person_outline



search

primeiro beijo,

  • [Cartas] DESPEDIDA

    Lembro de você me chamar, segurar a minha mão e me guiar.

    Era pouco antes das dez da noite. A noite bonita. Depois da nossa longa conversa, levantou do banco marfim entre as árvores do condomínio, pegou na minha mão e disse “vem aqui”. Não sabia onde iríamos, mas levantei e deixei-me levar. Eu estava descalço e sentia a grama fria em meu pé, entrelaçando nos meus dedos. Enquanto me conduzia, por entre o emaranhado de folhas, parou um instante. Olhou para trás. O seu rosto de um jeito convidativo, um sorriso de canto, seu olhar castanho fitando os meus lábios, fez-me arrepiar. Voltamos a caminhar, “eu estou descalço”…”não importa, só vem comigo”. E eu nunca vou esquecer a sensação da grama fria nos meus pés.

    Chegamos na parte mais bonita da pequena vegetação tropical que cercava o condomínio. Paramos, você não precisou falar nada, o seu abraço me disse o universo e o mundo. Confirmando tudo.

    Recordo o seu toque leve acariciando os meus braços até suas mãos chegarem e relaxarem em minha cintura. Eu estava nervosa, tensa. Você tentava me deixar confortável. Não era a primeira vez que te via naquele clima e daquele jeito, mas era tudo ainda mais intenso. Havia algo de diferente. Forte. Eu sabia a imensidão que significava aquele momento mas, me recusei a aceitar.

    Numa tentativa falha de cessar, postergar, comecei a falar. Você me encarou fixamente, repousou os dedos nos meu lábios — “shh” — e, num sussurro, me pediu pra parar de falar porque você queria me beijar. Não era o meu primeiro beijo com você. E ainda assim, eu estava com medo, tão aflita que sequer entrava no clima. Podia não ser o primeiro, mas sabia que seria o último.

    Infelizmente algumas situações precisam ser vivenciadas. Não há como fugir. Elas cortam, mas são necessárias. Não podem ser adiadas, elas nos cercam, quando menos esperamos. Reconheci que aquela noite marcava a nossa despedida. E isso me torturava. Antagonicamente marcava o fim e confirmava a intensidade de tudo que vivemos, a grandiosidade do que nos proporcionamos sentir. Árduo, mas belo.

    Resolvi postergar, não o momento, mas a dor. Faria da nossa última noite uma celebração da nossa curta história de “amor”.

    Teu olhar sereno me fitava. Seus olhos trêmulos. Com um sorriso de canto, me disse “é necessário”. Exalando pesar, assenti. Em meio às árvores que abafava o som de “Brooklyn Baby — Lana Del Ray” que ecoava da festa, deixei me guiar. Foi só em meu rosto tocar e, como sempre, me desmanchei. Você não falou, mas não ouse chegar a negar. Nunca te vi tão obcecado por mim como naquela noite. Desejo. Como se o seu eu não só ansiasse, mas dependesse do meu. Queimava em intensidade de um jeito que nunca havia visto e que jamais esquecerei. Almas conectadas. Transcendemos.

    Nunca conversamos a respeito daquele dia depois. Não nos vimos. Não nos veremos. Para mim foi bem mais que intenso. Enquanto decidia simplesmente a ti me entregar, uma reprise dos nossos dias invadia minha mente. Uma reprise do meu melhor verão. A sensação enquanto parávamos para respirar era gostosa, saber que por alguns instantes nos pertencemos, que estávamos em sincronia. A cada exalar, um momento nosso tornava a minha mente, fazendo-me grata por dividir um verão com você. Tão grata que mesmo hoje, distantes, provavelmente um pouco mais diferentes, somos duas pessoas, que não mais se conhecem, mas com uma história gostosa, repleta de lembranças inimagináveis e momentos incríveis — em comum — de uma intensa paixão de verão.

    Lembrei de quando me levou para conhecer a galeria, depois do luau. Era enorme. Fiquei boquiaberta com o quanto se dava bem em tudo atrelado à arte. Não só compunha belas canções, mas também dava vida à telas maravilhosas. Por ser totalmente leiga, impressionada, fiz uma série de perguntas. Tu não se irritava com minhas indagações, ao contrário, me contava graciosamente sobre tuas técnicas. Inspiração. Gostava de te ver daquela maneira, expondo seu íntimo.

    Tornei também à noite do karaokê, cantamos juntos “What’s Up? — 4 Non Blondes”. Lembrei da festa da Mallu, você me irritava me chamado para dançar enquanto eu resistia alegando não saber, mas, na hora que eu sentia você em mim a sua calmaria me inundava e toda fútil irritação se evadia. Independente de experiência, achei teus movimentos tão graciosos. Definitivamente eu não sabia dançar. Porém, contigo eu não tinha receio de arriscar. Não haviam barreiras. Foi a primeira noite que dancei literalmente sem pensar no amanhã.

    Passamos a maioria das tardes do verão em seu ateliê. Adorava te ver trabalhar enquanto jogávamos conversa fora. Aliás, jamais esquecerei o meu pique de euforia ao ver uma pintura minha lá. O meu melhor artista. No entanto, adorava ainda mais quando cantava “Onde anda você — Vinicius de Moraes”. Tudo em ti me derretia, não era só o seu beijo. O teu jeito. Quando nos encontrávamos, instantaneamente algo me preenchia, embora antes não estivesse fazia. Eu não te completava e nem vice e versa, a gente transbordava.

    Em pensar que na primeira vez que te vi, não imaginava tudo que estava por vir. Nunca iria presumir o quão profundo um envolvimento de férias poderia me tocar. Sequer que umas horas de papo furado na praia com um cara bêbado de sorriso malicioso iriam acarretar tudo isso. Felizmente, tive o prazer descobrir que tu era bem mais do que isso, bem mais que um cara bonito cheio de lábia com jeito de inconsequente.

    Você tinha sede de conhecimento, tão sedutor explicando-me os assuntos mais complexos, isso me desmoronava. E ao passar do verão, me cativava cada vez mais. É deslumbrante memorar o quanto me mostrou, não me refiro só os lugares bonito que me levou, mas também, às nossas horas de conversa, sua filosofia que pouco a pouco me fazia ver por outra perspectiva a vida. Era uma troca. Troca de conhecimentos, experiências, questionamentos e, claro, amassos.

    Confesso que a sensação, o clima de incerteza, sobre o que rolava entre a gente era gostosa. Você tinha a sua coisa, eu a minha, e quando a gente se encontrava era muito bom. Havia mistério, nem começo nem fim. E eu não queria perder o controle da situação. Não poderia ser tão fácil assim. Eu definitivamente não era esse tipo de garota, não me apaixonava assim. Mas, aquele verão foi diferente. Você foi o diferente.

    “Foi mais que um prazer conhecer você, foi incrível” as lembranças evadiram-se e rapidamente eu voltei, para a nossa última noite, afinal, eu voltaria para São Paulo na manhã seguinte. A noite ficou encantadora. E foi naquele instante, enquanto pronunciava aquelas palavras e o teu olhar avelã me fitava, que percebi o quão sua frase naquele primeiro dia na praia “a gente não tem nada ver” foi completamente descartada. Seu rosto corou, se entregou, estampou a verdade.

    Não imagina o quanto eu havia esperado, ansiado, desejado aquele momento ao longo de todo o verão, com o meu apressado e quem, sabe, inconsequente efêmera paixão. O instante exato que tive certeza que, pra ti, a nossa coisa também foi surreal. Química demais, conexão demais para ser verdade.

    O melhor de tudo foi que mesmo o Rio de Janeiro transparecendo despedida, ao longo de não um, mas vários beijos, o clima daquela noite não poderia ter sido melhor. Caloroso. Não era uma noite de despedida como as outras, não era capaz de me reconhecer. Não lidava bem com despedidas. Mas, estranhamente, reconhecia que estávamos fadados a ela, apesar de não aceitar.

    O clima, embora de já exalar saudade, não pesava. Conformismo? Tu agia de uma forma que eu jamais imaginara, sempre tão autêntico, agora afável, sereno, mas ainda assim, algo característico seu, mas um lado que eu desconhecia.

    Não sei se eu fui uma pessoa qualquer dentre as demais. Você não foi. Creio que alguma memórias não ousará em deixar para trás. Não tem como. Nos conhecíamos havia pouco tempo e já tínhamos uma conexão esplêndida, te contei tantos segredos, mas nunca abri meu coração. Lembro que você mencionou “a nossa história” comigo algumas vezes e, em pensamento, me questionava o quão apressado, cedo, era pra você falar isso. Presa em minha própria teia. Eu queria mais. Disposta a me deixar levar. Quando eu teria uma aventura como aquela novamente?

    Mais cedo, antes de tudo, sentados juntos naquele banco, olhando o céu escuro, sentindo a brisa da noite calorosa — o som da festa ao fundo “Art Deco — Lana Del Ray” — conversávamos e eu juro que tentei. Tentei de verdade, abrir meu coração. Falar sobre o sentimento avassalador que me dominava, fazendo desejar cada vez mais e mais dias como aqueles contigo. Corroía. Já não me importava se era cedo, se burlava todos os meus conceitos. Tentei e eu estava disposta a colocar tudo pra fora independente do que você fosse falar ou pensar.

    Eu tentei: “não fala nada, você só vai me ouvir”, comecei a falar sobre umas coisas e logo desisti. A insegurança de sempre veio a tona e eu me senti tão boba. Boba por ter atribuído intensidade demais a tudo. Enquanto eu tentava revelar a imensidão do que na época sentia, simplesmente ao desenrolar das palavras, a coisa mais forte que eu consegui dizer foi apenas “saiba que eu gostei de você” e tu instantaneamente virou o rosto em minha direção, me olhou, inclinou a cabeça, mordeu o lábio e confirmou o que lá no fundo eu já sabia “eu também gostei de você, demais, pra caramba”.

    Mas nenhuma de nossas falas remeteu ao amanhã. Independente do que ia acontecer ou não depois daquele instante, eu precisava aceitar, realmente, paixão de verão. Porém, uma coisa eu pude ter certeza, nos dedicamos uma história breve, mas sensacional. Confessa.

    Não esperava vivenciar sequer uma parte de tudo isso. Sequer é possível falar qual a melhor parte da “nossa coisa” sendo que eu gostei de absolutamente tudo. De todo o verão contigo. Talvez você não lembre da mesma forma que eu ou apenas não lembra mais de tudo que sentiu na época. Mas, se tem uma coisa que eu jamais irei esquecer é você. O cara pelo qual fui inconsequentemente apaixonada. Jamais irei esquecer a minha curta paixão de verão.

    Definitivamente uma paixão de verão, não passou disso. Justamente a sensação de incerteza sobre o que seria depois foi a graça de toda a coisa.

    Lembro de sentir a grama fria entrelaçar os meus dedos dos pés, dos seus beijos, do seu ritmo caloroso, do seu gosto, do nosso calor. Foram só alguns dias, mas que marcaram imensuravelmente aquele verão.

    Lembro de cada detalhe da despedida.


    Janaina Couto ©
    [Publicado — 2017]

    @janacoutoj

  • [Cartas] FANTASIA

    Eu fantasiei. Fantasiei muita coisa a respeito do que estava rolando entre nós. Finalmente, depois de tanto tempo, identifiquei que também fui parte do problema. Tudo aquilo era tão novo, tão excitante, aquela sensação de perceber que o cara pelo qual sempre tive uma queda estava claramente na minha, me corria! Isso arrasou o meu psicológico. Literalmente.

    Você fazia as coisas mais simples e esperadas de um cara que está afim de alguém, mas, simplesmente pelo fato de ser você, eu me sentia incrível, a grande contemplada; me contentando com migalha. Afinal, desde o início, lá atrás, sequer cogitava a hipótese de te atrair, pois, não me enquadrava nem um pouco com as mulheres que você costumava sair.

    Não foi assim que te vi. Não, definitivamente não foi, apesar de ter chamado fortemente a minha atenção de primeira. Foi de modo gradual, com decorrer do tempo, quando passei a conhecê-lo realmente [ou melhor, quando acreditei que o conhecia], que me encantei por você.

    Confesso, inicialmente, me recusei a aceitar já que aquilo parecia o cúmulo do absurdo, cheguei a passar por toda aquela fase de negação que, aliás, foi relativamente longa. No entanto, reconheci que mentir para mim mesma não fazia sequer sentido, como poderia sentir vergonha por ser capaz de me cativar por alguém antes mesmo de tocá-lo?

    Mas, o problema não estava nisso, jamais fora o sentir. A grande questão era o receio de não ter o meu interesse correspondido, como já mencionado, ao meu ver eu não fazia “o seu tipo”. Esse pensamento me inibiu por um tempo considerável, até que, em meio às brincadeiras da galera, você passou a dar sinais favoráveis a mim.

    Mas, para a garota que no fundamental era alvo de chacota entre os garotos da turma, tudo aquilo não passava de mais gozação. Aliás, acabou por ser um dos principais motivos da minha insegurança e baixa auto-estima, qual até hoje percebo seus reflexos. Não era capaz de acreditar. No entanto, por incrível que pareça, aos poucos eu cedi à medida que você pareceu tão confiável, claro e franco. Você não era como eles.

    Não é novidade, sempre há um “porém”, você agia diferente comigo em detrimento das demais garotas da classe, com uma espécie timidez, acanhamento. Não faz ideia do quão isto deturpou a minha mente. Eu precisava encontrar um porquê. Cheguei ao ponto de identificar uma espécie de padrão nas garotas que você curtia; e, pior ainda, me rotular como não interessante e/ou atraente como elas. Que apesar de sentir-se atraído por mim, jamais seria na mesma intensidade que elas o atraíam. Eu não podia competir.

    Sinto vergonha em assumir que tive tal pensamento esdrúxulo, como se nós, mulheres, estivéssemos numa competição; ou que pelo fato de uma mulher ser para ti atraente e eu não possuir as mesmas características que ela me diminuísse de alguma forma. Além do mais, tola, por ter sido tão ingênua e deter uma visão distorcida sobre “conquista”, já que ainda não compreendia sobre “reciprocidade” e “leveza”.

    Sei bem o que me levou a isto. Sabe o que? Minha tentativa fútil de justificar a razão pela qual as coisas aconteciam lentamente entre agente. Não, eu nunca fui e não sou apressada, a real era que você me enrolava e eu não conseguia compreender o seu porquê. Você agia diferente comigo, não tinha atitudes negativas, ao contrário, tinha medo e eu só não sabia do que. De agir? Pois, chega a ser curioso, eu estava apta a me deixar levar e isso não era possível quando reconhecia que apesar de sentimentalmente a coisa ser mútua, você ainda assim não tomava atitude consonante.

    Havia algo sim, medo, receio ou sei lá o que, você não era assim e isto me fazia reconhecer que era por causa de mim, eu causava essa reação em ti. Era por isso que eu viajava. Não conseguia entender o que te embasava. Porque não me chamava logo pra sair? Demorou, mas, depois finalmente compreendi.

    A sensação que vigora entre nós era a de estar pisando em cascas de ovos, a todo instante evitando deslizes, constantemente tendo cautela exagerada em tudo para não estragar o pouco conquistado em tanto tempo. Mal sabíamos que isso nos impedia de sermos nós mesmos.

    Fazíamos o possível para manter a boa impressão e não afugentar o outro; eu, por exemplo, chegava a ficar minutos pensando em como responder uma mísera mensagem; você, por hora, corava ao falar comigo em nossa roda de amigos, ficava sem graça e ao invés de conversar se afastava.

    Justamente o zelo e o desejo de que “fluísse naturalmente”, sem colocar pressão ou sequer expectativas no que acontecia, de modo a não fazermos projeções para evitar a temida frustração, tornava tudo ainda mais embaraçoso.

    Mal sabíamos que só em pensar dessa forma, estávamos os dois concomitantemente implorando para dar certo. Expectativa. Não chegamos a falar isto, mas, era evidente dos dois lados. Eu dançava conforme os seus passos. Mesmo não concordando com o lance da demasia, isso me consumia. Mas, ainda assim, continuei a dança, persisti naquilo, afinal, eu também queria que desse certo.

    Em virtude do anteposto, é evidente, não deu certo. Recordo os detalhes, consigo explicar conjunto de fatores externos de uma forma lógica que inibiram o que desejávamos, mas não sei bem explicar como isso pôde ser maior que a intensidade e pureza do sentimento avassalador que havia ali, aparentemente, a magia da primeira paixão de adolescência não era tão forte assim.

    Alguns verões depois, em tese “maturos”; se comparado a nossa, ou melhor, a minha — em especial -, falsa percepção de conquista, idealização de amores e nula experiência quanto a mãos, bocas e perfumes, nos esbarramos novamente. Destino? Universo? Coincidência? Não sei, não importava. A minha única convicção era de que jamais cometeria o mesmo erro que anteriormente. Desta vez, não havia um sentimento antecessor, paixão ou seja lá o que, para complicar as coisas ou até mesmo postergá-las.

    Em contrapartida, havia ainda forte interesse e, claro, lembranças. Isso deixava tudo inflamado, quente. No início, estávamos jogando e o flerte não só era excitante; mas também, escancarado.

    Além de tudo, a minha percepção de mundo havia mudado, já não mais existia aqueles fantasmas de baixo autoestima ou qualquer coisa atrelada a me taxar como insuficiente. Naquela época, eu não me sentia menos que inteira. Aquele seria o meu ano e me permitiria viver e sentir o mundo, nada iria me impedir.

    Estava decidida e isso foi ótimo. Sim, “foi” enquanto ainda tínhamos tudo sobre controle. As coisas são imprevisíveis. Sou emotiva demais. Perdi o controle. Aos poucos criei um vínculo muito forte e só pude perceber quando me peguei implorando para isso se desfazer, pois, eu me magoei demais.

    Como alguém pode insistir permanecer com algo que acabou por tornar-se mais motivo de decepção do que satisfação, por julgar que é melhor ter aquilo do que perdê-lo? “Melhor pouco do que nada”? “A frustração ao abrir mão seria maior”? O que havia acontecido com a história da “reciprocidade”?.

    Cara, você fez eu me sentir especial. Não como se não existisse nenhuma outra garota aos seus olhos; mas, como se dentre tantas mulheres encantadoras, você pudesse escolher uma, ainda sim desejaria e preferiria estar comigo, jamais por me achar melhor do que elas, mas por ter zelo à nossa troca de energia. Porque, no meu ponto de vista colorido e bem elaborado, você estava apaixonado [novamente] por mim. Como eu disse, fantasiei, ou melhor, acreditei. Ou será que apenas não fui capaz de discernir as coisas?

    Mas, o problema foi que sim, talvez eu tenha fantasiado. No entanto, você colaborou fortemente para isso. É mais que óbvio quando um cara chega para sua irmã, dizendo que desejava mais que tudo que fosse você quem estivesse ali e ainda a questiona sobre o que ela pensa a respeito da possibilidade dele te namorar, com o intuito de aferir se a sua vontade era essa também. Eu sentia mais que o suficiente. Eu queimava em intensidade.

    Ah, você acabou com o meu psicológico. Mas, estranhamente, por um longo período, foi um dos motivos que mais fez bem a ele. Sabe, a única coisa que realmente me faz ter saudade era em como estar com você fazia eu me sentir ainda melhor. Gostava de ti, logo, ter-te por perto era gostoso.

    No início, cheguei a te dar todo o crédito pelo “bum” da minha auto felicidade, pela minha autoestima, pela minha calmaria, pelo meu bom humor — que se fez tão marcante naquela época -, pela minha inteligência e demais atribuições e características; eu definitivamente me sentia incrível. Não que eu não fosse nada disso anteriormente, apenas não havia percebido e você reconheceu, me mostrou.

    Porém, durante muito tempo fui equivocada e acreditei que você havia me dado tudo isso. No entanto, não sou egoísta ao ponto de não assumir que adorava saber que você me via daquela forma, da maneira que eu gostava, do jeito que eu era.

    Tínhamos uma troca muito gostosa, havíamos decidido encarar a situação da melhor maneira. A regra era clara, não cometer os mesmos erros. Mergulharíamos. Sim, mergulharíamos, profundo, desde que aquilo que nos motivasse fosse puro, sincero, espontâneo. Intrínseco. Não magoaríamos um ao outro.

    Justamente por tal, por proposta sua, conversamos, nada ficou a cegas, expomos o nosso interesse e a partir disso surgiu o acordo: o lance deveria ficar entre nós, seria “a nossa coisa”; a melhor maneira para nos conhecemos definitivamente sem qualquer tipo de pressão alheia ou algo correlato; inicialmente, sem nenhuma cobrança sentimental, já que não havia sentimento pré-existente para ambos, diferente de outrora; porém, como consequência de se conhecer, impossível seria descartar a possibilidade, consiste em algo qual não detemos controle, logo, nessa hipótese seriamos francos e claros um com o outro. Um pacto perfeito para nós dois.

    Tu não é capaz de imaginar o quão uma simples mensagem sua, inesperada, me alegrava, muito menos sequer compreender tamanha euforia que suas frases curtas quando acompanhadas pelo famoso sorriso mútuo, já que os seu olhos sorriam também, de “te quero” [como intitulei] me causavam.

    Algo florescia, era quente, pulsava, dominava; minha respiração ficava desregulada, sentia uma leve palpitação e por uma fração de segundo eu entrava em transe enquanto um calor percorria ferozmente o meu corpo; no mesmo instante podia sentir meu rosto aquecer, momento em que tinha certeza da nova cor que minhas bochechas haviam ganhado, me via envergonhada só em cogitar a possibilidade de você perceber todo o alvoroço que causava em mim.

    Afinal, acreditava que tu estava sendo sempre franco (de acordo com o nosso combinado), chegando até a ficar frustrado nas poucas vezes que eu ironizava suas falas, pois, era encantador demais ouvir-te pronunciá-las, quase que surreal, não me restava saída que não a brincar com a sua frase na fútil tentativa de não te deixar perceber o embaraço que você provocava em mim.

    Sua companhia realmente me fazia muito bem. Não imagina o quão eu me sentia incrível por saber que era por ti admirada, desejada; em sentido amplo. Como se eu tivesse te conquistado. Reciprocidade. Sim, reciprocidade, uma vez que que eu sentia o mesmo por você. Achava um máximo que apesar do seu jeito sarcástico, nos instantes mais inesperados, involuntariamente, você me falava coisas tão bonitas e logo após ficava sem graça, como fuga, caçoava ao se dar conta que estava sendo “romântico pra caralho”.

    Frases que jamais esperava ouvir de qualquer cara, muito menos de você. Além do mais, me tratava de uma forma que me surpreendia. Me surpreendia realmente, ternura.

    Lembro detalhadamente de cada borboleta no estômago, cada instante de aceleração dos meus batimentos cardíacos, de cada respiração ofegante, do desejo em te ver todo dia, de cada troca de olhar, dos joguinhos, dos teus sorrisos maliciosos, do seu olhar profundo me fitando com o famoso sorriso de “te quero”. Sempre lembrarei. Confesso que, por esses instantes, eu sou grata a você.

    Foi sim perfeito, no começo. Ao decorrer do tempo, o tratado já havia sido parcialmente descartado, ignorado, seja lá como queira chamar. Descumprido, já que víamos sentimento surgindo, ou melhor, metamorfoseando-se para ambos e estávamos gostando daquilo; não que essa parte não tenha sido prazerosa, só que não fomos específicos, não conversamos a respeito, que seria o ideal já que devíamos ter honrado o pacto. Justamente isso acarretou, a longo prazo, um problema no quesito “intensidade”.

    Mas, ainda assim, estava no ar, era evidente, límpido e posso afirmar com convicção que não tratava-se de um ponto de vista exclusivo meu; para ti também estava óbvio.

    Não obstante, conforme anteposto, sermos silente e não tratar do assunto ocasionou uma confusão, na verdade, uma teia, graças a você, que foi cínico o suficiente ao ponto de utilizar tal argumento, um tanto quanto fraco, como justificativa ao me ver te questionar sobre o que possuíamos e o que seria do depois (quando pude perceber que estávamos mais uma vez fadados a não ficarmos juntos). Me vi cercada, sem saída, sem argumentos e, de certa forma, traída.

    Tudo parecia maravilhoso demais pra ser verdade, aí reconheci os vacilos. Que na época eu não enxergava dessa forma, sempre acreditava nas suas explicações e razões, que hoje, reconheço como as mais idiotas possíveis, coisas que para com quem você afirmava “ter uma história”, partiam o coração na hora e logo depois, antes mesmo de você arranjar uma desculpa escrota, eu acabava criando uma razão lógica para tal atitude me culpando.

    As estações tinham mudado, mas eu havia estagnado o tempo, queria eternizar o que possuíamos. Cai na real apenas quando não só o ritmo, mas a canção era outra. A letra dessa vez era difícil pra caramba, eu não apreendi. Sinceramente não tenho como apontar um motim, sequer compreendo o que aconteceu. Me vi imersa numa situação qual eu sozinha jamais seria capaz de mudar. Estava surtando com o seu vai e vem.

    Recordo claramente a primeira vez que me disse “perdi o interesse”, na verdade, contou-me uma série de coisas quais se resumiam nesta curta frase, a única que assimilei. Foi cortante, me senti péssima, pois, jamais cogitara nosso distanciamento. Porém, eu prezava pela reciprocidade. Aceitei. Não o questionei ou pedi uma explicação, mesmo tendo certeza de que merecia um mísero “porque”.

    Jamais iria me humilhar dessa maneira, fazer questão de alguém que já não quer ficar. Havia tomado sua decisão, respeitei. Decidi encarar isso da melhor forma e não era de modo algum negando a sua existência, muito menos me martirizando para te esquecer.

    Por incrível que pareça, estava me saindo bem, daria certo. Exatamente, “daria” se você não se aproveitasse do meu método para se aproximar aos poucos e tentar restabelecer o vínculo que eu ainda não havia cortado. Não posso mentir para mim mesma, te vi chegar, não convidei, mas te permiti entrar. Afinal, eu não havia cortado o vínculo e ao ver-te tomar tal atitude, me equivoquei ao interpretar como um “me enganei”. Acreditei que aquilo não iria mais se repetir. Tudo se restabeleceu como se nada tivesse acontecido, como se o seu vínculo jamais fora rompido.

    Na realidade, eu é que me enganei. Me enganei ao crer que aquilo não mais aconteceria. Aconteceu, infelizmente, mais de uma vez. Está aí o problema, quero dizer, parte dele; ou melhor, um deles, percebeu? Hora você me fazia pirar de tanto desejo; Outrora, me fazia ficar mal, ao te ver tratando-me como um tanto faz, como se só me quisesse por perto apenas nos momentos em que eu te convinha. Isso era péssimo, sentir-se uma pessoa que apenas convém e não alguém com a qual se tem zelo.

    A sua indecisão me corroía, era doloroso ficar no meio termo. Tu sabia que o meu sentimento era mais forte quando comparado ao teu e se aproveitou disso. Evidente era que eu queria estar contigo, mas, desde que você quisesse o mesmo; jamais cogitei a possibilidade de implorar ou desejar que você permanecesse aqui sem querer ficar, não sou do tipo que era egoísta consigo mesmo ao ponto de mendigar reciprocidade.

    Porém, infelizmente, eu ficava naufragando e emergindo, hora você era a boia que me salvava, ora a água gélida que invadia minhas narinas e estranhamente queimava. Não, eu não mendiguei reciprocidade, mas aceitei migalha.

    Você estava sempre indo e vindo. Sinto-me mal em falar, mas, apesar de não pedir para você voltar ou ficar; ainda assim, estava sempre a disposição, afinal, era melhor estarmos juntos quando você queria do que eu te dar um fora e não poder sequer sonhar com a possibilidade do que possuíamos dar certo. De qualquer maneira, fui sim egoísta comigo.

    Eu, que sempre odiei meios termos, me submeti a um por causa de você. Identifico-me integralmente com aquela frase da Clarice Lispector “Não suporto meios termos. Por isso, não me doo pela metade. Não sou sua meio amiga nem o seu quase amor. Ou sou tudo ou sou nada!”.

    Fui tão cruel comigo, me senti impotente e mais uma vez, tentei jogar o peso da situação para mim “Como pude deixar você escapar pela segunda vez?”. Errando comigo pela enésima vez, eu não havia deixado nada. Ao contrário, você mudou comigo completamente e eu, sinceramente, não estava mais aguentando me submeter a tentar resgatar a “nossa história”. Fui cruel ao me culpar por colocar um ponto final no seu vai e vem.

    Hoje, reconheço que jamais estarei sendo egoísta por me colocar em primeiro lugar.

    Viajei, pra caramba. Viajei ao pensar que aquele seria o nosso ano. Óbvio que você também não ajudou muito. Sabe o que é mais impressionante? Na época eu tinha plena certeza que você estava sendo sincero. Pior que isso, eu. EU via você apaixonado por mim. Pesado, não é? Me questiono se tudo isso que eu via em você era real ou apenas fantasia. Tudo foi tão intenso.

    A minha intensidade. A brisa nostálgica do passado. Como eu posso ter inventado; ou melhor, fantasiado aquilo? Foi a única conclusão a qual cheguei, fantasia. Sabe porquê fantasia? Não consigo encontrar um explicação lógica para ti de uma hora para outra jogar fora, ou melhor, abrir mão do que demoramos para constituir (tratar como tanto faz).

    Lembra? Eu, que não me permitia se fascinar ou me entregar, me apaixonei duas vezes por você e, na última, esperando um resultado diferente, mergulhei completamente nesse teu mar agitado, porque tu me fazia ver-te águas cristalinas de uma atraente calmaria, te permiti me conduzir, te daria um voto de confiança e passei a acreditar que me desejavas como se necessitasse de mim. Fantasia.

    Pra ser sincera, se fantasiei, eu não sei.

    Já não consigo decifrar o que eu criei [inventei para mim mesma] do que realmente aconteceu. Será que cheguei a fantasiar algo? Idealizei ao ponto de perder a percepção da realidade? Francamente, esses sentimentos e as lembranças são tão vivas em mim que chego a duvidar.

    Resta, agora, um turbilhão de emoção e lembranças com uma pitada de confusão. Sim, confusão, uma vez que não sei o motivo de você ter se afastado de modo tão repentino. Me arrisco a dizer que foi quase como se tivesse renegado o que ousou um dia chamar de “nossa história”. Renegado não somente isto, mas o que nos permitimos sentir.

    Não compreendo o porquê, se aquele foi o sentimento mais incrível que tinha despertado, até então, por um cara. Justamente por isso, ainda não consigo colocar nenhum outro acima de você. Que, aliás, já não é mais merecedor do posto que ocupa e, aqui dentro, travo uma batalha pra te destituir.

    E por falar em fantasias, nas madrugadas após as conversas mais gostosas contigo, que mexiam tanto comigo e me causavam até insônia, esperando o sono chegar ao longo do resto da noite eu fantasiava, idealizava, momentos ao teu lado. Momentos simples e intensos de uma vida que eu torcia tanto pra acontecer.

    Você também já fantasiou momentos comigo? Creio veementemente que sim, pois, nas madrugadas era tu que me mandava mensagens criando um roteiro de uma vida comigo, aliás, roteiro qual seguiu por um breve momento. Não faz ideia do quando ansiei para que seguisse o roteiro completo daquele verão.

    Fantasia. Incrível como uma palavra se faz tão presente. Fantasias quais eu ainda, em meio a madrugadas de verão movidas por uma brisa nostálgica, me pego memorando. Viajando. Então, eu levanto, coloco pra tocar um indie, me sirvo uma taça de vinho, e fico ali, no escuro da sacada debruçada no parapeito, dispersa em devaneios enquanto observo o quão deslumbrante pode ser a cidade sob o negro do céu.

    Espero profundamente que isto não seja um sintoma de saudade.

    Estou mais confusa do que nunca, não sei se desejo me afastar ou ficar junto de você. Sou incapaz de concluir isso. Novamente, sendo ainda mais egoísta comigo. Tu não faz ideia do que é sofrer de amor. Será que já não sei diferenciar a fantasia da realidade? Ao dizer fantasia, me refiro ao fato de ter atribuído mais emoção e importância a tudo que acontecia. Isso não seria apenas intensidade? Afinal, eu queimava em intensidade. Sempre queimei. E se eu não tiver fantasiado? Talvez seja o que tenha acontecido, ou não. Mas, e se tiver?

    Será que me apaixonei pelo que inventei de você?


    Janaina Couto ©
    [Publicado — 2019]

  • [Conto] DEDO PODRE

    Naquela manhã de sábado quente, acordei questionando se realmente deveria ir à festa com o meus amigos. Será que vale a pena, já que o garoto mais insuportável do mundo vai estar lá? Realmente não sei. Sinto-me encurralada, a galera está falando da tal noite a semana inteira e os meus amigos me pressionam para dar uma resposta boa, tipo: “É lóooogico que eu vou!”.

    Na realidade, o pessoal acha que é frescura da minha parte, mas ninguém reconhece o quanto ele é infantil. É um porre. Como ele pôde? Até os meus amigos parecem fechar os olhos ao que ele fez. Se atreveu a me fazer passar vergonha em meio a todo o colégio! Aff. Neste exato instante, dizer que o odeio não me parece nem um pouco exagerado. Babaca!

    Foi inevitável, passei a tarde refletindo: será que conseguirei me divertir com a presença daquele ser tão insuportável e imaturo lá? Fala sério, parece que sou um imã de gozação dele. Pensar nisso é uma tortura.

    O cara realmente é um idiota. Sinto-me envergonhada só de lembrar da última que ele me aprontou. Jamais esquecerei o dia em que estava enfezada e o imbecil veio dar uma de que era simpático, o engraçadinho foi logo perguntando o que eu tinha; eu, trouxa, como sempre, fui sincera e disse estar decepcionada por ter engordado 5 quilos. Óbvio, de modo algum, o problema não foi a pergunta, mas o seu comentário, totalmente previsível ser algo desagradável por vir dele. Afinal, sabe o que ele me disse? Detalhe, gritando para a turma toda: “Mas é claro! Você quer ser magra como??? Sempre está mastigando! Come chocolate a aula toda e ainda egoísta a ponto de sequer oferecer. Por isso está aí, parecendo uma porca obesa! Já sei, você veio falar isso só para eu te elogiar, queria me ouvir dizer que você é magra e tem um corpo com “bonitas curvas”, né? Hahaha!”. Não obstante, ele levantou a blusa mostrando o “tanquinho” - infelizmente, o problema é que ele é lindo e apesar de todo o meu ranço, não consigo negar - e disse que eu nunca chegaria aos pés dele. Resumindo, ele é um bosta e ainda assim fui eu quem passei vergonha. Pois é, eu disse, bem desagradável, ele é um tremendo imbecil.

    O fato de memorar isso me impulsionou a ir, pois, eu jamais daria a ele esse gostinho. Me recuso a me privar de algo por causa dele.

    Chegando lá, tudo estava bem animado e a festa parecia prometer. Trombei com ele ainda na fila que ousou em me dar um sorrisinho sarcástico malicioso, não me contive e, como de praxe, não exitei em revirar os olhos. Prometi a mim mesma que não o deixaria estragar a minha noite, eu havia levado tempo demais para me produzir e estava um arraso, não seria por causa dele que perderia o clima.

    Tempo depois, os meus colegas chegaram e toda a galera estava dançando. Apesar dos meus pés estarem me matando, a música era contagiante demais. Sem sequer esperar, um cara puxou a minha mão como quem me guiava convidando-me para dançar, tratava-se do baile da escola e por isso não fiquei receosa de seguir, afinal, conhecia todos ali. Porém, além de tomar um baita susto, instantaneamente fiquei frustrada, posso dizer que acima de tudo chocada, quando um feixe de luz roxa iluminou o seu rosto e pude reconhecer o Eduardo. Novamente, não me contive e soltei um “Grr, só pode ser perseguição!” enquanto tentava soltar sua mão.

    Estranhamente, disse que precisava conversar num canto, a sua expressão foi de receio, pela primeira vez notei que ele não estava com ar de zombaria. Como se fosse um mantra, enquanto caminhava sibilei para mim mesma três vezes “não irei me estressar essa noite”. Primeiro, pediu apenas para ouvi-lo, não queria ouvir de imediato as minhas constatações, assim o fiz. Ele veio com um papinho nada a cara dele de “me desculpe”, “será que pode me perdoar?”; depois a coisa foi ficando ainda mais esquisita, começou a me elogiar dizendo que sou bonita e blá blá blá; como se a coisa não pudesse ficar pior, contou que as minhas patadas o magoavam e ainda me pediu para parar, como se a minha grosseria para com ele surgisse do nada; a parte surreal foi ele alegando - assumindo - que só fazia aquilo para chamar minha atenção, que na realidade estava super na minha. Acredita que o filho da mãe teve a cara de pau de falar que era “afinzaço” de mim? Oi?!

    Sem saber o que falar, numa inútil tentativa de fugir da situação embaraçosa corri desesperadamente para o banheiro. Passei a mão molhada na nuca enquanto fitava-me no espelho do lavabo. Por que eu estava tensa? Para tornar tudo engraçado, o trecho do ícone da Kelly Key não saía da minha mente “você é gatinho, mas assim não dá”. A música alta me impedia de refletir com clareza se poderia esquecer meses de fúria oriunda de uma perseguição idiota e dar a ele uma chance, permitindo-me conhecer o “boy lixo”. Espontaneamente, dei risada debochando de mim mesma, já que só o fato de cogitar a ideia soava absurdo. Definitivamente não, não mesmo! Fala sério, se é assim, que ele entre em combustão, quero mais que essa situação seja para ele torturante, como foi para mim todos esses meses de brincadeirinha sem graça.

    No mesmo instante, um súbito pensamento trouxe de volta cor à minha noite. Com certeza, aquilo se tratava de mais uma brincadeira ridícula dele, uma tentativa de aferir se sentia algo por ele, caso caísse em sua ladainha, iria usar como motivo para me caçoar o resto do ano. Puff, mais infantil do que podia imaginar.

    Me recompus e sai do banheiro, iria fingir que nada havia acontecido, simplesmente optei por ignorar o ocorrido. Não deu certo, na porta do banheiro o Otávio me encurralou “tem um cara que é afim de você há um tempão. Mana, fica com o Edu?”, não posso ser hipócrita em negar que não passou pela minha cabeça acatar a proposta - a galera toda sabia, agora, era evidente o porquê de não darem trela às minhas reclamações a seu respeito - , mas tudo o que consegui fazer foi gargalhar. Sim, eu gargalhei, só não sei concluir se foi mais pelo cúmulo do absurdo ou de constrangimento. Não deu em outra, o boy ficou super sem graça - mais que eu até, se é que foi possível - e sumiu na multidão, o Otávio soltou um “Bom, você quem sabe. Eu até te entendo.” e saiu em disparada atrás do amigo.

    Aquela noite foi inusitada de todas as formas, eu não conseguia processar o que estava rolando e me senti super mal pela forma como ele saiu. Não deu em outra, perdi o clima e decidi ir embora. O cara era mais complicado do que eu pensava. Me deparei com ele sentado na calçada sozinho no lado de fora, “Meu pai vai vir me buscar, quer uma carona? Sei que sua casa é no final da minha rua”. Não queria ser chata, aceitei e percebi que ele levou como uma anuência à um bate-papo. Conversar com ele sobre aquilo não foi tão horrível como imaginei que seria. E, sim, a coisa toda era real. O pai dele estava demorando consideravelmente, cheguei a duvidar se ele sequer havia feito a tal ligação. Acabou que conversamos bastante e pela primeira vez em um diálogo não o classifiquei em pensamento como “desprezível”.

    A festa era no bairro, então decidimos por ir caminhando e encontrarmos o seu pai no caminho. Não sei o que aconteceu, mas, do nada me vi correndo pelo quarteirão com ele em meio a gargalhadas. Naquela noite, eu ri tanto que a minha barriga chegou a doer. Fiquei surpresa, fui capaz de reconhecer uma característica positiva nele, conseguir me fazer rir. Naquela madrugada quente, nos beijamos pela primeira vez, bom, eu o beijei. Fomos interrompidos pela buzina forte do carro do pai dele. Eu disse, aquela noite foi inusitada. Eu e o meu dedo podre.


    Janaina Couto ©
    [Publicado - 2016]

    @janacoutoj

  • [Poemas] DETESTO

    Coisas que eu detesto em você:

    Detesto o fato de você fumar;
    Detesto o fato de você sempre sair pra beber;
    Detesto como você gosta de ser o centro das atenções:
    Detesto como aparenta ser íntimo com toda e qualquer garota;
    Detesto o seu desleixo com os estudos;
    Detesto sua opinião política;
    Detesto como consegue ser bipolar ao extremo;
    Detesto o quanto é pão duro;
    Detesto o fato de você não estar nem aí para nada;
    Detesto o seu jeito de andar se sentindo o fodão;
    Detesto quando suas atitudes vão em confronto com a tua fala;
    Detesto o jeito como se porta diante dos seus amigos;
    Detesto fortemente seu completo desdém;
    Detesto o seu desmazelo;
    Detesto o teu corte de cabelo;
    Detesto como consegue conquistar todo mundo;
    Detesto o seu caminhar como se o mundo estivesse do jeitinho que você quer;
    Detesto quando diz "foda-se" para toda e qualquer situação;
    Detesto o quanto é incrédulo quanto ao amor;
    Detesto as suas falsas convicções;
    Detesto quando você mente;
    Detesto quando me dá desculpa esfarrapadas;
    Detesto quando usa a ironia para discutir comigo;
    Detesto quando me fita e me deixa constrangida;
    Detesto quando teus olhos avelã penetram os meus;
    Detesto a minha tensão quando estou perto de ti;
    Detesto mais ainda quando me vê e me ignora;
    Detesto quando faz eu me sentir "um tanto faz";
    Detesto, sobretudo, quando me ignora, pois eu gosto da tua atenção;
    Detesto como sempre está com uma garota diferente… detesto tanto que sinto ânsia de vômito;
    Detesto o fato de você me fazer sentir ciúmes de alguém que não me pertence, nem mesmo um pouco;
    Detesto como mexe comigo a ponto de eu precisar me esforçar para te odiar;
    Detesto seu potencial para me distrair;
    Detesto o fato de acreditar que estou apaixonada por você;
    Detesto quando afirma que dentre garotas passageiras inexistiu alguém especial;
    Detesto com todas as forças o fato de sequer cogitar o meu "eu";
    Detesto quando me idealizam para você;
    Detesto ainda mais os comentários de que eu te suscitaria qualquer coisa próxima a "mudança";
    Detesto como sempre associam eu a você;
    Detesto ficar questionando para mim mesma o que os outros dizem;
    Detesto memorar a primeira vez que te vi;
    Detesto pensar naquele primeiro ano;
    Detesto principalmente reprisar e sentir uma mormente saudade;
    Detesto ficar imersa numa época em que acreditei vivenciar o meu "primeiro amor";
    Detesto assumir para mim mesma que esse amor era você;
    Detesto me ater a sua afirmação de que as suas borboletas no estômago existiam por mim;
    Detesto desejar uma nova faceta daquela paixão ingênua;
    Detesto enxergar que aquela conexão não há de voltar;
    Detesto como apesar dos pesares, depois de tudo, você me fez sentir especial novamente;
    Detesto com todas as forças o fato de que na verdade somente tomou o meu tempo;
    Detesto reconhecer que acreditei em meias verdades;
    Detesto ter acredito, ainda que por míseros instantes, após aquela noite tudo estaria bem;
    Detesto o fato de depois você ter mudado comigo radicalmente;
    Detesto sua bipolaridade, já falei isso?
    Detesto confessar que havia criado expectativas quanto a nós;
    Detesto afirmar que a alegria das minhas manhãs era te ver;
    Detesto a convicção da minha ilusão;
    Detesto estar tão na cara que não fiz isso sozinha, pois você colaborou fortemente para isso;
    Detesto reconhecer que não fui a única a sonhar e romantizar;
    Detesto a dúvida se também o fiz se decepcionar;
    Detesto te ver e ser incapaz de impedir que tudo torne à minha mente;
    Detesto olhar a estrada e ver o amor juvenil desaparecer;
    Detesto a sensação de ter pedido o eclipse, quem sabe, a álea que mudaria nossas vidas;
    Detesto poder apontar com precisão que perdemos o acontecimento do século;
    Detesto a minha intuição da sua cegueira, eis que não enxerga nada disso;
    Detesto a sua presença, que me impede de virar a página;
    Detesto como tudo desabou em dias;
    Detesto tu não ver os meus cortes;
    Detesto tu não mais se importar;
    Detesto me sentir incapaz de apagar tudo, como fez você;
    Detesto não entender os seus porquês;
    Detesto pensar naquela palavra "esquecer"; soa tão "você"
    Detesto me ver resumida a nada para você;
    Detesto assumir que imploro ao universo para te esquecer;
    Detesto exatamente esse agora, que apesar de vividas as memórias, já não me fazem sofrer;
    Detesto olhar o futuro e cogitar encontros;
    Detesto a hipótese de duas pessoas que não mais se conhecem com memórias em comum;
    Detesto agora desabafar num post-it, enquanto o que eu mais desejava era dizer diretamente a você;
    Detesto saber que jamais terei a oportunidade de esclarecer;
    Detesto recordar com fiducia o seu aviso de que não iria me permitir te confundir novamente;
    Detesto usar a frase com o intuito de suavizar o "estou me apaixonando novamente por você";
    Detesto esses temores bobos;
    Detesto a certeza de que este escrito jamais chegará a você;
    Detesto você sequer gostar de ler;
    Detesto como não se dá conta que eu o conheço melhor que até mesmo você;
    Detesto questionar maneiras de te remeter:
    Detesto antecipadamente sofrer com a ideia de ti amassá-lo sem mesmo ler;
    Detesto o contraste entre a minha alma escritora e o seu analfabetismo;
    Detesto este caso concreto fazer valer a máxima "o que não vira amor, vira poema";
    Detesto pensar em jamais isto publicar, com receio de ti não gostar;
    Detesto apontar a nossa história como a minha mais intensa e o mesmo não partir de você;
    Detesto ter enganado a mim mesma naquela noite;
    Detesto aquela noite marcar a minha vida, enquanto para ti foi um anoitecer qualquer;
    Detesto constatar o tempo que despendi nisso aqui;
    Detesto cada fantasia minha frustrada;
    Detesto a música solene daquele 28 de agosto;
    Detesto sentir saudade daquele agosto;
    Detesto o quanto ainda queima as memórias dos dias quentes;
    Detesto cada uma das controvérsias. Por falar em controvérsias, desde o princípio foi assim, por muito tempo acreditei que te amei, de uma forma que jamais imaginei;
    Detesto este amor em cem linhas.
  • [Roteiros] ETERNO

    […]

    Estive refletindo todo esse portfólio. O nosso amor. Sabe no que tanto andei pensando? Que a gente deveria casar. E ter uma família, cachorro. Temos uma conexão surreal, gostamos muito um do outro. Não há desculpas ou o que se questionar. Já sei que a resposta é um sim, não precisa responder. Agora só falta marcar o dia… Pode ser hoje mesmo, ao anoitecer, no Recanto, assim que eu sair do trabalho. Fechou então, marcado.

    Vamos mesmo casar hoje, viu? Uma cerimônia a dois, simples e singela, vamos eternizar cada segundo entre o luar e o alvorecer.

    Está será a noite mais incrível dos nossos dias.

    Olha, juro para o Universo que não estou brincando. Você diz que eu sou louco, mas ainda não sabe o quanto. Te amo, meu Jacarandá.

    […]

    Está falando sério? Adorei o seu falar cheio de convicção. Convicto quanto a mim. Exatamente assim, não há que se ter dúvidas.

    Eu trocaria a eternidade por esta noite, como em “Relicário — Nando Reis”. Caso com você quando e onde quiser.

    Assim que te vi, topei uma vida com você e todos os frenesis que há de vir. Estamos entrelaçados. Ligados por todo o sempre.

    O destino me mostrou isso ainda no principio. Te contei, cedo, nas entrelinhas e você não se deu conta.

    Lembra quando nos conhecemos? A primeira vez que nos encontramos?

    Recordo fervorosamente cada detalhe. A primeira vez que senti o seu toque, o teu cheiro, o teu olhar… A primeira vez que ouvi o teu timbre. O nosso abraço sob a densa chuva.

    As águas de março fechavam o verão e naquele dia eu tomei o banho de chuva mais gostoso da minha vida. Sobretudo, me vi no envolto corporal que estranhamente me arrepiou dos pés à cabeça.

    Somente quando diante do seu olhar eu compreendi tudo. Se tratava daquilo… a chuva.

    Quando do nosso primeiro beijo, a chuva também estava lá. Marcando o principio do relicário imenso desse amor.

    Em algum lugar no tempo ouvi dizer, e acredito com veemência, que as coisas que se iniciam com a chuva são eternas. Nos transformam. Mudam a nós mesmos radicalmente. É um sinal de que estamos alinhados ao nosso destino. São instantes atemporal.

    Sabe, tenho essa sensação… de que o “eu e você”, de algum modo, sempre esteve escrito. Não sei explicar, só sinto.

    […]

    Mulher, você é fantástica. Confesso, tive receio de que julgasse bobo, precipitado e mal desse ouvidos. As estações correm e nós permanecermos a agir como no principio. Não há que se esperar nada se tratando de nós dois. Não passamos vontade. Não importa como, quando ou onde. Gosto disso na gente.

    […]

    Óbvio que foi inesperado. Sem mais nem menos, de um instante a outro. Aliás, diante de tudo isso aqui, inequívoco que eu seria incapaz de dizer um “não”.

    Se trata de você, meu bem. O homem que tem nas mãos o meu choro de mulher, que tem o meu ver, o meu olhar e o que quiser.

    Eu toparia casar com você até mesmo se a proposta for fazendo juras de mindinho. O casamento, ao meu ver, não é institucional e sim simbólico.

    […]

    Você tem um potencial para me dizer coisas tão lindas que eu fico perdido sem saber o que responder. Como se nada do que eu dissesse fosse capaz de expressar tudo o que eu sinto.

    […]

    Não precisa me dizer nada. O seu olhar, o seu toque, me diz o Universo e o mundo. A sua linguagem do amor é diferente da minha. Eu não preciso de palavras de afirmação para reconhecer o que você sente.

    Você não precisa usar comparações, canções ou palavras bonitas para me fazer sentir amada. Basta palavras sinceras. Apenas.

    Gosto dessas nossas conversas. São lindas. Parece até mesmo que estamos seguindo uma espécie de roteiro, escrito por um alucinado que idealiza o amor.

    […]

    Eu jamais havia imaginado estar vivendo isso aqui. Esse “agora”, com você. Quando te conheci, não imaginei que seria a mulher com quem dividiria a minha vida. Na realidade, sempre te achei tão dona de si que parecia loucura cogitar qualquer envolvimento contigo. Você é um Universo de qualidades.

    Não sei o que em mim tanto te cativa.

    […]

    Sinto em dizer que não sei te responder. É um mistério. Eu mesma me questiono isso. O que faz você, ser você. Há algo, sei que há. Algo imenso.

    Posso apontar a dedo cada detalhe seu, pinta, marca, riso, jeitos e andados. É um conglomerado de coisas que te faz único. Fico imersa nos seus detalhes.

    Não precisa de muito. É justamente por ser tratar de você.

    Não sei explicar, desde o início, ainda que você e qualquer outro alguém agisssem exatamente da mesmíssima forma, eu sempre fui atingida ao máximo por você.

    O sorriso que enaltece o meu dia. O colo que eu deito e descanso. O olhar que despertar o meu lado devasso.

    Não percebe? Eu amo você. Você. Todo o conjunto do seu eu, cada partezinha.

    […]

    O que eu sinto por ti é desmedido a ponto de ser misterioso. Até mesmo mais que o céu, o luar e as estrelas. Eu sei exatamente o que torna você, você. Cada uma das coisas que me faz transbordar.

    […]

    Sabia que sou fascinada nessa coisa? Planetas, estrelas, anéis… Gostei dessa comparação com os astros. Pode ter certeza que irá encontrá-la em algum dos meus textos. Eles são cheios de você.

    […]

    Então, escolhi a noite certa. Um evento celestial para marcar mais um epílogo. A noite de glória para Vênus, seu ápice. Iremos contemplar o extremo de seu brilho sobrecarregar as Plêiades, da constelação de Touro.

    Aliás, por falar em astros, recorda a primeira música que cantei para ti? “Mecânica Celeste Aplicada — Yoñlu”. Tudo quanto a nós está repleto de pequenas coincidências. Sempre estamos diante da “sincronicidade” que você tanto fala.

    […]

    Espero não estar sonhando, delirando ou em devaneios. Você sempre me surpreende e cada vez de uma forma mais esplêndida. Se eu pudesse, nos fazia eternos.

    […]

    Vamos estagnar o tempo. Eu te farei eterna, em mim. Exatamente como em “As Coisas Tão Mais Lindas — Nando Reis”. Dias, semanas, meses, anos décadas e séculos, milênios vão passar e viveremos por todo o sempre, eternamente, no templo que construímos um no outro.

    […]

    Me sinto grata por você ser o alvo de toda a minha doação e entrega. É um prazer ser você a ter nas mãos o meu sentir e cada fresta do meu corpo. Eu amo a forma como me tem, como me toca (em sentido amplo).

    […]

    O prazer é mútuo. Sei o quanto adora ser chamada de “Vênus”. Mas, você não se dá conta que ser uma deusa, se tratando de ti, ainda é pouco. Você é um Universo inteiro. Aliás, o mais lindo que poderia existir. Tanta força, beleza e intensidade em uma única mulher. Você é expansão.

    […]

    Obrigada, meu bem.

    […]

    Eu quem sou grato. Terei a honra de casar com você. Aliás, venho matutando isso há dias consideráveis. Te comprei um vestido bem antes disso, por de imediato memorar você.

    Fica tranquila, não é branco e muito menos “de casamento”. Sei o que pensa a respeito. Sabe, Ele é do tecido e com os tipos de detalhes que você gosta. Quanto a cor, estampa e tudo mais, não sei dizer. Ele é a linha tênue entre o luar e o alvorecer.

    […]

    Perfeito.

    […]

    Sabe, adoro isso na gente… como nos tratamos. O imenso respeito. A cautela, cuidado e zelo um com o outro. O nosso amor puro. Nesta noite, vamos materializar não apenas simbolicamente. Te fiz algo. Também te escrevi outra música. Bom, seria surpresa, mas eu fico nervoso nesses instantes.

    […]

    Tenho certeza que irei amar.

    Está aí mais uma coincidência. Finalmente finalizei aquele capitulo. Eu escrevi todo o nosso enredo. Cada texto é pautado em um momento. São escritos repleto de frases, cores e falas dos nossos dias. Pormenorizei os nosso detalhes. Espero que goste da minha dedicatória, o primeiro exemplar será seu. Bom, seria surpresa, mas não me contive.

    […]

    Nas ultimas semanas, reconheci o seu jeito e andando diferente. A mudança do seu semblante. Acredito que se tratava disso. Eu tenho convicção que irei me desmanchar com cada palavra.

    […]

    Se trata não somente, mas também disso…

    […]

    Olha, a semana corria e muitos momentos pensei em “arrancar” algo de você, mas não tentei. Você pode ser boa em muitas coisas, mas não sabe disfarçar. Dissimular não é uma característica sua. Eu sinto que tem algo mais.

    […]

    Confesso que já fui melhor nisso. Te mostrei cada uma das minhas versões. No inicio de tudo isso, sobretudo, naquele 29 de fevereiro, eu te era um enigma. Hoje, me conhece tão profundamente que facilmente me decifra.

    […]

    Dona do meu pensamento, cogito algo. Aliás, que eu desejo fervorosamente que seja. Me diz, por favor, que não estou equivocado. Fala de boca cheia e com todas as letras que o nosso vinculo eterno já foi materializado.

    […]

    Se trata disso. Carrego o nosso vínculo eterno em meu ventre.

    Janaina Couto ©
    [Publicado — 2020]

    @janacoutoj

  • [Roteiros] RECEIO

    [Roteiros] RECEIO
     
     — Jamais. Vou me atentar a tudo o que você expôs e o que eu mesmo reconheci e prometi a respeito. E, você sabe o que eu sinto por você. Pode não ver ou sentir, por eu não demonstrar. Estou muito consciente quanto a isso. Mas, não é possível que não tenha se dado conta de que você está sendo a melhor pessoa que eu pude conhecer. Você é a minha dádiva.
    Se leu o meu texto, sabe o que eu penso.
     — Eu li e reli uma centena de vezes. Eu amo você, meu Jacarandá. Talvez, a única mulher que sou capaz de amar. Apesar dos pesares.
     Frase minha…
     — Minha agora.
     Eu sei. Ou acho que sei. A minha única certeza é quanto ao meu imenso sentir. Você é o motim de todo ele. É insano a minha sede do seu eu”. Sinto que absolutamente nada será capaz de me dissociar de você. A comistão ocorreu e, felizmente, não há nada que possamos fazer.
     — Diz que sabe… Diz que sabe que eu amo você.
    Espero que nós dois nunca magoemos ou decepcionemos um ao outro para algo bonito nāo se tornar lindamente horrível.
    Pois, tenho plena convicção que na hipótese, eu, ainda que não mais goste de você, jamais deixarei de te amar. Isso vai me dilacerar de todas as formas, esfarelar o meu sentir e sei que levarei comigo por todo o sempre cada uma das migalhas.
     — Fico boquiaberto com cada palavra sua. Independente do que aconteça entre nós, sei a imensidão de tudo isso… que você realmente gosta de mim e de mais ninguém. Jamais serei hipócrita ao ponto de jogar fora.
    Nós somos pessoas, meu bem. Sobretudo, muito diferentes. Se é preciso ter cautela e cuidado consigo e com o que causamos no outro. Eu mesma tenho medo de fazer mal para você, de qualquer forma, … emocionalmente, psicologicamente. E, se esse desatino um dia acontecer, jamais me perdoarei. 
     — Eu também… apesar dos pesares. Me sinto péssimo quando me diz essas coisas. Fico imerso nesse contexto. Não entendendo como sou capaz de afetar você de diversas formas, com minhas omissões e posições. Aliás, sei que essa sensação é recíproca da sua parte. O nosso amor é lindamente doentio.
    Sim. Espero, com todas as minhas forças, que as coisas que foram ditas após o episódio quente diante do enorme Cinamomo não sejam por ti ignoradas. Sabe, para o meu bem e consequentemente, o nosso. Eu mergulho, chego ao âmago e você parece não ter qualquer noção quanto as profundezas. Para existir um relacionamento amoroso entre nós, eu preciso que você se atente, assim como eu sei que preciso em alguns pontos.
     — Sim. Eu sei disso. Fica tranquila. Inequívoco que nada é proposital. Jamais me perdoaria por machucar você. Sou incapaz desejar, planejar ou cogitar tamanha atrocidade. Sabe, a mudança não será efêmera, mas prometo tentar. Não quero te afastar de mim, aliás, isso sequer é possível… somos uma linda comistão, lembra?
    Não me interprete mal, foi porque noite passada me vi precisando avisar a presença de uma coisa que outrora você havia dito que iria se atentar e tentar evitar.
     — Sabe, me vejo abraçando você, te beijando e presenteando com uma rosa, mas que está dotada de espinhos quais eu sequer os vi ou senti. Até que, de um instante a outro, você se espeta. O seu sorriso se esvai, o seu olhar fica trêmulo e fixos aos meus. Exato momento que te vejo sangrar e me desespero. A culpa permeia o meu corpo sou dilacerado por ver que, ainda sem ter querer culpa, te causei dor…enquanto na realidade o que eu desejava era tão somente proteger, cuidar e amar o meu universo, a minha mulher.
    Não vou negar, vejo isso. Somente frisei aquilo por ter receio de que você entenda todo o epílogo desde o desabafo no Cinamomo como um “Ela nāo se importou. Fez uma cena. Nāo consegue ir”.
     — Não. Não penso isso de você.
    Me vejo voltando atrás numa decisāo e isso é incomum, se tratando de mim. Nāo descarta as coisas que eu te falei. Um pedido de desculpa ou uma promessa sem mudanças é manipulação, leva isso pra vida. Prometo ser cautelosa com você.
     — Adivinha o que estou ouvindo?
    Não faço ideia, meu bem. Vou voltar a dormir… levantei para falar contigo antes de você ir trabalhar e estou acordada desde entāo.
    Vamos ver até quando isso vai durar. Estou ouvindo a música que define você, para mim. Você segue o nosso pacto à risca, se faz “nua e crua” para mim e a canção retrata isso. Retrata a grandeza de uma mulher, de imediato penso no meu universo. Você. Ela é, sobretudo, linda como você. “É Você Que Tem — Mallu Magalhães”. 
    Irei ouvi-la agora. Não pausa, okay? Colocarei os meus fones, ouviremos juntos. Olha, se depender de mim, essa rotina vai perdurar por todo o sempre. Em cada um dos nossos dias.
     — Você é surreal.
    Sabe o que também é surreal? Enquanto qualquer coisa é motivo para você nāo querer falar comigo, eu suprimo minhas horas de sono para ter o prazer em falar com você antes do incio do amanhecer.
     — Não diz isso…
    A verdade é dura de se ouvir…
     —Eu amo você.
    Meu mais insano e desmedido amor, se atenta aos detalhes, vamos fugir da mácula. Eu amo você, meu Tigre Malaio.
  • [Roteiros] RUPTURA

    Eu sempre vou ter o que falar. Não guardo palavras. Mas, é cansativo quando são proferidas em vão. Sobre o meu sentir, você sabe. Aliás, fim de semana passado foi incrível.

    Posso apontar a dedo (os seus e meus) erros e os acertos, ações e omissões, os altos e baixos.

    Obrigada pelos altos.
    Obrigada pelos dias gostosos.
    Obrigada pelos olhares, pelos momentos de verdade.
    Obrigada por me mostrar inúmeras coisas.
    Obrigada pela imensidão do que me permitiu sentir.

    Porém, foi sobretudo, conturbado para apenas uma estação. Não vivemos ou viveremos tudo o que eu gostaria. Não comecei nada pensando no fim.

    O ponto final você põe, agora, sozinho. Não precisa me falar razões. A minha resistência ao CEDER e a sua necessidade em IMPOR sempre foi um problema entre nós. Sobretudo, o jeito como lidamos com as coisas, que é grotescamente diferente. Causou muitos dias baixos (como ontem e hoje).

    Todas as minhas declarações, choros, abraços, beijos, toques e olhares, foram sempre, profundamente, de verdade.

    Sabe, você diz sentir o universo por mim. Não sei como se pode amar alguém e facilmente colocar ponto final em relação a ela, bem como sempre ameaçar partir. Muito menos como tudo pode ser razão para partida. Não sei se é por você ser imediatista. Não sei.

    Acaba por me proporcionar alvoroço emocional. O alvoroço existe justamente pelo que pulsa em mim, por eu gostar de ti de uma forma desmedida.

    Você parece não perceber que, para quem está do outro lado, isso é foda, pra cacete. É uma espécie de controle emocional. Sem contar que mostra fragilidade do nosso elo, em muitos sentidos. Te disse isso das outras vezes.

    Francamente, como amiga, se atenta nisso. Como isso afeta e o que demonstra para o outro. Não sei se nos seus relacionamentos anteriores isso fluía ou como sua parceira reagia. Mas, pode descartar se quiser. Não tenho outra experiência para poder comparar. E, ainda que tivesse, sabe o quanto detesto comparações.

    Por favor, não me venha com “vai deixar a nossa coisa se desmanchar”. Sendo sincera, você quem iniciou a ruptura e, dessa vez, simplesmente acatei sua decisão. Não jogue o peso da sua escolha sobre mim.

    Recordo precisamente do seu efêmero posicionamento. Ouvi com atenção aquela frase, que, aliás, óbvio, atordoa a minha mente. “Não está bom pra mim”. Ainda que antes mesmo de proferi-la, intuitivamente pude pressentir o que diria. A mensagem amarga. Ao soar de cada silaba proferida, cada movimento dos teus lábios, queimava. Lentamente eu provava cada farpa do veneno.

    Não vou enganar a ti, muito menos a mim mesma, estou decepcionada e, mormente, com raiva. Por todo um conjunto.

    Aquela conversa não foi em vão. Aliás, nunca qualquer conversa, fala, minha foi frívola. Detesto a ideia de me doar em conversas baldias.

    Você não pode dar tchau pra mim sempre que tiver vontade. Fazendo-me sentir imenso temor diante de toda e qualquer coisa ínfima, propriamente por saber que você, a qualquer momento, irá se voltar a mim dizendo um adeus ou ameaçando isso.

    Você não pode me dispensar e depois -quando quiser - me chamar, acreditando que vou ignorar isso e simplesmente "gozar".

    Não pode me descartar assim, achando que isso não me abala ou enfraquece um vínculo.

    Sabe o pior? Isso não foi agora. Já havia acontecido mais vezes do que eu gostaria, aliás, vezes demais que chega a ser difícil de acreditar. É tristemente reincidente.
    Não quero uma relação instável. Não quero me sentir insegura, pontualmente nesse sentido: “hoje ele quer estar comigo, amanhã, sem mais nem menos, talvez não”.
    Tenho horror a estar constantemente dependente da sua aprovação e, principalmente, a conviver com a necessidade incessante em me certificar de que “está tudo bem entre nós”.

    Não quero ficar absurdamente pressionada pela ideia de que “se eu não fizer determinada coisa ou se não agir da forma que ele espera/deseja, independente do que penso ou quero a respeito, para mantença do ‘nós” irei ceder, senão ele virá colocar um ponto final ou ameaçar fazer”.

    Não quero estar obrigada a ceder quando não vê necessidade ou sequer sentir vontade para tanto, muito menos quando reconhecer um problema quanto a anuência. Fico apavorada ao me ver sendo qualquer pessoa, que não eu mesma, por temer sua partida.

    Naquela madrugada, custava pensar antes de agir? O que te faz mudar de ideia logo após enfiar na minha garganta um ponto final? Nem sei se mudou, sequer o que te motivou a tomar uma decisão incrivelmente ruim. Juro que isso me intriga. Desde quando o que penso ou sinto sobre a árdua transição do “nós” para o “eu e você” passou a te importar?

    Você fez isso, sozinho, quando eu menos esperava, quando eu sequer podia sentir cheiro de partida, muito menos cogitar qualquer coisa parecida.

    Depois daquela tarde de domingo quente, quando fizemos juras de amor e promessas, exatamente quando, para mim, estava tudo passando a fluir de um modo surreal; mais uma vez, você me fez sangrar, encerrando o nosso ciclo por “bobagem”, quando parecia ser o início do nosso melhor tempo. 

    Acredito que foi a coisa mais idiota que você fez. Justamente por eu gostar pra caralho de você aquela conduta foi uma merda.

    Talvez, seja como canta Adriana Calcanhoto, “Rasgue as minhas cartas e não me procure mais, assim, será melhor.”

    Não importa o que diga. Não me é interessante que as promessas sejam renovadas. Pois, não me valem de nada até que as cumpra. Teve inúmeras chances e elas não foram aproveitadas.

    Não irei permitir ser como das outra vezes. Ainda que eu dê uma nova chance, para o “nós”, é muito provável que semana que vem você faça a mesma coisa. Nessa frequência, irei permanecer me magoando. Detesto com todas as minhas forças o “vai e vem”. Eu não aguento isso.

    Fico pensando naquilo... Se para ti não está bom, imagina para mim com essa instabilidade partindo de você. Não é decidido quanto ao meu “eu”, em muitos sentidos.

    É claro, não imaginava que o nosso relacionamento poderia ser conturbado assim. Instável. Não quero isso para nós. Desejo pisar em terreno seguro. Mergulhar e não cair nas pedras.

    Eu que sempre falei em reciprocidade e priorizei “leveza”, me deparo num naufrágio. Não está sendo saudável e você não vê ou, ridiculamente, fecha os olhos.

    Por constatar o caminhar das coisas e acreditar sinceramente que, nós dois, desejando, seríamos capazes de contornar a situação. Nos proteger da mácula. Te escancarei isso antes. Justamente pela árdua percepção que, naquele domingo, eu te implorei: “vamos tentar”. Mas, infelizmente, nas oportunidades para vermos a tentativa, ela não aparece.

    Desse jeito eu não quero mais. Estive pensando muito de sábado pra cá. A mesma cena se repete. Não quero permanecer num relacionamento desse jeito, a nossa coisa não estava boa para ti e, para mim, estava ainda pior. Sabe por quê?

    Não quero ter que ceder aos seus caprichos (saiba diferenciar ao que me refiro) sob ameaça de te perder! Muita pressão sentimental que estava me sufocando. Sinto que a qualquer momento estarei sozinha, quando eu menos esperar, então é melhor que seja agora, já que você mesmo decidiu isso sob o argumento ridículo de que não supro as suas expectativas.

    No mais, anseio estar com alguém confiante sobre mim. Você sempre com ameaça de fim não demonstra isso.

    Aliás, quanto a sua carta, foi a primeira que recebi dessa forma de amor. Olha, independente de tudo, você sabe o quanto eu sinto por você.

    Desculpa não conseguir responder. Pela primeira vez, não tenho palavras. E isso é raro. Acredito que por estar indignada, com raiva e decepcionada, por aquilo que já falei.

    Eu confiei em você. Confiei em muitos sentidos. Estava mergulhando e me entregando emocionalmente e fisicamente. Para o cara sempre romper comigo por nada. Sem contar nas ameaças de partidas anteriores e nas coisas que já te foram ditas.

    É evidente. Fiquei e estou magoada. Quanto ao nosso vínculo, sou porto seguro enquanto você, para mim, aparenta ser incapaz de ser qualquer coisa próximo a isso. Sempre instabilidade da sua parte.

    Não vou me sabotar tentando repousar a culpa da ruptura nas minhas condutas. Eu sei que tentei agir para você, a todo instante, da forma que eu gostaria que agisse comigo.

    Lembra? Em muitos momentos eu falei “É apenas o começo. Estamos nos conhecendo. Calma, tudo no seu tempo. Podemos lidar da nossa forma. Não esquece o nosso pacto”.

    A estação inteira eu pugnei por um relacionamento saudável. Com sinceridade, reciprocidade e confiança. Sem joguinhos, desconfiança e “paranóias”, pois sequer haviam razões para tanto. Eu via a instabilidade e a repudiava com todas as forças, pois, afinal, eu gosto muito de você e queria o “nós”.

    Acredito mesmo que quando os dois querem, fazem acontecer. Mas, se é preciso maturidade.

    Em muitos momentos não me impus da forma que eu deveria. Ao contrário, conversei cruamente para te explicar o problema de algumas coisas e que poderia se sentir seguro quanto a outras. Não obstante, aceitei coisas que não gostei, de modo desprezível deixando “passar” para ficar tudo bem entre a gente.

    Digo com convicção que em instante algum agi num imediatismo cego contigo, por temer o que isso poderia suscitar em você, a mim e, sobretudo, na nossa coisa. Sei que até mesmo tu reconhece. Pois, diante de toda e qualquer pequena situação de desconforto, eu explicava as minhas razões, problemas e escolhas, me fazendo “nua e crua”.

    Sempre valorizei e recordo de todos esses diálogos. Para mim, representavam um marco para que desde as ínfimas à grotescas situações de incômodo não se repetissem. Deveríamos evoluir para sabermos enfrentar e lidar com coisas novas.

    Reconhecendo que não raramente pareci a sua psicóloga, explicando o problema das coisas, pontos de vistas, aconselhando a ressignificar e mostrando como tudo poderia ser mais suave. Nós dois precisávamos de equilíbrio e aprender a sopesar as coisas.

    Como se não bastasse, para mim mesma, muitas vezes te julguei por “infantil”. Assim como sei que, ainda no momento tendo plena convicção do contrário, também fui.
    Fizemos “pactos” para facilitar o correr dos nossos dias, já que vemos e lidamos com toda e qualquer coisa de modos absurdamente distintos. “Eu e você sempre ‘nus’ e ‘crus’”, lembra? Mas, aparentemente, nos instantes em que mais se era preciso, só eu recordava e estava disposta a segui-los.

    No último mês, houveram partidas em todas as semanas. Todas! As mesmas promessas já foram feitas outras vezes, sobretudo, nas últimas semanas. Por favor, não vamos normalizar isso. Mostra bem mais que fragilidade.

    Relacionamento é balança e não depende só de um. A conduta do outro gera sempre reação. Se isso prosseguir, da maneira como estava, é inequívoco que iremos adentrar novamente no mesmo ciclo vicioso. Assim, acabando somente por prolongar isso, a ruptura.

    Não adianta forçar nada! A entrega, o cuidado, o zelo e a valorização da nossa coisa deveria ser, de ambas as partes, natural. Independente do quanto eu deseje, independente da nossa conexão foda, não temos que forçar dar certo.

    É insano. Foi o meu primeiro relacionamento e sei que minha inexperiência pode ter atrapalhado. Não que sirva de justificativa para erros e afins. Quero dizer que, apesar de tudo, eu tentei agir com maturidade e responsabilidade afetiva. Convivi com uma sede insaciável de afastar as coisas que abalavam o “eu e você”.

    Acredito que irei me magoar ainda mais persistindo nessa ganância de cuidar de algo que independe somente de mim. Não sei como de um instante a outro as coisas podem ser diferentes.

    Você sabe muito bem. Dei um passo muito grande, seria uma surpresa e acabei te contando quando do seu adeus.

    Percebe? É difícil digerir que até mesmo quando tudo está bem, sem mais nem menos, do nada, chove. É triste remoer que na maior parte do tempo estamos no “baixo”, enquanto me apego aos poucos momentos de “alto”.

    Foi a estação em que senti o mundo. Mas, foram dias, sobretudo, conturbados. As minhas emoções ficaram à flor da pele.

    Não acato sua decisão sob o argumento de “é melhor agora enquanto é cedo, antes de entrelaçamos nossas vidas ainda mais, antes se apegar”. Não, não tomo, porque eu já estava apegada o suficiente, desde o meio-termo. No mais, pouco a pouco, te inseri em todos os âmbitos da minha vida.

    Tratava-se do nosso começo e ele deveria ser, em tese, muito bom. Deveríamos, os dois, estarmos eufóricos pela entrega um do outro. A reciprocidade, a sinceridade, o cuidado emocional com o outro tinha de ser trivial. Sem a necessidade de precisar provar que se importa ou, muito menos, se sentir obrigado a tanto.
    Sabe o que demonstra que não estava sendo saudável? Palavras suas: “ambos estão exaustos”. São coisas que não coincidem para mim. Exaustão em um curto lapso temporal. Uma estação! Parece muitos mais tempo, não é? Mas, não, foi só um verão. Com o outono, chegou a ruptura.

    Dessa forma, eu não consigo seguir. Passo o meu dia ponderando em como podemos elevar o suporte do nosso afeto. Fico tentando compreender o que acontece. Como se não bastasse, sinto constantemente o peso de precisar provar para você que pode confiar em mim, que gosto de você, que me importo, que me preocupo.
    Sendo que eu acredito que nunca fiz nada para você pensar o contrário e agir de acordo com tal. Não faz ideia do quanto me sinto imunda por isso. Insuficiente. Ainda que seja convicta de quem sou, muitas vezes, me senti assim diante de ti.

    A única vez que a partida partiu de mim, foi por isso. Por perceber tudo! Conversamos sobre reciprocidade, leveza, sentir e tudo mais. Houveram promessas de ambas as partes. Você se atentou a algumas coisas, mas ao que magoava, não. Com a primeira chuva de outono, nos encontramos nisso, partida.

    Possamos gostar muito um do outro. Mas, não foi a primeira que me disse “não está bom para mim”. Não sei como isso vai mudar de uma hora a outra. Levando em consideração o quanto já tentei, me sinto esgotada, sem cartas na manga. Como de um segundo a outro te farei sentir-se realizado? Não quero ser hipócrita.

    É duro. Posso gritar para o mundo o quanto é duro para mim enfrentar isso aqui, a ruptura.

    Sofro pelo que poderia ter sido e não foi. Não esquece.

    Acredito que estou frustrada, não pela minha entrega, mas justamente por acreditar com lasciva veemência que, depois do pôr do sol daquele domingo, nós dois iríamos tentar, mesmo! Por acreditar que as promessas, conversas e pactos não tinham sido em vão. Pelo meu crer de que nunca mais haveriam idas e vindas. Sempre estive disposta a enrrigecer a nossa coisa.

    E, exatamente uma semana depois, tudo volta ao antes. Ao morno.

    Meu mais insano e desmedido amor, o “eu e você” não vai prosseguir. É árduo dizer que na maior parte do tempo estávamos frustrados um com o outro, ainda que em vertentes distintas.

    Não quero viver na esperança de tentar. Não quero permanecer num relacionamento que conforme palavras suas, “só tenho preocupações”. Não quero seguir assim.
    Nossa afinidade deveria ser o refúgio. Algo digno de agradecimento. Sabe, muitas noites eu agradeci ao universo por estar ao seu lado, por dividir essa fase com você. Ansiei muito para que passasses a me ter como confidente, assim como te fiz o meu. Te falei isso, mas sempre respeitei o seu jeito peculiar, astuto e ocluso, nesse sentido; acredito que tratava-se de uma questão de tempo para você se sentir confortável para tanto.

    Talvez eu tenha posto muito expectativa e essa seja a raiz da frustração. Mesmo que eu tenha tentado manter os meus pés no chão. Desejei ter o seu verdadeiro “eu” comigo.

    Nesse quesito, sobre a sua carta, nas folhas “amarelas”, eu gostaria, mas não consigo ler aquilo e dizer “você não foi assim para mim”. No entanto, afirmo com convicção que você não foi somente aquilo.

    Existem dois caras em você. Aquele por quem me apaixonei e o que me faz ir embora.

    Sei que eu não sou ótima. Que não sou a dona da razão, aliás, não raramente estou completamente equivocada. Mas, realmente tentei agir para contigo da forma que eu gostaria que agisse comigo.

    Eu não menti uma vez sequer. Não tratei com desdém. Não joguei na cara o tempo que despendi para estarmos juntos. Não enganei, nem com ações, nem com palavras e em nenhum instante isso passou pela minha cabeça. Eu fui nua e crua para você, te mostrei cada fresta. Mas, nada disso foi o suficiente.

    Como se não bastasse, o meu sentir, nas suas palavras, “não o satisfaz”. E, quanto a isso, me recuso alegar qualquer coisa. E sei que essa frase jamais será esquecida por mim. Já disse o quanto detesto seu imediatismo?

    Estou assoberbada de pensamentos confusos e conflitantes. Por hora, não sei o que tenho mais a falar. E o que sei que tenho, prefiro acalentar.

    Já falei tanto. Fiz cartas de amor (puras). Me declarei. Me entreguei. Sobretudo, me joguei da cascata, a queda foi gostosa, mas acabei presa nas pedras.

    Não quero mais. Desculpa, sei que devo, pois também errei contigo, apesar da minha “ingenuidade”, como mesmo dissestes. Aquela história. E, sinceramente, pensando em tudo que vivenciamos, analisando os motins das nossas discussões, aquela consistiu na única coisa com titulo de “problema” e digna de uma ameaça de partida. Quanto às demais, trataram-se de coisas que poderiam facilmente ser resolvidas e acabaram, por nós, prolongadas.

    Independente da minha raiva e decepção, juro que digo isso com um imenso pesar, meu bem: Nada do que te digo agora é inconsciente. Essas não serão mais palavras em vão.

    Eu não havia planejado falar nada disso aqui. Depois de agradecer pelos nossos “autos”, pensei: “ao decorrer dos nossos dias, já falei o bastante”. Nada do que expus te é novidade. Não abandono o espetáculo sem mais nem menos.

    Sabe o que me corrói? Não fui para ti quem eu gostaria. Ser refúgio e confidente, por exemplo. Você não me permitiu ser. Acabava comigo te ver “morno”, com a mente e o olhar distante e, especialmente, por notar que os problemas te consumiam a ponto de te fazer agir mal com os que te querem bem.

    Foram muitas as vezes que te implorei para saber o que estava rolando e querer ajudar, mas parei quando me disse em voz alta e em bom tom que não queria a minha ajuda. Não dividiu. Não mostrou confiar em mim. Não me inseriu nos outros âmbitos da sua vida.

    Ainda assim, por ter ciência da sua dificuldade em compartilhar, te perdoo pelos momentos de desdém, pelos instantes que estava atordoado com os problemas a ponto de parecer que eu nem estava ali, que a minha presença tanto fazia.

    Porém, muitas vezes, agiu como um idiota comigo, como você mesmo pormenorizou na segunda folha amarela daquela carta. Como se não bastasse, quando diante dessas ações te disse “eu não não mereço ser tratada assim”, não ouvi sequer um pedido de desculpas, mas sim um “então arranja um cara que te trate melhor que eu”.

    São tantas coisas. São praticamente infindas para apenas uma estação. Fiz uma escolha, acatei sua decisão e, por hoje, não quero falar sobre isso. A minha cabeça está cheia e o meu coração inquieto. Não existe mais o “nós”.

    Eu disse sério ao falar que estou com raiva e decepcionada. Essa ruptura será ainda mais complicada se mantermos contato contínuo. Pelo menos agora.

    Mais uma vez, te peço, não coloque a ruptura nas minhas mãos. Você já tomou uma decisão e eu simplesmente concordei com ela. Faço isso pelo meu bem estar emocional e psicólogo.

    Não quero perder minha essência ou personalidade, como é o caso de ceder a meros caprichos, para manter relações, ainda por cima instáveis. Não quero me desgastar na tentativa de salvar algo sozinha, que não está somente sob o meu controle.

    Me apavora te ouvir dizer que existe algo mais, que estou dissimulando as razões da minha anuência. Parece absurdamente que não prestou atenção ou que ridiculamente descartou tudo o que já desabafei. Não é “do nada” e não tem que se achar estranho. Uma vez, naquele domingo, a partida surgiu de mim e pelos mesmos motivos de agora.

    Sabe o quanto desprezo idas e vindas. No pôr do sol daquele mesmo domingo te disse: “Me vejo voltando atrás numa decisão e isso não é comum para mim. Por respeito a nós, não vamos jogar fora”.

    Você voltou atrás também, em todas as suas despedidas…

    Suas ameaças de partidas e as despedidas foram motivadas com base em que eu fui para você, dentro dos seus limites, ideais de certo e errado e sentimentos.

    Sua percepção sobre o meu desejo de estar com você, príncipalmente sobre o meu sentir, depende de que eu seja quem você quer, ceder, suprir as suas expectativas até mesmo nas coisas mais mínimas.

    Sabe, eu tenho fervor por quem me deseja por inteira. A mim mesma. Não irei mudar a ponto de se tornar uma versão pirata de mim mesma.

    Eu queria poder agradar você, óbvio. Mas, sendo eu mesma e não precisando provar o meu desejo e tudo o que sinto da maneira que você achava que deveria ser. “Não está bom para mim”. Não consigo ceder a ponto de me tornar o amor que te satisfaz, que você deseja.

    Houveram pedidos de desculpas e promessas mútuos, mas nem todas elas foram cumpridas. No principal imbróglio, sequer houve tentativa. Nunca acreditei numa mudança repentina. Mas, o mínimo que eu esperava era uma mísera tentativa.

    Com instabilidade e insegurança sobre mim, tive dias de inquietação emocional e psicológica. Não consigo lidar, me martiriza. Acaba, assim, me atrapalhando nas coisas mais simples (concentração, estudo, trabalho).

    Confesso que nos “altos” me proporcionou coisas incríveis, êxtase. Mas, a maior parte do tempo estávamos no “baixo”. Pelo morno, me sentindo insuficiente, idiota e até mesmo alguém ruim. Sobretudo, “o não satisfaz”.

    Percebeu como sou repetitiva? Isso torna essa conversa densa e incrivelmente cansativa.

    Ainda que me questione, não vou mais te expor motivos. Foram coisas sempre ditas.

    Não vamos ser hipócritas. Isso não precisa acabar mal. Não vamos denegrir a imagem um do outro, não há razão. Aliás, algo assim é ridículo.

    Se é preciso aceitar os erros. Ficar triste pelo que não foi. Reconhecer o que se perdeu. E seguir com maturidade. No mais, agradecer os momentos de “altos”. Não é tratando como se nunca tivéssemos nos conhecidos que a ruptura se tornará fácil.

    Você não foi e não é qualquer pessoa. Isso não vai mudar, para mim. Marcou.

    Eu comecei com sinceridade. Vou terminar assim também.

    A minha decisão está tomada. Espero que aprendamos a não cometer os mesmos erros.

    Sobre a nossa coisa, o nosso meio-termo, me mostrou como sou intensa. Obrigada, mesmo, pelos instantes de intensidade. Adorava quando a nossa coisa pegava fogo.

    Você foi contemplado em ter o meu sentir, o meu querer, o meu corpo. Eu jamais havia me entregado tanto.

    Peço para que a nossa coisa fique entre nós. Principalmente os nossos detalhes, as coisas importantes que aconteceram. Desejos, intenções e afins. Assim como as coisas agradáveis e desagradáveis. Lembre, são memórias suas e minhas também.

    Me agrada a ideia de estagnar no tempo o “eu e você”.

    Não sei como vai me perceber depois da ruptura. Acredito e espero que não seja motivo para “descaracterizar” o meu eu. Jamais irei desonrar o seu nome. Por favor, não o faça com o meu. Não há razões. Não me interprete mal, peço isso por desencargo de consciência. Acredito no que sente por mim e sei que não faria tal coisa.
    Desculpa se te proporcionei momentos ruins.

    Foram meses repletos de primeiras vezes, para mim. Você sabe. Aliás, a primeira vez que proferi “eu amo você”, dessa forma de amor. E dane-se se foi cedo.
    Reconheço que sobre algumas coisas dei passos largos e tropecei nos meus próprios pés. Fui inconsequente. Me arrependo. Mas, jamais irei me arrepender pelo que fui e sou capaz de sentir. Muito menos, pelas palavras de amor ditas.

    Uma pena eu não tê-las visto valorizadas…

    Não quero ser vista como hipócrita.

    Sei que não compreende o meu pedido em mantermos a amizade. Não consegue entender como posso não mais te querer como seu parceiro (mesmo amando-o) e, ainda assim, implorar para que me tenha como amiga. “Não entendo como eu não te querer como amiga é algo que se deva discutir e fazer sentido”.

    Coloquei tudo às claras. Detesto quando questiona o que eu sinto. Eu não queria que fosse assim. Ansiei a transformação do meio-termo muito tempo. Você sabe. O meu sentir nasceu muito antes do verão. Não fale insinuando como se eu tivesse em algum momento mentido sobre o meu sentir, muito menos diminuindo o que me rasga o peito.

    A perda não é apenas de uma parceira ou um parceiro. É de um amigo(a) também. Não apague o meio-termo. Tudo começou numa amizade sem mais pretensões.

    - “Se você realmente sentisse intensamente, iria querer permanecer e continuar, tentar mudar. Nunca se afastar do problema, igual você fez. Me esquece. Você de repente decidiu que os nossos confrontos te fizeram sentir uma fracassada. Além de tudo, foi capaz de esquecer todos os momentos bons, sem mais nem menos, descartar-los e valorizar só os pontos ‘baixos’ para justificar a sua hipócrita vontade de partir. Forte seu amor.  Não vou negar. As vezes me pego preso nisso… questionando se tudo o que me disse, se cada palavra de afeto foi realmente cheia de sinceridade. Você é boa com as palavras e tenho medo de tê-las usado para comigo de uma forma deplorável. Não sei se seria capaz de dissimular dessa forma. É louco dizer, mas, sim, eu acredito no que diz sentir por mim. Ainda que muitas vezes não tenha agido de forma condizente, ainda que eu mesmo fique matutando a respeito. Tudo isso é insano (como você mesmo costumava dizer).”

    Quanto à mantença do “nós”, me recuso a permanecer no que me fazia sentir um fracasso. Essa sensação existia por você ter me dito bem mais de uma vez que a minha linguagem do amor não te satisfazia.

    Da forma que você coloca, faz-me sentir ingrata. Também estou despedaçada. Nos nossos dias, pouco a pouco eu estava me desfazendo em alguns sentidos e precisava do seu agir para me refazer. Por isso tanto diálogo, da minha parte. Por isso a ideia do “pacto”.

    Falei isso naquele domingo. Lembra? Com seriedade. Mas, quando tudo soava calmaria. Você choveu em mim. Foi isso que você fez naquela madrugada de sábado. Naquela noite quente, prometi a mim mesma que era a última vez que iria me fazer chorar. Última vez que iria me frustrar por você descartar suas promessas e não pensar em mim antes de fazer algo que tanto me afetava.

    Me desculpa por ser tão repetitiva. Te remeto inúmeras palavras, te falo coisas infindas, e sei que você acha um porre, acaba descartando quase tudo.

    Ao pôr do sol daquele domingo, me disse as mesmas coisas que agora. E eu voltei atrás na minha decisão, lembra? No mais, deixei claro que a hipótese de partida, da minha parte, se tratava de algo que não desejava, mas que a cogitei para evitar me machucar.

    Ainda que em outro contexto, estamos novamente na mesma coisa. Mas, dessa vez, eu já estou machucada.

    Espero que você fique bem, mesmo. Mas, sendo sincera, não vou mentir. Espero, no mínimo, um pingo de saudade, arrependimento ou pesar pela perca.

    - “Espero o mesmo de ti. Sinto uma saudade incessante. Sonho com você. Tenho arrependimento também. Quanto a estar despedaçada, não acredito. Se você sentisse saudade, vontade, amor… resgataria o ‘nós”. É simples. Eu te falei estar disposto a mudar, mas você não se importa.Eu faria o impossível por você e é deprimente te ver me colocar como imundo. Não jogue entrega na minha cara, suportei muita coisa por você e tu simplesmente joga fora. Sabe, me abri emocionalmente como jamais havia feito com qualquer pessoa. Você tem o meu amor nas mãos e está esfarelando ele. Nunca imaginei que seria capaz de uma coisa dessas. Te vejo traindo quem eu vi em você, principalmente, tudo o que me dizia ser. Você diz estar machucada enquanto me machuca também e não se dar conta.”

    Não me surpreende você não acreditar em mim. Simples para você falar pensando em quem fui contigo. Se coloca no meu lugar. Você mesmo reconheceu coisas nada bacanas que partiam de você. Não quero discutir.

    Foram poucos dias para tudo voltar ao antes. E as três coisas que eu mais te pedi para evitar, porque me afetava muito, vinheram num pacote no mesmo final de semana. Me decepcionei muito naquele sábado. Eu chorei a madrugada inteira.

    Não entendo como pode me amar e não tentar evitar fazer algo que eu tanto te pedia para ser cauteloso. Não entendo como não conseguia evitar fazer o que me desabava.

    Sabe, eu reconhecia quando agiria daquela maneira. Pressentia. Sabia quando seria tomado pelo seu imediatismo cego. Nesses momentos, eu falava coisas como: “Presta atenção. Lembra do que combinamos sobre lidar com os problemas. Não precisa ser assim”. Justamente para ver se você pensava em mim e no valor do nosso vínculo.  Antes de fazer qualquer coisa ou dizer, eu sempre pensava em como você ia se sentir. Por isso tenho certeza de que nunca te ofendi ou derrespeitei, ou magoei com o que falei.

    Não estava sendo saudável, meu bem. Não quero nós dois num relacionamento que ainda no início não estava sendo leve. Não vamos mais reviver essas discussões… Okay?

    - “Não adianta eu dizer mais nada. Vejo que persistirá nessa decisão. Eu preciso digerir a ideia e aprender a lidar. Sabe, foi você mesma quem terminou com a gente. Não te entendo. Eu corri atrás e você não quis mais, praticamente me esnobou. Permanece com a vontade de se afastar e de que, se ficar, será somente para ter minha amizade. Eu não quero ser somente o seu amigo, quero dividir uma vida contigo, desejo ser o seu parceiro. Sabe, nós discutimos algumas vezes e eu te disse coisas impulsivas, sobretudo, nunca dotadas de veracidade, foram coisas que eu não deveria (e não queria) ter lhe dito. Porém, apesar de tudo, isso jamais significou que não quero a sua presença e muito menos que ela tanto fazia para mim. Não precisa ter medo, pode confiar nessas minhas promessas, nas falas que te remeto agora.No entanto, acima de qualquer coisa, sabe o que é foda? No momento que acreditei que ficaria comigo, você foi embora. Isso foi péssimo. Tenho medo de dizer a mim mesmo o que isso significa. Você não está disposta a erguer um castelo comigo.”

    É complicado erguer castelo com alguém que diante de qualquer lajota colocada torta ameaça abandonar a execução ou a faz. Dá a sensação de que a qualquer momento a obra vai ficar inacabada e desmoronar. Do jeito que você coloca, tudo se torna pequeno. Me colocando como venenosa faz eu me sentir muito bem.

    Não foi minha intenção “esnobar”. Foi o que te disse: Eu, ferida, iria passar a ferir você também. Não quero isso. Olha, eu não queria somente a sua parte fácil de amar. Não. Eu mesma falei: “eu e você nus e crus”. Eu disse desejar o seu verdadeiro “eu” comigo.

    Moram dois caras em você. O que fez eu meu me apaixonar e aquele que tem atitudes comigo nada bacanas, me tratando de uma forma que não gosto, e assim me cortando. E, se tratando de um amor que ainda estava no começo, esse primeiro cara deveria ser o mais presente e não o segundo. Diante do segundo cara, eu não conseguia ser o meu melhor com você.

    Aliás, tem algo que está engasgado e preciso te questionar. Sabe o que eu não entendo? Você me disse assim, duas semanas atrás: “Eu posso ser só esse primeiro cara”. “Posso mostrar só o meu melhor”. Me passou a impressão de que, de algum modo, você tinha plena consciência de tudo o que apontei… Não sei.

    - “Me desculpa. Sim, eu sempre tive. Por isso quero você de volta. Para agir como você merece. Aliás, como deveria ter agido desde o incio. Com o inicio da ruptura, passei a ver e valorizar tudo de uma outra forma. Me sinto mal com tudo isso. Porém, ainda que você exponha infindas coisas, só consigo pensar que: ‘É por isso quer partir pra sempre?’. Tenho a horrível sensação de essa conversa não vai dar em nada. Sinto que estou de mãos atadas. Estou implorando para ficar enquanto você constantemente arranja um argumento para reforçar sua partida. Me faz um monstro.”

    Já que percebia, por qual razão não agia assim antes? Já pensou nisso? Sabe, são um conjunto de pequenas coisas e estou decepcionada pela existência delas.
    Argumento porque você merece justificativas. Sobretudo, porque gostaria que se colocasse no meu lugar. Principalmente, que tentasse entender. Você sabe muito bem que não ser tratado da forma esperada por quem a gente ama, corta. Mas, tenho a sensação de que para ti, estou “fazendo tempestade em copo d’água”. “Sou exagerada”.

    A minha decisão não é fácil. Eu sinto o universo por você. Ainda que tenha me decepcionado com atitudes. E é duro assumir isso. Sinto saudade do primeiro cara, muita. Sinto saudade de olhares, toques, do seu abraço, de me sentir protegida ao caminhar contigo, do seu timbre… É por sentir muito, intensamente, que as coisas que apontei me machucaram e você não está percebendo isso.
     
    Isso é difícil, mesmo. Eu vejo que reconhece o que eu expus para aceitar a sua decisão de partida. Não questionou nada e disse reconhecer. Mas, vejo que não vê como motivo para ruptura.

    Eu adoraria — com todas as minhas forças — acreditar quando você disse “eu estou prometendo que vou mudar, porque a minha visão é outra agora”. Eu não sei qual é a sua visão, mas, ainda assim, tenho medo. Poxa, você confirmou que tinha percepção de tudo aquilo antes.

    Os dias correm e em todos eles eu revivo “a nossa coisa”. Tudo poderia ter sido diferente, assim como você mesmo expôs naquela sua última música.

    Não é por meras brigas. Isso vai existir, justamente porque nos importamos e queremos fazer dar certo estarmos juntos.

    O problema é por se tratar das mesmas coisas. Como vamos crescer persistindo nos mesmos “erros”, persistindo no que destabiliza a nós dois?

    Você é astuto, tem controle sobre o que quer. Sei que não me quer como amiga. Porém, preciso saber que você está bem. Se precisar de mim, independente do que for, me diz.  Você sempre disse ter problemas, mas tinha um bloqueio em dividir comigo. Se precisar desabafar, eu estou aqui. Pode confiar em mim. Não irá ouvir julgamentos. Eu sempre questionei sobre eles por me preocupar. Não faço ideia do que sejam. Eu ainda me importo. Isso não vai mudar. Sabe o quanto sinto, sabe onde e como me encontrar, se quiser, se precisar.

    Pensa numa coisa, por favor, é a última coisa que te peço. Questiona se, pelo caminhar das coisas, eu te fazia sentido.

    O sentido a gente percebe com o tempo. Sobre “tempo”, você disse não acreditar. Eu também. Mas, sobre relacionamento, é tudo novo para mim. Ao longo da estação, mudei pensamentos, me vi em coisas que antes dizia “jamais” e fui eufórica com coisas que antes me assombravam.

    Por favor, pensa realmente nisso. Pois, uma coisa é querer a presença de alguém e outra coisa é querer a presença daquela pessoa. E, se tratando daquela pessoa, se é preciso agir com maturidade e responsabilidade afetiva. 

    Se tratando de você, para mim, há sentido. Mas, não naquele caminhar.

    Me chame de venenosa, hipócrita o que for. Só não me puna por estar desacreditada quanto a promessas. Acredito que a mudança que tanto ansiei só existiria na certeza quanto aquilo. Eu sendo “aquela pessoa”. Acredito que assim você agiria como tal.

    Essa infinidade de palavras não existiriam se você não fizesse sentido para mim.

    Juro que tentei, mas não consigo entender como por qualquer “problema” você mudava comigo e dizia coisas como “presta atenção, eu só vou caindo fora” ou que o caminhar não te agradava. Como se não bastasse, algumas vezes, de última hora, tirou o nosso encontro dos seus planos porque, para ti, me ver “não valeria a pena”. E, não obstante, claro, sempre cogitava dar um basta comigo e chegou a fazer isso algumas vezes.

    É difícil ouvir essas coisas de alguém que você ama. Eu me senti insuficiente mesmo. Insuficiente para ti. É isso que eu quis dizer com um fracasso.

    - “Você nunca foi insuficiente, muito menos qualquer coisa perto disso. Aliás, eu pensei. Não quero ser seu amigo. Sei que não irei suportar te ver com outra pessoa, um dia vai acontecer e eu não quero estar lá pra ver isso, muito menos te ouvir falando desse alguém para mim. Não quero ter contato. Mas, ainda assim, pode contar comigo, sempre que quiser, para qualquer coisa. Sabe, eu amo você de todas formas e uma delas é como amigo.”

    Eu gostaria de ser sua amiga.

    Se isso acontecer, vai demorar muito. Pra caralho. Eu não sou do tipo que se apaixona em cada esquina.

    A recíproca é a mesma. Olha, você é um cara super atraente. Devem ter dezenas de garotas lindas interessadas em você e que despertam seu interesse também. Isso nós dois sabemos. Eu sou facilmente substituível. Se ocupo um posto, logo mais ele não será meu. Você já se envolveu com outras mulheres. Já teve outros relacionamentos. Sabe que o que digo é verdade. E se por acaso um dia se lembrar de mim, vai ser em algo singelo, por exemplo, ouvindo “É Você Que Tem”.

    E independente de qualquer coisa, da minha decepção amorosa (já falamos a respeito, sabe o que quero dizer), jamais desejarei o seu mal ou direi coisas ruins a seu respeito para qualquer pessoa. As coisas que aconteceram entre a gente e também o que não aconteceu, só cabe a nós. Aliás, ainda que eu possa em muitos momentos sentir raiva, desprezo e afins, sou incapaz de sentir ódio a ponto de profanar de modo detestável o outro. Não sou alguém que se domina por sentimentos ruins.

    No mais, também reconheço as minhas falhas. Espero, mesmo, que você não tenha somente memórias ruins. Tentei e acredito não ter magoado com palavras, te respeitei (em todos os sentidos). Se em algum instante eu não fiz isso, peço perdão. Pois, tenho muito medo de apontar e de cobrar do outro algo que não está em mim.

    Hoje, eu amo você. Mesmo. Apesar dos pesares. Ainda que, olhando com distancia, eu não goste de quem foi comigo.

    Não sei se você sabe, mas há 5 linguagens do amor. As nossas são diferentes, acredito que por isso você “não vê o meu sentir”.

    Talvez, agora, a minha decisão para você (mesmo depois de tudo que eu expus e esclareci) não faça sentido. Mas, daqui alguns dias, meses ou sei lá, acredito que fará.

    Nem sempre o sentir é o suficiente para duas pessoas ficarem juntas. E juro que acredito naquela ideia de que “há formas de se amar alguém para sempre”. No entanto, às vezes justamente a nossa forma de amar, lidar com as coisas, vê-las ou sei lá, atinge o outro de uma forma que não imaginamos. É preciso ouvir o outro e ter cuidado com o que se está construindo.

    A minha decisão é para não mais me magoar. Eu sou muito intensa. Tudo me afeta muito. É frustante ser o bilhete dourado enquanto o outro só enxerga preto e branco.

    Os nosso pacto estava sendo quebrado e os diálogos e promessas sendo vãos. Eu valorizo tanto essas coisas. Reforço, eu, ferida, ia passar a ferir você também.

    Quero muito o seu bem. Sei que um dia outro alguém vai ter o seu sentir e não quero que esteja despedaçado. Não quero que lembre de mim de uma forma ruim.

    Queria ter te proporcionado somente coisas boas, talvez eu não tenha feito, assim como você não fez.

    Apesar do quanto eu sinta, jamais irei me perdoar se, por acaso, persistir nisso aqui e perder a minha essência.

    Eu apago a luz e fecho a porta com cuidado.

    “Não suporto meios termos. Por isso, não me doo pela metade. Não sou sua meio amiga nem seu quase amor. Ou sou tudo ou sou nada.” — Clarice Lispector. Faz sentido sua escolha. Eu penso a mesma coisa. Queria parecer mais forte. Vou respeitar sua decisão.

    Ps. Se um dia eu escrever um livro, leia. Provavelmente, terá textos meus sobre sentimentos e coisas atreladas a você. Será capaz de reconhecer, eu acho. (Se quiser, claro).

    - “Ninguém será capaz de substituir você pra mim. Só você teve esse posto, da forma que sempre desejei, e só você terá, por todo o sempre. Não vou estragar isso. Talvez eu faça aquilo que você sempre me falou “ressignificar”. E sim, eu já estou despedaçado. Nunca me senti dessa forma. Me magoa ver que está decidida. Só me resta tentar superar e, além de tudo, respeitar. Me desculpa por todos os ‘baixos’. Eu amo você.”

    Nunca mais ouse duvidar do que sinto.

    Sabe, eu realmente acreditei que não mais estava fadada ao Naufrágio.

    Por fim, não joga fora as minhas palavras, nenhuma delas.


    Janaina Couto ©
    Publicado — 2020
    @janacoutoj


    [PS. Não se trata de um relato pessoal. Mas, confesso que é um imenso pesar reconhecer que o meu texto foi lapidado sob um apanhado de relatos de pessoas queridas que estão ao meu entorno.
    Ainda que mesmo nas coisas mais sutis possamos constatar algo a se repudiar e imediatamente afastar-se, não raramente, horrivelmente, isso acontece apenas quando se tornam salientes.]
  • * Prazeres "quase" eternos

    Nos refletores, cores variadas explodindo em feixes de luzes ricocheteando os globos espelhados posicionados estrategicamente no alto do salão, infundia em cada um dos presentes, um misto de sensação cada vez mais agitado, frenético, dançante e prazeroso no expressar já movimentado dos pés sobre a pista de dança. “Que tanto de gata! Vamos praticar os passinhos? Marcos Hayashi era impulsionado pelos amigos em provocações já imersas e sequestradas pelo ritmo das músicas, vibrando neles, pensamentos, atitudes e comportamentos mais ousados que em um dia normal. “ Putz! Há tantos anos frequento esse espaço e nunca encontrei alguém que realmente valesse a pena!” Com o olhar viajando pelo ambiente, ele suspirava silencioso entre um e outro ressentimento, copo de cerveja à mão, acompanhando apenas com os olhos o grupo incompleto se enfileirando no centro, iniciando os passos exaustivamente praticados no fundo do galpão da fábrica. Conforme a música se desenvolvia e a provocação do ritmo abastecia a eletricidade dos corpos, a galera ao redor ficava cada vez mais agitada com gritos perenes, excitada pelos movimentos frenéticos de pés, mãos, troncos e cabeças metodicamente sincronizados entre os eles, perfeitamente expressando rostos já corroborados de sentimentos de aprovação por causa dos aplausos que recebiam. “ Galera, hoje não irei participar! Marcos sorria um sorriso desanimado partindo solitário para o segundo piso, após ter negado o convite quase obrigatório de estar ali, juntamente com eles, participando da coreografia que a alguns anos o clã  utilizava como “isca” para “pescar” novas garotas. Subindo as escadas, a alma tateando aqui e ali através de olhares trocados, contraditoriamente ele adentrou a sala reservada aos namorados, e como todas às vezes que se sentia entediado, caminhou lentamente atravessando o corredor sobrepujando uma parede esverdeada, onde após a grossa coluna de concreto, alguns banquinhos isolados construíam uma aura maior de privacidade no ambiente. Já sentado, o líquido embriagante sobre a mesa ao lado de um maço de cigarros amarrotado, ele ficava ali, o olhar perdido no horizonte dos sons, das cores e dos corpos agitados de desejo lutando contra a ansiedade e o receio de “porventura” voltarem desacompanhados após a farra.
    Como nas noites que velhos sentimentos voltava a atormentá-lo, ele retirou o pequeno livreto do bolso, capa azul de camurça, onde estava escrito em letras desgastadas e douradas o título: MAKTUB (Está escrito!) Com o rosto mergulhado vasculhava página por página, a fumaça do cigarro insistindo adentrar as pálpebras mas impedida pelo piscar frenético dos olhos, seu dedo finalmente encontrou a dobradura no cantinho que denunciava o papel amarrotado, sujo e amarelado pelas constantes releituras das letras. “O pior pecado do mundo é o arrependimento” Lia e relia em voz alta a frase que a tantos anos exercitava os músculos da língua e da mente, entremeando os pensamentos, devorando horas de suas horas por busca de significados diferenciados entre os inúmeros que se pôs a refletir em algum canto do apartamento. “Não acredito que estou vendo você aqui!” Era uma voz feminina e sensual, reconhecida no desabrochar da infância até a puberdade precoce, que acompanhou o Marcos menino nas ruas, nas praças, nas lanchonetes, na escola e em cada cantinho de casa quando imprudentemente esquecidos ali por ambos os pais. “ Linda Harumi! ” Em um sobressalto, os olhos não podendo esconder o impacto daquela presença, ele ficou vislumbrado com a beleza que agora encorpava a menina manhosa, delicada em gestos e nos protestos, a raquítica especial que insistia a tantos anos estimular antigas lembranças, povoar suas memórias, sempre o incomodando em desejos impossíveis de serem esquecidos. “ Há quanto tempo você está no Japão?” Já sentada e o encarando, Linda perguntava curiosidades ouvindo atentamente não mais se atendo a fisionomia do rosto dele, nem incomodada pelos olhares à volta a devorando de cima a baixo, mas no movimentar contínuo e singelo daqueles doces lábios que, na adolescência, tanto deliciou em beijar. “Estou à três anos no Japão! E você?”  Marcos respondia suas perguntas com o semblante amendoado e carinhoso, lutando com os olhos na verdade, mas não conseguindo se desvencilhar das curvas, das formas, da silhueta formosa ainda que na penumbra do ambiente levemente já esbranquiçado pela fumaça branca liberando um odor agradável que subia dos motores elétricos posicionados nos quatro cantos da pista de dança.
    Como água represada à anos, ambos assim ficaram, os olhos dele encarando sutilmente os olhos dela, ela tateando resquícios de percepções diversos nele, mas ambos simultaneamente impulsionados a encontrar nos diálogos; um sentimento comum impregnando as palavras, ladeando o pausar das resposta involuntárias, ou suspenso em algum movimento inconsciente que porventura denunciasse em gestos, em olhares, em suspiros inaudíveis que eles ainda se desejavam. “ Cheguei à três meses... é tudo tão diferente…  não sei se vou conseguir me acostumar!” Buscando refúgio no calor corporal que, paulatinamente se alastrava para a singeleza do rosto, Linda Harumi intercalava sorrisos com desvios de olhar, e ele, devolvia o sorriso envelopando com eles, promessas protetoras de alguém um pouco mais acostumado com toda aquela loucura, com todos aqueles trejeitos, com todas aquelas esquisitices de país de 1º mundo.  Finalmente chegava a pausa de descanso do DJ que, com as mãos doloridas, posicionou um LP enquanto os casais apaixonados iam se formando aos pares. “Se precisar de alguma coisa, pode contar comigo...” Ele se levantou da mesa, e estendendo carinhosamente a mão em sua direção, a convidou para descer até a pista de dança ao som romântico de Mariah Carey...
    “You look into my eyes
    And I get emotional inside
    I know it's crazy but
    You still can touch my heart
    And after all this time
    You'd think that I
    I wouldn't feel the same
    But time melts into nothing
    And nothing's change…”

    Já abraçados, as mãos de Linda suavizadas sobre os ombros seus ombros e as deles circundando firmemente sua cintura, por um momento ou pelo tempo que durou a música, toda uma torrente de sentimentos acumulados e represados ao longos dos anos passados, arrebataram suas almas: vieram as lembranças das promessas joviais expressas em beijos singelos e demorados, das fugas entremeio as festinhas que aconteciam na vizinhança, as travessuras, os receios, e a intranquilidade pelo possível flagra ao pé da porta que avultam ainda mais em sentimentos sinceros, crescentes, genuínos, se apossando cada vez mais do coraçãozinho de ambos na pré-adolescência. “Nunca consegui te esquecer!” Marcos proferia confissões acaloradas ao pé do seu ouvido, a respiração de ambos ficando acelerada, diminuindo cada vez mais o espaço entre os corpos no apertar dos abraços não tão sutis, seduzidos cada vez mais pelas passagens românticas da música. “ Ah Marcos… eu também não … “ Ela respondia os gracejos já se sentindo segura nas palavras, o queixo angelical repousado sobre o ombro dele, deixando a doce fragrância do perfume nos cabelos embriagar cada vez mais o olfato do recém amor reencontrado. “ Parece que foi ontem....”  Refletiam no conforto do próprio silêncio, os passos alternados; dois para lá, dois passos para cá, e a canção anestesiando os corpos da tensão do dia, adocicando pensamentos diversos, enternurando emoções antigas, revirando no fundo do baú dos sentimentos até encontrar o ‘’amor descontinuado’” ainda fibrilando pulsões, latejando sensações, emergindo na epiderme do ser resquícios do prazer de uma vida a dois interrompida, impossível agora, pela força do destino ou pelo acaso do reencontro de almas que se procuravam, permanecer vivo somente nas lembranças.
    “Não vai nos apresentar ?” Logo ao final do repertório romântico, os amigos se aproximaram expressando arfadas, suspiros e golfadas de ar intercaladas, provocando ciúmes ao colega que, diante daquela beldade, o julgava um cara sortudo. “Essa é a Linda!" Apresentava a acompanhante ao seleto grupo de amigos em círculo, desejando naquele espaço de tempo ter dito “meu amor” ao invés de “minha amiga”, dando-lhe um beijo singelo na bochecha, enquanto permitiu que ela fosse fuzilada por perguntas vindas de todo o grupo. Ela respondeu todas as perguntas buscando sempre apoio na presença ao seu lado, as palavras entrecortadas por gestos, por olhares, por suspiros acompanhados de uma entonação amanteigada na voz, e a todo momento direcionando o olhar para aquele que a abraçava. “ Vamos reunir a galera amanhã na estação. Você vem?” Convidaram. “Não vou dar certeza pessoal... Eu e a Linda acabamos de nos reencontrar e talvez tenhamos outros planos para amanhã...” Franzindo os olhos, Marcos a encarava com ternura em rabos de olhos desconfiados, receoso por ter ultrapassado por assim dizer, algum limite dela, na resposta espontânea que deu ao amigo. No relógio central localizado no alto do chafariz da praça principal, bateram duas horas da manhã quando todos se despediram em frente da casa noturna denominada B’One com o frio cortando porta afora, cada um seguiu esgotados e satisfeito em passos apressados na direção do ponto de ônibus. “Aonde te deixo?” Marcos Hayashi perguntava já sentindo saudades, conduzindo-a rumo à estação do metrô subterrâneo enquanto Linda Harumi momentaneamente muda, sorriu envergonhada, com o rosto mais corado que o normal. “Me leva pra sua casa?” Ressabiada e com os olhos miúdos enterrados em sua direção, como uma cadelinha sem dono ela apertou ainda mais o braço encadeado ao seu. Por um instante de momento, com a mente de Marcos  sendo pega desprevenida viajando em devaneios passados, ficou mudo.  “Se você quiser é claro...” Ela reforçou o auto convite com a face insegura e envergonhada,respeitando as próprias pausas respiratórias do ar gelado adentrando as narinas, concentrando o seu olhar a partir dali, nas leituras de uma "aura" agora desperta, emitindo paulatinamente um brilho mais incandescente que antes.
    Após apearem do táxi, ambas as mãos roçando a pele em toques singelos, finalmente seus dedos se entrelaçaram. “Nem em mil anos poderia ter imaginado reencontrá-la...” Marcos Hayashi comemorava em silêncio, a respiração ficando ofegante, e a imaginação a mil enquanto conduzia com doçura Linda Harumi já na entrada do pátio. “Cuidado com o degrau princesa!” Advertia carinhoso, controlando em pausas a excitação se avolumando na mente, enquanto admirava de rabo de olho a silhueta formosa revelada na penumbra da noite. “ Haha! Princesa? Nossa! Estou adorando esse seu tratamento VIP!” Ela subia lentamente cadenciando os passos, a lanterna do celular Iluminando o caminho, enquanto se esforçava para apaziguar o vestido florido, rebelde ao corpo, totalmente agitado com as rajadas de ventos vindo em ambas as direções. Dentro do apartamento N° 404, já protegidos da tortura congelante que ficara de fora, em um impulso logo eles se aqueciam abraçados. “Precisamos de um banho!” Linda se antecipou em falar, para logo em seguida, às pressas, corrigir o possível mal entendido sublimado nas próprias palavras: “ Quero dizer que eu preciso tomar um banho…” Energias inocentes estas, entremeando suas falas, passando a vibrar insinuações sensualmente mais provocantes na libido de ambos. “ Sim, claro! Vou pegar um roupão para você…” Suspirou.
    Foi uma “puta grosseira” de um prostíbulo localizado no centro de uma cidade chamada Omya que anos atrás “roubara” a virgindade do inexperiente Marcos. Entre as “estocadas inseguras” ora ela folheava uma revista, outrora retocava a maquiagem borrada, mas sempre e compulsivamente recontando o dinheiro adquirido que escondia entre cobertores inundados de suor. Com as pernas arregaçadas, recebendo as idas e vindas frenéticas que estremeciam toda a extensão do seu corpo judiado, ela não se esforçava para esconder a má vontade do “ fazer ” expressado nos suspiros tediosos que bufava, nos olhares indiferentes carregados de desprezo, e principalmente na falta de educação que denunciava o cansaço da “ labuta exagerada ” que mulher alguma nunca deveria se acostumar. Dentro de uma cabine 3x1 mal iluminada, com homens e alguns jovens atrás da porta em fila ansiosos para adentrar, foi que Marcos Hayashi aos 16 anos de idade iniciava a traumática vida sexual que, dali pra frente, viciava sua carne, mas violentava inevitavelmente a sua alma. Agora Linda Harumi estava ali: lindamente provocante, insinuante em gestos inconscientemente diretos, arrebatada por desejos de compartilhar com ele, o abecedário completo do prazer quando é deliciosamente conjugados nos verbos: dar e receber amor. Mas Marcos respirando resquícios dessas mesmas frustrações passadas, instintivamente se fez de desentendido, corou nervoso, e insinuando à tarefas esquecidas, ele desprezou momentaneamente os clamores desesperados da sua faminta carne. “ Está com fome? Que acha de eu preparar um lámen pra nós!” Dizia partindo para a cozinha, lhe entregando um roupão amarelo, enquanto Linda envergonhada pelas recentes falas, fechava a porta do banheiro confusa. “Fiz besteira… como você é oferecida garota!" O quê ele vai pensar de mim?” Ela naufragava em perguntas confusas, tirando a roupa vagarosamente, e em paralelo, procurando defeitos em frente a um espelho que revelava seu físico, mas não as angústias brotando da sua alma. “ Burra, burra, burra...” Balançada pelas próprias condenações, ela achava repouso apenas na batida quente das águas que, inundando suas costas, descia suavemente ladeando e abrangendo as curvas acentuadas das nádegas.
    Na cozinha, segurando uma faca afiada na mão, Marcos Hayashi preparava entre um suspiro e outro, os ingredientes que comporiam o preparo do alimento à base de massa: o kombu, o niboshi, ossos de carne, shitake e um pouco de cebola. Mantinha o pé segurando a porta da geladeira entreaberta para alcançar com a mão um par de ovos mexidos que quando quebrados, caiam na água fervente, diluindo e empedrando ao mesmo tempo. “ Que vontade de estar lá, tomando um banho quentinho, agarradinho com ela... ” Dizia degustando os pensamentos vindos do demoniozinho sibilando em seus ouvidos, os seus olhos revirados ao teto, já sentindo no corpo as velhas tremuras do prazer.

    “Mas ela não é como as outras que eu  comi...” Deu o veredicto final, se concentrando no tempero, despejando as verduras picadas na panela enquanto o macarrão duro amolecia aos poucos, no compasso das mexidas da colher de pau. O cheiro do lámen proporcionado nos vapores que subiam em espiral até o teto, seguia o fluxo do ar sorrateiro que entrando pela abertura da janela da sala, alcançava e engolia todos os ambientes do apartamento. “Que cheiro delicioso! ” De repente, Linda, a passos lentos, com o roupão grudado a um corpo jorrando vapor pelos ares, despontou silenciosa na porta da cozinha, e encostando no portal contemplava-o enquanto penteava com os dedos seus longos cabelos umedecidos. 

    Sobre a mesa, os tchawans esperavam virados de cabeça pra baixo bem ao lado dos hashis de madeira recém tirados de uma embalagem. Para acompanhar o preparo; shoyu, pimenta e um pouquinho de kurikake que era jogado sobre o arroz cozido sem um pingo de sal. “ Linda, use o meu quarto para se trocar! ” No quarto, já sentada sobre a cama, Linda Harumi vasculhava com olhos nervosos resquícios que porventura indicassem alguma pista, alguma mancha, cheiro ou algo que confirmasse que alguma presença feminina havia passado por ali. Não encontrou nada. Apenas fixado nas paredes, três pôsteres de tamanho 2x1 “embelezavam” o ambiente pouco iluminado, gerando um frenesi louco de imagens retiradas de revistas hentais (pornô). Em cada cenário, mulheres nuas em  poses extravagantes e sensuais, revelavam as próprias “curvas” sem nenhum pudor. Por exemplo, na parede frontal, estampado estava a imagem de uma loira estonteante: só de biquíni e agachada de costas, ela segurava uma bola de basquete, glúteos quase ao chão, o rosto virado pra trás oferecendo um sorriso lindo carregado de provocação. Na parede lateral à esquerda, bem ao lado de uma estante montada de ferro encaixáveis, o segundo quadro apresentava uma morena escultural em meio à mata: sentada sobre uma grande pedra, as pernas entreabertas, o dedo indicador da mão esquerda passeando os lábios volumosos em um olhar inocente, subliminarmente convidativo ao prazer. À vista ficavam os seios fartos, as coxas grossas, a barriga bronzeada, e o sexo totalmente à mostra, sendo ladeado carinhosamente pela pontinha dos dedos da mão direita. Por último era a ruiva emoldurada no cantinho especial do quarto, por cima de uma escrivaninha coberta por livros e algumas revistas de sacanagem organizadas metodicamente em fileiras que faziam divisa com um porta canetas de aço. A terceira beldade estava suspensa sobre uma máquina de escrever antiga que, há alguns anos, Marcos Hayashi vinha dedilhando alguns poemas apaixonados. “Assim você acaba comigo guria!” Era exatamente assim que ele em seus devaneios frequentes, repetia sua confissão sem se cansar, sozinho no banho ou debruçado sobre a cama, devorando a imagem nua com olhos famintos enquanto arregaçava o “membro endurecido” salivando de desejo, saltitante na palma da mão. “ Nem consigo trabalhar amanhã ” Desejava-a com a boca, os pensamentos soltos e encravados em cada pedacinho do corpo dela: nos lábios carnudos insinuantes no movimentar da língua aos beiços, nos seios fartos carregados de uma volúpia descomunal que refletindo o rosado dos bicos pontudos expressava ainda mais a brancura da pele sedosa, na bunda redondinha, formosa em formas, empinando convites a deliciosas cavalgadas aceleradas, e por fim, na cerejinha do bolo, o gran finale, representado pelo sexo depilado, acentuado pelas marcas de um biquíni ausente, deliciosamente pronto para ser consumido a exaustão. Gemendo sempre baixinho acompanhando o movimentar frenético do vai e vem dos dedos cerrados, ele não deixava que nada passasse despercebido à sua mente, sempre voraz a tudo que, dependendo da quantidade dos pixels da imagem estática, pudesse ser deliciado.
    Deslumbrada com a beleza das imagens, no entanto visivelmente perturbada com a rivalidade que elas representavam, Linda Harumi ficou por um breve espaço de tempo às encarando de frente; o olhar empoderando, a respiração firme e pausada na postura ereta do corpo que anunciava ali, algum tipo de futura batalha. “O reinado de vocês, suas piranhas, acaba aqui!” Dizia em falas esquizofrênicas, relaxando os ombros e as costas, sentindo-se mais leve, mais segura e liberta nas recentes palavras que expurgaram algum tipo de mal inconsciente. Em seguida, após vestir um moletom acinzentado, procurou na gaveta inferior da cômoda alguma meia que pudesse calçar. “Será que é o diário dele?” Lina Harumi manuseava um caderninho capa de couro, cor vinho envelhecido, com o tempo de uso já considerável, sem anotações externas que denunciassem algum tipo de função. Abri-lo sem ser descoberta era impossível. Trancado pelas bordas, um pequeno cadeado dourado garantia que o conteúdo das páginas, seja lá o que for que estivesse escrito, ficasse totalmente inviolável, definitivamente inacessível a olhares curiosos. 

    “ O lámen está pronto... ” Sobre a mesa, com os olhares timidamente trocados, eles se sentaram lado a lado, talheres à mão, servindo da panela à frente, deliciosa e convidativa aos olhos no saciar da fome acumulada, expressada nos roncos sugestivos do estômago que horas atrás vinha reclamando como cachorro louco. Dizendo “Oishi!” em japonês, Linda agradecia a Marcos Hayashi com a boca cheia do macarrão, ora suspenso sobre as duas ferpas do hashi que, enfiado entremeio aos fios, lutava para manter-se firme e ancorado aos dedos. “Vamos ouvir uma música?” Retirando o CD da Roxette do estojo, Marcos o encaixou cuidadosamente no compartimento do aparelho eletrônico, girando o botão do volume até que a canção Listen To Your Heart, já audível em som ambiente, começasse a tocar:

    “I know there's something in the wake of your smile
    I get a notion from the look in your eyes, yea
    You've built a love but that love falls apart
    Your little piece of heaven turns too dark…”

    Finalizado o jantar, eles se sentaram na sacada do apartamento. Com o coração mais acelerado, a respiração ofegante em ciclos se alternava de acordo com a temperatura no interior do edredom enroscado em ambos os corpos à convites de contatos mais aflorados. “A lua é linda!” Ouvia-o dizer poemas ao pé do ouvido, aveludando as palavras, e com o olhar amoroso, Marcos ajustava o tom da voz na altura perfeita que não atrapalhasse a melodia de amor que continuava entoando vibrações carregadas de candura a partir do aparelho na sala.

     “ Eu a perdi uma vez…” Marcos ditava promessas que insistia que iria cuprir a ela, o seu olhar ficando sério, apertando seguidas vezes um chumaço do edredom felpudo que ia reduzindo cada vez mais o espaço entre os dois corpos se ardendo de desejo no resvalar nada sutil dos toques eletrizados. “Ah mas éramos apenas dois jovens apaixonados...  Enroscada ao seu peito e com a ponta dos dedos, Linda identificou uma estrelinha sob a lua, reluzindo seus raios cintilantes na penumbra da noite. “ Vamos compensar agora, né princesa ? Ao ouvir a energia vibrando destas doces palavras, Linda Harumi duplicou o sorriso espaçando ainda mais o espaço entre os lábios, agasalhando no coração de mulher sensibilizada com o cenário, as doces seguras palavras recém-ouvidas ao pé do ouvido. “ Podemos sim e vamos! ” Marcos Hayashi reforçou novamente os abraços, o seu semblante esmagando o dela, sorvendo com a língua o excesso do chocolate que ficara salpicado em um dos lados da bochecha. O carrossel girando no aparelho de som, por fim alcançou o último CD posicionado e, no compartimento sobre o laser, posicionou a música romântica La Solitude de Laura Pausini:

    “Marco se n'è andato e non ritorna più
    E il treno delle 7:30 senza lui
    È un cuore di metallo senza l'anima
    Nel freddo del mattino grigio di città
    A scuola il banco è vuoto, Marco è dentro me
    È dolce il suo respiro fra i pensieri miei
    Distanze enormi sembrano dividerci
    Ma il cuore batte forte dentro me”

    Ali, sobre o luar, os rostos corados levemente sendo iluminados, eles deram o primeiro beijo de amor que, dali pra frente, selaria o reinício da relação iniciada na adolescência. Debaixo do cobertor, ora os corpos se fundindo nos abraços apertados, outrora as mãos soltas à vontade brincando apalpadelas entremeio ao vácuo, deixava a pele toda eletrizada, desejosa por mais, carregada de uma ânsia insaciável por toques mais acalorados. “  Sou toda sua amor!” Linda Harumi se jogou sobre seu corpo, o olhar levemente ficando devasso, se distanciando rapidamente da timidez inicial, incentivada ainda mais pelo alastrar da ardência úmida no enroscar frenético das duas línguas. “ Vem cá... não foge! ” E ela o segurava em suas falsas escapulidas, ambos os sexos estimulados debaixo da roupa, a sua boca carnuda toda enlouquecida, desejosa por mais, naufragando em um mergulhar cada vez mais profundo dentro dos lábios do amado.

    Linda se entregava sem economias, excitada pela voracidade dos beijos contínuos, pelo calor tempestivo gerado nos abraços mais apertados, mas sempre e paulatinamente testemunhando o desnudar do próprio corpo no avultar nada sutil de dois olhos incinerados. Ainda que se sentindo sequestrada pelo desejo de satisfazer a ele ou mesmo ansiando querer mais pra si dele, ela permanecia totalmente entregue diante das investidas sequenciais, palpáveis, ou gustativas, não interrompendo as preliminares nem diante das tão necessárias golfadas de ar. “Fica louquinha pra mim, fica princesa?” O amado balbuciava para uma mulher cada vez mais perdida nos próprios sentidos, a cabeça emborcada para o lado em desprezos dos cabelos sobre o ombro, permitindo com estes submissos atos, uma passagem mais convidativa ao prazer, carregada de provocações eróticas, aprisionando parte dos desejos de Marcos focado na consumação exacerbada da pele nua em volta do seu exuberante pescoço. “Ai que tesão...” Sem piedade Marcos caia esfomeado, o pensamento acelerando o palpitar do coração nos gemidos crescentes ao pé do ouvido, beijando a pele dela com carícias provocativas no passear sensível junto aos lábios, em suaves mordidas no lóbulo inchado de desejo, seguido por intercaladas enfiadas da língua no fundo do orifício do ouvido. “Hum, já estou tão molhada...”. Excitado, Marcos finalizava o ciclo degustativo com chupadas mais sedentas que as iniciais, sua língua serpenteando roxeões à flor da pele, notórias a ver de longe, afogando cada vez mais a libido de ambos no desejo louco de adentrarem o próximo estágio.

    Grossas nuvens formando no horizonte, e o próximo estágio acontecia estritamente às apalpadelas aprofundadas, a mão de Marcos adentrando o moletom de Linda, a pontinha das unhas arranhando suavemente a lateral do dorso dela, a deixando toda arrepiada, louca de desejo por ele que, suas mãos subindo o sutiã, não saia dali, até vencer o adversário empacado, o fecho não sincronizado com o tesão arrebatador que há muito tempo já engolia os dois. No concentrar mental entre as pausas para a respiração, finalmente o fecho se abriu, os sorrisos antes abafados coloriam mais o rosto, as mãos resfolegantes por tatear tanto, finalmente degustavam toda a volúpia de um par de seios extremamente fartos. “ Também estou pegando fogo...” Marcos Hayashi advertia sem parar e ela ficava cada vez mais excitada nas carícias, nos afagos, no movimentar da pontinha do dedo pressionando levemente os bicos dos seios e os deixando mais inchados, entumecidos e desesperados por mais. “Agora desce um pouquinho...” Em seguida, como um cachorrinho bem adestrado ele fielmente obedecia, descendo ao ventre chapado, passeando os dedos na extensão da virilha, estacionando nos pelos pubianos macios e escassos, ora puxando-os levemente como se quisesse arrancá-los, outrora massageando por cima como uma mãe amorosa acariciando os cabelos do filho.

    Ali na virilha, a calcinha apertada denunciando tatilmente a umidade do sexo vazando o exterior do tecido, os dedos dele ficaram mais agitados, mais sedentos, mais ansiosos por causa do ritmo pulsante do sangue que, circulando com maior rapidez nas têmporas da testa, aumentava cada vez mais a pressão sanguínea dentro da cabeça. “Que bucetinha molhada..." Assim, narrando seus laboriosos atos, Marcos começava devagarinho, acariciando o clitóris em movimentos suaves, às vezes frenético no enrijecer dos dedos, mantinha estes movimentos por alguns segundos, depois voltava a ladear os lábios de cima a baixo, arregaçando a abertura da vagina, sempre com o extremo cuidado de não feri-la com as unhas. Na entrada do orifício, com o desejo sexual alimentando a sua sensibilidade criativa, Marcos Hayashi sentia o próprio “pau” ao invés de “dedos” endurecidos: indo, vindo, estacionando lá no fundo, depois voltando e entrando novamente, retornando a ladear os grandes lábios como no início, saboreando assim, devagarinho, palmo a palmo, toda a  densidade cavernosa daquele sexo encharcado.“ Que vontade de chupá-la...” Diante de um par de olhos se cerrando, ele retirava e adentrava os dedos do orifício, e com a viscosidade fazendo ponte entre o indicador e o polegar, abocanhou os dedos com uma tal voracidade, que a deixava ainda mais excitada.

    Era de se esperar que a chuva logo caísse do céu já tenebroso, anunciando o prelúdio que viria através das trovoadas que estremeciam os carros estacionados, os latões de lixo, os postes de ferro mal posicionados, os corrimões das escadas e seus parapeitos, as paredes de alvenaria, os telhados, as janelas, e toda a extensão da sacada onde eles se encontravam. “ Por favor, vamos entrar?” Ela agarrava-se a ele enquanto os clarões dos raios iluminavam como flashes instantâneos os ambientes antes ocupados apenas pelo negrume da noite; as vielas pouco movimentadas, o sombrear das árvores envelhecidas na entrada do pátio e os corredores dos edifícios vizinhos mal iluminados por causa da baixa potência da lâmpada. “Claro que sim! Vamos...” Ele com o olhar prestativo encadeou seus braços a ela que, sentindo o cheiro másculo exalando do seu corpo úmido de minutos outroras, agora lutava para manter toda aquela excitação incubada no seu corpo de mulher ainda não satisfeita. Caminharam até o interior da sala com os dedos entrelaçados, ambos os rostos selando-se entremeio aos beijos que aconteciam aos trotes, e quando atravessaram o ambiente, alcançaram por fim o aconchego do quarto quente, totalmente preparado ao prazer. 

    No canto esquerdo do dormitório, um abajur chinês com cúpula esbranquiçada e base em tons que se aproximavam ao vermelho sangue, estava localizado a ½ metro da cama. A partir dali, emergindo sua luzinha fraca e limitada, os feixes de luzes alcançavam apenas parte dos móveis e objetos que compunham o lugar, emergindo todo o resto do ambiente em uma penumbra amarelada que se permitia ver apenas vultos nas sombras. “Safadinho você hein...!” Dando voltas ao redor e se posicionando fronteiriço as paredes do quarto, para o provocar, ela encarava as três imagens emolduradas, arranjadas de tal forma que, a iluminação refletida diretamente nos retratos, acentuava ainda mais a beleza irradiando de cada uma das daquelas deliciosas curvas estáticas. “São só pôsteres que não significam nada...” Usando argumentos que mantinham a suavidade do clima ainda pairando no ar, ele a apertou no peito, deu-lhe logo um beijo ardente, sugando todo o fôlego que ela tinha reservado para revidar em palavras. “E eu?” Sorrindo baixinho entremeio aos gritinhos de prazer sufocado que quanto mais ela emitia, ele delirava, seu pescocinho sensível ficou totalmente exposto às carícias vorazes dos lábios incendiados de Marcos. “Você é o meu xuxuzinho!” Respondendo respostas agradáveis, ele a abraçava cada vez mais forte, temperando com humor as palavras salpicadas com ternura, emulando à partir do coração que em outros tempos estava desassossegado, o amor adolescente interrompido anos atrás, e que agora, se ascendia em envergadura e presença,  anestesiando a psique de ambos em confortos verbais e carinhos visíveis, expurgando de dentro dela, qualquer tipo de malícia que porventura instigasse a continuar se avolumando de ciúmes infantis. “Assim você me ganha!” Agora, com o ar do ambiente mantendo sua nobreza, o mesmo inspirava leveza, e impregnado das liberdades não palpáveis que tanto protegem e estimulam os amores, eles voltaram a se aconchegar nos abraços.

    A música havia parado de tocar no aparelho quando o som da chuva torrencial começou a despencar do céu. Inicialmente foram pingos pipocando sobre o telhado que, quando se avolumavam na calha, transbordavam na parede e desciam inundando as bordas janela, deixando a vidraça completamente enervada por grossos fios de água que se enraizaram. “Que fofinho !”  Retirando a calcinha rosa de Linda, Marcos a deslizava entre as pernas entreabertas, enquanto ela o encarando na direção dos seus olhos, se situava através do brilho ocular emitido graças a uns poucos feixes de luzes que ricocheteava em um espelho e jorravam entremeio a escuridão do quarto. Com as mãos segurando o objeto íntimo, ele o levou até o rosto, acariciou a própria pele como se fosse a dela, e em seguida buscou entremeio as linhas do tecido de algodão, o cheiro exalando da essência úmida impregnada no seu interior..“ Tem um odor maravilhoso ! ”  Era o que repetia antes de entrar em um transe louco que o levou a sugar todo o resquício do líquido viscoso que pairava na superfície do algodão. Marcos a elogiava lambendo os próprios beiços, passeando a língua aos lábios, acariciando o membro endurecido trincando pulos desesperados para fora da calça. Como uma mulher não enlouquecerá de prazer diante destes atos? Ver o amado se satisfazendo assim; como um cachorro doido, faminto de desejos, degustando “sabores” e consumindo “odores”, o olhar faiscando contatos mais aprofundados na pele dela, a sua boca gulosa pipocando em brasas, desejando a todo custo bebericar toda a sua intimidade?

    “ Mantenha bem abertinha para mim... ” Marcos segurava suas pernas entreabertas, enquanto descia a sensibilidade do seu rosto devagarinho, suavizando toda a extensão da pele dela. “ Tá gostoso assim? ”  Passeava a língua úmida no interior das coxas, saltitava entre elas, até chegar pertinho dos grandes lábios. Apesar do tesão implorando por extravasar, ele não adentrou por um instante. Permanecia apenas ladeando lábios e língua por fora, energizando a libido aflorada nos toques singelos na pele do seu rosto provocando a pele dela, enquanto beijos e mordiscadas suaves eram alternados rente à divisa, arrepiando Linda Harumi ainda mais no desejo louco de ter todos aqueles limites íntimos ultrapassados. “ Tá judiando demais de mim...” Linda emitia gemidos suaves, os olhos semicerrados ao céu, adocicando a voz no rebolar perfeito que poderia colocar o pingar do seu sexo, mais bem posicionado frente a lábios vertendo lavas incendiárias. Com as pernas tremulando sobre os seus lábios, finalmente Marcos Hayashi decidiu que a doce tortura chegava ao fim. “ Enfia essa linguinha lá no fundo, por favor… ” Enlouquecida nos estímulos e ainda mais sendo consumada a exaustão por uma boca esfomeada, ela desfrutava o desidratar dos próprios fluídos entremeio a uma língua louca, serpenteando enrijecida sobre o clitóris vibrando cada vez mais intumescido. O amado lambuzava os beiços, a pausa para as suas respirações sendo adiadas, a língua, os lábios, e a boca por um todo sempre prudentes na aceleração frenética que desprezava ainda mais os protestos alarmados pululantes no aperto da própria calça. Lentamente, palmo a palmo, com a língua tateando aqui e ali ansiando por absorver resquícios de sensibilidade ainda não explorada, Marcos subia e descia devagarinho, palmilhando olfatos, degustando com excelência toda a textura da pele sensível envolta da vagina. Com a pontinha dos beiços, os dentes acovardados dentro da sua boca, ele puxava cuidadosamente os lábios vaginais: ora os esticando de encontro a si, outrora soltando-os de volta, mas sempre e repetidamente voltando a esses mesmos atos de provocação, gerando dessa forma, uma tensão sexual assoberbada em gemidos cada vez mais carregados de gratidão.

    Linda Harumi suplicava a ele, e ele com a excitação expressada na face avermelhada, mergulhava cada vez mais fundo dentro dela: tateando o interior da intimidade, sentindo as fissuras cavernosas no penetrar inicialmente tímido, e em seguida perfurador da língua até o fundo, mas sempre engolindo e engolfando em êxtase absoluto cada pedacinho da sua libido transbordante de mulher lucidamente entregue. Abandonando os trejeitos ora iniciais, de súbito ele alternou o tom das investidas, antes lentas e delicadas, para em seguida se lançar com maior avidez, maior gula e uma sede insaciável na agressividade enternurada que tomava conta da sua língua. “ Uiiii, Marcos, eu estou quase gozando!” 

    Ela arfava transes carregados de extrema sensualidade; serpenteando o corpo e revirando os olhinhos para o alto, expressando nestes sequenciais atos, todos os desejos outrora reprimidos no ser e agora, expressos no mordiscar frenético das unhas aos bicos dos seios, das mãos galgando carícias em volta do pescoço e lóbulo da orelha, movimentos incontroláveis que a deixaram toda inundada, desejosa ao extremo, fielmente descabelada diante do frenesi possuidor de promessas de êxtases absolutos. “Não para que eu vou gozar!” Quando ouvia este tipo de confissão, Marcos dava brecadas propositais como parte de seus planos de prazeres quase eternos, cheios de malícias, com os lábios umedecidos se afastando do sexo temporariamente desidratado, e arrancando nesses covardes atos, protestos acalorados carregados de uma ansiedade descomunal, ainda mais expressados no rebolar ensandecido das nádegas sobre seu rosto. “ Aguenta mais um pouquinho...”  Marcos também empacava excitado, seus olhos encarando um olhar desvanecendo, mas sete segundos depois ele voltava a apertar o botão do start com mais vontade, maior voracidade e grande desejo nos lábios entremeando as pernas dela; degustando os sabores, consumindo os mesmos odores, fibrilando as velhas palpitações em um bailar nada sutil do clítoris sob a vibração mais enérgico da sua língua.

     Após sequenciais investidas assim: frustrantes e ao mesmo tempo provocantes na carne suada, a excitação de ambos novamente alcançava o nível máximo; ele voltando da embriaguez, subia até a virilha,  passeava a língua sobre o ventre dela, ladeando sempre em sentido horário ou ao contrário os biquinhos pontudos e rosados aprumados em ambos os seios. Por fim, pairava sobre o rostinho angelical e lindo levemente desfigurado pelo prazer interrompido de minutos outroras. “ Agora sente o seu gosto na minha boca! ” Marcos ia ordenando submissões e despejando na boca dela toda a essência do sexo ainda pairando sobre seus lábios, e Linda Harumi gemia mais enlouquecida, se perdendo nos cheiros, nos gostos, nos próprios fluídos a sublimando em metamorfoses embriagantes da própria sexualidade. “ Fica de quatro...” Ela totalmente turva entre os sentidos rodopiando, logo ficou de quatro, enquanto ele afrouxando o cinto da calça, tirou o jeans apertado denunciando um volume exagerado dentro da cueca box. “ Putz, esqueci o preservativo...” Expressando preocupações no semblante, Marcos ia revirando as gavetas da cômoda e do guarda roupa, o membro endurecido bailando vendido no ar, enquanto ela enlouquecida suplicava cada vez mais alto para logo ser penetrada...

    “ Te quero por inteiro… ” O provocava em palavras suavizando gemidos em seu ouvido, tentando-o com o timbre da sua voz ficando enternurada, oferecendo ali toda a volúpia dos lábios vaginais arregaçados e ainda mais valorizados no rebolar provocante das nádegas passeando sofregamente para ambos os lados. Com o rosto enterrado no colchão e a curvatura perfeita da coluna indo de encontro com um arrebitar cada vez mais acentuado da bunda, ela insistia: “ Ah! Assim não! Vem logo Marcos...”  Agora Linda ordenava em gemidos, e ele de pronto obedecia em desesperados desejos de obedecer; optando assim por deixar do lado de fora do quarto; todas as disciplinas latentes que poderiam por hora, evitar preocupações carregadas de reticências futuras, desprezando nessa forma de agir e mal calcular, quaisquer empecilhos ao prazer corroborado nas duas carnes que finalmente se esfolavam. “ Que fogo...” Em baixos sussurros e com a respiração ofegante,  Marcos sentia o pulsar do próprio sangue circulando incontrolável nas veias, enquanto ela desfrutava centímetro a centímetro conforme a consumação operava por baixo das suas operantes nádegas. “ Mete com mais vontade... ” Linda Harumi se sentindo ávida, com tamanha eroticidade mordeu o travesseiro, e com o sexo sendo arreganhado em um cravar de dedos afastando ambas as suas coxas para os lados, com as intimidades escancaradas, ela testemunhou seu clitóris tremer e vibrar em um aperto sufocante socando sequenciais intensidades por baixo das suas nádegas.

     Percebendo o seu sexo friccionar suavemente o “ ponto de contato” do outro sexo, ele com a mão esquerda apoiado sobre a bunda dela, buscava apoio para investidas mais emborcadas, perfeitamente mais bem posicionadas, realizando movimentos transversais no penetrar, ou verticais o suficiente para que os pés levemente em suspensão junto ao corpo favorecessem um ângulo melhor, um colocamento melhor, facilitando dessa forma uma postura mais adequada para que a rigidez peniana infringindo o clitóris intumescido, o esmagasse sucessivamente em todas as investidas de entra e sai. E assim foi. Sucessivamente, exaustivamente, calorosamente provocando o desejo sexual tempestivo, a eletricidade afrodisíaca se apoderando de ambos os corpos inebriados por mais, o prazer não maduro emergindo a virilha, se espalhando pelos músculos em calafrios reconfortantes carregados de promessas de devaneios altissonantes, a tensão tão estimulada nas preliminares, saldada ali, nos pensamentos não mais confundidos e muito menos controlados pela consciência já livre das prisões, liberta dos atrasos, se entregando de vez na luxúria do gozo explodindo no corpo e na alma de ambos. “ Linda! !” Ele dizia “ Marcos !” Ela respondia. Encerrando os gemidos, jogados um sobre o outro, totalmente nus e encharcados pelo deleite percorrendo os corpos, eles adormeceram. 

    Com o irromper do sol no horizonte denunciado que o alvorecer havia principiado, ambos se sentiram levemente atordoados quando no abrir da janela do quarto, golpes de ventos carregados de resquícios da neblina que havia varado a madrugada ainda insistia umedecer a camada de ar, somando-se ao cheiro das flores e das árvores, principalmente do pessegueiro plantado na frente do edifício, inundando ambos os pulmões de uma essência revigorante que rememorava antigas recordações no peito de Marcos. Ficaram por alguns instantes posicionados assim, os rostos sobrepujando parcialmente o limite da janela, avistando ao longe as montanhas, as nuvens pairando quase inertes sobre elas, e toda a vegetação limítrofe pelo alcance de dois pares de olhos encantados com a beleza do cenário. “ Que vista privilegiada! ” Ela bocejou esticando os braços outrora repousados nos ombros de Marcos, procurando a melhor posição para aproveitar a infusão dos raios solares que, jorrando ambiente adentro, aquecia parcialmente a nudez feminina refletindo um brilho mais incandescente através da pele. 

    “ Daí alguém pode te ver... ” Ele sorria sussurrando ciúmes brotados inconscientemente, para em seguida jogá-la sobre a cama, se esforçando a todo o instante para imobilizá-la com o corpo estendido sobre o dela. “ Eu quero que me vejam como vim ao mundo! ” Dando risadas golfadas entremeio a provocações acompanhadas de remelexos de quadril, Linda Harumi  brincava de se soltar até sentir o fôlego se esvair nas cócegas que recebia na sola do pé, nas axilas e principalmente na cinturinha tão sensível ao encravar dos dedos de Marcos. “Ainda não te disse bom dia meu bebêzinho lindo!” Ainda nus, eles já se encontravam enroscados, e apesar do leve incômodo apontado através do bocejar dos hálitos, logo as bocas se avançaram em um tripudiar frenético de línguas e lábios em total desconsonância com hábitos rotineiramente matinais. “Assim você acaba comigo!” Em um meneio, ele foi jogado de costas por ela, e ela já sobre ele, oferecia toda a volúpia de ambos os seios eriçando os bicos quando posicionados fronteiriço a voracidade dos seus lábios. “Mama gostoso meu bebê!”  O provocava sem se deixar penetrar, apenas saboreando os lábios vaginais passeando com eles na ponta do membro ficando endurecido, e o encharcando no mel que escorria gradualmente pela cabeça, lambuzando toda a extensão nervurada, até se acumular viscoso no limite das bolas massageadas pela delicadeza da sua dedicada mão. 

    Encarando-o no fundo dos seus olhos, carinhosamente Linda sorriu o provocando: “  Você vai ver o que é bom para tosse! Ontem a noite me torturou, agora sou eu que vou te pagar na mesma moeda! ”  Degustando um duplo prazer; tanto no proferir dessa covarde promessa quanto no vislumbre da “ dureza “ posicionada a poucos centímetros do corar do seu rosto, com o serpentear da pontinha da língua, ela umedecia os lábios em provocações contínuas e não amenizadas no olhar devorador estampado na sua bela face. " Vai me fazer gozar com essa boquinha? ” Ele deitado de costas, mantinha contínuos emborques de coluna para vê-la trabalhando lá embaixo, antecipando na mente e na carne, a colheita do prazer sexual proveniente da noite anterior que, após ter semeado exaustivamente em frenéticas labutas de língua e lábios, chegava carregado de promessas de devaneios deliciosamente ainda indefinidos.  Mas com intuito de torturá-lo, ela ficou inerte por alguns instantes, apenas encarando-o e se deliciando no desespero expressado em seu semblante: “ Hum… Esse pau vai ficar mais gostoso na minha boca!” Com o corpo tremulando da ansiedade que o revolvia em remexidas ensandecidas pelo logo aquecer de seus doces lábios, e apesar dos seus desesperados atos; ora segurando um chumaço do seu cabelo e direcionando o orifício da boca para perto do palpitar do seu sexo, outrora implorando o logo realizar daqueles prazeres já efervescendo em gemidos silenciosos e desesperados, Linda não cedeu. Desejou excitá-lo além. E assim, consequentemente o resistia realçando cada vez mais o verbalizar das suas promessas. 

    Com uma das mãos soldada sobre o sexo, com a outra ela se esquivava do desespero de Marcos Hayashi, agarrando-o pelo punho da sua mão direita, para em seguida devorar gradualmente toda a sensibilidade contida em cada um dos seus dedos. Com um biquinho beijava as unhas e dali com um sensual afastar de lábios, sua boca úmida o sorvia como se fosse uma luva em idas e vindas, incendiando cada vez mais a sensibilidade já refletida em tremulações nervosas que vagarosamente subia pela espinha dorsal dele e explodia deformando o seu rosto. Sussurrando repetidamente: “ Tá gostoso bebê? ” Ela proferia palavras aveludadas, os olhos amendoados, naufragando o silêncio ensurdecedor da manhã nos gemidos que naturalmente se misturavam com o início de uma melodia de pássaros que se iniciava no beiral da janela. “É assim que vou fazer com você!” E tornava a engolir os dedos e gemer, aumentando o ritmo ou diminuindo, alternando entre os dedos frios e secos e os deixando novamente quentes e umedecidos. “ Que sede da sua boca bebê…”  Se lançando rapidamente sobre ele, novamente ela se afogou em sua boca, beijando-o sofregamente, mordiscando seus lábios ainda anestesiados dos prazeres outroras, e de lá, escorregando de línguas entrelaçadas, ia se aventurar entremeio a roxeões esculpidos e decorados sob a pele do seu pescoço exposto.

    Mas de forma alguma ela se distraia do membro ainda tremulando abaixo, e paralelamente enquanto se deliciava descendo os lábios na caixa toráxica, nos bicos do peito e os mordiscando de leve, passeava sobre o umbigo e o provocava com a " quentura " da língua massageando o fundo do orifício. Em baixo, sob o massagear delicado de uma das mãos, ora Linda arregaçava a cabeça até esgoelá-lo, outrora encapuzava-o por completo também, persistindo nesses calorosos sequenciais movimentos até gerar um calor sexual intempestivo que só era amenizado no estimular mais intenso e mais frenético do arregaça e encapuza que paulatinamente ia emergindo a libido sexual do amado no anseio louco de logo ter o seu pênis exaurido no desforrar de lábios acelerados. " Garota, você é do mal mesmo!" Repetia sem se conter, os olhos docemente acovardados, os braços soltos e desenergizados, naufragando seu corpo carnal na imensidão dos estímulos estuprando seu ser, e o arrebatando ferozmente por dentro. Nos segundos que se seguiram, com a respiração atropelada na sensação chamuscante percorrendo em fagulhas de molestamentos no peito, desejou que seus desesperados anseios de devaneios se tornassem muito mais que eternos quando por fim a quentura abarcando aqueles doces acelerados lábios, cumpria a prazerosa promessa de o engolir. "Puta que o pariu..." Gemia já estando no céu: o movimento da cabeça da amada indo e vindo ocultando parte do seu sexo agargantado, sons sonoros de êxtases de delícias eram pronunciadas em gemidos não contidos que ora e outra arfava descargas elétricas afrodisíacas no intervalo de ambas as respirações.

    " Chupa só a cabecinha..." Com a mão de Marcos segurando um chumaço dos seus cabelos alvoroçado, para lá ela subiu guiada deixando toda a extensão nervurada iluminada de saliva, e após segundos degustando em delícias a pontinha rachada, o encarava com gula cada vez mais expressa no olhar visceral abrilhantando seus olhos. Ali, diante dos desejos desesperados do amado, ela mergulhou mergulhos nunca imaginados com outros homens: com a libido desenfreada inundando o próprio sexo em gotejos de desejos sobre a perna e o cobertor, ora suas mãos calibraram o membro para que não ultrapassasse o limite do pedido, outrora desciam tremulando pelo corpo feminino até a vagina, degustando com os dedos eretos e cerrados, toda a extensão do pêlos pubianos, lábios e a entrada molhada. "Agora engole até o talo e acaba com o papai...!" Ao ouvir as orientações finais de Marcos, Linda Harumi se aprumou em desejos de obedecer para se lançar com muito mais prazer: retirou fios de cabelos que incomodavam a face e foi descendo e subindo, subindo e descendo, vagarosamente articulando movimentos com o cilindro de carne sufocando o aperto dos próprios lábios. " Hum… parece que ficou mais grosso hein?" Agora mais excitada e após cerrar a mão na base encharcada de saliva, laborou movimentos com o corpo nu, ajustando a posição corporal que mais cooperasse com a mecanicidade da sua língua e lábios, principalmente da garganta já desfrutando de gotículas precoces e salgadas, resultado dos estímulos cada vez mais enérgicos no passear descontrolado da outra mão sobre o próprio sexo, pois os dedos operando ritmados com o sugar da voracidade da sua boca, estimulavam brutos prazeres sob a sensibilidade de um clitóris se avolumando de gula carnal, afogado em ânsias, desejoso até os céus dos céus por aqueles breves segundos de gozos que quando alcançaram, a fez desfalecer e tornar uma só entranha com ele.

     “ Que tal um banho juntinhos ? Podemos? ” Sorriam desorientados pelas energias raleadas de minutos outroras, e o piso gelando a sola do pé, agredia chacoalhões matinais conforme eles iam trotando até o registro da ducha. Mas nem tudo se trata só de sexo, carnes esfoladas e suores respingando de corpos eletrizados até a alma. Há um sentimento sim, ou melhor, uma “verdade ainda oculta em sentimentos”  e que é um tanto quanto essencial dentro de um relacionamento que vai se desenvolvendo aos poucos, entremeando as experiências das trocas recíprocas, fortalecendo a conta-gotas todas as bases subjetivas do que no íntimo já deseja ser puro e incondicional. E quando esse processo é genuinamente forjado no espelho da verdade tateando as verdades que mais despontam de dentro do coração, esse jeito de se encarar para se enxergar, vai tecendo  caminhos decididamente compartilhados, enredos mais solidificados, carregados de mais significados se aflorando em cuidados, proteções, carinho curador de feridas, um conjunto de anestésicos psicoemocionais para a epiderme do ser frente ao que, na vida comum de um casal, ainda vai se desenrolar em muitos sequenciais amadurecimentos, até se metamorfosear por completo do rio vertendo o inundar de experientes lágrimas, no que seja o desabrochar do verdadeiro amor. 

    Do nada, “ flagelos do passado ” tornaram a reviver, avultar corpo e carne, sequestrando Linda em uma “ insegurança repentina ” que já deixava seus olhos verdes marejados de lágrimas. “ Dessa vez vai ser diferente! ” Insistia silenciosamente para si em meio aos conflitos; os ossos titubeando o peso do corpo no bambear dos músculos das pernas, as tremuras crescentes fibrilando na boca do estômago, e o peito suado, sufocado na ausência do ar que grotescamente minguava na mente. Tudo junto e eclodindo, elevou a ansiedade de Linda Harumi ao seu estado máximo. Ela buscou alento entre os movimentos, mas não encontrou. 

    “ Está tudo bem? ” Assim, deitada sobre o piso, o antebraço direito sobre o rosto como venda sobre os olhos, ela sofreu acovardada o peso de cada pancada existencial refletida nos pavores angustiosos, nas sequenciais lembranças ruins que cansaram de lhe roubar o sono da noite, nos traumas, nas frustrações, nas desilusões, nos abusos, e no sentimento de abandono que insistia a todo custo acompanhar seus antigos relacionamentos. 
    “Eu sinto que eu sinto excessivamente…” Ela recordou dos diagnósticos da terapeuta, os braços circundando o corpo nu coberto pelo cabelo molhado, enquanto expressava um choro sendo reprimido no intervalar de cada respiração. “ Pelo amor de Deus Linda, me diga o que está acontecendo com você? Foi algo que eu fiz? ” Ali, já sentada no chão, ela encontrou auxílio apenas nos ensinamentos fraternos ouvidos desde a infância pelos pais e tios, nas lembranças das falas solidárias que adentrando madrugada a fora pareciam nunca esgotar os diálogos entre os amigos, nas orações que ouviu na igreja, na Palavra que proferiu na solidão do quarto, nas recordações da paz desfrutada entre as meditações diárias.
    “Eu não fui totalmente sincera com você Marcos…”  Aconchegada sobre a cama, com os braços firmes em abraços dando voltas nos joelhos, Linda Harumi voltava a derramar pequenas lágrimas alinhadas com um sentimento palmilhando cuidadosamente as escolhas das suas palavras, ladeando os suspiros irreprimíveis, margeando as confissões que sofregamente ela revelaria a seguir: “ Me perdoe a maldade que fiz a você Marcos … Eu não deveria ter te envolvido nisso... ” . Confuso e ficando angustiado, Marcos se manifestou: “ Que maldade você fez para mim Linda? Por acaso isso é alguma brincadeira? Putz, realmente não estou entendendo nada…” 

    Limpando as lágrimas com as bordas do roupão, e lutando inutilmente consigo para empoderar o próprio semblante, Linda não pode sintonizar-se com o brilho confuso emitido pelos olhos dele, e aos soluços, confessou aos prantos: “ Sou uma mulher casada Marcos… Sou uma mulher casada…! Me perdoe esta grande maldade! ” Portanto, como ele nunca imaginou vivenciar uma situação como aquela que ela também demonstrou ao longo da noite, ter na alma e no corpo a âncora ancorada nos refrigérios das paixões reavivadas, Marcos Hayashi sem saída, e não tendo outra alternativa, passou a cultivar um silêncio de início ensurdecedor.

    Ainda aos prantos, ela insistia: “ Me perdoe Marcos! Te encontrar foi um tipo de presságio, milagre, sei lá, mas que está sendo um refrigério indescritível pra mim. Meu mundo está desmoronando e não sei o que fazer…” Ela suspirou e prosseguiu: “Ontem a noite brigamos feio, saí sem rumo, perdida, só queria tomar um ar, daí eu te vi e…” Com o rosto cabisbaixo, escolhendo cuidadosamente as frases e picotando palavras julgadas desnecessárias, Linda Harumi demonstrou, apesar do corpo ainda envergado, vestígios de uma coragem crescente que de fato a ajudou a voltar-se para ele e encará-lo nos olhos “ Marcos, por favor, fala alguma coisa…” 

    Após liberar uma golfada de ar, Marcos mantinha seu silêncio enclausurado no corpo nu debruçado sobre as bordas da janela. O rosto se aquecendo rebelde ao sol, a íris se acostumando a luminosidade adentrando o ambiente, e a cabeça sendo sustentada pelo apoio de uma das mãos vacilando o peso da mesma para ambos os lados. Vagarosamente, ele inspirou e respirou sequencialmente respeitando as pausas profundas, profundas pausas ante o absorver do ar denso e gelado parido no encontro dos vendavais noturnos da noite de outrora, com as névoas advindas das montanhas distantes. Acendeu um cigarro e abraçou-se. Na verdade, abraçou-se como nunca antes tinha-se abraçado, e chorou. Conseguinte ao enxugar das lágrimas, mergulhou mergulhos em seus pensamentos mais confusos e, após longos minutos inerte com o olhar mirando o nada diante de si, submergiu do seu mundo interior transbordando de lá, o alívio alentador das inocências que inocentaram a aura já se sentindo generosamente liberta do inundar intrépido de sentimentos esvoaçados. 

    Serenando o semblante agora esvaziado das angústias que o cerraram a face, ele expurgou-se de todas as culpas e, voltando-se a se alimentar de pensamentos carregados de amor, encapsulou-se por completo em auto perdões contínuos que, abrilhantando seu olhar, resguardou a psique que lutara ferozmente para voltar a se equilibrar. Interiormente, Marcos Hayashi, já naquele início de manhã avançada, se anestesiava no horizonte das primeiras movimentações iminentes vindas do comércio iniciando suas atividades, dos passos descompassados dos transeuntes cruzando ruas e calçadas, e enquanto uma brisa suave passeava reconfortos em seu rosto, seus ouvidos antes consumidos naquela rotina vibrando desgastes, adorou todos os sons sobrevindos até a janela, principalmente dos automóveis a transitar velozmente, segundos seguintes a semáforos totalmente esverdeados.
  • A Balada

    Yoko não estava tão acostumada a esse tipo de badalação. Chegou em casa tonta, nauseada e muitos passos além daquela linha que separa a felicidade da ressaca. Suas amigas a deixaram na porta e partiram rindo com o taxista que se divertia com as bobagens ditas no banco traseiro.

    Em casa, Yoko se esforçou para manter o silêncio. Não queria acordar ninguém. Mesmo sendo maior de idade, achava que pegava muito mal ser flagrada nessa condição pelos próprios pais. Devagar ela tirou a roupa com cheiro de festa e deitou em sua cama. Parecia que estava em uma jangada sobre o mar revolto. Tudo girava, subia e descia.

    Embalada pelo movimento começou a lembrar da noite. Nada tinha dado certo para ela. Mas o que tinha dado errado mesmo? Luzes piscantes, música alta e um daqueles drinks coloridos na mão, não tinha como ser diferente. Em pouco tempo um rapaz se aproximou e sorriu. Mesmo não tendo ouvido o que ele disse foi possível entendê-lo perfeitamente. Yoko simplesmente virou as costas e continuou a balançar.

    Era um rapaz interessante. Bonito com certeza. Foi com prazer que ela percebeu que ele ainda rondava. Mas ela tinha lido numa dessas revistas que o certo era nunca ceder antes da quarta investida e nunca deixar passar da sexta. Era uma janela estreita, mas ela era esperta.

    Com um copo cheio enfeitando cada mão o garoto tentou outra vez. Muito cedo. Yoko aceitou a bebida, mas só ofereceu um olhar lânguido e um sorriso reticente. Com movimentos tímidos e até fora de ritmo ele tentou se encaixar na dança. Mas ela estava elétrica, seria impossível acompanhá-la.

    Ao sair do banheiro, Yoko foi surpreendida. O rapaz estava à sua espera. Como era um canto mais calmo, ali ela poderia ouvi-lo. Em poucas palavras ele conseguiu proferir um elogio, manifestar suas intenções e derreter o coração da menina. Mas ainda era cedo. "Nunca antes da quarta investida", era o que passava em sua cabeça. A razão dava todos os motivos: Valorize-se. Instigue-o. Domine a situação. A situação… E logo ela se desvencilhou com certa empáfia. Sabia que estava no "papo" e que era uma questão de mais alguns minutos.

    Yoko sentou-se em uma mesa afastada da pista. Sozinha. Pediu mais um drink e esperou o próximo ato. Esperou a quarta investida. Esperou o momento que esperava desde início da noite. E só esperou. Cansou de esperar e voltou à pista, só para perceber que tinha esperado demais. Viu, com o coração batendo fora de ritmo, que o rapaz se atracava com outra garota em uma dança sensual. Viu, finalmente, um beijo. Viu que não era ela quem beijava e nem dançava e percebeu o quão estúpido era o garoto. O garoto?

    Não era feita para baladas. A fórmula parecia não dar certo naquele ambiente. O garoto devia ser muito inexperiente, pois faltou muito pouco. Bastava chegar mais uma vez. Só mais uma vezinha. 

    Yoko queria ir embora. Mas esperou suas amigas. Não dançou mais. Nunca mais.
  • A escuridão e a Luz

    Cada canto do meu chalé era uma alma perdida, Uma alma de quem quer nada com a vida ! Mas quem sou eu para dizer umas coisas dessas ! Alias oi ! Eu me chamo Grabriel Di angelo filho do semideus Nico Di angelo que é filho de hades..ou seja hades é o meu vó ! Puff da na mesma ! 

    Sempre fui apaixonado por um filho de Apolo chamado Felipe ! Felipe averls ! Mas ele tem namorada e nunca me repara ! Alias quem repara no neto de Hades ? Ninguem. 

    .......

    Finalmente o toque do recoler...Uma tronbeta que Quiron feiz para Mandar o povo pros seus chalés ! Diz ele que é melhor do que ficar grirando que nem louco mandando o povo ir dormir ! Me lembro desses dias, Confeço que até que me dovertia vendo aquilo ! Mas em fim...vou pro meu chalé quando entro percebo que algo está estranho...A porta do banheiro estava aberta..pingos de aqua podiam ser ouvidos...uma estranha gosma vermelha aparecia nas paredes ! Escuto a porta atrás de mim ser fechada muito forte..as luzes do local de dentro do meu chalé estavam apagando ! Isso deveria ser normal pro chalé de Hades ! Mas...isso nunca aconteceu ! 

    - Quem é está ai ? - digo 

    Do nada escuto uma risada ! 

    Kkkkkkkk - risada de garota 

    - Ta bom ! Clarity pare com essa brincadeira sem graça ! - digo

    Clarity é uma meia-erma minha ela ama me zuar ! Mas depois que falei aquilo ficou um total cilencio..e me senti como se estivesse sendo observado...do nada do lado de fora escuto alguem bater desesperado na porta

    - Grabriel saia da i ! O mais rapido o possivel ! O chalé está amaldiçõado ! - diz a garota do outri lado da porta

    - Clarity ! Dessa veiz eu não caio ! Alias aqui é o chalé de Hades! Oque de mais pode acontecer ! - digo

    Clarity - Não estou a brincar ! Tem mesmo um monstro ae ! Escontre uma saia imediatamente

    E do nada vejo uma sombra muito enorme da minha frente ! A unica coisa que consigui fazer foi gritar

    - AHHHHHHHHH 

    Apago ! 

    Clarity on

    - Gabriel ! Gabriel ? - digo

    Droga ! A porcaria do centauro modificado deve ter o pegado ! E pior ninguem conhese os poderes da quele centauro ! Droga ! Preciso imediatamente avisar Quiron ! 

    .......

    Quiron - Mas como você soube daquilo ? 

    Clarity - Eu estava vindo da lanchonete quando vi um centauro meio humano e meio serpente com chifres indo em direção ao meu chalé ! Nico estava lá ! Infelizmente antes deu chegar a tenpo o maldito centauro ja tinha chegado antes de mim ! E dai tudo que eu podi ouvir foi um grito do Di Angelo ! 

    Quiron - Droga ! Avise ao felipe quem sabe ele pode ajudar ! Clarity farei o meu possivel ok ?

    Clarity - Ok 

    ......

    Agora aqui estou eu, na frente do chalé 7 ! Preste a chamar o felipe o garoto no qual gabriel gosta ! Sim ele me disse isso....safadenho aquele garoto kkkk
    Em fim, Bato na porta e logo em sequida vejo " Anna" a namorada dele (Autora - Anna é filha de afrodite) me olhar com uma cara de que - Oque uma Francis está fazendo aqui- tenho certeza que esse era o pensamento da patricinha

    - Clarity Francis ! Oque faiz aqui ? 

    Clarity - eu que te pergunto ! Mas em fim ! Preciso falar com o teu "Namorado" de quinta ! 

    - ele está dormindo

    Clarity - o acorde ! É importante ! 

    - Nem se os deuses quiserem ! 

    Clarity - o sua puta ! Se você não acordar aquele desgraçado eu vou te meter um soco nessa sua cara de santa que vai fixar até roxo !

    - hm...está bem 

    Era bom saber..que eu botava medo nas pessoas...

    ......

    Felipe - ELE OQUE ? 

    Clarity - Que saco Alvez Jackson ! Ja disse o meu irmão quer dizer meio irmão Sumiu ou não por um sentauro modificado 

    Felipe - Aonde ele está ? 

    Clarity - Parece preucupado ! - digo dando um sorriso, quem sabe Gabriel x felipe existe ! (A/n - eventem um nome pro shipp) 

    Felipe - Esqueça ! Só me fale aonde ele está

    Clarity - a ultima vez foi no nosso chelé de Hades 

    ....
    ..
    Gabriel on

    Ae minha cabeça...sinto como se tivesse levado uma batecada de panquecas na minha cabeça...se bem que panqueca é bom...ok to esquezito...hm..espera esse não é o meu chalé...olho em volta e percebo que estou numa enfermaria ! Mas oque aconteceu ? Eu não me lembro de nada ! É como se eu tivesse esquecido de tudo ! 

    Clarity - Finalmente ! 

    Mas me lembro dela !

    - Cla...oque aconteceu ?

    Clarity - um centauro te atacou e dai o felipe foi lá e te ajudou

    - F-felipe..Quem é esse tal de felipe ? - digo confuso

    Clarity - Gabriel não brinque com isso !

    - Brincar com oque ! - digo

    Clarity - Não pode ! Você está com amnesia ! 

    Fim do cap 1
  • Ah como descreve você não sei por onde começar

    Ah como descreve você não sei por onde começar
    só de pensar em você meu coração começa a acelerar
    ah seu olhar forte que me hipnotiza
    seu jeito angelical que me cativa

    seu jeito de princesa
    vi em você
    oque faltava em min
    nosso beijo foi uma sensação maravilhosa

    tentei olhar no dicionario mais não tem palavras
    para te descrever como você merece
    seu jeito carinhoso tímido
    sem demonstrar tanto carinho

    com medo da decepção
    mais prometo que a missão de te fazer feliz e minha
    prometo que amor e carinho nunca vai faltar
    talvez um dia venhamos a nos casar
  • Amantes do Caos

    Seu sorriso era encantador: roxo.
    Sua beleza fantasmagórica: maltrapilha os cabelos negros presos por um coque.
    Eu me encantei e confesso, foi amor à primeira vista. E ainda confesso, eu a beijei com meus lábios de sangue.
    Imediatamente eu a cativei pra mim e, numa tarde de tempestade, o céu negro cheio de relâmpagos e trovões, nós dançamos.
    A cama era uma elegância no meu mausoléu digno dela. E fomos então no meio de velas e assombrações.
    Nós amamos e nos confundimos com fogo e frio; com reclusão e dinastia; com amor e ratos. Mas... Silêncio.
    A lua branca chegou e murmurou: "bem vindos a minha loucura e o meu inferno".
    E voamos para encontrarmos os anjos de Apocalipse.
  • AS CORES DE UMA VIDA A PRETO E BRANCO

    CAPITULO I
    Naquela manhã de segunda repetia-se o ritual. Era necessário acordar os gémeos, dar-lhes o pequeno-almoço, vesti-los e leva-los à creche. Um casalinho de 4 anos dá imenso trabalho. O Lucas e a Constança eram a alegria da casa e ao mesmo tempo uma esponja de absorção do tempo. As 24 horas do dia eram mais que poucas para dar vazão a todas as solicitações dos pequenos. A creche era uma forma de ter tréguas, a pretexto da vida profissional, para ter tempo só para si, que também não o era bem, dada a agitação vivida de segunda a sexta. Segunda-feira era por isso um dia de sentimentos mistos para Carlota. Se por um lado era fazer replay de todas as segundas-feiras das semanas anteriores, era também o momento em que podia ser eu outra vez, e não o nós e o eles de todo um fim de semana.
    “Bichinha, visto-lhes manga curta ou comprida?” Pergunta-lhe o marido. Acabada de sair do banho, Carlota respira fundo, responde de voz seca e curta “comprida”. Era verão mas chovia, e há perguntas que soam a patetice àquela hora. Era óbvio que era comprida. Era bom ter aquela dedicação do marido logo pela manhã, uma ajuda valiosa, mas cocha do bom senso que apenas uma mãe pode ter. Por repetição de factos, Carlota sabia que ainda ia ser indagada sobre o tempo no micro-ondas para aquecer o leite e sobre o lanche dos miúdos.
    Depois de um fim de semana de trajes confortáveis, segunda exigia outra indumentária. Clássica, formal, feminina q.b., não mais que a conta. Trabalhar numa sociedade de advogados não era tarefa fácil. Meio predominantemente masculino, um tom demasiado feminino poderia ser o suficiente para uma conversa profissional entornar rapidamente para uma tentativa de engate barato. Fato beije de calça, camisa preta sem colarinho só com o primeiro botão aberto, não mais. O salto alto era obrigatório. Dava-lhe não só uma silhueta mais pronunciada como um pouco mais de altura para enfrentar os seus colegas à linha do olhar. Sapato preto, clássico, salto médio. Tinha uns seis pares destes. Eram os sapatos do trabalho, combinavam bem elegância e conforto, adequados para dias intensos e carregados de stress.
    Carlota aproximava-se dos 40 mas mantinha uma elegância ímpar. Tinha imenso cuidado com a alimentação, sem ser uma veggie apoderada pelo fanatismo, e quando podia, além de joggings vespertinos, ainda passava pelo cube de boxe para descarregar a neura causada por tudo e todos á sua volta. Os traços doces do seu rosto e um sorriso quase sempre aberto enganavam bem sobre a frieza com que lidava com o seu dia-a-dia, fosse profissional, fosse pessoal. Cabelo preto pelo ombro e risco ao lado com franja a cair-lhe sobre os seus olhos noisette permitiam-lhe oscilar entre um olhar escondido ou fulminante consoante o momento. No trabalho, por regra, optava pelo rabo-de-cavalo, o olhar era uma arma para ela, servia para marcar posição, demonstrar confiança e também para intimidar os seus interlocutores. Ser advogada todos os dias é como ser gladiador numa arena. Ao mínimo deslize, fraqueza ou receio, perde-se…. Para sempre. O segredo da profissão está muitas vezes, mais do que no conhecimento do código e das leis, na convicção com que se fala, trate-se de uma verdade absoluta, de uma opinião, ou de uma mentira descarada.
    Estava pronta. O Lucas e a Constança também. Obrigado marido, pensou ela. O jeito que dá ter um fotógrafo freelancer em casa. A parte free da palavra era de uma ajuda preciosa. Carlota reconhecia-lhe talento, o mundo da fotografia, apenas a espaços. Para juntar algum à conta bancária ao fim do mês, o Júlio tinha muitas vezes de fazer casamentos e batizados. Para ele era como ser Chef e ter um part-time no McDonald’s. Mas tinha de ser. O salário de Carlota era suficiente para o nós, mas ele insistia em garantir o seu contributo. Não era de todo machismo, aceitava com naturalidade essa realidade, o século XXI ensinara-lhe a conviver bem em Portugal com a disparidade de rendimentos para a sua mulher, era mais uma questão de honra para não se sentir um fardo a somar aos gémeos. Dois para dois era mais justo do que um para três. Júlio era 4 anos mais novo que Carlota, tinha 34. Ser pai aos 30 fora uma enorme alegria, no caso, a dobrar. Ser pai e marido realizava-o pessoalmente, a liberdade de poder fazer da sua profissão a sua paixão, também. Estava de bem com a vida. A fotografia é uma arte, a sua arte e vocação. Ter tempo livre era também uma necessidade, não se revia no formato profissional clássico das 9 Às 17, de segunda à sexta. Trabalhar era quando estava inspirado, ou então, quando as cerimónias religiosas lhe batiam à porta.
    Júlio ainda ficou de pijama em casa enquanto Carlota e os gémeos saiam porta fora. Dança de beijos de despedida, um mimo de casal que combinava o toque de narizes e um beijo nos lábios, até já, até logo, a porta de casa fecha-se, a do elevador também.
    Cadeirinhas rosa e vermelha no banco detrás do Mercedes Classe A comprado há menos de 1 ano. Constança na rosa, Lucas na vermelha. Ainda não sabia apertar os cintos sozinhos e por isso arrumar os petizes no carro ainda dava trabalho! Feito. Dava-lhe prazer conduzir aquele carro. Não era de família, não era urbano, o carro encontrava o justo equilíbrio entre a sua personalidade e forma de estar na vida. Apreciava conduzir, e este, dava-lhe prazer guiar, fosse a levar os miúdos à creche, a conduzir no meio do trânsito ou de prego a fundo na autoestrada. Sossegados e ensonados, a cabeça de ambos pendia para a direita em perfeita harmonia. Ver este cenário pelo retrovisor chegava a ser ternurento. Não mais de 10 minutos separavam o ninho, nome querido dado ao apartamento no campo, e a creche, também campestre, de nome “A Quinta”.
    Mesmo com 4 aninhos somados ainda era difícil para Carlota larga-los na creche. Vinha-lhe aquela sensação de abandono por breves instantes, remediados por dois beijos bem colados nas bochechas dos gémeos. Ficam agora a cargo da educadora, é hora de rumar a Lisboa, à selva que é o mundo da advocacia. Com o pensamento embrenhado na defesa do dono da empresa Alves & Ribeiro Lda, acusado de desviar fundos da empresa e não fazer os descontos dos trabalhadores à segurança social, o para arranca até Lisboa era mais fácil de suportar. Ao todo, Afonso Alves era acusado de ter desviado perto de 5 milhões de euros e estar em dívida com mais de 700 mil euros à segurança social. “Como é que eu vou safar este patife”, desabafou em voz alta Carlota. Nesta profissão muitas vezes não se trata de provar a inocência do réu, mas sim evitar a sua condenação. São coisas diferentes. Todos sabemos da culpa do réu, mas se as provas não forem suficientes, pois, antes um culpado livre do que um inocente na prisão. Reconfortada por este pensamento, ciente da sua missão, projeta a defesa em tribunal, calendarizada para daqui a pouco mais de 15 dias.
    A descer o viaduto Duarte Pacheco rumo às Amoreiras. Ponto morto, pé no travão, larga, pisa, larga e pisa….. já tão mecânico. Há quase 10 anos a trabalhar na rua Castilho, o caminho para Lisboa era feito de olhos fechados.
    Ainda neste ritual, Carlota desce à terra com o toque de mensagem no telemóvel. Era o Pedro, um antigo cliente num caso de burla, absolvido com sucesso! “Temos de lanchar um destes dias, beijos”. O caso remonta há dois anos atrás, o Pedro era de facto um burlão, mas dos melhores, não deixava rasto. Todos conheciam a estirpe, até a juíza que em privado dissera a Carlota que por ela mandava o filho da mãe para os calabouços por muitos e bons anos, reconhecendo-lhe uma defesa astuta e segura. Entre dentes, dissera-lhe “um dia ainda se vai arrepender da profissão que tem”. “Esta semana não, na próxima? Bj”, respondeu Carlota. Ainda antes de chegar ao destino, lugar de garagem marcado no piso (-) 1 mesmo ao lado do elevador, o Pedro anuiu em resposta à mensagem, ficando de ligar para acertar agulhas. Carlota sorriu para o telemóvel, não respondeu.    
    Mercedes estacionado para lá das nove e meia da manhã. Era a sua hora habitual de chegada. Normalmente até às 10h estava a beber o café da manhã sentada no seu escritório a passar os olhos pelos temas que tinha em mãos para gerir durante o dia. Além de ter sempre um caso importante entre mãos, Carlota orientava uma equipa júnior na qual delegava os casos menores e mais recorrentes, fossem divórcios, partilhas litigiosas ou processos por difamação.
    Era segunda, e finalmente sentada na sua secretária, vê ao fundo do corredor, Joana, colega e amiga de longa data, com duas chávenas na mão caminhar em direção ao seu gabinete. Boa companhia para começar a semana.
    AS CORES DE UMA VIDA A PRETO E BRANCO
    CAPITULO II (final)
    Joana era muito diferente de Carlota. Divorciada, uma ano mais nova, abraçava a vida com o egoísmo de quem não quer dividir o seu eu com mais ninguém. 3 anos de casamento chegaram-lhe para perceber que filhos e marido não era vida para ela. Não se tratava dele, o ex, ser a pessoa certa ou não, ser casada mexia com a sua liberdade e por isso optou por se separar há pouco mais de um ano. Desde então que se deixa levar ao sabor do vento que a vida lhe vai soprando. É livre e isso é o mais importante para ela. Hoje escolhera um vestido azul-turquesa até ao joelho, fresco, com um padrão de rosas vermelhas e brancas estampado. Era fresco demais para o dia chuvoso, mas Joana não se vestia pelo tempo, vestia-se pelo que lhe dava vontade ao abrir o armário. Até as sandálias chocavam com a meteorologia, mas combinavam com o vestido, também elas em tons de azul.
    “Toma, fica com o cheio como gostas!”, Diz Joana antes mesmo do bom dia! Sentou-se à frente de Carlota e foi direta ao assunto. Passou o fim de semana com o Tomás, ex-colega da sociedade de advogados. Tinha saído há umas semanas para abraçar um período sabático dedicado ao surf e mudado de armas e bagagens para a Ericeira, onde as ondas fazem a delícia dos amantes da modalidade. Joana ficou por lá também de sábado para domingo. Praticamente não saíram da cama, relata Joana, com alguns detalhes tórridos sobre o que se passara por debaixo dos lençóis. Era pois a nova aventura de Joana, nada de sério, muito casual, orientada para os prazeres do leito que Joana muito apreciava, especialmente por trintões apetitosos. Ambas concordaram na apetitosidade do Tomás, que em tempos também chegou a fazer a corte a Carlota, sem sucesso. Ao que parece, o recém surfista a tempo inteiro era capaz de encaixar três seguidas sem perder o fôlego. Uma marca digna de registo que fez ambas soltarem uma breve gargalhada sincronizada com mais um trago no café. A conversa não descambou mais do que isto, a palavra passou para o outro lado da secretária, Carlota também tinha vários episódios dos gémeos para relatar, não tão envolventes como o fim de semana com o Tomás, mas que também lhe preencheram os dois dias de descanso. Antes de iniciar o dia de trabalho um pouco mais a sério, Carlota rematou com graça “empresta-me o Tomás para 1 dessas 3 e para me dar um jeito na sala, pode ser?”. Joana atirou-lhe a língua para fora, saiu porta fora com as duas chávenas na mão vazias, num passo que reclamava a atenção dos colegas do sexo masculino. Ainda se ouviu um “Joaninha, hoje és o sol deste planeta!!!” Encaixava bem no azul do vestido e na chuva que insistia lá fora. Carlota também ouviu, abanou a cabeça ligeiramente, e pensou “Joaninha, há uma linha que separa o trabalho dos colegas”.
    Isto dito, o fim de semana de Carlota fora tudo menos de aventura. Sábado o Júlio tinha passado o dia a fazer um casamento, e ela ficara atracada aos gémeos, sozinha. Era bom tê-los por perto, era desgastante seguir-lhes o rasto a cada esquina, acompanhar um, dar atenção ao outro, tratar das refeições. Depois de uma semana de trabalho chegava a ser exasperante. Um dia vão crescer e dar menos trabalho, pensava. À noite, nesse dia, depois dos gémeos aterrarem no sono, embrulhara-se com o Júlio no sofá, em silêncio, pés entrelaçados. Era ternurento e aconchegante, mas aquela noite pedia mais. Há mais de dois meses que havia noites que pediam mais, mas que se ficavam por ali, naquele registo. Era bom mas insuficiente, Carlota queria mais chama em casa. Não era preciso arder, não era preciso ser o Tomás e fazer um triatlo na cama até de madrugada, mas sentia falta. O Júlio não ficava a dever nada aos outros homens, era como diz a Joana, um naquinho bem pesado, mas para haver desejo e vontade para Carlota era preciso bem mais do que um bom bife, fosse ele do lombo ou da alcatra. A culpa era da rotina que ambos não conseguiam contornar. Culpava em parte os gémeos que lhes virava a vida do avesso, mas sabia que ela própria tinha muita culpa por se deixar ir noutras correntes com as quais o Júlio, lá de casa, não podia competir.
    Regresso à terra! Reunião com a equipa dentro de 10 minutos para ponto de situação sobre os diferentes casos, e à tarde, ainda era preciso analisar melhor as provas do ministério público contra Afonso Alves. Era preciso também agendar uma reunião a meio da semana com ele para alinhar a estratégia. Este não ia ser fácil de livrar e às vezes na justiça também é preciso encontrar compromissos. De entre os casos menores que estava a cargo da equipa, destaque para um divórcio. Ele não queria dar o divórcio à cliente, alegava os valores de família e do filho para manter um casamento de fachada, ela, queria saltar fora por já ter sido violentada em casa. Era de Cascais, e assumir uma coisa destas em tribunal não era para todas. Mais um nojento à face da terra escudado nas 4 paredes do lar a vingar-se do que a vida lá fora o frustrava. O artista era para demolir e extorquir, e por isso, a este caso ela ia dar a maior atenção. A violência doméstica era um tema que tocava Carlota, um dos maiores atos de cobardia, e por isso, dava-lhe especial gozo ser justiceira nestes casos, para contrapor à defesa que era obrigada a fazer a outro tipo de escumalha, normalmente vestida de fato e gravata.
    Reunião feita, mais duas ou três coisitas menores durante a manhã, outro café para manter a atenção bem afinada e o relógio a marcar as duas da tarde. Carlota almoça tarde, depois dos outros, gosta de sossego à hora da refeição. Qualquer coisa de ligeiro, uma sopa, uma sandes e fruta. Não de muito substancial para não lhe apertar a moleza na longa tarde que ainda a espera. Ia quase sempre à Maison des Croissants, a menos de 2 minutos do escritório. O ambiente era moderno, tipicamente francês e confortável. Não que fosse nos croissants, especialidade da casa, mas era um sítio com o espírito de Carlota. Tascas de petiscos e derivados, não era para ela. Durante essa meia hora reservada para satisfazer o estômago, era também hora de saber o que andava o seu Júlio a fazer. Borboletas, diz ele. Era dia de fotografar borboletas. Mesmo com chuva. Diz ele que tinha conseguido duas ou três especialmente boas, e que logo, depois de polarizadas podiam ir a concurso. Bom saber. Concursos não dão dinheiro, mas dão reputação, o que ainda lhe falta ao marido. Falar com o Jú a meio do dia era um ritual, um hábito, mas também um conforto. Carlota gostava de saber o que andava ele a fazer, fosse andar à caça da borboleta perfeita, fosse um passeio no parque ou uma manhã de ronha na cama. Ele podia. Sopa de couve lombarda! Não era a preferida, mas ia-lhe cair bem. Pensou que uma Maison deveria ter umas sopas tipicamente francesas e não “caldo verde” todos os dias, mas por outro lado, há que encontrar a perfeita simbiose entre o estilo estrangeiro e os hábitos portugueses, até porque o negócio fala sempre mais alto. Além da sopa, uma empada de galinha afrancesada pela companhia dos croissants na vitrina e um Compal de laranja, do Algarve, especifica a Mónica, colaboradora da Maison. Bom saber, mais uma vez, se fosse uma laranja de Marselha, talvez fosse mais coerente.
    Entre colheres de sopa e dentadinhas na empada, o pensamento foge-lhe para o Pedro. Ficou um pouco surpresa com o SMS da manhã. Há mais de dois meses que não lanchavam lá no sítio. Verdade que ela sentia falta daquilo, embora aquando do último lanche ela lhe tenha dito para fazerem um time-out. Ele achou que dois meses eram suficientes, e ainda bem. Alegrou-lhe a segunda. Como bom burlão que é, o Pedro tinha sempre conversa para dar e vender. Era fácil deixar-se ir, era toda uma dimensão imaginária que agradava a Carlota. Não era para todos tocarem-na na alma, mas ele, Pedro, conseguia. Tinha as palavras certas nos momentos certos. Coisa rara num homem, pensou. O caso de burla de que fora acusado e que os uniu fora das relações mais intensas que tivera com clientes. Primeiro porque o Pedro lhe dissera tudo, mas tudo. A verdade toda, como tinha planeado e executado e como, em parte, também tinha coração. Era a lei da sobrevivência dizia ele. Se não fosse ele era outro qualquer, pior, sim, porque Pedro, embora burlão, tinha uma costela de Robim dos Bosques, o outro, lado, o que o ilibava do mal que fazia. Dizia não raras vezes que, ladrão que rouba ladrão tem cem anos de perdão. Tinha graça! E de facto teve o perdão em tribunal.
    De regresso à sociedade. Tarde longa pela frente. O Afonso Alves era o típico empresário trafulha. A lógica empresarial de vender muito, gerar margem e ganhar dinheiro para ele não fazia sentido. O que fazia sentido era sacar dinheiro da empresa em proveito próprio. Faturava vendas por baixo e recebia por fora, comprava a fornecedores por cima e ficava com a diferença. Os livros da empresa estavam bem montados, e o contabilista era artista. Estava bem feito. Os registos financeiros de Afonso menos, mas lá se havia de dar a volta. O não pagar à Segurança Social, esse, era fora um erro que chamara a atenção. Não há muita volta a dar, está em atraso, é culpado, vai ter que pagar e com juros. Nem os prejuízos da firma lhe valem, embora possam atenuar a culpa. É com este pragmatismo que Carlota avalia os seus casos. Se há provas inequívocas, é inevitável a condenação e vamos tentar conseguir que a pena seja branda, se há dúvida, é lutar com unhas e dentes até à absolvição. Ligou a Afonso e pediu-lhe reunião para quarta à tarde. Era hora de ultimar detalhes para a audiência em tribunal.
    O fim do dia a aproximar-se e Carlota a baixar a guarda finalmente. Sentada no seu cadeirão, olha à volta, o escritório estava em modo debandada. Hora de espreguiçar um pouco, soltar os pé direito do sapato, amparado apenas com a ponta do pé, a baloiçar um pouco, de perna cruzada. Não lhe apetecia ir já para casa. Ainda só era segunda e as saudades dos gémeos ainda não tinha batido, depois de um fim-de-semana de omnipresença na sua vida. Ligou ao seu Jú para dizer que chegava um pouco mais tarde, relembrando que hoje era dia de brócolos na ementa dos pequenos para acompanhar o resto do frango de ontem. Era necessário cozer, juntar uma pitada de sal e não deixar passar os 5 minutos de fervura. Carlota não dava muitas justificações ao marido e ele também não perguntava. Era assim a relação. Ele sabia que ela voltava sempre a casa, e isso para o Júlio, era o mais importante. Para ela, uma bênção. Dar justificações de tudo o que fazia só podia levar a um lado, à mentira. Por vezes na omissão encontra-se um justo equilíbrio entre um casal, pensa ela. Provavelmente no dia do Jú nem tudo fora andar atrás de borboletas coloridas para fotografar, por isso, quid pro quo.
    Depois de quase todos abandonarem o escritório, passava um pouco das sete da tarde, ainda era de dia, embora as nuvens que ainda permaneciam no céu acinzentassem o fim de tarde. Finalmente saiu, não sem antes trocar o seu fato beije por leggins e um top, ambos pretos. Os saltos altos pretos deram lugar aos Nike de estimação que lhe aconchegavam os pés, e por cima, um hoodie cinza com uma risca rosa. Era um dos trajes alternativos que Carlota mantinha no armário do seu gabinete. O fato fora para o cabide, pendurado na porta detrás do seu Mercedes. Carlota ia dormir a casa, mas a segunda-feira, para ela, ainda não tinha acabado.
    AS CORES DE UMA VIDA A PRETO E BRANCO
    CAPITULO III
    Carlota ruma pela A5 em direção a Cascais, para depois, no Estádio Nacional, apanhar a marginal. Fazer a marginal, a qualquer hora do dia ou da noite, de janela aberta, era garante de um novo folego. O ar com sabor a maresia esbate-lhe no rosto com alguma intensidade, era um fim de tarde ventoso. Mais vento houvesse. O bem que lhe fazia ver e sentir o mar. Passada a praia de Santo Amaro, Carlota sai no Inatel para estacionar. Ao final do dia e com céu nublado, o seu Mercedes ficou mesmo à bica da praia. De frente para o mar, em silêncio, ficou alguns minutos dentro do carro. Estava à espera das 8 da noite. Não estava a pensar em nada, simplesmente deixou-se ir no pela vista que tinha à sua frente. No vazio total, serena, nuca ligeiramente inclinada para trás encostada à cabeceira do assento do pendura, para onde se tinha mudado só para não ter o volante à frente. Tempo ainda para 1 cigarro, daqueles que fumava ocasionalmente quando estava apenas com ela própria. Não era fumadora viciada, nem social, fumava quase sempre sozinha quando estava apenas com os seus botões, como hoje. Tinha em miúda aprendido a fazer círculos de fumo que lhe saiam bem formatados pela boca. 3 seguidos. Tinha graça, eram de tamanhos diferentes, o primeiro maior, o terceiro, e último, pequenito. Era à cowboy. Demorou uns bons cinco minutos a fumar, mais do que o habitual para um fumador. Mais do que inalar o fumo, ver o cigarro acesso só por si já a satisfazia. A beata, atirou-a pela janela, prensada entre o polegar e o dedo do meio, num gesto masculino, que contrastava com a sua aparência feminina e doce.
    Saiu do carro e encetou a sua caminhada pelo paredão. Tapou a cabeça com o capucho do seu hoodie cinza, enfiou as mãos nos bolsos, inclinou o olhar para o chão e a passo, seguiu na direção de Cascais. Ela sabia que se ia cruzar com ele. O paredão estava praticamente vazio, dado o tempo e a hora, de jantar, mas Carlota conhecia-lhe os hábitos. Nunca faltaria ao jogging de final de dia antes de jantar. Se eventualmente já tivesse passado na direção a Lisboa, de certeza que agora o apanharia no regresso, se é que não o ia apanhar mesmo de frente. Só a ideia de o cruzar arrepiava-a. Só ela podia compreender o que sentia. Joana, a quem Carlota já falara dele, não percebia a fixação. Estar aos 38 anos de idade agarrada a um romance de adolescência era para Joana inimaginável dado o seu pragmatismo nas relações amorosas, mas para Carlota, ele, Ricardo, Ricky para ela, fora o seu primeiro grande amor, único, irrepetível e eterno. Não era comparável ao que alguma vez tinha sentido pelo seu Jú, a história tinha outros contornos, num misto de história de amor inocente, escaldante e claro, inacabada, mal encerrada entre os dois. Pelo menos para Carlota. Ela sabia que o Ricky era solteiro, ou melhor, solteirão, dedicado, tal como Joana, às aventuras do dia-a-dia e sem ninguém com poiso certo no seu coração. Carlota nem sabia se ela própria tinha direito a algum lugar de destaque no coração de Ricky. Não falavam desde que cada um seguiu a sua vida, num amor que terminou abruptamente aos 21, depois de 3 anos em que Carlota viveu nas nuvens, ou para lá delas.
    Em passo lento, de ouvido atento, sentiu uma passada firme atrás dela, ainda distante. Persentiu que era ele. Não que lhe conhecesse o passo, era a vontade dela e a sua intuição a funcionar. A passada aproximava-se rapidamente, e Carlota começou a ouvir a respiração forte de quem ia em esforço físico. Uma locomotiva. Ricky era homem do desporto, sempre fora. Nos tempos do namoro, era jogador de futebol federado e representava os juniores do Estoril. Não fez carreira no futebol porque a cabeça dele merecia mais. Seguiu engenharia, e pelo que Carlota sabe, do que cuscou e descobriu, está muito bem na sua vida profissional, A chefiar uma equipa numa das maiores construtoras nacionais. Para quem ainda não bateu nos 40, nada mal. Finalmente chegara o momento da interseção entre quem caminhava e quem corria. Quem corria passou de raspão por Carlota, sem ser propositado, apenas para cortar caminho. Sentira-lhe o cheiro, do perfume da manhã certamente. Leve e fresco, de bom gosto para a estação do ano. Era ele, Ricky, passara por ela sem dizer sequer um “Olá tudo bem?”, nem a reconheceu, nem olhou de esguelha para ela, camuflada no seu hoodie. Carlota também não queria ser reconhecida, aquilo que estava a fazer tinha qualquer coisa de stalking, o que, associado a mais alguns atos deste tipo, poderia ser considerado crime, e disso das leis, direitos e deveres, sabia ela. Viu-o afastar-se no paredão rapidamente, e ainda com o coração acelerado pensou, “nem os olhos verdes lhe vi, pena não o ter apanhado de frente!”. Que belo homem era Ricky, aos seus olhos, mas consensualmente aos olhos de todas as mulheres. A roçar os 40 e pareceu-lhe melhor que nunca, ainda que avaliado de soslaio.
    Carlota parou. Era hora de voltar com o sentimento de missão cumprida. Ela sabia onde morava o Ricky, onde ele trabalhava e algumas das suas rotinas. Não raras vezes Carlota saia da sua vida para se dedicar ao passado, para recordar, para reviver esses momentos. Hoje dera-lhe essa vontade, e parcialmente saciada, já de noite, decidira regressar ao presente e à sua vida. O Lucas, a Constança e o Jú estavam à sua espera.
    No regresso, médios ligados, de volta na marginal, acendeu outro cigarro, janela entreaberta com água a pingar para o interior, seguiu a queimar os limites de velocidade ao ponto de queimar os múltiplos radares espalhados pelo caminho, o que a obrigavam a parar nos diferentes semáforos sincronizados com os radares, que automaticamente ficavam vermelhos perante os excessos de velocidade. Chegava a ser irritante. Já não era hora de aproveitar a paisagem e Carlota só pensava em encontrar refúgio do lar. Não raras vezes ficava confusa com este regresso ao passado, com a transição para o presente, que por sinal convivia mal com o seu outro presente….. Que futuro poderia Carlota esperar na sua vida. Quantas Carlotas poderiam viver numa só?
    A breve crise existencial durou apenas o tempo de chegar a casa, desligou o Mercedes na garagem, tirou a chave da ignição, e naquele preciso instante sentiu uma vontade doida de abraçar os seus gémeos. Já era tarde, por isso, o único sobrevivente daquele fim de segunda era apenas o seu Jú, que estoicamente tinha tratado deles, banho, jantar, e cama. Não era fácil adormecer os 2. Juntos no mesmo quarto, até o sono vencer ambos, era preciso batalhar. A socorro de duas chuchas era um pouco mais fácil, mas ainda assim a tarefa era digna de ser classificada como missão. Às vezes faziam o “pedra, papel ou tesoura” para decidir quem era o destacado na missão. Ele tinha mais jeito do que Carlota. Aliás, Carlota não era uma mãe nata, faltava-lhe instinto, não tinha carinho por bebés antes dos gémeos nascerem, ser mãe não a mudou muito. Certo é que não lhe faltava amor por eles, faltava-lhe sim jeito. Era tarde, um beijo molhado na testa do Lucas, outro na bochecha da Constança. A dormir eram verdadeiros anjos, não só pela pose serena e doce mas também pelos cabelitos ainda loiritos, vindos do ADN do pai. Eram os seus anjos, mereciam melhor mãe, pensara ela ao beijá-los. Mordeu ligeiramente o seu e saiu do quarto. Jú tinha guardado jantar para ela. Tinham sobrado brócolos, além do frango de domingo. Era o que havia, e tudo aquecido no micro-ondas transformaram as sobras num digno repasto. Jú enchera-lhe um copo até meio com o resto do Duas Quintas tinto que sobrara também de domingo. “Vais ver que dormes melhor”, diz ele. E era verdade. O vinho tinto era um bom embalo para o melhor dos sonos. Fizeram um pouco de conversa trivial, ele sobre as suas borboletas, ela sobre o seu dia de trabalho. Para Carlota chegava a ser estranho ele nem perguntar porque tinha chegado mais tarde, ou melhor, tão tarde. Apreciava o respeito pela sua individualidade, pela sua vida, odiava ser controlada, mas daí à indiferença ia um passo bem largo. Será que ele não pergunta par evitar que lhe mentisse? Porque não quer saber a verdade. Porque é feliz assim? Por causa dos meninos? O Jú não era de manter casamento de fachada, os seus pais eram separados e cada um era feliz à sua maneira, nas suas vidas, que seguiram rumos diferentes quando Jú tinha dez anos. Talvez tivesse ficado com trauma nessa altura, certo é que nunca o demonstrou e sempre que falavam dos pais dele, era com naturalidade. Era filho único e não tinha meios irmãos. A mãe ficou divorciada até hoje, o pai casou outra vez, mas sem frutos.
    Já na cama, um beijo seco entre lábios e cada um seguiu para o seu lado da cama. Chegaram no passado a adotar a concha como método carinhoso para adormecer, mas desde que os gémeos nasceram que esse hábito se perdeu. Cada uma para seu lado, na mesma cama, juntos, embora de costas um para o outro. O copo de vinho tinto tinha-a deixado relaxada, mas ao fechar os olhos não pode deixar de recordar o seu Ricky, num daqueles inúmeros momentos vividos. Tinha saudades de fazer amor com ele. O sexo era o melhor que havia tido em toda a sua vida. E tão jovem ainda. De olhos fechados, recorda um dia, ainda de manhã em que tinham ido de comboio a Sintra, galgado as colinas até aos Capuchos, e no meio de nenhures, ele, afoito e ardente de desejo, a agarrara de surpresa, ali, ao ar livre, contra um pinheiro bravo, a começara a beijar no pescoço, cara e depois boca, onde se demorou enquanto a sua mão direita lhe baixava a alça do ombro esquerdo. Chegou-lhe bem aos seios que apertava ao de leve. Carlota lembra-se bem de ter sentido um calor enorme a subir-lhe pelo corpo até à cabeça, num dia em que o clima de Sintra fazia jus à sua fama, brumoso. Puxou-a para cima, ela passou as pernas à volta da sua cintura, e sem tirar a roupa, ali, ele afastou as cuecas dela para o lado, saia para cima, sem querer saber de eventuais olhares indiscretos que tornavam o momento ainda mais excitante, amaram-se com um sexo vigoroso, versátil, que só o Ricky conseguia proporcionar. Carlota recorda-se da dor nas costas que roçavam no pinheiro enquanto Ricky a entalava nele com ambas as mãos a segurar as suas nádegas. Carlota não se lembra se foram 2 ou 20 minutos, perdera noção do tempo, mas sabia, que nem por um segundo os seus lábios descolaram dos dele.
    Húmida, Carlota, adormeceu de sorriso nos lábios nessa noite.
    AS CORES DE UMA VIDA A PRETO E BRANCO
    CAPITULO IV (final)
    A semana prosseguiu sem incidentes de maior. Mais do mesmo, trabalho, casa, de volta ao trabalho. Segunda fora uma exceção que levara Carlota a fugir do presente, um escape para ela, numa visita fugaz ao passado. Ela tinha bem presente que ninguém vivia do passado, nem ninguém se agarra ao passado para viver o presente. No entanto, deixar-se transportar para o passado dava-lhe o bem-estar no presente que muitas vezes não conseguia encontrar. Dava-se o caso de Carlota ser uma mulher conhecedora do código civil, das leis, dos deveres e obrigações dos cidadãos perante a sociedade, mas ao mesmo tempo, uma mulher no rules, capaz de se transportar para um mundo diferente onde se vive à medida da vontade de cada um. Uma ambiguidade permanente a roçar a bipolaridade. Artigos e liberdade eram palavras antagónicas que conviviam a espaços isoladamente na cabeça de Carlota, por mais que tivesse estudado que os princípios do direito visava garantir a liberdade de cada um. Era uma liberdade circunscrita, não uma liberdade efetiva. Não raras vezes se perdia em pensamentos e ideias que a levavam para outra dimensão intelectual. Faltava-lhe alguém para falar, puxar por ela, para conversar noutro patamar. Ela sabia quem a conseguia levar para esse patamar, foram outros tempos, agora contentava-se com um simples cruzar no paredão à procura de inspiração. Esta obsessão chegava a ser doentia, e ela sabia disso. Qualquer pensamento desaguava quase sempre inevitavelmente no Ricky. Doentio, sem cura, sem comprimidos que a fizessem cortar com o passado.
    A reunião de quarta-feira com o Afonso correu pelo melhor. Ele era um homem pragmático e partilhou da ideia de Carlota que não vale a pena batalhar pelos casos perdidos. O devido à segurança social era para pagar com mil perdões, e juros de mora, para tentar colher a simpatia do juíz, os milhões que fugiram da empresa para as ilhas Caimão, que serviram de suporte financeiro à compra da moradia na Quinta do Lago e ao seu Porsche Carrera, eram para tentar branquear em tribunal. Era património que estava registado em seu nome, mas havia forma de justificar a proveniência do dinheiro sem ser através do saco azul da Alves & Ribeiro. O problema talvez fosse o contabilista que inevitavelmente iria ser chamado pela acusação. Ele próprio fora cúmplice e por isso também tinha de proteger as suas costas, mas o que lhe tocara no bolso era pouco para enfrentar o juízo do tribunal. Entregar o peixe graúdo poderia ser uma solução. Uma ameaça a ter em atenção na defesa do caso.
    Dessa reunião ficara-lhe na memória um gesto de Afonso. Tocara-lhe ao de leve na perna. Carlota, coisa rara, levara saia nesse dia. Uma saia preta folhada a combinar com uma blusa, também ela preta, em contraste com o blazer vermelho que comprara na véspera na Zara. Foi um toque intencional, de quem tinha vontade de tocar, não tinha surgido naturalmente na conversa. Se o seu Jú visse, não ia gostar. Ou melhor, pelos tempos que correr já nem Carlota sabia o que poderia ele gostar ou não. A conversa entre Carlota e Afonso era de facto puramente profissional, o caso absorvia a totalidade das palavras trocadas. O Olhar de Afonso, não raras vezes, transmitia outra coisa. Nessa reunião de quarta, enquanto falava detalhadamente sobre como tinha montado o saco azul com o seu contabilista, e a forma como se relacionada com fornecedores e clientes combinados, olhava-a com um desejo carnívoro de quem a queria possuir ali mesmo em cima da mesa. Era um olhar transparente, e nem o Afonso o queria esconder, aliás, fazia questão que Carlota o compreendesse bem em busca de um sinal de reciprocidade. De troco, Carlota dissera a Afonso para tentar manter a frieza em tribunal, para preparar uma poker face, o que implicava um olhar gélido, diferente daquele que lhe atirava naquele momento, ou de qualquer outro que pudesse indiciar culpa. Ele sabia que Carlota percebia o seu desejo sexual, não podia ser mais explícito. Por mais que Carlota quisesse evitar deixar transparecer que se deixara ir no entusiasmo do olhar de Afonso, os seus mamilos, diziam o contrário. Péssimo dia para não usar sutiã. Não era sempre, mas havia dias que Carlota gostava de sentir os seus peitos soltos. Empinados, salientes na blusa preta de Carlota, demonstravam nota de culpa.
    Enquanto tentava manter o foco na defesa de Afonso, Carlota imaginava as “crueldades” a que Afonso a queria submeter. Pela sua imaginação, inspirada no olhar de Afonso, não era menos do que a colocar de joelhos e obrigá-la a abrir-lhe o fecho das calças, ali mesmo, no seu próprio gabinete. Esta simples ideia perturbava Carlota, num misto de excitação e culpa. Também lhe dera vontade de sucumbir à tentação de presentear Afonso com um momento de luxúria num espaço dedicado ao direito. Pensou Carlota, “não duravas mais de 5 minutos”. Rasgou um sorriso que Afonso não compreendeu, e nesse preciso instante, o olhar dele volta a ser o do empresário trafulha, preocupado com a impunidade que acha lhe pertencer por direito. Ficara da reunião a defesa alinhada, uma perna tocada de forma atrevida, ainda que ao de leve e um enviesamento de uma relação profissional. O clima assexuado da reunião contrastava com a forma como se tratavam, ele, referindo-se sempre à Dra. Carlota, ela, tratando-o por Afonso, não por tu Afonso, mais próximo do meu caro Afonso.
    Na quinta-feira, à conversa com Joana, Carlota partilhara toda a parte sombria da reunião. Riram ambas do episódio. Estavam no seu gabinete, como quase sempre, de porta fechada, na típica tagarelice feminina. Joana conseguia potenciar este tipo de conversa para outro nível, num misto de ordinário e graça, para lá do que duas senhoras nos seus trinta deveriam convencionalmente ter. Era assim Joana, ora trazia um resumo dos temas da imprensa cor-de-rosa, que muito jeito dava a Carlota, curiosa mas sem tempo para mundanices, ora trazia uma história qualquer com um dos seus queridos amigos, ou melhor, especulava e imaginava em voz alta. Era uma boa amizade, ainda que maioritariamente de convívio laboral. Raramente tinha ido lá a casa, e nunca com o seu Jú presente. Não era de aparecer no aniversário dos gémeos nem de lhes oferecer presentes. No nascimento deles, Carlota lembra-se de ter recebido no hospital a visita de Joana, com flores, mas foi só. Perguntava pelos gémeos como quem fala do tempo, desapegada. Preferia delirar sobre o Afonso e omitir do seu pensamento a virtude de um dia ser mãe.
    Carlota relatava ao pormenor o olhar de Afonso, o que ela sentira, o constrangimento dos seus mamilos salientes na camisa preta, Joana, essa, complementava com a sua imaginação. Sugeriu que as duas podiam dar conta do recado. Descambou. “Tu baixavas o fecho das calças, eu ia lá busca-lo”, provocava Joana. Carlota corou! Joana riu-se e continuou a provocar. “À vez íamos lá as duas. A quem saísse o lanchinho ganhava um almoço da outra! Vale?” Era ordinário mas dito entre risos parecia menos mal. O caminho do riso para a gargalhada foi vertiginoso. Carlota corada desmanchada a rir enquanto Joana, também ela incontinente no seu riso, sugeria a custo que Carlota devia começar a ter toalhetes em cima da mesa. Alguns olhares de fora fixaram as duas pela parede vidrada do escritório. Ainda que fosse final de dia, era uma postura pouco apropriada para um escritório de advogados, ainda que os olhares fossem de curiosidade e não de condenação. Recomposta a postura, Carlota pergunta se Joana vai outra vez passar o fim-de-semana para a Ericeira com o Tomás. Afirmativo. Era aproveitar enquanto dura, e como Joana já bem sabe, as suas relações não duram muito, pelo que era de aproveitar. A manter-se o tempo chuvoso, era promessa de muito tempo passado entre paredes e não na praia a vê-lo apanhar ondas. Tinha mais graça assim.
    Sexta chegou finalmente. O seu Jú não tinha ofício no fim-de-semana. Era para fazer planos a quatro, e em particular, dividir as tarefas e o babysitting dos gémeos. Provável que muito do tempo fosse passado dentro de quatro paredes, não na mesma onda que a Joana ia surfar, noutro registo. Mamã e papá fazem de mamã e papã a tempo inteiro. Carlota não rejubilava com a ideia, mas ao mesmo tempo, depois de uma semana de trabalho, também era bom ser mamã. A advogada ficava à porta de casa, a sua imaginação em hold e a sua outra vida esquecida por dois dias. Carlota ia ser a mãe, junto com o seu marido, o pai. Durante a semana o tempo passado juntos fora mínimo, breves momentos entre o acordar e o adormecer, repetidamente, dia após dia. Será que o seu Jú também tinha a mesma ideia do fim-de-semana? Raramente falavam do que sentiam. O silêncio entre ambos era interrompido na maior parte das vezes por trivialidades ou temas dos gémeos. A vida conjunta perdera a graça de outros tempos. Não que a relação alguma vez tivesse sido perfeita, mas houvera momentos no passado que eram promessa de bons alicerces para o futuro. O futuro provou ser diferente, mas não perdido. Era assim, Carlota não pensava em divórcio, não lhe parecia haver motivo para isso, e o seu Jú também nunca meteu o tema em cima da mesa.
    Era sexta à noite, paz em casa, só adultos acordados no lar.
  • As curvas de Jessica

    Lentamente a vendei, tive que me controlar para não a assustar logo na amarra. Jessica não gostava muito, mas havia cedido, talvez pelo enorme tesão que sentia por mim ou pela grandiosa carência. Logo foi a vez dos pulsos serem amarrados, e, após eles, projetei meu corpo sob o dela, o forçando contra a parede enquanto ambos estávamos inclinados, de joelhos na cama. Meus dedos jogaram o cabelo de Jessica para o lado, seu pescoço ficou a mostra e, refletindo sobre todas as vezes que a via casualmente, não me contive. O primeiro abraço foi demasiadamente forte. O suficiente para que ela reclamasse e ficasse impedida de respirar, era esperado, meu braço passou por sua barriga, segurando em sua cintura, enquanto meus beijos alcançavam seu pescoço. Logo após, minhas unhas arranharam suavemente a parte de trás de sua coxa, e fiz o favor de massagear sua cintura. A excitação começava a fluir por seu corpo, isso era notável. Seus beijos ficaram mais salientes e calorosos, seu pescoço quase que se quebrava para alcança minha boca. Meu peitoral fazia enorme atrito com suas costas, me excitava pensar que ela estaria se empolgando com o toque de meu abdômen quente. Queria a tocar, por isso a acariciei por todo o corpo, as palmas de minhas mãos viajaram de seu rosto até seus joelhos, logo na última viagem fiz questão de passar sobre sua roupa íntima, tocando-a e a masturbando, por cima da roupa, de um jeito firme e lento o suficiente para estar sincronizado com nossos beijos e deslizes. Aquilo não era o bastante, a massageei na região dos seios, apalpando eles e não deixando um centímetro sem as carícias. Logo podia ouvir as primeiras falhas em sua respiração, o que só aumentou meu apetite, fazendo com que, de maneira inconsciente, deslizasse nossos quadris interminavelmente um pelo outro. Esse foi o primeiro passo para que Jessica se sentisse confortável com minha presença, ela passou a me desejar mais e mais. Eu também. Mas para dois jovens imaturos... todo amor era pouco.
  • CARMOND - CAPÍTULO I

    CAPÍTULO UM

    Foi em meados de junho e o inverno era um dos mais rigorosos já vividos no vilarejo, até aquele ano. Na noite em que o jovem médico chegou à pequena e distante Carmond, além do frio, caía uma chuva torrencial.
    _ Aqui é sempre tão frio assim? Ele perguntou ao simpático motorista que o havia buscado, na estranha estação ferroviária, algumas horas atrás, e agora, o ajudava a retirar suas malas do carro.
    _ Sim, e é bom ir se acostumando, doutor! Lá pro final do mês tende a ficar pior, muito pior. Às vezes chega a nevar.
    Augusto sorriu e pensou tratar-se de uma brincadeira do homem que caminhava apressadamente à sua frente em direção à porta da pensão. A única do local.
    _ Porque está sorrindo, doutor? Acha que estou de brincadeira?
    _ Então é sério? Oh meu Deus! Isso é inacreditável, lá na capital quase nunca faz frio.
    _ Nem mesmo no inverno?
    _ Muito pouco, meu amigo.
    O motorista colocou a última mala na recepção, deserta, e tocou algo parecido com um sino.
    _ Espere só mais uns dias e verás o que é frio, meu doutor. É de trincar os dentes.
    Nesse momento, os dois ouviram passos apressados no chão de madeira que vinham em direção a eles e não demorou a surgir uma senhora baixa e rechonchuda que carregava um castiçal com velas acesas. Só então, Augusto se deu conta que todo o vilarejo estava na escuridão. Estranhou, mas, imaginou que a chuva fosse a responsável pela falta de luz elétrica.
    _ Boa noite, meus senhores!
    _ Boa noite, Xica. Demoramos, mas, chegamos.
    _ Já estava mesmo preocupada, Piu. Essa chuva toda e vocês à deriva nessas estradas perigosas.
    _É, minha amiga! Realmente o trajeto não foi fácil, penso que o doutor nunca tinha enfrentado uma chuva dessas na vida. Mas, ele teve sorte em ter esse velho aqui como motorista. Além disso, ele está estranhando muito o frio aqui da região, não é mesmo, doutor?
    _ Pois não? Augusto perguntou meio perdido, pois ficara observando o casal conversando e imaginando há quanto tempo eles se conheciam. Na maioria das vezes e em lugares pequenos como Carmond, as pessoas se conhecem de uma vida toda.
    O motorista tocou em seu ombro e repetiu parte do diálogo:
    _ Estava a dizer para Xica que o senhor não está acostumado com o frio que faz por essas bandas.
    _ Ah sim! É verdade, dona...?
    _ Francisca, mas eu prefiro que me chamem de Xica.
    _ Como quiser, dona Xica! Pois então, eu realmente não estou acostumado com tanto frio. Lá na capital a temperatura está sempre muito elevada.
    Xica e Piu trocaram um sorriso cheio de cumplicidade, como quem queria dizer: “É bom se preparar” e ela que havia deixado o castiçal sobre o balcão, voltou a pegá-lo e pediu que eles a seguissem.
    _ Não posso me demorar, Xica. Agora que o doutor está entregue, sã e salvo, preciso ir pra casa descansar pro dia de amanhã.
    _ Nada disso, Piu. Você não vai embora sem antes tomar um prato daquela sopa que você adora e que está ali quentinha esperando por vocês.
    Augusto entendeu que não seria necessário a dona da pensão insistir, Piu tomou suas malas nas mãos outra vez e foi seguindo dona Xica através do imenso corredor cheio de portas, até que ela parou diante de uma delas e entregando o castiçal para Augusto, retirou do bolso uma chave.
    _ Este é o seu quarto! É tudo muito simples, mas muito bem cuidado, doutor.
    Mesmo com a pouca claridade, Augusto percebeu que o quarto, apesar de simples, era aconchegante.
    _ Tem tudo o que eu preciso aqui! E sendo assim, não poderia ser melhor, podem acreditar!
    _ Fique tranquila, Xica. O doutor aqui não é cheio de frescuragens como aquele último que esteve no vilarejo. Não é mesmo, doutor Augusto? O motorista perguntou enquanto terminava de colocar as malas alinhadamente num canto do quarto.
    _ Não se preocupem comigo, tenham a certeza que ficarei muito bem acomodado. Só preciso tomar um banho e trocar essa roupa que está um pouco úmida.
    _ Aqui nessa cômoda tem toalhas limpas e passadas, e o banheiro é logo ali no final do corredor. Vou acender algumas velas para ajudá-lo.
    _ Por falar em acender, o que houve com a luz? É por decorrência da chuva?
    _ Não, meu doutor. A chuva não tem nada haver com isso. Todas as noites, após as oito horas, a vila fica na escuridão. Com chuva ou sem chuva.
    _ Como assim? O que há com a eletricidade daqui?
    Piu se posicionou ao lado de Xica na porta do quarto e os dois trocaram um olhar de cumplicidade que deixou ainda mais claro para Augusto o quanto aquele casal se conhecia.
    _ É uma longa história, meu jovem. Por ora, tome o seu banho e venha nos fazer companhia na cozinha. Estaremos te esperando para tomar uma sopa deliciosa, modéstia à parte, eu sempre acerto na sopa. Não é mesmo, Piu?
    _ Tenha a certeza disso, doutor Augusto. Não existe sopa melhor, nem na capital, nem no mundo inteiro.
    Augusto sorriu e os dois deixaram o quarto indo em direção à cozinha. Enquanto o barulho dos passos ia se distanciando, o médico ficou a pensar na questão da luz elétrica e inevitavelmente as histórias que seus amigos haviam lhe contato sobre a vila retornaram à sua memória com força total.
    Não! Pensou ele. Todas aquelas histórias eram bobagens dos meus amigos, que não queriam que eu viesse à Carmond.
    E foi tentando afastar esses pensamentos que Augusto seguiu para o banheiro do final do corredor.
  • CARMOND - CAPÍTULO II

    O convite para ir à Carmond chegou um ano após Augusto ter retornado da Europa, onde havia se formando em medicina. E talvez tenha sido isso a causa de seus amigos colocarem tantos empecilhos na sua decisão de aceitar a proposta. Na certa, queriam aproveitar mais a convivência, uma vez que haviam passado tanto tempo distantes.
    _ Você não pode está falando sério que aceitou ir para aquele fim de mundo. Só pode ser uma brincadeira e, convenhamos, de muito mau gosto. O Silva falou enquanto eles dividiam uma cerveja num bar qualquer no centro da cidade.
    _ Porque todo esse espanto, Silva? Serão só alguns meses. É só o tempo do velho ficar bom ou...
    O Silva acabava de virar o último gole do copo e enquanto falava, voltou a enchê-lo.
    _ Você sabe muito bem da fama daquele vilarejo, Augusto. As histórias que chegam de lá são horripilantes.
    _ Como assim? Eu não sei do que está falando?
    _ Não se faça de desentendido, meu amigo. Sabes tão bem quanto eu que pouquíssimas pessoas viajam para aquele lugar e é ainda menor o número que retorna de lá.
    Nesse momento, Augusto não conseguiu conter o riso e isso pareceu deixar o Silva um pouco irritado.
    _ Vais rindo, doutor Augusto, depois não adiantará dizer que não o avisei. Como já diz o bom e velho ditado: Quem avisa amigo é.
    _ Não podemos acreditar em tudo que essa gente diz, meu amigo. Essas histórias são tão verdadeiras quanto o coelho da páscoa ou o papai Noel.
    _ Bom, eu como acredito que tudo é possível nesse mundão de meu Deus, se estivesse no seu lugar, não iria.
    No instante em que Augusto iria dar continuidade à conversa, os dois foram surpreendidos com a chegada de César e Rafael, ambos, amigos de longa data.
    _ Que maravilhosa coincidência! Veja que sortudos que somos! Quatro amigos se encontrando casualmente para tomarem cerveja e jogar conversa fora.
    O Silva, ouvindo as palavras de César, foi logo adiantando:
    _ É bom aproveitar mesmo este momento. Pode ser um dos últimos que passamos assim: os quatro juntos.
    _ Não entendi, alguém aqui irá morrer?
    _ Não leve a sério as palavras do Silva, meus caros. Ele já bebeu um pouco além da conta.
    Todos já estavam acomodados ao redor da mesa e o garçom, com uma competência invejável, servia cerveja aos recém chegados.
    _ Não estou bêbedo coisa nenhuma, rapazes. A verdade é que nosso amigo doutor acabou de fazer uma das maiores burradas da sua vida.
    _ Não seja exagerado, Silva. Desse jeito eles irão achar que eu engravidei alguma daquelas donzelas que visitam meu consultório semanalmente.
    Enquanto César e Rafael sorriam curiosos, Silva continuou com uma expressão de desaprovação e retomou a conversa:
    _ Antes fosse isso. Um filho com uma daquelas donzelas seria muito melhor que se enterrar naquele maldito vilarejo.
    A última palavra proferida por Silva ficou vagando no ar entre os quatro rapazes por um breve instante, enquanto os dois últimos a chegarem encaravam Augusto, espantados.
    _ Vilarejo? Isso quer dizer...
    Antes que completasse a pergunta, Silva adiantou-se:
    _ Isso mesmo: VI-LA-RE-JO, disse pausadamente, enfatizando cada sílaba. _ Augusto acaba de aceitar a proposta de ir para Carmond, tratar de um velho, que segundo informações, já deveria ter partido dessa pra melhor há muito tempo.
    César e Augusto, que até então estavam acreditando que tudo não passava dos dramas habituais do Silva, agora pareciam estar totalmente de acordo com ele.
    _ Sou obrigado a concordar com o Silva. Você só pode estar louco para aceitar ir para aquele lugar. Um vilarejo que fica a não sei quantos mil quilômetros, que só passa trem a cada quinze dias... Não! Você só pode estar de brincadeira.
    _ Calma, meus caros! Vocês estão fazendo confusão num mísero copo d’água, ou melhor, de cerveja. Sorriu e continuou. _ É verdade sim que eu irei até Carmond tratar da saúde de um velho que está a padecer. Ponto. É só isso. É o tempo de ir, tratar do enfermo e estarei de volta ao meu consultório, as minhas fiéis pacientes e aos meus amigos medrosos e queridos.
    Os três ainda continuaram questionando e listando o quanto ele perderia se afastando da cidade naquele momento. César apressou em dizer que ele mal havia aberto as portas do consultório que o pai, com tanto zelo, havia o dado de presente assim que Augusto retornou da Europa.
    Rafael alertou que as donzelas procurariam outros consultórios, e aí quando ele retornasse, se retornasse, não teria mais pacientes lindas e calientes implorando para serem consultadas.
    E por fim, o Silva, que já não encontrava mais argumentos, continuou insistindo na história de que o vilarejo era mal assombrado e que quem viajava até lá, dificilmente retornava.
    Porém, mesmo com todos esses argumentos, Augusto não se deixou persuadir, e dois dias após aquele encontro no bar, despedia-se dos amigos e da família, e embarcava no trem com destino à longínqua e misteriosa Carmond.
    Passadas algumas horas do embarque, uma chuva torrencial começara a cair, e quando o trem parou num lugar qualquer da estrada deixando Augusto, sozinho, esperando pelo motorista que lhe fora prometido na carta, o jovem médico começou a refletir se os amigos não estavam, de fato, com razão.
  • CARMOND - CAPÍTULO III

    CAPÍTULO TRÊS
    O ponto de parada onde fora deixado era diferente de todos os outros já conhecidos e imaginados por Augusto. Ficava num lugar qualquer da estrada e não havia nenhum sinal de vizinhos, ou ainda, nenhum bar ou qualquer outro tipo de estabelecimento como são de costumes nesses lugares.
    A chuva não dava tréguas e tudo que ele fez foi correr até uma velha tapagem, já bem deteriorada pelo tempo, e ficou lá aguardando pelo motorista, no meio da chuva e do nada. Essa espera, permeada pelas lembranças da conversa que havia tido com os amigos, durou mais de uma hora, até que, finalmente, ele viu surgir bem distante, os faróis de um carro que deslizava nas estradas enlameadas.
    Graças a Deus! Ele balbuciou e já foi tratando de ajeitar as malas nas mãos na expectativa de deixar o quanto antes aquele lugar.
    _ Por acaso o senhor é o doutor que está vindo da capital para tratar do Coronel? O motorista perguntou de dentro do carro e com o vidro do lado direito entreaberto.
    _ Sim, sou eu mesmo! Me chamo Augusto.
    _ Prazer, doutor! Sou seu motorista. Pode me chamar de Piu. Venha! Saia dessa chuva.
    Augusto realizou o embarque rapidamente e os dois tomaram o caminho de volta até Carmond, o vilarejo que tanto amedrontava seus amigos.
    _ Demoraremos muito para chegarmos?
    O homem sorriu meio desanimado.
    _ Um cadinho, doutor. Ainda mais com essas estradas ruins como estão. O senhor tem pressa?
    _ Não trata-se de pressa. Acho que é apenas curiosidade mesmo! Já passei o dia todo dentro de um trem, penso que mais algumas horinhas viajando não me farão mal.
    Piu sorriu novamente e ergueu as sobrancelhas indicando o banco traseiro.
    _ Tem uma garrafa e dois copos aí no banco de trás. Faço o favor de pegá-los e servir um chá pra gente, se não for incômodo, é claro.
    Augusto achou aquilo maravilhoso. Estava precisando mesmo tomar alguma coisa quente, depois do banho de chuva que tomara enquanto aguardava.
    _ Não é incômodo algum, ao contrário, será um prazer. O senhor parece ter lido meus pensamentos.
    _ Eu nunca saio sem a minha garrafa, principalmente em noites como esta. Um chazinho quente é sempre uma excelente companhia para quem vive tão solitário.
    Augusto encheu um dos copos e entregou para Piu que segurando-o com a mão esquerda, continuava a guiar o veículo com a direita.
    _ Posso lhe fazer uma pergunta, doutor?
    _ Depois desse chá você pode perguntar o que quiser.
    Sorriram os dois.
    _ Pois bem, o que levou o senhor a aceitar o convite para vir até o nosso vilarejo?
    Inevitavelmente Augusto lembrou-se dos amigos.
    _ Por que isso parece tão estranho? O que há de errado com o seu vilarejo, meu senhor?
    _ Carmond não é o melhor lugar do mundo para se estar, doutor. Tudo lá é muito difícil, desde o acesso, como o senhor mesmo está podendo constatar, até nas outras coisas mais simples.
    _ Por exemplo?
    _ Qualquer coisa que é normal em outro lugar, lá o senhor verá que se torna difícil.
    _ E porque isso acontece?
    _ Pelo visto o doutor não conhece nada mesmo do nosso vilarejo, né?
    Augusto balançou a cabeça negativamente e virou o último gole do chá.
    _ Não, meu senhor. Tudo que sei são as histórias, ou melhor, as lendas que as pessoas inventam e acabam chegando até a capital.
    Piu entregou o copo para ele e voltou a segurar o volante com as duas mãos. Nesse instante estavam passando sobre a velha ponte que já havia sido carregada duas vezes em enchentes que atingiram a região, e fora restaurada pelos próprios moradores.
    _ Boa parte dessas lendas são verdadeiras, meu jovem. As pessoas podem até aumentar, mas elas nunca inventam, já diz o ditado.
    _ O que há de errado em Carmond? O que acontece por lá?
    Piu reduziu a velocidade e olhou para o rapaz.
    _ Saberás logo logo, meu doutor. Afinal, o senhor foi contratado para cuidar do maior de todos os problemas desse vilarejo.
    Augusto percebeu que as últimas palavras foram pronunciadas com certo rancor e ao mesmo tempo tristeza, e isso deixou-o ainda mais curioso.
    _ Então está me dizendo que o problema todo, ou melhor, a maior parte dele provém do Coronel? Mas até onde sei esse homem está à beira da morte.
    _ Não acredito que ele vá morrer tão facilmente, seria sorte demais, e o povo de Carmond aprendeu desde cedo que a sorte parece não gostar muito daqui.
    E foi com a cabeça cheia de interrogações que Augusto seguiu o restante da viagem e nem se deu conta ao entrar no vilarejo que tudo estava escuro, a única luz acessa eram as dos faróis que cortavam a chuva e iluminava a rua diante deles.
  • Clássicos De Verão


    classicos de verão

    Na Divisão Dos Movimentos Kudza É Um Resultado Sísmico, Capaz De Ascender Um Big Bang Com A Simples Ajuda De Um Palito De Fósforos, Quando Deus Deu Luz A Vida Ele Usou O Meu Corpo Como #PapelQuímico, Eu Sou Um Universo Vivo, Sou O Esboço De Histórias Que Só Ganham Vidas Quando São Expostas Em Livros, Raros São Os Humanos Que ConseguemOlhar-se Com Os Olhos Dos Outros, Se Vidas Fossem Como Partículas De Água Os Oceanos Seriam Neutros, Já As Nuvens Seriam Os Monstros. Esse Telhado De Vidro É Um Obra De Arte, O Coração Desespera Mas O Espírito É Um #NegócioAParte O Meu Tem A Fisionomia De Uma 13ª Arte, Só Existe Uma Coisa Que Eu Gostaria De Saber, Como É Que O Céu No Céu É? Somos Acordados E Postos A Dormir Pela Mesma Insignificância, A Morte Só Te Permite Viver Pois Ela Ama A Vida, Sou Nada Mais Que Um Pombo Correio Entregando As Mensagens Deste #NamoroADistância, Não Sigas A Tendência Pois Estamos Sempre De Partida.

    O Sabor Do Medo Condensado Sobre A Tua Pele, Bloqueia O Consciente Incapacitando-Me De Comentar, Kudza Acabaste De Entrar Em #ModoEfeitoDeEstufa Está Na Hora De Deixar O Planeta Respirar, Vagarosamente O Ovo Desfirmamenta, Por Cada Mesma Aparência Perdemos Uma Nova Existência, Kudza- Porque Que Sempre Que O Mundo Fala, O Burro Nunca Pousa As Orelhas E Nunca Se Cala? Quando O Passado Bate A Porta A Gente Nunca Abre, Atenção Ao Que Hoje Dizes Pois O Amanhã…#AGenteNuncaSabe, As Negativas Influências São As Mais Letais, Desgastado Por Inexistentes Inexistências De Vidas, Que Apenas Ao Dinheiro É Que São Leias, Vou Dando A Corda E O Mundo Gira, Pessoas São Como Cobras, Entre Enroladas Entre Cordas E Só Nas Costas Ficam…#ÉlaQueCriticam. Kudza- Eu Tenho Uma Vida Conturbada, Vocês Perto De Mim Não Passam De Fantasmas Em Depressão, É Bom Que Tenhas Uma Cratera Paradoxal, Muitos Trazem Aquela Conversa Fiada, Mais Baixam Sempre A Cabeça A Corrupção. 

     “A Maior Distância Entre Duas Pessoas É O Mal Entendido”

    Essa Sorte Tornou-se Num Azar, Os Meus Atormentos Estão Mais Aterrorizados Que Um Coração Num Altar, Se Está É Uma Pergunta De Sim Ou Não, Porque Que Pressuponho Que A Resposta, Tem O Poder De Fazer O Matriz De Um De Nós #SeDesintegrar, Adicionei Alguns Anos De Dor, Aos Maliciosos Movimentos Enviados Pelos Que Gostam De Odiar, Moldei-o Na Forma De Um Coração, Kudza Concedeu-lhe Vida, Kedson- Agora É A #HoraDeReenviar, A Derradeira Desilusão Terá Acontecimento No Momento De Revelação Da Verdadeira Ilusão,Kudza Dá-me Dá-me Um Bolt De Sorte, Pois Eu Não Avisto Meta, Pequenos Desafios Ensinam O Corpo A Manejar A Dor, Se Este Percurso Fosse Uma Linha Reta, Hoje Eu Já Teria Conquistado O Teu Amor, O Sentimento É Prematuro Mas Já Afetou A Mente, Eu Vivo Desligado Mas Por Ti Liguei-me A Corrente, Kedson Encontra-se Perdido Entre Os Perdidos E Achados, A #FlacidezEmocional São Como Novos Horizontes Esperando Ser Revelados.

    Eu Não Lamento, Eu Não Esqueço, Eu Não Prometo! Se Os 2 Sentimos O Amor Porquê Que Não O Usas, Em Vez Disso #AbusasDoPoder Aparentas Ser A Minha Heroína Mas Não Me Das A Chance De Te Poder Converter, A Minha Carência Carece Por Uma Deusa, A Tua Beleza É A Armadilha Na Qual Fui Submetido, #DemasiadasEscolhasRelacionadas, Mas… O Meu Amor Não Carrega Duplo Sentido, Eu Sou O Indivíduo Que Não Se Concilia Com A Multidão, Kedson Foi Convertido Pelas 12 Horas De Luz Enquanto Kudza Foi Metamorfoseado Pelas 12 Horas De Escuridão, Palavras Digitalizadas Neste Abismo Onde, Egos São Mais Surdos Que O Amor Que Encargo No Meu Coração, Se Morrer É Acordar Então #VivemosSemDormir, Amassaguei A Cama Espreguicei Os Lençóis E Deixai A Almofada A Refletir.  

     “Viver Não É Necessário. Necessário É Criar”

    Porque Que A Tua Imagem Está Constantemente A Invadir A Minha Privacidade? O Teu Sorriso É Tão Ágil Quando A Minha #MentalAgilidade Kudza- Ela É A Filha Proveniente Da Primeira Lágrima Entornada Pelo Criador, No Intercâmbio De Palavras Descarto Certas Memórias, Pois Essas Mesmas Carregam Histórias Onde O Final Nunca É Promissor, Mas Nesta Memória Eu Quero-te Ao No Meu Roteiro, Prestigiada Por Uma Alma Pura Ela, E A#BelezaDaNatureza E Eu Sou A Verdura, O Coração Só Recebe A Mensagem Quando Já É Tarde Demais, O Pensamento Vive Em Conflito Contra Ideias Quem Nem Sempre São As Mais Ideias, Mas Eu Prometo Beijar Os Teus Lábios Da Mesma Maneira Que As Ondas Beijam A Areia, Serei O Teu Príncipe E Tu A Minha Pequena Sereia, Essa Vida É O Nosso#PontoDeEncontro, Vem Comigo Criar Um Novo Conto, Somos Anjos Caídos Procurando O Caminho De Volta Para Casa, Tu És A Outra Metade Da Minha Asa, Só Juntos Poderemos Alcançar O Céu, E Viver No Paraíso Que Deus Prometeu.

    “A Arte É A Auto/Expressão Lutando Para Ser Absoluta”

    Kedson
  • Crônicas do Parque: Rápido Demais

    Já fazia cinco solitários anos em que se encontrava separado e divorciado. Se mantinha firme em sua promessa de não mais se envolver e se entregar a um relacionamento amoroso. Afinal, sofrera bastante quando se separou da sua amada e louca esposa norte-americana (USA), que de repente enlouquecera quando ele achava estar tudo indo bem.

    Lembrara-se quando, por causa da separação, se ergueu de uma depressão que quase o matou de fome, em que ao final do quinto dia sem comer desmaiara caindo da cadeira em que estava sentado solitário trancado no escuro do seu apartamento. Em um instante se viu envolto em uma luz alvamente branca, flutuando em um corredor que o erguera para cima. Aquilo o atraia majestosamente como dando um basta a sua vida terrena de sofrimentos. Porém, de repente, ao súbito, olhara para baixo vendo o seu corpo caído ao chão desgraçadamente. E disse para si mesmo:

    — Não! Não é minha hora, tenho que voltar. Por favor me ajuda!

    E, novamente, lá estava ele, desgraçadamente em seu corpo caído ao chão. Juntou forças e foi se arrastando até a cozinha. Ao chegar, viu um pedaço de baguete duro sobre a mesa, e se esforçando em seu íntimo, apoiando penosamente os seus braços na cadeira, ergueu-se com considerável esforço para pegá-lo. Já com o pão-duro na mão, rastejou até o filtro de água potável em que enchera um copo. E ali caído ao solo com as costas recostadas nas gavetas do armário da pia, comeu vagarosamente o tosco pedaço de pão-duro, junto a goladas de água.

    Quando sentiu que já tinha forças para se levantar, ergueu-se pausadamente segurando com suas mãos as gavetas da pia, como se estivesse escalando o monte Everest. E, apoiou-se sobre seus pês. Foi até o banheiro, e tomou uma longa ducha quente. Ao final, viu que carecera de um choque térmico, e virou a torneira fazendo com que água esfriasse, tomando uma outra ducha fria. E bocejava, estremecia e ofegava.

    Vestiu-se, entrou em seu carro e pegou seu smartphone o ligando depois de uma semana, e vira múltiplas notificações de mensagens e ligações em sua tela. Ignorou-as, indo diretamente ao aplicativo GPS de serviços para procurar um bom restaurante italiano mais próximo, pois muito desejara comer uma pasta com frutos do mar. Depois dessa recaída em que quase lhe valera a vida, prometeu para si mesmo viver como um monge eunuco, distante das perigosas mulheres.

    Assim, estava ele vivendo feliz sem dar satisfação a ninguém para onde ia e o que fazia. Procurava ocupar ao máximo o seu tempo fazendo classes de yoga, pilates, teatro e aprendendo a tocar flauta e piano. Evitava ler, ver e ouvir romances, séries e filmes, músicas e histórias de relações amorosas, em que baixara um moderno e super aplicativo de tarefas, para seu smartphone. Onde ao final de cada dia, dedicava meia hora da sua atarefada vida para fazer a programação do próximo dia, não dando oportunidades para surpresas, fechando assim, as portas para novos imprevistos que o poderia levar a um novo relacionamento, ao conhecer uma interessante pessoa em um lugar desconhecido, fora da sua agenda digital de compromissos fictícios.

    Portanto, acordava, se levantava e ia correr por uma hora todas as manhãs antes de ir para o seu entediante trabalho de programador, em uma dessas grandes corporações Hi-Tech Israelense.

    Em uma dessas manhãs em que corria no parque de Kfar Saba, viu a sua frente uma jovem que tropeçara na pista de exercícios, e machucara um dos joelhos, por um instante decidiu ignorar aquele acidente, ultrapassando-a. Porém, por um ataque de consciência deu meia volta, indo ao encontro da jovem que se encontrava sentada no chão chorando.

    Ao chegar até ela, agachou-se e disse ainda ofegando pelo esforço do seu exercício:

    — Você está bem?

    — Claro que não! Você não vê?

    — Desculpe! Só estou tentando ajudar. Venha, vou te levantar.

    — Ai! Ai! Ai! — resmungou a moça não podendo se apoiar em uma das pernas.

    Então, ele a carregou em seus braços a levando para grama, pondo-a debaixo de uma Tamareira que fazia uma refrescante sombra. E a perguntou:

    — Você mora por aqui por perto?

    — Moro em Rosh Haayin.

    — Não está tão longe. — falou ele enquanto estava lavando o ferimento do joelho da jovem moça, com a água de sua garrafa.

    — Você está de carro? — perguntou a jovem. — Será que pode me levar até minha casa. — acrescentou.

    Ele hesitou ao responder de imediato, e olhou para o seu smartwatch que se encontrava no pulso direito, sabendo que se a ajudasse, chegaria tarde no trabalho. E, olhando para aquela jovem e linda moça de olhos verdes molhados de lágrimas, não resistindo ao seu apelo, disse:

    — Sim, eu te levo para casa. Mas, vamos rápido, é que estou meio atrasado para o trabalho.

    Ela sorriu, e de súbito o beijou no rosto como forma de reverência. E aquele beijo repentino acendeu um chama nele que há muito tempo se encontrava apagada. E temeu, ignorando aquele beijo ao levantar a moça nas suas costas, apoiando-a como se fosse uma mochila. Ao passo em que ele caminhava com a pesada moça sobre as costas, ela ia tagarelando:

    — Nem ao menos nos apresentamos, e aqui estamos como namorados em que você me leva de macaquinho. Como é o destino, ultimamente só estou conhecendo novas pessoas através das redes sociais no meu celular, e agora te conheço assim, em um acidente, e já temos um contato físico como pessoas que se conhecem a muito tempo. Acho que só os acidentes são capazes disso. Agora me vejo em meio a uma fantasia, nessas cenas de filmes românticos dos anos 80 e 90 que as pessoas postam na internet. O que acha? Eu ainda não sei o seu nome. Como você se chama?

    — Em primeiro lugar não somos amigos, nem muito menos namorados. Em segundo você está muito pesada, e não estou conseguindo me concentrar com essa sua tagarelice. Me chamo Nimirod.

    — Desculpa Nimi, eu só estava querendo te distrair por causa do meu peso e seu esforço. Me chamo Einat. Prometo que não falo mais. Naim meod (Prazer em conhecê-lo)!

    Juntos chegaram ao estacionamento, e ele a colocou no banco da frente do seu carro. Ela ainda se encontrava calada pela dura que recebera dele, e, ele se encontrava sério, meio puto em chegar atrasado para o trabalho.

    Então, ela resolveu quebrar o gelo que existia entre os dois, perguntando-o:

    — Você corre no parque de Kfar Saba todos os dias?

    — Ken (Sim). — respondeu ele secamente.

    — Você mora em Kfar Saba?

    — Lo (Não). — deu outra resposta seca.

    — Onde mora?

    — Próximo. — disse isso não querendo respondê-la.

    — Sim. Não. Próximo. Você fala hebraico? — disse ela o provocando.

    — Você é da polícia? Não pode se calar um pouco, apenas por um momento. Não gosto de ser interrogado, e por sua causa estou me atrasando para o trabalho hoje.

    Ao ver essa resposta arrogante, mais uma vez os olhos da jovem se encheram de lágrimas, e ela pediu para descer ali mesmo em qualquer lugar, já que estava incomodando.

    Diante disso, vendo as lágrimas descendo pelas lindas pálpebras que ao chorar se encontra avermelhadas no belo rosto inocente da jovem ao seu lado, arrependido ele disse:

    — Desculpe-me Einat. Apenas fiquei irritado por me atrasar para ir ao trabalho hoje, tenho muitas tarefas e meu chefe está já há uma semana no meu pé para que eu termine. Vou te levar para casa e tentar responder suas perguntas, ok.

    A jovem enxugou suas lágrimas, deu um grande sorriso, e perguntou:

    — Quantos anos você tem?

    — Trinta e sete. E você?

    — Vinte e três.

    — Você é nova. Fez o exército?

    — Sim. Terminei faz um ano.

    — E não viajou?

    — Acabei de chegar da Índia, estive lá por dez meses.

    — E como foi?

    — Louco. Já foi a Índia?

    — Sim.

    — E como foi?

    — Louco.

    — Então, não preciso lhe dizer nada — disse ela sorrindo.

    Ele sorriu em resposta, e a perguntou já chegando em Rosh Haayin:

    — Em que direção fica sua casa aqui.

    — Eu não sei direito lhe instruir, pois sou nova aqui, mas posso ver no celular. — disse ela pegando o seu smartphone, e abrindo o aplicativo GPS digitando o nome da rua.

    — Você é daqui? Quero dizer, dessa região? — perguntou ele, enquanto ela ainda digitava.

    — Não. Sou de Tel Aviv. Vim morar aqui por causa do emprego de ajudante de enfermeira veterinária, pois quero estudar veterinária no futuro. Amo animais, principalmente gatos.

    — Eu odeio gatos. São egoístas e interesseiros.

    — Assim como nós. — disse ela.

    — Prefiro os cachorros. São amáveis e amigos. — disse ele ignorando o que ela disse.

    — Já eu, não sou muito afeiçoada a eles. São dependentes de mais e bagunceiros.

    — Assim como nós, principalmente quando crianças. — disse ele.

    Ambos se olharam e sorriram como se concordassem um com o outro, e a voz robótica do aplicativo falou dizendo que se encontravam no local de chegada.

    — É aqui, nesse prédio. — disse ela apontando, e continuou — Quer entrar para tomar um café? Afinal, você já está atrasado mesmo.

    — Não, obrigado! Não quero me atrasar mais ainda.

    — Só que tem um probleminha! — disse a jovem o pegando pelo braço — Esqueceu que não posso andar, e no meu prédio não tem elevador, e vivo no terraço no quarto andar. — disse ela sorrindo.

    — Ok! Te levo até lá, mas não tenho tempo para o café.

    Ela sorriu. Ele saiu do carro, foi até a porta do assento lateral, a carregou em seus braços, e ela disse:

    — Agora parece que acabamos de nos casar, e você me leva para lua de mel.

    Ele a encarou com seriedade não gostando nada do que ela disse, e a colocou em suas costas indo em direção ao prédio a sua frente. Chegando à porta, ele se virou de lado para que ela pudesse digitar o código chave de cinco dígitos para abrir, fazendo um barulho entediante afirmando que já estava destrancada. Ele empurrou a porta de vidro com o pé, e enquanto adentrava ela ajudou com uma das mãos, sendo que o seu outro braço estava envolvendo o busto e pescoço dele.

    E seguiram subindo a escada. A cada andar ele parava um pouco para pegar um fôlego e descansar. E ela resolveu dessa vez ficar em silêncio, pois ele não estava nada gostando daquela situação. Então, chegaram a porta do apartamento dela. E ela disse:

    — Não vai nem ao menos entrar para um copo d’água e descansar um pouco.

    E, ofegante ele disse:

    — Não. Melhor não. Estou muito atrasado, tenho que ir.

    — Vai me deixar aqui na porta para que eu me arraste até a cama? — perguntou ela com uma dengosa voz.

    — Acho melhor você já aprender a se virar sozinha com essa situação. Depois você vai me pedir para te levar para o banheiro, e te dar banho e depois fazer comida.

    — Eu bem que poderia comer você. _ disse ela, e vendo a cara dele de extremo espanto, rapidamente exclamou — Brincadeirinha! — disse isso, querendo desfazer o que disse.

    — É por isso que não quero entrar. É disso que eu tenho medo. Vocês jovens são rápidos demais. Bye! — disse ele descendo as escadas.

    — Hei, espera aí! Você não me disse onde mora. — disse ela gritando.

    — Moro em Kfar Saba. — respondeu ele já de baixo.

    — Me dá o número do seu telefone. — ela gritou de cima.

    — Rápido demais, já disse! E se eu for casado…

    — Você é casado? — Ela gritou o mais alto que pode.

    — Não! Mas, enquanto o meu número de telefone, vai ter que descobrir por si só.

    — Isso já é bom! — gritou ela, e já não houve mais respostas. — “Ele se foi” — pensou ela entrando no seu apartamento.

    Ele entrou no carro e dirigiu rapidamente para o local de trabalho, fazendo consideráveis esforços para esquecer aquele imprevisto e inconveniente acontecido, repetindo um milhão de vezes em sua mente — “Isso nunca existiu” — tentando assim ignorar os fatos, que já fora fisgado pelas garras amorosas do destino.

    Ela estava maravilhada com ele, achava ele bonito e responsável, o tipo certo para uma mulher se casar. Ela era tão jovem, mas já pensava em um bom partido. Estava meia que traumatizada pelo motivo de suas duas irmãs mais velhas não conseguirem ter relacionamentos por serem gordas, não suprindo as exigências dos homens israelenses, numa sociedade que admira e fortalece a indústria da moda e cosméticos. Sendo que sua irmã mais velha de trinta e oito anos, fizera bebês em um laboratório de banco de espermas, tendo assim filhos gêmeos. E sua segunda irmã de trinta e quatro, já estava pensando em fazer a mesma coisa. Ela não era assim tão gordinha, mas geneticamente tinha formas arredondadas, e isso a preocupava. Passava muito tempo na frente do espelho, e se achava gorda e feia.

    Porém, não era bem assim, suas amigas a invejavam pela sua cintura bem definida, seu bumbum farto e arredondado, seus seios medianos e seu rosto de anjo com olhos verdes e cabelos loiros e encaracolados cor de mel. Um belo corpo de violoncelo, unida a um belo rosto e altura de um metro e setenta e cinco invejável. Não era gorda de jeito e maneira, era dessas mulheres mutantes de forma gigantesca.

    O despertador do smartphone tocou as cinco horas da manhã como de costume, ele se levantou em um único pulo de sua cama indo diretamente ao banheiro, lavara o rosto e escovara os dentes apressadamente. Vestiu-se com sua roupa e assessórios de correr, colocou seus fones de ouvidos bluetooth, e pendurou o seu smartphone por uma capa detentora em seu braço esquerdo, começando o seu exercício matinal ao som do piano de Richard Clayderman. Pelo esforço que fizera anterior e interiormente para esquecer do evento inconveniente do dia passado, já não se lembrara com emoção daquela moça linda e alta de olhos verdes e cabelos loiros encaracolados, sua mente se voltara a sua rotina diária de solteirão feliz.

    Mas para o seu desgosto, lá estava a jovem linda moça correndo em sua direção pela contramão com o joelho enfaixado. Ao passo em que se aproximava dela, ele pensava em ignorá-la. Dizendo em seus pensamentos: “Puta-merda! O que ela quer de mim. Droga! Porque logo hoje fui me esquecer de colocar meus óculos escuros”.

    Ao se aproximarem, param ainda correndo e trocaram sorrisos, e ela disse:

    — Olá como está?

    — Bem. Vejo que seu joelho já está bom.

    — Quase. Mas não resistir ter que parar com os meus exercícios matinais.

    — Entendo. Bom! Não quero me atrasar mais um dia para o trabalho. Bye!

    — Bye! Lehitraot (Até mais ver)!

    E, continuaram os seus percursos, entretanto, enquanto se distanciavam ela se virou correndo de costas e disse em alta voz:

    — Ainda quero o número do seu telefone.

    — Ainda vai ter que descobrir. — disse ele não olhando para trás.

    E, isso se repetia dia após dia, semana após semana.

    Até em que um belo dia de Yom Rishon (domingo) ensolarado, em que ele estava a correr como de costume no parque de Kfar Saba, não a viu durante todo o percurso. E, pensou: “Ela não veio correr hoje. O que será que aconteceu. Não importa! Bom para mim”. E, Yom Sheni (segunda-feira) a mesma coisa. E, Yom Shilishi (terça-feira), Yom Revyi (quarta-feira), Yom Hamishi (quinta-feira), Yom Shishi (sexta-feira) a mesma ausência.

    Yom Shabat (sábado), ele despertara já sem o apito do seu despertador. Continuou ainda deitado em sua confortável cama elétrica com colchões de astronauta, e não conseguia pensar em outra coisa, senão, nela. E vislumbrara em seus pensamentos o sorriso contagiante que enfeitava seu belo e limpo rosto redondo. Sua meiga voz de menina mimada. E seu gigante corpo perfeito. A ausência dela o fisgara, como as coloridas iscas artificiais dos profissionais esportistas pescadores. Aconteceu o que ele mais temia, se viu apaixonado, e sabia que esse sentimento era o mesmo que estar enfermo. Mas, agora, o que fazer, pensou. Ir procurá-la. Não! Isso era se entregar a loucura novamente. E se lastimou pelo fato de não ter dado o número do seu telefone a ela.

    Levantou-se da cama, foi ao banheiro, levantou a tampa da latrina e fez xixi. Deu descarga, e foi ao lavatório. Se olhou no espelho, e pela primeira vez viu um fio de cabelo branco em sua cabeça e dois em sua barba. “Meu deus!” Pensou. Abriu rapidamente a gaveta do lavatório procurando uma tesoura, e achando-a, rapidamente com cuidado fora até a raiz dos seus intrusos cabelos brancos para expulsá-los.

    — Estou ficando velho. — disse em alta voz para si mesmo.

    Teve medo por um instante de pânico de envelhecer sozinho. E pensou nela. Rapidamente entrara na banheira, ligara a ducha tomando um banho. Pegou a tolha, se enxugou apressadamente, passara um creme facial no rosto e se perfumara. Correu até o quarto, se vestindo elegantemente com roupas de verão. Uma curta bermuda branca, uma camiseta verde e uma sandália de couro esportiva. E, pensou em convidá-la para ir à praia em Herzliya.

    Ao chegar no prédio em que ela morava, correu em direção a porta, e não se lembrando o número do seu apartamento, não sabia em que botão devia apertar para chamá-la pelo interfone. Esperou um pouco, e teve a oportunidade quando um casal estava para sair, aproveitou essa oportunidade em que a porta fora aberta, adentrando-a. E subiu as escadas em direção ao terraço no quarto andar. Lá chegando, parou e fez um pequeno exercício de respiração para aliviar a tensão. E, antes de bater à porta hesitou, não sabendo bem o que dizer a ela. E quando fora bater, a porta se abriu. Sendo, que ambos se assustaram. E ela disse:

    — Você aqui! Eu já estava prestes a sair.

    — Pois é, resolvi ainda que tarde aceitar seu convite para tomar um café. Mas, vejo que tens compromisso.

    — Eu estava indo à praia.

    — Uau! Foi isso mesmo que vim fazer aqui, te convidar para ir à praia.

    — Ainda quer entrar e tomar um café antes?

    — Seria um prazer!

    Ele entrou, e viu que ela morava em um pequeno apartamento de solteiro de apenas um quarto, com uma pequena cozinha e banheiro acoplados. Mas, que continha uma enorme varanda no terraço com muitas flores, plantas, um cagado, um papagaio branco, uma iguana e três gatos. O apartamento era pequeno, mas estava muito bem organizado com uma cama de casal ao meio, a cozinha no estilo americano a frente, o banheiro ao lado e uma grande mesa com impressora e computador, improvisando um escritório de trabalho. Do outro lado havia também uma porta e uma larga janela que dava para varanda. O ambiente estava bem iluminado e confortável, havia odores de incenso, e um toque alegre maravilhosamente feminino. Muito distante do seu escuro apartamento, triste e sem graça. E, enquanto ela aprontava o café, ele disse ao se sentar a cama:

    — Bonito e aconchegante aqui.

    — Foi isso que você perdeu antes. Muito lento você, Sr. Lesma.

    — E você, apressada demais, Sra. Papa Léguas.

    — Viu!

    — Viu o quê?

    — Agora já estamos nos comportando como um casal rotineiro, discutindo por besteiras.

    — Rápida demais, menina! — Ele a alertou, e continuou — Nem começamos ainda a namorar, e você fala em casamento. Mas me diga, porque não foi ao parque correr essa semana.

    — Funcionou!

    — Funcionou o quê? — perguntou ele sem nada entender.

    — Não está vendo. — disse ela sorrindo, e fazendo um gesto obvio ao erguer a palma de suas mãos para cima, ao dobrar os cotovelos a linha do umbigo.

    — Como sou idiota! Shalom! — disse ele indo revoltado em direção a porta.

    — Bye! — disse ela tranquilamente sem olhar para traz, enquanto ainda preparava o café.

    Rapidamente ele saiu, e descendo as escadas às pressas, parou no meio, colocou a mão na cabeça, e dizia para si em voz alta:

    — Como sou idiota! Hahhhh!

    Continuou a descer, e ao chegar a porta. Hesitou em abri-la. E se viu completamente apaixonado e envolvido por ela. Tão rápido, mais rápido do que a velocidade dos pensamentos era a velocidade dos sentimentos. Sua cabeça lhe dizia: “Saia imediatamente dessa arapuca, e esqueça essa garota que só vai atrapalhar a sua vida”. E o coração rebatia, dizendo: “Volte imediatamente, peça desculpas e diga que gosta dela”.

    O coração foi mais forte, assim deu meia volta e subiu as escadas. E lá estava ela a porta, com duas xícaras na mão, uma de café e outra de chá de folhas de Luíza Limão do seu pequeno canteiro de ervas. Ele subiu a passos lentos em sua direção. E pediu desculpas, e ela abrindo os braços com as mãos ocupadas com as xícaras cheias, disse:

    — Só desculpo se me der um beijo.

    Ele se aproximou o mais perto possível, encostando barriga a barriga, e sentiu o calor atraente do corpo dela o chamando. Olho a olho se olhavam, e o olhar dela ficou meio vesgo, tornando-a mais linda e atraente, ainda mais do que já era. Suas respirações estavam ofegantes, e seus corações pulsavam tão alto, que faziam os líquidos das xícaras que estavam nas mãos dela ondularem pelas laterais, respigando todo o chão. E por um instante se cheiravam, enquanto seus narizes se tocavam. Rapidamente ele se afastou, pegando a xícara de café da mão dela, e disse:

    — Rápido demais, menina. Rápido demais…

    Ela sorriu, e ambos caminharam até a varanda. Assim, se sentaram um a frente do outro em uma pequena mesa de ferro, com a plataforma de cimento com mosaicos feitos de pedaços de azulejo que ela mesma confeccionara. E, apenas se olhavam por longos minutos sem nada dizer, enquanto saboreavam o gosto do café e chá, e os gatos se enroscavam em seus pés.

    Então, ele rompera o silêncio dizendo:

    — Vamos devagar, Ok! Assim será melhor e mais prazeroso. Não quero ter uma relação de palito de fósforo.

    — Como assim, palito de fósforo? — indagou ela.

    — Você tem uma caixa de fósforos? — perguntou.

    Ela sem nada dizer, adentrou a casa para apanhar. E trazendo, foi vagarosamente por detrás dele o abraçando em tons provocativos, enquanto estendia com uma das mãos a caixa de palitos de fósforos a frente dos seus olhos. Ele pegou a caixa, ela voltou ao seu assento, e ele disse:

    — Tome essa caixa, pegue um fósforo e acenda.

    E, assim como foi dito, ela fez. E ele disse:

    — Está vendo! O fósforo acendeu ligeiro se inflamando rapidamente, e da mesma forma ligeiro se apagou. O mesmo acontecerá conosco se formos tão depressa nisso. Tudo não passará de uma inflamante paixão. Devemos começar como uma pequena fogueira de acampamento. Catar folhas e palhas secas, colocar gravetos em cima, depois paus grossos e duros, e acendê-la com muita atenção cuidadosamente, e ir alimentando-a com esse combustível de matéria orgânica dura aos poucos, para que permaneça acesa, e venha nos aquecer por toda noite, até a vinda do sol.

    — Mas, essa sua fogueira só poderá ser acesa com um palito de fósforo, não é? — questionou a moça a sua frente com ironia.

    Nisso, ele se irritou novamente. E ela rapidamente disse:

    — Brincadeirinha, Sr. Nervosinho. — e sorriu como uma esperta menina, que ganhou a aposta.

    — Ok! Nada de telefones, SMS, Telegram, WhatsApp, Facebook, Skype e todas essas parafernálias da internet. Usaremos cartas. E só nos encontraremos no local especificado por elas. Faremos a moda antiga, antes da tecnologia. _ rebateu ele, irritado por se sentir derrotado.

    — E se as cartas não chegarem? Você sabe como são os correios aqui em Israel.

    — Vamos usar então uma empresa de correios privada. Não se preocupe, eu cobrirei todos os custos.

    — Está bem, Sr. A Moda Antiga — disse ela ironicamente concordando.

    Assim, terminaram com o café e chá, e foram para praia em Herzliya. Lá, conversaram bastante abrindo o livro de suas vidas um para o outro, e o tempo em que passaram juntos foram mágicos para os dois.

    Ele a levou de volta para o apartamento dela em Rosh Haayin. E, ao se despedir saindo do carro, enquanto ainda caminhavam até a porta do prédio, ela o surpreendeu com um beijo apaixonante em sua boca, em que ele nem ao menos teve chance de resistir, apenas pela altura dela, teve que ficar suspenso nas pontas dos pés. Então, ela percebendo o seu desconforto, o puxou ainda o beijando descendo para rua, enquanto ele ainda ficava sobre o paralelepípedo da calçada, dessa forma ele ficou mais alto e ela mais baixa. Esse beijo em que se abraçaram amorosamente, durou por quase dois minutos. Ao terminar ela disse se despedindo:

    — Isso foi apenas o palito de fósforo que acendeu a fogueira no nosso acampamento.

    E assim, ele e ela, Nimi e Einat se encontravam esporadicamente através de cartas que indicavam locais estratégicos como um jogo de RPG. Ela o escrevia cartas amorosas, as desenhando com lápis de cor, ou aquarela, e fazia também colagens de flores e folhas do seu jardim suspenso. Ele a enviava cartas com bombons e flores, sempre ditando os lugares de encontro como o mestre do jogo. Até que um dia, ela recebeu uma encomenda vinda em um carro forte de alta segurança, tendo que dar várias assinaturas nos protocolos de papeis para recebê-la. Parecia-lhe algo extremamente de muito valor financeiro, para vim com aqueles seguranças todos bem armados, com pistolas e escopetas Glock 9mm e .40 S&W. Era uma caixa grande que envolvia outras pequenas caixas, como degraus de escada de caixas sobre caixas. E, ao chegar à última e pequena caixa preta. Encontrou um pequeno papel vermelho, dobrado em quatro partes. E ao abri-lo, viu um número de telefone escrito em tinta negra: 0529516651. De imediato foi a sua bolsa procurando o seu smartphone, e ao achá-lo ligou imediatamente. E ao dizer alô, ouviu uma voz que emocionado perguntava:

    — Quer se casar comigo?

    — Rápido demais, seu moço. Nem ao menos ficamos noivos e você já pensa em casamento.

    Então, ele ao ouvir essa resposta, desligou de imediato o telefone.

    E, ela se desesperou dizendo para si: “Droga! Eu brinco demais com ele, e ele sempre me leva a sério. Apenas só repeti as suas palavras. Droga!”.

    Todavia, enquanto ela tentava ligar para ele novamente, desesperada para lhe dizer: “Sim! Era isso que eu mais desejava desde quando nos conhecemos”. Ela ouviu um toc, toc em sua porta. E abrindo-a, lá estava ele de joelhos com uma caixa de anéis na mão dizendo:

    — Case-se comigo agora Einat, mesmo que seja rápido demais! É que não precisamos mais da fogueira no nosso acampamento. Pois, o sol raiou, e já é dia!

  • Dizem por aí

    Dizem por aí 
    que devagar se vai ao longe
    E que com calma se escolhe bem
    Com você quero ir ao infinito
    E muito mais além
    Eu só te peço um momento
    Quem sabe a gente tira um tempo pra nós
    Lê meus pensamentos 
    Não estamos a sós
    Dizem por aí
    Que o amor machuca
    Mas pra mim sem você dói muito mais
    Eu só te peço um momento
    Quem sabe a gente tira um tempo pra nós
    Lê meus pensamentos 
    Não estamos a sós
    Quero você a qualquer hora,
    Sem demora
    Eternos finais
    Sem fim
    Eu só te peço um momento
    Quem sabe a gente tira um tempo pra nós
    Lê meus pensamentos 
    Não estamos a sós
  • Eterna Paixão

    Te dei o ar, o folego sentimento,
    Te dei a maresia, sorrisos calmaria
    Te dei a imensidão o conforto a paz
    Te dei a felicidade tirei a dor
    Tudo que vc smp quis e buscou
    [ Tome meu mundo, sinta-o profundo, esse sentimento não tem fim ]
    Respire constante 
    Siga avante, me queira assim
    Seja pelo que for, pelo que fui e por quem serei, seja assim, fique assim, queira por mim
    Esqueça a dor, viva o amor
    Liberte-se do possível, encontre a felicidade
    Perca-se da escuridão
    Viva essa louca paixão
    Tome meu mundo, sinta-o profundo, esse sentimento não tem fim
  • Eu Te Amo Tanto

    Quando eu te vi pela primeira vez, era numa tarde ensolarada, eu estava dentro do ônibus e você subiu. Me encontrei parlisada por alguns segundos quando bati o olho em você, senti minhas mãos frias e eu não sabia o porquê disso, desde então, eu não parei mais de te procurar em todos os rostos que eu via.
    Foi assim por uns longos anos, até que tivemos nossa primeira conversa através de um amigo em comum, eu logo me senti conectada, nossas ideias sempre bateram, nossas idiotices faziam os dois darem gargalhadas gostosas juntos.
    Foi então que depois de alguns meses tivemos o nosso primeiro beijo, sinto a sensação até hoje. Meu Deus! não poderia ser melhor. Foi dali que comecei a sentir que era você.
    Assim que nossos lábios se tocaram eu senti uma coisa surpreendente vindo de dentro de mim, é uma mistura de sentimentos, todos sentimentos bons possíveis que um ser humano pode ter, uma coisa tão louca que eu não sei explicar, mas que sinto toda vez que nossos lábios se encontram novamente.
    Toda vez que bato os olhos em você, andando, sorrindo, distraído, de qualquer forma, eu fico maravilhada, como se fosse a primeira vez que eu te vi.
    É como se eu me apaixonasse por você toda vez que eu te encontro em algum lugar, como se fosse a primeira vez novamente, e eu amo isso.
    Aliás, eu amo tudo em você: amo seu jeito distraído, amo como sua risada soa, amo as curvas do seu sorriso, amo suas mãos, amo seus dedos tortos, amo seu timbre, amo seus olhos, amo seu nariz, amo o seu carinho, amo toda sua personalidade, amo suas olheiras escuras e profundas, assim como meu sentimento por você é: profundo! Tão profundo que eu quase me perco nele, de tão grandioso que consegue ser. Tão profundo que as vezes eu não sei como demonstrar ele, e eu tento de todas as formas botar ele pra fora pra você saber o quão amado é! 
    Eu te amo tanto.
    Por mais que eu queira que nós dois dessemos certo, a minha prioridade é te ver feliz, mesmo que nos braços de outra, minha prioridade é você está bem.
    Mas... Eu te amo tanto.
  • Insano

     Tudo começou com aquele “Oi”, muitas vezes tínhamos vergonha de responder um ao outro, mas boa parte das vezes acabávamos respondendo e virando altas madrugadas, com assuntos que nem eu mesma sei de onde saia. Era tão bom conversar com você, nos conhecíamos desde pequenos (embora você seja mais velho que eu) assuntos diversos, sorrisos de lado a cada mensagem que me deixa sem jeito. Até que você me pediu um beijo! “Que isso moreno, assim eu me derreto”.
     Ok! Vamos lá, não deve ser tão ruim assim, mas imagino aquela saliva que vem da sua boca, aquela língua que já se encostou a outras, aquela boca que não sei o que comeu... Essa ideia de primeiro beijo era mesmo um terror em minha vida. Imagina só, você encontra uma pessoa, conversam algumas vezes e combinam de se encontrar, desse encontro sai um beijo, um beijo que você (Eu) nem imaginava a sensação que transmitiria. Naquele momento eu voei, fui a alguma dimensão e quase me esqueço de voltar. Como um simples toque pode te transportar para o além? Ah, quase me esqueço de contar, não me lembrei de levantar os pés [...]
     E de repente, um simples toque marcou minha vida, ali mesmo, no primeiro dia que fui de encontro a sua boca. Continuamos a nos encontrar e matar aquela vontade de sair do chão. Conforme o tempo passava, um frio em minha barriga percorria todas as aberturas do meu corpo, assim, sem pedir licença. Pesquisei o significado dessa sensação e fui diagnosticada com Paixão: sentimento intenso que possui a capacidade de alterar o comportamento, o pensamento e todo o resto do seu corpo. E essa tal paixão tem efeitos colaterais? Sim! Resultado encontrado! E quais seriam os efeitos: aumento da pressão arterial, dilatação das pupilas, falta de apetite, concentração e sono.
     Paixão? Alterar o comportamento? Com esses efeitos colaterais não deve ser uma boa. mas quem liga? eu só queria um beijo seu, mas consegui me apaixonar. Essa foi a maior aventura da minha vida.
     
  • Livro das Sensações parte 1

    Um barulho forte e inconveniente chegou aos ouvidos de Júlia.

    Um som esperado, mas temido, seguido de gosto amargo na boca, arrepio pelo corpo...

    Aquelas sensações ruins que todas as manhãs a trazia impetuosamente de volta para a sua medíocre vida.

    Não estava sonolenta, o motivo de odiar tanto aquele trinnnn do despertador era outro. Ter que enfrentar sua realidade sem sal e sua vida sem cor.

    É certo que havia um pouco de masoquismo de sua parte, aquele barulho irritante poderia ser substituído por uma musica o que amenizaria aquele sofrimento agendado. Mas no fundo ela se punia pela vida sem raízes, sem sonhos, sem história.

    Desde muito cedo, Julia percebeu que lidava com a vida e suas lembranças de forma diferente. As experiências ruins eram lembradas apenas a grosso modo, e os detalhes eram substituídos por sensações: aperto no peito, gosto amargo na boca, cheiro de enxofre e...

    Uma experiência quase palpável, tão intensa quanto o fato. E isto a deixava cada vez mais distante e arredia com tudo que pudesse fazê-la sofrer.

    Se descobriu assim na infância, numa vida de privações com uma mãe muito dura e distante que morreu quando Julia ainda tinha doze anos e um pai sem escrúpulos.

    Aqueles quatro anos que viveu apenas com ele depois da morte da mãe...

    “É melhor deixar os fantasmas onde estão.”

    Um dia, o pai apareceu com um dinheiro bem suspeito. Ela viu que era sua oportunidade de fugir. Pegou umas peças de roupas, parte do dinheiro e entrou no primeiro ônibus para a capital.

    No início foi muito difícil sobreviver numa cidade estranha, mas conseguiu emprego numa loja de roupas e alugou um puxadinho, onde vivia até hoje.

    O despertador soou novamente tirando Julia de seus pensamentos. Aquele sábado seria longo e ela precisaria estar pronta para a esperada e temida noite. Levantou-se e foi para o trabalho.

    ***

    Numa rua cheia de comércios noturnos, um se destacava. A construção era antiga e sofisticada. Uma alongada escadaria dava ar misterioso à fachada. Na parede rústica, escrito com letras grandes e diferenciadas uma das outras:

    Galeria das SENSAÇÕES.

    Julia parou ali em frente e não pode deixar de pensar no pai. Desde que fugiu de casa, ficou sem comunicação com ele. Mas inesperadamente recebeu uma encomenda de uma antiga vizinha de sua família. Dentro, a notícia da morte do pai e todos os seus pertences.

    Sua vida, seu passado, sua história, tudo dentro de uma caixa de sapato. Uns documentos com as fotos envelhecidas, as certidões de óbito e um jogo de chá novo, que Julia lembrava muito bem, foi ganhado de presente da única tia que soube existir, irmã de seu pai. Foi visitá-los uma vez, visita rápida. Ficou sentada reparando perplexa na casa simples. Rica e prepotente, deixou algum dinheiro e aquele presente destoante da realidade.

    Nunca foi usado. Julia perguntou o motivo à mãe, que respondeu:

    “Vinho novo em odre velho, estraga o vinho.

    Vinho velho em odre novo, estraga o odre.”

    Na época, ela não entendeu, nem esqueceu. Mas agora com aquele jogo na mão, entendia. Pra sua mãe aquelas xícaras mereciam um café melhor, uma casa melhor, uma família melhor. Na verdade o vinho não era digno do odre.

    - Nós não éramos dignos do jogo de chá, nem das meninas da cidade, nem dos vizinhos. Por isto não nos relacionávamos com ninguém, estragaríamos o vinho.

    O isolamento e a sensação de inferioridade ainda acompanhavam Julia. Tinha medo de se aproximar das pessoas, nenhum namorado que fosse, nem um contato mais íntimo com ninguém. Apenas uma amiga, Anna, e mesmo assim porque ela era atrevida, entrava sem ser convidada. Escolheu Julia para amiga e nada mudaria isto. Ela se dava muito mais que recebia naquela amizade, mas aceitava numa boa.

    Se privar nos relacionamentos era uma herança que Julia ainda carregava, apesar de odiar. Agora as xícaras estavam ali intactas e a mãe morta. Teve vontade de jogá-las contra a parede, mas se conteve.

    Junto com a caixa um envelope lacrado destinado a seu pai, era um convite para a inauguração de uma galeria de Andrea Vicentine - a filha da tia que deu o jogo de xícaras.

    Um grupo de adolescentes rindo, falando alto enquanto andava pela rua, trouxe Julia de seus pensamentos. Olhou de novo para a galeria.

    “Minha única parenta viva, meu elo com o restante da humanidade. Sem ele, sou uma forasteira em um planeta estranho.”

    Apesar de não saber se tinha feito bem em vir, estava ansiosa para entrar. O lugar era atrativo, mas o medo crescia dentro dela.

    “Sensações em caps lock.”

    Fechou os olhos e uma enxurrada de emoções passou por ela deixando-a ainda mais amedrontada.

    Com as pernas trêmulas decidiu entrar e verificar pessoalmente o causador de sensações tão destacadas.

    Mulheres de vestidos longos finíssimos e saltos agulhas desfilando elegância e riqueza pela escadaria fez Julia se lembrar de verificar sua aparência. Deu uns passos atrás procurando por sua imagem na vitrine de uma loja ao lado. O espelho refletiu uma mulher adulta de corpo definido, bem diferente da menina de dezesseis anos, magricela e com olhar amedrontado que chegou àquela cidade. Ma focando nos olhos, encontrava guardado aquele ar selvagem amedrontado e frágil da menina.

    - No fundo nada mudou, adolescente num corpo de mulher.

    Disse Julia pra si mesmo enquanto arrumava o cabelo.

    A aquela altura estava arrependida de ser tão distraída com a própria imagem. Usando um vestido floral, sandálias rasteiras, brincos médios e batom discreto, estava bonitinha, pronta para um passeio no parque, num domingo à tarde. Mas para uma festa daquelas...

    Sua prima era com certeza muito rica, o lugar era imponente, luxuoso e estava lotado. Por dentro era ainda mais atraente, beleza contrastando sofisticação e simplicidade; rústico e brilho, nude e vivacidade.

    Era um centro de vendas e exposições, onde se encontrava de tudo, restaurantes, lojas, centro estético, artes das mais variadas formas..., Julia nunca tinha visto nada parecido.

    Apesar do medo e tensão, tentou relaxar e curtir a noite com promessa de grandes experiências.

    Por um momento desejou que Anna estivesse ali para partilhar com ela aquela experiência.

    A livraria era futurista e os livros expostos de forma que pareciam voar. Julia pegou um que estava nos destaques. Grosso, capa áspera e escrito em alto relevo, letras lisas contrastando com a textura da capa: Livro da sensações.

    Ela saiu à procura de um cantinho para olhá-lo melhor e uma estante lhe chamou a atenção. Uma variação da luz por alguns segundos lhe deu a sensação de ter visto uma falha na parede. Detalhista como era, se aproximou e olhou mais de perto e percebeu um remendo, como se a parede estivesse inacabada. Aproximou-se ainda mais. Não havia parede, eram apenas cortinas de um material resistente, que deslizavam abrindo passagem para outro ambiente.

    “O permitido e o proibido definido apenas pela luz...”

    Julia estava perplexa, esperou um momento que ninguém estivesse olhando, passou por traz da estante, correu a cortina e chegou ao restaurante.

    “Em que mundo estou?”.

    Continuou por toda a galeria entrando de ambiente em ambiente.

    Estava pasma como os ambientes mesmo sem paredes eram personalizados, luz, cheiro, ventilação, tudo característico proporcionando sensações totalmente diferenciadas.

    Aquelas trocas tão rápidas e drásticas de sensações deixou Julia meio atordoada. Atravessou a parede para o lado, na vertical e se deparou com um local grande e arejado. Era um galpão, rústico e mal acabado.

    Assim era de fato a galeria, o resto era artifício para manipular os sentidos.

    “E conseguiram, lugar mágico, atraente e misterioso.”

    Julia olhou pra cima e viu que as telhas eram móveis e estavam abertas, permitindo que a brisa noturna trouxesse ventilação natural. Por isto, apesar de ser um ambiente fechado, estava bem arejado, sem a artificialidade do ar condicionado.

    Explorou todo aquele espaço. Quando ouvia passos de alguém, se escondia. Era interessante ver toda a galeria ali da área de serviço, era como ver o espetáculo pelos bastidores, sem luxo, e muito trabalho.

    Os funcionários que lá fora sorriam como que em um mundo encantado, simplesmente perdiam a magia ao atravessar aquelas cortinas, e as princesas davam lugar a gatas borralheiras, com aparência de cansaço. Cansadas certamente do teatro que eram obrigadas a representar lá fora.

    Voltou para o ambiente dos convidados e foi até os banheiros. Numa das portas estava escrito "banheiro quebrado, não entre".  Mexeu nas cortinas, e estas se abriu como se estivesse num conto de fadas.

    “Que perigo”

    Pensou enquanto entrava.

    O banheiro era enorme. Se sentou num canto quase deitando-se, sem nem se preocupar com o fato de estar num banheiro. O peso do livro já estava fazendo doer seus braços.

    Apreciou por mais um tempo a capa do livro, e depois o abriu. Uma onda de sensações levou Julia para aquele ambiente imaginário... a textura da folha, o cheiro, a cor, tudo atraia-a para o mundo do personagem. Chamava-se Rodrigo.

    Começou a ler.

    Estava mais que só sentindo, ela vivia o que Rodrigo vivia, aliás, ela se relacionava com ele.

    Sentia-o a meia luz, alto, moreno, atraente, sussurrando aquelas coisas lindas e provocantes ao seu ouvido.

    -Meu Deus, que livro é este!

    As palavras eram reduzidas, mas recheadas de emoções. Cada vez que virava a folha, mudava o sentimento, e com ele também o cheiro, a textura, a cor, e uma nova emoção tomava conta de Julia.

    Era transportada para outro mundo, como se estivesse com ele na praia, fechasse os olhos e abrisse numa festa, e depois num jantar a luz de velas, diante de um perigo eminente e em tantas outras experiências que era melhor nem dizer.

    Às vezes ela sentia o coração batendo forte, a respiração ofegante, as pernas trêmulas..., ela já não diferenciava seus sentimentos dos sentimentos do personagem.

    O medo, a fome, o desejo, a paixão eram dela, como se tivesse roubado do personagem. Ou seria o contrário. A verdade é que Julia estava se sentindo viva como nunca, capaz de amar, desejar, se entregar...

    -Chega!

    Continue lendo no próximo post:
    Livro das sensações- parte 2
  • Nas dunas santificadas de Alá, o Poderoso e Santo


    Lendo as dunas do deserto

    Olho para o céu emocionado.

    Aqui vivereis mil anos ao meu

    Lado, e aqui a seu lado eu viveria

    Mil anos acordado.




    Que símbolos misteriosos

    Poderiam ocultar a beleza

    Que Alá faz raiar dessas areias

    Onde o Egito nasce pedregoso 

    Árido e belo com imensos desertos

    Onde minha alma pousou minha boca

    Em seu coração de mariposa ?




    Mil anos aqui viveria

    Até acordar para te encontrar.

    Juro por Alá e pela espada Santa

    De Maomé :




    Se tiver que nascer mil vezes

    Aqui quero nascer




    Se tiver que morrer mil vezes

    Aqui quero morrer.

Autores.com.br
Curitiba - PR

webmaster@number1.com.br

whatsapp  WhatsApp  (41) 99115-5222