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primeiro beijo,

  • * Prazeres "quase" eternos

    Nos refletores, cores variadas explodindo em feixes de luzes ricocheteando os globos espelhados posicionados estrategicamente no alto do salão, infundia em cada um dos presentes, um misto de sensação cada vez mais agitado, frenético, dançante e prazeroso no expressar já movimentado dos pés sobre a pista de dança. “Que tanto de gata! Vamos praticar os passinhos? Marcos Hayashi era impulsionado pelos amigos em provocações já imersas e sequestradas pelo ritmo das músicas, vibrando neles, pensamentos, atitudes e comportamentos mais ousados que em um dia normal. “ Putz! Há tantos anos frequento esse espaço e nunca encontrei alguém que realmente valesse a pena!” Com o olhar viajando pelo ambiente, ele suspirava silencioso entre um e outro ressentimento, copo de cerveja à mão, acompanhando apenas com os olhos o grupo incompleto se enfileirando no centro, iniciando os passos exaustivamente praticados no fundo do galpão da fábrica. Conforme a música se desenvolvia e a provocação do ritmo abastecia a eletricidade dos corpos, a galera ao redor ficava cada vez mais agitada com gritos perenes, excitada pelos movimentos frenéticos de pés, mãos, troncos e cabeças metodicamente sincronizados entre os eles, perfeitamente expressando rostos já corroborados de sentimentos de aprovação por causa dos aplausos que recebiam. “ Galera, hoje não irei participar! Marcos sorria um sorriso desanimado partindo solitário para o segundo piso, após ter negado o convite quase obrigatório de estar ali, juntamente com eles, participando da coreografia que a alguns anos o clã  utilizava como “isca” para “pescar” novas garotas. Subindo as escadas, a alma tateando aqui e ali através de olhares trocados, contraditoriamente ele adentrou a sala reservada aos namorados, e como todas às vezes que se sentia entediado, caminhou lentamente atravessando o corredor sobrepujando uma parede esverdeada, onde após a grossa coluna de concreto, alguns banquinhos isolados construíam uma aura maior de privacidade no ambiente. Já sentado, o líquido embriagante sobre a mesa ao lado de um maço de cigarros amarrotado, ele ficava ali, o olhar perdido no horizonte dos sons, das cores e dos corpos agitados de desejo lutando contra a ansiedade e o receio de “porventura” voltarem desacompanhados após a farra.
    Como nas noites que velhos sentimentos voltava a atormentá-lo, ele retirou o pequeno livreto do bolso, capa azul de camurça, onde estava escrito em letras desgastadas e douradas o título: MAKTUB (Está escrito!) Com o rosto mergulhado vasculhava página por página, a fumaça do cigarro insistindo adentrar as pálpebras mas impedida pelo piscar frenético dos olhos, seu dedo finalmente encontrou a dobradura no cantinho que denunciava o papel amarrotado, sujo e amarelado pelas constantes releituras das letras. “O pior pecado do mundo é o arrependimento” Lia e relia em voz alta a frase que a tantos anos exercitava os músculos da língua e da mente, entremeando os pensamentos, devorando horas de suas horas por busca de significados diferenciados entre os inúmeros que se pôs a refletir em algum canto do apartamento. “Não acredito que estou vendo você aqui!” Era uma voz feminina e sensual, reconhecida no desabrochar da infância até a puberdade precoce, que acompanhou o Marcos menino nas ruas, nas praças, nas lanchonetes, na escola e em cada cantinho de casa quando imprudentemente esquecidos ali por ambos os pais. “ Linda Harumi! ” Em um sobressalto, os olhos não podendo esconder o impacto daquela presença, ele ficou vislumbrado com a beleza que agora encorpava a menina manhosa, delicada em gestos e nos protestos, a raquítica especial que insistia a tantos anos estimular antigas lembranças, povoar suas memórias, sempre o incomodando em desejos impossíveis de serem esquecidos. “ Há quanto tempo você está no Japão?” Já sentada e o encarando, Linda perguntava curiosidades ouvindo atentamente não mais se atendo a fisionomia do rosto dele, nem incomodada pelos olhares à volta a devorando de cima a baixo, mas no movimentar contínuo e singelo daqueles doces lábios que, na adolescência, tanto deliciou em beijar. “Estou à três anos no Japão! E você?”  Marcos respondia suas perguntas com o semblante amendoado e carinhoso, lutando com os olhos na verdade, mas não conseguindo se desvencilhar das curvas, das formas, da silhueta formosa ainda que na penumbra do ambiente levemente já esbranquiçado pela fumaça branca liberando um odor agradável que subia dos motores elétricos posicionados nos quatro cantos da pista de dança.
    Como água represada à anos, ambos assim ficaram, os olhos dele encarando sutilmente os olhos dela, ela tateando resquícios de percepções diversos nele, mas ambos simultaneamente impulsionados a encontrar nos diálogos; um sentimento comum impregnando as palavras, ladeando o pausar das resposta involuntárias, ou suspenso em algum movimento inconsciente que porventura denunciasse em gestos, em olhares, em suspiros inaudíveis que eles ainda se desejavam. “ Cheguei à três meses... é tudo tão diferente…  não sei se vou conseguir me acostumar!” Buscando refúgio no calor corporal que, paulatinamente se alastrava para a singeleza do rosto, Linda Harumi intercalava sorrisos com desvios de olhar, e ele, devolvia o sorriso envelopando com eles, promessas protetoras de alguém um pouco mais acostumado com toda aquela loucura, com todos aqueles trejeitos, com todas aquelas esquisitices de país de 1º mundo.  Finalmente chegava a pausa de descanso do DJ que, com as mãos doloridas, posicionou um LP enquanto os casais apaixonados iam se formando aos pares. “Se precisar de alguma coisa, pode contar comigo...” Ele se levantou da mesa, e estendendo carinhosamente a mão em sua direção, a convidou para descer até a pista de dança ao som romântico de Mariah Carey...
    “You look into my eyes
    And I get emotional inside
    I know it's crazy but
    You still can touch my heart
    And after all this time
    You'd think that I
    I wouldn't feel the same
    But time melts into nothing
    And nothing's change…”

    Já abraçados, as mãos de Linda suavizadas sobre os ombros seus ombros e as deles circundando firmemente sua cintura, por um momento ou pelo tempo que durou a música, toda uma torrente de sentimentos acumulados e represados ao longos dos anos passados, arrebataram suas almas: vieram as lembranças das promessas joviais expressas em beijos singelos e demorados, das fugas entremeio as festinhas que aconteciam na vizinhança, as travessuras, os receios, e a intranquilidade pelo possível flagra ao pé da porta que avultam ainda mais em sentimentos sinceros, crescentes, genuínos, se apossando cada vez mais do coraçãozinho de ambos na pré-adolescência. “Nunca consegui te esquecer!” Marcos proferia confissões acaloradas ao pé do seu ouvido, a respiração de ambos ficando acelerada, diminuindo cada vez mais o espaço entre os corpos no apertar dos abraços não tão sutis, seduzidos cada vez mais pelas passagens românticas da música. “ Ah Marcos… eu também não … “ Ela respondia os gracejos já se sentindo segura nas palavras, o queixo angelical repousado sobre o ombro dele, deixando a doce fragrância do perfume nos cabelos embriagar cada vez mais o olfato do recém amor reencontrado. “ Parece que foi ontem....”  Refletiam no conforto do próprio silêncio, os passos alternados; dois para lá, dois passos para cá, e a canção anestesiando os corpos da tensão do dia, adocicando pensamentos diversos, enternurando emoções antigas, revirando no fundo do baú dos sentimentos até encontrar o ‘’amor descontinuado’” ainda fibrilando pulsões, latejando sensações, emergindo na epiderme do ser resquícios do prazer de uma vida a dois interrompida, impossível agora, pela força do destino ou pelo acaso do reencontro de almas que se procuravam, permanecer vivo somente nas lembranças.
    “Não vai nos apresentar ?” Logo ao final do repertório romântico, os amigos se aproximaram expressando arfadas, suspiros e golfadas de ar intercaladas, provocando ciúmes ao colega que, diante daquela beldade, o julgava um cara sortudo. “Essa é a Linda!" Apresentava a acompanhante ao seleto grupo de amigos em círculo, desejando naquele espaço de tempo ter dito “meu amor” ao invés de “minha amiga”, dando-lhe um beijo singelo na bochecha, enquanto permitiu que ela fosse fuzilada por perguntas vindas de todo o grupo. Ela respondeu todas as perguntas buscando sempre apoio na presença ao seu lado, as palavras entrecortadas por gestos, por olhares, por suspiros acompanhados de uma entonação amanteigada na voz, e a todo momento direcionando o olhar para aquele que a abraçava. “ Vamos reunir a galera amanhã na estação. Você vem?” Convidaram. “Não vou dar certeza pessoal... Eu e a Linda acabamos de nos reencontrar e talvez tenhamos outros planos para amanhã...” Franzindo os olhos, Marcos a encarava com ternura em rabos de olhos desconfiados, receoso por ter ultrapassado por assim dizer, algum limite dela, na resposta espontânea que deu ao amigo. No relógio central localizado no alto do chafariz da praça principal, bateram duas horas da manhã quando todos se despediram em frente da casa noturna denominada B’One com o frio cortando porta afora, cada um seguiu esgotados e satisfeito em passos apressados na direção do ponto de ônibus. “Aonde te deixo?” Marcos Hayashi perguntava já sentindo saudades, conduzindo-a rumo à estação do metrô subterrâneo enquanto Linda Harumi momentaneamente muda, sorriu envergonhada, com o rosto mais corado que o normal. “Me leva pra sua casa?” Ressabiada e com os olhos miúdos enterrados em sua direção, como uma cadelinha sem dono ela apertou ainda mais o braço encadeado ao seu. Por um instante de momento, com a mente de Marcos  sendo pega desprevenida viajando em devaneios passados, ficou mudo.  “Se você quiser é claro...” Ela reforçou o auto convite com a face insegura e envergonhada,respeitando as próprias pausas respiratórias do ar gelado adentrando as narinas, concentrando o seu olhar a partir dali, nas leituras de uma "aura" agora desperta, emitindo paulatinamente um brilho mais incandescente que antes.
    Após apearem do táxi, ambas as mãos roçando a pele em toques singelos, finalmente seus dedos se entrelaçaram. “Nem em mil anos poderia ter imaginado reencontrá-la...” Marcos Hayashi comemorava em silêncio, a respiração ficando ofegante, e a imaginação a mil enquanto conduzia com doçura Linda Harumi já na entrada do pátio. “Cuidado com o degrau princesa!” Advertia carinhoso, controlando em pausas a excitação se avolumando na mente, enquanto admirava de rabo de olho a silhueta formosa revelada na penumbra da noite. “ Haha! Princesa? Nossa! Estou adorando esse seu tratamento VIP!” Ela subia lentamente cadenciando os passos, a lanterna do celular Iluminando o caminho, enquanto se esforçava para apaziguar o vestido florido, rebelde ao corpo, totalmente agitado com as rajadas de ventos vindo em ambas as direções. Dentro do apartamento N° 404, já protegidos da tortura congelante que ficara de fora, em um impulso logo eles se aqueciam abraçados. “Precisamos de um banho!” Linda se antecipou em falar, para logo em seguida, às pressas, corrigir o possível mal entendido sublimado nas próprias palavras: “ Quero dizer que eu preciso tomar um banho…” Energias inocentes estas, entremeando suas falas, passando a vibrar insinuações sensualmente mais provocantes na libido de ambos. “ Sim, claro! Vou pegar um roupão para você…” Suspirou.
    Foi uma “puta grosseira” de um prostíbulo localizado no centro de uma cidade chamada Omya que anos atrás “roubara” a virgindade do inexperiente Marcos. Entre as “estocadas inseguras” ora ela folheava uma revista, outrora retocava a maquiagem borrada, mas sempre e compulsivamente recontando o dinheiro adquirido que escondia entre cobertores inundados de suor. Com as pernas arregaçadas, recebendo as idas e vindas frenéticas que estremeciam toda a extensão do seu corpo judiado, ela não se esforçava para esconder a má vontade do “ fazer ” expressado nos suspiros tediosos que bufava, nos olhares indiferentes carregados de desprezo, e principalmente na falta de educação que denunciava o cansaço da “ labuta exagerada ” que mulher alguma nunca deveria se acostumar. Dentro de uma cabine 3x1 mal iluminada, com homens e alguns jovens atrás da porta em fila ansiosos para adentrar, foi que Marcos Hayashi aos 16 anos de idade iniciava a traumática vida sexual que, dali pra frente, viciava sua carne, mas violentava inevitavelmente a sua alma. Agora Linda Harumi estava ali: lindamente provocante, insinuante em gestos inconscientemente diretos, arrebatada por desejos de compartilhar com ele, o abecedário completo do prazer quando é deliciosamente conjugados nos verbos: dar e receber amor. Mas Marcos respirando resquícios dessas mesmas frustrações passadas, instintivamente se fez de desentendido, corou nervoso, e insinuando à tarefas esquecidas, ele desprezou momentaneamente os clamores desesperados da sua faminta carne. “ Está com fome? Que acha de eu preparar um lámen pra nós!” Dizia partindo para a cozinha, lhe entregando um roupão amarelo, enquanto Linda envergonhada pelas recentes falas, fechava a porta do banheiro confusa. “Fiz besteira… como você é oferecida garota!" O quê ele vai pensar de mim?” Ela naufragava em perguntas confusas, tirando a roupa vagarosamente, e em paralelo, procurando defeitos em frente a um espelho que revelava seu físico, mas não as angústias brotando da sua alma. “ Burra, burra, burra...” Balançada pelas próprias condenações, ela achava repouso apenas na batida quente das águas que, inundando suas costas, descia suavemente ladeando e abrangendo as curvas acentuadas das nádegas.
    Na cozinha, segurando uma faca afiada na mão, Marcos Hayashi preparava entre um suspiro e outro, os ingredientes que comporiam o preparo do alimento à base de massa: o kombu, o niboshi, ossos de carne, shitake e um pouco de cebola. Mantinha o pé segurando a porta da geladeira entreaberta para alcançar com a mão um par de ovos mexidos que quando quebrados, caiam na água fervente, diluindo e empedrando ao mesmo tempo. “ Que vontade de estar lá, tomando um banho quentinho, agarradinho com ela... ” Dizia degustando os pensamentos vindos do demoniozinho sibilando em seus ouvidos, os seus olhos revirados ao teto, já sentindo no corpo as velhas tremuras do prazer.

    “Mas ela não é como as outras que eu  comi...” Deu o veredicto final, se concentrando no tempero, despejando as verduras picadas na panela enquanto o macarrão duro amolecia aos poucos, no compasso das mexidas da colher de pau. O cheiro do lámen proporcionado nos vapores que subiam em espiral até o teto, seguia o fluxo do ar sorrateiro que entrando pela abertura da janela da sala, alcançava e engolia todos os ambientes do apartamento. “Que cheiro delicioso! ” De repente, Linda, a passos lentos, com o roupão grudado a um corpo jorrando vapor pelos ares, despontou silenciosa na porta da cozinha, e encostando no portal contemplava-o enquanto penteava com os dedos seus longos cabelos umedecidos. 

    Sobre a mesa, os tchawans esperavam virados de cabeça pra baixo bem ao lado dos hashis de madeira recém tirados de uma embalagem. Para acompanhar o preparo; shoyu, pimenta e um pouquinho de kurikake que era jogado sobre o arroz cozido sem um pingo de sal. “ Linda, use o meu quarto para se trocar! ” No quarto, já sentada sobre a cama, Linda Harumi vasculhava com olhos nervosos resquícios que porventura indicassem alguma pista, alguma mancha, cheiro ou algo que confirmasse que alguma presença feminina havia passado por ali. Não encontrou nada. Apenas fixado nas paredes, três pôsteres de tamanho 2x1 “embelezavam” o ambiente pouco iluminado, gerando um frenesi louco de imagens retiradas de revistas hentais (pornô). Em cada cenário, mulheres nuas em  poses extravagantes e sensuais, revelavam as próprias “curvas” sem nenhum pudor. Por exemplo, na parede frontal, estampado estava a imagem de uma loira estonteante: só de biquíni e agachada de costas, ela segurava uma bola de basquete, glúteos quase ao chão, o rosto virado pra trás oferecendo um sorriso lindo carregado de provocação. Na parede lateral à esquerda, bem ao lado de uma estante montada de ferro encaixáveis, o segundo quadro apresentava uma morena escultural em meio à mata: sentada sobre uma grande pedra, as pernas entreabertas, o dedo indicador da mão esquerda passeando os lábios volumosos em um olhar inocente, subliminarmente convidativo ao prazer. À vista ficavam os seios fartos, as coxas grossas, a barriga bronzeada, e o sexo totalmente à mostra, sendo ladeado carinhosamente pela pontinha dos dedos da mão direita. Por último era a ruiva emoldurada no cantinho especial do quarto, por cima de uma escrivaninha coberta por livros e algumas revistas de sacanagem organizadas metodicamente em fileiras que faziam divisa com um porta canetas de aço. A terceira beldade estava suspensa sobre uma máquina de escrever antiga que, há alguns anos, Marcos Hayashi vinha dedilhando alguns poemas apaixonados. “Assim você acaba comigo guria!” Era exatamente assim que ele em seus devaneios frequentes, repetia sua confissão sem se cansar, sozinho no banho ou debruçado sobre a cama, devorando a imagem nua com olhos famintos enquanto arregaçava o “membro endurecido” salivando de desejo, saltitante na palma da mão. “ Nem consigo trabalhar amanhã ” Desejava-a com a boca, os pensamentos soltos e encravados em cada pedacinho do corpo dela: nos lábios carnudos insinuantes no movimentar da língua aos beiços, nos seios fartos carregados de uma volúpia descomunal que refletindo o rosado dos bicos pontudos expressava ainda mais a brancura da pele sedosa, na bunda redondinha, formosa em formas, empinando convites a deliciosas cavalgadas aceleradas, e por fim, na cerejinha do bolo, o gran finale, representado pelo sexo depilado, acentuado pelas marcas de um biquíni ausente, deliciosamente pronto para ser consumido a exaustão. Gemendo sempre baixinho acompanhando o movimentar frenético do vai e vem dos dedos cerrados, ele não deixava que nada passasse despercebido à sua mente, sempre voraz a tudo que, dependendo da quantidade dos pixels da imagem estática, pudesse ser deliciado.
    Deslumbrada com a beleza das imagens, no entanto visivelmente perturbada com a rivalidade que elas representavam, Linda Harumi ficou por um breve espaço de tempo às encarando de frente; o olhar empoderando, a respiração firme e pausada na postura ereta do corpo que anunciava ali, algum tipo de futura batalha. “O reinado de vocês, suas piranhas, acaba aqui!” Dizia em falas esquizofrênicas, relaxando os ombros e as costas, sentindo-se mais leve, mais segura e liberta nas recentes palavras que expurgaram algum tipo de mal inconsciente. Em seguida, após vestir um moletom acinzentado, procurou na gaveta inferior da cômoda alguma meia que pudesse calçar. “Será que é o diário dele?” Lina Harumi manuseava um caderninho capa de couro, cor vinho envelhecido, com o tempo de uso já considerável, sem anotações externas que denunciassem algum tipo de função. Abri-lo sem ser descoberta era impossível. Trancado pelas bordas, um pequeno cadeado dourado garantia que o conteúdo das páginas, seja lá o que for que estivesse escrito, ficasse totalmente inviolável, definitivamente inacessível a olhares curiosos. 

    “ O lámen está pronto... ” Sobre a mesa, com os olhares timidamente trocados, eles se sentaram lado a lado, talheres à mão, servindo da panela à frente, deliciosa e convidativa aos olhos no saciar da fome acumulada, expressada nos roncos sugestivos do estômago que horas atrás vinha reclamando como cachorro louco. Dizendo “Oishi!” em japonês, Linda agradecia a Marcos Hayashi com a boca cheia do macarrão, ora suspenso sobre as duas ferpas do hashi que, enfiado entremeio aos fios, lutava para manter-se firme e ancorado aos dedos. “Vamos ouvir uma música?” Retirando o CD da Roxette do estojo, Marcos o encaixou cuidadosamente no compartimento do aparelho eletrônico, girando o botão do volume até que a canção Listen To Your Heart, já audível em som ambiente, começasse a tocar:

    “I know there's something in the wake of your smile
    I get a notion from the look in your eyes, yea
    You've built a love but that love falls apart
    Your little piece of heaven turns too dark…”

    Finalizado o jantar, eles se sentaram na sacada do apartamento. Com o coração mais acelerado, a respiração ofegante em ciclos se alternava de acordo com a temperatura no interior do edredom enroscado em ambos os corpos à convites de contatos mais aflorados. “A lua é linda!” Ouvia-o dizer poemas ao pé do ouvido, aveludando as palavras, e com o olhar amoroso, Marcos ajustava o tom da voz na altura perfeita que não atrapalhasse a melodia de amor que continuava entoando vibrações carregadas de candura a partir do aparelho na sala.

     “ Eu a perdi uma vez…” Marcos ditava promessas que insistia que iria cuprir a ela, o seu olhar ficando sério, apertando seguidas vezes um chumaço do edredom felpudo que ia reduzindo cada vez mais o espaço entre os dois corpos se ardendo de desejo no resvalar nada sutil dos toques eletrizados. “Ah mas éramos apenas dois jovens apaixonados...  Enroscada ao seu peito e com a ponta dos dedos, Linda identificou uma estrelinha sob a lua, reluzindo seus raios cintilantes na penumbra da noite. “ Vamos compensar agora, né princesa ? Ao ouvir a energia vibrando destas doces palavras, Linda Harumi duplicou o sorriso espaçando ainda mais o espaço entre os lábios, agasalhando no coração de mulher sensibilizada com o cenário, as doces seguras palavras recém-ouvidas ao pé do ouvido. “ Podemos sim e vamos! ” Marcos Hayashi reforçou novamente os abraços, o seu semblante esmagando o dela, sorvendo com a língua o excesso do chocolate que ficara salpicado em um dos lados da bochecha. O carrossel girando no aparelho de som, por fim alcançou o último CD posicionado e, no compartimento sobre o laser, posicionou a música romântica La Solitude de Laura Pausini:

    “Marco se n'è andato e non ritorna più
    E il treno delle 7:30 senza lui
    È un cuore di metallo senza l'anima
    Nel freddo del mattino grigio di città
    A scuola il banco è vuoto, Marco è dentro me
    È dolce il suo respiro fra i pensieri miei
    Distanze enormi sembrano dividerci
    Ma il cuore batte forte dentro me”

    Ali, sobre o luar, os rostos corados levemente sendo iluminados, eles deram o primeiro beijo de amor que, dali pra frente, selaria o reinício da relação iniciada na adolescência. Debaixo do cobertor, ora os corpos se fundindo nos abraços apertados, outrora as mãos soltas à vontade brincando apalpadelas entremeio ao vácuo, deixava a pele toda eletrizada, desejosa por mais, carregada de uma ânsia insaciável por toques mais acalorados. “  Sou toda sua amor!” Linda Harumi se jogou sobre seu corpo, o olhar levemente ficando devasso, se distanciando rapidamente da timidez inicial, incentivada ainda mais pelo alastrar da ardência úmida no enroscar frenético das duas línguas. “ Vem cá... não foge! ” E ela o segurava em suas falsas escapulidas, ambos os sexos estimulados debaixo da roupa, a sua boca carnuda toda enlouquecida, desejosa por mais, naufragando em um mergulhar cada vez mais profundo dentro dos lábios do amado.

    Linda se entregava sem economias, excitada pela voracidade dos beijos contínuos, pelo calor tempestivo gerado nos abraços mais apertados, mas sempre e paulatinamente testemunhando o desnudar do próprio corpo no avultar nada sutil de dois olhos incinerados. Ainda que se sentindo sequestrada pelo desejo de satisfazer a ele ou mesmo ansiando querer mais pra si dele, ela permanecia totalmente entregue diante das investidas sequenciais, palpáveis, ou gustativas, não interrompendo as preliminares nem diante das tão necessárias golfadas de ar. “Fica louquinha pra mim, fica princesa?” O amado balbuciava para uma mulher cada vez mais perdida nos próprios sentidos, a cabeça emborcada para o lado em desprezos dos cabelos sobre o ombro, permitindo com estes submissos atos, uma passagem mais convidativa ao prazer, carregada de provocações eróticas, aprisionando parte dos desejos de Marcos focado na consumação exacerbada da pele nua em volta do seu exuberante pescoço. “Ai que tesão...” Sem piedade Marcos caia esfomeado, o pensamento acelerando o palpitar do coração nos gemidos crescentes ao pé do ouvido, beijando a pele dela com carícias provocativas no passear sensível junto aos lábios, em suaves mordidas no lóbulo inchado de desejo, seguido por intercaladas enfiadas da língua no fundo do orifício do ouvido. “Hum, já estou tão molhada...”. Excitado, Marcos finalizava o ciclo degustativo com chupadas mais sedentas que as iniciais, sua língua serpenteando roxeões à flor da pele, notórias a ver de longe, afogando cada vez mais a libido de ambos no desejo louco de adentrarem o próximo estágio.

    Grossas nuvens formando no horizonte, e o próximo estágio acontecia estritamente às apalpadelas aprofundadas, a mão de Marcos adentrando o moletom de Linda, a pontinha das unhas arranhando suavemente a lateral do dorso dela, a deixando toda arrepiada, louca de desejo por ele que, suas mãos subindo o sutiã, não saia dali, até vencer o adversário empacado, o fecho não sincronizado com o tesão arrebatador que há muito tempo já engolia os dois. No concentrar mental entre as pausas para a respiração, finalmente o fecho se abriu, os sorrisos antes abafados coloriam mais o rosto, as mãos resfolegantes por tatear tanto, finalmente degustavam toda a volúpia de um par de seios extremamente fartos. “ Também estou pegando fogo...” Marcos Hayashi advertia sem parar e ela ficava cada vez mais excitada nas carícias, nos afagos, no movimentar da pontinha do dedo pressionando levemente os bicos dos seios e os deixando mais inchados, entumecidos e desesperados por mais. “Agora desce um pouquinho...” Em seguida, como um cachorrinho bem adestrado ele fielmente obedecia, descendo ao ventre chapado, passeando os dedos na extensão da virilha, estacionando nos pelos pubianos macios e escassos, ora puxando-os levemente como se quisesse arrancá-los, outrora massageando por cima como uma mãe amorosa acariciando os cabelos do filho.

    Ali na virilha, a calcinha apertada denunciando tatilmente a umidade do sexo vazando o exterior do tecido, os dedos dele ficaram mais agitados, mais sedentos, mais ansiosos por causa do ritmo pulsante do sangue que, circulando com maior rapidez nas têmporas da testa, aumentava cada vez mais a pressão sanguínea dentro da cabeça. “Que bucetinha molhada..." Assim, narrando seus laboriosos atos, Marcos começava devagarinho, acariciando o clitóris em movimentos suaves, às vezes frenético no enrijecer dos dedos, mantinha estes movimentos por alguns segundos, depois voltava a ladear os lábios de cima a baixo, arregaçando a abertura da vagina, sempre com o extremo cuidado de não feri-la com as unhas. Na entrada do orifício, com o desejo sexual alimentando a sua sensibilidade criativa, Marcos Hayashi sentia o próprio “pau” ao invés de “dedos” endurecidos: indo, vindo, estacionando lá no fundo, depois voltando e entrando novamente, retornando a ladear os grandes lábios como no início, saboreando assim, devagarinho, palmo a palmo, toda a  densidade cavernosa daquele sexo encharcado.“ Que vontade de chupá-la...” Diante de um par de olhos se cerrando, ele retirava e adentrava os dedos do orifício, e com a viscosidade fazendo ponte entre o indicador e o polegar, abocanhou os dedos com uma tal voracidade, que a deixava ainda mais excitada.

    Era de se esperar que a chuva logo caísse do céu já tenebroso, anunciando o prelúdio que viria através das trovoadas que estremeciam os carros estacionados, os latões de lixo, os postes de ferro mal posicionados, os corrimões das escadas e seus parapeitos, as paredes de alvenaria, os telhados, as janelas, e toda a extensão da sacada onde eles se encontravam. “ Por favor, vamos entrar?” Ela agarrava-se a ele enquanto os clarões dos raios iluminavam como flashes instantâneos os ambientes antes ocupados apenas pelo negrume da noite; as vielas pouco movimentadas, o sombrear das árvores envelhecidas na entrada do pátio e os corredores dos edifícios vizinhos mal iluminados por causa da baixa potência da lâmpada. “Claro que sim! Vamos...” Ele com o olhar prestativo encadeou seus braços a ela que, sentindo o cheiro másculo exalando do seu corpo úmido de minutos outroras, agora lutava para manter toda aquela excitação incubada no seu corpo de mulher ainda não satisfeita. Caminharam até o interior da sala com os dedos entrelaçados, ambos os rostos selando-se entremeio aos beijos que aconteciam aos trotes, e quando atravessaram o ambiente, alcançaram por fim o aconchego do quarto quente, totalmente preparado ao prazer. 

    No canto esquerdo do dormitório, um abajur chinês com cúpula esbranquiçada e base em tons que se aproximavam ao vermelho sangue, estava localizado a ½ metro da cama. A partir dali, emergindo sua luzinha fraca e limitada, os feixes de luzes alcançavam apenas parte dos móveis e objetos que compunham o lugar, emergindo todo o resto do ambiente em uma penumbra amarelada que se permitia ver apenas vultos nas sombras. “Safadinho você hein...!” Dando voltas ao redor e se posicionando fronteiriço as paredes do quarto, para o provocar, ela encarava as três imagens emolduradas, arranjadas de tal forma que, a iluminação refletida diretamente nos retratos, acentuava ainda mais a beleza irradiando de cada uma das daquelas deliciosas curvas estáticas. “São só pôsteres que não significam nada...” Usando argumentos que mantinham a suavidade do clima ainda pairando no ar, ele a apertou no peito, deu-lhe logo um beijo ardente, sugando todo o fôlego que ela tinha reservado para revidar em palavras. “E eu?” Sorrindo baixinho entremeio aos gritinhos de prazer sufocado que quanto mais ela emitia, ele delirava, seu pescocinho sensível ficou totalmente exposto às carícias vorazes dos lábios incendiados de Marcos. “Você é o meu xuxuzinho!” Respondendo respostas agradáveis, ele a abraçava cada vez mais forte, temperando com humor as palavras salpicadas com ternura, emulando à partir do coração que em outros tempos estava desassossegado, o amor adolescente interrompido anos atrás, e que agora, se ascendia em envergadura e presença,  anestesiando a psique de ambos em confortos verbais e carinhos visíveis, expurgando de dentro dela, qualquer tipo de malícia que porventura instigasse a continuar se avolumando de ciúmes infantis. “Assim você me ganha!” Agora, com o ar do ambiente mantendo sua nobreza, o mesmo inspirava leveza, e impregnado das liberdades não palpáveis que tanto protegem e estimulam os amores, eles voltaram a se aconchegar nos abraços.

    A música havia parado de tocar no aparelho quando o som da chuva torrencial começou a despencar do céu. Inicialmente foram pingos pipocando sobre o telhado que, quando se avolumavam na calha, transbordavam na parede e desciam inundando as bordas janela, deixando a vidraça completamente enervada por grossos fios de água que se enraizaram. “Que fofinho !”  Retirando a calcinha rosa de Linda, Marcos a deslizava entre as pernas entreabertas, enquanto ela o encarando na direção dos seus olhos, se situava através do brilho ocular emitido graças a uns poucos feixes de luzes que ricocheteava em um espelho e jorravam entremeio a escuridão do quarto. Com as mãos segurando o objeto íntimo, ele o levou até o rosto, acariciou a própria pele como se fosse a dela, e em seguida buscou entremeio as linhas do tecido de algodão, o cheiro exalando da essência úmida impregnada no seu interior..“ Tem um odor maravilhoso ! ”  Era o que repetia antes de entrar em um transe louco que o levou a sugar todo o resquício do líquido viscoso que pairava na superfície do algodão. Marcos a elogiava lambendo os próprios beiços, passeando a língua aos lábios, acariciando o membro endurecido trincando pulos desesperados para fora da calça. Como uma mulher não enlouquecerá de prazer diante destes atos? Ver o amado se satisfazendo assim; como um cachorro doido, faminto de desejos, degustando “sabores” e consumindo “odores”, o olhar faiscando contatos mais aprofundados na pele dela, a sua boca gulosa pipocando em brasas, desejando a todo custo bebericar toda a sua intimidade?

    “ Mantenha bem abertinha para mim... ” Marcos segurava suas pernas entreabertas, enquanto descia a sensibilidade do seu rosto devagarinho, suavizando toda a extensão da pele dela. “ Tá gostoso assim? ”  Passeava a língua úmida no interior das coxas, saltitava entre elas, até chegar pertinho dos grandes lábios. Apesar do tesão implorando por extravasar, ele não adentrou por um instante. Permanecia apenas ladeando lábios e língua por fora, energizando a libido aflorada nos toques singelos na pele do seu rosto provocando a pele dela, enquanto beijos e mordiscadas suaves eram alternados rente à divisa, arrepiando Linda Harumi ainda mais no desejo louco de ter todos aqueles limites íntimos ultrapassados. “ Tá judiando demais de mim...” Linda emitia gemidos suaves, os olhos semicerrados ao céu, adocicando a voz no rebolar perfeito que poderia colocar o pingar do seu sexo, mais bem posicionado frente a lábios vertendo lavas incendiárias. Com as pernas tremulando sobre os seus lábios, finalmente Marcos Hayashi decidiu que a doce tortura chegava ao fim. “ Enfia essa linguinha lá no fundo, por favor… ” Enlouquecida nos estímulos e ainda mais sendo consumada a exaustão por uma boca esfomeada, ela desfrutava o desidratar dos próprios fluídos entremeio a uma língua louca, serpenteando enrijecida sobre o clitóris vibrando cada vez mais intumescido. O amado lambuzava os beiços, a pausa para as suas respirações sendo adiadas, a língua, os lábios, e a boca por um todo sempre prudentes na aceleração frenética que desprezava ainda mais os protestos alarmados pululantes no aperto da própria calça. Lentamente, palmo a palmo, com a língua tateando aqui e ali ansiando por absorver resquícios de sensibilidade ainda não explorada, Marcos subia e descia devagarinho, palmilhando olfatos, degustando com excelência toda a textura da pele sensível envolta da vagina. Com a pontinha dos beiços, os dentes acovardados dentro da sua boca, ele puxava cuidadosamente os lábios vaginais: ora os esticando de encontro a si, outrora soltando-os de volta, mas sempre e repetidamente voltando a esses mesmos atos de provocação, gerando dessa forma, uma tensão sexual assoberbada em gemidos cada vez mais carregados de gratidão.

    Linda Harumi suplicava a ele, e ele com a excitação expressada na face avermelhada, mergulhava cada vez mais fundo dentro dela: tateando o interior da intimidade, sentindo as fissuras cavernosas no penetrar inicialmente tímido, e em seguida perfurador da língua até o fundo, mas sempre engolindo e engolfando em êxtase absoluto cada pedacinho da sua libido transbordante de mulher lucidamente entregue. Abandonando os trejeitos ora iniciais, de súbito ele alternou o tom das investidas, antes lentas e delicadas, para em seguida se lançar com maior avidez, maior gula e uma sede insaciável na agressividade enternurada que tomava conta da sua língua. “ Uiiii, Marcos, eu estou quase gozando!” 

    Ela arfava transes carregados de extrema sensualidade; serpenteando o corpo e revirando os olhinhos para o alto, expressando nestes sequenciais atos, todos os desejos outrora reprimidos no ser e agora, expressos no mordiscar frenético das unhas aos bicos dos seios, das mãos galgando carícias em volta do pescoço e lóbulo da orelha, movimentos incontroláveis que a deixaram toda inundada, desejosa ao extremo, fielmente descabelada diante do frenesi possuidor de promessas de êxtases absolutos. “Não para que eu vou gozar!” Quando ouvia este tipo de confissão, Marcos dava brecadas propositais como parte de seus planos de prazeres quase eternos, cheios de malícias, com os lábios umedecidos se afastando do sexo temporariamente desidratado, e arrancando nesses covardes atos, protestos acalorados carregados de uma ansiedade descomunal, ainda mais expressados no rebolar ensandecido das nádegas sobre seu rosto. “ Aguenta mais um pouquinho...”  Marcos também empacava excitado, seus olhos encarando um olhar desvanecendo, mas sete segundos depois ele voltava a apertar o botão do start com mais vontade, maior voracidade e grande desejo nos lábios entremeando as pernas dela; degustando os sabores, consumindo os mesmos odores, fibrilando as velhas palpitações em um bailar nada sutil do clítoris sob a vibração mais enérgico da sua língua.

     Após sequenciais investidas assim: frustrantes e ao mesmo tempo provocantes na carne suada, a excitação de ambos novamente alcançava o nível máximo; ele voltando da embriaguez, subia até a virilha,  passeava a língua sobre o ventre dela, ladeando sempre em sentido horário ou ao contrário os biquinhos pontudos e rosados aprumados em ambos os seios. Por fim, pairava sobre o rostinho angelical e lindo levemente desfigurado pelo prazer interrompido de minutos outroras. “ Agora sente o seu gosto na minha boca! ” Marcos ia ordenando submissões e despejando na boca dela toda a essência do sexo ainda pairando sobre seus lábios, e Linda Harumi gemia mais enlouquecida, se perdendo nos cheiros, nos gostos, nos próprios fluídos a sublimando em metamorfoses embriagantes da própria sexualidade. “ Fica de quatro...” Ela totalmente turva entre os sentidos rodopiando, logo ficou de quatro, enquanto ele afrouxando o cinto da calça, tirou o jeans apertado denunciando um volume exagerado dentro da cueca box. “ Putz, esqueci o preservativo...” Expressando preocupações no semblante, Marcos ia revirando as gavetas da cômoda e do guarda roupa, o membro endurecido bailando vendido no ar, enquanto ela enlouquecida suplicava cada vez mais alto para logo ser penetrada...

    “ Te quero por inteiro… ” O provocava em palavras suavizando gemidos em seu ouvido, tentando-o com o timbre da sua voz ficando enternurada, oferecendo ali toda a volúpia dos lábios vaginais arregaçados e ainda mais valorizados no rebolar provocante das nádegas passeando sofregamente para ambos os lados. Com o rosto enterrado no colchão e a curvatura perfeita da coluna indo de encontro com um arrebitar cada vez mais acentuado da bunda, ela insistia: “ Ah! Assim não! Vem logo Marcos...”  Agora Linda ordenava em gemidos, e ele de pronto obedecia em desesperados desejos de obedecer; optando assim por deixar do lado de fora do quarto; todas as disciplinas latentes que poderiam por hora, evitar preocupações carregadas de reticências futuras, desprezando nessa forma de agir e mal calcular, quaisquer empecilhos ao prazer corroborado nas duas carnes que finalmente se esfolavam. “ Que fogo...” Em baixos sussurros e com a respiração ofegante,  Marcos sentia o pulsar do próprio sangue circulando incontrolável nas veias, enquanto ela desfrutava centímetro a centímetro conforme a consumação operava por baixo das suas operantes nádegas. “ Mete com mais vontade... ” Linda Harumi se sentindo ávida, com tamanha eroticidade mordeu o travesseiro, e com o sexo sendo arreganhado em um cravar de dedos afastando ambas as suas coxas para os lados, com as intimidades escancaradas, ela testemunhou seu clitóris tremer e vibrar em um aperto sufocante socando sequenciais intensidades por baixo das suas nádegas.

     Percebendo o seu sexo friccionar suavemente o “ ponto de contato” do outro sexo, ele com a mão esquerda apoiado sobre a bunda dela, buscava apoio para investidas mais emborcadas, perfeitamente mais bem posicionadas, realizando movimentos transversais no penetrar, ou verticais o suficiente para que os pés levemente em suspensão junto ao corpo favorecessem um ângulo melhor, um colocamento melhor, facilitando dessa forma uma postura mais adequada para que a rigidez peniana infringindo o clitóris intumescido, o esmagasse sucessivamente em todas as investidas de entra e sai. E assim foi. Sucessivamente, exaustivamente, calorosamente provocando o desejo sexual tempestivo, a eletricidade afrodisíaca se apoderando de ambos os corpos inebriados por mais, o prazer não maduro emergindo a virilha, se espalhando pelos músculos em calafrios reconfortantes carregados de promessas de devaneios altissonantes, a tensão tão estimulada nas preliminares, saldada ali, nos pensamentos não mais confundidos e muito menos controlados pela consciência já livre das prisões, liberta dos atrasos, se entregando de vez na luxúria do gozo explodindo no corpo e na alma de ambos. “ Linda! !” Ele dizia “ Marcos !” Ela respondia. Encerrando os gemidos, jogados um sobre o outro, totalmente nus e encharcados pelo deleite percorrendo os corpos, eles adormeceram. 

    Com o irromper do sol no horizonte denunciado que o alvorecer havia principiado, ambos se sentiram levemente atordoados quando no abrir da janela do quarto, golpes de ventos carregados de resquícios da neblina que havia varado a madrugada ainda insistia umedecer a camada de ar, somando-se ao cheiro das flores e das árvores, principalmente do pessegueiro plantado na frente do edifício, inundando ambos os pulmões de uma essência revigorante que rememorava antigas recordações no peito de Marcos. Ficaram por alguns instantes posicionados assim, os rostos sobrepujando parcialmente o limite da janela, avistando ao longe as montanhas, as nuvens pairando quase inertes sobre elas, e toda a vegetação limítrofe pelo alcance de dois pares de olhos encantados com a beleza do cenário. “ Que vista privilegiada! ” Ela bocejou esticando os braços outrora repousados nos ombros de Marcos, procurando a melhor posição para aproveitar a infusão dos raios solares que, jorrando ambiente adentro, aquecia parcialmente a nudez feminina refletindo um brilho mais incandescente através da pele. 

    “ Daí alguém pode te ver... ” Ele sorria sussurrando ciúmes brotados inconscientemente, para em seguida jogá-la sobre a cama, se esforçando a todo o instante para imobilizá-la com o corpo estendido sobre o dela. “ Eu quero que me vejam como vim ao mundo! ” Dando risadas golfadas entremeio a provocações acompanhadas de remelexos de quadril, Linda Harumi  brincava de se soltar até sentir o fôlego se esvair nas cócegas que recebia na sola do pé, nas axilas e principalmente na cinturinha tão sensível ao encravar dos dedos de Marcos. “Ainda não te disse bom dia meu bebêzinho lindo!” Ainda nus, eles já se encontravam enroscados, e apesar do leve incômodo apontado através do bocejar dos hálitos, logo as bocas se avançaram em um tripudiar frenético de línguas e lábios em total desconsonância com hábitos rotineiramente matinais. “Assim você acaba comigo!” Em um meneio, ele foi jogado de costas por ela, e ela já sobre ele, oferecia toda a volúpia de ambos os seios eriçando os bicos quando posicionados fronteiriço a voracidade dos seus lábios. “Mama gostoso meu bebê!”  O provocava sem se deixar penetrar, apenas saboreando os lábios vaginais passeando com eles na ponta do membro ficando endurecido, e o encharcando no mel que escorria gradualmente pela cabeça, lambuzando toda a extensão nervurada, até se acumular viscoso no limite das bolas massageadas pela delicadeza da sua dedicada mão. 

    Encarando-o no fundo dos seus olhos, carinhosamente Linda sorriu o provocando: “  Você vai ver o que é bom para tosse! Ontem a noite me torturou, agora sou eu que vou te pagar na mesma moeda! ”  Degustando um duplo prazer; tanto no proferir dessa covarde promessa quanto no vislumbre da “ dureza “ posicionada a poucos centímetros do corar do seu rosto, com o serpentear da pontinha da língua, ela umedecia os lábios em provocações contínuas e não amenizadas no olhar devorador estampado na sua bela face. " Vai me fazer gozar com essa boquinha? ” Ele deitado de costas, mantinha contínuos emborques de coluna para vê-la trabalhando lá embaixo, antecipando na mente e na carne, a colheita do prazer sexual proveniente da noite anterior que, após ter semeado exaustivamente em frenéticas labutas de língua e lábios, chegava carregado de promessas de devaneios deliciosamente ainda indefinidos.  Mas com intuito de torturá-lo, ela ficou inerte por alguns instantes, apenas encarando-o e se deliciando no desespero expressado em seu semblante: “ Hum… Esse pau vai ficar mais gostoso na minha boca!” Com o corpo tremulando da ansiedade que o revolvia em remexidas ensandecidas pelo logo aquecer de seus doces lábios, e apesar dos seus desesperados atos; ora segurando um chumaço do seu cabelo e direcionando o orifício da boca para perto do palpitar do seu sexo, outrora implorando o logo realizar daqueles prazeres já efervescendo em gemidos silenciosos e desesperados, Linda não cedeu. Desejou excitá-lo além. E assim, consequentemente o resistia realçando cada vez mais o verbalizar das suas promessas. 

    Com uma das mãos soldada sobre o sexo, com a outra ela se esquivava do desespero de Marcos Hayashi, agarrando-o pelo punho da sua mão direita, para em seguida devorar gradualmente toda a sensibilidade contida em cada um dos seus dedos. Com um biquinho beijava as unhas e dali com um sensual afastar de lábios, sua boca úmida o sorvia como se fosse uma luva em idas e vindas, incendiando cada vez mais a sensibilidade já refletida em tremulações nervosas que vagarosamente subia pela espinha dorsal dele e explodia deformando o seu rosto. Sussurrando repetidamente: “ Tá gostoso bebê? ” Ela proferia palavras aveludadas, os olhos amendoados, naufragando o silêncio ensurdecedor da manhã nos gemidos que naturalmente se misturavam com o início de uma melodia de pássaros que se iniciava no beiral da janela. “É assim que vou fazer com você!” E tornava a engolir os dedos e gemer, aumentando o ritmo ou diminuindo, alternando entre os dedos frios e secos e os deixando novamente quentes e umedecidos. “ Que sede da sua boca bebê…”  Se lançando rapidamente sobre ele, novamente ela se afogou em sua boca, beijando-o sofregamente, mordiscando seus lábios ainda anestesiados dos prazeres outroras, e de lá, escorregando de línguas entrelaçadas, ia se aventurar entremeio a roxeões esculpidos e decorados sob a pele do seu pescoço exposto.

    Mas de forma alguma ela se distraia do membro ainda tremulando abaixo, e paralelamente enquanto se deliciava descendo os lábios na caixa toráxica, nos bicos do peito e os mordiscando de leve, passeava sobre o umbigo e o provocava com a " quentura " da língua massageando o fundo do orifício. Em baixo, sob o massagear delicado de uma das mãos, ora Linda arregaçava a cabeça até esgoelá-lo, outrora encapuzava-o por completo também, persistindo nesses calorosos sequenciais movimentos até gerar um calor sexual intempestivo que só era amenizado no estimular mais intenso e mais frenético do arregaça e encapuza que paulatinamente ia emergindo a libido sexual do amado no anseio louco de logo ter o seu pênis exaurido no desforrar de lábios acelerados. " Garota, você é do mal mesmo!" Repetia sem se conter, os olhos docemente acovardados, os braços soltos e desenergizados, naufragando seu corpo carnal na imensidão dos estímulos estuprando seu ser, e o arrebatando ferozmente por dentro. Nos segundos que se seguiram, com a respiração atropelada na sensação chamuscante percorrendo em fagulhas de molestamentos no peito, desejou que seus desesperados anseios de devaneios se tornassem muito mais que eternos quando por fim a quentura abarcando aqueles doces acelerados lábios, cumpria a prazerosa promessa de o engolir. "Puta que o pariu..." Gemia já estando no céu: o movimento da cabeça da amada indo e vindo ocultando parte do seu sexo agargantado, sons sonoros de êxtases de delícias eram pronunciadas em gemidos não contidos que ora e outra arfava descargas elétricas afrodisíacas no intervalo de ambas as respirações.

    " Chupa só a cabecinha..." Com a mão de Marcos segurando um chumaço dos seus cabelos alvoroçado, para lá ela subiu guiada deixando toda a extensão nervurada iluminada de saliva, e após segundos degustando em delícias a pontinha rachada, o encarava com gula cada vez mais expressa no olhar visceral abrilhantando seus olhos. Ali, diante dos desejos desesperados do amado, ela mergulhou mergulhos nunca imaginados com outros homens: com a libido desenfreada inundando o próprio sexo em gotejos de desejos sobre a perna e o cobertor, ora suas mãos calibraram o membro para que não ultrapassasse o limite do pedido, outrora desciam tremulando pelo corpo feminino até a vagina, degustando com os dedos eretos e cerrados, toda a extensão do pêlos pubianos, lábios e a entrada molhada. "Agora engole até o talo e acaba com o papai...!" Ao ouvir as orientações finais de Marcos, Linda Harumi se aprumou em desejos de obedecer para se lançar com muito mais prazer: retirou fios de cabelos que incomodavam a face e foi descendo e subindo, subindo e descendo, vagarosamente articulando movimentos com o cilindro de carne sufocando o aperto dos próprios lábios. " Hum… parece que ficou mais grosso hein?" Agora mais excitada e após cerrar a mão na base encharcada de saliva, laborou movimentos com o corpo nu, ajustando a posição corporal que mais cooperasse com a mecanicidade da sua língua e lábios, principalmente da garganta já desfrutando de gotículas precoces e salgadas, resultado dos estímulos cada vez mais enérgicos no passear descontrolado da outra mão sobre o próprio sexo, pois os dedos operando ritmados com o sugar da voracidade da sua boca, estimulavam brutos prazeres sob a sensibilidade de um clitóris se avolumando de gula carnal, afogado em ânsias, desejoso até os céus dos céus por aqueles breves segundos de gozos que quando alcançaram, a fez desfalecer e tornar uma só entranha com ele.

     “ Que tal um banho juntinhos ? Podemos? ” Sorriam desorientados pelas energias raleadas de minutos outroras, e o piso gelando a sola do pé, agredia chacoalhões matinais conforme eles iam trotando até o registro da ducha. Mas nem tudo se trata só de sexo, carnes esfoladas e suores respingando de corpos eletrizados até a alma. Há um sentimento sim, ou melhor, uma “verdade ainda oculta em sentimentos”  e que é um tanto quanto essencial dentro de um relacionamento que vai se desenvolvendo aos poucos, entremeando as experiências das trocas recíprocas, fortalecendo a conta-gotas todas as bases subjetivas do que no íntimo já deseja ser puro e incondicional. E quando esse processo é genuinamente forjado no espelho da verdade tateando as verdades que mais despontam de dentro do coração, esse jeito de se encarar para se enxergar, vai tecendo  caminhos decididamente compartilhados, enredos mais solidificados, carregados de mais significados se aflorando em cuidados, proteções, carinho curador de feridas, um conjunto de anestésicos psicoemocionais para a epiderme do ser frente ao que, na vida comum de um casal, ainda vai se desenrolar em muitos sequenciais amadurecimentos, até se metamorfosear por completo do rio vertendo o inundar de experientes lágrimas, no que seja o desabrochar do verdadeiro amor. 

    Do nada, “ flagelos do passado ” tornaram a reviver, avultar corpo e carne, sequestrando Linda em uma “ insegurança repentina ” que já deixava seus olhos verdes marejados de lágrimas. “ Dessa vez vai ser diferente! ” Insistia silenciosamente para si em meio aos conflitos; os ossos titubeando o peso do corpo no bambear dos músculos das pernas, as tremuras crescentes fibrilando na boca do estômago, e o peito suado, sufocado na ausência do ar que grotescamente minguava na mente. Tudo junto e eclodindo, elevou a ansiedade de Linda Harumi ao seu estado máximo. Ela buscou alento entre os movimentos, mas não encontrou. 

    “ Está tudo bem? ” Assim, deitada sobre o piso, o antebraço direito sobre o rosto como venda sobre os olhos, ela sofreu acovardada o peso de cada pancada existencial refletida nos pavores angustiosos, nas sequenciais lembranças ruins que cansaram de lhe roubar o sono da noite, nos traumas, nas frustrações, nas desilusões, nos abusos, e no sentimento de abandono que insistia a todo custo acompanhar seus antigos relacionamentos. 
    “Eu sinto que eu sinto excessivamente…” Ela recordou dos diagnósticos da terapeuta, os braços circundando o corpo nu coberto pelo cabelo molhado, enquanto expressava um choro sendo reprimido no intervalar de cada respiração. “ Pelo amor de Deus Linda, me diga o que está acontecendo com você? Foi algo que eu fiz? ” Ali, já sentada no chão, ela encontrou auxílio apenas nos ensinamentos fraternos ouvidos desde a infância pelos pais e tios, nas lembranças das falas solidárias que adentrando madrugada a fora pareciam nunca esgotar os diálogos entre os amigos, nas orações que ouviu na igreja, na Palavra que proferiu na solidão do quarto, nas recordações da paz desfrutada entre as meditações diárias.
    “Eu não fui totalmente sincera com você Marcos…”  Aconchegada sobre a cama, com os braços firmes em abraços dando voltas nos joelhos, Linda Harumi voltava a derramar pequenas lágrimas alinhadas com um sentimento palmilhando cuidadosamente as escolhas das suas palavras, ladeando os suspiros irreprimíveis, margeando as confissões que sofregamente ela revelaria a seguir: “ Me perdoe a maldade que fiz a você Marcos … Eu não deveria ter te envolvido nisso... ” . Confuso e ficando angustiado, Marcos se manifestou: “ Que maldade você fez para mim Linda? Por acaso isso é alguma brincadeira? Putz, realmente não estou entendendo nada…” 

    Limpando as lágrimas com as bordas do roupão, e lutando inutilmente consigo para empoderar o próprio semblante, Linda não pode sintonizar-se com o brilho confuso emitido pelos olhos dele, e aos soluços, confessou aos prantos: “ Sou uma mulher casada Marcos… Sou uma mulher casada…! Me perdoe esta grande maldade! ” Portanto, como ele nunca imaginou vivenciar uma situação como aquela que ela também demonstrou ao longo da noite, ter na alma e no corpo a âncora ancorada nos refrigérios das paixões reavivadas, Marcos Hayashi sem saída, e não tendo outra alternativa, passou a cultivar um silêncio de início ensurdecedor.

    Ainda aos prantos, ela insistia: “ Me perdoe Marcos! Te encontrar foi um tipo de presságio, milagre, sei lá, mas que está sendo um refrigério indescritível pra mim. Meu mundo está desmoronando e não sei o que fazer…” Ela suspirou e prosseguiu: “Ontem a noite brigamos feio, saí sem rumo, perdida, só queria tomar um ar, daí eu te vi e…” Com o rosto cabisbaixo, escolhendo cuidadosamente as frases e picotando palavras julgadas desnecessárias, Linda Harumi demonstrou, apesar do corpo ainda envergado, vestígios de uma coragem crescente que de fato a ajudou a voltar-se para ele e encará-lo nos olhos “ Marcos, por favor, fala alguma coisa…” 

    Após liberar uma golfada de ar, Marcos mantinha seu silêncio enclausurado no corpo nu debruçado sobre as bordas da janela. O rosto se aquecendo rebelde ao sol, a íris se acostumando a luminosidade adentrando o ambiente, e a cabeça sendo sustentada pelo apoio de uma das mãos vacilando o peso da mesma para ambos os lados. Vagarosamente, ele inspirou e respirou sequencialmente respeitando as pausas profundas, profundas pausas ante o absorver do ar denso e gelado parido no encontro dos vendavais noturnos da noite de outrora, com as névoas advindas das montanhas distantes. Acendeu um cigarro e abraçou-se. Na verdade, abraçou-se como nunca antes tinha-se abraçado, e chorou. Conseguinte ao enxugar das lágrimas, mergulhou mergulhos em seus pensamentos mais confusos e, após longos minutos inerte com o olhar mirando o nada diante de si, submergiu do seu mundo interior transbordando de lá, o alívio alentador das inocências que inocentaram a aura já se sentindo generosamente liberta do inundar intrépido de sentimentos esvoaçados. 

    Serenando o semblante agora esvaziado das angústias que o cerraram a face, ele expurgou-se de todas as culpas e, voltando-se a se alimentar de pensamentos carregados de amor, encapsulou-se por completo em auto perdões contínuos que, abrilhantando seu olhar, resguardou a psique que lutara ferozmente para voltar a se equilibrar. Interiormente, Marcos Hayashi, já naquele início de manhã avançada, se anestesiava no horizonte das primeiras movimentações iminentes vindas do comércio iniciando suas atividades, dos passos descompassados dos transeuntes cruzando ruas e calçadas, e enquanto uma brisa suave passeava reconfortos em seu rosto, seus ouvidos antes consumidos naquela rotina vibrando desgastes, adorou todos os sons sobrevindos até a janela, principalmente dos automóveis a transitar velozmente, segundos seguintes a semáforos totalmente esverdeados.
  • A Balada

    Yoko não estava tão acostumada a esse tipo de badalação. Chegou em casa tonta, nauseada e muitos passos além daquela linha que separa a felicidade da ressaca. Suas amigas a deixaram na porta e partiram rindo com o taxista que se divertia com as bobagens ditas no banco traseiro.

    Em casa, Yoko se esforçou para manter o silêncio. Não queria acordar ninguém. Mesmo sendo maior de idade, achava que pegava muito mal ser flagrada nessa condição pelos próprios pais. Devagar ela tirou a roupa com cheiro de festa e deitou em sua cama. Parecia que estava em uma jangada sobre o mar revolto. Tudo girava, subia e descia.

    Embalada pelo movimento começou a lembrar da noite. Nada tinha dado certo para ela. Mas o que tinha dado errado mesmo? Luzes piscantes, música alta e um daqueles drinks coloridos na mão, não tinha como ser diferente. Em pouco tempo um rapaz se aproximou e sorriu. Mesmo não tendo ouvido o que ele disse foi possível entendê-lo perfeitamente. Yoko simplesmente virou as costas e continuou a balançar.

    Era um rapaz interessante. Bonito com certeza. Foi com prazer que ela percebeu que ele ainda rondava. Mas ela tinha lido numa dessas revistas que o certo era nunca ceder antes da quarta investida e nunca deixar passar da sexta. Era uma janela estreita, mas ela era esperta.

    Com um copo cheio enfeitando cada mão o garoto tentou outra vez. Muito cedo. Yoko aceitou a bebida, mas só ofereceu um olhar lânguido e um sorriso reticente. Com movimentos tímidos e até fora de ritmo ele tentou se encaixar na dança. Mas ela estava elétrica, seria impossível acompanhá-la.

    Ao sair do banheiro, Yoko foi surpreendida. O rapaz estava à sua espera. Como era um canto mais calmo, ali ela poderia ouvi-lo. Em poucas palavras ele conseguiu proferir um elogio, manifestar suas intenções e derreter o coração da menina. Mas ainda era cedo. "Nunca antes da quarta investida", era o que passava em sua cabeça. A razão dava todos os motivos: Valorize-se. Instigue-o. Domine a situação. A situação… E logo ela se desvencilhou com certa empáfia. Sabia que estava no "papo" e que era uma questão de mais alguns minutos.

    Yoko sentou-se em uma mesa afastada da pista. Sozinha. Pediu mais um drink e esperou o próximo ato. Esperou a quarta investida. Esperou o momento que esperava desde início da noite. E só esperou. Cansou de esperar e voltou à pista, só para perceber que tinha esperado demais. Viu, com o coração batendo fora de ritmo, que o rapaz se atracava com outra garota em uma dança sensual. Viu, finalmente, um beijo. Viu que não era ela quem beijava e nem dançava e percebeu o quão estúpido era o garoto. O garoto?

    Não era feita para baladas. A fórmula parecia não dar certo naquele ambiente. O garoto devia ser muito inexperiente, pois faltou muito pouco. Bastava chegar mais uma vez. Só mais uma vezinha. 

    Yoko queria ir embora. Mas esperou suas amigas. Não dançou mais. Nunca mais.
  • A escuridão e a Luz

    Cada canto do meu chalé era uma alma perdida, Uma alma de quem quer nada com a vida ! Mas quem sou eu para dizer umas coisas dessas ! Alias oi ! Eu me chamo Grabriel Di angelo filho do semideus Nico Di angelo que é filho de hades..ou seja hades é o meu vó ! Puff da na mesma ! 

    Sempre fui apaixonado por um filho de Apolo chamado Felipe ! Felipe averls ! Mas ele tem namorada e nunca me repara ! Alias quem repara no neto de Hades ? Ninguem. 

    .......

    Finalmente o toque do recoler...Uma tronbeta que Quiron feiz para Mandar o povo pros seus chalés ! Diz ele que é melhor do que ficar grirando que nem louco mandando o povo ir dormir ! Me lembro desses dias, Confeço que até que me dovertia vendo aquilo ! Mas em fim...vou pro meu chalé quando entro percebo que algo está estranho...A porta do banheiro estava aberta..pingos de aqua podiam ser ouvidos...uma estranha gosma vermelha aparecia nas paredes ! Escuto a porta atrás de mim ser fechada muito forte..as luzes do local de dentro do meu chalé estavam apagando ! Isso deveria ser normal pro chalé de Hades ! Mas...isso nunca aconteceu ! 

    - Quem é está ai ? - digo 

    Do nada escuto uma risada ! 

    Kkkkkkkk - risada de garota 

    - Ta bom ! Clarity pare com essa brincadeira sem graça ! - digo

    Clarity é uma meia-erma minha ela ama me zuar ! Mas depois que falei aquilo ficou um total cilencio..e me senti como se estivesse sendo observado...do nada do lado de fora escuto alguem bater desesperado na porta

    - Grabriel saia da i ! O mais rapido o possivel ! O chalé está amaldiçõado ! - diz a garota do outri lado da porta

    - Clarity ! Dessa veiz eu não caio ! Alias aqui é o chalé de Hades! Oque de mais pode acontecer ! - digo

    Clarity - Não estou a brincar ! Tem mesmo um monstro ae ! Escontre uma saia imediatamente

    E do nada vejo uma sombra muito enorme da minha frente ! A unica coisa que consigui fazer foi gritar

    - AHHHHHHHHH 

    Apago ! 

    Clarity on

    - Gabriel ! Gabriel ? - digo

    Droga ! A porcaria do centauro modificado deve ter o pegado ! E pior ninguem conhese os poderes da quele centauro ! Droga ! Preciso imediatamente avisar Quiron ! 

    .......

    Quiron - Mas como você soube daquilo ? 

    Clarity - Eu estava vindo da lanchonete quando vi um centauro meio humano e meio serpente com chifres indo em direção ao meu chalé ! Nico estava lá ! Infelizmente antes deu chegar a tenpo o maldito centauro ja tinha chegado antes de mim ! E dai tudo que eu podi ouvir foi um grito do Di Angelo ! 

    Quiron - Droga ! Avise ao felipe quem sabe ele pode ajudar ! Clarity farei o meu possivel ok ?

    Clarity - Ok 

    ......

    Agora aqui estou eu, na frente do chalé 7 ! Preste a chamar o felipe o garoto no qual gabriel gosta ! Sim ele me disse isso....safadenho aquele garoto kkkk
    Em fim, Bato na porta e logo em sequida vejo " Anna" a namorada dele (Autora - Anna é filha de afrodite) me olhar com uma cara de que - Oque uma Francis está fazendo aqui- tenho certeza que esse era o pensamento da patricinha

    - Clarity Francis ! Oque faiz aqui ? 

    Clarity - eu que te pergunto ! Mas em fim ! Preciso falar com o teu "Namorado" de quinta ! 

    - ele está dormindo

    Clarity - o acorde ! É importante ! 

    - Nem se os deuses quiserem ! 

    Clarity - o sua puta ! Se você não acordar aquele desgraçado eu vou te meter um soco nessa sua cara de santa que vai fixar até roxo !

    - hm...está bem 

    Era bom saber..que eu botava medo nas pessoas...

    ......

    Felipe - ELE OQUE ? 

    Clarity - Que saco Alvez Jackson ! Ja disse o meu irmão quer dizer meio irmão Sumiu ou não por um sentauro modificado 

    Felipe - Aonde ele está ? 

    Clarity - Parece preucupado ! - digo dando um sorriso, quem sabe Gabriel x felipe existe ! (A/n - eventem um nome pro shipp) 

    Felipe - Esqueça ! Só me fale aonde ele está

    Clarity - a ultima vez foi no nosso chelé de Hades 

    ....
    ..
    Gabriel on

    Ae minha cabeça...sinto como se tivesse levado uma batecada de panquecas na minha cabeça...se bem que panqueca é bom...ok to esquezito...hm..espera esse não é o meu chalé...olho em volta e percebo que estou numa enfermaria ! Mas oque aconteceu ? Eu não me lembro de nada ! É como se eu tivesse esquecido de tudo ! 

    Clarity - Finalmente ! 

    Mas me lembro dela !

    - Cla...oque aconteceu ?

    Clarity - um centauro te atacou e dai o felipe foi lá e te ajudou

    - F-felipe..Quem é esse tal de felipe ? - digo confuso

    Clarity - Gabriel não brinque com isso !

    - Brincar com oque ! - digo

    Clarity - Não pode ! Você está com amnesia ! 

    Fim do cap 1
  • Amantes do Caos

    Seu sorriso era encantador: roxo.
    Sua beleza fantasmagórica: maltrapilha os cabelos negros presos por um coque.
    Eu me encantei e confesso, foi amor à primeira vista. E ainda confesso, eu a beijei com meus lábios de sangue.
    Imediatamente eu a cativei pra mim e, numa tarde de tempestade, o céu negro cheio de relâmpagos e trovões, nós dançamos.
    A cama era uma elegância no meu mausoléu digno dela. E fomos então no meio de velas e assombrações.
    Nós amamos e nos confundimos com fogo e frio; com reclusão e dinastia; com amor e ratos. Mas... Silêncio.
    A lua branca chegou e murmurou: "bem vindos a minha loucura e o meu inferno".
    E voamos para encontrarmos os anjos de Apocalipse.
  • AS CORES DE UMA VIDA A PRETO E BRANCO

    CAPITULO I
    Naquela manhã de segunda repetia-se o ritual. Era necessário acordar os gémeos, dar-lhes o pequeno-almoço, vesti-los e leva-los à creche. Um casalinho de 4 anos dá imenso trabalho. O Lucas e a Constança eram a alegria da casa e ao mesmo tempo uma esponja de absorção do tempo. As 24 horas do dia eram mais que poucas para dar vazão a todas as solicitações dos pequenos. A creche era uma forma de ter tréguas, a pretexto da vida profissional, para ter tempo só para si, que também não o era bem, dada a agitação vivida de segunda a sexta. Segunda-feira era por isso um dia de sentimentos mistos para Carlota. Se por um lado era fazer replay de todas as segundas-feiras das semanas anteriores, era também o momento em que podia ser eu outra vez, e não o nós e o eles de todo um fim de semana.
    “Bichinha, visto-lhes manga curta ou comprida?” Pergunta-lhe o marido. Acabada de sair do banho, Carlota respira fundo, responde de voz seca e curta “comprida”. Era verão mas chovia, e há perguntas que soam a patetice àquela hora. Era óbvio que era comprida. Era bom ter aquela dedicação do marido logo pela manhã, uma ajuda valiosa, mas cocha do bom senso que apenas uma mãe pode ter. Por repetição de factos, Carlota sabia que ainda ia ser indagada sobre o tempo no micro-ondas para aquecer o leite e sobre o lanche dos miúdos.
    Depois de um fim de semana de trajes confortáveis, segunda exigia outra indumentária. Clássica, formal, feminina q.b., não mais que a conta. Trabalhar numa sociedade de advogados não era tarefa fácil. Meio predominantemente masculino, um tom demasiado feminino poderia ser o suficiente para uma conversa profissional entornar rapidamente para uma tentativa de engate barato. Fato beije de calça, camisa preta sem colarinho só com o primeiro botão aberto, não mais. O salto alto era obrigatório. Dava-lhe não só uma silhueta mais pronunciada como um pouco mais de altura para enfrentar os seus colegas à linha do olhar. Sapato preto, clássico, salto médio. Tinha uns seis pares destes. Eram os sapatos do trabalho, combinavam bem elegância e conforto, adequados para dias intensos e carregados de stress.
    Carlota aproximava-se dos 40 mas mantinha uma elegância ímpar. Tinha imenso cuidado com a alimentação, sem ser uma veggie apoderada pelo fanatismo, e quando podia, além de joggings vespertinos, ainda passava pelo cube de boxe para descarregar a neura causada por tudo e todos á sua volta. Os traços doces do seu rosto e um sorriso quase sempre aberto enganavam bem sobre a frieza com que lidava com o seu dia-a-dia, fosse profissional, fosse pessoal. Cabelo preto pelo ombro e risco ao lado com franja a cair-lhe sobre os seus olhos noisette permitiam-lhe oscilar entre um olhar escondido ou fulminante consoante o momento. No trabalho, por regra, optava pelo rabo-de-cavalo, o olhar era uma arma para ela, servia para marcar posição, demonstrar confiança e também para intimidar os seus interlocutores. Ser advogada todos os dias é como ser gladiador numa arena. Ao mínimo deslize, fraqueza ou receio, perde-se…. Para sempre. O segredo da profissão está muitas vezes, mais do que no conhecimento do código e das leis, na convicção com que se fala, trate-se de uma verdade absoluta, de uma opinião, ou de uma mentira descarada.
    Estava pronta. O Lucas e a Constança também. Obrigado marido, pensou ela. O jeito que dá ter um fotógrafo freelancer em casa. A parte free da palavra era de uma ajuda preciosa. Carlota reconhecia-lhe talento, o mundo da fotografia, apenas a espaços. Para juntar algum à conta bancária ao fim do mês, o Júlio tinha muitas vezes de fazer casamentos e batizados. Para ele era como ser Chef e ter um part-time no McDonald’s. Mas tinha de ser. O salário de Carlota era suficiente para o nós, mas ele insistia em garantir o seu contributo. Não era de todo machismo, aceitava com naturalidade essa realidade, o século XXI ensinara-lhe a conviver bem em Portugal com a disparidade de rendimentos para a sua mulher, era mais uma questão de honra para não se sentir um fardo a somar aos gémeos. Dois para dois era mais justo do que um para três. Júlio era 4 anos mais novo que Carlota, tinha 34. Ser pai aos 30 fora uma enorme alegria, no caso, a dobrar. Ser pai e marido realizava-o pessoalmente, a liberdade de poder fazer da sua profissão a sua paixão, também. Estava de bem com a vida. A fotografia é uma arte, a sua arte e vocação. Ter tempo livre era também uma necessidade, não se revia no formato profissional clássico das 9 Às 17, de segunda à sexta. Trabalhar era quando estava inspirado, ou então, quando as cerimónias religiosas lhe batiam à porta.
    Júlio ainda ficou de pijama em casa enquanto Carlota e os gémeos saiam porta fora. Dança de beijos de despedida, um mimo de casal que combinava o toque de narizes e um beijo nos lábios, até já, até logo, a porta de casa fecha-se, a do elevador também.
    Cadeirinhas rosa e vermelha no banco detrás do Mercedes Classe A comprado há menos de 1 ano. Constança na rosa, Lucas na vermelha. Ainda não sabia apertar os cintos sozinhos e por isso arrumar os petizes no carro ainda dava trabalho! Feito. Dava-lhe prazer conduzir aquele carro. Não era de família, não era urbano, o carro encontrava o justo equilíbrio entre a sua personalidade e forma de estar na vida. Apreciava conduzir, e este, dava-lhe prazer guiar, fosse a levar os miúdos à creche, a conduzir no meio do trânsito ou de prego a fundo na autoestrada. Sossegados e ensonados, a cabeça de ambos pendia para a direita em perfeita harmonia. Ver este cenário pelo retrovisor chegava a ser ternurento. Não mais de 10 minutos separavam o ninho, nome querido dado ao apartamento no campo, e a creche, também campestre, de nome “A Quinta”.
    Mesmo com 4 aninhos somados ainda era difícil para Carlota larga-los na creche. Vinha-lhe aquela sensação de abandono por breves instantes, remediados por dois beijos bem colados nas bochechas dos gémeos. Ficam agora a cargo da educadora, é hora de rumar a Lisboa, à selva que é o mundo da advocacia. Com o pensamento embrenhado na defesa do dono da empresa Alves & Ribeiro Lda, acusado de desviar fundos da empresa e não fazer os descontos dos trabalhadores à segurança social, o para arranca até Lisboa era mais fácil de suportar. Ao todo, Afonso Alves era acusado de ter desviado perto de 5 milhões de euros e estar em dívida com mais de 700 mil euros à segurança social. “Como é que eu vou safar este patife”, desabafou em voz alta Carlota. Nesta profissão muitas vezes não se trata de provar a inocência do réu, mas sim evitar a sua condenação. São coisas diferentes. Todos sabemos da culpa do réu, mas se as provas não forem suficientes, pois, antes um culpado livre do que um inocente na prisão. Reconfortada por este pensamento, ciente da sua missão, projeta a defesa em tribunal, calendarizada para daqui a pouco mais de 15 dias.
    A descer o viaduto Duarte Pacheco rumo às Amoreiras. Ponto morto, pé no travão, larga, pisa, larga e pisa….. já tão mecânico. Há quase 10 anos a trabalhar na rua Castilho, o caminho para Lisboa era feito de olhos fechados.
    Ainda neste ritual, Carlota desce à terra com o toque de mensagem no telemóvel. Era o Pedro, um antigo cliente num caso de burla, absolvido com sucesso! “Temos de lanchar um destes dias, beijos”. O caso remonta há dois anos atrás, o Pedro era de facto um burlão, mas dos melhores, não deixava rasto. Todos conheciam a estirpe, até a juíza que em privado dissera a Carlota que por ela mandava o filho da mãe para os calabouços por muitos e bons anos, reconhecendo-lhe uma defesa astuta e segura. Entre dentes, dissera-lhe “um dia ainda se vai arrepender da profissão que tem”. “Esta semana não, na próxima? Bj”, respondeu Carlota. Ainda antes de chegar ao destino, lugar de garagem marcado no piso (-) 1 mesmo ao lado do elevador, o Pedro anuiu em resposta à mensagem, ficando de ligar para acertar agulhas. Carlota sorriu para o telemóvel, não respondeu.    
    Mercedes estacionado para lá das nove e meia da manhã. Era a sua hora habitual de chegada. Normalmente até às 10h estava a beber o café da manhã sentada no seu escritório a passar os olhos pelos temas que tinha em mãos para gerir durante o dia. Além de ter sempre um caso importante entre mãos, Carlota orientava uma equipa júnior na qual delegava os casos menores e mais recorrentes, fossem divórcios, partilhas litigiosas ou processos por difamação.
    Era segunda, e finalmente sentada na sua secretária, vê ao fundo do corredor, Joana, colega e amiga de longa data, com duas chávenas na mão caminhar em direção ao seu gabinete. Boa companhia para começar a semana.
    AS CORES DE UMA VIDA A PRETO E BRANCO
    CAPITULO II (final)
    Joana era muito diferente de Carlota. Divorciada, uma ano mais nova, abraçava a vida com o egoísmo de quem não quer dividir o seu eu com mais ninguém. 3 anos de casamento chegaram-lhe para perceber que filhos e marido não era vida para ela. Não se tratava dele, o ex, ser a pessoa certa ou não, ser casada mexia com a sua liberdade e por isso optou por se separar há pouco mais de um ano. Desde então que se deixa levar ao sabor do vento que a vida lhe vai soprando. É livre e isso é o mais importante para ela. Hoje escolhera um vestido azul-turquesa até ao joelho, fresco, com um padrão de rosas vermelhas e brancas estampado. Era fresco demais para o dia chuvoso, mas Joana não se vestia pelo tempo, vestia-se pelo que lhe dava vontade ao abrir o armário. Até as sandálias chocavam com a meteorologia, mas combinavam com o vestido, também elas em tons de azul.
    “Toma, fica com o cheio como gostas!”, Diz Joana antes mesmo do bom dia! Sentou-se à frente de Carlota e foi direta ao assunto. Passou o fim de semana com o Tomás, ex-colega da sociedade de advogados. Tinha saído há umas semanas para abraçar um período sabático dedicado ao surf e mudado de armas e bagagens para a Ericeira, onde as ondas fazem a delícia dos amantes da modalidade. Joana ficou por lá também de sábado para domingo. Praticamente não saíram da cama, relata Joana, com alguns detalhes tórridos sobre o que se passara por debaixo dos lençóis. Era pois a nova aventura de Joana, nada de sério, muito casual, orientada para os prazeres do leito que Joana muito apreciava, especialmente por trintões apetitosos. Ambas concordaram na apetitosidade do Tomás, que em tempos também chegou a fazer a corte a Carlota, sem sucesso. Ao que parece, o recém surfista a tempo inteiro era capaz de encaixar três seguidas sem perder o fôlego. Uma marca digna de registo que fez ambas soltarem uma breve gargalhada sincronizada com mais um trago no café. A conversa não descambou mais do que isto, a palavra passou para o outro lado da secretária, Carlota também tinha vários episódios dos gémeos para relatar, não tão envolventes como o fim de semana com o Tomás, mas que também lhe preencheram os dois dias de descanso. Antes de iniciar o dia de trabalho um pouco mais a sério, Carlota rematou com graça “empresta-me o Tomás para 1 dessas 3 e para me dar um jeito na sala, pode ser?”. Joana atirou-lhe a língua para fora, saiu porta fora com as duas chávenas na mão vazias, num passo que reclamava a atenção dos colegas do sexo masculino. Ainda se ouviu um “Joaninha, hoje és o sol deste planeta!!!” Encaixava bem no azul do vestido e na chuva que insistia lá fora. Carlota também ouviu, abanou a cabeça ligeiramente, e pensou “Joaninha, há uma linha que separa o trabalho dos colegas”.
    Isto dito, o fim de semana de Carlota fora tudo menos de aventura. Sábado o Júlio tinha passado o dia a fazer um casamento, e ela ficara atracada aos gémeos, sozinha. Era bom tê-los por perto, era desgastante seguir-lhes o rasto a cada esquina, acompanhar um, dar atenção ao outro, tratar das refeições. Depois de uma semana de trabalho chegava a ser exasperante. Um dia vão crescer e dar menos trabalho, pensava. À noite, nesse dia, depois dos gémeos aterrarem no sono, embrulhara-se com o Júlio no sofá, em silêncio, pés entrelaçados. Era ternurento e aconchegante, mas aquela noite pedia mais. Há mais de dois meses que havia noites que pediam mais, mas que se ficavam por ali, naquele registo. Era bom mas insuficiente, Carlota queria mais chama em casa. Não era preciso arder, não era preciso ser o Tomás e fazer um triatlo na cama até de madrugada, mas sentia falta. O Júlio não ficava a dever nada aos outros homens, era como diz a Joana, um naquinho bem pesado, mas para haver desejo e vontade para Carlota era preciso bem mais do que um bom bife, fosse ele do lombo ou da alcatra. A culpa era da rotina que ambos não conseguiam contornar. Culpava em parte os gémeos que lhes virava a vida do avesso, mas sabia que ela própria tinha muita culpa por se deixar ir noutras correntes com as quais o Júlio, lá de casa, não podia competir.
    Regresso à terra! Reunião com a equipa dentro de 10 minutos para ponto de situação sobre os diferentes casos, e à tarde, ainda era preciso analisar melhor as provas do ministério público contra Afonso Alves. Era preciso também agendar uma reunião a meio da semana com ele para alinhar a estratégia. Este não ia ser fácil de livrar e às vezes na justiça também é preciso encontrar compromissos. De entre os casos menores que estava a cargo da equipa, destaque para um divórcio. Ele não queria dar o divórcio à cliente, alegava os valores de família e do filho para manter um casamento de fachada, ela, queria saltar fora por já ter sido violentada em casa. Era de Cascais, e assumir uma coisa destas em tribunal não era para todas. Mais um nojento à face da terra escudado nas 4 paredes do lar a vingar-se do que a vida lá fora o frustrava. O artista era para demolir e extorquir, e por isso, a este caso ela ia dar a maior atenção. A violência doméstica era um tema que tocava Carlota, um dos maiores atos de cobardia, e por isso, dava-lhe especial gozo ser justiceira nestes casos, para contrapor à defesa que era obrigada a fazer a outro tipo de escumalha, normalmente vestida de fato e gravata.
    Reunião feita, mais duas ou três coisitas menores durante a manhã, outro café para manter a atenção bem afinada e o relógio a marcar as duas da tarde. Carlota almoça tarde, depois dos outros, gosta de sossego à hora da refeição. Qualquer coisa de ligeiro, uma sopa, uma sandes e fruta. Não de muito substancial para não lhe apertar a moleza na longa tarde que ainda a espera. Ia quase sempre à Maison des Croissants, a menos de 2 minutos do escritório. O ambiente era moderno, tipicamente francês e confortável. Não que fosse nos croissants, especialidade da casa, mas era um sítio com o espírito de Carlota. Tascas de petiscos e derivados, não era para ela. Durante essa meia hora reservada para satisfazer o estômago, era também hora de saber o que andava o seu Júlio a fazer. Borboletas, diz ele. Era dia de fotografar borboletas. Mesmo com chuva. Diz ele que tinha conseguido duas ou três especialmente boas, e que logo, depois de polarizadas podiam ir a concurso. Bom saber. Concursos não dão dinheiro, mas dão reputação, o que ainda lhe falta ao marido. Falar com o Jú a meio do dia era um ritual, um hábito, mas também um conforto. Carlota gostava de saber o que andava ele a fazer, fosse andar à caça da borboleta perfeita, fosse um passeio no parque ou uma manhã de ronha na cama. Ele podia. Sopa de couve lombarda! Não era a preferida, mas ia-lhe cair bem. Pensou que uma Maison deveria ter umas sopas tipicamente francesas e não “caldo verde” todos os dias, mas por outro lado, há que encontrar a perfeita simbiose entre o estilo estrangeiro e os hábitos portugueses, até porque o negócio fala sempre mais alto. Além da sopa, uma empada de galinha afrancesada pela companhia dos croissants na vitrina e um Compal de laranja, do Algarve, especifica a Mónica, colaboradora da Maison. Bom saber, mais uma vez, se fosse uma laranja de Marselha, talvez fosse mais coerente.
    Entre colheres de sopa e dentadinhas na empada, o pensamento foge-lhe para o Pedro. Ficou um pouco surpresa com o SMS da manhã. Há mais de dois meses que não lanchavam lá no sítio. Verdade que ela sentia falta daquilo, embora aquando do último lanche ela lhe tenha dito para fazerem um time-out. Ele achou que dois meses eram suficientes, e ainda bem. Alegrou-lhe a segunda. Como bom burlão que é, o Pedro tinha sempre conversa para dar e vender. Era fácil deixar-se ir, era toda uma dimensão imaginária que agradava a Carlota. Não era para todos tocarem-na na alma, mas ele, Pedro, conseguia. Tinha as palavras certas nos momentos certos. Coisa rara num homem, pensou. O caso de burla de que fora acusado e que os uniu fora das relações mais intensas que tivera com clientes. Primeiro porque o Pedro lhe dissera tudo, mas tudo. A verdade toda, como tinha planeado e executado e como, em parte, também tinha coração. Era a lei da sobrevivência dizia ele. Se não fosse ele era outro qualquer, pior, sim, porque Pedro, embora burlão, tinha uma costela de Robim dos Bosques, o outro, lado, o que o ilibava do mal que fazia. Dizia não raras vezes que, ladrão que rouba ladrão tem cem anos de perdão. Tinha graça! E de facto teve o perdão em tribunal.
    De regresso à sociedade. Tarde longa pela frente. O Afonso Alves era o típico empresário trafulha. A lógica empresarial de vender muito, gerar margem e ganhar dinheiro para ele não fazia sentido. O que fazia sentido era sacar dinheiro da empresa em proveito próprio. Faturava vendas por baixo e recebia por fora, comprava a fornecedores por cima e ficava com a diferença. Os livros da empresa estavam bem montados, e o contabilista era artista. Estava bem feito. Os registos financeiros de Afonso menos, mas lá se havia de dar a volta. O não pagar à Segurança Social, esse, era fora um erro que chamara a atenção. Não há muita volta a dar, está em atraso, é culpado, vai ter que pagar e com juros. Nem os prejuízos da firma lhe valem, embora possam atenuar a culpa. É com este pragmatismo que Carlota avalia os seus casos. Se há provas inequívocas, é inevitável a condenação e vamos tentar conseguir que a pena seja branda, se há dúvida, é lutar com unhas e dentes até à absolvição. Ligou a Afonso e pediu-lhe reunião para quarta à tarde. Era hora de ultimar detalhes para a audiência em tribunal.
    O fim do dia a aproximar-se e Carlota a baixar a guarda finalmente. Sentada no seu cadeirão, olha à volta, o escritório estava em modo debandada. Hora de espreguiçar um pouco, soltar os pé direito do sapato, amparado apenas com a ponta do pé, a baloiçar um pouco, de perna cruzada. Não lhe apetecia ir já para casa. Ainda só era segunda e as saudades dos gémeos ainda não tinha batido, depois de um fim-de-semana de omnipresença na sua vida. Ligou ao seu Jú para dizer que chegava um pouco mais tarde, relembrando que hoje era dia de brócolos na ementa dos pequenos para acompanhar o resto do frango de ontem. Era necessário cozer, juntar uma pitada de sal e não deixar passar os 5 minutos de fervura. Carlota não dava muitas justificações ao marido e ele também não perguntava. Era assim a relação. Ele sabia que ela voltava sempre a casa, e isso para o Júlio, era o mais importante. Para ela, uma bênção. Dar justificações de tudo o que fazia só podia levar a um lado, à mentira. Por vezes na omissão encontra-se um justo equilíbrio entre um casal, pensa ela. Provavelmente no dia do Jú nem tudo fora andar atrás de borboletas coloridas para fotografar, por isso, quid pro quo.
    Depois de quase todos abandonarem o escritório, passava um pouco das sete da tarde, ainda era de dia, embora as nuvens que ainda permaneciam no céu acinzentassem o fim de tarde. Finalmente saiu, não sem antes trocar o seu fato beije por leggins e um top, ambos pretos. Os saltos altos pretos deram lugar aos Nike de estimação que lhe aconchegavam os pés, e por cima, um hoodie cinza com uma risca rosa. Era um dos trajes alternativos que Carlota mantinha no armário do seu gabinete. O fato fora para o cabide, pendurado na porta detrás do seu Mercedes. Carlota ia dormir a casa, mas a segunda-feira, para ela, ainda não tinha acabado.
    AS CORES DE UMA VIDA A PRETO E BRANCO
    CAPITULO III
    Carlota ruma pela A5 em direção a Cascais, para depois, no Estádio Nacional, apanhar a marginal. Fazer a marginal, a qualquer hora do dia ou da noite, de janela aberta, era garante de um novo folego. O ar com sabor a maresia esbate-lhe no rosto com alguma intensidade, era um fim de tarde ventoso. Mais vento houvesse. O bem que lhe fazia ver e sentir o mar. Passada a praia de Santo Amaro, Carlota sai no Inatel para estacionar. Ao final do dia e com céu nublado, o seu Mercedes ficou mesmo à bica da praia. De frente para o mar, em silêncio, ficou alguns minutos dentro do carro. Estava à espera das 8 da noite. Não estava a pensar em nada, simplesmente deixou-se ir no pela vista que tinha à sua frente. No vazio total, serena, nuca ligeiramente inclinada para trás encostada à cabeceira do assento do pendura, para onde se tinha mudado só para não ter o volante à frente. Tempo ainda para 1 cigarro, daqueles que fumava ocasionalmente quando estava apenas com ela própria. Não era fumadora viciada, nem social, fumava quase sempre sozinha quando estava apenas com os seus botões, como hoje. Tinha em miúda aprendido a fazer círculos de fumo que lhe saiam bem formatados pela boca. 3 seguidos. Tinha graça, eram de tamanhos diferentes, o primeiro maior, o terceiro, e último, pequenito. Era à cowboy. Demorou uns bons cinco minutos a fumar, mais do que o habitual para um fumador. Mais do que inalar o fumo, ver o cigarro acesso só por si já a satisfazia. A beata, atirou-a pela janela, prensada entre o polegar e o dedo do meio, num gesto masculino, que contrastava com a sua aparência feminina e doce.
    Saiu do carro e encetou a sua caminhada pelo paredão. Tapou a cabeça com o capucho do seu hoodie cinza, enfiou as mãos nos bolsos, inclinou o olhar para o chão e a passo, seguiu na direção de Cascais. Ela sabia que se ia cruzar com ele. O paredão estava praticamente vazio, dado o tempo e a hora, de jantar, mas Carlota conhecia-lhe os hábitos. Nunca faltaria ao jogging de final de dia antes de jantar. Se eventualmente já tivesse passado na direção a Lisboa, de certeza que agora o apanharia no regresso, se é que não o ia apanhar mesmo de frente. Só a ideia de o cruzar arrepiava-a. Só ela podia compreender o que sentia. Joana, a quem Carlota já falara dele, não percebia a fixação. Estar aos 38 anos de idade agarrada a um romance de adolescência era para Joana inimaginável dado o seu pragmatismo nas relações amorosas, mas para Carlota, ele, Ricardo, Ricky para ela, fora o seu primeiro grande amor, único, irrepetível e eterno. Não era comparável ao que alguma vez tinha sentido pelo seu Jú, a história tinha outros contornos, num misto de história de amor inocente, escaldante e claro, inacabada, mal encerrada entre os dois. Pelo menos para Carlota. Ela sabia que o Ricky era solteiro, ou melhor, solteirão, dedicado, tal como Joana, às aventuras do dia-a-dia e sem ninguém com poiso certo no seu coração. Carlota nem sabia se ela própria tinha direito a algum lugar de destaque no coração de Ricky. Não falavam desde que cada um seguiu a sua vida, num amor que terminou abruptamente aos 21, depois de 3 anos em que Carlota viveu nas nuvens, ou para lá delas.
    Em passo lento, de ouvido atento, sentiu uma passada firme atrás dela, ainda distante. Persentiu que era ele. Não que lhe conhecesse o passo, era a vontade dela e a sua intuição a funcionar. A passada aproximava-se rapidamente, e Carlota começou a ouvir a respiração forte de quem ia em esforço físico. Uma locomotiva. Ricky era homem do desporto, sempre fora. Nos tempos do namoro, era jogador de futebol federado e representava os juniores do Estoril. Não fez carreira no futebol porque a cabeça dele merecia mais. Seguiu engenharia, e pelo que Carlota sabe, do que cuscou e descobriu, está muito bem na sua vida profissional, A chefiar uma equipa numa das maiores construtoras nacionais. Para quem ainda não bateu nos 40, nada mal. Finalmente chegara o momento da interseção entre quem caminhava e quem corria. Quem corria passou de raspão por Carlota, sem ser propositado, apenas para cortar caminho. Sentira-lhe o cheiro, do perfume da manhã certamente. Leve e fresco, de bom gosto para a estação do ano. Era ele, Ricky, passara por ela sem dizer sequer um “Olá tudo bem?”, nem a reconheceu, nem olhou de esguelha para ela, camuflada no seu hoodie. Carlota também não queria ser reconhecida, aquilo que estava a fazer tinha qualquer coisa de stalking, o que, associado a mais alguns atos deste tipo, poderia ser considerado crime, e disso das leis, direitos e deveres, sabia ela. Viu-o afastar-se no paredão rapidamente, e ainda com o coração acelerado pensou, “nem os olhos verdes lhe vi, pena não o ter apanhado de frente!”. Que belo homem era Ricky, aos seus olhos, mas consensualmente aos olhos de todas as mulheres. A roçar os 40 e pareceu-lhe melhor que nunca, ainda que avaliado de soslaio.
    Carlota parou. Era hora de voltar com o sentimento de missão cumprida. Ela sabia onde morava o Ricky, onde ele trabalhava e algumas das suas rotinas. Não raras vezes Carlota saia da sua vida para se dedicar ao passado, para recordar, para reviver esses momentos. Hoje dera-lhe essa vontade, e parcialmente saciada, já de noite, decidira regressar ao presente e à sua vida. O Lucas, a Constança e o Jú estavam à sua espera.
    No regresso, médios ligados, de volta na marginal, acendeu outro cigarro, janela entreaberta com água a pingar para o interior, seguiu a queimar os limites de velocidade ao ponto de queimar os múltiplos radares espalhados pelo caminho, o que a obrigavam a parar nos diferentes semáforos sincronizados com os radares, que automaticamente ficavam vermelhos perante os excessos de velocidade. Chegava a ser irritante. Já não era hora de aproveitar a paisagem e Carlota só pensava em encontrar refúgio do lar. Não raras vezes ficava confusa com este regresso ao passado, com a transição para o presente, que por sinal convivia mal com o seu outro presente….. Que futuro poderia Carlota esperar na sua vida. Quantas Carlotas poderiam viver numa só?
    A breve crise existencial durou apenas o tempo de chegar a casa, desligou o Mercedes na garagem, tirou a chave da ignição, e naquele preciso instante sentiu uma vontade doida de abraçar os seus gémeos. Já era tarde, por isso, o único sobrevivente daquele fim de segunda era apenas o seu Jú, que estoicamente tinha tratado deles, banho, jantar, e cama. Não era fácil adormecer os 2. Juntos no mesmo quarto, até o sono vencer ambos, era preciso batalhar. A socorro de duas chuchas era um pouco mais fácil, mas ainda assim a tarefa era digna de ser classificada como missão. Às vezes faziam o “pedra, papel ou tesoura” para decidir quem era o destacado na missão. Ele tinha mais jeito do que Carlota. Aliás, Carlota não era uma mãe nata, faltava-lhe instinto, não tinha carinho por bebés antes dos gémeos nascerem, ser mãe não a mudou muito. Certo é que não lhe faltava amor por eles, faltava-lhe sim jeito. Era tarde, um beijo molhado na testa do Lucas, outro na bochecha da Constança. A dormir eram verdadeiros anjos, não só pela pose serena e doce mas também pelos cabelitos ainda loiritos, vindos do ADN do pai. Eram os seus anjos, mereciam melhor mãe, pensara ela ao beijá-los. Mordeu ligeiramente o seu e saiu do quarto. Jú tinha guardado jantar para ela. Tinham sobrado brócolos, além do frango de domingo. Era o que havia, e tudo aquecido no micro-ondas transformaram as sobras num digno repasto. Jú enchera-lhe um copo até meio com o resto do Duas Quintas tinto que sobrara também de domingo. “Vais ver que dormes melhor”, diz ele. E era verdade. O vinho tinto era um bom embalo para o melhor dos sonos. Fizeram um pouco de conversa trivial, ele sobre as suas borboletas, ela sobre o seu dia de trabalho. Para Carlota chegava a ser estranho ele nem perguntar porque tinha chegado mais tarde, ou melhor, tão tarde. Apreciava o respeito pela sua individualidade, pela sua vida, odiava ser controlada, mas daí à indiferença ia um passo bem largo. Será que ele não pergunta par evitar que lhe mentisse? Porque não quer saber a verdade. Porque é feliz assim? Por causa dos meninos? O Jú não era de manter casamento de fachada, os seus pais eram separados e cada um era feliz à sua maneira, nas suas vidas, que seguiram rumos diferentes quando Jú tinha dez anos. Talvez tivesse ficado com trauma nessa altura, certo é que nunca o demonstrou e sempre que falavam dos pais dele, era com naturalidade. Era filho único e não tinha meios irmãos. A mãe ficou divorciada até hoje, o pai casou outra vez, mas sem frutos.
    Já na cama, um beijo seco entre lábios e cada um seguiu para o seu lado da cama. Chegaram no passado a adotar a concha como método carinhoso para adormecer, mas desde que os gémeos nasceram que esse hábito se perdeu. Cada uma para seu lado, na mesma cama, juntos, embora de costas um para o outro. O copo de vinho tinto tinha-a deixado relaxada, mas ao fechar os olhos não pode deixar de recordar o seu Ricky, num daqueles inúmeros momentos vividos. Tinha saudades de fazer amor com ele. O sexo era o melhor que havia tido em toda a sua vida. E tão jovem ainda. De olhos fechados, recorda um dia, ainda de manhã em que tinham ido de comboio a Sintra, galgado as colinas até aos Capuchos, e no meio de nenhures, ele, afoito e ardente de desejo, a agarrara de surpresa, ali, ao ar livre, contra um pinheiro bravo, a começara a beijar no pescoço, cara e depois boca, onde se demorou enquanto a sua mão direita lhe baixava a alça do ombro esquerdo. Chegou-lhe bem aos seios que apertava ao de leve. Carlota lembra-se bem de ter sentido um calor enorme a subir-lhe pelo corpo até à cabeça, num dia em que o clima de Sintra fazia jus à sua fama, brumoso. Puxou-a para cima, ela passou as pernas à volta da sua cintura, e sem tirar a roupa, ali, ele afastou as cuecas dela para o lado, saia para cima, sem querer saber de eventuais olhares indiscretos que tornavam o momento ainda mais excitante, amaram-se com um sexo vigoroso, versátil, que só o Ricky conseguia proporcionar. Carlota recorda-se da dor nas costas que roçavam no pinheiro enquanto Ricky a entalava nele com ambas as mãos a segurar as suas nádegas. Carlota não se lembra se foram 2 ou 20 minutos, perdera noção do tempo, mas sabia, que nem por um segundo os seus lábios descolaram dos dele.
    Húmida, Carlota, adormeceu de sorriso nos lábios nessa noite.
    AS CORES DE UMA VIDA A PRETO E BRANCO
    CAPITULO IV (final)
    A semana prosseguiu sem incidentes de maior. Mais do mesmo, trabalho, casa, de volta ao trabalho. Segunda fora uma exceção que levara Carlota a fugir do presente, um escape para ela, numa visita fugaz ao passado. Ela tinha bem presente que ninguém vivia do passado, nem ninguém se agarra ao passado para viver o presente. No entanto, deixar-se transportar para o passado dava-lhe o bem-estar no presente que muitas vezes não conseguia encontrar. Dava-se o caso de Carlota ser uma mulher conhecedora do código civil, das leis, dos deveres e obrigações dos cidadãos perante a sociedade, mas ao mesmo tempo, uma mulher no rules, capaz de se transportar para um mundo diferente onde se vive à medida da vontade de cada um. Uma ambiguidade permanente a roçar a bipolaridade. Artigos e liberdade eram palavras antagónicas que conviviam a espaços isoladamente na cabeça de Carlota, por mais que tivesse estudado que os princípios do direito visava garantir a liberdade de cada um. Era uma liberdade circunscrita, não uma liberdade efetiva. Não raras vezes se perdia em pensamentos e ideias que a levavam para outra dimensão intelectual. Faltava-lhe alguém para falar, puxar por ela, para conversar noutro patamar. Ela sabia quem a conseguia levar para esse patamar, foram outros tempos, agora contentava-se com um simples cruzar no paredão à procura de inspiração. Esta obsessão chegava a ser doentia, e ela sabia disso. Qualquer pensamento desaguava quase sempre inevitavelmente no Ricky. Doentio, sem cura, sem comprimidos que a fizessem cortar com o passado.
    A reunião de quarta-feira com o Afonso correu pelo melhor. Ele era um homem pragmático e partilhou da ideia de Carlota que não vale a pena batalhar pelos casos perdidos. O devido à segurança social era para pagar com mil perdões, e juros de mora, para tentar colher a simpatia do juíz, os milhões que fugiram da empresa para as ilhas Caimão, que serviram de suporte financeiro à compra da moradia na Quinta do Lago e ao seu Porsche Carrera, eram para tentar branquear em tribunal. Era património que estava registado em seu nome, mas havia forma de justificar a proveniência do dinheiro sem ser através do saco azul da Alves & Ribeiro. O problema talvez fosse o contabilista que inevitavelmente iria ser chamado pela acusação. Ele próprio fora cúmplice e por isso também tinha de proteger as suas costas, mas o que lhe tocara no bolso era pouco para enfrentar o juízo do tribunal. Entregar o peixe graúdo poderia ser uma solução. Uma ameaça a ter em atenção na defesa do caso.
    Dessa reunião ficara-lhe na memória um gesto de Afonso. Tocara-lhe ao de leve na perna. Carlota, coisa rara, levara saia nesse dia. Uma saia preta folhada a combinar com uma blusa, também ela preta, em contraste com o blazer vermelho que comprara na véspera na Zara. Foi um toque intencional, de quem tinha vontade de tocar, não tinha surgido naturalmente na conversa. Se o seu Jú visse, não ia gostar. Ou melhor, pelos tempos que correr já nem Carlota sabia o que poderia ele gostar ou não. A conversa entre Carlota e Afonso era de facto puramente profissional, o caso absorvia a totalidade das palavras trocadas. O Olhar de Afonso, não raras vezes, transmitia outra coisa. Nessa reunião de quarta, enquanto falava detalhadamente sobre como tinha montado o saco azul com o seu contabilista, e a forma como se relacionada com fornecedores e clientes combinados, olhava-a com um desejo carnívoro de quem a queria possuir ali mesmo em cima da mesa. Era um olhar transparente, e nem o Afonso o queria esconder, aliás, fazia questão que Carlota o compreendesse bem em busca de um sinal de reciprocidade. De troco, Carlota dissera a Afonso para tentar manter a frieza em tribunal, para preparar uma poker face, o que implicava um olhar gélido, diferente daquele que lhe atirava naquele momento, ou de qualquer outro que pudesse indiciar culpa. Ele sabia que Carlota percebia o seu desejo sexual, não podia ser mais explícito. Por mais que Carlota quisesse evitar deixar transparecer que se deixara ir no entusiasmo do olhar de Afonso, os seus mamilos, diziam o contrário. Péssimo dia para não usar sutiã. Não era sempre, mas havia dias que Carlota gostava de sentir os seus peitos soltos. Empinados, salientes na blusa preta de Carlota, demonstravam nota de culpa.
    Enquanto tentava manter o foco na defesa de Afonso, Carlota imaginava as “crueldades” a que Afonso a queria submeter. Pela sua imaginação, inspirada no olhar de Afonso, não era menos do que a colocar de joelhos e obrigá-la a abrir-lhe o fecho das calças, ali mesmo, no seu próprio gabinete. Esta simples ideia perturbava Carlota, num misto de excitação e culpa. Também lhe dera vontade de sucumbir à tentação de presentear Afonso com um momento de luxúria num espaço dedicado ao direito. Pensou Carlota, “não duravas mais de 5 minutos”. Rasgou um sorriso que Afonso não compreendeu, e nesse preciso instante, o olhar dele volta a ser o do empresário trafulha, preocupado com a impunidade que acha lhe pertencer por direito. Ficara da reunião a defesa alinhada, uma perna tocada de forma atrevida, ainda que ao de leve e um enviesamento de uma relação profissional. O clima assexuado da reunião contrastava com a forma como se tratavam, ele, referindo-se sempre à Dra. Carlota, ela, tratando-o por Afonso, não por tu Afonso, mais próximo do meu caro Afonso.
    Na quinta-feira, à conversa com Joana, Carlota partilhara toda a parte sombria da reunião. Riram ambas do episódio. Estavam no seu gabinete, como quase sempre, de porta fechada, na típica tagarelice feminina. Joana conseguia potenciar este tipo de conversa para outro nível, num misto de ordinário e graça, para lá do que duas senhoras nos seus trinta deveriam convencionalmente ter. Era assim Joana, ora trazia um resumo dos temas da imprensa cor-de-rosa, que muito jeito dava a Carlota, curiosa mas sem tempo para mundanices, ora trazia uma história qualquer com um dos seus queridos amigos, ou melhor, especulava e imaginava em voz alta. Era uma boa amizade, ainda que maioritariamente de convívio laboral. Raramente tinha ido lá a casa, e nunca com o seu Jú presente. Não era de aparecer no aniversário dos gémeos nem de lhes oferecer presentes. No nascimento deles, Carlota lembra-se de ter recebido no hospital a visita de Joana, com flores, mas foi só. Perguntava pelos gémeos como quem fala do tempo, desapegada. Preferia delirar sobre o Afonso e omitir do seu pensamento a virtude de um dia ser mãe.
    Carlota relatava ao pormenor o olhar de Afonso, o que ela sentira, o constrangimento dos seus mamilos salientes na camisa preta, Joana, essa, complementava com a sua imaginação. Sugeriu que as duas podiam dar conta do recado. Descambou. “Tu baixavas o fecho das calças, eu ia lá busca-lo”, provocava Joana. Carlota corou! Joana riu-se e continuou a provocar. “À vez íamos lá as duas. A quem saísse o lanchinho ganhava um almoço da outra! Vale?” Era ordinário mas dito entre risos parecia menos mal. O caminho do riso para a gargalhada foi vertiginoso. Carlota corada desmanchada a rir enquanto Joana, também ela incontinente no seu riso, sugeria a custo que Carlota devia começar a ter toalhetes em cima da mesa. Alguns olhares de fora fixaram as duas pela parede vidrada do escritório. Ainda que fosse final de dia, era uma postura pouco apropriada para um escritório de advogados, ainda que os olhares fossem de curiosidade e não de condenação. Recomposta a postura, Carlota pergunta se Joana vai outra vez passar o fim-de-semana para a Ericeira com o Tomás. Afirmativo. Era aproveitar enquanto dura, e como Joana já bem sabe, as suas relações não duram muito, pelo que era de aproveitar. A manter-se o tempo chuvoso, era promessa de muito tempo passado entre paredes e não na praia a vê-lo apanhar ondas. Tinha mais graça assim.
    Sexta chegou finalmente. O seu Jú não tinha ofício no fim-de-semana. Era para fazer planos a quatro, e em particular, dividir as tarefas e o babysitting dos gémeos. Provável que muito do tempo fosse passado dentro de quatro paredes, não na mesma onda que a Joana ia surfar, noutro registo. Mamã e papá fazem de mamã e papã a tempo inteiro. Carlota não rejubilava com a ideia, mas ao mesmo tempo, depois de uma semana de trabalho, também era bom ser mamã. A advogada ficava à porta de casa, a sua imaginação em hold e a sua outra vida esquecida por dois dias. Carlota ia ser a mãe, junto com o seu marido, o pai. Durante a semana o tempo passado juntos fora mínimo, breves momentos entre o acordar e o adormecer, repetidamente, dia após dia. Será que o seu Jú também tinha a mesma ideia do fim-de-semana? Raramente falavam do que sentiam. O silêncio entre ambos era interrompido na maior parte das vezes por trivialidades ou temas dos gémeos. A vida conjunta perdera a graça de outros tempos. Não que a relação alguma vez tivesse sido perfeita, mas houvera momentos no passado que eram promessa de bons alicerces para o futuro. O futuro provou ser diferente, mas não perdido. Era assim, Carlota não pensava em divórcio, não lhe parecia haver motivo para isso, e o seu Jú também nunca meteu o tema em cima da mesa.
    Era sexta à noite, paz em casa, só adultos acordados no lar.
  • As curvas de Jessica

    Lentamente a vendei, tive que me controlar para não a assustar logo na amarra. Jessica não gostava muito, mas havia cedido, talvez pelo enorme tesão que sentia por mim ou pela grandiosa carência. Logo foi a vez dos pulsos serem amarrados, e, após eles, projetei meu corpo sob o dela, o forçando contra a parede enquanto ambos estávamos inclinados, de joelhos na cama. Meus dedos jogaram o cabelo de Jessica para o lado, seu pescoço ficou a mostra e, refletindo sobre todas as vezes que a via casualmente, não me contive. O primeiro abraço foi demasiadamente forte. O suficiente para que ela reclamasse e ficasse impedida de respirar, era esperado, meu braço passou por sua barriga, segurando em sua cintura, enquanto meus beijos alcançavam seu pescoço. Logo após, minhas unhas arranharam suavemente a parte de trás de sua coxa, e fiz o favor de massagear sua cintura. A excitação começava a fluir por seu corpo, isso era notável. Seus beijos ficaram mais salientes e calorosos, seu pescoço quase que se quebrava para alcança minha boca. Meu peitoral fazia enorme atrito com suas costas, me excitava pensar que ela estaria se empolgando com o toque de meu abdômen quente. Queria a tocar, por isso a acariciei por todo o corpo, as palmas de minhas mãos viajaram de seu rosto até seus joelhos, logo na última viagem fiz questão de passar sobre sua roupa íntima, tocando-a e a masturbando, por cima da roupa, de um jeito firme e lento o suficiente para estar sincronizado com nossos beijos e deslizes. Aquilo não era o bastante, a massageei na região dos seios, apalpando eles e não deixando um centímetro sem as carícias. Logo podia ouvir as primeiras falhas em sua respiração, o que só aumentou meu apetite, fazendo com que, de maneira inconsciente, deslizasse nossos quadris interminavelmente um pelo outro. Esse foi o primeiro passo para que Jessica se sentisse confortável com minha presença, ela passou a me desejar mais e mais. Eu também. Mas para dois jovens imaturos... todo amor era pouco.
  • CARMOND - CAPÍTULO I

    CAPÍTULO UM

    Foi em meados de junho e o inverno era um dos mais rigorosos já vividos no vilarejo, até aquele ano. Na noite em que o jovem médico chegou à pequena e distante Carmond, além do frio, caía uma chuva torrencial.
    _ Aqui é sempre tão frio assim? Ele perguntou ao simpático motorista que o havia buscado, na estranha estação ferroviária, algumas horas atrás, e agora, o ajudava a retirar suas malas do carro.
    _ Sim, e é bom ir se acostumando, doutor! Lá pro final do mês tende a ficar pior, muito pior. Às vezes chega a nevar.
    Augusto sorriu e pensou tratar-se de uma brincadeira do homem que caminhava apressadamente à sua frente em direção à porta da pensão. A única do local.
    _ Porque está sorrindo, doutor? Acha que estou de brincadeira?
    _ Então é sério? Oh meu Deus! Isso é inacreditável, lá na capital quase nunca faz frio.
    _ Nem mesmo no inverno?
    _ Muito pouco, meu amigo.
    O motorista colocou a última mala na recepção, deserta, e tocou algo parecido com um sino.
    _ Espere só mais uns dias e verás o que é frio, meu doutor. É de trincar os dentes.
    Nesse momento, os dois ouviram passos apressados no chão de madeira que vinham em direção a eles e não demorou a surgir uma senhora baixa e rechonchuda que carregava um castiçal com velas acesas. Só então, Augusto se deu conta que todo o vilarejo estava na escuridão. Estranhou, mas, imaginou que a chuva fosse a responsável pela falta de luz elétrica.
    _ Boa noite, meus senhores!
    _ Boa noite, Xica. Demoramos, mas, chegamos.
    _ Já estava mesmo preocupada, Piu. Essa chuva toda e vocês à deriva nessas estradas perigosas.
    _É, minha amiga! Realmente o trajeto não foi fácil, penso que o doutor nunca tinha enfrentado uma chuva dessas na vida. Mas, ele teve sorte em ter esse velho aqui como motorista. Além disso, ele está estranhando muito o frio aqui da região, não é mesmo, doutor?
    _ Pois não? Augusto perguntou meio perdido, pois ficara observando o casal conversando e imaginando há quanto tempo eles se conheciam. Na maioria das vezes e em lugares pequenos como Carmond, as pessoas se conhecem de uma vida toda.
    O motorista tocou em seu ombro e repetiu parte do diálogo:
    _ Estava a dizer para Xica que o senhor não está acostumado com o frio que faz por essas bandas.
    _ Ah sim! É verdade, dona...?
    _ Francisca, mas eu prefiro que me chamem de Xica.
    _ Como quiser, dona Xica! Pois então, eu realmente não estou acostumado com tanto frio. Lá na capital a temperatura está sempre muito elevada.
    Xica e Piu trocaram um sorriso cheio de cumplicidade, como quem queria dizer: “É bom se preparar” e ela que havia deixado o castiçal sobre o balcão, voltou a pegá-lo e pediu que eles a seguissem.
    _ Não posso me demorar, Xica. Agora que o doutor está entregue, sã e salvo, preciso ir pra casa descansar pro dia de amanhã.
    _ Nada disso, Piu. Você não vai embora sem antes tomar um prato daquela sopa que você adora e que está ali quentinha esperando por vocês.
    Augusto entendeu que não seria necessário a dona da pensão insistir, Piu tomou suas malas nas mãos outra vez e foi seguindo dona Xica através do imenso corredor cheio de portas, até que ela parou diante de uma delas e entregando o castiçal para Augusto, retirou do bolso uma chave.
    _ Este é o seu quarto! É tudo muito simples, mas muito bem cuidado, doutor.
    Mesmo com a pouca claridade, Augusto percebeu que o quarto, apesar de simples, era aconchegante.
    _ Tem tudo o que eu preciso aqui! E sendo assim, não poderia ser melhor, podem acreditar!
    _ Fique tranquila, Xica. O doutor aqui não é cheio de frescuragens como aquele último que esteve no vilarejo. Não é mesmo, doutor Augusto? O motorista perguntou enquanto terminava de colocar as malas alinhadamente num canto do quarto.
    _ Não se preocupem comigo, tenham a certeza que ficarei muito bem acomodado. Só preciso tomar um banho e trocar essa roupa que está um pouco úmida.
    _ Aqui nessa cômoda tem toalhas limpas e passadas, e o banheiro é logo ali no final do corredor. Vou acender algumas velas para ajudá-lo.
    _ Por falar em acender, o que houve com a luz? É por decorrência da chuva?
    _ Não, meu doutor. A chuva não tem nada haver com isso. Todas as noites, após as oito horas, a vila fica na escuridão. Com chuva ou sem chuva.
    _ Como assim? O que há com a eletricidade daqui?
    Piu se posicionou ao lado de Xica na porta do quarto e os dois trocaram um olhar de cumplicidade que deixou ainda mais claro para Augusto o quanto aquele casal se conhecia.
    _ É uma longa história, meu jovem. Por ora, tome o seu banho e venha nos fazer companhia na cozinha. Estaremos te esperando para tomar uma sopa deliciosa, modéstia à parte, eu sempre acerto na sopa. Não é mesmo, Piu?
    _ Tenha a certeza disso, doutor Augusto. Não existe sopa melhor, nem na capital, nem no mundo inteiro.
    Augusto sorriu e os dois deixaram o quarto indo em direção à cozinha. Enquanto o barulho dos passos ia se distanciando, o médico ficou a pensar na questão da luz elétrica e inevitavelmente as histórias que seus amigos haviam lhe contato sobre a vila retornaram à sua memória com força total.
    Não! Pensou ele. Todas aquelas histórias eram bobagens dos meus amigos, que não queriam que eu viesse à Carmond.
    E foi tentando afastar esses pensamentos que Augusto seguiu para o banheiro do final do corredor.
  • CARMOND - CAPÍTULO II

    O convite para ir à Carmond chegou um ano após Augusto ter retornado da Europa, onde havia se formando em medicina. E talvez tenha sido isso a causa de seus amigos colocarem tantos empecilhos na sua decisão de aceitar a proposta. Na certa, queriam aproveitar mais a convivência, uma vez que haviam passado tanto tempo distantes.
    _ Você não pode está falando sério que aceitou ir para aquele fim de mundo. Só pode ser uma brincadeira e, convenhamos, de muito mau gosto. O Silva falou enquanto eles dividiam uma cerveja num bar qualquer no centro da cidade.
    _ Porque todo esse espanto, Silva? Serão só alguns meses. É só o tempo do velho ficar bom ou...
    O Silva acabava de virar o último gole do copo e enquanto falava, voltou a enchê-lo.
    _ Você sabe muito bem da fama daquele vilarejo, Augusto. As histórias que chegam de lá são horripilantes.
    _ Como assim? Eu não sei do que está falando?
    _ Não se faça de desentendido, meu amigo. Sabes tão bem quanto eu que pouquíssimas pessoas viajam para aquele lugar e é ainda menor o número que retorna de lá.
    Nesse momento, Augusto não conseguiu conter o riso e isso pareceu deixar o Silva um pouco irritado.
    _ Vais rindo, doutor Augusto, depois não adiantará dizer que não o avisei. Como já diz o bom e velho ditado: Quem avisa amigo é.
    _ Não podemos acreditar em tudo que essa gente diz, meu amigo. Essas histórias são tão verdadeiras quanto o coelho da páscoa ou o papai Noel.
    _ Bom, eu como acredito que tudo é possível nesse mundão de meu Deus, se estivesse no seu lugar, não iria.
    No instante em que Augusto iria dar continuidade à conversa, os dois foram surpreendidos com a chegada de César e Rafael, ambos, amigos de longa data.
    _ Que maravilhosa coincidência! Veja que sortudos que somos! Quatro amigos se encontrando casualmente para tomarem cerveja e jogar conversa fora.
    O Silva, ouvindo as palavras de César, foi logo adiantando:
    _ É bom aproveitar mesmo este momento. Pode ser um dos últimos que passamos assim: os quatro juntos.
    _ Não entendi, alguém aqui irá morrer?
    _ Não leve a sério as palavras do Silva, meus caros. Ele já bebeu um pouco além da conta.
    Todos já estavam acomodados ao redor da mesa e o garçom, com uma competência invejável, servia cerveja aos recém chegados.
    _ Não estou bêbedo coisa nenhuma, rapazes. A verdade é que nosso amigo doutor acabou de fazer uma das maiores burradas da sua vida.
    _ Não seja exagerado, Silva. Desse jeito eles irão achar que eu engravidei alguma daquelas donzelas que visitam meu consultório semanalmente.
    Enquanto César e Rafael sorriam curiosos, Silva continuou com uma expressão de desaprovação e retomou a conversa:
    _ Antes fosse isso. Um filho com uma daquelas donzelas seria muito melhor que se enterrar naquele maldito vilarejo.
    A última palavra proferida por Silva ficou vagando no ar entre os quatro rapazes por um breve instante, enquanto os dois últimos a chegarem encaravam Augusto, espantados.
    _ Vilarejo? Isso quer dizer...
    Antes que completasse a pergunta, Silva adiantou-se:
    _ Isso mesmo: VI-LA-RE-JO, disse pausadamente, enfatizando cada sílaba. _ Augusto acaba de aceitar a proposta de ir para Carmond, tratar de um velho, que segundo informações, já deveria ter partido dessa pra melhor há muito tempo.
    César e Augusto, que até então estavam acreditando que tudo não passava dos dramas habituais do Silva, agora pareciam estar totalmente de acordo com ele.
    _ Sou obrigado a concordar com o Silva. Você só pode estar louco para aceitar ir para aquele lugar. Um vilarejo que fica a não sei quantos mil quilômetros, que só passa trem a cada quinze dias... Não! Você só pode estar de brincadeira.
    _ Calma, meus caros! Vocês estão fazendo confusão num mísero copo d’água, ou melhor, de cerveja. Sorriu e continuou. _ É verdade sim que eu irei até Carmond tratar da saúde de um velho que está a padecer. Ponto. É só isso. É o tempo de ir, tratar do enfermo e estarei de volta ao meu consultório, as minhas fiéis pacientes e aos meus amigos medrosos e queridos.
    Os três ainda continuaram questionando e listando o quanto ele perderia se afastando da cidade naquele momento. César apressou em dizer que ele mal havia aberto as portas do consultório que o pai, com tanto zelo, havia o dado de presente assim que Augusto retornou da Europa.
    Rafael alertou que as donzelas procurariam outros consultórios, e aí quando ele retornasse, se retornasse, não teria mais pacientes lindas e calientes implorando para serem consultadas.
    E por fim, o Silva, que já não encontrava mais argumentos, continuou insistindo na história de que o vilarejo era mal assombrado e que quem viajava até lá, dificilmente retornava.
    Porém, mesmo com todos esses argumentos, Augusto não se deixou persuadir, e dois dias após aquele encontro no bar, despedia-se dos amigos e da família, e embarcava no trem com destino à longínqua e misteriosa Carmond.
    Passadas algumas horas do embarque, uma chuva torrencial começara a cair, e quando o trem parou num lugar qualquer da estrada deixando Augusto, sozinho, esperando pelo motorista que lhe fora prometido na carta, o jovem médico começou a refletir se os amigos não estavam, de fato, com razão.
  • CARMOND - CAPÍTULO III

    CAPÍTULO TRÊS
    O ponto de parada onde fora deixado era diferente de todos os outros já conhecidos e imaginados por Augusto. Ficava num lugar qualquer da estrada e não havia nenhum sinal de vizinhos, ou ainda, nenhum bar ou qualquer outro tipo de estabelecimento como são de costumes nesses lugares.
    A chuva não dava tréguas e tudo que ele fez foi correr até uma velha tapagem, já bem deteriorada pelo tempo, e ficou lá aguardando pelo motorista, no meio da chuva e do nada. Essa espera, permeada pelas lembranças da conversa que havia tido com os amigos, durou mais de uma hora, até que, finalmente, ele viu surgir bem distante, os faróis de um carro que deslizava nas estradas enlameadas.
    Graças a Deus! Ele balbuciou e já foi tratando de ajeitar as malas nas mãos na expectativa de deixar o quanto antes aquele lugar.
    _ Por acaso o senhor é o doutor que está vindo da capital para tratar do Coronel? O motorista perguntou de dentro do carro e com o vidro do lado direito entreaberto.
    _ Sim, sou eu mesmo! Me chamo Augusto.
    _ Prazer, doutor! Sou seu motorista. Pode me chamar de Piu. Venha! Saia dessa chuva.
    Augusto realizou o embarque rapidamente e os dois tomaram o caminho de volta até Carmond, o vilarejo que tanto amedrontava seus amigos.
    _ Demoraremos muito para chegarmos?
    O homem sorriu meio desanimado.
    _ Um cadinho, doutor. Ainda mais com essas estradas ruins como estão. O senhor tem pressa?
    _ Não trata-se de pressa. Acho que é apenas curiosidade mesmo! Já passei o dia todo dentro de um trem, penso que mais algumas horinhas viajando não me farão mal.
    Piu sorriu novamente e ergueu as sobrancelhas indicando o banco traseiro.
    _ Tem uma garrafa e dois copos aí no banco de trás. Faço o favor de pegá-los e servir um chá pra gente, se não for incômodo, é claro.
    Augusto achou aquilo maravilhoso. Estava precisando mesmo tomar alguma coisa quente, depois do banho de chuva que tomara enquanto aguardava.
    _ Não é incômodo algum, ao contrário, será um prazer. O senhor parece ter lido meus pensamentos.
    _ Eu nunca saio sem a minha garrafa, principalmente em noites como esta. Um chazinho quente é sempre uma excelente companhia para quem vive tão solitário.
    Augusto encheu um dos copos e entregou para Piu que segurando-o com a mão esquerda, continuava a guiar o veículo com a direita.
    _ Posso lhe fazer uma pergunta, doutor?
    _ Depois desse chá você pode perguntar o que quiser.
    Sorriram os dois.
    _ Pois bem, o que levou o senhor a aceitar o convite para vir até o nosso vilarejo?
    Inevitavelmente Augusto lembrou-se dos amigos.
    _ Por que isso parece tão estranho? O que há de errado com o seu vilarejo, meu senhor?
    _ Carmond não é o melhor lugar do mundo para se estar, doutor. Tudo lá é muito difícil, desde o acesso, como o senhor mesmo está podendo constatar, até nas outras coisas mais simples.
    _ Por exemplo?
    _ Qualquer coisa que é normal em outro lugar, lá o senhor verá que se torna difícil.
    _ E porque isso acontece?
    _ Pelo visto o doutor não conhece nada mesmo do nosso vilarejo, né?
    Augusto balançou a cabeça negativamente e virou o último gole do chá.
    _ Não, meu senhor. Tudo que sei são as histórias, ou melhor, as lendas que as pessoas inventam e acabam chegando até a capital.
    Piu entregou o copo para ele e voltou a segurar o volante com as duas mãos. Nesse instante estavam passando sobre a velha ponte que já havia sido carregada duas vezes em enchentes que atingiram a região, e fora restaurada pelos próprios moradores.
    _ Boa parte dessas lendas são verdadeiras, meu jovem. As pessoas podem até aumentar, mas elas nunca inventam, já diz o ditado.
    _ O que há de errado em Carmond? O que acontece por lá?
    Piu reduziu a velocidade e olhou para o rapaz.
    _ Saberás logo logo, meu doutor. Afinal, o senhor foi contratado para cuidar do maior de todos os problemas desse vilarejo.
    Augusto percebeu que as últimas palavras foram pronunciadas com certo rancor e ao mesmo tempo tristeza, e isso deixou-o ainda mais curioso.
    _ Então está me dizendo que o problema todo, ou melhor, a maior parte dele provém do Coronel? Mas até onde sei esse homem está à beira da morte.
    _ Não acredito que ele vá morrer tão facilmente, seria sorte demais, e o povo de Carmond aprendeu desde cedo que a sorte parece não gostar muito daqui.
    E foi com a cabeça cheia de interrogações que Augusto seguiu o restante da viagem e nem se deu conta ao entrar no vilarejo que tudo estava escuro, a única luz acessa eram as dos faróis que cortavam a chuva e iluminava a rua diante deles.
  • Clássicos De Verão


    classicos de verão

    Na Divisão Dos Movimentos Kudza É Um Resultado Sísmico, Capaz De Ascender Um Big Bang Com A Simples Ajuda De Um Palito De Fósforos, Quando Deus Deu Luz A Vida Ele Usou O Meu Corpo Como #PapelQuímico, Eu Sou Um Universo Vivo, Sou O Esboço De Histórias Que Só Ganham Vidas Quando São Expostas Em Livros, Raros São Os Humanos Que ConseguemOlhar-se Com Os Olhos Dos Outros, Se Vidas Fossem Como Partículas De Água Os Oceanos Seriam Neutros, Já As Nuvens Seriam Os Monstros. Esse Telhado De Vidro É Um Obra De Arte, O Coração Desespera Mas O Espírito É Um #NegócioAParte O Meu Tem A Fisionomia De Uma 13ª Arte, Só Existe Uma Coisa Que Eu Gostaria De Saber, Como É Que O Céu No Céu É? Somos Acordados E Postos A Dormir Pela Mesma Insignificância, A Morte Só Te Permite Viver Pois Ela Ama A Vida, Sou Nada Mais Que Um Pombo Correio Entregando As Mensagens Deste #NamoroADistância, Não Sigas A Tendência Pois Estamos Sempre De Partida.

    O Sabor Do Medo Condensado Sobre A Tua Pele, Bloqueia O Consciente Incapacitando-Me De Comentar, Kudza Acabaste De Entrar Em #ModoEfeitoDeEstufa Está Na Hora De Deixar O Planeta Respirar, Vagarosamente O Ovo Desfirmamenta, Por Cada Mesma Aparência Perdemos Uma Nova Existência, Kudza- Porque Que Sempre Que O Mundo Fala, O Burro Nunca Pousa As Orelhas E Nunca Se Cala? Quando O Passado Bate A Porta A Gente Nunca Abre, Atenção Ao Que Hoje Dizes Pois O Amanhã…#AGenteNuncaSabe, As Negativas Influências São As Mais Letais, Desgastado Por Inexistentes Inexistências De Vidas, Que Apenas Ao Dinheiro É Que São Leias, Vou Dando A Corda E O Mundo Gira, Pessoas São Como Cobras, Entre Enroladas Entre Cordas E Só Nas Costas Ficam…#ÉlaQueCriticam. Kudza- Eu Tenho Uma Vida Conturbada, Vocês Perto De Mim Não Passam De Fantasmas Em Depressão, É Bom Que Tenhas Uma Cratera Paradoxal, Muitos Trazem Aquela Conversa Fiada, Mais Baixam Sempre A Cabeça A Corrupção. 

     “A Maior Distância Entre Duas Pessoas É O Mal Entendido”

    Essa Sorte Tornou-se Num Azar, Os Meus Atormentos Estão Mais Aterrorizados Que Um Coração Num Altar, Se Está É Uma Pergunta De Sim Ou Não, Porque Que Pressuponho Que A Resposta, Tem O Poder De Fazer O Matriz De Um De Nós #SeDesintegrar, Adicionei Alguns Anos De Dor, Aos Maliciosos Movimentos Enviados Pelos Que Gostam De Odiar, Moldei-o Na Forma De Um Coração, Kudza Concedeu-lhe Vida, Kedson- Agora É A #HoraDeReenviar, A Derradeira Desilusão Terá Acontecimento No Momento De Revelação Da Verdadeira Ilusão,Kudza Dá-me Dá-me Um Bolt De Sorte, Pois Eu Não Avisto Meta, Pequenos Desafios Ensinam O Corpo A Manejar A Dor, Se Este Percurso Fosse Uma Linha Reta, Hoje Eu Já Teria Conquistado O Teu Amor, O Sentimento É Prematuro Mas Já Afetou A Mente, Eu Vivo Desligado Mas Por Ti Liguei-me A Corrente, Kedson Encontra-se Perdido Entre Os Perdidos E Achados, A #FlacidezEmocional São Como Novos Horizontes Esperando Ser Revelados.

    Eu Não Lamento, Eu Não Esqueço, Eu Não Prometo! Se Os 2 Sentimos O Amor Porquê Que Não O Usas, Em Vez Disso #AbusasDoPoder Aparentas Ser A Minha Heroína Mas Não Me Das A Chance De Te Poder Converter, A Minha Carência Carece Por Uma Deusa, A Tua Beleza É A Armadilha Na Qual Fui Submetido, #DemasiadasEscolhasRelacionadas, Mas… O Meu Amor Não Carrega Duplo Sentido, Eu Sou O Indivíduo Que Não Se Concilia Com A Multidão, Kedson Foi Convertido Pelas 12 Horas De Luz Enquanto Kudza Foi Metamorfoseado Pelas 12 Horas De Escuridão, Palavras Digitalizadas Neste Abismo Onde, Egos São Mais Surdos Que O Amor Que Encargo No Meu Coração, Se Morrer É Acordar Então #VivemosSemDormir, Amassaguei A Cama Espreguicei Os Lençóis E Deixai A Almofada A Refletir.  

     “Viver Não É Necessário. Necessário É Criar”

    Porque Que A Tua Imagem Está Constantemente A Invadir A Minha Privacidade? O Teu Sorriso É Tão Ágil Quando A Minha #MentalAgilidade Kudza- Ela É A Filha Proveniente Da Primeira Lágrima Entornada Pelo Criador, No Intercâmbio De Palavras Descarto Certas Memórias, Pois Essas Mesmas Carregam Histórias Onde O Final Nunca É Promissor, Mas Nesta Memória Eu Quero-te Ao No Meu Roteiro, Prestigiada Por Uma Alma Pura Ela, E A#BelezaDaNatureza E Eu Sou A Verdura, O Coração Só Recebe A Mensagem Quando Já É Tarde Demais, O Pensamento Vive Em Conflito Contra Ideias Quem Nem Sempre São As Mais Ideias, Mas Eu Prometo Beijar Os Teus Lábios Da Mesma Maneira Que As Ondas Beijam A Areia, Serei O Teu Príncipe E Tu A Minha Pequena Sereia, Essa Vida É O Nosso#PontoDeEncontro, Vem Comigo Criar Um Novo Conto, Somos Anjos Caídos Procurando O Caminho De Volta Para Casa, Tu És A Outra Metade Da Minha Asa, Só Juntos Poderemos Alcançar O Céu, E Viver No Paraíso Que Deus Prometeu.

    “A Arte É A Auto/Expressão Lutando Para Ser Absoluta”

    Kedson
  • Despedida

    Lembro de você me chamar, segurar a minha mão e me guiar.
    Era pouco antes das dez da noite. A noite bonita. Depois da nossa longa conversa, levantou do banco marfim entre as árvores do condomínio, pegou na minha mão e disse "vem aqui". Não sabia onde iríamos, mas levantei e deixei-me levar. Eu estava descalço e sentia a grama fria em meu pé, entrelaçando nos meus dedos. Enquanto me conduzia, por entre o emaranhado de folhas, parou um instante. Olhou para trás. O seu rosto de um jeito convidativo, um sorriso de canto, seu olhar castanho fitando os meus lábios, fez-me arrepiar. Voltamos a caminhar, "eu estou descalço"..."não importa, só vem comigo". E eu nunca vou esquecer a sensação da grama fria nos meus pés.

    Chegamos na parte mais bonita da pequena vegetação tropical que cercava o condomínio. Paramos, você não precisou falar nada, o seu abraço me disse o universo e o mundo. Confirmando tudo. Recordo o seu toque leve acariciando os meus braços até suas mãos chegarem e relaxarem em minha cintura. Eu estava nervosa, tensa. Você tentava me deixar confortável. Não era a primeira vez que te via naquele clima e daquele jeito, mas era tudo ainda mais intenso. Havia algo de diferente. Forte. Eu sabia a imensidão que significava aquele momento mas, me recusei a aceitar. Numa tentativa falha de cessar, postergar, comecei a falar. Você me encarou fixamente, repousou os dedos nos meu lábios - "shh" -  e, num sussurro, me pediu pra parar de falar porque você queria me beijar. Não era o meu primeiro beijo com você. E ainda assim, eu estava com medo, tão aflita que sequer entrava no clima. Podia não ser o primeiro, mas sabia que seria o último.

    Infelizmente algumas situações precisam ser vivenciadas. Não há como fugir. Elas cortam, mas são necessárias. Não podem ser adiadas, elas nos cercam, quando menos esperamos. Reconheci que aquela noite marcava a nossa despedida. E isso me torturava. Antagonicamente marcava o fim e confirmava a intensidade de tudo que vivemos, a grandiosidade do que nos proporcionamos sentir. Árduo, mas belo. Resolvi postergar, não o momento, mas a dor. Faria da nossa última noite uma celebração da nossa curta história de “amor”.

    Teu olhar sereno me fitava. Seus olhos trêmulos. Com um sorriso de canto, me disse "é necessário". Exalando pesar, assenti. Em meio às árvores que abafava o som de "Brooklyn Baby - Lana Del Ray" que ecoava da festa, deixei me guiar. Foi só em meu rosto tocar e, como sempre, me desmanchei. Você não falou, mas não ouse chegar a negar. Nunca te vi tão obcecado por mim como naquela noite. Desejo. Como se o seu eu não só ansiasse, mas dependesse do meu. Queimava em intensidade de um jeito que nunca havia visto e que jamais esquecerei. Almas conectadas. Transcendemos.   

    Nunca conversamos a respeito daquele dia depois. Não nos vimos. Não nos veremos. Para mim foi bem mais que intenso. Enquanto decidia simplesmente a ti me entregar, uma reprise dos nossos dias invadia minha mente. Uma reprise do meu melhor verão. A sensação enquanto parávamos para respirar era gostosa, saber que por alguns instantes nos pertencemos, que estávamos em sincronia. A cada exalar, um momento nosso tornava  a minha mente, fazendo-me grata por dividir um verão com você. Tão grata que mesmo hoje, distantes, provavelmente um pouco mais diferentes, somos duas pessoas, que não mais se conhecem, mas com uma história gostosa, repleta de lembranças inimagináveis e momentos incríveis - em comum - de uma intensa paixão de verão.

    Lembrei de quando me levou para conhecer a galeria, depois do luau. Era enorme. Fiquei boquiaberta com o quanto se dava bem em tudo atrelado à arte. Não só compunha belas canções, mas também dava vida à telas maravilhosas. Por ser totalmente leiga, impressionada, fiz uma série de perguntas. Tu não se irritava com minhas indagações, ao contrário, me contava graciosamente sobre tuas técnicas. Inspiração. Gostava de te ver daquela maneira, expondo seu íntimo.

    Tornei também à noite do karaokê, cantamos juntos “What's Up? - 4 Non Blondes”. Lembrei da festa da Mallu, você me irritava me chamado para dançar enquanto eu resistia alegando não saber, mas, na hora que eu sentia você em mim a sua calmaria me inundava e toda fútil irritação se evadia. Independente de experiência, achei teus movimentos tão graciosos. Definitivamente eu não sabia dançar. Porém, contigo eu não tinha receio de arriscar. Não haviam barreiras. Foi a primeira noite que dancei literalmente sem pensar no amanhã.  

    Passamos a maioria das tardes do verão em seu ateliê. Adorava te ver trabalhar enquanto jogávamos conversa fora. Aliás, jamais esquecerei o meu pique de euforia ao ver uma pintura minha lá. O meu melhor artista. No entanto, adorava ainda mais quando cantava “Onde anda você - Vinicius de Moraes”. Tudo em ti me derretia, não era só o seu beijo. O teu jeito. Quando nos encontrávamos, instantaneamente algo me preenchia, embora antes não estivesse fazia. Eu não te completava e nem vice e versa, a gente transbordava.

    Em pensar que na primeira vez que te vi, não imaginava tudo que estava por vir. Nunca iria presumir o quão profundo um envolvimento de férias poderia me tocar. Sequer que umas horas de papo furado na praia com um cara bêbado de sorriso malicioso iriam acarretar tudo isso. Felizmente, tive o prazer descobrir que tu era bem mais do que isso, bem mais que um cara bonito cheio de lábia com jeito de inconsequente. Você tinha sede de conhecimento, tão sedutor explicando-me os assuntos mais complexos, isso me desmoronava. E ao passar do verão, me cativava cada vez mais. É deslumbrante memorar o quanto me mostrou, não me refiro só os lugares bonito que me levou, mas também, às nossas horas de conversa, sua filosofia que pouco a pouco me fazia ver por outra perspectiva a vida. Era uma troca. Troca de conhecimentos, experiências, questionamentos e, claro, amassos.

    Confesso que a sensação, o clima de incerteza, sobre o que rolava entre a gente era gostosa. Você tinha a sua coisa, eu a minha, e quando a gente se encontrava era muito bom. Havia mistério, nem começo nem fim. E eu não queria perder o controle da situação. Não poderia ser tão fácil assim. Eu definitivamente não era esse tipo de garota, não me apaixonava assim. Mas, aquele verão foi diferente. Você foi o diferente.

    “Foi mais que um prazer conhecer você, foi incrível” as lembranças evadiram-se e rapidamente eu voltei, para a nossa última noite, afinal, eu voltaria para São Paulo na manhã seguinte. A noite ficou encantadora. E foi naquele instante, enquanto pronunciava aquelas palavras e o teu olhar avelã me fitava, que percebi o quão sua frase naquele primeiro dia na praia "a gente não tem nada ver" foi completamente descartada. Seu rosto corou, se entregou, estampou a verdade. Não imagina o quanto eu havia esperado, ansiado, desejado aquele momento ao longo de todo o  verão, com o meu apressado e quem, sabe, inconsequente amor. O instante exato que tive certeza que, pra ti, a nossa coisa também foi surreal. Química demais, conexão demais para ser verdade.

    O melhor de tudo foi que mesmo o Rio de Janeiro transparecendo despedida, ao longo de não um, mas vários beijos, o clima daquela noite não poderia ter sido melhor. Caloroso. Não era uma noite de despedida como as outras, não era capaz de me reconhecer. Não lidava bem com despedidas. Mas, estranhamente, reconhecia que estávamos fadados a ela, apesar de não aceitar. O clima, embora de já exalar saudade, não pesava. Conformismo? Tu agia de uma forma que eu jamais imaginara, sempre tão autêntico, agora afável, sereno, mas ainda assim, algo característico seu, mas um lado que eu desconhecia.

    Não sei se eu fui uma pessoa qualquer dentre as demais. Você não foi. Creio que alguma memórias não ousará em deixar para trás. Não tem como.  Nos conhecíamos havia pouco tempo e já tínhamos uma conexão esplêndida, te contei tantos segredos, mas nunca abri meu coração. Lembro que você mencionou “a nossa história” comigo algumas vezes e, em pensamento, me questionava o quão apressado, cedo, era pra você falar isso. Presa em minha própria teia. Eu queria mais. Disposta a me deixar levar. Quando eu teria uma aventura como aquela novamente?   

    Mais cedo, antes de tudo, sentados juntos naquele banco, olhando o céu escuro, sentindo a brisa da noite calorosa - o som da festa ao fundo “Art Deco - Lana Del Ray” -  conversávamos e eu juro que tentei. Tentei de verdade, abrir meu coração. Falar sobre o sentimento avassalador que me dominava, fazendo desejar cada vez mais e mais dias como aqueles contigo. Corroía. Já não me importava se era cedo, se burlava todos os meus conceitos. Tentei e eu estava disposta a colocar tudo pra fora independente do que você fosse falar ou pensar. Eu tentei "não fala nada, você só vai me ouvir", comecei a falar sobre umas coisas e logo desisti. A insegurança de sempre veio a tona e eu me senti tão boba. Boba por ter atribuído intensidade demais a tudo. Enquanto eu tentava revelar a imensidão do que na época sentia, simplesmente ao desenrolar das palavras, a coisa mais forte que eu consegui dizer foi apenas "saiba que eu gostei de você" e tu instantaneamente virou o rosto em minha direção, me olhou, inclinou a cabeça, mordeu o lábio e confirmou o que lá no fundo eu já sabia "eu também gostei de você, demais, pra caramba". Mas nenhuma de nossas falas remeteu ao amanhã. Independente do que ia acontecer ou não depois daquele instante, eu precisava aceitar, realmente, paixão de verão. Porém, uma coisa eu pude ter certeza, nos dedicamos uma história breve, mas sensacional. Confessa.

    Não esperava vivenciar sequer uma parte de tudo isso. Sequer é possível falar qual a melhor parte da “nossa coisa” sendo que eu gostei de absolutamente tudo. De todo o verão contigo. Talvez você não lembre da mesma forma que eu ou apenas não lembra mais de tudo que sentiu na época. Mas, se tem uma coisa que eu jamais irei esquecer é você. O cara pelo qual fui inconsequentemente apaixonada. Jamais irei esquecer a minha paixão de verão. Definitivamente uma paixão de verão, não passou disso. Justamente a sensação de incerteza sobre o que seria depois foi a graça de toda a coisa.

    Lembro de sentir a grama fria entrelaçar os meus dedos dos pés, dos seus beijos, do seu ritmo, do seu gosto, do nosso calor, do teu jeito caloroso. Foram só alguns dias, mas que marcaram imensuravelmente aquele verão. Lembro de cada detalhe da despedida.

     

  • Dizem por aí

    Dizem por aí 
    que devagar se vai ao longe
    E que com calma se escolhe bem
    Com você quero ir ao infinito
    E muito mais além
    Eu só te peço um momento
    Quem sabe a gente tira um tempo pra nós
    Lê meus pensamentos 
    Não estamos a sós
    Dizem por aí
    Que o amor machuca
    Mas pra mim sem você dói muito mais
    Eu só te peço um momento
    Quem sabe a gente tira um tempo pra nós
    Lê meus pensamentos 
    Não estamos a sós
    Quero você a qualquer hora,
    Sem demora
    Eternos finais
    Sem fim
    Eu só te peço um momento
    Quem sabe a gente tira um tempo pra nós
    Lê meus pensamentos 
    Não estamos a sós
  • Eterna Paixão

    Te dei o ar, o folego sentimento,
    Te dei a maresia, sorrisos calmaria
    Te dei a imensidão o conforto a paz
    Te dei a felicidade tirei a dor
    Tudo que vc smp quis e buscou
    [ Tome meu mundo, sinta-o profundo, esse sentimento não tem fim ]
    Respire constante 
    Siga avante, me queira assim
    Seja pelo que for, pelo que fui e por quem serei, seja assim, fique assim, queira por mim
    Esqueça a dor, viva o amor
    Liberte-se do possível, encontre a felicidade
    Perca-se da escuridão
    Viva essa louca paixão
    Tome meu mundo, sinta-o profundo, esse sentimento não tem fim
  • Eu Te Amo Tanto

    Quando eu te vi pela primeira vez, era numa tarde ensolarada, eu estava dentro do ônibus e você subiu. Me encontrei parlisada por alguns segundos quando bati o olho em você, senti minhas mãos frias e eu não sabia o porquê disso, desde então, eu não parei mais de te procurar em todos os rostos que eu via.
    Foi assim por uns longos anos, até que tivemos nossa primeira conversa através de um amigo em comum, eu logo me senti conectada, nossas ideias sempre bateram, nossas idiotices faziam os dois darem gargalhadas gostosas juntos.
    Foi então que depois de alguns meses tivemos o nosso primeiro beijo, sinto a sensação até hoje. Meu Deus! não poderia ser melhor. Foi dali que comecei a sentir que era você.
    Assim que nossos lábios se tocaram eu senti uma coisa surpreendente vindo de dentro de mim, é uma mistura de sentimentos, todos sentimentos bons possíveis que um ser humano pode ter, uma coisa tão louca que eu não sei explicar, mas que sinto toda vez que nossos lábios se encontram novamente.
    Toda vez que bato os olhos em você, andando, sorrindo, distraído, de qualquer forma, eu fico maravilhada, como se fosse a primeira vez que eu te vi.
    É como se eu me apaixonasse por você toda vez que eu te encontro em algum lugar, como se fosse a primeira vez novamente, e eu amo isso.
    Aliás, eu amo tudo em você: amo seu jeito distraído, amo como sua risada soa, amo as curvas do seu sorriso, amo suas mãos, amo seus dedos tortos, amo seu timbre, amo seus olhos, amo seu nariz, amo o seu carinho, amo toda sua personalidade, amo suas olheiras escuras e profundas, assim como meu sentimento por você é: profundo! Tão profundo que eu quase me perco nele, de tão grandioso que consegue ser. Tão profundo que as vezes eu não sei como demonstrar ele, e eu tento de todas as formas botar ele pra fora pra você saber o quão amado é! 
    Eu te amo tanto.
    Por mais que eu queira que nós dois dessemos certo, a minha prioridade é te ver feliz, mesmo que nos braços de outra, minha prioridade é você está bem.
    Mas... Eu te amo tanto.
  • Fantasia

    Eu fantasiei. Fantasiei muita coisa a respeito do que estava rolando entre nós. Finalmente, depois de tanto tempo, identifiquei que também fui parte do problema. Tudo aquilo era tão novo, tão excitante, aquela sensação de perceber que o cara pelo qual sempre tive uma queda estava claramente na minha, me corria! Isso fudeo com o meu psicológico. Literalmente. Você fazia as coisas mais simples e esperadas de um cara que está afim de alguém, mas, simplesmente pelo fato de ser você, eu me sentia incrível, a grande contemplada; me contentando com migalha. Afinal, desde o início, lá atrás, sequer cogitava a hipótese de te atrair, pois, não me enquadrava nem um pouco com as mulheres que você costumava sair.

    Não foi assim que te vi. Não, definitivamente não foi, apesar de ter chamado fortemente a minha atenção de primeira. Foi de modo gradual, com decorrer do tempo, quando passei a conhecê-lo realmente [ou melhor, quando acreditei que o conhecia], que me encantei por você. Confesso, inicialmente, me recusei a aceitar já que aquilo parecia o cúmulo do absurdo, cheguei a passar por toda aquela fase de negação que, aliás, foi relativamente longa. No entanto, reconheci que mentir para mim mesma não fazia sequer sentido, como poderia sentir vergonha por ser capaz de me cativar por alguém antes mesmo de tocá-lo?

    Mas, o problema não estava nisso, jamais fora o sentir. A grande questão era o receio de não ter o meu interesse correspondido, como já mencionado, ao meu ver eu não fazia “o seu tipo”. Esse pensamento me inibiu por um tempo considerável, até que, em meio às brincadeiras da galera, você passou a dar sinais favoráveis a mim. Mas, para a garota que no 6°ano do fundamental havia sido um dos alvo de chacota entre os garotos da turma, antes seus amigos, tudo aquilo não passava de mais gozação. Aliás, acabou por ser um dos principais motivos da minha insegurança e baixa auto-estima, qual até hoje percebo seus reflexos. Não era capaz de acreditar. No entanto, por incrível que pareça, aos poucos eu cedi à medida que você pareceu tão confiável, claro e franco. Você não era como eles.

    Não é novidade, sempre há um “porém”, você agia diferente comigo em detrimento das demais garotas da classe, com uma espécie timidez, acanhamento. Não faz ideia do quão isto deturpou a minha mente. Eu precisava encontrar um porquê. Cheguei ao ponto de identificar uma espécie de padrão nas garotas que você curtia; e, pior ainda, me rotular como não interessante e/ou atraente como elas. Que apesar de sentir-se atraído por mim, jamais seria na mesma intensidade que elas o atraíam. Eu não podia competir. Sinto vergonha em assumir que tive tal pensamento esdrúxulo, como se nós, mulheres, estivessemos numa competição; ou que pelo fato de uma mulher ser para ti atraente e eu não possuir as mesmas características que ela me diminuísse de alguma forma. Além do mais, tola, por ter sido tão ingênua e deter uma visão distorcida sobre “conquista”, já que ainda não compreendia sobre “reciprocidade” e “leveza”.

    Sei bem o que me levou a isto. Sabe o que? Minha tentativa fútil de justificar a razão pela qual as coisas aconteciam lentamente entre agente. Não, eu nunca fui e não sou apressada, a real era que você me enrolava e eu não conseguia compreender o seu porquê. Você agia diferente comigo, não tinha atitudes negativas, ao contrário, tinha medo e eu só não sabia do que. De agir? Pois, chega a ser curioso, eu estava apta a me deixar levar e isso não era possível quando reconhecia que apesar de sentimentalmente a coisa ser mútua, você ainda assim não tomava atitude consonante. Havia algo sim, medo, receio ou sei lá o que, você não era assim e isto me fazia reconhecer que era por causa de mim, eu causava essa reação em ti. Era por isso que eu viajava. Não conseguia entender o que te embasava. Porque não me chamava logo pra sair? Demorou, mas, depois finalmente compreendi.

    A sensação que vigora entre nós era a de estar pisando em cascas de ovos, a todo instante evitando deslizes, constantemente tendo cautela exagerada em tudo para não estragar o pouco conquistado em tanto tempo. Mal sabíamos que isso nos impedia de sermos nós mesmos. Fazíamos o possível para manter a boa impressão e não afugentar o outro; eu, por exemplo, chegava a ficar minutos pensando em como responder uma mísera mensagem; você, por hora, corava ao falar comigo em nossa roda de amigos, ficava sem graça e ao invés de conversar se afastava. Justamente o zelo e o desejo de que “fluísse naturalmente”, sem colocar pressão ou sequer expectativas no que acontecia, de modo a não fazermos projeções para evitar a temida frustração, tornava tudo ainda mais embaraçoso. Mal sabíamos que só em pensar dessa forma, estávamos os dois concomitantemente implorando para dar certo. Expectativa. Não chegamos a falar isto, mas, era evidente dos dois lados. Eu dançava conforme os seus passos. Mesmo não concordando com o lance da demasia, isso me consumia. Mas, ainda assim, continuei a dança, persisti naquilo, afinal, eu também queria que desse certo.

    Em virtude do anteposto, é evidente, não deu certo. Recordo os detalhes, consigo explicar conjunto de fatores externos de uma forma lógica que inibiram o que desejávamos, mas não sei bem explicar como isso pôde ser maior que a intensidade e pureza do sentimento avassalador que havia ali, aparentemente, a magia da primeira paixão de adolescência não era tão forte assim.

    Alguns verões depois, em tese “maturos”; se comparado a nossa, ou melhor, a minha - em especial -, falsa percepção de conquista, idealização de amores e nula experiência quanto a mãos, bocas e perfumes, nos esbarramos novamente. Destino? Universo? Coincidência? Não sei, não importava. A minha única convicção era de que jamais cometeria o mesmo erro que anteriormente. Desta vez, não havia um sentimento antecessor, paixão ou seja lá o que, para complicar as coisas ou até mesmo postergá-las. Em contrapartida, havia ainda forte interesse e, claro, lembranças. Isso deixava tudo inflamado, quente. No início, estávamos jogando e o flerte não só era excitante; mas também, escancarado, haja vista que a turma inteira não só desconfiava - como antes -, desta vez eles sabiam. Além de tudo, a minha percepção de mundo havia mudado, já não mais existia aqueles fantasmas de baixo autoestima ou qualquer coisa atrelada a me taxar como insuficiente. Naquela época, eu não me sentia menos que inteira. Aquele seria o meu ano e me permitiria viver e sentir o mundo, nada iria me impedir.

    Estava decidida e isso foi ótimo. Sim, “foi” enquanto ainda tínhamos tudo sobre controle. As coisas são imprevisíveis. Sou emotiva demais. Perdi o controle. Aos poucos criei um vínculo muito forte e só pude perceber quando me peguei implorando para isso se desfazer, pois, eu me magoei demais. Como alguém pode insistir permanecer com algo que acabou por tornar-se mais motivo de decepção do que satisfação, por julgar que é melhor ter aquilo do que perdê-lo? “Melhor pouco do que nada”? “A frustração ao abrir mão seria maior”? O que havia acontecido com a história da “reciprocidade”?.

    Cara, você fez eu me sentir especial. Não como se não existisse nenhuma outra garota aos seus olhos; mas, como se dentre tantas mulheres encantadoras, você pudesse escolher uma, ainda sim desejaria e preferiria estar comigo, jamais por me achar melhor do que elas, mas por ter zelo à nossa troca de energia. Porque, no meu ponto de vista colorido e bem elaborado, você estava apaixonado [novamente] por mim. Como eu disse, fantasiei, ou melhor, acreditei. Ou será que apenas não fui capaz de discernir as coisas?

    Mas, o problema foi que sim, talvez eu tenha fantasiado. No entanto, você colaborou fortemente para isso. É mais que óbvio quando um cara chega para sua amiga, dizendo que desejava mais que tudo que fosse você quem estivesse ali e ainda a questiona sobre o que ela pensa a respeito da possibilidade dele te namorar, com o intuito de aferir se a sua vontade era essa também. Caramba. Quando ela me contou, eu surtei. Cheguei ao ponto de ter CERTEZA que teríamos um relacionamento. Eu sentia mais que o suficiente. Eu queimava em intensidade.
    Ah, você acabou com o meu psicológico. Mas, estranhamente, por um longo período, foi um dos motivos que mais fez bem a ele. Sabe, a única coisa que realmente me faz ter saudade era em como estar com você fazia eu me sentir ainda melhor. Gostava de ti, logo, ter-te por perto era gostoso. No início, cheguei a te dar todo o crédito pelo “bum” da minha auto felicidade, pela minha autoestima, pela minha calmaria, pelo meu bom humor - que se fez tão marcante naquela época -, pela minha inteligência e demais atribuições e características; eu definitivamente me sentia incrível. Não que eu não fosse nada disso anteriormente, apenas não havia percebido e você reconheceu, me mostrou. Porém, durante muito tempo fui equivocada e acreditei que você havia me dado tudo isso. No entanto, não sou egoísta ao ponto de não assumir que adorava saber que você me via daquela forma, da maneira que eu gostava, do jeito que eu era.

    Tínhamos uma troca muito gostosa, havíamos decidido encarar a situação da melhor maneira. A regra era clara, não cometer os mesmos erros. Mergulhariamos. Sim, mergulhariamos, profundo, desde que aquilo que nos motivasse fosse puro, sincero, espontâneo. Intrínseco. Não magoariamos um ao outro. Justamente por tal, por proposta sua, conversamos, nada ficou a cegas, expomos o nosso interesse e a partir disso surgiu o acordo: o lance deveria ficar entre nós, seria “a nossa coisa”; a melhor maneira para nos conhecemos definitivamente era sem a ciência dos colegas para não haver qualquer tipo de pressão ou algo correlato; inicialmente, sem nenhuma cobrança sentimental, já que não havia sentimento pré-existente para ambos, diferente de outrora; porém, como consequência de se conhecer, impossível seria descartar a possibilidade, consiste em algo qual não detemos controle, logo, nessa hipótese seriamos francos e claros um com o outro. Um pacto perfeito para nós dois.

    Tu não é capaz de imaginar o quão uma simples mensagem sua, inesperada, me alegrava, muito menos sequer compreender tamanha euforia que suas frases curtas quando acompanhadas pelo famoso sorriso mútuo, já que os seu olhos sorriam também, de “te quero” [como intitulei] me causavam. Algo florescia, era quente, pulsava, dominava; minha respiração ficava desregulada, sentia uma leve palpitação e por uma fração de segundo eu entrava em transe enquanto um calor percorria ferozmente o meu corpo; no mesmo instante podia sentir meu rosto aquecer, momento em que tinha certeza da nova cor que minhas bochechas haviam ganhado, me via envergonhada só em cogitar a possibilidade de você perceber todo o alvoroço que causava em mim. Afinal, acreditava que tu estava sendo sempre franco (de acordo com o nosso combinado), chegando até a ficar frustrado nas poucas vezes que eu ironizava suas falas, pois, era encantador demais ouvir-te pronunciá-las, quase que surreal, não me restava saída que não a brincar com a sua frase na fútil tentativa de não te deixar perceber o embaraço que você provocava em mim.

    Sua companhia realmente me fazia muito bem. Não imagina o quão eu me sentia incrível por saber que era por ti admirada, desejada; em sentido amplo. Como se eu tivesse te conquistado. Reciprocidade. Sim, reciprocidade, uma vez que que eu sentia o mesmo por você. Achava um máximo que apesar do seu jeito, sarcástico, charmoso e safado, nos instantes mais inesperados, involuntariamente, você me falava coisas tão bonitas e logo após ficava sem graça, como fuga, caçoava ao se dar conta que estava sendo “romântico pra caralho”. Frases que jamais esperava ouvir de qualquer cara, muito menos de você. Além do mais, me tratava de uma forma que me surpreendia. Me surpreendia realmente, ternura. Lembro detalhadamente de cada borboleta no estômago, cada instante de aceleração dos meus batimentos cardíacos, de cada respiração ofegante, do desejo em te ver todo dia, de cada troca de olhar, dos joguinhos, dos teus sorrisos maliciosos, do seu olhar profundo me fitando com o famoso sorriso de “te quero”. Sempre lembrarei. Confesso que, por esses instantes, eu sou grata a você.

    Foi sim perfeito, no começo. Ao decorrer do tempo, o tratado já havia sido parcialmente descartado, ignorado, seja lá como queira chamar. Descumprido, já que víamos sentimento surgindo, ou melhor, metamorfoseando-se para ambos e estávamos gostando daquilo; não que essa parte não tenha sido prazerosa, só que não fomos específicos, não conversamos a respeito, que seria o ideal já que devíamos ter honrado o pacto. Justamente isso acarretou, a longo prazo, um problema no quesito “intensidade”. Mas, ainda assim, estava no ar, era evidente, límpido e posso afirmar com convicção que não tratava-se de um ponto de vista exclusivo meu; para ti também estava óbvio, como já mencionei, tu chegou a expor para nossa amiga a possibilidade de me namorar. Não obstante, conforme anteposto, sermos silente e não tratar do assunto ocasionou uma confusão, na verdade, uma teia, graças a você, que foi cínico o suficiente ao ponto de utilizar tal argumento, um tanto quanto fraco, como justificativa ao me ver te questionar sobre o que possuíamos e o que seria do depois (quando pude perceber que estávamos mais uma vez fadados a não ficarmos juntos). Me vi cercada, sem saída, sem argumentos e, de certa forma, traída.

    Tudo parecia maravilhoso demais pra ser verdade, aí reconheci os vacilos. Que na época eu não enxergava dessa forma, sempre acreditava nas suas explicações e razões, que hoje, reconheço como as mais idiotas possíveis, coisas que para com quem você afirmava “ter uma história”, partiam o coração na hora e logo depois, antes mesmo de você arranjar uma desculpa escrota, eu acabava criando uma razão lógica para tal atitude me culpando. As estações tinham mudado, mas eu havia estagnado o tempo, queria eternizar o que possuíamos. Cai na real apenas quando não só o ritmo, mas a canção era outra. A letra dessa vez era difícil pra caramba, eu não apreendi. Sinceramente não tenho como apontar um motim, sequer compreendo o que aconteceu. Me vi imersa numa situação qual eu sozinha jamais seria capaz de mudar. Estava surtando com o seu vai e vem.

    Recordo claramente a primeira vez que me disse “perdi o interesse”, na verdade, contou-me uma série de coisas quais se resumiam nesta curta frase, a única que assimilei. Foi cortante, me senti péssima, pois, jamais cogitara nosso distanciamento. Porém, eu prezava pela reciprocidade. Aceitei. Não o questionei ou pedi uma explicação, mesmo tendo certeza de que merecia um mísero “porque”. Jamais iria me humilhar dessa maneira, fazer questão de alguém que já não quer ficar. Havia tomado sua decisão, respeitei. Decidi encarar isso da melhor forma e não era de modo algum negando a sua existência, muito menos me martirizando para te esquecer. Por incrível que pareça, estava me saindo bem, daria certo. Exatamente, “daria” se você não se aproveitasse do meu método para se aproximar aos poucos e tentar reestabelecer o vínculo que eu ainda não havia cortado. Não posso mentir para mim mesma, te vi chegar, não convidei, mas te permiti entrar. Afinal, eu não havia cortado o vínculo e ao ver-te tomar tal atitude, me equivoquei ao interpretar como um “me enganei”. Acreditei que aquilo não iria mais se repetir. Tudo se restabeleceu como se nada tivesse acontecido, como se o seu vínculo jamais fora rompido.

    Na realidade, eu é que me enganei. Me enganei ao crer que aquilo não mais aconteceria. Aconteceu, infelizmente, mais de uma vez. Está aí o problema, quero dizer, parte dele; ou melhor, um deles, percebeu? Hora você me fazia pirar de tanto desejo; Outrora, me fazia ficar mal, ao te ver tratando-me como um tanto faz, como se só me quisesse por perto apenas nos momentos em que eu te convinha. Isso era péssimo, sentir-se uma pessoa que apenas convém e não alguém com a qual se tem zelo.

    A sua indecisão me corroia, era doloroso ficar no meio termo. Tu sabia que o meu sentimento era mais forte quando comparado ao teu e se aproveitou disso. Evidente era que eu queria estar contigo, mas, desde que você quisesse o mesmo; jamais cogitei a possibilidade de implorar ou desejar que você permanecesse aqui sem querer ficar, não sou do tipo que era egoísta consigo mesmo ao ponto de mendigar reciprocidade. Porém, infelizmente, eu ficava naufragando e emergindo, hora você era a boia que me salvava, ora a água gélida que invadia minhas narinas e estranhamente queimava. Não, eu não mendiguei reciprocidade, mas aceitei migalha. Você estava sempre indo e vindo. Sinto-me mal em falar, mas, apesar de não pedir para você voltar ou ficar; ainda assim, estava sempre a disposição, afinal, era melhor estarmos juntos quando você queria do que eu te dar um fora e não poder sequer sonhar com a possibilidade do que possuíamos dar certo. De qualquer maneira, fui sim egoísta comigo. Eu, que sempre odiei meios termos, me submeti a um por causa de você. Identifico-me integralmente com aquela frase da Clarice Lispector “Não suporto meios termos. Por isso, não me doo pela metade. Não sou sua meio amiga nem o seu quase amor. Ou sou tudo ou sou nada!”.

    Fui tão cruel comigo, me senti impotente e mais uma vez, tentei jogar o peso da situação para mim “Como pude deixar você escapar pela segunda vez?”. Errando comigo pela enésima vez, eu não havia deixado nada. Ao contrário, você mudou comigo completamente e eu, sinceramente, não estava mais aguentando me submeter a tentar resgatar a “nossa história”. Fui cruel ao me culpar por colocar um ponto final no seu vai e vem. Hoje, reconheço que jamais estarei sendo egoísta por me colocar em primeiro lugar.

    Viajei, pra caramba. Viajei ao pensar que aquele seria o nosso ano. Óbvio que você também não ajudou muito, quando me disse a data e o horário em que iria me pedir em namoro, confiei e ansiei já que naquele dia tínhamos um compromisso único e extremamente importante para nós dois. Sabe o que é mais impressionante? Na época eu tinha plena certeza que você estava sendo sincero, todo mundo já reconhecia a gente como um casal. Pior que isso, eu. EU via você apaixonado por mim. Pesado, não é? Me questiono se tudo isso que eu via em você era real ou apenas fantasia. Tudo foi tão intenso.
    A minha intensidade. A brisa nostálgica do passado. Como eu posso ter inventado; ou melhor, fantasiado aquilo? Foi a única conclusão a qual cheguei, fantasia. Sabe porquê fantasia? Não consigo encontrar um explicação lógica para ti de uma hora para outra jogar fora, ou melhor, abrir mão do que demoramos para constituir (tratar como tanto faz). Lembra? Eu, que não me permitia se fascinar ou me entregar, me apaixonei duas vezes por você e, na última, esperando um resultado diferente, mergulhei completamente nesse teu mar agitado, porque tu me fazia ver-te águas cristalinas de uma atraente calmaria, te permiti me conduzir, te daria um voto de confiança e passei a acreditar que me desejavas como se necessitasse de mim. Fantasia.

    Pra ser sincera, se fantasiei, eu não sei. Já não consigo decifrar o que eu criei [inventei para mim mesma] do que realmente aconteceu. Será que cheguei a fantasiar algo? Idealizei ao ponto de perder a percepção da realidade? Francamente, esses sentimentos e as lembranças são tão vivas em mim que chego a duvidar. Resta, agora, um turbilhão de emoção e lembranças com uma pitada de confusão. Sim, confusão, uma vez que não sei o motivo de você ter se afastado de modo tão repentino. Me arrisco a dizer que foi quase como se tivesse renegado o que ousou um dia chamar de “nossa história”. Renegado não somente isto, mas o que nos permitimos sentir. Não compreendo o porquê, se aquele foi o sentimento mais incrível que tinha despertado, até então, por um cara. Justamente por isso, ainda não consigo colocar nenhum outro acima de você. Que, aliás, já não é mais merecedor do posto que ocupa e, aqui dentro, travo uma batalha pra te destituir.

    E por falar em fantasias, nas madrugadas após as conversas mais gostosas contigo, que mexiam tanto comigo e me causavam até insônia, esperando o sono chegar ao longo do resto da noite eu fantasiava, idealizava, momentos ao teu lado. Momentos simples e intensos de uma vida que eu torcia tanto pra acontecer. Você também já fantasiou momentos comigo? Creio veementemente que sim, pois, nas madrugadas era tu que me mandava mensagens criando um roteiro de uma vida comigo, aliás, roteiro qual seguiu por um breve momento. Não faz ideia do quando ansiei para que seguisse o roteiro completo daquele verão. Fantasia. Incrível como uma palavra se faz tão presente. Fantasias quais eu ainda, em meio a madrugadas de verão movidas por uma brisa nostálgica, me pego memorando. Viajando. Então, eu levanto, coloco pra tocar um indie, me sirvo uma taça de vinho, e fico ali, no escuro da sacada debruçada no parapeito, dispersa em devaneios enquanto observo o quão deslumbrante pode ser a cidade sob o negro do céu. Espero profundamente que isto não seja um sintoma de saudade.

    Estou mais confusa do que nunca, não sei se desejo me afastar ou ficar junto de você. Sou incapaz de concluir isso. Novamente, sendo ainda mais egoísta comigo. Tu não faz ideia do que é sofrer de amor. Será que já não sei diferenciar a fantasia da realidade? Ao dizer fantasia, me refiro ao fato de ter atribuído mais emoção e importância a tudo que acontecia. Isso não seria apenas intensidade? Afinal, eu queimava em intensidade. Sempre queimei. E se eu não tiver fantasiado? Talvez seja o que tenha acontecido, ou não. Mas, e se tiver? Será que me apaixonei pelo que inventei de você?
  • Insano

     Tudo começou com aquele “Oi”, muitas vezes tínhamos vergonha de responder um ao outro, mas boa parte das vezes acabávamos respondendo e virando altas madrugadas, com assuntos que nem eu mesma sei de onde saia. Era tão bom conversar com você, nos conhecíamos desde pequenos (embora você seja mais velho que eu) assuntos diversos, sorrisos de lado a cada mensagem que me deixa sem jeito. Até que você me pediu um beijo! “Que isso moreno, assim eu me derreto”.
     Ok! Vamos lá, não deve ser tão ruim assim, mas imagino aquela saliva que vem da sua boca, aquela língua que já se encostou a outras, aquela boca que não sei o que comeu... Essa ideia de primeiro beijo era mesmo um terror em minha vida. Imagina só, você encontra uma pessoa, conversam algumas vezes e combinam de se encontrar, desse encontro sai um beijo, um beijo que você (Eu) nem imaginava a sensação que transmitiria. Naquele momento eu voei, fui a alguma dimensão e quase me esqueço de voltar. Como um simples toque pode te transportar para o além? Ah, quase me esqueço de contar, não me lembrei de levantar os pés [...]
     E de repente, um simples toque marcou minha vida, ali mesmo, no primeiro dia que fui de encontro a sua boca. Continuamos a nos encontrar e matar aquela vontade de sair do chão. Conforme o tempo passava, um frio em minha barriga percorria todas as aberturas do meu corpo, assim, sem pedir licença. Pesquisei o significado dessa sensação e fui diagnosticada com Paixão: sentimento intenso que possui a capacidade de alterar o comportamento, o pensamento e todo o resto do seu corpo. E essa tal paixão tem efeitos colaterais? Sim! Resultado encontrado! E quais seriam os efeitos: aumento da pressão arterial, dilatação das pupilas, falta de apetite, concentração e sono.
     Paixão? Alterar o comportamento? Com esses efeitos colaterais não deve ser uma boa. mas quem liga? eu só queria um beijo seu, mas consegui me apaixonar. Essa foi a maior aventura da minha vida.
     
  • Livro das Sensações parte 1

    Um barulho forte e inconveniente chegou aos ouvidos de Júlia.

    Um som esperado, mas temido, seguido de gosto amargo na boca, arrepio pelo corpo...

    Aquelas sensações ruins que todas as manhãs a trazia impetuosamente de volta para a sua medíocre vida.

    Não estava sonolenta, o motivo de odiar tanto aquele trinnnn do despertador era outro. Ter que enfrentar sua realidade sem sal e sua vida sem cor.

    É certo que havia um pouco de masoquismo de sua parte, aquele barulho irritante poderia ser substituído por uma musica o que amenizaria aquele sofrimento agendado. Mas no fundo ela se punia pela vida sem raízes, sem sonhos, sem história.

    Desde muito cedo, Julia percebeu que lidava com a vida e suas lembranças de forma diferente. As experiências ruins eram lembradas apenas a grosso modo, e os detalhes eram substituídos por sensações: aperto no peito, gosto amargo na boca, cheiro de enxofre e...

    Uma experiência quase palpável, tão intensa quanto o fato. E isto a deixava cada vez mais distante e arredia com tudo que pudesse fazê-la sofrer.

    Se descobriu assim na infância, numa vida de privações com uma mãe muito dura e distante que morreu quando Julia ainda tinha doze anos e um pai sem escrúpulos.

    Aqueles quatro anos que viveu apenas com ele depois da morte da mãe...

    “É melhor deixar os fantasmas onde estão.”

    Um dia, o pai apareceu com um dinheiro bem suspeito. Ela viu que era sua oportunidade de fugir. Pegou umas peças de roupas, parte do dinheiro e entrou no primeiro ônibus para a capital.

    No início foi muito difícil sobreviver numa cidade estranha, mas conseguiu emprego numa loja de roupas e alugou um puxadinho, onde vivia até hoje.

    O despertador soou novamente tirando Julia de seus pensamentos. Aquele sábado seria longo e ela precisaria estar pronta para a esperada e temida noite. Levantou-se e foi para o trabalho.

    ***

    Numa rua cheia de comércios noturnos, um se destacava. A construção era antiga e sofisticada. Uma alongada escadaria dava ar misterioso à fachada. Na parede rústica, escrito com letras grandes e diferenciadas uma das outras:

    Galeria das SENSAÇÕES.

    Julia parou ali em frente e não pode deixar de pensar no pai. Desde que fugiu de casa, ficou sem comunicação com ele. Mas inesperadamente recebeu uma encomenda de uma antiga vizinha de sua família. Dentro, a notícia da morte do pai e todos os seus pertences.

    Sua vida, seu passado, sua história, tudo dentro de uma caixa de sapato. Uns documentos com as fotos envelhecidas, as certidões de óbito e um jogo de chá novo, que Julia lembrava muito bem, foi ganhado de presente da única tia que soube existir, irmã de seu pai. Foi visitá-los uma vez, visita rápida. Ficou sentada reparando perplexa na casa simples. Rica e prepotente, deixou algum dinheiro e aquele presente destoante da realidade.

    Nunca foi usado. Julia perguntou o motivo à mãe, que respondeu:

    “Vinho novo em odre velho, estraga o vinho.

    Vinho velho em odre novo, estraga o odre.”

    Na época, ela não entendeu, nem esqueceu. Mas agora com aquele jogo na mão, entendia. Pra sua mãe aquelas xícaras mereciam um café melhor, uma casa melhor, uma família melhor. Na verdade o vinho não era digno do odre.

    - Nós não éramos dignos do jogo de chá, nem das meninas da cidade, nem dos vizinhos. Por isto não nos relacionávamos com ninguém, estragaríamos o vinho.

    O isolamento e a sensação de inferioridade ainda acompanhavam Julia. Tinha medo de se aproximar das pessoas, nenhum namorado que fosse, nem um contato mais íntimo com ninguém. Apenas uma amiga, Anna, e mesmo assim porque ela era atrevida, entrava sem ser convidada. Escolheu Julia para amiga e nada mudaria isto. Ela se dava muito mais que recebia naquela amizade, mas aceitava numa boa.

    Se privar nos relacionamentos era uma herança que Julia ainda carregava, apesar de odiar. Agora as xícaras estavam ali intactas e a mãe morta. Teve vontade de jogá-las contra a parede, mas se conteve.

    Junto com a caixa um envelope lacrado destinado a seu pai, era um convite para a inauguração de uma galeria de Andrea Vicentine - a filha da tia que deu o jogo de xícaras.

    Um grupo de adolescentes rindo, falando alto enquanto andava pela rua, trouxe Julia de seus pensamentos. Olhou de novo para a galeria.

    “Minha única parenta viva, meu elo com o restante da humanidade. Sem ele, sou uma forasteira em um planeta estranho.”

    Apesar de não saber se tinha feito bem em vir, estava ansiosa para entrar. O lugar era atrativo, mas o medo crescia dentro dela.

    “Sensações em caps lock.”

    Fechou os olhos e uma enxurrada de emoções passou por ela deixando-a ainda mais amedrontada.

    Com as pernas trêmulas decidiu entrar e verificar pessoalmente o causador de sensações tão destacadas.

    Mulheres de vestidos longos finíssimos e saltos agulhas desfilando elegância e riqueza pela escadaria fez Julia se lembrar de verificar sua aparência. Deu uns passos atrás procurando por sua imagem na vitrine de uma loja ao lado. O espelho refletiu uma mulher adulta de corpo definido, bem diferente da menina de dezesseis anos, magricela e com olhar amedrontado que chegou àquela cidade. Ma focando nos olhos, encontrava guardado aquele ar selvagem amedrontado e frágil da menina.

    - No fundo nada mudou, adolescente num corpo de mulher.

    Disse Julia pra si mesmo enquanto arrumava o cabelo.

    A aquela altura estava arrependida de ser tão distraída com a própria imagem. Usando um vestido floral, sandálias rasteiras, brincos médios e batom discreto, estava bonitinha, pronta para um passeio no parque, num domingo à tarde. Mas para uma festa daquelas...

    Sua prima era com certeza muito rica, o lugar era imponente, luxuoso e estava lotado. Por dentro era ainda mais atraente, beleza contrastando sofisticação e simplicidade; rústico e brilho, nude e vivacidade.

    Era um centro de vendas e exposições, onde se encontrava de tudo, restaurantes, lojas, centro estético, artes das mais variadas formas..., Julia nunca tinha visto nada parecido.

    Apesar do medo e tensão, tentou relaxar e curtir a noite com promessa de grandes experiências.

    Por um momento desejou que Anna estivesse ali para partilhar com ela aquela experiência.

    A livraria era futurista e os livros expostos de forma que pareciam voar. Julia pegou um que estava nos destaques. Grosso, capa áspera e escrito em alto relevo, letras lisas contrastando com a textura da capa: Livro da sensações.

    Ela saiu à procura de um cantinho para olhá-lo melhor e uma estante lhe chamou a atenção. Uma variação da luz por alguns segundos lhe deu a sensação de ter visto uma falha na parede. Detalhista como era, se aproximou e olhou mais de perto e percebeu um remendo, como se a parede estivesse inacabada. Aproximou-se ainda mais. Não havia parede, eram apenas cortinas de um material resistente, que deslizavam abrindo passagem para outro ambiente.

    “O permitido e o proibido definido apenas pela luz...”

    Julia estava perplexa, esperou um momento que ninguém estivesse olhando, passou por traz da estante, correu a cortina e chegou ao restaurante.

    “Em que mundo estou?”.

    Continuou por toda a galeria entrando de ambiente em ambiente.

    Estava pasma como os ambientes mesmo sem paredes eram personalizados, luz, cheiro, ventilação, tudo característico proporcionando sensações totalmente diferenciadas.

    Aquelas trocas tão rápidas e drásticas de sensações deixou Julia meio atordoada. Atravessou a parede para o lado, na vertical e se deparou com um local grande e arejado. Era um galpão, rústico e mal acabado.

    Assim era de fato a galeria, o resto era artifício para manipular os sentidos.

    “E conseguiram, lugar mágico, atraente e misterioso.”

    Julia olhou pra cima e viu que as telhas eram móveis e estavam abertas, permitindo que a brisa noturna trouxesse ventilação natural. Por isto, apesar de ser um ambiente fechado, estava bem arejado, sem a artificialidade do ar condicionado.

    Explorou todo aquele espaço. Quando ouvia passos de alguém, se escondia. Era interessante ver toda a galeria ali da área de serviço, era como ver o espetáculo pelos bastidores, sem luxo, e muito trabalho.

    Os funcionários que lá fora sorriam como que em um mundo encantado, simplesmente perdiam a magia ao atravessar aquelas cortinas, e as princesas davam lugar a gatas borralheiras, com aparência de cansaço. Cansadas certamente do teatro que eram obrigadas a representar lá fora.

    Voltou para o ambiente dos convidados e foi até os banheiros. Numa das portas estava escrito "banheiro quebrado, não entre".  Mexeu nas cortinas, e estas se abriu como se estivesse num conto de fadas.

    “Que perigo”

    Pensou enquanto entrava.

    O banheiro era enorme. Se sentou num canto quase deitando-se, sem nem se preocupar com o fato de estar num banheiro. O peso do livro já estava fazendo doer seus braços.

    Apreciou por mais um tempo a capa do livro, e depois o abriu. Uma onda de sensações levou Julia para aquele ambiente imaginário... a textura da folha, o cheiro, a cor, tudo atraia-a para o mundo do personagem. Chamava-se Rodrigo.

    Começou a ler.

    Estava mais que só sentindo, ela vivia o que Rodrigo vivia, aliás, ela se relacionava com ele.

    Sentia-o a meia luz, alto, moreno, atraente, sussurrando aquelas coisas lindas e provocantes ao seu ouvido.

    -Meu Deus, que livro é este!

    As palavras eram reduzidas, mas recheadas de emoções. Cada vez que virava a folha, mudava o sentimento, e com ele também o cheiro, a textura, a cor, e uma nova emoção tomava conta de Julia.

    Era transportada para outro mundo, como se estivesse com ele na praia, fechasse os olhos e abrisse numa festa, e depois num jantar a luz de velas, diante de um perigo eminente e em tantas outras experiências que era melhor nem dizer.

    Às vezes ela sentia o coração batendo forte, a respiração ofegante, as pernas trêmulas..., ela já não diferenciava seus sentimentos dos sentimentos do personagem.

    O medo, a fome, o desejo, a paixão eram dela, como se tivesse roubado do personagem. Ou seria o contrário. A verdade é que Julia estava se sentindo viva como nunca, capaz de amar, desejar, se entregar...

    -Chega!

    Continue lendo no próximo post:
    Livro das sensações- parte 2
  • Nas dunas santificadas de Alá, o Poderoso e Santo


    Lendo as dunas do deserto

    Olho para o céu emocionado.

    Aqui vivereis mil anos ao meu

    Lado, e aqui a seu lado eu viveria

    Mil anos acordado.




    Que símbolos misteriosos

    Poderiam ocultar a beleza

    Que Alá faz raiar dessas areias

    Onde o Egito nasce pedregoso 

    Árido e belo com imensos desertos

    Onde minha alma pousou minha boca

    Em seu coração de mariposa ?




    Mil anos aqui viveria

    Até acordar para te encontrar.

    Juro por Alá e pela espada Santa

    De Maomé :




    Se tiver que nascer mil vezes

    Aqui quero nascer




    Se tiver que morrer mil vezes

    Aqui quero morrer.
  • Nilfa e mochileiro

     
    Sobre a imensidão do triângulo estelar Mineiro
    O menino, mochileiro, transporta novos amores.
    Carangola, princesinha da mata; zona proibida.

    Quem por ventura ousou desbravar-te?
    Sereia em Minas, como podes?
    Terra ausente de mar....aqui te vejo Ninfa!
    Compreendo “nem faz falta o mar”¹

    Tú cantas às margens do Carangola
    Onde me vejo naufragar agora!
    Como fecunda o amor entre mochileiro e Ninfa?
    Que não seja eu infeliz como Apolo.
    Não se transforme perante mim em Loureiro.

    Carrego-te hoje em meu peito, com afago
    Não permitas, que caiamo-nos sobre Gaia
    Sem antes tê-la em flama, ardor, gozo.
    Pois será pelo apreço e infantil desejo
    Que te espero com arquejo a dar-lhe um beijo.




      Autoria: D`souza Gabriel
     ¹“Nem faz falta o mar” Musica, Minas das violas. Cesar Menotti e Fabiano.
  • Nosso querido “nós”

    Desculpe se desisti de nós. É que no meio da euforia parece estar tudo bem, mas quando a gente coloca a cabeça no lugar, a gente percebe que tem muita coisa faltando, tem muita coisa errada, fora do lugar. Desculpe se não consegui levar adiante o que parecia ser para sempre. Talvez o “para sempre” tenha uma carga pesada demais para nós. Sei que nossa música parecia tocar no mesmo ritmo, mas meu compasso estava errado. Ou parecia estar. Quem sabe não era o seu? Na verdade, eu não sei. Não sei o que aconteceu com o nosso querido “nós”. Não sei onde fomos parar. Suspeito que ninguém conseguirá me fazer sentir o que só você me fez sentir. Mas, as coisas pararam de andar e eu não consegui empurrar mais. Ah, me desculpe meu amor, me desculpe por desistir de nós.
  • O ANJO DO JULGAMENTO

    Prólogo
    A maldade silenciosa.
    Vivo num mundo cruel e sem salvação. Onde monstros se disfarçam de homens, e crianças são tratadas como adultos. Sigo por ruas pavimentadas, pagas com o sangue dos trabalhadores, e a dor dos inocentes. Criminosos crescem como pragas, e andar por qualquer cidade, já não é mais seguro. Ligo minha TV para esquecer que a perversão cresce lá fora, e me deparo com materiais doentios direcionados aos menores. A maior rede social de vídeos do mundo, proíbe minhas denúncias, garantindo que o material não chegue aos adormecidos. Mas minhas palavras não podem ser caladas. Há uma inútil luta na sociedade, para saber qual religião é melhor que a outra, ou se o homem é maior que a mulher, e vice e versa. Enquanto todos dão atenção para assuntos tão triviais, verdadeiros males ocorrem em torno do mundo com um único objetivo: manter a dominância de uma Elite doentia, que tem pervertido a magia, desde que o homem era somente um projeto de uma raça superior. Não me diga que ainda acredita, que os demônios vivem abaixo dos seus pés, e que Deus não é uma inteligência magnânima, que deu origem a isto tudo. Não, não me confunda como uma religiosa fanática, pois estou bem longe de ser. Não, também não me chame de satanista, este é um nome que não cabe a mim. Estou muito além destes rótulos, para ser definida somente por eles, por isso peço que me respeite, e me chame apenas por anjo do julgamento. Já que estou acima do bem e do mal, e apta para determinar a sentença dos seus homens e mulheres. Vim para este mundo, como uma de vocês, nasci de uma barriga humana, embora fique cada vez mais claro, que não sou deste mundo. Cresci como uma criança normal, sem saltos no tempo, ou perseguições de um grupo secreto. Porém sempre carreguei comigo, uma maldade gigantesca, que me levava a manipular, me aproveitar, e torturar os outros. Talvez tenha sido uma menina psicopata, talvez somente acima da média, mas uma coisa é muito clara, esta crueldade frívola nunca me abandonará, e dado as atuais circunstâncias, é melhor que assim seja. Na minha fase adulta, o meu destino ficou cada vez mais claro, quando seres poderosos, entraram em contato comigo através de pensamentos obscuros, e sinais nos céus, que jamais cessariam, até eu aceitar a minha conduta. Em janeiro de 2020, fui seguida por um grupo de frades tradicionais, após ter tido vários pesadelos, com inúmeras mortes causadas pelas minhas mãos. Eu senti medo, pois após tantos anos de terapia, enfim tinha descoberto que sofria de um mal psicológico, que poderia me transformar numa assassina de uma hora para a outra, o quê para mim, era cruel e demoníaco, e eu precisava controlar, senão vidas inocentes iriam pagar pelo meu problema. Eles me chamaram por um nome, que tentei esconder debaixo do tapete, todavia evitar o quê era, não foi o suficiente para me deixarem em paz, e assim tive de seguir com eles. Muito antes de evitar as minhas asas negras, já havia imaginado que um grupo viria até mim, e me levariam a algum lugar sombrio, por isso implorei aos deuses para me protegerem, ou me deixarem escapar. Infelizmente cheguei ao meu destino, e ninguém me salvou. Eles eram assustadores, e tentaram me atacar, mas o meu desejo insaciável por sangue, me levou a ficar viva e ilesa. Manchada de vermelho, me afastei do monte de cadáveres, pronta para me entregar a polícia. Só que dois padres surgiram, e aplaudiram o meu desempenho. “Ela é perfeita.” Concordaram entre si, e fiquei desconfiada, esperando que me dessem uma explicação. Eles pestanejaram, e me vi obrigada a puxar a faca. “Digam quem são, e o quê fazem aqui.” Perguntei sentindo a adrenalina fluir. “Somos os filhos de Jesus. Pertencentes a ordem sagrada de Cristo.” Eles me responderam, e eu gargalhei. Afinal o quê uma ordem de tamanho poder religioso, iria querer com um anjo caído, que negava a própria alcunha? Eles me disseram que precisava ir com eles ao mosteiro de Santa Marta, e que lá receberia explicações mais detalhadas. Naturalmente opinei por não ir, contudo cedi a minha curiosidade, e com eles eu segui. Muitas horas se passaram, até me levarem ao topo de uma montanha rochosa. Outra vez o medo de ser destratada, e sofrer torturas preencheu o meu ser, até que o vi. Era um homem loiro, de cabelos escuros, olhos penetrantes e claros, que intercalavam entre o rio e o mar, muito bonito , que vinha em minha direção. “Minha filha.” Ele disse, e eu não segurei o riso. Até ali tinha noção que de quê havia conhecido o paraíso, porém filha daquela figura bíblica? Era cômico demais. “Preferes desta forma?” Disse ao fazer chifres de bode crescer em sua cabeça, enquanto o corpo mudava. “Não pode ser.” Fiquei catatônica, e acabei por desmaiar em seus braços. Ao acordar ele me explicou tudo, e pude reagir de outra maneira, o abraçando forte, por saber que estava diante do meu verdadeiro pai. Assim me tornei uma dos seus seguidores, e me dediquei a cumprir a minha missão, de destruir os ímpios, e iluminar a terra, com a minha chama sagrada. Pois ele só havia voltado, para que o julgamento se iniciasse, e o mesmo só poderia ser feito com o poder da sua amazona, e filha mais velha, a própria morte, ou seja eu. No início senti culpa pelas vidas que ceifei, no entanto bastou ver a lista dos culpados, para que o arrependimento se transformasse em paz. Não estava tirando aqueles homens e mulheres de suas famílias, e sim devolvendo demônios de volta para o inferno, do qual nunca deveriam ter saído, e seguiria fazendo isso até limpar o planeta, desta maldita escória de covardes.
    Capitulo 1- Verdades
    Inconvenientes
    A MORTE NARRA:
    Um dia eu tive uma amiga, que acreditei que seria para sempre, mas agora era somente outra neblina de inveja e prepotência, que precisava se dissipar. Ela era bonita, e de corpo desejável, mas embora tivesse tais atributos, não era feliz ou satisfeita consigo mesma, por mais que escondesse isso, através de um sorriso tão vazio quanto a sua cabeça sonhadora. Sei que parecem sinais de ódio, todavia posso assegurar-lhes que é somente mágoa. Eu confiei nela, depositando em suas mãos todos os meus sonhos, medos, e anseios, como se fosse a única confidente que tive na vida, e o quê achei que duraria até o Armagedom, hoje era apenas um motivo de dor e tristeza. Ela seguiu uma vida criminosa sem retorno a cidadania de bem. Algo que tentei lhe alertar, que não teria um fim nobre. Já eu me juntei a Ordem secreta, que conhecia as duas faces do demônio, e passei a julgar os meliantes que trucidavam inocentes. Desde sempre estava claro, que éramos o lado diferente da moeda. Só que para a minha surpresa, não fui eu, a servir as trevas, cometendo iniquidades, apesar dos demônios que sempre me acompanharam, nas profundezas da minha mente. “Thamara.” Meu superior me chama, enquanto sigo pelo escritório, olhando os relatórios da empresa, com um par de óculos, que por intervenção divina, não mais necessitava, porém precisava para manter as aparências. “Seu desempenho foi excelente neste mês. Logo se formará com louvor.” Ele me elogia, e o olho sem muito interesse nas finanças. “Que bom. Não vejo a hora de terminar o curso, e voltar a trabalhar em casa.” Deixo escapar, e isso o magoa, já que acha que eu não valorizo seus esforços para me sentir bem ali. Não me importo muito, pois após ter conhecido tantos que usavam a máscara de bons moços, para esconder seus crimes. Gentilezas não mais me atraem. “Tha.” Ouço a voz do meu amado, e sorrio ao ver o belo moreno de terno que vem na minha direção. Ao chegar o abraço com todas as minhas forças, pois ele é a minha luz, neste mundo sombrio. Nós terminamos as simulações de compra e venda de ações, e descemos pela escadaria. Ao entrarmos no carro, nossas feições de alegria mudam, e ele segura a minha mão. “Sei que não será fácil. Mas é preciso.” Diz tentando me dá forças, e eu aceno com a cabeça, me preparando para tempestade que há de vir. Ele estaciona o carro, eu desço com o cabelo amarrado, num coque para trás, luvas, e tudo o quê é necessário para cometer um crime. Estamos numa floresta densa e escura, e o cheiro de morte impregna o ar. “Ela esteve aqui.” Aviso, ao o seguir sem fazer muito barulho. “De fato.” Meu marido pega duas cabeças de recém-nascidos, mortos, que tiveram seus olhos arrancados, e pela quentura do sangue, percebo que o infanticídio foi praticado a poucas horas. “Droga!” Esbravejo furiosa, e nós abandonamos o local do sacrifício. Assim me livro das vestimentas que nos ligam aos assassinos, exatamente como os filhos de Jesus me ensinaram, e seguimos como inocentes. Meu celular toca, e o atendo com grande desgosto.
    _Thamara.
    _Não chegamos a tempo de capturá-la.
    _Eu sei. Sua irmã pode ser uma
    cabeça oca, mas ordem a qual ela
    serve, é cheia de membros
    perigosos.
    _Para uma menina, ela tem me
    causado uma bela dor de cabeça.
    _É porquê tem sentimentos por ela,
    e no fundo se sente culpada pelo
    caminho que tomou.
    _Pai. Eu sou o monstro da família.
    Se tivesse controlado meu ego,
    talvez pudesse salvá-la.
    _Não, não poderia. Ela tinha o livre
    arbítrio, e optou por seguir para
    as trevas.
    _Ela não é tão má. Eu sei, porquê
    na hora das mortes...
    _Thamara. Você desliga as emoções
    , para julgar os que merecem. Ela o faz
    para sorrir, se divertir, e você já viu.
    Não há comparação.
    Meu pai estava certo. Minha irmã, e antiga melhor amiga, agora era um monstro imparável, que não se preocupava com o dia de amanhã, e já tinha cometido mais de 10 assassinatos, em nome da Ordem das Corais. Uma seita religiosa que tem planos malignos para o planeta, e precisa ser detida, pois apesar de seu número ser pequeno, a mesma é responsável por todo o serviço sujo, da ordem piramidal dos Iluminados. Algo terrível, que me trouxe memórias cruéis... “Katherine!” Gritei ao vê-la arrancar a cabeça de uma criança, mas ela me ignorou, tinha se entregado a escuridão, e nada poderia ser feito para regressar. “Ela nunca vai parar.” Conclui retornando aos tempos atuais. Era hora de matá-la, mas não sabia se teria a mesma frieza que desenvolvi ao exterminar os outros.
    A viagem de volta para casa foi longa e silenciosa. Bartolomeu sabia o quanto aquela situação me afetava. Ao chegarmos, notei que os portões da minha luxuosa casa estavam abertos, então coloquei um dos pares de luvas, e amarrei os cabelos. “Thamy.” Meu marido segurou o meu pulso, assim que coloquei o pé para fora, já com a adaga na mão. Meus olhos subiram, e vi a silhueta de minha mãe Lina, brincando com minha filha e cópia Ramona. “Não traga os seus trabalhos para casa. Seu pai jurou que manteria sua identidade protegida, e enviaria os melhores guardas para cuidar do nosso lar. Confie na palavra dele.” Ele me disse, porém não quis ouvir, andava tendo visões de que a casa seria invadida pela Ordem das Corais, e seria arrastada pelos Iluminados para dentro de um abismo, e não podia abaixar a guarda. A noite...Jantamos lasanha, com muito refrigerante, agindo como a família normal que não éramos, para manter a mente de Ramona sã. Um acordo que firmei com Bart, para garantir que a menina tivesse a infância que não tivemos, e somente mais tarde viesse a saber O quê nós somos. A pequena sempre carinhosa, nos deu beijos de boa noite, e foi para o seu quarto, ler seus contos favoritos dos irmãos Grimm. Apesar de sua doçura, ela sempre teve inclinações para assuntos obscuros, pois as histórias contadas para outras crianças, lhe davam sono. Era uma prodígio, e por isso eu ficava cheia de dores de cabeça, quando minha mãe vinha em casa. “Thamy você tem que colocá-la numa escola especializada.” Disse minha mãe, enquanto eu colocava os pratos na lava louça. “Já falamos sobre isso. Nem eu, nem Bartolomeu gostamos da ideia. O mundo não é seguro para uma garota gentil como ela.” Respondi esperando o furacão Lina, derrubar todos os objetos da cozinha, mas a idade a deixou mais calma, e isso me surpreendeu. “Filha você sempre reclamou por não termos explorado o seu potencial quando criança. Nós não fizemos isso, porquê não percebemos, seu pai não percebeu, mas você e Bart veem, não acha justo lhe darem a oportunidade?” Usou o velho argumento irritante, de quê fui um prodígio não reconhecido, por culpa do meu pai terrestre, e isso me chateou muito, contudo respirei fundo, e sentei a mesa, ligando o meu notebook. “Venha aqui.” Chamei-a, e a mulher baixinha e empinada, se juntou a mim, com seus óculos fundos. “Está vendo estas notícias?” Mostrei o novo sistema de pesquisa inteligente, conhecido como SIP-I. O programa que substituiu o Google em 2022, quando a Deep Web, deixou de ser uma rede subterrânea, para se tornar superficial, devido a grande popularidade de materiais distribuídos como inofensivos. Ao contrário do programa do Bill Gates, o SIP-I, era controlado por uma inteligência artificial, criada por um gênio e pai de família, que a desenvolveu exclusivamente para garantir que os filhos, ficassem longe dessas mídias danosas. O Google ainda existe, porém é uma ferramenta usada por criminosos, que agora podem agir a olho nu, graças a intervenção da Elite, para satisfazer seus desejos doentios. A policia, os guardas, os seguranças, os advogados, e todas as ferramentas para se fazer a justiça, não passam de teatros financiados pelo grupo piramidal, para fingir que ainda há um meio de salvar a todos. Sim, o mundo está um completo Caos, e não posso colocar a minha preciosa herdeira do verdadeiro Novo Mundo, nas garras dos monstros do atual. Não tive todo o cuidado de filtrar a sua programação, lhe formar em cursos a distância, para agora entregá-la de mãos beijadas ao sistema deles. “Menina de 10 anos, é estuprada em banheiro unissex por garotos da mesma idade. -Menina desaparece em escola, sem deixar rastros- Menina é agredida ao voltar para casa sozinha- Meninas tendem a sofrer 75% das agressões e abusos no país -Professor é preso por molestar as alunas. Preciso ler mais?!” Disse ao configurar o SIP-I com a minha biometria, para conteúdo adulto no meu computador portátil. “O mundo não é só isso Thamara.” Ela tenta me convencer, e eu acabo rindo, pois praticamente todo mês tenho que matar muitos, por conta da perversão que se expandiu. “Pode até não ser. Mas tudo o quê vejo é esse descontrole, e enquanto Ramona não for capaz de matar, em vez de ser morta, ela fica em casa.” Disse com frieza, e minha genitora se calou. A conversa que tive com a Dona Lina, me deixou bastante apreensiva, e trouxe de volta demônios, que há anos não me perturbavam. “Cuidado em casa.” Disse uma das vozes de minha consciência. “Você não deve confiar em nenhum homem.” Repetiu, e o medo se apoderou de mim. A passos lentos segui pelo corredor do quarto da minha menina, a porta estava entreaberta, e o meu bebê de 10 anos dormia totalmente embrulhado em sua coberta lilás, que por meu intermédio havia se tornado a sua cor favorita, desde que era menor. Entrei no cômodo, e me sentei ao seu lado, fiquei lhe fazendo cafuné, e vi o seu sorriso. “Você é a coisa mais importante do mundo para mim.” Disse-lhe, e ela me abraçou forte. Foi então que ouvi ruídos, e me vi obrigada a me esconder. Como não tinha para onde ir, usei um dos poderes da morte, a invisibilidade. Bart apareceu ali, e sem perceber acabei por deixar a menina descoberta, com o seu pijaminha de short curto. Respirei fundo, se algo ruim fosse acontecer, teria que ser naquele momento, pois meu marido pensava que eu ainda estava a conversar com a sua sogra. Ele a observou sorridente, e a cobriu, dando-lhe um beijo no rosto. “Sua mãe e você, são tudo para mim.” Falou com ternura, e eu não consegui me conter. Meu corpo tremulou entre o intangível e tangível, e acabei por surgir no canto da parede. “Thamara? Mas o quê faz aqui?” Disse já incomodado. “Eu precisava ver se a Ramona estava bem.” Foi o meu primeiro impulso a dizer. “Se era só isso, por quê se escondeu atrás da cortina?” Questionou com o ar de inteligência, sabendo no fundo o quê aquilo significava. “Nem precisa dizer.” Concluiu me deixando para trás, e sai atrás dele, pronta para me explicar.
    _Bart.
    _Thamy. Você lida com o mal o tempo todo.
    Como é que ainda pensa isso de mim?
    _É só que você é todo liberal, e gosta muito
    de mim, sendo que pareço uma menina
    de 14 anos.
    _15. Mas você tem 24, há diferença.
    _Até o dia que envelhecer...
    _Primeiro se envelhecer, sempre será a minha
    mulher. Segundo você não envelhece, é
    parte de ser a morte.
    _Mas se não consigo julgar nem a Katherine,
    que é minha irmã, imagine a você que é
    o amor da minha vida?
    _Eu não sou a Katherine. Tenho prazer de matar
    pela mesma razão que você. Pra limpar o mundo
    dessa escória maldita, que se tornou uma
    epidemia!
    “Tem prazer de matar? Pela mesma razão que ela?” Ouvi uma terceira voz na discussão, e meus olhos se arregalaram, lá estava a minha mãe na porta do quarto da minha filha, que se escondia atrás da sua longa camisola azul. “Ah! Fantástico!” Explodi, e ele lutou para se manter calmo. “Agora todos os meus planos para a Ramona foram por água abaixo. Está feliz?!” Deixei fluir o ódio. “Espera, vai me culpar? Foi você que iniciou a discussão!” Ele rebateu, e embora tivesse razão, preferi negar a culpa, e inspirei “todo o ar do ambiente”, até me tranquilizar, para explicar tudo o quê tinha acontecido, pois embora tivesse o dom de tirar a vida das pessoas, não tinha a capacidade mudar seus rumos. O tempo nunca volta para a morte, isto se dá por uma força maior que a minha, e até mesmo a de meu pai.
    Nos sentamos a mesa, a mesma onde deveriam haver conversas comuns e entediantes, em vez do grande “elefante” que estava entre nós. Ramona ficou a me observar com seus olhinhos negros, que estavam esperando uma explicação, enquanto minha mãe tremia como um rato diante do gato, achando que minha doença, tinha enfim chegado ao estágio final, e agora eu matava sem ter um código de conduta. “Eu poderia mentir para vocês, e acreditem em mim quando digo: Adoraria fazer isso. Mas esconder a verdade, as levariam a pesquisar por conta, e tirarem conclusões mais absurdas que o próprio axioma, por isso vou lhes contar tudo.” Tentei soar culta e fria, mas por dentro temia que não me entendessem, e me jogassem numa casa de apoio emocional e psicológico, um nome bonito para hospício do século XXI. Bart mesmo magoado pela acusação, segurou a minha mão me dando apoio, e apesar de meus demônios o odiarem, por me fazer tão fraca, uma pequena parte de mim, se sentiu segura por tê-lo ali, e assim ambos sorrimos sem vontade, um para o outro. “Lembram-se quando sumi por mais de 6 meses, quando estava perto de fazer 28 anos?” Iniciei o meu relato, com uma pergunta, para adaptá-las ao ambiente do passado. “E que Bart lhes disse que tínhamos tirado um ano de férias longe da Ramona, que tinha se tornado cada vez mais pestinha?” Conclui, e a velha conservada Lina, revirou os olhos, já se recordando do fatídico tempo. “É claro que sim, foi o seu ato mais egoísta em relação a pobrezinha.” Resmungou seca, e isso me fez sorrir com satisfação, pois agora ela se calaria com a verdadeira razão do meu sumiço. “A verdade é que eu tinha sido recrutada por uma antiga Ordem que...” Tentei terminar mas a avó, já veio atropelando a minha narrativa. “Você entrou para os Iluminados?! Depois de tudo o quê me falou sobre eles e sua maldade e...” Desta vez eu atropelei suas palavras. “Não! Eu entrei para a Ordem de Cristo. Na qual os verdadeiros devotos da luz celestial, ou estrela da manhã, são treinados pelo filho de Deus, para limpar o mundo de tamanha crueldade, provocada pela má interpretação das Escrituras Sagradas, que foram corrompidas pelo homem, para atender suas ambições.” Respondi quase automaticamente, e ela ficou emudecida. “Mas você é má. Como o filho de Deus, a aceitaria em seu rebanho?” Inquiriu desapontada com o seu grande ídolo divino. “Eu sou má, porquê preciso ser, e Jesus me escolheu porquê sou a filha dele e Madalena.” Disse com desgosto. Após ter entrado em tantas casas, para matar homens merecedores desta sorte, não gostava de ser associada a maldade diabólica, pregada por palavras vãs, de homens loucos por poder. “Mas você não é filha de Lúcifer?!” Ela ficou ainda mais confusa. “Tive a mesma reação ao descobrir. Mas sim Lúcifer e Jesus são o mesmo ser.” Esclareci, e ela cuspiu a água que tinha começado a beber. “Meu pai cometeu muitos erros mãe. Um deles foi tentado introduzir neste mundo, virtudes para os quais não estava preparado.” Baixei a cabeça, lamentando pelo surgimento da outra face, do príncipe do mundo. “Seu pai é o Alexandre! Esse homem que a induz a matar é um blasfemo!” Gritou como uma fanática, e com o meu dedo indicador apontei minha energia para a planta no meio da sala, que por “mágica" começou a secar, enquanto meus olhos mudavam de castanho para violetas. “Tudo é um, e o um é tudo.” Disse ao abrir a palma, e soprar a vida de volta para a flor, que brotou ainda mais linda e brilhante.
    _Como fez isso? Esse Homem. Esse homem é um alien?!
    _Não, bom é, mas não da forma que está pensando.
    Eu sou o cavaleiro do Apocalipse mãe, eu sou
    a Morte.
    _Mas como isso é possível? Sua gestação foi normal,
    embora houvessem complicações!
    _E você rezou a Nossa Senhora do Perpétuo Socorro,
    para que eu não morresse, e me chamou de seu
    milagre.
    _Minha filha. É um peso tão grande para carregar.
    _Eu sei que é mãe. Sei que posso ficar louca. Mas pela
    primeira vez na vida, tudo realmente faz algum sentido,
    e principalmente, eu não preciso mais ficar de braços
    cruzados, vendo o mundo ruir.
    _Mas você é tão jovem, bonita, e inteligente.
    Ele não pode escolher outra em seu
    lugar?
    _Eu tenho 666 irmãos. Mas nenhum deles tem o
    meu poder mãe.
    _Eu sabia que um dia isso ia acontecer.
    _Não tá planejando me colocar no hospício não é?
    _Não, não minha filha. Apenas espero que saiba
    o quê está fazendo, pois um erro e...
    _Mamãe eu não morro.
    _Mas pode se ferir, e depois de tudo o quê já passou, não
    quero que se machuque ainda mais.
    Ela me abraçou, e Ramona ficou calada, ponderando sobre tudo o quê sabia a respeito de Cristo e Lúcifer. Naquela madrugada tive de falar tudo a minha pequena, de uma forma que ela pudesse entender, e acabamos por adormecer.
    O MISTERIOSO MARIDO NARRA:
    Thamara dormiu junto de nossa filha, e eu fiquei a mesa, arrumando os pratos, cheio de doces que devoramos ao ouvir as palavras da minha esposa. Lina não conseguia dormir, por isso ficou sentada no sofá com o olhar vazio. Embora quisesse transmitir confiança a filha, ainda não tinha aceitado os fatos, e suas mãos tremulantes, alegavam que estava a beira de um surto. Olhei-a por cima dos ombros, e respirei fundo. Se não a ajudasse agora, a Thamy iria sofrer as consequências mais tarde, e não podia deixar isso acontecer. Como quem não quer nada, sentei-me ao seu lado, e ela como que por desespero virou-se para mim, dando-me um baita susto, com seus grandes olhos vermelhos e enrugados, marcados pelo pânico do desconhecido.
    _Bart.
    _Eu mesmo Lina.
    _Thamara não me contou como você foi envolvido
    nessa matança.
    _Ah, é simples. O par da Morte, sempre será
    o Peste.
    _Espera você também acredita que é um dos Cavaleiros
    do Apocalipse?
    _Mas é claro que sim. Fui treinado junto com
    a Thamy.
    _Isso é loucura Bart!
    _Não, não é. Basta parar de ver a Thamy como somente
    sua filha, que verá os sinais entorno dela.
    _Vocês tomaram alguma droga, quando conheceram
    esse guru que acha que é Cristo?!
    _Lina. Se acalma. O tal “guru" salvou sua filha de ficar
    cega.
    _Então é um alien! Um alien maldoso!
    _Lina. Ele é realmente Cristo, sua filha é a Morte, e
    eu sou o Peste. Precisa aceitar isso.
    _Por quê?!
    _Porquê com você como nossa aliada, podemos
    iniciar o quanto antes, os treinos de Ramona para
    esta seguir o destino que lhe foi escrito.
    _E seria?
    _Herdar nossos poderes e manter o mundo
    em equilíbrio.
    A conversa com Lina, não me pareceu muito proveitosa. Era evidente que Thamara tinha puxado a cabeça dura dela. Todavia obtive algum êxito, e por isso pude dormir em paz naquela noite. “Você tem que matá-la.” O sussurro de minha própria voz passou pelos ouvidos. Minha esposa não estava de todo errada, haviam demônios na minha mente, só que ao contrário do quê ela pensava, não representavam perigo algum a nossa filha, não da forma que com veemência me acusava, pelo menos. Meus pensamentos eram mais piedosos, me falavam sobre matar a família inteira, e depois a mim mesmo, não torturá-las com maldade, como fazia com minhas “vítimas”, ou de maneira sexual, como algumas das “vítimas” faziam com terceiros.
    Mergulhado no vazio obscuro dentro de mim, eu os vi. Eram vários de mim, cada um com uma ideia de diferente, e como eu sou o rei deste Inferno mental, caminhei lentamente entre eles, mostrando-lhes a minha força e imponência. O meu eu assustado se recolheu de imediato, ou meu eu raivoso, saltou na minha direção, e por isso o peguei pelo pescoço. “Ela nunca vai te amar! Não é capaz de amar a alguém!” Ele gritou e isso me fez sorrir, ao puxar seu crânio ensanguentado para fora do esqueleto. “Eu que mando aqui, e se não respeita a minha amada deusa, deve morrer como todos os outros.” Esclareci, e o frio e calculista veio até mim. “Ela não é controlável como a Célia. Não é um bom negócio, seguir com aqueles que estão além dos fios de nossa manipulação.” Olhou para mim, e eu lhe acertei com um machado que projetei. Não tinha tempo para ouvir as asneiras, de partes minhas, para as quais somente a Thamara ainda dava vida. “Ele seguiu por aquela direção.” Disse o meu eu viciado em violência, e por isso segui cautelosamente até a escuridão, que crescia da direção em que aquele demônio tinha se enraizado. “Ela te deixou uma vez.” Foram as suas primeiras palavras. “Ela seguiu com Dave, e te ignorou. Só retornou porquê Dave não a ama.” Continuou com seu monólogo de mágoa. “Só há uma razão para odiá-la tanto. Sr. Tristeza.” Brinquei ainda atento ao ataque dele. “É Sr. Melancolia.” Ele gritou enfurecido. “Pra mim parece mais o bebê chorão. Aquele tempo se foi Bart Melancólico.” O alfinetei, e depois recobrei o sentido, se somos o mesmo, não cairia numa provocação barata. “Não para mim. Eu ainda a vejo nos braços do outro, exatamente como ela desenhou.” Respondeu com mais intensidade, e pude chegar até ele, porém ao pisar no topo de uma colina, iluminada pela luz da lua, percebi que aquela voz vinha do meu inconsciente. “Ela nos ama. Me ama, e é só o quê importa.” Disse ao olhar para baixo. “Não é tão simples.” Suas sombras se materializaram, agarrando meus pés como tentáculos, e me arrastando para dentro do breu. Uma vez disse a Thamara que eu tinha entrado em depressão quando me deixou, mas eu menti, ela tinha criado algo muito pior dentro de mim, pois nunca havia amado tanto alguém antes dela, e agora esse mesmo monstro queria me puxar para o fundo, com o intuito de se tornar o 70% de mim, que controlava os meus outros demônios. Isso já tinha acontecido uma vez, e até hoje sofro com consequências do Bart Melancólico, que me levou a trair a minha esposa, mesmo que só emocionalmente, e ela nunca me perdoou. “Ela irá fugir com o primeiro homem bonito que aparecer.” Ele disse tentando me desnortear, mas desde que tinha completado 30 anos, não era o garoto de antes, o emprego e pequenas intervenções de Thamy, tinham me tornado atraente o suficiente, para não me sentir ameaçado, caso surgisse mais um novo rival, na batalha pelo coração da minha companheira. Por isso concentrei raios de luz na minha palma, e cortei os braços da criatura, antes de chegar na ponta do precipício. “Eu não entendo por quê você ainda existe. Eu já superei o passado, então faça o mesmo. Não importa as batalhas que perdemos, e sim que vencemos a guerra, e teremos a Thamara para sempre.” Disse iluminando o meu corpo ao máximo, para ser intocável pelo poder obscuro, do ser que habita as profundezas da minha cabeça. “Dave, Thomy, e outros, não foram os últimos.” Ele me disse, e retornei ao meu estado ativo.
    Já eram 7: 30 da manhã, e Thamara já havia iniciado suas negociações com o Robô da Ibov. “Me atrasei?” Brinquei com o meu sorriso mais sem graça, e ela seguiu com os seus olhos vazios, procurando por algo que nem a mesma sabia. “Está atrasado em 15 minutos, e só não perdeu 140 USD, porquê entrei em seu Login.” Respondeu seca, e isso me preocupou bastante. Se ela soubesse a luta que vivo toda noite, para continuarmos juntos, talvez valorizasse o meu amor, ou não. Conhecendo a senhorita “Não te amo há muito tempo.” Certamente não. “Obrigado meu peixe.” Agradeci citando o nosso apelido próprio, na intenção de alcançar as suas emoções. Só que ela seguiu inerte, me ignorando, e isso fez com quê o pesadelo da noite passada, parecesse bem real. Sentei-me do seu lado, meio desarrumado, tinha apenas escovado os dentes, e lavado o rosto. Sua pequena e delicada mão procurou pela minha, e isso me fez sorrir. “Não Bart Melancólico estava errado. Ela me ama sim.” Pensei tentando esconder o riso de alegria, e sem dizer nada ela se encostou no meu ombro, ainda focada na tela da FT. Era o seu jeito de dizer Eu te amo, sem o uso das palavras, e eu adoro isso, pois depois do carinho silencioso, sempre vem o beijo, e neste sinto toda a sua energia amorosa fluir com bastante gosto.
    A MORTE VOLTA A NARRAR:
    Ainda estava enfurecida pela noite passada, ele me traiu com uma garota mais jovem, de 18 anos, quando tinha 22. O quê quer que eu pense? Que é um homem digno que não se interessa por garotinhas? É difícil. Pois achei que o fato de ser 2 anos mais nova, me dava uma vantagem que as outras não podem ter. Afinal desde nova, sempre sofri muita rejeição dos caras da minha idade, e recebi bastantes pretendentes mais velhos. Assim conclui que meu par teria de ter sempre um ou dois anos acima de mim, do contrário sempre seria sempre um fracasso. Meus planos caíram por terra! Mesmo sendo mais nova, ele procurou por uma ainda mais nova, 4 anos mais nova. O quê me levou a concluir que se tivesse 17, teria um relacionamento com uma menina de 13 anos, algo tão patético, quanto o quê Roger, o lixo que me desvirginou fez. Depois de tal fato, nunca mais o vi com os olhos do encanto, porém ainda sim, mesmo ferida, e quebrada por dentro, não deixei de amá-lo. Só que como ele nunca valorizou os meus esforços, para manter longe os abutres que queriam destruir o nosso relacionamento, sempre que esse rancor crescia dentro de mim, acabava por dizer que não sinto mais nada, pois a verdade é que não queria sentir, mas por alguma razão era o único que não era capaz de deixar de amar totalmente. Talvez fosse o pacto que fizemos, quando ele tinha 18 e eu 16, ou quem sabe somos almas gêmeas. Já não sei mais, pois cansei de fazer inúmeros rituais para nos desamarrar, e continuarmos voltando aos dias de intensa paixão da juventude, e nos amando ainda mais. Como uma maldição sem fim, da qual nunca poderia escapar. Karma também é uma opção, consequência por desafiar a ordem divina. Contudo poderia ter me prendido a um homem cachaceiro, que me bateria, ou não me reconheceria nem mesmo com magia. Porém acabei junto dele, e apesar de ter sido o maior dos idiotas, foi a melhor opção, entretanto se pudesse voltar no tempo, eu teria impedido essa união de todas as formas, e com certeza me espancaria até desmaiar, antes de juntar nossas gotas de sangue, e transformá-las numa só, envolvendo o nome de Lúcifer e Lilith. Talvez fosse melhor ter invocado a própria Afrodite e o seu Adônis endeusado, mas isso é duvidoso, pois muitos no círculo dos magistas alegam que Lilith é Vênus, e se isso é verdade, então Lúcifer seria Áries ou será que era o pobre Efestos? Aquele que foi expulso do Olimpo pela própria mãe, e se tornou um Deus por sua cruel astúcia, ao descobrir as fraquezas daqueles que um dia o humilharam. Tanto faz. Só sei que rezei aos deuses errados, pois mesmo que a minha vítima cedesse, passamos por vários problemas ligados a este bendito ritual diabólico. O amo muito, ele é a minha vida, não vivo sem ele, parece que quem se amarrou fui eu. É duro sentir tal coisa, sendo que nunca tive tal emoção, por nenhum outro homem antes, e pior ainda é gostar dele deste forma, depois de tudo o quê aconteceu. Eu piso, humilho, chuto como se fosse outro psicótico a ser julgado, e na hora de partir o agarro forte, e faço o quê estiver ao meu alcance para não deixá-lo ir. Meus médicos dizem, que é culpa do meu mal, que não o amo de verdade, só gosto de sua submissão, e de torturá-lo friamente. É tudo tão simples para eles, que chega a me dar raiva. Não é que não o ame, pois se assim fosse, não perderia a cabeça só de imaginar ele com outra. “E isso se dá porquê o trata como sua posse, e acredita que ninguém mais pode tocá-lo.” Já até ouço o Doutor Fernand dizer, e reviro os olhos. Oras se não quero que ninguém toque nele, é porquê é importante para mim, e as mãos impuras de terceiros não devem corromper o meu imaculado amado.
    _O quê está pensando Thamy?
    _Nada.
    _Olha lá a mentira patológica gente.
    _Não importa.
    _Ainda é sobre aquele assunto irritante?
    _Em parte sim.
    _Hm.
    _O quê quer para o café?
    _Nada.
    _Isso só funciona comigo. Deixa de graça.
    _Eu realmente estou sem fome.
    _Então vou fazer bolinhos de queijo
    , presunto, salsa, e recheio de
    requeijão.
    _Quero 2.
    _Ótimo. Vou aguardar você terminar
    aqui.
    Sorri da maneira mais cínica, e isso o contagiou. É nessas horas que percebo o quanto me ama. “Eu vou. Mas só porquê me garantiu 140 dólares ainda pouco.” Fez a face de senhor da razão, e eu gargalhei. Está querendo enganar a quem querido? É evidente que expande a quantidade de oxitocina no seu organismo por mim. Tomamos o café-da-manhã, já em clima de harmonia, sorrindo como se por alguns minutos todos os males tivessem ido embora. Uma perfeita relação abusiva, na qual para surpresa de todos, era a mulher que estava pisando de salto alto nos sentimentos do homem. O telefone tocou, e fechei a cara, pois não era Lúcifer que estava me ligando, e sim a minha irmã que tinha se bandeado pro lado dos Iluminados.
    _Luciféria.
    _Pai!
    _Precisa vim a Santa Marta o quanto antes.
    _O quê? Por quê?
    _Sua irmã despertou da lavagem cerebral
    das Corais, e está a beira da morte!
    _Ela... O quê?
    _Venha ao mosteiro, e explicarei tudo.
    _Está bem.
    Ele desligou, e eu olhei para Bart. Nós entramos no carro, e dirigimos até o monte dourado. Katherine estava totalmente desidratada, caída no piso, como se implorasse pelo seu último suspiro. Sem dizer nada, afastei todos os frades, e me ajoelhei diante dela. Concentrando minhas energias na palma, vi ambas se tornarem esferas de luz radiante, e soprei para dentro da sua boca, infelizmente minha irmã não estava só morrendo, e sim tinha sido acometida por um vírus, e somente o sangue do Peste, poderia curá-la. “Vai em frente.” Disse ele estendendo o pulso, e com minha unha de energia, perfurei sua pele rasgando-a, até pingar gotas vermelhas na língua da moça, que pouco a pouco se restabeleceu de sua doença.
    Passadas algumas horas...Caminhei pelo mosteiro, e fumei um cigarro de maconha para me acalmar. Meu pai viu, e sorriu, erguendo a mão, para tirá-lo da minha. Sem questionar o entreguei, e para a minha surpresa, ele o levou aos lábios, e puxou toda a fumaça com gosto. “Parece que o lado Lúcifer segue aí dentro.” Brinquei, e ele olhou para o céu. “Lúcifer nunca irá embora, Magda.” Respondeu com calmaria. “É Luciféria, Luciferiel.” O corrigi. “Luciféria no céu, Magda na Terra, Arádia na Magia, Matheuccia na Religião...São apenas nomes. O quê importa é a sua essência, pequena princesa.” Citou meus “20 nomes", e me fez entender o seu propósito. “De fato. Lúcifer no céu, Jesus Cristo na Terra, Agrippa na Magia e na Religião.” Devolvi na mesma moeda, e ele riu com compaixão. “Então reconheceu minhas palavras, até mesmo através de um homem? A eduquei direito pelo visto.” Olhou para o lado, e ergui os ombros. “Quando falou que o Ar não era um elemento, e sim uma cola que unia os outros 3, como se o mesmo fosse o mais poderoso dos elementos, ficou bem óbvio na verdade.” Completei, e ele seguiu a fumar a erva sagrada, que aos olhos do sistema, era maldita, pois fazia o cérebro trabalhar mais rápido, e se tornar menos passivo ao controle. “Pena que nem todos os meus filhos aprenderam direito a respeito da palavra sagrada.” Olha para a frente, e a silhueta de violão da Coral, surge querendo se aproximar de nós. “As deixarei a sós.” Ele de imediato se retira. “Espera, ela é sua filha. A minha está em casa lendo e aprendendo.” Resmunguei colocando minha mão em seu peito, não o deixando passar. “Mas quando sua mãe criou ódio dos homens, você cuidou dela, como se fosse sua. Queria uma chance de se redimir? É esta.” Me relembrou, e acabei por ficar sem argumentos. Como uma criança, a morena veio até mim, e eu segui com a postura fria de mágoa.
    _Lucy.
    _É Thamara.
    _Pra mim sempre será Lucy, a minha irmãzinha
    mais velha.
    _Irmã mais velha, não venha com diminuitivos
    para despertar meus sentimentos.
    _Como sempre fria como gelo não é?
    _Diria mais fria como a Antártica.
    _Não vai querer saber como te encontrei?
    _Você sempre se fez de lesa, mas é inteligente.
    Não há nada surpreendente em ter chegado
    até aqui.
    _Eu ouvi um elogio da Sra. Crítica?
    _O quê quer aqui Katherine? Já não nos traiu
    o suficiente, ao se misturar as Corais?
    _Isso está além do quê pode compreender
    Thamara Mary.
    _Que você tinha sede de poder, e se meteu
    com as pessoas erradas? Não, é bem
    fácil.
    _Se me ver como a velha Lilá, sim, é só isso.
    Mas entrei na Ordem das Corais, para vigiá-las,
    e te entregar constantes relatórios sobre os
    crimes.
    _É Agarath e disso eu me lembro. Então num fatídico dia, simplesmente me levou para uma armadilha, e por pouco não morri.
    _Eu me apaixonei Lucy, e assim como você
    e Bart, ele era o meu parceiro de outras
    vidas.
    _Outro loiro de olhos claros com o rosto
    de uma estátua grega?
    _Guarde o seu sarcasmo. Ele era moreno,
    de olhos castanhos, e sem um gigante
    porte físico.
    _Deixe-me adivinhar, era o líder das Corais?
    _Não. Era outro subalterno como eu, e quando as
    Corais descobriram que tinha traído elas, juraram
    matá-lo, e me entregar o seu coração numa
    folha.
    _Então por um amor de verão traiu
    alguém de seu próprio sangue.
    Interessante.
    _Ele não era um amor de verão Lucy!
    Estávamos juntos, desde que me infiltrei
    na Ordem das Corais!
    _E já se passou pela sua cabecinha infantil,
    que ele pode ser o vigia delas, para testar
    a sua lealdade queridinha?
    _Já! É claro que já! Você me treinou lembra?
    _Então como ainda pode me trair?
    _Porquê ele era diferente do John. Me ligava,
    Mandava flores, fazia planos comigo, e me
    fazia ver que Bart não era o único homem
    na face da Terra, a amar uma mulher.
    _Não te usava? Não te ignorava? Não
    pisava em você? Não dava sinais claros
    de manipulação, e que não estava
    afim?
    _Não. Havia tanta devoção da parte dele,
    que várias vezes as Corais tentaram o matar,
    somente por me proteger.
    _Então te amava mesmo.
    A conversa prosseguiu, e vi os olhos de Katherine. Apesar dos sinais de um amor realmente recíproco, estava claro que aquela história não tinha tido um final feliz.
    A MEMBRO CORAL NARRA:
    Quando entrei no clube das Corais, que até aquele momento não era uma ordem reconhecida pelo mundo, tinha apenas um objetivo, orgulhar a minha mestra, irmã, e segunda mãe que já tinha conhecido. A tarefa era simples, apenas observar os relatórios através do Whatsapp e repassá-los para a minha superior, que havia praticamente retornado dos mortos. Contudo praticamente da noite para o dia, o Clube das Corais, ganhou destaque, e passou a ser notado por diversos países. Assim em vez do pequeno grupo que só tinha conversas online, agora os membros ganhavam passagens, para se encontrarem pessoalmente. Entrei num lugar com estátuas de Gárgula, cheio das mais diversas artes clássicas e góticas. Quem tivesse conhecido a líder antes, não acreditaria, que Ane Marrie agora era uma das mulheres mais ricas do Brasil. Mas isso tinha um preço, que era caro demais para pagar. “Olá meus filhos. Eu sou a deusa. Lúcifer não virá, mas os homens de Cristo, bateram a nossa porta, e não podemos deixá-los esperando.” Disse Ane, enquanto os 9 membros principais, se aproximavam de seu trono de mármore, uma regalia necessária, oferecida por ninguém menos que os iluminados. “Luz é o quê este mundo precisa, e é a ela que agora serviremos, sem perder a nossa autonomia.” Prosseguiu, sentindo-se a dona do mundo. “Se Lucy assistisse a essa cerimônia, teria revirado os olhos, e cochichado algo sarcástico.” Pensei ao me ajoelhar perante os pés da “deusa Marrie". A festa foi bastante recatada, até o momento em que ela pediu que nos despíssemos. Tremi um pouco, pois só havia eu e mais uma garota, chamada Pauline, e um dos homens veio até mim. Seu nome era Timothy, e o olhar cheio de desejo, me fez ter repulsa, por achar que era um pervertido qualquer. Porém quando segurou minha mão, e a beijou, soube que mesmo sendo um tarado, era um cavalheiro. “Não é bem o lugar para ser educado.” Joguei verde, para ver se era um teatro e ele riu. “Com alguém tão bela quanto você, é sempre hora de ser educado.” Ele me olhou com os seus escuros olhos penetrantes, e sem graça deixei meu riso escapar. Após o evento, em que por nome dos deuses tivemos de copular, Ane Marrie notou uma conexão entre nós, e nos fez um par, segundo ela éramos deuses antigos, que agora tinham reencarnado para clarear a sociedade. Novamente se Lucy ouvisse tal coisa, iria surtar, pois parecia uma cópia malfeita da historia dela e do marido, e se saísse da minha boca, certamente brigaríamos, pois ela iria pensar que a ideia teria sido minha, por conta dessa “mania de poder". Timothy andava pela cidade, sentindo-se o Senhor das Ruas, por conta do título que a “deusa" lhe proporcionou. Eu seguia ignorando isso, minha deusa era outra, e a mesma dizia que eu só me tornaria como ela, no dia em que finalmente despertasse, de maneira tanto física quanto intelectual. Só que o meu parceiro achava mesmo que Ane Marrie, era alguma entidade poderosa, por isso tentava fazer a minha cabeça para ver a sua grandeza, e jamais seguir a renegada filha de Lúcifer, que não fazia parte das Corais, por ser uma egocêntrica, metida, que achava ter mais poder que a “nossa" majestade. “Sempre não é Lucy?” Mas estes embora pareçam ser defeitos, no fim eram suas qualidades, e eu admirava esse desempenho frio e turrão de ser. Percebendo que a glória da Rainha Cobra, não me tocava o coração, ele desistiu de falar de seus feitos, e passou a mudar de assunto. “Obrigado Satã por sinal.” Foi então que vi que Timothy, não era só um ingênuo seguidor da “deusa nada virgem", como Lucy costumava chamar, e pouco a pouco, meus pensamentos sempre focados na minha irmã, foram desaparecendo, e sendo substituídos por todos os segundos e minutos que ficava perto dele. É claro cometíamos muitos crimes hediondos, em nome dos Iluminados, por intermédio da majestosa Marrie. Mas tudo o quê ficava na minha mente, eram os milk-shakes com hambúrguer que comíamos na volta para casa. Os meses se passaram, e a minha aproximação com ele, se tornou cada vez maior. O quê deveria ser somente uma parceria de negócios, logo se tornou um romance, e quando dei por mim estávamos vivendo juntos, no apartamento simples dele, que nós chamávamos de ninho do amor. Mesmo que um filho de Eva morresse em minhas mãos todos os dias, tudo o quê importava, era o calor do seu colo no final da noite, pois nada mais era importante além de nós dois, ou assim pensei.
    Certa noite cheguei em casa, e Timothy não estava lá. Somente o nosso cachorro Vlad, se encontrava no apartamento. Logo o medo de algo ter acontecido invadiu o meu pensamento. Liguei em seu telefone, e o mesmo estava desligado. Estaria ele aprontando sem mim? Questionei. Só que o meu amor, me deixou um pouco mais lúcida, e por isso decidi verificar os meus recados. “Amor. O Vlad tá com saudades.” Foi a primeira mensagem, as 7:30. “Amor hoje vai ter pizza na janta, quer escolher o sabor?” Foi a segunda, na hora do almoço. “Amor trouxe sua pizza favorita, com muito queijo e...” A ligação caiu as 19:45. “Merd...!” Deixei escapar, e fui para a próxima e última mensagem. “Sabemos de sua conexão com a deusa renegada, e se quiser ouvir outra declaração patética do seu amado, vai ter que fazer o seguinte...” Anotei as instruções com a mão trêmula. Sabia que Thamara jamais me perdoaria, pelo que ia fazer. Contudo Timy era o amor da minha vida, e eu não me perdoaria se algo acontecesse a ele. Precisava tomar uma decisão, que mudaria a minha vida sempre, e tinha apenas alguns minutos para cruzar a linha da traição. Foi então que segui o plano delas, e enviei uma falsa localização para a minha irmã, que a enviaria direto para o abate. Ela não havia despertado ainda, mas assim como eu tinha alguém que me amava, ela também tinha, e certamente ele iria resgatá-la, e caso isso falhasse, havia uma força celestial disposta a mudar o tempo, para salvá-la, e sendo assim ela era importante o suficiente para o universo intervir. Ao contrário do Timothy que tinha menos de 2 horas de vida, e poderia desaparecer para sempre, pois era um criminoso, e mesmo sendo um filho do Inferno como eu, ficaria preso ali, por sua afronta a ordem natural, ao seguir as leis erradas. Era o fim da minha parceria com a minha irmã, e por isso não conseguia aguentar as lágrimas, mas mesmo assim, eu segui em frente, e entrei naquele depósito. Timy estava preso dentro de um vidro cheio de água, acorrentado até o pescoço, com panos brancos que estavam vermelhos de sangue. Só haviam 7 minutos de vida agora, e eu precisava encontrar o painel. Corri de um lado para o outro, tentando achá-lo, até que notei os olhos do meu amado, e segui na direção indicada por estes. Quando o líquido já tinha ultrapassado o queixo, eu consegui desligar, e sem pensar duas vezes, entrei no tanque, e usei a chave que me entregaram, após mandar minha irmã para a morte. Ao nos encontrar nos abraçamos mais forte do quê nunca, e nos beijamos ali dentro. Mas após ter comprometido toda a Ordem das Corais, eu mesma paguei o preço. O tanque se fechou, na parte de cima, e a própria Ane Marrie, veio nos executar. Pensei que ia morrer, pois agora não só subia água, e sim um liquido verde, que segundo a mesma estava contaminado, com um vírus que tinha ficado adormecido há 7 mil anos. Eu gritei, e me debati, enquanto Timothy ficou parado. Não entendi a razão, até ver a enorme e gosmenta criatura na sua nuca, que brilhava mais que neon, e que seus olhos estavam vazios. “Este? É um presente da nossa bióloga renegada, que antes de sair me ensinou sobre todos os poderes da ciência... e seus malefícios.” A rainha sorriu, e entrei em desespero. Sem saber o quê fazer, passei a me empurrar na ordem contrária ao apoio do tanque. A queda poderia me machucar, só que era melhor que morrer. Empurrei várias vezes, impulsionando o meu corpo, até que a cúpula caiu no piso e se partiu. Me arrastei entre os cacos, e peguei a mão do meu namorado. Sabendo que não éramos mais bem vindos, sai correndo até a saída mais próxima. Nós dois corremos até a floresta, e quando vi um frade passar por ali, gritei pedindo por ajuda. “Eu sou Úrsula, a outra irmã de Thamara a filha mais velha de Cristo!” Foi tudo o quê pude pronunciar, antes de desmaiar. Se falasse meu nome verdadeiro, eles não nos ajudariam, Thamara tinha deixado isso bem claro, na sua “doce” carta de despedida, por isso fui obrigada a mentir. Mas ainda bem que fiz isso, pois me trouxe até o único lugar, em que Timothy pôde ser curado, para que possamos iniciar uma nova vida, longe dos crimes da Ordem das Corais. Sei que somos dois ímpios, mas se meu pai é mesmo Cristo, ele ensinou os outros a perdoarem, e certamente não negaria uma segunda chance, para uma das suas filhas, e o sobrinho, filho de seu irmão Belial.
    _Então mentiu para chegar aqui?
    _É só o quê ouviu?!
    _Não, foi apenas a parte mais marcante, pois pensei
    que tinha me rastreado de alguma maneira, algo mais
    inteligente, do quê apenas sorte.
    _Foi inteligente, do contrário Timothy teria morrido.
    _E agora espera que a Ordem de Cristo os abracem
    , e ofereçam um banquete pela sua chegada?
    _Queremos somente redenção Thamy.
    _Sem coroas, deuses, ou as velhas regalias que
    foram ofertadas por Marrie, para tentá-los ?
    _É claro que sim.
    _Estão prontos para o trabalho duro,
    que lhes confere alguma nobreza
    entre nós?
    _Se tiver um quarto, comida boa, e bons
    livros.
    _Acha que está no direito de exigir?
    _É o mínimo para um ser humano.
    _Então terá de se dirigir ao pai.
    Ele quem lida com essas
    coisas.
    Thamara era bastante firme em suas palavras, porém era evidente o alívio que sentia no peito, por me ter de volta ao seu comando. Uma vez irmã, sempre irmã, e mesmo com toda a frieza, ficava claro que se importava do contrário, não teria feito o seu marido “O Peste" me dá o sangue da cura.
    A MORTE NARRA:
    A volta da minha irmã mais nova deveria me trazer alegrias, mas por mais feliz que estivesse pela sua volta, não podia me esquecer dos males que tinha causado, e de quê nem Ramona escapou das suas teias diabólicas. Inspirei fundo, e caminhei para longe dela, deixando-a sem respostas. Tudo sempre foi muito fácil para Katherine, então não me admira a sua “cara de pau”, de vim até Santa Marta em busca de perdão. Nosso pai poderia lhe perdoar, afinal ele sempre foi o cara que perdoo as faltas do mundo, mas eu neste sentido, era tão implacável quanto minha mãe Madalena Lilith.
    A noite... Timothy e Katherine ficaram agarrados um ao outro, sorrindo, ao beberem a sopa do nosso chefe e padre João. Quem os visse ali, pensaria que eram almas gêmeas, puras e inocentes, entregues aos desejos da juventude. Fiquei com o cotovelo apoiado na mesa, pousando a mão abaixo do queixo. Os observando com cautela e fúria. Vendo o meu estado, Bart deitou sua cabeça no meu ombro, dando-me beijinhos no pescoço, até me fazer rir, e sussurrou para nos afastarmos de todos. De mãos dadas, nós seguimos até a beira do rio cristalino, e nos sentamos na ponta da terra, deixando a água cobrir os nossos pés. “Não gostei da volta dela.” Ele iniciou, e dei graças aos deuses, por não ser a primeira a dizer. “Ela é minha irmã, mas eu também não estou satisfeita com isso.” Concordei, e ele se deitou no meu colo, deixando a água fria cobrir metade do seu corpo, já que a fenda estava rasa, e “secando”.
    _Por pouco você e Ramona não morreram
    naquele dia. Não é algo fácil de se perdoar.
    _Se Ele não tivesse parado o tempo...
    _E ainda tem essa. Graças a ela o Arcanjo voltou.
    _Ciúmes, bonitinho?
    _Sempre terei ciúmes de você. É o amor da
    minha vida.
    _Você também é o amor da minha...
    _Mas?
    _Você sabe...
    _Está muito magoada comigo, para sentir
    alegria por isso.
    _Olha, não é que é esperto?
    _Engraçadinha.
    _Sou mesmo.
    _Eu te amo Thamy. Sei que falhei feio contigo, como marido,
    mas não vai se passar um dia da minha vida, que não deixarei
    de lutar para ser digno do seu perdão.
    Ele ergueu a face para cima, e pude vê as estrelas se refletirem nos seus olhos. Aquelas íris brilhantes, e a pupila tão dilatada ao olhar para mim, me fizeram entender porquê mesmo depois de tantos anos, sofrendo por ser incapaz de dar uma segunda chance a alguém, ainda seguia ao seu lado, e afastava todos os possíveis pretendentes, tornando-o minha primeira e única opção. “Também te amo Bart. É difícil pra mim perdoar, qualquer pequena falha que seja. Mas por você estou tentando.” Me esforcei para me declarar. Escrever é fácil, porém falar dos meus sentimentos, sempre foi algo complicado, pois é como se eu não fosse capaz de amar, ao ponto de literalmente esquecer de mim, e levar um tiro para proteger alguém que não está dentro desse corpo. Contudo Bart era o único por quem eu realmente me esforçava para ser melhor, e por mais que o Dr. Fernand ou o Dr. Augusto dissessem o contrário, isso para mim, era o mais perto do amor que podia conhecer. Sem que percebesse, meus dedos fizeram carinho em sua cabeça, e meus lábios foram até os seus. Talvez amar, não fosse algo que trouxesse somente felicidade e satisfação, e sim a caminhada longa e tortuosa, na qual os dois enfrentam todas as barreiras para continuarem juntos.
    O PESTE NARRA:
    Outra vez seus impulsos românticos a traíram, era óbvio por causa da sua face corada de vergonha, ao afastar o rosto depois de me beijar, e praticamente criar alguma distância emocional, ao se recostar para trás. Ainda bem que tínhamos voltado a brigar por nosso relacionamento, não queria me lembrar, do dia em que quase perdi a mulher da minha vida, e o fruto desse amor que nunca se apaga. Droga. Estou começando a lembrar outra vez...Já ouço o som do temporal que caia, e a voz dela ao telefone. “Bart por favor me ajude.” Foi tudo o quê ouvi, antes de ligar sua localização, e seguir até o meio da mata escura. A mesma em que há poucos dias, havíamos encontrado sacrifícios infantis, em nome dos “ofídios em forma de humanos”. O sangue estava espalhado por toda parte, - ao contrário do quê fizeram com Marcele, outra membro que abandonou as corais, antes da mesma se transformar numa ordem mundialmente famosa, por suas atrocidades. – Eles queriam mesmo executar a Thamara, sem fazer parecer suicídio. Minha respiração era calma, porém a cada passo que dava, o medo crescia dentro de mim, e os suspiros pouco a pouco se aceleravam. As folhas se quebraram abaixo dos meus pés, mesmo tentando ser sorrateiro, e isso fez meu coração subir até um pouco acima das costelas. Um pouco trêmulo, me aproximei das árvores, para observar o ambiente. Sentindo a força de Gaia fluir pela copa, ganhei energia para enfrentar os monstros que tinham levado a minha amada, e a minha filhinha. Minha áurea obscura cresceu, e por alguns segundos o Bart viciado em violência, tomou 70% do controle do meu corpo, pois estava pronto para me “banquetear” com a carne de certas corais. Meus dedos arranharam o tronco, como se fossem obsidianas, e por um momento senti que meus olhos queimaram, e se tornaram amarelos como ouro, dando-me o poder de ver no escuro. Foi então que a vi, nos braços dele, e minhas íris se tornaram vermelhas como rubi, pois o Bart melancólico quem assumiu. “O quê faz aqui?” Perguntei ao ver o homem de longos e cacheados cabelos negros, que segurava a minha esposa, e ficava ao lado da minha filha, me encarando com seus olhos azuis, que brilhavam de maneira tão inumana quanto os meus. “Se soubesse cuidar dela. Eu não precisaria intervir.” Ele me respondeu, e isso me fez rir de raiva, pois jamais deixava de salvaguardar a minha amada. “O quê aconteceu?” Perguntei lentamente, pronto para matá-lo com todos os requintes da maldade, assim que me entregasse a minha companheira. “As corais vieram atrás dela.” Disse sem parecer se importar, e ela despertou. “Você?” Perguntou para ele, com certa mágoa, e este sem querer sorriu. “Estou fazendo hora extra.” A colocou no piso, e levantou voo. “Ela precisa de proteção. Não importa quem você seja, sabe que somente o Pai tem tal poder.” Disse ao passar por mim. Apesar de ser um engomadinho celestial, ele estava certo, porém conhecendo a mulher que tinha, havia a certeza de quê ela não seria a favor de tal intervenção, por isso só deixei escapar um barulho de lata de refrigerante sendo aberta.
    No caminho de volta para casa...Thamara ficou em completo silêncio, segurando Ramona que tinha dormido em seus braços. Pelo retrovisor pude vê-la. Seu olhar era vazio, tinha marcas de garras nos ombros, o lábio estava roxo, como se tivessem torturado e depois a forcassem a beber veneno. Eu queria saber o quê tinha acontecido, mas ela parecia sem reação. Ao passar pela entrada de casa, ela pulou no meu colo e me abraçou forte. “Ela saiu. Eu preciso ir embora.” Foram as suas palavras. Sem pensar, a segurei contra o meu peito. “Não.” Foi tudo o quê consegui sussurrar, e ela me deu um beijo no rosto, seguido de um beijo na boca, que pareceu sugar as minhas energias. Era como se ela fosse a Hera Venenosa das revistas em quadrinhos, mas seus olhos ficavam violetas e vítreos, quando minha vida era engolida por sua boca roxa. “Eu te amo muito. De verdade. Mas meu ódio pode te machucar, então adeus.” Ela disse e dei o meu último suspiro, caindo desmaiado no piso.
    Os dias se passaram...Minha sogra entrou em desespero, e veio para dentro da nossa casa, me oferecer ajuda para cuidar de Ramona, enquanto eu procurava por minha esposa. Cheguei a voltar a beber e fumar, coisa que só fiz na adolescência após termos terminado por conta dos seus inúmeros pretendentes, e querer vivenciar todos os prazeres da juventude. Ela certamente diria que o fez, pra ficar com o tal Dave, porém anos mais tarde, vim saber que não tinha só o babaca, outros estavam aos seus pés. Não acho isso negativo, porquê eu também era o homem de muitas, após termos nos afastado. Pra mim isso só significava que a separação nos tornou duas criaturas frias e maldosas, que deixaram um rastro de destruição por onde passaram, mas se reencontraram mesmo nas trevas, pois eram perfeitos um para o outro. Infelizmente acho que ela não via assim, e por isso tinha partido de vez. Ela, seu outro Eu sempre saia em momentos de adrenalina. Então isso pra mim, era uma desculpa mais do quê esfarrapada. O sino da porta do bar tocou, e foi tudo muito rápido. Um grupo de mascarados, com uma braçadeira vermelha, jogaram um frasco ovalado no piso, que se partiu e deixou todos doentes.
    No meio daquela névoa verde, eu via mulheres e crianças gritando, ao chorarem lágrimas de sangue, enquanto os homens vomitavam sem parar pelos cantos, e alguns tremiam como se sofressem o efeito colateral de um remédio psiquiátrico. O quê quer que seja, era mortal, mas me sentia normal, por isso caminhei por ali, até chegar a saída, onde encontrei um grupo de homens de túnica branca. “Eis que o filho do nosso senhor enfim aparece entre as sombras, iluminando-as com a sua luz.” Disseram em coro, e ergui uma sobrancelha de incredulidade. “Saudamos-te ó grande cavaleiro iluminado, que deve acompanhar a amazona negra que com a sua mortalha e foice limpará o mundo.” Eles se ajoelharam diante de mim, com itens em suas mãos. “Eu sonhei que muitas pessoas morriam por minhas mãos.” Me recordei, com a voz dela. “Não podia ver o rosto, mas andava a cavalo com um guerreiro de armadura prata, que me levava até os outros dois. Era como se eu fosse a Morte” Foi o segundo lampejo. “E se um dos cavaleiros, não for apenas uma corrupção machista, e a Morte na verdade é uma amazona?” Foi o quê me fez ter certeza que era dela que se tratava. “Onde ela está?!” Peguei um deles pela túnica, e ergui contra a parede, pronto para destrui-lo caso tivesse feito mal a minha amada. “Está em Santa Marta, porém assim como a mesma está treinando, você deverá fazê-lo, para terem controle dos seus poderes, e não serem controlados por eles.” Me respondeu aquele ficava ao lado do outro. “Olha pra minha cara. Vê se eu me importo com isso? Só quero achá-la.” Disse com impetuosidade. “Se quiser ver a minha filha. Terá de ser merecedor dela.” O quarto e último homem impôs, e quando olhei para trás, vi seus olhos brilhantes como uma lâmpada no escuro. “Lúcifer?” Questionei desconfiado. “É apenas um dos meus nomes, meu filho rebelde.” Me respondeu. “Ela está bem? Não estão abortando seus filhos, e lhes dando o feto para comer não é?” Inqueri me recordando das terríveis visões da minha companheira. “Não somos Os Iluminados. Nosso treinamento é mais rigoroso e evolutivo. Ela está aprendendo a controlar o poder da Morte, e não se tornar o próximo grande Demônio, já temos você pra isso.” Respondeu e brincou no final. “Do quê está falando?” Perguntei sem entender a razão de tal acusação. “Então o bloqueio de memória foi um sucesso.” Se aproximou de mim, e pousou a mão no meu ombro direito. “Infelizmente Baal Hadad, não poderá viver para sempre nesta mentira, de quê só Thamara Mary, viveu no Inferno, e tem o meu sangue.” Tais palavras me deixaram um pouco receoso. “É hora de enfrentar o seu grande demônio, e fazer juiz ao fato de ser o príncipe deste mundo.” Ele prosseguiu. “Esse não é o teu título?” Perguntei com certa curiosidade. “Eu sou o novo Deus, meu filho, o título de Diabo é, e sempre será seu.” Ele me respondeu, e meus olhos se engrandeceram. “Isso não seria uma blasfêmia para o Altíssimo?” Notei os aspectos bíblicos dos quais Thamy sempre falava. “Seria, se ele não tivesse concedido esta glória, para se tornar o sucessor do seu bisavô.” Outra vez ele respondeu algo de quê não tinha muito conhecimento, a não ser pelas aulas da minha linda descendente dele.
    _Eu tenho um bisavô?
    _É muito para explicar. Mas sim. Você é parte da terceira
    gerações dos deuses.
    _Então este bisavô é o Caos da mitologia nórdica?
    _Sim, e dele nasceram os primeiros deuses supremos,
    que são os seus avós.
    _É muito para processar...
    _Ficará mais fácil depois que desbloquearmos sua memória.
    _Não.
    _O quê? Por quê?
    _Se sou mesmo o Diabo, não quero machucar Thamara
    ou minha filha, é melhor deixá-lo adormecido.
    _Isso é um excelente sinal. Porém embora tenha machucado
    muitos com a sua frieza e sadismo, tenho certeza que não
    praticou algum mal contra elas.
    As palavras de Lúcifer me acalmaram, e por isso segui com os frades, para receber o devido treinamento de meu poder, e ver a minha amada outra vez. Foram 6 meses de teorias e práticas, sobre o meu porte físico e espiritual. Os cientistas da ordem diziam, que minha saliva era uma fonte de doenças nocivas, que se transformava no quê minha mente desejasse, e que o meu próprio sangue, continha antígenos praticamente sobre-humanos para cada um desses males. Por vários meses fui estudado numa estufa, ás vezes dentro de um tanque, outras numa maca, para definir o limite dos meus poderes, que faziam de mim, uma bomba biológica, com a cura para as mesmas doenças que causava, por isso me chamaram de Peste. Contudo embora fosse parte das minhas habilidades, ter esses vírus vivendo em meu corpo, e os curar, não era todo o meu poder, pois graças aos seres microscópicos, poderia modificar o meu DNA, para me tornar qualquer ser existente na galáxia...Mas não vem ao caso, como dizia...No sexto mês finalmente pude encontrá-la, ela continuava linda e radiante como a lua. Como tanto gostava, estava usando um vestido preto longo e decotado, sendo seguida por homens e mulheres cobertos por capuzes amarelos. Ao contrário dos costumeiros olhos vazios, parecia tão serena quanto na adolescência, e sorria com a confiança, que nós dois acreditávamos que tinha morrido.
    _Bart?
    _Thamara...
    _Como chegou até aqui?
    _Digamos que nossos caminhos se cruzaram.
    Você não é a única filha cósmica.
    _Sério? Eu sabia! Você é meu par eterno!
    _Não, não sou. Sou apenas o deus que ficou
    louco de amores por você, e não te deixou
    viver na solidão.
    Eu segurei em sua face e a beijei com carinho. Ao sentir o seu corpo no meu, meu coração pulsou com muita intensidade. Foi assim que as memórias do passado tomaram conta da minha mente... Eu era somente um garoto loiro, semelhante um viking, quando nos reencontramos. Ela era somente uma menina de cabelos vermelhos, com olhos violetas e vítreos. Nós discutimos no começo, pois a figura baixinha, tinha contas para acertar comigo. Mas como sempre fomos estranhamente um atraído pelo outro, acabou por me contar a verdade. Sentia-se vazia, e nem sempre do nada, nascem as melhores coisas, por isso ela tomou a pior decisão. Com o uso dos seus poderes, ela abriu a porta da minha cela, e me soltou no universo. Então o quê Deus havia decretado como um caso resolvido, voltou para lhe assombrar. Pouco a pouco me infiltrei no paraíso, e fiz com quê os anjos ficassem encolerizados. Os fracos pereceram diante de meu poder, e o caos se fez no cosmos. Para mim, era como uma festa sem fim, com muitos gritos, sangue, e desespero. Mas para ela, era como uma falha grotesca, que precisava ser corrigida antes que descobrissem o quê fez. Eu espalhei entre as multidões, todo o sofrimento possível para me fortalecer, e ela veio com a sua foice, para lhes dá paz mesmo no Inferno, entre os seres materializados. Seu pai tinha sido o anjo que tirava a vida dos vivos. Porém após o seu nascimento, ele foi coroado como príncipe celestial, e outro teve de assumir o seu posto. Muitos dos seus bravos filhos, lutaram para provar que eram dignos de tal glória. Assim eles limparam a galáxia, ceifando todas as almas que pudessem, com suas armas especiais. Contudo foi na única menina, que o poder se manifestou, e por isso esta que recebeu a sorte grande. Ao contrário dos irmãos, ela não matava somente para se provar merecedora da foice de seu pai, mas sim de acordo com o seu código de conduta, no qual os culpados eram friamente punidos, e os justos levados cuidadosamente para o outro lado. Seus irmãos só se focavam em quantidade, ela não, e esta era a virtude secreta do seu pai, quando ele atuava como tal. Eu a admirava, tanto pela sua impetuosidade violenta com os ímpios, quanto pelo cuidado que tinha com os inocentes. Por isso também tomei a pior decisão. Certa vez a Morte, estava a tomar banho no rio sagrado, e eu entrei na água, infectando-a, para lhe tornar inofensiva. Ela lutou com valentia, usou seus poderes para tentar curar a água, mas por algum mistério da natureza, a pobrezinha não tinha forças para vencer a mim, pois eu era a própria doença, era o vírus que carregava outros dentro de mim, era a própria Peste, em forma humanoide. Ela não suportou a enfermidade que lhe provoquei, e caiu em meus braços. Estava fraca, e bastante vulnerável, quase irresistível. Passei a mão por sua face pálida, ela me olhou preocupada, quase dizendo "não" para a minha proximidade, porém mesmo assim a beijei, e a tomei para mim. Por alguns anos, ela desapareceu, e os homens deixaram de respeitar o poder celestial, assim como acreditaram que não havia punição para os seus crimes, pois eu também não atuava. "Vou beber até cair hoje, pois o meu fígado não mais adoce vadia!" Disse um bêbado ao espancar a esposa, que segurava o símbolo dos celestiais. "Deus porquê não me permite morrer, e me deixa sofrer? Não pequei tanto para acabar assim!" Chorou com a boca toda ensanguentada. Ela não era a primeira a perder a fé. Outros estavam em níveis mais avançados, chegando até mesmo a acreditar, que Deus os tinha abandonado a mercê do mal, do qual tinha lhes prometido proteção. Inúmeras criaturas iam as ruas, protestar contra as iniquidades divinas, e haviam os que tentavam assumir o papel, da única juíza consagrada pelos deuses, deste universo. “Então você queria encontrar a paz, depois de tudo o quê me fez?" Um homem num plano de vingança, apontou a arma para a cabeça de outro. "Eu lamento te informar, mas não existe mais morte, e por isso sou livre para estourar a tua cabeça, quantas vezes desejar." Atirou na testa do culpado, várias e várias vezes, com um sorriso cada vez maior, que o tornava pior do quê aquele que ele julgava. Este não era um caso isolado, os assassinatos se expandiam mais do quê as doenças, que costumava espalhar. Para uns era um parque de diversão macabra, e para os que não tinham tal coragem, parecia a visão mais do quê realista do Inferno dos mortais. Cabeças decepadas, gritavam pelas ruas, e os sádicos lhe perfuravam os olhos, e chutavam-nas para a lama, afogando-as sem parar. Pessoas que tinham perdido o corpo na briga para sobreviver, se arrastavam pelos cantos, para tentar se livrar daquela tortura sem fim. As mulheres se uniam em instalações, para cuidarem uma das outras, já que nesta realidade sem final ou consequência, os pervertidos também ganhavam espaço, e se sentiam no poder de abusar das mesmas. Nem mesmo as crianças, conseguiam manter a inocência, e por isso ficavam divididas: Entre aquelas que matavam, e as que corriam. Meu ato egoísta, tinha feito da galáxia, o próprio Tártaro dos Gregos, e o Inferno dos Católicos, pois eu os privei de manter a bondade, e de receber a devida a punição, ao levar a nossa Morte, para o único lugar, no qual somente o seu Eu daquela realidade, tinha a permissão de julgar, e esta era somente como qualquer criatura que habitava aquele Cosmo. Como desde cedo trabalhei para o céu, como o auxiliar do meu pai, o veneno de Deus. Sabia de todos os pontos fracos da Morte, desde a sua jurisdição, até o quê poderia prendê-la para sempre. Acorrentada no fundo do universo, ela brigava para sair, amava o seu trabalho, e não queria ver ninguém lhe substituir. Só que nunca me dirigia a palavra, e evitava até olhar em meus olhos, devia me odiar bastante. Todavia eu não conseguia deixá-la ir, pois só o fato de tê-la por perto, era o suficiente para me sentir bem, e não me importava com quantos sofreriam no processo. "Já não basta o quê fez?" Ela finalmente disse, com seus braços presos ao aço, banhado com a luz do buraco branco, que sintetizei para imitar o poder supremo, do pai do príncipe celestial. "Foi culpa de nossa mãe, e você sabe." Respondi de imediato. "É só o quê sabe dizer. Mas se fosse forte, teria dito não." Ela retrucou. "Você não pode me culpar por aquilo para sempre. Se soubesse lutar, também teria impedido.” Rebati, e ela ficou indignada. “Vai culpar a vítima? É sério?” Sua voz era alegre, mas cheia de raiva. “Eu sou o Peste. O quê esperava? Que eu me arrependesse? Fui treinado para ser impiedoso!” Mostrei a minha ira, e ela voltou ao silêncio. “Ao menos sentiu algo por mim?” Aquele tom me deixou desnorteado, parecia triste, quase magoada. “Você sabe que sim. Haviam dois destinos naquela noite: te possuir, ou te fazer desaparecer para sempre da minha realidade.” Desabafei com tristeza, quase me encolhendo de vergonha. “Eu não podia ficar sem você.” Segurei em sua face, erguendo seu queixo, e olhei no fundo daquela neve, coberta pela luz do rouxinol. “Mas você sempre foi o pior dos filhos. O Forte, O Implacável por ser incapaz de amar.” Argumentou, sem acreditar. “Parece que a única fraqueza da Peste é a própria Morte.” A beijei, e mesmo com as mãos acorrentadas, ela me puxou para a si. Aquela atração mortal e doentia, tomou conta de nós dois, e a boca mais fria que existe, pareceu quente por uns minutos. Com suas pernas salientes e fatais, ela montou em mim e me arranhou, se entregando a enfermidade do amor. Logo arranquei a sua mortalha, e tirei a sua armadura, enquanto ela me despiu as vestes de cavaleiro. Minhas mãos desceram pela sua costa frágil e nua, a sua boca não quis desgrudar, e quando o fez, foi somente para me beijar o corpo inteiro, e voltar ao meio das coxas, onde fez vários movimentos de vai e vem, deixando sua doce saliva escorrer por meu membro. Contudo não a deixei somente me satisfazer. A deitei no piso, segurei seus pulsos, e passei a minha língua por entre os seios delicados, descendo, até chegar no ponto do prazer, do qual bebi todo o júbilo com gosto, até escorrer pelo canto dos lábios, e quando vi que praticamente implorava, para que a completasse, sorri maldosamente. “Você realmente me deseja ?” Beijei-lhe a virilha, e ela corou de vergonha. “Sim.” Respondeu com sua voz doce como chocolate amargo, o meu favorito. “Então peça por mim.” Impus, e ela relutou, até que se deu conta de quê só havia nós dois, como na segunda vez, em que estivemos juntos, e cedeu a sua vontade. “Me possua Peste.” Aquelas palavras me deixaram eletrizado, e por isso entrei dentro dela com ímpeto, arrancando-lhe suspiros tão intensos, que foi capaz de suar. Aquele rosto, aquele sorriso, aquelas bochechas rosadas de prazer, seguido de seus gemidos, me deixaram louco. Por dias repetimos o feito, e creio que a Morte, foi a primeira a desenvolver a Síndrome de Estocolmo, por isso esta doença é vista de maneira tão mórbida. Mas ela não mais se importava, nem sequer ligava para o quê fazia, só com quem fazia. Se ela me amava, eu não sabia, acreditava que estava usando seu charme fatal somente para ganhar a liberdade. Porém no dia que enfim a libertei, esta saiu voando para fora do cativeiro, e se deparou com a luz de uma das luas do planeta em que estávamos. Estava tão feliz, que pensei que nossos momentos de amor doente, ficariam para trás, assim que retornasse, para impor a ordem ao nosso “mundo". “Vamos?” Segurou em meu pulso, e fiquei paralisado. “Quer que eu vá? Eu o Peste, o demônio, o...” Me silenciou com o dedo indicador. “Nem tudo é preto e branco Peste. Você causou sim muito sofrimento, mas graças a ti famílias se mantém unidas, homens mudam a conduta, e mulheres valorizam a felicidade.” Seus olhos eram de uma criatura sã, contudo suas palavras me pareciam insanas. “Se isso é verdade, por quê sempre atrapalhou a minha tarefa? Como se quisesse me corrigir, após ter me libertado?” Questionei incrédulo, e ela sorriu. “Porquê tua execução é tão sombria e implacável, que mesmo as vítimas dos criminosos, se apiedavam destes. Que de acordo com o meu dever, mereciam uma punição ainda mais severa, por toda a eternidade.” Ela explicou. “O meu erro foi te libertar, mas você quem escolheu atender o meu pedido. Portanto é só você que pode corrigir isso. O quê já se passou, não dá para voltar atrás, sem alterar todo o equilíbrio já existente. ” Ela completou, e eu percebi que estava errado, não era uma falha grotesca que tentava controlar. Nós retornamos para a nossa galáxia natal, tudo estava destruído, e muitos imploravam por seu regresso, enquanto me destetavam mais do quê nunca. Pouco a pouco, ela fez o seu trabalho, não haviam muitos para receber o atestado de óbito, por isso eliminou os executores com punhos de ferros e sem piedade, e trouxe enfim o descanso para os que tinham temido, que aqueles dias jamais teriam fim. Nosso pai quis julgá-la, porém eu assumi a responsabilidade por tê-la raptado, e assim a livrei de perder o manto que tanto adorava. Achei que após a confissão, voltaria para a cela, contudo por ter me provado um pouco mais maduro, o pai decidiu me tornar o segundo juiz consagrado, que auxiliaria a Morte em seu trabalho. Tão grande foi a minha alegria, ao ouvir tal coisa, pois em vez de me afastarem dela, nos juntaram como a metade oposta e complementar da mesma moeda. Desde então, as duas criaturas mais perigosas do universo, seguiram de mãos dadas por toda a eternidade, se amando de uma maneira que os mortais não seriam capazes de compreender. Já que onde Morte fosse, a Peste certamente ali estava... “Bart?” Ouvi a voz dela dizer, e outra vez estávamos a beira do rio. Todavia enquanto me perdia em lembranças passadas, já havíamos trocado de lugar, e agora ela tinha se sentado em meu colo, e ficava a olhar para os peixes na água, ao entrelaçar seus dedos aos meus. “Oi...” Falei olhando para as nossas alianças, próximas uma da outra, por causa da união das palmas. “Promete nunca me deixar?” Disse se encolhendo, quase sem voz, e a luz da lua brilhou sob o aço dos anéis. “É claro que sim meu amor. Não importa o quê os astros digam, sempre seremos um do outro.” Beijei sua cabeça, e ela retribuiu beijando as minhas mãos.
  • O Assexual, por um Assexual.

    Olá, irei abordar um tema que para grande parte das pessoas seja inexistente. O Assexualismo, sim ele existe e é bem comum encontrar outros assexuais hoje em dia.
       Bom, se eu vou apontar as partes ruins e problemas que carrega, eu devo ao menos explicar o que é assexualidade.
       Quando uma pessoa não sente atração por ninguém, ou sente, mas é tão fraco que nem conta. Dos assexuais, parte está satisfeita, e feliz em possar a vida sozinho, mas por outro lado, os que não gostam de serem assim, dariam tudo pra trocar de time.
       Vou falar um pouco da minha experiência pessoal, afinal eu também sou assexual. Sou um jovem-adulto, ainda novo, de resto segredo. Comecei a desconfiar que era assexual com 14 anos. Mas por falta de informação tanto da minha parte quanto da parte dos meus pais houve outros questionamentos no mesmo sentido durante alguns anos. Eu tive uma adolescência péssima e conturbada, porque me sentia um ET. Somente depois de adulto que eu entendo que realmente era assexual, e sempre fui.
       Um dos problemas que me incomoda por ser novidade e pouco estudado, quando tenho dúvidas eu nunca acho quem saiba sana las. Parece que nascemos assexuais para ficarmos andando por aí à esmo sem saber de nada ou tendo motivação.
       Eu gostaria de entrar no assunto de Emoções, mas eu não posso falar sobre algo que nem eu entendo, é complexo e delicado.
  • O Beijo impossível

    A noite ja´ caia sobre a Guanabara,e Celso podia ver da sua janela,os montes se fundirem,numa mancha cor de perola,enquanto os casais se fundiam na areia...
    Pensava em Flavia,uma gata misteriosa,que conhecera em outra noite,e que apenas pelas madrugadas,dava o ar da graça...
    Convites para almoços,passeios na praia,recusava,dar seu endereço,nem pensar..
    Quando queria,aparecia e faziam amor em seu apto,mais nada.
    Causava estranheza tambem,o fato de sempre saber quando estaria so´,e nunca lhe permitir beija-la.
    Fora levando as coisas assim,mas conforme a paixao aumentava,ia lhe cobrando uma atitude:
    -Eu tenho mau halito,amor?
    e´ por isso que evita minha boca?
    Ela sorriu constrangida,mas retrucou:
    -Nao esta´ bom assim?
    -Mas pode ficar melhor!
    quero me casar contigo,te dar meu nome...
    A bela morena em resposta,sumiu por bons meses,e so´ voltou,quando seu corpo sentiu a mesma falta de Celso.
    Mataram a saudade loucamente,mas nada de beijo...
    Ele porem,decidiu investiga-la,ao inves de fazer perguntas,e descobriu pasmo,que ela era prostituta,"Flavia navalha"era seu nome de guerra,o qe explicava os habitos noturnos,mas nao o nojo de beija-lo...
    "Preciso mostrar que nao sou feito seus clientes!"
    Trouxe seu sobrinho,para que lhe pedisse um beijo,mas ate´ ao anjinho ela recusou...
    Ja´ irritado,lhe deu um ultimato:se nao o beijasse,nem precisava mais aparecer!
    A moça,sentindo que ia perder seu grande amor,resolveu contar seu drama:
    quando menina,foi agarrada na porta da escola,por um bebado,que lhe beijou a força,o que lhe matara o gosto de beijar,impedindo suas relaçoes de avançarem e lhe encaminhando ao sexo sem amor.
    -Foi voçe quem reabriu meu coraçao!
    por favor,me ajude,nao me rejeite...
    O rapaz abraçou-a e jurou descobrir um meio de cura-la
    Rodaram varios psicologos,mas nenhum resolvia,enquanto as esposas sofriam por fazer coisas de puta,ela penava por nao conseguir ser romantica...
    Continuaram a se relacionar,mas sempre faltava algo,e Flavia acabou fugindo de novo,libertando o amado para encontrar uma mulher completa!
    Apos muito procura-la,Celso foi acha-la num anuncio de jornal,onde uma pobre prostituta pedia:
    "Prostituta procura homem para beijar"
    Correu ate´ o endereço,mas alguem ja´ havia chegado primeiro:
    um velho,que desde que beijara a força uma criança,nunca mais amara ninguem,se entregando ao alcool...
    Vitima e algoz se reconheceram,sem precisar de palvras,e num longo beijo,curaram os machucados que a vida lhes fizera...
    Desde entao,provou do amor nos labios de seu amado,e gostou tanto,que passou a trabalhar numa barraca de quermesse,vendendo beijos..
    FIM
  • O BEIJO NO ASFALTO

    no meio da avenida,
    um corpo estendido no asfalto
    sutil cheiro de morte
    não há quem se importe
    quem suporte
    tenha sorte
    seja forte
    sinta o cheiro da morte
    por cima de seus ombros largos
    jogue seus medos nos lagos
    sinta o último afago
    sinta o último afeto
    voa por cima o inseto
    exceto
    último tomado de assalto
    última tomada no asfalto
    no meio, eu vejo
    o pródigo,
    o cúmplice,
    o último, beijo.
  • O Ex-defunto

    Nas férias de verão, resolvi sair do inferno que era a trivialidade de uma vida pacata ao extremo. Nunca fui afim de viajar, de curtir com os amigos, de se embriagar ou coisa do tipo. Sempre fui fiel aos preceitos morais que minha mãe me deu. Segui piamente, durante décadas, os ideais familiares, os conselhos. Entretanto, nesse verão, resolvi sair da prisão cultural. Uma loucura extrema, talvez sobrenatural, abraçou-me de repente, e me forçou a quebrar as restrições coercitivas que me impedia sair da constância dos meus dias. Da forma como essa mudança inusitada me possuiu, fez-me sentir profundamente invadido. Talvez um demônio me possuiu, pensava. Eu me sentia leve, feliz e ao mesmo tempo, receoso. Durante a fase de preparação do cronograma de viagens, uma bipolaridade me tangia frequentemente, e assim fazia com que eu me sentisse: ora um caçador, ora uma caça. Contudo, meu lado obscuro venceu nas minhas decisões. 
    Passei em torno de dois meses, planejando, replanejando, desfazendo e refazendo meus planos para estas inexplicáveis férias que viriam. A fastidiosa carga horária de nove horas de trabalho me deixava exausto para planejar algo. Entretanto, como já mencionei, algo muito surreal me pungiu nesse momento. Toda noite, nesses últimos meses para as tão esperadas férias, empenhei-me distendendo meu descanso noturno à procura de promoções na internet e, metodicamente, planejando a viagem. Às vezes, pensava que estava ficando louco, mas acabei cedendo com a perspectiva de uma mudança, por mais radical que fosse, iria, assim achava, desopilar minhas tensões e seria, decerto, algo inédito. 
    No dia da viagem, peguei a minha cachorrinha, Dolly, e a levei até a casa do meu tio. Sem nenhuma preocupação pendente, encaminhei extaticamente até o aeroporto principal. Era uma euforia incontrolável e, lá no fundo, sentia que a minha normalidade estava acorrentada. 
    Desembarquei às oito horas da manhã (horário local) no Aeroporto Internacional de Dodoma, na Tanzânia. Esse foi o destino que o meu lado misterioso me guiou. Quando fui ao centro da cidade Dodoma, tive a sensação de que já estive naquele lugar antes — senti na prática o que na teoria eu refusava: a ideia do déjà-vu. Desdenhei essa abstração e volvi-me a apreciar as belezas da cidade. Tive um choque de percepção. Pensava que na África tudo era miséria, pobreza e selva. Achei extremamente fascinante a cultura e a peculiaridade daquela cidade. Monumentos, arranha-céus, construções opulentas desmitificavam os meus equivocados preconceitos. No entanto, o meu objetivo estava longe de ser a vida urbana. Queria inflexivelmente desbravar a temível Savana africana. Na verdade, a minha parte oculta que queria. 
    Após dois dias desfrutando das belezas urbanas, o grupo de turistas no qual eu me incluía, decidiu ir visitar a savana Serengueti, ao norte da Tanzânia. Eu estava bastante empolgado com o passeio silvestre. Os prados estéreis, os arbustos espargidos, e, acima de tudo, os temíveis animais africanos. 
    Durante a viagem dentro de uma gaiola ambulante, avistamos cenas indescritíveis; sentimos algo que só o ambiente pode nos proporcionar —O ar da liberdade. Paramos um pouco para apreciar uma manada de elefantes que cruzavam a estrada. Perpendicularmente à estrada, no lado esquerdo da nossa direção, avistamos uma cena inusitada, um grupo de leões estava espreguiçando-se no chão sem demonstrar nenhuma agressividade. Os turistas não paravam de registrar cada passo dos felinos. 
    Enquanto os leões distraíam a atenção dos turistas, eu observava ao longe, no lado direito, uma cena curiosa. Vi um homem, um rinoceronte, e depois, um tiro. Fiquei profundamente abatido. Não fui eu quem fora abatido, mas sentia-se partido. O monstro retraiu a atenções dos outros. E ficamos átonos diante tamanha brutalidade. Ele retirava rapidamente o chifre do morto, e ameaçou com a arma a todos nós. Então, o guia acelerou, sem delongas, à vante. Ao passo que o carro ia, eu olhava, amargurado e consternado, o verdugo se retirando às pressas. E a nossa expedição fora arruinada naquele momento. Perdi a essência de aventureiro. 
    Logo considerei que estava precisando de algo para retirar aquela cena horrenda da minha consciência. É difícil descrever minhas sensações naquele momento. Quando eu tentava se distrair, os pensamentos me assaltava inesperadamente. Via que não poderia viver a essência de férias tranquila, caso não fizesse o mínimo possível. Daí em diante, já não era minha consciência que me controlava. Estava com um ódio aliado a uma psicose incessante de querer destruir aqueles miseráveis que roubam o que não lhes pertence. 
    Voltei a inibir meus temores quando conheci, inesperavelmente, uma jovem nativa de vinte e três anos, em um restaurante na cidade Dodoma. Ela estava almoçando sozinha, em uma mesa de frente a que eu estava. Dardejei um olhar curioso a ela, e como se houvesse uma conexão intuitiva, ela equiparou seu olhar ao meu. Discretamente, disfarcei o meu vislumbre e, voltei a saborear a minha refeição. Ela lançava-me um olhar distinto e tentador, que me fazia sentir arrepios. Um momento depois estávamos face a face, eu e aquela elegante garota. Um inevitável sorriso de simpatia nos tangenciou. Acresce que, quando sorria, resolvi atirar um aceno cortês, e desastradamente, acabei derrubando o copo de suco da minha mesa, e fiquei profundamente envergonhado. O garçom cuidou do desastre e eu resolvi ir até a mesa daquela mocinha. 
    —Olá, tudo bem? 
    O sorriso foi a sua resposta. 
    Logo me dei conta de que não ela falava português, e me vi como um idiota. Minha situação estava pior que antes. Estava pressionado a dizer alguma coisa e a luz dos meus problemas veio com a respostava dela: 
    —Eu falo inglês! 
    Senti um alívio tremendo ao entender o que ela dissera. Pensei nas conclusões imediatas a que chegara com a sua voz e não pude evitar um riso de entendimento e de vergonha. 
    —Perdoe-me pela minha apresentação nada cortes 
    —Sem problemas. Ela sorria pendulando a cabeça de baixo para cima. 
    —Me chamo Marcos. 
    —Meu nome é Telissa 
    —Encantado em conhecê-la 
    —O prazer é recíproco! 
    Após essa cômica introdução, ela me convidou para sentar. Passamos horas conversando, por ora meio enrolado na fala, contudo, o entendimento foi concedido a ambos. Foi realmente deleitoso conversar com aquela simpática garota; passaram-se em torno de duas horas nessa conversação. Despedi-me dela, e ela disse que vinha com frequência almoçar naquele restaurante. 
    Por ora, minhas angustias estavam soterrada nas excitações, nas memórias reconfortantes daquela inexplicável conversa. Assim, conforme o dia ia se desfazendo, a minha empolgação para o almoço seguinte só aumentava. 
    No dia seguinte, passeei pela cidade, fui ao museu local, e olhava constantemente o relógio fitando não perder o horário do almoço. Seriam umas deis e meia da manhã e eu ainda estava no museu. O grupo de turistas ficavam fascinados com as esculturas, relíquias, entretanto, eu estava achando aquilo tudo entediante, antiquado e fastidioso. Quando o ponteiro tangenciou o marco doze, saí discretamente do museu e encaminhei até um táxi que me levou até o restaurante. 
    Lá dentro, olhei perscrutando as mesas e as pessoas a procura de Telissa, e não a encontrei. Era umas doze e meia quando resolvi reservar uma mesa. Pensei que ela já tinha ido embora, e assim, fiquei chateado em não encontrá-la. Cada mordiscada que dava na coxa de rã não sentia sabor algum, almoçava simplesmente para suprir minhas necessidades fisiológicas. Terminei de almoçar, e quando ia me levantando para sair, uma mão afaga meu pescoço. Senti-me leve e profundamente confortado com aquela mão; imaginava aquela simpática garota me acariciando. E, impensavelmente, tornei o meu pescoço para deslumbrá-la, e, infelizmente, tive uma quebra de expectativa: não era Telissa, era uma velho que estava se apoiando em mim para passar. Saí de lá aborrecido, olhando para o chão e pensando nela. 
    O dia se encerrou sem aplausos. Não foi um dia abençoado, foi um dia tão ruim quantos os outros que já tive. À noite, senti-me como um filhote deserdado, sem arrimo, com a dura sorte do destino. Dormi cedo naquela noite, estava totalmente desmotivado para qualquer atividade de lazer. 
    A essa altura eu já começava a pensar que ela talvez não gostasse de mim nenhum pouco. Deixei isso de lado e tentei aproveitar as férias. No almoço seguinte, caminhei até o restaurante, desdenhoso a qualquer distração, sentei-me cabisbaixo, ordenei um frago grelhado com batatas, e um suco de uva. Estava apreciando a comida, evitando que os pensamentos me usurpassem o momento. 
    —Marcos? 
    Uma voz me chama, e eu tento guiar a minha audição até o local exato. Diante de duas mesas atrás de onde estava, se encontrava a garota misteriosa. Meu coração acelerou, e senti uma tensão momentânea me pungindo. Era ela! Ela estava me chamando para compartilhar a companhia no almoço. Senti-me muito bem com sua presença e além mais, ela conversava com uma leveza que parecia que eu estava delirando. Nós conversamos várias horas, eu decidi convidá-la para passear —até porque meus dias ali estavam se acabando— e suavemente ela confirmou a minha proposta com um sorriso divino. Não sei se diria que me apaixonei por ela, mas, certamente, senti algo que há muito tempo não sentia. Ela demonstrava tanta simpatia que não cogitei o seu verdadeiro caráter. 
    Fomos até um parque há duas milhas do centro, ficamos ali apreciando os pássaro que desatavam a cantar; conversávamos como se já nos conhecêssemos há anos. 
    Durante os dias precedentes, a frequência de encontros só aumentava. Eu e Telissa fomos a parques, cinemas, shopping center, outros lugares urbanos. Toda essa reviravolta mudara intensamente o rumo bucólico que antes prognosticava. 
    Em uma manhã tão ensolarada quanto as outras, Telissa me encontra no Café-Renoir (ao lado do restaurante mencionado), e ao avistá-la, senti uma alegria imensurável. 
    —Bom dia, Marcos. Assim ela me chamava com um sotaque tão peculiar que até pensei que era um apelido carinhoso.. 
    — Bom dia, Telissa. Como foi a noite? 
    —Foi mais ou menos. Respondeu ela, como se estivesse incomodada com algo. 
    —Por que? interroguei-a com ar de espanto. Nunca a via desmotivada, triste como nessa ocasião. Ela optou pelo silêncio, e assim, eu a respeitei. Convidei-a para tomar café e, após insistir um pouco, ela cedeu. Conversamos algumas trivialidade, e aos poucos via o seu semblante voltando ao que era de costume. Fomos passear pelo parque, e depois de algumas voltas em torno, sentamos em um banco defronte a um pequeno lago, bem pequeno mesmo, talvez diria uma poça d’água se não fosse a presença de plantas aquáticas. Eu olhei nos seus olhos e ela retribuiu o ato. Seus olhos brilhavam bastante, e seus cabelos moreno avoaçavam com a sintonia do vento. Ela carinhosamente apalpou o meu rosto e desferiu-me um impiedoso e inexplicável ósculo. Seus lábios tangenciaram os meus, e o silêncio nos pensamentos caracterizou aquele momento irracional, em que os hormônios transladavam loucamente por nossos corpos. Não ingeri álcool mas me senti embriagado após aqueles beijo e carícias. Convidei-a até meus aposentos e ela não mediu esforços. Tive a melhor noite de todas, no entanto iria se arrepender amargamente por ter conhecido aquela mulher. 
    No dia seguinte, acordei ao seu lado, eu estava revigorado. Nunca me senti tão bem como naquele momento. Ela acordou com um carisma fascinante. Até cheguei a pensar, se ela estivesse fingindo, deveria ser uma grande atris, entretanto, o que importava para mim é que eu estava vivendo um momento deleitoso e, tudo aquilo, era, sem dúvidas, as melhores férias. Conversamos nos aposentos naquela manhã, almoçamos juntos —Ficamos o dia inteiro juntos. Foram momentos inescurecíveis e inexplicáveis. Aquela meiga e cálida garota me sucumbia qualquer tormenta. Era um anjo! 
    Faltava quatro dias apenas para o fim das férias. Eu evitava imaginar minhas férias acabando e ter que retornar para a monótona e exaustiva rotina. Nesse dia, pela manhã, Telissa me encontrou no Café-Renoir, após tomar lanchar, ela me convidou a ir visitar a sua casa. Eu fiquei surpreso por sua proposta e aceitei sem cogitar. Não foi tão longe, cheguei lá em torno de duas horas de táxi em uma área interiorana. Eu estava empolgado, com pensamentos ludibriosos me eivando e toda imaginação fértil no momento. No momento, não me perguntei como ela vinha para a cidade ou o que ela fazia lá. De fato, o desejo por prazer me fez agir sem pensar, ou há quem ressalve o lado obscuro que me fez ir até onde fui. Andamos em torno de dez minutos após descer do táxi, por uma trilha estreita, até chegar ao destino. Achei surpreso o lugar em que ela vivia. Mato ao redor, uma casa velha e, sobretudo, mistério. Como uma mocinha tão elegante poderia viver naquele lugar. Por um momento pensei que iria morrer, que talvez ela estivesse me levando para alguém me assassinar. Quando eu cheguei lá, um grande surpresa. 
    Carcaças de animais penduradas em estacas, provavelmente para secar. Eu me perguntava o porquê dela me levar para ali. Ainda com a ilusão de prazer, caminhei junto dela até a casa. Pensei, que nem todo mundo tem a sorte de viver com dignidade. 
    Ao entrar na casa, eu tive uma grande surpresa: uma arma, um alvo, e eu era alvo. Aí meus pensamentos explodiram; meu desejo latente foi convertido em terror iminente. Estava perplexo, e, cruamente, com a ideia de que iria morrer logo. O mesmo homem que outrora ceifou a vida daquele pobre animal na savana, estava prestes a ceifar a minha também. Fiquei mudo, sem palavras, nem expressões visíveis. Eu já estava imaginando a dor pura e efêmera de uma bala que logo transmutaria a minha vida ao esquecimento eterno. Cada milésimo de segundo pensado, era eternamente avassalador; eu estava me sentindo um defunto, uma presa coagida sem chances de fuga. Depois da minha pálida expressão, o homem despojou um sorriso maléfico. Era a hora da morte! exclamei mentalmente. 
    Depois de tantos pensamentos cruéis, Telissa toca em minha mão, e ao inflexivelmente afasto-a com um empurrão. Estava com profundo ódio dela. Como pude cair na tentação dela, pensava. O homem falou umas coisas que não entendi. Talvez tenha dito um Adeus ou coisa do tipo, e eu já estava lacrimejando quando, eu ouço um tiro. Morri! 
    Uma bala passa de raspão no meu ombro esquerdo, e eu fico sem entender. Não foi ele quem atirou em mim, fora outra pessoa (ou monstro) que atirou. Não sabia o que fazer. Abaixei-me, e engatinhei até atrás de uma poltrona rasgada, ao lado da porta. O homem começou disparar contra um outro que não consegui ver. O sangue estava brotando sem parar do meu ombro, era excruciante. Quando fui pegar um pano para conter o sangramento, eu me deparo com Telissa caída no chão. Não acreditei no que via, ela fora atingida no peito e estava agonizando. Puxei ela para perto de mim. E fiquei sem entender nada. Interroguei-a, ainda com remorso: 
    —Por que? Por que? 
    —Eu te... E ela apagou. 
    Não consegui entender as últimas palavras dela. Fiquei na dúvida se ela queria dizer que me ama ou que me odeia. Vislumbrei rapidamente o local, avistei algumas presas, chifres, no quarto e não me atentei mais aos detalhes. Corri escrupulosamente pelo cômodo até uma janela fechada, que logo foi quebrada com uma bala. O barulho ensurdecedor de fuzis, estava me deixando desorientado, entretanto, consegui me erguer e pulei da janela que dava de cara a um matagal. Corri desembestado, sem olhar para trás; me cortei todo, contudo, a dor não foi mais forte que a minha ânsia por viver. Quanto mais eu odiava a vida, mais temia a morte. Sob tal ótica, estava eu correndo sem parar, até que consegui chegar a estrada. De tão desorientado que estava, não sabia para que lado ir. Só sabia que teria de correr o máximo que puder. Resolvi intuitivamente, escolhendo a esquerda, e assim, marchei a passos larguíssimos ao desconhecido. 
    Enquanto eu avançava, fazia uma parada de vez em quando para conter o fôlego. O céu já estava prenunciando o crepúsculo e ainda não tinha chegado a lugar algum. Procurei à minha volta algum indício de residência ou de qualquer tipo de ajuda. E não obtive sucesso. A lua já estava imperando no céu, e eu estava ao relento, imundo, dilacerado, temeroso, sozinho e sobretudo, perdido. Eu resolvi repousar em uma árvore frondosa, temendo os animais ou algum monstro humano. 
    No dia seguinte, saí da árvore cansado e se coçando, meu estado de virgília não me concedeu uma noite de sono. E a coceira infame foi devido aos mosquitos noturnos. Achei uma árvore encantadora, próximo onde repousara, com supostos melões suspensos. Não resisti a tentação de comê-los; estava faminto. Comi dois melões e foi o suficiente para evacuar dezoito vezes durante a viagem. A diarreia estava me matando aos poucos. Desidratado e faminto, e ainda, correndo um grande risco de virar uma presa, lá estava eu, passando as minhas férias. 
    Segui a estrada a passos lentíssimos, quase se arrastando. Estava sentindo minha consciência se apagando. Achei uma poça d’água e cogitei em não beber. Tentei me hidratar, limpar minhas feridas e repousar um pouco. Ao lado, de onde eu repousava encontrei amoras silvestres, e por um tempo, cogitei em não comer. Não queria me desidratar mais, entretanto, a tentação da fome acabou me fazendo comer. Comi o máximo que pude, e por sorte, elas não me fizeram mal. Até que me ajudaram em conter o tenesmo. 
    Passei esse dia repousando em uma árvore, queria reter energias extras caso precisasse de uma fuga imediata. Comi toda a amora que encontrei. Não matava a fome, mas aliviava o incômodo da barriga vazia. À noite, consegui ter um sono ainda ruim, mas que me fez acordar um pouco melhor. 
    No dia seguinte, uma outra surpresa se verticalizou, agindo como um empecilho: uma manada de elefante descansava a baixo de onde eu estava. Receoso em descer em virtude dos casos de brutalidade desses animais, fiquei cautelosamente aguardando e com uma grande virgília, pois, eles poderiam derrubar a árvore se se sentirem ameaçados, e ainda, um pensamento atentador me fazia a todo tempo querer fugir: e se os caçadores de marfim viessem aqui matá-los, provavelmente iriam me matar também. Em meio a tantos pensamentos usurpadores, meu lado obscuro me concedeu a destreza de ficar escondido nas folhagens e aguardar. 
    Passaram-se horas, até que, ao meio dia, por aí, os brutamontes foram embora. Quando desci, estiquei minhas pernas, que estavam levemente dormentes, e o estalo foi a resposta para o alívio. Achei um escorpião enquanto estava comendo amoras, e, tendo em vista os programas de aventura na TV, achei coerente comê-lo, tirando primeiramente, o rabo. Ao colocá-lo na boca, suas pinças prenderam na minha língua que logo começou a arder, e tentei mastigá-lo, no entanto, um gosto essencialmente amargo me fez cuspi-lo. Nunca experimentei tamanho dissabor. Fui retornar a caminhada, e dessa vez não corria apenas para salvar minha vida, mas também para salvar a minha passagem de volta, pois só me restava um dia até o embarque. 
    Durante esse dia, eu andava em uma marcha rápida fitando poupar energia. Sempre que eu encontrava uma poça d’água não receava mais a sujeira, bebia como um animal. Durante o final da tarde, quando a penumbra já era visível, eu encontrei uma aldeia com poucas casas, mas que transpiravam um pouco de esperança. Não quis chegar durante a noite pedindo ajuda para não correr um risco de ser levado como inimigo ou quem sabe como caça. Preferi esperar em uma árvore com uns duzentos metros de distância. Na árvore eu avistava o fogo, que cintilava com a sintonia do vento. E dava para escutar as vozes dos aldeões. 
    O sol matinal envolveu-me quebrando o meu sono, que dessa vez foi o melhor desde que estava em fuga. Acordei animado para pedir ajuda. Afastando-me da árvore e olhando para frente, eu vi uma camionete chegando, e exclamei pensando: até que fim! ajuda! Pensava que iria obter comida, e ajuda para voltar, mas me enganei feio; eram traficantes de marfim que chegaram para descarregar e armazenar naquelas casas. Fiquei realmente abatido, pois, no dia seguinte teria de estar no aeroporto. 
    Retornei, a caminhada e evitei entrar em contato com os anfitriões, até porque eu era estrangeiro ali, e não iria entender o idioma local. Caminhei bastante desconsolado; não estava mais com aquela ânsia por viver; sentia-me um defunto. Sem perspectivas a não ser perecer. Meus passos já não estavam com a empolgação de antes e eu já começava a sentir dores que por ora me impossibilitava de caminhar incessantemente. Só um milagre para me tirar daquela aventura fadado à seleção natural. 
    Resolvi voltar a seguir a trilha da estrada de terra, e dessa vez, seguir até onde meu corpo me possibilitar. Enquanto via o caminho ficando exaustivo, doloroso, meus pensamentos estavam voltados para uma simples pergunta, mas com uma resposta temível: irei morrer? 
    Durante muito tempo devo ter ficado semi-desacordado. Não me recordo nada além de caminhar à diante, como um guerreiro que não teme mais a morte e busca o último triunfo: confrontar com a morte. Disseram-me que fui deixado na frente do hospital de Dodoma e que uma camionete me trouxera. Quem me trouxe não parou para questionamentos, simplesmente vazou como se nada tivesse acontecido. 
    No dia da viagem eu estava acamado, e ainda sob os cuidados médicos. Estava com uma infecção intestinal, desidratação, contusões, hematomas, e   inflamações em diversas escoriações que colecionei durante a fuga. Por fim consegui adiar a minha viagem alegando atestado médico. 
    Hoje completou exatos quatro anos desde que fui à Tanzânia. Recordo-me fascinado daquela inusitada vivência. Tenho várias dúvidas. Será que Telissa realmente me amava? Será que ela sobreviveu? Será que homem armado não queria me matar de verdade? Será que Telissa queria me mostrar algo? Será que foram os criminosos que me salvaram? E por que fizeram isso? Muitas dúvidas que guardo para mim, e sei que nunca irei saber ao certo. O mistério do meu lado obscuro ainda não foi desvendado; fui à vários médicos e não obtive outro veredito senão: Psicótico...

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