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  • A Cidade Cinza

    Em uma noite chuvosa e com muita neblina...
    A luz da vela que ilumina...
    O poste que ficava na esquina...
    Da Cidade Cinza que ficava do lado da colina...
    Nas ruas molhadas de calçada de pedra...
    Não sabemos quem anda a frente...
    A neblina cobre os rostos...
    E não sabemos se é gente...
    Os ratos que passam pelas esquinas...
    Tem olhos vermelhos e cheiro de sina...
    Eles saem das paredes da Catedral...
    Como se eles se arrependessem do mal...
    As paredes do local santo...
    Não tem cor de salvação...
    E para o espanto...
    Nem o padre da cidade parece ter coração...
    As portas da prefeitura, são de madeira talhada...
    E os portões da frente são de pedra rachada...
    O prefeito nem larga sua almofada...
    Ele tem medo do monstro que mora debaixo da escada...
    A praça principal...
    Nunca apareceu no cartão postal...
    O parquinho velho e cheio de ervas daninhas...
    Virou lar de estranhas andorinhas...
    A biblioteca pública era um lugar esquisito...
    Os livros eram velhos e de capa estragada...
    Mas nunca vai ver uma folha rasgada...
    Pois a bibliotecária morta nunca deixou sua bancada...
    A escola é tão cinza quanto a cidade...
    Mas saiba que as crianças vão as aulas de verdade...
    Com o uniforme preto e tão sérias...
    Elas nem prestam mais atenção nas matérias...
    O açougue vende só carne podre...
    Bife fresco por lá é raridade...
    O açougueiro já nem corta as carnes de verdade...
    Ele coloca no balcão e ainda diz que é “Liquidação”...
    O cemitério é sujo e abandonado...
    As lapides estão cobertas de mofo...
    Quando tem velório na cidade...
    O caixão sempre é fechado...
    A Cidade Cinza é lar de famílias e animais...
    Vivendo suas vidas habituais...
    Mas cada um tem uma história interessante...
    E que pode encher uma estante...
    Eu paro por aqui pois minha vela está se apagando...
    Já é tarde da noite e está ventando...
    A neblina deixa tudo mais assustador...
    E eu fecho meu livro, que tem meu nome bordado “ O Narrador”...
  • A cópula dos mortos

    Morto, caminhando entre mortos.
    Uma carne viva, uma vida morta.
    Vivo em um corpo vivo
    sempre ansiando por coisas,
    coisas que já nascem mortas,
    abortos embalados pela canção
    da cegueira infinita bailando
    sobre os corpos dos prazeres
    em cópula com todas as dores
    enquanto abrem o meu peito e lambem
    sugando o sangue do meu coração,
    do meu trêmulo coração sem vontade.
    A cada desejo, a mentira da vida...
    Tão suculento, coxas úmidas,
    lábios e línguas…
    Fantasmas com máscaras de Vênus
    e os louros de Apolo, sendo tudo
    mas nunca sem polos.
    Sou corrompido pelas alturas,
    violentado pelos de baixo.
    Se olho pra cima e grito:
    Salve-me!
    O decote do mundo desvia o meu olhar.
    Quando dou por mim estou no quarto escuro
    entre os lábios de Babilônia embriagado por seu perfume,
    fazendo juras de amor, achando que eu a penetro,
    quando sou penetrado de todas as formas e grito: Mais!
    Ela se aproxima da minha face,
    seu hálito doce, seus cabelos serpenteantes,
    e nos seus olhos frios, sem vida como um espelho,
    vejo refletido a mim mesmo
    e com horror percebo que não existo,
    sou apenas ela que olha para o vazio
    dançando sobre os cadáveres da vida,
    sem vida, sonhando tudo.
  • A culpa não é sua

    Um tsunami cobre a cidade 
    Água salgada em nossas gargantas 
    Mar, você é o vilão,
    Destruidor de vidas

    Acusado falsamente, 
    No tribunal da injustiça 
    Você não é o culpado,
    Mar, você não é o vilão 

    A água que cobre a cidade, 
    Lágrimas dos meus olhos 
    Mar, eu sou a vilã,
    Eu sou a culpada.
  • A DOR DA PARTIDA

    Quantas partidas presenciei;
    Quantos desejei que ficasse para sempre;
    Partiu para longe, partiu para nunca mais voltar;
    Ainda me perco olhando para horizonte na espera que seja apenas um sonho;
    E ao acordar vai estar ali, de braços aberto a me acolher.
    Até que percebo que não vai voltar e por mais que eu deseje se foi...
    E dói, dói profundo, e por mais que eu compreenda que tudo tem um dia e hora para ir, ainda assim dói.
    E quantas vezes desejei também partir...talvez, em algum momento eu partir da vida de alguém, e será que doeu? Será que fiz falta, será que olhou para o horizonte na esperança que voltasse? Não, sei.
    Só sei que ainda hoje vejo as pessoas partirem da minha vida, vejo indo embora para algum lugar...e a dor da partida permanece presente em mim.
    Talvez, um dia eu me acostume, ou um dia eu também me vá para algum lugar onde a dó da partida não seja tão presente em minha vida.
  • A dor de não amar

    É fato
    Nada se pode vencer 
    Se o amor não resplandecer
    Eis o campeonato

    É triste quem no amor não é nato
    Vai se perder 
    E padecer
    É fato
  • A dor de um anjo

    Dói de verdade
    ver anjos machucados
    anjos caídos
    que apenas queriam amor
    e um pouco de carinho..

    Apenas anjos
    pequenos anjos
    com grandes corações
    prontos para dar amor..

    São jogados fora
    maltratados e
    esquecidos..

    Pequenas almas humanas
    criadas para guerras
    almas inofensivas..

    Apenas criadas para matar
    não para amar, não para respeitar
    apenas para matar e ignorar..

    Animais anjos caídos 
    estão sempre para te amar
    não para serem maltratados..

    Pelos humanos sem corações
    corações de verdade aqueles
    com carinho, amor e compreensão..

    Talvez ninguém tenha visto
    mas, a verdadeira guerra já começou
    só nós que ainda não notamos..

    A guerra por ódio 
    um querendo ser superior 
    ao outro
    um matando o outro pela sua
    cor, sexualidade e gênero..

    Pequenas almas 
    sendo motivos de piadas
    sendo motivos de morte
    sendo espancados e jogados
    foras como lixos por uma sociedade
    que deveria amar um ao outro..

    Agora podemos ver que os
    verdadeiros anjos, almas 
    felizes e amorosas
    estão apenas sendo destruídas..

    Por monstros que não conseguimos
    ver, mas estão ali..

    Por favor não sinta ódio
    Não machuque ninguém
    Não xingue ninguém
    Não faça o mal..

    ~Todo mal que te fizeram apenas retribua com amor,
    Porque quando se tem amor, força de vontade e objetivos ninguém pode te derrubar…
  • A ESCOLA DA VIDA

    Hoje é dia de prova
    E me preparo em oração
    O agente se renova
    Encarregado da missão.
    De surpresa me aparece
    Uma em cada momento
    Cada instante uma prece
    Pouco estudo e muito lamento.
    E na volta para casa
    Eu rezo para entrar
    É que a fé às vezes jaza
    E as provas tende aumentar.
    Pra quem estuda fica fácil
    E também saiba vigiar
    Com Jesus tudo é grácil
    Ajuda quem tem fé passar.
    Tem dias que reprovo
    Distraído na multidão
    Mas o Diretor muito bondoso
    Deixa-me em recuperação.
    Tem vezes sem estar pronto
    Não querendo arriscar
    Fico em prece estudando
    Para outra prova eu tentar.
    A vida é uma escola
    Qualquer dia e lugar
    Até mesmo na família
    Tem professor pra ensinar.
    O dia é corretor
    E quando me esqueço de vigiar
    Peço rápido ao Diretor
    Outra prova pra tentar.
    Em todos os anos letivos
    Cada dia foi uma lição
    Estou fazendo supletivo
    Recuperando em oração.
    Fiz muitas provas no escuro
    E foram poucas que passei
    Deixei matérias para o futuro
    Que no pretérito eu errei.
    No final impetuoso
    Sem nota pra passar
    O Diretor maravilhoso
    Deu-me a chance de voltar.
  • A escolha por trás da escolha

    O que nos faz optar a escolher?
    Com este incomodo persistente
    Coloquei um objetivo em minha mente
    Se por acaso me perder, espero que possa entender

    Quando um 'sim' é pronunciado, ele tem um significado
    É comum gostar do 'sim' e desprezar o 'não'
    Este 'sim' pode ser entendido como contrário do 'não'? Em vão!
    Este 'não', é uma forma de se interpretar o 'sim', um ponto relativo.
    Uma opção curiosa de não assumir um 'sim' proativo

    Isto lhe faz pensar em seguir divergências por sua própria escolha
    O segredo disto então, é entender que por trás de todo 'sim' foi elaborado um 'não'
    Nenhum ponto é certo ou errado. Mas sim, dependente de determinação ou ilusão
    Emerge de ti, escolher sair ou ficar nesta bolha.

    O que é uma tradição, se não uma brincadeira de 'sim' e 'não'
    Negar a si mesmo é deixar de pensar na própria escolha de vida
    E aceitar, sem contextualizar, é criar uma certeza de acabar com dúvida!
    Procurar entender problemas origina mais problemas, isto nos mantém em evolução

    Adotar uma escolha seguir, fará uma consequência há de surgir
    A dicotomia agora está entre o sucesso e a falha
    A falha ralha de maneira devastadora, traz o teu coração a partir
    Digo que isto não é fim, e tu deves agir

    Deixei a depressão me ferir, cicatrizes vieram a abrir
    Um antigo incômodo me atingiu, a tristeza
    Ela, sábia e coesa, não agiu com avareza
    Com sua companhia me ajudou com certeza
    Não é como antes, agora é uma amiga, em vagir

    Sua escolha é importante para ti, e para todos a sua volta
    Ódio não precisa de motivo, mas de motivação
    Falhas podem ser uma forma de redenção
    Tenha o 'sim' na resiliência e o 'não' escolhendo sempre o 'sim'. Dê a si mesmo a escolha de reviravolta

  • A Evolução de Adão

    Toda mulher convém ser amada,
    Com respeito e com muita paixão,
    Pois o barro que D’us a afeiçoou,
    Êle retirou do coração!

    Toda mulher é tom de emoção,
    De mistérios e de mui valor!
    Por serem a arca que guarda a vida,
    São as sendas intensas do amor!

    Em ti encontro este belo esplendor
    Oh coroa da divina criação!
    De uma costela se fez completa,
    Com a inefável inspiração!
    Ao guardar a centelha da vida,
    És a nobre evolução de Adão!

    ISBN - 978-85-5530-024-0
  • À Florbela Espanca

    Te entendo, amiga, o tanto que arde

    O sol, a pino, no céu azul piscina

    O amor no peito, vermelho escarlate

    E o medo de ambos te faz fugir como menina

     

    Pena que não pude encontrá-la, franzina e fina

    Destilando no papel essa beleza de arte

    Vislumbrando, como um astrônomo à Marte

    Olhando hoje o que tu refletiu em era distinta

     

    Triste noite, mundo deserto e frio

    Ao ouvir sua infeliz sina

    Andreza de Oxum nunca mais sorriu

     

    E esse fadário no seu peito forte

    Um tédio profundo de viver nina

    Um desejo persistente pela morte
  • A Fragilidade do Azul

    Todo carinho ainda é pouco
    para coração assim
    tão frágil.

    Sim, cuidado! Pois meu coração
    é frágil como um faquir
    ou professor de física
    tísico e desgrenhado.

    Fragilíssimo!
    Como a moça de porcelana e celulites
    que, às quintas, cospe fogo
    em circos de quinta.

    Frágil como uma réstia de luz
    no derradeiro instante
    de um crepúsculo azul.
  • A Garota que pressente a chuva

    Você veio até mim
    Anunciando uma tempestade
    Nos molhamos demais
    E assim permanecemos juntos

    A chuva intensa passou
    Você continuou
    Nos entrelaçamos
    E nos tratamos com franqueza

    Mas você confunde o que deseja
    Com a necessidade de algo que não se sustenta

    Porque na verdade o momento talvez já tenha passado

    O tempo bom surgiu
    Um novo começo ressurgiu
    Mas acho que não mas estamos
    Totalmente nos planos um do outro

    Você intensa da sua forma
    E eu intenso do meu modo
    Como a chuva que caiu
    Quando veio o sol
    Você talvez já partiu

    Garota que trouxe a chuva
    E um pouco mais de desejo
    A quem não conseguia
    A tempos sentir qualquer coisa no peito

    Não irei sofrer
    Mas foi bom em ver
    Você sorrindo pra mim
    Dizendo que me deseja

    Não querendo dar um fim
    No que sempre acabo dando
    Eu acabo me molhando
    Esquecendo meu guarda chuva

    Esperando você dizer
    Junto de mim
    De novo que vai chover
    E não ter medo
    De se molhar
    Dessa vez
    Até o fim
  • À Geni

    Não é o dar-se amiúde
    nem o amar por amar
    que lhe tornam inaceitável,
    mas o alter ego escarrado na cara
    espelho para damas insuspeitas.
    Seu corpo nômade
    é que injeta o sangue
    nos olhos da igreja
    e faz perder-se o bispo.
  • A História de Um Verso encontrando sua Poesia

    Na mente em que navego submerso,
    lembro de você na mais pura sinestesia.
    Por diversos cantos por esse universo,
    ouço sua voz soando uma melodia.

    As vezes quando tudo está inverso,
    numa breve falha da minha ideologia,
    sinto-me fútil e muito controverso,
    mas recordo do que me disse aquele dia:

    "Você poderia acreditar no mais perverso,
    que todo dia suga a sua energia.
    Segure minha mão e vamos fazer o inverso.
    Fazer tudo aquilo pra depois sorrir com nostalgia."

    Até do mais bravo guerreiro o futuro é incerto.
    Eu te digo Clara, você é uma Valquíria.
    Que luta todo dia, haja chuva ou céu aberto.
    Até que tudo esteja claro, certo e Clara Lima.

    Escrevendo antes de ficar disperso,
    4:10 da madrugada, fazendo analogia.
    É deste jeito que contigo converso,
    pra dizer essa última estrofe que eu queria:

    Feliz por estar imerso,
    neste amor que me estasia.
    Nunca mais eu fiz um verso,
    mas vivo da própria poesia.
  • A História de um Verso encontrando sua Poesia

    Na mente em que navego submerso,
    lembro de você na mais pura sinestesia.
    Por diversos cantos por esse universo,
    ouço sua voz soando uma melodia.

    As vezes quando tudo está inverso,
    numa breve falha da minha ideologia,
    sinto-me fútil e muito controverso,
    mas recordo do que me disse aquele dia:

    "Você poderia acreditar no mais perverso,
    que todo dia suga a sua energia.
    Segure minha mão e vamos fazer o inverso.
    Fazer tudo aquilo pra depois sorrir com nostalgia."

    Até do mais bravo guerreiro o futuro é incerto.
    Eu te digo Clara, você é uma Valquíria.
    Que luta todo dia, haja chuva ou céu aberto.
    Até que tudo esteja claro, certo e Clara Lima.

    Escrevendo antes de ficar disperso,
    4:10 da madrugada, fazendo analogia.
    É deste jeito que contigo converso,
    pra dizer essa última estrofe que eu queria:

    Feliz por estar imerso,
    neste amor que me estasia.
    Nunca mais eu fiz um verso,
    mas vivo da própria poesia.
  • A IMPORTANTE COISA SEM IMPORTÂNCIA ALGUMA

    Hoje!
    Os hipopótamos levantaram primeiro
    E lá se foram os meus travesseiros
    Direto para a lagoa
    Perto da minha cama de feno
    Amontoados sobre a grama seca
    E todos os hipopótamos
    Tinham olhos azuis
    Eles submergiam dentre as folhas
    Pois o rio seco era banhado
    Por uma luz brilhante
    De uma lâmpada fria
    Que queimava a pele fina e branca
    Com listras pretas dos hipopótamos
    Tal como as zebras
    Mas acabei de me dar conta
    Que eram zebras mesmo
    E que nunca foram hipopótamos
    Na verdade seus olhos
    Eram azuis esverdeados
    E eu estava apavorado
    Como poderia confundir
    Durante tantos anos
    Zebras com hipopótamos
    Resolvi plantar toda minha angústia
    Num canteiro sobre a laje
    Do edifício ladrilhado
    Com pastilhas amarelo ouro
    E num piscar de olhos
    Um jardim de crisântemos
    Floresceram no tapete da sala
    Que beirava a cozinha
    Onde eu tomava café da manhã
    Rodeado de borboletas brancas
    E um bode de chifres abobadados
    Aguardando para comer as migalhas
    Do mingau de aveia que esfriava
    Sobre a copa da árvore sem folhas
    Pois que era verão
    E o frio fazia as araras nadarem
    No céu molhado pelo mar
    Que jogava para cima
    Suas águas transparentes
    De vez verde
    De vez azul
    De vez somente água
    Respingando em mim
    Enquanto em pensamento
    Indagava sobre meu absurdo
    De confundir zebras com hipopótamos.
  • A IMPORTANTE COISA SEM IMPORTÂNCIA ALGUMA

    Hoje!
    Os hipopótamos levantaram primeiro
    E lá se foram os meus travesseiros,
    Direto para a lagoa ,
    Bem perto da minha cama de feno,
    Amontoados sobre a grama seca,
    Onde todos os hipopótamos
    Tinham olhos azuis .
    Eles submergem dentre as folhas,
    Pois o rio seco era banhado,
    Por uma luz brilhante,
    De uma lâmpada fria,
    Que queima a pele fina e branca,
    Com listras pretas dos hipopótamos,
    Tal como as zebras.
    Ei! Acabei de me dar conta
    Que eram zebras mesmo!
    Nunca foram hipopótamos!
    E na verdade,
    Seus olhos eram azuis esverdeados.
    Eu estou apavorado,
    Como pude confundir,
    Durante tantos anos,
    Zebras com hipopótamos?
    Resolvi plantar toda minha angústia,
    Num canteiro sobre a laje ,
    Do edifício ladrilhado
    Com pastilhas amarelo ouro,
    E num piscar de olhos,
    Um jardim de crisântemos
    Floresceram no tapete da sala
    Que beira a cozinha ,
    Onde eu tomo meu café da manhã ,
    Rodeado de borboletas brancas
    E um bode de chifres abobadados
    Aguarda para comer as migalhas
    Do mingau de aveia que esfria
    Sobre a copa da árvore sem folhas,
    Pois que era verão
    E o frio fazia as araras nadarem
    No céu molhado pelo mar,
    Jogando para cima
    Suas águas transparentes...
    De vez verde,
    De vez azul,
    De vez somente água.
    Que respinga em mim,
    Enquanto penso,
    Sobre o meu absurdo,
    De confundir zebra com hipopótamo.
  • A ironia do verso

    A ironia do primeiro grão de areia
    Ela era única, para sempre a primeira.
    Ela disse que juntos seriam eternos
    Não importando onde fosse; no céu ou inferno.

    Mesmo depois da morte o amor deles viveria e iria
    Inspirar os raios de sol, como canções e poesia.
    O tempo passou e ela sentiu o sol perder o brilho
    Assim como as estações no ciclo do vício

    Com todas as lembranças fugindo pela janela.
    A noite chegou e lhe pesou eterna
    Ele continuava a provar daquela dor
    Fragmentos da fria solidão que o impregnou.
    { on}
    Ouvia os ecos que vagavam no som daqueles passos
    Não conseguia esquece-la na escuridão daquele fado.
  • A Jazz

    Sim, é jazz
    No ritmo
    Do coração arrítmico
    Que agora jaz
    É jazz
    No riso
    Que de improviso
    Surge pelo que és
    Um jazz
    Com swing de blues
    Corpos nus
    E tempo marcado nos pés
    O jazz
    Que em cada nota
    Pergunta e anseia resposta
    Para nosso viés.
  • A LÍNGUA

    A língua é um navio faminto no meio da maresia

    e da salmoura da linguagem que, do azul, ressuscita

    e espalha-se no verbo que, no oceano, fez moradia.

    A língua engravida de todas as tribos, das manias


    daqui e Dalí do mundo. Esta absorção permissiva,

    feito uma osmose infinita: cresce dos lados e desliza

    abaixo da linha. Ela é vivíssima. Mutante. Oferecida.

    Ela é pátria, estado e avenida. É do salão da esquina.


    Meu verso tem uma língua, mas obedece a real cartilha

    dos homens. A imposição determinante vinda lá de cima.

    É por isso que tento destruir as palavras, signos e sílabas

    a fim de gerir a instabilidade do poema na gota da neblina.


    Não há sucesso nesta tarefa de equilibrar o desequilíbrio.

    À língua, as sementes. Ao poeta, a busca da uva no vinho.

  • A Madrugada

     O quarto estava escuro, com um fraco feixe de luz lunar que entrava pela janela aberta, ferindo o breu instalado no úmido cômodo, iluminando o chão de piso branco barato e uma parede bege envelhecida. O ventilador ligado em sua maior potência pouco ruído fazia frente ao estardalhaço criado pela forte ventania do lado de fora da janela. O quarto não possuía som, todo o som pertencia a tempestade que reclamava seu direito sobre os ventos.
     À esquerda, a simples janela de alumínio dava uma visão escura sobre a cadeia de morros habitados por casas, aqui e ali uma luz de uma varanda vazia, engolidas na proclamação e na vastidão da noite, mas o principal evento não estava lá fora, ele vinha de fora para dentro e aqui no quarto, ele acontecia.
     Atrás da janela, do teto até os últimos seis centímetros do chão, a suave cortina de renda branca resistia, imóvel, elegante e destemida, ela se erguia frente a gritaria dos ventos, observava como se vê uma pirraça de uma criança mal educada, e comparada a ela, era a isso que se resumia toda aquela encenação da força do soturno céu.
     Com ciúmes e sentindo-se diminuída, a ventania irrompeu pela janela, tomando a suave cortina pelos braços e jogando-a pelos quatro cantos do quarto em arcos vertiginosos e ríspidos, porém, ainda impassível, ela se segurava no trilho sem aparente esforço, sem ter tocado o chão ou alguma das paredes nenhuma vez, ela volta a sua posição original ainda imaculada.
     O céu ultrajado com a insubordinação, tentou novamente, voltou mais furioso e violento, e assim fez seguidas vezes, mas a leve cortina não demonstrava resistência, e com toda sua elegância e suavidade, se colocava de volta atrás da janela, com movimentos graciosos, sem tocar nenhum canto do quarto.
     O tempo passava, o céu poderoso e revoltoso, já não demonstrava tamanha rebeldia, a ventania diminuiu, foram trocadas primeiro por brisas fortes, depois nem isso. Sem sucesso, o céu enviou seu último campeão para o duelo final. Uma fraca brisa perpassou pela janela, jovem e gentil, parecia pedir permissão ao entrar e suavemente pegou a mão da leve cortina.
     Enquanto o som lá fora diminuía drasticamente, a brisa começou a conduzir a cortina pelo quarto, não era apenas um simples movimento de empurrão para aqui ou acolá, era suave. Assim, a cortina foi lentamente se enroscando na brisa e ali eles bailavam uma lenta e suave valsa, cada vez mais lenta e ritmada, a dança transformava o casal, se antes eram brisa e cortina, agora eram uma só coisa, transfigurados, inseparáveis, vitais um ao outro. E toda vez que a leve cortina passava pelo fraco feixe de luz prateada, ela se iluminava, como se vestisse um vestido de diamantes que reluzia ao pequeno pedaço de lua presente.
     Tocada pela lua que crescia agora a cada instante, a cortina nasceu, debutou e envelheceu bailando com o seu amor na eternidade de minutos, ali ela foi plebeia, princesa, rainha, filha, mulher, esposa e mãe.
     Mas o tempo corria, as nuvens passaram, o céu se abriu como que saindo de cena, pois seu protagonismo havia sido roubado, e agora limpo, dava lugar para a lua cheia que ia aparecendo para contemplar aquele pequeno e delicado acontecimento que tomava toda a sua atenção, completando e prateando a noite daquele jovem casal. Porém, com a chegada da lua, a brisa precisava ir, seu mestre a chamava, e ela cada vez mais fraca se despedia da cortina. Até que saiu, a cortina agora sozinha, era banhada completamente pelo pratear da lua, jazia parada em frente a janela, fria, sem lembranças, abandonada na quietude da noite, ela voltara a ser só uma leve cortina de renda branca, sem par, sem motivo, sem vida. Apenas uma cortina morta.
  • A marionete

    Hora de correr,
    Hora de pular,
    Hora de comer,
    Hora de amar,
    Hora de perder.

    Depois,
    Jogada em um canto,
    Imóvel.
    A marionete chorou.
    Não consegue se mexer 
    Sozinha.
  • A minha bela

    Como,como posso me decidir.
    Penso nela,
    Sonho com ela,
    Mas ainda não á amo minha bela

    Como como posso me controlar,
    Se nela só sei pensar,
    Mais ainda não á desejo.

    Escrevo para equecer,
    Leio para me lembrar ,
    Mas é só nela que sei pensar.

    Estou confuso,pq penso nela,
    Por que mesmo não querendo ela,
    O meu coração sempre acelera
    Quando a vejo.
    Ainda assim não á desejo.

    Meu peito dói.
    Dói por estar confuso.
    Dói por não querer ela,
    Ou doi por não ter a minha bela.
  • A morte do eu

    “After a year in therapy, my psychiatrist said to me: ‘maybe life isn’t for everyone’.” 
    O inferno está vazio e todos os demônios estão na minha cabeça. Conjecturo vozes que, no desabrochar da vigília, anunciam-me um transtorno psicótico. Hoje eu tranco o curso, tranco a vida. Cheguei a vasculhar, um dia, a possibilidade do suicídio ser apenas o enterro, mas não a morte em si; todavia, certifico-me, nessa náusea amorfa, que a angústia se infiltra na teia neurossucumbidora antes de incinerarmos a nós mesmos. Conto os dias, odiando o teísmo onipotente, para encontrar o que acredito ser minha alforria: o psiquiatra. Há de ser minha muleta metafísica. Dispneia. Se enlouquecer-me novamente, tenho clonazepam. Vinte gotas; vinte e sete, se precisar. Alivio-me com esse meu novo deus volátil. 
    Sento-me à beira da cama; meus pés desmaiam sobre o chão. Penumbra. Nada me daria mais prazer do que nunca ter de acordar novamente. Sinto na alma a enfadonha arte de vestir-se. Fico apreensivo com minha sanidade dúbia diante das aulas anavalhadas que vagarei hoje. Degusto o Escitalopram com um café áspero. Lembro – fitando um eterno nada – a face sem sentença da minha psicanalista, e esbravejo-me; quero que suba no telhado e grite quem sou eu, pois já me foge essa concepção. Deposito o frasco de benzodiazepínico no bolso; esqueço o celular em casa. 
    Ao longo dos sertões da manhã, o medo do pânico se empodera como um fascista. Claustrofobia. Perscruto que na selva da minha psique não reino como Zumbi Dandara, mas apenas sou uma marionete do caos. Convenço-me da morte iminente: seja por um edema de glote, seja por um cataclismo pneumológico. Vendaval de sinapses. Minha mitral esperneia-se, regurgita-se, fibrila-se; almejo fugir-me; visto a entropia desajustada; balbucio uma filosofia sórdida. Subunidade beta da Proteína G, Guanosina Difosfato Inativa, Adenilato Ciclase: importantíssimo para vocês, futuros médicos. Cronograma de Caim. Quinquilharia. Pandemônio.
    Comprei uma aliança para essa miséria de vida, mas não prometo a monogamia – resmungo ao asilo que concerne minha consciência. Permuto as desvantagens e vantagens de ser um amontoado de átomos; aquelas me logram. Perambulariam como os nômades que nutrem sentimentos por mim? Por mais que sejam escassos, não me ousa denegrir a árvore-mãe que doou suas raízes à fruta empobrecida de alma. Aproveito o anticlímax dessa patologia arruaceira para ler o DSM: tenho todas as anarquias possíveis: transtorno de ansiedade generalizada, síndrome do pânico, depressão, desconexão com o divino, apatriotismo sem-terra. 
    Como um cadáver maquiado, encargo-me da polidez pós-morte: metáfora para os primórdios da tarde. Sobre o alcoolismo: eternizara – não que deguste a ideia, porém era a morfina que varria minhas esquinas neurais; era, senão, o hospício que tratava meu cansaço insuportável de gente. Olho-me: identifico em cada dobramento da minha organogênese os assassinos da minha jornada. A tarde, porém, caminha de forma taciturna; enrosca nos galhos, tropeça nas ironias machadianas, vivencia a chaga de Édipo, mas caminha. Adentro um elevador eremita: coercitivamente controlo a respiração: minhas cavernas pulmonares ecoam desespero.
    Palmilhando os arredores do abismo, pondero em relação ao futuro notívago: ou a insônia reluzirá novamente ou uma bala perfundirá meu encéfalo – entrará por um ouvido e sairá no outro, nada menos. Sinto meus passos derradeiros nesse morro cascalhado. Cairá sequer uma lágrima desse meu rosto surrado diante da morte de meu pai? Meu recinto ainda tem o cheiro de vazio. Insisto em deleitar-me na água que escorre do chuveiro, mas em vão. Pressuponho que dentro da gaiola do meu peito habite um pássaro que almeja voar, todavia se debate nas grades costais, depena-se e desiste da vida. Perfumo o ar com sobriedade: irrita-me o anseio acalentador das pessoas. Recebo, ainda que caquético, no toante dessa noite, uma visita: meu humor sacoleja como um cão solto na praia. Lê-me: você parece ótimo. Não se esqueça, minha cara, que os buquês, por mais que sejam sorridentes e carinhosos, são feitos de flores mortas. 
  • A Noite

    A noite está escura
    A noite reina a paz
    A noite trás ternura 
    A noite me satisfaz

    A noite as trevas brincam 
    A noite o mistério se esconde
    A noite toca uma sinfonia
    A noite me leva longe

    A noite tudo se escuta 
    A noite nada se ouve
    A noite trava a batalha bruta
    A noite aqui me trouxe

    A noite se silencia 
    A noite me matou 
    A noite guarda segredos
    NA noite presa estou

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