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morte

  • O cruzamento

    1

    O som alto, próximo do máximo, ilustrava sua viagem. Tocava thunderstruck do AC/DC, a música preferida de Alfred que pisava no acelerador com vontade. Sentia o assoalho do carro impedindo o pedal de ir além. Sorriu quando o velocímetro passou dos 110 km/h. Era madrugada e não havia uma alma na rua. 

    Balançava a cabeça no ritmo da bateria, e as vezes dedilhava guitarra no volante. Lembrou-se de quando foi ao show da banda, aqueles canhões no palco, a garota inflável, Angus dançando de cuequinha naquele frio de 3 graus.

    (Melhor banda de todos os tem....)

    See you walking 'round like it's a funeral

    Not so serious, girl, why those feet cold?

    We just getting started, don't you tiptoe

    Porra, sério que você saiu de um AC/DC para Cake by the ocean? Eu nem sei de quem é essa música? Qual a lógica dessa setlist? – grita para ninguém, o jovem embriagado que ria divertidamente, contudo, não trocou a música e já balançava a cabeça no ritmo da batida.

    Alfred deixa a melodia continuar e lembra da festa que acabou de sair. Várias garotas bonitas por lá, conseguiu diversos números, alguns devem até ser verdadeiros, foi um evento incrível. A bebida era servida a vontade e totalmente inclusa no preço do convite. Deve ter tomado uma garrafa inteira de Jack Daniels e não ligava. Transou com a garota mais gostosa dali atrás de um banheiro químico, só não lembra se usou camisinha ou não. Provavelmente a garota não lembraria dele no dia seguinte também. Não conseguia lembrar se ela lhe deu o número de telefone ou não. Não importa, estava no topo do mundo a 115km/h.

    Um vulto branco passa rápido no cruzamento, ele aperta o freio com os dois pés e joga o carro para a direita. Não deve ter tido um centímetro entre seu carro e aquele BMW. O filha da puta do outro carro nem desacelerou, nem buzinou e nem nada, apenas continuou com o pé no acelerador.

    - Babaca!

    O carro morreu, isso só aconteceu porque Alfred esqueceu de desengatá-lo ao levantar de seu banco, para xingar o outro motorista. Não tem problema, girou a chave na ignição e continuou seu caminho. O celular preso ao para-brisa por um ventosa, dizia a localização das blitzes e radares de velocidade, passava um pouco das duas da manhã e até agora nenhum problema. Voltou a acelerar e testou toda a potência de seu motor 2.0. Chegou aos 125km/h, talvez um pouco mais, não conseguia ter certeza em seu velocímetro analógico, que apresentava-se, estranhamente, embaçado. Passou pelo próximo cruzamento como um raio, no segundo decidiu diminuir um pouco, já no terceiro desacelerou para 70km/h.

    O solo de bateria inicial do First Date do Blink 182 começara. Ele acompanhou com seu pé e nas mãos, embora nunca tivesse chego perto de uma bateria na vida. Foi quando viu faróis brancos vindo da sua direita. Tentou brecar e perdeu o controle. A tentativa de bateria, bebida e manobra rápida não foram uma boa combinação. Bateu no poste à sua esquerda com força. O air bag não funcionou, sua testa encontrou a direção com força. Ficou grogue por alguns instantes, pelo menos vivo. O cinto lhe ajudou, provavelmente, salvou-lhe a vida.

    Ficou sentado ali no banco do motorista, passou a mão na testa e sentiu o úmido grudento de seu sangue. Ele tem um pano no porta luvas, é uma flanela velha

    (dane-se deve servir).

    Coloca pressão ali e não percebe que a música ainda toca no volume máximo, então fecha os olhos. Ele não reparou os dois homens do lado de fora de seu carro.

    2

    - Cara, você tá vivo?

    - Cara, você tá vivo!?

    - CARA, VOCÊ TÁ VIVO!!!!!!!!?

    Alfred olha para a esquerda e desliga o som do carro. Ele vê dois sujeitos morenos, com os braços cheios de tatuagem. Em um deles outras tatuagens eram visíveis no pescoço e no rosto. Vestiam regatas pretas, um de boné azul e outro de gorro preto. Ambos usavam óculos escuro para o Sol das duas da manhã. Do carro deles conseguiu ver fumaça saindo pelas portas e um cheio de mato queimado no ar.

    - Droga! Que merda que eu fiz - diz Alfred saindo do carro. - Vocês estão bem?

    - Sim, nós brecamos a tempo. Para falar a verdade, se você tivesse seguido reto nada teria acontecido.

    - Bom saber, da próxima vez vou correr mais – diz Alfred rindo sozinho.

    - Cara, isso é sério, você podia ter se matado, olha como está sangrando. Olha como seu carro está detonado.

    - Estou vendo. E vejo que nada aconteceu com vocês, não é?

    - Não é bem assim, tivemos que usar bastante nosso freio, dá para ver a marca no asfalto. Estávamos indo para um racha e agora não chegaremos a tempo, também não é bom arriscar com os pneus gastos. Ficamos uns 30 minutos gritando com você, até conseguir te acordar!  Achei que tinha morrido. Cara, vamos perder muita grana por sua causa

    (eu desmaiei? Tenho quase certeza de que não. Mas talvez sim)

    - Não se preocupe. Quanto você costuma ganhar nesses rachas?

    - Facilmente uns 2000 reais por noite. Nosso carro é um dos campeões e atração de lá.

    - E quanto custa os pneus novos?

    - Acho que conseguimos o conjunto por uns 700 reais.

    (um pouco caro, não? Quanto dinheiro estão me tirando aqui? Foda-se, eu tenho de sobra)

    - Você tem conta? – diz Alfred lhes mostrando o celular na tela de transferência com o valor de 5.000 reais.

    - Cara esse valor está ótimo – diz o outro motorista digitando sua conta.

    - Espero que compense vocês por qualquer inconveniente. E aqui está o meu cartão caso tenham algum problema. Minha assistente irá lhes ajudar.

    - Tá na paz, irmão. Precisa de carona ou alguma coisa?

    - Não, acho melhor esperar aqui pela ambulância, afinal, bati a cabeça bem forte.

    A dupla vai embora em seu Mitsubishi Lancer preto que solta uma pequena labaredas pelo escapamento

    (Essa foi por pouco)

    Sim, Alfred. Foi por pouco, mas foi a última que você escapou por causa de seu dinheiro...

    3

    O cruzamento que Alfred se encontrava era delimitado por quatro fábricas abandonadas e seus longos muros altos, pichados, de tijolos com arames farpados, enferrujados, no topo de seus cerca de 5 metros. O asfalto daquela região era bem castigado, repleto de buracos

    (fui louco de correr tanto por aqui),

    o poste em que bateu não sofreu muitos danos, o que era bom, se ele caísse era tchau, tchau, querido Alfred.

    Pegou seu celular e ligou para o serviço de emergência. Todas as linhas ocupadas (MERDA!), então sentou em seu carro e ligou o som novamente. Abaixou o volume, cogitou que seria melhor não incomodar ninguém na região, e abriu uma garrafa de cerveja da pequena caixa que comprou no mercado, depois que saiu da festa. Não estavam muito geladas. Contudo, aquele primeiro gole foi saboroso e voltou em um arroto alto, seguido de risadas. Os goles seguintes desceram bem também, era o mais importante, logo, metade do líquido maravilhoso daquela garrafa já havia sumido.

    - Quanto tempo tenho que esperar essa porcaria de resgate!? – gritou para ninguém.

    Pegou o celular de novo e viu sua barra de sinal vazia. Tentou ligar para a emergência, mesmo assim, e nada conseguiu.

    - PORRA! Porcaria de celular! Acabei de usar, como pode perder os sinal assim?

    Tentou reiniciá-lo. Sua paciência se esgotava rapidamente. Quando isso não deu resultado jogou-o no banco de trás com raiva e sentou no porta malas terminando sua cerveja, arremessando a garrafa contra um muro e  abrindo a segunda.

    O vento soprava gentilmente um ar frio, mas não era uma sensação desagradável. Uma persiana balançava na fábrica e batia contra a parede bam....bam.... BAM! BAM! Esse último ruído soou bem mais forte e chamou a atenção de Alfred. Então olhou para trás e viu a persiana caindo. Era uma altura considerável e ao acertar o chão fez um estrondo ensurdecedor. Sem perceber sua reação, tampou os ouvidos e fez uma careta, como qualquer pessoa assustada faria, e logo se recompôs, contudo a cerveja respigara em sua camisa clara.

    Ia xingar novamente, quando ouviu um choro infantil...

    - Meu Deus, será que aquilo caiu em alguém?

    Alfred procurou seu celular no banco de trás, demorou um pouco para encontrá-lo no assoalho. A porcaria deve ter quicado e caído. Ligou a lanterna e procurou, em vão, alguma entrada ou portão naquele paredão de tijolos. Provavelmente o portão estaria na avenida principal e teria que dar a volta naquele quarteirão enorme. Com isso em mente, resolveu se aproximar do muro para analisá-lo mais de perto.

    - Tem alguém ai? Precisa de ajuda? – Gritou para o além.

    - Socorro... – respondeu uma voz frágil – Por favor, me ajuda...

    - Estou indo, não se preocupe!

    Olhando ao redor viu uma grande fissura no muro e se aproximou, reparou que, na verdade, era um buraco de tamanho considerável, grande o suficiente para se passar, abaixado e um pouco espremido. Deixou sua garrafa na calçada, com cuidado para que não caísse, e se esforçou um pouco para caber naquela pequena passagem.

    Do outro lado viu o cimento interminável no chão, todo rachado. Em alguns pontos era clara a batalha entre homem e natureza, pois pequenas plantas lutavam contra aquele solo cinzento, tentando se erguer e algumas conseguiam. Também via lixo espalhado, em sua maioria garrafas de plástico, isopor e um colchão de casal. Imaginou como alguém poderia ter jogado aquilo por cima daquelas muradas enormes.

    Andou com cuidado, com seu celular iluminando o caminho. Não deveria estar longe de onde a persiana caíra e não via nenhum sinal dela ou da criança.

    - Cara, eu bebi demais ou isso está ficando estranho? Melhor ir embora daqui! – murmurou em voz baixa.

    Alfred acelerou seu passo e foi acompanhando o muro para encontrar sua passagem de volta e o caminho para seu carro. Andou e andou, até chegar onde os dois muros se encontravam em 90 graus e não viu aquele maldito buraco.

    - Eu tenho certeza de que ele deveria estar aqui! Não andei tudo isso. Mas que porra. – resmungou, chutando um tijolo exposto.

    Seguiu seu caminho na direção contrária, dessa vez mais devagar e examinando o muro com cuidado. Não havia nenhum sinal de dano algum.

    - AAAAAAAHHHHHH!!! – era um grito alto e agudo, vinha de dentro da fábrica.

    - O que foi isso? – disse Alfred encostando suas costas contra a parede.

    Achou estranho que o muro pareceu fofo quando encostou. Então virou-se, devagar, afastando-se dois passos. Viu que agora os tijolos sumiram, ou ficaram cobertos de grama vertical e musgo.

    - O que? – Diz Alfred incrédulo – Como isso é possí...

    - SOCORROOO! ELE ME PEGOU!

    Foi um grito apavorado, como Alfred começava a se sentir. Ele tinha que sair dali de alguma maneira, não poderia escalar aquele paredão, teria que encontrar um acesso à rua. E o único jeito era atravessando aquela fábrica sombria...

    4

    Uma ponte estreita levava à uma pequena porta de ferro, fechada por uma corrente com um cadeado, que provavelmente era o maior que Alfred vira em sua via. Não conseguiria entrar por ali. Certamente era a rota mais rápida, provavelmente, apenas uma linha reta até o outro lado da fábrica. Espiou lá dentro e era possível ver a porta de saída do outro lado. Tentou chutar aquela porta algumas vezes, sem resultados. Agora seria necessário descer naquele fosso e tentar alguma passagem pelo subsolo.

    Não foi preciso muito empenho para descer. Tratava-se de uma altura de uns três metros e era possível descer por uma espécie de escada escavada na terra. Dali encontrou uma outra porta. Esta era de madeira frágil e seu estado de conservação era péssimo, sendo visível sua podridão. Com cuidado, puxou-a sem nenhuma resistência e conseguiu adentrar na fábrica escura.

    O subsolo da fábrica era composto por diversos corredores e muito deles levavam a fornalhas e caldeiras, Alfred imaginou que foram utilizadas pela última vez meio século atrás.

    Caminhando por aquele prédio, ouvia-se ratos se movendo rapidamente a procura de comida

    (espero não virar essa comida)

    e teias de aranha a toda volta, o que gelava a espinha de seu visitante. As paredes em tijolos deveriam ser lindas à luz dos raios de sol da região, contudo, nesta escuridão, mesclado com musgo e teias, formavam uma cena arrepiante.

    - Por favor... me ajude... – soou como um sussurro no além.

    - Quem está ai? Onde posso te encontrar?

    Não houve resposta.

    Alfred seguiu seu caminho no labirinto que era aquele piso inferior, quando sentiu um calor intenso e observou um clarão vigoroso a sua frente. Era uma fornalha acesa. Aquilo não fazia sentido, porém, contra todos os seus instintos, ele foi verificar o que acontecia.

    Chegou até a fornalha e o cheiro horrível de carne humana queimando invadiu suas narinas como um soco. Olhou para o lado e viu uma pequena criança, branca como a neve, com ambas as cavidades oculares escavadas e metade de seu crânio exposto. Jazia ali, deitada no meio das chamas. Seu rosto pendeu para o lado, como se olhasse diretamente na alma de Alfred.

    -AAAAAAAAAAHHHHHHHH

    O grito era ensurdecedor, Alfred se jogou para trás, bateu com as costas na parede e caiu sentado. Foi quando diversas crianças surgiram daquele fogo infernal. Todas brancas como a neve, mesmo sujas, com tufos de cabelo saindo de partes da cabeça, crânios expostos e muitas com membros faltando como braços ou pernas. Era possível ver marcas de mordidas que arrancaram pedaços de barriga, peito ou pescoço. Outras marcas pareciam ser de pancadas e outras ainda eram similares a cortes profundos. A cena era aterrorizante e todas encaravam o intruso em absoluto silêncio, interrompido apenas pelo crepitar das labaredas.

    - Meu Deus, o que é isso? – disse Alfred levantando-se rapidamente.

    Não sabia para onde ir. Por um instante pairou a dúvida se arriscava voltar e tentar outro caminho ou se seguia mais a fundo naquela fábrica macabra.

    - Foda-se, vou voltar, é mais seguro lá fora!

    De súbito, todas as crianças pareciam gritar de pavor, um gritos agudos e aterradores. Alfred tampou os ouvidos e começou a se dirigir para o caminho de onde viera. Foi quando avistou outro ser. Aquela criatura deveria ter dois metros de altura, com formas semelhantes a de um homem. Observou que sua boca era costurada, os olhos eram brancos e o rosto tinha marcas de queimaduras intensas, além de cortes profundos. Vestia um sobretudo rasgado, velho e sujo que cobria toda a imensidão que era seu  corpo. Também, arrastava, vagarosamente, uma espécie de martelo enorme no chão, atrás de si. O ruído que emitia fez com que as pernas de Alfred tremessem fora de controle, seu coração palpitava descoordenadamente e a criatura veio em sua direção.

    Sua opção agora mudara, Alfred seguiu correndo para o desconhecido. O caminho a sua frente bifurcou, escolheu a direita e correu mais alguns metros, até perder completamente o fôlego. Parou e colocou a mão dos joelhos para recuperar o ar.

    Sentiu uma tremida de seu celular e viu uma barra de sinal. Não perdeu tempo e ligou para a emergência. Foi em vão, o sinal logo caiu novamente. Contudo, a iluminação de seu smartphone mostrou que ele entrara em um fornalha, uma espécie de cômodo enorme, circular com apenas duas saídas. A porta pela qual ele entrara e o topo da chaminé, com mais de cem metros de altura. Tentou voltar pela porta que acabara de utilizar, deu o primeiro passo, cauteloso, em sua direção, e quando deu seu segundo naquela direção, a porta ela se fechou em uma batida forte a alta.

    Correu para tentar abri-la, mas parecia trancada. Forçou-a de todas as maneiras e a maldita coisa não se movia. Um tijolo caiu ao seu lado levantando uma pequena nuvem de poeira.

    - Droga, esse lugar está caindo aos pedaços.

    Iluminou ao seu redor para ter certeza de que não havia nada nem ninguém por ali, também tentou encontrar uma outra saída, não viu coisa alguma. Apenas uma porta, tijolos e o céu acima dele, agora, cheio de nuvens carregadas.

    - Há quanto tempo estou aqui? O céu estava limpo quando entrei na fábrica. – resmungou baixinho.

    As primeiras gotas de chuva encontraram seu rosto. Trovões eclodiam no céu. Uma tempestade logo se formou. O chão da fornalha também era de tijolos com poeira ou areia, Alfred não sabia diferenciar em seu estado, mas viu pequenos ralos então a chuva não seria um problema muito grande.

    Seu telefone vibrou em seu bolso. Ele sempre deixava aquela coisa para vibrar, não gostava de atrapalhar os outros com seus toques espalhafatosos e, se fosse bem sincero, gostava de ter uma desculpa para ignorar ligações. Entretanto, era um número desconhecido. O temor em seu estômago lhe dizia para não atender, todavia, sua teimosia e curiosidade venceram...

    - Alô?

    - Boa noite, já temos sua localização e enviaremos a ambulância para seu acidente o mais rápido possível – era uma voz feminina simpática e amigável.

    - DEUS! Muito obrigado.

    - De nada, Alfred...

    - Espera ai, como você sabe meu nome?

    -...

    Tuuu tuuu tuuu

    A linha caiu.

    5

    A chuva apertou, tornando-se quase uma tempestade e ensopou Alfred. O frio era intenso e ele começou a tremer encolhido em um canto

    (só espero que essa fornalha continue desligada, não quero acabar como aquele garoto...)

    e torcia para que a chuva parasse. Sua sanidade sentia a dificuldade de entender o que acontecia. Crianças apareciam e gritavam, uma criatura medonha o perseguiu, aquela chuva não poderia ter começado tão rápido e a porta fechara à sua frente, sem nenhuma alma por perto.

    (Estou sonhando? Estou louco? Ainda estou desmaiado em meu carro?)

    Alfred sabia que tudo aquilo que acontecia era a mais horripilante realidade e isso lhe embrulhava o estômago, sentia vontade de chorar, raiva e era completamente incapaz de mentalizar qualquer solução. Contudo, sentia-se seguro naquela fornalha, pensou que o pior passra, até ouvir aquela voz feminina e suave, mas apavorante.

    - Alfreeeeeed..... Alfreeeeeed...

    - Quem está ai?

    - Aposto que você não se lembra mais de mim....

    Ele olhou para trás e viu uma mulher, ligeiramente familiar, com metade do cabelo na altura dos ombros, e a outra metade não existia, via apenas seu escalpo, com o crânio amassado e sangue escorrendo, vagarosamente, por fissuras em toda sua cabeça. Seu rosto era desfigurado, com ferimentos profundos, os lábios rasgados, mas ainda se mostravam carnudos e, de certa forma, vívidos.

    (seria possível que essa mulher desforme use batom?)

    Vestia uma calça jeans rasgada, andava mancando pois seu fêmur direito aparecia para fora da coxa, seu tornozelo esquerdo fazia pelo menos duas curvas erradas e seu pé era virado para trás. Ela tinha apenas um braço, sua mão era incrivelmente impecável e delicada, com suas unhas pintadas por esmalte rosa e sua camisa preta do Ramones, rasgada e suja, expunha parte de seu intestino dentro de sua barriga.

    - Que confusão você se meteu querido Alfred. E dessa vez seus amigos ricos não irão te salvar.

    - Quem é você?

    - Não se lembra do seu pequeno acidente, dois anos atrás?

    - Mary? Você morreu. Eu não pude fazer nada, liguei para a ambulância, eles disseram que não havia nada a ser feito.

    - Eu ainda respirava... Podia ser salva... Eles te conheciam, sabiam que era melhor sumir comigo...

    - Eu.. eu... eu sinto muito Mary... O que vai fazer comigo?

    A mulher se aproximava, morosamente, em um caminhar que beirava a sensualidade, embora mancasse acentuadamente.

    - Eu não vou fazer nada Alfred... Você já fez tudo o que podia por mim. Mas fique tranquilo, não busco vingança, sei que ela chegará em breve, não precisa ser pelas minhas mãos, não meu querido. Você sempre dirigiu bêbado, não é? O dinheiro sempre te livrou de tudo, não é?.... Quem você irá subornar agora? Deus? O diabo? Não Alfred, não... Nenhum deles está aqui esta noite. – sua voz mantinha-se em um tom baixo e suave, quase um sussurro sinistro aos ouvidos.

    O rosto daquela mulher encontrava-se a centímetros de Alfred. O horror daquela pessoa, daquela face macabra, lhe paralisou. Balbuciou alguma reza, não tinha certeza se as palavras eram as certas, aprendera quando era criança e sua mãe o obrigará a fazer a catequese. Não sabia há quanto tempo fora isso, apenas sabia que se tratava de uma época longínqua, quando ainda acreditava em um Deus maior do que o dinheiro.

    A criatura lhe deu um beijo no rosto, a sensação era gelada e o lábio parecia, simplesmente, errado. Também sentiu alguns vermes ou insetos estranhos rastejarem dela para ele e rapidamente teve sua cabeça completamente cercada por esses seres nojentos. Em um acesso de pânico Alfred tento expulsá-los com a mão e, sem se dar conta, tropeçou em si mesmo e bateu a cabeça na parede de tijolos.

    Acordou, minutos depois com o barulho de um novo trovão, sem saber quanto tempo se passara (espero que não tenham sido horas). Passou a mão no rosto para se certificar de que não havia mais nenhum inseto por ali e viu que seu super cílio abrira novamente. Olhou para cima e abriu a boca, sua sede era enorme e não parecia ter problema algum beber água da chuva, aproveitou para esfregar seu ferimento. Foi então que reparou na porta aberta. Poderia sair e não perdeu a oportunidade, correu o máximo que pode. Chegou novamente à bifurcação, imaginando que agora voltaria pelo caminho que veio.

    Seguiu aquela trilha apertada, começou correndo, mas, logo, andava vagarosamente, seu físico não era dos melhores. Finalmente alcançou a bifurcação novamente. Viu todas aquelas crianças bloqueando a passagem de volta, sentiu o desespero, seu coração bateu acelerado, suas pernas tremiam descontroladamente em pequeno compasso, por pouco sua urina não escapou. Seu suor era frio e deslizava em grande parte por suas costas, sentia sua camiseta grudando em seu corpo, neste ponto já não tinha certeza se aquele molhado que lhe cercava era por conta da chuva ou de sua transpiração que fluía ferozmente.

    O medo dominava seu ser e o sangue havia abandonado suas extremidades, assim, ficou pálido e de aparência frágil. Atrás das crianças que surgiram à sua frente avistou Mary, que apontou, delicadamente, para o caminho da esquerda, com um pequeno sorriso diabólico, como se dissesse “siga por ali, meu querido”.

    (não tenho outra opção)

    Alfred seguiu pelo caminho indicado. Logo, a escuridão consumiu seu redor, tentou alcançar seu telefone em seu bolso, mas não o encontrou (merda, deve ter caído quando bati a cabeça). Olhou para trás e viu aquele grupo sinistro parado, diversas crianças mórbidas e a aparição de Mary com aquele sorriso demoníaco, lhe observando de longe. Fixou seus olhos na mulher, apenas por um instante. O sorriso dela crescera, revelando a falta de diversos dentes. Então, ergueu a mão com o celular, aquele pequeno brilho de esperança, logo foi esmagado por uma mão frágil de um ser nefasto.

    Sem opções, Alfred seguiu seu caminho tropeçando e se erguendo até encontrar claridade. Chegou em uma passarela de metal que o guiou a uma escadaria e outra passarela. Essa era alta, passava perto do teto da fábrica. Lá de cima, de relance, viu a saída, bastava atravessar aquela passarela e descer a próxima escadaria. Seu coração se encheu de esperança, logo, poderia deixar aquele pesadelo para trás e seguir com sua vida.

    6

    A passarela se estendia por cerca de 100 metros, atravessando toda a extensão da fábrica e deveria ter, pelo menos, 20 metros de distância do solo. Alfred podia imaginar o capataz ali em cima, observando seus trabalhadores, mas aquela não era uma fábrica normal, agora ele sentia a energia maligna que aquele local emitia.

    (Quanto sofrimento se passou neste lugar? O que essas crianças sofreram? E por que Mary está aqui?)

    Nada fazia sentido, só que não se fazia necessário entender naquele instante, afinal, sua única preocupação era sair dali.

    Alfred se aproximava da escadaria para descer rumo à liberdade, contudo, sua visão era encoberta por uma coluna de tijolos. Não se importou, seguiu o mais rápido que pode, sem se importar com o barulho tenebroso que causava na passarela de metal, que balançava de maneira mais acentuada a cada passo.

    A escadaria jazia há apenas 1 metro ou 2 de distância, quando sentiu o impacto daquele martelo esfarelando os ossos de seu joelho direito. Alfred caiu, gemendo de dor e chorando copiosamente. Aquele ser enorme o encontrara. Pegou-lhe de surpresa e as lágrimas em seus olhos lhe impediram de ver o segundo golpe que destroçou seu ombro esquerdo.

    A dor se intensificava, contudo, não era hora de se preocupar com isso. Sua vida dependia de uma ação rápida. Com seu braço bom, rapidamente secou os olhos e,  em seguida, agarrou o corrimão da passarela. Usou toda a força que ainda tinha em seu corpo, usou sua perna esquerda para impulsionar seu corpo e ficou de pé. Conseguiu manter-se em um posição ereta, meio cambaleante, e o próximo golpe do martelo acertou o piso metálico, com um barulho aterrador .

    Pulando com uma perna só, gemendo de dor e se equilibrando com a mão apoiada no corrimão, Alfred retrocedeu pelo caminho que veio, apenas para ver Mary e algumas crianças do outro lado. Ela, sorrindo, fez o gesto de não com a cabeça.

    (Essa é sua vingança? Pelo menos aquela vadia morreu rápido, não posso acreditar que estava viva quando os médicos chegaram. Disse a verdade que não iria me matar? Talvez, prefira não sujar suas mãos mortas, não é?)

    O perseguidor de Alfred movia-se vagarosamente, contudo seus golpes eram intensos e faziam a passarela tremer. Logo aquela merda de estrutura velha iria desmoronar.

    (Se vou morrer, pelo menos controlarei como.)

    A criatura levantou seu martelo e golpeou o corrimão, errou o braço bom de Alfred, por pouco. E quando levantou para o próximo ataque, Alfred concentrou todas as suas forças e se atirou na direção dela, derrubando ambos daquela plataforma.

    Durante aqueles breves segundos de queda livre, Alfred abraçou a criatura e se posicionou acima dela. Isso não era importante, a dor já não era importante, a conta bancária recheada não era importante, a garota que fodeu no banheiro naquela noite não era importante. Se ia morrer, pensou em se redimir

    (desculpe Mary, eu acabei com sua vida de uma maneira tola e descuidada, mereço tudo o que me aconteceu nesta noite. Espero que algum dia possa me perdoar),

    mas não sabia como. Era tarde, o impacto com o chão veio, era possível ouvir a criatura se quebrando por dentro. De alguma forma, Alfred sobreviveu. Sentia suas costelas quebradas, claro, a dor incessante naquele joelho que não existia mais e no ombro, só que estava vivo e pôde sorrir ligeiramente.

    Com muito esforço, conseguiu virar com a barriga para cima e tossiu. Olhou aquelas crianças ao seu redor e Mary.

    - Mary, você está linda.

    Agora lembrava daquela mulher que atropelara dois anos antes. Não tinha certeza, mas talvez fosse perto dali. Lembrou de seu lindo cabelo negro, olhos negros e sardas. Alfred adorava sardas, não havia mais vermes ou lesões, quando olhou para ela ali perto de si, apenas uma forma linda, com seu jeans intacto e camiseta preta do Ramones, amarrada para mostrar aquela bela barriga torneada.

    - Obrigado tio. Você nos salvou.

    - Era isso? Vocês realmente queriam apenas a minha ajuda?

    - Sim, o grande Hammond era o capataz da fábrica, nos mal tratava há anos, ele pegava e destruía as crianças para sempre.

    Alfred tossiu duas vezes, sentiu um gosto metálico, mas não saiu sangue, talvez não estivesse tão mal assim. A ambulância logo chegaria e poderiam ajudá-lo. Voltaria para sua vida normal, negociando contratos, enganando clientes para que lhe pagassem mais e esbanjando seu dinheiro em festas chiques ou em bebidas caras. Encheu os pulmões de ar e expirou, a pontada de dor foi intensa, contudo, seus músculos conseguiram relaxar. Com certo esforço, e aos poucos, conseguiu se ajoelhar.

    - Fico feliz em ajudar. – tossiu mais duas vezes, dessa vez um pouco de sangue saiu em sua mão – tem algo mais que eu possa fazer?

    - Sim... Você pode morrer. – disse a criança abrindo a garganta de Alfred com seus dedos nus.

    7

    Eram 4h da manhã quando a ambulância chegou...

    - Central, chegamos ao local e não há nenhum veículo acidentado. Provavelmente foi apenas um trote, embora veja vidros no chão.

    - Confirmado. A noite está devagar, se quiserem dar uma olhada por mais alguns minutos, não farei oposição. Depois lembrem de ir para casa, seu turno acabou. Câmbio desligo.

    Frank olhou para seu colega Antony, com um sorriso peculiar.

    - Pro inferno com esse chamado. Não tem nada aqui.

    - Cara, há quanto tempo essas fábricas estão abandonadas?

    - Eu sou da região, elas tiveram um incêndio enorme há uns 70 anos, o pessoal da época não sabia ou não se importava, mas diversas crianças trabalhavam aqui, quase como escravas. Eram crianças de rua, e o dono da fábrica as pegava e colocava ai, uma história bem trágica e ninguém ligava. Se não me engano, todas morreram nessa época.

    - Acho que não tem nada aqui pra gente. Vamos embo....

    BAM!

    - Socorro... – respondeu uma voz frágil – Por favor, ajudem. Eu me machuquei – disse uma voz infantil.

    - Meu Deus Antony, parece uma criança dentro da fábrica, temos que ajudá-la!

    - Sim, rápido. Eu vejo uma fenda no muro, acho que podemos passar por ali, se nos apertarmos bem.

  • O Esquarterjador

    Eu caí em desespero. Vi meus punhos fecharem e a minha garganta secar ao me deparar com aquela cena. Ela estava morta, bem na minha frente. O corpo, caído ao lado da cama, todo ensanguentado, a cabeça espatifada e os braços esticados, igual Jesus Cristo na cruz. Não sabia o que fazer e como fazer. Comecei a caminhar de um lado ao outro daquele cômodo, mas parei de repente, com medo de que algum vizinho do andar de baixo pudesse ouvir aquela orquestra de passos regida por mim.
    Chamar a polícia não seria uma boa ideia, pois me colocariam como suspeito número um e isso me poria em maus lençóis. Ela estava ali. O corpo envolvido em sangue seco, os dedos dobrados e a camisola rasgada, quem a matou foi cruel e sem escrúpulos. Sentei na beirada da cama e fiquei ali admirando aquele cadáver e pensando em como resolver aquela terrível situação.
    Fui para a cozinha. Abri as gavetas e as portas dos armários na tentativa de achar algo que pudesse me servir para uma ideia que tive. Seria muito simples. Eu cortaria cada parte do corpo, meteria em alguns sacos plásticos, e sairia com os restos por aí, em seguida os jogaria bem longe, num lugar onde ninguém suspeitaria. Depois voltaria e limparia tudo. Nem a polícia, caso viesse investigar, conseguiria descobrir algo, de tão bem feito que eu fizesse o serviço.
    Armei-me com uma faca de cortar carne, daquelas bem grandes e com dentes afiados e uma serrinha de cor vermelha, aquelas eram as únicas coisas ao meu alcance naquele momento. Parti em direção ao quarto. Abri a porta. O corpo permanecia ali. Aproximei-me, me abaixei e olhei, mais uma vez para aquilo. Comecei a cortar. Felizmente não espirrou sangue. Minha roupa ficaria limpa, sem nenhum vestígio e isso seria mais um álibi a meu favor. Botei os braços e as pernas no primeiro saco. O tronco, dividido em três partes meti em outro e o que lhe sobrara da cabeça, inclusive os olhos azuis foi colocada em outra. Pronto, serviço feito. Com pressa desci as escadas, não esperei pelo elevador. Imaginem me deparar com algum vizinho. Eu com aqueles sacos nas mãos e ele ou ela me olhando desconfiado.
    Meu carro estava parado na vaga a mim reservada. Com um clique na chave abri o porta malas e enfiei tudo lá dentro. Entrei no carro, arrumei o retrovisor, olhei para trás e não vi pessoa. Virei à chave e o maldito veículo não ligou. Só faltava ter acabado a gasolina, mas o painel mostrava o contrario, tinha combustível o suficiente para ir até a lua e voltar.
    Finalmente o carro ligou e eu saí. A rua estava escura e uma floresta de prédios me envolvia. Nada de árvores, muito menos, de plantas, tudo cinza e triste. Desci com meu carro numa estradinha de terra batida, nenhuma casa, nem um sinal de vida humana naquele lugar. Parei e com os faróis baixos continuei com aquilo que me propusera a fazer. Cavei um buraco fundo e enterrei os restos mortais daquela pobre mulher. Bati com a pá em cima do túmulo, pisei e fui embora.
    Capítulo 2
    Estava tudo limpo, cheiroso e organizado. Era madrugada e finalmente poderia dormir. Seriam poucas horas de sono, pois toda aquela tarefa havia me deixado exausto. Despertei com o barulho do despertador do celular, peguei o aparelho, olhei para a tela e vi que eram sete horas da manhã.
    Calcei meus chinelos e vesti minhas calças, dormi sem roupa por causa do calor. Estava pronto para ir ao trabalho. Vestia um terno preto, sapatos da mesma cor e gravata num tom mais claro, cinza é a cor mais apropriada a se dizer. Cheguei ao escritório. Aquele prédio imponente, todo espelhado e a enorme fila do elevador.
    - Atrasado dez minutos, senhor Fabiano!- Era meu chefe, doutor Bernardo, um velho de mais se setenta anos, magro igual a um esqueleto e com os olhos grandes e saltados para fora do crânio.
    - Me perdoe! – Eu disse.
    - Tudo bem, mas que isso não se repita! - Falou ele me lançando aquele olhar desafiador.
    Comecei a trabalhar naquela empresa há pouco tempo. Desculpe, mas não me apresentei. Meu nome é Fabiano Batista, tenho 26 anos e sou contador, sim, formado em contabilidade, cálculos e mais cálculos invadem o meu cérebro diariamente. Com muito esforço consegui entrar nessa empresa, muita gente trabalha aqui, todos legais, com exceção do meu chefe, o doutor Bernardo Villela. Um filho da puta asqueroso e nojento, um comedor e menininhas, garotas essas que vem trabalhar com ele e que rapidamente são levadas para a cama com promessas de presentes e aumento de salário, coisa que nunca aconteceu.
    Minha mesa estava do mesmo jeito, uma bagunça sem igual. Um a um fui distribuindo oi, bom dia e como vai para todos os meus colegas de trabalho. Amigos? Bem, havia poucos, três para ser mais exato. O mais próximo era o Ruan, um rapaz da minha idade, gordinho e inteligente pra caramba. Os outros dois eram a Rose e a Kátia. O Ruan era apaixonado pela Rose, um espetáculo de mulher, loira, seios e bunda grande, o rosto bem redondo e os cabelos lisos. A Kátia, coitada, era o avesso, baixinha, com alguns quilinhos a mais e a pele do rosto bastante ressecada devido à falta de protetor solar.
    Liguei o computador e iniciei meu dia. Tinha muito trabalho a fazer e eu adorava, principalmente porque precisava apagar certas coisas da memória. Fechei os olhos por um instante e a imagem daquele corpo que eu não matei, mas esquartejei vieram na hora. Abri os olhos, assustado. Todos me olhavam, um deles me perguntou:
    - Tudo bem por aí, Fabiano?
    Tentando disfarçar a tensão, respondi:
    - Sim, tudo ótimo. Só foi uma tontura, mas já passou.
    O sujeito se deu por satisfeito e não me questionou mais, ainda bem. Não estava com vontade e muito menos paciência para ficar explicando certas coisas, principalmente sobre o que ocorrera em meu apartamento na noite passada.
    Capítulo 3
    Faltavam alguns detalhes para fechar o serviço daquele dia. Já tinha até passado da minha hora, mas tive que ficar mais um pouco devido ao meu atraso. Precisava ir, estava com sono e cansado. Meus braços doíam e as costas, pobre delas, pareciam que iriam se quebrar a qualquer momento. A dor era suportável até certo ponto, mas bastava me mexer um milímetro para tudo arder feito brasa quente na pele.
    Quase pulei de alegria quando vi a hora no relógio de parede da firma. Arrumei rapidamente a minha mesa, peguei minhas coisas e saí em disparada. Meu carro estava a minha espera e a minha cama também. Saí a toda velocidade; na rua pessoas saindo de seus empregos e indo embora para suas casas. Umas iam a pé, outras de ônibus e poucas iam de carro, ainda bem que eu tinha meu. Não era lá grande coisa, mas dava para me levar para onde eu quisesse.
    Abri a porta do apartamento e o encontrei tudo limpo e em ordem, nada de anormal acontecerá por lá, a não ser pela noite anterior, no entanto, isso era coisa do passado. Fui direto para o chuveiro, necessitava de um bom banho. Deixei a agua quente escorrer pelo meu corpo. Coloquei a cabeça embaixo da água e permaneci naquela posição por alguns minutos. A cabeça estava quente por culpa de um desgraçado que deixou uma moça morta dentro do meu apartamento.
    Já trocado eu fui arrumar algo para comer. Na geladeira havia apenas ovos e algumas salsichas, seria aquilo mesmo. Cozinhei as salsichas em uma panela pequena e fiz ovos mexidos, comi tudo vigorosamente. Fui para cama de banho tomado, barriga cheia e consciência tranquila. Dormi com os anjos.
    Capítulo 4
    Decorria mais de um mês desde que eu esquartejara aquela pobre moça. Coitada! Aquela tinha sido uma noite diferente de todas as demais noites desses meus vinte e seis anos. Lembro-me de ter dado uma festa para o pessoal do escritório e de ter bebido um pouco a mais da conta. Mas não me recordo de ver ninguém ser assassinado, também pudera como alguém no meu estado de embriaguez poderia se rememorar de algo?
    O trabalho no escritório de contabilidade ia muito bem obrigado. Os honorários foram tão bons que eu decidi convidar a gostosa da Rose para sair. Queria comer aquela mulher! O Ruan que se dane! Se ele se interessou por ela, mas não comeu primeiro, problema dele.
    Fiquei numa esquina próxima ao prédio do trabalho. Esperei por alguns minutos até ela surgir. Naquele dia ela estava mais deliciosa como de costume. Vestia uma saia de couro marrom, uma blusa branca que lhe mostravam bem seus seios enormes e usava um batom vermelho. Que espetáculo de mulher era a Rose.
    Ela entrou no carro e logo de cara consegui ver suas coxas, eram lisas e bem grossas.
    - Oi Fabiano, me desculpa pelo atraso. - Disse ela dentro do meu carro.
    Estava hipnotizado por aquela mulher, tanto é que demorei alguns segundos para responder.
    - Não tem importância. – Respondi.
    - Para onde nós vamos? – Ela questionou
    - Para um motel. – Respondi para eu mesmo, mentalmente. – O que acha de uma pizza?
    - Bem, acho uma boa, afinal hoje é sexta-feira.
    Liguei o carro e saímos. Conversamos por todo o trajeto. Ela me contou que morava com os pais e que teve poucos namorados, ou seja, eu estava ao lado de uma quase virgem. Rose tinha 23 anos, mais nova do que eu que tenho 26 atualmente.
    Parei o carro numa rua perto da pizzaria, desci, dei a volta pelo veículo e feito um Lord inglês abri a porta para ela. Rose riu da minha atitude, não por deboche, mas eu agi de forma estranha ao fazer aquilo. Queria agrada-la.
    Comemos e bebemos. Rimos e conversamos ainda mais. Aos poucos fui tentando convence-la de ir comigo para o meu apartamento, Rose era difícil, ou se fazia, não sei.
    - A gente mal se conheceu e você tá querendo me levar pra sua casa. – Falou ela, num tom nada agradável. Parecia estar me condenando.
    - Não é nada disso. – Disse eu. – É que nesse lugar não podemos ter nenhum tipo de intimidade.
    Foi aí que ela jogou o balde de água gelada sobre mim.
    - Mas eu não quero ter nenhum tipo de intimidade com você Fabiano. Sou tua amiga apenas.
    Não sabia o que falar. Estava literalmente sem chão naquele momento.
    - Tudo bem, me desculpe.
    Ela tirou um papel da bolsa e com ela limpou o batom dos lábios.
    - Por favor, se for possível me leve até a estação de metrô mais próxima. – Pediu ela.
    Tentando ser gentil e ao mesmo tempo tentando contornar a situação sugeri:
    - Posso te levar para casa, se quiser.
    - Não precisa, é só me deixar na porta de qualquer estação, que eu me viro.
    Fomos embora. Durante o caminho até a estação palavra nenhuma foi trocada, antes de sair, sem jeito, ela me deu uma boa noite que eu correspondi sem graça. Esperei ela sumir da minha vista para começar a dar murros de raiva no volante. Estava entorpecido de cólera.
    Dormi o resto da noite. Não queria mais saber de mulher por um bom tempo, a Rose seria uma delas. No dia seguinte, um sábado, despertei de meu sono, descansado e revigorado. Como não costumo ficar em casa durante a semana, a não ser à noite para repousar, decidi fazer uma faxina. Armado de balde, vassoura, rodo, pano de pó e produtos de limpeza, iniciei uma senhora faxina. Comecei pelo banheiro, passei pela sala, quarto e finalmente a cozinha. Estava orgulhoso de mim. Suado por causa do trabalho em casa, fui tomar um banho. Deitei no sofá e entediado resolvi sair para dar uma volta na rua, algo não muito bom martelava a minha cabeça.
    Capítulo 5
    Passou um bom tempo desde o fora que eu levei da Rose, e para a minha felicidade, isso se eu posso chamar assim, o Ruan, meu melhor amigo, também não se deu bem no flerte e levou um sonoro não. O problema é que o infeliz resolveu cantar a gostosa da Rose dentro do escritório. Assustado ele me confessou certa preocupação com um processo por tentativa de assedio.
    - Eu te avisei Ruan. – Falei, tentando dar uma de experiente no assunto.
    - Como eu ia adivinhar, me diz? – Perguntou ele.
    Dei uma breve olhada para os lados, me certificando de que ouvidos alheios não estivessem a nos ouvir:
    - Que fique entre nós. Mas há dias eu tentei levar ela para o meu apartamento. A convidei para ir a uma pizzaria. Conversa vai conversa vem, então resolvi dar o bote, tomei um belo de um fora. – Contei. – E tem mais Ruan. Mulheres como a Rose, não são fáceis de conquistar.
    Não me intrometeria mais no caso. O idiota do Ruan poderia muito bem resolver os problemas dele, da Rose, momentaneamente, eu desejava distância. A minha preocupação não era me ferrar junto com ele, e eu tinha coisa pra caramba para me inquietar.
    Depois de uma longa conversa na sala do senhor Bernardo, o dono da empresa, foi decidido que tanto a Rose a acusadora, quanto o Ruan, o acusado, não seriam demitidos, eles apenas trocariam de horário. Ela trabalharia pela manhã e ele no período da tarde, tudo resolvido, Ruan veio em minha direção, à camisa molhada de suor e o rosto vermelho de tensão.
    - E aí, como foi? Resolveu alguma coisa? – Perguntei.
    Aos poucos o semblante do Ruan foi melhorando e ganhando uma coloração mais agradável.
    - Sim! – Ele respondeu monossilábico.
    - Que tal uma cerveja depois do expediente? Você tá precisando relaxar. – Sugeri.
    - Não é uma má ideia, vamos sim, tem um bar aqui perto.
    - Combinado então. – Falei.
    O dia transcorreu normalmente. Nada de anormal dentro do escritório de contabilidade. Como sempre eu estava muito atarefado, tão atulhado de coisas a serem feitas, que mal eu pude olhar para os peitos da Rose. A piranha reclamava de assédio, mas dava motivo para tal. Andava sempre com saias curtas e com um decote enorme, deixando a vista dos homens seus belos atributos.
    A cerveja estava gelada e a conversa melhor ainda. O Ruan era um sujeito incrível. Bom de papo, inteligente, mas um verdadeiro Zé Mané. Vivia reclamando de falta de mulher, mas foi ficar, justamente, de olho na Rose. Mas fazer o que, não se pode mandar no coração alheio. Bebemos três ou quatro cervejas, não me recordo. Fomos embora juntos em meu carro. No trajeto, visivelmente embriagado, fui obrigado e ficar ouvindo seus intermináveis lamentos.
    Capítulo 6
    Conheci o meu chefe na faculdade de contabilidade. Bernardo Villela foi um dos meus professores ao longo de todo o curso, um excelente educador, mas um tremendo de um mau caráter. Se na sala de aula ele era o cara rígido com seus alunos, da porta pra fora ele mostrava sua verdadeira face. Bernardo tinha como costume convidar alunas para sair, algumas aceitavam tantas outras, não. O velho era insistente em suas investidas. A armadilha era armada por ele da maneira mais torpe possível. As presas favoritas eram as alunas com notas baixas, que necessitavam de uma ajudinha do professor para passar tranquila no semestre, e muitas das garotas se sujeitavam a transar com o desgraçado em troca de uma nota.
    Ele as levava para um apartamento longe dos olhares dos mais curiosos e ali ele realizava suas fantasias. O maldito concretizava suas libertinagens, mas muitas garotas afirmavam em alto e bom som que o velho babão era ruim de cama e que tinha o pau pequeno, o que gerou em toda a faculdade o apelido de peru mole. Bernardo odiava ser chamado pelo apelido, mas a coisa pegou tão forte que outros professores começaram a chama-lo assim.
    Minha relação com ele era de professor e aluno, nada mais do que isso. Logo após me dar aula, ao final de mais um semestre, me convidou para uma cerveja, e lá me fez o convite. Trabalharia no escritório dele, um dos maiores da cidade, quiçá, do país.
    Pensando que os convites para noites de sexo se restringiam somente ao âmbito acadêmico, me surpreendi ao descobrir que ele fazia o mesmo com algumas de suas funcionarias.
    Depois disso sempre fiquei com um pé atrás com ele. Não gostava do modo em que olhava para as pessoas, inclusive seu olhar para com as mulheres me causava nojo e repulsa. Por vezes vi a Rose sair da sala dele totalmente sem graça e desconcertada. Mas infelizmente não podia fazer nada. Acusar o velho de algo seria assinar minha sentença de morte e o fim do meu futuro profissional. Bernardo era conhecido no meio de todos os contadores e um telefonema dele para qualquer um de seus amiguinhos poria minha carreira em risco.
    Por diversas vezes o vi sair de carro com varias secretárias, o destino, claro, era o apartamento do filho da mãe. De lá elas saiam enojadas e ele ficava feliz e satisfeito por ter traçado mais uma, entre tantas de sua enorme lista. Mas porque elas nunca o denunciaram? Fico com essa pergunta sem resposta, porém, levanto algumas hipóteses. Ameaça? Medo? Exposição? Ou ele simplesmente comprava o silêncio de cada uma delas?
    Capítulo 7
    Cheguei ao trabalho e logo de cara percebi uma movimentação um tanto quanto estranha. Meus colegas de escritório formavam uma roda e conversavam sobre algo que a principio eu não compreendi. Curioso para saber do que se tratava me aproximei para ouvir a conversa.
    - Como assim desaparecida? – Disse um de meus colegas, um magrinho de óculos e bigode mal feito.
    - Faz um tempo, ela simplesmente nunca mais veio trabalhar. O doutor Bernardo ligou para ela tentando encontra-la, mas até o momento nenhum sinal.
    Deixei o papo rolar entre eles, esperando uma boa oportunidade de colocar a minha colher no meio daquilo tudo.
    - Quem é essa moça de que estão falando? – Perguntei.
    - A Patrícia. Lembra-se dela? – Disse uma moça de cabelos curtos e loiros e olhos bem azuis.
    Então comecei a puxar pela memória, mas não recordava de nenhuma Patrícia. Aquele escritório era muito estranho, pois havia um rodizio grande de funcionários, principalmente mulheres.
    - Sinceramente não me lembro. – Disse eu enquanto me afastava do burburinho.
    Foi aí que veio um misto de susto, surpresa e pitadas de taquicardia. A moça loira de cabelos curtos sacou o celular e mostrou-me uma foto da tal Patrícia, tal qual foi a minha surpresa ao perceber que se tratava justamente da moça que apareceu morta em meu apartamento.
    Meu coração disparou. Tudo começou a rodar feito carrossel e eu simplesmente apaguei. Acordei com o Ruan, a Katia e a Rose quase que em cima de mim. Faltava-me ar, me faltava explicações, só me sobravam medo e desespero. Aquele povo em cima de mim não me deixava respirar. Já recuperado e devidamente sentado em uma cadeira confortável e com um copo de água na mão, comecei a ser interrogado pelos colegas.
    - Você saiu com essa moça? – Alguém perguntou.
    - Não, não sai. – Respondi.
    Veio outra pergunta e mais outra resposta negativa. Duvidas e mais duvidas e eu ficando cada vez menos a vontade com toda a situação. Não sabia mais o que fazer, até que o Ruan intercedeu por mim. Com seu jeito gentil e educado foi aos poucos tirando aquela gente chata do meu caminho. Mas quando eu pensei ter me livrado de um milhão de problemas, eis que o meu anjo protetor, meu salva-vidas se senta ao meu lado e dispara:
    - Essa moça estava em seu apartamento naquela noite da festa, não estava?
    Não poderia mentir, verdade seja dita, não teria como. O Ruan ficou com aquela moça, mas foi embora, ou pelo menos eu penso assim, entretanto eu estava totalmente embriagado, não me recordo de certas coisas realizadas naquela maldita noite, regada a bebida, cigarro e muitas drogas.
    - Estava sim, mas depois eu não a vi mais. – Inventei uma desculpa qualquer. Por nenhuma hipótese não poderia dizer a ele: meu caro amigo Ruan, sim, eu vi a Patrícia, morta, toda ensanguentada e com a cabeça espatifada feito melancia quando cai no chão. Mas foi evidente que menti e omiti a esse respeito.
    - E como ela foi sumir assim tão de repente? – Ele perguntou.
    - Não sei. Só sei que preciso comer. Não coloquei nada na barriga ainda. – Falei, mentindo sobre tudo, inclusive sobre a fome.
    . Saímos juntos para comer. Durante o breve lanche o assunto foi a Patrícia. Só o meu amigo falava e eu de boca cheia concordava com tudo, tentando disfarçar a tensão estampada em meu rosto.
    Capítulo 8
    Os dias pareciam tranquilos desde os derradeiros acontecimentos. Abri a janela do apartamento. O sol brilhava e os raios solares vinham em minha direção, tudo estava bonito e calmo. Na rua pessoas passeavam com seus cachorros, casais andavam de mãos dadas e um silêncio gostoso invadia meu ouvido me convidando a voltar para cama. Era meu dia de folga e fazia um bom tempo que isso não ocorria, e eu precisava aproveitar a oportunidade para sair um pouco.
    Vestido com uma bermuda da cor creme, camiseta branca agarrada ao corpo e sandálias, sai pela rua. O carro ficaria na garagem, iria a pé para algum lugar, um parque, sei lá. Apesar de morar em uma grande cidade, às vezes eu ouço o canto de alguns pássaros. Não sei especificar quais, porém, é bom escutar a natureza de vez em quando.
    Desde o sumiço da Patrícia minha cabeça anda a mil por hora. Por que ela foi aparecer morta no meu apartamento e por que eu fiz a besteira de sumir com o corpo? Sentado em um banco de cimento, em uma praça perto de casa, comecei a analisar os fatos. Quem eu convidei para aquela festa? Provavelmente o pessoal do escritório inteiro, menos o doutor Bernardo. Será que os meus convidados levaram alguém de fora? Talvez.
    Levantei-me. De longe avistei um homem e seu carrinho de sorvetes, fiz um sinal, o homem parou e eu fui a sua direção. Comprei um picolé e continuei andando, o sol cada vez mais forte e a pela queimando, não passei protetor solar, muito embora não tivesse um. Resolvi voltar para a casa.
    Já em meu apartamento liguei o rádio numa altura suficiente para não incomodar o vizinho de baixo, uma velha de uns oitenta e tantos anos, seu nome era Quitéria e sofria de reumatismo, doenças de gente igual a ela. No som tocava um rock antigo, Led Zeppelin, Stones... não tenho ideia, só sei que a melodia era muito boa. Comecei a dar uma ajeitada na bagunça, meu quarto estava um verdadeiro caos. A cama desarrumada, e algumas camisas jogadas pelo chão. Aos poucos fui recolhendo a roupa e dando um jeito no meu leito de dormir. Tudo estava devidamente em seu lugar, só restava agora relaxar, abrir uma cerveja e assistir televisão.
    Capítulo 9
    O tempo passou e o assunto Patrícia sumiu das bocas e das rodinhas de fofoca do escritório. Mais ninguém ousava ao menos pronunciar tal nome. Se ela sumiu, o problema era da família e posteriormente das autoridades competentes. Não havia nada a fazer, e eu em meu lugar só esperaria, com certa cautela, pois fui o responsável pelo sumiço do corpo, entretanto, não tenho participação alguma com seu triste fim.
    Ruan veio falar comigo. Vestia uma camisa rosa e gravata de um tom mais escuro, suas bochechas estavam vermelhas e seu andar engraçado.
    - Tudo bem parceiro? – Perguntou ele enquanto me dava um leve tapinha nas costas, algo que eu detestava.
    - Sim, estou ótimo! A folga me fez bem, estava precisando, o serviço anda meio puxado, como pode perceber. – Falei, mostrando a correria dentro do escritório.
    Ruan olhou, fez cara de estar pouco ligando para a situação.
    - Tem razão Fabiano. – Ele disse por fim. O vi se afastar e levar toda aquela banha nojenta para longe de mim.
    Fiquei ali no meu lugar, com meu computador, minhas coisas. De longe a Katia me deu um oi e eu retribui o gesto. A gostosa da Rose me deu uma piscada bem safada seguida por um sorriso que me fez por pouco não cair da cadeira. Tudo ia bem, até o doutor Bernardo surgir ao lado de dois homens desconhecidos por mim.
    Os três caminhavam lado a lado e pareciam vir em minha direção. A mão começou a suar e o coração a bater um tanto quanto confuso. Tremi. Senti a mão de o velho encostar-se a meu ombro:
    - Oi Fabiano! Quero lhe apresentar os senhores Duílio e o doutor Saavedra. - O primeiro era alto e gordo, a barriga cobria a cinta que segurava a calça, o outro era o oposto. – Eles são investigadores de polícia e vieram até aqui para te fazer algumas perguntas.
    Fudeu! Lasquei-me! Estou frito! Vou ser preso! Não poderia demonstrar o mínimo sinal de nervosismo. A voz deveria ser firme e as minhas respostas tinham de passar o máximo de confiança possível, e o meu álibi precisava ser o melhor dos melhores.
    - Podemos conversar em particular? - Questionou um deles, o mais magro.
    - Claro!
    Levantei-me e apontei para uma das varias salas ao redor do escritório. Fui à frente e os dois me seguiam. Notei o olhar de julgamento de ambos para mim, o jeito como me encaravam me dava medo. Já na pequena sala composta por uma mesa redonda, cadeiras almofadadas, um telão que era usado eventualmente para chamadas de vídeo conferência. Convidei-os a sentar e lhes ofereci café de uma maquina presa na parede perto da porta.
    - Bem. – Os dois me olhavam mais ainda.
    - Muito bem- Disse um deles, o sorriso sarcástico no rosto e os olhos injetados de cólera a me observar como uma presa fácil. – O seu nome é Fabiano Batista, correto?
    - Sim senhor.
    - Tem 26 anos, nasceu na Bahia, e atualmente mora...
    - Tatuapé. - Completei.
    - Isso mesmo. - Complementou.
    Enquanto o Duílio me perguntava, o Saavedra parecia estar no mundo da lua. Ele olhava insistentemente para o teto e batia com os dedos na mesa, e isso me irritava, mas era obvio que eu não podia demonstrar.
    - Como e quando o senhor conheceu a senhorita Patrícia Andrade?
    - Ela trabalhava aqui.
    - Alguma vez conversou com ela, dentro ou fora do ambiente de trabalho?
    - Aqui quase todos os dias, pois sempre trocamos informações uns com os outros, isso é normal por aqui.
    - Entendi.
    - É verdade que o senhor deu uma festa em seu apartamento e que a senhorita Patrícia era uma das convidadas?
    - Dei sim, e além dela estavam também outros colegas da firma, só o doutor Bernardo que não.
    - A festa tinha algum objetivo? Era seu aniversário?
    - Não. Faço aniversário em outubro, dia quatro.
    Ok! Todas essas pessoas aí fora participaram da sua festa?
    - Todas. Menos aquela moça ali. – Falei apontando para a secretária nova, uma jovem de cabelos loiros e corpo roliço, seu nome era Helen.
    - Correto. Você suspeita do que pode ter acontecido? Se ela tinha algum relacionamento? Consta aqui nos autos que ela havia terminado um namoro poucas semanas de seu desaparecimento. Alguma vez o senhor ouviu ou viu alguém aqui do escritório mencionar algo a respeito?
    Parei para pensar. Então respondi.
    - Sinceramente não. Chego aqui, faço meu serviço, pego meu carro e vou pra casa. Às vezes convido o Ruan, meu melhor amigo para irmos a um bar aqui perto, pra tomar uma gelada, porém, ele nunca sequer tratou de um assunto parecido com esse.
    Os dois me olhavam, provavelmente suspeitando de algo, e esse era naquele momento o meu maior receio. Meu temor cessou quando o Duílio se levantou me estendeu a mão e me disse:
    - Obrigado pelos esclarecimentos senhor Fabiano. Se precisar nós sabemos aonde encontrar o senhor.
    - Tudo bem, estou à disposição. – Falei, com vontade de fugir o mais depressa possível daquela sala.
    Os dois saíram. O Saavedra sem dar tchau, foda-se ele. Não preciso de machos nojentos e muito menos de dois policiais babacas me bajulando. Foi sair da sala para o Ruan vir em minha direção.
    - E aí o que eles queriam? – Questionou.
    - Me interrogar. A Patrícia sumiu no dia que eu dei aquela festa.
    De repente o Ruan começou a tremer, sua voz ficou diferente, parecia estar com a língua pesada, pois sua voz saia um tanto quanto estranha de sua garganta.
    - Você falou de mim pra eles, que eu fiquei com ela.
    A minha vontade era ter falado, mas livrei meu grande amigo de uma roubada.
    - Nem sequer disse teu nome, meu caro. Agora vamos voltar para o trabalho. – Disse colocando a mão em seu ombro.
    Capítulo 10
    Aquele depoimento realmente mexeu comigo. Foram noites longas até o telefone tocar no meio de uma madrugada de forte chuva e o meu coração disparar:
    - Alô? – Silêncio do outro lado da linha. Apenas um leve chiado podia ser notado, no entanto, me preocupei.
    Fui ao banheiro, encostei-me a pia, levantei a cabeça e vi meu reflexo no espelho. Eu estava realmente cansado, morto de sono. Joguei uma água na cara e fui caminhando em direção ao meu quarto quando de repente ouvi batidas, ou melhor, pancadas na minha porta. As batidas não cessavam. Corri até a cozinha e tirei uma faca grande da gaveta, instrumento, aliás, que me ajudou na terrível missão de esquartejar a pobre da Patrícia. Andei pé sobre pé, bem vagarosamente. Fiquei ao lado da porta, abri de uma vez, mas não tinha ninguém.
    Olhei de longe. O corredor outrora escuro se iluminou devido a minha presença ali, o maldito sensor de presença. Avistei alguém descer as escadas de emergência e resolvi ir atrás. A faca na mão e o coração acelerado no peito, finalmente eu pegaria o assassino e daria cabo naquele desgraçado. Segui a toda pelas escadas, degrau após degrau e o meliante ia fugindo. Com as trevas era impossível ver quem era, mas dava para notar que se tratava de um homem, ou ao menos parecia ser um. Vi o safado sumir da minha vista e eu parar bem detrás do meu carro. O porta- malas estava aberto e o que tinha ali dentro era deveras assustador.
    A cabeça da Rose parecia um bolo espatifado, ali não havia nada além de massa encefálica e sangue, muito sangue. Recuei um passo sem saber o que fazer. Senti a faca pesar em meus dedos. Admirei aquele corpo com um desejo fora do normal. O acariciei. Coloquei minha mão em seu seio esquerdo, puxei e dei um corte. Um dos deliciosos peitos da Rose agora estava em minhas mãos. Beijei aquele estranho objeto, lambi, mordi, fiz de tudo. Parecia uma criança faminta e um homem excitado, meu pênis quase saia da calça devido ao enorme tesão que passei a sentir ali.
    Depois do seio, comecei a destrinchar a Rose. Cortei seus braços e pernas, seu sangue jorrou em minha face, mas não liguei. Suas coxas eram lisas e grossas. Mesmo morta dentro do meu carro senti vontade de penetrá-la e assim o fiz. Estava louco, ensandecido, então resolvi parar.
    Sai a mil por hora de lá. Os pneus cantando e a adrenalina subindo. Tudo era tão forte e fora da realidade. As ruas estavam vazias de gente, mas cheias de silêncio. O assobio do vento batendo nas árvores me causava medo e minhas pernas tremiam, tinha as mãos sujas de sangue. Parei o carro em uma rua sem saída. Nada de luzes, nada de vida humana, mais calmaria para os meus já agitados nervos.
    O corpo jazia em meu carro, mais uma vez não fui eu quem matou, porém eu o esquartejara, assim como fizera com a pobre da Patrícia. Coitada dela e de sua família.
    CAPÍTULO 11
    Não quero me recordar onde eu desovei o corpo da Rose e muito menos o que eu fiz antes com ele. Depois que esse pesadelo acabar irei atrás de tratamento, um psiquiatra talvez seja a melhor escolha. Descobrir quem é o filho da puta que mata e coloca os corpos em meu caminho era a meta do momento. Há se eu pegar o desgraçado. O faria em picadinho, cortaria cada pedacinho dele igual os açougueiros fazem com os bifes no açougue.
    Estava transpirando, ansioso, preocupado. No escritório todos estavam preocupados pelo atraso da Rose que era sempre uma das primeiras a chegar e a iniciar seus trabalhos. Além de pontual era bastante prestativa e atenciosa com todos. Quando comecei na empresa, a Rose me ensinou muita coisa importante e isso tem me ajudado até hoje. Pobre mulher. Assassinada de forma cruel por um louco, e esquartejada por outro, pior ainda. Tirar a vida de alguém é algo muito ruim, mas destrinchar o corpo é muito pior Mas por via das dúvidas o melhor era permanecer em silêncio.
    Estava decidido. Sairia na caça do verdadeiro assassino e acabaria com ele, mas para isso teria que pedir afastamento das minhas funções. Levantei-me da cadeira e fui caminhando até a sala do doutor Bernardo. Girei a maçaneta e a porta se abriu com um estalo, com certeza era falta de óleo, pois o barulho se parecia muito com caixões se abrindo naqueles filmes de terror com vampiros.
    - Posso falar um minuto com o senhor?
    Sentado em sua poltrona giratória, Bernardo levantou a cabeça o suficiente para notar a minha presença em sua sala.
    - Se for pra pedir aumento, esqueça.
    A sala era grande e lotada de quadros. Diplomas, fotos de família, viagens, certificados de bons serviços. O chão era todo acarpetado e as paredes pintadas na cor creme. Os móveis eram escuros e muito bem cuidados. Todos os dias, a dona Marli limpava cada canto daquele lugar como se ali fosse à casa de um santo.
    - Não senhor. Gostaria de me afastar da empresa por um tempo. – Disse.
    Os olhos do velho brilharam de surpresa e de espanto:
    - Qual o motivo? Posso saber?
    Pensei em várias desculpas durante meu breve trajeto entre a minha mesa e a fortaleza que era sala do grande chefão, mas na hora inventei outra, provavelmente a mais convincente.
    - Minha mãe está muito doente, pode morrer a qualquer momento.
    - Sinto muito. – Ele falou. – O que ela tem, posso saber?
    Ele não poderia saber, pois ela não tinha nada e gozava de boa saúde. Oxalá eu tivesse a sorte da dona Antônia. Nunca ficou doente na vida, a não ser uma pneumonia forte na infância, mas depois dessa nunca teve mais nada. Aos sessenta e cinco de idade ela toma vitaminas, e faz caminhada todos os dias. Já eu, vivo o meu sedentarismo diário, prestes a ter um ataque do coração a qualquer momento.
    - Câncer, ela tem câncer, senhor.
    - Meu Deus.
    Lágrimas mentirosas começaram a brotar dos meus olhos. E como um ator experiente, iniciei uma das maiores encenações da minha breve carreira. Falei de todo o sofrimento dela, das dores, das trocas de hospitais, da cirurgia que por pouco deu errado e até clamei a Deus pedindo uma intervenção divina. A minha interpretação era perfeita, e isso convenceu o doutor Bernardo a me liberar pelo tempo que eu precisasse. Na saída do escritório ele me deu um abraço, me desejou força e pronto restabelecimento a minha pobre mãezinha.
    Peguei minhas coisas e fui embora. Precisa chegar a casa, sentar e pensar em uma forma de pegar o desgraçado. Ninguém, nem mesmo o Ruan meu melhor amigo saberia disso, seria um segredo só meu.
    Capítulo 12
    Deixei o tempo passar só para ver como as coisas caminhariam. Por falta de provas as investigações da polícia deram uma estagnada, porém, eu poderia resolver toda a situação; não à maneira deles, mas sim do meu jeito. Precisava pensar em como atrair o verdadeiro assassino para perto de mim, no entanto seria arriscado. A hipótese de servir-me como isca estava descartada, porque eu já sabia que o desgraçado tinha preferência por matar mulheres e não homens, muito provavelmente por elas serem mais frágeis e não terem força o suficiente para revidar, isso se os crimes fossem limpos, é claro.
    A sorte estava lançada. Passei os últimos dias trabalhando bastante em um plano perfeito, ao menos para mim ele era. Era tarde da noite, alguém bate a minha porta, faço silêncio. Aproximo-me e dou uma espiada pelo olho mágico e vejo que são os dois investigadores, abro a porta e cumprimento lhes apertando as mãos.
    - Olá, que surpresa, não esperava receber os senhores aqui. – Disse, tentando disfarçar o nervosismo.
    Saavedra deu uma geral com os olhos em todo o apartamento, estava uma bagunça só. Passei os dias estudando sobre o maldito assassino e me esqueci das tarefas de casa.
    - Você mora aqui há quanto tempo? - Ele perguntou.
    - Três anos, se eu não me engano, sou ruim em datas.
    Os convidei para entrar e sentar. Ofereci café, mas recusaram, eles só queriam me fazer algumas perguntas. O interrogatório durou mais de uma hora. Questionaram-me sobre a minha rotina, meus horários, meus hábitos, se eu gostava do meu trabalho, se estava satisfeito com ele, e é claro, se eu tinha inimigos. Não menti em relação a isso, só omiti quando me perguntaram sobre a Patrícia e a Rose. Os dois queriam saber de mim tudo sobre elas, mas não disse muita coisa. O Duílio era um sujeito legal, diga-se de passagem. Magro, calvo, usava óculos e era às vezes brincalhão. Já o Saavedra era o oposto. Sério e bastante observador. Enquanto o Duílio me fazia às perguntas olhando diretamente nos meus olhos, ele ficava em pé andando pelo apartamento, fuçando em tudo, parecendo procurar alguma prova que comprovasse que eu era o responsável pelo sumiço das moças, na verdade eu era, em parte, e essa situação estava me deixando péssimo. Finalmente foram embora. O Duílio parecia satisfeito até então, entretanto, o Saavedra, nem um pouco, o que me fez ficar um tanto quanto preocupado.
    O dia amanheceu e eu despertei de um sono nada bom, mal consegui cochilar, dormir, era algo improvável no momento. A arapuca estava pronta. Se o assassino veio até mim há poucos dias, seria fácil atrai-lo, mas para isso precisava me armar. Decidi desaparecer por uns dias, uma semana ou um pouco mais. Era mais do que necessário tirar um tempo longe de todo burburinho para arejar as ideias. Iria visitar minha pobre e doente mãezinha, coitada, um câncer estava lhe comendo tudo por dentro, ri baixinho.
    Capítulo 13
    Estou de volta! Descansado, renovado e com as baterias recarregadas. Agora era chegada a hora de acabar com tudo aquilo que tem tirado o meu sossego. O plano estava pronto. Resolvi dar uma festa em meu apartamento, convidando a todos inclusive o doutor Bernardo, meu suspeito número um. Era uma noite de sábado. Estava muito quente naquela noite. Aos poucos meus convidados foram chegando, um a um eles paravam seus carros, outros chegavam a pé. Recebi meus convidados na porta, apertei a mão e abracei muita gente. Pronto, a festa, mas principalmente a armadilha estava armada, agora era só aproveitar e esperar o assassino morder a isca.
    A festa rolou a noite toda, álcool e drogas, as minhas reuniões eram regadas a muita cocaína e heroína. Tudo andava muito bem, até eu ouvir um grito, fraco, quase inaudível vindo do meu quarto. Sem aparentar alarmismo sai, andei poucos metros e descobri que veio de dentro do meu quarto. Lentamente girei a maçaneta e me deparei com algo assustador, era a Katia, toda suja de sangue ao seu lado com um buraco na cabeça estava Ruan, meu melhor amigo, morto. Parei. O cenário era de um filme de terror. O vestido branco que a Katia usava naquela noite estava tingido de vermelho. O corpo do Ruan com os braços abertos, igual Jesus Cristo na cruz. Ajoelhei-me, levantei meu olhar em direção a ela e a questionei:
    - Por que fez isso comigo? – Ela me olhou por um instante viu a janela aberta e se atirou rumo à morte.
    Fui preso, acusado pelos crimes que não cometi julgado e sentenciado a passar o restante dos meus dias preso em um manicômio judiciário. A promotoria alegou que eu era perigoso para a sociedade, quanto aos corpos esquartejados, ninguém sabe. Escrevo esse relato de dentro da minha cela, cansado, após fazer picadinho de mais um, se isso vai acabar um dia, eu não sei, mas se precisar matar alguém mande o corpo que eu sei o que fazer com ele.
    Fim...
  • O funeral de Emílio Dantas

    Da última vez que o vi com vida, o estado de saúde de Emílio Dantas era muito delicado. Terminal, na verdade.
    – Acho que desse funeral eu não fujo – ele disse, encarando a parede do quarto, um sorriso singelo, até um pouco perturbador.
    Dantas detestava eventos sociais. De todos os tipos. De batizados a funerais, de aniversários a casamentos. Muito calor humano, ele dizia.
    Inusitado era o fato de que ele não evitava esses eventos. Muito pelo contrário, ele fazia questão de comparecer. Somente para, no momento propício, desaparecer.
    Sim, desaparecer é o termo correto. Não importava qual fosse o evento, ela dava um jeito de sumir do local. E não apenas sumir. Ele desaparecia misteriosamente. Não importava a situação, fosse rodeado de pessoas ou em locais restritos, era só perdê-lo de vista e, num estalar dedos, ele não estava mais lá. Entrando por uma porta, no meio de um brinde, num piscar de olhos. Ele dominava a arte de desaparecer em público.
    As pessoas achavam divertido e extravagante, mas não entendiam exatamente porque ele fazia aquilo. Alguns diziam que era pela fama, que crescia com o tempo. Outros achavam excentricidade. Eu sempre achei que era pelo desafio. No fim, não importava muito o motivo, as pessoas só queriam vê-lo desaparecer.
    Duas semanas depois de minha última visita, Dantas morreu.
    O funeral foi realizado em sua cidade natal, no interior, numa capelinha bucólica, próxima à casa onde ele morou na infância. Era uma velha construção, pouco movimentada, mas um local realmente agradável. Estava fechada dias antes do funeral, passando por uma reforma.
    Uma vez, Dantas me confessou que passava muito tempo naquela capela quando era criança, escondido dos garotos mais velhos que o perseguiam na escola, fugindo das brigas da família em casa, ou simplesmente por querer sumir.
    É verdade que não erámos amigos chegados. Nos conhecíamos do trabalho. Mas dividíamos alguns hobbys, o que acabava gerando conversas divertidas em nosso horário de almoço.
    Bem, além dos parentes e amigos, estavam presentes ali muitos “fãs” e curiosos. Até uma emissora de TV local veio cobrir a cerimônia fúnebre, então pode-se imaginar a quão cheia estava a pequena capela.
    Em frente ao altar, sobre um carrinho adornado, em um belo, mas simples caixão de mogno, o corpo de Dantas repousava. No rosto, aquele mesmo sorriso calmo de dias atrás.
    Um vigário, amigo da família, veio de outra cidade para a cerimônia. Ele havia preparado uma comovente homenagem ao falecido. Acredito que teria sido uma despedida linda.
    Se não fosse o ocorrido, claro.
    Aconteceu muito rápido, do nada. O vigário preparava-se para o discurso fúnebre quando, numa batida forte, a tampa do caixão se fechou. Quase que imediatamente, toda a estrutura de madeira se colapsou, ficando perfeitamente achatada sobre o carrinho e levantando uma espessa nuvem de fumaça branca.
    Algumas pessoas se afastaram, assustadas. Outras, poucos segundos depois, se aproximaram, perplexas. Os que estavam mais próximos, como o vigário, ficaram sem ação.
    Demorou um pouco até que o vigário tomasse a iniciativa de verificar o caixão desmanchado. Receoso do que iria encontrar, com a mão trêmula, levantou a tampa lentamente.
    Nada além do tecido que forrava o caixão.
    Iniciou-se o alvoroço, mulheres chorando, homens discutindo. Houve bagunça. A imprensa se deliciava. Em meio à fumaça branca, fui acudir o vigário que, pobre coitado, sofria de pressão alta.
    A polícia foi chamada. Aquela brincadeira não passaria impune.
    Levaram o caixão e o carrinho para a perícia. Descobriram um pequeno mecanismo controlado por relógio que, ao ser acionado, fechava a tampa, abrindo o fundo do caixão e depositando o corpo no carrinho. O fundo era fechado novamente através de molas e travas eram liberadas por dentro do carrinho para colapsar o caixão. Para complementar, uma pequena bomba de nitrato de potássio era detonada por um mecanismo elétrico, soltando fumaça no ambiente.  
    Os fabricantes do caixão e do carrinho? Coincidentemente, eram a mesma empresa. Empresa que aliás, nem existia.
    O corpo? Também não estava lá. O mistério permanecia.
    Eu estava entre as pessoas que foram chamadas para depor na noite do ocorrido. Algumas outras passaram a noite toda na delegacia, prestando depoimento.
    Na manhã seguinte, a capela ainda recebia visitas. Além da imprensa e dos curiosos de plantão, a família, inconsolável, ainda persistia no local, prestando suas últimas homenagens e sentimentos.
    Lhes fiz companhia, prestando-lhes meus pêsames, até que o último familiar se foi. Mas, diferentes da maioria, eu não estava inconsolável com o desaparecimento do meu colega.
    Talvez fosse melhor dessa maneira. Emílio Dantas seria lembrado como o homem que desapareceu em seu próprio funeral. O seu melhor truque.
    Fiquei sentado ali, nos bancos de madeira da capela melancólica, devaneando. Imaginei se, quando eu morresse, alguém teria essa mesma ideia, prestaria uma homenagem como essa. Eu quis imaginar como seria, mas já não tinha muito tempo. A capela já estava vazia, a noite vinha caindo eu precisava aproveitar o momento oportuno para esvazia o fundo falso, embaixo do altar.
  • O Grotesco Prazer

    “Schadenfreude ist die schönste Freude, denn sie kommt von Herzen." 
       “Schadenfreude é a alegria mais bela, já que vem do coração.” 
       - (ditado popular alemão).
       
       Um homem sai do saguão de um grande edifício e começa a caminhar pela calçada. Passam das cinco horas da tarde, final do expediente deste sujeito bem vestido, de terno e gravata acinzentados; o terno, por sinal, de lapela curta, e como estava fechado, apenas se via a gola e uma pequena parte da camisa social branca que vestia por baixo. Um homem chique, que se veste bem para ir ao seu trabalho um tanto quanto burocrático e chato, mas que lhe rende uma quantia de dinheiro bem salgada todo o mês. E ele estudou para isso, para conseguir um trabalho que possa fornecê-lo uma conta bancário aceitável para alguém da classe alta.
       Logo mais à frente, naquela calçada muito bem feita – com paralelepípedos aparentando um estado tão bom que deveriam ter sido colocados há pouco tempo –, ele seguiu até seu carro; um Renault Duster da cor branca. Saiu da calçada para dar a volta no carro, abriu a porta e se sentou no banco do motorista. Começou a desabotoar o paletó, fechou a porta e pôs a chave na ignição a girando para ligar o painel. Se ajeitou no veículo, ligou o precioso ar condicionado, e logo deu a partida. Como sempre, soltou o freio de mão e engatou a primeira marcha. Ao sair do acostamento e entrar na via, rapidamente desenvolveu uma segunda e terceira marcha. Estava com pressa, queria logo chegar em casa.
       Em casa, após passar pelo portão, deixou o veículo na garagem, que, assim como o portão da frente, se abriu com um feitiço de mágica chamado “tecnologia”. É, este homem tem uma vida que poucos têm. Desceu do carro e caminhou até a porta que leva à grande sala de sua formosa residência de dois andares.
       Estava cansado pelo serviço entediante, mas esse cansaço logo passaria agora que está em casa e pode fazer o que quiser para relaxar. Mas então surge barulhos na escada, logo mais ao lado, que leva para o segundo andar. O homem, ainda bem vestido e que acabara de chegar em casa e estava cruzando a sala para subir justamente aquelas escadas, olhou para aquilo que causava os barulhos de passos. Era sua filha.
       - Pai! Olha só o que eu... – Falava a menina agitada, com um papel a balançar na mão direita, quando deu um pequeno tropeço na escada e não pôde terminar o que queria dizer.
       - Meus Deus, Letícia! Quase que você caí! – Fala o homem, apavorado por quase ter visto sua pequenina rolar escada à baixo.
       - Foi nada. – Disse a garotinha, aparentando ter seus quatro ou cinco anos de idade.
       - Como assim “nada”? Você me deu um grande susto, menina! – Exclamou o sujeito, ainda puxando fôlego depois daquele susto.
       A garotinha terminou de descer as escadas e foi direto ao seu pai. O abraçou, e ele a levantou em seu colo e disse:
       - Te amo muito, se você se machucasse, eu ficaria muito triste. Por isso, não quero mais te ver descendo rapidamente essas escadas, certo? Desça com calma de agora em diante. – Falou ele, beijando a bochecha de sua filhinha.
       - Aqui, pai, eu desenhei isso pra você. – Disse a loirinha, levantando o papel que tinha em mãos na altura dos olhos do pai.
       O homem, segurando carinhosamente sua filha – já meio pesada – no colo, pegou o papel da mão da menina e deu uma boa olhada nele.
       - Que lindo! É uma bela... Garrafa pet marrom? – Disse o pai, sorrindo para a filha, que por sinal não ficou muito feliz com aquelas palavras.
       - Não é uma garrafa marrom, pai. É um cavalo! – A menina quase chorava, estava magoada porque o pai zombou de sua bela garrafa... digo, cavalo que desenhou com tanto amor para aquele homem que ama tanto, mas que pouco tempo passa ao lado dela.
       Quando viu a burrada que fez, o sujeito elegante com aquele paletó aberto, resolveu se desculpar com a filha:
       - Oh, meu amor, eu estava apenas brincando... Claro que eu sabia que é um cavalo, e bem desenhado! – Disse o pai, abraçando a filha e a beijando no canto da boca. – Vou pendurar esse desenho na parede da minha sala lá no trabalho. – Ele continuou a falar, mas é claro que era mentira. Aquele desenho feito com tanto amor para ele, um presente da pequenina e ingênua filha, acabaria em uma gaveta ou pior.
       A menina continuou um pouco decepcionada, mas aceitou as desculpas do pai por conta da sua inocência de criança. O homem então a largou no chão e ficou com o desenho em mãos.
       - Onde está a mamãe? – Ele perguntou.
       - Lá na quarto, ela tá dobrando roupa. – Respondeu a criança.
       Sem mais palavras, o sujeito bem vestido começou a subir as escadas; lá em cima, seguiu para o seu quarto. Entrou nele, passando pela porta aberta, e viu sua esposa de frente para a cama à dobrar as roupas e à empilhá-las. Se aproximou da mulher e a abraçou por trás.
       - Me larga... tenho que terminar isso aqui. – Disse a esposa, meio ranzinza. Devia estar em um mau dia.
       - Olha só o que a Lelê desenhou. – Falou o homem, largando a esposa e colocando o desenho que Letícia fez para ele.
       - Sim. Vê se não joga fora, ela levou quase a tarde toda para desenhar isso pra você.
       - Mas é claro que não vou jogar fora, de onde tirou isso? Eu nunca jogo nada fora. – Embrabeceu o marido, mas logo abaixou a voz para não irritar a querida esposa. – Eu vou deixar na gaveta e amanhã eu...
       - Você leva pro trabalho e pendura na parede? – Disse a mulher, não deixando o marido terminar.
       - Sim. – Ele apenas disse, e ela, com os olhos fixos na roupa que dobrava, deu um sorriso sarcástico e forçado. Ela sabia que o papel seria esquecido na gaveta e nunca terminaria na parede de seu escritório.
       Mas o homem não se importou, logo virou as costas para a esposa e foi até o guarda-roupa pegar uma peça de roupa para levar com sigo para o banheiro, onde tomaria um banho.
       Mais tarde, após o banho, foi até a sala, já usando uma roupa mais confortável, e sentou-se no grande sofá. Por lá ficou descansando, até que Letícia apareceu para ligar a barulhenta TV de led grudada à parede. O sossego acabou!, pensou o homem que queria apenas relaxar com o silêncio pairando no ar. Mas para seu azar, ele tem uma filha pequena. Na verdade, nem é azar. Ele ama a menina, e ela é uma boa filha. Às vezes se estressa e também deixa de dar atenção para a filha, porém nunca deixará de amá-la. Ela é sua filha, ora bolas! Não é dos outros, ela é sua. Criação sua; com a grande ajuda de Bianca, sua esposa, é claro. Sem a mulher, nunca teria conquistado uma filha tão linda como Letícia. 
       Foi então que o pai, ainda sentado no sofá, chamou a filha para perto de si. Passou o resto do dia ao lado da menina, olhando programas infantis e jogando alguns joguinhos de criança. Queria descansar, óbvio, e ficando próximo da filha conseguia apenas agitação e dor de cabeça, mas pela menina valia a pena.
       Ás oito horas e meia, mais ou menos, Bianca chamou da cozinha o marido e a filha para irem jantar. A mulher havia preparado tudo, como sempre. Tinham uma empregada que limpava a casa durante o dia, mas as demais tarefas era Bianca que fazia e não se queixava. Era uma verdadeira dona de casa. Pai, mãe e filha jantaram alegres à mesa, até mesmo a esposa não estava mais aborrecida como antes. Talvez ver o marido e a filha brincando junto na sala tenha a alegrado, já que ultimamente o marido vivia um pouco distante.
       Ali pelas dez horas, Letícia já estava cansada demais pelo agito de logo à pouco com o pai, por isso não demorou para a garotinha começar a bocejar.
       - Edu, leve a Lelê pro quarto. – Disse Bianca, mandando no marido. E como todo bom marido, ele obviamente obedeceu a ordem sem pestanejar.
       O homem foi até sua filha, quase dormindo no sofá, e a agarrou no colo.
       - Não tenho sono, pai... – Disse a menininha com a voz cansada e dengosa.
       - Você já tá quase dormindo, filha. – Disse o pai, já ajeitando a filha em seus braços. – Vou ti levar pra cama.
       A menina não discutiu, apenas se entregou nos braços do pai. Os dois subiram as escadas e entraram no quarto da menina. O pai colocou a menina de pé ao lado da cama, para então puxar o cobertor. Letícia não queria soltar o pescoço de Eduardo, de tão molenga que estava grudada ao seu pai, mas acabou o largando por segundos até o homem a pegar novamente em seus braços e a colocar deitada sobre a cama. Puxou o cobertor fino sobre a menina e fez um carinho nos ombros dela quando a ponta de cima do cobertor chegou ao ombro dela. A filha sorriu.
       Por fim, Eduardo beijou sua filha na testa e ainda inclinado sobre a garotinha ele disse:
       - Boa noite, meu amorzinho. 
       A menina se agitou, fez uma carinha melancólica e disse:
       - Fique mais um pouco, pai... – Disse ela, quase suplicando.
       - Já passa das dez horas, Lelê. Tem que fechar os olhinhos e dormir. – Falou o pai, não se comovendo muito com as palavras e expressão facial de sua filha, pois a conhecia e se ficasse mais tempo com ela no quarto acabaria deixando ela mais agitada e não dormiria nunca desse jeito.
       - Mas eu tenho medo do escuro. – Disse ela, mas não consegue mais enganar o pai.
       Faz já alguns meses que Letícia dorme sozinha em seu quarto, e no começo a menina berrava e corria para dentro do quarto dos pais, mas com o tempo perdeu esse medo de ficar sozinha e no escuro em seu próprio quarto. Não há o que temer quando está debaixo do coberto e sobre seu aconchegante colchão, ela já sabe disso, o seu único problema é quando sente vontade de ir ao banheiro e tem medo de ir até lá naquela escuridão onde o interior da casa mergulha depois que todas – ou quase todas – as luzes se apagarem. Mas estando já na cama, cansada e molenga, e provavelmente sem vontade de ir ao banheiro, Letícia não tem nada que à impeça de cair logo em um sono profundo.
       - Você não tem mais medo, nos últimos dias dormiu sempre sozinha. – Disse o pai, já de pé e dando meia volta. 
       - Mas agora ele voltou! Tenho medo! – Birrou a filha, desesperada ao ver seu pai se afastando de si.
       - Ah, amorzinho meu, o pai está cansado. Brinquei e assisti TV contigo o tempo todo desde que cheguei em casa já cansado do trabalho. – Falou em um tom bastante sério.
       - Tá bom. – Falou a menina, emburrando e puxando o cobertor, tapando o seu rosto.
       Aquilo entristeceu o homem. Podia ficar um pouco mais com sua filha, fazer companhia por mais alguns míseros minutos. Não custaria nada, mas... A menina não pode ser mimada, e um pai de verdade sabe disso. Resolveu sair do quarto; apagou as luzes, saiu e antes de fechar a porta, olhou para Letícia e disse:
       - Boa noite, Lelê. – E fechou a porta.
       Não sentiu remorsos. Não fez nada de errado. Letícia não pode ser mimada, senão irá se tornar uma jovem despreparada para as tristezas do mundo. E amanhã o pai pode muito bem passar mais algum tempo com a filha quando voltar do trabalho, isso se ele se lembrar disso amanhã. Nunca poderemos saber como iremos estar no dia seguinte. Mas se Eduardo não quiser se arrepender futuramente, acho melhor não se esquecer ou ignorar sua filha nunca mais, pois quando ela crescer, não poderá voltar no tempo para aproveitar novamente o amor daquela doce e inocente menina. 
       Mas agora que já colocou Letícia na cama, seguiu até a sala e deu de cara com a esposa logo ao descer as escadas.
       - Já vou dormir. – Disse Bianca, com cara de sono.
       - Claro. – Ele apenas disse.
       - Você não vem?
       - Daqui a pouco eu vou, tenho um negócio do trabalho pra fazer. – Disse Eduardo, mas podia-se notar algo de estranho em sua voz.
       - Então tá, eu já vou. – Finalizou a esposa, logo seguindo seu caminho e subiu as escadas. Ela nem se importou com a estranheza de seu marido.
       Essa “estranheza” tem um nome, mas o homem prefere ignorá-lo, pois este soa um pouco doentio. 
       Seguiu até a cozinha. Em frente à pia, limpa e com pratos e talheres e copos lavados a secar sobre o suporte de plástico ao lado, o homem pegou um copo limpo e o encheu com a água da torneira. Levantou o copo cheio e o bebeu de uma vez só. Largou o copo seco solto sobre a bancada da pia e logo partiu até o canto da cozinha onde desligou as luzes no interruptor que lá havia. Fez o mesmo na sala, apagando todas as luzes da casa.
       No escuro, caminhou sem dificuldade alguma até as escadas. Conhecia sua casa como a palma da sua mão, por isso até com os olhos vendados conseguiria alcançar qualquer lugar que quisesse. Subiu as escadas e no corredor seguiu reto até o seu final, pois bem lá no fim ficava uma porta invisível naquela negritude. 
       O homem sabia que, mesmo sem enxergar, seguindo reto pelo corredor alcançaria a porta para seu escritório. Podia ir dormir, não havia trabalho há ser feito em casa nessa noite, mas o que o atrai até seu escritório é algo mais prazeroso. Algo para saciar um vício, ou melhor, uma doença. Não é algo normal, o sujeito sabe disso, mas ainda assim prefere ignorar.
       Como perdeu boa parte do resto de seu dia com sua filha, teria menos tempo para se deleitar com aquilo que lhe aguarda dentro de seu isolado escritório. Está cansado, claro, mas o cansaço não diminui a vontade de ocupar a mente com algo prazeroso para si. Um hobby, talvez seja, que se tornou uma espécie de tradição. Todas as noites – ou quase todas – ele tem aquele desejo, aquele passatempo, que o prende de minutos à horas trancado em sua base fortificada, onde nem sua esposa e nem sua filha estão por perto. Pode fazer o que quiser lá dentro, pode ser outra pessoa.
       Chegou ao final do escuro corredor e entrou no escritório. Ligou as luzes, fechou a porta e caminhou até a sua mesinha de trabalho, bem no centro mais ao fundo do cômodo. Se sentou em sua cadeira macia e giratória, uma dádiva para suas costas acostumadas com uma boa e confortável vida. Havia um notebook sobre a mesinha, juntamente de outras tralhas. Levantou a tampa do computador portátil e apertou o botão power.
       Demorou até o notebook ligar, cerca de dois minutos – que para Eduardo já era tempo demais para esperar. Quando a tela acendeu e ele colocou a sua senha, logo foi direcionado para sua área de trabalho.
       O papel de parede na tela do aparelho, por trás dos vários ícones, era um lindo horizonte suavemente azulado em uma tarde fresca de verão. Uma imagem linda, que trazia paz, mas o homem não quer paz agora. Ele quer apenas saciar o seu gosto exótico. Quer matar a fome, encher a mente com o suco da vida. Absorver forças inexplicáveis e se deleitar com tais magníficos sentimentos que afloram sua pele.
       Com a mão sobre o mouse, ao lado direito do notebook, o deslizou para o lado até o seu ponteiro no televisor alcançar um ícone em especial. Depois de dois cliques, uma janela do navegador se abriu. É hora de acessar o e-mail, ele pensou, mas então teve outra ideia melhor. Deixaria o principal para o final, primeiro iria visitar um site em específico e depois dar uma olhada em um certo fórum para então acessar por fim o e-mail e ver se chegou algo de novo.
       Abriu a guia anônima do navegador e começou a digitar letra por letra o endereço do tal site que iria visitar. Sabia de cór o nome, de tanto que já o digitou nas noites em que passa sozinho em seu escritório. Nos outros dias tinha mais tempo, podia deleitar-se o quanto quisesse, mas como hoje demorou para vir até o seu “porto-seguro” já que com sua filhinha passou a maior parte do tempo, teria no máximo uma hora. Logo teria que se deitar e dormir, porque amanhã é um novo dia onde terá que acordar às sete horas para se aprontar para ir trabalhar como sempre.
       A interface do site tinha duas cores predominantemente, vermelho e preto. Fundo todo escuro e letras em sangue. Era um aviso, e nele estava escrito em letras bem grandes: “O conteúdo deste site é impróprio para menores de dezoito anos”, e embaixo havia um ícone escrito: “Acessar”, e é claro que Eduardo clicou sobre ele.
       Logo foi direcionado para a verdadeira interface do site, e as mesmas cores de antes ainda eram predominantemente, porém agora tinha também ícones de vários e vários vídeos. Não é todo o dia que o homem acessa esse site, pois nem sempre os responsáveis por ele postam algo, por isso costuma ficar sempre uma semana sem vê-lo para então na noite do sétimo dia acessá-lo e ver todos os novos vídeos e matérias postados durante toda a semana que se passou. E o homem sorriu ao ver quantos novos vídeos haviam ali agora.
       As imagens dos ícones que direcionam para os respectivos vídeos estavam meio borradas, não porque a internet não as carregou, foi porque elas são mesmo impossíveis de serem detalhadas de propósito. E para o cidadão saber o que aquele curto vídeo apresenta – ou imagens, pois nem sempre eram vídeos mesmo estes sendo a maioria e o foco principal – uma série de linhas escritas ao lado dos respectivos ícones, explicando o que aquilo é.
       O homem focou no primeiro ícone e então leu por cima o que ali estava escrito. A única coisa que leu ali e acabou instigando sua mente a clicar para ver o vídeo foi o fato de haver a palavra “criança”.
       Após clicar e ser levado a uma página com o tal vídeo, início o player para assisti-lo. Foi então que começou a ver uma filmagem amadora, de apenas três minutos, e pelo que pôde notar pelo ambiente e pela fala das pessoas, devia ter sido filmado no sul dos Estados Unidos. 
       Era um aglomerado de gente, circundando a certa distância algo que prendiam seus olhares assustados ao centro da roda. Ali estavam dois homens, uma menina, e uma ave de rapina enorme – bem provável que seja uma águia. E o que fazia as pessoas em volta se espantar com aquilo era porque a menina gritava muito. Estava desesperada, e a ave estava bem ao lado dela, mas pouco se via pois um dos dois homens a tentar acalmar a menina estava bem na frente. E a mão do corajoso sujeito a filmar tudo, tremia bastante. 
       Mas foi então que aquele sujeito que bloqueava a visão mais detalhada da menina, resolveu dar alguns passos para o lado é o que a câmera focou foi bem chocante. A ave de rapina estava com o bico cravado no braço da pobre menininha, que devia ser só um pouco mais velha que a Lelê. 
       Podia-se detalhadamente ver o braço mutilado da garotinha a agonizar enquanto aqueles dois homens tentam tirar o bico do animal de sua carne branca. A ave estava sendo esganada por um dos rapazes, que por sinal vestiam algum tipo de informe idêntico, como se trabalhassem em um zoológico ou coisa parecida; mas pelo ambiente que pode se vê ao redor, aquilo é uma grande área aberta, grande demais para se localizar dentro de um zoológico por mais grande que este fosse.
       O vídeo acabou e não teve desfecho. A águia seguiu com seu bico cravado na menina a gritar. O homem em frente ao notebook ficou pensando: “Porque não mataram a porcaria da águia? Se fosse eu, degolaria a criatura para salvar a criança... Bom, pensar é fácil, difícil é fazer. E quem teria uma faca ou facão em mãos naquele lugar, que mais parecia um tipo de reserva ambiental?”.
       Foi a vez de retornar à interface principal do site e acessar o vídeo à baixo deste último que Eduardo viu com tanta curiosidade, ficando indignado e sentindo prazer inexplicável nesse seu sentimento estranho ao assistir desgraça alheia. E ainda mais por ser uma criança a sofrer, isso o deixou impactado. E deleitou-se com este saboroso sentimento. Logo clicou sobre o próximo ícone de vídeo, sem nem ler sobre o que era, então foi direcionado para um novo player que começou a rodar um novo vídeo quando o homem clicou sobre ele.
       Outro vídeo amador, e o ambiente era semelhante ao do anterior, a diferença era nas pessoas que agora apareciam na sua tela do notebook. Eram todos negros, por isso supôs que fora gravado na África. Provavelmente em algum país pobre e com conflitos internos, pois ali se via várias mulheres mal vestidas junto de seus pobres filhos, uns nos colos de suas mães e outros a caminhar ao lado. Mas não havia somente mulheres e crianças, o sujeito que estava gravando era homem, pelo tom de voz, porém ainda haviam outros homens ali. Todos negros e com farda de uma espécie de exército ou grupo de guerrilha, e em mãos empunhavam rifles que o nosso sujeito sentado na macia cadeira de seu escritório e a assistir tudo aquilo por uma tela não pôde reconhecer o modelo ou calibre – E como poderia? Eduardo nem sequer serviu o exército.
       Os homens fardados conduziam aquelas mulheres e crianças, como se estivessem às escoltando. Porém aquela caminhada teve um fim, e então os soldados deram ordens para as mulheres e seus filhos em uma língua esquisita. Foi aí que aquelas pessoas indefesas foram se alinhando lado a lado e se ajoelharam de costas para os homens armados.
       Um tiroteio se iniciou. Mulheres, crianças grandes e pequenas – até no colo de suas mães – foram sendo abatidas. Os primeiros disparos atingiram as mulheres, em seguida os filhos, e por fim os assassinos fardados, de cor de pele idêntica ao das inocentes almas sacrificadas, foram se aproximando dos corpos e acertaram um tiro na cabeça de cada um para ter certeza de que estão mortos. 
       Bem no final daquele vídeo de quase seis minutos, o câmera, falando em uma língua desconhecida, aproximou a imagem de uma criança que devia ter no máximo dois anos de idade. Estava com a cabeça estourada e ainda grudado aos braços de sua mãe igualmente morta. As vozes do câmera e dos soldados ao redor eram de pura zombaria, dava para notar pelo tom e pelas risadas.
       Eduardo absorveu cada segundo daquele vídeo incrível. Estava impressionado, pois já vira outros vídeos com execução, mas nunca havia visto uma criança sendo executada. Foi a vez de procurar outro vídeo na interface, e este terceiro era o último, pois os demais o homem em sua confortável cadeira já tinha visto em outros dias já que eram antigos e este site demora para publicar algo. O terceiro e último seria clássico, logo pensou, pois em sua descrição tinha “acidente de trabalho” em letras vermelhas.
       Sem mais enrolação, logo começou a assistir o último vídeo. Nele aparecia um homem solitário ao lado de um tipo estranho de máquina que rodava e estava enrolando algo que se assemelha a tecido. O sujeito solitário começou a tentar ajeitar o tecido, que estava ficando desparelho, e acabou prendendo a mão. Foi jogado ao chão e logo levado para cima estando com o braço inteiro preso agora. A máquina não parou de rodar, e o homem ia rodando junto em uma velocidade considerável. Suas pernas se chocavam brutalmente todas as vezes que era jogado para baixo e depois levantado para então descer outra vez. Foi se formando um rastro de sangue onde as pernas de borracha do rapaz se chocavam contra o chão. Não havia ninguém ali para ajudar. O vídeo acabou e o homem continuava rodando, provavelmente morreu, pensou o nosso homem de mais sorte, sentado a assistir o que mais lhe chama a atenção e mais lhe trás curiosidade. A desgraça alheia!
       Decidiu sair do site e procurar algo de “bom” nos fóruns perdidos na internet, nos quais consegue acesso porque já fora a tempo convidado por “amigos” para participar de ambos. 
       O primeiro fórum era um aglomerado de pornografia do tipo mais variado tipo, e ilegal. Decidiu ver o que havia no outro fórum, pois pedófilo o nosso homem aqui não é, ele é apenas um curioso. Alguém que busca prazer naquilo que é pútrido na humanidade. Fatalidades, crueldades, é isso o que mantém mais a atenção desse sujeito estranho, mas ainda assim tão comum.
       No segundo fórum achou um melhor prato para se deliciar. Haviam muitas imagens de pessoas sendo torturadas, pessoas mortas e até crianças com membros mutilados.
       Por fim, chegou a hora do principal. Já é meio tarde, e deve logo ir dormir, mas um último deleite ainda pode vir antes de ir para a cama. Acessou o e-mail e logo viu algo de novo em sua caixa de mensagem. Era uma mensagem estranha, em uma língua semelhante a árabe, mas o que importa é que ali havia um arquivo de vídeo anexado. 
       Abriu o player do sistema do Windows e logo começou a assistir. Ali havia uma jovem, de aparência europeia, amarrada há uma cadeira. Em frente a ela estava um sujeito encapuzado, segurando uma faca. Ele se aproximou e ela gritou. Eduardo viu aquele homem encapuzado cortar um dos dedos da jovem, e este foi trazido até a frente da imagem como se fosse um troféu a ser segurado pelo maníaco, enquanto isso a jovem agonizava.
       O homem, em seu escritório com os olhos vibrados naquilo que via, escutou o som da porta sendo aberta. Olhou e viu que era Letícia que entrava para atrapalhar o pai nesse momento de puro êxtase.
       - Lelê? Porque não está dormindo? – Ficou nervoso e o mais rápido possível desligou o notebook enquanto falava. Será que sua filha escutou os gritos vindos de seu computador? Bom, o volume estava baixo, mas...
       - Não consigo dormir, fica comigo pai? – Perguntou a menina, com uma cara fechada e esfregando os olhos e bocejando. Não deve ter escutado nada. 
       - Porque levantou da cama?
       - Acordei e não conseguia dormir de novo. Estava sozinha no escuro, e...
       - Tudo bem, filha. – Eduardo se levantou e foi até a menina. A pegou no colo e lhe deu um beijo na bochecha.
       Naquela noite o homem dormiu ao lado de sua filha, que levou consigo para o seu quarto onde sua esposa já roncava. Dormiu abraçando as duas. Antes de pegar no sono, chegou a pensar sobre o porque de sentir tanta vontade de ver aquele tipo de coisa no seu notebook, mas logo desistiu de procurar uma resposta para aquela sensação instigante. É difícil de explicar, o que ele sente é apenas um grotesco prazer.
  • O Guardião da Floresta

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      - Aitniê. - Disse em voz alta o indígena que guiava o barco, quando avistou a primeira luz do sol tocar o céu. Causou um reboliço no pequeno convés atrás de si.
      - É o quê? - João se pos de pé num pulo desejeitado. Pos uma mão no cabo dum revólver na cintura e a outra agarrou a borda do barco. Olhava para todos os lados, nitidamente assustado.
      - Significa 'Bom dia'. - O índio respondeu achando graça. Todo os tripulantes acordaram com a sua saudação.
      - Vai se foder índio. - João disse cuspindo na'gua.
      - O nome dele é Ubiratan! - Zé 'Tinhoso' o corrigiu com sua voz rouca. Sua expressão anulava qualquer objeção que o outro tivesse. Era o líder do bando.

      João era o novato, no total eram cinco malfeitores navegando rio acima em busca de algumas madeiras para o 'contato'. Zé esticou os ossos e foi até a ponte ter com o 'capitão'. Todos já estavam de pé.


       - Onde estamos? 
      - Sei lá. - Ubiratan respondeu sorrindo, sacudindo os ombros. Antes de qualquer reação, apontou para um mapa estirado no painel. - Por aqui. - Seu dedo estava perto da área marcada pelo Contato.
      - Logo logo tá nas vista! - Zé disse virando as costas. - Saruê, Pequeno… prepara as ferramentas. João, fica de oio nas margens. Vou prepara um trago pra nois.
    O, graças a Deus! - Saruê disse erguendo as mãos indo para o seu afazer.

     Uma conversa fiada tomou conta do barco rapidamente, depois que Zé abriu uma garrafa de cachaça e o copo foi de mão em mão, uma dose pra cada. Duas para o chefe, como de costume. João era o único que cumpria as ordens, seus olhos saltavam de uma margem para outra sem descanso, participava minimamente da conversa. O barco de pesca seguia num ritmo constante e tedioso, Ubiratan gostava de falar para espantar o sono e matar o tempo. 

      - Fala aí "Biratan", diga o significado de seu nome, diga. - Pequeno pediu apontando para o João. 
    Lança Dura! - Ubiratan disse e todos riram.
    Essa desgraça faz sucesso com as quenga, acredita? - Saruê olhava para João. - Nois conta isso nas Birosca já vem umas treis pra confirmar. - Gargalhou.
    Bora ajeitar essas serras, seus carniça! - Zé disse em meio às histórias. 

      O sol estava a meia altura quando Ubiratan avistou as copas coloridas das árvores. 


      - Oh lá Zé!
     - Bora ganha um dinheiro! - Respondeu animado pegando uma Serra elétrica pra si.

      Dez minutos depois o barco foi amarrado na margem. Ubiratan desembarcou rapidamente e entrou no mato a esquerda, carregava um pedaço de corda e um saco de fumo nas mãos.


      - João, fica de zóio no barco até ouvi a serra canta, beleza?
      - Po'deixa chefe! - Estava se afeiçoado ao grupo.
    Bora cambada! - Zé foi seguido pelos demais, todos carregavam uma Serra e facões. 

       Alguns passos depois, sumiram na mata fechada. O índio reapareceu andando de costas, desenrolando a corda com cuidado no chão cortando-a.


      - Que isso? - João perguntou curioso.
      - É pro Demônio da Floresta. - Ubiratan respondeu sério. -  Por onde eles foram?
      - Curupira? - João explodiu numa gargalhada - Puta que pariu - Ele não conseguia parar de rir, mesmo com o índio o encarando sério. - Foram por ali. - apontou em meio uma torção causada pelo riso exagerado. Ubiratan sumiu no rastro dos demais.

       Algum tempo depois o barulho da serra se fez mata adentro, era hora de agir. João ainda sorria, tirou o excesso de lágrimas dos olhos e deu mais uma olhada nos arredores antes de iniciar a caminhada. No segundo passo, viu a ponta da corda deixada por Ubiratan e resolveu segui-la. Dez passos a frente achou um punhado de corda enrolada, escondendo um pacote de fumo lacrado. Deu um riso largo e pegou a prenda olhando em volta, desconfiado. Sorriu mais uma vez e foi até às serras. 

      O serviço foi mais rápido do que Zé esperava, havia apenas duas dúzias de jacarandás na área, "árvores da flor roxa", como disse o Contato.  O bando preparou os troncos em formatos iguais e os arrastaram para a margem, Zé estava mal-humorado. Ubiratan, desconfortável.

      Como calculado, no final da tarde o barco estava descendo o rio puxando as madeiras encomendadas. Ubiratan guiava para a segunda marcação do mapa.

      - Esse contato seu é fraquinho, hein Zé. - disse entediado. 

     Zé estava olhando a margem com uma perna apoiada na borda e o pensamento distante.

      - Um punhadinho desse vai dá nada pra nois. - Saruê endossou 
      - Eta Febre do rato! Confia em mim mais não é? Oxem! - Zé se voltou para eles. - Esse Cabra é peixe grande. Disse que se nois levasse esses tronco pra ele, ele ia arrumar um serviço grande pra nois!
      - Ma rapais, e tu vai fica no preju é? Alugar barco, as serras, o óleo, tu tá se arrombano pra trabaia é? - Pequeno indagou.
      - Fecha essa boca, desgraça! O cara que tá bancano tudo, seu porra. Da minha parte é só a mão de obra podi de voceis! - Zé se satisfez com a expressão de admiração dos demais. - E o miseravi ainda vai dá 100 conto por cada tora! - Concluiu rindo de seu trunfo. 
      - Tu é o Cabra da peste memo hein. Rapais, que negoso doido é esse!? - Pequeno estava admirado, igual aos demais.

     Cada um disse alguma coisa sobre a sorte de ter pego um contato desse tipo e começaram a imaginar e discutir sobre qual seria o trabalho futuro, prometido. 

       Zé estava preocupado antes, quando estavam na margem preparando as toras, achou que era uma armadilha da polícia ambiental e/ou do IBAMA, o trabalho era o melhor que ele já pegou nessa vida de malfeitor. Na verdade iria receber R$ 200  por cada tronco e agora que seu bando acreditou no R$ 100, seu lucro seria maior ainda. Quando o barco entrou no "canal esquecido" Tinhoso relaxou de vez. Ali sabia que estava seguro, aquelas águas eram esquecidas pelas autoridades. 

      No início da noite avistaram o porto clandestino, exatamente onde o cliente marcou no mapa. Zé desceu sozinho, um capataz bem vestido o recebeu e mandou um qualquer seu contar os troncos e levou Zé num canto. Dez minutos depois todos estavam montados em seus cavalos com os bolsos cheios, em direção a Birosca mais próxima dali.

    Zé ainda repetia as palavras do homem em sua cabeça, "Meu patrão mandou dizer pra encontrar ele no mesmo lugar, daqui seis dias".

    Não se aguentava de empolgação. O bando chegou a galope numa cidadezinha precária. Uma avenida bem iluminada, tomada de comércios fechados e no final uma Birosca acesa com mesas para fora e clientes beberrões. 

       O bando chegou barulhento, tomou duas mesas e animou o lugar que já estava pronto para encerrar o dia mas, diante da disposição dos recém chegados, foi obrigado a estender o horário. Antes de mergulhar na cana e fumo, Zé Tinhoso passou o olho no bar e nos clientes, não queria ser importunado por gatunos. Não viu nada além de molengas chorões, então mergulhou de cabeça junto com seus homens na 'mardita'. Mais tarde, algumas 'Damas da noite' se juntaram ao bando e a coisa animou de vez. 

       No alto da madrugada os rapazes foram levados para os quartos cada um acompanhado por uma dama. Cada um tomou um quarto. Depois de satisfazerem seus clientes as senhoras saiam de cena, deixando-os sozinhos, dormindo. 

    Os quartos ficavam no andar superior, lado a lado, dividos por uma parede de taipa. Ubiratan não estava bem, fingiu dormir para dispensar sua senhora e sozinho, não conseguia dormir de jeito nenhum, um desconforto o tomou. Ouviu a porta de seu vizinho abrindo e fechando e o som de passos curtos e risadinhas, escada abaixo. Um minuto depois ouvi a porta se abrir de novo mas, não os passos, aprumou os ouvidos e teve certeza que seu vizinho estava se engasgando. Se levantou num pulo e correu até ele. A má iluminação impedia de ver quem era.


      - Oxe cabra tá morrendo aí é? - Disse se aproximando da cama e virando o homem de lado. - Que porra é essa? - perguntou quando sentiu um líquido quente saindo de seu colega. - Socorro! - Gritou quando sentiu o cheiro de sangue.

     Ouviu um grunhido no outro quarto.

      - Que diabo é isso? - A voz de Zé se fez no corredor. 
    Vem cá Zé olha isso…
    Crendeuspa… - A voz de Zé começou e deu lugar a um grito sufocado. 

    Ubiratan saiu do quarto correndo e viu com a luz da lua que entrava na única janela do corredor, seu chefe ajoelhado segurando a garganta que se desmanchava por entre seus dedos. 

      - Sai daqui demonio! - João gritou do último quarto. Alguma coisa o jogou no chão.

    Ubiratan estava desnorteado, gritou por socorro novamente enquanto corria até o quarto de João. Viu a silhueta de uma criatura pequena sobre seu colega cochichando alguma coisa em seu ouvido. Era tarde demais

    Essa era a única certeza que o índio tinha.

    Caiu de joelhos diante da porta  aberta enquanto explicava que deixou uma prenda, suplicava por perdão. O som da garganta de João se torcendo até quebrar fez um calafrio desesperado percorrer seu corpo. A criatura o encarou das sombras, em um segundo se pos diante dele, era pequena cabelo espetado e vermelho como fogo aceso, tinha um riso malicioso de dentes pontudos e amarelados a pele esverdeada usava apenas uma tanga de couro. Os pés virados para trás. Ubiratan tremia descontroladamente.

      - Aiacaqui... ai-có [ Cortamos só algumas árvores]  - Ubiratan conseguiu dizer com muito esforço
      - Aiacaqui aiacá [ Cortei só algumas cabeças] - O Curupira respondeu com uma voz sombria, fria como gelo, enquanto passava suas garras debaixo do queixo do infeliz e ria com seu sangue jogando.

      

  • O Natal de Betinho

    Era fim de tarde e Betinho soluçava solitário encostado à porta da capela, a bunda magra torturada pelo frio da calçada. A palma da mão aberta mostrava uma moeda antiga deixada pelo pai em seu leito de morte, mas era antiga demais para comprar um presente para a mãe, outro para a irmã pequenina e doente, e outro para o irmão mais velho.
    Betinho odiava o Natal.
    Betinho odiava o Vigário.
    Há dias sua mãe não trabalhava mais para ele; não lavava o chão da igreja, nem ajeitava as velas do altar, nem tirava o pó das imagens... O vigário dizia que as beatas podiam fazer aquilo sem cobrar um centavo sequer, por quê pagaria a uma mulher preguiçosa e pouco religiosa como ela?
    Quando despediu a mãe do Betinho, o fez na sua frente, ignorando a existência do menino. Pensava que Betinho não entendia? Pensava que Betinho era burro?
    Betinho entendia tudo. Betinho sabia bem o significado da palavra “humilhação”.
    Por isso que Betinho odiava o vigário. Se pudesse dava-lhe um presente. Um presente tão asqueroso que o vigário jamais esqueceria.
    Mas aquela moeda não servia para nada, a não ser para lembrar da noite em que o pai se foi.
    Para quê ficar com ela? Para quê guardar aquela dor no bolso da bermuda, ou sob o travesseiro quando se deitava.
    Olhou bem para ela, a visão turva. As lágrimas partilhavam aquele momento. Das narinas escorria o catarro e a boca sentia uma mescla de sabores.
    Atirou a moeda para longe e enxugou a boca com o punho da camisa do irmão mais velho que usava quando estava suja. Só nessas ocasiões tinha um camisa: quando o irmão a atirava no cesto de roupa suja e usava a outra.
    Por que seu irmão tinha duas camisas e ele, nenhuma?
    Betinho odiava o irmão.
    Por que sua mãe nunca lhe comprou uma camisa e comprou duas para seu irmão?
    Betinho odiava sua mãe.
    E, ele agora pensava enquanto via a moeda rolar escada abaixo, sua mãe não lhe comprava uma camisa porque o dinheirinho que às vezes sobrava servia para comprar os remédios de sua irmã doentinha.
    Betinho odiava sua irmã doentinha.
    A única coisa que realmente amava era a lembrança do pai. O melhor a fazer era pegar a moedinha de volta. Descer aquela escada escura e fria apressadamente era o que devia fazer, caso quisesse reaver a moeda antes que algum delinquente o fizesse.
    Betinho desceu, os pés grudados nas costas, tamanha a pressa.
    Deteve-se no último degrau, junto ao chão.
    Um vulto esguio e negro como a noite que chegava segurava a moeda e abrindo-lhe um largo sorriso, perguntou:
    — Teu nome é Betinho?
    — Sim, senhor.
    — Queres comprar presentes de Natal com esta moeda?
    — Sim, mas não vale nada, senhor.
    — Vale bem mais que pensas.
    — O senhor acha?
    — Tenho certeza.
    — O que posso comprar com ela?
    — Muitas coisas. Mas antes, sentemos aqui, que te explico.
    O homem sentou primeiro naquele degrau.
    — Mas é tão gelado esse degrau! — Reclamava Betinho. — Prefiro ficar de pé, se o senhor não se importa.
    — Me importo, sim — o homem o encarou como se quisesse mata-lo, mas ao abrir um novo sorriso, continuou: — Por isso que já o esquentei para ti.
    Betinho sentou e mal pôde acreditar. O degrau estava quente.
    — O senhor é mágico? Está bem quentinho agora.
    — Não sou mágico. Sou um comerciante. E tenho uma proposta para ti. Quero te vender esta moeda.
    Betinho sorriu, inocentemente.
    — Mas esta moeda é minha!
    — Ora, mas é claro que não! Não a jogaste fora depois que descobriste que não queres mais lembrar do teu pai, que te amava tanto?
    — Como o senhor sabe disto?
    — Ora, mas não foi assim que pensaste quando jogaste esta moeda fora? Depois que descobristes que odeias o vigário, o teu irmão, a tua mãe e a tua irmãzinha doente?
    Betinho agora estava com muito medo. Com medo, mas com muita raiva e queria sua moeda de volta.
    — Dê-me a minha moeda, seu ladrão! — Gritou, avançando sobre aquele desconhecido.
    — Ela agora é minha porque a encontrei perdida nesta calçada — volvia ele, levantando-se e levando consigo o calor da calçada, transformando-a de volta naquela pedra de gelo. — Queres ela de volta?
    — Claro! — Betinho levantava-se e estirava a mesma mão que há pouco possuíra a moeda — Por favor!
    — Como disse antes, posso ti vendê-la.
    — Mas não tenho como pagar.
    — Claro que tens, olha só! Posso contar nos dedos! Conta comigo: O vigário, teu irmão, tua mãe, tua irmãzinha doente e teu falecido pai.
    Betinho sorriu. Agora havia descoberto: aquele homem era um louco qualquer, falava qualquer besteira que lhe passasse pela cabeça.
    — Por que ris? — Perguntou ele.
    — Porque o senhor é besta.
    — Sou mesmo?
    — Quer que eu pague com o vigário ou com meu irmão ou minha mãe ou minha irmã ou meu pai?
    — Sim, e por que não?
    — Está bem. Dê-me a moeda.
    — Não, não. Eu te vendo esta moeda. O que me ofereces em troca?
    — Deixe-me pensar... — Betinho nem precisou pensar muito. Era claro que já sabia. Era uma brincadeira, mas já sabia como brincar. —...O vigário.
    — Hum... — ele entregava a moeda a Betinho — Esta moeda deve valer muito para ti. Deste-me o mais valioso.
    — O canalha do vigário não vale nada — maldizia Betinho saindo correndo com sua moedinha de volta. Agora podia voltar para casa. Logo mais teria uma sopinha na ceia de Natal. Não era um peru, mas dava para encher a barriga.
    Enquanto cobria-se por uma densa nuvem de enxofre aquele homem dizia:
    — Verás o quanto ele vale.
    E lá ia Betinho feliz da vida para casa...
    A moedinha era sua novamente, agora era só entrar no beco e pronto já estava em casa.
    Mas, e aquele alvoroço?
    E aquela música? Não, não! Não era música, não! Era choro. Mas o que significava aquele aglomerado de beatas na frente da casa de Betinho? Que dor era aquela que todas sentiam em plena noite de Natal?
    Betinho pensou na mãe. O coração apertou quando entrou em casa e não a encontrou.
    — Cadê a mamãe? — Perguntou ao irmão, que ninava a irmã doentinha.
    — Foi na igreja cuidar das coisas do vigário.
    — Que tem o vigário?
    — Morreu, coitado. E parece que se enforcou, não sei porquê. Mas deixou uma carta que mamãe leu e correu para lá chorando como uma desesperada.
    — E o que dizia a carta?
    — Não sei. Mas tem teu nome, Betinho. Isso tem.
    Betinho correu para a porta, as beatas o olhavam com rancor, mas ele não entendia o porquê. Nunca havia dito nada que machucasse o vigário; o odiava, era verdade, mas somente seu coração sabia daquilo.
    Encontrou a mãe ao lado da cama onde o vigário jazia, coberto de flores brancas. Enquanto um terço pendia da mão que apontava para o alto em orações, uma folha de papel era esmagada pela outra, que se escondia às suas costas.
    Betinho olhou aquele papel que sua mãe segurava, mas antes que pudesse dizer qualquer coisa foi surpreendido por ela, que notou sua presença.
    — Betinho — ela virava-se e esbofeteava-o — viste o que fizeste?
    — Mas eu não fiz nada!
    — Toma! — Ela jogava-lhe o papel na cara. — Some daqui e lê. Depois verás o quanto fostes uma criança má.
    Betinho saiu resmungando “Eu? Eu não fiz nada! Não fiz nada, não! Ele morreu porque quis! ”
    Sentou-se num dos bancos e leu.
    Senhor Deus, me perdoa. Não fui um bom filho. Aprendi tantas coisas Contigo, todos os Salmos, toda a liturgia, os dogmas da Santa Igreja, mas não consegui ensinar o Amor a uma criança. Sim, ensinei o Amor a tantas outras que cresceram, tiveram filhos e eu ensinei o Amor a esses filhos e aos seus filhos e aos seus filhos e assim por diante, mas não consegui ensinar o Amor a Betinho.
    Sim, a Betinho. Esse menino falava demais nas minhas aulas e isso me irritava. E eu, pobre criatura miserável e pecadora, ao invés de entender o quanto sua alma é livre como o vento, reprimia-o, expulsava-o e ainda despedi sua mãe, tão boa para mim.
    Que adianta rezar o Amor se não consegui fazê-lo brotar no coração de Betinho?
    Que eu sucumba no mar de arrependimentos que invade minha alma.
    Perdoa-me, Betinho.
    Adeus! O malcriado não foste tu, fui eu.
     
    O coração de Betinho apertou. Deveria chorar?
    Deveria.
    Deveria correr até o quarto, jogar-se aos pés do defunto e pedir-lhe perdão?
    Deveria.
    — Mas ele não vai te ouvir.
    Betinho olhou para o lado e lá estava seu amigo coberto de enxofre.
    — Senhor, eu estava brincando. Por que o senhor matou o vigário?
    — Eu? Eu não matei ninguém. Tu o vendeste para mim.
    — Mas pensei que o senhor estivesse brincando.
    — Brincando? Numa noite como esta? Numa noite em que as casas estão celebrando a vida eu procuro celebrar a morte de alguma forma. 
    Betinho encheu os pulmões e gritou:
    — Chega! Esta brincadeira acabou agora!
    — Engano teu. Começou agora.
    A força com que Betinho sentiu a mão da mãe puxar-lhe os cabelos foi tanta que ele gritou, agora de dor.
    — Para de gritar dentro da igreja e vai para casa, pensar em tudo o que fizeste ao coitado do vigário todos esses anos, Betinho.
    — Mas, mãe. É culpa do diabo.
    — A culpa é tua, Betinho. Vai para casa, que não quero olhar para ti.
    Ele já descia as escadas, aos soluços.
    Sua mãe finalizou dizendo:
    — E pensar o quanto ele te amava...
    Quando chegou em casa o irmão chorava. A irmãzinha parecia uma boneca de pano em seus braços e estava branca como cera. O que havia acontecido agora?
    — Está morta, Betinho — dizia o irmão. — Agora que o vigário está morto, quem lhe dará a Extrema Unção?
    — Meu Deus! O que isto quer dizer?
    — Que as portas do céu não se abrirão para nossa irmãzinha e sua alma vagará pelo Vale do Sofrimento para sempre, Betinho.
    — Misericórdia!
    — Será que nem isto aprendestes na igreja?
    Betinho saiu porta a fora, mas antes pegou uma vela e foi até os fundos da casa, no quartinho dos livros que o pai lia para ele. Ali era um bom lugar para acender uma vela e pedir que todo aquele pesadelo acabasse. Sentia a presença do pai ali; quem sabe ele não pediria a Deus por Betinho...
    Acendeu a vela, ali mesmo sobre uma pilha de livros e rezou...qual oração se não aprendera nenhuma? E o que deveria pedir? Não sabia falar com Deus; nunca procurou aprender. Mas sabia que uma vela acesa já era meio-caminho andado.
    Agora deveria caminhar um pouco. Talvez se fosse até a padaria da esquina poderia conseguir um pouco de pão dormido para trazer para casa e comer com a família, mesmo em meio a tanto sofrimento...
    Saiu com aquela esperança no peito.
    Encontrou com a mãe no caminho, que perguntou para onde ele iria.
    — Para qualquer lugar onde não me culpem por algo que não fiz! — Ele estava com raiva.
    — E teu irmão está em casa? E tua irmãzinha?
    — Melhor a senhora mesma ir lá e vê.
     — Ó, meu Deus! — Ela adivinhava e saía correndo.
    Betinho caminhou um pouco mais e contou sua história ao velho corcunda da padaria, que compadecido, entregou-lhe uma sacola com alguns pães.
    Mas a fome era tanta que preferiu comer um pedaço do pão ali mesmo na praça. Depois comeu outro pedaço e outro e outro e outro...quando se deu conta havia comido tudo.
    E agora? Voltaria para casa e diria o quê?
    Que não havia ganhado pão algum.
    Pôs-se de pé e já ia voltar quando o clarão no céu o fez relembrar daquelas tardes quando o pai lhe levava até ali para ver o pôr-do-sol...
    Mas aquele clarão não era no céu, era logo mais abaixo.
    E havia fumaça também.
    — Corre lá, Betinho! — disse uma beata que passava. — Tua casa pegou fogo.
    Ele lembrava-se da vela sobre os livros.
    — Parece que tua mãe entrou por uma janela para salvar teu irmão, mas não deu tempo. Agora estás sozinho no mundo. Que tristeza.
    Totalmente em desespero Betinho presenciou os últimos momentos da grande fogueira que sua casa havia se transformado. Os vizinhos jogaram agua a noite toda e, de manhazinha tudo eram cinzas.
    Os três dias seguintes Betinho os passou sentado defronte às cinzas da casa, até que sentiu o cheiro de enxofre novamente.
    — O que o senhor quer agora, Satanás? Sei que o senhor é o diabo, agora. Não sei como consegui ser tão burro.
    — Não foste burro. Foste imprudente. Olhaste apenas para teu umbigo.
    — Mas agora está tudo perdido. O que mais o senhor quer?
    — Eu, que pergunto: queres mais alguma coisa?
    — Quero minha família de volta.
    — Sei. Mas não posso te dar.
    — Claro que pode! O senhor a tirou de mim!
    — Mas que calúnia! Nunca tirei tua família de ti. Eu a comprei, assim como comprei o vigário, de ti!
    — Pois eu exijo que o senhor me venda, de volta!
    — Tens como pagar?
    Betinho enfiou a mão no bolso da bermuda e entregou a moeda a ele.
    — Aqui está! Se com ela eu te vendi o vigário e minha família, com ela poderei compra-los de volta.
    — Certamente — ele pegava a moeda e a guardava no bolso. — Mas nesses três dias ela perdeu um pouco de valor, então ficarás me devendo um trocado.
    — Não devo nada ao senhor!
    Aquele homem acariciou a cabeça de Betinho e este se afastou rapidamente. A Nuca havia esquentado, parecia que ia ferver.
    — Pronto. Agora não me deves mais nada. Vai para tua igreja rezar. Quem sabe...
    O cheiro repugnante de enxofre fez com que Betinho se afastasse, correndo de volta para a igreja.
    Parou no primeiro degrau e pensou: tentarei subir rezando. Tentarei lembrar das aulas do vigário. Quem sabe, lembro ao menos do Pai Nosso.
    — Pai Nosso... — ele começava a subida —...que estais...no céu.... Santificado seja Teu Nome...
    Ele mal podia crer no que se passava. Conseguia lembrar. Não havia sido tão mal aluno. Sabia rezar, sim, senhor!
    No último degrau sentou-se e encostou na porta como há três dias o fizera. Respirou profundamente e fechou os olhos pensando em tudo. Na irmãzinha, no irmão, na mãe, no vigário...
    A porta abriu-se rapidamente e quase que ele tombou para trás, pondo-se de pé rapidamente.
    — Betinho, meu querido!
    — Vigário! — Betinho mal podia crer. — É o senhor mesmo?
    — E quem mais seria? Venha! Entre meu querido. Têm uns alunos que não sabem rezar como tu. Mas graças a Deus que tu me ajudas. És precioso!
    — Sou nada. Sou malcriado.
    — Tu? Malcriado? Tua mãe precisa saber disso.
    — Minha mãe? Ela está viva?
    — Mas que brincadeira é esta, Betinho? — o irmão chegava naquele momento. — Olha o que trouxe para ti.
    Betinho abria um pacote e sua emoção era grande. Lá estava a camisa que tanto sonhara ter.
    — Como é linda!
    — Não é lá das melhores — sua mãe chegava com sua irmãzinha nos braços. — Mas tua irmã está tão bem de saúde que não precisará mais de remédios e eu pude comprar uma camisa para ti para cearmos o Natal de logo mais à noite contigo, teu irmão e tua irmã bem vestidos.
    — E hoje teremos pão, sopa e peru — finalizou o vigário. — Nosso Natal será inesquecível.
    Betinho, emocionado, disse:
    — Com certeza. Jamais esquecerei de todos que amo tanto e deste Natal especial!
    Durante a noite a ceia foi perfeita. As músicas das beatas, as gargalhadas, os elogios da beleza de Betinho e do cuidado que ele tinha com a irmãzinha, o irmão e a mãe.
    Era uma noite inesquecível, não fosse um único detalhe. Detalhe esse que Betinho queria saber, mas não lembrava.
    De madrugada sua mãe veio apagar a vela que ainda iluminava seu quarto, mas ele não deixou.
    — Ainda não apaga, mãe. Queria perguntar uma coisa antes?
    Ela sentou-se ao seu lado na cama e perguntou:
    — Pergunta, filho. Se puder responder...
    — Bem eu queria saber uma coisa... — ele esforçava-se. — Queria perguntar sobre uma pessoa...só não sei quem é.
    — E como vou sabe, né? — ela sorriu, beijou-lhe a testa, apagou a vela e se foi.
    Minutos depois Betinho tornou a acender a vela e foi até o quartinho dos fundos. Talvez alguma coisa ali o fizesse lembrar.
    Ao abrir a porta...
    Não havia nada. Nenhum móvel ou objeto, nada.
    Como poderia lembrar?
    A nuca latejou e uma voz sussurrou rapidamente:
    “Agora não me deves mais nada”
    Balançou a cabeça e sorriu. Não havia nada para lembrar. Era melhor voltar para cama e aproveitar o restinho do Natal. Voltaria até no escuro. Gostava do escuro. Gostava de sentir medo, de vez em quando.
    Soprou a chama e se foi para a cama.
    Betinho guardaria aquela noite para sempre. Aquele havia sido um natal especial: a ceia com o vigário amigo, a sopa, o pão, o peru...A mamãe, o irmão, a irmãzinha, algumas beatas...
    Havia sido uma noite inesquecível; ele adormeceu pensando assim.
    Mas..e a moeda? Que moeda, afinal, se não havia lembrança alguma da moeda que o pai que tanto amara havia lhe dado em seu leito de morte.
    Pai? Que pai que havia retirado da memória no momento em que comprou o vigário e a família de volta?
    Pobre Betinho que vendeu a família e o vigário...
    Pobre Betinho sem moeda...
    Pobre Betinho sem seu pai...
    Fim
  • O pequeno Johnny

    Steve  morava em um bairro de classe média alta, adornado por diversas árvores e jardins, ruas tranquilas com asfalto de boa qualidade (raridade naquela cidade) e calçadas bem trabalhadas, sem buracos. Quase todas as ruas tinham um guardinha para fazer rondas noturnas. Mas a vida de Steve nem sempre foi assim. Essa casa foi comprada com o esforço de um carreira brilhante como empresário do ramo alimentício, o que lhe  possibilitou uma vida de muitos luxos.
    Quando seu filho, o pequeno Johnny, veio ao mundo foi o melhor dia de sua vida. O bebê nasceu saudável, com 3 quilos, mas não chorava muito, parecia ser uma criança quieta. Aquela cabeça delicada tinha alguns poucos fios loiros, assim como a mãe. Tinha olhos castanho claro como o pai e a linda cara de joelho, como todos os recém nascidos.
    Dois dias depois teve um de seus piores dias. Saiu do hospital para comprar doces para sua esposa. Sua doceria preferida era na região, andou cantarolando alguma coisa inteligível, mas que parecia clara em sua mente. Seu relógio marcava perto das 7 da manhã, quando foi abordado por dois sujeitos armados. Bateram-lhe incessantemente, ameaçaram sua vida e o fizeram se despir em um beco sujo. Fugiram com todo seu dinheiro e roupas. Deixaram-no sangrando em uma caçamba de lixo que escorria algum líquido negro pegajoso. Dias depois Steve viu um vídeo seu na internet andando desnorteado, pelado e sangrando por uma avenida movimentada suplicando por ajuda.
    Foi quando decidiu que não permitiria que aquilo a acontecesse novamente, não dependeria da boa vontade de estranhos. Mudou-se para um bairro nobre. Conseguiu uma casa um pouco afastada das demais, não muito, mas seu quarteirão tinha apenas dois vizinhos, e comprou dois revolveres, um 38 especial e uma Magnum 357, os mais potentes que tinham para oferecer. O vendedor disse que eram mais confiáveis que pistolas, que nunca travariam. Era perfeito. Um mantinha sempre em sua cintura, o outro em casa, era guardado em sua escrivaninha, sempre carregado com seis balas para qualquer emergência.
    Sua esposa não gostava de armas na casa, agora com o bebê gostava menos ainda. Brigavam constantemente sobre esse assunto, contudo, Steve manteve a arma na escrivaninha e a outra sempre consigo, sentia-se seguro assim. Poderia se proteger, proteger a casa e sua esposa.
    Daí surgiu um dos maiores hobbys de Steve. Praticava tiro pelo menos uma vez por semana, quando sentia-se muito estressado ia ao estande de tiros duas ou três vezes. Ultimamente começara a ir quatro. Descarregava sua energia negativa naquele pôster e sua pontaria melhorava consideravelmente. Ás vezes pensava em sua esposa parada ali no lugar daquele poster, não desejava mal a ela, mas certas vezes ele estava apenas puto com ela, com o bebê que não lhe deixava dormir, com algum cliente safado que não lhe pagava. Começou a usar aquele estande como terapia, assim todos a sua volta continuavam seguros. Steve não acreditava em psicólogos, era coisa de frouxo, mariquinhas. Homens de verdade conseguem lidar com seus problemas sozinhos e escondidos do mundo. Afinal, ele tem uma família que depende dele, não pode dar sinais de fraqueza.
    Era a noite de aniversário dos 15 anos de casamento. Steve sairia com sua esposa para um jantar romântico e depois iriam ao bar que se conheceram para beber até as 3 da manhã. Sua vizinha, Judy, cuidaria de seu filho, como sempre fazia. Era uma garota adorável, de 16 anos, com longos cabelos negros, estudiosa que aproveitava o bico de babá para comprar livros e juntava dinheiro para poder conhecer a Europa. Steve adorava isso e geralmente lhe entregava algum livro velho, além do pagamento.
    Os dois se despediram da menina e do filho. Eram 19h e Johnny, agora com 4 anos, poderia ficar acordado até às 21h. Judy brincaria bastante com ele neste meio tempo. A criança adorava a babá, ela cuidava dele desde que nasceu, os pais consideravam ela a melhor amiga dele. Sabiam que seu filho estava em boas mãos. Assim, o casal seguiu para sua noite romântica.
    Judy sabia que caso o pequeno se cansasse antes do horário de dormir, teria mais tempo para falar com seu namorado pelo telefone e assistir televisão. Então brincou bastante com ele, seu brinquedo favorito era um do homem aranha, então juntos desbravaram a casa enfrentando as forças do mal, até acabarem na cozinha. Não levou nem uma hora para que a criança começasse a bocejar e mostrar sinais de irritação. Foi quando Judy lhe enrolou em seu cobertor favorito, leu a história dos três porquinhos e o viu dormir como um anjinho.
    A babá desceu para a sala, ligou a tv para assistir um seriado qualquer e mandou mensagem para seu namorado. Ele disse estar ocupado e que falaria com ela em breve. Ela desconfiava que ele a traia porque não se sentia pronta para perder a virgindade com ele, mas não tinha certeza. Gostava muito dele (o que os olhos não veem o coração não sente, certo?), achava que aquele rapaz de 18 anos estaria bom para namorar por enquanto. Ele a levava em alguns lugares bacanas e já dirigia, era bom não depender da carona dos pais. Então disse que tudo bem, iria apenas assistir tv até pegar no sono, afinal, a criança dormira e não havia muita coisa para fazer naquela casa.
    Judy pegou algumas frutas na geladeira e se aconchegou no sofá. Dava risada olhando a tv, algumas piadas inteligentes, mas aos poucos o sono chegava. Tudo parecia tão distante... seu namorado... a televisão... o senhor Steve... ela começou a ressoar baixinho, era um sono gostoso. Sonhava com Paris, como queria morar lá, talvez se apaixonar por um lindo francês e ouvir todas as manhãs aquele idioma maravilhoso em seu ouvido.
    Enquanto isso, o pequeno Johnny acordou. Mas não chorava ao acordar, continuava uma criança quieta. Em vez disso, sempre procurava a mamãe. Desceu de sua cama em silêncio. O quarto não era muito escuro, pois uma luz sempre ficava acesa, ligada em uma tomada no meio do cômodo. Era normal o pequenino acordar na noite. Andou até o quarto vizinho, que era o de seus pais.
    -Mama?
    Não teve resposta. Andando no escuro conseguiu subir na pequena escrivaninha para acender a luz. Quase caiu, mas se equilibrou e viu a gaveta entreaberta. Seu pai sempre esquecia de trancá-la, mas esquecer de fechá-la era algo mais raro. Deve ter saído com pressa, discutia com a esposa novamente, pois ela viu o coldre por baixo do terno o que lhe incomodava profundamente.
    Na gaveta daquela escrivaninha, tinha um brilho intenso refletindo a luz do teto e o pequeno Johnny adorava coisas brilhantes. Com um pouco de força a gaveta escorregou um pouco revelando aquele belo Magnum 357 cromado. Era pesado, mas Johnny conseguiu tirar da gaveta e derrubar em uma almofada no chão (sempre que seus pais saiam brigados deixavam o quarto bagunçado). Fez um barulhinho de “puf” que divertiu a criança e lhe tirou risinhos infantis.
    Ele desceu da escrivaninha, com um cuidado que não se espera de um infante dessa idade. Segurou aquele cabo negro e arrastou o revolver, que fazia um pequeno ruído com o atrito entre o cano e o piso de madeira. Esse ruído divertida Johnny que seguiu andando com um sorriso e pequenas risadinhas.
    - Mama?
    Seguiu andando vagarosamente pelo segundo andar de sua casa, arrastando a arma, até que chegou às escadas. Ali sentou e colocou a ponta da arma na boca por alguns instantes, até reparar no brilho que vinha da sala.
    Desceu as escadas arrastando seu novo brinquedo e viu a bela Judy deitada, ressoando tranquilamente. Parecia uma pintura da tranquilidade, enquanto a televisão passava um comercial sobre segurança doméstica.
    - Tá mimindo...
    O pequeno Johnny esboçou uma feição de decepção. Então largou o revolver no chão, entre o sofá e a mesa de centro, e foi para cozinha onde deixara seu boneco do homem aranha antes de dormir. Brincou ali por uns 10 minutos.
    - Iudy...
    Queria brincar com sua amiga. Voltou para sala engatinhando, com seu boneco nas costas. Gostava de brincar assim, lembrava das vezes em que seu pai o carregava nas costas e corria pelo jardim, esses dias eram cada vez mais raros. Mesmo assim, foi sorrindo até o sofá
    - Acódá Iudyy. – disse com cuidado
    Não teve respostas. Então sentou com seu boneco e com a arma de seu pai. Era bem difícil para ele levantar aquele pedaço de metal, então apenas inclinava o cano e atacava o super herói. O barulho do impacto começou a incomodar Judy que abriu os olhos vagarosamente.
    - Johnny, é você? Que horas são? JOHNNY O QUE É ISSO?
    Judy ficou aterrorizada ao ver aquela criança brincando com uma arma no chão, apontando em sua direção. Ainda deitada no sofá olhou para a criança e ficou petrificada.
    - Bincá cumigo Iudy! – disse Johnny levantando a arma pelo gatilho.
    O tiro ensurdecedor fez o pequenino chorar. De Judy apenas silêncio. A bala atravessou a cavidade de seu olho esquerdo, levando grande parte da traseira de seu crânio e seus miolos, para fora de sua cabeça em direção ao encosto do sofá branco.
    Alguns vizinho saíram para suas janelas, apenas para ver três motos descendo a avenida. Imaginaram que aquele barulho fora apenas um desses babacas estourando o escapamento para impressionar o outro.
    -Binca comigo? Binca? – diz o pequenino - Ta nanando. Nun qué acodá.  Acho que fez dodói. Vô ajuiá.
    Ele pega a arma pelo cano quente e queima a mão. Começa a chorar de novo.
    - Mau! Muito mau! Nun queió mais bincáááááá!
    Correu para a cozinha chorando e ali tentou subir na banqueta. Em cima do balcão estava seu suco, sempre deixavam algumas caixinhas ali e sabiam que o pequenino conseguia pegar. Ele conseguiu subir na banqueta e pegou sua caixinha. Já sabia furar com o canudinho, mas quase caiu lá de cima. Conseguiu se equilibrar e desceu com cuidado.
    Voltou para a sala com o suco na mão
    - Éga, Iudy. Vai aiudá! Éga, éga, é seu.
    Colocou o canudinho na boca de Judy, com gotas de sangue escorrendo e pingando em seu braço rechonchudo. Ela não queria suco de uva. Então a criança colocou, cuidadosamente, a caixinha no chão.
    - FEIAAA!!!!
    E saiu para brincar com seu homem aranha.
    - Pepeta! Adê a pepeta?
    O pequeno Johnny não encontrou a chupeta. Procurou pela sala e não achou. Foi então que viu a arma no chão. Se aproximou, tinha medo por conta de quando se queimou. Mesmo assim encostou a mão sem cuidado algum. O cano estava morno, agradável ao toque. Colocou a boca e mamou, a sensação era boa, mas a posição era incomoda. Tentou colocar a arma de pé, seus olhos fechados aproveitando os prazeres orais que Freud descrevia. Tentou apoiar a mão melhor para segurar aquele pedaço de ferro de pé. Achou. Era um pequeno pedaço de metal curvo. Relaxou o corpo um pouco, o sono apertou. Inclinou-se um pouco para frente e não ouviu aquele segundo tiro.
  • O Seu Sangue é Meu Veneno

    Saber que te odeio e não consigo parar é um erro;
    Saber que me odeio e não consigo parar é um fato;
    Sei que você é tudo o que quero ser, e isso é errado de um jeito tão ilusório;
    Ser quem eu sou me condena, querer ser o que você é me mata;
    De um modo tão perfeito você vive, de um jeito tão doente eu morro;
    Imaginar ser como você me vicia;
    O jeito como você é perfeita me envenena direto nas veias;
    Espero que eu morra de um jeito tão perfeito cmo você morreu.
  • O Sombra

           Capítulo 1: Noite chuvosa
         Tudo começa com Mike no dia 27/10 de 1987, eram oito horas da noite e chovia demais. Mike estava  sem muito o que fazer, resolveu ir na biblioteca antes que fechasse as nove horas. Quando estava saindo com sua capa de chuva amarela, sua mãe gritou:
        - Filho pegue a bombinha para usar caso tenha suas crise de asma e por favor não demore, já são oito e vinte.
        - Você não acha que sou um pouco louco para sair a essa hora só para pegar um livro? - pergunta Mike dando uma risadinha.
        - Só um pouquinho filho, você não acha melhor fica em casa? Pois ta chovendo demais e é de noite, a biblioteca abre amanhã, aí você pode ir bem cedo. - fala sua mãe com uma preocupação.
         - Mãe eu não demoro dez minutos para chegar na biblioteca, daqui a meia hora estou em casa com um livro bem legal. - fala Mike sorrindo para ela.
         Então sua mãe deixou ele ir mas antes de ir Mike pegou sua bombinha que estava em cima do bidé de seu quarto. Quando Mike saiu pela porta, ele sentiu o frio e o vento forte batendo em seu rosto, não havia ninguém na rua. No caminho para biblioteca Mike notou que a chuva estava mais forte e  que começaram os trovões e relâmpagos. Quando estava passando pelo último poste de luz antes de chegar na biblioteca viu que ele havia piscado três vezes direto, parecia um aviso dizendo perigo. Mike ignorou o poste e andou mais rápido em direção da biblioteca, quando estava entrando na biblioteca viu na janela uma pessoa passar. Isso deu uma certo susto em Mike pois ele achava que era o único que ía na biblioteca a essa hora.
         Quando entrou na biblioteca a senhora Amber falou: 
        -Mike já são oito e meia, por favor seja rápido e escolha seu livro. E por favor deixe sua capa de chuva ali na estante para não sair molhando tudo
         Mike deixou sua capa de chuva na estante e perguntou para senhora Amber:
        -  Foi a senhora que eu recém vi na janela agora a pouco? - pergunta Mike um pouco assustado.
        - Não, faz mais de quatro horas que não saio dessa cadeira e a última pessoa esteve aqui a três horas atrás, acho que está lendo demais senhor Foster - diz a senhora Amber ajustando seu óculos que estava torto.
        - Talvez seja isso mesmo mas agora vou ver o livro antes que a senhora feche a biblioteca - diz Mike indo para o corredor cinco.
        Enquanto Mike anda pelo corredor cinco, ele nota um livro com uma capa super legal, em sua capa diz: O mundo escondido. Quando Mike vai pegar o livro ele sente que algo cruza atrás dele, então ele se vira rapidamente mas não tinha nada, com o susto ele teve uma crise de asma, rapidamente ele pega a sua bombinha no bolso de sua calça, inclina sua cabeça para cima e da uma respirada enquanto pressiona a bombinha. Mike estava com muito medo, ele resolveu ir para casa e deixar para pegar um livro outro dia, mas quando ta saindo do corredor cinco, ele escuta um livro cair no final do corredor seis que fica ao lado direito do cinco. Mike sai do cinco e vai para o seis, quando pegou o livro na mão deu um trovão tão forte que fez Mike ficar mais assustado, mas ele não teve uma crise de asma.
         Depois de pegar aquele livro ele chega na bibliotecária e fala:
        - Vou levar esse, seu nome é Eli.
        - Tudo bem, qual é o nome do autor - pergunta a senhora Amber olhando para o livro para ver se achava o nome do autor.
         Mike olha o livro por fora e vê suas primeiras e últimas páginas para dizer o nome do autor, mas simplesmente não tinha. Então ele disse:
        - Não tem, coloque autor desconhecido.
         Assim escreveu a senhor Amber no caderno onde ela anotava o nome do livro, seu autor, a pessoa que levava e a data que levava, normalmente as pessoas tem quinze dias para ler o livro mas caso não terminem é só ir na biblioteca e dizer que não terminaram e que precisam de mais quinze dias. Então senhora Amber da mais quinze dias para ler, caso a pessoa não termine nesses outros quinze dias é só ela voltar e fazer a mesma coisa.
         Depois que a senhora Amber anotou em seus caderno, Mike desejou uma boa noite para ela e foi para casa. No caminho para casa aconteceu o mesmo que havia acontecido com o poste de luz mas só que ele se apagou e não acendeu depois da terceira piscada, Mike começa a correr e é perseguido por uma coisa preta que parecia uma sombra, quando Mike corria e passava pelo postes, eles iam se desligando depois de três piscadas rápidas. Quando passou pelo último poste antes de chegar na sua casa a coisa preta sumiu e os postes apagados acenderam. 
         Quando Mike notou que tinha voltado ao normal, ele já estava em frente a porta de sua casa, com mais uma horrível crise de asma que fez ele tirar a bombinha de seu bolso e respirar pressionando a bombinha com a cabeça inclinada. Depois disso entrou na sua casa. Quando estava entrando seu irmão George de sete anos e meio falou para ele:
        -Oi mano, recém cheguei com o papai do mercado. Eu pedi pra ele comprar moranguinhos que a gente  gosta e ele comprou.
         Então George tirou do seu bolso um morango e deu a Mike.
        - Obrigado George, muito obrigado - agradeceu Mike enquanto passava sua mão entre os cabelo de George.
         Mike comeu o morango e foi para cozinha com George para eles jantarem, quando sentaram na mesa seu pai falou:
        - Vamos orar para agradecer?
         Todo mundo responde que sim, então papai orava em voz alta enquanto Mike, mamãe e George oravam em voz baixa. George sempre repete o que Mike fala, pois ele não sabe orar muito bem. Depois da oração comeram a deliciosa massa com guisado que  mamãe havia feito.
        Logo em seguida, depois do almoço Mike e George foram escovar os dentes e depois foram para o quarto que os dois dividem. Como Mike é o irmão mais velho com doze anos, ele sente que tem a responsabilidade de ler para George. E George adora quando Mike lê, essa noite Mike leu uma parte do livro de fantasia que seu pai tinha comprado para ele ler para George. A história do livro era sobre um dragão que protegia um reino, mas o rei achou que ele era do mal e expulsou ele. George acabou dormindo bem na parte em que o dragão é expulso e vai parar em uma terra distante voando.
         Mike guardou o livro na estante de livro de seu quarto, deu um beijo na bochecha de George falando boa noite em voz baixa e foi dormir, resolveu deixar ler o livro Eli amanhã pois já eram dez horas e vinte da noite e ele teria escola pela manhã.
  • O Sombra: Capítulo 1

    Capítulo 1: Noite chuvosa
         Tudo começa com Mike no dia 27/10 de 1987, eram oito horas da noite e chovia demais. Mike estava  sem muito o que fazer, resolveu ir na biblioteca antes que fechasse as nove horas. Quando estava saindo com sua capa de chuva amarela, sua mãe gritou:
        - Filho pegue a bombinha para usar caso tenha suas crise de asma e por favor não demore, já são oito e vinte.
        - Você não acha que sou um pouco louco para sair a essa hora só para pegar um livro? - pergunta Mike dando uma risadinha.
        - Só um pouquinho filho, você não acha melhor fica em casa? Pois ta chovendo demais e é de noite, a biblioteca abre amanhã, aí você pode ir bem cedo. - fala sua mãe com uma preocupação.
         - Mãe eu não demoro dez minutos para chegar na biblioteca, daqui a meia hora estou em casa com um livro bem legal. - fala Mike sorrindo para ela.
         Então sua mãe deixou ele ir mas antes de ir Mike pegou sua bombinha que estava em cima do bidé de seu quarto. Quando Mike saiu pela porta, ele sentiu o frio e o vento forte batendo em seu rosto, não havia ninguém na rua. No caminho para biblioteca Mike notou que a chuva estava mais forte e  que começaram os trovões e relâmpagos. Quando estava passando pelo último poste de luz antes de chegar na biblioteca viu que ele havia piscado três vezes direto, parecia um aviso dizendo perigo. Mike ignorou o poste e andou mais rápido em direção da biblioteca, quando estava entrando na biblioteca viu na janela uma pessoa passar. Isso deu uma certo susto em Mike pois ele achava que era o único que ía na biblioteca a essa hora.
         Quando entrou na biblioteca a senhora Amber falou: 
        -Mike já são oito e meia, por favor escolha seu livro rápido. E por favor deixe sua capa de chuva ali na estante para não sair molhando tudo
         Mike deixou sua capa de chuva na estante e perguntou para senhora Amber:
        -  Foi a senhora que eu recém vi na janela agora a pouco? - pergunta Mike um pouco assustado.
        - Não, faz mais de quatro horas que não saio dessa cadeira e a última pessoa esteve aqui a três horas atrás, acho que está lendo demais senhor Foster - diz a senhora Amber ajustando seu óculos que estava torto.
        - Talvez seja isso mesmo mas agora vou ver o livro antes que a senhora feche a biblioteca - diz Mike indo para o corredor cinco.
        Enquanto Mike anda pelo corredor cinco, ele nota um livro com uma capa super legal, em sua capa diz: O mundo escondido. Quando Mike vai pegar o livro ele sente que algo cruza atrás dele, então ele se vira rapidamente mas não tinha nada, com o susto ele teve uma crise de asma, rapidamente ele pega a sua bombinha no bolso de sua calça, inclina sua cabeça para cima e da uma respirada enquanto pressiona a bombinha. Mike estava com muito medo, ele resolveu ir para casa e deixar para pegar um livro outro dia, mas quando estava saindo do corredor cinco, ele escuta um livro cair no final do corredor seis que fica ao lado direito do cinco. Mike sai do cinco e vai para o seis, quando pegou o livro na mão deu um trovão tão forte que fez Mike ficar mais assustado, mas ele não teve uma crise de asma.
         Depois de pegar aquele livro ele chega na bibliotecária e fala:
        - Vou levar esse, seu nome é Eli.
        - Tudo bem, qual é o nome do autor - pergunta a senhora Amber olhando para o livro para ver se achava o nome.
         Mike olha o livro por fora e vê suas primeiras e últimas páginas para dizer o nome do autor, mas simplesmente não tinha. Então ele disse:
        - Não tem, coloque autor desconhecido.
         Assim escreveu a senhora Amber no caderno onde ela anotava o nome do livro, seu autor, a pessoa que levava e a data que levava, normalmente as pessoas tem quinze dias para ler o livro mas caso não terminem é só ir na biblioteca e dizer que não terminaram e que precisam de mais quinze dias. Então senhora Amber da mais quinze dias para ler, caso a pessoa não termine nesses outros quinze dias é só ela voltar e fazer a mesma coisa.
         Depois que a senhora Amber anotou em seu caderno, Mike desejou uma boa noite para ela, colocou sua capa de chuva e foi para casa. No caminho para casa aconteceu o mesmo que havia acontecido com o poste de luz mas só que ele se apagou e não acendeu depois da terceira piscada, Mike começa a correr e é perseguido por uma coisa preta que parecia uma sombra, quando Mike corria e passava pelos postes eles iam se desligando depois de três piscadas rápidas. Quando passou pelo último poste antes de chegar na sua casa a coisa preta sumiu e os postes apagados acenderam. 
         Quando Mike notou que tinha voltado ao normal, ele já estava em frente a porta de sua casa, com mais uma horrível crise de asma que fez ele tirar a bombinha de seu bolso e respirar pressionando a bombinha com a cabeça inclinada. Depois disso entrou na sua casa. Quando estava entrando seu irmão George de sete anos e meio falou para ele:
        -Oi mano, recém cheguei com o papai do mercado. Eu pedi pra ele comprar moranguinhos que a gente  gosta e ele comprou.
         Então George tirou do seu bolso um morango e deu a Mike.
        - Obrigado George, muito obrigado - agradeceu Mike enquanto passava sua mão entre os cabelo de George.
         Mike comeu o morango e foi para cozinha com George para eles jantarem, quando sentaram na mesa seu pai falou:
        - Vamos orar para agradecer?
         Todo mundo responde que sim, então papai orava em voz alta enquanto Mike, mamãe e George oravam em voz baixa. George sempre repete o que Mike fala, pois ele não sabe orar muito bem. Depois da oração comeram a deliciosa massa com guisado que  mamãe havia feito.
        Logo em seguida, depois do almoço Mike e George foram escovar os dentes e depois foram para o quarto que os dois dividem. Como Mike é o irmão mais velho com doze anos, ele sente que tem a responsabilidade de ler para George. E George adora quando Mike lê, essa noite Mike leu uma parte do livro de fantasia que seu pai tinha comprado para ele ler para George. A história do livro era sobre um dragão que protegia um reino, mas o rei achou que ele era do mal e expulsou ele. George acabou dormindo bem na parte em que o dragão é expulso e vai parar em uma terra distante voando.
         Mike guardou o livro na estante de livro de seu quarto, deu um beijo na bochecha de George falando boa noite em voz baixa e foi dormir, resolveu deixar ler o livro Eli amanhã pois já eram dez horas e vinte da noite e ele teria escola pela manhã.
  • O Sombra: Capítulo 2

    Capítulo 2: Eli e sua mensagem
         Enquanto Mike dormia, sonhou que George estava morto em pedaços no chão, seu coração estava fora do peito, seu cabelo loiro cheio de sangue. Mike acordou gritando:
        - George não!
         Mike olhou para lado direito onde fica a cama de George e viu ele se acordando com o grito. George perguntou:
        - Mano, ta tudo bem? Eu fiz algo errado?
         Mike vai para cama de George e abraça ele chorando, dizendo:
        - Não fez nada de errado George, eu só tive um sonho horrível.
         - Como foi o sonho mano? - perguntou George secando as lágrimas de seu irmão.
        -Foi horrível, você estava morto e era muito horrível mesmo George. - responde Mike abraçando George tão forte como se não quisesse o largar mais.
        - Mas agora ta tudo bem, aquele sonho acabou. Você sabe que horas são? - pergunta George querendo saber se já estava na hora de ir para escola.
         Então Mike pega seu relógio de pulso que estava no bidé, olha as horas e diz:
        - São sete e dez, acho melhor a gente se levantar e comer uma torrada. E depois escovar os dentes.
         Então os dois se levantaram, foram para a cozinha, Mike fez duas torradas, uma para ele e a outra para seu irmão. George pergunta:
        - Tem suco mano?
        - Acho que tem um pouco do de laranja que sobrou ontem - responde Mike enquanto vai em direção a geladeira para olhar se tinha suco.
         Então Mike acha o suco mas só tinha para um. Então Mike deu para George o suco juntamente com a torrada. George olhou para Mike que estava sem suco e só com uma torrada, então falou:
        - Eu divido meu suco contigo.
        - Não precisa, eu tomo água - fala Mike bagunçando o cabelo loirinho de seu irmão.
         Depois do café da manhã foram escovar os dentes. Mike e George gostam de escovar os dentes um do outro. Então depois eles pegaram suas mochilas e foram para escola. Na escola Mike encontrou Jack seu amigo que usa uma toca escura e tem uma franja super legal.
        - Vou com meus amigos Mike, se não se importa.
        - Pode ir George mas antes quero um abraço.
         Então os dois irmão se abraçaram, Mike deu um beijinho na bochecha de seu irmão e lhe desejou uma boa aula. Enquanto George foi com seus amigos, Mike foi para o pátio da escola junto com o Jack para eles sentarem num banco e conversarem. Quando se sentaram, Mike tirou o livro Eli de sua mochila e falou para Jack:
        - Eu tive uma noite muito bizarra ontem, eu vi vultos, postes se apagaram e fui até perseguido por uma coisa escura que parecia uma sombra.
        - Mas o que esse livro tem haver? - pergunta Jack tentando acreditar em Mike.
        - Eu estava na biblioteca e tinha deixado para pegar um livro em outro dia, ou seja, nesse dia mas quando estava lá ontem ouvi o barulho desse livro caindo no corredor 6. Peguei ele na mão e bem na hora relampeou. Então cheguei na senhora Amber e ela anotou os dados no caderno e depois que tava vindo para casa fui perseguido por essa "sombra". Com certeza você não está acreditando em mim
         - Meu Deus Mike, isso é muita loucura, mas eu acredito em você. Você é meu melhor amigo Mike Foster, se me dissesse que laçou fogo pelas mãos, eu acreditaria. - fala Jack indo mais perto de onde Mike estava assentado no banco.
        - Obrigado Jack, também considero você como meu melhor amigo. - fala Mike assegurando a mão de Jack - Eu tive um sonho horrível onde George estava morto no chão, com seu coração fora do peito e seus cabelos coberto de sangue.
        Mas ta tudo bem agora Mike, isso já passou - fala Jack assegurando firme a mão de Mike.
         Quando foram realmente olhar o livro, acabou batendo o sinal para eles irem para sala de aula. Entraram na sala e se sentaram nas classe da frente. A aula favorita de Mike era a de história pois ele sempre descobria coisas incríveis que aconteceram a tempos atrás. Já a aula favorita de Jack é matemática, sua inteligência é impressionante.
         Depois dos dois primeiros períodos de aula que foi ciência e geografia  Mike e Jack foram para o recreio. No recreio Mike observava seu irmão brincando com seus amigos enquanto fala com o Jack.
         - Ei Mike pegue o livro para nós olharmos - fala Jack com muito curiosidade.
         Então Mike foi correndo e pegou o livro que estava em sua mochila, quando estava saindo da sala a porta se fechou sozinha. Mike tentou abrir mas não conseguia, ele começou a bater nela mas mesmo assim ela não se abria e ninguém escutava pois era muito alto o  barulho das crianças gritando enquanto brincavam no pátio da escola. Naquele momento Mike teve um ataque de asma, rapidamente ele pegou sua bombinha e fez os três passos que ele sempre fazia, que são:
       1: Inclina a cabeça para trás.
       2: Respira
       3: Pressiona o botão da bombinha.
         Isso sempre parava as suas crises. Mike não tinha muito o que fazer, então resolveu sentar em sua cadeira e ler o livro de Eli até bater para voltarem para a sala e alguém abrir a porta. No momento que sentou para ler, Jack apareceu e falou:
        - Por que a demora? O que está fazendo? Ía ler sozinho?
        - Iria pois a porta estava trancada e eu teria que esperar alguém destrancar, para não ficar com tédio eu iria ler.
        - Mas a porta estava normal. Ela não estava trancada. - fala Jack olhando seriamente para a cara de Mike.
         Mike levanta da cadeira e abraça Jack tão forte e depois diz:
        - Eu estou com medo, esta acontecendo essa coisas estranhas comigo. Por favor fica do meu lado e me ajuda.
        - O Mike, lembre que sempre te ajudarei, sempre estarei do seu lado, sempre poderá contar comigo, isso é uma promessa. - fala Jack prometendo não abandonar Mike.
         Depois do abraço eles foram ler o livro mas infelizmente acabou o recreio e eles não puderam ler, mas eles ficaram de ler na casa do Mike pela tarde. Depois de mais dois períodos de aula, um de português e o outro de matemática, os dois foram para casa juntamente com George. A casa de Jack fica do lado da de Mike, uma casa azul marinho de dois andares. Quando estavam na frente de suas casas, eles se despediram e combinaram de se encontrar as três horas da tarde para ler o livro.
         Mike entrou com George para sua casa e foram direto almoçar um estrogonofe muito gostoso que a mãe deles havia preparado, mas antes de comerem seus pai falou:
        - Vamos orar, hoje você pode orar Mike?
        - Sim, posso. - responde Mike nervoso porque fazia tempo que não orava pelo alimento em voz alta.
         Então todos fecharam seus olhos e Mike começou a orar:
        - Muito obrigado senhor pelo alimento que você não deixa faltar. Abençoe toda nossa família e perdoe qualquer pecado que temos cometido. Seja feita sua vontade, amém.
         Papai gostou muito que Mike orou e achou muito bonito. Então eles comeram, depois disso papai foi trabalhar as duas horas da tarde em sua oficina e mamãe foi trabalhar vendendo imóveis que é seu emprego. Acabou ficando só George e Mike em casa. Então eles foram construir uma pipa de papel. A pipa ficou tão bonita, ela era colorida e era cheia de detalhes. Eles ficaram brincando com aquela pipa até Jack chegar para ler o livro Eli.
         Quando Jack chegou, Mike subiu para seu quarto com ele, enquanto George ficou brincando com a pipa. Quando subiram foram direto para o livro e começaram a ler juntos. Na primeira página estava escrito:
        - Por favor se você esta lendo esse livro saiba que meu nome é Eli de... Meu sobrenome não importa, quero que saiba que eu estou morto por causa de um entidade que é tipo uma sombra, acabei colocando o nome Sombra nele. Se você viu essa criatura saiba que você pode morrer, mas da para ter um final diferente do meu, basta você enfrentá - lo sem ter medo, ele pode tomar a forma do que você mais tem medo mas você precisa superar o medo se quer derrotar ele. Eu acredito que estou morto enquanto você lê esse livro, pois sei que não conseguiria vencer meu maior medo. Nos primeiros dias ele vai brincar com você, vai te causar medo pois ele gosta de fazer isso, ele se alimenta do medo. Não esqueça que a chave para derrotar ele é não ter medo, se você tem um medo, saiba que você precisa superar. Nas próximas páginas verá relatos do que aconteceu com as pessoas que interagiram com o Sombra.
         Depois que Jack e Mike leram só isso já ficaram horrorizados. Ficaram fazendo perguntas pra si mesmo. De que maneira surgiu o Sombra? Por que ele faz isso com pessoas? Ele é um demônio? Nós vamos morrer?
         Essas perguntas ficaram repetindo na cabeça dos garotos até que Mike falou:
        - Jack você não esta envolvido nisso, isso é perigoso, é melhor ir embora e eu darei meu jeito.
        - Não vou ir embora de maneira nenhuma - reponde Jack cumprindo sua promessa. 
        - Posso falar o meu maior medo? - pergunta Mike enquanto começa a escorrer lágrimas de seu rosto.
        - Pode - responde Jack assegurando mão de Mike.
        - Meu maior medo é perder o George e você. Se você morrer ficaria um vazio de mim, eu não seria mais eu. 
        - Mike eu...
         Jack é interrompido por George batendo na porta e perguntando:
        - Posso entrar mano?
        Mike responde sim e seu irmão entra, ele acaba notando que Mike estava chorando e fala:
        - O que aconteceu mano, esta tudo bem? Eu não gosto de ti ver assim.
        - George vem aqui, senta na minha cama. - fala Mike sorrindo por ver o carinho de seu irmão.
         Quando George sentou Mike lhe deu um abraço bem forte dizendo que isso tudo iria passar. Quando Mike olhou pra Jack falou:
        - O que você ia dizer?
        - Nada - responde Jack escondendo algo.
        - Tem certeza? Parecia algo sério. - diz Mike insistindo pra ele dizer.
        - Ok, eu digo. Estou com fome mas tava com vergonha de falar - diz Jack novamente escondendo a verdade.
        - Não precisa ter vergonha, que tal a gente tomar um suco juntamente com o bolo de chocolate que mamãe fez? Você quer também George?
        - Sim - reponde George e Jack.
         Então os garotos vão se alimentar. Mike serviu seu irmão e Jack também. Quando já havia servido os dois, Mike se serviu e acabou derrubando o copo de vidro que caiu no chão quebrando em vários pedacinhos. Jack olha assustado e pergunta:
        - Você esta bem? 
        Mas Mike não respondeu pois estava tendo uma visão. Nessa visão ele viu um acidente de carro. Quem sofreu o acidente foi o senhor Russel e a senhora Russel que são os pais do Jack. Quando a visão acabou Mike olhou pra Jack e disse:
        - Jack eu vi seus pais sofrerem um acidente de carro.
        - Eu estava lá? Você estava? - pergunta Jack se lembrando de um acidente de dois anos atrás.
        - Sim você estava e eu também, só que a gente era...
        - Criança - completa Jack - isso já aconteceu, se lembra que você perdeu a memória?
        - Sim, me lembro. Vocês tinham falado que foi num acidente de carro mas eu não conseguia me lembrar. - respondeu Mike impressionado que uma parte que faltava da sua memória havia voltado.
        - Lembra que você foi na roda gigante?
        - Não, eu nunca fui numa roda gigante mas lembro que a gente foi no parque. - fala Mike tentando lembrar de alguma roda gigante.
        - Há, tá! - reponde Jack com uma expressão meio triste.
        - Mas já que você lembra que eu fui numa roda gigante me conta como foi. - fala Mike querendo lembrar.
        - Foi incrível, a gente foi junto e dava pra ver a cidade de Healdsburg inteira dali de cima - fala Jack escondendo uma coisa que havia acontecido na roda gigante.
        - Que legal. - fala Mike tentando imaginar como seria ver a cidade de Healdsburg em um roda gigante. - mas acho melhor eu limpar essa bagunça de suco.
         Então Mike limpou e pegou outro copo e tomou o suco e comeu o bolo de chocolate. Depois dos garotos terem comido foram jogar basquete no quintal. Sempre que eles faziam sexta eles gritavam: - Ponto pra mim!
         Os garotos foram parar de jogar basquete a seis horas da tarde, foi quando os pais de Jack chegaram em casa e chamaram ele para ajudar a carregar as compras. Mike e o pequeno George foram juntos para ajudar a carregar as sacolas. Depois disso Mike chegou em Jack e falou:
        - Quer possar lá em casa? Só vai ter que orar junto com minha família para agradecer pelo alimento.
        - Quero, não tem problema. O bom que amanhã não teremos aula pois é sábado - fala Jack feliz pois havia tempo que não pousava na casa de seu amigo. - só teremos que pedir para nossos pais.
  • O Sombra: Capítulo 2

    Capítulo 2: Eli e sua mensagem
         Enquanto Mike dormia, sonhou que George estava morto em pedaços no chão, seu coração estava fora do peito, seu cabelo loiro cheio de sangue. Mike acordou gritando:
        - George não!
         Mike olhou para lado direito onde fica a cama de George e viu ele se acordando com o grito. George perguntou:
        - Mano, ta tudo bem? Eu fiz algo errado?
         Mike vai para cama de George e abraça ele chorando, dizendo:
        - Não fez nada de errado George, eu só tive um sonho horrível.
         - Como foi o sonho mano? - perguntou George secando as lágrimas de seu irmão.
        -Foi horrível, você estava morto e era muito horrível mesmo George. - responde Mike abraçando George tão forte como se não quisesse o largar mais.
        - Mas agora ta tudo bem, aquele sonho acabou. Você sabe que horas são? - pergunta George querendo saber se já estava na hora de ir para escola.
         Então Mike pega seu relógio de pulso que estava no bidé, olha as horas e diz:
        - São sete e dez, acho melhor a gente se levantar e comer uma torrada. E depois escovar os dentes.
         Então os dois se levantaram, foram para a cozinha, Mike fez duas torradas, uma para ele e a outra para seu irmão. George pergunta:
        - Tem suco mano?
        - Acho que tem um pouco do de laranja que sobrou ontem - responde Mike enquanto vai em direção a geladeira para olhar se tinha suco.
         Então Mike acha o suco mas só tinha para um. Então Mike deu para George o suco juntamente com a torrada. George olhou para Mike que estava sem suco e só com uma torrada, então falou:
        - Eu divido meu suco contigo.
        - Não precisa, eu tomo água - fala Mike bagunçando o cabelo loirinho de seu irmão.
         Depois do café da manhã foram escovar os dentes. Mike e George gostam de escovar os dentes um do outro. Então depois eles pegaram suas mochilas e foram para escola. Na escola Mike encontrou Jack seu amigo que usa uma toca escura e tem uma franja super legal.
        - Vou com meus amigos Mike, se não se importa.
        - Pode ir George mas antes quero um abraço.
         Então os dois irmão se abraçaram, Mike deu um beijinho na bochecha de seu irmão e lhe desejou uma boa aula. Enquanto George foi com seus amigos, Mike foi para o pátio da escola junto com o Jack para eles sentarem num banco e conversarem. Quando se sentaram, Mike tirou o livro Eli de sua mochila e falou para Jack:
        - Eu tive uma noite muito bizarra ontem, eu vi vultos, postes se apagaram e fui até perseguido por uma coisa escura que parecia uma sombra.
        - Mas o que esse livro tem haver? - pergunta Jack tentando acreditar em Mike.
        - Eu estava na biblioteca e tinha deixado para pegar um livro em outro dia, ou seja, nesse dia mas quando estava lá ontem ouvi o barulho desse livro caindo no corredor 6. Peguei ele na mão e bem na hora relampeou. Então cheguei na senhora Amber e ela anotou os dados no caderno e depois que tava vindo para casa fui perseguido por essa "sombra". Com certeza você não está acreditando em mim
         - Meu Deus Mike, isso é muita loucura, mas eu acredito em você. Você é meu melhor amigo Mike Foster, se me dissesse que laçou fogo pelas mãos, eu acreditaria. - fala Jack indo mais perto de onde Mike estava assentado no banco.
        - Obrigado Jack, também considero você como meu melhor amigo. - fala Mike assegurando a mão de Jack - Eu tive um sonho horrível onde George estava morto no chão, com seu coração fora do peito e seus cabelos coberto de sangue.
        Mas ta tudo bem agora Mike, isso já passou - fala Jack assegurando firme a mão de Mike.
         Quando foram realmente olhar o livro, acabou batendo o sinal para eles irem para sala de aula. Entraram na sala e se sentaram nas classe da frente. A aula favorita de Mike era a de história pois ele sempre descobria coisas incríveis que aconteceram a tempos atrás. Já a aula favorita de Jack é matemática, sua inteligência é impressionante.
         Depois dos dois primeiros períodos de aula que foi ciência e geografia  Mike e Jack foram para o recreio. No recreio Mike observava seu irmão brincando com seus amigos enquanto fala com o Jack.
         - Ei Mike pegue o livro para nós olharmos - fala Jack com muito curiosidade.
         Então Mike foi correndo e pegou o livro que estava em sua mochila, quando estava saindo da sala a porta se fechou sozinha. Mike tentou abrir mas não conseguia, ele começou a bater nela mas mesmo assim ela não se abria e ninguém escutava pois era muito alto o  barulho das crianças gritando enquanto brincavam no pátio da escola. Naquele momento Mike teve um ataque de asma, rapidamente ele pegou sua bombinha e fez os três passos que ele sempre fazia, que são:
       1: Inclina a cabeça para trás.
       2: Respira
       3: Pressiona o botão da bombinha.
         Isso sempre parava as suas crises. Mike não tinha muito o que fazer, então resolveu sentar em sua cadeira e ler o livro de Eli até bater para voltarem para a sala e alguém abrir a porta. No momento que sentou para ler, Jack apareceu e falou:
        - Por que a demora? O que está fazendo? Ía ler sozinho?
        - Iria pois a porta estava trancada e eu teria que esperar alguém destrancar, para não ficar com tédio eu iria ler.
        - Mas a porta estava normal. Ela não estava trancada. - fala Jack olhando seriamente para a cara de Mike.
         Mike levanta da cadeira e abraça Jack tão forte e depois diz:
        - Eu estou com medo, esta acontecendo essa coisas estranhas comigo. Por favor fica do meu lado e me ajuda.
        - O Mike, lembre que sempre te ajudarei, sempre estarei do seu lado, sempre poderá contar comigo, isso é uma promessa. - fala Jack prometendo não abandonar Mike.
         Depois do abraço eles foram ler o livro mas infelizmente acabou o recreio e eles não puderam ler, mas eles ficaram de ler na casa do Mike pela tarde. Depois de mais dois períodos de aula, um de português e o outro de matemática, os dois foram para casa juntamente com George. A casa de Jack fica do lado da de Mike, uma casa azul marinho de dois andares. Quando estavam na frente de suas casas, eles se despediram e combinaram de se encontrar as três horas da tarde para ler o livro.
         Mike entrou com George para sua casa e foram direto almoçar um estrogonofe muito gostoso que a mãe deles havia preparado, mas antes de comerem seus pai falou:
        - Vamos orar, hoje você pode orar Mike?
        - Sim, posso. - responde Mike nervoso porque fazia tempo que não orava pelo alimento em voz alta.
         Então todos fecharam seus olhos e Mike começou a orar:
        - Muito obrigado senhor pelo alimento que você não deixa faltar. Abençoe toda nossa família e perdoe qualquer pecado que temos cometido. Seja feita sua vontade, amém.
         Papai gostou muito que Mike orou e achou muito bonito. Então eles comeram, depois disso papai foi trabalhar as duas horas da tarde em sua oficina e mamãe foi trabalhar vendendo imóveis que é seu emprego. Acabou ficando só George e Mike em casa. Então eles foram construir uma pipa de papel. A pipa ficou tão bonita, ela era colorida e era cheia de detalhes. Eles ficaram brincando com aquela pipa até Jack chegar para ler o livro Eli.
         Quando Jack chegou, Mike subiu para seu quarto com ele, enquanto George ficou brincando com a pipa. Quando subiram foram direto para o livro e começaram a ler juntos. Na primeira página estava escrito:
        - Por favor se você esta lendo esse livro saiba que meu nome é Eli de... Meu sobrenome não importa, quero que saiba que eu estou morto por causa de um entidade que é tipo uma sombra, acabei colocando o nome Sombra nele. Se você viu essa criatura saiba que você pode morrer, mas da para ter um final diferente do meu, basta você enfrentá - lo sem ter medo, ele pode tomar a forma do que você mais tem medo mas você precisa superar o medo se quer derrotar ele. Eu acredito que estou morto enquanto você lê esse livro, pois sei que não conseguiria vencer meu maior medo. Nos primeiros dias ele vai brincar com você, vai te causar medo pois ele gosta de fazer isso, ele se alimenta do medo. Não esqueça que a chave para derrotar ele é não ter medo, se você tem um medo, saiba que você precisa superar. Nas próximas páginas verá relatos do que aconteceu com as pessoas que interagiram com o Sombra.
         Depois que Jack e Mike leram só isso já ficaram horrorizados. Ficaram fazendo perguntas pra si mesmo. De que maneira surgiu o Sombra? Por que ele faz isso com pessoas? Ele é um demônio? Nós vamos morrer?
         Essas perguntas ficaram repetindo na cabeça dos garotos até que Mike falou:
        - Jack você não esta envolvido nisso, isso é perigoso, é melhor ir embora e eu darei meu jeito.
        - Não vou ir embora de maneira nenhuma - reponde Jack cumprindo sua promessa. 
        - Posso falar o meu maior medo? - pergunta Mike enquanto começa a escorrer lágrimas de seu rosto.
        - Pode - responde Jack assegurando mão de Mike.
        - Meu maior medo é perder o George e você. Se você morrer ficaria um vazio de mim, eu não seria mais eu. 
        - Mike eu...
         Jack é interrompido por George batendo na porta e perguntando:
        - Posso entrar mano?
        Mike responde sim e seu irmão entra, ele acaba notando que Mike estava chorando e fala:
        - O que aconteceu mano, esta tudo bem? Eu não gosto de ti ver assim.
        - George vem aqui, senta na minha cama. - fala Mike sorrindo por ver o carinho de seu irmão.
         Quando George sentou Mike lhe deu um abraço bem forte dizendo que isso tudo iria passar. Quando Mike olhou pra Jack falou:
        - O que você ia dizer?
        - Nada - responde Jack escondendo algo.
        - Tem certeza? Parecia algo sério. - diz Mike insistindo pra ele dizer.
        - Ok, eu digo. Estou com fome mas tava com vergonha de falar - diz Jack novamente escondendo a verdade.
        - Não precisa ter vergonha, que tal a gente tomar um suco juntamente com o bolo de chocolate que mamãe fez? Você quer também George?
        - Sim - reponde George e Jack.
         Então os garotos vão se alimentar. Mike serviu seu irmão e Jack também. Quando já havia servido os dois, Mike se serviu e acabou derrubando o copo de vidro que caiu no chão quebrando em vários pedacinhos. Jack olha assustado e pergunta:
        - Você esta bem? 
        Mas Mike não respondeu pois estava tendo uma visão. Nessa visão ele viu um acidente de carro. Quem sofreu o acidente foi o senhor Russel e a senhora Russel que são os pais do Jack. Quando a visão acabou Mike olhou pra Jack e disse:
        - Jack eu vi seus pais sofrerem um acidente de carro.
        - Eu estava lá? Você estava? - pergunta Jack se lembrando de um acidente de dois anos atrás.
        - Sim você estava e eu também, só que a gente era...
        - Criança - completa Jack - isso já aconteceu, se lembra que você perdeu a memória?
        - Sim, me lembro. Vocês tinham falado que foi num acidente de carro mas eu não conseguia me lembrar. - respondeu Mike impressionado que uma parte que faltava da sua memória havia voltado.
        - Lembra que você foi na roda gigante?
        - Não, eu nunca fui numa roda gigante mas lembro que a gente foi no parque. - fala Mike tentando lembrar de alguma roda gigante.
        - Há, tá! - reponde Jack com uma expressão meio triste.
        - Mas já que você lembra que eu fui numa roda gigante me conta como foi. - fala Mike querendo lembrar.
        - Foi incrível, a gente foi junto e dava pra ver a cidade de Healdsburg inteira dali de cima - fala Jack escondendo uma coisa que havia acontecido na roda gigante.
        - Que legal. - fala Mike tentando imaginar como seria ver a cidade de Healdsburg em um roda gigante. - mas acho melhor eu limpar essa bagunça de suco.
         Então Mike limpou e pegou outro copo e tomou o suco e comeu o bolo de chocolate. Depois dos garotos terem comido foram jogar basquete no quintal. Sempre que eles faziam sexta eles gritavam: - Ponto pra mim!
         Os garotos foram parar de jogar basquete a seis horas da tarde, foi quando os pais de Jack chegaram em casa e chamaram ele para ajudar a carregar as compras. Mike e o pequeno George foram juntos para ajudar a carregar as sacolas. Depois disso Mike chegou em Jack e falou:
        - Quer possar lá em casa? Só vai ter que orar junto com minha família para agradecer pelo alimento.
        - Quero, não tem problema. O bom que amanhã não teremos aula pois é sábado - fala Jack feliz pois havia tempo que não pousava na casa de seu amigo. - só teremos que pedir para nossos pais.
  • O último portal II Justice

    O Último Portal II:
    Justice































    POR: Carry Manson

    Nota da Autora: TODA TEM SEXTA NOVOS CAPÍTULOS.



    Prólogo

    Vivemos numa Nova Era de paz e harmonia

    diante da bandeira verde e azul de nosso país.

    Por muitos anos, lutamos pela liberdade, sem

    entender o quê isto significava. Mas quando

    a tivemos em nossas mãos, muitos a viram

    com os olhos do arco-íris, que foi a cor que a

    mídia pintou, enquanto outros mantiveram a

    mente cheia de conhecimento, e por total

    consequência a razão. Enquanto os jovens

    em sua maioria, e os adultos fingindo serem

    jovens pulavam, enchiam a cara, e se

    drogavam. Os sensatos, observam o caos,

    e não fechavam os olhos para todas as

    iniquidades cometidas. Felizmente chegou

    o momento em que uma luz brilhou. Ela veio

    em forma de escuridão, todos disseram que

    era coisa das obras ocultas, quando nem

    sequer percebiam, que a sociedade

    atual, era o palco destas

    forças.

    Há algum tempo atrás eu jamais lutaria

    a favor de um ditador, mas agora entendo

    porquês todos alemães adoraram a Hitler.

    Ele veio para salvá-los, da desolação que

    se aproximava, não era uma luta contra

    os judeus, haviam judeus no seu exército,

    mas sim uma luta para salvar o mundo,

    que claramente falhou, pois hoje

    Eles o dominaram.

    Ele era um radical, mas o povo precisava

    de um radical, alguém que fizesse algo por

    eles, e não para si próprio, um louco, cuja

    loucura, aceitando ou não, trouxe muito

    desenvolvimento para a sociedade.

    As mortes foram horríveis sim, inocentes

    morreram é claro, mas nenhuma guerra é

    ganha sem dor e sofrimento, nenhuma

    glória chega antes de sermos

    testados.

    Não podemos mais fechar os olhos para

    o certo, ou o errado. A justiça tem que ser

    feita, para que menos inocentes sofram

    , em nome dos falsos revolucionários,

    pois revolução mesmo, é aquela

    que é benéfica ao individuo,

    e os outros.

    Infelizmente nem todo mundo vê assim,

    e por isso em breve iremos lutar uns contra

    os outros, porquê os filhos das cores, não

    são capazes de ver o planeta, com os

    olhos dos filhos do sol nascente.













    Capítulo 1- O brilho no céu, visto pelos poucos.




    “Depois do ocorrido na floresta, nosso grupo se

    separou. Natasha seguiu com os Filhos das cores, 

    abandonando também ao seu par. Alexandra se

    casou com um humano, e apenas Victória 

    ficou ao meu lado.” Isabelle escreve em seu 

    diário, e sorri para o marido, que ao contrário do

    que se imagina, não está mais dentro de

    Dantas, mas segue com o demônio

    Leviroth, com quem outra vez trouxe ao

    mundo, a pequena Isandra, que antes era

    só um fantasma. Hoje a criança não se

    recorda do quanto já ajudou seus pais,

    mas tem constantes sonhos a respeito

    disso. “Nós trouxemos os demônios

    a Terra naquele dia? Será que eram os

    nossos pais? Ou libertamos o mal?” Belle

    morde a tampa da caneta. Infelizmente

    nem tudo são flores, após abrirem os

    últimos portais, Leviroth destruiu o

    corpo de Dantas, por conta da

    sua energia, e por isso teve de ir para

    o corpo de um amor secreto da Calligari.

    Um garoto por quem nutriu uma paixão

    muito forte, antes do metido a perfeito

    interferir. Seu nome era Bener De La

    Cruz. Um rapaz moreno, magro, de olhos

    castanhos, e pele amarelada, que um dia

    entregou a sua alma a filha do demônio,

    por ter alimentado uma paixão por

    ela, desde que tinha 15 anos. Que aliás

    tinha sido o corpo original do príncipe, mas

    como Isa não percebeu, ele foi obrigado a

    mudar, até ela finalmente o amar.

    Na hora da transferência, a energia do

    par de Isa se tornou tão densa, que o corpo

    o rejeitou de imediato, gerando uma triste

    consequência, Leviroth perdeu da memória

    , ao retornar para a casca vazia, e Isa se

    sentiu solitária sem ele, achando que

    o tinha perdido. Separados ambos ficaram

    sofrendo, Leviroth tentou cometer suicídio,

    e a bela feiticeira se jogou nos prazeres do

    mundo, viciando-se em certas manias

    humanas, que terminaram por

    destruí-la. Ao se reencontrarem, a chama

    ardente se reascendeu de imediato, só que

    o amor, outra vez veio com o tempo, e por

    isso eles tiveram problemas para enfim

    se adaptarem. Após algum tempo Isabelle

    reencontrou Victória, que como os outros foi

    para um caminho diferente, e esta veio lhe dizer a 

     triste notícia. Belliath, também tinha partido naquela

     noite, que elas batizaram como o banquete diabólico, e 

    isso lhe deixou muito triste e abatida. Ao ouvir as lamentações 

    a amiga, a jovem lhe abraça forte, e conta-lhe que passara 

    pelo mesmo, só que teve um desfecho feliz, assim elas 

    passaram a trabalhar nas buscas pelo

     outro príncipe.

    _Olha Belle. Este aqui poderia ser o

    Belliath não acha?

    _Não, não tem a energia forte dele.

    _E este? É sedutor como ele...

    _De fato, mas tem a personalidade?

    _Isa o quê foi?

    Victória larga as fotos estiradas na mesa,

    e se volta para a amiga que se mostra bem

    pensativa, a respeito de algo. Esta para de

    pensar, e olha de forma alheia, como se

    tivesse saído de uma alucinação.

    _Não é nada Vic. São apenas sonhos

    que tem se mostrado curiosos.

    _Como assim? O quê tem sonhado?

    _Lembra que sumiu por uns anos?

    _Eu tinha perdido o meu amado,

    não comece a me julgar!

    _Não estou. É que desde aquela noite

    no bosque, tenho tido sonhos que

    não me deixam dormir.

    _Que tipo de sonhos? E com quem?

    _Um demônio, e é como se Dantas

    fosse ele.

    _Mas tinha um demônio no Dantas.

    O Leviroth seu atual marido.

    _Sim...Porém parece que tinha algo

    mais, dentro daquele mauricinho

    idiota.

    Isabelle respira fundo, e recorda-se do

    último contato que tivera com o namorado

    , e baixa a cabeça. “Você o colocou dentro de

    mim! Sua vadia maluca!” “Ele escolheu

    seu corpo! Eu não tive culpa!” “Ele só

    me escolheu, por sua causa!”. “Eu espero que

    você morra!” Gritou ao ver sua pele se dilacerando,

    no meio da mata, até que se foi. Deixando-a para o

    todo sempre, e então o demônio veio em forma

    de espírito, tentando se agarrar a ela, mas 

    desapareceu diante de seus olhos.

    _Isabelle. Estou falando com você.

    _Oi Vic. Me perdoa, estava lembrando

    dos últimos momentos, em que o

    Dantas foi ele mesmo.

    _Por quê?

    _Porquê ele desejou minha morte.

    _E daí?

    _E se ele foi pro Inferno, e fez um

    contrato para garantir isso?

    _Com o quê tem sonhado?!

    _Com o Anticristo, e ele vem para

    me buscar, todas as vezes...

    _Como um monstro, pronto para

    te arrastar para o outro lado?

    _Como um noivo no dia do seu

    casamento, e eu sou a noiva,

    não uma espectadora.

    Responde recordando-se dos sonhos

    que tem com uma criatura humanoide,

    de olhos verdes, cabelos negros e bem

    longos, de pele pálida, que está sempre

    sério, mas nunca perde a oportunidade

    de está ao seu lado, como o seu par, e

    antes que a converse se prolongue,

    alguém liga a TV do bar, e chama

    a atenção das belas.

    _Caos no novo governo. Isto é o quê

    vemos neste momento! As minorias

    se revoltaram, e pedem pela volta

    dos velhos ministérios!

    _Isto é uma luta pelos direitos

    humanos! Este ditador tem que

    ser derrubado! Senão mais

    gente vai morrer!

    _Jovens e adultos, invadem o

    congresso, para brigar pelos direitos

    dos presos, que estão sendo usados

    , para experimentos científicos.

    _Eles são humanos como eu e você!

    Comem, bebem, sentem frio e medo!

    Precisam de cuidados! Não desta

    opressão maldita!

    _A confusão gera um conflito entre

    militantes da bandeira vermelha, e

    os militares, que tem carta branca

    , para puni-los, caso haja algum

    sinal de violência física.

    _Isso, isso é resultado do fascismo,

    que Vocês seus desumanos, deram o

    apoio! Olhem pra esta foto! Olhem

    pra este homem! Isso parece

    certo pra vocês?!

    Uma mulher grita diante da câmera,

    e mostra a imagem de um sujeito bem

    magro, recebendo agulhadas nas veias,

    num estado deplorável. Ao ver aquilo,

    Isabelle revira os olhos. “Luan Alves

    de Andrade, o cara que estuprou

    7 bebês. Merece até pior que

    isso.” Se recorda da prisão

    do meliante.

    _Depois de tudo o quê ele fez

    com aquelas crianças, este castigo

    é até mediano. Se eu estivesse no

    projeto, o torturaria por total

    prazer.

    _Com certeza. Um ser destes

    nem merece ser chamado

    de humano.

    _É, mas ainda sim, estes cegos

    se reúnem diante do Congresso

    para lutar pelos direitos dele.

    _Sim Belle, a humanidade está

    mesmo perdida.

    _De fato.

    As duas se levantam, pagam a conta

    com código digitais, e vão embora, sem

    perceber que estavam sendo vigiadas por

    um homem de terno e chapéu branco, e

    este sorri, e pega as digitais dos copos

    , sem que o vejam fazê-lo, pois é um

    aparentemente profissional na área.

    “Isabelle S Calligari Marry De La Cruz.”

    É o quê aparece na tela do seu celular,

    junto da imagem da bela, parecendo a

    pior das anarquistas. “Victória Silverius

    S Haster.” É o segundo nome a vim,

    junto da imagem da bela no seu

    estado normal.

    “Elas são perfeitas para o caso.” Ele

    pensa, ao analisar o perfil das duas. Isa

    se mostra um gênio revoltado, enquanto

    que Vic mostra habilidades notáveis em

    trabalhos manuais, e muito carisma.

    “Isabelle é realmente a filha dele.”

    Conclui, desligando a tela.

    A noite...Isabelle digita uma extensa

    pesquisa no notebook, e do nada a sua

    tela escurece, preocupada, ela se cobre

    , e se afasta do aparelho. Dados com

    código são  descriptografados, e

    ela recebe uma mensagem.

    _1508? O quê isto significa?

    _Siga o Coelho Alice.

    _Eu não. É arriscado demais.

    _Você quer respostas sobre o seu

    sonho comigo, e eu posso te dá

    , mas precisa confiar em

    mim.

    _Usando robôs é fácil mesmo

    roubar informações.

    _Eu sei seu nome, e sei onde

    nasceu.

    _Basta ir no Facebook.

    _Eu sei que está roendo a

    fronha com medo.

    _Estudou meu perfil psicológico.

    _Eu sei de coisas que fez no

    sonho, e não teve coragem de

    contar a Victória, por sentir

    vergonha.

    _Algo mais?

    _Sei de tudo o quê já fez.

    _Por exemplo?

    _Suas orgias lésbicas com 6

    anos de idade.

    _Ok. Você venceu. O quê

    quer?

    _Siga o coelho e saberá.

    A tela volta ao normal, e então chega

    um convite para um baile de gala, para uma

    pessoa, em seu e-mail. “Leviroth não me

    perdoaria, mas preciso saber o quê me

    atormenta.” Morde os lábios, ao

    olhar para trás.

    Tomada pela curiosidade, respira fundo,

    e responde para o destinatário. “Agradeço

    a oportunidade, mas estou inclinada a ter

    que recusá-lo.” Envia, e recebe uma outra

    mensagem. “Doce Alice, precisa encontrar

    o Chapeleiro, o quanto antes. Não pode

    recusar.” A dama olha para os lados, e por

    fim escreve outra conclusão. “Tenho medo

    do Tempo. Ele pode não entender.”, E por

    fim recebe a última mensagem. “Farei

    um convite duplo, mas preciso vê-la

    para o chá.” Desta vez a antiga rebelde não

    recua. “Mostre-me o caminho para o Chá.”

    Enfim diz, e as mensagens se apagam

    Restando um convite para o

    casal.

    Com Victória acontece a mesma coisa,

    porém o roteiro é outro. “Sei que deseja

    encontrar alguém que não é deste mundo.”

    Diz a sua frase. “Não ignore este aviso, nós

    podemos te ajudar a encontrar Belliath.”

    Ao ver o nome de seu amado, o seu

    coração salta pela boca.

    _Como sabem de Belliath?!

    _Sabemos tudo sobre você.

    Senhorita Haster.

    _Quem são vocês afinal?!

    _Se queres saber, o caminho para

    a floresta deve seguir, Branca

    de Neve.

    _Não são os caçadores, não é?

    _Somos os mineradores, e

    podemos encontrar ao seu

    príncipe.

    _Os Anões?!

    Victória gargalha diante do computador,

    e leva um pequeno choque na ponta do seu

    dedo, que a faz chacoalhar a mão devido a

    dorzinha nele provocada. “Ai que anões

    irritados.” Pensa, colocando

    o indicador na boca.

    _Não se trata de uma brincadeira.

    _O quê podem me provar sobre

    o meu príncipe?

    _Que Ele a perdeu para anjos

    furiosos, e está entre os

    nossos agora.

    _O quê?!

    _Vá para a floresta, e o verá.

    A tela escurece, e Victória recebe um

    individual, para a mesma festa que Belle

    e Ben foram chamados. Só que enquanto

    no convite de uma está impresso o coelho, 

    no da outra é uma maçã mordida só de 

    um lado.




































































































    Capítulo 2- O baile misterioso




    No dia seguinte... Victória e Isabelle se

    arrumam para a festividade, sem saber que

    elas vão se encontrar no mesmo lugar. “ A

    fantasia certa para cada convidado.” Diz os

    bilhetes, em cima das estranhas caixas

    grandes, cor de ovo, que recebem. “Espero

    vê-la hoje, mesmo acompanhada do Tempo

    , senhorita Alice. Ass: Chapeleiro” É o quê

    o bilhete somente de Isabelle diz. “Logo a

    princesa irá receber o seu beijo, mas o feliz

    para sempre dependerá dela. Ass: Dunga”

    É o bilhete de Victória. Ambas pegam as suas 

    fantasias, e observam, que mesmo as

    respectivas personagens, não precisem de

    máscaras, elas precisaram usar. Ben chega

    do trabalho, e encontra a caixa enviada a

    ele, e pega a sua fantasia de Tempo, que

    vem com um aviso. “Olá senhor tempo,

    pode ter pensado que enlouqueci, mas eu

    preciso encontrar a Alice para o chá.” Diz

    o papel que ele esmaga revirando

    os olhos.

    _A gente já não teve problemas demais?

    _Por favor Leviroth. Eu preciso ir neste

    lugar, há respostas que você não pode

    me dá, não com essa memória.

    _Está bem. Mas se o Chapeleiro tentar

    ficar com você, ele vai conhecer o punho

    do Tempo.

    _Que bonitinho da sua parte, ainda ter

    ciúmes, depois de anos de casados.

    _Eu não lutei com aquele mauricinho

    Idiota, para ficar sem você depois.

    _Disso cê lembra né!

    _E de como você se sentia nos meus

    braços também.

    _Se controla bonitão. Não quero dá

    o Odin para a Isandra tão cedo.

    Diz Isabelle fazendo menção ao nome

    do próximo filho, que terá com o príncipe

    do Caos, e ele a puxa para si, beijando-a

    com intensidade, e deixando-a úmida

    entre as pernas, ao ponto de ficar

    corada.

    _Continuo tendo jeito para a coisa.

    _Continua sendo meio idiota.

    _O idiota que te ama.

    _O idiota com quem me casei.

    _E que vai amar por mais uma

    eternidade.

    _Pode ter certeza que sim.

    O beija, e ele a carrega, pronto para

    lhe tirar as roupas. Mas quando abre a

    sua camisa, e vai em direção aos seios

    dela, Isandra entra na sala, cortando o

    clima quente entre os dois. Sem jeito,

    eles sorriem, e a bela ajeita o cabelo

    para ir pegar a menina.

    _Depois desta festa odiosa...

    _Quando Isandra dormir...

    _Vou te mostrar os prazeres do Sol.

    _Vou ser uma com você como a

    Lua.

    _Agora vai lá com a nossa

    filha. Gostosa!

    Ele diz vendo-a de costas, e lhe dá

    um tapa na bunda, com o olhar safado,

    deixando-a vermelha de vergonha, ao ir

    até a menininha de 5 anos, que corre até

    os braços da mãe, com os olhos brilhando

    de alegria. Ao ver o sorriso da esposa, ele

    se sente realizado, por tudo o quê eles

    viveram, ter acabado tão bem.

    “Eu preciso encontrar a Alice para o

    chá.” Lhe vem a mente, transformando a

    sua face aliviada, em grande mau humor.

    “Como se não bastasse ter que ficar no

    corpo daquele moleque. Agora isso.”

    Pensa com raiva, temendo o quê

    está por vir.

    Sua memória pode ser sido afetada,

    mas não a mente de estrategista natural, e

    esta lhe diz que esta festa não vai terminar

    nem um pouco bem. Porém devido as atuais 

    circunstâncias, ele não pode dizer não a

    sua amada.

    A noite...Eles chegam ao local, é um

    museu antigo, e há muitos homens e

    mulheres bem de vida. Leviroth põe a

    máscara depois de entrar, e Isabelle

    o faz logo em seguida, grudando no

    marido com medo do quê vai ter

    encontrar ali. Infelizmente, assim que

    entram, há pelo menos 5 Alices dentro

    do salão, e quando o demônio se afasta

    para pegar as bebidas, a bela desaparece

    em meio as outras, e é puxada para o

    centro do lugar, onde dança com

    o Chapeleiro.

    _Olá Alice. Fico feliz que veio

    para a festa do Chá.

    _Quem é você? E o quê quer

    exatamente?

    _Você já me conhece dos seus

    sonhos querida.

    _Esta é a pior cantada de todos

    os tempos. Senhor Chapeleiro.

    _Estou falando sério.

    Pega em suas costas, e então aproxima

    sua boca do ouvido da bela, que fica por

    procurar pelo seu par, ignorando o ser

    misterioso, que se irrita, e a aperta

    colando-a em seu peito.

    _Meu reinado se aproxima.

    E a prostituta deve caminhar

    ao meu lado.

    _Que coisa romântica de se

    dizer no primeiro encontro...

    _Você pensa que casou-se com o

    príncipe. Mas também já foi a

    mulher de um Rei.

    _Anticristo?

    _Nesta noite sou só o Chapeleiro.

    Tira a máscara para a dama, e esta que

    já não conseguia respirar, perde o ar por o

    ver ali diante dela, segurando-a nos seus

    braços. Ele era idêntico ao sonho, só

    que neste momento está a sorrir,

    com bastante confiança.

    _Silêncio. Não grite.

    _Por quê está aqui?!

    _Porquê é chegada a hora de

    assumir o poderio do mundo.

    _E o quê isto tem a ver

    Comigo?!

    _Você é a mulher de vermelho,

    e deve ficar comigo.

    _Eu já pertenço a outro ser.

    _Será que é verdade?

    _É claro que é, eu vi a minha vida

    passada com ele!

    _Mas a viu por completo? Acha mesmo

    que alguém como você só teve um

    amor?

    _E o quê sabe sobre mim?!

    _Sei que ajudou a me libertar.

    É a última coisa que diz, dando-lhe um

    beijo rápido, e se misturando a multidão ao

    ver que Leviroth tinha percebido, que a sua

    Alice, tinha uma pulseira negra envolta do

    pulso, que a diferenciava das outras, e

    estava vindo resgatá-la.

    _Vamos sair daqui agora.

    _Está tudo bem meu amor?

    _Ele me beijou!

    _O Chapeleiro?!

    _O Anticristo!

    Berra claramente traumatizada com

    tal encontro, e abraça o marido, sentindo-se

    mole, como se fosse desmaiar de tanto

    nervosismo. Do outro lado do salão, que está

     decorado com árvores semelhante a floresta.

    Victória dança nos braços de um belo príncipe

     com máscara, que fica em  silêncio, até que 

    ele a beija, e esta sente tanto fervor, que 

    não há como negar,

    é Belliath ali.

    _Eu senti a sua falta minha princesa.

    _O beijo foi ótimo, mas como posso

    ter certeza que você é você?

    _Pergunte algo que só nós dois

    sabemos.

    _Como foi a nossa primeira vez?

    _Comigo sendo romântico, ao contrário

    do Roger.

    _Algo mais?

    _Você me expulsou do corpo dele,

    e voltei a ser grosso, mas mesmo

    assim nos envolvemos naquela

    noite.

    _Belliath!

    _O corpo do Roger não suportou.

    Tive mudar, antes que a insanidade

    dele me afetasse.

    _Tudo bem. Contanto que eu

    esteja com você.

    _Sim meu amor...

    Ele a abraça e olha para o outro lado, no

    qual O chapeleiro passa fazendo o sinal de

    que é hora de ir. Ao vê-lo, pede-lhe mais

    tempo, mas o líder nega, e o príncipe

    beija a sua amada com furor, deixando-a

    sem fôlego por alguns segundos, então

    segura em sua face, e olha em seus

    olhos.

    _Eu preciso ir agora.

    _Para onde?

    _Não posso dizer no momento.

    Mas tenha certeza de uma coisa,

    eu vou te achar de novo.

    _Me promete?

    _Sim, fique com isso, é algo

    que tenho esperado muito tempo

    para te dá outra vez.

    _Isso é?

    _Sim, quando eu puder voltar,

    nós iremos nos casar. Diga

    a Isabelle, que mandei um

    “Oi.”

    _Isabelle está aqui?

    _Sim, Ele queria muito vê-la

    , mas não podia se expor.

    _Quem?

    _O Anticristo.

    Responde deixando a amada com o anel de

    noivado, e parte com o Chapeleiro. Isabelle tira

    a máscara, e sai do salão de festas, e já se senta no sofá 

    onde os bêbados deitam, e fica no colo do marido, que lhe

     faz um carinho na cabeça, acalmando-a, pois apesar da

    forma atraente do tal ser, ela está em estado de

     choque.

    _Belle!

    _Vic!

    _Como veio parar aqui?!

    _Recebi um convite.

    _Eita quanta grosseria.

    _Desculpe, eu vim por respostas

    , e acabei por me deparar com

    o meu pesadelo vivo. E

    você?

    _Vim encontrar Belliath, que

    está junto do seu pesadelo

    vivo.

    _Olá Victória, eu também

    estou aqui.

    Diz o demônio erguendo a mão, como

    um aluno na hora da chamada. E é quando

    a bela nota que há mais alguém junto de sua

    amiga, e fica constrangida por ter ignorado

    o coitado sem querer.

    _Oi Leviroth. Desculpe, estava

    tão doida para encontrar a Belle,

    que nem te vi.

    _Depois dizem que não tem um

    “relacionamento lésbico”.

    _Para com isso Levi. Como foi

    reencontrar o Belliath?

    _Foi lindo e perfeito. Do jeito com

    o qual sonhei Belle. Olha só!

    _Nossa trabalhar pro Anticristo

    compensa hein?! Mor será que

    ele me arranja um emprego?

    _Nem pensar. Se você faltar um

    dia, em vez de descontar no salário,

    ele fala que tá no contrato chamar

    a sua esposa para um jantar!

    _Se for como os sonhos que ela

    me contou, é melhor ficarem bem

    longe dele. Ele quer tanto ela,

    quanto você já quis.

    _Já quis? Eu continuo louco

    por essa mulher! E juro que ainda

    quero arrebentar esse cara, por ter

    beijado ela. Aliás cadê ele hein?

    _Se aquieta bravão. Ele correu assim

    que te viu. Não deve mais nem sequer

    está por aqui. O quê significa que: É

    hora de beber!

    _Opa!

    Victória fica no bar admirando a aliança

    que seu amado lhe deu, com tanta alegria

    que nem nota outros rapazes. Já Isabelle

    bebe sem parar, querendo perder a sua

    consciência, para esquecer que tudo o

    quê temia, tinha vindo a tona.

    _Mais um por favor.

    _Já chega Camelinho. Eu vou no

    banheiro, e vamos para casa

    certo?

    _Está bem. Vou chamar, a Vic.

    A bela se prepara para se levantar, só

    que seu corpo está pesado. O efeito da bebida

    é tão forte, que vê tudo rodando, vários Chapeleiros

     caminham pelo salão, e ela não sabe se está alucinando, 

    até que um deles, a ajuda a ficar de pé,  lhe entrega uma carta. 

    Ela rapidamente a abre, percebendo que deve ler antes do marido

    voltar. “Você seguiu o Coelho, e esta é a sua recompensa. Te vejo lá

    , junto da Branca de Neve.” É tudo o quê diz no papel, e dentro do 

    envelope acha um pendrive, que tem esculpido nele a estranha 

    numeração...“1508.” Olha para o drive, e o guarda no bolso. Victória 

    vem ao seu encontro, depois de sair do trem do amor, e a moça 

    logo lhe mostra a carta, e o tal aparelho que veio junto. Ao 

    ver aquilo, a jovem fica estática, e curiosa para entender

     qual é a relação de Belle com o Anticristo.

    _Belle...Você é um imã para demônios!

    _Há há engraçadinha. Deve ter algo muito

    errado comigo isso sim.

    _O quê ele queria com você esta noite?

    _Eu não sei. Acho que me traumatizar.

    _Com um beijo?

    _Qual é. Foi só um selinho. Mas o fato

    de vim da boca dele, é que me assustou.

    _Não foi como quando Leviroth...

    _Não! Eu tenho medo dele!

    _Então não gostou nem um pouco?

    _Eu sou casada. Com o amor da

    minha vida. É claro que não.

    _Eu não entendo Belle. Você e

    Leviroth são almas gêmeas, por quê

    surgiu mais alguém nessa história?

    _Boa pergunta. Ele diz que foi porquê

    Eu fui mulher dele.

    _Mas toda a sua vida passada foi

    Revelada, com a chegada de

    Leviroth.

    _Foi o quê eu pensei, só que ele

    garante que há mais para

    saber.

    _Então no pendrive...

    _Deve ter mais pistas sobre quem eu

    já fui.

    Conclui observando o marido se

    aproximar, então esconde o pendrive e a carta.

    Eles vão para dentro de um Uber, e ali longe dos

    olhos curiosos, a jovem pega o tal papel e

    mostra para o conjugue.

    _Ele não queria que soubesse.

    _Que horas recebeu isso?

    _Foi ainda pouco. Antes de partimos.

    _Ele está te atraindo para alguma

    armadilha.

    _Eu sei, por isso estou te contando.

    _Devia cortar relações com

    esse cara.

    O motorista os observa pelo retrovisor,

    e aumenta a velocidade em que está indo,

    mudando o percurso do caminho de volta

    para casa. Notando a estranha situação, a

    moça olha para o marido, e os dois se

    jogam em cima do motorista.

    _O quê está fazendo?! Pra onde está

    nos levando?!

    _Responda para ela, ou vai acabar

    morto.

    _Por favor não façam nada comigo!

    Ele me obrigou! É a única forma

    de sair! De sair!

    _Você está trabalhando para

    O Anticristo?!

    _Responda ou quebro o seu pescoço!

    _Não! É para O Chapeleiro! Ele quer

    vê-la de novo senhorita Alice da

    pulseira negra!

    _Droga!

    Grita ao sentir o impacto do carro colidindo

    com outro. Leviroth é jogado contra o painel,

    e ela se bate no banco, ficando com

    uma linha de sangue na testa. O Chapeleiro

    entra na parte do passageiro, e pega a moça em

    seus braços, olhando para o rival, que se mostra

    desesperado, por não poder fazer nada, já que sem 

    memória, não sabia como ativar os seus poderes 

    caóticos. Isabelle acorda, sendo carregada pelo

    estranho, e sente o cabelo negro dele,

    caindo sob o seu rosto.

    _O quê, você, quer comigo?

    _Apenas a sua lealdade. Deixei bem

    claro que não devia contar a ele, só

    quê fez, e a consequência foi essa

    querida Alice.

    _Está dizendo que isso, isso é um

    Jogo?!

    _E o quê não é? Tudo se trata de

    ganhar uma recompensa por algo. Até

    um bebê sorri apenas, porquê sabe

    que vai receber um agrado.

    _Eu não sei, qual é, o, seu problema,

    mas juro, vou, te arrebentar!

    Grita usando o seu dom, para jogar um

    poste em cima dele, só que ele sorri, ergue

    a mão, e estala o dedo destruindo-o em mil

    pedaços. Ela entra em pânico, e para de

    reagir, fazendo-o sentir o doce gosto da

    vitória, obtida através do medo.

    _Esqueceu quem tem mais força?

    _Como eu, poderia saber? Nunca

    te vi, na minha vida!

    _Não adianta fingir. Eu provoquei

    aqueles sonhos.

    _Eu não sou, a prostituta.

    _Como pode ter tanta certeza?

    _Como você pode?!

    _Porquê fui eu quem te devolveu

    para este mundo Luciféria.

    “Como ele pode saber que este é o meu

    outro nome?!” Ofega, aterrorizada pelas

    coisas que o sujeito tem conhecimento a

    seu respeito. “É ele. Não há mais nem

    uma dúvida.” Termina, enquanto

    entram em outro carro.

    _Pode respirar. Não vou te fazer nada.

    Pelos sonhos já deveria saber.

    _Eu não estou destinada a você!

    _De fato antes não estava. Mas na

    hora que alterei o seu destino,

    passou a ser.

    _Por quê eu?! Com tanta mulher no

    mundo, muito mais bonita. Por quê

    tem que ser eu?!

    _Porquê foi você Isabelle, quem

    Eu escolhi, e não há anjo ou demônio

    que possa impedir, o quê agora nós

    somos um para o outro.

    _O pesadelo e uma bruxa que

    quer fugir dele?!

    _Um só espírito. Uma só carne.

    Uma única...

    _Eu sou a Alma Gêmea de Leviroth!

    Lúcifer nos revelou isso!

    Esbraveja, horrorizada pela palavra que

    ia sair da boca do poderoso homem. “Isso

    não pode ser verdade. Não pode! Eu amo

    Leviroth! Como nunca amei ninguém

    antes!” Suas mãos tremem sem

    parar.

    _Não é mais. Agora é a minha.

    _E a Minha opinião sobre isso?

    Eu não te dei permissão de

    se tornar meu par!

    _Não deu nesta na vida. Mas na

    outra foi apaixonada por mim, de

    tal forma, que governou o Egito

    ao meu lado.

    _Eu sempre fui do Leviroth.

    _Defina sempre. Porquê até onde

    Eu sei, nós passamos um bom

    tempo juntos.

    _Escuta aqui. Ôh falso messias do

    caralho. Eu já fui encantada por um

    demônio, e ele usou a sua mesma

    jogada. Por isso não vou cair...

    O belo se debruça em cima dela, e a

    beija, segurando-a com firmeza. Desta

    vez ela luta para se livrar dele, não por

    não resistir, mas sim porquê só é

    capaz de pensar em Leviroth,

    neste momento.

    Não é como da outra vez, em que o

    toque do demônio, a fazia ir as nuvens, e

    se sentia culpada por desejá-lo. Ela sente

    total desespero, desgosto, e desprazer

    em tal atitude, por isso o morde bem

    forte, ao ponto de sangrar, só que

    isto o faz rir.

    _Aposto que ele nunca calou sua

    boquinha desta forma.

    _Eu sou casada! Com o amor da minha

    Vida e existência! Encoste em mim de

    novo, e eu vou...

    _Vai o quê?! Me morder como uma

    gatinha assustada que é?!

    _O quê eu fiz para merecer isso?!

    _Me soltou para o universo.

    _Eu nem me lembro disso!

    _Não lembra porquê faz muito

    tempo, mas desde daquele dia eu

    soube que era perfeita, e que a deusa

    mãe a tinha feito para mim...

    Se recorda da menina ruivinha, que foi até

    o Tártaro, e o libertou para o cosmos. “Você

    sabe que posso destruir o universo?”

    “Sim, sei, e eu quero que faça isso, é uma

    forma de me agradecer.” Ele a vê lhe dando as

    costas, então seus olhos ficam fixos na miniatura

    da Rainha da terra do não retorno. “Um dia ela será

    a minha rainha.” pensa ao escapar, virando-se para 

    trás, só para ter certeza de que vai ver a criança

     maldosa outra vez, mas esta já tinha

    desaparecido.

    _Eu me apaixonei por você naquele dia.

    _Pelo que me disse eu era uma criança

    , uma criança bem estúpida por

    sinal.

    _Sim era. Mas aguardei ansiosamente

    , até que crescesse, só que quando fui

    lhe buscar, o seu coração já tinha

    sido tomado por Ele.

    _Não foi tomado. Eu o dei para ele.

    _Foi tomado sim. De mim. Eu deveria

    ter sido o seu par, não aquele idiota

    do príncipe.

    O ódio e a mágoa nos olhos do belo

    estranho, são bem visíveis, e dão fortes

    calafrios na jovem mulher, que não se

    sente nada a vontade, na presença

    da ilustre figura.

    _Se isso é verdade, por quê Lúcifer

    nunca o mencionou!? Ou te vi na

    hora que despertei?!

    _Lúcifer apoia sua união com Leviroth,

    e por culpa pelo o quê um dia sentiu por

    mim, você apagou nossas memórias.

    _História bonita! Mas eu sempre fico

    com Leviroth, por quê insiste!? É

    óbvio que a deusa mãe não

    me fez pra ti!

    _Porquê Eu quero você. Tanto que

    roubei as tábuas do destino, que a tal

    deusa destinada a mim, um dia pegou

    do deus aquático, e lá escrevi que é

    para sermos um só.

    _Você é louco.

    Ele se prepara para responder, porém antes

    que o faça, é atingido por um dardo na nuca, e

    desmaia. Preocupada com quem possa ser, ela

    empurra o corpo dele, se rasteja para fora do

    carro, pronta para correr, antes que a

    peguem também.Ele se prepara para responder, porém antes

    que o faça, é atingido por um dardo na nuca, e

    desmaia. Preocupada com quem possa ser, ela

    empurra o corpo dele, se rasteja para fora do

    carro, pronta para correr, antes que a

    peguem também.













    Capitulo 3- Mais mistérios no ar.




    A moça passa por trás do carro, e aumenta a velocidade 

    de seus passos, correndo para longe do veículo, antes que

    seja atingida como o homem que a sequestrou. Os seus

    cabelos esvoaçam ao vento, é evidente que há medo

    em seu olhar, ela precisa sair dali, pois como 

    nas outras vidas, os inimigos são 

    perigosos.

    _Isabelle S Calligari De La Cruz.

    _Como sabe o meu nome?

    _Não há tempo para responder.

    Venha comigo.

    _Socorro!

    Um ser alado levanta voo, pegando-a em

    seus braços, e este a coloca dentro de um carro

    em movimento, através do teto solar, e entra logo

    em seguida. A morena olha para os lados, e vê que

    o marido, está recebendo os cuidados médicos

    logo a frente, e se não estão tentando-a

    lhe separar dele, inimigos não

    devem ser.

    _Para onde estamos indo?

    _Logo irá saber senhorita Calligari.

    _Por quê estão nos ajudando?

    Quem são vocês?

    _São respostas que logo irá obter.

    Mas antes há outras pessoas

    a serem encontradas...

    Responde-lhe o anjo, com um sorriso, e lhe

    aplica um sonífero no pescoço, que a faz desmaiar

    em seu ombro. Não permitindo-a vê-lo, e talvez o

    reconhecer de algum lugar. O carro segue a

    viagem, e entra num túnel, no qual

    desaparece. Olhos se movem, ainda fechados, e se 

    abrem em sincronia, outra vez As 4 fases da Lua está

    reunida, porém uma integrante não está presente, e 

    esta é Natasha, que neste momento lidera as atuais

    tropas da bandeira vermelha, por ter sido uma

    dos convertidos em Filhos das cores.

    _Onde estamos?! Belle?! Victória?!

    _Alexandra?! (Dizem em uníssono)

    _O quê aconteceu para virmos 

    parar aqui?! Horácio?!

    _Alexandra? Está tudo bem meu

    amor?!

    _Isabelle...Isabelle não vá com ele...

    Leviroth parece ter pesadelos, e a sua

    amada, pula do sofá negro, correndo para 

    acordá-lo, e antes que haja mais confusão, 

    o agente que salvou a Senhora De La 

    Cruz, caminha no meio da sala.

    Ele é pálido como a lua, tem olhos azuis,

    e cabelos negros curtos. Apesar da roupa de 

    agente de elite, este não se mostra muito 

    formal, e se escora na beira mesa, 

    atraindo a atenção deles.

    _Olá para todos.

    _Isso daqui não é um dos jogos

    mortais não é?!

    _Alexandra isso não tem sentido!

    _Garotas...

    _Ué é Belle, os caras não nos deixaram

    ver como se chega aqui. Preciso saber

    se estamos em perigo.

    _E você acha que eles nos diriam?

    _Ninguém está em perigo aqui.

    Não ainda pelo menos.

    _Viu como foi bom perguntar?!

    _Seria melhor não saber.

    _Vocês foram convocados, porquê

    precisamos da sua ajuda.

    O agente revira os olhos, e os rapazes ficam

    analisando aquilo friamente. Tentando saber a

    onde isso dará. Sabendo que as palavras não

    serão o suficiente, o rapaz liga a TV LCD atrás 

    dele, e mostra as imagens do fatídico dia

    do banquete diabólico.

    _Não! Algo deu errado! 

    _Leviroth! Leviroth! 

    _Sua vadia! Espero que morra!

    _Victória ele quer o controle 

    de volta! Não vai dá!

    _Belliath! Não!

    _Samalast! 

    _Alexandra!

    _Não confie neles Natasha!

    _Meu amor!

    Vários corpos ficam atirados ao piso sem as

    suas órbitas, como se tivessem queimado por

    dentro. As 4 bruxas olham para os cadáveres,

    e ficam em estado de pânico, sem saber o

    quê fazer. Forças obscuras saem de dentro do

    tal portal, dando gargalhadas, por enfim ficarem

    livres de suas prisões. Elas giram entorno das

    feiticeiras, até por fim irem para cima

    delas, fazendo-as berrar em

    desespero.

    _Sim nós sabemos o quê fizeram.

    _Éramos jovens, não sabíamos que o 

    resultado seria este! 

    _Só queríamos ver nossos pais!

    _Eu só queria saber se real!

    _Sim, sabemos disso. Se acalmem.

    _Eu não matei o Dantas.

    _Eu não mandei o Roger pro

    hospício.

    _Eu não destruí o meu namorado.

    _Não exagerem. Nisso são culpadas.

    Diz o moreno, e Isabelle fica irritada com

    a atitude fria dele. Por isso se levanta e vai

    ao seu encontro, pronta para bater nele

    se preciso, afinal de contas tinha sido

    um idiota, e merecia uma bela

    correção.

    _Como você ousa dizer isso?!

    Não vê o estado em que elas

    estão?!

    _Pensassem nisso antes de querer

    brincarem de Deus. Luciféria!

    _Como sabe o meu nome real?!

    _Não importa. Me perdoe eu

    fiquei nervoso.

    _Como sabe disso?!

    _Ele sabe porquê é um arcanjo

    Izzy.

    Diz Leviroth os separando, antes que ele

    se matem ali mesmo. Porém quando vê o

    rosto do agente de perto, de imediato o

    reconhece, e isto o faz ficar catatônico,

    e implorar com o olhar, para que não

     diga nada para Isabelle.

    _Um Arcanjo?!

    _É. Um dos que te levou para o céu.

    _Isso mesmo. Eu quem te assassinei

    na outra vida, para impedir que

    abrisse outro portal.

    _Agora que não confio mesmo em

    você! Pior que os Filhos das Cores 

    é a tua raça!

    _Calma Izzy.

    _É a mesma que a sua. Então cuidado

    na hora julgar. Eu abri minhas asas e voei

    contigo, pensou que fosse o quê?

    _Eu sou diferente! Eu sei lá um

    mutante?!

    _Já chega vocês dois.

    O marido a leva de volta para o sofá, e

    olha para trás, o ser alado agradece com

    gestos, e o demônio olha com indiferença,

    sentando-se junto da esposa, que ao se

    ajeitar, o encara com raiva latente.

    _Não estou aqui para achar um

    culpado, e sim uma solução.

    _Como se Lúcifer ou Satã fossem 

    nos permitir, ajudar anjos imundos 

    como você.

    _Eu permito, e aliás sou um só.

    Diz um homem tão louro, que parece ter

    sido coberto pela luz mais radiante do mundo.

    Ao vê-lo Isabelle cai para trás, e Victória fica

    de queixo caído. Junto dele vem Belial, e

    o deus sumério Enki, agora batizado

    como Leviatã.

    _Papai?

    _Eu e Victória somos irmãs?!

    _Não entendo por quê estão tão 

    surpresas. Já os viram antes.

    _Venham cá, dá um abraço minhas

    princesas queridas.

    Lúcifer abre os braços,  tornando-se agora 

    um belo moreno de olhos vermelhos, e com o

    par de chifres exposto, e Victória corre para

    abraçá-lo. Isabelle fica congelada ali, sem

    se mover, e por isso o pai vai ao 

    seu encontro.

    _Ainda bravinha e ciumenta não é

    Luciféria?

    _Só estou assustada. Foi me dito que

    um dia herdaria o seu reino, e a 

    Vic o reino de Satã.

    _ E ambiciosa, como o pai...

    Confundiram as suas mentes minha

    Princesinha. Ninguém vai herdar reino

    algum, porquê sou eterno.

    _Que animador...

    _Mas você e Victória, tem os seus

    próprios, que foram feitos com muito

    carinho pela sua amada mãe Lilith.

    _Então ? 

    _Vocês não são só princesas do

    Caos. São rainhas de reinos

    distintos.

    _Interesseira!

    O agente tosse, chamando a atenção de

    Isabelle, e o imperador do Caos, ri daquilo

    notando o raio que está saindo dos olhos de

    ambos, que estão se fulminando sem parar,

    como se houvesse alguma história, por

    trás de tanto ódio mútuo.

    _Algumas coisas nunca mudam...

    _Não, não diz...

    _Não diz o quê? Estrupício de asas?

    _Não é Miguel?

    _Ela vai me matar agora.

    _Miguel? Arcanjo Miguel?!

    _Isso mesmo querida.

    A bela de imediato se afasta, e Victória e Alexandra vão 

    atrás dela. Miguel e Lúcifer discutem um com o outro. “Não 

    tínhamos combinado que ela não saberia?!” “E te dá a chance 

    de desgraçar a vida dela de novo?” “Eu nem queria voltar a me

    envolver com aquela maluca! Estou trabalhando aqui contra

    a minha vontade!” “Não pareceu isso Nergal.” “Dá pra parar

    de entregar meus nomes de bandeja?” “Então pare com a

    sua procura, por motivos pra discutir com Ereshkigal, 

    foi assim que começou da outra vez.”

    _Belle está tudo bem?

    _Parece que cê tava certa...

    _Eu tô bem Vic, e concordo Alex.

    _Vai conseguir fazer a sua missão com ele?

    _Ele não parece muito interessado em voltar,

    então pode ficar fria.

    _É, eu vou ficar calma. Não é nada demais.

    Olha para o agente que continua a brigar com o irmão,

    que segue gargalhando, zombando das desculpas do pobre

    , que se mostra incomodado com as alegações. Seu olhar de

    medo, se cruza com os da jovem, e ambos ficam parados,

    totalmente desconsertados. O Anticristo não tinha lhe dito 

    mentiras, ela realmente teve outros pares, e o arcanjo era um 

    deles, mas como o seu amor por Leviroth era maior, ela fingia

    que não existiam. Ele passa a mão no cabelo cortado, e por

    fim respira fundo, indo ao seu encontro. Ao chegar as

    amigas o observam como leoas prontas para

    avançar.

    _Me perdoe. Eu só fiquei irritado por

    falar mal dos anjos.

    _Tudo bem.

    _O quê aconteceu no passado, fica enterrado lá.

    _Concordo plenamente com você.

    _Podemos trabalhar juntos?

    _Certamente.

    Apertam as mãos como adultos maduros, e ele se 

    distancia, recompondo-se, após engolir a verdade seca,

    que lhe dói a garganta. “Fica no passado.” Olha para ela

    e Leviroth juntos, sorrindo um para o outro. “Enterrado

    lá.” Fecha os olhos com tristeza, e se esforça para 

    fingir que está tudo bem.  

     Olha para ela

    e Leviroth juntos, sorrindo um para o outro. “Enterrado

    lá.” Fecha os olhos com tristeza, e se esforça para 

    fingir que está tudo bem.

    _Todos reunidos. Agora podemos seguir adiante.

    O agente começa a descrever por quê cada um foi

    convocado ali. Contando toda a história que veio dá 

    origem, a esta estranha união entre iluminação e 

    trevas, com o auxílio de slides. “É dito na bíblia 

    que após a queda dele, escuridão e luz não devem 

    se misturar. Mas dado as tristes circunstâncias em que

     tanto anjos quanto os demônios, estavam a mercê da 

    extinção não tivemos outra escolha, senão nos

     juntarmos.” Inicia, com

    o olhar fixo no nada, e mostra imagens da luta

    entre o céu e o inferno. “Eles queriam paz, e nós

    a guerra porém ambos utilizamos os mesmos meios 

    para isso, e foi assim que o libertamos.” Mostra a 

    imagem do Chapeleiro para todos, e a filha de 

    Lúcifer sente um incômodo. “Todo o nosso ódio e

    mágoa, nos deixou tão cegos, que nem percebemos

    quando ele se apossou de nossos mundos, e quando

    voltamos a razão, era tarde demais.” Mostra o paraíso

    devastado, e o inferno dominado. “Por muitos séculos

    vagamos sem um lar, até acharmos este planeta no

    qual nos estabelecemos.” Mostra a chegada dos 

    Anunnakis e os reptilianos, e como eles se

    desenvolveram. “Haviam alguns conflitos vez ou 

    outra, pois somos como água e óleo. Mas nós criamos

    uma bela comunidade, tanto para anjos, quanto para

    os demônios.” Aponta para o Egito, e demonstra os

    deuses, mas não há bons ou maus, apenas os

    iluminados, e os obscuros. “Infelizmente ele nos

    encontrou. Meu povo foi escravizado outra vez, e os

    demônios se curvaram para ele, para sobreviver. Só

    restou um punhado de anjos e demônios, seguros

    do Pacto de Harmonia.” Ele mostra os seres de

    amaduras vermelhas, se curvando para o 

    ser. “Ele é aparentemente só um garoto, mas não

    se enganem, seu poder era tão grande, que o próprio

    pai, tentou devorá-lo, para o impedir de reinar.” As

    cenas agora se passam na Grécia antiga. O garoto

    é um homem agora, que domina as terras sombrias

    , e o Olimpo. Sim ele é Zeus e Hades, mas em 

    períodos diferentes. Pois o verdadeiro Zeus é o

    próprio Lúcifer, renascido após ter sido preso pelo

    próprio filho, quando era o Titã Prometheus. “Você

    será jogado na Terra do não retorno.” Diz-lhe o titã. 

    “Eu voltarei, e tomarei o trono de ti outra vez Zeus.”

    Declara o inimigo. “Dizem que Perséfone é assim.

    Mas esta foi uma forma que propagamos para 

    garantir a segurança dela.” Ele olha para

    o anjo das bruxas.

    “Só que a sua verdadeira forma é essa.” Surge o

    retrato da deusa, e as bruxas se viram para Isabelle

    , que fica transtornada com aquilo. “É idêntica a ti.”

    Diz Victória fascinada com isso. “Tem até as suas

    Tetas.” Alexandra brinca, e a jovem se cobre

    com os braços. “Ao contrário do quê os humanos

    dizem, Koré não era uma virgem, e tão pouco estava

    livre naqueles tempos, tinha um relacionamento 

    com Thanatos, sob a alcunha de Macária, e com ele teve um 

    bebê. Algo que enfureceu  bastante o

    deus dos infernos gregos, e por isso 

    ele a tomou para si.” O rapto da deusa, é mostrado

    em obras de artes, que não condizem com a sua forma

    verdadeira. “Os humanos inventaram também que a deusa

    Afrodite, era um equivalente de Inanna, a deusa mesopotâmica

    , e que esta tinha descido ao Inferno, apenas para rever o seu

    amante Adônis.” Imagens de Afrodite e Adônis surgem na

    tela. “Mas como devem saber, assim como a descida dela, a

    sua identidade também é uma mentira. Esta é a antiga forma

    dela.” A imagem da deusa é idêntica a Victória. “Isso explica

    porquê sempre acreditou no amor, mais que todos.” Diz

    Isabelle. “Ou porquê teve tantos namorados.” A outra

    bruxa brinca. “Afrodite não nasceu da espuma do mar, esta

    é uma metáfora, que esconde o seu outro nome Despina. A

    deusa renegada.” Segue contando a história sem muito

    interesse. “Ao contrário do quê a humanidade prega, ela não

    foi deixada para trás, porquê Deméter era má, ou por ser fruto

    de um abuso. Mas sim porquê Despina compactuou com os

    titãs, na guerra, para roubar o trono de Perséfone, a sua

    irmã mais velha.” Victória se sente triste, mas Isabelle segura

    sua mão, dando-lhe apoio. O quê ocorreu naqueles tempos, é

    para ser esquecido, pois hoje em dia são melhores amigas. “

    E foi assim que garantiu que Perséfone fosse levada

    ao Inferno.” Prossegue. “Despina teve orgulho de seu ato

    cruel, até sofrer as consequências. Deméter ficou desolada pela

    perda da filha, e por esta razão esqueceu dos outros filhos, não

    se importando com nenhum deles, exatamente como quando

    a caçula nasceu.” Ao ouvir aquilo Isabelle fica de queixo

    caído, pois nas suas visões em que tinha uma irmã

    , esta parecia ser muito mais amada. “Hera não queria deixar

    que Deméter fizesse um acordo para devolverem a filha. Afinal

    de contas, ela era o pilar de Despina neste plano, pois tudo o

    quê desejava, era fazer a sua rival sofrer, por tira-lhe o

    amor de Zeus.” Ao verem a história, as irmãs se entreolham,

    e lembram das vezes que viam sobre Ninlil e Inanna, que

    desde o principio queria o amor de Enlil, mas como este era 

    da irmã, ela ficou furiosa. “Me perdoa Belle.” Victória se

    sente incomodada, e chora, abraçando a sua 

    irmã. “Esta tudo bem. Nos preparamos para este dia Vic, ou

    esqueceu de como foi que nos conhecemos?” A dama ri, e a 

    moça fica sem jeito. “Despina se arrependeu, e foi até

    Hades, desfazer o acordo, mas o deus tinha se apaixonado 

    pela deusa, e não a queria deixar ir, pois temia que nunca

    mais voltasse.” Isabelle sente uma dor na garganta. “Triste

    pela derrota, a deusa renegada caminhou sem rumo, até cair no

    mar, e se encontrar com outra divindade, que estava morrendo em

     meio a tantas guerras e desavenças.” Surge a primeira Afrodite 

    celestial, sentindo-se fraca. “Me perdoe. Eu não sabia que meu ódio 

    poderia causar tantas desgraças.” Implora o perdão da deusa, esta sorri 

    e toca em seu rosto, puxando-a para perto. “Este é o meu fim Despina.

    Por tua causa, Eu o Amor estou morrendo, e é por isso que precisa

    consertar o teu erro.” Disse-lhe a deusa a beira da morte.

    “Como? Se tudo o quê consigo fazer é congelar e destruir o quê a

    minha mãe cria.” Chorou a menina de cabelos brancos e rosto jovem.

    “Através do amor minha querida. Através do amor.” Disse-lhe com

    as mãos em sua face, e a beijou calorosamente, preenchendo o

    frio em seu coração, com tanto calor, que seus cabelos

    mudaram de neve para vermelhos como as

    rosas. A luz brilhou, e por fim ela saiu das espumas renascida, a

    velha Despina, amargurada e louca por destruição tinha morrido, e

    dado espaço para a segunda Afrodite, que faria o quê estivesse ao

    seu alcance, para salvar a sua irmã do marido. “Despina não foi a

    única a receber o beijo de uma deusa, que lhe deu novos poderes.

    Koré também tinha passado por este processo, e por isso sua irmã

    se sentiu tão mal.” O anjo explica, e Isabelle fica

    a se questionar.

    _Perdão mas está errado. Eu vi o meu passado.

    Eu era a invejosa, não Despina.

    _Até onde exatamente você viu? Na infância sim,

    teve suas razões para detestar a sua irmã, pelo tipo

    de carinho que Deméter dava a ela. Mas depois que

    ficou mais velha, e recebeu a graça de Nyx, sua

    mãe teve muito orgulho de você.

    _Sim, mas Despina era mais amada e 

    querida.

    _Não, quem te disse isso?

    _Uma bruxa chamada Ariadna.

    _Ela mentiu para você. Sempre foi muito amada

    por seus pais, por ser a primeira filha deles, e mesmo

    achando que não, eles te deram tudo o quê podiam

    , para te fazer feliz. Só que o fato de dividirem 

    este amor com Despina, que te deixou

    tão chateada.

    _Mas Ariadna...

    _Claramente não é de confiança.

    Responde e prossegue ignorando os outros apelos. “Eu disse que

    nós duas fomos bem amadas.” Resmungou Victória com alegria, por

    saber que não deixou sua amiga sofrer. “Para chegar no lar

    do deus do submundo. Afrodite foi até a deusa Tétis, e pediu-lhe

    para levá-la ao fundo do mar. Para assim chegar as águas,

    que passaram pelo Tártaro.” Contou a história, e como já era de

    se esperar, Tétis tinha traços idênticos aos de Alexandra, que fez logo

    um sinal, para que as irmãs se calassem. “Em várias culturas, estas 3 deusas

    foram muito conhecidas, e como ambas tiveram domínio do submundo, logo

    formaram a egrégora de Hécate, que deu origem ao surgimento de uma

    nova deusa na mente humana.” Eis que aparece a imagem da deusa

    de três cabeças. “Afrodite, representava a jovem. Tétis a mulher,

    e Perséfone a anciã, por herdar o poder de uma titã.” Mostra a estátua,

    e aponta para o símbolo lunar na cabeça da deusa. “Esta imagem das três

    fases da lua, foi muito presente nas culturas, e suas histórias se repetiram,

    fazendo-as serem conhecidas por outros nomes. Por isso é muito comum

    , encontrar deusas equivalentes.” Diz  apontando

    para as deusas semelhantes, de outras culturas, e Isabelle ergue

    a mão, o fazendo revirar os olhos, por temer que isso

    gere uma nova discussão.

    _Sim Isabelle pode falar...

    _O meu equivalente nórdico é a Hel. O quê não coincide

    em nada com a Perséfone.

    _Não coincide com o quê os humanos sabem, mas você

    é como uma segunda Nyx, portanto faz sim sentido.

    _Se diz...

    Ele sorri forçadamente e prossegue com as explicações. Sabendo 

    agora dos seus reais poderes, que vão além dos 4 elementos, as jovens 

    são conduzidas para fora da sala, e levadas até o ginásio, onde uma das

    belas tem uma surpresa devastadora. “Você é minha agora.” Se recorda

    Victória, ao ver um belo homem de cabelos longos e negros, pálido, e

    de olhos azuis escuros, que está com o olhar vazio de um

    assassino mortal.

    _Com licença, mas o quê ele faz aqui?

    _Ah, perdão Victória. mas devido

    ao seu poder como Despina, você deu

    origem aos seres vampíricos, e por isso

    Gabriel, irá te ajudar a manipular os

    seus dons.

    _Nunca odiei tanto o fato de ser vampira.

    _Vai dá tudo certo. Você e Bóreas se

    separaram, já faz alguns séculos.

    Ele segura em seu ombro, e a empurra para os braços do irmão, lhe

    deixando, numa bela saia justa. Alexandra, e Horácio são chamados pelo

    anjo Salatiel, e ao ver este a jovem da moda caveira, cospe a água que usou

    para se acalmar, por encontrar o aparentemente ex ali. Vendo-a ali, o loiro

    de olhos verdes, sorri e acena sem más intenções, mas esta não retribui e

    sai correndo até Isabelle. “Eu não sei quem vai te ajudar. Mas você não

    me deixar sozinha com aqueles dois.” Aponta para os alados, e

    Belle arregala os olhos, puxando-a para o canto, onde

    conversam baixo.

    _Pelo visto não sou a única “ferrada” aqui.

    _Para de brincar Belle. Sabe como me sinto como

    sobre isso.

    _A gente teve tempo para se preparar, mas fomos

    ingênuas. Agora é respirar fundo, e trabalhar

    com eles.

    _Como você está sobre Miguel?

    _Bem ué. Eu temi a toa, ele me quer tanto

    , quanto eu quero peixe.

    _Detesta mais que a própria vida?

    _Exatamente.

    Ri e o arcanjo ouve aquilo com desgosto. “Sem querer

    interromper esta conversa, mas é hora de ir.” Ele chama

    a bela, e a pega pelo pulso, afastando-a da amiga. “Eu sou

    adulta.” Diz de má vontade. “Então haja como tal, e não

    se atrase para a sua aula.” Ele a arrasta, e ela se solta.

    “Eu não vou. A minha amiga precisa de mim.” Ela

    volta para Victória, que está pálida.

    _Ela vai ficar com o Gabriel. Você sabe o quê

    eles vão fazer, e não vão se matar.

    _Ela está noiva de Belliath!

    _Ah é? É costume da família dormir com outro

    no noivado. Vamos embora.

    _Não tínhamos parado de brigar?!

    _Tínhamos. Até você fofocar com a sua 

    amiga, que me odeia mais que a comida

    que detesta. Sendo que eu só te salvei

    , daquele maluco.

    _E não é verdade?! 

    _Só porquê eu disse que te acho maluca.

    Não quer dizer que te detesto.

    _E o quê quer dizer então?!

    _Que você é louca oras. Agora larga ela,

    seu marido e eu iremos te treinar.

    O anjo a afasta outra vez, e Victória fica com os

    olhos arregalados, sentindo Gabriel vindo por trás

    dela. “Vamos treinar. Preciso te ensinar a arte da

    caça.” Sussurra em seu ouvido, segurando em

    seu pulso, e inspirando a pele do seu 

    fino pescoço.

    _Eu sou noiva de Belliath.

    _Sua irmã era noiva do meu irmão.

    _Corta essa, eu sei que é filho de Bael.

    _Não sou. Bael foi um tio amável que me

    reconheceu, até se tornar Deus, e agir

    como tal.

    _E eu devia ter pena?

    _Não. Mas devia se lembrar, que nem

    sempre conseguiu resistir a mim.

    Responde dando-lhe um beijo no pescoço, que

    a deixa arrepiada. Mas para disfarçar, ela o segue e

    pega a luva de garras. Isabelle caminha ao lado do tal

    arcanjo, e entra na sala de tiro. Leviroth está acertando

    até os menores alvos com exatidão, e para não ficar

    para trás, Miguel pega uma arma, e também 

    atira, como se os dois competissem.

    _Preste atenção Isabelle.

    _Fique em silêncio e calma.

    _E se não conseguir... Apenas pense

    em algo que odeia.

    _Verdade. Imagine o prazer de atirar na

    cabeça deste ser.

    _Mire na garganta para acertar o alvo.

    Os dois atiram na mesma direção e acertam. A dama

    fica de queixo caído, e se afasta pelos raios produzidos 

    pela tensão deles. Mas Leviroth a pega por trás, e lhe

    dá uma arma para treinar. “É a sua vez amor.” Ele

    diz e lhe ajuda a mirar. Ao ver a bela, sendo

    guiada, o agente se incomoda.

    _Eu preciso tomar um ar.

    _Eu cuido das aulas.

    _Por mim tudo bem.

    _Até mais.

    O agente acena de má vontade, e sai do local, não

    querendo mais ver aquilo. Leviroth ri e abraça a esposa,

    dando-lhe um beijo caloroso. “Alguém se chateou.” Ri da

    dor do rival. “Se chateou? E você não perdeu a chance

    de piorar as coisas.” Ela brinca, e ele volta a lhe

    pegar pela cintura, encostando-a na

    parede.

    _É evidente que ele quer lembrar os

     velhos tempos.

    _Não quer nada. A gente se detesta.

    _Vai por mim, sou um espécime masculino.

    Ele não te olha com desprezo.

    _Acho que você está paranoico.

    _Não estou. Você pode não ter se preparado

    para este momento, mas eu sim.

    _Foi em vão. As chances de eu ficar com Miguel

    , são iguais a gostar de peixe.

    _Você já comeu peixe 3 vezes Izzy.

    _Comer, não significa gostar.

    _Mas que quis experimentar. Eu sei que disse

    que te deixaria ir, só que não vou fazer isso

    sem lutar, ok?

    _Você não precisa. Já me tem há mais de 9

    anos.

    Diz beijando-o com fervor. Tomado pelo medo de

    perdê-la, ele a carrega, segurando-a com força, e com

    vontade. Seus lábios vão para o pescoço dela, passando

    a língua com todo o desejo de sua licantropia, e lhe

    descendo as garras pela costa, por dentro do

    seu vestido já aberto.

    _Podem nos ver...

    _E isso importa? São adultos. Vão ignorar.

    _Você é um louco.

    _E você ama isso em mim.

    Ele abre as calças, e a deixa de joelhos. “Prove que

    é minha.” Coloca-lhe no piso, e ela se ajoelha. O órgão

    está rígido, apontando para o céu, e a bela o abocanha

    com as mãos para trás, enquanto ele lhe acaricia o

    topo da cabeça. Há tanta sede nela, que sua

    boca transborda saliva.

    _Você é minha?

    _Sim.

    _Somente minha?

    _Sim.

    _Então mostre-me o quanto me ama.

    Ela faz movimentos com a língua, saboreando seu

    membro, como um picolé encontrado no deserto. No

    entanto quando se cansa, o morde, e arranha o seu

    peito, erguendo-se como uma deusa soberana,

    sob um daemon. Algo que o faz sorrir, pois

    é sua hora de amá-la.

    _Ah Tempo cruel. Gosta do sabor de sua

    doce Alice?

    _Adoro!

    _Quanta sede. Parece está me devorando...

    _E você não quer ser devorada pelo

    Tempo?

    _Não! Eu quero devorá-lo!

    O empurra, e então monta sob o seu corpo, como

    uma amazona, e escorre liquido do meio das sua pernas,

    envolta do falo dele. O agente resolve voltar, e se depara

    com a cena. Ao ver os olhos de prazer intenso da moça,

    ele de imediato desaparece. O demônio não está

    errado, há interesses obscuros no anjo.

    _Devemos terminar... logo...Tempo.

    _Não, enquanto você não provar o seu desejo.

    _O quê deseja de mim?

    _Que se entregue, e esqueça onde estamos.

    Ele a abraça, e a coloca deitada no piso. Mergulhando

    seus dentes nos seios dela, e a fazendo delirar de loucura

    amorosa. Ao ponto de gemer tão alto, que sofre uma

    represália. Seu amado puxa-lhe o cabelo na nuca,

    e lhe cala com um beijo.

    _Ah!

    _É esse rosto que gosto de vê...

    _Ah! Eu vou! 

    _Sim querida, me pinte com sua 

    tinta deliciosa...

    _Ah! 

    Ela o beija, sentindo seu corpo trêmulo, e suas palmas

    afundam no peito, enquanto ele a prende em cima, com

    um sorriso maldoso, não a deixando escapar, até não ter

    mais gotas peroladas. Os olhos dela se apertam, é uma

    energia muito grande, até que não suporta, e os

    dois se derretem no fogo do amor.

    _Eu preciso tomar uma pílula. 

    _Eles devem ter por aqui.

    _E se não tiverem?

    _Odin vai nascer...

    _Vai me prender de novo com um filho?

    _Funcionou da outra vez, por quê

    não?

    _Você é um idiota.

    _Mas você não vive sem mim.

    Ele se deita e ela se recosta em seu peito adormecendo.

    Mais tarde... os efeitos da paixão foram tão fortes, que o ser

    das trevas continua adormecido. Contudo o medo de Isabelle

    de engravidar uma segunda vez, a faz se levantar, e dá uma

    volta pelo corredor, onde por coincidência se encontra

    Miguel, que está sentado na parede, e nota o seu 

    medo.

    _Precisando de uma pílula do dia seguinte?

    _O quê? Como sabe?!

    _Eu voltei a sala... e vi tudo.

    _Ah sim... Não tem nada demais a 

    gente é casado, é o quê pessoas casadas 

    fazem oras. Elas transam!

    _É, eu sei. Sei também que praticam

    isso há mais tempo, que a sua 

    união.

    _Por quê minha vida pessoal te

    interessa tanto? 

    _Não interessa só não pude deixar

    de refletir a respeito.

    Ele se levanta, e entrega a cartela a ela. Seus olhos

    azuis estão frios, magoados por alguma razão. Na sua

    mente, se passam pensamentos dos quais pode vim a se

    arrepender, se colocar em prática. “Como ela ainda mexe

    tanto comigo?” Pensa ainda parado ali, imerso em sua

    cabeça. “Ele está cada vez mais estranho.” Ela

    o olha, e se afasta.

    Sem dizer nada, sua mão agarra o pulso dela, não

    a deixando ir. Ele fica cabisbaixo, sabe que o quê quer

    que esteja planejando, pode ser um risco gigante dado

    ao fato, de que Leviroth, Lúcifer, Enki, Belial, e todos

    os deuses que não aprovaram esta união, podem

    puni-lo a sangue frio.

    _Eu preciso ir.

    _Não precisa. É noite, todos estão dormindo.

    _Você está me assustando...

    _Eu não sou o Anticristo. Não tentarei nada.

    Apenas fique.

    _O quê há com você? Horas diz que me odeia,

    minutos depois parece que...

    _Eu ainda te amo? 

    Aquelas palavras a quebram em mil pedaços. Numa

    explosão tão impactante, que ela fica sem palavras. Ele

    da um passo a frente, ela dá dois para trás, e acaba “no

    muro”. Suas mãos tremem sem parar, Leviroth está

    certo, ele não a olha com desprezo, e quer

    reviver os anos dourados.

    _Você me odeia lembra? Não quer se envolver

    com uma maluca, não tem a intenção de

    cometer esse erro de novo.

    _Eu disse aquilo para me proteger. Mas ainda

    sim, te deitei em meu ombro antes de 

    chagarmos aqui.

    _Não tem nada demais...

    _Eu te quis perto de mim.

    _Você, tá confuso, não sente nada por

    mim, não mais. Você mesmo disse “o

    passado fica enterrado lá.”

    Diz ela e ele segura em sua face, e tudo acontece rápido 

    demais, para que consiga impedir. Seus lábios estão ligados

    aos dele, seus olhos se fecham por um breve segundo, mas

    ela luta para ficar acordada. Não se entregando aos seus

    impulsos românticos, e ficando petrificada diante dele.

    O quê o leva a entender que só um dos lados

    sente algo, e não é ela.

    _Me desculpa.

    _Tá tudo bem...

    _Eu só me deixei levar pelo ciúme...

    _Não diga nada. 

    _O quê?

    _É melhor se convencer que não sente nada

    , absolutamente nada por mim.

    _Eu não posso. Não dá mais.

    _Você teve o seu tempo, e não veio. Me deixou

    cartas, mas nunca se aproximou.

    _Como você...

    _Eu te amei naquele tempo, de verdade.

    Mas você não sentiu o suficiente para

    lutar por nós.

    _Você corria risco de vida!

    _Eu queria me arriscar!

    Grita tão alto que sua voz ecoa pelo local, e ela

    mesmo se cala. Lágrimas escorrem pela sua face, e

    tudo vem a tona. Ele esteve presente nesta vida, só

    que era como um admirador secreto, um vampiro

    a espreita, que por mais que se comunicasse,

    nunca podia se aproximar.

    _Eu esperei incansavelmente por você.

    _Eu não podia... Isso ia te matar.

    _Eu nunca me importei em morrer e você

    sabe.

    _Mas Isabelle eu não queria te perder de novo,

    como quando se atirou para fora do paraíso

    , e se matou.

    _Você sabia quem eu era...

    _Sempre soube. Tive uma minha memória intacta

    sobre o passado. 

    _Então por quê não lutou pra ficar comigo?!

    Lhe bate no peito, e ele segura seu pulso, abraçando-a

    forte em seguida. “Fora o risco. Você tinha que fazer a sua

    escolha sozinha. Te mandar cartas foi uma trapaça.” Ele diz

    em seu ouvido, e uma lágrima cai no piso. “Era lindo ler 

    que seria minha até depois da morte. Mas eu não

    podia te condenar a mim outra vez.” A

    aperta.

    _Minha vida, assim como a sua, não foi um

    mar de rosas. Também tive uma mãe louca,

    só que a minha matou todas as minhas

    namoradas.

    _Forma bonita de preservar o amor...

    Com muitas namoradas.

    _Você não era uma humana estúpida,

    tinha valor para mim, e merecia ser feliz

    , longe de todo este...este inferno.

    _Eu teria enfrentado as chamas com

    Você.

    _Teria acabado morta, por não ter despertado.

    _Então me deixou ir...

    _Sim. Mas não totalmente...Sempre te protegi

    de longe, mesmo quando pensou está só.

    _Isso não é verdade...

    _Acha que aquele bandido que te abordou

    pegou fogo por acidente?

    _Mas quem me protege desta forma é o diabo.

    _Lamento te informar...mas ele não é o

    único.

    O belo se lembra do tempo que tinha os cabelos longos

    até o ombro, e a vigiava, quando não fingia ser humano. A

    salvando de malfeitores, que poderiam chegar ao lugar no

    qual se encontrava. Algumas vezes não resistia, e entrava 

    em seu quarto, no escuro, e ficava vendo-a dormir. Mas 

    tudo isso parou, quando Bener entrou na vida dela, pois

    o anjo tinha consciência, de que o demônio também 

    poderia protegê-la, por isso partiu. Ela respira fundo

    , e o afasta, deixando-o sem jeito.

    _Obrigada pela ajuda.

    _Mas?

    _O quê aconteceu, não 

    vai se repetir.

    _E ?

    _Você vai contar ao meu 

    marido, mesmo sabendo 

    das consequências.

    _Estou ciente.

    _Não precisa. Eu vi tudo.

    Leviroth aparece na porta do lugar,

    com os braços cruzados. A bela corre

    para o marido, e este fica parado. Os

    olhos dela imploram pelo abraço

    dele, e este a envolve contra o

    peito, encarando o 

    outro.

    _Eu já sabia que isso aconteceria.

    _Você me odeia?

    _Não a culpe Leviroth.

    _Como eu disse, vi tudo Miguel.

    Você a cercou, e ela não cedeu.

    _Não mesmo.

    _Se estão resolvidos. Não tenho

    mais o quê fazer aqui.

    _Vai descansar Izzy. Tá tudo bem.

    Ele a conduz para a sala, e a deixa lá, com um sorriso. 

    Mas ao se virar, a sua raiva cresce tanto, que os seus olhos

    ficam negros por completo, e ele flutua em alta velocidade

    , e pegando o rival pela gola da camisa. O erguendo no

    topo da parede, com completa fúria.

    _Fique longe dela.

    _Depois da rejeição, não tinha

    a intenção de fazer algo 

    mais.

    _Estou falando sério "filinho de

    papai"! 

    _O principe renegado está 

    de volta?

    _Ele nunca saiu. 

    _Eu não vou tentar mais nada

    com a sua esposa. 

    _Ótimo.

    O demônio o coloca no piso. Se sentindo mais calmo, 

    ao ponto dos olhos negros, voltarem ao estado normal.

     "Mas eu não vou ficar longe dela." O agente da um

    escorão no rival, e passa por ele.

     

     

     

     

     

    Capitulo 4- O demônio, o anjo

    e a simbiose.

    .

     

    Leviroth respira fundo, e caminha pelo local, até 

    encontrar o templo do deus Enki, que está sentado em

    um trono, acima das águas. Ao ver o rapaz, o deus o

    chama, e este se curva perante a ele.

    _Levante-se garoto. Tu és um

    nobre.

    _Sou um nobre apenas porquê

    me destes a graça, meu 

    Senhor.

    _Isto não é verdade meu jovem.

    _Não é?

    _É hora de saberes a verdade,

    então observe a tua resposta.

    O deus ergue as águas, e cobre o  príncipe com elas. 

    Ele viaja até o seu passado, e se depara com três bebês.

     "Eis o nascimento da luz, das trevas, e do equilíbrio." Diz a 

    voz de Enki. O primeiro bebê brilha mais que o sol, já o segundo 

    enegrece como o cosmo, e o terceiro, ao contrário dos outros, é 

    escuro com a luz em seu interior. "Tem se falado muito da trindade

    feminina, mas há também a trindade masculina, e aliás esta foi a

     primeira a existir." Prossegue com aquela narração. "O pai é a

     existência, e os gêmeos são vida e morte." Conta, e

    surge Samael, segurando dois bebês, junto de Lilith."Antes do 

    nascimento da escolhida, e se tornar Lúcifer, Samael teve dois filhos 

    inicialmente. Um nasceu de sua sede de sangue, o outro surgiu de sua

     justiça." Gêmeos enfrentam um ao outro na barriga. "A luz forte do

    primeiro filho, obrigou Samael a lhe esconder do mundo, para não o 

    queimar. Enquanto a escuridão se  fez viva." Os irmãos se separam. "A 

    primeira filha de Samael  nasceu. A escuridão não se conteve e tomou-a 

    para si, e com ela, a princesa angelical se juntou." A jovem ruiva abraça

    ao demônio de olhos vermelhos. "A menina ao  contrário dos seus 

    irmãos, não herdou nem luz, nem as sombras, mas sim o controle 

    de ambos." Diz o deus com a sua sabedoria, e surge a bela 

    dançando com o amado acima da terra, enquanto o 

    gêmeo de 

    poder solar, olha para ela. "Os três bebês que viu, são os primeiros filhos 

    sagrados." Agora eles estão mais velhos, cada um 

    reinando de uma forma. O gêmeo solar, lidera um império de fogo. O gêmeo 

    negro, lidera a escuridão, e a jovem deusa fica entre ambos, usando forças de luz 

    e trevas. "É dito que Lúcifer reina no inferno. Isso é uma mentira. Ele está acima disso, e reina nos céus como o senhor do ar, da vida, e da criação." Prossegue. "Ele separou

    Anu e Namu, mas criou tudo isto, e seus filhos ficaram responsáveis pela 

    governança de suas terras."  Diz o deus. "Após os mais velhos, seguirem seus 

    rumos, os mais jovens vieram a se preparar, para serem deuses." Os outros deuses surgem, e cada um tem um dom diferente. "Luciféria treinou os deuses que cuidavam das forças da natureza. Bael cuidou dos seres das profundezas. E você, jovem príncipe Azazel, ensinou os seres das sombras." Ao ouvir o nome Leviroth, respira e se 

    afoga.  O quê obriga o deus, a tirá-lo das águas. 

    _Eu sou Leviroth. O príncipe 

    renegado. O rebelde.

    _Não. Você é Azazel o príncipe

    do caos, e grande mago das 

    sombras.

    _Eu sou filho de Deus e Asherah.

    _Não. Você é filho de Enlil e

    Ninlil. Como seus irmãos.

    _Eu sempre servi a Odin e Gaya.

    _Sua mãe é Nyx e seu pai Eros.

    _Mas Luciféria é filha de Zeus e

    Deméter. Outras faces de seus 

    pais, depois de Hades e Hera 

    prendê-los. 

    _Eu sou o filho de Odin. Não do amor.

    Ali por trás da porta, Isabelle ouve a discussão, e vai

    até os aposentos do pai. No qual o encontra sentado no

    seu trono, e se curva perante a ele. “Minha princesa erga-te,

    e jamais se curve a outro nobre, que não seja você mesma.”

    Diz o deus supremo, e a jovem moça, fica de pé indo 

    até ele, que já tem todas as respostas na

    ponta da língua.

    _Quer saber quem é o Anticristo,e o quê ele 

    e você tiveram. Se Enki mentiu ou não para o

    demônio Leviroth. E porquê o chama por

    Azazel.

    _Sim...Primeiro acreditei que ele era meu

    tio. Depois conclui que era meu irmão.

    _Descobriu o certo minha querida.

    _E por quê sonho que sou mulher dele, se

    sou casada com Leviroth?

    _Porquê a luz busca a escuridão...

    _Então ele devia ter um relacionamento

    gay com Leviroth, ou incestuoso com

    minha mãe.

    _Você não sabe mesmo, qual é o seu

    papel nisso tudo não é?

    _Sou a “messias negra”, nascida para

    guiar o teu povo.

    Isabelle revira os olhos, pois desde o episódio da 

    floresta, deixou de acreditar no seu destino grandioso,

    e Lúcifer ri disso, pois nota na filha, a mesma forma com

    a qual a esposa demonstra desgosto. Elas são parecidas,

    até quando a menina deseja se desvencilhar de tudo, pois

    encontrar a si mesmo no escuro, é o mesmo que achar 

    os demônios insaciáveis de Lilith, que ficam a 

    espreita no fundo da mente.

    _E você sabe o quê significa?

    _Que tenho que liderar suas tropas. Sendo que

    só consigo falar com meus amigos?

    _Não tem a ver com o povo Lucy. Tem a ver com 

    você.

    _Eu não tenho poderes como Afrodite e Tétis.

    Controlo ervas e escrevo o futuro.

    _Sua mãe lhe deu o maior dom dela. O dom

    da noite minha querida, com o qual você fez

    de seus irmãos, deuses abissais.

    _E o quê é esse “dom da noite”?

    _É o dom que dá vida as coisas, e que mantém

    o universo em equilíbrio.

    Isabelle se mostra confusa, e o deus se levanta,

    para lhe ajudar a entender melhor do quê se trata.

    A bela recua temendo o quê está por vir, mas o pai

    a segura, e lhe guia até a câmara, onde mostra os

    velhos tesouros da família luciferiana, e o seu

    diário.

    _E o quê isso tem a ver com o Anticristo?

    _Abra o livro da sabedoria, que seu tio Enki

    fez para mim, e saberá.

    _Acha que estou pronta? 

    _Teve 13 anos para se preparar minha

    querida. Vá em frente.

    _Você vai me proteger?

    _Sempre.

    As mãos dela pousam no livro, e com cuidado ela

    o abre. As folhas se passam rapidamente, até que por

    fim viram vultos, e a bela desmaia nos braços do seu 

    pai, deixando seu corpo para trás, até chegar no inicio

    da civilização da Terra. Luciféria está sentada no 

    lado de uma rocha, com lágrimas em sua

    face.

    _Por quê chora criança?

    _Porquê perdi meus pais para sempre.

    _Eles morreram?

    _Não...Mas Ela nasceu.

    _Ela?

    _Minha irmã...

    _Irmãos são complicados. Por isso quis

    matar os meus.

    _Eu entendo.

    Sem saber de quem se tratava. Ela desenvolveu uma

    amizade com o sol do subsolo, e este também sentiu-se

    ligado a moça, ao ponto de fazer crescer uma flor para 

    sentir seu toque. Ela o via como um amigo, um cão de 

    guarda, para quem podia contar todos os seus 

    segredos.

    _Será que brilho tanto quanto o sol?

    _Consegue ver aí dentro?

    _Sim... mas não estou brilhando no momento.

    _Então como está vendo?

    _Joguei minhas chamas nas velas.

    _Entendo.

    _Tudo bem com você criança?

    _Para de me chamar assim. É só a minha irmã...

    Eu só queria matá-la. Mas não quero acabar

    como você Sr. Rá.

    _É, é melhor tomar cuidado. O escuro pode

    não ser agradável.

    A advertiu. Luciféria tinha tanta estima pelo amigo,

    que a entendia como ninguém mais, que passou a ler

    os arquivos de Miguel, para encontrar uma brecha que

    o libertasse, e o devolvesse para este mundo. Sim, ela

    usou o anjo, para conseguir ajudar o ser que vivia

    nas profundezas, e assim o tirou daquele

    lugar sombrio.

    _Você?

    _Você? É a garotinha...

    _Que você molestou.

    _Luciféria me perdoa...Eu não sabia...

    _Você vai voltar pra jaula!

    Tenta empurrá-lo, mas ele segura sua mão, e a olha nos

    olhos, com suas íris cor de sangue. Ele realmente se sente

    culpado, por ter a tocado indevidamente, mas ela só quer

    mandá-lo de volta para a prisão. Miguel presencia este

    momento, e corre para ajudá-la, assim ambos o

    colocam de volta na caverna. Mas ele percebe que foi a

    princesa que o libertou, e fica chateado. Ela se justifica por

    ele ter lhe entregado a Inanna, que queria matá-la quando

    era um bebê, só que o arcanjo continua magoado. 

    “Luciféria?” Pergunta a voz do submundo.

    _Eu nunca mais quero falar com você!

    _Eu sempre te avisei que era um monstro.

    _Não achava que era o Meu monstro!

    _Se acalme. Não há motivos para gritos.

    _Você me tocou, e abusou de outras!

    _Eu lhes dei a escolha.

    _Engraçado, eu não tive esta escolha.

    _Isso porquê Inanna te odiava.

    Ao ouvir a última frase, ela o deixa falando sozinho,

    e tenta retomar a sua vida como se nunca tivesse lhe

    conhecido. Miguel segue ignorando-a. Céu e Terra não

    devem se misturar mesmo, desde que Enlil ficou entre 

    eles. O arcanjo e novo brigadeiro das tropas do deus 

    Anu, e não o esconde o desgosto, pois realmente

    tinha um sentimento forte pela primogênita 

    de Lúcifer. 

    _Vai me ignorar para sempre?

    _Só por quê me usou para libertar o Diabo?

    Não imagina.

    _Me perdoa. Eu não sabia de quem se

    tratava.

    _Só há um prisioneiro terrível no universo.

    _Como eu ia saber que era ele?

    _Eu não estou nem aí para o quê acha Luciféria.

    Só me importa o fato de ter me traído, para

    ficar com ele.

    _Trair? Nós somos amigos!

    _Correção éramos amigos. Até mais.

    O arcanjo a deixa, e ela olha para o seu irmão mais

    velho, que também não aprova a sua atitude. Ao chegar

    no castelo, Luciféria vê os pais brincando com a irmã, e

    sorrindo, e ela sente muita raiva daquilo, pois os pais

    estavam tão focados em cuidar de Aggarath, que

    nem perceberam o risco no qual ela se meteu.

    “Ninguém me ama. Eu estou sozinha. Sendo esquecida.

    Perdendo o quê me importa.” Se senta encostada de costas

    para a parede, e coloca as mãos na cabeça, como se algo no

    seu interior, quisesse se libertar, e ela não pudesse deixar. 

    Só que como ninguém a vê ela perde o controle, e

    retorna até a floresta proibida.

    Seus pés caminham pela terra molhada. Os olhos violetas

    ficam vazios. O vento bate em seu cabelo que está a mudar de

    cor, deixando de ser vermelho, para virar roxo escuro. A pele

    alva, empalidece até ficar cor de papel. Ela desenha os

    símbolos na rocha, e invoca a destruição.

    _Luciféria?

    _Você precisa me compensar pelo ocorrido.

    _Por quê me libertou de vez? Sabia que posso 

    destruir o universo?

    _Sim, eu sei, e eu quero que faça isso, é a uma

    forma de me agradecer por te libertar.

    _Eles vão te matar, se descobrirem. 

    _Eu não quero viver Sr. Rá.

    A gigantesca e bela criatura, fica assustada com as fortes

    palavras proferidas pelos lábios da criança de 13 anos, e antes

    de fazer alguma coisa para tirá-la dali, ela desaparece, e deita

    na sua cama com os pés sujos. Na manhã seguinte...Há muito

    alvoroço a respeito da fuga de Bael, e ela fica transtornada

    com o fato de se encontrar tão suja. “Não resistiu ao

    amor que tinha por ele não é?” Diz Miguel

    sentado no canto da janela.

    _Do quê você está falando?!

    _Só uma criatura se compadeceu pela solidão

    do demônio. Não há duvidas de que tem culpa

    no cartório.

    _Eu não fiz nada Miguel. 

    _E estes pés sujos?

    _Eu não me lembro. Só estava muito triste,

    Irritada, e fui dormi.

    _Não foi você?! 

    _Não. 

    _Não está mentindo para proteger o seu amado?

    _O quê? Eu não o amo! E sim, não há porquê

    mentir pra você.

    Luciféria cresceu, sem saber do seu lado negro, 

    e por sorte e ajuda do ser do outro mundo, ninguém 

    nunca soube do seu segredo, até aquele dia. Ela agora

    tinha 16 anos, muita coisa tinha acontecido. Azazel e

    ela haviam se envolvido, pouco antes de se casar

    com Miguel, algo que o deixou furioso, ao

    ponto de castigá-la.

    _Não faça nada comigo por favor...

    _Você gosta da escuridão não é? Pois

    vai conhecê-la!

    _Por favor não faça isso!

    _Divirta-se demônio.

    Disse deixando-a trancada na cela do demônio, e

    este estava tão insano de raiva, que não se conteve, e

    tirou-lhe as roupas ali mesmo. “Socorro!” Ela berrou por

    não saber quem estava no escuro. Suas mãos passaram

    pela janela da porta, e só ouviu-se o impacto do seu

    corpo sendo violado friamente. Até que ele viu

    seu rosto na luz, e ficou em pânico.

    _Luciféria?

    _Bael?

    _Eu não sabia...

    _Você...Continua...Sendo um monstro.

    Ela desmaiou em seus braços, e ele derramou 

    lágrimas sob seus pequenos seios. Miguel chegou a 

    este ponto, pois desde pequenos Luciféria e Azazel eram 

    quase inseparáveis. Um cuidava do outro, e  se protegiam

    do resto mundo, por isso mesmo quando ela nutriu uma

    forte paixão por Miguel, o príncipe rebelde sempre foi

    um empecilho. Desta forma, para livrar-se do rival,

    o arcanjo com a ajuda de Inanna, adulterou o 

    DNA dele, e o fez crer ser filho de Anu.

    _Azazel por favor fica.

    _Este não é o meu lugar Lucy.

    _É claro que é. Meu pai te ama como

    se fosse filho dele. Te dará um reino

    também!

    _Eu não quero viver de caridade mais.

    Adeus Lucy.

    Disse dando-lhe um beijo de despedida. “O quê?”

    Olhos confusos o encararam. “Não deixe o idiota do 

    noivo saber.” Riu se preparando para ir. “Por favor 

    fica” Agarrou-lhe o braço. “Me perdoa mas não

    posso.”  Beijou-a na testa, e foi embora.

    A tristeza por não ser filho de Samael, o deixou tão

    devastado, que ele deixou o palácio do pai, para viver

    com o verdadeiro, abandonando sua irmã e melhor

    amiga, e fazendo-a se sentir tão só, que esta

    encontrou refúgio nos braços do

    Diabo.

    “Ela sempre encontra um demônio! Um maldito

    demônio para amar!” Pensava Miguel entorpecido pelo 

    ódio, passando a mão pelos longos cabelos. Após algumas

    horas, ele volta a cela, e tira suas roupas para que

    Luciféria pense que foi ele, e não Bael, pois se

    descobrirem que Anu o protege, todos

    se voltarão contra o supremo.

    Mas esta não é a pior parte de tudo...A irmã de

    Luciféria com seus poderes de criar ilusão, fez a mãe

    crer que esta tinha copulado com o próprio pai, quando

    a culpada pelo crime era a acusadora. Ela foi expulsa

    de Irkala, e mandada de volta a Dilmun, onde

    sofreu grandes humilhações.

    A raiva de Miguel a perseguiu, por todos os cantos,

    até virar uma prisioneira, e quase sofrer abusos na mão

    dos deuses menores. Azazel a reconheceu de imediato

    , e por isso correu até cela, para impedir que o ato

    chegasse ao objetivo. Ao ouvir a voz do grande

    general, todos se curvaram para ele, e este

    foi até a cruz.

    O rosto dela estava vermelho de tanto chorar,

    os cabelos mais escuros que o normal, e ao contrário

    dos cachos, tinham alisado, e caiam sem parar. Ao 

    vê-la naquele estado, ele segurou em sua face

    , quase que em desespero.

    _Quem foi o responsável por isso?

    _Oras Senhor. O brigadeiro Mikael nos deu

    carta branca para fazermos o quê quisermos

    com ela.

    _E alguém fez?

    _Eu fiz. Penetrei o corpo dela com os dedos,

    até fazê-la gritar.

    Disse um deus grande e robusto. Ao ouvir aquilo 

    o jovem sorriu, e o jogou contra a parede, o retalhando

    com a sua adaga, com tanta cólera, que só parou após

    deixá-lo em pedaços. Vendo aquilo, os deuses se

    cobriram, e saíram correndo assustados, por

    temor as suas vidas

    _Você está a salvo agora.

    _Obrigada.

    _Que confusão aprontou para vim parar aqui?

    _De todas as vezes que fui culpada, esta é

    a única que não sou. Nossa mãe me

    expulsou de casa.

    _O quê? Por quê?

    _Ela jura que eu dormi com meu pai.

    Mas eu não fiz isso.

    _Não mesmo?

    _Está desconfiando de mim?

    _É que você nutria sentimentos pelo meu

    Irmão mal, então...

    _Eu estava sendo estuprada na hora.

    Por isso não tem lógica.

    _E quem fez isso com você?!

    _Miguel.

    Ouvindo o famoso nome, e ele a tira da cruz, e a 

    carrega para o canto, onde lhe deita, e a deixa para

    dormir, enquanto sai a caça do rival. “Vigie a cela 13.”

    Ordena para o soldado, e este se recusa. “É melhor

    fazer o quê digo. Pois sou seu superior.” O pega

    pela gola da camisa, e seus olhos ficam

    negros como carvão.

    O gêmeo mal procura pela moça, em forma de 

    luz, e quando a encontra se materializa. Seus dedos

    tiram o cabelo da face dela, e ao vê-la tão maltratada,

    o pouco de sentimento que lhe resta, o faz ter ódio

    do céu, e todas as espécies que a machucaram,

    por isso ele inicia sua vingança.

    Isabelle não suporta todas as visões dolorosas

    do seu passado, e volta a si mesma, acordando no

    sofá dourado de seu pai, que está lhe aguardando

    com um relógio, e uma bandeja com comidas

    apetitosas.

    _Sem refrigerante?

    _Precisa se alimentar melhor e sabe disso.

    O refrigerante é uma arma pra matar

    as células dos mortais.

    _E os pesticidas nas frutas, são tão

    diferentes disso né?

    _Apenas coma. Mandei preparar especialmente

    para você, achei que voltaria faminta da sua

    jornada. Então como foi?

    Pergunta empurrando a bandejinha para ela, e

    esta rejeita. Ele revira os olhos, estala os dedos, e

    lhe dá o refrigerante. Assim ela pega o murffy de 

    morango com chantilly, e o devora numa 

    bocada só.

    _Azazel me ama...

    _Sim.

    _O Anticristo também...

    _De fato. 

    _Mas Miguel é um babaca que merece morrer.

    _Não está tão longe da verdade, mas porquê

    Miguel está entre seus pares?

    _É que aquele idiota me beijou.

    _Ah ele te beijou? Interessante.

    “Esse garoto tá morto. Não vou deixar desgraçar a

    vida da minha filha de novo, ao ponto dela se jogar na

    água, e se perfurar com a matadora de deuses.” Pensa

    sorrindo e ignorando metade do quê a moça diz, pois

    já sabe de que respostas se tratam. Mas ela está

    tão entusiasmada, que não se cala.

    _Eu cheguei a ficar com o anticristo?

    _Sim... Depois que o prendemos outra vez 

    no subsolo, ele a roubou para si.

    _Então o rapto...os meus pesadelos...

    _São reais.

    _Sim, mas por quê me chamavam de virgem?

    _Porquê o cristianismo perverteu o sentido

    da palavra Koré. Devia significar apenas

    jovem e não virgem.

    _Ah sim.

    Ao ouvir aquilo ela fica feliz, e quase salta de alegria,

    pois o tema virgindade, pesava-lhe demais a consciência,

    e saber que o nome foi corrompido, lhe trouxe paz de

    espírito. “Maldita seja a igreja católica, e sua mania

    de demonizar tudo.” Conclui, mas logo a alegria

    vai embora, e dá espaço para a 

    tristeza.

    _ Por quê você e a mamãe me esqueceram?

    _Nunca a esquecemos.

    _Nem viram, quando eu estava falando com

    Bael.

    _Na verdade vimos. Mas acreditávamos que com

    o seu dom poderia equilibrá-lo.

    _Então eu posso curar o ódio dele?

    _Sim, se atravessar a escuridão, e lhe puxar

    para a superfície.

    _Ou seja me envolvendo com ele...

     

    _Me envolvendo com ele... 

    _Sim, mas é uma escolha sua , caso opte por seguir o caminho atual, também pode matá-lo. Isso é o quê poder de Nyx representa para você. _Ele é seu filho...como eu e  Aggarath. 

    _Ele deixou de ser meu filho,  quando cometeu todos aqueles  crimes abomináveis. Ao ouvir a dureza na voz do pai, Isabelle salta para trás, pois pelo  quê o anticristo disse, ela já esteve do seu lado, e deve ter sido renegada da mesma forma, por caminhar com as trevas verdadeiras do universo. Por isso se preocupa, e tenta ficar calada, mas não consegue. 

    _Eu já andei com ele. 

    _Não teve culpa de amá-lo. 

    Com você ele foi bom. 

    _Epa eu nunca o amei. _Será mesmo? Quase destruiu o mundo quando o prendemos. _Eu não me lembro disso... 

    _Você se esforçou para apagar , nas duas vezes. Mas ele não vai deixar assim, então venha e veja... 

    Lúcifer mostra os retratos dos deuses traidores, e na maioria deles , a deusa meio lunar e solar caminha com o sol. Ela julga os inimigos dele, e ele destrói os que a ferem. Para a infelicidade da moça, dá para  notar a ligação entre eles. 

    _Esta... 

    _Sim é você. 

    _Por quantos séculos estive  

    com ele? 

    _Uns 500 anos. No começo ele a  raptou, depois você voltou por vontade própria. _Ele me raptou e eu retornei?! _Sim. Até se casou com ele, como não fez nem com Azazel, nem com Miguel. 

    _Foi forçado né?!  

    _Ele fingiu ser Azazel na verdade, mas depois você descobriu, e não lhe pediu o divórcio. _Eu sei... Já tinha visto isso. Só queria que não fosse real. _É bem real, e você tem que decidir se vai ajudá-lo ou matá-lo. Aquelas palavras ficam na mente  da moça por vários dias. "ajudar ou matar." Fica a refletir, sem saber que partido deve tomar. Afinal era do próprio Diabo que se tratava, porém  apesar dos pesares, ele tinha sido bom pra ela em  alguns momentos, e isto tornava seu julgamento  turvo. 

    Certo dia ele a chama para sair, e ela aceita,  para tirar a dúvida da sua cabeça. Preocupada em ser raptada, pede para irem a um lugar público, e eles ficam sentados na beira de uma escada, em frente a um  museu todo branco. Ao contrário da outra vez, ele não  está mascarado, e está vestido como no helloween,  enquanto ela está mal vestida, lembrando os  nerds da antigas. Não querendo atraí-lo. 

    _Sem máscaras desta vez? 

    _Sem marido?  

    _Ele me deu permissão para vim. _Você sendo submissa? Esse cara tem que me dá o manual! 

    _Vamos nos engalfinhar ou conversar? 

    _Certo. O quê quer saber de mim? 

    _Foi você que me chamou para sair. 

    Achei que você tinha perguntas. _Eu li o escreveu no seu site...Apenas quis ser gentil. 

    Responde bebendo um copo de refrigerante, e  ela olha para o lado, ele oferece a bebida, mas a dama recusa, e por isso ele avança na sua direção,  deixando-a do seu lado. "O quê ele está fazendo?" se afasta dali, mas o copo fica onde ele quer. 

    _Certo. Como perguntar isso? 

    _Sim, você me amou. 

    _Não era o quê ia perguntar. 

    _Mas é o quê quero esclarecer. 

    _Não seja um idiota.  

    _Está certo. Pergunte. 

    Ele passa o braço envolta dela e pega a bebida. Seus olhos frios cruzam os dela, e esta sente o rosto esquentar de vergonha. Por isso se afasta um pouco mais, e ele segura seu pulso, imobilizando-a com gentileza. 

    _Fica calma. Não vou fazer nada. 

    _Foi o quê disse da outra vez... 

    _Nada que Você não queira. Mas enfim veio pra falar de relacionamento, ou quer um esclarecimento útil? 

    _Então relacionamento não é útil?  

    Tanto faz. Como isso aconteceu? 

    _Não, quando quem eu queria não me quer. Foi bem simples você teve síndrome de Estocolmo, e ficou comigo. 

    Responde de forma seca e ela se levanta para ir embora. Outra vez ele respira fundo, e agarra no seu braço, impedindo-a de seguir em frente. Ela volta , e se senta a alguns centímetros de distância. “Isso não vai acabar bem.” Olha para o lado, sentindo arrependimento, e pega o celular. _Eu sei que está aqui para saber se deve me matar ou não.  

    _Mas eu não escrevi isso no site. 

    _Não sou burro, e você sempre foi previsível. Banca a rainha do mal, mas no fundo tem uma gota de piedade. 

    _Esta é a Victória, não eu. _Se veio até mim, o próprio ato contradiz suas palavras. Você sabe que te torturei, que te machuquei, e destruí o teu psicológico. Mas mesmo assim veio me dá uma chance de me redimir. 

    _Não vim para isso. 

    _Não minta para si mesma. Foi usando a justiça a teu favor, que não se tornou tão abominável, mesmo exterminando 75% da humanidade. 

    _Não me lembre disso... 

    _Tem medo? 

    _Não vem ao caso. 

    Ela sente as mãos dele em sua face, e recua. Ele sorri, e se levanta, outra vez bloqueando as chances dela escapar. Preocupada com estes avanços sutis, ela clica na tela para ligar para Victória, mas ele toma o seu aparelho. 

    _Confie em mim. Se quer a verdade. 

    _Por quê me escolheu? 

    _Eu não escolhi, aconteceu, e não fui capaz de deixar pra lá. 

    _Eu cometi atos de crueldade ao seu lado? _Não, embora me dissesse que sentia prazer em torturar alguns pecadores. _Por quê não me deixou ir se não tenho nada a ver com você? 

    _Você se engana. Somos bem parecidos,  mas eu abracei a escuridão, e você ficou com medo dela. 

    _Então fiquei no lado da luz? 

    _Não, você habitou o purgatório. Nem luz , nem escuridão. Tinha desprezo 

    pela primeira, e temia a segunda. Então ficou num lugar próprio. 

    Ela inspira fundo, e ele ri, erguendo a mão. “Segure-a, e saberei que tenho uma chance.” É o quê ele pensa. Ao sentir calafrios, ela evita-o, e  os dois voltam para a escada, onde se sentam. “ Droga. Mas não vou desistir, ela vai ceder. É o destino que escrevi, e a própria deusa mãe abençoou.” Ele revira os  olhos. 

    _Então isso é O equilíbrio... _Não, esta é a sua personalidade. O  equilíbrio é teu dom. _Razão pela qual busca por mim... _Não. Eu te procuro por outro  motivo... 

    Já cansado das escapadas da moça, ele olha em  seus olhos, e a beija de surpresa. Naturalmente as mãos dela sofrem espasmos, e ela o evita, porém por uns segundos seus dedos agarram os dele, não lhe permitindo se afastar. Ele a solta, para ver sua reação, e ela fica com a cara de choro. Os olhos dela ficam vazios, e seu braço se movimenta estapeá-lo, mas este segura sua mão, com tanta facilidade, que é como se tivesse lido seus pensamentos, por isso eles se encaram. 

    _9 mil anos, e ainda reage do mesmo jeito. 

    _9 mil anos? Está de brincadeira?!  _Não. Praticamente toda a sua vida na Terra, foi ao meu lado, até um dos seus amantes  vim te resgatar. 

    _Amantes?! 

    _Azazel e Miguel.  

    _Eles vieram bem antes de você. _Mas foi pra mim que disse “sim” no fim  das contas. E o tapa no rosto, era o primeiro sinal de que acabaria nos meus braços. 

    _Não. Não pode ser. Eu detestei! _Eu senti seus dedos, e eles prendiam os meus. Você queria continuar mas sua consciência, amargou o sabor deste doce prazer. 

    _Não, não queria. Eu levei meses pra te esquecer, e você não vai apagar meu desenvolvimento. 

    _Me esquecer? 

    O interesse dele se intensifica, e ela tenta correr, contudo ele a agarra, fazendo-a ficar contra o seu  peito, para que as mulheres ao redor não vejam o assédio, e criem algum alvoroço, que possa lhe prejudicar de alguma forma. 

    _Fica calma. 

    _Me solta. 

    _Eu vou, e também devolverei o celular. 

    _Mas em troca quer o quê!? Outro beijo!? _Que me responda... Você se lembrou de mim? 

    _Com tantos sonhos foi impossível não lembrar.  

    _Você acreditou me amar em algum momento? 

    _Não importa. 

    _Quer ser livre ou não? 

    _Sim... 

    _Sim quer ou sim me amou? _Sim para o segundo. Mas já matei esse sentimento, agora pode me deixar ir? 

    _Tudo bem.  

    Ele a solta, e entrega o aparelho. Ela de imediato lhe dá as costas, e sai bufando de raiva. “Mesmo que diga não, eu sei que ainda sente algo por mim, e não é desprezo.” Ele se recorda do beijo, e de ter aberto um pouco o olho, ao sentir que os dedos dela ficaram a pressionar os seus. Não havia ódio no ato, no  lugar disso estava uma paixão, que ele poderia usar contra ela. 

    Capitulo 5- O alvorecer do futuro  

    5 meses depois... Isabelle está mudada, não mais passa tanto tempo tempo dentro de casa, ou com os amigos. Caminha por várias ruas e lugares, com uma lata de cerveja na mão, passando por maus bocados vez ou outra, por sua aparência de 16, permanecer mesmo nos seus 25. Sem dizer nada a ninguém foi ao salão, e alisou e repicou o cabelo, algo que seria benéfico, se não fosse pelo o quê veio depois, pintou as unhas de preto, passou a usar batom escuro e se manter em silêncio. Algo que preocupou a todos, menos uma pessoa, que já havia visto esta reação em outras vidas, e não estava nada surpreso. 

    _Está com sérios problemas não é? 

    _Não começa Leviroth. Só me deixa em paz. _O quê aconteceu que te deixou assim desta vez? 

    _Nada. Só voltei a ser mesma Isabelle obscura de antes oras. 

    _A Isabelle de antes era como a lua, obscura mas com brilho, tudo o quê vejo é uma estrela morta. 

    _Volta pra casa. Eu não quero falar com ninguém. 

    _Eu volto mas você vem comigo. 

    Ele a carrega no ombro, e a leva como um cadáver abatido, ela   o olha com indiferença, e fuma um cigarro de menta, bebendo logo  depois. No entanto antes de saírem do viaduto, outro ser também não  muito preocupado surge, trajando roupas bem chamativas. Ao vê-lo  Leviroth, a coloca no piso, porém fica na sua frente, impedindo-o  de chegar tão perto dela. 

    _Velhos hábitos nunca mudam, não é irmão? 

    _O quê você quer? Não vê o estrago que causou? 

    _Vocês dois parem, não quero falar com ninguém. _Eu não fiz nada desta vez. Mas temo trazer más noticias, e acho melhor que ouçam. _Diga e se retire, se não quiser relembrar como foi preso naquela rocha mística. 

    _Já chega, eu não vou ficar aqui. 

    _Fique. Se forem para casa, podem morrer. 

    _O quê? A minha filha está lá! 

    _Não, não tá, quando vi que veio atrás de mim , sem ela, pedi a Victória que a levasse para a minha mãe. 

    _E eu coloquei demônios envolta da moradia, para matar qualquer ser que tente atravessar a barreira. 

    _Por quê faria isso? 

    _É óbvio que é pela Isabelle. 

    Ao ver a onde a discussão daria, a bela os deixa discutindo, sobre “quem é o macho alfa”, e passa entre eles. No entanto ao  chegar perto da rua, sente duas mãos diferentes em seus pulsos,  que a fazem ficar. O espectro deles é muito forte, tanto que a jovem sente tontura ao receber o impacto da  suas energias. 

    _Porquê deveríamos confiar em você? 

    É o filho traidor. 

    _Não se faça de herói Azazel. Esteve ao meu  lado, quando iniciei uma nova gerência dos  mundos. 

    _Gerência dos mundos? É assim que chama o seu golpe de estado? 

    _É até perceber, que meu próprio irmão, queria matar a deusa bebê, que viria a ser minha esposa. 

    _Eu não sabia que também me apaixonaria por ela. 

    _Olha isso não melhora as coisas. 

    _Não melhora mesmo. 

    _São um só espírito mesmo não é? Naquela época , eu só conhecia um amor, o da minha mãe. 

    _Espera dizem que somos gêmeos, está dizendo que... 

    _Não mesmo. 

    _Nós somos filhos de Inanna e Gulgalana. _Mas me disseram que eu era filho de Nyx, ou seja Lilith, como Luciféria e Aggarath. _Inanna é a mãe de vocês? Lúcifer traiu Lilith? _Não. Lilith é a metade de Lúcifer, ele não faria isso com a minha mãe! _Sim. Ele a traiu, mas Lilith nunca soube, por isso ele a fez crer que estava grávida, e quando nascemos, nos roubou de Inanna , e nos deu para ela. 

    _Por quê? 

    _É, posso pensar em mil razões, mas qual delas? 

    _Inanna iria nos devorar. 

    Imagens do passado inundam a mente do anticristo, e este respira fundo, nem sempre fora um pequeno mal, porém ao descobrir que não era filho de Lilith, entendeu que Azazel era,  e por isso ela o tratava melhor, assim se juntou a sua mãe, e tramou as ruínas do atual império em que se vivia. Infelizmente foi só na adolescência, quase na fase adulta que veio descobrir que Azazel também era filho dela, e que ela o fez entender de outra maneira, para que seus planos se realizassem. Lilith não tratava um melhor que o outro, apenas reconhecia as suas qualidades, e ele não era capaz de ver as  suas. Após saber das artimanhas da sua mãe e amante, ele tentou desfazer todo o erro, mas só piorou ainda mais a situação, pois a verdade, destruiu a rainha do Inferno de tal  maneira, que esta enviou o próprio marido para a morte, e este criou um ódio profundo do próprio filho. Todos o julgaram, pelos atos que cometera antes, e desta forma ele enlouqueceu.  

    _Eu deveria ter sido o sol e meu irmão aqui a lua. 

    _Você deveria ter sido luz e eu escuridão. 

    _Então eu nasci para realinhara-los?  

    _De certa forma sim, você desperta coisas boas em  mim, e sombras profundas nele. 

    _Eu inverto a ordem... não a equilibro. _É, e o escuro cresce ainda mais, quando lembro que você quer a minha esposa. 

    _Ela não é a sua esposa. Nasceu para luz e para as trevas, portanto pertence a nós dois. _Sem querer ser estraga prazeres, mas sou monogâmica, e não poligâmica. E não pertenço a ninguém só a mim mesma, o máximo que podem ter de mim é meu coração, mas eu sou eu. 

    _Pensei que era dele. 

    _Eu também pensei, agora estou na  dúvida. 

    A dama revira os olhos e outra vez lhes dá as costas, mas sem fazer alarde, ergue o celular, e se afasta um pouco deles, para tentar conversar com alguém, que não participa desta profecia, ou loucura toda. Os irmãos se entreolham, e se debruçam sob o parapeito do viaduto. 

    _Então qual é a má notícia? 

    _Temos uma mãe ciumenta, que quer que a filha de Lilith morra. 

    _Se afaste de Isabelle, e ela a deixa em paz. Pois não vai representar alguma ameaça. 

    _Não é tão simples. Inanna sabe que enquanto 

    Lucy existir, meus sentimentos serão dela, e por

    isso quer aniquilá-la. 

    _Por quê a quer tanto? É pela profecia de ela ser o equilíbrio? 

    _Não. Quando você e meu pai me jogaram na masmorra dos condenados,  Luciféria foi a única que veio falar comigo... 

    _Porquê não sabia quem você era. 

    _É, mas você bem sabe, que depois ela ficou comigo , por nossa similaridade. 

    _É, tal como eu e ela temos. Mas pelas armações de Miguel, acabei por abandoná-la, e isso te deu certa liberdade de se aproximar não é? 

    _Ou foi o destino que quis que nos conhecêssemos. _Oras Bael não seja tão tolo. Sabe tão bem  quanto eu que nós fazemos o próprio destino. 

    _Não vou discutir. Luciféria, Isabelle, te escolheu. Mas eu a escolhi, e é meu dever protegê-la de nossa mãe. 

    _Está bem, mas tente reviver os velhos tempos  com ela outra vez, e serei o único filho de  gêmeos. 

    Olha de canto para o irmão e este ri, enquanto a bela  liga para alguém do seu celular. Na tela surge o número que termina em 12, mas ela não consegue completar a ligação, e vozes começam a ecoar na linha, como se fossem indistinguíveis. Ela desliga o aparelho assustada , e caminha até os irmãos. Tudo começa a se iluminar a sua volta, fazendo-a ficar em desespero. Seus gritos não tem som, o Anticristo olha para trás, e se transforma em pó ao vento. Leviroth agarra seus pulsos , e ela segura em seu braço, tudo se destrói envolta deles , e a pobre cai no vazio, mergulhando numa escuridão profunda, na qual desaparece. O despertador toca, são 06:03, a jovem se levanta da cama, e corre para tomar seu banho. Está evidentemente atrasada. “Vamos Izzy vai se atrasar!” Grita Benner, e ela desce as escadas , já arrumada para sair. Ele sorri, e os dois entram no carro, seguindo viagem para o quê parece ser os seus empregos. 

    _Tive aquele sonho outra vez. 

    _O do Anticristo? 

    _Sim. Eu não suporto isso, é sempre o mesmo enredo e patético, onde sou o centro de alguma coisa importante, quando na verdade não sou. _Izzy. Eu sou o príncipe do Caos, e seu marido, nós já vimos Lúcifer, e ele te chamou de filha, como pode pensar ainda que não é especial? Você o libertou sabia? 

    _Não sem ajuda. Sozinha, ele teria continuado  preso, e o aconteceu depois disso? Ah é, ele me abandonou, e se fez ser notado pelo mundo! _Izzy. Lúcifer sabe o quê faz. Se ele ficasse do seu lado, certamente você iria sofrer as consequências de carregar o sangue dele, por isso se afastou. 

    _Pois eu preferia “sofrer as consequências”.  Do quê continuar sendo ninguém. _Mas você é alguém. É a rainha do primeiro reino do Caos. 

    _É? Mas quem sabe disso? Aliás quem teme , ou quer fazer pacto com Luciféria? 

    _Os vampiros Italianos?  

    _Não começa. 

    _Ué foi você que perguntou. 

    _Aff. Tá certo. Até mais, chegamos na escola. Ela desce do carro furiosa, e ele ri, observando-a partir, com sua saia longa, salto alto e blazer, como  se fosse a um enterro. “Essa é a minha mulher.” É o quê pensa apaixonado, e então dá a partida. Ela entra na sala, e todos param de fazer suas atividades, para se sentarem no seus lugares. A aula do dia, é sobre como o elo perdido foi desconsiderado, e que apesar dos estudos antigos mostrarem o homem como semelhante ao macaco, este era na verdade uma junção de todas as espécies de mamíferos, répteis, aves, e anfíbios. 

    _Então o Dr. Thomas John percebeu a discrepância na antiga pesquisa, e concluiu que a espécie humana é parente de todos os vertebrados, e não apenas o macaco, como se acreditava antes. _Professora Isabelle. Por quê defendiam tanto que o maior parentesco do homem era com o macaco? 

    _Devia prestar mais atenção na aula senhorita 

    Lina. Como disse Antes, por conta dos velhos estudos , que indicavam que 99.1% do DNA humano era igual ao dos primatas, concluía-se que o parente mais próximo do homem era este. _Professora Isabelle, então a teoria do  elo perdido na verdade é um erro? _Sim, Bill. Esse erro dos cientistas de acreditar que tinha apenas um elo, é uma piada. Já que agora foi comprovado, que o elo não existe, mas a conexão entre as espécies sim. _Professora essa descoberta do Dr. John , não abre ainda mais espaço para se defender a existência do elo? 

    _Sim e não Luíza. Pois a nova teoria de parentesco múltiplo, liga o homem aos vertebrados, mas não unifica todas as espécies. Bom já é 12:00, tenham um bom descanso, a palestra foi longa, e não mandarei dever de casa. 

    A bela termina a aula, e ajeita algo no computador, com um sorriso tristonho. Os alunos se despedem, e vão embora para os seus lares, porém quando a bela chega no corredor, se depara com um grupo de adolescentes de preto, que estão desenhando um pentagrama rubro no piso, e por isso para de caminhar, e observa o feito dos alunos. 

    _O quê estão fazendo senhoritas? 

    _Nada que seja da sua conta santarrona! _É, vai entrar no seu carrinho estúpido, e nos deixe em paz falou?! _Um pentagrama... Querem invocar algo eu presumo. 

    _E se quisermos? Seu Deus falso, não vai poder impedir! 

    _É, aceita que dói menos titia! 

    _O quê acham que são? Filhas do Inferno , que podem atormentar os outros por prazer? 

    _Não que seja do seu interesse, mas é o quê somos. Nós ouvimos o chamado do senhor das trevas! E iremos obedecer cada ordem do libertador! 

    _É nós vmos devastar, esse centro de ensino , para que o apocalipse se inicie aqui. _Vão para casa. Saiam disso. Satã não é senhor de ninguém, na verdade é um idiota , tão mesquinho e mentiroso, quanto o Pai. 

    _O quê você ousou dizer?! Satã irá cortar tua língua! 

    _Tá querendo morrer veia?! 

    _Vocês são uma piada.  

    A professora ri, e vai embora deixando as garotas góticas  para trás. “Essa vagabunda da Isabelle tem que pagar!” Pensa  a líder do grupo, e lhe lança um feitiço quebra ossos, porém ao receber aquela energia tão tenebrosa, a dama abre suas asas , e o poder da bruxa se torna inofensivo. Ao ver aquilo as jovens se apavoram, pois percebem que a educadora , é na verdade um anjo.  

    _Deixem-na em paz!  

    _Aaaah! 

    _Olá... 

    _Ela pode destruir suas almas se quiser. 

    _Sa-Satã... 

    _Pai. 

    _Olá minha garotinha favorita. 

    _Satã é seu pai?! Mas você é um anjo! 

    _Perguntem a Lilith, foi ela que me gerou. 

    _Isso é verdade. 

    _Você é filha de Lúcifer e Lilith?! _Não. Sou filha de Bruna, a bruxa mestiça que deveria reinar ao lado de Satã, segundo uma série tosca de televisão. 

    _As aparências realmente enganam não é? O rei do inferno, se transforma em uma pilha de pó, e rapidamente volta a sua forma humana, que é idêntica a do ator do programa de TV.  As meninas se escondem atrás da líder, e esta faz sinal para que se afastem, e se curva  aos pés do belo homem, que acha graça do fato,  e segura no ombro da professora. 

    _Você está aqui em busca da próxima Bruna, como A madame escuridão? 

    _Em primeiro lugar, eu detesto Bruna. Em segundo jamais procuraria pela próxima bruxa poderosa, pois depois de Lilith eu sou a única. 

    _Pode parecer arrogante mas é verdade, ela é a primeira da minha linhagem com Lilith, e portanto carrega mais genes divinos que os demais. 

    _Mas você odeia magia, só se foca em ciência e fatos concretos. Isso não tem lógica! 

    _Tenho minhas razões, não é papai? 

    _Ela me odeia porquê quis protegê-la, e dei fama e poderes as suas irmãs.  

    _E o quê isso tem a ver?  

    _Tem a ver que graças a esse idiota, eu não alcancei o meu status de Deusa, e por isso sofro humilhações nas mãos de humanos estúpidos feito vocês. 

    _Desculpe. 

    _É por ser tão simpática, que ainda não tem tantos  seguidores minha bravinha. 

    _Desculpa, mas sorrisos falsos não são pra mim. Olha com indiferença, enquanto os olhos vão para o teto, com certo desprezo, e ela cruza os braços. Ele ri e a abraça forte, ela fica com os braços colados ao corpo, evitando aquele gesto de carinho, o quê deixa as garotas horrorizadas, pois dariam suas almas para serem filhas. 

    _Igual a mãe quando sente raiva. São as únicas mulheres, que tem tanto poder sobre mim. _Não é o quê soube. Afinal sua filha com Inanna , tem o prazer de jogar isso na minha cara, enquanto está lá no topo por sua voz de sereia. 

    _Sexo e amor é diferente. Eu tenho responsabilidade por Victória, pois ela e o seu marido são frutos do meu deslize. Mas eu amo você e sua mãe. 

    _É um deslize antes e depois do meu nascimento. Tem certeza que nos ama mesmo? Eu duvido. _Está bem, não estou aqui para discutir o quê é o certo ou errado.  Vim para te ajudar, mas já vi que pode se virar sozinha. 

    _É o quê acontece, quando o próprio pai nos abandona no mundo! A gente tem que saber se cuidar! E aliás eu votei na família Messiânica pra presidente! 

    _Grande coisa eu fiz o mesmo nos E.U.A! 

    Ele berra, e ela vai embora fazendo o sinal do cotoco , ignorando todo o tumulto. Ao ver aquela discussão, as meninas notam que mesmo no Inferno há conflitos, como  na vida humana, e correm para abraçar o papai renegado, mas este faz um sinal para que não se aproximem, pois se sente muito triste pela rejeição da sua primeira e única filha com Lilith. 

    _Ela é uma grata senhor. 

    _Não, não é. Aquela menina sofreu demais por minha culpa, ela tem razões para me odiar. _Como pode defendê-la depois de tamanha recusa? 

    _Ela é filha do meu grande amor, e este amor se 

    estende até a minha menininha. 

    _Deixe-a ir senhor. Ela é apenas uma, enquanto nós somos muitas, e daríamos tudo para sermos suas filhas. 

    _Eu não preciso de mais filhas.  Preciso é de menos, e se querem tão desesperadamente o meu apreço , devem começar por ela. 

    _Mas senhor! 

    _Sem mais. Se querem ter alguma importância no inferno, devem fazer a minha princesinha se sentir como tal. 

    No dia seguinte... Isabelle está no computador, preparando o material para a aula do antigo DNA lixo, que agora é conhecido como DNA Ouro, pois graças a esta brilhante descoberta, que o Doutor John fez uma revisão da antiga pesquisa, que mostrava os humanos como parente mais próximos dos primatas, e isto seria útil para a futura prova. Uma das meninas do dia anterior, a olha sem jeito, e entra na sala. 

    _Veio trazer algum recado das suas amiguinhas adoradoras de Satã? 

    _Não. Eu vim pedir uma trégua, e que me ajude pois se as outras descobrirem, elas me matam. 

    _Por quê eu deveria te ajudar? 

    _Eu não levantei a voz para a senhora, ao contrário das minhas amigas. 

    _Mas também não teve coragem para ficar ao meu lado, então repito por quê deveria te ajudar? _Eu posso te tornar uma deusa, por quê acredito em 

    Você. Depois de ontem encontrei o seu site Senhora Noturna, e percebi que você não é só a filha de Lúcifer. 

    _O quê quer dizer com isso? 

    _Você é a Arádia. A nossa messias sagrada, que veio para proteger o povo da escuridão, e nos guiar junto do Anticristo. 

    _Ah meu outro segredinho foi descoberto. O quê acha que ganhará com isso? Fama, sucesso, poder? Não sei se notou mas sou só uma professora do segundo grau. 

    _Nada. Apenas poderei ajudar a minha mãe, a subir no trono que sempre lhe pertenceu. 

    _Do quê está falando?! A minha única filha é Isandra! _Não segundo essa marca. Eu sou filha de Arádia e o Arcanjo Miguel, portanto pertenço a  

    você. 

    _Como posso saber que isso não é um jogo de manipulação , para saberem as minhas vulnerabilidades? 

    _Porquê ela não está mentindo Luciféria. 

    Diz um homem de cabelos longos entrando no lugar, e a dama se afasta, empurrando o computador com as unhas pintadas de preto, totalmente atordoada pela figura. Sim era o próprio anjo que estava ali diante dela, confirmando a história da menina, e para ter certeza, este abre as asas, e seus olhos mel se tornam azuis, enquanto os dela ficam violetas, iguais aos de um dragão. 

    _Eu soube que tive filhos de Belzebu, mas de você? _Foi há muito tempo, quando desisti do céu para que pudéssemos ficar juntos. Infelizmente você morreu no parto, e Bael apagou sua memória para não te perder pra mim. 

    _E quem é a mãe dela desta vez? Posso saber? _Ela não tem uma mãe específica, foi feita no  laboratório, com os genes e a essência de  nossa filha Laura. 

    _Espera eu só posso produzir meninas? 

    _Sim, mas houve uma vez que gerou um garoto, só que  ele seguiu seus passos e virou bissexual. _Faz sentido. Desculpe Laura, eu não me recordo mesmo, mas isso não significa que vou te abandonar certo? Agora se me derem licença, eu preciso ir  para a minha vida humana. 

    Ela tenta sair daquele local, mas o arcanjo segura no seu braço, e lhe diz algo no ouvido. Ao ouvir tais palavras, ela engole aquilo com desgosto, e lhes dá as costas. “Qual o tipo de vadia que eu fui na outra vida? Já é o 5 filho que me aparece.” Pensa entrando no carro, e então dirige para a casa. 

    Ao contrário do quê se possa imaginar, a professora não mora numa casa qualquer, mas sim numa enorme  mansão, com detalhes antigos, e não é o seu salário que arca com isso, mas sim os seus investimentos em ações da bolsa. Ao vê-la a pequena Isandra corre para lhe abraçar, e as duas entram na casa. 

    Benner está sentado na frente do computador, verificando os lucros da família Calligari de La Cruz, mas ao vê a esposa e a filha larga tudo, e vai lhes dá atenção. Os três entram numa sala escura, onde tem um sofá marrom bem confortável, com uma gigantesca tela de plasma, e todos os tipos de eletrônicos , de realidade virtual, que se possa imaginar. Cada um coloca o seu capacete, e então os três vão para outra realidade, que se passa no tempo medieval, mas tem muitos detalhes bem futuristas, na qual Isabelle é um anjo, Benner um arqueiro demoníaco, e a filha uma curandeira. 

    _Lá vem o dragão! 

    _Se abaixa Isa! 

    _Você também Izzy! 

    _Socorro! 

    _Isaaa! 

    _Izzy!  

    _Mãe! 

    _Deixem comigo! Grito de Tiamat! 

    _Flecha da Fênix! 

    _Cura mágica! 

    Ondas devastadoras saem dos lábios de Isabelle, e ela flutua no ar. Uma fênix gigante em forma de fogo, cobre o gigantesco dragão, e este gargalha sem parar, enquanto o escudo protege a família. O dragão se transforma em um homem de longos cabelos pretos, e olhos vermelhos, que quebra a cúpula de energia, e sequestra a avatar ruiva. 

    _Mamãe! 

    _Isabelle! 

    _Benner! Isandra! 

    A dama grita e então todos retornam para a mansão, menos Isabelle, que é puxada para a França.  Onde acorda nos braços de um homem semelhante ao avatar, mas de olhos castanhos quase vermelhos, em vez de brilhantes cor de rubi. Ao ver que não voltou para casa, ela tira o capacete em estado de choque , e se afasta da estranha figura loira e vitoriana, pegando a primeira faca que aparece para se defender. 

    _Quem é você?! E o quê quer comigo?! _Sou um velho amigo, que tem te acompanhado  a vida toda. 

    _Você se ferrou. Miguel apareceu ainda pouco. 

    _Não sou Miguel. Sou Bael. 

    _Bael não é meu amigo, e você não é Belzebu. 

    _Garota eu te transferi do seu país para o meu , enquanto estava jogando. Literalmente distorci a realidade ao meu bel prazer. Tem certeza de que não sou? 

    _Tem uma possibilidade de 75%. _Sempre cabeça dura.  Quer que te prove de  outra forma? 

    Os dedos com unhas grandes seguram o rosto da bela dama, enquanto ele sorri pronto para beijá-la, mas ela se afasta dando um passo para trás, com o olhar de nojo. Ele revira os olhos bem irritado, e a pega pelo pulso, levando-a a força para o sofá, onde a joga de mal jeito, fazendo-a fechar as pernas com rigidez, por temer que ele veja o quê tem por baixo da sua saia longa. 

    _Acabou o romance? Que rápido! 

    _Você é uma idiota. 

    _Me trouxe da América do Sul, só para me xingar? 

    Eu devo ser muito importante mesmo pra você! 

    _Você é, e sabe disso. Não se faça de tonta. _Certo. Eu estaria horrorizada, se não tivesse sido quase abduzida por você há 4 anos. Pode falar então por quê me sequestrou dessa vez? 

    _Estava com saudades. 

    _O idiota agora é você pelo visto. 

    _Eu não pude resistir. Você e sua família devem ir para o subsolo, daqui há 3 horas  se quiserem viver. 

    _Por quê? 

    _Tenho planos para iniciar a fundação do Novo Mundo. Por isso estou te avisando. 

    _E a minha casa? Eu levei 3 anos para conseguir a mansão!  

    _Ah para de choramingar. Eu te arrumo 3, em apenas 4 minutos. 

    _É se me tornar a Senhora Zebu. 

    _Não, isso vai ser em breve, mas não vem ao caso. Apenas arrume as suas coisas, e vá para o local indicado. Quando sair de lá, tudo estará  normal. 

    _Eu nunca vou me casar com você! _Disse isso da outra vez, mas aceitou de bom grado, minha querida Ishtar. 

    _Me mande logo para casa, e nunca mais me chame por esse nome maldito, dado em homenagem a sua primeira esposa. 

    Diz dando as costas para o homem, que segura em seu ombro, e lhe dá um aparelho com as coordenadas  do local para onde ir. Ela pega o tablet, e ele lhe dá um  abraço forte, como se quisesse evitar o seu sofrimento, porém ela não retribui, age da mesma forma que fez com o pai, e ele se obrigado a apelar, e a beija  

    no rosto, perto da boca. 

    _Se controle. Tudo o quê aconteceu foi há  mais de mil anos. 

    _Pra mim foi ontem. Há alguém mais que queira proteger, e alertar? Meus homens podem cuidar disso. 

    _Deixa que eu mesma aviso. Quanto tempo ficaremos lá?  

    _Até a fumaça se dissipar.  

    _Fumaça? 

    _Para o novo mundo existir, o velho precisa ser destruído. Em breve saberá mais detalhes. 

    _Eu tive muitas visões...Não é o quê... _É exatamente isso, e enquanto o seu poder  não for desbloqueado, é melhor que esteja em  segurança, junto dos seus amados. 

    _Não vai me separar deles vai?  _Não, mas quero que coopere e nos ajude a  libertar o seu poder. 

    _Por quê? 

    _No novo mundo, o homem vai caçar as bestas, e só eu não vou poder proteger a todos. _A velha história do Anticristo e a Messias negra. _É, mas não iremos nos casar, a não ser que queira. 

    _Pode ter certeza que não quero.  _Então assim será, mas te garanto que não vou desistir, não programei todo o mundo , para ficar sem a princesa no final. 

    _Me manda pra casa! 

    Ela grita com raiva, e ele a manda de volta para a mansão. O corpo dela se materializa, e a bela retorna para o lar. Tudo está escuro, e Isandra e Benner foram atrás dela. Sem pensar duas vezes, pega o telefone, e liga para eles. Infelizmente não há sinal, por isso ela pega o punhal na gaveta,  e vai atrás deles. 

    Há um céu cinza, com névoa por toda parte. Em vez de usar os sapatos altos, ela está com uma bota de plataforma baixa, e uma bolsa preta com a alça envolta do corpo, na qual guardou a lâmina. Ela sai da moradia, olhando para os lados em total desespero, preocupada que não os ache a tempo. 

    _Bael? 

    _Oi. Precisa de ajuda? 

    _Sim, essa sua manobra idiota, custou a minha família! 

    _O quê? Como assim? 

    _Eles desapareceram! Se isso foi alguma armação sua, eu juro que vou libertar meu poder pra te matar! _Se acalma princesa mimada. Eu vou localizá-los, e os mandar para o bunker em segurança. 

    _Eu não confio em você! 

    _Vai precisar. Desça e aguarde a minha ligação. 

    _O estranho é que seu número funciona. Bael! _É criado para ser um número de emergência,  por isso funciona. Agora desça. 

    _Eu... 

    _Eles estarão lá acredite em mim. Até mais. 

    _Bael! 

    _O quê é? 

    _Vou escrever uma lista de 10 pessoas que quero proteger. 

    _Ainda bem que não é amada pelo mundo, senão não iria me deixar destruído. Vou salvar todos. 

    Ele desliga, e ela fica preocupada, em vez de obedecer, pega o carro, e vai para a cidade. Ao perceber que ela não o ouviu, o anticristo se enfurece, e toma controle do veículo prendendo-a contra o banco, com o cinto de segurança, que agora é feito  de nano filamentos  automatizados, e por isso podem ser manipulados por hackers. 

    _Não pode ir pra cidade sua maluca! 

    _Você não vai me impedir de salvá-los. 

    _Eu já disse que vou te ajudar! 

    _Eu já disse que não confio em você! _Ah finalmente! Pronto! Eles estão há 10 km de você! E ainda tem 2 horas para achá-los! Se acalma! 

    _Avise-os. Eu vou até lá! 

    _Eu vou te guiar.  

    _Avise-os! 

    A voz do rádio para de responder, e ele lhe devolve o poder de dá a partida. A professora dirige até o local indicado, e não  acha ninguém ali, por isso pega o seu celular e volta a ligar para os seus familiares. Novamente não há sinal, e por isso ela bate violentamente contra o painel, com tanta raiva que parte do  seu poder desperta, e ela quebra o motor. “Porra!” Grita furiosamente, e se agarra ao volante entre lágrimas. 

    _Luciféria? 

    _O quê quer?! Me mandou pro meio do nada! 

    _Levante o rosto... 

    _Leviroth!  

    Ela abraça o marido, e olha para o lado procurando pela filha, mas ele explica que a menina está dormindo dentro do carro, pois desmaiou após caminhar por horas, procurando a mãe. Ao ouvir isso, a dama se sente culpada, e se lembra de Laura, que deve está em casa sem saber o quê está para acontecer. 

    _Bael? 

    _Sim.  

    _Por favor avise Laura Miller e Nicolas Miller. 

    _A sua aluna e o pai? Por quê? _Ela é uma das minhas futuras aprendizes, e aquela que já demonstrou lealdade, ela merece isso. 

    _Tudo bem mais sua lista de 10 pessoas com conexões, fecha aqui ok? Não sou Jesus para  salvar todos. 

    _Na verdade é sim. 

    _É mas o “todos” a que me referia eram os meus escolhidos, o resto são pecadores. 

    _Agora a bíblia faz sentido. 

    Brinca e o demônio ri desligando o aparelho. Ao notar algo errado, o príncipe do Caos quebra o rádio, e entra no veículo. Sentando-se com ela, no seu colo. Ele lhe dá uma  mordida no pescoço, tentando arrancar a toda a verdade  dela, mas a mulher percebe, e ri da tentativa. 

    _Está bem eu conto demônio chato. 

    _Então não perdi o jeito. 

    _Laura é minha filha. Minha filha da época em que era Arádia e Miguel caiu. 

    _E Nicolas é  Miguel. 

    _Sim, ele tem cuidado sozinho da Laura, e ela é uma boa garota mas tem andado com más companhias. 

    _Já se apegou a garota. 

    _Sim. Promete que não vai armar pra ela morrer? 

    _É claro. Elisa foi uma lição. 

    _Se algo der errado, eu mesma a destruo. 

    _Está bem. 

    Ele a abraça, e os dois mudam de carro. Ao entrar no Saveiro prateado do marido, ela encontra a filha dormindo, enrolada na sua jaqueta, e sorri, fazendo carinho na cabeça do seu par. Eles seguem até uma estação abandonada, na qual encontram outras famílias sobrenaturais, que aguardam  pelo metrô. Laura e Nicolas, estão no canto, junto das  amigas da filha de Isabelle, e isto não lhe agrada nem um pouco. 

    _Fiquem aqui. 

    _É a Laura Miller? 

    _Sim. 

    _Izzy. Faltam 23 minutos para o trem chegar. 

    _Eu resolvo isso em 2! 

    Diz caminhando em direção a adolescente e as amigas, e para diante delas, olhando para Laura com bastante fúria. Ao vê-la entre o sobreviventes a menina arregala os olhos, e cospe o sorvete que o pai comprou. Sem dizer uma palavra, a garota vai até a professora, e as duas se afastam. 

    _Eu quis te proteger. Não essas inúteis. _Elas são minhas amigas Isabelle, não podia deixá-las morrer. 

    _Aliás cadê a rainha boca suja de vocês? 

    _Essa daí eu posso deixar pra trás. _Está dando um golpe de estado? É isso que Nicolas tem te ensinado? 

    _Mãe eu preciso assumir o meu lugar. 

    _Se é um lugar roubado. Não é para ser seu. _Você teria feito a mesma coisa no meu lugar. 

    _Não, eu teria deixado Todas para trás, ou escolhido quem fosse leal a mim. Essas garotas não gostam de você Laura! Elas só gostam de permanecerem vivas! _E o quê quer que eu faça?! Deixar que todos me odeiem como você?! _É melhor ser odiada por idiotas, do quê ser amada por eles por 2 minutos, e morrer com uma faca cravada nas costas. _Ninguém nunca vai te matar, porquê não tem uma pessoa te seguindo. _Escute aqui pirralha. A única razão para sobreviver a este Armagedom, é porquê o Anticristo me escolheu. Então dobre a língua ao falar comigo. 

    Diz furiosa, e se afasta da garota, indo para a sua outra família, que a recebe de braços abertos, e sorrindo. Laura estava iludida, sobre o quê ter poder, e se chateia muito , ao ver que a irmã, é muito mais parecida com Arádia , do quê ela, por isso engole sua raiva, e volta para as amigas. 

    Isabelle se senta ao lado de Benner, e carrega Isandra no seu colo, enquanto revisa os nomes das 10 pessoas que ela escolheu para sobreviver. Os primeiros 4 nomes são os mais conhecidos. Não é porquê ela e as amigas perderam o total contato, que ela não iria lhes querer bem. Infelizmente o nome de Natasha é riscado, pois esta se recusa a “Viver em paz, em cima de um castelo, que é sustentado pelo sangue de negros e homossexuais.” Ao ler isso a bela ri com compaixão. 

    Natasha tinha sido tão cegada pela mídia, que nem era capaz de perceber, que não havia mais distinção entre os ricos e os pobres, mas sim entre os seres paranormais, e os humanos. Nada era mais azul ou branco, e sim um perfeito e profundo negro, que unificava as espécies mais fortes. 

    O trem chega e as portas se abrem. No tablet de Isabelle se encontra a recomendação de que siga no segundo trem com a sua família. No entanto por manipulação da própria, Laura deve mandar as amigas no primeiro, e pegar o  próximo. Sem sequer se despedirem da menina , as bruxas entram no transporte. 

    É quando Laura percebe que não tem mesmo amigas, pois estas seguiram o caminho, abandonando-a para trás, por acharem que há mais chances se entrarem no primeiro trem. Ao ver isso Nicolas abraça a menina, que chora sem parar, implorando para que fiquem com ela, mas as garotas só prezam por sua sobrevivência. 

    O segundo trem chega, e por ironia do destino, ou mesmo manipulação do anticristo, Isabelle, Benner, e Isandra, dividem o dormitório com a família Miller, que fica feliz e triste por se juntarem aos De La Cruz. Nicolas e Benner se encaram de imediato, e Isandra e Laura também, o quê faz Isabelle se sentir desconfortável, ao ponto de se sentar no meio deles. 

    _Isa diga olá para Laura, ela é sua irmã. Sim Benner. Nicolas é Miguel. Sim Miguel , Benner é o Rei Leviroth. _Olá “irmã.” _Olá “irmãzinha”! 

    _É um “prazer” Nicolas. 

    _Digo o mesmo Benner. 

    _Por favor não briguem.  

    _Não tenho porquê mamãe.  

    _Eu menos ainda mãe. 

    _Posso conviver com isso. 

    _Eu também. 

    _Alguém me trás muita cerveja! 

    _Eu quero 1! 

    _Eu quero 3! _Isandra Sônia Calligari De La Cruz, Você não tem idade para beber. 

    _Nem você Laura Irina Miller! 

    _Pelo menos concordaram em algo. 


    Capitulo 6 – O Ataque 

    O vagão para por um momento, ao chegar diante de um túnel. A família De La Cruz e os Miller acordam de seus sonos leves. Um grupo de serviçais de branco e mascarados, entra nos quartos, com bandejas, nas  quais se encontram máscaras de aves, para impedir a entrada do ar. A maioria delas é de corvo, mas há uma de coruja, que traz um bilhete específico para Isabelle. “Os líderes devem ser distintos dos sobreviventes. Você entrou no transporte vip do Inferno, aproveite a sua estadia.” Ao ler tais palavras, ela engole seco, e coloca a sua proteção estilizada. Curiosa para saber o quê está havendo, a bela cutuca um dos serventes. 

    _Qualquer um pode colocar essa máscara? _Não senhorita. O senhor Bael disse que a coruja é especificamente para você. 

    _Por quê precisamos das máscaras? 

    _Logo entraremos no Novo Mundo. Mas para este Nascer, o velho deve deixar de existir. 

    _Será uma bomba de gás? _Sim. Queremos destruir os impuros, não o planeta. 

    _Está bem. O quê ele faz? 

    _Logo verá em primeira mão. 

    A mulher sorri, colocando a máscara de pombo negro, e se retira. Após todos se vestirem adequadamente, um alarme é ressoado, e  se abre uma porta no escuro. Dentro de cada corredor, desce uma tela de plasma, que transmite o quê está ocorrendo no mundo  afora. O caos se espalha por cada continente, muitos se escondem nos bunkers, e bem ao lados dos trilhos, é possível presenciar toda a confusão. O gás é inspirado pelos cidadãos, que foram pegos  desprevenidos, e estes morrem em questão de segundos , vomitando sangue. O metrô do novo mundo para. Os que estavam conspirando contra o sistema, surgem em grande escala, e tentam abrir as portas. Há uma mãe segurando um bebê recém-nascido nos braços, que não para de chorar, com a sua pequena máscara de gato azul. Ao vê-la Isabelle, corre para lhe ajudar, só que antes que chegue a porta, surge uma mulher leoa. “Uma cobaia de Thomas John?” Nicolas conclui, ao olhar para a marca de um T e um J entrelaçado nas costas da criatura, que está a devorar os órgãos saindo do peito da mãe, com a boca toda suja de vermelho, enquanto o bebê mole se rasteja pelo piso, tentando sobreviver, machucado por suas garras. “Ele vai morrer!” Isabelle grita ao ver a criança. Notando o olhar de Nicolas e de Benner, ela percebe que ninguém está disposto a ajudar, por isso escapa pelo meio da  multidão, e abre as portas deixando o gás venenoso entrar. A bela coruja corre até o bebê, e a mulher leoa sente o seu cheiro. “Isabelle!” O outro ser com fantasia de coruja, fica apavorado pela situação, só que por medidas de segurança, o esquadrão dos brancos, fecham as portas. “Eu sou o chefe de vocês! Não podem deixá-la para morrer!” Discute com a equipe das aves noturnas, e enquanto isso Benner e Nicolas tentam sair para salvar a jovem mulher. “Eu, eu vou te proteger.” Ela diz com lágrimas, pegando o pobre bebezinho, que não para de chorar. Os seus berros são detestáveis,  só que naquele momento, tudo o quê quer é salvá-lo. A barriguinha dele, está coberta pelo fluxo escarlate, que não para de sair. “Não, não, não”  Ela abraça o menininho, segurando sua cabecinha chorona, ao correr da leoa humana. Porém esta pousa na sua frente, e atira a cabeça da mãe, ao seu lado. Fazendo-a ficar rígida de medo. 

    _Me dá a sobremesa. 

    _É uma criança! Não pode fazer isso! 

    _Ele iria crescer e destruir o novo mundo! 

    _O quê? 

    _O olho de Deus nos mostrou o futuro. 

    _O futuro não é inalterável. 

    _A única chance do mundo prosperar é se ele morrer. 

    _Então o mundo vai ser destruído. 

    Por quê eu não vou entregá-lo! 

    Ela grita, e a fera vai para cima dela. Ao ouvir o rugido, Benner, Bael,  e Nicolas, olham para a direção da moça, e ficam em pânico, pois há  uma falha na contenção, e sua roupa é rasgada, fazendo-a absorver   a névoa venenosa. Ela grita, e gotas vermelhas mancham o piso de  azulejo branco. Pouco a pouco, sente o veneno fazer o efeito, e se torna difícil respirar, só que ainda sim não larga o  nenê. 

    _Já chega Esfinge! 

    _Mas senhor ela está com o bebê! _Não importa! Encoste um dedo  nela, e eu juro que te mato! 

    _Sim senhor. 

    Esfinge se retira do local, e o anticristo vai até a moça, que segura o menininho contra o peito, cuspindo sangue sem parar. Ele a pega em seus braços, e passa a mão em seus cabelos, vendo-a empalidecer cada vez mais. “Isabelle que bobagem foi fazer?!” Pensa ao olhar para os seus braços, que seguram o garotinho, que também está prestes a morrer. “ 

    Isso foi idiota! É apenas um mortal!”  Mostra o olhar desaprovador 

    , então a bela agarra em sua gola com a mão livre, e o olha 

    implorativa. 

    _Salva o meu bebê. 

    _O quê? Surtou? A mãe dele é outra! 

    _A mãe dele sou Eu agora. _Isabelle não! Você vai ter que ficar pra trás se o quiser! 

    _Odin. Odin é o nome dele! 

    _Você está morrendo! 

    _Salva o meu bebê! 

    Ela berra em desespero antes de desmaiar no seu colo. Notando que não há como convencê-la de abandonar o garotinho, ele descobre o rosto, e morde o seu pulso, sugando o próprio sangue, para guardar na bochecha. Os lábios não param de pingar, e por isso ele transmite a cura da morte para ela com o  seu beijo fervoroso, que não é retribuído. Os olhos se abrem, mas não são  cor de mel, e sim violetas azulados, semelhantes aos de um dragão. Ela percebe  que foi salva por ele, e lhe bate para que ajude a criança também, obrigando-o a alimentar o bebê, como se fosse um passarinho. O olhinho da criança se abre, e a bela sorri, estranhando aquela reação o anticristo fica  desconfiado.  

    _Por quê fez isso? 

    _Eu não suportei ver um bebê morrer. _Para o novo mundo existir sacrifícios serão feitos, precisa se acostumar. Não vai poder salvar todas as crianças do mundo. 

    _Eu sei. Mas quem puder salvar com toda certeza eu irei. 

    _E o quê vai fazer com isso? 

    _É um menininho. 

    _Tanto faz. Não pode entrar no bunker com ele. 

    _Então eu vou ficar aqui. 

    _Ah não. Eu não te avisei como proteger os seus amados, para você ficar no velho mundo. 

    _Então terá de aceitar a mim e o  bebê. 

    Benner e Nicolas se aproximam com as meninas, que ficam assustadas pela forma como mãe segura o bebezinho. É claro que ninguém aprova a decisão da moça, mas como Bael tem autoridade sob o conselho, ela entra no transporte, e é levada para o novo mundo. Todos ficam descontentes pela conexão que ela teve com o recém-nascido, e por isso quando esta dorme ao lado do bebê  e as suas filhas, estes se reúnem fora do vagão, e discutem sobre o quê  está havendo. 

    _O quê foi aquilo lá fora? 

    _Acho que tenho uma ideia. 

    _Também acho. 

    _Desembuchem. Ela é a mulher mais complexa do mundo, não deu para ler todos os seus arquivos. 

    _Isabelle sempre quis ter um menino. _Mas de acordo com os avanços científicos , ela só pode produzir meninas. _Então ao ver o menino que perdeu a mãe, ela não perdeu a oportunidade... _Sim. Ela o chamou de Odin não foi? Odin é o nome que daria para o  nosso filho. 

    _Ela deve pensar que é coisa do destino. Ninguém vai separá-la desse menino. _É mas segundo o olho divino ele é  o homem que vai destruir o meu império. 

    _Não vejo mal nisso. 

    _E eu menos. 

    _Típicos dos homens que não fazem a diferença. 

    No dia seguinte... Isabelle cuida da criança que adotou, com a ajuda da  equipe de cientistas do anticristo. Em vez de se opor a criação de Odin, o belo e ardiloso homem de negócios, se aproxima da bela e o novo filho, e tenta manipulá-los. “Leviroth não quer ser o pai dele, não é? Eu assumo  a responsabilidade.” Ele se oferece para dar seu sobrenome ao novo membro da família de Isabelle, e ela nega com educação, pois  ao que parece Leviroth aceitou o nenê. 

    _Ele tem o meu DNA. Eu o salvei da morte. 

    Mereço ser o pai dele. 

    _Bael. Benner já aceitou. 

    _Mas fui eu que salvei vocês. 

    Não é justo. 

    _Qual é o seu interesse no Odin? 

    _Ele vai destruir o meu império Isabelle. Mas acredito que se for o pai dele, posso mudar isso.  

    _Vai manipular ele? 

    _Se eu for um bom pai, não haverá razões para odiar o quê construí _Na boa Bael. Cê surtou. 

    _Me dá ao menos uma chance. 

    _Não. Ele será um De La Cruz. 

    Não um Baltazar. 

    Benner chega a estufa onde a esposa brinca com o bebê, e se depara com ela e o anticristo conversando de maneira bem íntima. Seus olhos ficam vazios, e este se recorda de quando ela estava para morrer, e ele a tomou nos braços, acariciando o seu rosto, e lhe dando sangue com um beijo. É claro que ela não retribuiu, porém na mente do príncipe do Caos, este ato de heroísmo poderá custar tudo o quê ele batalhou para manter, o seu casamento. Simulando uma tosse, ele dá passos longos para perto da amada, e o bebê, e a beija com carinho, mas  quando os lábios se desgrudam, encara o rival. _Eu pensei que era contra a adoção do menino Odin. _Ele carrega o nome do único Deus acima de mim,  e ao qual eu respeito. Além disso veio para te destruir, é o suficiente pra mim. 

    _Não precisa disso. O pai de Odin é o Benner, não há discussão. 

    _Não me obrigue a isso. 

    _Obrigar a quê ? 

    _O quê está escondendo? 

    _Esse menino é meu filho com aquela mulher. 

    _Você é o pai biológico do Odin?! 

    _Sim, e ela é a mãe biológica dele. _Opa. O quê aconteceu naquela abdução  há 4 anos?! Eu não me lembro de muita coisa.  Só de um lugar branco como um laboratório  alien, e está muito drogada. 

    _Nós colhemos seu material genético. 

    Foi assim que Nicolas reviveu Laura, e eu criei esse bebê. Só que ao perceber o quê ele faria, dei a ordem para impedir a continuação da gravidez. 

    _Vocês realmente abduziram minha mulher, para fazer experiências bizarras?! 

    _O quê você fez? 

    _Não foram tão bizarras. Ela tem o sangue e a essência de Lúcifer, era perfeita para o meu herdeiro. 

    Eu mandei matar a barriga de aluguel, e ela fugiu , descobriu que sou o anticristo, e se juntou aos conspiradores. 

    _Não há escrúpulos pra você mesmo. 

    _Você tentou assassinar meu único menino? 

    _Isabelle você tem vários filhos mundo a fora. 

    Odin é um de milhares. 

    _Eu ia ver a morte de um ser que é DNA do 

    meu DNA. O único menino que pude ter, e você ia  tirá-lo de mim! Nunca mais se aproxime da gente! 

    Grita furiosa, pegando o bebê no seu colo, que não para de chorar, e sai da estranha instalação. Bael bufa de raiva, e Benner o encara com indiferença. Fica claro que logo vão discutir, mas mesmo assim o belo loiro, respira fundo, e abre espaço para que se sentem a mesa, e conversem de forma civilizada. O marido se acomoda, e junta as mãos com um sorriso de fúria, enquanto o senhor  do novo mundo, apenas aguarda o quê está por vir. _O quê queria com esses herdeiros sintéticos? 

    _Um exército de seres fiéis a mim e a minha rainha. 

    _Ela é a Minha Rainha.  

    _Não por muito tempo. No outro mundo você é alguma coisa. Aqui eu sou, e não sei se lembra mas a sua amada ama tudo o quê se refere a minha cultura diabólica. 

    _Ela ama tudo o quê se refere ao Pai dela. _Ou será que é ao seu verdadeiro marido? Nunca houve um divórcio adequado, esqueceu? 

    _Luciféria morreu Bael. Esta é Isabelle. 

    Elas não são a mesma pessoa. 

    _Então terei que te roubar Isabelle também. 

    Porquê ela tem o espírito da minha Lucy. _Depois de tentar matar o Odin, ela nunca vai  te querer. Não importa quantas vezes venha a salvá-la. 

    _Ah qual é. Eu fiz coisas bem piores na outra vida, e ela ainda sim casou comigo, e tivemos a Memphis  , da maneira tradicional. 

    _Que ela foi obrigada a matar, porquê tentou eliminar Elisa e Marisa.   

    _Mas ainda sim a tivemos. 

    O loiro ri com malícia, e o demônio se controla para não acerta-lhe um golpe. Horas mais tarde...A jovem mulher olha para o bebê, e este ri para ela. As filhas não se sentem felizes com tanto apego, e reviram os olhos. Isandra e Laura partem pelos corredores, e vão até Nicolas que está sentado no refeitório,  falando seriamente com Leviroth, que demonstra desagrado, porém  não para com ele, e sim com a ousadia do seu rival. 

    _Não queremos ter um irmãozinho! 

    _É verdade papai. Já me basta a Laura! 

    _Hey!  

    _Desculpa Laura. Você é legal, mas não é aquele moleque remelento, que nem tem o nosso sangue. 

    _Isso é verdade. Que amor é esse?! 

    _Acalmem-se as duas. 

    Nicolas respira fundo, e os pais puxam as cadeiras para as garotas, que se sentam com alguma dificuldade. Os pais se entreolham, com a certeza de que as duas crianças mimadas tem tendências psicopatas, e podem fazer como a filha de Bael. Por isso tomam as rédeas da situação, e tentam evitar o quê pode acontecer, para que Isabelle não tenha que se voltar contra  as meninas. _Odin é irmão de vocês _O quê?! 

    _Como assim?! Isabelle pulou a cerca?! 

    _Laura! 

    _Não, ela não pulou a cerca. Pelo que o idiota do meu irmão explicou, foi criado por manipulação genética. 

    _Em laboratório? 

    _Como eu? 

    _Ao que parece sim. Não consegui destruir todas as amostras de DNA de Isabelle pelo visto. 

    _Então foi assim que conseguiu o material genético dela? 

    _Foi? Papai achava que era de maneira tradicional. _Eu também achei, até papai me contar que  sai de uma barriga de aluguel, de um clone dela. 

    _Nunca pensei isso. Isabelle não pularia a cerca uma segunda vez Isandra. 

    _É? Pelo ciúme que sentiu da mamãe, duvido viu? _Senhor De La Cruz posso assegurar, nasci  em uma instalação de pesquisa genética. 

    _Podemos nos focar em questões mais importantes? 

    Isabelle e Bael tem um filho. Isso não é assustador? o quê ele ganha com isso? 

    _Uma ligação eterna com Isabelle. Está convicto de que ela pode voltar a mesma Lucy, que largou todos os que amou, para ser sua rainha. 

    _Minha mãe já teve um caso com ele? 

    _Arádia e o Novo Senhor do Inferno? 

    _Sim. Houve uma época, que ela sentiu um ódio extremo do pai e a mãe, de mim e Leviroth, e se juntou a ele. _Não só isso. Destruiu milhares de povos, julgando-os a favor do seu então marido. 

    _Como Ishtar. 

    _Ela também é Ishtar? 

    _É um lado sombrio da vida da mãe de vocês. Só que tudo começou por causa de um  

    Bebê. 

    _E agora está se repetindo... 

    A dama coloca o bebê para dormir, e sente uma forte pontada na cabeça, que a faz se debater contra o vidro da janela.  Um vulto negro surge e a carrega, embora  se pareça muito com Bael, não é ele que vem acudi-la, mas sim o seu pai, que a deita na cama, e a cobre notando a sua palidez. “O quê ele fez contigo?” Passa a mão na cabeça da filha, que está ardendo em febre, e suas veias brilham um forte  tom de roxo florescente. Fazendo-o entender o quê houve. Furioso este sai do  quarto, e vai atrás do anticristo, pronto para corrigir o seu filho rebelde, da mesma forma que o seu pai fez com ele, quando descobriu que ele lhe roubou, o seu bem mais precioso, a sua rainha. No caminho, este se depara com Victória e o neto Dave Haster. Ao vê-lo a mulher com roupas de caveira, corre para o abraçar, e este o retribui relutante. 

    _O quê foi pai? 

    _Isabelle foi infectada com a essência de Caesta. 

    _E o quê isso significa? 

    _Significa que seu irmão Bael, está tentando matar Isabelle, para reviver Ishtar  outra vez. 

    _Mas Isabelle é Ishtar  não ? 

    _Sim, e não. Ishtar é uma das 3 personalidades da sua irmã. A  1-Luciféria Lilith II, o anjo justo. A  2-Nahemah Hela, a deusa do julgamento. E por fim a 3 é Babalon Ishtar. 

    _Isabelle é Babalon?!  

    _E também é Koré. 

    _Mas Babalon é a prostituta e Koré a virgem! 

    _São estágios da vida da sua irmã. Ela foi Koré, a meninas dos olhos de Bael, e se tornou Babalon, a mulher dele. _Isabelle e Bael são realmente casados?! _Não exatamente. Ela como Babalon Ishtar é a mulher dele, mas como Isabelle é mulher de Azazel. 

    _Então Bael quer exterminar as outras duas versões dela, para só uma existir? _Sim. Babalon surgiu de todo o ódio que sua irmã sentiu por cada sofrimento, ela é o lado mais negro que existe nela. 

    _Então o quê ocorre se ela virar Babalon? _Ela se torna a Messias Negra das verdadeiras trevas. 

    _E  isso quer dizer? 

    _Que não há um futuro livre para as próximas 

    gerações. 

    Ele respira fundo, e Victória fica catatônica. Isabelle  gira de um lado para o outro, sentindo-se desconfortável. Corpos estão espalhados por toda parte, queimando em brasas ardentes. Sua mão segura uma espada e um estandarte, como se fosse uma amazona egípcia. Seus pés caminham pelo chão, cobertos de sangue. O medo lhe preenche o âmago. Que criatura grotesca teria feito tamanha chacina no antigo Egito? Sua respiração se torna ofegante, o coração palpita rapidamente,  e logo esta começa a correr pela areia. Há risadas em uníssono, e isto a deixa desconfiada. “Inanna.” Pensa com certeza e raiva em seu olhar, dando  passos longos em direção as vozes. Uma mulher, com o corpo pouco coberto, vestida de branco, está sentada no colo do Deus do local, com um cálice dourado em suas mãos.  Ao vê-la sorridente e maléfica, larga suas armas, em estado de  pânico. Os lábios da mulher misteriosa, beijam os lábios profanos do Deus iniquo. A mão do homem pálido, e de olhos vermelhos, agarra os seus cabelos  ruivos, e eles se encaram como dois dragões prestes a acasalar. As suas unhas negras  arranham carinhosamente a coxa dela, enquanto as mechas dos longos cabelos lisos, caem sob suas pernas, fazendo-a corar e abrir seus olhos violetas. Ao assistir a cena, a bela, fica de queixo caído. “Por favor não faça isso!” Grita em sua mente, ao tapar o rosto com os dedos abertos, e os olhos arregalados. Por não  conseguir suportar ver a cena, já que a mulher de cabelos 

    de fogo é ela mesma, em outra vida. Aterrorizada, pela visão que acabara de  ter, dá passos errados e escorrega para trás. Ao vê-la os demônios sorriem, e vão ao seu encontro, avançando em seu corpo, e beijando-a dos pés a cabeça, até Babalon desaparecer ao entrar no seu corpo, fazendo-a se sentir muito atraída, pelo novo Senhor do Céu e do Inferno. 

    _Você vai ceder a mim. Sempre cede. Basta sofrer o suficiente. 

    _Aquela, vadia, ali, não, sou, eu! 

    _,É uma parte sua. Uma parte que sempre desejou  toda a minha escuridão e iniquidade. 

    _Para! 

    _Você ama o Inferno, porquê ama a mim. 

    _Não! Eu! Não! Te amo! 

    _Ama sim. Pare de fingir o contrário. 

    _Não...Não... 

    Ela sente os dedos dele em suas costas, logo está com a roupa da Deusa Escarlate, e a sua coroa. “Eu não sinto atração, eu não sinto atração, eu não sinto atração!” É o  quê repete na sua mente, tão concentrada em não sentir, que é pega desprevenida no escuro, e ele a beija com ferocidade. De inicio ela não retribui, mas seu corpo reage contra a sua vontade, fazendo-a sentir algum prazer ao ser dominada, pela poderosa criatura. A língua dele entra em sua boca, por vários minutos, deixando-a sem ar, enquanto eles giram no meio do nada, como fantasmas se tornando um só ser 

    , de duas cores, a luz violeta, que se torna levemente rubra e a ausência de cores, o Ayin. “Eu Não...” Tenta o impedir de chegar, só que não resiste, e acaba em  seus braços, emanando a luz completamente em cor de rubi. 

    _Socorro! 

    _Filha? 

    _Mana? 

    _Me tirem daqui! Me tirem daqui! 

    _O quê aconteceu Isabelle?! 

    _Ela teve um pesadelo com o anticristo. 

    Certeza. 

    _Eu, e ele... A gente... Ai minha nossa Eu não acredito no quê vi! 

    Ela se ajoelha ao lado da cama, e o pequeno Odin acorda assustado, em estado de desespero. Ela treme se aproximando do bercinho, está em choque, sem acreditar no quê aconteceu, e no quê sentiu. O pai e a irmã tentam lhe acalmar, mas nada funciona, seu corpo não para de vibrar. É como se estivesse na Antártida, usando somente um biquíni. Lúcifer abraça a filha mais velha, impedindo-a de carregar o seu neto, pois na situação em  que encontra, pode derrubá-lo. Victória pega o bebê draconiano, e fica a niná-lo, junto do filho que luta para distrair o seu primo. A bela  volta a empalidecer, e sua pressão desce a tal ponto, que esta perde a consciência, nos braços do anjo das virtudes. Percebendo a gravidade do caso, a irmã mais nova, passa a mão no cabelo, e se ajeita ao lado da consanguínea fazendo-lhe carinhosos cafunés. 

    _É muito para Isabelle suportar. 

    _Sim. Sua irmã foi a que mais sofreu de vocês. 

    _Como que ela acabou nos braços dele?! Todo mundo sabe que ela é do Azazel! 

    _Ela e ele tem um destino, criado por Caesta , a grande deusa matrona. 

    _Mas você disse uma vez que ela e Azazel nasceram um para o outro! 

    _Sim, e é verdade. Só que ela foi castigada, por fazer Miguel se apaixonar, e destruir o seu destino com a outra sobrinha. 

    _Eke?  

    _Sim. Por se meter com uma das favoritas, ela a fez cair nos braços do demônio. Ficando assim dividida pelos gêmeos primários. _E o quê ela pode fazer pra mudar isso? _Somente controlar o quê sente pelo seu carrasco. 

    _Isso é horrível. Por quê Caesta é tão ruim? _Não há uma resposta. Mas Caesta odeia a sua irmã, tanto quanto a sua tia Lilith. Então creio que a motivação vem daí. 

    Lúcifer segura o netinho, e este gargalha no seu colo, sentindo-se muito confortável.  Ao vê-lo ele franze o cenho, e se recorda de quando segurou os gêmeos Bael e Azazel em seu colo. Azazel era uma criaturinha coberta por uma mortalha de energia escura, com um sinuoso brilho em seu peito. Já Bael era um bebê que brilhava tanto quanto o sol, mas em seu olhar havia a mesma fúria, do pai, quando ainda recebia o nome de Samael, e isto o preocupou. Os meninos, cresceram aos cuidados de Lilith, que em sua sabedoria sobre gestação, logo viu o futuro devastador daquele que pensou ser seu filho. Um calafrio percorreu-lhe a espinha, ao se lembrar de como Lúcifer era antes, e por isso o temeu por quase toda a sua vida. Bael cresceu se sentindo odiado pela mãe, e quando Luciféria nasceu, ele tentou matá-la afogada. Se a rainha do Inferno não chega a tempo, ele teria conseguido. É claro que a princesa não morreria de fato, mas esta seria enviada para o reino de Caesta, onde sofreria com o seu julgamento rígido e cruel, mesmo sem saber pensar. Lilith teve ódio dele, e por isso ela o enviou para uma floresta, na qual suas criaturas o puxaram para o subsolo do Éden Negro, e o manteve lá. Como no sonho de Isabelle, ela  foi até o lugar proibido, e teve com o terrível demônio, uma espécie de amor platônico, no qual ele a quis como sua futura rainha do submundo, e ela o quis como um amigo, com quem dividia suas aflições sobre a família, Miguel ou Azazel. Isso o devastou, e foi assim que ele acabou nos braços da sua verdadeira mãe, Inanna, que o educou para tomar posse do  céu de Ninlil, e o Inferno de Ereshkigal, que basicamente são a face da mesma deusa. Caesta os favoreceu, Bael tomou posse do mundo de Anu, e Chaos o marido e o oposto complementar dela, não gostou nada da afronta, e por isso lhe mostrou o poder da desordem. Enquanto céu e inferno lutavam entre si, o novo Deus, inventava meios para se aproximar outra vez de Luciféria. Só que ao vê-la nos braços do odiado gêmeo, ele mesmo a empurrou para a Terra, onde ela sofreu  

    até se matar. O quê só o pai sabe, é que quando ela se foi, ele saiu do trono, e entrou na água, sujando-se com o sangue da bela, enquanto via que poderia salvá-la. Só que nada conseguiu, e esta agora na adolescência, foi mandada para o reino de Caesta. A deusa anciã, recebeu sua essência, e quis destrinchá-la, mas ele atravessou o reino fatal para os deuses, só  para lhe trazer de volta. “Caesta. Você disse que quer que ela sofra. Ela sofre ao meu lado. Devolva-me a minha boneca.” O mentiroso profissional piscou diante da gigante, que gargalhou como louca, com as suas duas vozes entrelaçadas, entre a roca e a fina, como a de Akasha, em A Rainha dos condenados. O novo Deus, se curvou para a velha Tiamat, sem saber que decisão tomar. 

    _Está apaixonado pelo anjo maldito! 

    _Não, não estou mais. Eu só quero feri-la. _Não me engana Bael Lúcios  _Eu sou o carrasco dela.  

    _Não é mais. Designarei outro para esse 

    serviço. 

    Ao ouvir a ordem, o demônio ri sem acreditar, e então pega a deusa pelo pescoço, e a parte ao meio, banhando-se no sangue da draconesa, com seu olhar frio e sem vida. “Ninguém me diz o quê fazer. Nem mesmo você minha  querida avó.” Ele diz ao olhar para a cabeça dela, então olha para o coração desta, e o pega. A bela filha de Lúcifer, aparece presa em um cristal verde,  num sono profundo, que o jovem deus quebra com seu punho, só que nem assim ela desperta, e por isso ele rasga o seu peito, e coloca o miocárdio da deusa no lugar do seu. 

    _Bael o quê está fazendo?! Ela não é digna! 

    _Eu a escolhi. Quer você queira ou não. _Ela não vai suportar! É filha de um demônio e meu coração de carne é puro!  

    _Ah é? Esqueci de lhe contar  Luciféria não é filha de uma demônia. Mas sim da deusa que foi violentada. 

    _Ela é filha de Ninlil?!  

    _Você entende rápido.  

    _Então isso foi uma armadilha?! 

    _Achou mesmo que depois de tudo o quê fizeram Comigo, eu seria fiel a vocês?! Ah vovó isso foi uma tolice. 

    _Você vai morrer! 

    A Deusa Berra se materializando, mas os olhos de Luciféria se abrem, tão  verdes quanto esmeraldas, e esta surge diante da gigante, segurando o seu punho violento, com relativa facilidade. Ao ver que a menina agora, tem uma parte importante do seu poder, ela voa para longe, e decide criar um exército para deter Bael e a amada.  Aos poucos ela recobra a consciência, porém não se recorda de nada da outra vida, por isso o novo deus agarra a oportunidade, e se aproxima dela, fingindo o seu par. É claro que ela reconhece, e se afasta , só que quando recua, ele avança, como uma serpente, e lhe dá o bote, fazendo-a não resistir, e até retribuir aos seus desejos. 

    “E depois dele a manipular e mentir, ainda sim ela se tornou sua rainha, e nos traiu.” É o quê reflete o imperador do Inferno nos dias atuais, olhando para a filha no colo da irmã, com certo receio. Por isso coloca o pequeno  Odin para dormir, e volta para o caminho anterior. Contudo ao chegar na porta ouve uma voz familiar, e por isso para. 

    _Papai? A onde está indo? 

    _Vou resolver alguns problemas querida. 

    _Não o enfrente. Ele está poderoso demais. _Ele nunca foi mais poderoso do quê eu. 

    _Como pode ter tanta certeza?  

    _Eu ainda estou aqui. 

    O coroa charmoso pisca, e vai embora. Bael fica sentado diante da mesa,  fazendo anúncios em nome do seu pai, em relação ao Apocalipse, como se este patrocinasse suas atrocidades, em prol do novo mundo. No entanto ao terminar o seu discurso raso, o próprio deus da justiça aplaude com ironia, entrando no local, com o seu sorriso mais confiante, que faz o diabo ficar em choque, por acreditar que este vai desmascará-lo, mas por total educação, o pai espera a reunião acabar, para poder  repreendê-lo. 

    _Lúcifer. 

    _Olá filhinho. Está prestes a dominar o mundo, e ainda sim precisa do meu nome para ter algum sucesso? 

    _O quê quer?! 

    _Que fique longe de Isabelle. A menina não é a sua Ishtar, e eu não quero vê a reencarnação da minha filha  morrer. 

    _Você pode tentar enganar a Aggarath, o Azazel, o Miguel, e as crianças. Mas Eu sei que é a minha Luciféria. 

    _Em primeiro lugar Luciféria é o par de Azazel. Em segundo ela não tem mais a mesma personalidade. A Luciféria que conhecemos não existe mais. 

    _Então nunca a conheceram de verdade. Porquê Isabelle é exatamente a mesma Luciféria da qual me lembro. 

    _Você não vai machucá-la outra vez. 

    _Você e eu sabemos que eu nunca a machuquei de fato. O único que mais se feriu com a nossa união foi Você. 

    _Você fez com ela se odiasse, e enlouquecesse! 

    Não venha me dizer que não a machucou! 

    Lúcifer perde a cabeça, e agarra o filho pelo colarinho, o jogando contra a parede. O loiro ri da afronta, como se aquilo não o ferisse, e o quê o pai estava dizendo fosse somente ladainha. Todavia basta sentir a pressão da flamejante luz gloriosa do deus renegado, para se controlar, e deixar de agir feito um idiota. Infelizmente o momento de juízo  não dura, e este volta a defensiva agressiva. 

    _Ela surtou apenas porquê não se aceitou. 

    _Ela não é assim. Não é uma...! 

    _Uma o quê? 

    _Uma aberração como você! 

    _Desculpe informar reencarnação de Chronos. Mas a sua doce Perséfone, não é tão pura quanto você acredita.  

    _Eu nunca disse que ela era pura. Não seja idiota. 

    Ela apenas não é monstruosa como você. 

    _Ah ela é. E toda vez que desceu ao meu reino,  

    provou da minha escuridão e quis mais. 

    _Você a obrigou! 

    _No começo sim... Mas depois ela voltou ao Tártaro, pelo prazer que somente as trevas podem proporcionar. 

    _Está bem. Já vi que discuti não vai levar a  nada. Só fica esperto. Porquê Eu estou por  perto, e não te deixarei tirá-la de nós. _Interessante é um desafio? Porquê se for Eu já ganhei. Ela te odeia, pois se deu conta do péssimo pai que é. 

    Ele diz com um sorriso cruel, e o deus que domina o Tártaro, lhe acerta um soco no rosto, com a mão tão quente, que se ele não desvia, em vez de receber um arranhado no canto dos lábios, teria tido a face queimada. A raiva consome o progenitor, e este sente seu punho tremer, o deus do novo mundo, se enfurece pela humilhação, e urra para que saia imediatamente da sua  presença. 

    “Eu já pretendia tomar Isabelle para sempre, mas agora isso não é mais uma pretensão, e sim uma certeza.” Os olhos dele ficam sombrios, e o anjo caído, caminha pelo vagão, suando frio. Ao verem Lúcifer, Azazel e Nicolas correm para cumprimentá-lo, e saber o quê houve de tão grave, para que tenha se deslocado da Boulevard, para os trilhos do  trem da perdição. 

    _Olá irmão. 

    _Oi pai. 

    _Olá garotos. 

    _O quê aconteceu? Está trêmulo! 

    _Tem a ver com a Izzy? 

    _Apenas tive uma conversa com meu filhinho rebelde. 

    _Parece mais que discutiu. 

    _E espancou. 

    _Ah isso? É porquê ele não quer deixar a minha filha em paz, e me chamou de péssimo pai. 

    _É um soco e tanto. 

    _O quê ele ainda quer com Isabelle?! 

    _Tê-la de volta. 

    _Mas mesmo depois de muito tempo? 

    _Eu vou matar ele antes de conseguir uma segunda vez! 

    Azazel se prepara para ir atrás do irmão, mas Lúcifer o impede, e então avista a sua sobrinha Alexandra, e tem um plano, que resolve colocar em prática. Como quem não quer nada, se aproxima da moça, e tenta convencê-la a lhe ajudar, mas como a menina tem o sangue das deusas, percebe logo que é uma jogada, e o       faz confessar a verdade. Ele se envergonha, só que ainda sim, a bela bruxa resolve ajudá-lo, por ver o seu desespero, ao pensar que vai perder  

    a filha do seu grande amor outra vez. 

    _Então Isabelle realmente teve um relacionamento com  O Anticristo? 

    _Sim. 

    _E há ainda alguma chance de quê ela caia nos abraços dele? _Infelizmente há. Ele percebeu que a fonte do amor, vem do  seu ódio pelo resto do Universo, e por isso desgraçou a vida dela. 

    _Se ela souber que ele fez isso, certamente ficará longe dele. 

    _Não. Isabelle é louca como Luciféria, pode acabar se apaixonando, só por saber que ele gastou metade da vida, focado em obtê-la. 

    _E ele realmente gastou?! 

    _Ele não está vigiando-a de agora Alexandra. 

    _Ele é um psicopata! Isso é ruim... 

    _Eu sei... Isabelle tal como Luciféria abraçou As trevas com que a humanidade me vestiu. 

    Isabelle acorda no colo da irmã e se assusta, pois jamais imaginou que Victória  seria capaz de perdoá-la, após a sua coroação de rainha do pop no Madison Square Garden. Na qual a melhor amiga e irmã, se enfureceu pelo grande sucesso que seu pai proporcionou a mais nova, enquanto a manteve longe dos holofotes, porquê segundo ele Victória era mais digna, por ter o amado cegamente. Foi a gota d’água para Isabelle, que fez até o mais virtuoso dos seres ficar em silêncio, quando disse “É muito fácil ser fiel aos sentimentos por 3 anos de espera. Ela não ficou, por mais da metade da vida, esperando todos os dias que aparecesse, e chorou achando que tinha enlouquecido, quando nada aconteceu. Mas se isso a torna mais digna, então a partir de hoje corto meus laços com você e o satanismo, não importa  se tenho o teu sangue, Eu não sou mais tua filha.” Mal sabia ela, que o pai não fez aquilo por duvidar da sua nobreza, afinal nunca foi fã de adoração, e sim do amor  que poucos tinham por ele. O pobre imperador foi obrigado a agir dessa forma, renegando-a, ou Inanna, teria cortado-lhe a garganta, assim que fugiu da Dimensão prisional, junto com os demônios que enganaram as princesas e os príncipes do Caos. 

    _Então recebeu o meu pedido de desculpas. 

    _Sim, e eu aceitei. Você é minha irmã, sempre vai ser. _Posso até ser Vick. Mas te salvei por compaixão, e não pelo babaca do nosso pai. 

    _Devia pegar menos pesado com ele Izzy. 

    _Primeiro só Azazel me chama de Izzy. Segundo Você lembra o quê aconteceu no Madison. Ele me chamou lá para ser humilhada e rebaixada a serva! 

    _Primeiro Tô nem aí. É Izzy e ponto. Segundo já parou para se perguntar por quê ele fez isso? 

    _Porquê não o amei o suficiente e era indigna. 

    Ele mesmo disse. 

    Ela revira os olhos, e a dama lhe entrega o celular, na página oficial do site do pai.  “Leia a carta, Ao fruto do meu grande amor 19/08/2020.” Ela respira fundo apontando o dedo para onde a bela deve clicar. Isabelle se mostra relutante, mas Victória lhe dá, Insistindo para que o faça. “Ao contrário do quê ele disse a mídia, não foi um single barato, para iniciar sua carreira com chave de ouro. “ Diz, então isso desperta a curiosidade da bruxa mais velha do convém.  “Ao fruto do meu grande amor. Me perdoe por te abandonar naquela noite de horror. Você não entenderia, então te deixei ir. Se eu te coroasse como sonhava, não haveria como fugir. Sua mãe é a minha rainha, mas você sempre será minha garotinha. Me perdoe por  ser tão cruel. Mas havia algo terrível por baixo do véu. Seu sorriso, sua esperança. Sempre estarão em minha lembrança. Não podia permitir aquela matança. O relógio se move lentamente. Fazendo com que eu me lamente. Contudo não posso voltar atrás. Os monstros te devorariam no Alcatraz. Então tenho que seguir de coração partido. Sem poder está contigo.” Ao ler a parte “Seu sorriso, sua esperança” Ela fecha o cenho, e se esforça para terminar. Ao ver o seu incômodo,  Victória percebe que há algo errado, e pega o telefone de volta, pronta para abrir o inquérito. 

    _Não basta ter conseguido o topo que sonhei?! 

    Tem que jogar na cara o quanto ele te ama?! 

    _O quê?! Não Izzy. Não é pra mim! 

    _É claro que é, eu quase nunca sorrio ou tenho esperanças! 

    _Mas já teve! E nosso pai se recorda disso! Por favor Izzy! 

    Inanna não é o grande amor do nosso pai! Sua mãe É! 

    _Se isso é verdade, por quê ele pulou a cerca tantas vezes com ela?! 

    _Porquê ela o enfeitiçou! 

    Grita como se revelasse um segredo cruel e obscuro, e Isabelle recobra o fio  da sanidade. Olhando para ela em estado de choque, as duas que estavam em pé,  se sentam na cama, e a mulher com roupas moda caveira começa a chorar sem parar, o quê desperta um pouco de compaixão na irmã que a abraça, lhe acolhendo, e confortando-a, enquanto tenta secar as suas 

    lágrimas. Só que Victória, fica inconsolável, praticamente a beira de um surto, como se a sua vida de pop star, não fosse o paraíso que a professora acreditava  que era. Então pouco a pouco, ela se recompõe, passando a luva na sua face, para limpar o lápis borrado dos cílios inferiores. 

    _O quê tem demais nisso? Todo mundo sabe que Inanna é uma vadia. _Tem que Eu nasci de uma noite de prazer Isabelle. Não de amor , como você! 

    _Mas você disse que Inanna e ele se amavam. 

    _Eu menti. Estava furiosa por como me tratou. A minha vida é uma mentira! Eu sou uma deusa do amor, que literalmente nasceu do testículo do mar! 

    _Todos nós nascemos de um testículo Victória. 

    _Você não entende. Eu sou só o esperma que evoluiu, e Inanna usou para prender o nosso pai, e quando não tive serventia , ela me jogou fora! 

    _Minha nossa Vick. Mas Lilith te acolheu como filha lembra? _É mas eu sempre soube que ela não me amaria como amou a você. Esse tipo de conexão, só se tem através do sangue.  

    _Então por isso fez aquelas coisas terríveis comigo? _Sim. Eu me arrependi depois. Mas era tarde demais, tinha finalmente cumprido com a vontade Inanna, e você já era pura escuridão como eu e Bael. 

    _Se você é tão má assim. Por quê está confessando? _Porquê você é minha irmã! E eu te amo. Lilith me aceitou na casa dela, mas foi você que me criou, não fui justa contigo. 

    _Tudo bem. 

    _Não, não tá. Inanna continua a te odiar, e foi por isso que nosso pai agiu daquela forma. Se ele não te tirasse do caminho dela, ela ia te matar diante todos. 

    _Ela o quê?! 

    _Ela ia te matar. Por isso pai cedeu a entrada na fama pra mim. Como sou filha dela, ela iria adorar me ver ali, no seu lugar. 

    _Então ela desgraçou minha ida ao topo?! 

    _Sim. Mana me perdoa mesmo, sério. 

    _Bom pelo menos me contou. 

    Responde abraçando a irmã, reatando os laços de uma amizade que tinha sido destruída, há 9 anos. Então elas olham para o vazio, como se houvessem outros pecados escondidos. Enquanto isso... Bael sorri, com o seu mais perverso olhar, e o trem finalmente chega a velha cidade  subterrânea, na qual, se estabilizará o novo mundo. 

    Capitulo 7 – A cidade dourada 

    As portas do transporte se abrem, e todos descem outra vez mascarados. Porém o anticristo passa por todos, e é o primeiro a tirar a sua proteção, os deixando de queixo caído. “O homem em sua enorme ignorância, sempre acreditou que está no topo era o quê mais importava. Mas hoje meus queridos, estamos provando o valor das terras do subterrâneo.” O anfitrião abre os braços, com suas caras roupas amarelas, mostrando o paraíso que os aguarda. “Os humanos nunca entenderam, que o quê está acima, é o que está abaixo.” O loiro imita a estátua de Baphomet. “Que a sua morada , pode ser tanto o céu, quanto a terra.” Prossegue, e então olha para a única coruja entre as outras aves, com forte fixação. “Que o amor e o ódio provém da mesma energia.” Segue encurralando a jovem mãe. “E que podem ser convertidos. Portanto aquele que odeia hoje, pode ser a quem venha amar no dia de amanhã.”  Sorri com malevolência, e a bela recua. Percebendo o desconforto da amada, Leviroth resolve acolhê-la, e está o abraça forte, mas seu olhar continua preso a figura do rei do novo, que continua a sorrir confiante. O novo mundo dos escolhidos, é diferente do quê muitos se acostumaram, principalmente os que enriqueceram por obra de Bael. Há uma enorme fonte de água potável no meio da cidade, que é cheia de prédios dourados, que possuem várias tecnologias, as quais a comunidade tem acesso para resolver as suas causas, não importa se são significativas ou fúteis. Um 

    verdadeiro Éden. Ao entrarem no local, cada família é colocada numa casa, de acordo com a quantidade de membros, e dentro desta encontram roupas, comidas, e alguns brinquedos para se distraírem. Só que depois de ser raptada, Isabelle evita o capacete de realidade virtual, e prefere usar o aparelho, no qual reproduz livros. Já Os Miller optam por passar horas, enfrentando um ao outro num jogo de corrida de carro. Victória e Dave ficam num jogo de música, enquanto o par dela assiste TV, e Alexandra , e sua família escolhem vê um filme de terror de possessão.  “Amo Lovecraft.” A mãe de Isandra diz com um sorriso, cruzando as pernas, e balançando o berço de Odin, para mantê-lo dormindo. 

    _Isabelle encontrei seu pai ontem. 

    _O meu pai?! Aquele desgraçado que me renegou?! 

    _Não, o seu outro pai, com compartilha a essência única. _Ah o outro desgraçado que me renegou. O quê tem ele? 

    _Ele falou que o Anticristo está focado em ti. _É, eu sei, o fato de Odin ter o nosso DNA, me deixou bem desconfiada. Mas não acho que sou o Foco dele. 

    _Você é. Ele deixou claro para mim também. 

    _Eu não entendo o porquê de tudo isso. 

    Sou só uma professora de biologia. 

    _Eu entendo. Ele acha que você é Luciféria. 

    _E eu sou. Só que o quê isso tem a ver? _Não, não é. Tem o sangue e a essência, parte da forma, mas não é ela. 

    _Então eu não sou a princesa mesmo? 

    _É claro que é Izzy. Mas vocês tem personalidades diferentes, e não é só isso... 

    O marido respira fundo, lutando contra o seu ciúme, que quer o dominar, como um dono domina o seu animal. As imagens da sua amada ruiva nos braços de Bael, lhe vem a mente, e os seus dentes rangem sem parar, enquanto ele treme de raiva. A dama fecha o livro, e o coloca na cadeira branca. Suas mãos tocam o rosto do  amado, que retorna para a realidade, e a encara tomado pelo medo,  e a tristeza. 

    _O quê está havendo meu amor? 

    _Você lembra que sempre me disse que tinha um ser obscuro  dentro de ti, que você mantinha enjaulado no fundo da sua mente.  Porquê se saísse iria ferir os que ama? Sem dó ou piedade,  exatamente como a deusa descrita por Crowley? 

    _Sim é claro. Por quê? 

    _Você é mais que Koré, é Babalon também. _Aquela criatura arrogante e cheia de si?! Impossível. Eu sofro de depressão por ter Pouco amor próprio. 

    _É uma longa história. Mas em resumo você e Bael estiveram juntos, sim exatamente como desconfiava. Por isso teve os pesadelos em que se envolvia com o Anticristo. 

    _Por quê não me confirmou antes? 

    _Estávamos em crise, e eu achei que iria preferir a ele. 

    _Leviroth está inseguro? 

    _É claro que estou. Tudo o quê gosta, é baseado nele. 

    _Isso não é verdade. 

    _Você mesma disse uma vez. Há diferenças entre Lúcifer e o Diabo, e eu amo mais o Diabo do quê a Lúcifer. 

    _Você leu minhas mensagens para Victória?! _Eu sempre leio. Não tem por quê ficar surpresa, fez  a mesma coisa comigo. 

    _É, eu fiz. Só me preocupo que não confie em mim. 

    _Eu confio. Só que temia que ele fosse te procurar. 

    As mãos dele continuam a tremer, e a bela as segura. No começo ele se mostra relutante, mas ela é firme no ato. É difícil ver o demônio chorar, só que está claro  que aquilo o assusta, e que as lágrimas querem sair. Por isso ela o abraça forte, e este acaba se deixando retribuir, apertando-a forte contra o seu peito,  como se aquilo pudesse impedir a sua separação. 

    _Eu estou aqui B. 

    _É, mas por quanto tempo? 

    _Eu sempre vou está aqui. 

    _E se um dia sentir algo por ele outra vez? 

    _Eu arranco meu coração, e faço uma lavagem cerebral , para ficar somente amando você. 

    _Não. Isso não. 

    _Eu te amo muito. Não precisa se preocupar certo? 

    _Eu também te amo muito. 

    Eles olham um para o outro, e então como duas serpentes, inclinam a cabeça para frente, encostando os seus lábios um no outro. Como se quisessem algo mais, então os seus olhares transmitem mensagens, e eles se beijam fervorosamente. O demônio a  pega em seus braços, carregando-a para o quarto, no momento que suas línguas se enrolam uma na outra. A mão máscula tranca a porta, a dama tira sua roupa, e ele também. Como uma fera, ele fica por cima dela, mordendo seu pescoço com ferocidade, enquanto seus dedos agarram as costas femininas. Arrancando-lhe fortes gemidos, sem sequer começarem. Porém quando as coisas vão esquentando, os olhos da bela se tornam reptilianos, e esta sente muito desejo por sangue. Percebendo que há algo errado, o marido para com os estímulos, e com a unha arranha o pescoço, permitindo-a beber da sua vida. 

    _Não. Eu posso não ter controle. 

    _Eu sou um demônio. Me curo rápido. 

    _Tem certeza disso? 

    _Tenho. Pode se alimentar de mim, assim não precisará ir atrás do meu irmão. 

    Ele diz e a sua companheira, o ataca, sugando sua energia com tanta sede, que  parecia está no deserto. Ele sorri, contudo percebe que ela não vai parar, e a afasta. Os olhos deles se encontram, nos dela há fome, e no dele receio. Por isso esta salta pela janela, e o deixa para trás. Os seus sentidos ficam apurados, ela segue o cheiro  de sangue, vendo as cores da aura de cada um, enquanto tudo vibra ao seu redor. Um rapaz se encaminha para um dos becos do local, e ela o segue, com as mãos para trás expondo as suas garras. Bael percebe que está fora de controle , e vai ao seu encontro. O jovem tenta gritar, só que ela arrancou a sua língua fora, e está prestes a devorá-lo. Vendo aquela cena, ele sorri com crueldade, e estala o dedo, reconstruindo a língua do garoto, que está aterrorizado. 

    _Você pode falar outra vez. 

    _Ela, ela me perseguiu. 

    _Eu sei. Mas se não quiser voltar a ficar mudo, não conte a ninguém o quê viu. 

    _Está bem. Eu, eu só quero ir pra casa. 

    _O caminho é livre. 

    Isabelle respira fundo no canto, tremendo, como se estivesse doente. Seus olhos mudam de cor, e alternam entre draconianos e normais. Os dentes se tornam afiados , e os caninos pontudos. O loiro se aproxima lentamente, e ela se afasta, mas está fraca, e ele sabe disso. A unha do seu dedo indicador cresce como uma lâmina, e ele faz o mesmo que Leviroth, porém em vez de arranhar o pescoço, ele fura o lábio inferior, e a segura contra a parede, deixando o liquido pingar na sua blusa branca. 

    _Eu não vou. 

    _Vai morrer de fome assim. 

    _Eu já bebi o sangue de Leviroth. 

    _Ele é um Demônio mas não é um Deus. Não tem sangue  suficiente para alimentar uma Deusa. 

    _O quê você quer? Eu não sou Babalon! 

    _Quem te falou isso? 

    O anticristo fica desconfiado da afirmação, e ela vira o rosto para o lado, evitando olhar para as gotas vermelhas. Só que ele passa o dedo no ferimento, e coloca entre os seus dentes, fazendo-a chorar, por ter que lutar contra o seu desejo. “Eu vou matar todos no seu reino.” O ameaça, e ele ri do seu desespero. “Será julgada, e morta, pois não há necessidade de matar alguém por alimento, quando eu sou uma fonte  inesgotável.” Ele responde em voz baixa, aproximando-se  dela. 

    _Eu não tenho medo da morte esqueceu? 

    _Deveria ter, pois se perder a consciência posso te fazer minha. 

    _Você não...Necrofilia sério?! 

    _Hahaha, Embora a ideia me agrade bastante, não é isso que quero dizer.  

    _Então? 

    _Eu vou lavar a sua mente, para que me ame. Mais ainda. 

    _Eu não te amo. 

    _Será que não mesmo? Sempre soube quem era o Diabo, e quem era Lúcifer, mas seguiu me cultuando. 

    _Eu não achava que você era real. Acreditava que era só uma ideia da minha mente perturbada. 

    _É? Mas eu sou, e sim eu te quero. 

    _Eu não sou mais uma das suas mil garotas. Aliás eu não acredito nas suas palavras, pois como o seu nome diz, é “O caluniador”. 

    Ela lhe dá as costas, e ele ri. De repente a pega nos braços, e segura seu pulso contra a parede, respirando pela boca, perto da boca dela, enquanto esta absorve o aroma do sangue, lutando para não beber da nascente em seu corpo. Gargalhadas histéricas se fazem presentes, e a sombra do demônio da dimensão do caos se desfaz, e refaz diante do seu inimigo, o afastando da sua amada. Ao receber o golpe de Leviroth, o ser de amarelo fica surpreso, só que não desiste, e voltar a ficar de pé, pronto para lutar, no entanto o marido joga a mão para trás, e exibe a lâmina do seu punhal, como se estivesse pronto para matá-lo, algo que é cômico para o rival. 

    _Acha mesmo que pode me matar? Eu sou Deus! 

    _Não, nunca pensei nisso. Mas sei que posso te ferir bastante. _Será que pode? Só conseguiu alguma coisa, porquê eu estava inerte no olhar da sua mulher. 

    _Eu sempre fui melhor na batalha do quê você irmão, por isso não precisei roubar o poder de nosso avô, para ser um Deus. 

    _Você é apenas um demônio, um demônio bastardo! 

    _Somos gêmeos,idiota. Se eu sou bastardo, você também é. 

    _Eu sou o ser supremo do universo. O alfa e o ômega. 

    O principio e o fim. O nada e o tudo. 

    _Nascido da prostituta de Lúcifer. Tal como eu. 

    _Você quer desaparecer para sempre? 

    _Isso só seria possível se não fosse um fracassado. 

    Então tenta filhinho de Inanna, tenta. 

    O demônio ri, com crueldade, e o diabo perde a cabeça, e vai para cima dele. 

    “O seu problema Bael, é achar que uma chama roubada te faz digno! Você é só Lixo!” Ele provoca, acertando golpes violentos no seu irmão mais novo, e tirando sangue deste com facilidade. “Você queria oferecer o seu sangue pra ela !? Que tal eu ajudar um pouco?!” O demônio corta o pescoço do diabo, e inclina a sua cabeça, em cima da bela, que estava sentada no piso assistindo  a luta. “Ele é uma fonte inesgotável amor. Pode beber.” A dama olha para o marido assustada. “Beba. Sei que está com sede.” Ele olha para o outro lado, e a moça salta para o pescoço do anticristo, lambendo cada gota rubra que sai do seu corte, enquanto este se debate sem parar, mas não consegue escapar do seu ataque faminto. “Eu era conhecido como o clone de Lúcifer. Mas não  era por um senso de justiça distorcido...” Ergue o queixo dele, fazendo-o olhar para cima. “Mas sim porquê tal como Samael. Eu ceifei muitas almas, sem dó , ou piedade, e antes de matar as torturei por dias.” Ele diz no ouvido do inimigo, enquanto a esposa se alimenta. “Nunca se esqueça disso,  ou volte a cercar a minha amada.” Diz entredentes. “Você tirou a Luciféria de mim uma vez, porém não deixarei que tire também a Isabelle.” Ele percebe que a dama se saciou, e o arremessa contra a parede. Percebendo que está em desvantagem, o diabo olha para a dama, e o seu irmão, e desaparece , deixando um rastro de fumaça negra. Benner está bufando de  raiva, contudo abraça a sua companheira. “Eu disse uma vez que te deixaria ir se quisesse ser feliz com outro, mas a verdade é que não posso Isabelle. Não quero, te deixar partir.” Ele confessa, e a jovem o beija com a boca toda suja de vermelho. Ele não resiste, e retribui ao beijo com fervor, carregando-a em seus braços. A adrenalina que percorre o seu corpo, lhe faz  tirar a blusa rapidamente. Então se faz ser colocada no piso, para abrir-lhe a calça, e encher sua boca com o membro pulsante dele, que está rígido e duro. 

    Ele não consegue aguentar, e solta gemidos, ao sentir a saliva dela escorrendo por seu símbolo fálico. Toda aquela situação de guerra e morte, os deixa bem excitados. Por isso escorre o liquido de prazer, no meio das pernas dela, e cai no chão. Notando o quanto está molhada, ele a levanta, e a joga na parede, pronto para penetrá-la. Ela respira ofegante, e então o sente entrando no seu corpo encharcado, tornando-se um só com ela. A boca dele vai até o seu pescoço, fazendo-a revirar os olhos de prazer, enquanto ele aperta  o seu seio, e a agarra pela cintura. A sua costa dói por conta dos tijolos, só que em vez de parar, ela o arranha nas costas, e morde a sua jugular, afundando sua unha na pele dele, ao ponto de sangrar. Só que ele gosta da dor, e retribui lhe pegando pelo pescoço com força, sorrindo com maldade, ao ter noção do seu poder. Logo a vira de costas, e esta se empina. Ele entra em seu corpo outra vez, segurando as suas mãos na parede. Outra vez a boca dele vai para o seu pescoço, só que a pega pelo cabelo e lhe morde na nuca, deixando-a bastante excitada com tanta violência. As mãos dele pegam os seus seios, e seus dedos se entrelaçam aos dela. Eles gemem, gemem sem parar. Outra vez ela vira para ele, só que em vez dela descer 

    , ele quem o faz. De joelhos como um escravo, ele bebe do seu leite feminino , beijando-a entre as pernas, como se estivesse fazendo isso com a sua boca. É impossível não sentir prazer, por isso mais e mais quantidades do liquido cor de pérola, chegam a sua língua, enquanto as bochechas dela ficam  coradas, pela falta de pudor. Notando que ela está mole de tanto gozar, ele ri, e sinaliza negativamente, com o dedo indicador, e volta a prensá-la na parede, mergulhando seu membro no buraco carnoso, com vontade, até que não suporta mais segurar o prazer, e jorra seu liquido branco contra o solo. Regorjeando-se de satisfação. _Eu devia tentar matar o Bael mais vezes. _Você sabe que sempre amei os psicóticos  com tendências assassinas. 

    _É, por isso se casou comigo. 

    _E continuarei para resto da vida. 

    _Eu te amo Izzy. 

    _Também te amo B. 

    Os dois se abraçam, e então colocam as suas roupas de volta. Nem os mais de 9  anos de casados, havia apagado o fogo da sua relação. Eles dão as mãos, e caminham risonhos como dois adolescentes pelo centro. Ao vê-los Victória deixa Dave com o marido, e vai até o casal, curiosa para saber, porquê Isabelle estava com a boca toda suja do liquido vital. A bela identifica o olhar observador da amiga, e se afasta de 

    Benner. As duas caminham para uma maloca abandonada, e se sentam na mesa que está no meio do local. Victória capta que algo aconteceu, por conta dos lábios vermelhos, e as machas na blusa branca de Isabelle, e por isso inicia a conversa apontando para os seus seios. 

    _Você matou alguém? 

    _Não. Mas foi por pouco. 

    _Você machucou alguém?! 

    _Sim, só que Bael ajudou a pessoa a se curar. 

    _Mas você saiu toda feliz com o Benner. 

    Então Bael não conseguiu nada. 

    _Sim. Só que também foi por bem pouco. 

    _Pode me contar tudo. 

    _Bael me fez uma bebedora de sangue... 

    Isabelle começa a narrar os fatos para Victória, que fica de queixo caído  porquê o seu sonho era se tornar vampira, e quem tinha se tornado era a sua  amiga. Já o sonho de Isabelle era ser famosa, mas quem se tornou foi ela. “Que  mundo injusto” Ela sorri com tristeza, e a professora lhe olha desconfiada. “Vic? 

    Tem algo errado?” segura as suas mãos, e a dama sorri com tristeza. “Não, Está tudo bem.” Tenta mentir, só que não consegue, e por isso a mulher volta a lhe questionar. “Está tudo bem?” Insiste, e a bela se segura para não sorrir, e negar os fatos outra vez. 

    _Você percebeu. 

    _É. Você ficou triste do nada. 

    _É que Isabelle, este era o meu sonho lembra? _Sim mana, mas também era o meu ser famosa, e ter muitos seguidores. Só quem conseguiu foi você. 

    _É. Isso é tão injusto quanto você disse que seria uma vez. 

    _Você está com raiva de mim? 

    _Não Isabelle. Estou triste. Por quê não conseguimos realizar os nossos sonhos? 

    _Porquê nossos destinos eram esses. Mas Vic nem sabemos se sou uma vampira, é provável que eu seja outra coisa. Ser uma criatura da noite, atrapalharia aos planos de Bael. 

    _Não, quando todos vivem na cidade subterrânea. 

    _Tenho que concordar. Porém te prometo uma coisa, se eu for uma vampira mesmo vou te transformar também. 

    _Por quê faria isso? Eu sou uma estrela, e nunca te puxei para o palco. _Porquê ser vampira, já foi um dos meus sonhos, e creio que no novo mundo, eu realizarei os outros. 

    _Você merece irmã. Apesar de dizer que tem trevas profundas, sempre foi uma pessoa maravilhosa. 

    _É, ser boa, sempre foi a minha maior fraqueza. 

    _Pra mim não. Esta é a sua qualidade, boa na medida certa. 

    Ao longe o diabo quebra todos os seus objetos dentro do escritório, entregando-se aos seus instintos mais primitivos. “Maldito seja!” Berra destruindo tudo ao seu redor, recordando-se de que ficou a segundos de ter o quê ele queria. “Por muito pouco ela não foi minha!” Brada socando a mesa de pedra negra, e volta a razão. “Por muito  pouco...” Se acalma, e começa a alegrar-se. “Eu só preciso criar uma situação, e ela será minha.” Seus olhos se tornam obsessivos. “Um beijo. Isso vai confundir o seu coração.” Conclui confiante da aposta. “Um beijo, e ela voltará a ser a minha Babalon.” Ele prossegue, e então ajeita os fios do seu rabo de cavalo desgrenhado, amarrando-o outra vez. “Uma festa em homenagem a Dionísio deve funcionar.” Termina, bebendo Whisky da boca do copo quebrado. Com o olhar fixo  no seu grande  objetivo Recuperar Luciféria. 

    A noite... Todos são convocados ao baile do anticristo, sob pena de perderem suas  moradias, caso não o prestigiem por uma hora. Outra vez Isabelle recebe a máscara de coruja, e ela e Leviroth se entreolham com a certeza de quem veio aquele presente, por isso trocam a fantasia, e vão para a festividade. Ao chegar lá, eles se separam por alguns minutos, para que o demônio vá comprar bebidas, mas a fila no bar é enorme, e demora mais que o esperado. Um homem de máscara 

    negra, a puxa para dançar, e pela ousadia ela o  reconhece. 

    _Achou que eu não ia te reconhecer? 

    _Você quer levar outra surra?  _Não me importo em apanhar mil vezes, se tiver a chance de ficar na sua companhia. 

    _Eu tenho mais o quê fazer. Licença. 

    _Do quê tem medo? 

    _Medo? Eu não tenho medo. 

    Tenho pavor. Agora... 

    _É só um beijo Isabelle Caligari. Nada que não queira vai acontecer. 

    _Vê isso? Significa que sou casada. 

    _Isso é só um circulo envolta do seu dedo. Eu ergui estátuas gigantescas, para te mostrar ao mundo. 

    _Esse é o seu problema. Acha que exagerando, pode conseguir alguma coisa. 

    _Eu sempre consegui, ou nunca sentiu falta de  

    ter todos os seus caprichos realizados? _Eu senti. Mas o Leviroth me ensinou, que são as pequenas coisas que fazem o amor. _É uma pena, pois eu adorava te exaltar, e te fazer ser reconhecida. 

    Ele aproxima os lábios dos seus, e os olhos dela crescem por baixo da máscara. Lentamente nega com a cabeça, tentando escapar da sua investida. O dedo dele segura o seu queixo, e a mão a segura por trás. “Cadê o seu príncipe sombrio para te socorrer?” Ele brinca apertando-a, e aproximando-a do seu peito. Os braços da pobre se esticam, e ela fecha os olhos com medo do quê vai acontecer. “Não  resista.” Ele tira as suas mãos do ombro, e a deixa bem perto dele. “Não faça isso.” Os lábios imploram. “Quietinha. Nós dois sabemos.” A unha dele cresce. “Que se o seu marido não interrompesse...” Corta o meio dos lábios inferiores. “Você teria me beijado...” Diminui ainda mais a distância da boca, e ela sente  a sua respiração. “E gostado.” Completa, beijando-a. É claro que ela não quer lhe  dá o gosto da vitória, mas o sabor do sangue, altera os seus sentidos, e faz sugá-lo como um animal faminto. Ele ri, e se aproveita da situação, para colocar a sua língua cheia do liquido vital, para trabalhar. Outra vez é difícil resistir, há uma luta no começo, que termina em retribuição. Porém Victória vê a cena, e corre para separá-los. Fazendo algum esforço, ela os afasta. 

    _Fica longe da minha irmã! 

    _Eu até vou ficar. Mas garanto que Ela não vai querer isso. 

    _Vai embora Bael. 

    _Viu? Ela mandou!  

    _É assim? Depois de praticamente arrancar  o meu ar, com o seu beijo cheio de volúpia? 

    _Eu vou te matar! 

    _Saia. Antes que Leviroth volte. _Está bem. Aguardo a sua ligação para uma parte 2 desse momento. 

    _Só nos seus sonhos! 

    _... 

    _Lá também.  

    Ele gargalha indo embora todo vitorioso. Victória pede para que saiam, e ela envia uma mensagem ao marido, avisando que estarão num local mais tranquilo. Ao ver a SMS, ele sorri encantado, mas sua paz vai embora, ao ver quem chegou exibindo os dentes com felicidade. “Eu quero uma dose do seu melhor Whisky. E uma rodada de bebida para todos!” Berra, e os alcóolatras comemoram. Vendo o irmão  no canto, ele se aproxima cheio de arrogância, e este revira os olhos. 

    _Olá irmãozinho. 

    _E aí. 

    _Sabe por quê estou tão feliz? 

    _Por coisas boas, não deve ser. 

    _É. Mas o quê não é bom pra você, é ótimo  pra mim. 

    _Eu sei. 

    _Sabe? 

    _Quem você acha que avisou a Victória? _Então também deve saber que sua mulherzinha, estava pegando fogo em meus braços. 

    _Porquê você se cortou? Engraçado. Nunca precisei jogar tão baixo para seduzi-la. Sabe por quê? Porquê sou um homem de verdade , sei como encantar uma mulher. Fica na paz “irmãozinho”. 

    Ele sai aparentemente por cima, contudo basta sair da frente dos olhares curiosos, para deixar a máscara cair, está triste, e até magoado. “Não vou tomar outra decisão estúpida, deve ter havido uma razão. Ela pode realmente só ter tido abstinência de sangue.” Pensa ao caminhar pelo local, evitando as piscadas, das biscates que 

    aparecem no caminho. As damas pousam seus braços no apoio, e olham para o fundo abismo. Como se estivessem em silêncio a horas, respiram profundamente. Isabelle está trêmula, e envergonhada pelo aconteceu, e a irmã está receosa, como se já tivesse visto este filme antes, e não quisesse reiniciar a fita. “Bel. Eu não vou te julgar só quero te advertir, essa história não tem um 

    final feliz. Ele não é diferente de Gabriel.” Inicia, e ela fica calada,  procurando uma resposta. 

    _Eu não sinto nada por Bael. 

    _Depois daquele beijo cheio de volúpia?! Tá zoando! _Tá. Foi uma atração momentânea pelo sangue dele. 

    _Só o sangue? Porquê parecia que a sua língua estava na goela dele. 

    _Já chega Vic. Nem eu sei o quê aconteceu certo?! Também queria entender! 

    _Você não saboreou o momento? 

    _Meu deus não! Talvez... um pouco! 

    _Você tá confusa Isabelle! Igual a mim. 

    Quando beijei o Gabriel! 

    _É! Mas a diferença é que não quero casar e ter filhos com ele! Eu sou casada Vic! Isso nunca deveria ter acontecido! 

    _Você tem que evitar o Bael tá? 

    Depois do beijo as coisas só pioram. _Tudo bem, eu não pretendo ficar perto dele. 

    Garante, mas no dia seguinte, enquanto todos estão dormindo em seus quartos. 

    Ela envia uma mensagem para ele, e este deixa claro que só lhe dará uma resposta , se for vê-lo, em um jardim distante da cidade. Algo que ela se reluta a fazer, até ele jurar por escrito, que não fará nada com ela. Preocupada pelo quê possa acontecer entre eles, ela escreve uma carta, porém quando a deixa na mesa,  o seu marido acorda, e percebe algo errado. Por isso pega o seu celular, e olha a conversa que ela está tendo com o seu irmão. “É sério isso Isabelle? Esta bem na cara que ele quer bem mais que um beijo.” Ele diz empurrando o aparelho. “Eu preciso entender Leviroth.” Ela se arruma para sair. “A última vez que ficou dividida, 

    houveram graves consequências. Só não esqueça disso.” Ele lhe 

    dá as costas, e a bela sai. Ao chegar no local, ela fica em pânico, pois a estátua de anjo, e a iluminação é semelhante aos seus sonhos com o anticristo, e todos eles tinham algum contexto romântico. Ela respira fundo, está vazio. “Talvez ele só esteja me testando, e...” Ele chega, com o cabelo desgrenhado, e um sorriso totalmente sem vergonha. “A noite deve ser sido boa.” Brinca com desgosto. “Tenho uma reputação a zelar.” Ele rebate, e se sentam perto um do outro na fonte. 

    _Vamos ser bem diretos ok? 

    _Eu sempre sou Isabelle. 

    _Isso tem que parar. Eu sou casada e respeito  muito o meu marido. 

    _Engraçado. Quando era eu o marido, você não tinha piedade de mim. 

    _Eu não te amava, e você me traiu antes, ou se já se esqueceu das doces noites  com Aggarath? 

    _Não, não esqueci, mas isso só aconteceu por  culpa do seu desprezo. 

    _Hahaha' Essa é boa. Você é o  cafajeste, e eu que levo a culpa? 

    _Tem razão. É idiota. Já aconteceu, mas não muda o fato de que esteve casada comigo. _É, quando descobri fiquei me perguntando como pude ser tão idiota. 

    _Já chega. Assim você vai acabar tirando a roupa, e eu não vou resistir. 

    _Eu vou é te esganar. Não está me escutando? 

    Eu não quero isso. O passado morreu certo?! 

    _Estou, só não quero ouvir.  

    _Foi uma total perda de tempo. Até mais. 

    Ela se levanta para ir embora, só que ele segura o seu pulso,  e fica de pé diante dela, sem o comum semblante zombeteiro. O quê a deixa bem preocupada, pois o quê quer que venha a dizer, é algo sério. “Eu não quero ouvir porquê também estou confuso.” Diz em forma de confissão, apertando o seu braço para não deixá-la se mover. Seus olhos denotam tristeza, e por alguma razão, isso lhe desperta um pouco de compaixão, e ela resolve esperar por sua explicação. Eles  retornam para a fonte, e ele passa a mão nos cabelos, cobrindo a sua face. 

    _Eu sei que sou um babaca. “Imperador dos  Babacas” pra você. 

    _Victória te disse isso?! 

    _Eu te vigio Isabelle. Sei o quê fala de mim. _E quer se vingar fazendo eu me apaixonar, só porquê disse que não seria uma das mil, que acreditam nos seus falsos “eu te amos"? 

    _Não. Eu não me importo com o quê diz. _Então porquê tudo isso? Eu briguei com Leviroth pra está aqui. Preciso saber. 

    _De verdade? Eu só sinto a falta da minha Amada. 

    _É. Eu não sou aquela prostituta fria! _Esse é apenas um rótulo, que você recebeu por ser uma criatura livre de amarras. 

    _Bael. Eu sei que quer me matar, para trazer ela de volta, mas não é justo comigo. Eu não sou mais 

    Luciféria, nem Babalon, Hell, ou qualquer outra Deusa. Sou apenas Isabelle, mas eu sinto, e isso me assusta. 

    _Eu não tenho a intenção de te matar. Se fosse como  diz, já teria morrido. Sinto algo por ti, sendo Babalon  ou Isabelle.  

    _Não pode. Terá que viver com isso. 

    Nem tudo pode ser seu. 

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

  • O Vazio

    Tudo se desfez. Seu lar. Seus amores. Sua vida. Seu mundo. O vazio agraciou todas as coisas, sendo elas, reduzidas ao nada. Mas ela, somente ela, restou. O vazio a repudiava. Ele não a dava o direito da não existência. Ela estava sozinha. Restando somente ela e o nada, e mesmo esse nada, ainda a neglicenciava.
    E então ela vagou.
    Um ser semelhante a ela, avistou.
    Sua pelagem negra, de início, a assustou.
    Mas ainda assim, ela continuou.
    Seus movimentos, em direção a ele, quase vacilaram mas ele era o único que restou.
    Ao redor dele, inúmeras telas se dispunham a flutuar; ela não sabia como aquilo estava acontecendo. “Isso é magia?” As palavras atrevidas saíram de sua boca, quase sendo inaudíveis.
    -Magia? O que seria magia pra você? - Uma voz grave saiu do ser, que estava postado à frente de uma tela.
    Aquilo a pegou de surpresa, mesmo de tão longe ele a havia notado. Sem dar sua resposta, ela parou de caminhar até ele e contemplou um pequeno quadro. Esse quadro flutuava por dentre outros que, sendo maiores que ele, desviavam de sua atenção.
    -Não toque nisso. - Em uma fração de segundos, o ser estava ao lado dela. Ele retirou aquele pequeno quadro dali e o implodiu. - Foi um erro dele ter feito tal quadro. - Disse aquele ser, com um ar distante.
    Ela evitava olhar para aquele ser. Seus olhos dourados a desconcertaram e abaixo da pelagem negra se via um homem; embora não pudesse o chamá-lo assim. Ela sentia que conhecia tal quadro.
    Em suas longínquas lembranças, sua tia havia lhe apresentado: uma linda obra de Monet, chamada Nenúfares. Isso a encantou e, por impulso, ela embarcou numa tentativa falha de se tornar artista. Mas aquilo foi erro. Ela se recusou a pensar naquilo.
    -O que é você? - De súbito, ela perguntou. Aquele ser estremeceu e pigarreou antes de responder.
    -Não se espante. Posso parecer estranho, mas já vi muitos de vocês antes. - Não era uma resposta que ela esperava, mas ele prosseguiu. - Não planejo fazer mistérios por aqui. Todas as artes que teço, em meus aposentos, refletem o fim de seu mundo. - Ele apontou para as inúmeras telas à sua volta. - Eu já vaguei pelo seu mundo. - O tom de sua voz abaixou.
    -Você ainda não respondeu o que lhe perguntei. - Sua surpresa foi, subitamente, substituída por uma expressão séria. Seus olhos o encararam, enquanto aquele ser divagava em seus pensamentos.
    -Eu sou parte do nada. E por isso mesmo, sou neglicenciado por ele. - Ele fez uma pausa e a encarou. - Talvez você também seja, huh? É a primeira vez que um humano pisa por aqui.
    Ela continuou a encará-lo; ela não era cética como os ateus, mas sua crença estava sendo desafiada a todo momento naquele lugar. Ao seu redor, ela percebeu: diversas pinturas lúgubres e trágicas - indubitavelmente lindas, embora ela se esforçasse para não admitir-, a traziam para seu torpor. Em um dos quadros, se via, tal ser, pintado fracamente enquanto destilava caos pelo mundo.
    -Era você, não é? - Com um riso satírico, ela desviou os olhos para ele. Em resposta, ele meneou com a cabeça.
    O ser que havia levado seu mundo para desgraça, estava a seu lado, enquanto a encarava seriamente com um olhar penoso.
    -Não me olhe assim. - Ela tornou a olhar para as pinturas. - Na verdade, acho que você fez bem em destruí-lo.
    O ser pensou em falar algo. O olhar dela era tão inexpressivo quanto o de uma coruja e, com solenidade, ele se afastou dela.
    “Talvez haja um motivo para ela estar aqui.” ele pensou na medida em que seus passos iam cruzando a porta.
     
    O ar era rarefeito, mesmo para ele era difícil respirar. Ele ergueu suas asas e alçou voo. Embaixo dele, tundras se estendiam pelo térreo. Ele havia a deixado sozinha. “Talvez ela precise de tempo para pensar.”.
    Já era tarde, ele tinha que se apressar. As bombas escorriam pelos ares e dizimavam os arredores. Aquelas criaturas eram insistentes. Tais criaturas surgiram no momento do fim de seu mundo e, desde então, ele resguarda seu lar e detêm-os.
    As pequenas gramíneas eram afugentadas e queimadas por eles, ele se ergueu rapidamente e perfurou uma daquelas criaturas com suas garras. Restavam mais cinco. Com seu toque rápido, a outra criatura implodiu, não restando nenhuma migalha de seu corpo. As outras fugiram e, sendo elas tão rápidas quanto a luz, tornava difícil a perseguição atrás delas.
    Com uma aparente preocupação, ele retornou para seu lar. A menina estava dormindo em sua cama, os cabelos esvoaçando com o ar que saía da janela. Ele se aproximou dela e a cobriu.
    Novamente, pegando seu cavalete, tornou a pintar. Em suas memórias tais lembranças estavam frescas: o fim daquele mundo, seja em chamas, em névoa ou gelo, o inspirava. Ele, sendo tomado pelo torpor, pintava rapidamente as imagens que passavam pela sua cabeça.
    A menina se levantou e, com os olhos entreabertos, vislumbrou a pintura daquele ser. Uma pintura que não remotava a um fim, mas sim a um começo. Ele tecia, calmamente, cada pincelada daquele nascimento. Ao se aproximar dele, lágrimas eram visíveis. Aquilo a surpreendeu.
    Ele terminou sua pintura e, ao se virar para o lado, viu os olhos dela fixos na pequena tela. Ele não havia percebido a presença dela antes. Permanecendo minutos sem se falarem, ele se levantou. O silêncio, tão costumeiro e sufocante para ele, era uma espécie de agradecimento por ela estar ali.
    Novamente, ele saiu mundo afora. Ela, sendo deixada sozinha, se indagava ainda mais de seus pesares. Não sendo contaminada pelas dúvidas, aceitou viver ali. Mas algo estranho ocorria: em apenas um dia, uma fraqueza tomou posse de seu corpo como nunca antes em vida. “De qualquer forma, eu já deveria estar morta.”, e nisso ela se tornou indiferente ao destino de que tais sintomas poderiam levá-la.
    Novamente aquele ser retornou. Sua respiração estava ofegante e ela não se conteve em perguntar.
    -O que você faz lá fora?
    -Evito a decadência deste mundo, embora soe irônico. - Mesmo a respondendo, ela continuava com curiosidade no olhar. - Lá fora, não há lugar para ti. Mas posso lhe afirmar: lá não é tão belo quanto seu mundo.
    -Então é por isso que ainda não o destruiu? - Com um tom sarcástico, ela o questionou.
    Ele apenas deu de ombros e retornou a pincelar.
    A noite caía vagarosamente, ela imaginava o que estava além dali; impedindo seus pensamentos de permanecerem apenas para si.
    -O que você acha da morte? - Com um longa pausa, ele respondeu.
    -Apenas invejo vocês, humanos, por saberem de seu fim. A morte, para mim, é apenas um retorno ao nada. Ao vazio. No momento que ele a renega, você se torna incapaz de morrer. -Disse ele, com um olhar taciturno.
    -Sabe, talvez seja o contrário. -Disse ela, sem continuar o pensamento.
    -O que quer dizer?
    -Digo, talvez ele não te renegue como achas. Quem sabe o que há no final? Mesmo você, uma criatura tão estranha, não tem certeza. -Disse ela, com uma voz baixa. - Você não é tão diferente de nós humanos.
    Aquilo o estremeceu. Como ela poderia dizer aquilo? Sendo ele, um ser tão poderoso como era, sentiu-se ofendido. Mas depois de um tempo, ele também acreditou naquilo. Suas frustrações, sua inveja, seus desejos… tudo era tão similar a ele e, ao mesmo tempo, tão diferente. Tais discrepâncias eram tão superficiais que o tornavam iguais em essência.
    A noite caiu por completo, dando lugar ao sol. Na tundra afora, ele saiu. O dia estava estranho; “talvez seja pela conversa de ontem”, pensou. Seu corpo estava mais pesado que o habitual, tornando difícil a locomoção e o voo. Ele se feriu bruscamente, machucando sua pata direita e ferindo seu rosto.
    Ao retornar para casa, a expressão dela, quase inexpressiva, tomou-se pela preocupação. Ela cuidou de seus ferimentos e, com uma pequena repreensão, disse a ele para não voltar para lá. Mas de nada adiantou.
    Mais uma vez, alçando voo, ele percebeu que tudo havia ficado pior. A secura, a queimação, tudo se inundava em fuligem e fumaça. Ele se recusava a perder seu novo lar. Com uma fúria latente, ele dizimou as vinte criaturas que voavam em seus dispositivos. Ele se machucou a ponto de não retornar ao lar.
    Enquanto a noite se aprofundava, seu ser clamava pelo vazio. Pela morte. Mas o vazio, novamente, o rejeitou. Ainda havia algo que o mantinha ali além de sua inspiração. Sua afeição por ela, de forma quase pueril, ele se deu percebeu. Um sentimento jamais sentido antes; ele não estava mais sozinho.
    A noite foi longa, sendo transbordada em palavras não ditas e em lágrimas derramadas.
    Quando retornou para casa, se encontrou na solidão novamente. Ela não estava mais lá.
    Depois de infinitos dias, infinitas dores; seu estado de torpor não era mais suficiente. Sua inspiração estava se esgotando, como da última vez. Ele estava enlouquecendo, com a sede de destruição crescendo cada vez mais em seu ser.
    Quando, pela última vez, impediu o bombardeamento de seu mundo, ele decidiu se entregar.
    Chegando ao ninho daquelas criaturas, descontou sua sede, seu descontentamento e sua tristeza nas vidas inocentes que se manifestavam ali. Não restando nada, retornou ao seu lar sem conseguir voar. Depois de quase um ano, se viu novamente em sua casa. Nada havia mudado. Exceto uma coisa.
    A presença dela havia retornado.
    Um monstro se erguia perante a mim. Com suas longas asas negras e seus pés feridos de tanto andar, ele se debatia enquanto era tomado por um sentimento desconhecido. Ele tossia e, cada vez mais, sua respiração se enfraquecia. Tentei ajudá-lo mas eu era apenas uma miragem de sua imaginação. Eu não existia. Eu não era real. Não poderia eu, ultrapassar a barreira que me desconectava do mundo dele. Eu era apenas uma ideia. Uma concepção. Aquilo me dilacerava, embora não houvesse nada para me dilacerar. Ele sorriu para mim em meio sua dor, e seu corpo foi se desfazendo em fagulhas. Mas quem, na verdade, se desfez fui eu. Eu o esperei por tanto tempo, embora não houvesse mais ele em minhas memórias. O que restava a mim, agora, era simplesmente retornar ao vazio. “Finalmente.”
  • Olhos vidrados

    - Volte aqui seu irresponsável!- Lucas correu o mais depressa que pôde. Atrás dele, o padrasto, armado de faca e com os olhos injetados de sangue e fúria. No rosto gotículas de sangue e um sorriso maquiavélico se desenhava fantasmagoricamente. Lucas tremia, respirava com dificuldade e mal sabia o que fazer naquele momento. Como poderia lutar contra aquele monstro se não tinha arma alguma para tal?
    Encaminhou-se para floresta. Esconder-se-ia detrás de árvores e ali esperaria o assassino ir embora. Pobre Lucas, quatorze anos, espinha enfeitando a cara e hormônios a flor da pele. Sonhava com meninas e pensava estudar arquitetura na universidade perto de casa. Mas o destino lhe fora cruel.
    Viu o pai ser assassinado quando tinha cinco anos de idade. De chupeta na boca não compreendeu quando uns homens vestidos de cinza derrubaram a porta de sua casa, tiraram o pai que assistia televisão na sala, o levaram para fora e sem explicações lhe deram três tiros. A mãe, uma dependente química ficou sabendo da notícia, mas lotada de cocaína pouco se importou; Lucas ficou sozinho em casa, chorando, enquanto o pai morto olhava pra ele com os olhos vidrados.
    E não demorou muito tempo para a mãe de Lucas surgir com outro homem. Lucas, agora com sete anos ganharia irmãos e sua vida se transformaria em um verdadeiro inferno. O padrasto, um bebum fedido e ignorante entraria na vida da família para castigar os filhos e espancar a mulher, e ai daquele que ousasse dedurar seus feitos horrendos a polícia.
    Por tantas vezes Lucas tentou fugir. Mas a pedido da mãe o padrasto ia atrás do enteado e o achava, e quando era encontrado levava uma surra, tão forte que o menino ia para escola cheio de hematomas. Como desculpa dizia ter caído em casa, infelizmente para ele todos acreditavam até mesmo os professores.
    Foi até estranho quando o padrasto deixou de beber e por consequência as surras tiveram um basta. Mas não durou muito. Convidado para ir a uma festa, o padrasto bebeu além da conta e ao voltar para casa deu de cara com a mulher cavalgando em cima de outro homem. Enfurecido ele foi embora.
    Ninguém soube durante meses sobre o paradeiro do homem. A mãe continuou dando suas escapadas, e Lucas retomou sua vida normal. Tudo parecia estar em paz, quando padrasto retornou, armado de faca e de fúria. A primeira vítima foi à filha de cinco anos. A menina que ninava a boneca foi atingida com três facadas. Depois foram os dois irmãos, ambos esfaqueados até a morte. Ele pouco se importou com os corpos dos filhos pequenos espalhados pela casa, a filha menor agarrada à boneca o olhava de olhos vidrados, os filhos homens também. E ficou ali, sentado em uma velha cadeira de metal, de pintura descascada, com o olhar perdido no horizonte, enquanto passava a língua pelos lábios; parecia faminto, ávido por vingança.
    - Amélia? Renato? Tadeu? – Era a voz da mãe chamando pelos filhos que não poderiam responder, estavam mortos. Ao notar a presença da esposa o padrasto escondeu-se. De costas ela entrou e logo em seguida pisou em algo estranho, era a cabeça da filha, ao perceber e visualizar tal cena gritou tão forte que pôde ser ouvidos a milhares de quilómetros de distância.
    Como fosse um fantasma o padrasto surgiu, seu rosto estava com sangue e seus olhos injetados de ira olhavam para a mulher.
    - Assassino! – Gritou ela. A voz rouca e o coração despedaçado. De faca em punho ele atacou. Em principio ela conseguiu se desvencilhar, mas foi por pouco tempo. Cada estocada da faca acertava em cheio, fazendo sangue jorrar por todos os lados.
    Lucas chegava da escola em silêncio como sempre fazia, e pela janela ele viu aquilo que nunca na vida desejava ver, toda a família morta. Ficou ali petrificado. O padrasto virou o rosto num instante visualizando Lucas.
    - Vou acabar com a tua raça, seu maldito! – Disse o homem se levantando e partindo atrás do menino.
    Com o coração disparado e tremendo muito ele encontrou forças para fugir. Embrenhou-se entre folhas e arbustos e ali ficaria até o padrasto se cansar. E se ele não ficar esgotado? O que faria? Morreria.
    - Volte aqui seu irresponsável! – Finalmente Lucas e o padrasto estavam um de frente para o outro. O velho sujo de sangue e arma em punho. Lucas abaixado recuava lentamente enquanto seu oponente avançava. Com as mãos tateou a terra e as folhas jogadas no chão na esperança de achar algo que lhe servisse como arma, mas sua busca foi em vão. E a cada passo dado pelo padrasto o corpo de Lucas se contraia.
    Foi quando ele se deu por vencido, fechou os olhos e aguardou pelo pior, sua morte. O padrasto se aproximou e se abaixou e ficou olhando para ele, com a faca ensanguentada acariciou o rosto do menino.
    - Vou te matar! – Falou o velho puxando a faca para o alto.
    - Mate-me então! – Falou o menino com voz firme e decidida.
    De repente Lucas viu a expressão de o padrasto mudar, de outrora um rosto diabólico para uma aparência de medo, ele estava sofrendo um ataque cardíaco. Lucas ficou em pé observando aterrorizado a cena. As mãos do homem ficando fracas deixando a faca cair no solo para desabar em seguida de olhos vidrados.
    FIM!!!
  • Pavó

    screenshot 2020 08 13 20 37 14 355 com.whatsapp
    Gustavo estava no zoológico com seus pais. Era mais um daqueles passeios para suprir a ausência deles em casa. Como sempre, seu pai digitava no smartphone e sua mãe estava numa ligação, falando sem parar. Mesmo assim, o garoto sentia-se animado, aquele era seu passeio favorito. Quando não estava na escola, estava na frente da TV assistindo aqueles canais sobre a vida animal.      
       Toda vez que ia ao zoológico era como que fizesse parte de um daqueles programas. Sempre ia vestido a caráter. Roupas camufladas, 'botas de aventureiro', binóculos pendurado no pescoço e uma câmera fotográfica profissional, presa no pulso.
       O menino conhecia cada animal que visitava, seus pais o seguiam como cães adestrados. Algumas vezes ele falava sobre os hábitos alimentares ou sobre alguma curiosidade que conhecia, mesmo sabendo que ninguém o ouvia. 
        Chegaram na ala das aves, seus animais favoritos. Havia um enorme galpão montado com um cartaz que dizia: " Exposição Asas da Metrópole, venha conhecer os pássaros da nossa São Paulo". Entraram e deram de cara com um grande corredor cheio de gaiolas de ambos os lados, que abrigavam centenas de aves. A maioria piava e voava de galho em galho. O barulho era ensurdecedor e o cheiro sufocante. O garoto ignorava as duas coisas. Estava contente por não ouvir mais a voz da sua mãe falando sem parar, ou a gargalhada exagerada de seu pai, quando via algo no celular.
        Passava por cada gaiola citando os nomes das especies sem precisar ler as placas. O colorido dos pássaros o fez sorrir pela primeira vez naquele dia. 
     - Vamos logo Gu. - Sua mãe disse mal humorada, o empurrando. Não conseguia mais ouvir sua ligação.
       Seu pai seguia os dois as cegas, não fazia a menor ideia de onde estava. Participava de um debate acalorado sobre seu time de futebol, num grupo de Whatsapp. 
       Gu acelerou o passo mas não parou de citar os nomes. 
       - Cardeal. Bem-te-vi. Anu-branco. Pica-pau-barrado... - Ele parou de repente. - ESPERA! -  Teve que gritar para que sua mãe parasse de empurra-lo. - É o Pavó!? - Desta vez leu a placa para ter certeza. 
       Na gaiola a sua frente havia apenas um pássaro. Estava parado no meio do puleiro, cabisbaixo. Era todo negro, com as garras e o bico cinzas e o peito coberto de penas vermelhas. 
       - É um Pavó mãe. - Disse animado. - Está em extinção... - A ave solitária estava de cabeça baixa.
       - Tá tá, eu vou esperar lá fora... - Ela respondeu saindo, passando a mão automaticamente em sua cabeça.
      O pai tirou os olhos da tela. Não sabia se seguia ou se ficava. Quando percebeu seu filho parado, se aproximou dizendo:
       - Eai garotão, vamos?
       - Olha pai. É um Pavó. - Gustavo apontou. Neste instante o pássaro ergueu o olhar. - O peito desse é diferente, mas na placa ta escrito Pavó.
       - É... bonito né filho? Vou comprar um pra você tá... Vamos? - Disse se afastando.
       - Ele ta em extinção pai. Num vende.
     O garoto ficou ali parado observando o Pavó, que não piava e nem se mexia. Ele então descidiu pegar sua câmera para registra-lo. Quando o olhou através da lente, se assustou, ao perceber que os pequenos olhos do animal estavam focados nele. Começou a sentir um incomodo. Como se alguém se aproximasse por trás. A sensação de proximidade foi  aumentado cada vez mais, até o momento em que ele se virou de uma vez, sobressaltado. Atrás dele havia somente uma gaiola vazia e seu pai estava mais adiante no corredor, gargalhando para o celular. 
      Ele voltou a atenção para a ave, assim que ergueu a câmera novamente, ela desligou. "Sem bateria", acusou. Gustavo achou estranho, ele tinha certeza de ter a carregado completamente antes do passeio, e essa era a segunda vez que a usava.
       Ao perceber que o pássaro ainda o olhava fixamente, sentiu um calafrio subindo-lhe pela espinha, saiu correndo até seu pai.
       - Vamos - disse já pegando sua mão.
     Seu pai se soltou irado.
       - Mas que po... Desligou !? Oque...? - seu smartphone se apagou. - Sem bateria? Que absurdo. Estava 80% agora... 
       Saíram de mãos dadas. A mãe se surpreendeu com a cena, porém não percebeu o rosto furioso do marido. Nem a expressão assustada do filho.
       - Que coisa linda vocês assim... Eu falei que esse passeio seria bom. - Disse se aproximando com telefone na orelha. - Alô? Rose? Ro, tá aí? Sem bateria? Mas... 
       - Sério!? - O pai interrompeu sorrindo. - O meu acabou de desligar também.
        - Deve ser aquele carregador que você comprou! Eu disse que não valia nada...
      - É ? Na próxima vez eu não compro nada pra você então..
      - E o que você compra pra mim? Eu lá preciso do seu dinheiro ?...
       E assim começaram a brigar.
        Gustavo já estava acostumado com aquilo, todos os passeios em família terminavam quando a discussão começava. Sua mãe agarrou sua mão livre e os três foram em direção ao estacionamento, os adultos foram discutindo por todo o caminho.
       No fundo, Gu agradecia aquele desentendimento entre os pais. Assim iriam embora dali de uma vez. A imagem do pássaro não saia de sua cabeça. Se arrepiou ao relembrar o que sentiu quando encarou a ave. De vez em quando olhava para trás e para os céus procurando algum sinal do Pavó, tinha a sensação de estar sendo seguido.
       No carro, a discussão aqueceu. Agora o motivo era ver quem iria carregar o celular primeiro. O pai se preocupava com o que seus amigos estavam pensando sobre seu silêncio no grupo. A mãe só queria ter alguém que a ouvisse sem interrupções. O garoto estava de coração acelerado, preso ao cinto do banco de trás, em silêncio. procurava no céu, seu perseguidor.
       O pai só saiu com o carro, quando conseguiu se manisfestar no grupo. Gravou um áudio cheio de palavrões e falas maliciosas, na intenção de provocar a mulher. Ela por sua vez,  conectou o celular no carregador, mas ao invés de liga-lo, resolveu discutir sobre a atitude do marido.
       Ele dirigia falando cada vez mais alto. O casal estava naquela fase em que nenhum cede e as discussões viram verdadeiras provas de resistência. 
      Gustavo estava sentado no meio do banco traseiro, se esticava de janela em janela observando o céu ainda preocupado. A cada quilômetro de distância do zoológico era um alívio a mais para o garoto.
     O carro saiu da estrada e seguiu por uma avenida até parar num cruzamento sem semáforo. Gustavo sentiu um aperto no estomago quando viu, sobre a placa de ‘Pare’ o pássaro o encarando, tinha certeza que era o mesmo de antes. Dentro do veículo a briga ficava cada vez pior. O pai, revoltado, arrancou à toda velocidade sem se preocupar em olhar para os lados. Um caminhão vinha em sua direção e por muito pouco não atingiu a lateral do carro. 
        Nem os gritos do seus pais, nem as buzinas estridentes distraíram o garoto.  Sua atenção era toda da ave, que apesar do caos, continuava tranquila sobre a placa, o seguindo com os olhos. Ele ficou de joelhos no banco retribuindo o olhar, até um carro cruzar sua visão e o Pavó desaparecer novamente. Para o seu desespero.
       Gu voltou a se prender no cinto de segurança, não se preocupava mais em saber do pássaro, pois tinha certeza que ele estava ali.
       Seus pais estavam distraídos demais para reparar  em como os olhos dá criança se dilatava, ou no tom pálido que tomava sua pele. Não viam nem o suor que escorria de sua testa ou pelo menos a tremedeira de seu corpo.
       - Mãe... Pai... Ele... tá aqui. O Pavó.. - sua voz era um sussurro fraco e perdido entre as palavras gritadas que se gladiavam no ar.
       Mesmo sentado Gustavo sentia a mesma presença de antes. Dessa vez se aproximava ainda mais. Seu corpo estava paralisado, seu coração batia no limite do possível. 
       - Estou aqui Gustavo. - um sussurro se fez em seu ouvido, ao mesmo tempo que uma mão terna tocava seu ombro.
       Seus pais só perceberam algo de errado com o filho, quando este se atirou por entre os bancos da frente, rasgando o cinto que o prendia e ficou se debatendo descontrolado em seus colos. Arranhando e chutando os dois enquanto gritava até perder a voz.
       Quando o carro colidiu contra a parede de um prédio luxuoso, ouviu-se no ar da capital, além do estrondo do ferro se retorcendo, um piado melancólico. Seguido do bater de asas de um Pavó solitário. 
  • Primeiro Entendimento

    Eu nem lembro quando começou... Não lembro o que sou.
    Um erro grotesco do divino ou um acerto jocoso do diabo. Sei que sou assim. Ganho minha vida como posso e... De verdade? Faço uma ótima grana com isso. Não há orgulho. Não há satisfação na morte, mas também não há remorso. Há um serviço demandado. Há um serviço sempre cumprido.
    Atualmente moro na cidade grande. São Paulo. Perto da Avenida São João no centro mesmo. Disseram que era melhor não chamar muita atenção, mesmo ganhando uma grana monstra, e eu acatei... Afinal, quem me paga é que manda. Eu até gosto da paisagem urbana. Gosto de não ter medo em uma cidade que é movida por ele. Gosto do cheiro de sujeira e até da falta de silêncio na madrugada. Ela tá viva. Tá pulsante. Tá com as veias todas cheias de gordura... Mas tá aí... Fazendo o que pode! São Paulo... Eu curto São Paulo.
    Eu ando de noite e às vezes quase torço pra me abordarem. Eu curto o olhar ae terror. De surpresa. De medo. Eu não ligo tanto. Ninguém vai acreditar se contarem mesmo. Enfim... Deixa eu começar a contar.
    Eu tenho atendimento psicológico toda quarta as três da matina. É... Esse horário mesmo. Nada a ver com a negação da santíssima trindade nem essas bostas, acho que é só logística mesmo. Os big boss arranjam um prédio abandonado, que tem pra caralho aqui em SP, me avisam, me buscam etc... Tudo certinho! Toda quarta! Acho que eles têm medo deu me virar contra eles. Deviam ter medo mesmo. Mas num vou fazer isso. Aí quem me paga?
    O seu Javier é meu psicólogo. Ele me aconselhou a escrever sobre como me sinto. Como sinto pouca coisa acho que vou relatar o que faço e vivencio. Talvez seja interessante no futuro, se alguém achar isso aqui, né. Às vezes dá vontade de aparecer na TV, num programa ao vivo, num criança esperança e BOOM! Sentir o temor em rede nacional... Se pá mundial. Mas aí acaba tudo... Por uns 15 segundos de satisfação. Foda-se fama. Não ligo pra isso. Pois é... Eu disse que não há satisfação na morte! Só na morte! Eu curto ser assim. Curto fazer as paradas que faço.
    Eu tenho um código no dorso da mão esquerda. É U01101987. Como parece uma data assumi que é meu aniversário. A letra eu não sei de onde veio. Mas eu uso como nome. Quando perguntam às vezes, na rua mesmo, eu falo que é Uriel o nome. Eu curto. Anjo da morte e pá. Curto simbolismo. Mas sei lá. Não ligo muito não.
    O Javier me disse pra escrever um blog ou alguma merda assim. Não dava pra dar trela em algum lugar onde nego ia achar então tentei escrever umas paradas na deep web. Mas achei muito zoado aquilo lá e resolvi escrever aqui mesmo. Só pra mim e pra quem achar algum dia.
    Então... Eu tenho umas noções muito escassas acerca do período que eu vou chamar de Primeiro Entendimento. Eu tenho uns flashes porque eu era muito moleque e porque os caras eram muito escrotos. Tinha choque, tinha surra e já rolou até de me jogarem com uns bichos grandes num quarto fechado. Ninguém encosta mais em mim. Só se eu quiser. Eu me dividia entre a barbárie e os livros que eu podia ler no meu quarto. Tinha muito livro! Daí rola a dicotomia deu parecer um filha da puta favelado, falar como um, mas conseguir discutir com qualquer pau no cu que tenha um doutorado enfiado no rabo... Eu sabia que havia outros moleques também, eu sei que eu vi uma guria sendo arrastada quando eu tava apanhando dentro duma sala de vidro. E também já vi umas manchas de sangue mal limpas nos lugares que me levavam lá... Sei lá onde era. Enfim... Eu peguei umas palavras soltas da minha cabeça dessa época e taquei na internet. Quem tiver lendo isso aqui se prepara... Seu mundo vai acabar, mano.
    Ta ligado projeto Montauk? MK Ultra? Stargate? E se eu te falar que é tudo verdade e parte de uma coisa só? Que não é coisa de uma nação só? Mas quer a real? Não to aqui pra falar disso... sou fruto disso! Não sei como, não sei o porquê, não sei origem, não sei porra nenhuma! Só sei que hoje eu consigo controlar e sou a mão mais influente nesse jogo de pôquer que ninguém vê que ta rolando. Não conheço ninguém aqui no Brasil e nem sei se essa parada ta ativa em outros países. Mas quando eu cansar disso aqui vou procurar. Assim... Por diversão. Porque eu nem ligo muito. De qualquer maneira, é importante você saber dessas coisas pra não achar que isso aqui é um conto de um bosta punheteiro. Junta os pontos.
    No Primeiro Entendimento eu não sabia pra onde tava indo. Eu ficava puto, eu ficava com medo, eu ficava no cagaço e as coisas aconteciam. Apagava por um tempo e a parada acontecia. Quando eu acordava já tava na maca indo pro quarto. Com o passar dos anos (acho que eram anos, eu não tinha noção... Era tudo muito igual todo dia. Mas foram muitos dias... Então acho que foram anos.) esse tempo que eu ficava apagado era cada vez menor.
    Teve uma vez que quase mordi minha língua toda fora porque os choques eram cada vez mais fortes e eu não apagava. Quando eu apaguei não foi completamente. Lembro do barulho do ferro dobrando, de carne torando e de osso quebrando. Lembro do cheiro de sangue, lembro da minha cara molhada com uma parada quente e lembro de silêncio. Quando voltei eu não tava caído no chão, eu tava ajoelhado. Passei a mão na cara e tava cheia de sangue. Como não tava sentindo nenhuma dor, tirando a língua que eu tava mordendo, tentei entender o que aconteceu ao mesmo tempo em que minha visão se acostumava com a escuridão de uma sala recém-destruída iluminada por 2 lâmpadas vacilantes. Olhei pra frente; a maca de ferro onde eu tava dobrada igual um pano de chão. Olhei pra esquerda; tênis brancos encharcados de vermelho e pouco depois um par de pernas em calças azuis. Olhei pra direita; uma cabeça me olhava de volta. Sem nenhum sinal de raiva, temor ou horror. Só olhava de volta. Sem reação.
    Minha visão tava bem acostumada quando eu consegui ver o sangue que pintava a parede de uma maneira estranhamente bonita. Eu não sabia ainda, mas chamavam aquilo de expressionismo abstrato. Eu curti. Então... Eu tinha rasgado a mulher que me dava choque, espalhado os órgãos internos dela pra todo lado, retorcido uma maca de aço maciço. Tinha feito tudo isso sem encostar um dedo nela. Mas o que mais me chamava a atenção era aquele vermelho na parede ao melhor estilo Pollock, segundo o que li depois em livros de história da arte. Me senti um puta artista. Talvez tenha sido o mais perto de sorrir que cheguei.
    Depois de alguns anos eu não apagava mais. Passei a ficar muito mais tempo no quarto do que em experimentos. Até que um dia eu resolvi amassar a porta e sair pela porta da frente. Acho que todo mundo viu. Tocou um barulho alto quando eu passei por uma porta, mas poucos segundos depois ele parou. Ninguém fez nada.
    Eu andei um bom tempo. Talvez uma outra hora eu conte tudo que se passou da minha saída até os meus antigos “donos” estabelecerem uma relação empregatícia comigo. Nesse meio tempo eu já estava no que chamo de Segundo Entendimento. É tipo o velho e o novo testamento, saca? Mas sei lá... Vai que rola um terceiro. Não sei. Não ligo muito.
    Sei que eu passei muita coisa e entendi melhor como o mundo funciona. Eu tava atrasado pra caralho! Eu não sabia muita coisa. Conhecimento é poder. Acho que eles sabem disso. Por isso preferiram me ter como sócio.
    Tem uns trabalhos menores que eu não faço ideia do porquê eles são pedidos, nem ligo. Matar uns pé rapados, pegar umas pastas, sei lá! Deve ter uma razão, mas não me importa. Agora os trabalhos que pagam bem, esses devem demandar um trabalho sinistro de engenharia social. Mas foda-se! Nesses eu ganho uma grana que daria pra comprar uma cobertura duplex em Moema. Só que não vou dar na telha, né.
    O primeiro trabalho grande que fiz já tem uns três anos. Foi em agosto e os big boss disseram que iam “deixar o clima em condições ideais para que eu pudesse agir”. Depois de um tempo eu fui ler sobre as máquinas HAARP e fez sentido. Mas não ligo, quero só a grana mesmo. Rola uma preparação. Uma concentração. Parece controverso, mas meditação me ajuda bastante. Sinto que otimiza o que faço. O cronograma é o seguinte. Me dão a situação, o objetivo e a rota do alvo. Eles cuidam do planejamento e do controle pós-evento. Eu lido com a direção e a organização da parada. Nesse caso em particular eles me pagaram uma passagem pra Santos e me deram umas coordenadas no celular mesmo. Subi num ponto que me desse o mínimo de visibilidade e me concedi o direito de apreciar a sensação que era a de estar prestes a pintar um novo quadro. Enfim, é só isso que preciso. Concentração e o mínimo de visibilidade. Às vezes acho que nem preciso de visibilidade, não sei. Depois vou testar. Eu gosto de mirar, como um sniper. Mas também acho que é desnecessário. Só um pouco de pose. Uma mania de artista.
    O tempo começou a fechar e pra mim foi o sinal de que era hora. Era uma quarta feira e ainda estava de manhã... Acho que umas nove ou dez horas. Quando eu vi o avião dei aquela concentrada, levantei as mãos e visualizei, como sempre faço, meu objetivo. Daí comecei a pintar o quadro na minha cabeça. Minhas mãos fazem um movimento rápido pra baixo e, como se eu estivesse jogando no kinect, o avião começa a descer. Eu vacilei! Joguei o avião em cima de umas casas. Devia ter jogado pra fora, sei lá. Mas nem ligo não. Fiquei pensando se iam diminuir o pagamento, mas ele tava todo lá na conta. Bem certinho. Mais tarde eu descobri que meu alvo era um candidato à presidência. Lembro que ouvi a notícia dentro duma hamburgueria artesanal e tava bem de cara com o fato de nunca ter comido esses hambúrgueres antes. Fiquei pensando se devia ter pedido mais grana. Porque porra... Era um candidato à presidência. Mas nem precisava de mais grana. Na real? Eu acho que nessa época eu já era um dos caras mais ricos do Brasil. Mas foda-se.
    Os trabalhos grandes aparecem pouco, mas os pequenos não pagam mal. O último trabalho grande que tive foi o que me pagou mais. Eu acho, de verdade, que eu consigo comprar um país pequeno com o que eu recebi só nesse trabalho. Depois eu entendi o porquê! Esse foi por agora. Em janeiro. Mesmo modus operandi. Pagaram a passagem, me deram localização, objetivo e rota do alvo. Esse foi até mais fácil porque tava perto da água. Lembrei só na hora de não jogar em um lugar cheio de gente. Só porque acho que ia ser mais difícil de encobrir, sei lá. Descobri depois que esse alvo era um juiz que tava pra pegar uma galera, algo assim. Não me entenda mal. Eu sou bem curioso acerca de tudo. Mas eu gosto de manter uma certa distância dos alvos. Pode chamar de profissionalismo.
    Acho que o Javier tava certo. Esse negócio de escrever me faz entender as coisas um pouco melhor. É como a meditação, mas tem palavras. Vou conversar com ele quarta que vem. Começo a questionar se realmente não ligo para as coisas. Mas acho que gosto de fazer o que faço mais do que pensava. Bem, acho que foi Confúcio que falou uma parada acerca encontrar um trabalho que ama, né? Daí você não vai trabalhar nenhum dia, algo assim. Não sei. Não sei se amo. Mas eu curto pintar esses quadros. Na quarta vou contar pro Javier essas coisas. Talvez seja o começo do Terceiro Entendimento... Ou não.
    Enfim...To com fome. Vou comer um hambúrguer e vou dormir.
  • Procurando liberdade, encontrando a morte.

    Procurando liberdade m, encontrando a morte.
  • Psychotic

    Capítulo 01
    Bam!
    Levantou os olhos cansados, já não aguentando mais ficar naquele lugar. Seus braços estavam cruzados em cima da mesa, e sua expressão já deduzia tudo que queria dizer. Apesar de o homem ter lhe dado as costas, sabia qual seria seu destino dali pra frente...
    – "Plantão". – leu a palavras em vermelho apenas para confirmar. – Ah, não... – choramingou após rolar os olhos.
    Voltou pousar a cabeça em seus braços, começando produzir o som idêntico de um choro, porém não estava chorando. Só queria tirar três horas para descansar, ela também precisava dormir ninguém era de ferro!
    Mas mais um turno noturno, sendo este o seu terceiro. Até quando teria que aguentar? Melhor nem pensar, pois seu corpo não iria aguentar por muito tempo, suas energias estavam esgotadas, e sem querer ser indelicada, mas Amber não aguentaria mais uma noite acordada, nem mesmo se tomasse anfetaminas para manter os olhos abertos!
    – Amber? Tudo bem? – a médica mais velha, adentrou a sala privada dos médicos com uma caixa de objetos em mãos. – Amber...? – chamou novamente, colocando a caixa em cima da mesa, e se aproximando da mulher, que até então não fazia um movimento. – Amber? – a cutucou devagar, e então percebeu que ela tinha os olhos fechados e uma expressão maltratada. – Pobre bichinho, está exausto! – afastou os cabelos de Amber, passando acariciar sua face adormecida.
    O nome dela era Wendy Smith, ou, mais conhecida como a Vovó Wendy do hospital Joseph Louise Morgan. Ela tinha lá seus setenta e oito anos bem vividos, e sua própria aparência denunciava sua idade. Tinha olhos verdes, sobrancelhas finas, cabelos curtos e brancos com alguns – despercebidos – fios pretos. E o sorriso que estampava, quase sempre, em seus lábios tinha o dom de cativar qualquer iniciante na área hospitalar.
    Todos a consideravam a "vovó", por ser a única médica mais velha que aguentou segurar todas as pontas. Sua vida se baseou em controlar os enfermeiros, porém sua responsabilidade dobrou, assim que ganhou os médicos em sua lista.
    Sempre tinha o dever de estudar o paciente, antes de entregá-lo nas mãos de um dos médicos. Essa era sua função. Não acreditava que, estudar a pessoa antes de deixá-la nas mãos de um profissional capacitado, fosse necessário, pois dentro daquele hospital era onde se localizava os melhores médicos do país. Nenhum possuía ficha marcada, todos – sem exceção – executavam muito bem seus trabalhos.
    Wendy tinha um enorme significado, ela era a mãe de todos ali dentro. Sua doçura conseguia cativar a todos, até mesmo um médico orgulhoso e mal-educado, do qual ela conseguia transformar em um profissional respeitoso.
    – Vovó Wendy? – a porta da sala se abriu devagar. – Preciso tirar uma dúvida com a senhora. – ele começou, segurando a nova ficha que recebera do chefe.
    – Alex, Amber trabalhou a noite toda, ontem? – Wendy quis saber, fazendo carinho nas costas da jovem.
    – Ela substituiu o turno da Katy, não se lembra? – respondeu como se fosse óbvio.
    – Katy Hill não voltou pelo visto. – concluiu vendo Alex assentir. – Pobrezinha, ela tem que descansar um pouco. – pronunciou afastando uma mecha de cabelo do rosto de Amber. – Dr. King, não pode levá-la até a ala privada? – questionou encarando o homem docemente.
    – Vovó... – levantou os ombros. – Já estamos na ala privada. – disse como se ela não soubesse.
    – Não digo aqui Alex, me refiro às camas que o hospital disponibiliza para vocês, médicos. – explicou.
    – O chefe não irá... "Encrespar"? – fez aspas com os dedos, deixando sua pasta de documentos em cima da mesa.
    – Irei explicar a situação para ele. – respondeu, visualizando Alex se dirigir para o lado direito de Amber. – Agora, por favor, querido, leve a Dr. Anderson para um descanso, sim? – pediu.
    – Não saia daqui vovó, eu preciso falar com a senhora depois. – avisou antes de pegar o corpo adormecido de Amber, cuidadosamente.
    – Cuidado. – pediu observando Alex caminhar com o corpo da garota nos braços.
    Seus olhos o acompanharam até este empurrar a porta, que daria acesso ao cômodo das camas, com o pé. Assim que a figura de Alex desapareceu, passou prender seus glóbulos fuscos, em tom esverdeado, no documento que antes estavam nas mãos do rapaz.
    Seus dedos enrugados, que tinham envolvimento com a fina camada de pele com manchinhas, abriram o documento, encontrando com algumas fotografias presas por um clips de papel. Com sutileza, as separou, observando os rostos inocentes das crianças. Os lenços amarrados em suas cabeças, já deduziam que todas lutavam contra o câncer.
    O hospital tinha uma área reservada, especialmente para se dedicar as crianças com câncer. E dentro dela, se poderiam encontrar de todos os tipos de sorrisos, ninguém ali demonstrava tristeza!
    O câncer era um assunto bastante delicado para se tratar, e o melhor jeito de lidar com isso era através das visitas públicas, onde pessoas dedicavam um tempo precioso de suas vidas, para fazer almas inocentes rirem.
    – Pelo visto, já descobriu meu assunto com a senhora, vovó Wendy?! – Alex voltou, fechando a porta por onde acabara de sair, com sutileza.
    – Amber acordou? – não, ela não ignorou as palavras de King.
    – Apenas tomou um leve susto quando as costas tocaram o colchão. – respondeu já observando Wendy passar as fotografias. – Ele vai vir hoje! – disse de repente, recebendo os olhos surpresos da vovó.
    – Como sabe? – perguntou abaixando as mãos com as fotos.
    – Ele sempre visita o hospital, nas segundas. – deu de ombros puxando uma cadeira. – Acho gentil da parte dele, tirar algumas horas da rotina, para passar com as crianças. – revelou começando brincar com o elástico da pasta.
    – Ele é um padre, Alex, o que você esperava? – o rapaz rolou os olhos.
    – Nem todo padre, é verdadeiramente um padre! – deixou fluir, cruzando os braços em cima da mesa, deixando um sorriso brincalhão estampar em seus lábios.
    Wendy encarou aquele sorriso com receio. Não gostava quando Alex King, ria após exclamar uma possível suspeita. Odiava ficar em cima da corda. Tudo que Alex mais sabia fazer era imaginar hipóteses e expô-las para o público, como se elas realmente fossem reais, ou fossem se tornar realidade. E isso deixava a vovó cada vez mais incomodada, ele como médico, não deveria viver no mundo da lua!
    – O que quer dizer com isso Alex? – disparou.
    – Eu? Nada, é claro! – foi cínico.
    Alex riu, deixando seu corpo cair para trás. Com os pés apoiados no chão, deixou a cadeira ficar sobre duas das pernas. Levou as mãos para trás da cabeça, e continuou encarando Wendy, concluindo que ela estava louca para mandá-lo para fora dali!
    – Alex, ele é um padre! – exclamou com o tom de voz um pouco alterado, tentando colocar alguma coisa verdadeira naquela mente fértil.
    – E daí que ele é um padre? – o tom de voz desinteressado, estava deixando Wendy irritada. – Ser padre, não significa servir apenas ao Senhor; assim como todo ser humano, um padre está sujeito aos pecados, sendo eles dos mais fáceis de controlar, até os mais difíceis... Ah, quer que eu cite algum pecado tentador? – expôs sua magnífica carreira de dentes brancos.
    – Guarde seus pecados "tentadores", somente para si! – rebateu. – O monsenhor, Bruce Rodriguez, se entregou completamente à igreja. É um dos melhores padres da região, como ousa falar essas coisas dele? – Alex negou com a cabeça, parecendo arrasado.
    – Nunca devemos confiar nas pessoas. O monsenhor pode ser considerado uma pessoa religiosa, respeitosa, pura, porém nós, nunca saberemos o que ele faz quando está fora da área sagrada! – respondeu apertando os olhos conforme pronunciava. – Mas... – se levantou arrumando as fotografias dentro de sua pasta com o documento. – Meu tempo que é sagrado, e têm várias crianças me esperando! – declarou seguindo caminho a porta.
    Wendy rolou os olhos, no fundo, ter demitido Alex King quando o chefe lhe deu a chance, teria sido uma ótima escolha. Mas sentiu pena dele na época, afinal, em sua cabeça, uma pessoa não merecia perder o emprego por deixar um bisturi cair em uma hora de desespero.
    Mas Alex passou dos limites. Falar do Pe. Bruce Rodriguez daquela maneira e com aquele tom de voz cínico, foi demais! A vovó era capaz de esperar tudo vindo dele, menos aquilo... Onde estava o consentimento por ter ganhado uma segunda chance dentro do Joseph Louise Morgan? Que tipo de monstro King se tornou?
    Vovó Wendy não tinha as respostas, porém não tinha tempo para elaborá-las, havia uma paciente preste passar por uma cirurgia no fígado, do qual ela precisava estar presente. Mas se Alex achou que tinha escapado dos questionamentos, estava muito enganado, pois eles sequer começaram!
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    A dobradiça rangeu por um fio de ruído, mas as crianças não mostraram importância com a falta de óleo. Assim que a porta foi empurrada, Amber adentrou a enorme sala, recebendo os olhinhos brilhantes em cima de si. Sorriu, podendo ver duas das meninas correrem em sua direção.
    – Amber! – uma delas emitiu, abraçando a mulher pela cintura.
    – Amber, estava com tanta saudade! – a outra que tinha um lenço branco na cabeça, também a abraçou.
    – Também estava Carly! – sorriu, se abaixando para ficar da altura das meninas. – O que vocês, estão fazendo hoje? – perguntou mantendo seu sorriso.
    – Estamos brincando de casinha. – Carly respondeu.
    – Está na hora do banho, quer brincar junto com a gente, Amber? – a outra ofereceu.
    – Talvez mais tarde Lola. – respondeu, deixando seus olhos caírem sobre as figuras de Alex e Wendy. – Agora vão meninas! – incentivou, e as duas logo correram em direção do tapete, onde estava a casinha de bonecas.
    Sem mais delongas, caminhou em direção da vovó Wendy, que parecia estar dando uma belíssima bronca em Alex. Ótimo, o que ele tinha aprontado daquela vez? Mente fechada e complicada, só poderia resultar em confusão!
    Rolou os olhos assim que viu Alex com os olhos de um predador. O rapaz tinha as mãos na cintura e sua língua umedecida seus lábios, enquanto a vovó lhe ditava palavras que pareciam não agradar muito sua autoestima.
    – O que aconteceu? – foi direto ao ponto.
    – Alex está acusando o Pe. Bruce, de não ser realmente um padre! – Wendy respondeu e Alex riu.
    – Eu não acusei ninguém! – repreendeu tentando segurar o riso. – Eu só falei como uma hipótese. A vovó que está o considerando um infiel à igreja! – Amber mostrou-se confusa.
    – Eu nunca disse que ele era um infiel à igreja, você que citou os pecados "tentadores"! – vovó se defendeu, apontando o dedo no peito de Alex enquanto falava.
    – Alex! – Amber emitiu ficando surpresa com as palavras da vovó.
    – O que? – o ouviu pronunciar. – Sexo não é pecado! Todo e qualquer ser humano necessita. Sentir um pouquinho que seja de prazer, não mata ninguém! – Anderson rolou os olhos, enquanto Wendy cobriu o rosto com as mãos, sentindo vergonha.
    – Você ouviu o que acabou de dizer? – levantou uma sobrancelha. – Está falando de sexo. Um padre, a partir do momento que decide ser padre, nunca se entrega aos pecados tentadores do mundo! – pronunciou firme de si. – Somos todos seres humanos, capazes de cometer erros, e o Pe. Bruce não é diferente de nós. Mas ele possui um ofício, o dever de servir a Deus... Então pare de tentar ver coisas, onde não há! – seu tom de voz firme, talvez intimidasse Alex.
    Mas ele riu, estava debochando de todas as palavras de Amber.
    – Amber, por favor, até parece que nunca transou na vida. – continuou rindo, fazendo a mulher engolir em seco.
    Sexo era um assunto bastante delicado...
    – Isso não vem ao caso, Alex! – rebateu com a voz um pouco alterada.
    – Vem sim! – provocou seguindo com passos lentos, até estar cara a cara com ela. – Diga, não é gostoso sentir o prazer vivo em suas entranhas? Ouvir sua própria melodia; sentir suas pernas bambas com cada round; o suor desenhando por sua pele... É capaz de negar que não gosta? – direcionou o olhar convencido para o olhar, já irritado, de Amber.
    – Eu disse... Que isso, não vem ao caso Alex King! – rosnou entre os dentes.
    – Parem já, vocês dois! – vovó interviu, os separando a partir do momento que ficou no meio deles.
    Alex tentou avançar com seus passos, mas a vovó o impediu, fazendo-o recuar com o olhar raivoso. Amber o encarava profundamente, com série de dúvidas... Bruce não merecia ser visto daquela maneira, de modo algum ele faltou com respeito à igreja, então não havia motivos para Alex julgá-lo.
    Sinceramente, Alex King tinha uma mente que precisava passar por um tratamento!
    – Eu só estava tentando ser amigável em conversar sobre sexo com você, Amber Anderson. – sorriu sarcasticamente.
    – Eu não preciso que ninguém... – Amber ia se defender, mas a porta escolheu justo aquele momento para se abrir. – Acho que seu amigo chegou Alex! – provocou fazendo o rapaz rolar os olhos.
    Wendy abriu um sorriso largo, e se dirigiu em direção do novo indivíduo, deixando Alex e Amber livres para se atacarem.
    A mulher, por outro lado, ignorou a presença de King, não queria ter que trocar palavras com ele, homem desprezível que só pensava em sexo!
    Amber Anderson não gostava de conversar sobre sexo. Sentia-se envergonhada. Era virgem aos vinte e três anos, não que nunca ter transado fosse uma vergonha, mas se sentia desconfortável por conversar sobre tesão sexual com alguém experiente, como Alex.
    – Bruce te adora Amber, não quer ir lá conversar com ele? – ouviu a voz de Alex, e tudo que fez foi ignorá-lo. – Não quer trocar umas palavrinhas? – provocou novamente, e ela apenas rolou os olhos. – Vai me ignorar mesmo Amber?! – entrou na frente dela com as sobrancelhas arcadas.
    – Nunca mais fale sobre sexo comigo! – deixou claro.
    – E, por acaso, isso é algum crime? Você já transou Amber, então não é constrangimento algum falar sobre isso! – se explicou, e visualizou a mulher abaixar a cabeça.
    – Alex entenda... – envergonhada olhou para os lados para se certificar de que ninguém mais, além dele, ouviria. – Eu sou virgem. – falou baixo apenas para ele ouvir.
    – Wow... Amber eu... – ficou sem jeito. – Eu não sabia, pensei que você e Jackson já...
    – Não, eu não deixei. Nunca me senti segura, por isso ele terminou. – explicou.
    – Entendo... Mas se quiser, a gente pode resolver isso! – indicou o banheiro com o queixo.
    – Estúpido! – riu acertando um tapa contra o ombro dele.
    Alex não escondia, e era preciso apenas estudar o seu sorriso para ver que ele sentia uma atração por Amber. Eram amigos desde que ela entrara para o hospital, e sempre, desde o primeiro dia, sentiu uma atração muito forte por ela.
    Ele queria fazer parte de um pedaço da vida da mulher, porém isso tinha se tornado algo difícil. Toda vez que tentava conversar sobre relacionamento, tentava ser o mais delicado possível, mas Amber sempre mudava de assunto quando ele questionava sobre intimidade.
    Agora entedia. Ela era virgem!
    – Você já se masturbou, alguma vez, Anderson? – questionou de repente.
    – Eu, hã... – travou, mas foi salva.
    – Amber! Amber! – duas meninas começaram a gritar correndo na direção da garota.
    – Fale meninas. – foi simpática e Alex observou seu sorriso tão lindo...
    – O Pe. Bruce quer falar com você. – Zoe respondeu segurando a mão da mulher.
    – Ele disse que vai nos ensinar como fazer uma torta de maçã, mas você tem que ir junto! – já lhe puxava a outra mão.
    – Parece interessante a ideia, Carly! – sorriu, deixando-se guiar pelas duas meninas.
    Alex mordera os lábios, onde estava com a cabeça? No mundo da lua só podia ser!
    Era bem óbvio, pela cara de vergonha de Amber em revelar que era virgem que ela nunca tinha se masturbado. Mas homens, oh, criaturas burras, sempre estragam tudo!
    Alex King buscava ter uma chance com Amber, certo? Pois bem, acabou com todas as suas chances possíveis!
    Passou acompanhar os movimentos de Anderson, vendo-a abraçar o Pe. Bruce com um sorriso largo nos lábios. Aquilo o fez revirar os olhos. Será que ele era o único com pensamentos diferentes sobre aquele padre? Não era possível que ninguém acreditava nele, não necessariamente precisavam concordar, então pelo menos respeitar suas teorias já era o suficiente, mas ninguém, certamente NINGUÉM tinha capacidade para fazer isso!
    Até mesmo a vovó Wendy, que julgava sendo como uma mãe ficou contra si, isso sem comentar de Amber...
    – Eu vou vomitar! – exclamou rolando os olhos, saindo em direção da saída da sala, com certeza, papéis ou arquivos eram muito mais interessantes que ficar ali observando Amber sorrindo abertamente para o padre.
    Sabe o quanto ele daria para receber um sorriso daqueles? Melhor nem dizer...
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    A mão arrumou uma mecha de cabelo atrás da orelha, era ela simplesmente linda demais! A mulher mais bonita de todo o hospital Joseph Louise Morgan!
    Afastou o cigarro dos lábios, soltando a fumaça para o alto, a cor branca começou desenhar um lado obscuro do puro desejo e atração. Os traços da fumaça desapareceram com a força do vento, porém esse era o menor dos problemas.
    Amber Anderson, era a sua garota, a escolhida para viver anos ao seu lado. Afastando novamente o cigarro dos lábios, jogou-o no chão, fazendo questão de pisar em cima, ninguém poderia saber que ele fumava.
    Precisava manter sua imagem no hospital.
    Pela última vez, espiou a imagem de Amber agora conversando com Wendy, e um sorriso acabou dominando seus lábios, ela era realmente a melhor mulher que já encontrara!
    E antes que dois médicos pudessem sair do estabelecimento, se dirigiu rapidamente em direção de seu automóvel. Adentrara o lado do motorista começando checar seus pertences, que estavam dentro da caixa em cima do banco do passageiro, e assim que conferiu cada detalhe, fechou a caixa com a tampa. Ele não iria precisar mais daquilo, somente no dia seguinte, agora seu rumo seria outra residência...
    Girando a chave da ignição, pisou fundo no acelerador, cantando os pneus. A imagem de Amber estava gravada em sua mente, mas agora não poderia contar mais com ela, sua próxima parada exigia um talento que ele escondia nas próprias mãos!
    Dentro do hospital, Amber caminhava pelo corredor, segurando sua prancheta de pacientes em mãos. A noite finalmente caiu e cobriu todo o céu de San Rosie, e o hospital nunca ficou tão escuro e frio igual naquela noite.
    A mulher esfregava as mãos nos braços na tentativa de espantar o frio, mas era tudo inevitável. Seus pelos continuavam se arrepiando lhe alertando que aquele seria um dos seus piores plantões!
    – Amber! – parou imediatamente os passos, virando na direção da voz.
    – Como está sendo sua noite, Jacob, belíssima? – tentou colocar sarcasmo na voz, o que foi um fracasso.
    – Deve está sendo o mesmo que a sua. – respondeu dando de ombros, acompanhando Amber que seguia para o balcão na recepção.
    – Que coincidência, não? O chefe do hospital pegando plantão, como qualquer outro médico, chega até soar engraçado! – caçoou rindo.
    – Amber pare de agir como uma criança no jardim de infância! – exigiu, e ela fingiu não ouvir, estava ocupada demais assinando alguns documentos. – Nem parece que é médica e sim, uma faxineira que só resmunga! – comparou e logo Anderson se virou, ficando cara a cara com Jacob.
    – Se eu pareço uma faxineira, por que me contratou para servir o seu hospital? – disparou firme.
    – Amber... Eu ter deixado dois plantão na sua mão, já são provas o suficiente do que você significa para mim. – respondeu, e a mulher negou com a cabeça e um sorriso cínico.
    – Foram duas noites, Jacob! – rebateu seguindo novamente para o corredor.
    – Me deixa falar Amber! – emitiu, começando segui-la.
    – Eu não tenho nada do que falar com você! – emitiu continuando com seus passos.
    Jacob percebendo que nada iria adiantar para parar Amber resolveu aumentar a velocidade de suas pernas. Conseguiu, com muito esforço, entrar na frente dela, e a mulher em contradição somente parou e rolou os olhos impaciente.
    – O que você quer Jacob? – deu-se por vencida.
    – Você está livre do plantão de hoje. – resolveu despejar tudo na primeira oportunidade que tivesse.
    – Por q... Não, cadê o documento onde consta minha demissão? – esperou que ele retirasse alguma folha do jaleco e lhe entregasse, o que não aconteceu, ao contrário ele riu.
    – Acha mesmo que vou demiti-la só porque a dispensei do plantão? – riu mais uma vez, e Amber suspirou em raiva. – Não se preocupe Amber, enquanto eu estiver no cargo de chefe, você nunca será demitida. – deixou claro antes de seguir para a recepção, de onde antes estavam.
    Rolou os olhos mais uma vez. Jacob Write com trinta e dois anos conseguia mesmo ser surpreendente. De repente joga um plantão nas mãos de Amber e logo depois decidi retirá-la do plantão?! Que tipo de chefe era aquele?
    Enquanto tentava refletir sobre a mudança de plantão observava, na mesma posição, à figura morena de Jacob conferindo algumas pastas. A secretária ria de alguma idiotice que com certeza saiu pelos lábios de Write.
    Era incrível como todas as mulheres tinham uma queda pelo chefe!
    Claro, com seus cabelos castanhos, corpo esculpido – nada muito exagerado – sorriso colgate e olhos azuis, malditos olhos azuis, ele só poderia ter sido um erro genético!
    Jacob Write tinha apenas trinta e dois anos, como era possível ter aquela aparência? Tudo bem que os olhos azuis lhe dava o charme natural, mas com sua idade, o certo seria estar casado, com filhos e aparência velha, mas Jacob era totalmente o oposto de tudo, começando por estar solteiro.
    Homens do século XXI.
    Amber balançou a cabeça de um lado para o outro, retornando para sua caminhada pelo corredor. Já que não teria mais que ficar responsável pelo plantão, o que mais poderia fazer? Só lhe restava ir dormir, pois se voltasse para casa teria que encarar a figura de Alex e vovó. O que de fato não estava com determinação para encarar...
  • Quando a morte chegar...

    Aproveite a estrela que há em você a luz que ela traz e o brilho que ela tem... pois quando a morte chegar, essa luz se apagará o brilho se perderá e a estrela morrerá...
  • Quando o caçador vira a sua própria presa

    O Homem-Aranha é um dos heróis mais icônicos do cenário dos comics estadunidenses. Nascido em 1962, na revista Amazing Fantasy, da mente dos três mosqueteiros Stan Lee, Jack Kirby e Steve Ditko. O personagem tinha muito de sua época: Guerra do Vietnã e pulp fiction. É incrível o que um órfão criado por seus tios poderia se tornar. Tão incrível quanto esse herói foram os seus vilões.
              Dentre eles, está Sergei Kravinov, ou como ficaria mais conhecido no mundo aracnídeo, Kraven, “o Caçador”. Ele nasceu na Rússia czarista, na cidade de Volvogrado, era filho de aristocratas russo, exilados do país pelos sovietes. Sua primeira aparição foi no ano de 1964. É um dos antagonistas mais metódicos e perigoso que o Homem-Aranha enfrentou em sua trajetória.
              Kraven, entediado da civilização e, do mundo capitalismo, se dedicou as caçadas, em busca de um propósito mais nobre. Foi nessas viagens que ele conheceu ervas medicinais que alteraram a sua fisionomia, aumentaram a eficácia de seus músculos e sentidos. Conheceu artes ocultas. Grandes contribuições do seu desenvolvimento vieram do tempo em que caçava no continente africano.
              Um homem que possui habilidades tão elevadas não se contentaria apenas em caçar leões e rinocerontes com as mãos nuas, não, ele desejava mais emoção. Ele chegou até a participar de uma das formações dos Vingadores, isso nos anos 50. Mas, foi graças há uma venenosa sugestão que passou a caçar o amigão da vizinhança. A caçada ao Homem-Aranha lhe pareceu o maior de todos os desafios: uma presa que raciocina!
              Em A última caçada de Kraven, o caçador parece ainda mais obsessivo, indo às raias da loucura. Submergimos em sua mente adoecida. Sua necessidade de provar os seus limites e se mostrar a presa suprema o fez enlouquecer. Uma demência que não apenas trazia risco as pessoas a sua volta, ou ao Homem-Aranha, mas a ele mesmo. Essa HQ nos mostra que uma vida baseada numa obsessão não leva a pessoa a realização de seus desejos, mesmo que consiga realizar o seu objetivo. No fim, não resta nada.
              Como uma graphic novel baseada num vilão, mergulhar na mente de Kraven não é nada fácil, mas, revelador. O personagem, tão apegado as suas origens nobres, se refugia numa tradição que não mais existe, ou melhor, não faz mais sentido num mundo bipolarizado, consumista, onde a ordem acaba se rompendo em uma revolução. É quase um desabafo nietzschiano. E como todo bom niilista, é no passado que se encontra o futuro do homem, ou melhor, do além do homem. O homem que pode seguir os seus instintos, servir-se de sua potência e realizar seus desejos mais profundos sem que as convenções morais o impeçam.
              Esses são apenas um dos questionamentos que o quadrinho vai abordar. Para Kraven, se tornar o Homem-Aranha o fará sobrepujar a sua presa. Entenderá a sua essência. Ao ser o herói, deixa de ser o vilão, metaforicamente falando. Através de um plano mirabolante, Kraven derrota o Homem-Aranha, e depois disso, não encontra mais objetivo em sua vida. A caçada havia terminado.
              Peter Parker, agora vivendo com Mary Jane, sopesam a vida de casado e a separação devido sua atividade de herói. Tanto ele, quanto Mary sofrem com a situação. Ela teme por sua segurança. Já o Peter no Homem-Aranha entra em conflito com seu álter-ego. É nesse momento que ele percebe que seu papel vai mais além do que lutar contra vilões, é um símbolo, e seus valores pessoais não estão desprendidos do combate à criminalidade.
              O Vilão Rattus, embora seja um vilão menor nas histórias do Homem-Aranha, tem um papel de relevância na trama. Entra como um catalisador do conflito de valores entre os antagonistas. O modo de tratamento a Rattus indica qual é a posição e visão de mundo de ambos os personagens, Kraven e Homem-Aranha. O enredo vai trabalhar com os discurso, simbologias e o psicológico das personagens, não se focará em grandes lutas, embora, haja muita ação.
              A obra é desenhada por Michael “Mike” Zack. Nasceu em 6 de setembro de 1949, Greenville, Pensilvânia. Em 1967, frequentou a Escola de Artes, mas só em 1974 começou a trabalhar como quadrinista. Depois disso trabalhou em diversos títulos da DC e Marvel. J. M. DeMatteis nasceu em 15 de dezembro de 1953, Brooklyn, Nova York. John Marc DeMatteis foi músico e jornalista do mundo do rock, antes de produzir HQs. A última caçada de Kraven já foi votada como a história nº 1 do aracnídeo. Atualmente também escreve para séries de TV e cinema.
              Essa edição é da Panini Comics, formato capa dura. Reúne histórias publicadas originalmente em 1987, respectivamente: Web of Spider-Man (31-32); Amazing Spider-Man (293-294); e Peter Parker, The Spectacular Spider-Man (131-132). A impressão está de excelência. Tem por volta de 150 págs
  • Quintus

    Quintus temia entrar no banheiro
    Só de pensar em ir fazia-o entrar em desespero
    Seus pais adotivos não entendia tal comportamento irracional
    Psiquiátricos diziam que era natural:
    - Crianças desenvolvem medos ilógicos, nada fora do normal.

    Contudo existe um fato que Quintus nunca compartilhou com ninguém:
    Bem, acontece que seu pai foi morto dentro de um banheiro
    E sua mãe (sempre fora de noção) o colocou sobre o corpo ensanguentado
    Aquela imagem para sempre iria deixá-lo traumatizado
    Dias depois sua mãe enforcou-se no mesmo cômodo ao ser descoberta como a assassina
    E o coitado foi entregue ao lar para crianças sozinhas nesta vida.
    Sim, foi sorte ser adotado por um amável casal
    Por azar foi parar na casa onde houvera acontecido o suicídio e o assassinado.
    Talvez Quintus fosse mesmo somente um garoto desventurado...
  • Ravenismo

    Tritan; Símbolo do Ravenismo
    Resumo: Texto explicativo e dissertativo sobre conceito e origem do Ravenismo (RV).
    Conceito
    Ravenismo é um ocultismo e filosofia voltado ao autoconhecimento, essência cinza, goticismo, e, unidade e indiferenças, que prega que seja o seu próprio deus e escolha ser ou não um Demônio da Luz, cuja seus adeptos são se chamariam Ravenianos, os quais passam por portões do caminho da sabedoria Raveniana e sua ascensão.
                        Origem
    Por volta de 2020 na era da pós-modernidade e tempos difíceis com tragédias e problemas internacionais pondo em risco muitas coisas, Ravenismo, também abreviado por RV, surge como corrente de pensamento frisando dois aspectos importantes: Ocultismo e Filosofia. Desenvolvido por Lorde Raveno -, o idealizador e mente por trás disso -, este sistema envolve conceitos diversificados e temas que vão desde coisas banais até assuntos mais sobre vida, existência, sociedade e outras crenças e sistemas, com um pouco mais de fontes e recursos correlacionados a seu principiante.

    A Revista de que se inicia o RV é em um conteúdo sucinto e breve. A proposta é dar a seus adeptos liberdade e autoconhecimento, que precede o ritual Faça, Desperte, Sinta. Seu símbolo emblemático é a Tritan (Coroa de três Chifres/ Símbolo que parece a cabeça do Tridente de Poseidon).

    Os Portões como Primeiro Portão, Segundo Portão, e Terceiro Portão, respectivamente são A Essência Cinza, A Vida e A Morte. Estes de que se falam contém seus conteúdos, e simbolizam os caminhos ou fases até a ascensão.
                       
                       Conclusão
    Ravenismo portanto é, em outras palavras, um Ocultismo Filosófico ligado a diferentes pensares, que ensina principalmente sobre liberdade e autoconhecido passando por vários aspectos sobre vida, existência, sociedade e outras crenças e sistemas, com um pouco mais de fontes e recursos.
  • Sacrifício

    Lágrimas chegam aos meus olhos gentilmente
    Com um motivo evidente
    E começam a transbordar
    Lentamente as gotas de agonia vão caindo ao chão
    Que ecoam em fusão
    Com o badalar do relógio
    Sinto uma flecha atravessar meu coração
    Minha boca agora tem gosto sangue
    Minhas mãos tentam estacar o lugar da dor
    Perco as forças e caio ao chão
    Forço um sorriso tentando enganar que está tudo bem
    Mas não engano a ninguém
    Por favor não se aproxime
    Você não vê o que no meu interior exprime
    Eu não posso suportar
    Sinto, mas não quero aguentar
    Não se aproxime...
    Deixe que a dor me ensine
    A suportar o preço da minha escolha
    Não precisa se preocupar
    Eu vou ir no seu lugar
    Vai ficar melhor quando isso acabar
    Não quero vê-lo chorar
    De mim você nunca ira se esquecer
    Vou me arrastar pela penumbra rua
    Para que não me vejas morrer.
  • Sedativos

    Liquido que deveria ser da paz em casa, sem mentiras. Ninguém quer usar mascara, mas coloca no rosto limpo uma cheia de sangue. Os cortes são internos, o organismo pede socorro enchengo bola para dentro. Por que coloca coleira? Por que coloca em gaiolas onde o alpiste vem com sedativos?  Por que os pés estão com correntes com bolas de ferros? Por que engolir a chave da compaixão?

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