resolveu botar a filha para fora de casa, só com a roupa do corpo, sem dinheiro e sem sorte.
    E Francine pousou em terras paulistanas; magra de doer os ossos e com o rosto maltratado, nem parecia ser a menina cheia de sonhos, de 16 anos, que havia feito a maior besteira de sua vida, deitar-se com um homem mais velho. Mas ela não teve culpa, e quem iria acreditar nela? Para todos, ela não passava de uma vagabunda mentirosa. Apesar de tudo, Francine alimentava dentro de si um sonho, o de reencontrar o pai e ter o perdão dele, mas ela achava isso impossível.
    Terminou o cigarro, e acendeu mais um logo em seguida. A noite anterior tinha sido excelente, oito homens haviam ido se deitar com ela, um recorde para uma menina tão tímida igual ela. Era grata a Quitéria por tudo. Numa noite qualquer, um frio danado e uma garoa fina; deitada na entrada de uma loja de roupas dormia profundamente; não percebeu os passos que se aproximavam dela, e acordou assustada quando sentiu a mão de alguém tocando em seu ombro, era Quitéria. De cabelo loiro e sobrancelha fina, calça jeans colado no corpo e a boca se movimentando num ritmo frenético, ela mascava chiclete.
    Francine não entendeu nada. Principalmente quando a mulher sentou-se ao seu lado e lhe ofertou um cigarro, ela que nunca tinha botado nada ilícito nos lábios teve sua primeira vez e depois daquela noite nunca mais largou.
    Foi convidada a morar no bordel. Teria cama limpa, roupas cheirosas, comida e banho e uns trocados, mas em troca teria de se deitar com os homens que frequentavam o lugar. De pronto recusou e saiu andando, arrastando um cobertor velho. Quitéria sabia no fundo do coração que aquela menina de cabelos loiros e lisos e rosto angelical não resistiria a maldade das ruas por muito tempo e mais cedo ou mais tarde procuraria por ela.
    E não deu outra. Quase um mês depois, magra e com os olhos afundados num principio de caveira, Francine apareceu; batendo em sua porta e pedindo por comida. Dentro do bordel, Francine comeu euforicamente o arroz com feijão que estavam em seu prato; depois lambeu o prato passando a língua pelas beiradas. Ao ver isso uma das meninas comentou:
    - Se faz isso com um prato, imagina com uma... – E não completou, pois foi interrompida por outra.
    - Deixa a menina em paz.
    Com 16 de idade ela não poderia se prostituir. Claro que isso sempre acontecia. Meninas menores de idade, tantas mais novas que Francine, que povoavam as ruas do centro da cidade em troca de dinheiro por minutos contados de sexo sem proteção. A solução encontrada por Quitéria foi colocar a menina em outros afazeres. Era obrigação de Francine, lavar, passar e servir as moças; comia o que sobrava e quando não restava nada, vivia com água e um pedaço de pão duro, mas não ligava, apesar da humilhação.
    Quando alcançou a maioridade se deitou com o primeiro cliente. Depois de terminar e ver o homem fechar a porta, sentou na cama e cobrindo o corpo com o lençol sujo, chorou feito uma criança.
    7
    Mais uma ronda finalizada. Custódio correria para casa e trocaria seu uniforme cinza de policial pelo paletó e gravata; substituiria o revólver, o cassetete e as algemas pela bíblia. Como de costume, antes de sair olhou mais uma vez para a cama, o lado vazio onde a mulher dormia; o remorso invadindo e remoendo tudo por dentro. Lá fora mais aliviado, Custódio caminhava apressado pela calçada, seu destino seria a igreja. Ao chegar lá, buscou seu lugar de sempre, na terceira fileira, a quinta cadeira da direita para a esquerda, e ali se sentou. Pegou a bíblia apoiada no colo e abriu em uma página qualquer, leu um salmo e sentiu-se mais calmo, aliviado, pois sabia que Deus estava com ele.
    Na hora da entrada do pastor a igreja ficou em êxtase, todos de pé aplaudiam seu grande líder. Subindo ao púlpito, de microfone na mão direita ele saudou seus fieis.
    - Boa noite irmãos! Uma salva de palmas para o senhor Jesus!
    E todos aplaudiram. Uma avalanche de glórias e aleluias pôde ser sentido, mais entusiasmo por parte dos crentes. Após o fim do culto, Custódio, como sempre fez, foi falar com Cláudio. Contou do seu dia de trabalho nas ruas, dos meninos usando drogas e das meninas ainda sem peitos que riam feito loucas com uma garrafa de vinho nas mãos.
    - Elas parecem perdidas, Pastor. É como se aquilo, aquele líquido fizesse delas...
    - Não é errado beber, sabia disso? Mas no caso delas, pelo que me descreve, são menores de idade, e isso é crime. Como policial era seu dever impedir isso.
    - Mas eu, mas eu...
    Cláudio botou as mãos sobre os ombros de Custódio e o olhou bem nos olhos.
    - Não precisa dizer, eu sei. Você já me contou a sua história. Da morte da sua esposa e do seu problema com a bebida.
    Em meio às lágrimas Custódio tentou falar:
    - Eu sinto muito, muito mesmo.
    Então os dois se abraçaram. Tudo ficou mais calmo.
    - Vá para casa, descanse. Amanhã vai ser outro dia.
    E lá foi Ezequias Custódio, policial, viúvo e sem filhos. Teria uma menina se não fosse o acidente. A esposa estava gravida de meses, mas o destino infelizmente não permitiu.
    8
    Custódio e Francine eram tão parecidos, porém, tão diferentes um do outro, isso em diversos aspectos. Ela, uma garota de programa, expulsa de casa pelo pai; ele, policial militar e viúvo. A igreja que ele frequentava é vizinha do bordel onde Francine, em seu quarto, atendia aos homens da cidade. Deus traz paz para Custódio, enquanto o bordel parece ser a porta de entrada do inferno para Francine.
    Cruzaram-se uma única vez, após ela ter o celular roubado. Ele, como policial, ofereceu ajuda, ela negou. Dias e noites se passaram e eles não se viram mais, no entanto isso estava muito próximo de acabar.
    À tarde caia para a entrada da noite. Francine emburrada andava pela praça de cigarro entre os dedos, enquanto Custódio andava por ali também, mas com a bíblia na mão, dois mundos opostos. Um minuto de distração de ambos, um esbarrão. Os dois ajoelhados no chão de folhas da praça, olhares trocados, de repente uma surpresa.
    - Eu te conheço? – Perguntou Custódio, pegando a bíblia e sacudindo-a para limpar a poeira.
    Francine se lembrou dele na hora, mas segurou a resposta.
    - Acho que sim, só não sei da onde?!
    Custódio abriu um sorriso amarelo.
    - Você é a moça que teve o celular roubado no ponto de ônibus na semana passada.
    - Há é mesmo.
    - Tá fazendo o que por essas bandas? – Perguntou Custódio.
    Ela ia dizer que trabalhava no bordel, mas quando viu o livro sagrado nas mãos dele, pensou e ao olhar para a farmácia logo ao fundo respondeu.
    - Eu trabalho naquela farmácia ali. – Disse ela apontando para frente da loja.
    Ele olhou de relance. Mas seus olhos estavam fixos em Francine.
    - Quer tomar alguma coisa?
    Ela pensou por um momento, mas recusou.
    - Hoje eu não posso, marquei com uma amiga e estou esperando por ela. – Mentiu. O cara simpático iria odiar se ela dissesse a verdade.
    Ele sorriu, sem graça.
    - Tudo bem, não tem importância. Eu vou indo, tenho culto hoje, lá naquela igreja ali. – Disse Custódio mostrando a igreja.
    Francine olhou para a fachada da igreja quase as gargalhadas. A fachada era feia e sem graça, um letreiro velho e torto, com luzes que mal ficavam acesas. Já a entrada do bordel era um convite ao pecado; luzes coloridas e um vermelho gritante, além das moças que ficavam do lado de fora chamando os homens que por ali passavam. Francine saia raras vezes para a rua durante o serviço. Na maioria do tempo ficava dentro do salão, e também no quarto de paredes de pelúcia. Era ali o seu refúgio, um quarto simples e aconchegante, onde os homens a possuíam e na maioria das vezes ela possuía aqueles homens.
    9
    Os meses foram passando e os encontros entre Francine e Custódio tornaram-se cada vez mais comuns. Não, eles não combinavam tão pouco marcavam horário. Acontece que existia uma espécie de conexão entre ambos, um fio condutor que uniam eles num elo que só algo ruim pudesse desatar.
    Francine estava sentada num dos bancos da praça, era temporada de festa junina e bandeirinhas coloridas estavam penduradas; o cheiro de pipoca podia ser sentido do outro lado da rua e crianças acompanhadas de seus pais corriam desembestadas atrás sabe se lá o que. Custódio chegou como sempre, vestindo um terno, de gravata presa ao pescoço e com a bíblia de capa e folhas surradas, um sinal de que era muito bem usada. Quando avistou Francine ele acenou discretamente. Ela devolveu o aceno de forma tímida, seu rosto corou instantaneamente. Nem parecia a moça que cavalgava sobre os homens que frequentavam o bordel, a impressão naquela hora era de ser uma menina quase que virgem, de atitudes puras, e isso para ela estava de bom tamanho, não queria passar apuros perto daquele homem.
    A aproximação foi retraída. Ele e ela se olharam, se estudaram e resolveram trocar um abraço sem muita pretensão. Custódio sentiu os seios delas tocando seu corpo, ela sentiu o membro de Custódio se elevar numa breve excitação. Francine teve vontade de rir, mas se conteve; jamais poderia imaginar que um crente ficasse de pau duro, ainda mais um com cara de coitado.
    - Tudo bem com você? – A voz de Custódio saiu tremida. Parecia constrangido.
    - Eu vou bem e o senhor? – Disse ela.
    O silêncio e um sorriso foram sua resposta.
    - Foi boa a igreja ontem? – Ela questionou.
    Custódio botou as mãos nos bolsos da calça e olhou triunfante para a fachada de igreja.
    - Foi uma benção. Há, você tem um tempinho?
    - Pra que? – Ela quis saber.
    - Tomar um suco, um refrigerante, sei lá. Eu não bebo e...
    Ela sorriu.
    - Tá legal, eu vou com você, mas precisa ser rápido.
    E lá foram os dois. Francine entrelaçou seu braço no dele e sentiu ele se arrepiar por inteiro. No bar sentaram em uma mesa e fizeram o pedido a um a garçom com cara de mal humorado. Ela bebia um suco, ele dava goles numa lata de refrigerante de embalagem verde enquanto conversavam.
    Custódio contou de sua vida, da vida de policial e da vida de viúvo. Do acidente que matara a esposa e do vazio que sentia toda vez que ia se deitar e percebia que o lado direito da cama estava desocupado. Por outro lado, Francine omitiu parte de sua história. Contou da mãe que morreu e do pai que a expulsou de casa, porém, não deu mais detalhes, e tão somente não contou sobre o bordel, continuou com a história da farmácia. Também mentiu dizendo que morava num minúsculo apartamento no centro da cidade e que dividia as despesas com uma amiga. Ele acreditou.
    Ao terminarem as bebidas ambos se levantaram. Ele foi até o caixa e pagou a conta, pegou dois doces, um ele deu para ela, o outro ele enfiou no bolso esquerdo da calça. Quando mordeu o doce, Francine indagou:
    - Ué, não vai comer o seu?
    - Sim, mas só depois do culto, aliás, quer ir comigo?
    Francine pensou por um instante. Ela gostaria de pelo menos conhecer, mas justamente naquele dia não seria um bom momento. O bordel estaria cheio e ela precisava se apressar, se arrumar, ficar pronta para a noite.
    10
    Francine se espreguiçou e esfregou os olhos com as costas das mãos logo após acordar. A noite anterior tinha sido fantástica, muitos homens, mas um, que não esteve em sua cama, não saia de sua cabeça, seu nome era Custódio. Um policial viúvo, evangélico, um ser humano educado, humilde e bastante tímido. Bem diferente de todos aqueles homens que iam ao bordel exigir sexo forçado sem um pingo de amor para com ela.
    Tomou o café da manhã sozinha, a mão no queixo sustentando a cabeça; na pia uma pilha de louças a serem lavadas, claro que seria tarefa dela, pois tinha sido a última a acordar. Vestindo um roupão roxo e sem maquiagem surge Quitéria, a dona do bordel.
    - Tá com a cabeça nas nuvens Francine? – Pergunta a cafetina.
    Francine olha de canto de olho e responde:
    - Não senhora, só ‘tava’ pensando.
    - Em algum homem? – Insiste Quitéria.
    - Não senhora.
    - Tem certeza? – O tom da voz da cafetina era mais forte.
    - Absoluta.
    Feito um bicho acuado, Francine recua e abaixa a cabeça. Como uma cobra perto de dar o bote em sua presa, Quitéria ataca.
    - Não minta pra mim! – Grita Quitéria. – Ao perceber que poderia estar sendo observada por alguma das outras meninas ela abaixa a voz. – Escuta aqui. Eu vi a senhorita de conversa com um homem ontem à tarde. – Disse ela aos sussurros, enquanto segurava os cabelos de Francine.
    O homem era Custódio, frequentador da igreja vizinha ao bordel. E Francine sentia, para a infelicidade dela, estar apaixonada por aquele sujeito. Vida desgraçada de puta! Não se pode apaixonar tão pouco sentir o coração bater mais forte por alguém, que surge alguma coisa para destruir tão nobre sentimento. E a culpa disso tudo era dela e não somente dela; tinha o pai, maldito, filho da puta. Que meteu a filha, coitada, para fora de casa, que a fez sem alternativa ir para um bordel imundo. Sua vontade, apesar dos pesares era rever o pai, ter seu perdão e isso valeria como um alento em sua vida tão sofrida.
    Mas quem poderia ajudá-la? A polícia? Nem a pau! Não entraria em uma delegacia nem fudendo. Seria tratada feito um animal quando dissesse sua profissão, garota de programa, ou puta, para a grande e esmagadora maioria. A solução seria contar a verdade para Custódio, no entanto, como ele reagiria? Ouviu os insultos de Quitéria, engoliu tudo a seco, levantou, pegou a xícara que usou para beber café, colocou dentro da pia e se retirou.
    11
    Custódio saiu da igreja tarde da noite, o paletó aberto e a gravata afrouxada, aparentava cansaço. Ficou na igreja ajudando Cláudio e outros homens na manutenção do salão. A pintura descascada e a iluminação precária e um vazamento incomodava a todos os frequentadores. Dona Matilde era a que mais se queixava. Reclamava da cor desbotada das paredes, das goteiras que caiam sobre os fieis e da incapacidade dos homens em buscar melhorias para a igreja.
    Cláudio estava sem paciência com ela. A mulher que em nada ajudava e só criticava, atrapalhava os planos de expansão da igreja. O grande sonho do pastor era prosperar. Fazer a sua humilde comunidade crescer e render frutos, mas para isso precisaria do apoio de todos. Matilde surgiu pela primeira vez na igreja numa tarde ensolarada de domingo. Vestia saias até os joelhos e uma camisa de botão fechada até o pescoço, uma sombrinha de estampa vermelha, a mesma cor das paredes do bordel, protegia aquela mulher, de cabelos desbotados, do sol.
    Nessa tarde a igreja estava tomada de gente, a grande maioria de pé. Matilde entrou fazendo pose, de peito estufado, um ar de arrogância, uma petulância assustadora. Todos se voltaram para ela, nem as palavras acalentadoras do pastor Cláudio eram suficientes. Matilde fechou a sombrinha, guardou-a em uma bolsa e pediu para que uma moça sentada em uma cadeira se retirasse, pois uma dama igual a ela não poderia ficar ali em pé, seus calcanhares doeriam, e a moça de cara fechada obedeceu àquela ordem um tanto contrariada.
    E lá ficou Matilde, em silêncio e sentada, assistindo ao culto; vendo com seus olhos acusadores o vai e vem histérico do pastor. Quando o culto chegou ao fim, Matilde encaminhou-se em direção ao pastor.
    - Posso te dar um abraço? - Ela pediu.
    De sorriso nos lábios, Cláudio respondeu:
    - Mas é claro, mas qual é seu nome?
    - Meu nome é Matilde. – Ela respondeu enquanto abraçava Cláudio.
    O perfume forte deixou Cláudio zonzo.
    - É um enorme prazer receber a senhora na nossa humilde igreja. – Disse ele.
    Matilde olhou tudo com cara de nojo, mas ficou quieta. Não queria parecer antipática no meio daquela gente. O tempo foi passando e ela acabou tornando-se uma pessoa influente dentro da igreja. Era a responsável pela organização de campanhas, festas para arrecadação de fundos, dentre demais atividades. . Quando ela se botava a frente de algo, nem mesmo o pastor Cláudio poderia intervir.
    A vida de dona Matilde era um verdadeiro mistério. Alguns diziam se tratar de uma mulher rica, outros diziam que a mulher era uma maluca que aterrissou por aquelas bandas para nunca mais sair. Na verdade nem uma coisa nem outra. Matilde, por muitos anos trabalhou no bordel vizinho da igreja fazendo programa, mas quem poderia suspeitar?
    12
    A delegacia de polícia parecia ser um lugar assustador. Dois policiais fardados e de braços cruzados na altura do peito estavam na entrada do distrito. Na parte interna um policial conversava com um casal, a mulher visivelmente desesperada tentava argumentar, mas o guarda se esquivava.
    Francine entrou na delegacia. Vestia uma calça justa que marcava seu corpo e tinha os cabelos amarrados com um rabo de cavalo, todos notaram de pronto sua presença. Ela dirigiu-se até uma mesinha, nela estava sentado um homem que quando a viu arregalou os olhos.
    - Moço eu preciso de uma informação. – Disse Francine timidamente.
    Os olhos do policial se voltaram primeiramente para os seios dela.
    - Você pode fazer o boletim de ocorrência pela internet. – Disse o policial.
    Francine começou a ficar nervosa.
    - Não moço, eu não vim aqui pra fazer nada disso. Só tô aqui porque eu quero encontrar meu pai.
    Era visível o desinteresse do policial pelo assunto.
    - Há é? Ele sumiu quando?
    - Acho que há cinco ou seis anos. – Disse ela.
    O policial saiu detrás da mesinha deu a volta por trás de Francine e apontou os olhos para as nádegas da garota.
    - Peraí! Só agora que a senhora vem comunicar um desaparecimento?
    As mãos de Francine tremiam. Como ela contaria para aquele homem fardado que tinha sido expulsa de casa pelo pai, logo após ter sido pega na cama com o prefeito da cidade onde morava? Sem saber o que fazer e com lágrimas querendo brotar um choro amargo ela correu. O guarda nada fez além de ajeitar o pênis na calça e dizer para o colega do lado.
    - Se ela me chupasse eu a ajudava a achar o papaizinho dela. – Falou enquanto ria.
    Francine correu em meio aos carros, quase foi atropelada, ouviu gracejos e xingamentos; sentou na beira da calçada e chorou igual a uma criança. O rosto borrado, a maquiagem escorrida nos olhos, o cabelo solto e desgrenhado numa vida desgraçada. Levantou e saiu andando, os passos sem destino, a vida sem propósito, a morte parecia ser a única solução.
    Na ponta da plataforma da estação de trem ela ficou, parecia hipnotizada. Quando a composição chegou foi levada por uma multidão de animais humanos, mas conseguiu se desvencilhar. Plataforma vazia, mais um trem surgindo, passo a passo foi se aproximando da beirada, o vento do vagão que se aproximava balançou seus cabelos, finalmente Francine encontraria a paz.
    A cabeça doeu com a pancada na parede. Alguém a empurrou e a livrou do livramento, Francine estava viva e em choque. Urubus curiosos, armados de celulares piscavam seus flashes acusadores para os olhos da menina, que indefesa recuava e se encolhia feito um animal assustado.
    13
    Meses se passaram e finalmente a igreja teve sua reforma concluída. Graças à colaboração de seus frequentadores, com dinheiro e mão de obra, a igreja do pastor Cláudio foi enfim reinaugurada. A pintura era nova, do lado de fora um azul bem clarinho, na parte interna, paredes brancas com detalhes bem bonitos, desenhos de Jesus Cristo espalhados pelas paredes mostravam passagens importantes da bíblia; as cadeiras de plástico tinham sido substituídas por cadeiras confortáveis de estofado azul escuro. O púlpito era maior e mais espaçoso, Cláudio poderia se movimentar bastante; até o sistema de som que vivia falhando foi consertado, tudo estava maravilhoso.
    Emocionado, Cláudio agradeceu a todos. De pé encostado num canto Custódio aplaudia. Matilde sentada bem na frente observava cada movimento com bastante atenção. Cada fiel demonstrava uma reação, muitos choravam, tantos sorriam, e no fim de tudo, todos mostravam o quanto Deus pode ser maravilhoso na vida da gente.
    - Agradeço primeiramente ao nosso senhor Jesus Cristo. – Disse Cláudio ao iniciar seu discurso de agradecimento. – Agradeço a cada um de vocês. – Cláudio apontava para os seus seguidores enquanto falava. – Por terem dado um pouquinho da contribuição de vocês, seja com dinheiro ou com trabalho. Se não fosse pelo esforço de cada um, tenho certeza de que esse dia nunca teria chegado. Olha que belo trabalho nós fizemos nessa igreja. – O tom de voz de Cláudio aumentava cada vez mais, até diminuir num sussurro de gratidão. – Obrigado Jesus, nós te louvamos.
    14
    Matilde deixou a igreja antes do restante das pessoas. Do lado de fora ajeitou a alça da bolsa no ombro direito, ergueu o corpo roliço e passou a andar. Poucos passos depois e ela para na frente do bordel. Cospe no chão e passa a sola do sapato de salto alto para disfarçar, porém, não dá tempo. Quitéria estava ali, na porta de seu estabelecimento, de braços cruzados olhando o movimento da rua, dos carros que passavam de um lado para o outro, da fumaça dos ônibus e do barulho ensurdecedor das crianças que brincavam na praça sob os olhares atentos de pais, mães e avós.
    Matilde baixou a cabeça e buscou esconder o rosto quando percebeu de quem se tratava. Quitéria ergueu o pescoço e puxou na memória quem era aquela mulher. Na hora veio à lembrança de uma mulher de corpo bonito, seios grandes e rosto milimetricamente desenhado, seu nome era Matilde, a mulher que ela tinha conhecido dentro daquele bordel. Matilde era uma das moças mais requisitadas, chegando a atender a três clientes de uma só vez; era insaciável sexualmente.
    Matilde. Cinquenta e três anos de idade, metade da vida foi puta, metade da vida de puta foi uma verdadeira filha da puta.
    - Quanto tempo Matilde, lembra-se de mim? – Perguntou Quitéria.
    Matilde olhou para os lados, sua cabeça mexia de um lado para o outro, parecia perdida, na realidade, ela estava mais do que perdida. Toda a farsa apresentada dentro da igreja estava indo aos poucos por água abaixo. Ela não respondeu, sustentou o silêncio, segurou a vergonha, e suportou a urina que ameaçava descer pelas pernas.
    - Porra Matilde, sua filha da puta! Você some, não dá mais as caras. O que aconteceu contigo?
    - Eu, eu não conheço você criatura do demônio. – A voz de Matilde era um fio de quase nada, ela não saia. Ela não sentia medo, só não queria ter seu passado revelado para o resto dos irmãos da igreja.
    Homens e mulheres, todos bem vestidos foram se aproximando; eles comentavam sobre a reforma da igreja. Matilde tentou em vão se esconder, mas já era tarde. Seus irmãos a olharam, incrédulos com a cena que ali se desenhava. Quitéria apenas sorria timidamente tentando controlar o riso.
    - Como não conhece Matilde. Tu trabalhaste nesse bordel há muitos anos. O povo aqui precisa saber o quanto você era requisitada.
    A multidão se fez em volta cercando Quitéria e Matilde.
    - Você é uma louca! Você está falando o nome do senhor Jesus em vão e isso é pecado. - Diz Matilde.
    Quitéria se enfurece:
    - Eu não mencionei o nome de deus, sua louca! – Vociferou Quitéria.
    Finalmente o barraco estava armado. De um lado do ringue, representando a impureza estava Quitéria, do outro, Matilde, a representante da moral e dos bons costumes; a pessoa que desejava fechar as portas do bordel.
    - Eu vou mandar derrubar essa espelunca! – Falou Matilde, apontando para a entrada do bordel.
    Quitéria riu alto.
    - Não vai não, Matilde. Você pode ter engordado, ficado com a pele enrugada, deixado de se maquiar igual a uma puta, mas você tem o cheiro desse lugar.
    - Não diga blasfêmias sua pecadora. – Rebateu Matilde.
    Custódio e Cláudio assistiam incrédulos. Dentro do bordel as meninas ouviam a discussão. Trancada em seu quarto, Francine observava tudo pela fresta da janela. Como ela poderia imaginar, que a senhora encrenqueira, que adorava uma confusão, xingar as meninas, era na verdade uma ex garota de programa.
    A confusão foi se estendendo. Insultos eram atirados. O furdunço só teve fim quando o Pastor Cláudio interveio.
    - Parem! – Disse ele calmamente.
    Quitéria recuou, entretanto, Matilde avançou acertando um tapa do lado direito do rosto de Quitéria que nada fez, apenas botou a mão no rosto vermelho. Os dedos de Matilde ficaram marcados na face da dona do bordel. A dona do bordel, nada fez, ficou quieta, pois imaginava quais seriam as intenções daquela mulher. Conhecia seu instinto vingativo, seu caráter duvidoso e o quanto ela seria capaz para destruir o seu negócio. Sim, o bordel era o sustento dela, mas não só dela; lá moravam muitas meninas, a maioria expulsa de casa pelas famílias e encontradas nas ruas. Era naquele lugar de paredes de cores berrantes, de quartos simples, porém, aconchegantes que elas dormiam e trabalhavam.
    - Eu vou acabar com você! – Gritou Matilde. Aqueles que a conheciam se assustaram com o seu comportamento.
    Cláudio se aproximou dela e a pegou levemente pelo braço.
    - Venha comigo Dona Matilde, por favor. – Exigiu Cláudio.
    A multidão foi se dispersando. Quitéria voltou para o bordel, o coração pulando no peito e lágrimas escorrendo em seu rosto, a raiva era enorme. Cláudio e Matilde caminhavam em direção à igreja. Lá dentro os dois teriam uma conversa esclarecedora.
    15
    - Por que fez aquilo Matilde? – Questionou Cláudio, em pé, enquanto Matilde sentada bebia um copo d’água, sua respiração era agitada.
    - Eu só reclamei daquele lugar, nada mais.
    - Como nada mais? Eu presenciei grande parte da discussão sua com aquela mulher.
    - Ela é uma pecadora e pecadores merecem ir para o inferno! – Matilde estava tensa, seu olhar demonstrava isso.
    - Não diga uma coisa dessas. E me responda uma coisa. Como ela te conhece?
    Dizer ou não a verdade, era isso que estava deixando Matilde insegura. Entrou na igreja para se livrar de seu passado tenebroso, para aparar as arestas que a vida havia lhe deixado. Deus seria a chave para a sua salvação, no entanto, ela teria que omitir sua vida de outrora.
    - Eu só estou aqui porque fiz muita coisa errada na minha vida passada.
    Cláudio nada disse, apenas olhava nos olhos de Matilde.
    - Eu trabalhei por muitos anos nesse bordel, muito antes daquela mulher assumir o lugar. Pra ser sincera, nós duas éramos as mais requisitadas pelos homens, todos eles queriam ir para o quarto com a gente.
    - Você trabalhava como garota de programa nesse bordel, é isso? – A voz de Cláudio era calma.
    Matilde abaixou a cabeça por um momento, levantou em seguida. A vontade de chorar era imensa, mas ela prometeu a si mesma que não derramaria nenhuma lágrima por causa de seus erros.
    - E por que você quer destruir esse lugar, me diz? – Perguntou Cláudio.
    - Eu ia ser a dona dessa espelunca.
    - Por que não foi?
    - Fiz besteira.
    - Pode me dizer de que tipo?
    - Não vem ao caso.
    - Como não? Se quiser tanto o perdão de Jesus, você precisa abrir o seu coração e admitir seus erros.
    - Jesus Cristo não perdoaria uma ex puta.
    - Como não?! E Maria Madalena? Não se recorda da história?
    Matilde sorriu timidamente.
    - Claro que eu me lembro, mas casos são casos.
    Cláudio segurou as mãos de Matilde e atentamente ouviu o relato daquela mulher. Ela que se portava como uma pessoa dura, sem sentimentos e de coração de gelo, se tornou alguém completamente diferente.
    - É algo muito grave. Você deve se arrepender muito desse seu ato?!
    - Há momentos em que eu me arrependo sim, mas não em outros eu não me importo.
    - Você mexeu com a vida de pessoas, Matilde.
    A senhora olhou para Cláudio como se suplicasse por algo.
    - Então deus não vai me perdoar?
    - Sim, ele vai te perdoar, porém, o perdão principal vem de dentro da gente. Diga-me uma coisa. Você se perdoaria por esse erro?
    A voz de Matilde ficou embargada. Parecia que algo ruim estava prestes a sufoca-la.
    - O que eu fiz foi repugnante.
    - Sim, foi asqueroso ao extremo, mas já foi. Se permita perdoar, se permita aceitar seu erro e permita-se ser uma pessoa diferente.
    - Mas e esse bordel?
    - Esqueça esse lugar. Deixa essas mulheres viverem a vida delas.
    - Tudo bem. Agora vamos indo, já está tarde. – Disse Matilde levantando e buscando lá no fundo da alma um breve traço de um sorriso.
    16
    Mais um dia que se inicia e Francine desperta. Parece ter pressa. Sai da cama e veste-se da melhor maneira possível, a impressão é de que vai se encontrar com alguém especial. Na porta do bordel ela observa o movimento da rua, espera o farol fechar para em seguida atravessar. Fica zanzando pela praça, dessa vez sem cigarros. De propósito ela os esqueceu na cabeceira da cama, queria pelo menos por aquele dia sentir-se limpa. Nada do cheiro maldito de nicotina em suas roupas, muito menos as manchas amareladas nas pontas dos dedos. Sua intenção era tornar-se uma pessoa melhor.
    Sentou em um banco da praça e ficou admirando as crianças que balançavam para cima e para baixo. A lembrança do pai veio à tona como um furação que chega e destrói tudo. De vestido rendando, Francine sorria. Seu pai a empurrava no balanço, os cabelos loiros iam contra o vento. Ela tinha só sete anos de idade, era feliz, vivia em uma família harmoniosa, mas a vida fez o favor de acabar com tudo. Maldita vida.
    Levantou do banco, meteu as mãos nos bolsos do casaco e andou. Uma paisagem de portas de botecos, igrejas e puteiros, somado aos sons dos carros, e caminhões que por ali passavam. O cheiro de esgoto, da comida dos restaurantes de esquina, essa era o retrato feio e cruel do buraco onde ela havia se metido, distante, mas muito afastado de onde ela viera.
    Entrou numa sorveteria e um minuto depois saiu de lá com uma casquinha, creme e flocos eram seus sabores favoritos. Como foram bons seus tempos de criança. Da mãe que tudo lhe dava, do pai amoroso e das brincadeiras de infância.
    Enquanto caminhava pela calçada, uma viatura da polícia passava vagarosamente, Custódio estava ao volante. Os dois se cruzaram, entretanto, não se notaram. Francine estava mesmo decidida a mudar o rumo de sua história. Ele esperaria a primeira oportunidade e revelaria toda a verdade, cruel e triste de sua vida.
    17
    Quitéria aparentava irritação, andava pelo bordel para lá e para cá, parecia perdida. Ouviu alguém bater palmas e chamar do lado de fora, lá da rua; estranhou na mesma hora, pois não era o dia de medirem a luz ou a água. Prendeu os cabelos no alto da cabeça, ajeitou a saia e foi em direção à porta. Sempre foi costume de ela olhar pelo olho mágico, mas nesse dia ela não fez. Uma por uma foi destravando as trancas, abrindo as fechaduras e botando os cadeados de lado. A porta foi abrindo aos poucos, a claridade do dia ofuscou a vista já cansada. Do lado de fora em pé de sorriso encabulado no rosto estava Cláudio, o pastor da igreja vizinha do bordel.
    - Bom dia senhora! – Disse ele timidamente.
    Só podia ser um sonho. Não podia ser possível, o dono da igreja frente a frente com Quitéria, a dona do bordel.
    - Bom dia! – Quitéria respondeu. – O que o traz aqui? – Questionou a cafetina.
    - Bem, só vim aqui lhe pedir desculpas pelo ocorrido, a Matilde...
    - A Matilde quer acabar com o bordel, eu sei, não precisa vir me dizer.
    Quitéria foi entrando. Enquanto começava a puxar a porta para ser novamente trancada um impulso surgiu de não se sabe onde e Cláudio segurou as mãos dela.
    - Não é nada disso. Ela me contou o porquê da briga de vocês e que se arrepende muito.
    - Pastor, o senhor acredita nessa mulher? Eu não sei quanto tempo ela frequenta a sua igreja, mas eu a conheço faz mais de trinta anos. Eu sei muito bem do que ela é capaz.
    - Eu entendo, mas as pessoas podem mudar, ou a senhora não acredita nisso?
    - Acredito e muito, mas existem casos e casos. O da Matilde, por exemplo, é um caso perdido.
    - A senhora sabe que o poder da oração pode libertar as pessoas de erros do passado?
    - Sim, eu vivo rezando. Não é porque eu seja uma cafetina, uma puta de profissão, que eu não acredite em deus, pelo contrário, rezo todas as manhãs e a noite após concluir o serviço. Peço proteção a mim e as minhas meninas e oriento que elas façam o mesmo, mas a Matilde, não dá. Desculpe-me.
    A resposta de Quitéria foi arrebatadora. Cláudio se calou e ficou parado na frente dela. A cafetina só observava o jeito do pastor e também não falou nenhuma palavra, aquilo que precisava ser dito já estava de bom tamanho.
    - Mais uma vez eu lhe peço desculpas. Prometo que nunca mais a Matilde, e nem ninguém da minha comunidade irá importunar o seu...
    - Bordel. – Completou Quitéria.
    - Exato, o seu bordel. Tenha um bom dia, passar bem. – Disse o pastor acenando com a cabeça e se retirando logo em seguida.
    Quitéria parou por um instante na cozinha. Algumas meninas limpavam o recinto, uma lavava a louça, uma varria o chão, e duas conversavam.
    - As duas aí. – Disse ela apontando para as duas moças de cabelo preto. – Vão se mexer ajudar no serviço, ou vão continuar de fofoquinha? – Bradou a proprietária do bordel.
    As moças pararam na hora e saíram. Cada uma foi para um canto.
    - Eu não quero ouvir futrica aqui dentro, deu pra entender?
    Quitéria começou a subir as escadas que levavam até os quartos.
    - E a Francine? Alguém a viu?
    Uma das moças, a que varria o chão respondeu.
    - Dona Quitéria, eu a vi saindo hoje cedo, só não sei pra onde ela foi.
    Quitéria ficou em silêncio, subiu mais alguns degraus, parou, apoiou uma das mãos no corrimão, virou-se lentamente e olhando pra menina disse:
    - Quando ela chegar faça o favor de manda-la para os meus aposentos. Entendeu?
    -Entendi sim senhora. – Respondeu a moça.
    Quitéria abriu a porta do quarto, era enorme e bastante confortável. A cama era de casal enfeitado com lençóis de seda e diversos travesseiros faziam parte da decoração. Deixou o corpo cair e relaxou fechou os olhos e em poucos segundos estava dormindo.
    18
    Meses se passaram. No bordel o movimento de sempre. Lá dentro homens bebendo, dançando e se divertindo, meninas seminuas fazendo a alegria dos rapazes. Na igreja, pessoas em pé, tantas ajoelhadas, muitas pediam, outras agradeciam. Pastor Cláudio de microfone na mão gritava ensandecido. Braços levantados, olhos fechados, expressões de fé rabiscadas em rostos humildes.
    No dia seguinte, Francine e Custódio se encontram mais uma vez. Ela decidida a pedir ajuda, ele, a convida-la para ir junto dele a igreja. Foram no mesmo bar do primeiro encontro. Sentaram quase que na mesma mesa e beberam o suco e o guaraná de lata verde. Sorriram um para o outro, dessa vez menos encabulados, o clima parecia ser melhor naquela noite.
    - Me surpreendi com o teu convite Francine. – Falou Custódio mostrando realmente estar surpreso com a situação.
    - De eu ter te convidado para bebermos alguma coisa?
    - É.
    Ela sorri levemente.
    - Mas isso não tem nada de mais, não é mesmo?
    Custódio leva à lata de refrigerante a boca e da um pequeno gole.
    - Não, nem um pouco. Mas me diga, por que estamos aqui? – Quis ele saber.
    Daí deu um nó na garganta. Uma vontade desgraçada de falar, de confessar os erros, mas como? Falar para um cara que ela estava completamente apaixonada por ele, que ela era uma puta? Nem morta! Isso iria estragar tudo.
    - Eu preciso te contar uma coisa. – Ela disse. – Sua voz era fraca, por isso Custódio não conseguiu compreender; o barulho da rua atrapalhava bastante.
    - Pode repetir?
    - Eu preciso te contar uma coisa! – Repetiu Francine, elevando a voz, mas principalmente seu espírito.
    Pegaram um na mão do outro. Uniram-se num só laço.
    - Me diz o que você precisa?!
    Então ela contou toda a verdade, a realidade dela. Da expulsão de casa, do flagrante com o prefeito, da vida nas ruas e do recolhimento por parte de Quitéria e do emprego como prostituta no bordel. No rosto de Custódio nada além de indignação, ele fora enganado. Traído por uma puta pecadora. Uma mulher que vende seu corpo, algo sagrado, para o divertimento de homens mais pecadores ainda.
    Afastou sua mão da mão dela como se afastasse de um inseto repugnante.
    - Afaste-se de mim! – Custódio se levantou. Francine ficou parada, o rosto sem nenhuma reação. No bar todos olhavam para os dois, muitos gargalhavam. A maioria dos homens ali dentro era de frequentadores do bordel, muitos haviam se deitado com Francine.
    Custódio se sentiu humilhado. Nem mesmo a dor da morte da esposa fora capaz de superar tamanha vergonha.
    - Me perdoa Custódio! – A voz dela era carregada de dor e sofrimento.
    Custódio saiu do bar abalado pelas mentiras, atormentado pelas risadas e confuso pela vida que estava levando, sim, ele era um maldito pecador. Vagou pelas ruas sem destino, sentia no fundo d’ alma todos debochar dele. Que burro ele foi; de acreditar na inocência, na pureza de uma moça que de pura nada tinha. Sentou na beirada de uma calçada, olhou para cima e no relógio de rua mostrava que estava atrasado para mais um culto, não iria, estava sem vontade e morto por dentro.
    19
    No dia seguinte com o coração cheio de ódio Custódio foi se consultar com o pastor Cláudio. O pastor notou no semblante do amigo que algo de muito grave havia acontecido.
    - Vamos, me diga o que te aflige meu irmão.
    Por onde começar? Contar que conheceu Francine após sair de um culto, depois de ela ter sido assaltada? Falar das mentiras dela, do trabalho na farmácia, dos convites recusados de ir com ele a igreja? Da vida dela de prostituta? Ou da sujeira que ele sentia dentro dele?
    - Eu tô confuso, Cláudio. Eu acho que pequei.
    - Pecou? O que fez. Diga-me?!
    Ajeitou a manga da camisa, olhou de relance para o teto, retomou o olhar para Cláudio com um nó na garganta.
    - Eu me apaixonei por uma garota de programa. – Disparou Custódio.
    - Você não está frequentando este...
    Antes que Cláudio pudesse completar, Custódio o interrompeu.
    - Bordel? Não, pastor. Eu nunca entrei nesse lugar. Nem nos meus tempos de bebedeira. Nunca tive coragem, não sei explicar.
    Cláudio parecia atordoado, por isso resolveu sentar.
    - Como você conheceu uma prostituta se nunca entrou lá? – Disse o pastor apontado para o lado da parede que correspondia ao bordel. – Poderia me explicar.
    Custódio também sentou. Ele e Cláudio ficaram frente a frente. Ele buscando as palavras certas, Cláudio parado apenas observava interessado.
    - Uma noite, logo após o final de mais um culto eu estava indo embora quando vi essa moça gritando. Na verdade ela falava palavras que não posso dizer aqui. Ela havia acabado de ser assaltada, e....
    Cláudio completou:
    - E como você é um policial, sentiu-se no dever de ajudar, é isso?
    - Exatamente. Aproximei-me dela ofereci ajuda, no entanto, ela recusou.
    - Só não entendo como pode ter se apaixonado por essa moça. O nome dela, qual é?
    Custódio prendia as lágrimas dentro dos olhos, não queria chorar na frente do amigo.
    - Ela se chama Francine, pastor. – Respondeu ele com a voz trêmula. – Eu a encontrei algumas vezes ali na praça. E tentei ser gentil. Eu também a convidei para sair.
    - Vocês saíram juntos?
    - Fomos apenas até a lanchonete central e lá tomamos apenas uma bebida.
    - Espero que nada alcoólico. – Falou Cláudio.
    - Não senhor. O que eu faço? Diz-me?
    - Bem. O que eu vou dizer pode parecer um absurdo. Mas vamos lá. Perdoe essa moça, a...
    - Francine.
    - Sim, perdoe a Francine. Seu coração está cheio de ódio, e o nosso senhor, não gosta desse tipo de sentimento. E tem mais. Seus olhos brilham cada vez que você pronuncia o nome dessa mulher.
    Custódio estava embasbacado com as palavras do pastor.
    - Mas ela é uma prostituta...
    - Sim, ela pecou e peca cada vez que se deita com um homem. Mas deve ter um motivo. Você conhece a história dessa moça?
    Custódio não pode segurar a emoção.
    - Ela me disse que saiu de casa. Foi expulsa pelo pai.
    - Sabe o motivo?
    - Ela disse que se deitou com o prefeito da cidade e...
    - Realmente essa moça está cheia de pecados, mas todos nós merecemos uma segunda oportunidade. Se essa moça quer mesmo se libertar desse passado e dessa vida, ela precisa aceitar a Jesus Cristo.
    Os dois ficaram de pé.
    - Ajude essa moça. Vá com jeito. Ouça o que ela tem a dizer. Coloque na balança e pese as consequências.
    - Obrigado Cláudio. Não sei como lhe agradecer.
    - Não precisa. Vá e procure essa moça.
    20
    - Tá chorando porque Francine? – Perguntou uma das moças que moravam no bordel junto com ela.
    Francine não respondeu, subiu correndo as escadas que levavam em direção ao quarto de Quitéria que dormia. Quitéria tomou um susto quando ouviu as pancadas na porta.
    - Eu já falei que não era para me incomodar. – Gritou Quitéria ainda deitada em sua cama.
    Mas as batidas na porta não paravam. Então ela se levantou, vestiu o roupão roxo que estava pendurado num mancebo. Ao abrir a porta se deparou com Francine; os olhos de um sombrio medonho.
    - Mas o que foi que aconte....
    Não deu tempo de ela terminar. Francine entrou com tudo no quarto de Quitéria. Lá dentro a cama desarrumada, lençóis jogados de um lado da cama, travesseiros espalhados pelo chão.
    - A gente precisa conversar. - O tom da voz de Francine era carregado, dando a impressão de que uma tonelada estava em seu peito.
    Quitéria com cara de poucos amigos bateu a porta com força, o barulho foi tão forte que as meninas que estavam na parte de baixo do bordel se assustaram.
    - Ultimamente você só tem me dado problemas mocinha.
    Francine anda dentro do quarto para lá e para cá, as mãos se movimentando loucamente.
    - O homem, aquele que você me viu junto com ele. – Francine iniciou seu relato. Era possível notar em seu tom de voz um coração carregado de amargura.
    - O que tem o homem de terno?
    - Eu me apaixonei por ele e...
    Quitéria cruzou os braços, a cara dela não era nada boa.
    - Não vai me dizer que você engravidou desse cara?
    - Não, nem rolou nada. Ele é muito tímido. Vive falando da esposa falecida.
    Quitéria sentou na beirada da cama e chamou Francine para fazer o mesmo.
    - Senta aqui, deixa eu te contar uma história. – Falou a cafetina.
    Então Francine sentou, ao sentar pode sentir a maciez do colchão, o perfume forte de Quitéria e percebeu como eram bonitos os moveis do quarto. A penteadeira com detalhes pintados em branco, o enorme espelho na horizontal. Prestou atenção a cada palavra, ficou surpresa algumas vezes, se emocionou em diversas oportunidades e pode constatar que a sua história de vida e de sua patroa eram bastante semelhantes.
    - Eu nunca imaginei que a senhora tivesse sido expulsa de casa assim como eu fui. – Disse Francine.
    Quitéria sorriu.
    - Não somente eu. Converse com as meninas, muitas foram colocadas para fora de suas casas. Você foi expulsa, pois foi imprudente, eu também fui. Agora eu tô aqui, nesse lugar. Não faço mais programa, mas o quarto em que você leva os homens, no passado, era eu quem usava.
    As duas se levantaram e se abraçaram.
    - Eu não sabia que a senhora... – A voz de Francine era carregada de emoção e não por menos, Quitéria também derramou suas lágrimas.
    - Olha aqui pra mim, mocinha. Você gosta mesmo desse crente aí?
    - Eu acho que sim. – Disse Francine, um sorriso contornava seu rosto.
    - Então não perca tempo, vá atrás desse homem.
    Francine deu um beijo na bochecha de Quitéria e saiu correndo pelas escadas. Ao chegar à parte de baixo do bordel um corredor formado pelas outras meninas a aplaudia, Francine estava indo em busca de seu grande amor.
    21
    Quando Francine saiu do bordel o sol já estava se pondo. Aos poucos alguns comércios iam fechando, pessoas iam para o ponto de ônibus aguardar a condução e a praça começava a ser habitada por moradores de rua e casais apaixonados. Calmamente caminhou até a praça. Chegando lá se encostou a uma árvore, tirou o maço de cigarros de dentro da blusa, tirou um, acendeu e jogou fumaça para o alto. Fumou um cigarro inteiro, quando foi pegar mais um, sentiu a mão de alguém tocar de leve seu ombro.
    Ela sabia de quem se tratava, mas não teve coragem de se virar para olhar. O coração disparado parecia querer sair pela boca.
    - Francine, nós precisamos conversar. – Disse Custódio, num tom de voz bastante grave.
    Ela aos poucos foi virando o corpo, relaxando e acalmando o coração.
    - Eu sei. – Ela disse.
    Os dois em pé. Ele de terno, ela de vestido, ambos numa tensão assustadora.
    - Vamos sentar. – Sugeriu Custódio.
    Francine foi à frente, Custódio foi logo em seguida, sentaram quase que ao mesmo tempo. A principio não se olharam, e também não se falaram, mas alguém tinha o dever de quebrar essa barreira.
    - Por que mentiu pra mim? – Indagou Custódio.
    - Vergonha. – Respondeu ela. – Quando te vi com esse livro na mão, logo pensei que seria rejeitada se dissesse a verdade.
    - Eu não a rejeitaria.
    - Como não?! – Quando te falei da minha vida você simplesmente pediu que eu me afastasse e eu não posso me afastar de você, Custódio.
    - Eu também não posso me afastar de você, Francine. Eu te amo!
    Os olhares de Custódio e Francine se encheram de um brilho forte e bonito, suas faces coraram, os dois riam.
    - Eu também amo você. – Disse ela.
    Então os dois se abraçaram. Sentados em um dos bancos da praça conversaram e se acertaram. Francine continuaria no bordel, porém, não se deitaria mais com outros homens, já Custodio:
    - Eu vou procurar e encontrar o seu pai, pode acreditar em mim. – Prometeu o policial.
    Quando a lua finalmente surgiu, eles se beijaram. Depois de muitos anos de beijos sem paixão, de sentimentos não compartilhados, finalmente Francine sentia-se verdadeiramente amada, e isso para ela era mais do que suficiente.
    22
    A única informação que Custódio possuía era um nome. Nada de foto, tão pouco endereço. Francine não se lembrava do nome da rua onde viveu até os dezesseis anos, antes de ter sido metida para fora de casa pelo pai. Dentro da delegacia, o policial Custódio começou a investigar, o nome, José, era muito comum; quantos ‘Josés’ existiriam no Brasil, inúmeros, mas um José da Silva, nem se fala, eram muitos.
    Vestido a paisana pegou o carro, um emprestado de um amigo da polícia. Contou toda a história ao colega de farda e esse se dispôs a ajudar, a ajuda veio através do empréstimo do veículo.
    De sinto de segurança colocado ligou o carro, pisou no acelerador e sentiu o ronco forte do motor novo em folha. O veículo era simples, mas seria o ideal para tão nobre missão. Saiu da delegacia em direção à terra natal de Francine, lá procuraria por José da Silva, o pai da moça.
    Chegando a cidade estranhou a calmaria. Na rua poucas pessoas, carros também, só alguns, a maioria bem velhos. A calçada era habitada por cadeiras de vime onde senhoras sentavam em rodas, fofocando e fazendo tricô. A cidade tinha uma praça onde homens de cabelos de cor de algodão jogavam dominó e cartas. Quando Custódio surgiu na cidade com o carro, de óculos escuros e observando tudo, todos voltaram suas atenções ao forasteiro.
    As crianças pararam de jogar bola, as bonecas das meninas foram deixadas de lado e até as senhoras jogaram suas linhas e agulhas no chão para ver quem era o intruso.
    - Esse povo é muito esquisito. Parece até que ninguém entra nessa cidade, parecem isolados do mundo. –Pensou ele.
    Foi devagar com o carro, olhando para os lados, prestando atenção em tudo. Não notou nada de diferente, nenhum rosto ali se parecia com o de Francine, claro, a moça não falou com quem se parecia, por isso a tarefa parecia ser mais complicada ainda.
    Parou o carro na frente de uma casa de portão de madeira, o portão não tinha pintura. Desceu do carro. Dentro da casa havia uma senhora, aparentava ter mais de oitenta anos de idade, estava sentada numa cadeira de balanço. Quando Custódio caminhou na direção do portão de pronto a mulher se levantou. Era uma senhora de estatura baixa, magricela, e com poucos fios de cabelo em sua cabeça. Seus olhos eram de um azul forte, escuro, impactantes. Apoiada em uma bengala desceu os três degraus de escada que tinha na frente da casa, encostou-se no portão, deu uma ultima olhada em Custódio e disse:
    - E você meu rapaz. Quem é você? – Questionou ela, de olhar desconfiado.
    Encabulado Custódio sorriu antes de dar sua resposta.
    - Oi, meu nome é Ezequias Custódio, pode me chamar de Custódio, se quiser. Eu estou aqui à procura de uma pessoa, José da Silva, a senhora o conhece?
    Por milésimos de segundos o ar faltou, o mundo girou, e senhorinha não foi ao chão graças às mãos espertas de Custódio que a seguraram.
    - A senhora o conhece? – Ele quis saber.
    Com bastante dificuldade e as mãos trêmulas a mulher abriu o portão. Com o auxílio de Custódio subiu as escadas. Já dentro da casa Custódio sentou em um sofá de dois lugares, enquanto a mulher se acomodou em uma cadeira. A casa simples tinha cortinas nas janelas, vasos de plantas espalhados pela casa, um tapete amarelado no chão e as paredes tinham a pintura descascada, mas dava para se notar um resquício de tinta verde claro.
    - A senhora conhece José da Silva? – Perguntou Custódio. Ele não queria demonstrar empolgação, mas seu coração pulava no peito.
    A mulher ficou em silêncio por um bom tempo. Ela não ia falar, era perda de tempo. Custódio já se preparava para ir embora quando finalmente a velha abriu o bico.
    - Espere meu jovem. Não vá. – Ela disse.
    - Desculpe, mas eu pensei que não diria nada e eu não posso perder meu tempo.
    - Sei disso. Antes de qualquer coisa eu gostaria de saber como está a minha neta.
    Custódio tomou um susto quando ouviu a palavra neta. Como poderia imaginar encontrar a avó de Francine.
    - Ela está bem. – Ele respondeu.
    - Meu nome é Mercedes, sou a mãe da Adelina, a mãe da Francine.
    Custódio sorriu.
    - Eu tô conhecendo a avó da Francine, não posso acreditar. – Disse ele.
    Com bastante dificuldade a senhora se levantou, apoiada nos móveis foi em direção a um cômodo escuro, minutos depois retornou. Debaixo do braço trazia um caderno grosso, na verdade era um velho álbum de fotografias.
    - Tome, aqui tem várias fotos da minha neta.
    Custódio pegou o álbum e posicionou no colo. A cada página virada uma surpresa. Viu muitas fotos da pequena Francine, de cabelos loiros e sardas salpicadas nas bochechas. Francine sempre sorria nas fotos. Em uma delas, ela sorria nos ombros de um homem, ao lado desse homem havia uma mulher.
    - Esses aqui devem ser os pais da Francine. – Falou Custódio, apontando o dedo para a foto.
    Mercedes forçou a vista cansada para ver melhor aquele retrato.
    - Sim, o José, minha filha e a minha neta.
    Dava pra notar no semblante cansado da senhora toda frustração por uma vida.
    - Perdi minha filha. Morreu de desgosto, coitada.
    - A senhora poderia me contar o que aconteceu? – A cara de Custódio era de apreensão.
    Mercedes se levantou mais uma vez. Ela deu alguns passos e parou diante de um retrato pendurado na parede, na foto havia uma mulher com uma criança pequena no colo. A mulher tinha os cabelos presos, enquanto a criança de cabelos soltos exibia orgulhosa um sorriso banguela de janelas para o mundo, a criança era Francine.
    - A Francine sempre foi à alegria da casa. Minha filha teve uma gestação complicada, por pouco não perdeu a menina. Minha neta nasceu prematura de quase sete meses e por um tempo lutou pela vida. Eu não me esqueço do dia que ela finalmente saiu do hospital. Minha filha com ela nos braços, meu genro ao lado dela todo sorridente, mas não um sorriso de felicidade, mas um como sinal de alívio.
    Custódio apenas prestava atenção na história. Mercedes continuou.
    - Francine cresceu forte, sem sequelas e rodeada de amor. Era tratada como princesa, porém quando cresceu as más companhias...
    Mercedes puxou uma cadeira e sentou. Era perceptível o cansaço dela.
    - Ela tornou-se uma menina desobediente, malcriada e respondona. Sei que são coisas da idade. Todos nós passamos por essa fase da vida. Corpo mudando, hormônios aflorando, corações batendo mais forte, o amor...o maldito amor. A pior decepção da minha filha foi ter visto a Francine na cama com o prefeito. Ok, o cara era um verdadeiro filho da puta, mas minha neta não era inocente e se deixou levar pela lábia daquele homem.
    - Eu não entendo porque ela foi expulsa. – Falou Custódio.
    Mercedes sorriu irônica.
    - Minha filha saiu de lá desesperada. Correndo sem rumo, gritando feito uma louca pela rua. O resultado disso foi a minha filha se jogar na frente de um carro e tirar a própria vida, coitada. – Lágrimas escorriam nas faces rugosas de Mercedes. – Que desgosto, meu deus, que desgosto.
    Cada palavra saída da boca de Dona Mercedes parecia com uma faca atingindo o coração. Dor insuportável, dor imperdoável, sofrimento que não cabe no peito de tão ruim. Francine errou, sim, bastante, mas merecia uma segunda chance. E era isso o que Custódio gostaria de dizer.
    - Dona Mercedes. Eu entendo a dor da senhora. Eu sei como é. Perdi minha esposa há pouco tempo, por minha culpa; mas graças ao amor de Cristo eu encontrei um novo caminho, e...
    A velha teve vontade de rir, mas conteve-se.
    - Amor de Cristo. Se esse tal de Jesus amasse a todos realmente, ele não teria levado minha filha de mim.
    Na parede da casa outro retrato. Francine e o pai, sentados lado a lado.
    - Ele foi crucificado para nos salvar. Você não crê nisso?
    Mercedes parecia fraca, os braços enrugados e os olhos forçando a visão para enxergar mais longe.
    - Está me querendo ensinar a bíblia meu jovem?
    - Não senhora. Dias atrás meu pastor falou em perdão. Eu acho que você deveria perdoar sua neta.
    Mercedes foi se sentar, Custódio a acompanhou.
    - Se a ver, diga que eu a perdoo. E diga também, que essa velha está morrendo de saudade dela. E antes que eu me esqueça. – Mercedes tirou de dentro do sutiã uma medalhinha. – Está vendo isso, rapaz? – Diz balançando uma correntinha com um pingente em forma de cavalo.
    Custódio mexe a cabeça dizendo sim.
    - Era da minha filha. Desde o dia da partida dela eu carrego isso comigo. E tenho convicção de que isso deva ser entregue a minha neta. Você pode fazer isso?
    Mão de veias saltadas, pele amassada pelo tempo, olhos que enxergam com dificuldade. O pingente era passado das mãos de Mercedes para as mãos de Custódio.
    - Posso dar um abraço na senhora? – Ele pede.
    Mercedes abre os braços.
    - Pode.
    E se abraçaram. Custódio sentiu os lábios de a mulher encostar-se a seu rosto, num beijo molhado e frio, mas cheio de amor.
    - Agora vá conversar com o pai dela. Ela mora daqui a três quadras no número vinte e seis.
    23
    Duas noites mal dormidas. Noites em que Francine passou em claro. Noites em que Francine tinha outras funções dentro do bordel, duas noites de preocupação. Custódio estava longe. E a saudade aumentava cada vez mais. Além da saudade a angústia, o desespero. Ansiedade por saber se o amado tinha encontrado seu pai.
    Desceu as escadas que davam para o salão. Música alta, gente rindo. Enquanto descia, outras meninas subiam, elas acompanhadas, Francine sozinha. Quitéria se aproximou de Francine e perguntou:
    - Como está indo? – Ela queria saber do movimento, se os quartos estavam ocupados.
    - Todos os quartos estão cheios. – Respondeu Francine.
    As duas foram para um canto reservado no bordel.
    - Tá gostando da nova função?
    - Estou. Nunca pensei que fosse fazer isso por mim. – Agradeceu Francine.
    Quitéria segurou nas mãos de Francine.
    - Tenho você e as outras meninas como minhas filhas. Jamais vou deixar vocês desamparadas. Se não tem como satisfazer os homens, eu mudo de função. Eu mesma não entrei aqui sendo a dona.
    Um filme. Momentos bons e ruins. Das lágrimas escorrendo no rosto. Do sorriso de Custódio. A cara da mãe ao flagra-la com o prefeito. Da vergonha. Da morte da mãe e da expulsão de casa. Da vida no bordel e os vários homens com quem se deitou. Nenhum deles ela amou tão pouco desejou. E quando conheceu Custódio, mesmo com todas as barreiras, sentiu o coração bater de um jeito diferente pela primeira vez na vida, Francine estava apaixonada.
    - Nem sei como agradecer, Quitéria. Todos esses anos debaixo do seu teto.
    As duas se abraçaram e retornaram as suas atividades, Francine gerenciando as meninas, controlando o fluxo dos clientes que subiam para os quartos.
    24
    Francine desceu correndo as escadas quando ouviu o ensurdecedor barulho da buzina do carro que Custódio pegara emprestado de um amigo. Abriu a porta com rapidez, saiu na rua antes mesmo que o amado tivesse saído do carro. O rosto dele aparentava cansaço e a sensação de dever cumprido.
    - Oi amor! Tudo bem? – Dava pra notar a ansiedade e apreensão nos olhos de Francine.
    Os dois trocaram um abraço e um beijo.
    - Estou bem. Cansado demais. Sua cidade é muito longe menina, meu deus!
    - Encontrou meu pai? – Perguntou Francine.
    Silêncio. Custódio respira fundo. Parece ter uma tonelada de coisas para ser descarregada.
    - Precisamos ter uma conversa em particular. Não sugiro a igreja, pois você não entra lá...
    - Eu não sugiro o bordel, porque você também não entra aqui. Então vamos para onde?
    Custódio foi até o carro e abriu a porta do veículo.
    - Entre. Vamos para a minha casa.
    Francine entrou, fechou a porta do seu lado. Minutos depois já estavam no apartamento de Custódio. Lá ela sentiu uma coisa estranha. A decoração era simplista, um jogo de sofá rasgado, uma estante com uma televisão velha, cortinas sujas penduradas no teto e um tapete.
    - Nossa! Aqui tá precisando de uma faxina. – Comentou Francine.
    Custódio fechou a porta, andou até a cozinha, de lá tirou duas cadeiras e as colocou em um canto da casa.
    - Pronto. Sente-se aqui. – Disse ele mostrando a cadeira.
    Francine obedeceu.
    - Achou meu pai?
    - Achei.
    - Como ele está?
    - Bem. Com os cabelos mudando de cor e barba por fazer. Parece triste, aliás, ele é um homem amargurado.
    Francine abaixou a cabeça e num sussurro sofrível falou:
    - Isso tudo é minha culpa.
    - Concordo. Ouvi histórias e você, Francine, errou muito.
    Custódio se levantou, saiu de cena por alguns minutos e retornou. Tinha algo em uma das mãos, mas que Francine não conseguiu perceber o que era. Ao se aproximar dela, abriu a mão e fez surgir uma correntinha com um pingente em formato de um cavalo. Quando viu aquilo os olhos de Francine se encheram de um brilho nunca visto antes até mesmo por Custódio.
    - Sabe o que é isso?
    Francine tomou a correntinha nas mãos, acariciou o pingente e derramou uma lágrima.
    - Era da minha mãe! Essa correntinha pertencia a ela! Mamãe nunca tirava isso do pescoço.
    - Quem me deu isso foi a sua avó, Dona Mercedes. Você lembra-se dela?
    Antes de responder, Francine colocou a correntinha que pertencia a sua mãe em seu pescoço.
    - Claro que lembro! Os melhores momentos da minha infância eu passei na casa dela. Correndo no quintal, comendo os doces que ela mesma preparava, sorrindo e sendo feliz. E olha o que eu fiz da minha vida, Custódio. – Dava para notar a tortura na voz dela, o sentimento de culpa, de alguém que cometeu um erro quase que imperdoável.
    - Você gostaria de ver o seu pai?
    Com as costas das mãos Francine enxugava as lágrimas que escorriam em seu rosto.
    - Muito. Mas eu tenho medo de ele me rejeitar e...
    - Se você não ir, não vai ter como saber. Eu conversei por algumas horas com ele. Tive a oportunidade de conhecê-lo e saber a versão dele da história. Ouvi também a sua vó. Ela me contou da morte de sua mãe, mostrou fotos sua ainda criança ao lado dos seus pais. – Custódio segurou nas mãos da amada. – Se não fosse por suas atitudes, talvez você ainda estivesse ao lado deles.
    - Sim, mas o destino não permitiu isso. – Concluiu Francine.
    Os dois se levantaram. Francine ainda abalada com tudo, tentando por os sentimentos no lugar.
    - Quer ver o seu pai? Ou vai ficar naquele bordel remoendo as coisas?
    - Sim. Eu quero. – Ela respondeu.
    - Iremos à próxima semana. – Disse ele. – Se abraçaram e se beijaram, riram e foram para o elevador.
    25
    É noite. Francine está em seu quarto no bordel arrumando as malas. Custódio por sua vez está na igreja em meio a um culto, sentado na primeira fila, ao lado dele está Matilde com um ar sério.
    Enquanto Francine separa as roupas, Custódio dá glória a deus. Dali a poucos dias a vida deles seria transformada. Claro que seria um processo longo e demorado, principalmente para Francine, habituada a vida de pecado. Custódio tinha fé, e cria que ela em breve se tornaria também, assim como ele, uma serva do senhor.
    De mala posta sobre a cama, ela foi ajeitando cada peça com carinho. Botou calças, camisetas, meias e lingeries. As roupas minúsculas que usava nas noites do bordel seriam dadas de presente para as outras meninas, para ela só restariam às lembranças boas, e as noites de divertimento e principalmente a tristeza por ter feito o que nunca quis fazer.
    - Se quiserem se libertar, devem aceitar o senhor Jesus como o seu único salvador. – As palavras do Pastor Cláudio ecoavam pela igreja. Seria capaz, alguém, que vivia no pecado da carne, ser verdadeiramente libertada no amor de Cristo? Essas incertezas martelavam a cabeça de Custódio, que de olhos fechados suplicava por Francine.
    As malas já estavam fechadas, a cama já estava arrumada. Olhou para o guarda-roupa de portas de vidro pela última vez, passou os dedos pela pelúcia macia que revestia as paredes do quarto. A cama, coberta com um lençol vermelho, lotada de travesseiros foi cenário de noites loucas, noites intermináveis, noites em que rejeitou homens, que pertenceu a eles e em que foi a dona deles. Mas isso estava perto de um final feliz.
    O culto terminou com todos se abraçando e desejando a paz. Pastor Cláudio foi à direção onde estavam sentados lado a lado, Matilde e Custódio.
    - Obrigado pela presença de vocês. – Diz Cláudio para Custódio e Matilde.
    - Foi lindo, pastor. – Falou Matilde.
    - Concordo com a irmã Matilde. – Concluiu Custódio.
    Francine sentou em frente à penteadeira, o vidro enorme na horizontal e a imagem dela refletida. Tinha agora vinte e sete anos, completou anos a poucos dias, e estava feliz como há muito tempo não sentia.
    26
    O dia raiou e Quitéria acordou com o barulho de batidas na porta do bordel. Com certeza era Custódio vindo buscar Francine para leva-la embora. Levantou e vestiu o roupão de cor roxa. Desceu as escadas vagarosamente apoiando a mão esquerda no corrimão de madeira.
    Foi abrindo todas as trancas, parecia satisfeita. No momento que a porta foi aberta algo surpreendente deixou a dona do bordel sem reação; na sua frente estava Matilde, de saia até os joelhos e com uma camisa abotoada até o pescoço.
    - Se você veio aqui pra tentar me prejudicar, saiba que eu...
    Matilde tentava olhar para dentro do estabelecimento.
    - Vivi muita coisa aí. – Disse Matilde.
    Quitéria virou o rosto para trás.
    - Pois é, vivemos.
    As duas ficaram ali sem falar nada, só pensando. Recordando os momentos dentro daquele lugar, das brigas, dos puxões de cabelo e do reencontro das duas após muitos anos de distanciamento. Nunca foram amigas, elas se odiavam, no entanto, um dia, um acerto tinha de ser feito entre elas.
    - Posso entrar? – Pediu Matilde.
    - Eu não posso crer que você queira entrar aqui depois de todos esses anos. – Era visível a surpresa de Quitéria com o pedido de Matilde.
    - Pois creia Quitéria. Hoje eu enxergo esse lugar como um antro de pecado e perdição, mas eu vim daí. Fui puta. Levava vários homens de uma só vez para o meu quarto, mas me arrependi. Errei ao condenar você e as meninas.
    A escuridão do local ofuscou um pouco a visão de Matilde acostumada com o sol do paraíso, estranhou a penumbra assustadora do universo pecaminoso da prostituição.
    - O bar, o lustre, as mesinhas. Tudo continua igual. Só mudaram algumas coisas. – Disse Matilde.
    - Verdade. – Falou Quitéria.
    De repente as meninas começaram a surgir. Algumas com cara de sono, outras assustadas com a surpreendente visita.
    - Oi meninas?! – Disse Matilde ao avistar as garotas.
    Elas nada responderam, pareciam hipnotizadas.
    - Vamos. Digam pelo menos um bom dia. – Ordenou Quitéria.
    Ninguém obedeceu. Quitéria insistiu.
    - Estou mandando. – O tom de voz era mais alto.
    - Não precisa. – Falou Matilde. – Insultei muito a cada uma delas. Elas não precisam ser educadas comigo, pois eu fui muito mal educada com todas elas.
    As duas subiram até os quartos. Quitéria colocou a mão em uma das portas, essa pintada de vermelho.
    - Lembra-se desse quarto, Matilde? – Questionou Quitéria.
    - Mas é claro. Aí dentro tem muita história. – Respondeu Matilde visivelmente emocionada.
    Caminharam pelo corredor acarpetado. As paredes eram brancas, recentemente pintadas.
    - Este aqui é o meu quarto. Gostaria de conhecer? – A cafetina parou em frente a uma porta de cor roxa.
    - Sim. – Disse Matilde.
    Quando a porta foi aberta Matilde ficou admirada com a decoração. Uma cama enorme de casal, almofadas, um guarda-roupa grandioso. Dentro do móvel, várias roupas, sapatos, sandálias. Tudo muito bem arrumado e organizado.
    - Aqui é onde eu descanso para aguentar as noites.
    - Quarto bonito.
    - Se você não tivesse feito aquilo, provavelmente ele seria seu.
    - Concordo contigo. Mas eu nunca levei jeito pra tomar conta de mim, imagina só comandar todas aquelas meninas. Aguentar crises de tpm, brigas entre elas, administrar o bar, a música, e eventualmente expulsar sujeitos sem noção.
    As duas pararam por um instante. Depois sentaram na beirada da cama e ficaram ali por horas jogando conversa fora; lágrimas e risos, finalmente a paz estava selada.
    Na parte de baixo do bordel as meninas conversavam, mas interromperam os bochichos quando no alto da escada surgiu Quitéria e Matilde. Desceram as escadas, Matilde do lado direito e Quitéria do lado esquerda, Matilde de cabelos negros e curtos, Quitéria de cabelos loiros e compridos. Quando chegaram à parte de baixo do salão foram recebidas pelas meninas ainda com olhares duvidosos.
    - Eu posso te pedir um abraço? – Disse Matilde humildemente. Nem de longe parecia aquela mulher de ar arrogante de tempos atrás.
    Quitéria abriu os braços. Matilde foi lentamente se aproximando, o rosto coberto de lágrimas, um sorriso sendo rabiscado em seu rosto. Braços enlaçados, corpos unidos; finalmente Matilde e Quitéria faziam as pazes.
    27
    Passava das quatro da tarde quando Francine desceu correndo as escadas do bordel pela última vez em sua vida. Em seus pés apenas uma mala, presente de Quitéria. Em seu peito todo o orgulho pelo aprendizado de anos vividos naquele lugar. Espalhadas pelo bordel estavam às outras meninas. Francine abraçou cada uma delas, desejou sorte e muito amor.
    Do lado de fora, vestindo um terno cinza claro e encostado no carro estava Custódio; os pés batendo freneticamente no chão de cimento, a ansiedade atacando com força, estava nervoso.
    - Obrigado por tudo dona Quitéria. Nem tenho palavras pra agradecer tudo o que a senhora fez por mim. Obrigado por me acolher, me ensinar, me alertar dos perigos do mundo... – Dava para ver nos olhos de Francine o quanto ela estava triste por aquela despedida.
    Quitéria também emocionada abraçou Francine e lhe deu um beijo no rosto.
    - Ô meu amor, não chore. Sempre que quiser poderá vir nos visitar. As portas desse humilde bordel vão estar sempre abertas pra te receber, meu anjo.
    Impaciente Custódio foi até a porta do bordel.
    - Vamos Francine! – Ele gritou. – Daqui a pouco escurece e...
    Francine, Quitéria e as meninas aparecem na porta.
    - Calma rapaz! – Disse Quitéria.
    Francine e Custódio ficaram lado a lado, de braços dados. Pastor Cláudio, Matilde e mais alguns fiéis saíram da igreja. Parecia impossível, mas pela primeira vez o bordel de Quitéria e a igreja do pastor Cláudio estavam unidos pelo mesmo propósito, o amor e felicidade de seus filhos; Custódio, um policial militar, viúvo e hoje temente a deus, e Francine uma garota do interior, expulsa de casa pelo pai; que se prostituiu para sobreviver e que conheceu o verdadeiro amor onde menos imaginava.
    Francine e Custódio já estavam dentro do carro, às mãos dele firmes no volante, ela terminando de botar o cinto de segurança.
    - Está pronta pra rever o seu pai, meu amor? – Perguntou Custódio olhando para a sua amada.
    Francine respirou fundo ao mesmo tempo em que Custódio girava a chave e ligava o motor do carro.
    - Estou sim, meu amor. Podemos ir.
    Dentro do carro, Francine passou um dos braços por Custódio, num abraço leve, depois encostou a cabeça de leve em seu ombro. No horizonte a sol estava se pondo, Francine finalmente voltaria para casa, em nome do pai.
    FIM.
  • Emoções Estéticas

    emoçóes
    Por Vezes É Difícil Consagrar O Pensamento, Por Vezes É Difícil Quebrar A Solidão Libertar O Movimento Que Contem O Sofrimento, Por Vezes É Difícil Pegar A Tua Mão, Colocar Junto Ao Peito E #SentirOBatimento.

    Tudo O Que Acontece Na Plantação Fica Na Plantação.

    Eu sou Frágil… Sinto A Dor Mas Não Desisto, Sou Um Plagio Referido Pela Paixão Destinada A #TriunfarOImprevisto, Sempre Fui O Alvo Mais Requerido Pelo Desespero E Pelas Preocupações, Visto Isso Sinto-me Obrigado A Aprisionar-me Nos Lugares Mais Sagrados Dos Meus Privados Universos, Onde Os Mais Perversos Parasitas Da Tirania Não Têm Direito A Realinhar Os Traços Das Suas Notificações, A Vida Não É Fácil Nem Justa, O Monstro Que Muitos Fantasiam Ser Não Me Assusta, Eu… Estou Aqui Para Libertar-te Da Obscuridade Que Perpetua Sobre O #AmargoPassado, Interagindo Com O Teu Espaço Como Um Astronauta Sufocado Pela Contradição Insanável Que Destroça A Esperança De Um Paraíso Do Qual Fui Dispensado, A Contaminação Entre O Corpo O Espírito E A Alma Foi Valido, Restaurei As Vidas Quebradas Pelo Efeito Domino Que Jornaliza A Ignorância Das Mais Básicas Leis Que Governam A Realidade, A Paz É A Ilusão De Uma Visão Desfocada É Uma Luta Contra A Nossa Radicada Intelectual Diversidade, A Tua Existência Tem Importância, Quando Sentires A Síndrome Da Insignificância Lembra-te Que És A #ElementarSubstância, És A Fonte Criadora Que Faz Fronteira Com O Meu Futuro Ancestral.

     Desculpem Mas… A Maioria Destes Túmulos São De Jovens Que Falharam Em Disciplinar A Comportamental Carpintaria Teatral.

    Se Não Aconteceu No Meu Estado Atmosférico, Eu… Não Interdito, Criticam O Que Está Errado Tendo Sempre O #PreconceitoSubscrito, Ganho Mais Em Prestar Crédito Aos Obstáculos Que Depois De Ultrapassados Vitalizam O Meu Estado De Espirito, Eu Não Tenho Tempo Para Rir, Tenho Contas Para Pagar, Represento Uma Tendência Em Evolução, Eu Não Estou A Competir Eu Estou A Dominar, 27 Rounds Com A Vida E Ainda Estou De Pé, Kudza Salva O Amor Aguarda Um Segundo E Depois Salva O Mundo, Enquanto Muitos Investem No Prejudicial Eu Escolho A Fé, Parece Que Estamos Todos A Ser Pagos Para Seguir A Direção Do Mesmo Pensamento, Tu Englobas As Respostas Para Todas A Perguntas A Meia Milha De Profundidade Perto Da Láctea Que Ilumina O Ridicularizado Esquecimento, É Difícil Ver Todas Essas Almas Deformadas Pela Continua Tentativa De Vir A Encaixarem-se No Padrão, É Difícil Ver Elas Trancadas Em Cemitérios De #VelhosRelacionamentos, Onde O Amor Não Passa De Um Fantasma Que Entra E Sai Das Suas Campas Como Uma Sucessiva Aparição.

    Apenas Para E Ouve… De Todas As Vidas Que Já Tive O Teu Nome Foi A Única Coisa Que A Minha Alma #NuncaSeEsqueceu, Primeiro Saltas E Depois Aprendes A Voar Foi Assim Que O Plano Do Klan Apareceu, Tu Não És O Avatar Que Crias, Tu És A Experiência Que Regula As Fotografias Dos Nossos Surrados Dias, És O Edifício Das Ideias Ainda Não Estruturadas No Sistema Que Concluem O Ciclo Das Minhas Pessoas Excepcionais, Os Olhos Disparam Uma #SegundaTrajetória, Que Flui Sobre O Limiar Dos Escurecidos Horizontes Mas A Mente… A Mente Caminha Sem Preocupação Aspirando O Rancor Da Memória Porque As Consequências Das Aventuras Vêm Em Faturas Dimensionais, Os Movimentos Interdisciplinares Que “ilegalmente” Combinam Novas Ideias, São Perseguidos Pela Trágica Decadência Da Cultura, Sei Que Não É Uma Nova Ideia Mas… Legalizem As #PlantasMedicionais.

    Se Não Estás A Criar Estás A Desintegrar-te Com Os Mesmos Argumentos Que #VeneramAPobreza Através Dos Meus Sofrimentos, Eu Sou A Sombra Opaca Que Rompeu A Solidão E Conquistou A Bruma Mental, Tombei Da Árvore Genealógica Ultrapassei Os Limites Das 4 Liberdades E Dei Inicio A Greve Ancestral, Jamais Conseguiras Correr A Minha Corrida Com Essa Personalidade Desnutrida, Certas Personagens Observam As Superfícies Sócias E Criam Uma Obra Que Não #ConseguiráTriunfar, Viemos Todos Do Céu Mas Nem Todos Voltaremos, Eu Sou A Propriedade De Deus Que Tu Nunca Poderás Censurar, Ainda Assim Sou Constantemente Abatido Pelas Imperfeições Das Perturbações Sugeridas Pelas Interrogações, Das Palavras Desnaturadas Que Procuram Pela Própria Identidade, Acabei Por Paralisar Todo O Carácter Entusiasmado Pelo Irrealismo Que Evidencia A Mesma Falsidade, É Como Se Eu… Tivesse #EjaculadoPrecocemente Sobre A Vida Engravidando A Morte E Agora Não Consigo Sair Da Cama Com O Karma, Ouve-me Esse Corpo É Apenas Um Degrau Na Nossa Existência, Aconteça O Que Acontecer Aguenta A Pressão E A Critica Procurado Progredir Perante A Violência. 

    Não Sejas Mais Um Homicida Sobre A Vida Oprimida.

    Eu Sou O Resultados Das Consequências Interligadas Por Um Conjunto De Manobras Destinadas A Respirar A Reanimação Sobre Todo O Coração Adormecido Pela Falta De Oxigenação Moral, Enquanto Os Leigos Falam E Generalizam O Acidental, A Gente Perdoa Os Anormais Que Ainda Procuram Descobrir A Razão Para Qual Nasceram, Valoriza A Tua Dor E Desperta O #AnimalImortal, Perdemos O Emprego Mas Não Perdemos A Luta Porque Os Que Nunca Desistiram São Os Que Sempre Venceram, Simulo E Prático O Desconfortável Até Alcançar O Inexplorado, Sei Que Não Passo De Mais Um #EspectadorTreinado Para Ouvir Vozes Que Sondam Por Pretextos Para Confundir A Felicidade E Despertar O Ser Mal Humorado, Poderia Facilmente Absorver A Negatividade E Tornar-me Obcecado Pelos Pecados Que A Realidade Não Consegue Converter, Mas Escolho Em Não Suster A Verdade E Dizer-vos Que Nós Somos O Maior Milagre Que A Natureza Alguma Vez Criou, Nós… Os Artefactos De Alta Dimensão Que O Próprio Ser De Distanciou, Fomos A Diferença Transformadora Que Privilegiou O Primeiro Pensamento Que Levou Deus A Combater O Seu Amor Até As #RaízesDaCriação, Eu Não Estou A Viver Pelo Momento Eu Estou A Viver Para Reembolsar A Glória Que Reanimou O Alicerce Da Minha Motivação.

    Esse Corpo Humano Nem Parece Que Tem Um Ser Humano Dentro Dele, Estou Trancado Num Mundo Onde As Desconfianças Estão Descritas Pelo Tom Da Minha Pele, Não São Os Inimigos #SãoOsMedos, Os Segredos Que Um Sorriso Esconde, Da Mesma Maneira Que Esconde Um Palavrão Desejoso Para Descarregar Um Insulto, Não São Os Inimigos São Os Medos, Os Segredos Produzidos Pelas Faíscas De Simpatia Que Reagem Mediante As #ReacçõesIndividuais Deste Meu Ser Inculto, Eu Tenho Amor Para Ti Mesmo Que Duvides Da Minha Pessoa, A Decisão Em Mentir Falhou Em Restaurar As Vidas Quebradas Pelas Emoções Estéticas Da Tua Pessoa, A Melhor Vingança É Um Tsunami De Sucesso, As Publicidades Que Veneram As Vidas Através Da Miséria Protegem A Imagem Como Um Espesso Nevoeiro De Gesso, Só Estou A Espalhar Esse Amor De Forma A Deixar O Teu Vazio #MaisAliviado, Os Meus Antepassados Colocavam As Mulheres No Trono, As Leis Mais Básicas Da Ignorância Dizem Ser Inapropriado, Valorizar O Teu Ar Gracioso E Levemente Provocante Quero Despir-te Essa Camisa De Forças E Libertar-te Do Abandono, Porque As Ideias De Imperfeitas Relações São Onde Eu Mais Me Apaixono. 

    Mais Um Drama Reencarnado Que Não Tem Filtros Mas Tem Rumo.

    Kudza- Se A Maioria Das Pessoas Não Mostra Nenhum Interesse Pelas Suas Vidas, Porque Que Eu Tenho Que Dar #SeguimentoAParódia, É Como Acordar E Aperceber-me Que Não Passo De Mais Uma Obra De Arte Sem Humanidade, Que Perdeu A Visão A Esperança E Começou A Reclamar, Mas Eu Sei Quem Não Sou, Sei Que Essas Religiões Não Vão Mais Longe Do Que Um Livro, Trocando Um Problema Por Outro Com A Intenção De Transformar O Impossível Num Ato, Mas O Impossível Será Sempre A Tua  Opinião, A Minha #PressãoInterior É Muito Maior Do Que A Pressão Exterior, Quando Me Sinto Deformado Pela Recetividade Do Público Que Favorece As Delícias Da Auto-Destruição, Vou Para Casa Lambo As Feridas E Estou De Volta, Apenas Lembra-te Sempre Que Te Encontrares Em Vésperas De Um #TremendoRetrocesso, Alguém Disse Que “É Preciso Ter Visão Para Poderes Ver Olho A Olho Com A Verdade” O Combustível Produzido Pela Tua Alma Nunca Poderá Vir A Ser Reduzido Em Objetos, Que Facilmente Podem Ser Aniquilados.

    Senhor, Estou a Enviar-te Companhia.
  • Enquanto a gente goza

    As noites
    Que eu dormia
    Cá TV ligada
    Até de madrugada
    Sempre tão solitárias

    Hoje eu descobri
    Que talvez o que me faltava
    Nessas noites vazias
    Era a sua companhia

    Seus beijos
    Que me percorrem
    Sua boca que me engole

    Admirando seu corpo
    Enquanto a gente se enrosca
    Seu olhar pra mim
    Enquanto a gente goza

    As noites
    Que eu durmo agora
    Cá TV desligada
    Falando sobre a vida
    Com a pessoa querida

    Hoje eu esqueci
    Como é me sentir sozinho
    A cama tão quente
    E a noite tão curta...
  • Entre "nós" e "nós"

    Entre esses "nós" que nos entrelaçamos, e nós nos perdemos, que nós nos beijamos, nós nos tocamos, nós nos amamos, nós nos acabamos de tanta intensidade dos nós do nosso amor, da nossa paixão, do nosso fogo, dos nós que fazemos quando damos as mãos, dos nós que quando conversamos desata uma felicidade explendida que nasce quando nos encontramos de novo, nós que parecem durar pra sempre, nós que nunca desatam, nós que tocam nossa alma e desamarra esse medo que nós tinhamos de nos machucarmos novamente, de nós e nós vamos desatando o nosso futuro e lá fazer um nó que unirá nossas almas que nunca mais se afastarão, de nós do nosso amor que teria o mais belo laço dos nós mais fortes de toda história, do nós que eu sonho em existir, dos nós que vamos construir juntos e lá, nós poderemos ficar no nó do nosso amor que irá segurar nós.
  • Entre Lobos - cap. 7 (conto-romance)

    principal
    Não se sinta perdido...LEIA os capítulos anteriores! Tenha uma ótima leitura e Obrogado a a tenção!!
    Katherine estava em seu quarto no segundo andar quando de sua janela os viu chegar. Não soube ao certo o que estava acontecendo afinal de contas Mark não os visitava com frequência, mas o que a deixou incomodada foi a presença de Derek.
    — Mark querido! – sua tia os recebeu. — Mas que ótima surpresa!
    — Olá titia! – a cumprimentou.
    — Mas o que o trás aqui a essa hora? – já era final de tarde. — Espero que nada...
    — Não, não! Eu vim por que...bem... – fitou Derek ao seu lado. — Precisamos...
    — Gostaria de falar com a senhora e o seu marido. – Derek interveio.
    Mark o mirou surpreso, de fato, não imaginava que seu amigo estivesse disposto a “encarrar” aquela situação de forma tão decidida.
    — Você é...? – a mulher então o fitou. – Oh, claro! – lembrou-se do almoço de outro dia. — O amigo de Mark.
    – Derek! – apresentou-se estendendo a mão para a senhora que respondeu ao gesto.
    — Derek, isso! – ela falou ainda recordando do assunto que envolveu ambos aquele dia. — Sim! Alan está na sala, mas o que há? – perguntou buscando a face dos dois a sua frente.
    — Gostaria de falar com vocês sobre Katy. – Derek respondeu.
    Ainda antes que acabasse de falar veio a voz rouca do homem de dentro da casa indo em direção a saída.
    — Mas que conversaria é essa afinal de contas? – falou e em seguida surgiu ao lado da mulher ao escancarar ainda mais a passagem. — Mark? O que está acontecendo?
    A mulher, com o olhar pedido sobre Deck, ainda tentava entender qual era a situação.
    — Esse rapaz – então voltou dizendo. — Veio nos falar sobre Katy. – sem tirar o olhar de cima dele foi direto ao ponto.
    — Katherine? – soltou franzindo a testa e quase que instantaneamente flechando Derek com um olhar desgostoso.
    — Sim! – ele posicionou-se.
    — E oque exatamente você teria para dizer sobre nossa filha? – adiantou-se colocando-se a frente de sua esposa que recuou obrigando-se a observar a conversa por um espaço que lhe sobrara.
    Nenhum deles havia reparado, mas não muito distante de onde estavam, Katherine, atrás de um pilar os observava com atenção. Assim que ela percebeu ser a razão daquela visita sentiu um certo desconforto, seu coração acelerar como nunca antes. Sim, a verdade é que reprovara Derek no primeiro instante em que o conheceu... Sua rebeldia, suas roupas desgastadas, aqueles olhares audaciosos, intrometido sobre ela, mas reconhecia também que algo havia mudado com a aproximação que tiveram outro dia no parque. Agora ele estava ali, falando com seus pais e ao mesmo tempo em que aquilo lhe parecia um absurdo, foi algo que mexeu ainda mais com seus sentimentos.
    — Espera. O que você está me dizendo?! – Alan. — Sentimentos por Katherine?
    — Não quero que o senhor me entenda mal – Derek se explicando. — Tenho as melhores intenções por Katherine e acredito que ela...
    — Filho! – Alan intrometeu-se e depois deu uma pausa fechando a porta para que ele e os dois rapazes ficassem a sós na varanda.
    Assim que viu a entrada ser fechada, Katherine resolveu deixar a sala, foi então que sua mãe a enxergou.
    — Querida! O que está fazendo aqui? Achei que estivesse em seu quarto. – aproximou-se de sua filha.
    — Ouvi, o que estavam, dizendo. – Katherine respondeu pausadamente.
    — Oh, sim! Mas não se preocupe, está bem? Seu pai vai resolver tudo. Esses jovens rapazes sempre confusos com as ideias. – concluiu sorridente em quando seguia com ela para o segundo andar.
    Do lado de fora.
    — Você não sabe o que está dizendo e eu entendo, afinal de contas você não deve imaginar o que realmente se passa com Katy, então vou ser franco com você.
    — Pelo contrário! Sei exatamente o que está acontecendo e isso não interfere no que sinto por ela, Senhor.
    — Você sabe?! – fitou Mark. — Então entende que já temos muito com o que nos preocupar aqui e não precisamos ainda ter que sondar um relacionamento que certamente não tem possibilidade de ir muito longe – pausa. — Talvez, sim, você tenha boas intenções... Derek, não é mesmo? – puxou o nome da memória. — Mas Katy não tem que passar por esse tipo de decepção.
    — O senhor me desculpe! Entendo que queira mantê-la segura, mas como pode ter tanta certeza de que não teremos um ótimo relacionamento? Acredito no amor que sinto por ela se Katherine estiver disposta a...
    — Amor! – Alan repetiu a palavra com certo desdém. — Acredite filho. Não é exatamente o “AMOR” que mantém um relacionamento ou até mesmo um casamento por anos. Em condições normais temos que saber provir a família de tantas formas que você ainda – o fitou por completo. — Desconhece. Com a condição de Katy a situação é ainda mais exigente.
    — Não estou descartando dificuldades Sr. Alan, mas tenho certeza de que Katherine e eu nos ajustaríamos a nossa maneira.
    — E que maneira seria essa?! – o homem então disse em um tom mais duro. — Levá-la para suas farras onde vocês brigam e bebem a noite inteira? – ficou Mark que mirava um canto qualquer enquanto ouvia. — Minha filha não vai ser mais uma de suas diversões, rapaz!
    — Mas senhor... – Derek insistiu.
    — Não há mais o que ser discutido sobre isso! – o homem concluiu. — Katherine está bem do jeito que está e espero que não se aproxime dela. – estendeu a mão indicando o caminho da estrada. — E você, Mark, faça o favor de não ficar instigando essa bobagem.
    — O senhor está errado! – Derek segui falando mesmo com seu amigo o empurrando para fora da varanda. — Todos vocês estão errados! Estão sufocando ela. Impedindo que ela tenha a própria vida!
    Sem dar atenção Alan fechou a porta.
    Já no andar de cima, da janela, Katherine viu seu primo e o amigo embarcarem em suas motos. Ainda antes de dar partida Derek a viu entre as brechas da cortina e foi embora.
  • Escolhas

    Um cinzento vestígio de cor Lilás 
    Um leve toque de Amarelo por trás
    Apenas uma veste negra numa escura madrugada
    Um pensamento, cor de véu, de uma mulher recém formada.

    Uma lembrança, dia de verão 
    O calor de RJ a queimar-lhe a visão
    Mas em fones de ouvido havia uma doce voz
    Que lhe dizia que tudo ficaria bem.

    O sonhar de uma insônia distorcida 
    Vendo a realidade ser corrompida
    Pelos sinais de insegurança plena
    Pelo total de votos de amor contados.

    No meio do salão os dois dançavam
    Não humanos, não demônios
    Mas sim seres imortais
    De uma narrativa,
    "Jogue um dado
    Veremos então quem é mais capaz".

    Um universo pintado em tinta guache
    Rabiscado ao tardar da meia noite
    Riscado, rasgado, amassado
    Corrompido pelas ondas sonoras de um grito de socorro sem fim. 

    Já as lágrimas possuem vazio
    Tomadas pelo fogo de uma vergonha obtida, 
    Omitida por bem ao maléfico ser azul
    Que às espreitas vagueia pelo sono, TRISTEZA!

    Doce donzela, minha querida e amada
    Permita-me ver tua bela face!
    Ilumine minha noite caótica com teu sorriso amável
    Me ensine o que é o amor, Musa de todo o valor.

    O papel há muito se desfez
    O devaneio pulou pela janela aberta
    Todos sucumbiram à razão
    E foram tomados pelo maldito inferno.

    A indecisão sempre vagueia
    Pelo sorriso dos inocentes
    Mas naquela noite eu havia a certeza
    De que o sempre seria eterno.

    Abra as cortinas 
    Pinte-me da mais bela cor
    Deixemos de poréns e dores
    Mostre uma música
    Dancemos ao entardecer...

    O sussurro já se desfez
    O violinista há muito se foi
    Os erros são evidentes
    Tudo surge cinza e cai ao chão. 

    Diamantes apenas ferem minh'alma
    O espinho de tua face fere meu coração
    Escolhas erradas viraram labirintos. 

    Os atores desceram do palco
    Dei um fim à peça que escrevi
    Bruscamente, a plateia se foi

    E as cortinas... Se fecharam. 

  • Fantasmas de um Passado, Passado.

    Sabe meu bem, estar aqui num frio que me estremece, me faz pensar nas suas pernas e no quanto elas devem ser quentes e cheirosas. Deito em meu sofá e sinto o gosto do limão ainda aqui, o seu olhar me vem por meio das cores da almofada. Me traz paz numa noite tão barulhenta. Um fantasma voltou essa madrugada, Alana, uma amiga que já foi paixão, mas que agora de tornou melancolia bastarda. Ela diz estar com saudade, me pergunto de que ? Do mundarel de elogios e enaltecimentos que eu fazia direcionados a ela ? Do meu infinito amor e das minhas muitas noites perdidas por conta desse amor ? Eu não faço mais parte dessas lembranças, dessa memória eu quero me esquecer. Mas ela volta e me dá mais uma pontada no coração, como se eu não tivesse esmigalhado o suficiente. Meu amor é grande demais, mas não deveria ser tão grande a ponto de caber Alana. Ela me fez sofrer. Me fez lembrar e me fez chorar. Ela não me mereçe; mas eu sou fraco e me dôo aos problemas dela. Sou um completo inconsequente para com meus sentimentos. Deveria ter mais amor próprio. Ela também tirou isso de mim. Ela fez tudo isso silenciosamente, acho que até pra ela mesma, mas isso não quer dizer que eu esteja curado da minha dor. Ainda tenho desejos por ela, infelizmente. Ela também não merece isso.
    Alana, a moça que feriu profundamente um coração frágil, voltou e fez um pouco mais de maldade. Trouxe esperança para um jovem moço apaixonado; esperançoso. Isso deveria ser pecado. Ela é má e traz rancor em sua fala, traz esperança que leva à um abismo de dor. Ela é a personificação do pecado e do diabo. Ela é a pura tentação, carnal e sentimental. Pinta e borda em meu coração.
    Por que eu nasci escritor ? Sofredor e fixador de memórias ? Por que não nasci insensível e traidor ? É mais fácil. Mas o que posso fazer, se não lamentar ? E pensar que tudo isso é só o começo… meu coração pede trégua. Meu cérebro pede mais álcool. E eu o faço. Tragos e mais tragos me confortam de uma dor desnecessária, eu admito. Mas ainda há muita dor em meu emocional. Ainda há muita Alana aqui. E ainda há meia garrafa e algumas latas.
    Com pensamentos atrozes,
    Seu Gus.
  • IDADE DO LOBO

    Quem ouviu falar a respeito da idade do lobo? Todo mundo!

    Mas quem sabe definir o que é isso? Muita gente tentou, mas ninguém conseguiu uma definição cem por cento científica, pois é uma fase tão irracional que é impossível haver um embasamento na ciência. Sabe-se que quanto mais tardia, mais ridícula ela se torna. Não vamos ser tão duros com o adjetivo. Vamos dizer que é uma fase se total regressão emocional, ou de infantilidade exacerbada ou de intensa necessidade de auto-afirmação, enfim não importa o nome. É uma baita imaturidade! E nós mulheres, quase todas, temos o carma de agüentar esta fase. Além do mais, ela tem características injustas entre os próprios homens. Ou seja: um homem rico tem muito mais chance do que um pobre. “Homem lobo“ sem grana tem muito menos chance de conquistar as lindas jovens, do que os ricos que não se inibem em reconhecer seu favoritismo trazido pelo vil metal.

     Na nossa história, o “lobo” tinha um bom poder aquisitivo. Bem casado, vida tranqüila, filhos criados e casados.

    Numa noite de lua cheia, que é a noite dos lobisomens, nosso herói começou a sentir certa comichão e com o tempo notou que, dentro dele, todas as noites se tornavam noites de lua cheia e saia por aí uivando desesperadamente. Suas inúmeras companheiras estavam na faixa de 20 a 39 anos. Dizia que sair com mulher de 40 era pecado.

    Sua mulher tentou, lutou muito, quis fazer terapia de casal, mas nada o animava a prosseguir na vida que tinha. Ele queria sua liberdade. Reconhecia qualidades inúmeras em sua mulher, mas ele estava adorando sua independência afetiva. Poder variar, ter contado com diversas jovens, para ele estava sendo a glória!

     O divórcio aconteceu e cada um foi para o seu lado. Sua mulher sofreu muito e levou algum tempo para se recuperar. Quando isso acontece, as mulheres sempre acham que são as culpadas e se perguntam: “o que fiz de errado?”, esquecendo desta fase tão perigosa da imaturidade masculina.

    Enfim, nosso amigo gastou dinheiro que não deveria ter gasto, com gente com quem não precisava gastar. Qualquer chance, levava suas meninas para viajar. Para Miami e Las Vegas já havia ido quatro ou cinco vezes. As “periguetes” adoravam ir pra lá.

     Já havia  três anos que estava nesta vida e já estava se cansando. Queria algo diferente, mas a faixa etária tinha de ser a mesma.   Chegou a propor algo mais sério para algumas. Tentarem viver juntos, claro, sem se casarem e foi vendo que cada vez mais problemas iam acontecendo.

    Uma, andava dez quilômetros três vezes por semana e freqüentava a academia nos outros dias. Quando saiam para andar, o seu orgulho masculino ficava ferido. No terceiro quilômetro ele já estava de língua de fora, e fingia que torceu o pé, ou estava com dor e cabeça, ou arranjava outra desculpa qualquer para não dizer que não agüentava mais aquele ritmo de caminhada, mas as desculpas já estavam acabando e ele ia se sentindo inferiorizado e quem sabe... velho. Tinham as que gostavam de jantar tarde. Mas jantar tarde e deitar logo depois, dá azia e refluxo. Isso sem falar em transar de barriga cheia. E quando ia dançar e sua companheira não queria sentar nenhum instante! Ele queria dançar quatro ou cinco músicas e descansar, beber alguma coisa, se refazer. Mas o pior de tudo era quando saiam em grupo. Aguentar o papo dos amigos delas, não dava! Quanta baboseira! E o tratavam como se ele fosse Matusalém!

    E o nosso “macho alfa” foi cansando, desanimando e se decep-cionando  com a vida de ôba-ôba. Começou a relembrar seus bons tempos de homem casado. Tudo funcionando em casa. Sua mulher, às vezes era muito chata, como toda mulher que se preza, mas era uma pessoa inteligente com quem podia trocar idéias, falar sobre todos os assuntos; tinham gostos semelhantes, sempre haviam se dado bem, eram felizes e a liberdade que ele buscava tendo a chance de sair com quem quisesse, era falsa. A verdadeira liberdade era poder palitar os dentes, ir ao banheiro de porta aberta, poder roncar sem ter vergonha, ir para mesa do café sem pentear o cabelo, não precisar disfarçar a barriga, dizer que não estava a fim de transar e tantas outras coisas. Essa era a verdadeira liberdade.

    A idéia foi crescendo, e chegou num ponto em que era preciso decidir.

    “ Vou procurar minha mulher. Mulher é diferente de homem. Mulher sabe perdoar. Falo com ela e no dia seguinte me mudo pra lá. Volto para o lar!”

    Ligou para ela e perguntou se podiam conversar. Ela disse que sim e quis marcar num restaurante, mas ele não quis. Pediu para ir à casa dela (que em breve também seria dele novamente). Ele esperava que pudesse “pintar um clima” e seria tudo como antes. Na casa deles!

    E chegou o dia do encontro. Quando ele a viu, seu coração disparou. Que mulher linda, que classe, que descontração tão refinada, ela era demais! Falou tudo que ensaiou durante aqueles dias. Ela estava impassível olhando pra ele. Ele começou a se incomodar com essa impassividade e silêncio. Quis terminar logo o “discurso” e perguntou:

    -O que você acha de tudo que lhe falei?

    Ela suspirou, virou o rosto para o lado e deixou seu olhar se perder em algum ponto da parede. Depois de segundos, olhou diretamente para os olhos dele, de forma profunda e coerente e se preparou para a resposta.

    Ele estava petrificado na poltrona. Nada daquilo estava no script que ele havia feito em sua cabeça. Para ele, chegar naquele ambiente tão familiar, é fato que haviam acontecido certas mudanças desde a sua saída, mas era o apartamento em que haviam vivido juntos muitos anos, ter falado tudo o que ele falou para ela, a única reação cabível e esperada por ele, seria ela se atirar em seus braços. Mas não era isso que estava acontecendo. Ela estava parada olhando para ele com um olhar penetrante e ao mesmo tempo gelado, que ele não sabia o que queria dizer. E o silêncio dela era confuso e chocante.

    Finalmente ela falou:

    - Você está com câncer ou outra doença grave?

     Ele, surpreso, disse que não. Ela continuou:

    -Depois de 36 anos de casamento, você resolve se divorciar, passa mais de três anos viajando e curtindo milhões de moças mais novas que as suas filhas e pelo que eu o conheço, chega aqui, certo de que eu vou dizer com voz melosa que você pode entrar que a casa é sua? Não! A casa é minha. É só  minha!”. Se você estivesse doente, por pena cuidaria de você,  como tantas outras mulheres abandonadas fazem quando seus ex-maridos voltam pedindo um lugar pra morrer. Mas graças a Deus não é o seu caso!

    Ele, pálido como papel  sulfite e tremendo mais que uma gelatina, vendo o seu mundo ruir, consegue com grande esforço balbuciar:

    -A casa nunca mais vai poder ser NOSSA?”

    Outra pausa.

    “Talvez possa ser. Depende só de você. Se você for suficientemen-te homem para me reconquistar, me reconquiste”.

     Sem mais uma palavra ela levantou, abriu a porta e polidamente o despediu.

    Realmente, ele não sabia o que estava sentindo naquela hora. Um misto de tristeza, raiva, decepção, irrealização, sei lá mais o que. Ele esperava que tudo tivesse sido diferente. Lentamente foi vendo que ela tinha razão de estar magoada. A necessidade que ele teve de “dispirocar” foi dele e não dela.

     E foi solitário para o seu apartamento, sentou numa poltrona e pensou pelo resto da noite.

    Por sua vez, ela, assim que fechou a porta, caiu numa crise de choro intensa. Não conseguia parar. Nestas horas as lágrimas são as grandes companheiras. Só elas podem acalmar nossas emoções exacerbadas. Depois do que ele a fez passar, como podia chegar com a cara de pau que chegou achando que já ia ficar lá? Realmente a maioria dos homens não tem a mínima sensibilidade!

    Mas no fundo o que mais a estava atormentando, é que ainda gostava dele e tinha saudades da vida feliz que tiveram durante muito tempo. E pelo que ela conhecia dele, ele não iria conseguir reconquistá-la. Não iria conseguir demonstrar de forma sensível e original que a amava e que realmente gostaria de recomeçar uma vida com ela, não por comodismo, mas sim por afeto.

    O dia estava amanhecendo quando ela conseguiu dormir e dormiu pesado até bem tarde.

    Quando levantou e abriu a porta do quarto, sua funcionária apareceu com um sorriso malicioso dizendo que tinha surpresa pra ela.

     Ela foi indo em direção da sala e foi sentindo um perfume diferente. Andando cuidadosamente sem saber o que realmente ia encontrar, com o coração num ritmo diferente do normal, se deparou com dez dúzias de rosas vermelhas (ela contou) e na mesa da sala de jantar havia  uma enorme cesta de café da manhã com um envelope. Ela pegou e abriu. Dentro havia um anel. Despretensioso mas de muito bom gosto, num estilo de aliança. E um bilhete:

                  “Não vou te deixar em paz, porque te amo”

    Ela pôs o anel, riu e chorou...

    FIM
  • Idílica



    Para que amar tão intensamente
    Se tudo terminas ao final dos dias?
    Deixas um coração que ainda sente
    Os sorrisos e as liras que tu dizias.

    Não vês que vives de medos?
    Que cultivas apenas desgostos?
     De porta em porta, novos rostos
    E, dentro de ti, apenas segredos.

    Por esta maldição, segues sempre a mesma vida.
    Hoje, mais um sorriso roubado
    E outra cama para, recostado,
    Fazer juras e sumir em seguida. 

    Não vês que te perdes nos próprios encantos?
    Pois as lágrimas delas tuas são
    E nem mil camas ou mil rostos
    Preencherão o vazio do teu coração.

    Ah! Se tu percebesses por fim
    Que és covarde por amar.
    Cessa de vez este teu procurar
    E faz tua casa dentro de mim
    O meu corpo, o teu altar.
  • Imensidão

    Você se aproximou de mim  
    Causou em mim todos os  
    Efeitos, eu apenas reagi a  
    Todos eles, feito "boba" 
    Você me levou ao teu  
    Mundo, nele enxerguei a 
    Escuridão por de trás de  
    Seus olhos. 
    O seu coração é gigante  
    Enquanto o seu sorriso  
    É a imensidão  
    É nessa imensidão  
    Que quero estar ao seu lado!
  • Infecção Racional

    Parecia vazio de ideias. Nada o tocava profundamente. Um peso vindo de sua alma fazia sua cabeça inclinar ao chão. O que seria a causa de tamanha lentidão mental? Ele sabia.
    Não era a primeira vez que seu lado racional fora abalado por um par de olhos castanhos. Não fora a primeira vez que estes olhos castanhos tiravam-no de seu mundo palpável. Mas ele era racional.
    A razão dava-lhe o norte, era a base do seu mundo. E quando aquela sensação melancólica que a paixão traz à alma o preenchia, ele paralisava. Sua bússola já não indicava a direção correta, oscilava... girava descontrolada ao passo, no compasso de sua arritmia.
    Parecia vazio de ideias, contudo não estava. O problema é que apenas uma ideia preenchia sua mente. Um pensamento, como um vírus, infectava todos os outros que surgiam e não havia anticorpos àquela infecção já em estado crítico.
    Como todo homem racional, calou-se. Fitava o nada por longos períodos, muitas vezes interrompendo o processo lógico do que fazia... perdia-se. E, se questionado por que assim agia, respondia como todo homem racional:
    - Nada...
    Ou ainda:
    - Muito trabalho.
    Não bebia, não fumava... restava-lhe encarar o que sentia. Para isso, teria de aceitar a realidade que temia.
    Talvez, o que mais lhe causava tormento era ser alguém tão próximo. Mas também era compreensível, tinha poucos amigos, saía pouco. Natural encantar-se por aquele par de olhos castanhos que via costumeiramente.
    Amigos viram amores, todavia, neste caso, quem sabe a amizade acabasse. Precisaria manter em segredo o que brotou em seu ser a fim de manter por perto quem causava-lhe tempestades de sensações.
    Vez ou outra, mandava uma mensagem disfarçada de pura amizade, uma mensagem despreocupada... tentava parecer frio, distante. Porém, a cada texto visualizado, a cada eventual olhar que se encontrava, a emoção penetrava-lhe a carne. Uma alegria que machucava.
    Não havia cura. O remédio menos doloroso era o tempo. Aceitar que não era para ele aquele amor... como nenhum outro fora.
    Talvez por isso tornara-se um homem racional. A razão não lhe tramava peças, não iludia seu coração, ela era o que mostrava ser...
    Já aquela sensação ora maravilhosa ora perversa destruía o que ainda restava do sublime de sua alma.
    Passou a viver uma morte. Passou a sorrir uma tristeza... continuou sufocando-se de racionalidades.
    O pranto subia até seus olhos, embaçava-lhe a visão. Sua voz tremia, e afônico ficava por momentos eternos.
    Que infecção tão tenebrosa é esta causada pelo coração? Não sabia responder e irritava-se.
    Muitas vezes pensou em contar o que sentia, em tirar um tanto do peso de seus atos, todos pensados para não dar à vista, e poder respirar com mais tranquilidade. Entretanto, o fez a sua maneira... sutil.
    Fez um poema e publicou-o com o intento de ser lido por quem o havia inspirado.
    “Não era um simples dia como outro qualquer.
    Era um dia que qualquer outro simples seria na comparação.
    Porque sem comparação era a sensação que sua voz me provocava na imensidão do nada onde me encontrava.
    Nada me encontrava de certo.
    Certo era meu olhar no seu.
    Seu olhar certo de que eu nada sentia por causa do disfarce.
    Disfarce da causa do olhar certo no seu.
    No seu olhar, causa do meu disfarce, a minha imensidão.
    Imensidão que não é minha, na verdade.
    Na verdade onde eu me disfarço, sou nada.
    Nada sou de verdade.
    A minha verdade tornou-se você.”
    Tinha sido lido. Disso ele tinha certeza. Mas não fora o suficiente para tranquilizar seu coração por muito tempo.
    Em meio às outras pessoas, a baixa resolução da imagem ao redor era automática, o foco era sempre o olhar penetrante e misterioso daquele ser fascinante.
    A sua infecção racional foi eliminada pelos anticorpos da paixão. Se houve um final feliz eu não sei, mas espero que sim, pois eu fui curado de um mal, entretanto, agora estou doente de amor.

    Dione Grein da Cruz - Autor
  • Iniciando o pecado

    Por sorte conheci Ângela.
    Era magra, um pouco alta, loura, seus cabelos caiam sobre seus ombros com leves ondulações, era branca, suas bochechas eram rosadas, seu nariz avermelhado e lábios finos com um tom bem claro.
    Era adoravelmente simpática, seu sorriso era bem quadrado, como se fosse uma dentadura. Estava no segundo ano de medicina. Só sabia falar sobre isso.
    Falava como o cheiro hospitalar era viciante. Contava curiosidades sobre o corpo humano. Explicava sobre as partes inúteis do corpo.
    Era engraçada.
    O clima ficou tenso quando começou a falar sobre seu ex. Um cara qualquer. Futuro advogado. Um babaca que queria que ela desistisse da faculdade.
    Eu não me importava com nada que ela dizia.
    Mas queria me importar. Seus olhos claros, verdes ou azuis. Não lembro. Eram tão bonitos, tinham um brilho. Como se a vida dela até aquele ponto fosse tudo perfeito. Mas não era.
    Há alguns meses sua irmã ficará paraplégica num acidente de carro. Algo que me fez sentir mais próximo dela, já que tínhamos isso em comum.
    Seu foco na área, era descobrir um meio de fazer sua irmã voltar a andar.
    Ela tinha fé, mesmo dizendo não acreditar em Deus. Diferente dela, eu tinha uma crença enorme no pai divino. Eu era o escolhido. O filho de Deus.
    Minha avó começou a me levar para a igreja após a morte da minha mãe. Dizia que encontraríamos a paz lá. Encontrei a paz alguns anos depois numa missão divina.
    Ângela me perguntou sobre meu passado. Inventei uma historia, onde eu tinha uma família perfeita, feliz e viva. Contei coisas engraçadas sobre minha mãe. Contei sobre o arroz que ela queimou uma semana antes.
    Tudo mentira. Ângela ria.
    A festa já havia começado. A conversa estava tão boa que nem percebemos.
    Umas trinta pessoas estavam ali. A casa não era grande, tendo apenas um quarto, sala, cozinha e banheiro. Não era muito confortável, os cômodos eram minúsculos. Mas aconchegantes.
    Percebi que Ângela foi conversar com outros amigos. Fico sozinho. Algumas pessoas que passavam por mim, falavam comigo e ofereciam bebidas. Mas recusei. Jamais havia bebido álcool.
    Tentam puxar assunto, mas ignoro-as. Vejo os passos de Ângela, observo aquele sorriso saltar de conversa em conversa. Com a mão direita ela coloca uma mexa do cabelo atrás da orelha. Olha-me e sorri. Então some na multidão.
    A música esta cada vez mais alta. As luzes coloridas fazem minha visão ficar turva. De repente alguém grita ao pé do meu ouvido.
    “Quer ir ao quarto?” – era Ângela, rebolava e bebia uma bebida colorida.
    “Fazer o que?” – Pergunto... Atualmente me envergonho disso.
    Ela se inclina e me responde com um beijo.
    Um beijo de língua, sinto o sabor do álcool, mas não recuo, sinto o calor da sua língua, dança na minha boca.
    Beijo termina. Ela sorri.
    Agarra minha mão me puxa em direção ao quarto. Minúsculo quarto.
    Meu coração estava batendo o mais rápido possível. Ela abre a porta branca e entramos naquele pequeno espaço, com uma cama que tem um abajur na cabeceira, uma arara com diversas roupas espalhadas. Sobre a cama, estava um cara de porte físico bem atlético, junto de uma garota ruiva, totalmente nus.
    Ângela faz sinal para que saiam, foi quando notei, que ela era a dona da casa.
    Os dois obedecem, sem retrucar. Saem e fecham a porta.
    Ângela ri. Começa a dançar.
    Sou virgem. Ela sabe disso. Segura minhas mãos e põe sobre em sua barriga. Estava quente.
    Ainda segurando minhas mãos, sobe devagar sobre aquele seu corpo macio, fazendo com que eu tire sua camiseta. De sutiã preto ela rebola.
    Aquele excesso de informações, misturado com a bagunça que meus hormônios faziam dentro de mim, me deixava meio perdido.
    “O que eu faço?” Pensava frequentemente. Mas Ângela me dava às direções.
    Soltará o sutiã. Aquele belo par de seios do tamanho de maçãs, me fez vidrar ainda mais naquele corpo. Belas maçãs rosadas. Ela continua controlando minhas mãos. Passa elas sobre as maçãs, meu corpo esquenta. Ela mordisca meu lábio e se entrega num beijo estalado. Um beijo forte, com fogo e paixão.
    Ela deita. Olha-me nos olhos.
    Como se meu cérebro tivesse recebido instruções através daquele beijo, ele passa a fazer tudo automaticamente. Passo minha língua naquelas belas maçãs rosadas, desço pela sua barriga e abro seu short. Retiro-o e fico olhando para sua calcinha roxa com lacinho preto.
    Sem pensar duas vezes retiro toda minha roupa, não me importo em ficar nu. Deito sobre aquela garota de seios rosados, ela esta toda nua agora. Faço os movimentos no quadril como se estivesse programado no meu instinto.
    Movimentos repetidos. Corpos quentes.
    Sinto suas unhas arranharem minhas costas. Passo a mão em seu rosto. Em seu cabelo. Em seus braços, peitos. Beijo seu pescoço. Ela me agarra com mais força.
    Acelero o movimento. Ida e volta sem pausa.
    Novamente ela segura minha mão, leva até seu pescoço, o seguro e a beijo. Beijo firme.
    Ida e volta. Vai e vem sem pausa.
    Ela se contorce de prazer. Suas unhas arranham minhas costas, mais e mais. Suas pernas se contraem. Ela geme. Gemido abafado.
    Sinto minhas costas arderem. Seus olhos estão revirados e sua boca aberta.
    Gozo.
    Então foi quando percebi. Ela estava sufocando. Já havia sufocado, estava morrendo. Suas mãos caem sem força sobre a cama.
    Penso em pedir ajuda, mas minha voz não quer sair. Aqueles lábios que me beijavam há pouco tempo atrás estavam arroxeando. Ela não se move. O abajur na cabeceira da cama havia caído por causa do vai e vem.
    Entro em pânico. Corro para o banheiro e vomito. Vomito muito. Sento ao lado do vazo e começo a chorar.
    “O que houve?”
    “O que eu fiz?”
    Essas perguntas varriam minha mente. Eu precisava de ajuda. Ninguém me ajudaria. Minha avó ficaria louca. Choraria sem parar.
    “Você se tornou como sua mãe.” – Diria ela gritando e tentando furar o cerco policial.
    Eu estava sozinho. Ninguém poderia me consolar. Mas no meio daquele choro, tive forças para ficar em pé. Deixo o corpo do meu corpo sobre a pia, enquanto me olho no espelho. Vejo meu reflexo. Aparentava ser bem mais jovem. Cabelos bagunçados, nada de barba e olhos inchados. Aquela imagem me faz rir. Estar totalmente em pânico e não ter nenhuma saída, me fazia rir.
    Rir era a única coisa que poderia me ajudar.
    Penteio o cabelo com um pente que estava ali. Estou mais calmo. Respiro fundo. Mesmo sem entender o que aconteceu. Sorrio para o reflexo e ele me imita.
    Volto para o quarto.
    Ângela ainda esta lá. Nua e linda. A luz reflete sua pele pálida. Deito-me ao seu lado. Aconchego minha cabeça sobre seu ombro.
    “Como isso aconteceu?” – Pergunto a ela.
    “Perdoa-me, ok? Foi sem querer” – Tento me redimir com ela.
    A cubro para que não sinta frio. O som estava bem alto, poderia atrapalhar seu sono.
    Sono profundo.
    Sua boa ainda esta aberta, assim como seus olhos, que mesmo revirados são lindos.
    “O que eu fiz?”
    “o que estou fazendo?”
    Minha mente esta tentando me trazer para a realidade. Matei mesmo aquela garota. Sem motivo algum.
    Matei por ela ser linda? Não.
    Matei por que me apaixonei? Não.
    Não havia explicação, apenas duvidas. Coloco minha roupa e a visto também. Desculpa Ângela. Coloco seu corpo no meio das roupas que estão jogadas na arara. E me despeço. Sinto vontade de beija-la, mas minha sanidade ainda falava comigo. Ainda
  • La Luna em Beleza e Graça

    Meu Amor!

    Há uma beleza audível e invisível que imerge no íntimo dos puros de coração

    E como a luz da lua cheia em que sua aureola prateada a envolve de encanto místico sagrado… a canção emerge do mais profundo do ser, espiralando no corpo uma aura de graça e áurea de benção

    A uma inocente beleza de pureza e graça iluminada em sua doce voz feminina…

    Voz de pureza musical que penetra arrepiando os fios dos corpos em graça

    Cada tom… cada acorde… cada timbre… cada sopro do teu ser é gracioso em sua voz em graça

    Calmamente vou seguindo os seus passos sonoros no Bendito Amor em beleza e graça

    Tua força audível dança descontroladamente em meu coração

    Tua voz graciosa me arrasta para a Morada da Beleza

    O Sagrado lá me espera…

    A Beleza em tua doce graça penetra meu coração

    Apenas um eco no vento de uma doce voz feminina me embala

    Trançando meus cabelos com pequenos galhos de flores e coloridas folhas, arrastados no sopro íntimo dos teus acordes sonoros em graça

    Como és graciosa Querida!

    Em tua voz fui levado ao divino do meu SER

    Proclamou-se em mim uma semente do Sagrado e Eterno Contínuo ecoando em sua voz em beleza e graça

    Os empecilhos e agregados de minha falsa personalidade evaporaram pelo sopro gracioso do teu iluminado coração, em cura, beleza e graça

    Cante escrevendo para mim Meu Amor, no silencioso do meu ser agora em graça… sopre o teu vento em ondas sonoras, acompanhado pelos acordes percussivos dos grilos, pelos efeitos do rasgar da garganta da coruja em um misterioso grito supersônico, e pela beleza secreta e mística da melodia dos lobos uivantes ao te venerar em luz prateada no céu noturno

    Sento-me solitário na beira do rio Meu Amor… me leve em teus passos sonoros… reflita em minha pele a luz dos teus acordes em brilho e graça… fecho meus olhos com a cabeça erguida voltada para tua face lunar… cruzo minhas mãos abertas em reverência uma sobre a outra, levando-as calmamente ao meu peito, no lado do meu palpitante coração… na sinfonia noturna das pequenas criaturas… em um divino concerto místico onde toda natureza te acompanhava em beleza e graça… tua voz luz em ondas escritas me penetrou… e sozinho, sentado me ergui no doce luminoso bailado… e fui levado pelas cores do invisível sonhar… e na minha singela silhueta, em que fui ofuscado em seu canto de luminosidade coloridamente graciosa, me despi por completo de minha singular, pluralista e dualística personalidade masculina

    Tua mística voz foi jogada ao vento como o sopro no dente-de-leão

    Uma dessas sementes luminosas repousou em meu coração

    E lá nasceu a tua graça… divina… escrita… cantada

    No palco lunar de inefável beleza e bondade mística iluminada

    Assim, Meu Amor… sua voz cantou em graça meu coração

    Beijando com sua luz o meu masculino negro corpo terra, numa voz feminina branca e graciosa lunar canção

  • Liberdade de amar

    Deve ser-te fácil seguir a vida de aventureiro!

    Andaste,por aí, mundo a fora carregando na bagagem, um cavaquinho, rodas de sambas, vários amigos e muita história.

    Pela Ilha do Amor, tu estás a andar, abraçar-te-ei por mais esta conquista de viver a vida com tanta bravura ou, quieta ficarei, vendo tua felicidade sem  mim?

  • Louca vida, louco amor

    O que é o amor? É saber que não importa o que aconteça, não importa o quão longe, quão bravos ou o quão atarefados possamos estar. Temos a sensação que estamos sempre aos cuidados de quem queremos ao nosso lado em qualquer lugar, a toda hora, por toda a vida. É saber que não importa o que seja dito, por mais que possamos nos magoar e até mesmo magoar a pessoa que amamos; temos certeza que no final da noite aquela pessoa estará ao nosso lado para nos fazer sorrir, para nos encorajar, nos levantar, nos cuidar e nos amar, incondicionalmente. É acreditar no potencial daquela pessoa indubitavelmente, é sentir que aquela pessoa já é uma parte tão importante da sua própria vida que não podemos mais se quer cogitar em uma vida sem ela, é ser o ponto de equilibro dela, é nos cuidar.
    O amor é o fato mais ilógico e mais certeiro do mundo… é ideia mais assustador, e, ao mesmo tempo, a mais reconfortante. É chave para o sucesso, é chave para o coração, é a chave para alma. Amar é assustador porque mesmo que tenhamos a certeza de que a outra pessoa realmente nos ama, temos medo de perdê-la justamente porque a amamos também. É assustador porque quando se ama de verdade, não conseguimos ter o controle desse sentimento; ele simplesmente cresce dentro de nós e se espalha em meio de todos os nossos defeitos, falhas e medos nos purificando, nos dando conforto, carinho, aconchego, companhia, nos cuidando, nos querendo cada vez melhor, cada vez maior; assim como uma bela flor em meio ao asfalto. Escondida em meio de tanta poluição, no meio de tanta sujeira, mas nos melhorando, nos ajudando sem tirar nossos momentos, sempre torcendo por nós.
    O amor é a única coisa no universo que não se explica, apenas quem sentiu isso alguma vez na vida conhecerá e entenderá o que quero dizer. Entenderá o calor que sentimos crescer de dentro do nosso corpo e ainda assim nos deixar com arrepios; é a única coisa no universo que nos dá a certeza de tudo que precisamos assim que olhamos para os olhos de quem amamos, assim que olhamos para os nossos universos. Eles nos fazem sentir como se fossemos um grande nada em meio a imensidão desse universo, fazem com que fiquemos paralisados em meio daquela grandiosidade, daquela imponência, mas, ao mesmo tempo; fazendo com que sentíssemos que podemos realizar qualquer coisa, pudéssemos crescer infinitamente e tentar alcançar aquela mesma grandiosidade, aquela mesma imponência, aquela mesma importância. São através daqueles olhos que podemos ver o coração dessa pessoa, podemos ver os sentimentos dela, podemos ver a alma dela.
    Não sei muito sobre o amor, assim como todos nós; Ainda estou aprendendo sobre o amor, sobre a vida, sobre amar, sobre o que devo fazer, o que não devo. Sou apenas humano, sei que tenho falhas, sei que vou errar… mas o pouco que sei é por causa do MEU amor, é por causa do GRANDE AMOR DA MINHA VIDA. É por causa da mulher mais fantástica, mais linda, mais gentil, mais leal, e mais amorosa e carinhosa que o universo ou o até mesmo o espiritual me deu… é o meu maior presente, é a MINHA linda, MINHA mulher, MINHA companheira, e principalmente o MEU amor. Por causa da pessoa que mais me ajuda, mais ensina e mais me incentiva, me ilumina, me apoia, que mais acredita, mais sente saudade e principalmente que mais me AMA. E esse texto é para todos que tem a sorte de ter alguém assim ao lado. Alguém que faça tudo por você e para estar com você e SÓ você, alguém que te ame incondicionalmente, que estava, está e sempre estará pronto para te socorrer, te cuidar, te ajudar, te incentivar, apoiar e torcer por você. É para quem tem O GRANDE AMOR de suas vidas bem ao seu lado, assim como EU.
    Um beijo meu amor, VOCÊ É O MEU GRANDE AMOR e tudo isso é para que talvez, e só talvez possa fazê-la entender o que significa pra mim todos os dias da minha vida. Obrigado por me cuidar, me apoiar, me incentivar, acreditar em mim, me ensinar, por ser MINHA e SÓ MINHA, por existir, obrigado por estar na minha vida, por me dar a MINHA família e principalmente por me amar incondicionalmente. Te quero para sempre, te amo demais. E, algum dia, iremos nos casar e passarei o resto da minha vida ao teu lado, junto com nossa filha e sermos felizes para todo o sempre.
  • Lua de Meu Existir

    Minha Amada que fertiliza o meu existir.

    Em plena beleza me perco em teu reflexo deitado sobre as águas escuras de minha alma.

    Mesmo com toda calma e mansidão de tua noite em que te revelas nua, cheia e completa.

    Teu reflexo iluminador é tremulo, desconexo e vibrante, intercalado por linhas negras que desconfiguram em saudades meu pobre e solitário coração de poeta.

    Ao subir lentamente cheia, contemplo a tua chegada no meu inabitado lago interior.

    Ao passo que te levantas se abre vagarosamente uma estrada de luz ‘brancamente’ prateada em meu encontro.

    Ó! Doce fonte de luz que me intensifica… ainda que eu possa ser tocado por tua energia iluminada, estás tão ‘lusitaneamente’ longe de mim…

    De súbito me imagino a caminhar em tua prateada e tremula estrada, então, poder ao menos abraçá-la calorosamente, enquanto ainda não flutuastes em mágica para o mais alto dos céus estrelados… tua influência elementar do Sagrado Feminino em mim, desperta a Consciência Mística da intuição emotiva do meu ser, quebrando os meus viciantes padrões interiores em ciclos de transformações ascendentes e decadentes de toda uma existência apaixonada.

    Como eu te amo, Meu Amor!

    Ó! Fruto do meu desejo insaciável…

    Sobes agora livremente… e tua estrada de luz desaparece nas águas de minha emoção, e agora debaixo de tua luz prateada, volto a minha singularidade pequenina e frágil, onde realizo o meu ritual de amor à tua Lua Cheia embelezada em sua aureola majestosa repleta de teu amor.

    Nisso, me vejo sendo irradiado pela luz azul de sua aureola… meu corpo negro encandece inflamado pela sua onda radiativa, tornando-se fosforescente, atraindo toda espécie de pequeninos seres noturnos em divindade graciosa. Pela tua dádiva amorosa, tornei-me um ser luminescente, e… quem me dera ser carregado pelos pequenos vaga-lumes que agora me cercam, no único amoroso objetivo de poder pousar em teu grandioso ventre oculto nos teus misteriosos segredos noturnos.

    Tua pele branca me seduz, teus cabelos de nuvens negras a flutuar me enfeitiçam. Como és bela! Como sou teu!

    Embora possa, eu, ser um diurno ser flamejante, de que me vale toda essa potência… se em minha forte luz te ofusco, ao ponto de nem eu mesmo poder contemplar a tua clara beleza? Estou preso na majestade de mim mesmo, e nisso, sigo meu solitário baile diário.

    Ó! Meu Amor, meu doce Amor… Meu Encanto! Como te imagino e me imagino juntos… ao te contemplar no silêncio de uma tarde em que apareces repentinamente no reflexo espelhado no limpo céu azul… mas, esta linda visão que tenho no dia, bela e cheia de graça… apenas se faz ecoar, ecoando a ecoar… a ecoar.

    Em tua face clara, lusa e juvenil me vejo iluminar. Abrindo meus olhos… retirando de mim as impregnações infrutíferas e residuárias de meu sofrido passado e presente agoniante tedioso.

    No meu mágico ritual… derramo as águas de aquários em uma bacia de prata e deixo exposta à luz de tua Lua Cheia, para que parte de Ti possa se desprender e lá habitar. Ponho minhas mãos sobre as águas e o recipiente, e faço riscos imaginários mágicos escrevendo palavras místicas de amor… em oração Celta na alta voz… dizendo:

    — Ó! Sagrada Mística Sabedoria Lunar… que tua luz fêmea caia sobre essas águas, envolvida na Magia da Prata e, de suas perenes divindades noturnas do Argentum branco e brilhante. Invoco sua áurea iluminada que reflete o poder divino de tua purificação e amor. Ser gigantesco feminino que controla todas as forças ocultas das águas naturais, que constitui todos os seres orgânicos e abarca os seres inorgânicos… se faça aqui fluidamente presente no Sagrado Agora… vem, e me Ilumina!

    Ao terminar meu mágico culto de oração… vi sua luz em forma feminina descer em baile e encanto, se deleitando nas águas… transformando-as em plasma prateado. Ali mesmo sob a luz de tua magnífica e sagrada presença me despi de minhas rudimentares vestes, assim como, também, estavas despida dos teus véus de nuvens negras. Derramei o teu leite prateado em meu corpo nu… pude te sentir me tocando todo e por completo, onde me acariciava com beijos de uma paixão apaixonadamente purificante… a este tocante… me perdi em fluxos energéticos de amor que me fazia flutuar e ecoar… ecoando a ecoar.

    Quando regressei a mim… já tinhas desaparecido, restando apenas a lembrança do teu beijo, teu calor, tua sensação purificadora e teu carinhoso amor, e teu céu noturno no vazio estrelado.

    Minha Amada… silenciosamente fechei meus olhos em reverência, e, de mim, restou lhe dizer:

    — Te amo… Te amo… e Te amo!
  • Lua Escura

    Querida minha

    Hoje passeio em devaneios pela noite escura a sua procura
    Hoje não me contemplaste com tua bela face iluminada, e triste caminho por essa trilha incerta do existir sem ti

    Apenas um vazio em meu coração palpita reclamando a sua presença
    Na tua ausência percebi que o céu era vasto e imenso de estrelas a cintilar
    Porém, vazio do mistério e do segredo de te amar

    Minha Querida
    Onde foste que não me levaste
    Por que de mim te ocultaste
    Sabes que te amo, e sem ti, sou cego em meu solitário noturno caminhar

    Triste, sento-me novamente na beira do meu interno lago, fecho os meus olhos no escuro do infinito abismo de escuridão… de que me importa os olhos abertos se não posso te contemplar fora… volto-me para morada do coração, e lá te imagino a me iluminar com teu claro sorriso.

    Te vejo nos meus amorosos pensamentos deitada sobre o teu céu escuro na cama ilustrada de planetas errantes e estrelas, em pequenos passos lentos e silenciosos vou ao teu encontro, e vejo que dormes encoberta pela sombra da terra. Apenas silenciosamente te contemplo, admirando o teu sono profundo… estou aqui contigo Meu Amor

    Em minha meditação adentro em teus mágicos sonhos… como estás bela a dançar com tuas guirlandas de estrelas. De repente, nossos olhos se encontraram, e não entendi porque ficaste estagnada com minha sutil presença, e lágrimas vi cair em seu lindo rosto que se evaporaram em uma cortina de serenos noturnos… de súbito repentino, me vejo te abraçando… e novamente nada entendi, porque evaporaste súbita e repentinamente dos meus braços como uma gota d’água a tocar uma superfície aquecida… e solitário me vejo, também, chorando, culpado por interferir em sua intimidade.

    Ó! Meu Amor… que maldição é essa que nos prende ao estar separado e nos separa ao estar preso?

    Te vi triste Meu Amor, e em tristezas doloridas estamos
    Dançamos juntos de mãos dadas ao som dessa música melodiosamente triste
    Nossos corpos chorando se juntam embalados por essa solidão
    Que segredos o seu coração guarda?
    Que mistérios esconde a tua face oculta?
    Do que sabes que não sei!?
    Por que tamanho silêncio?
    Não percebes que estou aqui para ti!
    Por que me abandonaste hoje?

    Somos tocados pela dor da separação…, mas, haveria tanta beleza se estivéssemos agora juntos?
    O que separa o Criativo do Receptivo senão a beleza do caminhar separado, ao se unir no imaginário! Então, caminhemos eternamente juntos com nossas mãos dadas na doce solidão a imaginar

    Quero te ouvir, que tristeza melodiosa canta seu coração
    Neste céu silenciosamente noturno, em que ansiosa volta tua face iluminada para baixo… o que pensas?
    Quero te compreender… me fale de tua tristeza, pois sei que a oculta quando enxuga suas lágrimas rapidamente em gotículas de sereno

    Por que só te revelas para mim em parte, se para você sou o todo de tudo em toda face?

    Te vi sentada no trono da noite
    Suas mãos acariciavam o rio do Nilo celeste
    E sentada sobre os seus calcanhares na taça da flor de lótus, o rio luminoso em que tocas arrasta infinitas flores estrelares
    Estás festivamente adornada de luminescências e cintilantes aureolas Meu Amor

    Vi uma beleza sobrenatural no seu amável rosto…, e, uma tristeza oculta… um mistério!
    Em sua majestade vejo que rege a Estrela Mágica, e oito vezes com sua foice crescente a decepaste do noturno céu enviando-a para mim, como a linda Estrela da Manhã. Porém, oito vezes com sua foice minguante, novamente decepaste do céu agora diurno, tomando-a de volta para si, como a linda Estrela Vésper… Essa Estrela é a nossa Mensageira do Amor… de nosso solitário Amor

    Dorme tranquila Meu Amor
    Em sua luz encoberta de encantamento na paz de tua força interior

    Sinto seu amor… Meu Amor… pleno de força plena
    Sua atmosfera mágica me envolve no frescor de seu sereno carinhoso pelo qual solitário me condena

    Hoje! No breu da noite
    Estudarei em meditação as tuas leis celestes
    Na sombra terráquea em que dorme te vestes

    E, nesse céu em que hoje de mim te ocultas
    Esperarei no amanhã a sua doce poesia
    Pelo qual me revela a sua face oculta
    Na companheira doce tristeza do meu amargo solitário alegre dia

  • Magnetismo

    Que força é essa..
    Que magnetismo é esse que me lança até você...
    Me atrai a dar ritmo e colorido as palavras de amor que eu tenho aqui guardadas no meu coração...

    Versos brancos...
    Palavras claras sobre tons dessa imensidão azul... 
    Dançam no balanço do mar...
    Voam ao vento...
    Chegam no seu coração sensível...
    Toca o seu corpo quente...
    Tudo pega fogo...

    Quando penso em você...
    Minha alma fala...
    Meu silêncio diz...
    Meu coração passa enxergar....
    E meu corpo a dar sinais de desejos...

    O amor avança como um mar querendo de volta o que é seu...
    E o tempo que não é favorável...
    Recua em um clima de vai e vem...
    Esquentando e esfriando ao mesmo tempo...

    A mente diz...
    Pense antes de ir
    O coração...
    Vá antes de pensar...

    O vento me levou...
    E te trouxe também...
    Com isso...
    O sentimento bateu na sua porta...
    tocou nossas almas...

    Você o deixou entrar...
    A transcendência se fez...
    Você com esse sorriso lindo me abraçou...
    E eu...
    A tomei em meus braços.

  • Marias - I

    Maria ouviu o trote do cavalo aproximando-se da porteira. Num impulso, soltou a espiga de milho que acabara de ter os cabelos penteados e trançados por ela. Com as mãos trêmulas, segurou a barra do vestido e correu em disparada através do estreito caminho de terra que cortava todo o milharal e terminava próximo ao imenso terreiro de secar café, nos fundos da casa.
    _Onde é que ocê tava, menina? Seu pai ainda há de matar ocê por causa desses sumiços.
    _Eu tava brincando de boneca, mãe.
    _Cê tava amarrando os cabelos dos milhos outra vez?
    Maria ia responder alguma coisa quando o pai adentrou à cozinha, interrompendo a conversava das duas.
    _Ocê ainda tá nessa sujeira? Vai caçar um jeito de se arrumar que seu noivo já tá aí na sala esperando pra lhe vê. Fez uma pausa e direcionou-se para a mulher. _E ocê trata de passar um café e trazer aqui na sala.
    Mãe e filha olharam-se assustadas e confirmaram com um aceno de cabeça. O homem deu meia volta e saiu fazendo barulho com as botas no assoalho de madeira.
    _Eu não quero ver aquele homem, mãe.
    _E ocê lá tem algum querê, menina? Desde de quando a gente pode desquerer alguma ordem de vosso pai?
    _Mas, mãe...
    _Mas nada, Maria. Trate logo de ir botar seu vestido de laço e pentear esse cabelo. Na certa, as espigas estão mais penteadas que ocê. A mulher finalizou e voltou-se para o fogão a lenha que queimava num dos cantos da cozinha.
    Enquanto se vestia, Maria ouvia as vozes que conversavam animadamente na sala.
    _Eu tenho certeza que o senhor vai fazer muito bem proveito daquela lavoura, senhor Afonso. Eu é porque já desgostei daquelas terras. O visitante falou.
    _Já tenho tudo pensado aqui na cabeça, seu Zeca. Tudim aqui. Vai ser o tempo de ocêis casar pra modo de eu mais os meninos começar a trabalhar naquilo lá.
    _Aquilo é pra família grande que nem a de vocês. Eu, depois que a mulher morreu, desgostei de muita coisa. Mas pra frente eu até penso em levar vossa filha pra morar na cidade comigo.
    Maria sentiu o coração triplicar os batimentos. Ir embora pra cidade com aquele homem que ela mal conhecia? Seu pai não podia permitir uma loucura dessas.
    _Cada um sabe o que é melhor pra si. Mas, eu não saio da minha roça de maneira alguma, seu Zeca.
    _O senhor é por que foi nascido e criado por essas bandas, seu Afonso. Eu, ao contrário, não. Já vivi uns tempos na cidade e, confesso, ando sentindo um pouco de saudade do movimento de lá.
    _É justamente isso que me assusta, seu Zeca. Movimento.
    A menina estava estagnada ouvindo a conversa quando a mãe apareceu na porta do quarto com uma bandeja de café e xícaras nas mãos.
    _Anda logo, menina. Daqui a pouco teu pai vem te buscar debaixo de porretada.
    _A senhora podia falar que eu tô passando mal, mãe.
    _Ocê ficou maluca? Seu pai sabe muito bem que ocê tá boa igual um coco. Anda, saía logo desse quarto.
    Maria ainda tentou retrucar, mas ouviu a voz do pai chamando seu nome. Sabia que seria inútil inventar qualquer desculpa. Entrou na sala de cabeça baixa e agarrada à mãe que também tinha os olhos voltados para o assoalho.
    _Boas tardes, seu Zeca.
    _Boas tardes, dona Helena. Com tens passado a senhora?
    _Bem, com a graça de Deus. E vossos filhos, como vão?
    _Muito bem, obrigado. Ansiosos com a chegada da nova mãe.
    Maria sentiu um calafrio percorrer o corpo. Na certa, tratava-se dela. Como isso podia ser possível? Ao que ela recordava-se do velório da falecida dona Lúcia, esposa de Zeca, o primeiro filho deles era mais velho que ela.
    _E ocê? Não cumprimenta seu noivo, Maria? Afonso perguntou num tom zangando.
    _Boas tardes, seu Zeca. Ela respondeu com a voz tremida.
    O homem levantou-se da cadeira onde achava-se sentado ao lado do futuro sogro e caminhou em direção a elas. Pegou uma das mãos de Maria entre a suas e falou sorrindo.
    _Boas tardes, menina. Não precisa ficar tão acanhada assim. Muito logo seremos marido e mulher.
    Aquilo fez o estômago de Maria revirar e ela pensou que fosse fazer uma sujeira no meio da sala. Puxou sua mão com rapidez e tratou de ir ajudar a mãe servir o café.
    _O senhor vai ter que ter paciência com essa daí, seu Zeca. Ela é um pouco arisca mesmo.
    Já sentado outra vez, e agora com um cigarro entre os lábios, Zeca sorria enquanto falava.
    _Depois que estiver lá em casa, rapinho aprende, seu Afonso. Ela é nova e eu hei de ser um bom professor.
    ...
    A visita de Afonso se estendeu por quase toda à tarde e quando ele finalmente se despediu com promessas de um breve retorno, Maria sentia a bunda doer. Ficara tempo demais sentada no banco de madeira ao lado do pai.
    _Ocê pode caçar um jeito de tratar melhor o seu noivo na próxima vez que ele vier lhe ver. Esse homem tá salvando nossa vida.
    _Eu não gosto dele, pai.
    _E ocê lá tem que gostar de alguma coisa, menina? Ocê tem é que me obedecer e dá graças a Deus pelo seu Afonso se interessar por alguém tão mal criada que nem ocê.
    _Mas, eu não quero ir embora com ele, pai. Eu faço qualquer coisa que o senhor mandar. Eu vou trabalhar na roça igual os meus irmãos. O senhor vai ver.
    O homem sorriu.
    _Deixa de falar bobagem, menina. Eu sei o que tô fazendo. Esse casamento vai me render uma quantia de terras que nem se nós trabalhasse o restante de nossas vidas, de sol a sol, ia conseguir adquirir.
    Maria calou-se percebendo o quão inútil era discutir com pai. Ela havia sido trocada por um pedaço de terra e nada que dissesse faria o velho Afonso mudar de ideia.
  • Me aceite!

    Me puxe
    E eu me livrarei
    Me acompanhe
    E eu te levarei
    Me pode
    E eu morrerei
    Mas se me floresce
    Eu te amarei.
    Me deixes no vazio
    E encontrarei "eco"
    Me olhe nos olhos
    E te mostrarei minh'alma
    Me escondas a verdade
    Que criarei meu mundo
    Mas se me mostras seu "eu"
    Te farei completo. 

     

  • Me Espera

    Eu queria ter te dito
    mas estava com o coração doído
    eu me sentia tão bem
    com você aqui ? não sei

    parecia estar perdido
    ou em outro mundo distinto,
    tentando não lembrar
    sem querer outra vez me apaixonar

    não sei se é apenas uma distração
    ou algo mais que tenho em meu coração,
    esse seu olhar tão lindo
    achei que havia esquecido...

    (pré refrão)
    quase me perdi em tantos dias e sinto que não vivi nada sem você,sem você...

    (refrão)
    me espera,
    me deixa te dizer,
    o quanto senti sua falta
    o quanto eu quero você!

     
  • Melancolia

    Meus olhos encontravam-se marejados
    Minha alma estava profundamente consternada
    Angústia e solidão pareciam não ter fim
    Achava-me à beira de um precipício
    Pronta para pular
    Quem haveria de me salvar?
    Nas inúmeras tentativas de acalentar
    Minhas vozes internas
    Que insistem em me dizer
    O quão tola eu fui em desfazer-me
    Da armadura que criei
    Para me proteger de você.
    Encantador, galante, instigante...
    Eu deveria ter me entregado?
    Depois que estou a juntar os cacos
    Que você me deixou
    Dou-me conta que ingenuamente agi...
    Doce e amarga ilusão.
    Tento de todas as formas
    Esquecer o gosto do seu beijo.
    No lugar onde você se deitava
    Para me fazer juras e promessas,
    Hoje eu ocupo com livros...
    (Os livros que me deu de presente).
    As rosas do buquê que me presenteou,
    Encontram-se murchas
    Assim como o amor que
    Disse que duraria até aquele dia,
    Quando te vi partir com outra pessoa
    E levando consigo minha virtude.
    Muito tempo se passou desde então...
    Consegui o intercâmbio que eu sempre quis,
    E a pessoa com que fugiste
    Hoje te abandonou.
    Ainda guardo a lembrança mais bonita de nós dois
    Mas hoje... você é só mais um 
    No meu oceano de amores.
  • Menino Azul

    Eu fico me perguntando o porquê de tanta tristeza, como pode alguém ser tão melancólico?
    Sei que você que está lendo agora não entendeu nada do que eu disse, mas continua lendo pra entender melhor.
    Um garoto que eu conheci com cabelos azuis como seus sentimentos, pele gélida como seu coração e olhar cansado como a sua alma me sufocou nessa confusão que ele é.
    Tão bonito quanto narciso e tão complicado quanto os 12 trabalhos de Hércules, difícil não se apaixonar.
    Ele sempre foi frio e distante mesmo estando sempre ao meu lado, e eu tola amava ficar imaginando o que se passava naquela mente turbulenta. A curiosidade era tanta que eu insinti pra que ele contasse e eu não imaginava o quão triste uma pessoa podia ser. O azul brilhava.
    Tanta confusão num só corpo, tanta insegurança, tantos medos e isso era tão sufocante que eu cheguei a pensar se eu queria estar ao lado de um menino azul.
    Depois que ele contou como se sentia tudo ficou diferente, o ar ficou mais pesado, o clima estava morto e a distância se esticou. O azul estava ficando cada vez mais escuro.
    A sua ida foi estranhamente dolorosa, o sangue escorria com uma cor diferente e a saudade era clara. O silêncio todo me lembrava a sua voz calma, me sentia dentro de um grande oceano quando estava ao seu lado e agora me sinto numa poça d'água feita por uma nuvem qualquer.
    Eu procurei ele, falei o quanto estava com saudades da sua cor e ele desabou, disse que estava mantendo distância de mim pro meu próprio bem, pra manter a minha saúde mental e a dele também. Dessa vez o azul ficou acinzentado.
    Eu procurei outras cores, mas azul sempre foi a minha preferida. Sentia falta do seu cabelo bagunçado, do seu sorriso simples, das piscadas lentas, das reviradas de olhos, dos abraços apertados, do seu ar misterioso.
    Só que eu não podia correr atrás de alguém tão apaixonado, porém distante.
    Tudo foi sumindo.
    O azul já era quase branco.
    A distância nos apagou e hoje ele é só mais uma cor que pintou meu coração.
    Morri congelado no infinito do seu azul.
  • Meu algoz - Parte 1

    Eu acordei, não sabia onde estava, só conseguia sentir tinha cabeça latejava, meus olhos arderem e a boca seca, muito seca.
    Estava como a noite anterior: vestido tubo preto, meia arrastao, uma sandália estilo cuturno, colares, brincos, nem a jaqueta de couro que usava, tirei. Isso era um bom sinal, nenhuma besteira tão grande acontecera.
    Eu fechava os olhos e tinha flashbacks: estava no pub da rua principal, meu "porão" favorito, tocava a musica "LSD - Thunderclouds" feat da Sia com Diplo + Labrinth tocava no fundo, estava com a Nick, bebendo uma long neck, enquanto ela falava sem parar sobre trabalho, a mãe e o ex, eu estava rindo muito da sua vida confusa, até que...
    Ouço um barulho, abro os olhos e é na vida real, não no flashback.
    Sento na cama, me esticando para chegar até a porta, minhas pernas estão adormecidas, assim como parte do meu corpo. Ainda não sei onde estou. É um quarto bagunçado, parece de um estudante, tem a cama que estou deitada, roupas pelo chão, uma grande janela fechada por uma cortina azul, bem fina; tem uma escrivaninha cheia de livros que não enxergo bem do que se tratam.
    Nesse momento penso: "Droga, minhas lentes!". Percebo que não estou com elas e não consigo lembrar se as coloquei na noite anterior... deveria, pois não enxergo nada bem sem elas, ou, meu oculos...
    Outro barulho! Me volto para a porta, só consigo pensar que precisava parar de beber e que...
    Mais um brarulho! 
    - QUEM ESTÁ AI!???! - gritei em um impulso cheio de raiva por estar fisicamente e mentalmente afetada.
    Parecia pratos batendo, que dão lugar ao som de passos, o assoalho era de madeira de taco. Um homem para na porta, olho bem para a cara dele que diz:
    - Oi! Bom dia Liz. Desculpe o barulho, estou fazendo café.
    WTF?! Quem era aquele cara? Um estilho Ed Sheeran, só que menos ruivo e mais bonito.
    - Quem é você? - Bradei, brava com a situação, comigo e com o barulho dele.
    - Desculpe! Você deve ter batido feio a cabeça, sou Derick, amigo da Nick - falou ele com um grande sorriso amarelo e estendendo a mão - Você caiu ontem e te trouxemos pra cá, você está no meu apartamento.
    Em um ímpeto, levantei da cama, me dirigindo até a ele:
    - O que? A Nick está aqui? Ai minha cabeça... - encostei no criado mudo, pela tontura e porque senti uma pontada no topo da cabeça. Levei a mão até o local da dor, e tinha um galo ali
    - Não, ela não está aqui. Tinha que resolver algo com o ex-namorado e a mãe, não entendi direito. Acho que nem ela entendeu. - Disse ele divagando, nessa ultima parte, enquanto me ajudava a sentar novamente na cama - Ela só deixou você aqui e pediu para cuidar de você.
    - Ok. Derick, certo!? O que houve? Porquê minha cabeça doí? - perguntei quase chorando, odiava esse meu estado, odiava esse sentimento, eu não era mais essa pessoa, essa Lizzie.
    - Acho que foi uma noite intensa. Quando cheguei, você já estava bem "feliz" - Falou fazendo aspas com as mãos - podemos fazer assim, eu trago um café para você e conversamos melhor, pode ser!? Acho que você não comeu nada.
    Apenas assenti com a cabeça e vi ele se distanciando do quarto.

    Com a mão ainda na cabeça, fechei os olhos e voltei para mais um flash. Nele eu discutia com a Nick e chorava muito. Ela gritava para eu parar e me sacudia, dizendo: "você não pode ir, não pode!"

    Derick apareceu com o café, cortando o flash. Mas, acho que não conseguiria lembrar de muito mais. Ele me entregou a xicara e sentou na cadeira de rodinhas da escrivaninha, se aproximou da cama e começou a falar o que sabia.
    - Quando cheguei, a Nick estava alterada...
    - Bebada? - cortei, meio que supondo com certeza. Ela sempre ficava assim depois de falar do trabalho, mãe e ex.
    - Não, brava, preocupada, com você. Ela disse que alguém que te fazia mal estava lá e você estava fora do controle - antes que eu interrompense, ele continuou - você estava muito alterada, sentada no bar, conversando com os garçons, quer dizer... chorando... - concluiu com pesar.

    Eu não sabia onde enfiar minha cara. Eu, Editora chefe de uma revista de esportes conceituada, que estava todo dia construindo minha reputação, não sabia me segurar em um ambiente publico...
    - Pelo amor de Deus Lizzie! - gritei, sem perceber, deixando Derick assustado - meu Deus! Desculpa!
    - Tudo bem! Você quer ficar sozinha?
    - Não, na verdade, gostaria de ir embora. Obrigada, Derick. Obrigada mesmo, mas, tenho que ir...
    - Bem, na verdade, a Nick pediu para não deixar você sair... - disse ele, com medo da minha reação.
    - Quem aquela louca acha que é!? - tomei um gole de café e coloquei na escrivaninha - onde é o banheiro, por favor!?
    - Olha, é ali a esquerda. Mas, tem uma coisa que acho que você precisa saber... - disse Derick levantando e fazendo uma pausa dramática - quando ela pediu para que você não saisse, sabia que você resistiria, então, pediu para te lembrar que Ele voltou para a cidade e estava no bar ontem.

    Eu parei imediatamente na caminhada para o banheiro e procurei um lugar para me encostar.
    Me faltou ar, minha boca secou, meu coração disparou e as lagrimas surgiram.
    É logico que eu desistabilizei, ele voltou, ele estava na cidade e algo havia acontecido ontem, e claro, ele estava envolvido.

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