person_outline



search

portuguese literature

  • ‘EU’, ‘ELES’ e ‘NÓS’

    Sabíamos que estávamos sendo vigiados por ‘ELES’. Muitos relatos de abduções, fotografias e filmagens de suas naves e tecnologias não paravam de ser publicados nas redes sociais. Porém, por esforços dos governos mundiais que negavam e ocultavam os fatos, e também, por uma certa mescla de realidade e fantasia nos filmes e seriados hollywoodianos, e, provedoras globais de fluxos de mídias via streaming, além da ignorância que era pregada nas diversas religiões de sermos o centro do universo, ignoramos os sinais por ‘ELES’ transmitidos.

    ‘ELES’ até que apelaram a partir da década de 1970, quando começaram a desenhar os agroglifos nas culturas de certas gramíneas, por meio do achatamento de culturas como: cereais, colza, cana, milho, trigo, cevada e capim. E era obvio que não tínhamos ainda tecnologias para realizar o feito desses complexos e grandes desenhos em apenas algumas horas. Mas, mesmo assim, ignoramos. E, criamos soluções para explicar o inexplicável, e tudo foi abordado como um feito fictício. Então, pagamos o preço por mesclar a realidade e a fantasia, não sabendo mais diferenciar uma da outra. Assim, preferimos viver o engodo, e fomos enganados por nós mesmos.

    Entretanto, ‘Nós’ criamos a S.U.P.E.R (Superintendência Universal Para Extraterrestres Relações), em que na verdade era uma organização oculta e privada, que se fantasiava de uma Ecovila Sustentável criada por uma rede mundial de cientistas alternativos ufólogos, e pequenos empreendedores startup nos ramos da cyber tecnologia e biogenética (biohacking).

    Éramos perfeitos na arte do engodo, pois utilizamos as técnicas alienantes do sistema contra ele mesmo, ao fundarmos nossa Ecovila na Patagônia, que cobria uma área como mais de 239 km², banhada pelos paramos das geleiras andinas, com terras hiper férteis. Abrigando uma população de mais ou menos cinquenta e cinco mil habitantes de várias nacionalidades do mundo. Em que nosso maior foco agrícola e produção eram cânhamo, cannabis medicinal, morangos, uvas, cerejas, cevada e lúpulo, além de muitas criações de animais. E assim, fabricávamos os melhores vinhos, cervejas de cannabis e espumante de morango do mundo. Tudo de origem orgânica e primeira qualidade, e sem a necessidade de máquinas elétricas, ou movidas a combustíveis fosseis, tudo manufaturado a moda antiga, em que o trabalho humano e animal era o nosso maior forte.

    Vivíamos como antigos povos, antes da revolução industrial, nossas roupas, casas e utensílios eram manufaturados naturalmente, e nossas tecnologias eram 100% artesanais, permanentes e renováveis. Também, focávamos em energias sustentáveis como eólicas e fotovoltaicas, em que criamos a maior usina sustentável do mundo, que fornecia energia para todas as vilas da Patagônia por um custo acessível e barato, além de doar energia de graça para todas as dependências e prédios governamentais dessas vilas. Estratégia nossa, para implementar esse projeto com apoio intergovernamental, tanto da Argentina como do Chile.

    Porém, tudo isso não passava de uma capa que cobria o livro. Pois, subterraneamente éramos outra coisa.

    A S.U.P.E.R era um segredo de um punhado de famílias dentro da Ecovila, punhado esse, que era formado pelas pessoas menos relevantes da nossa comunidade eco agrícola. Na verdade, ‘NÓS’ éramos os fundadores dessa comunidade, mas passamos o nosso poder para os antigos moradores da região, transformando-os de simples camponeses em grandes empreendedores. Alguns ganhadores de prêmios Nobel e outras condecorações internacionais. Porquanto, eles eram nossas máscaras, e nem eles, como também, os outros moradores da Ecovila sabiam disso. ‘NÓS’ éramos um mistério… um segredo bem guardado por pactos de vida e morte, em meio ao paraíso andino.

    No submundo dos nossos quartéis subterrâneos, situava o centro tecnológico e informativo de nossa inteligência. Tínhamos uma empresa operadora de satélites, a StarSky Corporation, que atuava em 52 países com sedes em Israel e na China, além de 32 empresas subsidiarias de telecomunicações espalhadas pelo mundo. O que facilitava nossa rede de comunicações e informação, dessa forma, tínhamos olhos e ouvidos em todo lugar.

    Contudo, estávamos também sendo vigiados, e de início não sabíamos. Aquele fato da coisa observada, observar o observador. Pois nossos servidores se utilizavam da surface web, ou deep web como era mais conhecida. E, ‘ELES’ é que eram os verdadeiros donos do iceberg como todo. E, assim, os nossos olhos e ouvidos eram, também, os olhos e ouvidos deles. Seus motores de busca construíram um banco de dados, pelos seus spiders, e através de hiperligações indexaram nossas informações aos seus servidores na deepnet. Quando descobrimos que estávamos sendo escaneados, toda nossa informação já eram deles.

    Quando nossos hackers investigaram quem são ‘ELES’, se depararam com uma parede de proteção inacessível, em uma (darknet) parte do espaço IP alocado e roteado que não está executando nenhum serviço. Até para as inteligências dos governos mais poderosos o acesso era fechado, pois se utilizavam da Dark Internet, a internet obscura. E de cara percebemos que ‘ELES’, os não-humanos, eram quem estavam nos vigiando.

    Contudo, resolvemos abrir o jogo e mandar mensagens para ‘ELES’, em um projeto apelidado como: חנוך (Chanoch). Durante meses enviamos várias mensagens, então, de repente, nossos servidores detectou uma mensagem oculta que dizia: “E andou Enoque com Deus, depois que gerou a Matusalém, trezentos anos, e gerou filhos e filhas. E foram todos os dias de Enoque trezentos e sessenta e cinco anos. E andou Enoque com Deus; e não apareceu mais, porquanto Deus para si o tomou.”.

    Ao receber aquele texto, ficamos perplexos. De início, achamos ser uma brincadeira. Até recebermos outra mensagem, que dizia: “E sucedeu que, indo eles andando e falando, eis que um carro de fogo, com cavalos de fogo, os separou um do outro; e Elias subiu ao céu num redemoinho”. Então, depois de longas horas de reflexão, intentamos que as mensagens vêm a nós na forma e maneira que podemos perceber. Sendo, que eles queriam escolher alguém entre nós para uma viagem. Não sabíamos como responder a tal pedido, e mandamos uma mensagem correspondente do que temos de fazer para realizar tal acontecimento. E, eles nos responderam com três sequencias binárias: 101.

    No dia seguinte a essa misteriosa resposta, para o nosso espanto, fomos notificados por um de nossos agricultores que se encontrava no campo de cevada, se deparando com um símbolo gigante desenhado ‘IOI’. Então, rapidamente percebemos que aquele campo seria o local de contato. E, ‘EU’ fui escolhido para a tal viagem com ‘ELES’. Então, todas as noites acampei no local marcado.

    Acho que propositalmente, na noite 101 em que me encontrava sozinho em minha barraca, e já desesperançado de algum contato, ‘ELES’ vieram! E de súbito só me lembro de ver uma forte luz branca.

    Quando acordei, me deparei em uma maca feita de uma solução gelosa, de um verde fosforecente, algo como se estivesse deitado sobre água, mas, era firme, e amaciava com o peso do meu corpo. Não tinha temperatura, nem frio e nem quente, e o mais louco é que meu corpo não sentia esse material, era como se eu estivesse deitado sobre o ar. O ambiente era de uma luz violeta neon, muito calmo aos olhos, e não tinha paredes, teto ou solo. O silencio era profundo, irritante e assustador. Para todo o lado que eu me voltava, via apenas um horizonte infinito, tanto para cima como para baixo. E tive medo de sair da maca, pensando cair nesse infinito abismo. E a sensação era por demais desconfortante, achei que estava morto.

    Nisso, me senti sendo vigiado, algo ou alguém me observava, e vi alguma espécie de vulto transparente se locomover ao meu redor. Então, pela primeira vez senti algo que me tocou!

    — Uai!

    — Calma!

    — Quem é você?

    — Então, provou.

    — Provei o quê?

    — A sensação de sentir nada.

    Ao ouvir isso, perplexo me calei. E pasmei! Vendo uma espécie humanoide alta e magra a minha frente. Com olhos extremamente azuis e findados como os asiáticos, cabelos brancos longos, e pele extremante branca, fria como a de um cadáver. E, diante do meu silêncio e espanto, ela continuou a dizer, falando sem mexer a boca, que mais parecia uma fenda em seu rosto magro:

    — Assim, somos ‘NÓS’. Não temos a capacidade de sentir como vocês, e os invejamos por isso. Essa forma que você vê a sua frente, não é nosso corpo. É apenas um traje, pois vocês não têm a capacidade de nos ver sem ele. Somos seres pertencentes a outra dimensão, que vai muito mais além de sua física e compreensão.

    — De onde são vocês?

    — Somos seres da Quarta-Vertical, um mundo mais além do que a matéria física. E, nesse momento você está diante de uma plateia de nós. Não pode vê-los, pois, estão sem seus trajes físicos. Porém, saiba que também você usa um traje, e ele que te faz sentir. Mas, nós, mesmo com nossos trajes, não podemos sentir como você sente, e perceber como você percebe. Apenas percebemos as coisas físicas, através de alguns impulsos elétricos de contato nos transmitidos por nossos trajes, que são mínimos, sem sentimentos e emoções.

    — Onde fica fisicamente a Quarta-Vertical?

    — No plano físico, conhecido por vocês como seu sistema solar. Em que nossa Morada é o Sol.

    — Então, estou no Sol?

    — Claro que não! Seu corpo físico não aguentaria.

    — Onde estou?

    — Em nosso ponto de contato. Na parte oculta da Lua. É daqui que o observamos, desde sua criação como seres existenciais. E, temos alguns de vocês aqui conosco. Na verdade, somos seus guardiões, mensageiros e protetores.

    — Protetores! Contra quem nos protegem?

    — ‘DELES’ e de vocês mesmos. Pois, se assim não fosse, vocês não mais existiriam como espécie.

    — ‘DELES’ quem?

    — Aqueles a quem vocês chamam de seres infernais. No início, ‘ELES’ eram como ‘NÓS’, e vieram de ‘NÓS’. Mas, se corromperam. Pois, desejaram sentir a emoção que vocês sentem. Por isso, eles lhes causam dores e prazeres, para sugar as energias de seus sentimentos. E, fazem isso agora, através da internet. Por isso, lhes deram esses pequenos dispositivos que vocês carregam em suas mãos. O próximo passo deles, é implementar esses dispositivos aos seus corpos físicos. Aí, então, drenarão suas energias vitais, como um canudo drena o líquido numa garrafa de refrigerante.

    — Onde eles vivem?

    — Antes viviam aqui na Lua, depois os expulsamos para Saturno e Plutão. Mas, quando fizeram o pacto com os muitos chefes e governantes de sua sociedade, precipitaram-se na terra. Quando teve uma grande chuva de meteoros. Então, agora vivem entre vocês.

    — E, como podemos reconhecê-los, se vivem entre nós?

    — São os seres lagartos, mas se disfarçam com trajes humanos. Por tanto, seus trajes se alimentam de sangue, e são sensíveis a luz do sol. Por isso, procuram andar mais a noite, e poucas vezes a luz do dia. E, para resistir a luz diurna, precisam beber inúmeros litros de sangue humano fresco e vital. Só assim, os trajes resistem por mais tempo. Porém, alguns deles se tornaram híbridos, cruzando com a sua espécie. E são metades humanos e ‘reptilianos’ como alguns de vocês qualificam. Mas, mesmo assim, precisam de sangue humano para viver. E, como vampiros modernos, eles criaram os bancos de sangue, espalhados por todo mundo. Onde vocês creem estar doando sangue para pacientes hospitalizados, mas apenas 2% desse sangue vai para esses pacientes que necessitam, o resto é comercializado entre eles.

    — E por que vocês não nos alertam sobre isso?

    — Não podemos interferir. Foram vocês que atraíram eles. Suas escolhas. Seus livres-arbítrios.

    — Como assim, nossas escolhas?

    — Por acaso, você não leu a parábola de Adão e Eva?

    — Mas, isso é apenas um mito!

    — Não é apenas um mito. É uma metáfora da realidade, representado em sua espécie dividida entre macho e fêmea. Um código, para os sábios decifrarem.

    — E, por que não nos contam a verdade diretamente, e só nos dão metáforas?

    — Veja o que vocês fizeram com a verdade… ridicularizaram. Enviamos muitos para lhes dizer a verdade. Muitos de nós nascemos como avatares para lhes falarem, e veja o que nos fizeram? Nos mataram, assassinaram, minimizaram. E, mesmo nascendo entre vocês como humanos, ao longo do tempo nos transformaram em engodo e mito.

    — Mas, isso foi em tempos de muita ignorância. Hoje temos tecnologias para registrar e comprovar.

    — Tempos de muita ignorância… saiba que não existe tempo onde a ignorância é mais forte e abrangente do que esse em que vocês vivem. Suas redes de informação, academias e filosofias são lotadas de teorias e não de práticas. Vocês não experimentam mais. Não observam mais… só emulam. E agora que mesclaram a realidade e a fantasia, você acha que nos ouviram? Seremos ridicularizados e banalizados mais uma vez… por isso, agora agimos em oculto sigilo. E falamos na linguagem que vocês não podem deturpar, que são as parábolas e metáforas. Poesias de mistérios místicos e ocultos, que lhes encantam, e fazem pensar. Até serem assimiladas por corações puros, lapidados e lavados que nascem entre vocês.

    Ao ouvir aquelas palavras, o mundo parou em mim. E, lágrimas rolaram do meu rosto.

    — Ernesto! Ernesto! ¡Despierta hombre!

    — Ahh! ¿Qué?

    — ¿Qué haces aquí acampado en el campo de cebada güevón?

    — No lo sé … De repente tuve un sueño confuso. No me acuerdo.

    — ¡Vamos! Es tiempo de cosecha. Creo que perdimos una buena cantidad de grano. Bueno, creo que hubo un torbellino esa noche que aplastó los tallos fértiles.­
  • A Bruxa da Arruda e o Sagrado de Tudo

    A manhã estava carinhosamente refrescante em um dia de verão calmo, que precedia o calor do seco e ensolarado tempo impermanente. Acordou às cinco horas da manhã como de costume, e já não tinha mais a necessidade do despertador do seu smartphone para tal feito. Simplesmente os olhos automaticamente em uma só expressão se abriram, o corpo em um só impulso na cama se sentou, e mergulhado nos seus pensamentos do que fazer com o novo dia de quarentena que auto se apresentava, meditava… claro! Aqueles dias eram por demais incomuns, de um lado tinha o dia todo pela frente sem a rotina acinzentada do levantar, correr e trabalhar, e, por outro lado, teria que ser criativo ao esforço máximo, em táticas incomuns e altruístas para não deixar que o tédio com toda sua improdutividade o arrebatasse, sequestrando a sua proposital impulsionada momentânea e intencionada alegria.
    Essa intencional alegria era a Poderosa Presença do Sagrado em sua vida. E apenas se baseava, por incrível que pareça, as coisas e recordações mais simples e singelas da sua tenra infância. Principalmente as lembranças delicadas e afetuosas de sua bisa, a Bruxa da Arruda, D. Darluz. Pelo qual, todas as manhãs, dedicava em um cantinho do seu oratório (em culto aos antepassados) uma vela sentada em um pires repleto de azeite de oliva misturado a sal grosso e mel, um pote de água que diariamente derramava seu líquido em uma específica planta de Arruda (Ruta graveolens), trocando a água do recipiente todas as manhãs, além de oferendas de flores silvestres, como: Cenoura-brava (Daucus carota subsp. Maximus); Centaurea Nigra (Centaurea nigra subsp. rivularis); flor Leopardo (Belamcanda chinensis); flor de Laranjeira (Citrus × sinensis); flores de Onze-horas (Portulaca grandiflora) e Calêndulas (Calendula officinalis). Tudo isso para se manter em conexão permanente com o espírito de sua querida bisavó. Sendo esta, em vida, sua sacerdotisa. E em morte carnal sua guia espiritual. Pelo que lhe prometera em vida terrena, que ao desencarnar nunca o abandonaria e o vigiaria de cima. Dando-lhe inúmeros conselhos e severas instruções ritualísticas de como manter o contato espiritual com sua alma e coração depois de sua partida.
    Para a Bruxa da Arruda, sua bisa, tudo era Sagrado…
    E do Sagrado… e unicamente, pertencendo ao Sagrado!
    Tudo era vivo! E tinha em si um grande e puro significado.
    Tudo era mágico!
    Tudo era místico!
    Tudo era encantado!
    Tudo era rico!
    Sua constante alegria não se baseava em emotivos momentos.
    Era como o constante balançar das árvores que bailavam se animando, apenas, com o tocar dos ventos.
    O seu grande sorriso em sua face iluminada, transmitia a qualquer um que olhava um manancial inesgotável de pleno contentamento.
    As pessoas que iam ao seu encontro de amor se preenchiam, automaticamente renovando esse sublime sentimento.
    Sua bisa lhe dizia que o Sagrado é um estado a ser sustentado constantemente. Um estado de bons hábitos e boas disciplinas que você mesmo se coloca a praticar. Um estado de Amor, de estar amando e de se sentir amado a toda hora e em todo momento, independente das circunstâncias, posses, pessoas, relacionamentos e virtudes materiais ou espirituais. Um estado de simplicidade e humildade, e cumplicidade no serviço devocional, na prática da caridade e solidariedade. Vivendo em perfeita gratidão e sendo gentil não só com as pessoas, mas a tudo em que os nossos sentidos intentar, aplicar e perceber. Lhe dizia que o segredo para vivenciar o Sagrado na prática, estava na gratidão e valorização da vida em todas as suas formas, não diferenciando uma pepita de ouro de uma simples pedra do rio, um ser-humano de uma formiga, a mais iluminada estrela do céu noturno de um singelo grão de areia das praias do mar. E essa valorização é ver a beleza oculta no amago de todas as coisas, sua Energia Divina e Intenção Criativa. Dizia-lhe que para realização de tal feito era preciso se livrar das amarras da má educação de si mesmo, que degenerou os nossos sentidos na elaboração de conceitos e preconceitos, a partir das inúmeras errôneas percepções externas a nossa Linhagem Sagrada, deteriorando e adulterando o nosso pensar, o nosso sentir, o nosso olhar, o nosso ouvir e o nosso falar. E explicou-lhe, que devido a tudo isso, o porquê das manifestações artísticas, arquitetônicas, filosóficas e religiosas de hoje estarem tão feias, rudes, cinzentas, frias, quadradas, embaraçadas e amontoadas, repetitivas e sem coração.
    D. Darluz dizia que por nos desconectarmos das sabedorias dos nossos ancestrais, o nosso sentido do novo e a capacidade do espanto e da novidade assombrosa de olhar tudo de maneira nova, no sublime estado de encantamento e percepção de alerta alegria, se perdeu no mundo. Dizia que o mal das futuras gerações estava na comparação e associação de capturar as impressões, sem a capacidade madura de traduzi-las, sendo essa maneira uma errônea tentativa de interpretar o novo sem a compreensão do velho, desassociando as consequências presentes e futuras das ações passadas. Daí, como ensinava a Bruxa da Arruda, eis a importância de se cultuar os antepassados, pois, uma árvore não pode florir e gerar bons frutos sem o bom cuidado para com suas raízes.
    Voltando ao momento presente, e na cama em que se encontrava sentado, vira como era difícil traduzir a vivência de infância que tivera com sua bisa para o moderno, virtual, tecnológico e competitivo dias de hoje. Sabia que as redes sociais virtuais, ao contrário do que se pensava, alimentava mais as más ações do ego do que o conhecimento (pelo qual era a sua proposta inicial). E que esse contato virtual se tornou uma máquina alimentadora dos nossos mais animalescos instintos, provocando mediante as imagens, sons, cores e palavras as mais variadas sensações emocionais para a satisfação dos nossos mais carnais e individuais desejos de ter ou ser. Não medindo as consequências de um super ego (‘eu’ pluralizado), que busca sempre aquelas ilusórias sensações que lhe possam dar a tão almejada satisfação momentânea, em uma falsa privacidade de no ato de estar solitário cometermos as maiores torpezas, em que julgamos erroneamente não impactar o nosso mundo externo. Vira que a internet, ao contrário do que fora a sua proposta de unir as pessoas, se tornou um luxurioso baile de máscaras, em que as redes sociais eram essas enfeitadas e coloridas máscaras.
    Assim, contudo, preferia estar no seu jardim. Na companhia das lembranças de sua bisa, a Bruxa da Arruda, D. Darluz. Que o lembrava que o mundo ainda era envolvido por uma aura de Novidade Mística, Alegria Mágica e Amor Divino. E que só poderia vivenciar o Sagrado da Vida observando, compactuando, comungando e se relacionando com o Mundo Natural em toda sua essência ecológica. O seu pequeno jardim era totalmente dedicado ao Sagrado e a memória de sua bisavó. Ali… dedicando-se a colocar as mãos e os joelhos na terra, se sentia uma Pessoa Superior em toda sua humildade, dividindo-se entre o observador e o observado, conhecendo a si mesmo na observação dos pequenos seres vegetais, minerais e animais. Se perdendo em um mundo desconhecido de encanto e nostalgia, que o elevava e fazia distante das miseráveis catastróficas vivências de traumas e barbaridades da bestialidade e ignorância humana.
    Ao regar suas plantas em pleno final de tarde, se via quando pequeno sentado no colo de sua bisa em uma balança pendurada a um tronco da árvore de Tipuana (Tipuana tipu (Benth.) Kuntze), em que juntos no crepúsculo vespertino se divertiam olhando as inúmeras nuvens no céu a tomar formas inusitadas de rostos, silhuetas, animais e objetos. E sua bisa, também, instigava a sua imaginação a ver essas formas nas plantas, flores, objetos e coisas. Dizendo que as mensagens dos seres naturais (Elementais) vêm a nós nas formas que a nossa consciência pode reconhecer, por eles falarem uma linguagem desconhecida aos nossos sentidos e dimensão.
    E, lembrou-se das manhãs ensolaradas ao correr pelo terreno da Chácara Celeste (que na verdade era um pedaço do céu na terra) logo ao acordar, indo de encontro a sua querida bisa nos campos abertos, vendo-a colher flores para o seu ritualístico culto matinal. E chegando ofegante até ela, gritava: “Bisaaaaa!”. E D. Darluz respondia com a mesma intensidade: “Meu Miúdo!”. E ela o carregando, abraçava forte e o cobria de beijos, até ele dizer basta. E, D. Darluz lhe dizia: “Olha meu Miúdo, não existe nada neste mundo que é mais adorável que uma flor, nem nada mais essencial que uma árvore e planta, sem elas não conheceríamos o belo, não poderíamos respirar e nem comer, nem nos curar. E, ocultamente a esses benefícios que elas nos trazem ao nosso corpo de carne e seus sentidos, tem ainda a sua função mística, que é a mais relevante, algo divino em que as pessoas comuns e materialistas não têm a capacidade de ver. Uma força mágica e espiritual, eterna e imutável.”
    A Bruxa da Arruda sempre o alertara a valorizar todas as coisas… de uma simples pedra a um pequeno objeto. Como um brinquedo, um utensílio ou algo do tipo. Dizia que tudo tem um propósito e que nada é obra do acaso. Alertara que todas as coisas por serem criações foram pensadas e intencionadas a se manifestarem. Tudo tinha um espírito, mesmo as coisas inanimadas. Pois, sempre afirmará: “O que tem corpo, tem espírito. Tudo é vivo! Toda criação é fragmento do seu Criador, contendo em si uma determinada energia que por mais pequena e singular que seja, é viva em si mesma, presa e magneticamente sustentada nesse corpo, é consciente especificamente para executar tal função, e depois de executada por si só se decompõe e desaparece”. E afirmava que a evolução desses corpos inanimados tinha a ver com a evolução humana, de acordo com seu grau evolutivo. Assim, o inorgânico Elemental podia se manifestar numa pedra, numa mesa, em um relógio de pulso, nos objetos que mais amamos e desejamos, e ainda mais nos brinquedos das crianças, por serem carregados de sentimentos. E que por isso, para seus Rituais da Magia Elemental necessitava dos objetos e minerais… das pedras… das cascas de árvores… dos restos de corpos dos seres vivos e seus derivados, onde se continha ainda preservada a energia Elemental necessária para tal e específica magia.
    Assim, Maria da Piedade…, moradora e proprietária da Chácara Celeste, que se localizava em algum lugar escondido na região nordeste do Brasil…, a Bruxa da Arruda: agricultora, queijeira, azeiteira, parteira, rezadeira, curandeira, e feiticeira portuguesa…, de origem dos antigos povos celtas das terras europeias mediterrâneas da Península Ibérica…, apelidada como D. Darluz…, afirmava que quando nos damos conta da existência do Poder Criativo em tudo que existe ao nosso redor e no nosso viver, quando descobrimos que tudo tem coração e inteligência, que tudo é intenção, e que a toda intenção foi aplicada uma específica atenção, e que a tudo que damos atenção doamos uma determinada fração de nossa energia vital, que se torna um fragmento de vida em si, independente por si próprio e evolutiva em si mesma… Tudo se torna Divino! Tudo se torna Sagrado! A ordem da Grande Espiral do Eterno e Permanente Contínuo.
  • A festa

    Eu nunca fui de beber.
    Comecei há pouco tempo, evito ao máximo. Quando faço não me embebedo.
    Minha visão sobre isso torna o ser humano um idiota. Fazemos coisas que sabemos que podem nos matar. 
    Vejo um rapaz sair da festa cambaleando, e entrando no carro.
    Por sorte ele irá bater num poste sem machucar outras pessoas, morrerá sozinho, com a consciência limpa. Se tiver sorte.
    - Que coisa horrível de dizer Otto — Ela diz.
    Sorrio e bebo meu uísque.
    Não lembro como a conversa foi chegar naquele ponto. Ela gostava de falar.
    Um jeito tagarela.
    Havia a conhecido há umas duas festas anteriores. Numa sexta, ou quinta. Não me lembro.
    É sábado à noite, estou cansado, mas é dia de festa. Pessoas bebendo, se divertindo e esquecendo dos problemas da rotina corrida.
    Nessa casa há tantas pessoas. Todas conversavam e riam, algumas pulavam na piscina, outras espalhadas pelos cômodos do primeiro andar da casa. Uma bela casa. Ótima para festas.
    Havia todos os tipos de pessoas naquela casa, todas de diferentes classes sociais, diferentes etnias e raças. 
    Todas reunidas para conhecer pessoas novas, rever as velhas, socializar ou apenas conseguir uma transa.
    Ela estava sentada em uma cadeira verde junto de suas amigas, quando cheguei. Acenou e sorriu.
    Usava um maio vermelho com bolinhas brancas e uma toalha roxa envolta do pescoço, segura um copo de cerveja com a mão esquerda e gesticula com a mão direita enquanto fala, suas unhas estão com um esmalte vermelho sangue.
    Algo que sempre achei muito sexy.
    O seu cabelo preto esta preso num coque molhado que se desfaz a todo instante, ela me olha, continua rindo, mostra a língua e volta a conversar.
    Minutos depois, estamos parados encostados na parede próxima à porta de entrada. Porta de vidro, entrada para a cozinha.
    Não lembro seu nome.
    Mirela.
    Melissa.
    Milena.
    Todos as chamavam de “Mi”.
    “Mi” estuda direito, futura advogada, acredita que a justiça foi feita para proteger todos. Pergunto-me em que país “Mi” vive. Fala sobre prender os caras maus. Bandidos e assassinos. E políticos corruptos.
    Quer fazer a diferença.
    Como todos quer viajar para fora do país, fazer intercambio conhecer algum gringo e ter um amor de verão. Sonha com a Itália. Roma. Coliseu.
    Tagarela.
    Fala sobre seus pais. Médicos. Queriam uma filha medica.
    Pergunta sobre os meus. Mortos. Queriam um filho vivo.
    Ri pensando que foi uma piada. Sorri colocando a mão sobre o rosto, demonstra timidez. Mas esta confortável com a conversa.
    Um jeito leve e descontraído.
    Ela não é alta, mas nem muito baixa. Tem um corpo magro. Sua pele da cor de chocolate me atrai. Seus olhos castanhos me conquistam.
    Uma gota de agua escorre por sua bochecha e pinga ao chegar a seu queixo.
    Sua boca esta levemente pálida por causa da brisa fria desta noite.
    Continua me falando sobre sua vida. Sobre seu estagio em um escritório de advocacia, onde seu chefe fica flertando com ela. Como não flertar com uma garota tão linda? Sorri colocando a mão sobre a boca.
    Ela diz que o café de lá é horrível, respondendo minha pergunta.
    Depois de mais um papo, caímos no assunto sobre bêbados. Ri quando comento sobre o bêbado que acabara de entrar no carro.
    Me da um soco de leve no ombro. Pergunto-me em que momento ganhou intimidade.
    Uma casa bem espaçosa com dois andares, ligados por uma escada de madeira em espiral, moderna. No primeiro andar tem a cozinha, a lavanderia e a sala, no segundo andar, há três quartos, duas suítes e outro para hospedes. 
    Nesse encontra-se uma cama de solteiro, com alguns lençóis e um travesseiro, uma pequena cômoda e uma guarda-roupa empoeirado, com algumas roupas velhas dentro.
    “Mi” esta rindo, seu cabelo esta solto, ainda molhado e caído sobre seus ombros, não é um cabelo comprido.
    A musica alta estrala em meu ouvido. 
    Ela rouba meu copo de uísque, bebe um pouco e então, me devolve. Faz careta ao engolir.
    - Vamos Otto, dance! — Ela diz, rebolando no ritmo da musica.
    Coloco o copo sobre a cômoda. O gelo balança fazendo um som de sino ao bater nas paredes internas do copo.
    Solto minha gravata.
    - Só você para vir de terno a uma festa na piscina — Ela diz.
    Sorrio.
    Ela sorri, não cobre o rosto desta vez. Esta bêbada.
    Começa a falar que esta de olho em mim desde a primeira festa. Desamarra o maiô. Seus seios ficam a mostra, são pequenos como laranjas e tem as aureolas marrons. Fazia um tempo que eu não via uma garota nua. Meu corpo esquenta.
    Ela se aproxima.
    - Eu sei que você me quer Otto. — Ela diz, apalpa os seios.
    Desculpe-me “Mi”, o que sinto não é excitação pelo seu corpo. Mas pela sua morte. Ela esta bêbada.
     Sorri. 
    A faca entra em seu peito. Atravessa seu tórax atingindo seu pulmão. Ela não tem tempo de reagir. Sua respiração fica pesada. Ela não grita. Esta segurando meu terno. Olha-me nos olhos. Sangue escorre pelo canto da sua boca. Retiro a faca. 
    A faca entra novamente, próxima ao local anterior. Retiro a faca.
    Ergo minha mão. Passo a língua em meus lábios.
    Há muito sangue. Ela cai. Seu cabelo esta no meio daquela poça vermelha. Tiro minha gravata. 
    A musica alta estrala em meus ouvidos.
    Suas pernas são lindas, sem nenhuma mancha, sua cor é atraente, seu quadril é largo comparado a sua fina cintura. Abaixo e tiro seu maiô, corpo maravilhoso. Sua barriga é definida, devia fazer exercícios frequentemente. O sangue ainda sai pelos cortes. Esta toda vermelha. Tento não encostar no sangue. Pego o travesseiro e faço pressão para o sangue dar uma pausa. Coloco-a sobre a cama. Esta nua. Penduro o maiô num cabide dentro do guarda-roupa. Tomo um gole do uísque.
    Caminho até o banheiro do outro quarto, não há ninguém no segundo andar. Lavo a faca, as mãos e encaro o espelho. Arrumo o cabelo e volto para vê-la.
    Desço a escada em espiral. Logo estou na cozinha. Largo a faca sobre a pia, mesmo lugar de onde peguei, antes de subir.
    Esbarro em algumas pessoas. Peço desculpas. Alguns sorriem. Outros me encaram.
    Vou embora.
    No dia seguinte vejo a noticia.
     “Mi” foi encontrada dentro de um guarda-roupa, de cabeça para baixo, com os pés amarrados por uma gravata, nua. O cabelo todo sujo de sangue. Os olhos revirados, e sua língua estava sobre a cama num copo de uísque.
  • A Madrugada

     O quarto estava escuro, com um fraco feixe de luz lunar que entrava pela janela aberta, ferindo o breu instalado no úmido cômodo, iluminando o chão de piso branco barato e uma parede bege envelhecida. O ventilador ligado em sua maior potência pouco ruído fazia frente ao estardalhaço criado pela forte ventania do lado de fora da janela. O quarto não possuía som, todo o som pertencia a tempestade que reclamava seu direito sobre os ventos.
     À esquerda, a simples janela de alumínio dava uma visão escura sobre a cadeia de morros habitados por casas, aqui e ali uma luz de uma varanda vazia, engolidas na proclamação e na vastidão da noite, mas o principal evento não estava lá fora, ele vinha de fora para dentro e aqui no quarto, ele acontecia.
     Atrás da janela, do teto até os últimos seis centímetros do chão, a suave cortina de renda branca resistia, imóvel, elegante e destemida, ela se erguia frente a gritaria dos ventos, observava como se vê uma pirraça de uma criança mal educada, e comparada a ela, era a isso que se resumia toda aquela encenação da força do soturno céu.
     Com ciúmes e sentindo-se diminuída, a ventania irrompeu pela janela, tomando a suave cortina pelos braços e jogando-a pelos quatro cantos do quarto em arcos vertiginosos e ríspidos, porém, ainda impassível, ela se segurava no trilho sem aparente esforço, sem ter tocado o chão ou alguma das paredes nenhuma vez, ela volta a sua posição original ainda imaculada.
     O céu ultrajado com a insubordinação, tentou novamente, voltou mais furioso e violento, e assim fez seguidas vezes, mas a leve cortina não demonstrava resistência, e com toda sua elegância e suavidade, se colocava de volta atrás da janela, com movimentos graciosos, sem tocar nenhum canto do quarto.
     O tempo passava, o céu poderoso e revoltoso, já não demonstrava tamanha rebeldia, a ventania diminuiu, foram trocadas primeiro por brisas fortes, depois nem isso. Sem sucesso, o céu enviou seu último campeão para o duelo final. Uma fraca brisa perpassou pela janela, jovem e gentil, parecia pedir permissão ao entrar e suavemente pegou a mão da leve cortina.
     Enquanto o som lá fora diminuía drasticamente, a brisa começou a conduzir a cortina pelo quarto, não era apenas um simples movimento de empurrão para aqui ou acolá, era suave. Assim, a cortina foi lentamente se enroscando na brisa e ali eles bailavam uma lenta e suave valsa, cada vez mais lenta e ritmada, a dança transformava o casal, se antes eram brisa e cortina, agora eram uma só coisa, transfigurados, inseparáveis, vitais um ao outro. E toda vez que a leve cortina passava pelo fraco feixe de luz prateada, ela se iluminava, como se vestisse um vestido de diamantes que reluzia ao pequeno pedaço de lua presente.
     Tocada pela lua que crescia agora a cada instante, a cortina nasceu, debutou e envelheceu bailando com o seu amor na eternidade de minutos, ali ela foi plebeia, princesa, rainha, filha, mulher, esposa e mãe.
     Mas o tempo corria, as nuvens passaram, o céu se abriu como que saindo de cena, pois seu protagonismo havia sido roubado, e agora limpo, dava lugar para a lua cheia que ia aparecendo para contemplar aquele pequeno e delicado acontecimento que tomava toda a sua atenção, completando e prateando a noite daquele jovem casal. Porém, com a chegada da lua, a brisa precisava ir, seu mestre a chamava, e ela cada vez mais fraca se despedia da cortina. Até que saiu, a cortina agora sozinha, era banhada completamente pelo pratear da lua, jazia parada em frente a janela, fria, sem lembranças, abandonada na quietude da noite, ela voltara a ser só uma leve cortina de renda branca, sem par, sem motivo, sem vida. Apenas uma cortina morta.
  • A Pianista

    Não sei por que. Mas estava lá. 
    Parado.
    Em minhas mãos um folheto com os hinos do dia.
    Não sabia nenhuma música e não estava afim de cantar. Muito menos ler.
    O grupo era pequeno. Tinha no máximo dez pessoas. Sendo a maioria jovens como eu, e os velhos eram bem velhos. 
    A pessoa que mais me chamava atenção era a pianista. Caroline, esse era seu nome. Se não me engano.
    Caroline 
    Caroline
    Sempre tocou piano. Ganhou prêmios por isso. Tocava com sua alma, sentia cada tecla bater em seu coração. Suas belas mãos pálidas tocavam gentilmente cada nota.
    Todos ali ajoelhados. Ouvindo e admirando, louvando e glorificando ao som daquela maravilhosa pianista.
    Lá estava ela. Com seu cabelo preto amarrado num coque bagunçado pela ventania que estava aquele dia. Provavelmente iria chover.
    Sua camisa azul de bolinhas vermelhas estava com as mangas dobradas até a altura do cotovelo, usa uma saia rodada preta, que ia até o joelho. Calça uma sapatilha bege, mas insistia dizer que aquilo era nude. 
    Ela vinha para a igreja caminhando, fazia isso todo domingo, eu sempre a via passar em frente de casa. Nunca atrasava- se.
    Sempre adiantada.
    Chegava na igreja antes de todos. Apenas para limpar o piano. Instrumento antigo. Amigo antigo. Lugar onde ela sempre tocara sua divina melodia.
    Todos a cumprimentam. Vão chegando aos poucos.
    Ela sorri. Sorriso atraente.
    Seus olhos escuros se encaixavam perfeitamente com seu belo rosto pálido e fino. Olhar sereno. 
    Caminha com serenidade, transborda calmaria e paz. Continua sorrindo.
    Passa a missa toda assim, com aquele semblante de boa moça. Garota adorável. Sorriso doce.
    A missa é curta.
    Após tocar oito hinos, tudo acaba.
    O padre termina a missa como todas as outras.
    Palavra da salvação. Todos respondem e levantam-se como se não vissem a hora de ir embora.
    Caroline faz reverência ao seu público, concluía com um sinal da cruz e um aceno para alguém da multidão 
    Fecha o piano. Com extremo cuidado, cuida como se fosse um filho. Após isso se reúne ao resto do grupo de canto. Beijos na bochecha e abraços. Sorrisos e risadas.
    Todos a cumprimentam.
    - Foi uma ótima missa, não achou Otávio? – ela diz. Sua voz era macia, como a de um anjo, suave e calma, como o piano que acabara de tocar.
    - Não sei, na verdade, parecem todas iguais para mim – respondo.
    Ela sorri. 
    Aquele sorriso inesquecível. 
    Fiz amizade com ela havia algumas semanas. Ela notou meu interesse em tocar algum instrumento. Me ofereceu algumas aulas, recusei algumas vezes, sem motivo algum. E sem motivo algum aceitei naquele dia.
    Sua volta para casa era, como a ida à igreja. Todos a cumprimentam. Sorrisos. Acenos. Ela sorri. E acena. Uma, duas, três vezes. E repete. 
    Sorriso lindo.
    Sua casa é verde, com enormes portões cinzas. Ainda morava com seus pais. Mesmo tendo seus vinte e poucos anos, continuava indecisa sobre o que faria da vida. Sem sonhos. Sem futuro planejado. Sem namorado. Acreditava não ter sorte para arrumar um. Não imagina a beleza que tem.
    Venta muito. Segura sua saia para que não levante. Dizia para eu não olhar caso isso acontecesse.
    Caminhamos rápido para que não fossemos pegos de surpresa pela chuva que não veio.
    Uma casa bem grande. Daria duas da minha facilmente. Tinha sala de jantar. Sala de estar. Sala de recreação. Sala de lazer. Suíte. Cozinha. E outros tipos de salas. 
    Ela pede para que eu espere na sala. Sento numa poltrona de couro. Desconfortável no início. Mas com o tempo ficou aconchegante. Não há televisão naquela sala. E nem nas outras. 
    Apenas retratos. E mais retratos. Alguns quadros também. 
    Em um dos retratos vejo sua mãe. É bonita como ela. Ouvi histórias que diziam que a mãe dela havia fugido com um vizinho, e deixara Caroline com o pai, que por sinal não estava em nenhuma foto ali. E também, não estava na casa.
    Ela demora.
    Decido então fazer passeio pela casa. 
    São dois andares. 
    No de baixo, temos as salas a cozinha que é bem espaçosa, não tem mesa, pois a mesma fica na sala de jantar ao lado. Na cozinha, tem apenas os armários que cobrem todas as paredes do lado direito, tem também a geladeira e o fogão.
    Uma escada em espiral fica no meio da sala de recreação. Subo-a.
    A escada dá de encontro com um corredor. Extenso corredor. 
    A primeira porta é branca, giro a maçaneta e a abro. Dentro encontro uma cama de casal com vários travesseiros. Doze no mínimo. Um enorme guarda roupa, vai do chão ao teto, engolindo a parede. Um cheiro forte de colônia toma conta do ar. Deve ser o quarto do pai dela.
    A segunda porta, é marrom, lisa. Abro-a. É apenas o quarto de tralhas, coisas que não usam mais. Haviam diversos instrumentos quebrado.
    Nesse corredor havia mais cinco portas. Mas logo na terceira, era o quarto dela.
    Um enjoativo odor adocicado toma conta do meu nariz instantaneamente. A porta está meio aberta. Ouço o som do rádio.
    Entro.
    Ela estava lá. 
    Caroline
    Caroline
    Usando apenas a camisa e uma calcinha azul com rendas. Suas pernas brancas chamavam minha atenção, ela as balança conforme o ritmo da música. 
    O ranger da porta a pega de surpresa, dá um pulo de leve e se vira, colocando a mão sobre o peito. Posso ver o volume de seus mamilos sob a camisa. Ela solta a escova de cabelo.
    O quarto é delicado como ela. Haviam inúmeros instrumentos por ali. Violões. Guitarras. Flautas. Trompete. E muitos outros.
    No canto, por ironia, está um teclado todo empoeirado. Abandonado.
    Ela sorri.
    No centro do quarto está sua cama. Grande. Muito grande.
    Ela sorri.
    Passeio pelo quarto, encaro o espelho do guarda roupa, estou arrumado, bonito.
    Sorrio.
    Um raio de sol que entra de penetra desviando da cortina lilás, paira sobre o teclado empoeirado. Um punhado de poeira dança na faixa de luz solar. Passo meu dedo, bem devagar sobre as teclas, daria para ouvir um som decrescente, se o teclado estivesse ligado. Ou com bateria. 
    Não entendo de teclado.
    Olho para Caroline. Parece não se importar. Aquele devia ter sido seu primeiro instrumento. Abandonou-o. Pergunto o porquê disso. 
    O motivo de tê-lo deixado de lado.
    - Cansei dele. – Ela diz, Sorriso.
    Cansou dele. 
    Todo o tempo que haviam passado juntos não contava mais.
    Sorrio para ela.
    Pressiono uma tecla. Não faz som. 
    Está sem bateria ou desligado. Não entendo de teclado.
    Abaixo na altura dele. Assopro. Uma nuvem de poeira se espalha pelo quarto.
    Ela desabotoa um botão.
    Coloca as duas mãos sobre o instrumento.
    Você não se importa mais com ele, pergunto esperando que ela me dê uma resposta positiva.
    - Sim, mas ele está velho, não serve mais para mim. – Ela diz. Mordiscando o lábio inferior e sorri.
    Não era a resposta que eu queria ouvir. 
    Desabotoa outro botão. 
    A porta range com o vento leve que entra pela janela. A cortina balança. Com um pouco de esforço levanto o teclado de sua base.
    - O que está fazendo. – Ela pergunta. 
    Sorrio.
    Sua camisa está quase toda aberta. Com o passo que ela dá, posso ver seu seio balançar. Vem em minha direção. 
    Sorrio. Ela não. 
    Levanto aqueles aproximadamente dez quilos acima do ombro, e então a golpeio no rosto.
    O golpe não é forte o suficiente para desmaia-la.
    Ela apenas cai e põe a mão sobre a boca. 
    Posso ver seu seio. Sangue pinga no chão de piso branco. 
    Meus braços pesam. Já estão cansados. Caminho por alguns centímetros arrastando o teclado. 
    Ela chora. 
    O sangue escorre de sua boca e pinga sobre seu mamilo marrom. Escorre por ele e pinga em sua barriga, e logo é absorvido pelo tecido da camisa de bolinhas.
    Não sei por que fiz. Apenas senti vontade.
    E então a saciei.
    Com muito esforço, ergo o teclado novamente. E a golpeio de novo. Um golpe contra sua cabeça.
    Ao tentar se proteger ela acaba quebrando o pulso. Som que posso ouvir com clareza. 
    Ela chora. Urra de dor.
    Ergo o teclado novamente.
    Então solto contra ela. 
    Ergo o teclado. Mais um golpe.
    Peças se soltam.
    Sangue espirra.
    Ergo o teclado. Mais um golpe.
    Ela não se move.
    Meus braços doem. Estou ofegante e soado.
    Suas pernas brancas estão sujas com seu sangue. Ela agora tem um motivo para não tocar o teclado. Seu pulso está roxo e inchado.
    Silêncio.
    Paro em frente ao espelho. Arrumo minha gravata. Bonito.
    Por sorte as gostas de sangue não são aparentes em meu terno.
    Olho para ela. Não está mais tão bonita. 
    Tristeza.
    Seu rosto, com o nariz quebrado e faltando alguns dentes, está coberto de sangue. Seu cabelo está molhado por uma poça enorme de seu sangue. 
    Deve ter encontrado a paz.
    Desço a escada. A cafeteira apita. Sirvo um pouco de café. Caminho pela sala. Observo novamente as fotos e quadros. 
    Seu pai não está ali. Sua mãe continua sorrindo. 
    Muito linda. Se Caroline tivesse ido embora com ela. Nada disso teria acontecido
  • A tríade do mau em si

    Decidiu ir muito mais além do que se possa imaginar em sua estadia no plano físico-orgânico e tridimensional. Resolveu descortinar-se, despindo do manto de ignorância da sua própria persona programada, alienada e fragmentada. Parou de culpar o mundo… as pessoas… as coisas… tudo! Vira a culpa em si mesmo, e se vendo em sua dramática lastima percebeu-se sabotador de si mesmo, porquanto, ainda não se conhecia.

    A medida em que se observava, vira a tríade mental do seu ser mundano e civilizado psicológico: o EU INTELECTUAL; o EU EMOCIONAL; o EU SEXUAL. E se viu em uma sala completamente espelhada, em que cada ‘EU’ do triângulo de si, se multiplicava infinitamente no amago de sua personalidade inconstante e provisória.

    Ao se perceber equacionado em si mesmo… expressadamente contido entre parênteses, colchetes e chaves. Multiplicado e dividido meditou em manter a ordem dos fragmentos opostos, para por último se resolver em fatores de subtrações e adições, em toda complexidade de somatórias minimalísticas, entre efêmeras igualdades e variadas situações dos seus multifacetados ‘eus’ aplicativos do mau em si.

    Muito além de sua complexidade mental psicológica… degenerativas de todos os orgânicos e inorgânicos sentidos do corpo-mente… em que o ‘EU INTELECTUAL’ se aplica, elaborando seus conceitos e preconceitos a partir das múltiplas percepções externas e internas que adultera a Arte Sagrada, a Filosofia Primordial e a Santa Religião… o que já era pesado demais para resolver… tinha ainda que lidar com o automatismo instintivo do seu corpo físico-orgânico, pelo qual confeccionara o ‘EU SEXUAL’. Porém, mais ainda perigoso e desastroso, entre outros e esses fatores… era lidar com o insaciável e temido ‘EU EMOCIONAL’, a cabeça do meio do Dragão-de-Três-Cabeças, em que os outros dois ‘eus’ eram-lhes subservientes.

    Fora impactado pela tríade do ‘EU’ desde o nascimento, o que adoecia o corpo-mente, levando a uma total inconsciência ignorante de si, do outro e ao redor na cadeia ponto-espaço-tempo. Passara por longos e agoniantes momentos de transformações decadentes, ao receber do mundo exterior falsas imagens e impressões da realidade descendente em infra-normalidades, se afeiçoando as falsas qualidades antagônicas terrivelmente negativas do materialismo, baixo espiritualismo e vaidosas “verdades” sociais, econômicas e étnicas de si. E assim, decidira com afinco trabalhar na educação de sua forma infra-humana enfrentando o Dragão-de-Três-Cabeças, o Macho Alfa de suas bestialidades, brutalidades, temores, vaidades, traumas, vícios, costumes, psicoses e luxurias… a parte do partido egocêntrico, humanoide-animalesco em que adormece e entorpece a Sagrada Consciência Divina em sua gnose.

    Assim, almejava o retorno a sua Pureza Original, ao se render as espadas flamejantes das sentinelas-querubins que guardavam o caminho de acesso à Árvore da Vida.

    Aprofundando-se mais e mais em si mesmo, silenciou-se em sua retorta, destilou-se no Alkahest (solvente universal) de sua vontade, para ser posto em uma das câmeras do At-tannur (forno alquímico) de sua consciência, almejando ser purificado dos constituintes de seus ‘eus’ em sua solitária espargia espiritual.

    Os muitos questionamentos… as muitas perguntas… o excesso de gesticulações… as queixas e tagarelices de si, e as reclamações do mundo externo… o que não era ou estava bom em sua vivência… a falta de atenção e elogios alheios não mais o perturbavam em sua busca meditativa, em íntima contemplação.

    Apenas deixou-se ser arrastado pelo Rio (o Criativo), guiado em inércia e não-ação para o Mar (o Receptivo).

    Assim!

    O Amante, em Amor, uniu-se ao Amado…

    O Masculino penetrou o Feminino…

    O Homem conheceu a Mulher…

    O Pai gerou o Filho na Mãe…

    O Céu cobriu a Terra…

    O Sol em sua potência iluminou a Lua…

    O Criador, na Criação, manifestou-se em Criatura…

    E o Fogo Sagrado derreteu o tenebroso gelo nos empedrados corações.
  • A união do complexo medo atraente

    Penetrara no karma atual da moderna sociedade virtual em que nasceu, cresceu e ainda vive, mergulhado numa atmosfera de medos e complexos que lhe foi imposto por uma sociedade de valores hipócritas e sentimentos ilusórios. Essa triste “realidade” que até então vivenciava, teve sua extrema abrangência com o poder que lhe foi outorgado através da internet e seus recursos digitais. Passara em muito pouco tempo de um simples telespectador para um aspirante astro internauta autodidata.

    Através da internet e suas redes sociais, como um cyberpunk moderno, percebeu que a espada encantada cravada na grande pedra, não pertencia somente ao lendário e valente Rei Arthur e seus cavaleiros da távola-redonda, como era antes o caso monopolista da grande mídia. Agora sabia que também ele obtivera o direito de possuir sua própria espada mágica, e, foi encantado e possuído por ela.

    No início não podia prever as consequências de tal poder. Tudo era maravilhosamente maravilhoso. Estava perplexo diante dos inúmeros portais mágicos que lhe fora aberto por esses dispositivos radiativamente encantados, onde tudo começou com o poder telepático de enviar e receber nossos pensamentos, desejos e sentimentos nos virtualizando em palavras, falas e imagens. Abrangendo nossas perspectivas limitadas, além dos nossos vínculos sociais mais próximos, alcançando o desconhecido em milésimos de segundos, entre os milhares quilômetros de distâncias. Até o Mago Merlim se aqui entre nós, nesse momento, estivesse, ficaria impressionado com tamanho poder e proeza outorgado a todos.

    Porém, a espada de Arthur continha dois gumes e cortava dos dois lados.

    Percebeu-se ainda, que, não tarde, o poder que lhe foi ofertado pelos deuses tecnológicos exigia de nós sabedoria para possuí-lo. Essa poderosa espada mágica Kaledvouc’h como se outrora pensava, estava inacessível ao grande público há tanto tempo, encrustada na grande pedra, pelo nobre motivo daquele a quem seria o seu possuidor, ter que passar por ensinamentos de vida rigorosos, pelo qual o seu espírito e o seu coração fossem meticulosamente testados. Só assim, teriam a primazia de obter a força dos deuses para puxar a espada da grande pedra. Essa sagrada espada é raramente denominada “Excalibur”, e é retirada por Arthur como símbolo milagroso de sua Nobreza e direito ao trono da Bretanha.

    Entretanto, agora se questionara: Será que todos possui esse direito e nobreza do Rei Arthur?

    Fomos preparados e disciplinados para empunhar tamanho poder?

    Virtualmente, se deparou com os muitos casos de jovens que por uma simples brincadeira nas redes sociais, acabaram causando dor e destruição a si mesmos e aos outros. Como foi o caso da menina russa de 17 anos que morava nos Estados Unidos, que filmou um ato de estrupo em um aplicativo de postagens de vídeos, com duração de nove minutos, só para obter likes. Intentara que naquele momento durante a filmagem, a jovem poderia usar o seu dispositivo para pedir ajuda ligando para polícia, ou um adulto responsável, também notara, que as pessoas que estavam assistindo o vídeo online, em vez de dar likes, poderiam aconselhá-la para impedir aquele ato brutal. Que alcançou milhares de visualizações.

    Daí, meditara, que o poder sem a responsabilidade é cegamente egoísta e brutal.

    Entretanto, dualisticamente, não esquecia ele, que Excalibur é uma espada pontuda afiada de dois gumes que corta, penetra e dilacera. Podendo afastar as pessoas, ou uni-las. Mas, nesse bidimensional mundo de algoritmos binários computacional e ilusório, afirmava ele somente conhecer causas e efeitos mecânicos, e nunca as Sagradas Leis Naturais em si mesmas. Por isso, que ao unir as pessoas, afastava a solidariedade entre elas, em que camuflado e protegido em sua privacidade, por detrás das telas negras caleidoscópicas brilhantes, o indivíduo se julgava ir além do respeito e dos sentimentos fraternos, soltando sua naja língua pensante, em seus rápidos dígitos dedos, envenenada nos seus mais mesquinhos sentimentos obscuros de inveja, cacoetes, ego e porcas maldades. Que no mundo fenomenal das aparências, só percebia bidimensionalmente ângulos e superfícies, e nunca o integral das coisas.

    Obviamente, ele sabia que a dialética da consciência da proximidade física dos corpos pensantes, que tudo entende por intuição, através das palavras audíveis, figuras simbólicas, gestos, movimentos, olhares e expressões voluntárias e involuntárias fora cruelmente ofuscada pela dialética racional do intelecto presente nas redes sócias, fóruns e plataformas proprietárias de mensagens instantâneas baseadas em nuvem, que nada tem de essência natural humana, e sim, apenas o ilusórico poder formulativo de ideias e conceitos lógicos preconcebidos, que por mais brilhante que seja, e por mais que se julgue de qualidade e de utilidade nos inúmeros aspectos da vida prática e cotidiana, nada tem de valor para existência e ecologia humana, resultando apenas em obstáculos subjetivos, incoerentes, torpes e pesados para nossa simbiose como seres fraternais coletivos, e que nada tem de verdade.

    No fim, diante da verdade, percebeu-se sendo o pobre poderoso, precisando de alento (likes, em legais polegares opositores), precisando de algo que o anime (coraçãozinhos vermelhos, e rostos redondos sorridentes amarelados), sentiu-se com o ego demasiadamente forte e personalidade terrivelmente débil, por sua própria mesquinha natureza apodrecida em si mesmo, encontrando-se numa situação completamente desastrosa, e sem vantagens, em que o sono lhe foi roubado, a ansiedade descontrolava as batidas do seu coração, e a vaidade tomara o controle de sua alma, tendo a depressão como amante e companheira.

    E no seu estado deprimente, porém, contemplativo, sabia ele que nos primórdios da nossa existência como uma das muitas espécies que habita esse ecossistema terráqueo, éramos simplesmente um ser coabitando e interagindo com os outros inúmeros seres aqui existentes. Não víamos a natureza como esse belo quadro pintado a óleo ou aquarela, ou como as ‘pixeladas’ imagens digitais no fundo dos nossos desktops eletrônicos e dispositivos móveis. Não ansiávamos pela chegada do tempo limitado do fim de semana para passear com a família nos bosques e pradarias, e nem tão pouco esperávamos a chegada das férias para curtir os muitos lugares paradisíacos, ou nos aventurar em trilhas, escaladas e caminhadas nos ditos ambientes naturais e ecológicos. Essa coisa alheia que hoje denominamos “NATUREZA” era intimamente o único e o primeiro mundo vital e cultural que existíamos. Nossos antepassados não só viviam em contato íntimo com as outras criaturas vegetais, animais e inanimadas, como se comunicavam diretamente com os seus espíritos e coração. Daí que surgem as fabulosas histórias e contos de fadas, gnomos, duendes, devas, ninfas, curupiras, orixás, anjos, caboclos, entre outras inúmeras manifestações do que hoje classificamos como “espíritos inorgânicos da natureza” em diversas culturas humanas espalhadas pelo mundo.

    Por isso, ficou muito difícil para o seu entendimento humano separar a sua espiritualidade, cura e boa qualidade de vida da Mãe Natureza. E, entendeu o porquê dos diversos movimentos esotéricos, xamanísticos, taoístas, hinduístas, budistas, cabalistas, sufistas, gnósticos, wicca, candomblé, entre outros da busca da espiritualidade, como também os movimentos de cura, saúde mental, e medicina ancestral e alternativa se situarem em ambientes naturais abertos e ecológicos.

    Nisso, percebeu que ao longo do nosso rigoroso processo civilizatório, em que gradualmente nos separamos do nosso natural habitar, que o SAGRADO em nós foi naturalmente esquecido. Deixamos de ouvir as MENSAGENS DOS VENTOS, paramos de falar a LÍNGUA DAS ÁRVORES E MONTANHAS, abandonamos o afeto de SENTIR COM O CORAÇÃO, e os nossos olhos se cegaram para o MUNDO INVISÍVEL. E, para piorar mais ainda a sua situação, vira que como espécie se transformara no pior predador que já existiu em todos os tempos, ‘Satânico Aniquilador’ das muitas culturas existenciais em todos os aspectos da natureza, e, dele mesmo.

    Meditara ainda mais profundamente de que como espécie, nos tornamos existências humanas desencantadas, prisioneiras de nós mesmos em frente a uma tela Touch Screen de valores, e, de falsas concepções virtuais, mendigando uma irreal atenção em salva de palmas, likes e emotions de coraçãozinhos vermelhos, rostos redondos amarelados (caras de bolachas) e legais polegares opositores. Vira que as proximidades humanas se basearam em distantes conexões WI-FI, em que ignoramos cruelmente os nossos presentes íntimos entes queridos a nossa volta, em ser um direto participante na criação do Aqui e Agora, para nos tornar um observador e um observado distante do passado alienado dos desejos, anseios, críticas e felicidades do desconhecido “amigo” internauta. Preferimos viver solitários com políticas de privacidade essa virtual ruptura do contato natural, nos separando plenamente do sentido existencial da vivência humana, e minimizando a nossa consciência social, afetiva e emocional ao estado simplista do observador e do observado, e de que a tecnologia não promove e nunca promoverá, assim, como, as propostas da comunidade científica, uma fusão harmoniosa com a existência humana e a natureza. Sua meta desde a revolução industrial é unicamente modificar. Acreditando melhorar, otimizar, maximizar, implantar, oportunizar e assegurar um conceito evolucionário de humanidade ciberneticamente supranatural, onde poderíamos viver sem depender dos recursos naturais e afetos sociais para nossa existência. Para assim, em vez de (como eles acreditam) subsistirmos, ‘sobre-existirmos’ na lua, em Marte, ou em uma cosmológica galáxia distante como prega e aliena a NASA e Hollywood.

    Sentira que perdera a simplicidade da vida e o seu primeiro amor, e se tornara um ser imediatista, arrogante, conformista, impaciente, tempestuoso, depressivo e penoso. Ignorava suas crianças, e assim, fazia com que elas o ignorassem, transformando-as no subproduto mesquinho dele mesmo. Nisso, vira que ignoramos os nossos semelhantes como nunca antes já vivenciado no mundo, em todos os tempos de nossa comunal existência, ofertando para os nossos irmãos e irmãs o que tem de pior em nós mesmos. E, dessa forma e maneira, acumulamos dores e sofrimentos para o nosso último sopro de vida, e assim, morremos existencialmente porque matamos nossa essência dentro dos nossos filhos e filhas, chegando a tal ponto de não mais nos perpetuarmos nos novos corpos.

    Percebera que a verdadeira expressão para o mundo tecnológico de hoje é ABSOLUTA TRISTEZA. E isso dói na alma… adoecemos! E o pior é de que não sabemos que estamos existindo enfermos. Acumulamos muitos bens do Aqui e pouca coisa do Agora, e a Magia da Alegria abandonou a Morada do Coração, e o Sagrado Entendimento que em tudo dança se ocultou. Então, eis a questão e desafio existencial da nossa cultura humana: ATÉ QUANDO FICAREMOS CALADOS E INERTES, TRANSMITINDO PARA AS GERAÇÕES FUTURAS ESSA GRANDE DEPRESSÃO EXISTENCIAL, PELO QUAL NOS CONVERTEMOS NO TIRANO PROBLEMÁTICO DESTRUIDOR DA BELEZA DE TODAS AS COISAS? Entretanto, quem se movimentará e falará com loucura e paixão para o despertar da grande massa? Quem será esse novo Meshiach e Avatar? Mas, enquanto ELE ou ELA não chegar ficaremos inertes, atrofiando nossa mente e coração nas telas e internet? Imbuído nessas íntimas e totalitárias questões, analisara que os desafios para o retorno do SAGRADO em nossas vidas são tremendamente numerosos.

    E, contemplando todo aquele panorama, se viu com sua poderosa espada na palma de sua mão, a mágica Kaledvouc’h, o espelho negro. E como um pedaço de madeira arrastado pelo rio, tentando resolver as coisas por sua própria conta, reagindo ante qualquer dura palavra, qualquer problema e qualquer dificuldade, lamentavelmente, o medo empoderou o seu ser, fabricando nos cinco cilindros da máquina orgânica, em que lhe compunha e que o seu SER habitara, os inumeráveis multifacetados eus-demônios, aplicativos escravos de si mesmo.

  • A verdade está onde nunca a procuramos — Crônicas do Parque

    Era uma daquelas manhãs escaldantes com temperaturas que variavam de trinta e cinco a trinta e oito graus célsius, com sensação de quarenta a quarenta cinco no centro-norte de Israel. Como de costume me encontrava todos os Yom Sheni (segunda-feira) no parque de Kfar Saba, fazendo manutenção nas piscinas ecológicas.

    Pegava meu bastão de rede, uma caixa plástica preta dessas de armazenar verduras em supermercados, e um balde vazio de comida de peixes ornamentais. Entrava na piscina e submergia até os joelhos no primeiro terraço em que ficava as Nymphoides, espécies do gênero das plantas aquáticas que crescem enraizados no fundo com as folhas a flutuar à superfície da água, de cores brancas, amarelas e variadas tonalidades de flores rosa, da família Nymphaeaceae.

    Prendia meu smartphone pela sua capa ao cordão que ficava no meu pescoço, em que segurava ao peito um Magen David (Estrela de Davi) com um rosto de leão no centro, e colocava uma música suave para iniciar o meu trabalho de cuidar dos nenúfares.

    Em especial, aquela era a piscina ecológica que eu mais gostava dentre todas outras que dava manutenção no centro-norte. Pois além de ser a maior dessa região, estava em um parque bonito e tranquilo arrodeado de belas esculturas. Essa piscina era especial, pois era a única de todas que tinha uma original carpa cinza gigante, espécie de peixe de água doce originário da China, e também havia um canteiro com Lotus Branco (Nelumbo Nucifera), um género de plantas aquáticas pertencente à família Nelumbonaceae da ordem Proteales, e também era lotada de peixes Koi (Nishikigoi), tendo o Higoi (carpa vermelha), o Asagui (carpa azul e vermelha) e o Bekko (branca e preta), que são carpas ornamentais coloridas ou estampadas que surgiram por mutação genética espontânea das carpas comuns (carpas cinza) na região de Niigata no Japão, tendo também outras inúmeras variedades de peixes ornamentais como: peixes dourados, peixes barrigudinho (Guppy) de diversas cores, aruanãs, entre muitos outros.

    Nesse dia em especial, me senti constantemente sendo observado por um senhor de chapéu azul e cabelos grisalhos que aparentava ter a idade de oitenta anos. Estava bem vestido e mantinha sempre um sorriso no rosto. Ele se encontrava sentado em um banco largo que ficava próximo a piscina. E lentamente eu me aproximava dele ao curso do meu oficio de retirar as folhas amareladas dos nenúfares. E ao me aproximar daquela figura atraente, eu o cumprimentei com um Boker Tov (Bom Dia), e ele me respondeu com um Boker Or (Manhã de Luz). Assim trocamos sorrisos, e me voltei novamente para o meu ofício matinal.

    Quando o balde em que colocava as folhas amareladas e flores mortas dos nenúfares se encontrou cheio, me retirei da piscina para esvazia-lo, o despejando na caixa plástica preta que estava perto do banco em que o senhor de chapéu azul se encontrava sentado. E ao me retirar para regressar a piscina, ele elevou a sua doce voz anciã, perguntando-me:

    _ Atah Rotze coz cafeh (Você aceita um copo de café)?

    Então, de imediato lhe respondi:

    _ Ken, efshar (sim, aceito).

    Então, ele retirou de uma sacola de pano um bojão de gás pequeno e enroscou uma pequena boca de fogo nele, acoplando. Colocou o aparato ao solo, e retirou da sacola uma garrafa pet de coca-cola com água, uma pequena chaleira e dois copos de aço inoxidável. E, enquanto ele despejava a água no recipiente e ascendia o fogo com um isqueiro para ferventar, fez um sinal com as mãos para eu me sentar ao seu lado.

    Enquanto a água estava para ferver, nos apresentamos e ele me fazia inúmeras perguntas sobre mim e meu oficio. Perguntas comuns que eu já estava calejado em responder. E depois que ele preparou o café, comecei também a interroga-lo. Para minha surpresa descobri que ele não era judeu, mas árabe. Sendo que falava um bom hebraico sem sotaque e se vestia elegantemente, como um velho Ashkenazi. Além dele ter olhos de uma cor azul claros como o céu que estava sobre nossas cabeças. (…Nós, e nossos pré-julgamentos…).

    Ele me falou que viveu muito anos na Espanha, sendo um mestre sacerdote de Sufi gari (Tasawwuf), uma arte mística e contemplativa do Islão, assim como é a Kabbalah para os judeus. Ele viu o Magen David em meu peito, e disse que era bonito esse símbolo com um rosto do leão no centro. Também, me falou que esse símbolo em que os judeus se apropriaram o colocando em sua bandeira, é de muita importância para o Tasawwuf (Sufismo). E me revelou segredos importantes sobre o significado desse símbolo.

    Conversamos sobre muitas coisas, e eu o interrogava mais e mais, pois vi que esse senhor era muito sábio e ciente de tudo que falava. Ele me revelou coisas sobre a conduta do corpo, como postura e fala. Falou-me sobre pensamentos, músicas e danças místicas, e, sobre alimentação e jejuns para se ter uma vida espiritual equilibrada com o corpo físico. Nesse assunto, eu perguntei a ele porque não se deve comer carne de porco. Até porque eu já tinha perguntado a muitos rabinos e religiosos judeus o porquê de não comer a carne desse animal, e muitos não sabiam me responder ao certo. E os que respondiam, falavam que estava escrito nos Livros da Lei, a Torah, mas não sabiam perfeitamente o porquê.

    Diante da minha pergunta, ele sorriu e me disse algo em que fiquei atônito. Contava ele que os porcos eram seres humanos amaldiçoados, por levar uma vida sexual pervertida na sua última encarnação. Ele me disse que por isso dentre todos os animais o porco era o mais inteligente, e, que seus órgãos internos como fígado, rins e coração são muito parecidos com os nossos, pois na verdade era um ser humano que encarnou nessa condição com a total consciência de sua vida passada, mas que devido ao fato de estar em um corpo animal atrofiado não podia se comunicar para se revelar como tal. Nasceu nessa condição devido a decadência espiritual de sua vida anterior como ser humano, ao se entregar aos prazeres sexuais nojentos e tenebrosos, por isso esse animal pode levar até trinta minutos tendo orgasmos. E assim, veio nessa condição para viver em sua podridão, ao comer seu alimento e dormir misturado as suas fezes, mesmo tendo a inteligência de defecar em um mesmo lugar, são condicionados pelos seus criadores (seres-humanos) a viver junto ao seu excremento. Também, ele me falou que o porco não tem a capacidade de olhar para cima, não podendo ver o céu, e sua pele não pode ser exposta a luz solar por muito tempo, pois não consegue transpirar, e pela falta de umidade decorrente do suor pode sofrer fortes queimaduras. Nasceu para olhar para baixo e se esconder da luz, sendo forçado por essa natureza a viver na lama. Ele também me disse, que o porco é o animal mais amaldiçoado do que a serpente, pois os porcos são invulneráveis às suas picadas venenosas. E concluiu:

    _ É por isso que não se deve consumir a carne desse animal, pôr na verdade ser um ser-humano totalmente consciente em forma atrofiada. _ e, acrescentou me revelando algo_ Você sabia que não a diferença de gosto entre carne humana da carne suína… ambas possuem a mesma textura e sabor.

    Uau! Diante desses fatos que me foram apresentados por esse velho sacerdote Sufi, eu fiquei estupefato. E, entendi o porquê de George Orwell escolher os porcos para serem os protagonistas da revolução em seu romance satírico (Animal Farm — A Revolução dos Bichos). Provavelmente, ele sabia desse conhecimento do Tasawwuf. E isso me fez pensar, o quanto os antigos sabem do que não sabemos. Essas são respostas que não podemos encontrar no oráculo Google. Respostas de um velho de oitenta e poucos anos sentando em um banco de parque.

    O velho me vendo atônito, colocou seus aparatos de café na sua sacola, levantou-se, despediu-se e saiu sem mais nada a dizer.

    E lá no banco do parque de Kfar Saba fiquei com a mão no queixo, vendo os peixes e as nymphaeas. Tão Ignorado em minha ignorante aquariofilia.
  • ALMA INQUIETA (soneto)

    Quem o cerrado dirá à alma inquieta no vazio?
    De tortos em tortos galhos queixas soltas no ar
    De estrelas em estrelas o pensamento a voar
    Num calafrio, recolhido e só, eu, aqui sombrio...

    Ergo os sonhos do chão seco, do pó a jorrar
    Jorro angústias murchas do peito sem feitio
    Cheio de desagrado, de pecado. E mal gentio
    Que saudade doída! - Recordação sem paladar.

    Pra purificar a sensação, um coração piegas
    Livre da ingratidão, livre da trava indiferença
    Onde, em perpétua quimera, devaneio cativo

    Não posso então ter na ilusão as tais regras
    E tão pouco nas lembranças cética crença
    Amor e esperança vivem no cárcere que vivo!

    © Luciano Spagnol
    poeta do cerrado
    Outubro, 2018
    Cerrado goiano
    Olavobilaquiando
  • Amadureça

    No peito leva os bons momentos
    Não que tenha esquecido das feridas
    Apenas deixou cicatrizar com o tempo
    E decidiu receber da vida as coisas mais bonitas

    Sente falta das conversas, risadas, briguinhas
    Das noites acordada, dos conselhos dados e recebidos
    Um novo rumo tomou a sua vida
    Novos sonhos, novas vontades, novos amigos

    Olha só, o gosto para tudo mudou
    Mudou dos pés à cabeça
    A vida realmente transformou
    Antes confusa, hoje pessoa de certezas

    No fundo do olhar vai ver um pouco de antes
    Talvez reconheça, talvez conheça
    A vida tem desses tempos marcantes
    Possa ser uma forma de fazer com que amadureça
  • ANO NOVO

    Ano novo
    Mais um dia
    Foi o velho
    Noutro dia.

    Zero hora
    Um começa
    Outro termina
    Novo dia.

    Quem espera um ano inteiro
    Ansiedade apinha
    É melhor chorar agora
    Que sofrer por mais de um dia.
  • As Três Maravilhas

    Os dias passaram o arrastando por trombadas de sentimentos incontroláveis. Pensava ele estar acima das suas emoções, porém, por pensar estar acima, tirara a mão do mastro, e fora arrastado pelas tempestades sentimentais. Forças destrutivas o empurraram novamente a lama, e se sentira energeticamente imundo. Abrira a porta escrotamente para o mal de si, e violara a regra de sua santidade e perfeição. O mal o rondara, e percebera-se insano.

    Não podia crer que novamente tropeçara… o mesmo ciclo vicioso… a cobra que morde o próprio rabo… a mordida na própria língua.

    Entretanto, o Sagrado com toda a sua Mística o amava. E como uma mulher estéril que sorriu de felicidade pelo fim de sua improdutividade, ao ter um varão, na sua velhice… o Sagrado, assim, pacientemente, e rigorosamente, o educava com AMOR.

    O Místico Amor…

    O Amor do Amante e do Ser Amado… que faz do dois, três, e das três maravilhas uma só PRESENÇA.

    Havia entre eles compreensão e trabalho mútuo… era o pequeno e O GRANDE… o fraco e O FORTE… o encarnado e O IMANIFESTO…, que se despontavam em duas formas distintas, o inferior e O SUPERIOR. Contudo, um dependia do outro para ser visivelmente revelado.

    A Inteligência Superior a ele ofertada o fazia diferente dos demais, por isso, ao cair se levantava rapidamente… O SAGRADO compreendia que os tempos atuais eram ofuscados por uma sombra de trevas e ignorância, e que a LUZ teria como trabalho romper a cápsula de ignorância em que o SER AMADO nasceria, pois não tinha como nascer numa poça de lama sem estar melado por ela… só que ele mesmo (O Ser Amado) estava cansado dessas repetidas quedas na poça suja. Suas quedas eram mínimas em sua totalidade, nada que magoasse alguém, nada que ferisse… nada que matasse… nada de inveja, cacoetes, ou avareza… nada de arrogância, intolerância e cinismo… nada de extrema ignorância ou alienação. Caía contra ele mesmo… caía em sua perfeição, em sua santidade.

    E assim, se magoava e se autopunia, porquanto, almejava o principado. Por isso, os cavaleiros sombrios o perseguiam, e caía, quando, enganado pelo pequeno eu, amante da luxúria, cega e apaixonadamente o dominava. Entretanto, sabia quem era o inimigo, o estudara, o observara… e, também, o compreendeu… e dele mesmo teve compaixão.

    Vira os seus pequenos filhos que ao longo do seu nascimento no mundo das ilusões, nascera de suas traumáticas experiencias. Todos eles estavam berrando e choramingando por comida. O seu filho Medo tinha como iguaria a egoística proteção e isolamento, e a culpa era sua sobremesa favorita; Já a sua filha Ambição se deliciava de glamour, com biscoitos recheados de estrelismos. Porém, o que mais lhe preocupava, era seu filho mais velho Desejo, que crescera além da conta, e, trouxera sua amante Luxúria para habitar em sua morada, e juntos se deliciavam no doce picante chocolate da paixão.

    Notara que alimentar esses filhos seus era trabalho de sua personalidade mecânica e falsa, habitante dos infra mundos, cultivada exatamente por todas as coisas que contraiu e aprendeu em toda sua vida social metropolitana, fixa pelas teias de pontos de vistas alienados a uma realidade criada nos padrões ilusórios do pensar, sentir e agir mecanicamente.

    Sim! Ao se observar e autoanalisar a sua personalidade induzida…, sem sombra de dúvidas em sua mecânica ambiguidade, se percebera homem-máquina… um mero robô-humanoide que trabalha, se alegra, sofre, se droga, goza, come e dorme. E, pensara na etimologia da palavra robô, provinda do russo Работа (rabota), que quer dizer: trabalho, algo meramente mecânico, e percebera que seu instinto não passava disso… uma mera programação… pronta para executar as suas funções animais de prazer e dor. Graças a uma ignorante educação equivocada, que o adestrou a atuar, desde infância, em um frágil mundo de mentiras, em razão dos múltiplos episódios exteriores e de choques aleatórios, que abrolham em seu interior algumas mudanças quase sempre errôneas, ou não coincidentes com o evento em tese.

    E, assim, oculta e perspicazmente se sentara na poltrona da sua existência…, e vira seus malcriados filhos, que, insistindo em crescer em sua persona, desde cedo, assumir o controle da condução de sua vida mecânica, pois, estes, veio a existência unicamente por causa da pressão dos dramas, tragédias e comédias que se apresentam nas telas e palcos da vida. Claramente vira, que por culpa dessa mecanicidade do ser, O SAGRADO perdera sua essência e fragrância, despossibilitando a sua santa e perfeita manifestação harmoniosa, em sua vivência material orgânica. Já que toda forma de ação conscientemente mística-divina, fora substituída pelo automatismo mecânico do individuo social… o chamado cidadão comum.

    Analisara que sua débil e frágil personalidade mecanizada e controlada pelos ‘eus’ criados de si se adaptava a ambientes e pessoas. Escaneando e criando autoimagens em costumes e hábitos moldáveis pelo intelecto, utilizando de discursos e palavras, pensamentos e movimentos ilusórios, que utilizavam de hipnose consciente para o adormecimento da própria consciência.

    Ao se perceber mecanizado, resolvera ir a fonte de tudo que o programava… sentou-se em profundo silêncio, fixando os olhos ao chão… fizera uma pergunta ao universo do seu ser… e, prometera a si mesmo levantar-se, apenas com a resposta. Fixo em sua empreitada, o tempo, destruidor de todo gênero e criações humanas, ali parou. E, percebeu a expansão do seu próprio Ser Divino, além matéria, e viu o quanto era amado e protegido por essa Absoluta Grandeza. Também, junto a essa visão divina, se culpava por não se dedicar totalmente a esse Primeiro Amor… era o Ser Amado, porém, por não ter o Divino Amante por primazia, ainda não o conhecia. E, por ainda não o conhecer em sua Divina Essência, não se tornou o instrumento musical de suas harmoniosas canções… não alcançando ainda o Imanifesto que manifesta tudo.

    Em sua meditação sabia que a viagem era longa, e o trabalho pesado, a vida corpórea orgânica e encarnada tinha que enfrentar o mundo para se livrar de suas rédeas e freios. Sabia que o mundo material não passava de uma escola da alma, por isso, o alienado entretenimento social não o sequestrava.

    E, clamando silenciosamente orou: “Ó Sagrada e Mística Essência Divina que se assenta no trono de meu coração; Grande Sol Central Esplendoroso, mais radiante entre todas as luzes desse plano material; Magnifica Lua Cheia que ofusca as luzes cintilantes de todas as estrelas no imenso escuro dos céus; Consciente Inteligência do Eterno Sentido Divino; Grande Oceano pelo qual desagua todos os rios; Soberano entre as fontes de todos os néctares nascentes; Leão de todas as selvas e pastagens. Ó tu de olhos abertos em todos os lugares, fala-me diretamente sem intermediações, pois, tenho sede de ti. Como poderei eu te conhecer… aqui sentado e meditando?”

    Ali, parado, meditando por horas afinco, nada ouvira… nada vira… e não deslumbrara nada.

    Portanto, sabia que para poder receber as ondas de vibrações harmoniosas do SUPERIOR, primeiro tinha que se domar: educar todos os seus sentidos… peneirar todos os seus pensamentos… frear todos os seus sentimentos… adestrar todas as suas emoções. Se conhecer e ser o senhor de si mesmo, deixando de alimentar os seus ‘eus’ criados, e, assim, matá-los de fome e sede, para que educadamente perceba a superioridade do Pai, e possa o servir com frequente piedade e fé inquebrantável.

    Intentara evolutivamente que a melhor riqueza e nobreza do ser humano é a FÉ. Que seguindo a missão de sua existência no aqui e agora, atrairia a verdadeira felicidade que é independente e indiferente a ter alguma coisa, e ser algo ou alguém de sucesso para viver. Que, interiorizando e espiritualizando cada ação, até o ato de limpar uma fossa de merda pública em reverencia e gratidão, chegaria à maestria e principado. Degustara o doce mel da verdade, e queria obter os melhores dos bens e serviços devocionais, vivendo a vida sabiamente vivida purificando todas as maldades suas e dos demais. Descobriu que pela Fé… atravessaria as tormentas, pela Sinceridade… o mar dos egos e, pela Bonança e compaixão… o outro lado do reino da morte.

    De repente, em sua meditação, o espírito destruidor que o tentava, o inundou de maus pensamentos, gerando em sua mente maus sentimentos. Vira claramente a face do Anjo da Destruição, prateada como a lua em sua feminina forma tentadora, que faz lançar a culpada alma nos infra mundos infernais, e que goza de toda desolação. Ela estava deslumbrantemente irresistível, e cheirava paixão e luxúria. Seu sexo molhado de gozo tentador estava exposto, e latejando desejo o chamava. Sua boca parecia doce como mel, melados de néctar do prazer. No entanto, um pensamento de morte passou como vulto em sua consciência… e, meditando profundamente, enquanto se via nos braços demoníacos da luxúria, freou sua paixão, e disse, dessa vez, em voz audível: “Ó Dona de meu Desejo, como és bela e tentadora, estou agora ardendo de paixão e tesão por ti, porém, sinto seu calor arder como brasa, se me entrego a ti queimarei minha alma em sua chamas mortíferas. Ó Espírito de Tentação! Penso agora em minha morte, e tenho ela agora como fiel companheira. Você não tem mais lugar em mim”. Falando isso, o Tentador se dissolveu diante de seus olhos como um monte areia a esparramar pelo chão.

    A partir daquele dia as três maravilhas abundou o seu ser… de um que era se tornou vários; de vários, um; manifesto ou invisível atravessa sem resistências as paredes, as rochas como se penetrasse uma queda d’água de cachoeira; submergia na terra, e tornava a subir como se fosse o mar; caminha nas águas como se fosse terra firme; voava pelos ares como os pássaros, e sentava nas nuvens como os seres inefáveis; até a lua e o sol inflamados de calor, Ele acariciava com suas mãos, e no mundo dos deuses e semideuses se manifestava em glória; conhecia os homens e lia os seus pensamentos, sabia dos caminhos de sua alma, aquilo que faz elevar e tropeçar, dizendo: “Esse é o seu pensamento e desejo. Isso ou aquilo está em seu espírito. Este é o destino que te espera.”; E tinha sabedoria e inteligência para instruir e adestrar qualquer alma vivente.

    E assim, se manteve calmo e sereno em sua iluminação. O AMOR do AMANTE envolveu o SER AMADO, purificando de todas as impurezas acumuladas em seus centros orgânicos. O humanoide de programação emocional, deletou sua atividade efemeramente mecânica, transcendendo o corpo biológico, que agora era o receptáculo do SAGRADO em si mesmo.

    Nada mais o afetava, livrou-se do medo… fez da morte física sua companheira, e matou-se a si mesmo, renascendo das cinzas do sofrimento, se purificando nas águas do arrependimento, emergindo no ar do Sagrado Conhecimento… não por estar isento de emoções e sentimentos. Mas, unicamente por se livrar do corpo mortificado do desejo… que, ilusoriamente se ajoelhava perseguindo o prazer, e alienadamente orava fugindo da dor.
  • Bate-papo [conto]

    [21:23:59] Ksal Discreto fala reservadamente para Ela&Ele: Oi
    [21:24:15] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: ola
    [21:24:20] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: tudo bem?
    [21:24:31] M amizade entra na sala.
    [21:24:45] h mama h diz para Todos: algum cara aí afim?
    [21:25:01] Ksal Discreto fala reservadamente para Ela&Ele: sim e vcs?
    [21:25:27] coroa safado entra na sala.
    [21:25:40] Moreno22 diz para Todos: aumente seu pênis de forma natural. {www.penislandia.cz}
    [21:25:47] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: tbem
    [21:25:53] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: da onde tcm?
    [21:25:55] Karina diz para Todos: estou peladinha na cam esperando vc em {www.sopravc.fg}
    [21:26:01] Ksal Discreto fala reservadamente para Ela&Ele: ZS e vcs?
    [21:26:07] Carol15 entra na sala.
    [21:26:10] KRALHUDO fala reservadamente para Ele&Ela: 19cm de rola para esposinha e maridão…...afim?
    [21:26:20] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: ZN
    [21:26:25] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: quantos anos vcs tem?
    [21:26:47] Hserio entra na sala.
    [21:26:54] Ksal Discreto fala reservadamente para Ela&Ele: eu 32 e ela 35 e vcs?
    [21:26:59] Mariza diz para Todos: Ninfetas loucas por sexo só no {www.ninfasperdidas.yu}
    [21:27:13] Safado CAM1 entra na sala.
    [21:27:25] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: eu 38 ele 42
    [21:27:32] Coroa safada diz para h34: tenho muita coisa para te ensinar ahahhaha
    [21:27:45] Kzado quer entra na sala.
    [21:27:48] Loirinha sai da sala.
    [21:27:53] Macho sai da sala.
    [21:28:10] Karina diz para Todos: estou peladinha na cam esperando vc em {www.sopravc.fg}
    [21:28:20] Ksal Discreto fala reservadamente para Ela&Ele: o q vcs fazem?
    [21:28:33] Gordinho T entra na sala.
    [21:28:47] Einsten entra da sala.
    [21:28:55] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: somos liberais, gostamos de fazer tudo
    [21:29:13] Safado CAM1 fala reservadamente para Ksal Discreto: quer ver um homem de verdade fuder sua mulher seu corno?
    [21:29:33] Mulher entra na sala.
    [21:29:42] Hserio fala reservadamente para Ela&Ele: oi
    [21:29:50] Mariza diz para Todos: Ninfetas loucas por sexo só no {www.ninfasperdidas.yu}
    [21:29:53] Ksal Discreto fala reservadamente para Ela&Ele: legal, mas eu quis dizer no q vcs trabalham rsrsrs
    [21:30:10] Marta ZO entra na sala.
    [21:30:25] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: rsrsrs eu sou arquiteta e ele é advogado e vcs?
    [21:30:33] h mama h diz para Todos: algum cara afim?
    [21:30:49] Paola entra na sala.
    [21:30:57] Ksal Discreto fala reservadamente para Ela&Ele: sou empresário e ela é médica
    [21:31:04] Ksal Discreto fala reservadamente para Ela&Ele: vcs tem filhos?
    [21:31:24] Einstein sai da sala.
    [21:31:37] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: temos 2 e vcs?
    [21:31:45] Ksal Discreto fala reservadamente para Ela&Ele: legal, nós temos 1
    [21:31:50] Ksal Discreto fala reservadamente para Ela&Ele: até por isso a gente quer ser discreto
    [21:32:04] Coroa safada diz para Safado CAM1: vamos
    [21:32:10] Hilda Hilst entra na sala.
    [21:32:17] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: nós tbem gostamos de ser discretos
    [21:32:23] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: não vamos em casas de swing ou coisas assim
    [21:32:30] Maduro entra na sala.
    [21:32:42] H22cm diz para Todos: cavalo comendo famosa sem vaselina {www.animalfuck.jh}
    [21:32:57] Carol15 diz para Todos: alguém quer tc?
    [21:33:01] Ksal Discreto fala reservadamente para Ela&Ele: nós tbem não
    [21:33:10] Ksal Discreto fala reservadamente para Ela&Ele: como vc são?
    [21:34:20] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: eu 1,70m, 65kg, loira e olhos castanhos, ele 1,85m, 93kg, moreno e olhos castanhos e vcs?
    [21:34:25] H pintudo sai da sala.
    [21:34:07] Hilda Hilst diz para Todos: alguém aqui quer só tc?
    [21:34:16] Hserio diz para Hilda Hilst: oi
    [21:34:40] Marcelo sai da sala.
    [21:34:59] Carol15 diz para Maduro: não
    [21:35:05] Ksal Discreto fala reservadamente para Ela&Ele: eu 1,80, 80kg, loiro e olhos castanhos, ela 1,75, 68kg loira e olhos verdes
    [21:35:20] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: o q vcs procuram?
    [21:35:34] h mama h diz para Todos: algum cara aí afim? tenho local na ZN
    [21:35:43] paulo17 sai da sala.
    [21:35:55] Safado CAM sai da sala.
    [21:36:10] H66 diz para Madura CAM: vc é homem seu viado
    [21:36:13] H66 diz para Todos: cuidado!!!! a Madura CAM é uma bixa loca
    [21:36:30] Karina diz para Todos: estou peladinha na cam esperando vc em {www.sopravc.fg}
    [21:36:40] Ksal Discreto fala reservadamente para Ela&Ele: uma aventura com um casal discreto e vc?
    [21:37:13] H pintudo entra na sala.
    [21:37:20] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: isso aí tbem rsrs
    [21:37:25] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: uma aventura sem compromisso
    [21:37:30] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: vcs já saíram com outros casais?
    [21:38:05] Ksal Discreto fala reservadamente para Ela&Ele: não, e vcs?
    [21:38:30] M inversão diz para H66: me dexa em paz seu escroto
    [21:38:40] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: tbem não
    [21:38:55] renato bi sai da sala.
    [21:39:03] Ksal Discreto fala reservadamente para Ela&Ele: o q vcs quiseram dizer quando disseram que gostam de fazer tudo? rsrs
    [21:39:19] Evangélica amizade sai da sala.
    [21:39:30] Mariza diz para Todos: Ninfetas loucas por sexo só no {www.ninfasperdidas.yu}
    [21:39:50] M inversão sai da sala.
    [21:40:18] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: nós dois somos bi, gostamos de tudo entre 4 paredes rsrsrs
    [21:40:30] Hserio sai da sala.
    [21:40:47] Mario 47 entra na sala.
    [21:41:09] PAU DURO CAM sai da sala.
    [21:41:30] Moreno22 diz para Todos: aumente seu pênis de forma natural. {www.penislandia.cz}
    [21:41:51] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: do que vcs gostam?
    [21:42:03] Ksal Discreto fala reservadamente para Ela&Ele: a gente estava pensando mais em uma troca de casais
    [21:42:13] Caroline entra na sala.
    [21:42:31] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: podemos fazer várias trocas rsrsrs
    [21:42:47] Elton21anos sai da sala.
    [21:43:11] Ksal Discreto fala reservadamente para Ela&Ele: não sei, nunca transei com outro homem
    [21:43:21] DotadoCAM entra na sala.
    [21:43:30] Ksal Discreto fala reservadamente para Ela&Ele: minha esposa disse que já transou com outras mulheres na faculdade
    [21:43:40] DotadoCAM diz para Mulher Perdida: oi
    [21:43:43] DotadoCAM diz para h passivo: oi
    [21:43:48] DotadoCAM sai da sala.
    [21:44:11] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: as coisas acontecem de forma natural
    [21:44:19] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: o q rolar rolou rsrsrs
    [21:44:32] Ksal Discreto fala reservadamente para Ela&Ele: seu marido sai com outros homens sempre?
    [21:44:50] Hilda Hilst sai da sala.
    [21:45:09] Matheus sai da sala.
    [21:45:20] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: não, a gente tem uns brinquedinhos para se divertir
    [21:45:30] Ninfa diz para Todos: famoso confessa que gosta de transar com cabras {www.semvergonhadacabra.hg}
    [21:45:48] Caroline diz para Ksado43: 18
    [21:46:12] Ksal Discreto fala reservadamente para Ela&Ele: desculpem, mas acho que isso não vai dar certo
    [21:46:22] Caroline diz para Ksado43: q nojo
    [21:46:34] Caroline sai da sala.
    [21:47:20] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: tudo bem
    [21:47:22] Mariza diz para Todos: Ninfetas loucas por sexo só no {www.ninfasperdidas.yu}
    [21:47:25] Ela&Ele fala reservadamente para Ksal Discreto: até
    [21:47:30] Ksal Discreto fala reservadamente para Ela&Ele: até
    [21:47:45] Ksal Discreto sai da sala.
    [21:47:55] Ela&Ele sai da sala.
  • Bom dia!

    Que o sol ao nascer te faça sorrir, te mostrando que mais um dia se inicia. Que o vento leve os seus sonhos até Deus e que tudo se realize. Mas, quando entardecer e tudo escurecer, não desamine.
    As estrelas vão brilhar e logo mais a lua aparecerá. Mas, se as nuvens cobrirem o céu, feche os olhos e perceba, que nem todos os dias terminam como a gente quer, mas, podem começar como a gente sonha.


    Luca Schneersohn
  • Como água do mar

    Hoje nada mais faz sentido
    A saudade já bate mais forte
    Preciso daquele abraço,do seu abraço
    Sai desse lugar e vem me encontrar
    Estou te esperando de frente pro mar

    Vem,não faz isso comigo
    Não me deixe mais uma vez
    Viva comigo,o que temos a perde?
    Deixa falarem,que no nosso romance nem nos entendemos
    Se deixa levar,nosso amor é mais lindo que a água do mar

    Que sorriso é esse
    Me conquisto em 2 segundos
    Fiquei louca só de imaginar
    Mil coisas para nos amar
    Uma tarde não basta
    Quero toda a eternidade
    Esse brilho no olhar

    Vem que hoje é o nosso dia
    Vamos aproveitar cada segundo
    Eu te quero mais do que posso suportar
    O seu sorriso me despertou
    Todo esse amor,o que faço agora?
    Já que sem você eu estou.
  • CONSCIÊNCIA NEGRA

    Negra não!
    Consciência!
    Consciência humana.
    Consciência sem cor.
    Tem cor! É cinza!
    Cinza da massa,
    Massa cinzenta.

    Afro brasileiro?
    Afro não!
    Brasileiro!
    Nasceu aqui,
    Longe de lá.
    Perto na cor,
    Preto da cor.

    Gente racista?
    Gente não!
    Racista!
    Homofóbico, machista,
    Ariano, ateísta.
    Gente ruim,
    Parasita!

    Quem tem cor?
    Bunda tem cor?
    Peito tem cor?
    Aquilo tem cor?
    Dinheiro não tem!
    Demagogos!
    Hipócritas!

    O manso não tem cor,
    Está na bíblia:
    “Bem aventurado
    O homem bom”.
    Qualquer cor,
    Qualquer credo,
    Qualquer família.

  • Contos Griot: Os nossos Primeiros Pais e as Nossas Primeiras Mães

    Ali, sentado numa grande pedra com o seu M’bolumbumba na mão direita, segurando como se fosse um cajado. E seu cachimbo na mão esquerda, levando-o sempre à boca, em que dava várias pitadas. Estava o preto velho em plena paz de espírito. E todos que o fitavam podiam sentir essa paz. Seu rosto negro reluzia de serenidade iluminado pelos raios solares. E seus olhos, brancos como as nuvens do céu, transmitiam uma profunda força como o próprio sol em seu esplendor. Então, todos os k’ilombolas com as suas crianças se sentavam ao redor da grande pedra onde o ancião se encontrava, para beber das águas de sabedoria que proviam de suas palavras. E como era doce e confortante a voz que saía de sua boca. Assim, as crianças corriam, e eram as primeiras a se sentarem aos seus pés. E os jovens e os adultos iam cada qual se sentando e acomodando-se por detrás das criancinhas.
    O velho griot ancião, ao ver o povo sentado ao seu redor, pegava o seu M’bolumbumba, levava à barriga e começava a tocar. E o som do seu instrumento ecoava pela floresta e na cabeça de cada pessoa que se encontrava ali presente. Todos se maravilhavam com o toque daquele instrumento e a beleza de sua música. Criando, assim, um clima de magia e nostalgia a todos que ouviam. E o velho Djeli contava uma história cantada. E todos ficavam em grande silêncio e prestavam muita atenção a cada som que emanava da sua boca. E dessa maneira contava o preto velho griot Djeli:
    — No tempo dos nossos Primeiros Pais e das nossas Primeiras Mães, toda vida na nossa amada Ama Terra estava iluminada e devidamente equilibrada e unificada. E toda humanidade era um só povo. Uma só raça. Uma só cor. Uma só nação. Um só pensamento. Um só sentimento. Uma só expressão. Uma só língua. Um só amor. E havia uma só terra que formava um único e grande continente. E nessa terra havia um único e só rei, Kee’Musoo: “Aquele que Criou o Todo e o Tudo”…
    Nesse tempo, Kee’Musoo. A grande e maravilhosa Essência que habita em todos e em tudo. O grande Criador de todo o universo e de toda a natureza, onde toda a vida caminha, vive e respira. O Maravilhoso dos maravilhosos. O mais Belo dos belos que dá cor, cheiro e embeleza toda a vida. Aquele que é Rei dos reis e o Senhor dos senhores, e o maior Amor de todos os amores. Aquele que é a Fonte. Aquele que é Raiz. Aquele Luminoso que é a matriz da luz, do cheiro, do som e de todo o sentir, da visão, da inteligência e de todo o entendimento. Essa magna Energia Vivificante que movimenta, sustenta e faz existir todas as coisas pela sua imensa sabedoria. Sempre habitava e sempre imperava nas cabeças e nos corações dos homens e das mulheres…
    Sendo Kee’Musoo o maravilhoso e Amado Esposo para as mulheres e a bondosa e Amada Esposa para os homens. E, assim, os homens e as mulheres viviam em eterna comunhão de amor com o seu Criador…
    Kee’Musoo, “Aquele que Criou o Todo e o Tudo”, era ação, e não palavras. Era harmonia, e não esforço. Era caridade, e não sacrifícios. Era a fonte da fé e de todo amor dos nossos Primeiros Pais e das nossas Primeiras Mães…
    “Aquele que Criou o Todo e o Tudo” nunca os corrigia. Pois a venda da ignorância do orgulho e de todo egoísmo humano ainda não existia nos olhos dos nossos Primeiros Pais e das nossas Primeiras Mães. Dessa forma, os nossos Primeiros Pais e as nossas Primeiras Mães tornavam a luz “Daquele que Criou o Todo e o Tudo” útil. Dentro, entre e fora dos seus corpos. Emanavam apenas sentimentos bons, positivos e amorosos. Fazendo-se um só com “Aquele que Criou o Todo e o Tudo”. E caminhavam como reis e rainhas em meio a todas as outras criaturas, em todas as formas, em toda existência individual, como em toda a comunidade e em toda Luz…
    Não procuravam compreender o porquê de todas as coisas: Quem eram? O que eram? De onde vieram? E todas essas perguntas que sufocam a nossa consciência. E nem pensavam em questionar ou ir contra as leis naturais e universais de toda a vida. Apenas viviam o que eram…
    A mais perfeita de todas as criações “Daquele que Criou o Todo e o Tudo”…
    Os corações dos nossos Primeiros Pais e das nossas Primeiras Mães pulsavam em ressonância com o coração da Vida Infinita, através dos rufares dos seus tambores. Nos seus rituais sagrados, os seus espíritos eram arrebatados pela canção das estrelas, que os faziam dançarem em círculo por toda a noite, ao redor de uma grande fogueira, com labaredas ardentes azuladas, amareladas e avermelhadas. Dançavam imitando os movimentos dos astros ao redor do fogo, que representava o sol. Dançavam imitando as nuvens que caminhavam ofuscando o brilho da lua e dos outros inúmeros corpos celestiais que animavam e iluminavam o escuro do céu…
    Em seus rituais sagrados celebravam a magia da vida conservando a Criança Interior, dançando em volta da Fogueira da Alegria. Fazendo a Magia do Sorriso florescer em seus corações…
    Dentro dos seus peitos as vozes de todo o universo e toda a natureza faziam a Magia da Canção acontecer. E dessa forma o povo alado do imenso céu ensinava-lhes a arte de ver o que hoje é oculto aos nossos olhos de carne…
    Através dos seus trabalhos ritualísticos e das suas manifestações culturais circulares, a Magia do Amor se manifestava nos seus corpos. Por terem a humildade de fincar os seus pés descalços no chão e olhar para as alturas e para as bordas do horizonte infinito, obtendo a dignidade de compreender que emanação “Daquele que Criou o Todo e o Tudo”, eles e elas eram…
    Para os nossos Primeiros Pais e para as nossas Primeiras Mães, o Amor era o solo fértil onde cresciam todas as suas ações. A alma da nossa amada Ama Terra, iluminada pelo nosso amado Padrasto Sol e pela nossa amada Madrasta Lua pulsava em seus corpos, sentindo a sabedoria do Sagrado e Eterno Contínuo que existe em todos e em tudo. Dessa maneira, a superficialidade das aparências que existe no mundo hoje não os iludia. Não impedindo em seus crescimentos como manifestações da mais pura e perfeita perfeição…
    Ouviam a Canção da Criação que se renova de tempos em tempos. E que pelo movimento perfeito da sua dança a tudo faz crescer e embeleza…
    Nesse tempo em que a nossa amada Ama Terra era unida, formando uma grande e elevada montanha plana, no meio de um grande e único oceano de águas reluzentes, que estava envolto e contido por imensos paredões de gelos, como se o nosso mundo fosse o olho único de um gigante ciclope universal, os nossos Primeiros Pais e as nossas Primeiras Mães conheciam que “Aquele que Criou o Todo e o Tudo” dançava em todas as coisas, e falava através de todo movimento que se podia ver, ouvir, cheirar, sentir e perceber. Pois os nossos Primeiros Pais e as nossas Primeiras Mães podiam ver, ouvir, cheirar e sentir com o coração. Pelo coração entendiam o Movimento Sagrado que impulsiona a circulação de todas as coisas…
    Conheciam Aquele que Criou o Todo e o Tudo nos seus próprios corpos e nas três manifestações primárias da vida, que pela verdade entendiam ser uma só. O ÚNICO CRIADOR, TODA A CRIAÇÃO E AS VARIADAS CRIATURAS. Que de geração em geração se manifestava em nossa natureza como: Pai “CRIADOR”, mãe “CRIAÇÃO” e filhos “CRIATURAS”. E, assim, reconheciam a maravilhosa presença e vida “Daquele que Criou o Todo e o Tudo” neles mesmos, nelas mesmas e nos seus filhos…
    Os nossos Primeiros Pais e as nossas Primeiras Mães compreendiam a vida em toda sua totalidade. Tinham o entendimento oculto de reconhecer que vivíamos em um corpo. Sabiam que esse corpo era a nossa primeira casa. E que essa casa deveria ser tratada como um Templo Sagrado de Pureza Sublime da Morada da Alma e Manifestação da Vida. E que éramos, entretanto, seres bipartidos e, por consequência, seres sexualizados. Assim, compreendiam o conhecimento oculto que há por detrás de nossa sexualidade, servindo como um veículo para honrar e respeitar a vida de todos os seres, através da união sexual dos corpos bipartidos. Fazendo do “Dois (2) Um (1), e do Um (1) Três (3)” na chegada dos novos seres. Aí está o segredo do Sagrado e Eterno Contínuo de Toda Criação, manifestado nas formações das criaturas…
    Isso particularmente eu chamo de O PODER DAS PIRÂMIDES.
    Pois, naquele tempo, os nossos Primeiros Pais e as nossas Primeiras Mães louvavam a Grande e Perfeita Criação. Provinda da união amorosa do Grande e Majestoso Universo Magnífico “Kee, O Esposo”, com a Grande e Majestosa Natureza Maravilhosa “Musoo, A Esposa”, representados nos seus corpos como o MACHO e a FÊMEA…
    Este era o momento mais sagrado para os nossos Primeiros Pais e para as nossas Primeiras Mães. Pois compreendiam perfeitamente que, pela união dessas manifestações, manifestava-se O NOVO. Assim, o ato sexual era o que havia de mais sagrado, e só podia ser vivenciado num imenso ritual de amor e dança sob a luz da lua nova. E unicamente se aprofundavam nesse prazer só para gerar uma nova existência. Nesse momento, eles e elas compreendiam o poder em que o Dois (2) se faz Um (1). Pelo nascimento de uma nova vida no mundo, provinda pela união dos seus corpos…
    Assim, pela manifestação e popularização da vida, os nossos Primeiros Pais e as nossas Primeiras Mães entendiam que vivíamos em um mundo de relacionamentos, contatos e sentimentos com nossos semelhantes e outras criaturas animadas e inanimadas. E éramos, entretanto, seres sociais. E que cada contato nos oferta presentes e surpresas, e cada relacionamento nos oferece inúmeras alegrias, desafios e oportunidades de seguirmos AS VIAS DO CONHECIMENTO. Dando e recebendo de bom grado. Aprendendo e depois ensinando. Sabendo respeitar o momento em que todas as coisas se encaixam. E de que tudo tem o seu tempo, lugar, coração e inteligência certa…
    Os nossos Primeiros Pais e as nossas Primeiras Mães compreendiam que todos nós participamos direta ou indiretamente, consciente ou inconscientemente das estruturas que nos governam, e de que somos seres poderosos e politizados em virtude dessa participação. Sabiam, dessa forma, que nossa vida sempre permite contribuir para a criação de estatutos, leis e estruturas que respeitem a dignidade e o espírito de todos os seres…
    A ninguém adulavam, bajulavam ou prestavam homenagens, nem davam poder aos homens e às mulheres que hoje julgamos ser grandes e poderosos. Nem ninguém classificava ou distinguia os homens e as mulheres por suas notáveis habilidades, cargos, posições hierárquicas ou acúmulos de posses. Pois todos observavam os dons e os talentos em si e no outro. Sabendo que cada existência individualizada é única. Trazendo em si mesma sua sabedoria individual, pelo seu pessoal ponto de vista do universo e da natureza, que contém um mistério envolto em um segredo oculto que só esse ser individualizado pode conceber…
    E, por isso, seus trabalhos se baseavam em aprimorar as suas faculdades inatas, como Portadores da Luz em diversas faces, em adoração e obediência ao Criador de Todas as Coisas Existentes. Sendo cada homem e cada mulher ponte para o outro homem e para a outra mulher na diversidade dos seus dotes, talentos e conhecimentos. Formando uma natural cadeia comunitária de autoajuda, suficiência e sustentabilidade solidária…
    Os sacerdotes e governantes eram como as grandes montanhas e vulcões. E o povo era como as grandes árvores, e os outros seres como as pequenas plantas e arbustos em meio a uma imensa biodiversidade florestal. Dando sua sombra, água dos páramos, adubos, alimentos e proteção, para suprir as necessidades do ciclo de toda vida da natureza, em troca e comunhão contínua…
    Todos eram honestos, bondosos, fiéis e justos sem se darem conta de que estavam sendo o que verdadeiramente deviam ser. Naturalmente amavam-se uns aos outros. Mas não se classificavam bons, ou se qualificavam generosos, ou compreendiam e valorizavam por meio de doutrinas e dogmas o significado do amor ao semelhante e ao seu próximo…
    A ninguém enganavam, usurpavam ou tiravam proveitos de nenhuma situação adversa, tiranicamente em intrigas e mentiras. Mas nenhum deles sabia o que era ser sincero e o que era ser honesto…
    Eram fiéis ao seu rei, à natureza e ao universo, ao equilíbrio, ao seu Deus: “O AMADO e A AMADA”. Quem chamavam de: “PAI-MÃE DE TODA CRIAÇÃO”, “GRANDE E PODEROSO ESPÍRITO”, ou simplesmente “AQUELE QUE CRIOU O TODO E O TUDO”. Mas desconheciam ser esse entendimento a verdadeira fé e verdade…
    Viviam todos juntos em plena liberdade, dando e recebendo em comunhão contínua. Mas não sabiam o que era gentileza, o que era generosidade e o que era liberdade…
    Assim, os nossos Primeiros Pais e as nossas Primeiras Mães compreendiam e entendiam essas simples, porém grandes, coisas. Respeitavam a Natureza como sua mãe, o Universo como seu pai e todas as Coisas Vivas como irmãos…
    Cuidando deles, os nossos Primeiros Pais e as nossas Primeiras Mães sabiam que estavam cuidando de si mesmos…
    Dando a eles, os nossos Primeiros Pais e as nossas Primeiras Mães compreendiam que estavam dando a si mesmos…
    Ficando em paz com eles, os nossos Primeiros Pais e as nossas Primeiras Mães sentiam em seus corações que estavam sempre em paz consigo mesmos…
    Aceitavam a responsabilidade pela energia que ambos manifestavam. Tanto na sua atividade como um integrante das suas comunidades sociais, quanto no Reino Sutil de se conhecerem como parte integrante do Reino Animal. E, quando os nossos Primeiros Pais e as nossas Primeiras Mães estavam admirando uma bela flor, pela prática da observação, eles e elas não viam apenas um acontecimento isolado. Mas raízes, folhas, galhos, caule, água, solo, minúsculos seres da terra, vento e sol, estrelas, lua e o todo do cosmos. Cada um deles se relacionando com os demais, e as pétalas aflorando dessa bela relação…
    E, olhando para Si mesmos ou para as outras pessoas, os nossos Primeiros Pais e as nossas Primeiras Mães podiam ver a mesma coisa. Grandes árvores e pequenos insetos. Complexos seres humanos e a simplicidade da beleza das flores. Pássaros voando no firmamento e animais rastejando no solo. Sol escaldante e lua deslumbrante. Astros luminosos, planetas errantes, estrelas cintilantes, águas correntes e um minúsculo grão de areia parado no chão. E em sua superioridade como imagem e semelhança da Fonte Criadora, os nossos Primeiros Pais e as nossas Primeiras Mães compreendiam e entendiam que suas próprias energias tinham parte nisso…
    Em seus pensamentos não havia a separação das coisas, e nem havia as variadas fragmentações do saber de cada coisa. Tudo e todos eram um só em toda sua biodiversidade, manifestando uma grande espiral de personificações, em um único perfeito movimento contínuo do existir…
    Não contavam as horas do dia, nem contavam os dias, nem tampouco os meses e os anos. Apenas viviam de acordo com os ciclos da Majestosa Natureza Maravilhosa, em plena comunhão com o Magnífico Universo Absoluto…
    Naquele tempo os nossos Primeiros Pais e as nossas Primeiras Mães não dividiam o dia como hoje fazemos. Não havia manhãs, tardes ou noites. Mas percebiam o movimento do dia como o ciclo da vida de todas as coisas existentes. Início, trajetória e fim. Luz e trevas, trevas e luz. E no movimento do dia percebiam a dança de todas as coisas existentes em evolução contínua, e em diversas situações de ganho e perda, vida e morte. E nas mudanças das estações podiam compreender a totalidade dos ciclos de suas vidas…
    Primavera, verão, outono e inverno…
    Nascimento, juventude, maturidade e velhice…
    O início e o fim, o fim e o início…
    Não possuíam a linguagem escrita. Não por ignorância ou por serem julgados como povos primitivos. Mas porque em seus pensamentos não existia o esquecimento do Saber do Sagrado e Eterno Contínuo, que manifestava na nossa amada Ama Terra o Entendimento Ancestral. Pois, de geração em geração, os nossos Primeiros Pais e as nossas Primeiras Mães guardavam as palavras dos antepassados dentro deles e dentro delas, desde muito tempo. E continuavam a passar para os seus descendentes, AS CRIANÇAS. As quais nossos Primeiros Pais e nossas Primeiras Mães compreendiam que seriam os herdeiros da vida e guardiães do mundo, manifestando O NOVO…
    Em suas linguagens não existiam palavras que denominassem toda e qualquer forma egocentrista. Não existia eu… seu… ou meu… só havia NOSSO. E não existia nenhuma palavra ou expressão que justificasse falsidades, infelicidades, discórdias, avarezas ou mentiras. E assim os nossos Primeiros Pais e as nossas Primeiras Mães valorizavam as suas palavras como o Alimento Sagrado da Alma. E através de suas palavras de puro e pleno poder transmitiam a visão e conhecimento do não tempo, das estrelas e dos astros, das coisas, dos animais, das plantas, de todo o Universo e de toda a Natureza, do SER e do Espírito a cada um…
    Assim, o Saber Ancestral do Sagrado e Eterno Contínuo nunca morria, e os pais de seus pais e as mães de suas mães sempre se faziam eternamente vivos em seus corpos por indefinidas gerações. Pois sabiam que o novo é a continuação do velho. E, assim, velho e novo não existiam. Era o fim e o começo do ciclo da roda girante do Sagrado e Eterno Contínuo…
    Hoje, com a quebra do Sagrado e Eterno Contínuo, e por desvalorizarem as histórias e banalizarem as palavras de sabedoria dos templários antepassados ancestrais, os nossos Primeiros Pais e as nossas Primeiras Mães morreram nos novos corpos. E o Saber Ancestral, que transmitia o princípio educacional das maravilhas deste mundo, pela ignorância se extinguiu. Por esses motivos, seus feitos por muito tempo até os dias de hoje nunca foram narrados. E, como consequência, o esquecimento do Sagrado e Eterno Contínuo se tornou o conhecimento dos povos. E a sede do Espírito se tornou a decadência dos novos…
    E os novos seres de hoje seguirão tentando inutilmente inventar mais cores, mais sabores, mais odores, mais luzes, mais deuses, mais líderes e gurus, mais ídolos, mais verdades, mais religiões e mais ciências. E inúmeros mais objetos e mais utensílios, sendo que caminharão e cambalearão de lugar em lugar procurando inutilmente o que é de mais sagrado para tentarem matar essa sede insaciável do espírito. Que nos torna cada vez mais ignorantes e distantes da vida, da natureza e do universo, da verdade, do saber e do “Criador de Todas as Coisas Existentes”…
    E o Saber Ancestral do Sagrado e Eterno Contínuo, que transmitia o princípio educacional das maravilhas deste mundo, se extinguiu. E dos nossos Primeiros Pais e das nossas Primeiras Mães…
    Fez-se uma breve pausa. E o ancião Djeli com os olhos mergulhados no vasto horizonte verde. Onde as inúmeras palmeiras de guarirobas bailavam ao movimento suave e dançante dos ventos marítimos. Exclamou com um tom forte e firme de voz, balançando a cabeça para um lado e para o outro:
    — Não nos restaram mais lembranças!
    (Trecho do livro: O FILHO DAQUELA QUE MAIS BRILHA — A incrível saga do Quilombo dos Palmares no Novo Mundo, Jp Santsil, CHIADO BOOKS, 2019)
  • Contos Griots: A Criação Yoruba

    No princípio existia um lugar… em que nada do que existe hoje havia e existia.
    Esse lugar é o primeiro mundo, que se chama Orún.
    No Orún, o primeiro reino, só existiam os seres de luz e a Grande Fonte Luminosa. Que é o Ser Supremo, que criou o todo e o tudo e deu existência a todas as coisas que hoje existem.
    Esses seres luminosos eram um só em comunhão ao Grande Espírito Supremo. E só uma coisa diferenciava uns dos outros, apenas os brilhos dos seus corpos e a cor da luz que eles emanavam.
    Esses seres eram completos e perfeitos em união e reverência à Grande Fonte Luminosa. E manifestavam no Orún um grande baile luminoso, que formava um redemoinho em espiral repleto de todas as cores que se possa imaginar.
    Assim, o Orún resplandecia uma beleza de maravilhas de luzes e cores, que nem um baú repleto de pedras preciosas multicoloridas, irradiadas pelos raios solares que penetram em uma janela dentro de um quarto escuro, podia emanar.
    A Grande Fonte Luminosa, O Deus Todo-Poderoso, O Primeiro e o Último, que além dele não há outro deus. É conhecido pelos povos iorubás pelos atributos de Olódùmarè, que quer dizer “Aquele Luminoso que possui o imenso brilho que ninguém pode alcançar”. Ou Olórun, que quer dizer “Aquele Luminoso que impera no Céu”. Ou simplesmente Olófin, que quer dizer “Aquele Luminoso que é o Rei dos reis e Senhor dos senhores” e também Olodúm, que quer dizer “Aquele Luminoso que é o senhor dos destinos”.
    Os habitantes do Orún, os seres luminosos criados por Olódùmarè, eram chamados Imolè.
    Os Imolès eram uma comunidade de seres de luz regidos por um único Rei, Olódùmarè. Tendo alguns ordenadores templários que eram chamados Funfuns. Esses seres eram assexuados, pois eram à semelhança de Olódùmarè.
    Os Funfuns foram os primeiros seres luminosos criados por Olódùmarè, e os seus corpos são transparentes como os cristais, e as suas luzes são de cor branca, como as luzes das estrelas.
    Olódùmarè, “Aquele que é não criado”, antes de criar o Orún, era inconcebível e inimaginável.
    Era o tudo e era o nada, e não era o tudo e não era o nada. Pois nem o tudo, nem o nada ainda não veio à existência.
    Olódùmarè, o solitário não criado, de repente, movimentou-se em si mesmo e começou a inflar-se, gerando em si mesmo a EXISTÊNCIA. E a EXISTÊNCIA era a LUZ.
    Olódùmarè inflamava e se expandia cada vez mais, e mais, e mais, e mais. A partir desse momento, Olódùmarè existiu dentro de si mesmo, e o nada se tornou o todo dentro dele mesmo.
    A EXISTÊNCIA era o primeiro PENSAMENTO de Olódùmarè, o sonho da Criação.
    Olódùmarè prendeu o PENSAMENTO por uma eternidade de oito ciclos, e ao longo dos ciclos Olódùmarè se expandia cada vez mais. No final do nono ciclo e no início do décimo ciclo eternário, Olódùmarè não conseguiu mais se conter. E saiu de dentro de si o èmí, um sopro entoado pela primeira vez, que deu origem ao òfurufú, a PALAVRA. E a PALAVRA era a VIDA. E Olódùmarè disse bem alto, pronunciando:
    EU SOU!
    Olódùmarè explodiu ao pronunciar “o sopro entoado”, o èmí. Expelindo para fora de si a PALAVRA, o òfurufú.
    E a PALAVRA se fez EXISTÊNCIA, e Olódùmarè, olhando a EXISTÊNCIA, se viu pela primeira vez. Pois a EXISTÊNCIA ainda não tinha forma definida, porque a EXISTÊNCIA estava dentro de Olódùmarè. E era Olódùmarè.
    A PALAVRA estava com Olódùmarè no princípio, e, Olódùmarè era a PALAVRA. Por meio da PALAVRA, Olódùmarè gerou todas as coisas criadas e nada do que veio à EXISTÊNCIA veio a ser sem a PALAVRA, que era Olódùmarè.
    A PALAVRA veio a ser a FONTE DA LUZ. E dessa PALAVRA todas as criaturas, coisas e formas se iluminaram. E a LUZ brilhou pela primeira vez nas trevas, essa LUZ veio a ser a VIDA, e a VIDA compreendeu o Todo e o Tudo, e Olódùmarè veio a ser, expelindo-se para fora de si mesmo.
    A EXISTÊNCIA agora estava fora de Olódùmarè. Mas Olódùmarè estava agora dentro e fora da EXISTÊNCIA que se tornou LUZ.
    E a LUZ era a VIDA. A VIDA ganhara corpo e forma. E quando a VIDA observou Olódùmarè, o seu criador, a VIDA ganhara também CONSCIÊNCIA. E dessa CONSCIÊNCIA surgiu o SENTIMENTO. E esse SENTIMENTO foi o AMOR, em forma de um singelo sorriso.
    E Olódùmarè amou a VIDA. E desse AMOR a FELICIDADE raiou iluminando a CRIAÇÃO. E dessa LUZ surgiu a HARMONIA. E a HARMONIA manifestou a PERFEIÇÃO. Então, Olódùmarè disse:
    — VOCÊ É MEU PRIMEIRO FILHO. ATRAVÉS DE VOCÊ EU VIM A EXISTIR E FIQUEI CONHECIDO. EU ESTOU EM VOCÊ E VOCÊ ESTÁ EM MIM. SOMOS UM SÓ, POIS SEM VOCÊ EU NÃO EXISTO, E SEM MIM VOCÊ NÃO PODERIA EXISTIR. EU TE VEJO PORQUE VOCÊ ME VÊ. EU TE SINTO PORQUE VOCÊ ME SENTE. MEU PRIMOGÊNITO, MEU ESPÍRITO ESTÁ LIGADO AO SEU, E O SEU AO MEU, POR TODA VIDA E QUALQUER ETERNIDADE.
    Olódùmarè, depois de dizer essas palavras, o chamou de Obàtálá, que quer dizer “Rei Supremo de luz branca acima de tudo e de todos”.
    Obàtálá, rei supremo e filho único de Olódùmarè, foi coberto de um véu de luz majestosamente branco. Olódùmarè, vendo o seu filho amado que flutuava solitário no espaço como a Grande Estrela de todas as tardes e manhãs, aquela que mais brilha, disse:
    — VAMOS, MEU FILHO, E CONSTRUAMOS UMA CASA PARA QUE JUNTOS POSSAMOS HABITAR.
    E Olódùmarè, junto a Obàtálá, edificou o Orún. Depois da edificação do Orún, Olódùmarè percebeu que Obàtálá necessitava de um ser semelhante a ele, para coagir e interagir. Pois Olódùmarè não tinha forma definida, podendo ser qualquer coisa, e ele se manifestava a Obàtálá de diversas formas e maneiras. Sendo que Obàtálá não tinha nenhuma referência dele próprio, porque não havia ainda na criação um ser semelhante a ele. Então, Olódùmarè disse:
    — VAMOS, MEU FILHO, SOPRAREI SOBRE VOCÊ O ÈMÍ, O MEU HÁLITO.
    Olódùmarè, ao soprar o èmí sobre Obàtálá, fê-lo girar como um redemoinho. E, ao girar, parte de si desprendeu-se dando origem a outro corpo. Porém, esse corpo estava estático e sólido como uma rocha porosa. Vendo-o, Olódùmarè disse:
    — AGORA SOPRAREI SOBRE ESSA FORMA O MEU ESPÍRITO, O ÒFURUFÚ, MEU AR DIVINO. PORQUE MEU ESPÍRITO É A PALAVRA DA VIDA, E DOU LUZ A TUDO QUE QUERO.
    Olódùmarè soprou o seu òfurufú sobre a forma sólida e acinzentada, e ela ganhou Luz e Vida. E da mesma forma que fez com seu filho único Obàtálá, o encobriu com um manto de luz de cor branca.
    E Olódùmarè o chamou de Èsú’Yangí, que significa “A esfera porosa que ganhou movimento”.
    Èsú’Yangí foi a primeira forma viva individualizada do universo. Pois Èsú’Yangí fora retirado diretamente de Obàtálá, sendo por natureza inferior a Obàtálá, o primogênito de Olódùmarè. E Olódùmarè, disse:
    — ÈSÚ’YANGÍ, VOCÊ SURGIU DE OBÀTÁLÁ E AGORA VOCÊS SÃO IRMÃOS. VOCÊ DEVERÁ HONRAR SEU IRMÃO MAIS VELHO E RESPEITÁ-LO COMO SUPERIOR A VOCÊ. POIS SEM ELE VOCÊ NÃO PODERIA VIR A EXISTIR. PORÉM, EU TE FIZ À SUA IMAGEM E SEMELHANÇA, E TAMBÉM TE ENCOBRI COM O MESMO VÉU DE LUZ QUE O ENCOBRI, PARA QUE VOCÊS SEJAM UM SÓ PERANTE MIM. MAS SEU IRMÃO É O MAIOR, POR SER ELE À MINHA IMAGEM E TER PROVINDO DE DENTRO DE MIM, PORQUE EU O GEREI E ME MANIFESTEI ATRAVÉS DELE. PORTANTO, HONRA E AMA A ELE COMO VOCÊ DEVE HONRAR E AMAR A MIM. ESTE É O ÚNICO MANDAMENTO QUE LHE DOU.
    E Olódùmarè disse a Obàtálá:
    — MEU PRIMOGÊNITO, VOCÊ SABE QUE O MEU ESPÍRITO ESTÁ EM TI, E ATRAVÉS DE TI TODAS AS COISAS VIVAS SERÃO CRIADAS. E ENCHEREI TODO UNIVERSO DE VIDA ATRAVÉS DE TI. CUIDA ASSIM DO TEU IRMÃO, POIS ELE É FRUTO DE TI, AMA-O COMO VOCÊ ME AMA E EU TE AMO, AMA-O COMO VOCÊ DEVE AMAR A SI MESMO PELA MINHA VIDA EM TI. ESTE É O ÚNICO MANDAMENTO QUE TE DOU. POIS A COROA DA VIDA É SUA, SENDO TU MESMO REI SOBRE TODA A VIDA.
    Depois de dizer essas palavras e dar os seus primeiros mandamentos aos dois. Olódùmarè se retirou do meio deles e os observava, pois ele mesmo já sabia o que havia de acontecer com a criação.
    Obàtálá e Èsú’Yangí eram puros como as criancinhas, pois ainda não havia maldades na criação.
    Juntos caminhavam, dançavam e brincavam no Orún, e Olódùmarè sempre os vigiava. Até que pela primeira vez surgiu uma desavença entre os dois, pois Obàtálá queria dançar, e Èsú’Yangí queria brincar.
    Olódùmarè, vendo essa desavença, foi até eles para interrogá-los, e disse:
    — MEUS AMADOS FILHOS, QUAL O PORQUÊ DESSA DESAVENÇA ENTRE VOCÊS DOIS? VOCÊS DEVERIAM ESTAR FELIZES, UM EM COMPANHIA DO OUTRO.
    Obàtálá, então, disse:
    — Tudo isso foi por causa de Èsú’Yangí, pois estávamos brincando o tempo todo, aí eu falei para ele que eu não queria mais brincar, e chamei-o para dançar e ele não quis.
    Èsú’Yangí disse em resposta a Obàtálá:
    — Já tínhamos dançado antes de brincarmos, e eu não queria mais dançar.
    Olódùmarè ouvindo-os, percebeu que nesse momento havia dois mundos. E que sempre existiria rivalidade entre eles pelas divergências de suas vontades. E isso o preocupou. Pois a sua criação não se tornará harmônica, e sem harmonia não poderia existir a perfeição. Olódùmarè pensou por um momento e disse:
    — ALGUM DE VOCÊS DOIS VAI TER QUE SE RENDER A FAZER O QUE O OUTRO QUER. QUEM SERÁ?
    Obàtálá, então, disse:
    — Eu sou o primeiro. E sendo eu o primeiro, Èsú’Yangí tem que fazer a minha vontade.
    Èsú’Yangí também disse:
    — Eu sou o seu irmão, portanto você tem obrigações comigo, pois provim de você, e por isso, você tem que me servir.
    Então, eles viraram as costas um para o outro, como sinal de não se rederem um à vontade do outro.
    Olódùmarè, vendo que a coisa só piorava, percebeu que a igualdade individualizada entre os dois criara a rivalidade. E, dessa forma, decidiu criar outro ser em aparência como a deles, mas diferente. Pois Obàtálá e Èsú’Yangí eram assexuados, mas em semelhança masculina.
    Assim, enquanto os dois se encontravam de costas, Olódùmarè pegou um pouco de luz dos seus corpos e fez surgir no meio deles um ser de beleza sublime e de forma afeminada.
    Este ser também de luz branca era tão lindo e de grande pureza, que ninguém o poderia resistir. Este ser surgiu das divergências de Obàtálá e Èsú’Yangí. E Olódùmarè o chamou de Odùduwà, que quer dizer “Aquela que jorra a harmonia do Criador”. Assim, Olódùmarè se retirou e os deixou.
    Obàtálá e Èsú’Yangí de repente ouviram por detrás de si um choro, e, virando-se os dois ao mesmo tempo, depararam-se com um ser luminoso de beleza encantada, e juntos maravilharam-se. E Obàtálá perguntou:
    — Quem é você e por que chora?
    — Meu nome é Odùduwà. Estou chorando porque vocês não querem brincar e dançar comigo. — Respondeu.
    Èsú’Yangí, disse:
    — Eu quero brincar.
    — E eu quero dançar. — Disse em seguida Obàtálá.
    E juntos brincaram e dançaram. Foi assim que Olódùmarè, o Senhor de toda Criação, apaziguou as primeiras divergências no Orún. Pois agora a criação se tornara perfeitamente harmônica.
    Olódùmarè decidiu criar outros seres de luz para popular o Orún, e assim fez, gerando a sua corte real de Imolès Funfuns, “Aqueles de Luz Branca”.
    Os principais Imolès Funfuns, eram Obàtálá, que foi o primeiro, sendo este o rei de todos os Imolès, Èsú’Yangí, representando a disputa dual que movimenta o uno, Odùduwà, a trindade da harmonia que traz a perfeição, e por consequência Eteko, Akiré, Olúorogbo, Ògiyán, Olufan, Oko, Òkè, Lòwu, Ajagemo, Olúwofín, Pópó, Eguin, Jayé, Olóbà, Obaníjìta, Alajere, Olójó, Oníkì, Onírinjà, Àrówú, Ko, entre outros Funfuns. E, os criando, Olódùmarè se retirou.
    Os Imolès Funfuns viviam em perfeita harmonia com o seu Criador no Orún. Mas sentiram algo faltando na criação, e não sabiam o que era. Algo como sentir fome, mas não existir comida. Sentir sede, mas não existir bebida.
    Então, todos, de mãos dadas, se reuniram no centro do Orún, em um grande círculo invocando a presença de Olódùmarè. Perguntando que coisas era essa que faltava? Que vazio era esse a ser preenchido?
    Olódùmarè, o sem forma que adquire todas as formas, o não criado que criou o todo e o tudo, ascendeu em uma grande chama de luz extremamente branca no meio dos seus filhos. E, quando isso aconteceu, a sua grande, potente e poderosa luz atravessou os corpos cristalinos dos Imolès Funfuns, gerando por detrás deles as maravilhas das muitas cores. Transformando o Orún em um universo mágico de um grande e circular arco-íris multicolorido. E Olódùmarè, disse:
    EU SOU!
    E ao pronunciar a sua grande e poderosa presença, todas as cores adquiriram vida, e novos Imolès multicoloridos vieram a existir no Orún. Preenchendo o vazio que faltava dentro e entre os Imolès Funfuns.
    E esses novos seres multicoloridos foram chamados Irun Imolè.
    E esse vazio que faltava no Orún era o que conhecemos hoje como os SENTIMENTOS.
    Pois cada cor manifestada despertara nos Funfuns os variados sentimentos que no princípio todos eram de ordem positiva. A partir desse momento, os SENTIMENTOS se tornaram os alimentos dos Imolès, e suas vidas agora giravam em torno deles.
    O Orún resplandecia sua luz de pureza harmônica por ciclos e ciclos eternários. Até o dia que Èsú’Yangí ficara insatisfeito com a sua posição na Criação. Pois ele queria ser como Obàtálá, e ter a coroa do primogênito de Olódùmarè, o Criador.
    E, pela primeira vez no Orún e na Criação, surgiu algo de que nenhum Imolè ainda tinha conhecimento e consciência. Algo que ninguém nunca experimentara, um sentimento terrível que surgiu em Èsú’Yangí, e foi a origem de todos os males conseguintes.
    Um sentimento de tristeza perante o que Obàtálá tinha, e Èsú’Yangí não entendia o porquê de que ele não tinha. E este sentimento gerou o desejo de ter exatamente o que Obàtálá possuía, a primazia e a coroa de rei dos Imolès.
    Este sentimento, até então, não experimentado na criação era definido como uma vontade frustrada de Èsú’Yangí querer possuir os atributos ou qualidades de Obàtálá. Sendo esse sentimento o que conhecemos hoje como a INVEJA e a COBIÇA.
    Secretamente, entretanto, Èsú’Yangí procurava uma maneira de persuadir Obàtálá para que ele pudesse cometer alguma falha em sua administração no Orún e ter sua moral rebaixada perante Olódùmarè.
    Olódùmarè, o Criador onisciente, onipresente e onipotente já sabia do rigoroso teste, em que a criação tinha que passar para o aprimoramento espiritual das suas almas criadas. E principalmente sabia da importância e do papel de Èsú’Yangí nisso.
    E Olódùmarè pensou: “Eis que já começou a provação dos seres que criei, agora não depende só da minha vontade. Como eu quis que isso nunca acontecesse com os meus filhinhos amados, mas tudo tem um propósito sem propósito, sendo que agora toda alma vai ter que ser lavada com a água do arrependimento e purificada com o fogo do sofrimento, para encontrar a verdadeira felicidade e vida em mim. Mas não deixarei meus amados sozinhos, corporificarei a minha SABEDORIA, com a qual criei todas as coisas, para que eles possam encontrar auxílio nela, e ela servirá como um guia e protetor para eles me encontrarem, quando arrependidos, humildemente me buscarem”.
    Assim, Olódùmarè convocou todos os Imolès Funfuns para uma reunião na Morada dos Justos, o Àwosùn Dàra, seu palácio que até então ficava no centro do Orún. Mas excluiu Èsú’Yangí, pois ele já não era mais digno de sua presença, pelo fato de se encontrar impuro, pela maldade que se fez crescer em seu coração, não tendo mais a dignidade de entrar no Àwosùn Dàra.
    E na presença de todos os Funfuns reunidos na Morada dos Justos, Olódùmarè disse:
    — MEUS AMADOS FILHOS, É CHEGADO O MOMENTO EM QUE TODA CRIAÇÃO PASSARÁ PELO DESERTO DA ILUSÃO, ONDE AS TREVAS TENTARÃO EM VÃO OFUSCAR A LUZ. MAS, NO FINAL A LUZ PREVALECERÁ. DURANTE ESSE MOMENTO EU RETIRAREI MINHA PRESENÇA DO MEIO DA CRIAÇÃO, PARA QUE TODA VIDA SEJA PROVADA PELA FÉ EM MIM. PORÉM, CORPORIFICAREI MINHA SABEDORIA E ELA VIVERÁ COM VOCÊS, E ME COMUNICAREI COM VOCÊS ATRAVÉS DELA. ASSIM MEUS AMADOS, NÃO PODEREI MAIS PERMANECER JUNTO A VOCÊS NO FUTURO. SENDO QUE VOCÊS NÃO MAIS PODERÃO ME VER COMO ME VEEM AGORA. POIS SOU PURO E SEM MÁCULA, SENDO EU O SANTO DOS SANTOS E O JUSTO DOS JUSTOS, DEVO PERMANECER NA MINHA MORADA QUE É A CASA DOS JUSTOS.
    Assim, Olódùmarè retirou de si o seu Espírito Santo de grande e perfeita sabedoria, e o corporificou, o chamando de Ibi Keji Olódùmarè, que significa: “O Segundo Espírito de Olódùmarè, que testificou a criação”. Porém, os Funfuns o chamaram de Orunmilá, que significa: “A palavra criadora que deu luz ao mundo”. Orunmilá ganhara um palácio no Orún e sua morada fora chamada de Ifá, que significa: “Morada da Beleza”. E Olódùmarè, ao corporificar e individualizar Orunmilá, falou:
    — ORUNMILÁ, MEU ESPÍRITO SANTO DE SABEDORIA, COM VOCÊ EU CRIEI O ORÚN E SUAS ALMAS, E OS COLOQUEI NO LUGAR PRÓPRIO. VOCÊ SERÁ COMO UM FAROL PARA AS ALMAS PERDIDAS NO MAR DA ILUSÃO. SERÁ UM EDUCADOR DE ALMAS QUANDO A IGNORÂNCIA PREVALECER SOBRE ELES. E ESTARÁ DO LADO DOS JUSTOS E SE AFASTARÁ DOS INSENSATOS. A PARTIR DE AGORA, TODA ALMA QUE DESEJE ME ENCONTRAR E ESTAR EM COMUNHÃO COMIGO, DEVERÁ SER ABENÇOADA POR TI. POIS SÓ A VOCÊ, ORUNMILÁ, É CONFIADA A CHAVE QUE ABRIRÁ TODAS AS PORTAS. E TODAS AS ALMAS QUE TE HOMENAGEAREM E TE TEREM COMO PRIMAZIA POSSUIRÃO ESSA CHAVE.
    E Olódùmarè, virando-se para os Funfuns, disse:
    — MEUS AMADOS FILHINHOS, LEMBREM-SE DAS MINHAS PALAVRAS E NUNCA AS ESQUEÇAM. FAÇAM O QUE EU DIGO E VOCÊS VIVERÃO. PROCUREM CONSEGUIR SABEDORIA E COMPREENSÃO. NÃO ESQUEÇAM, NEM SE AFASTEM DO QUE EU DIGO. NÃO ABANDONEM A SABEDORIA, E ELA PROTEGERÁ VOCÊS. AME-A, E ELA LHES DARÁ SEGURANÇA. PARA SE TER SABEDORIA, É PRECISO PRIMEIRO PAGAR O SEU PREÇO. USEM TUDO O QUE VOCÊS TÊM PARA CONSEGUIR A COMPREENSÃO. AMEM A SABEDORIA, E ELA OS TORNARÁ IMPORTANTES, ABRACE-A E VOCÊS SERÃO RESPEITADOS. A SABEDORIA SERÁ PARA VOCÊS UM ENFEITE, COMO SE FOSSE UMA LINDA COROA. ESCUTEM, MEUS FILHINHOS! ACEITEM O QUE ESTOU DIZENDO E VOCÊS TERÃO UMA VIDA LONGA. EU LHES TENHO ENSINADO O CAMINHO DA SABEDORIA E A MANEIRA CERTA DE VIVER. SE VOCÊS ANDAREM SABIAMENTE, NADA ATRAPALHARÁ OS SEUS CAMINHOS, E VOCÊS NÃO TROPEÇARÃO QUANDO CORREREM. LEMBREM-SE SEMPRE DAQUILO QUE VOCÊS APRENDERAM COMIGO. A SUA EDUCAÇÃO É A SUA VIDA, GUARDE-A BEM! NÃO VÁ AONDE VÃO OS QUE SE FARÃO MAUS. NÃO SIGAM O EXEMPLO DELES. NÃO FAÇAM O QUE ELES FAZEM. AFASTEM-SE DO MAL. DESVIEM-SE DELE E PASSEM DE LADO. ESSES QUE SE FARÃO MAUS NÃO PODERÃO DORMIR SEM TER FEITO ALGUMA COISA MÁ, ELES FICARÃO ACORDADOS ATÉ CONSEGUIREM PREJUDICAR ALGUÉM OU A SI MESMOS. PORQUE PARA ELES A MALDADE E A VIOLÊNCIA SERÃO COMO COMIDA E BEBIDA. A ESTRADA EM QUE CAMINHAM AS PESSOAS DIREITAS É COMO A LUZ DA AURORA, QUE BRILHA CADA VEZ MAIS ATÉ SER DIA CLARO. MAS A ESTRADA DAQUELES QUE SE FARÃO MAUS É ESCURA COMO A NOITE, ELES CAIRÃO E NÃO PODERÃO VER NO QUE FOI QUE TROPEÇARAM. FILHINHOS, PRESTEM ATENÇÃO NO QUE EU DIGO. ESCUTEM AS MINHAS PALAVRAS. NUNCA DEIXEM QUE ELAS SE AFASTEM DE VOCÊS. LEMBREM-SE DELAS E AMEM-NAS. ELAS DARÃO VIDA LONGA E SAÚDE A QUEM ENTENDÊ-LAS. TENHAM CUIDADO COM O QUE VOCÊS PENSAM, INDEPENDENTEMENTE DAS CIRCUNSTÂNCIAS EM QUE VOCÊS SE ENCONTRAREM, POIS AS SUAS VIDAS SÃO DIRIGIDAS PELOS SEUS PENSAMENTOS. NUNCA FALEM O QUE NÃO FOR VERDADE, NEM DIGAM PALAVRAS QUE NÃO FOREM BOAS. OLHEM FIRME PARA FRENTE, COM TODA CONFIANÇA, NÃO ABAIXEM A CABEÇA, ENVERGONHADOS. PENSEM BEM NO QUE VOCÊS VÃO FAZER, E TODOS OS SEUS PLANOS DARÃO CERTOS. EVITEM A MALDADE QUE INSISTIRÁ EM REINAR NA CRIAÇÃO, ESSA ILUSÃO QUE LOGO SE FARÁ MANIFESTA NO REINO, E CAMINHEM SEMPRE EM FRENTE, NÃO SE DESVIEM NEM UM SÓ PASSO DO CAMINHO CERTO. E EM TUDO O QUE VOCÊS FIZEREM, PEÇAM CONSELHOS AO MEU ESPÍRITO SANTO DE SABEDORIA QUE AGORA SE ESTABELECEU NO MEIO DE VOCÊS.
    Enquanto acontecia o concílio promovido por Olódùmarè, reunido com os Imolès Funfuns no Àwosùn Dàra. Èsú’Yangí, percebendo sua exclusão, nem se importou e começou a colocar o seu plano malévolo em prática.
    Também era a oportunidade certa, porque todos os Funfuns não estavam presentes nas periferias do Orún.
    Èsú’Yangí percebeu que a hegemonia de Obàtálá perante todos os Imolès era porque no Orún havia um só pensamento, um só sentimento e uma só expressão.
    Então, Èsú’Yangí teve uma ideia e saiu para colocá-la em prática.
    Èsú’Yangí viu dois Imolès um ao lado do outro conversando, e disse a si mesmo: “Se eu tão somente fizer esses dois discordarem um do outro, eu quebrarei a unidade de pensamento, expressão e sentimento no Orún”.
    Rapidamente, Èsú’Yangí se disfarçou e vestiu um manto de duas cores. De um lado o manto era branco e de outro lado o manto era preto. Assim, quem olhasse Èsú’Yangí de um lado pensaria que ele estava vestindo um manto branco, e quem olhasse Èsú’Yangí do outro lado pensaria que ele estava vestindo um manto preto.
    Èsú’Yangí, vestido com o seu manto de duas cores, preto e branco, apressou-se e passou no meio dos dois Imolès, que se encontravam sentados um ao lado do outro sem nem ao menos os cumprimentar, e desapareceu. Os dois Imolès, vendo o acontecido ficaram pasmados, e um disse ao outro:
    — Que estranho aquele Imolè de manto preto que passou assim por nós sem nem nos cumprimentar. — Ele disse isso, porque sempre os Imolès saudavam uns aos outros em reverência e afeto ao se encontrarem, e continuou:
    — Quem será ele, pois nunca o vi aqui no Orún.
    — Manto preto?! — Exclamou o outro Imolè, e continuou:
    — Eu não vi nenhum Imolè de manto preto, o manto era branco.
    — O Manto era preto, irmão. — Disse o primeiro.
    — Não! O manto era branco. — Disse o segundo.
    E dessa forma eles ficaram discutindo o tempo todo. Um dizendo que o manto era preto e outro dizendo que o manto era branco. Èsú’Yangí, às espreitas, via tudo isso e se divertia muito, pois conseguira o seu objetivo com sucesso.
    Os Imolès que discutiam sobre a cor do manto acabaram brigando e foram para suas moradas, e começaram a espalhar toda aquela discórdia e confusão.
    Dessa maneira, influenciaram os outros Imolès em ideologias adversas, até que o Orún se dividiu em dois lados.
    Do lado direito estavam aqueles que defendiam a ideologia do manto preto, e do lado esquerdo estavam aqueles que defendiam a ideologia do manto branco.
    Eles construíram assim uma grande cerca, e pela primeira vez no reino da criação houve uma fronteira. Havendo uma fronteira, houve a fragmentação dos pensamentos, sentimentos e expressões. E a esfera da dualidade que movimenta todas as coisas veio à existência por obra mentirosa de Èsú’Yangí.
    Quando os Imolès Funfuns se retiraram da presença de Olódùmarè no Àwosùn Dàra, perceberam algo de errado no Orún. E viram o Àwosùn Dàra subir ao mais Alto dos altos e desaparecer. Uma energia de luz acinzentada e pesada pairava sobre o primeiro reino.
    E, observando mais, viram os Imolès separados por uma grande cerca, onde de um lado vestiam mantos pretos, e do outro lado vestiam mantos brancos. E ambos os mantos ofuscavam as suas multicoloridas luzes corporais.
    Os Funfuns, nada entendendo, foram perguntar a Orunmilá o que se sucedeu no Orún enquanto estavam ausentes. E Orunmilá disse:
    — É chegada a hora em que os seres se afastaram da verdade única e absoluta, do todo em comunhão e unidade com o seu Criador. Os seres agora repeliram de si o vivificante e inspirador Espírito Santo de sabedoria do Grande e Poderoso Criador. É por isso, meus irmãos, que me faço presente no meio de vocês corporificado. Para que também vocês não possam repelir a verdade absoluta e serem dominados pelo mal que agora insiste em existir. Falo que insiste em existir, pois o mal é uma mentira, e como toda mentira, o mal não é verdade. É por si só falsidade e ilusão, não existindo, mas fingindo existir. Porque tudo que verdadeiramente existe é somente o Criador e a sua Criação, sendo o Criador a mais pura e perfeita perfeição e verdade, tudo o que foi feito por ELE/ELA é perfeita perfeição e verdade pura e absoluta também. Assim sendo, o mal não foi criado pelo Criador. Portanto, o mal com seus frutos de sofrimentos não possui vida e luz em si próprio. Sendo mentiras que encobrem a verdadeira perfeição do Criador. Agora a dualidade se faz presente na Criação, e com ela veio o conflito, onde o ilimitado se limitará num todo fragmentado. Então, o que é belo que sempre existiu será conhecido pelo feio que pela mentira se fez existir. O bom que sempre existiu será conhecido pelo mal que pela mentira se fez existir. E a verdade que sempre existiu será conhecida pela mentira que se fez existir. Os seres se perderão nos conflitos dos seus pensamentos fragmentados, entrando no labirinto sem saída da dualidade. E assim fugirão do difícil e procurarão o fácil. Amarão o grande e desprezarão o pequeno. Valorizarão o alto e rejeitarão o baixo. Distinguirão o som do silêncio. O passado e o futuro. E em seus pensamentos dualísticos fragmentarão e nomearão todas as coisas. E a isso chamarão de inteligência, esquecendo-se da Grande e Perfeita Sabedoria do Criador, que nos ensina sem palavras. Que tudo cria e faz, nada tomando para si. Realizando todo o trabalho sem colocar seu nome neles. Terminando sua Grande Obra, mas sempre se mantendo no princípio de todas as coisas. Dando o livre-arbítrio a todos os seres. E só interferindo nos seus destinos unicamente por compaixão. Porque se assim não fosse, pelo mal que insiste em existir, nenhuma vida ainda subsistiria.
    Os Imolès Funfuns vendo uma nuvem acinzentada que encobria o Orún, que era tão belo e colorido pelas resplandecentes emanações das luzes dos corpos dos Irun Imolès, se entristeceram e choraram de tristeza pela primeira vez.
    Em vão eles tentaram reconciliar os Irun Imolès. Mas eles não queriam reconciliação. Pois cada um defendia a sua parte e filosofia, e queriam que um aderisse à verdade do outro, e só assim haveria paz.
    E os Funfuns sabiam que ambas as ideologias que eles sustentavam nada tinham de verdade. Porque a verdade une, e nunca separa.
    Passaram-se então outros ciclos eternários e o Orún se afundava mais e mais em trevas.
    Èsú’Yangí fora banido do Orún, e perdera a dignidade e a honra de vestir um manto branco, e dessa forma não era mais um dos Imolès Funfuns. Agora, Èsú’Yangí habitava nos arredores do Orún, guardando as suas fronteiras e vivendo absolutamente solitário. Pois tornara-se feio e medonho, porque a cólera e a raiva o dominaram.
    Sem a presença de Olódùmarè no Orún, também os Imolès Funfuns se dissiparam e foram viver cada um por sua própria conta. Mas sempre se reuniam de tempos em tempos na morada de Ifá, tomando conselhos e louvando o Grande Criador de todas as coisas existentes.
    Depois de alguns ciclos eternários, desde a decadência do Orún e da corrupção que imperava na criação, Olódùmarè, com toda a sua glória, sabedoria e compaixão, percebendo que o mundo que criara ficara feio e sem luz, triste e cinzento, e que o ódio dominara os seus seres de luz, resolveu, a partir dali, criar um novo reino.
    Então, Olódùmarè apareceu a Obàtálá, e disse:
    — MEU FILHO OBÀTÁLÁ, ESTOU MUITO TRISTE COM O ORÚN E COM O QUE ELE SE TORNOU. APESAR DE JÁ SABER O QUE VIRIA A ACONTECER, OS DETALHES E MODOS PERVERSOS DOS MEUS SERES ME IMPRESSIONARAM. POIS O MAL CRESCE E EVOLUI TAMBÉM, E O ABISMO SE TORNA CADA VEZ MAIS PROFUNDO E TENEBROSO. ABRIREI UMA PORTA PARA VOCÊ ENTRAR NO ÀWOSÙN DÀRA, A MORADA DOS JUSTOS. SE PURIFIQUE E VÁ AO CENTRO DO ORÚN, ONDE ANTES EU HABITAVA.
    Obàtálá sem demora partiu de sua habitação para o centro do Orún, como Olódùmarè pediu. Chegando lá, viu uma coluna de luz estendida ao mais Alto dos altos, e falou para os seus seguidores esperarem por ele ao redor da coluna de luz.
    Obàtálá adentrou na coluna luminosa e elevou-se até o Àwosùn Dàra. Estando lá, Olódùmarè ascendeu em chamas na sua frente, e falou:
    — MEU PRIMEIRO! FICO MUITO FELIZ POR TER ATENDIDO O MEU PEDIDO. EIS QUE AQUI ESTOU, E UMA GRANDE MISSÃO TE DAREI. QUERO QUE VOCÊ, MEU FILHO, REALIZE ESSE IMPORTANTE TRABALHO. OBSERVEI VOCÊ DURANTE TODO ESSE TEMPO PELO QUAL O ORÚN DECAIU, E VI QUE VOCÊ NÃO ABANDONOU AS MINHAS LEIS E OS MEUS MANDAMENTOS SAGRADOS. PORÉM, UMA ACUSAÇÃO TENHO CONTRA VOCÊ, MEU FILHO. VOCÊ SE JULGA SER MAIS DO QUE VOCÊ É, E MENOS DO QUE PODERIA SER. SE APOIANDO NA SUA PRÓPRIA SAPIÊNCIA, E DESMERECENDO A SABEDORIA DE QUEM TEM ALGO A LHE ACRESCENTAR. CUIDADO! POIS O CAJADO EM QUE VOCÊ SE SUSTENTA É O MESMO QUE LHE FARÁ TROPEÇAR.
    Olódùmarè disse isso advertindo Obàtálá do seu amor próprio. Mas Obàtálá pensara que Olódùmarè falara do seu òpá-sóró, que ele sempre trazia nas mãos. E Olódùmarè continuou a dar-lhe instruções:
    — AQUI ESTÁ UM SACO COM O ELEMENTO PRIMORDIAL DA EXISTÊNCIA, O ÀPÒ-IWÀ, PEGUE-O E VÁ À MORADA DE IFÁ E PEÇA CONSELHOS A ORUNMILÁ. IFÁ LHE DIRÁ O QUE VOCÊ DEVE FAZER PARA CRIAR O MEU NOVO REINO, QUE SERÁ CHAMADO DE ÀIYÉ. É ESSA A MISSÃO QUE TE DOU.
    Obàtálá pegou o saco primordial da existência, o àpò-iwà, e retirou-se da presença de Olódùmarè, descendo da coluna de luz no Àwosùn Dàra até o centro do Orún. Lá, se ajuntou aos seus seguidores e sem demora foi para a morada de Ifá, para pedir conselhos a Orunmilá, o Grande Oluwò, O Senhor da Sabedoria e do Destino.
    Ainda no centro do Orún, Obàtálá deu uma volta ao redor de si mesmo, a fim de observar toda a circunferência do primeiro reino. E um sentimento estranho que ainda nenhum ser criado sentira apossou-se dele.
    Obàtálá começou a sentir uma grande satisfação pela sua capacidade de realização, e um sentimento elevado de dignidade pessoal, que logo se transformou em um senso de superioridade sobre os demais seres do Orún, levando-o a pensamentos de ostensivas arrogâncias, de modo que ele mesmo se colocou no centro do universo e da criação, em pretensões de superioridade aos demais. Por se achar digno de ser o único Imolè incumbido para criar o novo reino, o Àiyé…
    Esse sentimento é o que nós conhecemos como: o ORGULHO, a SOBERBA, a VAIDADE, a OSTENTAÇÃO de si mesmo, e tudo o que resume a manifestação do EGOÍSMO.
    Obàtálá, centrado em si mesmo, disse aos seus seguidores, os outros Imolès:
    — Como é grande a missão que o mais Alto dos altos me confiou. Isso comprova o meu grande poder, a fim de mostrar a todos a minha grandeza e a minha glória. De agora em diante serei conhecido como Òrínsànlá. — que quer dizer o “O Grande entre Todos os seres do Criador”.
    E todos os seus seguidores o reverenciaram, e juntos partiram para a morada de Ifá…
    Ao chegar à morada de Ifá. Obàtálá, que agora se chamava Òrínsànlá, pensava consigo mesmo: “Por que Eu, Òrínsànlá, filho unigênito de Olódùmarè, tenho que pedir conselhos a Orunmilá?”.
    Mas logo percebera que precisava de instruções, até porque ele mesmo não sabia onde e como criaria o Àiyé. E o que deveria fazer com o saco da existência, o àpò-iwà, que continha o elemento primordial da criação.
    Então, só por conveniência e interesse próprio, Òrínsànlá fora pedir conselhos a Orunmilá.
    Nos portões da morada de Ifá, Òrínsànlá arrogantemente falou ao porteiro:
    — Vá e diga a Orunmilá que eu, Òrínsànlá, o primeiro entre todos os Imolès Funfuns e toda a criação, o unigênito de Olódùmarè, pelo qual recebi do mais Alto dos altos a incumbência de criar o novo reino, desejo-lhe falar.
    Apressadamente, o porteiro da morada de Ifá foi ao encontro de Orunmilá. E, antes que ele pudesse abrir a boca para falar, Orunmilá lhe disse:
    — Diga a este, que eu não conheço nenhum Imolè de nome Òrínsànlá.
    O porteiro foi e disse a Òrínsànlá o que lhe foi dito. E Òrínsànlá disse ao porteiro:
    — Vá e fale a Orunmilá que Obàtálá, que agora se chama Òrínsànlá, é quem aqui está.
    E, antes que o porteiro pudesse virar-se e ir, Orunmilá lá estava. E disse:
    — Entre, Obàtálá, que agora pelo seu próprio poder se chama Òrínsànlá, tenho conselhos a te dar. Para que sejas vitorioso na empreitada que Olódùmarè te confiou.
    Òrínsànlá e os seus seguidores entraram na morada de Ifá. E Orunmilá lhe falou:
    — Vejo um grande cajado que estava em pé diante do mais Alto dos altos cair. Mas que, ao cair, pequenos brotos surgiram de sua cana, e tornou-se um grande arbusto. E muitos animais rastejantes, como também insetos e pequenas aves dos céus fizeram morada nele. E uma fonte de águas borbulhantes ali brotou, e dela jorrou um grande rio. E no lugar onde esse arbusto floresceu surgiu uma grande floresta. E um jardim foi posto ali, donde proveio toda a vida animada e inanimada, inteligente e de instinto que há de existir na face da terra.
    — Do que você está falando? — Perguntou Òrínsànlá.
    — De você, filho de Olódùmarè. — Respondeu Orunmilá.
    — Não posso perder tempo com suas parábolas, Ó Grande Oluwò. Vamos, me fale o que eu tenho que fazer para criar o novo reino. — Disse Òrínsànlá.
    — “Owe ni Ifá Ipa òmòràn ni ímò ó”, Ifá fala sempre por parábolas e sábio é aquele que sabe entendê-las. Vamos ver o que o oráculo tem a falar. — Disse Orunmilá.
    E, jogando para o alto os seus dezesseis búzios, os Odus, quinze dos dezesseis deles caíram no chão e apenas um flutuou. O primeiro Odu de nome Ejiogbe. E falou Orunmilá:
    — Eis que você será testado e passará por uma grande dificuldade em sua jornada, pois assim Olódùmarè, o Deus Supremo, determinou. Você deverá ir até a fronteira dos mundos no Òrun Àkàsò. Para que alcance o lugar determinado por Olódùmarè, em que você criará o Àiyé. Lá você encontrará um grande pilar, o Òpó-Òrun-oún-Àiyé. É lá que você deverá realizar esse grande trabalho. Aconselho-te que leve consigo outro saco com alguns itens e elementos, para que sejas vitorioso em sua missão. Pois você sabe muito bem que o Òrun Àkàsò, o reino astral, tornou-se a prisão etérea do acusador dos nossos irmãos. Aquele disseminador de ofensas e pai de toda mentira, que fora banido do meio dos Imolès Funfuns. Você sabe muito bem de quem eu falo, o pai de toda desarmonia, Èsú’Yangí.
    E, tomando a palavra, Òrínsànlá disse:
    — Eu não temo Èsú’Yangí. E também não preciso de sua magia e dos seus itens e utensílios, Ó Grande Oluwò. Eu, Òrínsànlá, primogênito entre todos os Imolès Funfuns, filho unigênito de Olódùmarè, provarei para você que derrotarei aquele traidor, com o poder e a magia do meu òpá-sóró.
    — Mas o que eu tenho a lhe dar, Òrínsànlá, será de grande valia para que sejas bem-sucedido em sua missão. — Disse Orunmilá.
    — Você, Ó Grande Sacerdote de Ifá, já me deu o bastante para o sucesso da minha missão. A localização exata para eu realizar o trabalho. A respeito de Èsú’Yangí, cuido eu. — E Òrínsànlá, falando isso, retirou-se da morada de Ifá.
    Orunmilá, avistando Òrínsànlá partir, disse consigo mesmo: “Eis que este caminha para o seu próprio fracasso. Pois rejeitou os conselhos de quem tem algo a lhe acrescentar. O seu orgulho o cegou, e eis que caminha em direção ao precipício. A sua grande loucura o levará à cova”.
    Orunmilá, sabendo que Òrínsànlá fracassaria em sua missão por não ouvir os seus conselhos, mandou os seus seguidores chamar Odùduwà. Pois Orunmilá acreditava que se Odùduwà fosse falar com Òrínsànlá, talvez ele pudesse corrigir o seu erro e seguir os conselhos do grande oráculo de Ifá.
    Odùduwà sem demora partiu com os seguidores de Orunmilá para a morada de Ifá. Chegando lá, Orunmilá lhe disse:
    — Odùduwà, a cabaça de onde Olódùmarè jorrou a vida, você será a Grande Mãe da existência material, e os novos seres que lá viverem te chamarão de MÃE NATUREZA. Eis que Obàtálá, que por amor a si próprio agora se chama Òrínsànlá, está prestes a tropeçar pelos seus próprios pés. Pois rejeitou os conselhos de Ifá, e daquele que tem sabedoria de lhe instruir. Peço-te, pelo amor que você tem por ele, que vá e o ajude. Para que ele possa se proteger de si mesmo e, assim, possa se desviar do caminho do precipício. Mas, se ele não te ouvir, e fracassar na sua missão, então você deverá realizar a Grande Obra do mais Alto dos altos. Pegue este saco, que contém um camaleão, cinco galinhas das que têm cinco dedos em cada pé, cinco pombas brancas e uma corrente de dois mil elos. Vá e siga Òrínsànlá às espreitas. Ele te conduzirá ao local exato para realizar a Grande Obra.
    E Orunmilá, pegando os seus dezesseis Odus, os jogou para o alto, e o segundo búzio, Oyeku Meji, que é a contraparte de Ejiogbe flutuou. Orunmilá então disse:
    — O mesmo que vem contra Òrínsànlá virá contra você. Mas, ao contrário do que acontecerá com Òrínsànlá, você obterá a vitória contra o acusador dos nossos irmãos. Ele tentará você para que tropece no caminho, você necessitará de ajuda, e no momento certo ela virá. Também não se preocupe de como você deverá realizar a Grande Obra. Ouça o seu coração e vai entender, pois toda inspiração vem do ouvir o coração…
    Odùduwà, retirando-se da morada de Ifá, convocou os outros Imolès Funfuns e partiu ao encontro da comitiva de Òrínsànlá. Alcançando-os no Òna Òrun, a via que dava acesso para o Òrun Àkàsò. E Odùduwà disse a Òrínsànlá:
    — Obàtálá, que por amor a si próprio agora se chama Òrínsànlá, viemos ao seu encontro para ajudá-lo em sua missão.
    — Odùduwà, Eteko, Akiré, Olúorogbo, Ògiyán, Olufan, Oko, Òkè, Lòwu, Ajagemo, Olúwofín, Pópó, Eguin, Jayé, Olóbà, Obaníjìta, Alajere, Olójó, Oníkì, Onírinjà, Àrówú, Ko e os demais Imolès Funfuns. Fico feliz em saber que vocês estarão comigo, me assistindo na criação do novo reino. Pois a mim foi confiada a honra, o poder e toda glória de criar o novo reino. Para isso terei que combater o meu maior inimigo e o malfeitor de todos os Imolès, que com ajuda de vocês serei vencedor. — Disse Òrínsànlá aos Imolès Funfuns.
    E Odùduwà lhe disse:
    — O poder, a honra e a glória não vêm de ti, Ó Grande Imolè, ela vem do mais Alto dos altos. E você rejeitou os conselhos provindos do grande oráculo. Viemos aqui para ajudar você a combater o seu maior inimigo, que pelo que vemos não é Èsú’Yangí, e sim você mesmo. Ouça o nosso conselho e siga as instruções de Ifá.
    — Eu, o Grande e o Primeiro Imolè, Òrínsànlá, a quem o mais Alto dos altos deu a missão de realizar a sua Grande Obra, tenho que ouvir os seus insultos. Saiam diante de mim, porque tenho um grande trabalho a realizar.
    Dizendo isso à comitiva dos Imolès Funfuns, Òrínsànlá virou-se e, sem demora, seguiu seu rumo em direção ao Òrun Àkàsò.
    Odùduwà e os outros Imolès Funfuns observaram a comitiva de Òrínsànlá partir. E Odùduwà disse aos demais:
    — O oráculo me falou que Òrínsànlá não vai ter sucesso nessa empreitada. Vamos segui-los às escondidas e vejamos o que acontecerá.
    Chegando aos portões do Òrun Àkàsò. Que é a faixa etérea, sendo o reino astral entre o Orún e o Òpó-Òrun-oún-Àiyé, delimitando o primeiro reino e o caos, Òrínsànlá, com sua impetuosidade, deu ordem aos seus súditos que abrissem os portões. Mas logo sem demora Èsú’Yangí, o banido que se tornará o porteiro e guardião das fronteiras dos mundos, surgiu e falou:
    — Quem ousa abrir os portões do Òrun Àkàsò sem me pedir permissão e me trazer oferendas.
    — Desde quando Eu, o filho unigênito de Olódùmarè, o Primeiro entre os primeiros, tenho que pedir permissão a um velho Imolè banido e traidor? — Disse Òrínsànlá.
    — Obàtálá, por sua causa vim eu a morar aqui neste ermo. E ainda você tem a coragem de vir aqui me desafiar? Saiba que o Òrun Àkàsò é o meu reino, e só eu decido quem entra e quem sai. E ninguém pode aqui entrar sem me render homenagens. — Disse Èsú’Yangí.
    — Saia da minha frente, seu traidor, ou eu, Òrínsànlá, te farei desaparecer com o poder do meu òpá-sóró. — Disse Òrínsànlá severamente.
    — Pois bem. Que seja feita a sua vontade, Ó Òrínsànlá. Pois não precisarei guerrear contigo, nessa batalha eu já sou vencedor. Pois o mal que agora há em ti é a brecha que eu tanto esperava, para que eu possa habitar finalmente em tua morada. — Èsú’Yangí, dizendo isso, deu uma sinistra gargalhada e sumiu diante da vista de todos.
    E assim Obàtálá, que por amor a si mesmo se fez Òrínsànlá, abriu sem permissão os portões do Òrun Àkàsò e seguiu caminho adentro.
    E, assim, desprezou as ordens de Olódùmarè, recusando os conselhos do oráculo de Ifá e repudiando Èsú’Yangí, que agora o dominara.
    Èsú’Yangí, olhando para o alto, falou, com o intuito que Olódùmarè ouvisse:
    — Aí está, Ó Grande Olórùm, o seu filho amado pelo qual Tu tanto te orgulhas. Desprezando e rejeitando as suas leis e mandamentos. Que diferença tem este de mim, Ó Grande Olódùm. Sei que, como conheces tudo e sabe do destino de todas as coisas, sabíeis Vós que isso viria a acontecer, e que seu protegido fracassaria. Se encontrando ele agora nos meus domínios e sob as minhas regras. Diga-me, Ó Grande Oló, o que eu devo fazer com ele. Pois bem sei eu que Tu o amas. E de que nada posso fazer com este sem que Tu o permitas.
    E uma forte voz, como de uma trombeta, potente como um trovão, vindo do mais Alto dos altos, falou:
    — ACUSADOR. SEI QUEM É VOCÊ, E SEI QUEM É O SEU IRMÃO. VOCÊ PECA CONTRA MIM, PORQUE SABE MUITO BEM O QUE FAZ A TODO O MOMENTO, E POR QUE O FAZ. JÁ O SEU IRMÃO APENAS FALHA CONTRA MIM, POIS ELE NÃO SABE O QUE ESTÁ FAZENDO. POR IMATURIDADE ELE FAZ ESSAS COISAS, E POR ISSO AQUI ESTOU PARA CORRIGI-LO. MAS VOCÊ, Ó ASTUTO, FAZ TODAS AS SUAS MALDADES COM A MAIS PLENA CONSCIÊNCIA, E CÁLCULO, E MAQUINAÇÕES. ESTA É A GRANDE DIFERENÇA ENTRE TI E O TEU IRMÃO. FUI EU QUE O ENTREGUEI EM SUAS MÃOS. APENAS NÃO O DANIFIQUE, MAS FAÇA COM ELE DE ACORDO COM O SEU BEL-PRAZER, PARA QUE SE ACUMULE A SUA MALDADE E PECADO. E NO DIA DA MINHA IRA EU POSSA COBRÁ-LA DE TI. — E, depois que a Voz do mais Alto dos altos falou isso, houve um grande silêncio e calmaria.
    Èsú’Yangí, sabendo que Òrínsànlá estava sob o seu domínio, apressou-se em lhe fazer o mal. Então, Èsú’Yangí estendeu o seu cajado de três pontas, em que cada ponta continha um crânio de bode com chifres envergados. E dos crânios de bode saíram uma tenebrosa fumaça preta, que seguiu ao passo de Òrínsànlá.
    De repente, ao redor da comitiva do Grande Imolè Funfun, surgiu uma névoa tenebrosa e assustadora. Que por um instante foi inalada por Òrínsànlá.
    Ao inalar aquela fumaça preta, Òrínsànlá ficou completamente desorientado no Òrun Àkàsò, que logo se transformara num sombrio deserto de areias, pedras e grandes rochas.
    Òrínsànlá e seus seguidores caminharam arduamente por longos tempos, que pareciam eternidades. Então, pararam para descansar debaixo de uma grande palmeira, o Igí-òpe.
    Ao observar aquela grande árvore, Òrínsànlá e seus seguidores ficaram abismados. Pois nunca vira algo assim parecido no Orún.
    Curioso, Òrínsànlá pegou o seu òpá-sóró e cravou a sua base dentro da grande palmeira. Então, uma seiva jorrou de dentro do seu tronco, o emun. E, vendo aquele sumo, o emun, ser derramado, um encanto saiu do Igí-òpe e dominou Òrínsànlá.
    De repente uma sensação desconfortante de insatisfação, iniciada por estímulos originados dentro de Òrínsànlá, o dominou. Uma sensação horrível que jamais nenhum outro Imolè sentira antes.
    Òrínsànlá desejava fortemente pôr algo dentro dele. Algo que faltava e que ele não sabia o que era. Algo que o deixava irritado e desesperado por não o ter. Essa sensação é o que conhecemos como SEDE. Òrínsànlá estava sedento.
    Òrínsànlá, ao ver o emun derramando pelo tronco do Igí-òpe, sentiu-se fortemente atraído, necessitado e desejoso do líquido. Naquele momento e naquela situação era o que ele mais queria.
    Então, ele jogou todas as coisas que carregava para fora de si. Como o seu manto, o seu cajado e também o saco da criação, que continha o àpò-iwà. E, correndo desesperadamente, debruçou-se embaixo da grande palmeira e começou a beber freneticamente todo o suco que escorrera dela.
    Porém, o que Òrínsànlá não sabia é que o emun é um sumo fermentado contido no tronco do Igí-òpe, com um alto teor alcoólico.
    Saciando sua sede, Òrínsànlá apresentou um comportamento inquieto, estava excitado e falante como um macaco. Mas ainda consciente dos seus atos e palavras, falando aos seus seguidores eloquentemente, atingindo níveis elevados de persuasão, como jamais eles o ouviram antes.
    Mas, passado um determinado tempo, Òrínsànlá tornava-se mais confuso, e como um leão ficara nocivo e voluntarioso, agindo irrefletida e violentamente. Fazendo com que os seus seguidores tomassem certa distância.
    E logo mais lá estava Òrínsànlá como um porco, completamente atirado ao chão, molhado pelo emun, que fizera uma poça no solo.
    Òrínsànlá estava em estado de sono profundo, caído ali debaixo do Igí-òpe, descuidado. Jamais nenhum Imolè sentira isso, que é o que conhecemos como a EMBRIAGUEZ.
    Os outros Imolès, seus seguidores, vendo aquele estado de Òrínsànlá. Ficaram assustados e perplexos diante de tais acontecimentos e transformações. Nunca viram aquilo antes e nada entendiam.
    Então, temerosamente se aproximaram com muito cuidado do corpo do seu mestre estendido ao chão. E começaram a observá-lo por longos tempos, e viam que nada acontecia. Pois os Imolès não têm a necessidade do sono, nem um período de repouso para o corpo e a mente, como nós seres humanos. Sendo este estado experimentado pela primeira vez por Òrínsànlá.
    Enquanto os seguidores de Òrínsànlá o observavam. Formou-se no meio deles um pequeno redemoinho de fumaça acinzentada, que evoluiu e logo se transformou em um corpo enegrecido, dando forma a Èsú’Yangí. Este rapidamente pegou o saco da existência, que continha o àpò-iwà, e da mesma forma que surgiu desapareceu.
    Èsú’Yangí mais uma vez elevou sua voz ao mais Alto dos altos, atestando:
    — Ó Grande e Poderoso Oló, aqui está o àpò-iwà, comprovando a falha do teu amado filho na missão que tu o deste.
    E uma grande voz veio do mais Alto dos altos, dizendo:
    — DEPOSITA O CONTEÚDO DO SACO EM UMA DE SUAS CABAÇAS QUE TRAZ NA CINTURA. SELA-O, E ENTREGUE A CABAÇA A QUEM PRIMEIRO TE PEDIR PERMISSÃO PARA ENTRAR.
    E assim Èsú’Yangí o fez, se posicionando nos portões das fronteiras dos mundos.
    Ainda na via Òna Òrun que dava acesso ao Òrun Àkàsò, Odùduwà e os outros Imolès Funfuns aguardavam um sinal do fracasso de Òrínsànlá em sua missão. Quando, de repente, eles avistaram ao longe um ser de aparência franzina e de pele enrugada, cabelos cinza e andar descompassado. Este ser de aparência estranha, estava caminhando como se viesse do Òrun Àkàsò. E, aproximando-se da comitiva dos Imolès Funfuns, este ser de aparência estranha os cumprimentou, e disse:
    — Saudações, grandes Imolès, eu sou Olónan, o senhor dos caminhos. Não se assustem com a minha forma decadente. Venho aqui a mando de Olódùmarè, para lhes dizer que Òrínsànlá falhou em sua missão. Prossigam até o Òrun Àkàsò e levem os presentes ao porteiro, e sereis bem-sucedidos.
    Falando isso, o velho prosseguiu caminhando e desapareceu. Entretanto, o que os Imolès Funfuns não sabiam é que aquele ser estranho era Èsú’Yangí empossado.
    Chegando aos portões das fronteiras dos mundos, o Òrun Àkàsò, Odùduwà, que carregava o saco das oferendas, que contém um camaleão, cinco galinhas das que têm cinco dedos em cada pé, cinco pombas brancas e uma corrente de dois mil elos, apressou-se na frente dos outros Imolès Funfuns, e disse em alta voz:
    — Porteiro! Peço permissão para passar. Eu e meus irmãos Funfuns.
    — Ninguém pode entrar no meu reino sem primeiro me render oferendas. — Disse o Porteiro.
    — Aqui estão as suas oferendas. — Falando isso, Odùduwà deixou o saco com as oferendas que Orunmilá lhe deu aos pés do portão, e se afastou.
    O Porteiro se aproximou, pegou o saco com as oferendas e, abrindo-o, viu os presentes que lhe foram ofertados. E disse:
    — Odùduwà, se aproxime. — Odùduwà foi até o Porteiro, e este lhe disse. — Dá-me o teu braço. — Odùduwà estendeu o seu braço e o Porteiro retirou do saco a corrente de dois mil elos. E, retirando um dos elos, colocou em seu pulso, e disse. — Faço isso como um sinal eterno, comprovando que você obteve a graça de realizar a Grande Obra. — Depois o Porteiro lhe deu o restante da corrente, e ainda uma galinha das que têm cinco dedos em cada pé, um pombo e o camaleão, e lhe disse:
    — Tome isso, pois eu costumo agradar àqueles que me agradam e menosprezo aqueles que me menosprezam. Aqui, também, está a cabaça contendo o àpò-iwà. Todos esses utensílios que lhe dei serão importantes para a boa conclusão do seu trabalho. Entre e prossiga na sua jornada.
    Os portões do Òrun Àkàsò se abriram, e Odùduwà, junto aos demais Imolès Funfuns, entraram e prosseguiram em direção ao grande pilar, que ficava nas bordas das fronteiras dos mundos, o Òpó-Òrun-oún-Àiyé.
    Entretanto, como estava previsto pelo oráculo de Ifá, Èsú’Yangí não deixaria Odùduwà passar livremente pela sua morada sem lhe fazer passar por dificuldades e provações.
    Quando a comitiva dos Imolès Funfuns prosseguia pelo grande caminho reto, este se bifurcou logo mais à frente. Sendo que um dos caminhos estava iluminado por uma cor vermelha, e o outro estava iluminado por uma cor azul. E na encruzilhada dos dois caminhos estava ali bem no meio um ser de forma feminina vestida com uma grande túnica púrpura de um vermelho escarlate. E, quando a comitiva dos Funfuns se aproximou, Odùduwà, então, disse:
    — Quem é você?
    — Não está me reconhecendo. Nos encontramos na via Òna Òrun. Sou eu, Olónan, o senhor dos caminhos quem vos fala.
    — Mas você está diferente, como pode isso ser assim. — Disse Odùduwà.
    — Posso ser o que quero, e ter a forma de qualquer coisa que penso ou desejo. — Disse Olónan.
    — Você, que é o senhor dos caminhos, pode me ajudar a escolher o caminho certo para chegar no Òpó-Òrun-oún-Àiyé? — Falou Odùduwà.
    — Um caminho é o caminho da verdade, e lá se encontra o Òpó-Òrun-oún-Àiyé, que pode ser o vermelho ou o azul. E o outro caminho é o caminho da mentira. E lá nada se encontra. E esse caminho também pode ser o azul ou o vermelho. Sendo que eu provim de um dos dois caminhos. O enigma é: se eu vim do caminho da verdade, eu te falarei apenas a verdade, e lhe direi qual o caminho certo a tomar. Mas, se eu vim do caminho da mentira, eu te falarei apenas a mentira, sendo que te conduzirei ao caminho errado, onde as trevas os aguardam. Você só pode me fazer apenas uma pergunta. Caso você acerte, saberá qual o caminho certo a tomar para chegar ao Òpó-Òrun-oún-Àiyé. Se errar, você e seus irmãos ficarão presos para sempre nas trevas, e atormentados pela escuridão. — Disse assim Olónan.
    Diante daquele enigma, Odùduwà e os demais Imolès Funfuns sabiam que Olónan verdadeiramente era Èsú’Yangí disfarçado.
    Então, eles se reuniram para debater o assunto, e logo chegaram a uma conclusão. Sendo que Oko, um dos Funfuns de grande sabedoria, que conhecia e manipulava bem as palavras e seus enigmas, disse aos demais:
    — Irmãos, agora ouçam com atenção, a chave para essa questão é muito simples. A pergunta correta a se fazer é… (e cochichou bem baixinho para todos). Pois, se Olónan proveio do caminho da mentira, e este for mentiroso, e falar que o caminho é azul, então, saberemos que o caminho azul é o verdadeiro. Pois ele estará mentindo, porque ele veio do caminho vermelho. E se por acaso ele veio do caminho da verdade, e, deste modo, for verdadeiro, e nos falar que o caminho é azul, é este o caminho correto! Porque ele veio do caminho azul. E essa regra vale também se ele disser que o caminho é vermelho. Aí então, saberemos que o caminho azul é o falso caminho, e neste caso o caminho vermelho é o verdadeiro caminho. Portanto, amados irmãos, independentemente do que ele diga, sendo verdade ou mentira. A verdade sempre prevalecerá!
    A maioria dos Imolès Funfuns estando de acordo, e outros ainda em dúvida, não entendendo a explicação de Oko, decidiram então fazer como ouviram, e Odùduwà adiantou-se, e disse a Olónan:
    — Não adianta se esconder em disfarces, ó acusador e traidor dos nossos irmãos. Bem sei quem és, ó enganador.
    Olónan, quando viu o seu disfarce cair, tomou a sua originária forma de Èsú’Yangí, e disse:
    — Odùduwà, como eu te amava. Mas agora você e seus irmãos serão os meus prisioneiros para sempre. Pois quem é sábio o bastante para decifrar os meus enigmas? E, mesmo que consigas desvendá-lo, passarás aqui uma eternidade de ciclos, até a destruição total do Orún. — E, dando uma grande e sinistra gargalhada, calou-se.
    — Acusador e traidor dos nossos irmãos, eis aqui a minha pergunta: qual a cor do caminho de onde você veio? — Disse Odùduwà, respondendo ao enigma.
    Èsú’Yangí, vendo que Odùduwà perguntou sabiamente, sendo que a verdade prevaleceria não importando qual cor ele desse como resposta, e assim, tendo sido decifrado inteligentemente o seu enigma, viu-se encurralado na pergunta, e derrotado desapareceu como fumaça no ar.
    Então, o caminho, que antes era bifurcado, converteu-se em uma reluzente estrada dourada, de brilho tão intenso, que, quando os Funfuns pisavam nela, seus pés desapareciam submersos em tamanha luminosidade.
    A comitiva dos Imolès Funfuns, liderada por Odùduwà, avistou ao longe um monólito na figura de um obelisco, constituído de um pilar de pedra única em forma quadrangular alongada e sutil, que se afunila ligeiramente em direção a sua parte mais alta, formando uma pequena pirâmide em sua ponta.
    Era o Òpó-Òrun-oún-Àiyé
    Chegando no Òpó-Òrun-oún-Àiyé, Odùduwà falou aos seus irmãos Funfuns:
    — Eis aqui o lugar exato onde iniciaremos o nosso grande trabalho de criar o novo reino.
    Mas o que agora incomodava Odùduwà era o fato de não saber como fazer esse grande trabalho. Pois Odùduwà continha em suas mãos todos os elementos para a Grande Obra, mas faltava a explicação exata para realizá-la.
    Então Odùduwà meditou e recordou-se das palavras de Orunmilá, o sacerdote de Ifá, que dizia: “Escute o seu coração e vai entender”.
    Odùduwà fechando os seus olhos, centrou-se em si mesma, buscando o mais profundo do seu íntimo, até alcançar as vias que levam ao coração. E, ainda meditando, perguntou aos seus irmãos quais eram os elementos que continham o saco para a realização da Grande Obra. E os Funfuns responderam:
    — Temos a corrente e ainda uma galinha, um pombo e o camaleão. E a cabaça contendo o elemento primordial, o àpò-iwà.
    Odùduwà, vendo um dos elos da corrente preso em seu pulso, disse:
    — Dá-me a corrente.
    E, pegando-a, prendeu uma das pontas no elo do seu pulso. E a outra ponta prendeu no grande pilar, o Òpó-Òrun-oún-Àiyé.
    Então, pegou o saco com o restante dos conteúdos e pulou para o caos. Ficando pendurada pela corrente, em meio ao nada, Odùduwà assim pensou: “Lançarei primeiro nesta vastidão o elemento primordial, que foi dado pelo mais Alto dos altos”.
    Odùduwà retirou a cabaça que continha o àpò-iwà, que estava dentro do saco. E, quebrando-a com uma das mãos que se encontrava livre, fez com que o seu conteúdo caísse sobre o vazio do nada, que escorregava leve e lentamente pelos seus dedos.
    Esse conteúdo, o àpò-iwà, é o que conhecemos hoje como as minúsculas pedras que formam os grãos de areia. O que chamamos de TERRA.
    O àpò-iwà, ao cair, formou uma base flutuante sobre a vastidão do nada, e continuou se estendendo até formar uma grande montanha. Odùduwà, vendo aquela montanha, sentiu a necessidade de jogar a galinha.
    E, lançando-a sobre a montanha recém-formada, a galinha de cinco dedos em cada pé começou a ciscar e espalhar a terra ao redor. Deixando somente uma grande elevação de terra no centro, formando uma grande montanha plana.
    Odùduwà, vendo o que a galinha fizera à terra, sentiu a necessidade de descer. Mas, temendo que a terra não fosse firme, jogou sobre ela o cameleão.
    O camaleão, ao cair sobre a terra, começou a andar lentamente e suas pisadas pilavam a terra fofa, as tornando mais condensadas e firmes. Sendo que em alguns lugares a terra descia extremamente, em quanto em outros lugares a terra se mantinha firme, formando grandes buracos e ecos na terra, junto a grandes platôs.
    Vendo que a terra era realmente firme, Odùduwà largou-se da corrente e saltou caindo com um dos pés sobre a terra recém-criada. E assim Odùduwà pisou no novo reino, deixando sobre a terra a sua primeira pegada, que até hoje existe na nossa Terra-Mãe África. O nome dessa primeira pegada deste ser alado gigante é Esè-Ntaiyé-Odùduwà.
    Quando os Imolès Funfuns viram Odùduwà caminhar sobre a terra, que era o segundo reino recém-criado, ficaram maravilhados. Então, choraram de grande emoção. E de lá de cima das bordas do Orún as suas lágrimas preencheram e nutriram toda a terra, dando origem às chuvas. E as águas ocuparam os grandes buracos formados pelas pegadas do camaleão, o que veio originar os grandes oceanos de hoje.
    Odùduwà, então, retirou do saco das oferendas a pomba. E, como um sinal de agradecimento pela maravilha da criação, lançou-a no ar em reverência ao mais Alto dos altos. A pomba, ao voar batendo as suas asas, lançou sobre a terra o vento e espalhou as águas. E sobre a terra formaram-se as lagoas e os lagos. Dando origem aos berços dos vales com seus planaltos e planícies.
    E por detrás do grande monte uma forte luz raiou, subindo lentamente, e clareando pela primeira vez o segundo reino. Era Olódùmarè em sua nave em forma de disco de fogo, e assim o mais Luminoso dos luminosos disse:
    EU SOU!
    E da terra começaram a brotar ervas diversificadas. E a vida se expandiu sobre a terra. E, assim como fizera no primeiro dia, todos os dias Olódùmarè visita a sua criação em seu disco de fogo, dando voltas em toda a Terra e depois partindo para sua morada, o Àwosùn Dàra.
    E Odùduwà concluiu a Grande Obra e criou o novo reino.
    Assim, pelo sucesso do seu trabalho, Olódùmarè deu a Odùduwà o título de Olófin. Que significa “O Senhor do Palácio”, por assim criar o novo mundo. Assim Olófin Odùduwà criou o novo reino em lugar de Obàtálá…
    Nesse ínterim, enquanto Olófin Odùduwà e os outros Funfuns contemplavam a criação do novo reino. Obàtálá, que por amor a si próprio se fez Òrínsànlá, despertou do seu sono profundo.
    Quando retornou a si, atordoado e ainda muito confuso, rapidamente levantou-se, vendo os seus seguidores o cercando. E, não se lembrando de muita coisa, perguntou a eles o que lhe se sucedeu. Então, os seus seguidores começaram a lhe relatar todo o acontecido depois que ele bebeu o néctar da palmeira.
    Nisso, enquanto os seus seguidores ainda falavam. Òrínsànlá foi com a mão em sua cintura para pegar o àpò-iwà, e logo percebeu que o saco não se encontrava mais ali. E de súbito perguntou aos seus seguidores:
    — Cadê o saco com o elemento da criação que o mais Alto dos altos me deu?
    Os seus seguidores, então, contaram tudo o que lhe sucedera depois do sono.
    Rapidamente, Òrínsànlá, junto aos seus seguidores, foi ao local indicado por Orunmilá, onde se deveria criar o novo reino, o Òpó-Òrun-oún-Àiyé.
    Chegando lá, e para sua maior dor, Òrínsànlá teve uma visão surpreendente do novo reino criado. E ali mesmo, segurando a grande pilastra, Òrínsànlá sentiu pela primeira vez um complexo de sentimentos que ainda nunca foram sentidos na criação.
    Uma dor profunda do âmago do seu íntimo o dominou, sentiu-se tão fraco que não mais conseguia erguer-se em seus pés, senão ficar de joelhos. Seus olhos se fecharam por não poder olhar mais os seus seguidores, pois diante deles se sentia fracassado. Lembrara-se de todas as coisas que fizera de errado, principalmente por não ouvir os conselhos do oráculo. E as recordações das palavras de Orunmilá e Odùduwà eram-lhe como estacas cravadas em seu coração.
    Essa dor era tão forte, que o sufocava gravemente.
    Òrínsànlá, que antes se sentira o maior entre todos os seres criados, agora se sentiu o pior entre todos os seres da criação.
    A maior das dores ainda estava por vir, era a de encarar Olódùmarè. Pois fracassara na missão que o mais Alto dos altos lhe confiou, e pela qual tanto se orgulhava.
    Ali mesmo, aos pés do Òpó-Òrun-oún-Àiyé, Òrínsànlá sentiu a vontade de querer desaparecer. Depois que experimentara o sono desejou nunca acordar, quem dera antes tivera dormido para sempre, e de ir embora, e nunca mais voltar.
    Um vazio imenso o dominara. Um desespero o cobrira. Uma impotência. Uma inutilidade de si mesmo o despira. Sentiu-se pela primeira vez numa dor interna tão forte e agonizante. E, em todos esses complexos sentimentos que deram origem ao que hoje conhecemos como a CULPA, a VERGONHA, a TRISTEZA, a MELANCOLIA, o ARREPENDIMENTO, o FRACASSO e todos esses demais sentimentos derivados da DERROTA, que afligem a alma dos seres pensantes e dominantes sobre esta terra.
    Rasgando suas vestimentas e depois caído ao solo, Òrínsànlá, sussurrando dolorosamente, disse aos seus seguidores:
    — Por favor, eu já não tenho mais forças para caminhar, me levem ao centro do Orún. Depois me deixem lá e vão procurar outro mestre, pois eu já não sou mais digno desse título.
    Seus seguidores, vendo o estado do seu senhor, entristeceram-se e fizeram tudo quanto este o pediu. Carregaram-no e caminharam em direção aos portões que davam acesso ao Orún.
    Ao se aproximarem dos portões, o Porteiro lá estava, e este começou a caçoar de Òrínsànlá, dizendo:
    — Ora, ora! Eis aí o mais poderoso entre todos os Imolès da criação. Pelo que vejo, já não tem mais esse poder todo que dizia. Diante dos meus olhos aí está um fracassado… Hahahahaha… Também tu serás banido, seu derrotado, assim como eu por sua causa, também fui.
    Òrínsànlá, diante das palavras de Èsú’Yangí, nem se abalou, pois tudo já perdera sentido diante dos seus olhos. Então, atravessaram os portões e foram até o centro do Orún, e os seus seguidores o deixaram ali como ele mesmo pedira.
    Quando Òrínsànlá viu que se encontrava só no centro do Orún, ajoelhou-se e olhando para o alto rogou:
    — Grande Oló, o mais Alto dos altos, o mais Belo entre os belos em que toda beleza se faz. Os mistérios e os segredos que a tudo embeleza se fazem em tua manifestação. Força dos fortes. Poderoso és Tu. Grande Presença que a tudo preenche e que movimenta, dançando em todas as coisas. Matriz de todos os sentidos e de todas as cores. Fonte luminosa que a tudo incendeia, encandeia e floresce. Grande e Magnífico Espírito de Santidade Infinita! Ouve os meus gemidos de dor e de angústia. Não te escondas de mim, porque estou aflito. Venha a mim, e que eu possa ascender a sua morada. Tive raiva daqueles que me aconselharam. Não ouvindo os que tinham sabedoria a me acrescentar, e eis-me aqui, fracassado e caído em desgraças. Sinto uma dor tão profunda, como se estivesse queimando em chamas por dentro. Já não sou mais digno, Ó Grande Oló, do sopro de vida que me deste. Leve esta vida de mim, e apaga essa chama que alumia, pois, o peso que carrego me enfraqueceu, e não tenho mais olhos para olhar mais nada e nem ninguém.
    Sem que Òrínsànlá percebesse, enquanto ainda suplicava, Olódùmarè o levou ao Àwosùn Dàra, a Morada dos Justos. Òrínsànlá ainda se encontrava de joelhos com o rosto prostrado ao solo, quando o mais Alto dos altos falou:
    — OBÀTÁLÁ, MEU FILHO, ERGA-SE E LEVANTE!
    Òrínsànlá, ouvindo a voz do mais Alto dos altos, e percebendo que se encontrava no Àwosùn Dàra, continuou de joelhos, e disse:
    — Grande Oló e meu Pai-Mãe Amado, não sou mais digno de tua Grande Presença, pois falhei na missão que me deste. Devo também ser banido como meu irmão Èsú’Yangí.
    — MEU FILHO, VOCÊ SABE QUE TE AMO, E VEJO QUE VOCÊ ESTÁ ARREPENDIDO. VOCÊ NADA TEM A VER COM SEU IRMÃO. LEVANTA-TE DEPRESSA, POIS TENHO OUTRA MISSÃO MUITO MAIS IMPORTANTE PARA TI. VOCÊ TEM AGORA O MEU PERDÃO.
    De repente, o ânimo de Òrínsànlá se restabeleceu. Então, ele se levantou e Olódùmarè continuou a lhe falar:
    — EIS QUE O NOVO REINO ESTÁ FORMADO, E AGORA EU SOU O SENHOR DO ÒRUN E DO ÀIYÉ. O QUE ERA PARA SER UM SÓ REINO AGORA É DOIS. E EIS O QUE ERA PARA SER UM SÓ SER, AGORA SERÃO DOIS. DOIS PRINCÍPIOS, DUAS SUBSTÂNCIAS E DUAS REALIDADES. EIS AGORA O CONHECIMENTO DO OPOSTO, DO DIFERENTE E DA DISCRIMINAÇÃO, E DO QUE SE FAZ REALIDADE, E DO QUE SE FAZ ILUSÃO. CONFUSÃO, E DETURPAÇÃO, E SUBORDINAÇÃO. SEPARAÇÃO E UNIÃO. VIDA E MORTE. NÃO E SIM. MACHO E FÊMEA. O ABSOLUTO E O VAZIO. AS TREVAS E A LUZ, E A LUZ E AS TREVAS. O CAIR E O LEVANTAR. EIS QUE AGORA O UNO SE FARÁ DUAL E NÃO MAIS ME VERÃO, QUANDO O DUAL SE FIZER UNO, EU ENTÃO RETORNAREI AO QUE VERDADEIRAMENTE EU SOU. E ME REVALAREI.
    — Das coisas que falou, Ó Grande Oló, eu nada entendi. — Disse Òrínsànlá…
    — AGORA, MEU FILHO, NADA ENTENDE. MAS LOGO ENTENDERÁ. AFINAL, VOCÊ TAMBÉM MUDOU. OU SERÁ QUE AINDA NÃO PERCEBEU?!
    Quando Òrínsànlá se olhou nos reflexos do palácio de cristais luminosos do Àwosùn Dàra, para seu espanto, viu que agora tinha duas cores. De um lado ele era branco, e de outro lado ele era negro, e disse:
    — Grande Oló, o que vem a ser isso?
    — UMA NOVA RAÇA BROTARÁ DE TI, E DENTRE ELA OUTRA RAÇA, E RAÇAS INTERMEDIÁRIAS TAMBÉM. PORQUE EU SOU O UM, E TAMBÉM O DOIS, E NISSO ME FAÇO TRÊS. POIS ENTRE UM E OUTRO, EU SOU A EXCEÇÃO. ESCUTE! AGORA TE DAREI UMA NOVA MISSÃO. OLÓFIN ODÙDUWÀ CRIOU O ÀIYÉ. E DOS TRÊS ANIMAIS ELEMENTARES, A SABER: A POMBA, A GALINHA DE CINCO DEDOS EM CADA PÉ E O CAMALEÃO, A VIDA ANIMAL SE DESENVOLVEU POR ADAPTAÇÃO. QUERO QUE VOCÊ CRIE OS SERES QUE HABITARÃO ESSE NOVO REINO, PARA DO ÀIYÉ SEREM SENHORES, REIS E DEUSES. ESSES SERES SE CHAMARÃO IGBÁ IMOLÈS. DESSA FORMA, MEUS PRIMEIROS SERES SÃO OS IMOLÈS FUNFUNS, DOS QUAIS VOCÊ FOI O PRIMEIRO, SENDO AQUELES DE COR E LUMINOSIDADE BRANCA. DEPOIS ACENDI MINHA LUZ ATRAVÉS DE SEUS CORPOS TRANSPARENTES, E FORMEI DE VOCÊS OS IRUN IMOLÈS, PARA LHES SERVIREM E LHES ALEGRAREM, QUE SÃO AQUELES DE CORES E LUMINOSIDADES MÚLTIPLAS E VARIADAS, E QUE DIVIDEM O ORÚN COM VOCÊS. AGORA QUERO QUE VOCÊ VÁ E CRIE OS IGBÁ IMOLÈS.
    — Grande Oló, como eu criarei esses seres, e qual elemento tu me darás para formá-los? — Perguntou Òrínsànlá.
    — DESTA VEZ NÃO TE DAREI MAIS ELEMENTOS. POIS VOCÊ PERDEU O ELEMENTO QUE TE DEI PARA A REALIZAÇÃO DA SUA PRIMEIRA MISSÃO, EM QUE VOCÊ FRACASSOU. E TAMBÉM, VOCÊ NÃO TERÁ MAIS CONSELHOS DOS SÁBIOS E DO ORÁCULO. POIS NEGLIGENCIOU AQUELES QUE TINHAM ALGO A LHE ACRESCENTAR. AGORA TODA AÇÃO TERÁ UMA REAÇÃO, E TODA CAUSA TERÁ UM EFEITO. VOCÊ COMERÁ AQUILO QUE COZINHOU, E COLHERÁ AQUILO QUE PLANTAR. VÊ, OBÀTÁLÁ, QUE TODAS AS COISAS COMEÇAM E TERMINAM EM VOCÊ. E TUDO QUE TE OCORREU OCORRERÁ NAQUELES QUE PROVÊM DE TI. VOCÊ SERÁ O ARQUÉTIPO DOS NOVOS SERES. E EM VOCÊ ELES ESPERARÃO E SE ESPELHARÃO. SAIBA TAMBÉM QUE O SEU OPOSTO, SERÁ TAMBÉM O OPOSITOR DELES. A ELES ENGANARÃO, SENDO QUE FARÁ DE TUDO PARA COLOCÁ-LOS CONTRA VOCÊ. ENTÃO, VOCÊ TERÁ QUE FAZER UMA ESCOLHA E DESCERÁ NO MEIO DELES, SE TORNANDO FRÁGIL E MORTAL COMO ELES, E SE SACRIFICARÁ PARA SALVÁ-LOS. E, MESMO ASSIM, MUITOS DELES TE REJEITARÃO, E NÃO MAIS TE RECONHECERÃO COMO O SEU CRIADOR E SALVADOR. VOCÊ SE LEVANTARÁ E ASCENDERÁ NOVAMENTE AO MAIS ALTO DOS ALTOS, E SE ASSENTARÁ COMIGO NO MEU TRONO, À MINHA DESTRA. E EXPULSARÁ O OPOSITOR DA EXTREMIDADE DO PRIMEIRO REINO, PRECIPITANDO-O NO ÀIYÉ. E QUANDO VOCÊ ESTIVER COMIGO, NÃO EXISTIRÁ MAIS NEM EU E NEM TU, POIS SEREMOS UM, SENDO QUE TUDO QUE É MEU SERÁ SEU. E JUNTOS PROCURAREMOS UM OUTRO, QUE NASCERÁ NO ÀIYÉ, O ÚLTIMO DA TRINDADE, E NELE FAREMOS MORADA PARA TODO O SEMPRE, E QUANDO ESTE VENCER, EU, TU E ELE SENTAREMOS NUM SÓ TRONO. E O ORÚN DESCERÁ AO ÀIYÉ E O ÀIYÉ SUBIRÁ AO ORÚN. E O UM QUE SE TORNOU VÁRIOS TORNARÁ A SER UM NOVAMENTE. MAS, POR AGORA MEU FILHO AMADO, REALIZA A TUA MISSÃO, E RESOLVE AS TUAS PENDÊNCIAS COM OS TEUS IRMÃOS, PARA QUE TUA OBRA SEJA PERFEITA, PELA OBSERVÂNCIA DA HARMONIA.
    Ao descer do Àwosùn Dàra, a Morada dos Justos, Obàtálá, que por amor a si próprio se fez Òrínsànlá, deu uma volta ao redor de si mesmo, olhando toda a circunferência do Orún.
    E um profundo sentimento de desconforto tomou conta de si. De repente, se viu desolado e imbuído em muitas dúvidas. Por um lado, obteve o perdão de Olódùmarè, e por outro tinha que enfrentar as consequências dos seus atos passados, para realizar um trabalho sem informações de como fazê-lo, e elementos para criá-lo. Também desta vez não podia nem pensar em fracassar na sua nova missão.
    Diante de todas essas coisas, que rodopiavam em seu íntimo, Òrínsànlá sentou-se, e pôs-se a meditar em todas as coisas que o fizeram falhar em sua primeira missão.
    Percebeu que o seu orgulho o autodestruíra, e desta vez queria reparar todos os erros passados, para que sua nova missão seja bem-sucedida e perfeita. E, pesando seus pensamentos consigo mesmo, disse:
    — A partir de agora em diante, não mais me autoproclamarei Òrínsànlá. De agora em diante todos me chamarão Òòsàálà. — Que significa “Aquele humilde de luz branca que a todos iluminará”.
    Òòsàálà iniciou sua jornada convocando todos os Irun Imolès que se encontravam no Orún. Pois os Imolès Funfuns se encontravam no Àiyé. Onde, a mando de Olófin Odùduwà, fundaram uma casa-cidade que chamaram de Ilé, que significa “casa, morada ou comunidade”.
    Òòsàálà convenceu os Irun Imolès a deixarem de lado todas as suas divergências e se unirem a ele, para fazerem parte de sua nova missão. E eles se despiram dos seus mantos brancos e pretos, unindo-se ao Grande Imolè Funfun.
    Reunindo todos os Imolès, Òòsàálà partiu em direção ao Òrun Àkàsò. Para de lá ir ao Òpó-Òrun-oún-Àiyé, e descer pela corrente até chegar ao Àiyé, e ir reunir-se aos demais Funfuns no Ilé.
    Os Irun Imolès, ao comando de Òòsàálà, chegaram nos portões das fronteiras dos mundos, o Òrun Àkàsò. Òòsàálà adiantou-se, e disse:
    — Porteiro, abra os portões para a corte dos Imolès passar.
    O Porteiro, vendo toda aquela multidão de Imolès juntos e unidos a Òòsàálà, ficou perplexo e indignado. Pois acreditava ele que o seu opositor Obàtálá se encontrava derrotado, e que os Irun Imolès estavam divididos em divergências entre eles por causa do engano.
    Mas agora Òòsàálà se apresentava diante dos seus olhos mais pleno de poder e com uma luminosidade muito clara, como se fosse o próprio Olódùmarè estando ali presente. Temeroso de receber alguma represália da parte de Òòsàálà, este nada questionou. Apenas abriu os portões e desapareceu diante da vista de todos.
    Chegando ao Òpó-Òrun-oún-Àiyé, a corte dos Irun Imolès, liderada por Òòsàálà, avistou ao longe e abaixo o novo reino. E como era belo, parecia um grande globo ocular azul com uma pupila amarronzada ao meio! Um montante de terra arrodeada por águas, contida num recipiente de gelo. Pois naqueles primeiros dias da criação a terra era unificada num só continente, que mais parecia uma grande montanha plana.
    Enquanto isso, no Àiyé, Èsú’Yangí fora rapidamente encontrar os Imolès Funfuns no Ilé. Chegando lá, ele se disfarçou e se apresentou aos Funfuns como Òjísé, o mensageiro. E disse-lhes:
    — Trago-lhes uma mensagem do Grande Oló. Obàtálá, que se fez Òrínsànlá, depois de ter fracassado na missão de criar o novo reino, ficou furioso e, assim, reuniu todos os Irun Imolès e agora planeja uma revanche por vocês terem furtado o saco com o elemento da criação, o àpò-iwà, e realizado a Grande Obra. Neste exato momento, eles já se encontram no Òpó-Òrun-oún-Àiyé.
    Quando Olófin Odùduwà e os demais Imolès Funfuns ouviram isso, ficaram tão apavorados que nem questionaram a notícia e nem o mensageiro delas, que por alguma razão, pela arrogância que eles já presenciaram da parte de Òrínsànlá, essa informação lhes parecia óbvia.
    Nesse ínterim, enquanto os Imolès Funfuns discutiam entre eles o assunto, Èsú’Yangí, disfarçado como Òjísé, desapareceu rindo ironicamente sem que eles o percebessem.
    Então, diante desse fato apresentado a eles por Òjísé, os Imolès Funfuns decidiram fortificar a cidade de Ilé, com uma grande muralha feita de grandes tijolos de pedra.
    Enquanto isso, Òòsàálà e os Irun Imolès desciam em fila pela corrente que unia o Orún ao Àiyé. E, pisando no Àiyé, Òòsàálà sentiu uma forte dor nos seus pés, que a cada passo ia se dissolvendo até parar.
    Então, eles caminharam em direção ao Ilé e encontraram uma grande cidade fortificada por muralhas de pedra. Ao chegar aos portões da cidade de Ilé, Òòsàálà disse em alta voz:
    — Irmãos Funfuns, abram os portões! Pois eu e a corte dos Irun Imolès queremos entrar e falar-lhes sobre uma nova missão que o mais Alto dos altos nos deu.
    Então, os Imolès Funfuns subiram nos muros da cidade, e Olófin Odùduwà adiantou-se, e disse:
    — Obàtálá, que por amor a si próprio se fez Òrínsànlá, o que temos nós contigo? Sei que você veio nos destruir, porque pelo seu fracasso realizamos a Grande Obra.
    — Não, meus irmãos, eu jamais faria isso. Pelo contrário, aqui estou arrependido diante de vocês, e venho lhes pedir perdão. E já não sou mais Òrínsànlá, o orgulhoso, e sim Òòsàálà, o humilde. E eis que agora me faço o menor dos menores entre vocês.
    — Vemos que você se tornou mentiroso como o traidor dos nossos irmãos. Pois, através de um mensageiro vindo do mais Alto dos altos, sabemos que você veio nos destruir, e por isso reuniu todos os Irun Imolès. — Disse assim Olófin Odùduwà.
    — Que mensageiro é este, que veio vos falar? Não vim destruir vocês, e sim lhes pedir ajuda. Pois o mais Alto dos altos me deu uma nova missão, que é a de criar os novos seres que habitarão este mundo. E, como eu falhei na minha primeira missão, por causa do meu orgulho, agora eu reuni todos os Imolès, do mais alto ao mais baixo entre eles, para que juntos viéssemos aqui encontrar-vos, e assim realizarmos juntos esse grande trabalho. Porque essa é a maneira que encontrei de me redimir, e de pedir perdão a todos pela minha primeira falha.
    Ouvindo isso, os Imolès Funfuns ficaram confusos e procuraram pelo mensageiro para pô-lo à prova diante de Òòsàálà, e não o encontraram. Então, eles rogaram ao mais Alto dos altos para que lhes esclarecessem aquela dúvida. E, uma voz potente como a de um trovão vinda do mais Alto dos altos, falou:
    — IMOLÈS! POR QUE DISCUTEM ENTRE SI OS MEUS MANDAMENTOS E AS MINHAS DETERMINAÇÕES? NÃO DEEM OUVIDOS A CONVERSAS E DIVERGÊNCIAS ENTRE VÓS. ÈSÚ’YANGÍ, AQUELA ESFERA PEDRA POROSA E FRÁGIL, QUE HABITA ENTRE VOCÊS, OS DIVERGIU, E AINDA CONTINUA DIVERGINDO. NÃO TROPECEM MAIS DE UMA VEZ NESSA CANA QUEBRADA, APRENDAM COM OS SEUS PRÓPRIOS ERROS.
    Ao ouvirem essa voz, eles compreenderam que aquele mensageiro de nome Òjísé, era de fato Èsú’Yangí disfarçado.
    De repente, as muralhas de pedra que separavam os Imolès se dissolveram na vista de todos. E Òòsàálà, junto aos Irun Imolès, entrou na cidade de Ilé e se uniu a Olófin Odùduwà e os demais Imolès Funfuns.
    Quando todos os Imolès estavam reunidos no Ilé. Surgiu de repente no meio deles o grande sacerdote do oráculo de Ifá, Orunmilá.
    Orunmilá chamou todos os Imolès, e falou para que eles ficassem em círculo com as mãos dadas. Sendo que fizeram dois círculos, um dentro do outro. Havia um círculo maior composto pelos Irun Imolès, que eram a maioria, e dentro dele um círculo menor, formado pelos Imolès Funfuns.
    Esses círculos eram tão perfeitos de tal forma, que todos observavam o grande sacerdote de Ifá que estava no centro dele. Pois cada Irun Imolè se posicionava entre os espaços das mãos dadas dos Imolès Funfuns.
    Ali, diante de todos Imolès, o grande sacerdote de Ifá, Orunmilá, convocou ao centro Òòsàálà e Olófin Odùduwà, e disse:
    — Imolès, seres do Orún, que é o primeiro reino da criação. Aqui estamos todos reunidos no novo reino, o Àiyé. Agora todos juntos celebraremos a união que se deu com o fim das divergências entre vós.
    Orunmilá, com sua mão esquerda, pegou a mão direita de Òòsàálà. E com sua mão direita pegou a mão esquerda de Olófin Odùduwà. E, ali no centro, uniu as mãos dos dois Funfuns, e disse:
    — Faço isso em representação da união de todos os seres criados. Esse dia será sempre um dia de comemoração entre vocês, e também entre aqueles que virão de vocês. Os novos seres que habitarão este novo mundo. Esses seres que serão um, virão como dois. Macho e fêmea. Os machos serão da descendência de Òòsàálà, o universo. E as fêmeas serão da descendência de Olófin Odùduwà, a natureza. Um representará o acima e o outro o abaixo. Um será forte e ardente como o dia, sendo este o sol. Outro será calmo e leve como a noite, sendo este a lua. Um agitará e o outro acalmará. Um completará o outro, e juntos movimentarão. Nascerão separados, mas viverão unidos. E pela união dos seus corpos a vida se multiplicará. Assim como agora eu faço com Òòsàálà e Olófin Odùduwà, eles também farão da mesma maneira diante de um sacerdote, para juntarem-se e se multiplicarem. Este dia será conhecido como Odù Ifá Ìwòrì-Òbèrè. O dia em que celebrarão o casamento, o acordo e o pacto de união.
    Falando isso, o sacerdote de Ifá pegou uma cabaça e pintou-a de branco. Depois cortou essa cabaça horizontalmente ao meio, separando-a em duas partes. Então, fez com que Òòsàálà ficasse ao lado de Olófin Odùduwà. Fazendo com que eles se abraçassem de lado com um dos braços. Sendo que Òòsàálà ficou ao lado esquerdo de Olófin Odùduwà, abraçando-a pelas costas com seu braço direito. E Olófin Odùduwà ficou ao lado direito de Òòsàálà, abraçando-o também pelas costas com o seu braço esquerdo.
    O grande sacerdote pegou uma das metades da cabaça, que era a parte de cima, e colocou na mão esquerda de Òòsàálà. Depois pegou a outra metade, a parte de baixo e colocou na mão direta de Olófin Odùduwà. Fazendo isso ordenou com que Olófin Odùduwà e Òòsàálà levassem ambas as metades da cabaça ao centro dos seus corpos. Sendo que Olófin Odùduwà segurava a sua metade abaixo, e Òòsàálà segurava a sua metade acima…
    Então, o grande sacerdote pegou do solo um pouco do àpò-iwà, colocando dentro da metade da cabaça que servia como base, que estava na mão de Olófin Odùduwà, para representar o elemento primordial da criação do novo reino.
    Também, colocou outros elementos primordiais da criação. Como carvão para representar o sangue da terra. O efun, que é o sangue branco, onde toda vida orgânica germina. E o osún, que é o sangue vermelho, onde a vida no novo reino habitará.
    Depois ordenou que Òòsàálà descesse com sua metade da cabaça sobre a metade que se encontrava na mão de Olófin Odùduwà, selando-a. E disse:
    — Eis aqui o igbá-odù. A representação do útero de toda a vida no novo reino. Separar as duas partes do igbá-odù, significará a própria destruição deste mundo.
    Falando isso, Orunmilá se retirou ascendendo ao Orún, levando consigo o igbá-odù.
    Então, Òòsàálà e Olófin Odùduwà se abraçaram e se beijaram. E, quando estavam se beijando, acendeu neles um glorioso sentimento que nunca fora antes sentido dessa forma em toda a criação.
    Sentiram o que depois viemos a conhecer como a atração que um homem sente por uma mulher, e que a mulher sente por um homem em seu primeiro contato. Esta sensação que une o macho e a fêmea. Sentiram e presenciaram uma nova e real forma de experimentar o AMOR.
    Depois daquele primeiro beijo, em que o inexplicável brotou, eles já não eram mais os mesmos, pois experimentaram o que ninguém jamais provou. O amor dos amantes. E a partir daí a cidade de Ilé se tornou Ilé-Ifè, a “Morada do Amor”.
    Òòsàálà, movido por uma grande compaixão, compartilhou sua missão com todos os Imolès ali presentes. Mas nem Òòsàálà e nenhum dos outros Imolès sabiam como poderiam criar os novos seres. Pois não havia elementos dados da parte de Olódùmarè, e nem instruções a serem dadas pelo sacerdote do oráculo de Ifá, Orunmilá.
    Òòsàálà, meditando nessa questão, obteve uma iluminação. Ele sabia que muitos dos Irun Imolès trazia consigo um segredo palpável. Sendo na verdade esse segredo um elemento que o representava.
    Então, ele teve a ideia de ir a cada Irun Imolè e lhe pedir o seu elemento, para ver se serviria para criar os novos seres, os Igbá Imolès.
    Òòsàálà foi pessoalmente a cada um dos Irun Imolès, do mais alto ao mais baixo em luz e sabedoria. Procurando um único elemento específico, para ver se era possível, a partir dali, moldar os corpos dos novos seres.
    Òòsàálà foi até Aganjú e lhe pediu o seu segredo. E Aganjú lhe revelou o enxofre. Òòsàálà tentou moldar os novos seres com esse elemento, mas não deu certo. Pois o enxofre era mole, frágil e leve, e se quebrava com facilidade. E Òòsàálà jogou esse elemento na terra, e a terra o absorveu.
    Òòsàálà foi até Egbé e lhe pediu o seu segredo. E Egbé nada tinha para lhe oferecer. Pois, naqueles dias antes da criação dos Igbá Imolès, havia alguns dos Irun Imolès que não conheciam os seus segredos. Só sendo revelados a eles depois da criação dos Igbá Imolès, quando esses elementos ainda desconhecidos, se tornassem futuramente úteis para os novos seres.
    Òòsàálà foi até Elegbàrà e lhe pediu o seu segredo. E Elegbàrà, também, nada tinha para lhe oferecer.
    Òòsàálà foi até Erinlè e lhe pediu o seu segredo. E Erinlè, também, nada tinha para lhe oferecer.
    Òòsàálà foi até Ìdejì e lhe pediu o seu segredo. E, também, Ìdejì nada tinha para lhe oferecer.
    Òòsàálà foi até Ògún e lhe pediu o seu segredo. E Ògún lhe revelou o ferro. Òòsàálà tentou moldar os novos seres com esse elemento, mas também não deu certo. Pois o ferro era rígido, muito duro e pesado, e não havia possibilidades de moldá-lo. E Òòsàálà jogou esse elemento na terra, e a terra o absorveu.
    Òòsàálà foi até Òsùn e lhe pediu o seu segredo. E Òsùn lhe revelou o ouro. Òòsàálà tentou moldar os novos seres com esse elemento, mas, também não deu certo. Porquanto, o ouro era um pouco rígido, um pouco duro e pesado, e também, não tinha como moldá-lo. E Òòsàálà jogou esse elemento na terra, e a terra o absorveu.
    Òòsàálà foi até Obà e lhe pediu o seu segredo. E Obà lhe revelou o minério. Òòsàálà tentou moldar os novos seres com esse elemento, porém, também não deu certo. Pois o minério às vezes era rígido, duro e pesado, e às vezes era mole, frágil e leve. Não tendo assim, como moldá-los. E Òòsàálà jogou esse elemento na terra, e a terra o absorveu.
    Òòsàálà foi até Sànpànná e lhe pediu o seu segredo. E Sànpànná nada tinha para lhe oferecer, além de palhas e cipós. Òòsàálà viu que com as palhas e cipós ele nada poderia formar que se assemelhasse a um novo ser. E Òòsàálà jogou esse elemento na terra, e a terra o absorveu.
    Òòsàálà foi até Òrànmíyàn e lhe pediu o seu segredo. E Òrànmíyàn, também, nada tinha para lhe oferecer. Pois, ainda não conhecia o seu segredo.
    Òòsàálà foi até Òsànyìn e lhe pediu o seu segredo. E Òsànyìn, também, nada tinha para lhe oferecer. Pois, também, ainda, não lhe foi revelado o seu mistério…
    Òòsàálà foi até Òsóòsì e lhe pediu o seu segredo. E Òsóòsì, também, nada tinha para lhe oferecer. Pois, naqueles dias, ainda, não lhe foi revelada a sua bravura.
    Òòsàálà foi até Òsùmàrè e lhe pediu o seu segredo. E Òsùmàrè, também, nada tinha para lhe oferecer. Pois, ainda não lhe foi revelado o seu dote.
    Òòsàálà foi até Oya e lhe pediu o seu segredo. E Oya lhe revelou o fogo. Porém, o fogo não era maleável e a tudo consumia. Então, Òòsàálà foi até Sàngó e lhe pediu o seu segredo. E Sàngó lhe revelou os gases. Òòsàálà tentou pelo menos conter os gases em sua mão, algo que lhe parecia impossível, e não deu certo. Não podendo nem ao menos conter os gases e nem o fogo, Òòsàálà jogou esses elementos na terra, e a terra os absorveu…
    Òòsàálà foi até Yemoja e lhe pediu o seu segredo. E Yemoja lhe revelou a prata. Òòsàálà tentou moldar os novos seres com esse elemento, mas, também, não deu certo. Pois, a prata era um pouco rígida, um pouco dura e pesada, e, não tinha como moldá-la. E Òòsàálà jogou esse elemento na terra, e a terra o absorveu.
    Òòsàálà foi até Yewa e lhe pediu o seu segredo. E Yewa lhe revelou o cobre. Òòsàálà tentou moldar os novos seres com esse elemento, mas também não deu certo. Pois também o cobre era rígido, duro e pesado e não tinha como moldá-lo. E Òòsàálà jogou esse elemento na terra, e a terra o absorveu.
    Òòsàálà prosseguiu indo a cada Irun Imolè, e de um a um pedia o seu elemento. Uns tinham algo a lhe oferecer e outros não tinham. Mas, nenhum dos elementos apresentados pelos Irun Imolès lhe serviu para criação dos novos seres.
    Depois de falar com todos e provar todos os elementos, Òòsàálà entristeceu-se. Porque desta vez não poderia fracassar em sua missão. E, se afastando de todos, Òòsàálà subiu numa grande montanha para ali meditar. E de joelhos e cabeça baixa ao solo, em cima da grande montanha, Òòsàálà chorou de tristeza.
    Òòsàálà chorou tanto, que suas lágrimas escorreram pelo pico da grande montanha. E as lágrimas tristes de Òòsàálà formavam pequeninos flocos cristalizados, embranquecendo toda região acima.
    As lágrimas de neve de Òòsàálà foram se derretendo da metade da montanha para baixo, formando nascentes de águas doce. Essas nascentes formaram grandes extensões de águas flutuantes, que deram origens aos primeiros rios.
    Porém, havia um dos Irun Imolès com quem Òòsàálà não se encontrou, porque se encontrava na beira do mar.
    Esse Irun Imolè estava encantado com as águas do novo reino. E, desde que pisou no Àiyé, brincava na beira do mar, entre as águas e a areia. O nome deste Irun Imolè é Nàná Bùùkúù.
    Nesse ínterim, enquanto Nàná Bùùkúù brincava à beira-mar, ela avistou os fluentes de águas provocados pelas lágrimas de Òòsàálà indo ao seu encontro. E, chegando velozmente, precipitaram-na ao mar. As águas arrastaram Nàná Bùùkúù até as profundezas do oceano.
    Ciclos eternos se passaram, e Nàná Bùùkúù, depois de dar um grande giro nas profundezas marítimas, regressou ao lugar onde se encontrava antes. Porém, viu que o lugar mudara. E, onde antes havia grãos de areia, surgiram grandes piscinas de águas acinzentadas pela lama, que resultaram do encontro do rio com o mar.
    Maravilhada, Nàná Bùùkúù começou a brincar com toda aquela lama, e dela formou muitas pequeninas criaturas, modelando-as com esse material. Essas são as muitas criaturas do mangue. Os variados tipos de crustáceos, conchas e moluscos. E, desde aquele momento, a lama se tornou o elemento de Nàná Bùùkúù.
    Descendo montanha abaixo pela neve branca, Òòsàálà já não tinha mais esperança de realizar sua grande missão que o redimiria. E, chegando à cidade de Ilé-Ifè, Òòsàálà estava prestes a contar a todos o seu fracasso, quando Olófin Odùduwà lhe contou que havia mais um dos Irun Imolès que ele não entrevistara.
    Òòsàálà recebendo essa boa notícia, restabeleceu o seu ânimo rapidamente, pois algo lhe dizia que sua missão não estava perdida. E sem demora foi ao encontro desse Irun Imolè.
    Os outros Irun Imolès lhe contaram que Nàná Bùùkúù se encontrava brincando na beira do mar. Então, Òòsàálà reuniu todos os Imolès, e juntos foram ao encontro de Nàná Bùùkúù.
    Chegando lá, Òòsàálà a cumprimentou e viu-a modelando as pequeninas criaturas no novo habitat que se formou pelo encontro do rio com o mar. Então, Òòsàálà foi até Nàná Bùùkúù e lhe pediu o seu segredo. E Nàná Bùùkúù lhe deu a lama negra acinzentada do manguezal.
    Òòsàálà pegou esse elemento, e moldou o primeiro Igbá Imolè à imagem e semelhança dele mesmo.
    Vendo que esse era o elemento certo para formar os novos seres, Òòsàálà encheu-se de alegria. Então, ele foi a Olófin Odùduwà e pediu que fizesse o mesmo, assim como ele fez. Olófin Odùduwà moldou o segundo Igbá Imolè a sua imagem e semelhança.
    Então, macho e fêmea os criaram. E a estes dois primeiros moldes Òòsàálà chamou de Egungun.
    Òòsàálà falou para que todos os Imolès o ajudassem a modelar mais corpos à semelhança dos Egunguns. E a estes derivados de corpos, Òòsàálà chamou de Egun.
    Depois de terem modelado todos os corpos dos Igbá Imolès, todos se reuniram em um grande círculo ao redor do montante de corpos feitos de lama enegrecida do manguezal. E juntos suplicaram ao mais Alto dos altos para que manifestasse sua glória, e respirasse o seu hálito de vida nos corpos de lama dos novos seres. E do mais Alto dos altos veio um sopro de vida dizendo:
    EU SOU!
    Então, os corpos de lamas criaram vida e se animaram. Todos ficaram maravilhados diante dos novos seres. E Òòsàálà foi bem-sucedido em sua missão de criar os seres que cuidarão do novo mundo.
    Mas de repente, diante de todos, Yemoja levantou uma questão e disse:
    — Se os Igbá Imolès cuidarão do Àiyé e de suas outras criaturas, quem cuidará dos Igbá Imolès?
    Yemoja disse isso porque sabia da fragilidade dos novos seres, já que eles eram feitos de lama, sendo que os seus corpos negros eram densos e grotescos. Muito diferentes dos corpos luminosos e graciosos dos Irun Imolès e dos Imolès Funfuns.
    De repente, Òòsàálà se viu diante de mais uma questão, que tornava sua missão ainda incompleta e imperfeita na criação. Mais uma vez Òòsàálà pôs-se a meditar, e, refletindo, obteve uma iluminação, e disse a todos:
    — Imolès do Orún, quero que cada um de vocês que tem um segredo, tome para si determinado grupo de Igbá Imolès.
    E, assim, como Òòsàálà disse, eles fizeram. E Òòsàálà continuou a dizer:
    — Agora com o dedo furem a cabeça de todos os Igbá Imolès, e coloquem em cada um o seu elemento dentro dela. Aqueles que ainda não tiverem elementos não se preocupem, pois no tempo certo em que o segredo for revelado a cada um de vocês, eu, também, lhes darei um grupo de Igbá Imolès. E aqueles que por ordem da própria natureza universal, não tiverem seus segredos nunca revelados, serão os pais e guardiões dos seres inorgânicos que farão companhia e servirão aos novos seres deste mundo. Por esse tempo, auxiliem os seus irmãos a cuidarem desses novos seres e de toda criação.
    E assim todos fizeram como Òòsàálà falou. E os Irun Imolès se tornaram os guardiões e pais dos Igbá Imolès.
    Porém, aconteceu uma coisa estranha e imperfeita na criação. Os Igbá Imolès do grupo dado a Nàná Bùùkúù agiam de forma esquisita e medonha. Òòsàálà vendo isso, se escandalizou. E, pôs-se novamente a meditar para resolver essa questão e obter a perfeição na criação, que era a satisfação de todos os seres.
    Òòsàálà meditando percebeu que cada segredo dos Irun Imolès, sendo colocado na cabeça dos novos seres, lhes dava personalidades, faculdades, inteligências e habilidades específicas. Sendo estes segredos a alma deles.
    E viu que esse novo ser já era composto de lama, e que colocar novamente lama em sua cabeça faria seres desmiolados e sem especialidades. Seres desprovidos de alma. Por isso que eles se comportavam de forma esquisita.
    E, rapidamente, Òòsàálà impediu Nàná Bùùkúù de colocar seu elemento nas cabeças dos corpos dos novos seres, e lhes tirou os seus filhos.
    Diante desse acontecido, Nàná Bùùkúù se sentiu muito ofendida, pelo fato de contribuir com o seu elemento para formação dos corpos dos novos seres. Mas, porém, não ser digna de obter a graça de nem sequer ter um só Igbá Imolè para cuidar.
    Òòsàálà mais uma vez pôs-se a meditar, e se viu diante de um problema hediondo e difícil de resolver. Pois ele sabia que, se um dos Imolès do Orún não estivesse satisfeito com a criação, não haveria perfeição. Porque a perfeição é a plena satisfação e aprovação de todos.
    Então, diante desse problema, Òòsàálà teve que tomar a decisão mais triste diante de toda a vida. E lembrou-se das palavras ditas a ele por Olódùmarè, de que a dualidade será a expressão dos novos seres e do novo reino. Pois se há vida no segundo reino, haverá também a morte.
    E, chorando lágrimas vermelhas, que escorreram na terra do novo mundo, que deram origem ao barro vermelho que provém a argila, Òòsàálà disse a Nàná Bùùkúù:
    — Nàná Bùùkúù, ouça! Você, que deu a lama, que foi responsável para formar o corpo dos seres deste mundo, digo-te agora que esse elemento lhe será devolvido. Porquanto, os seres deste mundo nasceram com uma dívida contigo. Dívida essa, de um empréstimo que todos eles terão que te pagar mais cedo ou mais tarde. E no dia desse pagamento, em sua morte, os seres deste mundo chorarão de tristeza, assim, como também, choraram de alegria ao nascerem, quando receberam de ti este valoroso empréstimo. E depois de acertarem as suas contas contigo, Nàná Bùùkúù, os segredos postos em suas cabeças pelos demais Irun Imolès, que permanecerem puros pelas suas ações de vida no Àiyé, subirão ao Orún e terão a permissão de passar pelos portões das fronteiras do mundo, o Òrun Àkàsò. Mas, aqueles que corromperem as suas almas no Àiyé e se acinzentarem, e, assim, atrofiarem os seus segredos, não terão permissões para passar pelos portões das fronteiras do mundo. Sendo que ficarão presos para sempre no reino astral, o Òrun Àkàsò.
    E, assim, Òòsàálà concluiu sua missão, obtendo a perfeição tão almejada pela Criação e pelo Criador de todas as coisas existentes.
    O Orún voltou a ser perfeito e iluminado como era no princípio, e suas fronteiras foram dissipadas. Pois, os seus seres alados estavam muito ocupados e felizes de cuidar dos novos seres do novo reino.
    E, assim, os Imolès Funfuns tinham os Irun Imolès por filhos, e estes tinham os Imolès Funfuns por pais. E os Imolès Funfuns se ocupavam e se empenhavam em manter a harmonia entre os Irun Imolès.
    E os Irun Imolès tinham os Igbá Imolès por filhos, e estes tinham os Irun Imolès por pais alados e celestiais. E os Irun Imolès se ocupavam e se empenhavam em manter a harmonia entre os Igbá Imolès.
    Por sua vez, os Igbá Imolès se ocupavam por cuidar deles mesmos, dos seus semelhantes e dos seus descendentes. E, também, de manter a harmonia entre os seres e as criaturas que dividem o Àiyé com eles.
    Dessa forma, Olódùmarè, o Deus Supremo, Pai e Mãe de toda Criação, encontrou uma perfeita solução para harmonizar os seus seres. Dando-lhes responsabilidades uns para com os outros, para manutenção da própria vida e de toda sua criação.
    E essa responsabilidade de cuidar um dos outros, é a mesma que o mais Alto dos altos tem com toda a sua criação.
    E essa responsabilidade é o único propósito de nossas existências neste mundo.
    É o que nos faz semelhantes ao nosso Criador Perfeito, O Pai e Mãe de Todas as Coisas Existentes.
    Essa responsabilidade é o que hoje conhecemos e sentimos como o verdadeiro AMOR, o verdadeiro AMAR e o verdadeiro SER AMADO.
    E os Irun Imolès, juntos aos Imolès Funfuns foram chamados pelos Igbá Imolès de Òrìsà, que quer dizer: “Aquele que me deu a minha alma” ou “Aquele que comanda a minha cabeça”.
    E, finalizando o conto, Djeli encarou N’zambi e disse:
    — Por isso, meu jovem, que na crença dos povos iorubás, os homens ao nascerem vêm com a cabeça aberta. Pelo fato de os Òrìsàs terem naquele momento colocado o seu elemento-alma dentro dela.
    O céu começara a clarear no K’ilombo dos Palmares, quando o preto velho griot Djeli terminou de contar a história da criação iorubá. O jovem príncipe N’zambi sentiu que vivenciou toda aquela experiência contada. E teve uma leve e profunda sensação de viver uma eternidade naquela noite. Vivera e experimentara todo o drama dos Òrìsàs. E algo do que ele não sabia havia mudado dentro dele. Sentiu uma mudança na maneira de como via e interpretava a vida, e o mundo em que vivia. Mas, também, se sentia muito confuso e desconfortável com as suas credulidades. Já que desde muito jovem fora educado no pensamento cristão do catolicismo, que não admitia outra forma de crença, senão as dos seus dogmas religiosos.
    Houve um silêncio profundo entre Djeli e N’zambi naquele momento. O preto velho esperava que N’zambi quebrasse o silêncio lhe perguntando algo. Porém, ambos permaneceram sentados por algum tempo, ao lado das cinzas do que antes era fogueira. Restando apenas poucas brasas, que soltavam uma leve fumaça. Enquanto o céu se acinzentava, anunciando que um novo dia estava preste a brotar.
    Djeli vendo que o rapaz permanecera numa quietude profunda, preso em seus próprios pensamentos, resolveu quebrar o silêncio ao comtemplar a solitária Estrela da Manhã, dizendo:
    — Imaginemos um grupo de pessoas vivendo uma fantasia. Imaginemos agora, que esse grupo de indivíduos não saiba que vive em uma fantasia, e que essa fantasia seja a realidade do mundo em que vivem. Agora imaginemos que dentro dessa “realidade”, algumas pessoas desse grupo criem fantasias para suas diversões e entretenimentos. Para, digamos, sair um pouco dessa “realidade” entediante em que eles vivem. E, também, criem fábulas para darem respostas para o porquê de eles existirem naquele grupo. Feito isso, agora eis a pergunta: Se algumas pessoas desse grupo procurarem saber a verdade, como elas distinguirão a realidade da falsa “realidade” e a “fantasia” da verdadeira fantasia?
    Fez-se um breve silêncio. N’zambi encarou o velho griot meio que embaraçoso em seus pensamentos, e Djeli continuou:
    — Se você acha isso complexo, meu jovem. Saiba que a nossa realidade não passa de fábulas e fantasias, dentro de outras muitas fábulas e fantasias ao longo dos tempos e gerações. Em que também, o tempo e o espaço e toda cadeia de pensamentos, palavras e sentimentos são meramente falsos e fantasiosos.
    — E o que é então a realidade e a verdade, Djeli? — Perguntou o jovem príncipe desesperado.
    — É aquilo que não se encontra, porque não se procura. — Disse o preto velho.
    — Se não se encontra e não se procura, é porque a realidade e a verdade nunca se perderam. Então, onde ela está, Djeli? — Tornou a questionar o jovem.
    — No aqui e no agora!
    Exclamou Djeli, e continuou:
    — Preferimos acreditar e viver as fantasias, não é? Porque encarar a realidade… hahahahaha… a realidade não tem cara! Vamos, meu jovem, o dia já raiou e você precisa descansar.
    E, sorrindo, abraçou com força o jovem príncipe, olhou profundamente em seus olhos, e disse:
    — Há de se construir sempre bons sonhos, pois o pesadelo em que vivemos é real.
    (Texto retirado do livro: O FILHO DAQUELA QUE MAIS BRILHA — A incrível saga do Quilombo dos Palmares no Novo Mundo, Editora Chiado Books, Jp Santsil)
  • Crônicas do Parque: A verdade está onde nunca a procuramos

    Era uma daquelas manhãs escaldantes com temperaturas que variavam de trinta e cinco a trinta e oito graus célsius, com sensação de quarenta a quarenta cinco no centro-norte de Israel. Como de costume me encontrava todos os Yom Sheni (segunda-feira) no parque de Kfar Saba, fazendo manutenção nas piscinas ecológicas.

    Pegava meu bastão de rede, uma caixa plástica preta dessas de armazenar verduras em supermercados, e um balde vazio de comida de peixes ornamentais. Entrava na piscina e submergia até os joelhos no primeiro terraço em que ficava as Nymphoides, espécies do gênero das plantas aquáticas que crescem enraizados no fundo, com as folhas a flutuar à superfície da água, de cores brancas, amarelas e variadas tonalidades de flores rosa, da família Nymphaeaceae.

    Prendia meu smartphone pela sua capa ao cordão que ficava no meu pescoço, em que segurava ao peito um Magen David (Estrela de Davi) com um rosto de leão no centro, e colocava uma música suave para iniciar o meu trabalho de cuidar dos nenúfares.

    Em especial, aquela era a piscina ecológica que eu mais gostava dentre todas outras que dava manutenção no centro-norte. Pois, além de ser a maior dessa região, estava em um parque bonito e tranquilo arrodeado de belas esculturas. Essa piscina era especial, pois era a única de todas que tinha uma original carpa cinza gigante, espécie de peixe de água doce originário da China, e também havia um canteiro com Lótus Branco (Nelumbo Nucifera), um género de plantas aquáticas pertencente à família Nelumbonaceae da ordem Proteales, e também era lotada de peixes Koi (Nishikigoi), tendo o Higoi (carpa vermelha), o Asagui (carpa azul e vermelha) e o Bekko (branca e preta), que são carpas ornamentais coloridas ou estampadas que surgiram por mutação genética espontânea das carpas comuns (carpas cinza) na região de Niigata no Japão, tendo também outras inúmeras variedades de peixes-ornamentais como: peixes-dourados, peixes barrigudinho (Guppy) de diversas cores, aruanãs, entre muitos outros.

    Nesse dia em especial, me senti constantemente sendo observado por um senhor de chapéu azul e cabelos grisalhos que aparentava ter a idade de oitenta anos. Estava bem-vestido e mantinha sempre um sorriso no rosto. Ele se encontrava sentado em um banco largo que ficava próximo à piscina. E lentamente eu me aproximava dele ao curso do meu ofício de retirar as folhas amareladas dos nenúfares. E ao me aproximar daquela figura atraente, eu o cumprimentei com um Boker Tov (Bom Dia), e ele me respondeu com um Boker Or (Manhã de Luz). Assim trocamos sorrisos, e me voltei novamente para o meu ofício matinal.

    Quando o balde em que colocava as folhas amareladas e flores mortas dos nenúfares se encontrou cheio, me retirei da piscina para esvaziá-lo, o despejando na caixa plástica preta que estava perto do banco em que o senhor de chapéu azul se encontrava sentado. E, ao me retirar para regressar a piscina, ele elevou a sua doce voz anciã, perguntando-me:

    — Atah Rotze coz cafeh (Você aceita um copo de café)?

    Então, de imediato lhe respondi:

    — Ken, efshar (sim, aceito).

    Então, ele retirou de uma sacola de pano um bojão de gás pequeno e enroscou uma pequena boca de fogo nele, acoplando. Colocou o aparato ao solo, e retirou da sacola uma garrafa pet de coca-cola com água, uma pequena chaleira e dois copos de aço inoxidável. E, enquanto ele despejava a água no recipiente e acendia o fogo com um isqueiro para ferventar, fez um sinal com as mãos para eu me sentar ao seu lado.

    Enquanto a água estava para ferver, nos apresentamos e ele me fazia inúmeras perguntas sobre mim e meu ofício. Perguntas comuns que eu já estava calejado em responder. E, depois que ele preparou o café, comecei também a interrogá-lo. Para minha surpresa, descobri que ele não era judeu, mas árabe. Sendo que falava um bom hebraico sem sotaque e se vestia elegantemente, como um velho Ashkenazi. Além dele ter olhos de uma cor azul-claros como o céu que estava sobre nossas cabeças. (…Nós, e nossos pré-julgamentos…).

    Ele me falou que viveu muitos anos em Espanha, sendo um mestre sacerdote de Sufi gari (Tasawwuf), uma arte mística e contemplativa do Islão, assim como é a Kabbalah para os judeus. Ele viu o Magen David em meu peito, e disse que era bonito esse símbolo com um rosto do leão no centro. Também, me falou que esse símbolo em que os judeus se apropriaram o colocando em sua bandeira, é de muita importância para o Tasawwuf (Sufismo). E me revelou segredos importantes sobre o significado desse símbolo.

    Conversamos sobre muitas coisas, e eu o interrogava mais e mais, pois vi que esse senhor era muito sábio e ciente de tudo que falava. Ele me revelou coisas sobre a conduta do corpo, como postura e fala. Falou-me sobre pensamentos, músicas e danças místicas, e, sobre alimentação e jejuns para se ter uma vida espiritual equilibrada com o corpo físico. Nesse assunto, perguntei a ele porque não se deve comer carne de porco. Até porque eu já tinha perguntado a muitos rabinos e religiosos judeus o porquê de não comer a carne desse animal, e muitos não sabiam me responder ao certo. E, os que respondiam, falavam que estava escrito nos Livros da Lei, a Torah, mas não sabiam perfeitamente o porquê.

    Diante da minha pergunta, ele sorriu e me disse algo em que fiquei atônito. Contava ele que os porcos eram seres humanos amaldiçoados, por levar uma vida sexual pervertida na sua última encarnação. Ele me disse que por isso dentre todos os animais o porco era o mais inteligente, e, que seus órgãos internos como fígado, rins e coração são muito parecidos com os nossos, pois na verdade era um ser humano que encarnou nessa condição com a total consciência de sua vida-passada, mas que devido fato de estar em um corpo animal atrofiado não podia se comunicar para se revelar como tal. Nasceu nessa condição devido à decadência espiritual de sua vida anterior como ser humano, ao se entregar aos prazeres sexuais nojentos e tenebrosos, por isso esse animal pode levar até trinta minutos tendo orgasmos. E, assim, veio nessa condição para viver em sua podridão, ao comer seu alimento e dormir misturado as suas fezes, mesmo tendo a inteligência de defecar em um mesmo lugar, são condicionados pelos seus criadores (seres-humanos) a viver junto ao seu excremento. Também, ele me falou que o porco não tem a capacidade de olhar para cima, não podendo ver o céu, e sua pele não pode ser exposta à luz solar por muito tempo, pois não consegue transpirar, e pela falta de umidade decorrente do suor pode sofrer fortes queimaduras. Nasceu para olhar para baixo e se esconder da luz, sendo forçado por essa natureza a viver na lama. Ele também me disse, que o porco é o animal mais amaldiçoado do que a serpente, pois os porcos são invulneráveis às suas picadas venenosas. E concluiu:

    — É por isso que não se deve consumir a carne desse animal, por na verdade ser um ser-humano totalmente consciente em forma atrofiada. — e, acrescentou me revelando algo — Você sabia que não há diferença de gosto entre carne humana da carne suína… ambas possuem a mesma textura e sabor.

    Uau! Diante desses fatos que me foram apresentados por esse velho sacerdote Sufi, fiquei estupefato. E, entendi o porquê de George Orwell escolher os porcos para serem os protagonistas da revolução em seu romance satírico (Animal Farm — A Revolução dos Bichos). Provavelmente, ele sabia desse conhecimento do Tasawwuf. E isso me fez pensar, o quanto os antigos sabem do quê não sabemos. Essas são respostas que não podemos encontrar no oráculo Google. Respostas de um velho de oitenta e poucos anos sentando em um banco de parque (se bem que agora poder ser encontrada no Google).

    O velho me vendo atônito, colocou seus aparatos de café na sua sacola, levantou-se, despediu-se e saiu sem mais nada a dizer.

    E lá no banco do parque de Kfar Saba fiquei com a mão no queixo, vendo os peixes e as nymphaeas. Tão Ignorado em minha ignorante aquariofilia.

  • Crônicas do Parque: Rápido Demais

    Já fazia cinco solitários anos em que se encontrava separado e divorciado. Se mantinha firme em sua promessa de não mais se envolver e se entregar a um relacionamento amoroso. Afinal, sofrera bastante quando se separou da sua amada e louca esposa norte-americana (USA), que de repente enlouquecera quando ele achava estar tudo indo bem.

    Lembrara-se quando, por causa da separação, se ergueu de uma depressão que quase o matou de fome, em que ao final do quinto dia sem comer desmaiara caindo da cadeira em que estava sentado solitário trancado no escuro do seu apartamento. Em um instante se viu envolto em uma luz alvamente branca, flutuando em um corredor que o erguera para cima. Aquilo o atraia majestosamente como dando um basta a sua vida terrena de sofrimentos. Porém, de repente, ao súbito, olhara para baixo vendo o seu corpo caído ao chão desgraçadamente. E disse para si mesmo:

    — Não! Não é minha hora, tenho que voltar. Por favor me ajuda!

    E, novamente, lá estava ele, desgraçadamente em seu corpo caído ao chão. Juntou forças e foi se arrastando até a cozinha. Ao chegar, viu um pedaço de baguete duro sobre a mesa, e se esforçando em seu íntimo, apoiando penosamente os seus braços na cadeira, ergueu-se com considerável esforço para pegá-lo. Já com o pão-duro na mão, rastejou até o filtro de água potável em que enchera um copo. E ali caído ao solo com as costas recostadas nas gavetas do armário da pia, comeu vagarosamente o tosco pedaço de pão-duro, junto a goladas de água.

    Quando sentiu que já tinha forças para se levantar, ergueu-se pausadamente segurando com suas mãos as gavetas da pia, como se estivesse escalando o monte Everest. E, apoiou-se sobre seus pês. Foi até o banheiro, e tomou uma longa ducha quente. Ao final, viu que carecera de um choque térmico, e virou a torneira fazendo com que água esfriasse, tomando uma outra ducha fria. E bocejava, estremecia e ofegava.

    Vestiu-se, entrou em seu carro e pegou seu smartphone o ligando depois de uma semana, e vira múltiplas notificações de mensagens e ligações em sua tela. Ignorou-as, indo diretamente ao aplicativo GPS de serviços para procurar um bom restaurante italiano mais próximo, pois muito desejara comer uma pasta com frutos do mar. Depois dessa recaída em que quase lhe valera a vida, prometeu para si mesmo viver como um monge eunuco, distante das perigosas mulheres.

    Assim, estava ele vivendo feliz sem dar satisfação a ninguém para onde ia e o que fazia. Procurava ocupar ao máximo o seu tempo fazendo classes de yoga, pilates, teatro e aprendendo a tocar flauta e piano. Evitava ler, ver e ouvir romances, séries e filmes, músicas e histórias de relações amorosas, em que baixara um moderno e super aplicativo de tarefas, para seu smartphone. Onde ao final de cada dia, dedicava meia hora da sua atarefada vida para fazer a programação do próximo dia, não dando oportunidades para surpresas, fechando assim, as portas para novos imprevistos que o poderia levar a um novo relacionamento, ao conhecer uma interessante pessoa em um lugar desconhecido, fora da sua agenda digital de compromissos fictícios.

    Portanto, acordava, se levantava e ia correr por uma hora todas as manhãs antes de ir para o seu entediante trabalho de programador, em uma dessas grandes corporações Hi-Tech Israelense.

    Em uma dessas manhãs em que corria no parque de Kfar Saba, viu a sua frente uma jovem que tropeçara na pista de exercícios, e machucara um dos joelhos, por um instante decidiu ignorar aquele acidente, ultrapassando-a. Porém, por um ataque de consciência deu meia volta, indo ao encontro da jovem que se encontrava sentada no chão chorando.

    Ao chegar até ela, agachou-se e disse ainda ofegando pelo esforço do seu exercício:

    — Você está bem?

    — Claro que não! Você não vê?

    — Desculpe! Só estou tentando ajudar. Venha, vou te levantar.

    — Ai! Ai! Ai! — resmungou a moça não podendo se apoiar em uma das pernas.

    Então, ele a carregou em seus braços a levando para grama, pondo-a debaixo de uma Tamareira que fazia uma refrescante sombra. E a perguntou:

    — Você mora por aqui por perto?

    — Moro em Rosh Haayin.

    — Não está tão longe. — falou ele enquanto estava lavando o ferimento do joelho da jovem moça, com a água de sua garrafa.

    — Você está de carro? — perguntou a jovem. — Será que pode me levar até minha casa. — acrescentou.

    Ele hesitou ao responder de imediato, e olhou para o seu smartwatch que se encontrava no pulso direito, sabendo que se a ajudasse, chegaria tarde no trabalho. E, olhando para aquela jovem e linda moça de olhos verdes molhados de lágrimas, não resistindo ao seu apelo, disse:

    — Sim, eu te levo para casa. Mas, vamos rápido, é que estou meio atrasado para o trabalho.

    Ela sorriu, e de súbito o beijou no rosto como forma de reverência. E aquele beijo repentino acendeu um chama nele que há muito tempo se encontrava apagada. E temeu, ignorando aquele beijo ao levantar a moça nas suas costas, apoiando-a como se fosse uma mochila. Ao passo em que ele caminhava com a pesada moça sobre as costas, ela ia tagarelando:

    — Nem ao menos nos apresentamos, e aqui estamos como namorados em que você me leva de macaquinho. Como é o destino, ultimamente só estou conhecendo novas pessoas através das redes sociais no meu celular, e agora te conheço assim, em um acidente, e já temos um contato físico como pessoas que se conhecem a muito tempo. Acho que só os acidentes são capazes disso. Agora me vejo em meio a uma fantasia, nessas cenas de filmes românticos dos anos 80 e 90 que as pessoas postam na internet. O que acha? Eu ainda não sei o seu nome. Como você se chama?

    — Em primeiro lugar não somos amigos, nem muito menos namorados. Em segundo você está muito pesada, e não estou conseguindo me concentrar com essa sua tagarelice. Me chamo Nimirod.

    — Desculpa Nimi, eu só estava querendo te distrair por causa do meu peso e seu esforço. Me chamo Einat. Prometo que não falo mais. Naim meod (Prazer em conhecê-lo)!

    Juntos chegaram ao estacionamento, e ele a colocou no banco da frente do seu carro. Ela ainda se encontrava calada pela dura que recebera dele, e, ele se encontrava sério, meio puto em chegar atrasado para o trabalho.

    Então, ela resolveu quebrar o gelo que existia entre os dois, perguntando-o:

    — Você corre no parque de Kfar Saba todos os dias?

    — Ken (Sim). — respondeu ele secamente.

    — Você mora em Kfar Saba?

    — Lo (Não). — deu outra resposta seca.

    — Onde mora?

    — Próximo. — disse isso não querendo respondê-la.

    — Sim. Não. Próximo. Você fala hebraico? — disse ela o provocando.

    — Você é da polícia? Não pode se calar um pouco, apenas por um momento. Não gosto de ser interrogado, e por sua causa estou me atrasando para o trabalho hoje.

    Ao ver essa resposta arrogante, mais uma vez os olhos da jovem se encheram de lágrimas, e ela pediu para descer ali mesmo em qualquer lugar, já que estava incomodando.

    Diante disso, vendo as lágrimas descendo pelas lindas pálpebras que ao chorar se encontra avermelhadas no belo rosto inocente da jovem ao seu lado, arrependido ele disse:

    — Desculpe-me Einat. Apenas fiquei irritado por me atrasar para ir ao trabalho hoje, tenho muitas tarefas e meu chefe está já há uma semana no meu pé para que eu termine. Vou te levar para casa e tentar responder suas perguntas, ok.

    A jovem enxugou suas lágrimas, deu um grande sorriso, e perguntou:

    — Quantos anos você tem?

    — Trinta e sete. E você?

    — Vinte e três.

    — Você é nova. Fez o exército?

    — Sim. Terminei faz um ano.

    — E não viajou?

    — Acabei de chegar da Índia, estive lá por dez meses.

    — E como foi?

    — Louco. Já foi a Índia?

    — Sim.

    — E como foi?

    — Louco.

    — Então, não preciso lhe dizer nada — disse ela sorrindo.

    Ele sorriu em resposta, e a perguntou já chegando em Rosh Haayin:

    — Em que direção fica sua casa aqui.

    — Eu não sei direito lhe instruir, pois sou nova aqui, mas posso ver no celular. — disse ela pegando o seu smartphone, e abrindo o aplicativo GPS digitando o nome da rua.

    — Você é daqui? Quero dizer, dessa região? — perguntou ele, enquanto ela ainda digitava.

    — Não. Sou de Tel Aviv. Vim morar aqui por causa do emprego de ajudante de enfermeira veterinária, pois quero estudar veterinária no futuro. Amo animais, principalmente gatos.

    — Eu odeio gatos. São egoístas e interesseiros.

    — Assim como nós. — disse ela.

    — Prefiro os cachorros. São amáveis e amigos. — disse ele ignorando o que ela disse.

    — Já eu, não sou muito afeiçoada a eles. São dependentes de mais e bagunceiros.

    — Assim como nós, principalmente quando crianças. — disse ele.

    Ambos se olharam e sorriram como se concordassem um com o outro, e a voz robótica do aplicativo falou dizendo que se encontravam no local de chegada.

    — É aqui, nesse prédio. — disse ela apontando, e continuou — Quer entrar para tomar um café? Afinal, você já está atrasado mesmo.

    — Não, obrigado! Não quero me atrasar mais ainda.

    — Só que tem um probleminha! — disse a jovem o pegando pelo braço — Esqueceu que não posso andar, e no meu prédio não tem elevador, e vivo no terraço no quarto andar. — disse ela sorrindo.

    — Ok! Te levo até lá, mas não tenho tempo para o café.

    Ela sorriu. Ele saiu do carro, foi até a porta do assento lateral, a carregou em seus braços, e ela disse:

    — Agora parece que acabamos de nos casar, e você me leva para lua de mel.

    Ele a encarou com seriedade não gostando nada do que ela disse, e a colocou em suas costas indo em direção ao prédio a sua frente. Chegando à porta, ele se virou de lado para que ela pudesse digitar o código chave de cinco dígitos para abrir, fazendo um barulho entediante afirmando que já estava destrancada. Ele empurrou a porta de vidro com o pé, e enquanto adentrava ela ajudou com uma das mãos, sendo que o seu outro braço estava envolvendo o busto e pescoço dele.

    E seguiram subindo a escada. A cada andar ele parava um pouco para pegar um fôlego e descansar. E ela resolveu dessa vez ficar em silêncio, pois ele não estava nada gostando daquela situação. Então, chegaram a porta do apartamento dela. E ela disse:

    — Não vai nem ao menos entrar para um copo d’água e descansar um pouco.

    E, ofegante ele disse:

    — Não. Melhor não. Estou muito atrasado, tenho que ir.

    — Vai me deixar aqui na porta para que eu me arraste até a cama? — perguntou ela com uma dengosa voz.

    — Acho melhor você já aprender a se virar sozinha com essa situação. Depois você vai me pedir para te levar para o banheiro, e te dar banho e depois fazer comida.

    — Eu bem que poderia comer você. _ disse ela, e vendo a cara dele de extremo espanto, rapidamente exclamou — Brincadeirinha! — disse isso, querendo desfazer o que disse.

    — É por isso que não quero entrar. É disso que eu tenho medo. Vocês jovens são rápidos demais. Bye! — disse ele descendo as escadas.

    — Hei, espera aí! Você não me disse onde mora. — disse ela gritando.

    — Moro em Kfar Saba. — respondeu ele já de baixo.

    — Me dá o número do seu telefone. — ela gritou de cima.

    — Rápido demais, já disse! E se eu for casado…

    — Você é casado? — Ela gritou o mais alto que pode.

    — Não! Mas, enquanto o meu número de telefone, vai ter que descobrir por si só.

    — Isso já é bom! — gritou ela, e já não houve mais respostas. — “Ele se foi” — pensou ela entrando no seu apartamento.

    Ele entrou no carro e dirigiu rapidamente para o local de trabalho, fazendo consideráveis esforços para esquecer aquele imprevisto e inconveniente acontecido, repetindo um milhão de vezes em sua mente — “Isso nunca existiu” — tentando assim ignorar os fatos, que já fora fisgado pelas garras amorosas do destino.

    Ela estava maravilhada com ele, achava ele bonito e responsável, o tipo certo para uma mulher se casar. Ela era tão jovem, mas já pensava em um bom partido. Estava meia que traumatizada pelo motivo de suas duas irmãs mais velhas não conseguirem ter relacionamentos por serem gordas, não suprindo as exigências dos homens israelenses, numa sociedade que admira e fortalece a indústria da moda e cosméticos. Sendo que sua irmã mais velha de trinta e oito anos, fizera bebês em um laboratório de banco de espermas, tendo assim filhos gêmeos. E sua segunda irmã de trinta e quatro, já estava pensando em fazer a mesma coisa. Ela não era assim tão gordinha, mas geneticamente tinha formas arredondadas, e isso a preocupava. Passava muito tempo na frente do espelho, e se achava gorda e feia.

    Porém, não era bem assim, suas amigas a invejavam pela sua cintura bem definida, seu bumbum farto e arredondado, seus seios medianos e seu rosto de anjo com olhos verdes e cabelos loiros e encaracolados cor de mel. Um belo corpo de violoncelo, unida a um belo rosto e altura de um metro e setenta e cinco invejável. Não era gorda de jeito e maneira, era dessas mulheres mutantes de forma gigantesca.

    O despertador do smartphone tocou as cinco horas da manhã como de costume, ele se levantou em um único pulo de sua cama indo diretamente ao banheiro, lavara o rosto e escovara os dentes apressadamente. Vestiu-se com sua roupa e assessórios de correr, colocou seus fones de ouvidos bluetooth, e pendurou o seu smartphone por uma capa detentora em seu braço esquerdo, começando o seu exercício matinal ao som do piano de Richard Clayderman. Pelo esforço que fizera anterior e interiormente para esquecer do evento inconveniente do dia passado, já não se lembrara com emoção daquela moça linda e alta de olhos verdes e cabelos loiros encaracolados, sua mente se voltara a sua rotina diária de solteirão feliz.

    Mas para o seu desgosto, lá estava a jovem linda moça correndo em sua direção pela contramão com o joelho enfaixado. Ao passo em que se aproximava dela, ele pensava em ignorá-la. Dizendo em seus pensamentos: “Puta-merda! O que ela quer de mim. Droga! Porque logo hoje fui me esquecer de colocar meus óculos escuros”.

    Ao se aproximarem, param ainda correndo e trocaram sorrisos, e ela disse:

    — Olá como está?

    — Bem. Vejo que seu joelho já está bom.

    — Quase. Mas não resistir ter que parar com os meus exercícios matinais.

    — Entendo. Bom! Não quero me atrasar mais um dia para o trabalho. Bye!

    — Bye! Lehitraot (Até mais ver)!

    E, continuaram os seus percursos, entretanto, enquanto se distanciavam ela se virou correndo de costas e disse em alta voz:

    — Ainda quero o número do seu telefone.

    — Ainda vai ter que descobrir. — disse ele não olhando para trás.

    E, isso se repetia dia após dia, semana após semana.

    Até em que um belo dia de Yom Rishon (domingo) ensolarado, em que ele estava a correr como de costume no parque de Kfar Saba, não a viu durante todo o percurso. E, pensou: “Ela não veio correr hoje. O que será que aconteceu. Não importa! Bom para mim”. E, Yom Sheni (segunda-feira) a mesma coisa. E, Yom Shilishi (terça-feira), Yom Revyi (quarta-feira), Yom Hamishi (quinta-feira), Yom Shishi (sexta-feira) a mesma ausência.

    Yom Shabat (sábado), ele despertara já sem o apito do seu despertador. Continuou ainda deitado em sua confortável cama elétrica com colchões de astronauta, e não conseguia pensar em outra coisa, senão, nela. E vislumbrara em seus pensamentos o sorriso contagiante que enfeitava seu belo e limpo rosto redondo. Sua meiga voz de menina mimada. E seu gigante corpo perfeito. A ausência dela o fisgara, como as coloridas iscas artificiais dos profissionais esportistas pescadores. Aconteceu o que ele mais temia, se viu apaixonado, e sabia que esse sentimento era o mesmo que estar enfermo. Mas, agora, o que fazer, pensou. Ir procurá-la. Não! Isso era se entregar a loucura novamente. E se lastimou pelo fato de não ter dado o número do seu telefone a ela.

    Levantou-se da cama, foi ao banheiro, levantou a tampa da latrina e fez xixi. Deu descarga, e foi ao lavatório. Se olhou no espelho, e pela primeira vez viu um fio de cabelo branco em sua cabeça e dois em sua barba. “Meu deus!” Pensou. Abriu rapidamente a gaveta do lavatório procurando uma tesoura, e achando-a, rapidamente com cuidado fora até a raiz dos seus intrusos cabelos brancos para expulsá-los.

    — Estou ficando velho. — disse em alta voz para si mesmo.

    Teve medo por um instante de pânico de envelhecer sozinho. E pensou nela. Rapidamente entrara na banheira, ligara a ducha tomando um banho. Pegou a tolha, se enxugou apressadamente, passara um creme facial no rosto e se perfumara. Correu até o quarto, se vestindo elegantemente com roupas de verão. Uma curta bermuda branca, uma camiseta verde e uma sandália de couro esportiva. E, pensou em convidá-la para ir à praia em Herzliya.

    Ao chegar no prédio em que ela morava, correu em direção a porta, e não se lembrando o número do seu apartamento, não sabia em que botão devia apertar para chamá-la pelo interfone. Esperou um pouco, e teve a oportunidade quando um casal estava para sair, aproveitou essa oportunidade em que a porta fora aberta, adentrando-a. E subiu as escadas em direção ao terraço no quarto andar. Lá chegando, parou e fez um pequeno exercício de respiração para aliviar a tensão. E, antes de bater à porta hesitou, não sabendo bem o que dizer a ela. E quando fora bater, a porta se abriu. Sendo, que ambos se assustaram. E ela disse:

    — Você aqui! Eu já estava prestes a sair.

    — Pois é, resolvi ainda que tarde aceitar seu convite para tomar um café. Mas, vejo que tens compromisso.

    — Eu estava indo à praia.

    — Uau! Foi isso mesmo que vim fazer aqui, te convidar para ir à praia.

    — Ainda quer entrar e tomar um café antes?

    — Seria um prazer!

    Ele entrou, e viu que ela morava em um pequeno apartamento de solteiro de apenas um quarto, com uma pequena cozinha e banheiro acoplados. Mas, que continha uma enorme varanda no terraço com muitas flores, plantas, um cagado, um papagaio branco, uma iguana e três gatos. O apartamento era pequeno, mas estava muito bem organizado com uma cama de casal ao meio, a cozinha no estilo americano a frente, o banheiro ao lado e uma grande mesa com impressora e computador, improvisando um escritório de trabalho. Do outro lado havia também uma porta e uma larga janela que dava para varanda. O ambiente estava bem iluminado e confortável, havia odores de incenso, e um toque alegre maravilhosamente feminino. Muito distante do seu escuro apartamento, triste e sem graça. E, enquanto ela aprontava o café, ele disse ao se sentar a cama:

    — Bonito e aconchegante aqui.

    — Foi isso que você perdeu antes. Muito lento você, Sr. Lesma.

    — E você, apressada demais, Sra. Papa Léguas.

    — Viu!

    — Viu o quê?

    — Agora já estamos nos comportando como um casal rotineiro, discutindo por besteiras.

    — Rápida demais, menina! — Ele a alertou, e continuou — Nem começamos ainda a namorar, e você fala em casamento. Mas me diga, porque não foi ao parque correr essa semana.

    — Funcionou!

    — Funcionou o quê? — perguntou ele sem nada entender.

    — Não está vendo. — disse ela sorrindo, e fazendo um gesto obvio ao erguer a palma de suas mãos para cima, ao dobrar os cotovelos a linha do umbigo.

    — Como sou idiota! Shalom! — disse ele indo revoltado em direção a porta.

    — Bye! — disse ela tranquilamente sem olhar para traz, enquanto ainda preparava o café.

    Rapidamente ele saiu, e descendo as escadas às pressas, parou no meio, colocou a mão na cabeça, e dizia para si em voz alta:

    — Como sou idiota! Hahhhh!

    Continuou a descer, e ao chegar a porta. Hesitou em abri-la. E se viu completamente apaixonado e envolvido por ela. Tão rápido, mais rápido do que a velocidade dos pensamentos era a velocidade dos sentimentos. Sua cabeça lhe dizia: “Saia imediatamente dessa arapuca, e esqueça essa garota que só vai atrapalhar a sua vida”. E o coração rebatia, dizendo: “Volte imediatamente, peça desculpas e diga que gosta dela”.

    O coração foi mais forte, assim deu meia volta e subiu as escadas. E lá estava ela a porta, com duas xícaras na mão, uma de café e outra de chá de folhas de Luíza Limão do seu pequeno canteiro de ervas. Ele subiu a passos lentos em sua direção. E pediu desculpas, e ela abrindo os braços com as mãos ocupadas com as xícaras cheias, disse:

    — Só desculpo se me der um beijo.

    Ele se aproximou o mais perto possível, encostando barriga a barriga, e sentiu o calor atraente do corpo dela o chamando. Olho a olho se olhavam, e o olhar dela ficou meio vesgo, tornando-a mais linda e atraente, ainda mais do que já era. Suas respirações estavam ofegantes, e seus corações pulsavam tão alto, que faziam os líquidos das xícaras que estavam nas mãos dela ondularem pelas laterais, respigando todo o chão. E por um instante se cheiravam, enquanto seus narizes se tocavam. Rapidamente ele se afastou, pegando a xícara de café da mão dela, e disse:

    — Rápido demais, menina. Rápido demais…

    Ela sorriu, e ambos caminharam até a varanda. Assim, se sentaram um a frente do outro em uma pequena mesa de ferro, com a plataforma de cimento com mosaicos feitos de pedaços de azulejo que ela mesma confeccionara. E, apenas se olhavam por longos minutos sem nada dizer, enquanto saboreavam o gosto do café e chá, e os gatos se enroscavam em seus pés.

    Então, ele rompera o silêncio dizendo:

    — Vamos devagar, Ok! Assim será melhor e mais prazeroso. Não quero ter uma relação de palito de fósforo.

    — Como assim, palito de fósforo? — indagou ela.

    — Você tem uma caixa de fósforos? — perguntou.

    Ela sem nada dizer, adentrou a casa para apanhar. E trazendo, foi vagarosamente por detrás dele o abraçando em tons provocativos, enquanto estendia com uma das mãos a caixa de palitos de fósforos a frente dos seus olhos. Ele pegou a caixa, ela voltou ao seu assento, e ele disse:

    — Tome essa caixa, pegue um fósforo e acenda.

    E, assim como foi dito, ela fez. E ele disse:

    — Está vendo! O fósforo acendeu ligeiro se inflamando rapidamente, e da mesma forma ligeiro se apagou. O mesmo acontecerá conosco se formos tão depressa nisso. Tudo não passará de uma inflamante paixão. Devemos começar como uma pequena fogueira de acampamento. Catar folhas e palhas secas, colocar gravetos em cima, depois paus grossos e duros, e acendê-la com muita atenção cuidadosamente, e ir alimentando-a com esse combustível de matéria orgânica dura aos poucos, para que permaneça acesa, e venha nos aquecer por toda noite, até a vinda do sol.

    — Mas, essa sua fogueira só poderá ser acesa com um palito de fósforo, não é? — questionou a moça a sua frente com ironia.

    Nisso, ele se irritou novamente. E ela rapidamente disse:

    — Brincadeirinha, Sr. Nervosinho. — e sorriu como uma esperta menina, que ganhou a aposta.

    — Ok! Nada de telefones, SMS, Telegram, WhatsApp, Facebook, Skype e todas essas parafernálias da internet. Usaremos cartas. E só nos encontraremos no local especificado por elas. Faremos a moda antiga, antes da tecnologia. _ rebateu ele, irritado por se sentir derrotado.

    — E se as cartas não chegarem? Você sabe como são os correios aqui em Israel.

    — Vamos usar então uma empresa de correios privada. Não se preocupe, eu cobrirei todos os custos.

    — Está bem, Sr. A Moda Antiga — disse ela ironicamente concordando.

    Assim, terminaram com o café e chá, e foram para praia em Herzliya. Lá, conversaram bastante abrindo o livro de suas vidas um para o outro, e o tempo em que passaram juntos foram mágicos para os dois.

    Ele a levou de volta para o apartamento dela em Rosh Haayin. E, ao se despedir saindo do carro, enquanto ainda caminhavam até a porta do prédio, ela o surpreendeu com um beijo apaixonante em sua boca, em que ele nem ao menos teve chance de resistir, apenas pela altura dela, teve que ficar suspenso nas pontas dos pés. Então, ela percebendo o seu desconforto, o puxou ainda o beijando descendo para rua, enquanto ele ainda ficava sobre o paralelepípedo da calçada, dessa forma ele ficou mais alto e ela mais baixa. Esse beijo em que se abraçaram amorosamente, durou por quase dois minutos. Ao terminar ela disse se despedindo:

    — Isso foi apenas o palito de fósforo que acendeu a fogueira no nosso acampamento.

    E assim, ele e ela, Nimi e Einat se encontravam esporadicamente através de cartas que indicavam locais estratégicos como um jogo de RPG. Ela o escrevia cartas amorosas, as desenhando com lápis de cor, ou aquarela, e fazia também colagens de flores e folhas do seu jardim suspenso. Ele a enviava cartas com bombons e flores, sempre ditando os lugares de encontro como o mestre do jogo. Até que um dia, ela recebeu uma encomenda vinda em um carro forte de alta segurança, tendo que dar várias assinaturas nos protocolos de papeis para recebê-la. Parecia-lhe algo extremamente de muito valor financeiro, para vim com aqueles seguranças todos bem armados, com pistolas e escopetas Glock 9mm e .40 S&W. Era uma caixa grande que envolvia outras pequenas caixas, como degraus de escada de caixas sobre caixas. E, ao chegar à última e pequena caixa preta. Encontrou um pequeno papel vermelho, dobrado em quatro partes. E ao abri-lo, viu um número de telefone escrito em tinta negra: 0529516651. De imediato foi a sua bolsa procurando o seu smartphone, e ao achá-lo ligou imediatamente. E ao dizer alô, ouviu uma voz que emocionado perguntava:

    — Quer se casar comigo?

    — Rápido demais, seu moço. Nem ao menos ficamos noivos e você já pensa em casamento.

    Então, ele ao ouvir essa resposta, desligou de imediato o telefone.

    E, ela se desesperou dizendo para si: “Droga! Eu brinco demais com ele, e ele sempre me leva a sério. Apenas só repeti as suas palavras. Droga!”.

    Todavia, enquanto ela tentava ligar para ele novamente, desesperada para lhe dizer: “Sim! Era isso que eu mais desejava desde quando nos conhecemos”. Ela ouviu um toc, toc em sua porta. E abrindo-a, lá estava ele de joelhos com uma caixa de anéis na mão dizendo:

    — Case-se comigo agora Einat, mesmo que seja rápido demais! É que não precisamos mais da fogueira no nosso acampamento. Pois, o sol raiou, e já é dia!

  • DAS MESMAS VEZES

    A voz abriu a janela com furor e pudor, como se não quisesse fazer barulho. Porém, com o impacto insano dos próprios gestos embaralhados, desconcertados e desengonçados fez-se o estrondo sem querer. Havia o intuito de perturbar, de estilhaçar e por fim de fazer não viver. A voz sugava a alma da moça deitada na cama, quase que desfalecida. A voz que não se importava com a tortura agoniante dos ossos que se contorciam rapidamente em uma expulsão do próprio espírito. A voz que não era dos cabelos negros que estavam embalando o travesseiro em um abraço meio "graceiro", benéfico. A voz acariciou o pescoço nu da jovem imóvel. Fez-se um calafrio. Em um estupefato movimento do vento insone, a vocalização perdia-se no deserto frio da alma. A moça pestanejou, fez rangir os dentes, ignorou o grito de socorro estridente. Acordou, já era manhã. E, logo que se ergueu pela janela para contemplar o sol escaldante, a vista foi atingida com a dor do morto que a olhava com pupilas saltitantes. "O grito era dele!", exclamou. Agora não era mais. 
  • De Yom Rishon (domingo) a Yom Hamishi (quinta-feira) — Crônicas do Parque

    Acordou exausto às quatro horas da manhã com o toque de uma suave música de flauta chinesa, em que configurara no aplicativo despertador do seu smartphone. Levantou-se de súbito sentando na cama com os olhos pesados de sono, em que o seu corpo estava a lhe implorar por mais algumas horas de descanso. Aquele momento era-lhe torturante, pronunciou mentalmente algumas palavras de conforto “Seja forte, vamos! Levante-se com o pé direito imediatamente’’. Assim, levantou-se indo caminhando a passos tontos em direção ao banheiro. Fora com a mão ao interruptor, ligou a luz, e seus olhos recebeu um choque luminoso profundo. Deu alguns passos curtos até o lavatório, ligou a torneira ajustando a água para que ficasse morna, juntou as mãos em forma de cuia e banhou o seu rosto, confortando sua alma. Olhou para o espelho, e olho a olho se confrontaram numa vermelhidão sangrenta, ‘’Mas um dia!’’, exclamou para si mesmo. Rapidamente fora até a cozinha, agora com mais energia, e colocará a água do café na chaleira para esquentar, ligou a máquina de moer grãos e foi à sala vestir-se com as roupas do trabalho. Despiu-se das roupas de dormir jogando-as de qualquer forma no sofá, restando no corpo apenas a cueca. Vestiu a calça, apertou o sinto, colocou a camisa, e por último uma toca para cobrir sua longa cabeleira de tranças naturais. Ao término dessa empreitada, a chaleira começou a apitar. Regressara a cozinha, pegara uma xícara e uma colherzinha, e fora a máquina de moer grãos. Colocou duas colheres de café colombiano que comprara na feira de Ramilah, em uma loja de tempero dos árabes, e pegando a chaleira que se encontrava apitando no fogão, despejou lentamente a água fervendo sobre o café moído que se encontrava deitado na xicara, em que prazerosamente inalava o vapor do café que subia envolvendo o seu rosto. Somente naquele momento de pura nostalgia, em que se entregava aquela sensação prazerosamente odorífica, que a angustia da sua correria matinal terminava. Após aqueles segundos de êxtase profundo, voltava a realidade, jogando três folhas secas de sálvia na xícara, misturando com a colherzinha o seu café. Assim, colocou o seu relógio digital waterproof no pulso, e lhe restava apenas trinta minutos para que a vã buzinasse a porta de sua casa para o levar ao seu ofício. Foi ao seu quarto, retirou o seu smartphone do carregador vistoriando para desligar o WI-FI, o Bluetooth e GPS. Fez um Task Killer em um aplicativo de segurança, para maximizar o rendimento da bateria, e o colocou no bolso. Retirou também rapidamente o carregador, enrolando o cabo no adaptador da tomada, e o colocou em um dos bolsos laterais de sua calça de trabalho. Deu um beijo rápido em sua amada esposa que se encontrava dormindo na cama, onde ela sussurrou sonolenta desejando-lhe um bom dia, e dizendo que o amava muito, e que também havia um delicioso bolo no forninho. Fora também a barriga dela e deu outro beijo, pois, esta, se encontrava gravida de cinco meses. Saiu rapidamente onde pegou o seu sapato de trabalho com suas meias no corredor, indo de imediato ao quarto das crianças. Foi a cama de sua filhinha de três anos e meio, deu-lhe um beijo desejando um bom dia, e depois a cama do seu filho de seis anos, que ao lhe dar um beijo, acordou de súbito, dizendo: “Papai eu te amo, fica aqui comigo”. Então, ele lhe disse em resposta: “Tenho que ir trabalhar meu príncipe, mas quando chegar o Papai brinca com você de pirata, Ok! Tenha um bom dia na escolinha”. Rapidamente saíra do quarto das crianças, e foi até a cozinha com uma das mãos segurando os seus sapatos e meias. Com a outra mão pegou a sua xícara de café, e foi até o lado de fora na varanda da sua casa, em que jogou os sapatos e meias no chão, e assentou a xícara numa pequena mesa. Regressa para dentro da casa, olha para o relógio em seu pulso, e apenas lhe restava mais quinze minutos. Fora até o forno e retirou apressado a forma com o bolo de Pereg e chocolate amargo, com cobertura de calda de chocolate branco, que sua esposa lhe fizera na noite anterior. Pegou a faca cortou duas fartas medias fatias, colocou em um pires, pôs uma colherzinha, devolveu a forma com o bolo para o forno, e correu para a varanda. Assentou o pires na mesinha, e apressadamente como de costume colocou suas meias e sapatos, em quanto dava goladas e colheradas no seu café e bolo. Depois de se calçar, enquanto ainda engolia e mastigava, lembrou-se que se esquecerá de molhar as plantas a noite. E olhando para o relógio, viu que apenas lhe restava dois minutos, até o pontual motorista chegar a Rua Rashi 8, no bairro de Oshiot, na cidade de Rehovot. Levantou-se sem pestanejar, pegou o regador, e enchendo de água às pressas molhava as suas plantinhas rezando para que Ohad se atrasasse pelo menos cinco minutos. E assim se deu, quando recebeu uma mensagem de Ohad pelo WhatsApp que iria se atrasar uns dez minutos, devido o caminhão do lixo estar retirando algumas podas de árvore no Tzomet (giratória), que ligava a rua Ya’akobi a Avenida Hertzl. Aliviado, molhara suas plantinhas, terminara seu café, e fizera sua oração meditativa para boa conduta do seu dia de Yom Sheni (segunda-feira) e jornada de trabalho no Parque de Kfar Saba. E este ciclo de bem e mal se repetia de Yom Rishon (domingo) a Yom Hamishi (quinta-feira).
  • Desabafos de uma Ana

    Tem um momento da vida que você tem que parar para refleti sobre tudo o que você fez,que quer fazer é que está fazendo. Esse momento tem que acontecer não apenas uma vez,mas várias. Até hoje tento realizar as coisas com racionalidade, mas será que é o suficiente? Mágoas do passado não são simplesmente apagadas de uma hora para outra,ou até mesmo perdoadas,ainda mais quando são pessoas que você menos quer se magoa. Pedir perdão de um dia para o outro não resolve nada, inventar mentiras também não, e aquele tempo todo que passou sem falar um palavra se quer comigo? E aqueles momentos que mais precisei ou mais felizes da minha vida que foi perdido por um mero orgulho? Hoje percebo que toda mágoa que quardava não valia a pena, não existe volta para o que não quer ser concertado,não existe perdão para quem não admite o erro,não existe aproximação para quem não tenta. E pensando nesse momento,todo o tempo perdido valeu a pena?Sim,porque pude percebe a cada segundo quem realmente quis estar comigo resolvia o problema na hora,não deixava o orgulho vencer e reconhecia que estava errado. E se era eu a errada,me mostrava isso,não apenas sumia. Então reveja o seu julgamento de quem está certo ou errado,pois se despender de mim,vai continuar sendo apenas mais uma pessoa que passou pela minha vida.
  • DESCAMINHOS

    Sermos amantes
    Nos livros, na vontade de potência e livres!
    Construirmos nossas opiniões
    Silenciaremos os canhões e os sermões
    Viajaremos no universo e nas fragmentações.

    Sermos cantores
    Nos bastidores, escritores!
    Críticos dos valores superiores
    Da sociedade hipócrita sem concepções
    Vamos insuflar as cotas em detrimento dos colonizadores.

    Sermos artes
    Poesia, Platão e Sócrates!
    Livros belos, filosofia e conotações!
    Cidades, festivais e artes!
    Nietzsche, disciplina e valores.

    Sermos contestadores
    Catadores de sementes
    E de idéias mirabolantes
    Idealizadores de uma sociedade justa e combatente
    Nas trincheiras das desigualdades.

    Sermos desencaminhar...
  • Desejo Líquido

    Quando enfim me apaixonei
    O vento soprou ligeiro
    Aterrou minha varanda
    Revirou meu quarto inteiro
    Ele só não quebrou tudo
    (Bateu portas, o quasímodo)
    Pois o amor quebrou primeiro

    Mergulhando nos teus olhos
    Te despindo de segredos
    Se por descuido ou maldade
    Semear em teus lajedos
    Pelo meu destino velem
    Ante Anteu sorriso selem
    Nosso amor ou nossos medos.

Autores.com.br
Curitiba - PR

webmaster@number1.com.br

whatsapp  WhatsApp  (41) 99115-5222