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  • Morte de Mãe

    A cena ainda se faz bem nítida. Tarde de sol forte. O menino estava do lado de fora, quase que escondido atrás do muro da varanda. Dentro de casa, a mãe desabafava aos prantos: “colocarei fim a este sofrimento”. A depressão não era algo recente. Contava que no dia do casamento esteve prestes a pular de uma pedra e que só não o fizera pois fora avistada por um tio que por ali passava. O tal mal aparecia e sumia de tempos em tempos. Mas dessa vez era diferente. Não passava. O garoto não entendia. Chorava no banho. “Morrer é uma decisão? ”. Tentava imaginar como seria viver sem a mãe. Algumas cenas presenciadas só fizeram sentido muitos anos depois: o pai contando e escondendo os comprimidos, o irmão mais velho chorando depois de flagrar a mãe tentando amarrar um cinto no telhado... Meses de tratamento e nada parecia fazer efeito. A decisão estava tomada. Tirar a vida era a única solução. E não faltaram tentativas. O menino à vira pela última vez num domingo pela manhã. Após o almoço, um pedido ao pai para brincar na casa do vizinho. O pai relutou. A mãe interveio: “deixa eles irem”. A última cena, ela sentada no sofá da sala se eternizaria na memória. Tudo estava planejado. Um minuto de descuido. Aproveitando não ter ninguém por perto, saíra pela porta da sala, caminhou até o final da rua e adentrou uma lavoura de café. Em questão de minutos, o bairro todo estava a sua procura. O menino não tardou ficar sabendo do sumiço da mãe. Embrenhou-se na lavoura junto com o pai que lhe pedia para gritar pela mãe. Gritava com força e medo. Ajoelhou-se, pediu a Deus que ajudasse. Nada adiantou. A noite chegou. Os parentes vinham de longe. O clima era de morte. A noite foi demorada. Um tipo de velório sem féretro, sem corpo. Era impronunciável, mas no fundo, todos pareciam saber o que o dia seguinte entregaria. Por volta das 9h um vizinho se aproxima assustado. Trazia notícias. Havia encontrado a mulher: “infelizmente está morta”. Cessava-se a dor do sumiço. Iniciava-se a dor da perda, da morte. Ela apoderara-se de uma faca de pão, adentrou a lavoura, chegou até uma mata, cortou um cipó e antes de consumar escreveu um adeus com as iniciais dos filhos no tronco de uma árvore. O atestado confirmara: “asfixia mecânica por enforcamento”. Encerrou-se ali uma breve vida. Os motivos até hoje são desconhecidos. A imagem da mãe morta num caixão na sala perturbou o menino por muito tempo. Era difícil olhar para aquele canto da casa sem reviver a cena. Os pesadelos foram uma constante. O péssimo trabalho feito pela funerária contribuiu para fixar na memória uma imagem nada agradável da mãe: machucados visíveis, a cola nos olhos, uma fita adesiva fechava a boca... na mão esquerda, cheia de arranhões, a aliança de casamento, afinal tinha sido um pedido seu. Num gesto triste, o menino alcançou uma rosa que havia dado de presente no dia das mães e um terço que ela sempre carregava e colocou entre suas mãos. O caixão foi lacrado. Uma rápida passagem pela igreja. O padre da paróquia se negou a fazer uma celebração de corpo presente. Enterro feito. Ficara o vazio na casa, na alma. Na cabeça do menino, várias lacunas ficaram e só foram preenchidas anos depois... ou não.
  • MYSTICA STATERA por Lux Burnns O tomo para iniciantes

    Sumário
     Agradecimentos..........................3
     Introdução......4
     Capítulo 1- O nascer e o torna-se.....5
     Capítulo 2-Realizando a magia.......12
     Capítulo 3- A magia é vida, mas não é um ser 
    vivo....20
     Capítulo 4- O mundo sem o véu..........26
     Capítulo 5- O fanatismo, o grande o veneno mágicko......33
     Capítulo 6 - A verdade liberta, mas é dolorosa....39
     Capítulo 7 - DIY mágicko.............47
     Capítulo 8 - A bruxa que vive entre os santos e os pecadores............ 54
     Capítulo 9 – Os Deuses, e o Fim da farsa da Realidade Dualística...... 59

    Agradecimentos
    Minha gratidão é voltada para o meu companheiro Soul, que me apoiou desde o início desta caminhada, me ajudando a melhorar ainda mais como ocultista, e jamais desistir das minhas convicções, mesmo quando o mundo inteiro, parecia discordar das mesmas. Também deixo minhas graças aos meus amigos: Lua Negra, Srtoa Gamab, Milliato, Rivendell, Srta Rabbith, Mandy, Tha, a Witch born on fire, e Isa, que me ajudaram a perceber quê este tomo poderia ser útil as próximas gerações. Por fim reconheço também o auxílio de minha mãe Silvana, que apesar dos pequenos atritos pelas crenças diferentes, sempre acreditou em mim e nos meus ideais. Obrigado a todos vocês, que me deram ânimo para chegar até aqui, e terminar este projeto. Não sei o quê me aguarda depois disso, mas certamente é um feito e tanto, e me orgulho por plantar esta semente, que vocês com carinho e paciência regaram.

    Introdução 
    É válido mencionar, que jamais tive a intenção de escrever um livro voltado para o aprendizado dos demais. Afinal há muitos autores, infinitamente melhores do quê uma velha bruxa, em um corpo não tão jovem. 
    Mas devido ao grande número de desinformados, que se acham conhecedores do mistério, e tudo o quê mesmo representa, vejo que é hora de assumir o meu manto de ocultista outra vez, e trazer-lhes algumas verdades nada convenientes. 
    Não estou aqui para lhes ensinar fórmulas, que vão mudar as suas vidas num estalar de dedos. Muito menos sobre como devem adorar seus deuses, ou o quê é o certo e o errado. Não sou uma bússola moral para tomar tal partido, apenas viajo de mundo em mundo, para libertar aqueles que aceitam o preço da liberdade. A ignorância pode ser uma benção, mas é a coragem que determina quem tem a chave do tudo. O inimigo é astuto, logo devemos ser justos, mas isto não significa dissociar, e se abster, e sim que devemos está preparados. Você pode não compreender estas palavras no momento, mas logo entenderá o quê cada frase significa.
     Se escolheu decifrar este livro, é porquê ouviu o chamado, mas não estou falando dos filhos do sol, e sim de algo mais amplo e intrigante.
    Há memórias de um mundo que querem te fazer acreditar que não existe. Há poderes que um ou nenhum dos seus parentes consegue explicar. Há mistérios em teu íntimo, que quer desvendar.
    As respostas estão presentes aqui, mas está pronto para ouvir o quê a primeira causa tem a dizer? Não será um caminho fácil, por isso é necessário que esteja pronto para esta jornada, que saiba no mínimo o quê é a espada e o escudo, e como usá-los. Do contrário será devorado pelos teus demônios, antes mesmo de ouvir a palavra da força geradora.
    Eu sei, parece o roteiro de algum filme de ficção científica bizarro, porém tudo o quê for mencionado aqui, será focado na minha experiência real como bruxa, e no aprendizado que isto me trouxe no decorrer do tempo. Está preparado? Então vire a página, pois a aventura o aguarda jovem peregrino.
    Capítulo 1
    O Nascer e o Tornar-se 
    Vivemos numa sociedade cheia de liberdade, que acredita bastante no ideal de igualdade, e que todos podem entrar no mundo da magia, sem discriminações de espécie. 
    Não estou aqui para me impor sobre tal coisa, porém acredito -e é o quê devia ser ensinado- que há aqueles que nascem com a predisposição para a magia, e os que infelizmente, não foram agraciados pelas divindades.
    Isso faz com que estes sejam mais fracos? Não. Eles devem ser escorraçados, e friamente criticados ? Também não. Apenas devem ter consciência de quê a sua busca, certamente será mais trabalhosa e longa – ou não se souber usar os meios certos, mas não vem ao caso – Por isso jamais devem se comparar aos que possuem habilidades naturais, pois tal atitude culmina em desencontro com o propósito inicial, de descobrir-se neste caminho.
    Não pense em nenhum momento, que o fato de ser somente humano te faz inferior, isso não significa muita coisa, quando você sabe que há meios de melhorar as suas habilidades.
    Já os predispostos, deveriam entender que o fato de terem recebido dons da natureza, não os faz automaticamente deuses, apenas lhes dá alguma vantagem em relação aos outros. Mas uma vantagem, não significa uma vitória garantida, portanto devem estudar e se preparar, tanto quanto os que não foram agraciados, para superar suas limitações, que sim existem.
    Não importa o quê são capazes de fazer - se levitam, se incendeiam, se preveem, manifestam, projetam, e tudo mais-  isto não os faz bruxos, apenas são detentores de habilidades especiais. Tanto o filho de um deus, quanto o filho do homem, precisam de treinamento, e conhecimento, para poder serem dignos de tal alcunha.
    É nos ensinado desde o começo, que precisamos andar em grupos, para poder obter o grau de bruxo, mago, ou feiticeiro. A sociedade mágica insiste em seguir essa premissa, mesmo nos tempos atuais, e isso atrasa bastante a vida de um novato.
    Grupos, como: Ordens e Covens, Podem até servir para ajudar no entendimento de certos assuntos, mas a realidade é que se queres realmente o poder, não deve seguir com ninguém mais, além de ti mesmo.
    Afinal de contas, o ocultismo no fim é apenas uma forma de encontrar-se, e não é no meio da multidão, com suas ideias diversificadas, que conseguirá te achar, no máximo ficará ainda mais confuso e perdido.
    Você se encontrará apenas quando não houver ninguém por perto, quando estiver sozinho num quarto escuro ou claro, questionando-se sobre o quê é, como, e o porquê das coisas.
    Por isso não acredite em líderes, que fazem questão de impor que precisa deles, acredite em ti mesmo, e naquilo que vai de acordo com a tua personalidade, e o quê tu consideras certo ou errado.
    E este tópico nos leva a outra questão. A magia tem se tornado um grande alvo do entretenimento. Para onde olhar  há “bruxos” ou “seres místicos”. O quê é uma coisa boa, mas somente para a diversão, pois tudo o quê se encontra nos filmes, seriados, desenhos e afins, são apenas fragmentos de textos ocultistas, e qualquer um de bom senso sabe, que não dá para entender o texto com apenas um verso, pois o mesmo pode servir para expressar diversas possibilidades, e se apenas escolher ler tal parte, jamais entenderá o contexto para que foi criado, por isso não use tais meios para aprender sobre o caminho. 
    A verdadeira magia, influencia o ambiente, mas o ambiente não influencia a magia. Logo uma obra midiática pode ser inspirada em algo oculto, só o quê o oculto, não pode advim de uma obra midiática, do contrário todo o entendimento se perde, e em vez de formar a sua inteligência divina, apenas a degrada e a transforma em loucura vã.
    Um bruxo de verdade- homem ou ser mágico- Sabe disto por instinto próprio. Entretanto com tantos jovens adotando posturas erradas, por conta do quê assistiram, é sempre bom frisar tal fato.
    Como disse antes são verdades inconvenientes, por isso não espere que eu vá apoiar uma conduta tão inapropriada para o ocultista.
    Queres ser um bruxo? Então leia, pesquise, estude, questione-se, e faça-se um. 
    Não espere que apenas porquê mudou o caminho, e deixou de seguir com as ovelhas, tudo será mais fácil. Verdade seja dita, se quer conforto, e evitar desafios que podem te fazer desmoronar, seu lugar não é aqui. Não importa se tem o sangue, sem essência jamais conseguirá sair do lugar.
    A magia não é um caminho simples, nunca foi. Apenas os que se encantam por sua versão comercializada de luzes e pó brilhante, acreditam nesta falácia.
    O agraciado deve aprender a controlar seus dons, para não ferir os que não merecem receber tal castigo, e o humano deve procurar meios, de melhorar seu espírito, ou DNA cósmico, para garantir que conseguirá manifestar alguma habilidade.
    Só que ambos precisam passar pelo mesmo processo árduo e cansativo. O agraciado, que nasceu com poderes sobrenaturais, precisa torna-se aquele que tem controle de si, e o humano que tem o controle da sua mente, precisa destruir todas as barreiras impostas, para então nascer como um ser sobrenatural.
    Ambos são como a metade um do outro, mas precisam focar em suas limitações, pois o primeiro poderá sofrer consequências desagradáveis, e o segundo precisa achar meios, de fazer-se tão forte quanto o outro, mas no fim os dois se encontram no mesmo patamar, por isso seus caminhos, ou o quê são , não interessa.
    É dito que para ser um bruxo, é necessário uma iniciação, canalizada por sacerdotes e sacerdotisas, que receberam o chamado dos deuses, e toda aquela parafernália, que estamos cansados de ouvir.
    A iniciação é um processo necessário sim, mas não precisa vim das mãos de alguém que diz ter sido “tocado” pelos deuses. 
    Haverão aqueles que certamente discordarão de mim, pois são tão tradicionalistas quanto os cristãos ortodoxos, contudo esta é uma verdade inegável.
    Não estou dando pontos a favor de rituais de meia tigela, encontrados na vasta rede, que fique claro. Apenas acho justo mencionar, que tais postos – sacerdotes- não torna os homens e as mulheres detentores da verdade, pois para aqueles que podem ver, a mesma   é revelada dia após dia, fora dos templos “sagrados”. 
    Aliás creio que o grande segredo, é apenas um pedaço de papel vazio, que nada diz, pois o axioma está no vento, na água, na terra e no fogo, não nas palavras ditas por um mestre.
    Você é o quê acredita ser, não o quê os outros impõem sobre ti.
    A iniciação nada mais é que um processo psicológico, no qual você condiciona o teu cérebro, para se abrir a possibilidades, que por anos foram lhes ensinadas como impossíveis.
    É importante pois o poder, embora se manifeste em nossos genes, vem da mente. 
    É um fato científico, pois por mais que muitos duvidem, a magia é sim ciência, pois pode ser estudada, verificada e comprovada.
    Os neurônios são responsáveis por tudo o quê fazemos, seja bom ou ruim. Assim se você acredita firmemente, que ao chegar do outro lado de uma rua, vai acabar caindo, esses impulsos químicos captam a mensagem, e fazem com quê sofra o acidente, porquê os manipulou para isso.
    Este é um caso simples, mas há situações ainda mais “inexplicáveis”, nas quais as pessoas sofrem de males mentais, que podem provocar sintomas físicos, mesmo que não haja aparentemente nada para causar dor, são as chamadas doenças psicossomáticas.
    É por isso que um bom bruxo, precisa ter um ótimo preparo mental, ou a sua magia não obterá resultados.
    Não adianta nada você nascer com a predisposição, ou procurar pela essência sem acreditar nelas, pois em ambos os casos, não conseguirá despertar suas verdadeiras habilidades.
    Já viu que pode levitar, ou incendiar as coisas por exemplo, só que na hora de provar os teus poderes, há um bloqueio.
    Sozinho chega ao teto, queima a toalha da mesa. No entanto na presença de amigos, é visto como louco, pois seus pés não saem do chão, ou acreditam que usou o isqueiro, para forjar provas.
    Isso te faz achar que enlouqueceu, que os outros estão certos, e que é melhor evitar as suas “habilidades imaginárias”. Não é?
    Esse certamente é o caminho mais fácil, mas como disse antes o caminho é difícil, não adianta fugir no primeiro obstáculo.
    Esta é apenas a prova, de quê precisa tornar-se aquele que controla a si mesmo, para poder provar aos outros, do quê realmente é capaz.
    É a evidência de quê a predisposição, não é o suficiente, se em nada acredita – Principalmente se duvida de si.
    Já no caso dos humanos, a situação é um pouco diferente, pois este ainda não manifesta nada, mas precisa se desamarrar das correntes de concreto da sociedade, na qual foi inserido.
    De outra maneira, achará apenas os que lhe oferecem um lugar, servindo aos deuses, mas jamais um acento do lado dos mesmos.
    O ser humano, está acostumado a ter tudo nas mãos, e a seguir sempre aquilo que o torna o maior dos maiores, e é isso que tem que acabar.
    Há uma hierarquia no mundo mágicko, que deve ser respeitada. Só que o fato de hoje ser apenas homem, não implica que amanhã também será, então é preciso que aprenda a aceitar as suas limitações, e a conhecer melhor as possibilidades.
    Seu mundo é pessimista demais, ou exacerbadamente otimista, você não tem equilíbrio, vive mergulhado em caos, engolindo os ideais daqueles que supostamente estão acima de ti, sem nunca levantar a voz.
    É preciso que entenda que você tem sim voz, que o quê sente importa, que há muito mais do quê somente um planeta abrigando a vida, e -comprovado por Galileu Galilei- A Terra não é o centro do Universo.
    Desse modo, quase tudo o quê lhe ensinaram até o momento, pode ser mentira, ou uma verdade mergulhada em mentiras, ou seja há fatos que são claramente falsos, e outros embora pareçam como tais, são verdadeiros.
    É preciso que entendam suas limitações, ou a magia nunca funcionará.
    A iniciação além de expandir a sua mente e elevá-la, é também o  desenvolvimento de uma conexão mental do seu eu e o cosmos, e por isso deve ser considerada “sagrada.” 
    Assim sendo quando for realizá-la, não vá procurar por “receitas de bolo” prontas, como se houvesse alguma nova bruxa, que fosse a Ana Maria Braga da Magia, pois não há - se houvesse todos teriam poderes e entendimento, e não é o que acontece.
    Somos todos mestres e aprendizes de nós mesmos, mas devemos sempre procurar sermos a melhor versão. - É importante frisar, porquê se tu é o teu mestre, logo irá crer que pode fazer o quê quiser, como se ser um mestre, significasse que é Deus, e pode mandar e desmandar. Mas não é bem assim.
    Ser o teu próprio mestre, significa melhorar-se nos aspectos necessários. Crescer, e desenvolver-se, para alcançar os teus objetivos, não interessa se são bons ou ruins, pois bem e mal é relativo -O quê é bom para mim, pode não servir para ti.
    A iniciação, mesmo que realizada por tuas mãos, ainda é um ritual, e por isso dependendo do Deus que escolher seguir, deve respeitá-la como tal.
    Se queres obter sucesso e expandir teus pensamentos, é preciso que ouça a tua voz interior. Mas esta voz não nasce do nada, ela não é uma ideia absurda que lhe vem ao pensamento, e tu executas, isso se chama criatividade, não o chamado interno.
    Para realizar uma iniciação de sucesso, é necessário, que conheça os cultos anteriores dedicados ao Deus com o qual escolheu aprender. É uma forma de honrá-lo, e a ti mesmo também, para quê não passe vergonha entre os outros ocultistas, e consiga calar a boca dos iniciados.
    Eu escolhi aprender com Satã, logo me utilizei de velas negras,  símbolos profanos, e materiais de corte, para realizar a minha auto-iniciação.
    Sou uma predisposta, nasci numa família, que embora hoje sirva a Yaweh sob a luz, um dia serviram ao seu lado negro, conhecido como Adonai.
    Por isso consegui aprender muita coisa, sem a interferência de mestres e iniciados. Já tive a oportunidade de andar com grupos. Mas os “mestres” que apareceram em meu caminho, mais me atrasavam, do quê me ajudavam a entender a minha verdade.
    Entendo muitos conceitos místicos, por intermédio dos deuses do abismo. Eles me ensinaram a ser mais forte, e me indicaram o quê procurar, para achar as respostas, por isso sou muito grata a eles, e defendo minha versão da veras mística. (Ou verdade mística)
    É significativo mencionar que os deuses, embora nos guiem pelo caminho, eles jamais podem andar por nós, sendo assim não espere que o Deus escolhido, te entregue todo o material, que precisa para alcançar o teu objetivo, eles te darão a chave, mas a porta quem procura é você.
    Outra coisa, se teus caminhos se abrem com facilidade, há apenas duas explicações: O teu papel é pequeno, logo suas limitações são fáceis de superar, ou já sofreu o suficiente, para entender como alcançar aquilo que mais deseja.
    Após passar pela iniciação, e receber sinais – isso mesmo sinais, e não sinal- de quê o Deus escolhido te acolheu entre os seus, você agora vai definir como deve estudar, e mensurar o teu aprendizado, por isso precisará de um caderno, e uma caneta, para registrar, cada coisa incomum que te ocorreu, com data, hora, condições mentais, respostas plausíveis, e tudo o quê for necessário, para provar que teu relato é verídico.
    Se é um predisposto, poderá medir a melhora do controle de teus dons, se é o primeiro da tua linhagem, poderá transmitir isso para o próximo que colocar o manto, que certamente vai aparecer, podendo ser um filho seu, ou algum outro parente.
    Coisas incomuns vão acontecer, é inevitável, faz parte da jornada. Como lidarão com elas, é que vai definir se são ou não bruxos, magos, ou feiticeiros de verdade.
    Ou acreditaram mesmo que bastava um ritual, para se tornarem algo?
    Não, não é tão simples. Se fosse, se chamaria cristianismo, e não paganismo.


    Capitulo 2 – Realizando a magia

    Poderia encher as páginas com vários sistemas mágickos, como: Herméticos,  Satânicos, Caoístas, Streghes, Célticos, Gregos, Egípcios etc. Alguns conheço a fundo, outros apenas de maneira superficial, mas não o farei. 

    Se queres conhecer cada um deles, sugiro que faça uma pesquisa, extensa e detalhada, para entender o conceito apresentado, por estas filosofias de maneira profunda.

    Como disse antes não estou aqui para ensiná-los, como adorar os seus deuses, até porquê o ato de “adoração”, é algo que me dá nó estômago, mas vai de cada um.

    Então você escolhe com o quê quer trabalhar, minha função é apenas te ensinar, a realizar o ato mágicko. (Note que há um k extra, é proposital, para separar magia de ilusionismo, e foi proposto por um famoso ocultista.) 

    Primeiramente lembre-se sempre: O poder vem da mente, e com a linguagem certa pode programá-la. Sendo assim os resultados mágickos (como respostas, questões, ou atos) são genuínos, mas o processo para se realizar o ato, pode ser provocado pela mídia. 

    Não estou me contradizendo, a magia sempre influencia, mas a mídia não deve fazê-lo, pois faz do entendedor um tolo. No entanto, se souber usá-la, pode ser bastante benéfica, na hora de preparar a sua mente, para desbravar a Terra Oculta e suas maravilhas.

    Você Não deve aceitar a verdade escrita no roteiro, pois é uma meia verdade, e toda meia verdade é uma mentira.

    Todavia se for esperto o suficiente, fará bom uso de tais artifícios, e em vez de acabar mergulhado nas trevas da insanidade, será um exímio ocultista.

    O tolo irá ouvir a música milhares de vezes, e se deixará ser controlado por ela, tornando-se mais dos zumbis da cultura popular. O astuto utilizará a mesma música, para domar a si mesmo, pois tem conhecimento dos seus efeitos e que a própria serve para controlar a mente, por isso sabe como programar a canção, para atingir o seu objetivo.

    O ingênuo assistirá um filme, e criará diversas histórias em sua mente, acreditando que aquela é a sua realidade, sem de fato ser. O desperto verá na mesma obra, aspectos que condizem com a sua jornada, e os quê também contradizem seu aprendizado. – A magia estará presente ali mas o verdadeiro ocultista, saberá sobre o quê se trata o seu contexto.

    O hipócrita utilizará lendas urbanas, para validar as suas experiências “mágicas”, e recuará quando for abordado. O consciencioso saberá que a verdade sobre as lendas urbanas, é tão pequena que passa despercebida, por isso fará o possível para detalhar o seu relato, de maneira que coincida com o quê tal criatura realmente é, pois tem o entendimento de quê lendas nascem da má interpretação dos povos sobre determinados seres. Lobisomens por exemplo podem ser criaturas provindas de Sirius B, Vampiros podem ser membros da constelação de Alfa Draconis, e por aí vai.

    A voz do coletivo precisa ser ignorada, até que se faça necessário ouvi-la, ou seja o conhecimento empírico tem de ser esquecido, até que haja uma explicação científica para o mesmo, ou uma forma de validá-lo de maneira, que não seja uma experiência pessoal.

    Encontrar-se a si mesmo é importante, contudo depois de achar-se, deve focar-se em descobrir se realmente é o quê acredita ser, pois é a mente é uma caixinha de surpresas.

    No mundo em que vivemos, o ceticismo doentio é louvado, por isso devemos dançar de acordo com a música, para poder criarmos nossos passos. Isto é necessitamos abraçar o conhecimento concreto, antes de realizar a magia. Porquê embora o espírito preceda ao corpo, a mente funciona como nossa alma, e quando a mesma é atingida, nossos resultados mágickos podem falhar.

    Não adianta tentar empregar a magia pela magia, numa sociedade que te obriga a ter respostas para tudo. 

    Foi-se o tempo que não havia explicações para os fatos naturais, e bastava curva-se para os deuses para conseguir as suas graças.

    Não é mais a Era de Ouro, os Deuses não estão mais entre nós, eles abandonaram este planeta há muitos anos, e até os seus filhos estão por conta, por isso conectar-se com os mesmos não é tão simples.

    É imprescindível que o predisposto tenha consciência disto, pois muitos filhos dos deuses, acreditam do fundo de seus corações, que nossos pais cuidam de nós, por 24 horas, como se fossem como os humanos que nos acolheram em suas casas, mas a realidade é outra.

    É, eu lamento, lamento de verdade. Mas os deuses tem seus próprios afazeres, e embora nos visitem algumas vezes, deixando rastros incontestáveis de sua presença, eles não ficam ao nosso lado todo o tempo.

    Novamente estou ciente de quê muitos tentarão me “apedrejar” por isso. Só que como disse antes, as verdades são inconvenientes, e trago a liberdade para os que aceitam o seu preço, e neste caso o preço é abandonar a carência de seus coraçõezinhos, e aceitar que o pai, a mãe, ou ambos nem sempre podem ficar presentes.

    Se vocês os veem, ou os ouvem constantemente, é porquê ainda estão acordando, e as memórias da vida passada, estão se manifestando, de acordo com a forma com a qual eles se comportavam com vocês, no outro mundo.

    Eles nunca aparecem por nada, sempre há uma motivação para realmente virem ao nosso encontro, e quando vem, fazem com que saibamos que estiveram conosco.

    Lúcifer e Lilith são meus pais, sou a primeira de sua linhagem, e isso pode ser confirmado no meu site antigo, que disponibilizarei no fim deste livro. Por quê digo isto? Bem uma famosa série, retratou tal fato recentemente, só que antes do mesmo acontecer, já havia escrito no meu site, que esta primeira era eu. Então pode ir conferir na prática, que o oculto influencia mídia mas a mídia não interfere no aprendizado místico.

    Quando Lúcifer me visita, sempre há todo um contexto por trás disto, ou é para me dá um alerta, como em 2013 quando me mostrou que Belzebu é um traidor, que quer o seu trono. Para me proteger de alguma criatura nociva, que tentou me destruir, enquanto caminhava pelo mundo inferior. Ou me convocar para alguma reunião importante. - Eu sei parece cômico, mas já fui chamada uma vez, para ir com o mesmo no conselho celestial.

    Como sei que de fato era ele? Eu jamais tinha visto Belzebu como um traidor. Mas após este sonho e outros nos quais fui perseguida pelo Senhor das Moscas,  fiz uma extensa pesquisa, e encontrei relatos de pequenos ocultistas, que defendiam a mesma teoria. Alguns que falavam que Belzebu se opõe a rebelião de Satanás, outros que ele era como um exorcista, mencionado na bíblia.  Mas pareciam tão dissociados da realidade, que me desanimei e aleguei insanidade.

    Contudo algo em meu interior, me levou a pesquisar ainda mais, e acabei encontrando um belo artigo dedicado ao mesmo, no site da Penumbra Livros, onde faço grande parte dos meus estudos esotéricos atualmente, devido a enorme fonte de conteúdo gratuito disponível ali.

    De fato não só Belzebu era traidor, como já tinha conquistado o trono do Inferno uma vez, fazendo com quê 49 dos 72 demônios que caminhavam com Lúcifer o servissem, e isto já tinha até se tornado o roteiro de uma revista em quadrinhos da Vertigo inclusive.

    Até aquele momento eu nada sabia, mas Lúcifer veio e me mostrou um fato, que não era uma fantasia, e podia ser comprovado.

    Além disso no dia do dito sonho, ocorreu um evento quase cataclísmico em minha cidade, ligado ao vento, que é um dos elementos que o representa, e minha mãe literalmente viu um anjo dentro do nosso lar, muito bonito segundo a mesma.

    Já na outra vez, foi como se ele enviasse uma mensagem através de uma médium, na qual me mandou tomar cuidado, pois coisas terríveis iriam acontecer em breve. 

    É claro que duvidei, para mim a possessão, é apenas um processo psicológico, no qual o “possuído”, na verdade é um predisposto, que desconhece seus dons, e acaba manifestando habilidades sobre-humanas, que fazem com os quê os padres interpretem de maneira errônea, e na época, achava que se tratava de uma insanidade maior que a minha, só que ainda sim, é no mínimo suspeito tudo o quê aconteceu depois.

    Minha casa foi saqueada, e levaram todo o meu material de registro de eventos sobrenaturais, os homens reviraram o meu quarto todo, e deixaram o da minha mãe arrumado. Procuraram pelo notebook, onde tinha fotos, teorias, e vídeos, sobre a minha caminhada oculta, levaram a minha câmera, e até o quê eu usava para me distrair do mundo, o meu playstation 2, que já não valia muita coisa na época, e acreditei ser o disfarce perfeito, para o quê realmente fizeram.

    Foi como se declarassem guerra a mim, e a minha sanidade, pois eu analisei os fatos, bati cabeça dando explicações para mim mesma, e a verdade é que até hoje não consigo ver como um mero assalto, pois o mesmo começou, segundo a perícia no momento do incêndio da rua debaixo, que havia começado por causas naturais, e não por intervenção humana.

    Isso não foi a única coisa, naquele ano e até o inicio do outro fiquei muitas vezes a beira da morte. Escapando de acidentes por muito pouco, ou sobrevivendo as tentativas de suicídio, mesmo sem querer continuar de pé, porquê não suportava mais o fardo de ser filha de Lúcifer e Lilith. – Ou achou que somente o não agraciado sofreria? 

    Não foi fácil, e depois que tudo o quê era meu foi levado, fiquei isolada do mundo, e saiu a notícia de quê as contas estavam sendo vigiadas pelos americanos, e como se isto não bastasse, a minha página com apenas 150 curtidas, tinha sido apagada da rede, como se o link estivesse quebrado. O quê convenhamos, é no mínimo suspeito.

    Mas Lúcifer havia me avisado, e eu não dei ouvidos.

    Já Lilith sempre foi mais sutil, aparecia em corpos bonitos, e transmitia mensagens de importância sentimental, que me impediriam de me meter em furadas - Entretanto eu não ouvia, e por isso me machucava sem necessidade.

    No meu primeiro contato com a mesma, esta me revelou que o meu namorado na época, não era digno, nem me pertencia, e que era um erro tomar posse do mesmo, pois este era infantil e malévolo, e não era o quê tinha escolhido para mim.

    Duvidei de imediato, pois a moça que me disse, parecia ter sentimentos pelo rapaz. Só que anos mais tarde, vim saber que as suas predições estavam corretas, e que o cara era realmente um traste.

    Não haviam sinais plausíveis, que nos ligassem de fato, somente aqueles que vinham da sua capacidade de me estudar, para saber o quê eu queria - como um sociopata adolescente - e que o fato de me juntar a ele, não trouxe nada mais que:  Desentendimento, culpa, tristeza, e desespero. Como se o mesmo tivesse sido colocado na minha frente, somente para atrasar a minha descoberta, sobre quem e o quê de fato era, pois tal informação certamente tinha grande valia, e lá na frente falarei sobre isto.

    Por estas e outras que digo, eles só vão se manifestar em casos de extrema importância, por isso não espere que apareçam apenas por quê é a tua vontade.

    É preciso entender que a linha da realidade e a ficção por vezes se cruzam, mas a ficção é apenas uma expressão exagerada da realidade. Se não compreender isso, certamente não vai suportar os desafios, e acabará por enlouquecer. – Foi o quê quase aconteceu comigo, depois de 6 anos no caminho.

    Por isso use os artifícios midiáticos apenas para controlar a ti mesmo, para atingir o teu objetivo, ou por diversão. Mas jamais faça uso dos mesmos, para o teu aprendizado. Eu sei deve ser a 3° ou a 4° vez que repito, mas é para que entre em suas cabeças.

    O preparo mental é o primeiro e mais importante nível, porquê é através deste que vai destravar todo o teu potencial oculto, e trazê-lo para a luz.

    Por isso é necessário cuidar da tua mente, como se fosse o teu corpo, absorvendo somente aquilo que é capaz de suportar, e que favoreça o teu entendimento, ou a realização do teu propósito.

    Dias antes de fazer o ritual, faça uma boa playlist de músicas, que te ajudem a se sentir mais forte e capaz, de filmes que te façam crer no mundo oculto, de games e quadrinhos que seguem o mesmo roteiro, e quebram o padrão do impossível, tornando-o possível.

    Pois assim é criada a atmosfera mística mental, e isto te ajuda a ficar pronto para realizar o teu ato místico.

    Feito isto, agora é hora de seguir para o segundo nível.

    A atmosfera mental já foi desenvolvida, você se sente pronto para fazer o seu primeiro ritual, e não há nada que te faça duvidar de suas capacidades.

    Então agora deve expressar isso de maneira física, desenhando símbolos em teu altar, utilizando as velas certas, o incenso necessário, e o ambiente favorável ao teu rito.

    Por isso precisará conhecer cada símbolo que for utilizar em teu ritual, do contrário pode acabar libertando uma coisa, que deveria ficar no outro mundo- Falo por experiência, passei 9 anos sob a influência de Carreau, por ter o libertado em um dos meus rituais, e só há pouco tempo me livrei do mesmo. Então tome muito cuidado, com os símbolos que vai utilizar, pois cada um tem significado específico, e não é o teu desejo de alterá-lo, que vai promover a mudança de uma egrégora que está presente neste planeta há anos.

    Feito isto, agora é colocar em prática o teu aprendizado, então vá adiante.

    Já estudou, já conheceu os símbolos, e leu tudo a respeito dos cultos dedicados ao deus que tu escolhestes, então porquê não se arriscar com um rito próprio? 

    Você já aprendeu a respeito do ser escolhido, sabe o quê pode, ou não fazer, o quê o honra ou desonra, então dê asas a tua imaginação, pois uma imaginação sem recursos é criatividade, mas quando a mente foi preenchida com conteúdo, a imaginação pode abrir as portas, para quê consiga ouvir a tua voz interna. Quer dizer que se você apenas fizer um ritual, seguindo a tua imaginação por nada, pode falhar e cometer erros graves, mas se souber moldá-la, pode servir de ponte entre você e o deus que te aceitou entre os seus.

    Os predispostos precisam está preparados, pois quando a sua voz interna surgir, vários fatos intrigantes vão acontecer, inclusive coisas de origem sobrenatural, que parecem obra de um poltergeist, mas provavelmente virão deles mesmos. 

    A forma de saber se vem de si mesmo, é medindo sua temperatura corporal, pois o excesso de energia, fará com quê a mesma suba bastante, independente do seu elemento, mesmo os que tem afinidade com o gelo, poderão sentir a sensação de calor intenso.

    Ou tentando mensurar o seu comportamento psicológico, pois se estiver sob o estado de muita adrenalina, também poderá acabar por influenciar o ambiente com a tua força oculta.

    Já os humanos não precisam se preocupar, também podem empregar a sua energia oculta num ato mágico, sem ter alcançado o poder divino. É claro que no caso dos mesmos, coisas sobrenaturais serão raras, e provavelmente se acontecer, dificilmente virão dos mesmos. Contudo isso não significa que não há nada que possam fazer.

    O poder dos homens está em sua mente, um pouco mais que no caso dos predispostos, e os humanos podem usar a sua força, para realizar sonhos típicos da espécie, como: Ganhar muito dinheiro, um bom emprego, atrair o amor de suas vidas, melhorar a aparência etc.

    Não será algo instantâneo pois são limitados, por serem a imagem de seu Deus Jeová, mas mesmo assim, com o método certo, e os 2 níveis mental e físico, eles certamente atingirão as suas metas.

    Pois há uma energia oculta poderosa, que está disponível para todos, inclusive os humanos, e é através desta que podem inclusive, abandonar a condição de homens, para se tornar algo mais próximo dos predispostos, ou ainda mais poderosos que alguns.

    Capitulo 3- A Magia é vida, mas não é um ser vivo.

    A magia não é feminina, nem masculina, ela está acima de teorias tão mundanas.

    Atualmente vemos constantemente que a magia é algo especificamente feminino, que a mulher é detentora de uma enorme energia oculta, porquê somente a mesma é capaz de produzir a vida, e todo aquele blá, blá, blá feminista, do qual até mesmo Lilith já está por aqui.

    Ou pior ainda que o homem, por conta de seu intelecto voltado para o modelo mais racional da realidade, é naturalmente aquele que manifesta as forças de um verdadeiro deus, ou outras besteiras machistas que nos fazem entender, porquê o feminismo existe para se opor a tal pensamento.

    Nem o homem ou a mulher são os provedores de tal energia. Não separados pelo menos. Pois a mulher embora tenha o ambiente perfeito para gerar a vida, não pode fazê-lo sem a semente que existe dentro do homem.

    É totalmente desnecessário provar a sua superioridade através do seu sexo. Isto não é coisa de um bruxo real, mas sim de alguém que tem sérios problemas consigo, e precisa validar-se pelo quê tem no meio das pernas.

    No caso das mulheres, é como adotar uma postura semelhante ao machismo, que supostamente desprezam. No caso dos homens é apenas seguir sendo como os outros, quando, como ocultista , deveria ser melhor que os demais.

    Baphomet representa a união do feminino e masculino, e é uma das figuras mais poderosas do ocultismo, pois não expressa apenas a dualidade, mas a totalidade, que é o uno. A união  do céu e o inferno, do sagrado e o profano, e provavelmente é a imagem perfeita, de como a primeira causa seria, se a mesma se manifestasse em forma física, portanto aprenda a lição mostrada por esta imagem.

    A Magia não tem Religião.

    Muitos defendem abertamente que bruxaria cristã não existe, porquê a igreja perseguiu inúmeros bruxos na santa inquisição. – Até os 16 anos acreditava no mesmo, mas hoje tenho 24 anos, e sou obrigada a desiludi-los mais uma vez.

    O conceito amplamente defendido é que a magia pertence ao paganismo, e logo não pode ser praticada dentro das igrejas, ou por seus fiéis.

    Quem faz tal defesa, provavelmente se encontra no inicio da caminhada- Mas se já passou vários anos, e ainda acredita nisso, precisa urgente deixar de seguir a “massa mística” (O quê é irônico, pois nem deveria haver uma.) e conectar-se  com os deuses, pois apesar do quê imaginam, não estão nem os servindo, nem caminhando com os mesmos.

    Eles sentem como se a nossa cultura estivesse sendo saqueada dos templos sagrados, e entregues aos cristãos.

    E não estão errados, pois isto é o quê de fato aconteceu, antes da chegada de Cristo. – A bíblia sagrada cristã é um mosaico de textos ocultistas de outras culturas.

    Portanto o “roubo” já aconteceu há muito tempo, não é algo novo, e desta forma muitos fiéis já tiveram tempo suficiente para desenvolver os seus cultos. Existe até mesmo uma linha do cristianismo, voltada para os misticismos, então a bruxaria cristã não é algo novo, aceite isso.

    Além disto os grandes ocultistas conhecidos, estudaram as mesmas filosofias criadas por estes fiéis, antes de fundar as suas escolas de pensamentos. É o caso de Aleister Crowley - conhecido como “To Mega Therion”, a  “Besta 666”, “O homem mais cruel do mundo” - que ingressou na Ordem da Aurora Dourada, antes de criar seus Libers. Porém o quê poucos sabem, é que embora o mesmo tenha sido expulso da escola dominical, a Ordem que o recebeu, foi fundada através do ensinamentos distorcidos de Agrippa, que era um grande homem, e devoto do divino.

    Então não há necessidade de espancar e cuspir naqueles que descobriram tal possibilidade, pois pode até servir para contribuir em alguma coisa.

    Há tanta coisa que merece mais tal ódio, que realmente me dói a vista, ler tanto desgosto voltado para os que resolveram seguir um caminho diferente do nosso.

    Do momento em quê erguemos nossa espada para os homens apenas por conta da sua religião, estamos sendo tão sujos e hipócritas, quanto os inquisidores, que apenas apontavam o dedo para aqueles que discordavam da sua versão do mundo. – E eu sei que você não quer ser comparado com o teu rival, então não haja como tal.

    É importante frisar, que a magia supostamente foi trazida aos homens por aqueles que desceram dos céus, por isso a mesma não pertence a humanidade, e logo não deve ser julgada como se fosse.

    Lúcifer e os caídos ensinaram as mulheres, e lhes deram o poder, para realizar os próprios intentos. Mas de onde Lúcifer veio e onde a magia residia antes? Isso mesmo no plano celestial, ou a Deusa Desceu a Terra para ensinar os humanos a praticar a magia, e os guiar para o seu mundo. Quando não mais pôde ficar enviou a sua filha, para continuar o seu trabalho. Mas é sempre seguindo a premissa de quê a magia foi transportada de outro reino, que não é o quê vivemos.

    Então por favor, pare de usar esse contexto absurdo, de quê a magia pertence somente a um grupo, pois até nos textos antigos, pode ser comprovado, que “não é assim que a banda toca”. Hermes Trismegisto já dizia: O quê está acima, é o quê está abaixo. Entenda de uma vez por todas este conceito.

    A magia não tem política.

    Se você é de : direita, esquerda, liberal, fascista, socialista, ou qualquer outro partido conhecido, não importa.

    Novamente é algo mundano, que deve ser deixado em seu devido lugar.

    Não traga suas convicções partidárias para dentro da sociedade ocultista, pois não é bom misturar as coisas.

    Hitler e o Vrill estão aí para provar. 

    Ele obteve um grande sucesso ao realizar a sua missão, mas a sua mensagem real jamais foi ouvida, e pior ainda acabou por ser distorcida, com o decorrer dos anos. Sendo tratada como um massacre desnecessário, ou desumano, ou o grito de horror de inocentes, que nem eram tão inocentes assim. – A sua luta não era contra os judeus, e sim os sionistas, que supostamente queriam dominar o mundo, mas conseguiram fazer parecer que esta era a vontade de Adolf.

    Esta é a versão da verdade que conheço e acredito, pois a filosofia sionista e illuminati, em muito coincidem.

    Mas é algo em quê Eu acredito. Não significa que você é obrigado a crer no mesmo. Por isso saiba que há um espaço para a magia, e outro para a política, não é porquê um influencia o outro, que devemos misturá-los.

    O Tudo é o Todo, e o Todo é Um. Só que é preciso compreender suas metades, para poder entender como se complementam.

    A Magia não tem etnia.

    Não importa se tu és negro, branco, hispânico, índio, ou qualquer outra raça conhecida. Todos são humanos, ou ao menos meio-humanos, no caso dos predispostos. Assim sendo devem respeitar uns aos outros.

    Se o branco quer fazer parte da gira, deixe-o entrar. O mesmo vale para o negro que anseia entrar num sistema mais elitista como o luciferianismo ou o satanismo.

    Salvo apenas exceções para filosofias voltadas para o racismo como a Skull and Bones por exemplo. Porém creio que tais ideais são como feminismo e machismo, e precisam ser abolidos da face da Terra, pois só servem para validar a vontade, de gente tão pequena que se define por sua cor ou sexo.

    A magia não tem estilo.

    Vocês encontrarão gente de todo tipo no caminho. Mulheres com roupas provocantes, homens maquiados, moças de turbante, rapazes de dread, gente de preto, gente de branco, e isso não significa absolutamente nada.

    A roupa que a bruxa veste, não representa o seu poder, apenas expressa a sua mais forte emoção, aquilo que mais gosta, e tem alguma afinidade.

    Ou seja não é porquê uma bruxa veste preto, que ela trabalha para Satã, ou porquê uma bruxa usa vestes coloridas, que esta serve a deusa e o deus.

    A diversidade neste meio é muito grande, logo nem tudo o quê aparentemente é, de fato é. Quer dizer há casos de bruxos que se vestem como anjos, mas trabalham com energias bem densas, e o mesmo ocorre com aqueles que se vestem como demônios, mas praticam magias menos pesadas, pois é o quê podem suportar.

    Há bruxos que pouco estudam, mas conseguem obter grandes resultados. – Embora mais tarde acabem achando que o hospício é o lar doce lar.

    Há ocultistas que procuram estudar mais do quê necessário, e quê embora criem barreiras no seu desenvolvimento, se sentem mais confortáveis, em suas limitações.

    Então não adianta ditar que a magia é um estilo de vida, pois cada um é livre para encontrar o tipo de vida que o mais o agrada. – É claro que adotar a prática diariamente, certamente vai te ajudar a obter bons resultados, pois condiciona o cérebro a destruir o empecilho do impossível. Entretanto isso não é uma obrigação, nem uma regra. Você decide o quê se adequa a tua condição. - Até porquê há aqueles que compartilham seu lar com outras pessoas, que não apoiam as suas práticas, e por isso precisam de outros meios, de gerar uma boa atmosfera mágica, que não implique em desrespeito aos que lhe oferecem um teto, e seja viável para executar.

    A magia é uma energia.

    A magia é formada de átomos de energia positiva e negativa, e você é o nêutron que rege tais forças. 

    A magia não tem voz, ela apenas te ajuda a encontrar a sua. A magia não pode ser um corpo, mas te ajuda a moldar o teu. A magia não ouve, mas te faz ouvir. A magia não vê, mas te ilumina para enxergar. A magia não sente, mas te impulsiona a sentir. A magia não pensa, só que intervém em teus pensamentos.  

    A magia é uma força gigantesca, que se bem canalizada, pode criar ou destruir a vida, mudar ou colocar as coisas no lugar, alterar o fluxo ou mantê-lo, incendiar ou apagar o incêndio. É a mais perfeita expressão da linguagem divina, proveniente da Primeira Causa. É a matriz de onde tudo nasce, da qual pode beber de sua energia.

    A magia é vida, pois é movimento, e ausência do mesmo, é luz, é sombra, é claro e escuro, é impulso, é neutra, é causa e efeito, mas não é um ser vivo.

    Consequentemente não pode ser tratada como tal. A vista disto não lhe atribua as características de um humano, fazendo-a ter: sexo, política, etnia, ou estilo, pois esta é muito maior que tais convicções.

    Capitulo 4- O Mundo sem o véu.

    Já trabalhamos em cima da atmosfera mística , e a importância do aspecto mental, para criar tais condições, e portanto aplicar a energia mágicka. Mas como é que o mundo se torna, após quebrar a barreira do impossível? 

    Primeiramente o mundo de concreto, continuará o mesmo, são seus olhos e o olhar que se tornarão diferentes. 

    Provavelmente deve ver diariamente a batalha entre os céticos e os ocultistas. “Só confie na ciência pois há como comprová-la e a magia é apenas crendice.” Dizem os apaixonados pela ciência. “Abra seus olhos, há um mundo mágico por trás deste, e somente a fé nele é o suficiente para manifestá-lo. A ciência é uma tolice, um insulto as forças divinas.” Dizem os aficionados a magia.

    Você pode de imediato concordar com a segunda visão, mas ambas estão erradas. – Embora a parte do conceito metafísico (o mundo por trás do mundo) seja correta.

    Quando se encontra de fato com o oculto, você percebe que magia e ciência, servem para dar as mãos e não se destruírem, como se fossem inimigos velados.

    Essa rivalidade trivial, não é digna de um ocultista, pois o mesmo tem consciência, de quê muito do quê temos hoje antes era visto como místico.

    Imagine-se em 1500 com um celular em suas mãos, certamente as pessoas do tempo, ficariam maravilhadas, e depois iriam temê-lo, ao ponto de queimá-lo vivo, sob a declaração de prática de bruxaria. – Mas nos tempos em que vive, sabe que se trata de ciência, e isto o faz rir.

    Essa perspectiva a princípio pode deixá-lo desnorteado, só que é um fato. Eles nem parariam para estudar a respeito, pois naquela época a Terra era movida pelo medo.

    Muitos cientistas foram tidos como hereges no seu tempo, e jogados no fogo purificador dos santos, então tentar separar o inseparável é bobagem. – Todavia é significativo que saiba que não basta compreender as metades, é necessário entendê-las a fundo.

    A ciência é um meio de comprovar se um fato é real ou falso. Embora seus métodos, pareçam servir somente para desbancar a existência de seres maiores que a humanidade. Eles também podem ser usados, para por exemplo separar, quem realmente viveu uma experiência sobrenatural, e os que apenas precisam de tratamento psiquiátrico. – Lembrando que alguns eventos de natureza mística, podem ser tão devastadores, que causam este efeito de estresse pós-traumático.

    Logo se a ciência serve para medir o evento, o esoterismo é o evento– Uma manifestação nua e crua da natureza, que para muitos foi esquecida, e que tem mistérios a serem desvelados.

    Desta forma o primeiro ponto é esse: A inexistência de um padrão dualista, e percepção de que o universo é realmente um, cujas as metades unidas, o fazem completo.

    Além disso, quando você se conecta de fato com o cosmos, ele também se junta a ti, e assim desenvolve o quê é conhecido como inteligência divina. – Não que vá conseguir resolver cálculos matemáticos complicados em segundos, como no filme Transformers, mas certamente libertará uma sabedoria, bem diferente da dos demais, e que vai te ajudar a se compreender melhor.

    No caso daqueles que tem a predisposição, poderão descobrir mais sobre a linhagem, através das memórias dos deuses, que vão lhes transmitir informações sobre a sua missão, e o nível dela. – Se será fácil ou cheia de obstáculos.

    Já os humanos, terão como resolver as suas grandes questões, a respeito de quem são, e de onde vieram de fato, podendo inclusive conhecer o criador da sua espécie, e lhe pedir a dádiva divina. – Mesmo que tenha um preço alto a se pagar.

    E este é o segundo ponto: Saberá sem ter visto nada antes. – Mentalize a seguinte situação: Você é um estudante de médio conhecimento sobre a Deusa Afrodite. Tudo o quê sabe é que é a Deusa do Amor, e que seu par é Hefestos, o ferreiro do Olímpo, e outras pequenas coisas. Do nada seu corpo se desliga, e você tem a visão de Afrodite na cama de Ares, o Deus da Guerra dos Gregos, e Hefestos quer provar a sua traição. Você retorna, acha aquilo estranho, e decide pesquisar sobre isso, então lá está o quadro que retrata a sua visão. É o quê vai acontecer, quando libertar este tipo específico de aprendizado.

    Novos mundos irão se apresentar a ti, mas eles não serão físicos. Sempre que meditar, terá visões do teu verdadeiro lar, que não é este planeta, e ao fazer a viagem astral irá sentir, como  são as outras civilizações.

    Há chances de prestigiar o mundo, em que o Deus que te acolheu habita, e assim receber dele algumas direções, para te ajudar a cumprir o teu propósito.

    É quando começará a entender a teoria de Giordano Bruno, sobre os milhares de planetas, que existem além da Terra, e a diversidade presente nos mesmos.

    Deixará de crer em filosofias como criacionismo ou evolucionismo, e aceitará o design inteligente, que lhe parecerá a resposta mais plausível, para a origem das espécies existentes.

    Verá que a panspermia cósmica, é uma ideia incompleta, pois a vida não se forma do nada, é preciso de uma causa que a gere, e esta é ninguém menos que o próprio Uno, que você conhece como Universo.

    Ao entrar no plano invísivel , começará a duvidar se está vivo, ou preso em um sonho, do qual acorda todas as noites, e retorna para casa. – É lindo, porém se você criar afinidade com apenas o outro lado, esquecerá que não habita nele, e isto te trará consequências terríveis, como buscar o abraço gélido da morte por exemplo, e ao fazê-lo, se levará a dimensões sombrias, que deram origem ao termo adotado como Inferno, o quê atrasará ainda mais a sua volta.

    É preciso que se lembre sempre, de quê embora a sua casa seja a anos luz daqui, há pessoas que precisam de você, e tu tens uma missão a cumprir, antes de retornar para aquele lugar que te faz tão bem. – Quando fizer a projeção, tenha ciência de quê está fazendo uma visita, e não se mudando pra lá.

    Alguns rapidamente encontram o caminho de volta para as estrelas, outros demoraram, pois não estão prontos para aceitar, que aquele canto maravilhoso, o aguarda, mas ainda não é o momento certo. – Ou pior, devido as espécies superiores e inferiores, que vem se aniquilando há milênios, não há pra onde ir, e só pode aprender com o quê restou, da sua civilização materna.

    Outra coisa, é importante também ter conhecimento de quê, tudo o quê tem no outro mundo, não pode trazer para o físico. O máximo que conseguirá, é uma versão fantasma da coisa em questão.

    Portanto se atravessar o mundo dos dragões para este, montando em um deles, o mesmo não vai se materializar em teu quarto, como se fosse um animal comum, e somente os que desenvolveram A Visão, poderão enxergá-lo, (ou nem isto, pois há os que escolhem com quem interagir).

    Há muitas críticas no meio sobre o quê os bruxos já viram ou experimentaram.  Qualquer magista que tenha  visto duendes ou dragões, e se juntado a estes numa experiência mística, é friamente julgado. Então mesmo que adentre no outro lado, é preciso que não fale isto para quem não presenciou o mesmo, pois dificilmente vão compreender. – Salvo exceções aos que se dizem ocultistas, mas precisam de substâncias alucinógenas para adentrar no outro mundo. Estes realmente possuem pouca credibilidade sobre o quê presenciaram, pois as drogas não te ajudam a conhecer a outra dimensão, no máximo consegue refletir o teu interior. Isto não significa que me oponho ao seu uso, pois cada cabeça tem uma sentença, e sabe o quê é melhor para si. No entanto quando se trata de experiências extra-sensoriais, o uso de tais artifícios pode lhe ofuscar A Visão.

    Não estou falando da visão física, mas sim do terceiro olho, o olho que tudo vê, o olho que não enxerga somente o concreto, mas os átomos que o compõem, e vibram na mais baixa frequência, para torná-lo pesado.– É o olho que desmembra a realidade, para que conheçamos cada um dos seus mais profundos mistérios, e certamente você não querer perder essa capacidade. Pois uma vez que encontra o plano místico, os seres do plano místico te encontram também, e nem sempre isso é algo positivo, pois a maioria detesta os seres esquecidos na Terra, e anseia destrui-los, para que não retornem ao mundo deles, com medo de serem “infectados” por ideias humanas.

    E aqui é que a situação piora, pois os seres que odeiam os meios- terrestres, e terrestres em sua totalidade, fazem de tudo para que  os bruxos, não consigam atravessar a ponte do astral, para o Etérico – O plano acima do astral, (que também pode ser reconhecido como o Consciente Coletivo de Jung) terão as respostas necessárias, para evoluírem suas consciências, sobre quem são.

    Eu sei parece o roteiro de algum RPG, e se quer saber a realidade, o mundo invisível não é tão diferente do mesmo. Então se anseia entender a respeito, sugiro que comece a jogar, e estude todo o sistema, para quê saiba de suas limitações.

    Aliás creio que quando disseram que Deus jogava com dados, se referiam a isto, pois tudo depende das circunstâncias. Deus lhe oferece alternativas, e você no início, quer seguir adiante, e derrotar o monstro com um golpe de misericórdia. Contudo Ele no poder de mestre do jogo, prefere que lute contra o monstro, da forma mais humilhante que há, e perca teus braços e pernas. Ambos atiram seus dados no tabuleiro. O resultado dele é 7 o seu é 2, sua vontade é alterada para que a dele seja atendida, e você nobre peregrino, acaba por perder teus membros na batalha contra o gigante.

    Pois não importa o quanto digam que A Tua Vontade é A Lei, seus artigos podem ser alterados pela diretoria, que foi gerada pela Lei Imutável dos Antigos. 

    A sua vontade, não é o suficiente para alterar algo monumental, principalmente quando se trata do seu encontro com o Mestre do plano Superior. Pois naquele lado há uma egrégora poderosa, que foi alimentada por milhões, e a diferença do milhão para um é muito grande.

    Você certamente deve está pensando, se é assim que graça tem em praticar magia? A mesma de jogar. Pois quando você segue dentro dos padrões sociais, apenas está sendo parte do cenário, e não tem controle das próprias ações.

     Mas quando modifica o rumo, ao menos tem a chance de escolher, ou seja está pegando os seus dados, e se preparando para alcançar a glória do verdadeiro livre- arbítrio.

    Porém assim como para jogar um RPG, você precisa muito do quê o dado, na magia não é diferente. É necessário escolher um personagem, ou no caso do ocultismo, uma vertente, como a magia draconiana por exemplo.

    Feito isto, não basta apenas manter o personagem, é preciso fortalecê-lo, para encarar o mundo que o aguarda. No RPG com armaduras, joias, e outros apetrechos. Na magia com sigilos, círculos, linguagens desconhecidas, etc.- E mesmo que seu personagem esteja no nível máximo, sempre haverão aprimoramentos, para torná-lo cada vez mais capaz de alcançar os objetivos, que lhe são apresentados na jornada.

    Portanto antes de adentrar de vez no mundo translúcido, ou tentar remover o véu do mundano, se prepare devidamente, pois nem sempre o mestre vai com a cara do seu personagem, e no seu caso essa potência é ninguém menos que o próprio Deus. - Não o Deus dos Ocultistas, que é a força ilimitada e geradora. Mas sim o quê foi criado por uma egrégora de humanos ambiciosos, e mal intencionados, que conheceram um ser, que achou que poderia tomar a coroa cósmica de quem o gerou, e o fortaleceram o suficiente para ser aquele que hoje comanda muitos mundos. É, eu sei parece a história de Lúcifer, mas este é um clássico caso, em quê o vilão se denuncia pela sua versão deturpada dos fatos, e quem tem o bom senso consegue perceber as entrelinhas. – Leia o Antigo Testamento, como um livro comum, e verá que o Deus do Amor, é na verdade uma expressão do mais puro Ódio. 

    Além destas alegorias, há muitas outras, então fique atento, e aprenda a jogar, ou siga como a massa permitindo que o mestre controle o seu destino, sem jamais se opor a tudo o quê te acontece, e ficando grato pelo pão e o vinho na mesa, assim como pela morte dolorosa de toda a sua população, porquê este quis assim.

    Capítulo 5 - O fanatismo, o grande veneno mágicko.

    No capítulo 4, abordei sobre o outro mundo, mas primeiro expliquei sobre o maior dos empecilhos para chegar lá, pois é importante que esteja ciente, de quê nem tudo são flores.

    Posso ter passado a impressão de quê estou em cima do muro, sobre Deus e o Diabo. Mas o fato é que, quando se conhece ambos os lados, fica claro que a ideia do preto e branco, não serve para nada.

    É claro Jeová é cruel, é o Deus dos homens, dos pecadores. Contudo é um verdadeiro Ares da religião judaico-cristã, não há quem duvide da eficácia de suas estratégias, e isto é admirável. – Apenas discordo de algumas metodologias dele.

    O mesmo ocorre com Lúcifer, ele é meu pai, e certamente me orgulho disto. Porém não concordo em evitar a massa. Apesar de não pertencer a ela, seus tipos de entretenimentos são bem agradáveis.

    Então é aqui que se percebe, a razão para não apoiar fanatismos. Se fosse obcecada por Lúcifer, concordaria com tudo o quê dissesse, mesmo que fosse contra aquilo que gosto, somente para ser o quê ele supostamente espera de mim.

    Isso é errado. Além da grande falta de amor próprio, há também o risco de ser manipulado por entidades maléficas, que não caminham nem com a luz, nem com as trevas, apenas servem a si mesmos. – O quê não é errado, mas do momento que atrapalha a vida do outro, se torna prejudicial.

    São seres que passaram grande parte da sua vida, sob a sombra dos senhores, e que jamais conseguiram ascender como eles, e por isso na primeira oportunidade, os apunhalaram pelas costas, e assim foram jogados num mundo caótico, de onde vez ou outra saem para atormentar, sob a forma de fantasmas, que sussurram coisas em nossos ouvidos. – É como se fossem os empregados que se dedicaram a empresa, sem terem recebido uma proposta de aumento, e mesmo assim esperaram subir de cargo, e quando nada aconteceu, começaram a destruir o prédio para que ninguém mais trabalhasse. 

    Uns os chamam de demônios, mas isto é um insulto aos seres do mundo inferior. Então prefiro seguir com o conceito da umbanda, de espíritos obsessores, e embora grande parte diga que se tratam apenas de seres humanos, poucos sabem que não são apenas os homens, que tem problemas para evoluir.

    São criaturas que em vez de terem visto alguma oportunidade, abraçaram as limitações como desculpa, para concentrar a sua ira em algum foco.

    E porquê estou falando nelas? É bem simples na verdade. Porquê tais seres encarnados ou desencarnados, costumam se aproveitar da fé alheia, para que cumpram seus objetivos atrozes, de destruir a base das filosofias, que supostamente os abandonaram.

    Portanto quando você se entrega demais a fé, não consegue perceber as armadilhas dos mesmos.

    Imagine duas situações: Primeiro há um padre de uma cidade pequena, cheia de gente analfabeta, mas com muita fé em compensação.

    Eles acreditam que apenas a palavra de Deus, proferida por seu padre, é a verdade imutável da vida.

    Contudo tal líder, pouco se importa com as palavras divinas, apenas as estudou, para ter poder sobre as pessoas, e assim usá-las como bem entender.

    Ele tira das mesmas: o seu dinheiro, os seus filhos, a sua liberdade, e os faz segui-lo cegamente, em rumo a completa perdição, pois sabe que está condenado, e quer levar quem puder junto.

    Como se não bastasse, para garantir-se, diz que é a vontade de Deus, toda vez que o questionam, e pior ainda, faz com que seus seguidores, repudiem qualquer figura pública, que pode desmistificar a sua falácia. – E se a tática funciona, mostra as suas garras, é quando por exemplo reúne os mais devotos, e os influencia a matar alguém, alegando que a pessoa está sob possessão demoníaca. (Não que discorde da existência da mesma, mas creio que eu, que o quê parece palhaçada para quem entende, é assustador para o ignorante, e o medo, sempre gera caos, se mal empregado) 

    No segundo caso, a mentira é um pouco mais articulada. O sacerdote diz que você é livre, que não precisa mais seguir nenhuma regra do “Nazareno”, que a vida começa agora, e os pecados não passam de uma bobagem.

    No início nenhum centavo é tirado, eles apenas promovem festas de orgia. – O quê não é ruim se for solteiro, mas o verdadeiro preço, que vem depois sim.

    Você se envolve nas palavras do sacerdote: Não há Céu, Não há Inferno, somente o aqui e agora, então façam valer a pena do jeito que o diabo gosta!

    Assim como o padre, tal sacerdote não está interessado no crescimento do seu grupo, somente quer arrastá-los para o fundo do poço, para que precisem dele, e é aqui que o golpe se torna mais evidente.

    Pois toda vez que a pessoa quer sair da tristeza por sua vida vazia, surge um novo motivo para deixá-la em tal estado. – É, o sacerdote, não carrega tal acunha, sem ser praticante de magia.

    Após fazer com que a vítima de seu magnetismo ( e alguns espíritos), comece a enlouquecer, vem as ofertas absurdas. “Mate um bebê para Satã, e ele te libertará destas correntes.” Diz o mesmo. Mas convenientemente, esquece de contar que a criança escolhida, é filha da ex com o atual - que percebeu o bosta que ele era, e o deixou.

    Eu sei parece inacreditável, mas a situação somente se agrava, pois no fim das contas, o padre e o sacerdote, se encontram longe dos olhos de todos, e assumem que suas jogadas, estão sendo bastante eficazes. Pois se os cristãos ficarem longe da magia, que os levam a questionar, e os satanistas evitarem o sentido de certo e errado, nunca conseguem atingir o estado da iluminação, para descobrirem a quem de fato servem, e que não é nem ao Diabo, nem a Deus.

    Estas criaturas são ainda mais inescrupulosas que Jeová, pois enquanto o mesmo ainda recompensa os seus, estes seres apenas fazem os demais afundarem, e nunca reconhecem os seus esforços, porquê como disse antes, sentem-se injustiçados, e que todos merecem a sorte que tiveram, por serem tão tolos ao acreditarem neles.

    Então não deixe que a sua fé te domine, mesmo que seja parte do plano superior. – Ela pode abrir portas, mas se não souber onde pisa, acabará indo para uma selva, e mergulhará em areia movediça.

    Somente a fé, nos faz ficar cegos. Da mesma forma como seguir somente a ciência, nos faz deixar de perceber, o tamanho da plenitude do universo, e que nem tudo se resume ao que é “concreto”. – A verdade mística não pode ser medida por filosofias dualistas da humanidade, pois esta se perdeu há muito tempo.

    Então como nos impedir de chegar a esse ponto? 

    Não há um método certo, e que tenha 100% de eficácia. Mas após várias pesquisas de campo, com base em observação, percebi algumas formas, que listarei a seguir:

     Evite defender a sua fé com paixão. – Não estou dizendo que não deve amar o quê faz, mas sim que precisa saber a diferença, entre o amor e a paixão. Amor é uma chama pequena, que serve para nos aquecer numa caverna. Paixão é um incêndio, que se alastra, destruindo toda a floresta, e se não ficou claro Paixão é um caso de amor intenso, impulsivo, e descontrolado. Amor é quando duas pessoas completas, compartilham uma vida juntas, sem desistir de quem são, pois escolheram andar com o par, e não dominá-lo.

     Estude tanto o seu opositor, quanto aqueles a que apoia. – Não estou dizendo que precisa se tornar um cdf de magia. Todavia é preciso sim ter conhecimento do quê faz. Então antes de julgar o inimigo, tente descobrir sobre as suas motivações para agir de tal forma. Concordar ou não, está fora do caso, mas é importante ver até onde o boato relatado é real.

     Haja como cético. – Apesar da correlação com o item anterior, é importante nos focarmos no fato, pois ser cético, é duvidar bastante da história, antes de aceitá-la como verdade, e é esta postura que deve tomar, sempre que uma coisa, que desconhece, surge na tua porta.

     Procure informações imparciais – Se o bruxo diz que a sua deusa é santa, e a religião a condena como “demônio”, é bom evitar ouvir ambos, e buscar por uma voz, que trabalha todos os aspectos da deusa, desde os puros, aos mais pecaminosos.

     Não fale sobre sua filosofia com eles. – Um fanático não tem nada para acrescentar na sua busca por conhecimento, a não ser, que queira estudar sobre transtornos de personalidade, ligados a estresse pós- traumático. Mais terrível ainda, pode te levar pro fundo do poço junto com ele, pois te faz crer no mesmo mundo maravilhoso, em que os seus superiores o colocaram. Então se tem um(a) amigo(a) que sofre disto, fale sobre qualquer assunto, menos deste.

     Rejeite as palavras do fanático – Não precisa humilhar a pessoa, por conta do seu fascínio. Afinal o fanático em si, é apenas uma pessoa apaixonada, sendo controlada por terceiros. Então sempre que notar os traços de fanatismo, lembre-se de que ela é apenas o papagaio repetindo o quê ouviu, e não sabe o quê fala.

     Conheça os traços de fanatismo. – Um ser tomado por esta paixão doentia, manifesta alguns sintomas como: 

    Palavras vazias. – O(a) sujeito (a) fala como se entendesse do assunto, mas ao ser confrontado, e obrigado a defender os interesses, com ideias próprias, fica mudo, ou tenta alterar o rumo da conversa. Fingem sensatez e calmaria. – Frases como “O mundo é injusto, por causa de...” são bem comuns no seu vocabulário, pois estes conhecem o Uno, mas são incapazes de entendê-lo.

    III. São agressivos. – Se mudar o rumo da conversa, não funcionar, eles começam a se irritar bastante, e por isso se tornam violentos.

    Não suportam a verdade. – Diga-lhes que Satã é bom, ou que Deus é engenhoso, e verás o fanático demonstrar, a escuridão mais profunda daquilo a que serve. São iludidos. – Não conseguem extrair a verdade de um material fabricado para entretenimento, e pior ainda, tomam para si o todo como verdade absoluta. (Depois saem matando hereges ou sacrificando virgens porquê o programa ensinou.) Veem sinais onde não há nada. – Que há sinais no universo, todos nós sabemos, porém achar que tudo é sinal de alguma coisa, sem antes avaliar os aspectos psicológicos, entorno de tal possibilidade, é sim um erro. Se você sonha com um homem te perseguindo, após ter assistido um filme de terror, ou vários, isto certamente comprova que no fundo, não suportou tão bem quanto pensava. Agora se você sonha com anjos te ajudando, quando a sua vida, é totalmente voltada pro satanismo, é bom avaliar o quê significa.

    VII. Carregam olhos vazios, e parecem está sob efeito de drogas pesadas. – Eles podem tentar forçar o riso, para demonstrar que estão 100% satisfeitos, mas se olhar bem, verá sinais físicos, que denunciam a sua infelicidade como: Olhos de quem foi vítima de hipnose, sorriso que não condiz com os mesmos, magreza ou gordura extrema, tremedeira, e fala lenta, cheia de pausas excessivamente longas, (mesmo que não condiga, com a sua regionalidade) ou discurso caloroso e agitado demais.

    VIII. São ativistas do templo. – Que há fiéis enjoados dentro das igrejas voltadas para o culto cristão, já estamos cansados de saber. Mas sim, também há fanáticos no templo pagão. São bruxos e bruxas, que vivem querendo impor a sua crença, mesmo que isto não seja bom para a própria imagem.

    Não tem noção do quê fazem – São como crianças de 3 anos, que repetem os gestos dos líderes. Nunca questionam os seus superiores. – Nem conseguem, pois a lavagem cerebral intensa, os tornou submissos.  Te amam, somente enquanto concorda com eles. – Discorde de uma ideia sobre a sua conduta, e eles te queimam vivo (literalmente ás vezes).

    Em algum momento da vida, podemos apresentar, alguns destes sinais, já que independente do caminho que seguimos, nós o amamos, não importa o quão complexo seja. Mas é bom lutar contra tais atitudes, pois elas só servem para nos envergonhar, e também nos distanciam dos deuses, e consequentemente do quê é real e falso.

    Capítulo 6 – A verdade liberta, mas é dolorosa

    É, nobre forasteiro, se a vida tem sido fácil, e as verdades que descobriu até o momento, não lhe trouxeram nenhum problema, ou representaram tudo aquilo que sempre quis, sem algum esforço, e nem sangue ou suor foi derramado. – Significa que a parte boa está acabando, e é melhor está preparado, ou você é vítima da sua própria mente.

    No segundo caso, é algo muito comum atualmente. É o quê chamo de iluminação de holofote. Trate-se de uma pessoa, que sai dizendo que é superior aos demais, ou força transparecer que já atingiu o nível máximo da evolução cósmica. – Mas antes dos beijos de luz, deixa subentendido que te quer “queimando no inferno”.

    A verdade nunca é aquilo que serve para compensar uma perda, mas sim confrontar a existência do ser, por ter sido pré-estabelecida há muito tempo, e isso nos leva a um tópico interessante: Os bonecos que pensam ser filhos dos deuses.

    Hoje em dia tem muitos filhos de Lúcifer e Lilith por aí. Se for contar nos grupos de magia do Brasil, há mais ou menos “mil” deles. – Razão pela qual, prefiro me manter em silêncio a respeito disto, pois me sinto envergonhada.

    Assim como há também as crianças Percy Jackson – Jovens entre 11 e 18 anos, que se encantaram pelos programas, que são focados na visão etérica (e distorcida) do mundo, e saíram mundo a fora, batendo no peito, e dizendo eu sou um (a) semideus!

    Em ambos os casos é algo bastante incômodo, pois se for falar com tais seres, muitos são vítimas do fanatismo midiático, e não só não possuem habilidades, como também mentem, para dar a impressão de quê são “especiais.”

    Chego a sentir dó dessas crianças, pois o tempo que gastam tentando provar o quê não são, poderiam usar para adquirir conhecimentos, que os levassem a encontrar os deuses, e dependendo do contexto, serem abençoados por eles, ao ponto de desenvolverem algum dote.

    Não seriam semideuses, mas e daí? Quantas lendas maravilhosas serão necessárias, para que entendam, que nascer humano, não significa morrer como tal?

     Olhem o exemplo do conde Vlad III, o turco, que empalava os seus inimigos vivos, e deu origem ao vampiro mais famoso das décadas. Ele iniciou como humano, mas hoje, para muitos, é visto como um Deus Noturno.

    Então novamente o quê você é no momento não importa, o quê pode vim a se tornar, após a caminhada sim, portanto pare de perder tempo, forçando ser o quê não é, e abrace quem é de fato.

    A verdade, não é aquilo que deseja, e sim o quê necessita.

    Você pode morrer gritando aos 4 ventos, que é filho (a)  de um deus (a) mas se não for, sempre haverão ausências de sinais legítimos, e a magia não vai se manifestar, mesmo que a sua fé seja grande, pois haverá um forte bloqueio em teu caminho.

     Porém quando realmente é algo, até as coincidências, serão ligadas ao deus com o qual sente a conexão.

     É o meu caso. Quando me foi revelado que era filha de Lúcifer, me opus a isso, com toda fibra do meu ser. – Tinha acabado de ler Lex Satanicus, e via Lúcifer e Satã como seres distintos. Sendo Lúcifer, o belo e inteligente, que tem repulsa ao mundano, e Satã um charmoso nerd, que se divertia em qualquer lugar.

    Jamais pensei em Lúcifer, como sequer meu semelhante, pois apesar de ter problemas para me socializar, não desprezava a sociedade, como ele, e isso foi um grande baque para mim.

    Como se não bastasse, além de ser filha do ser mais inteligente e cheio de conquistas, também me foi revelado que eu era um anjo, e foi a gota d’água, porquê detestava celestiais, e todo o plano superior na época. – Tinha 17 anos, e os hormônios agiam com grande potência em meu organismo.

    Não foi da noite  para o dia, que consegui aceitar. Receber a notícia de que era filha de Lilith foi fácil, pois já tinha notado traços de personalidade, bem semelhantes aos da deusa antiga, que ao contrário do quê a maioria pensa, não nasceu de um mito Judeu, mas sim Sumério, sob o nome de Kiskill-Lila, a filha legítima da deusa Terra, ou Antu, também conhecida como Tiamat, pelos Babilônicos. – Então sei que Lilith não é a deusa suprema, e também que não foi criada para o Adão.

    Lilith era uma deusa lasciva, hipersexualizada, que seduzia os homens, para torturá-los. Tinha ódio da humanidade, por ter sido substituída, por uma mulher inferior. Gerava abortos, para não mandar suas crianças sagradas, para este buraco conhecido como planeta Terra.

    Eu a admirava, me sentia como ela, sentia seu poder em minhas veias, e gostava muito da sensação. Mas como disse antes a verdade não é algo que tapa buracos, por isso tinham aspectos negativos, sobre ter o seu sangue.

    Meu impulso agressivo era muito forte, meu desejo sexual também, ás vezes manipulava as pessoas para o benefício próprio e nem percebia, e pior fui inclinada a uma vida pecaminosa de traição, que por muito esforço, não foi física. – Com exceção ao homem com o qual sou casada, mas ele era meu amante, e não o traído.

    Além disto, como carrego duas naturezas divinas em meu DNA cósmico, tenho peso de consciência sempre que pratico atos de maldade, com aqueles que não deveriam receber a escuridão de mim. – Mas os que a merecem, ou esqueço, ou me vanglorio da vitória.

    Saber destas e outras coisas, foi um enorme desafio, principalmente porquê não entrei no caminho, achando que era um ser celestial ou demoníaco. Apenas o fiz para entender, porquê minha família toda, possuía um passado de histórias fantásticas ou sombrias, e coisas estranhas aconteciam comigo desde criança.

    Quando bebê, meu andajá  se ligava sozinho de madrugada, e isto causou tamanho pavor nos meus pais, que estes queimaram o objeto. Já um pouco mais velha, quando me irritava as coisas caíam sem tocar, se sentia muito ódio, os eletrônicos pegavam fogo perto de quem me magoou, ouvia passos há metros de distância, encontrava objetos perdidos através de sonhos, e literalmente deslocava  meu espírito de um mundo para o outro. – Na infância entrava numa espécie de transe, que me levava para uma dimensão, onde os belos eram maus, e os seres horrendos me protegiam, mas não sabia o porquê. Assim como costumava dizer que o bicho papão era meu amigo, muito antes de lançarem filmes sobre o tema ( quando o entretenimento era voltado para bom é bonito, e mal é feio.) Tal capacidade assustava a minha avó materna, que me pegava falando “sozinha”, e acusava que eu conversava com demônios.

     Como se isso não fosse o suficiente, quando estava na quarta série, e estudava numa escola de esquina para o cemitério, chamada Guanabara, cheguei a me deparar com o mundo sobrenatural, e creio eu que a própria morte, pois era um ser de mortalha negra, que apareceu em meio a penumbra, iluminada por pequenos raios de sol, depois de ter me encontrado com torneiras, que se abriram sem o auxílio de mãos alheias. Não fiquei lá para conversar, tinha 10 anos na época, por isso sai correndo, e ao entrar em contato com meus colegas, tentei não parecer que tinha medo, ou visto algo. Dentre outras histórias, que vieram depois, mas que se eu citasse seria difícil de crer, então vou parar por aqui.

    Quando me abri para o satanismo, não tinha a intenção de ser uma das filhas de Satã, ansiava apenas por ser uma soldada, que guiaria as pessoas para os seus devidos caminhos.

    Por isso ao ser confrontada com visões, e gente muito mais surtada do quê eu mesma, acabei por duvidar de tudo. – “Ah tah eu sou filha de Lúcifer e Lilith, e a herdeira do Inferno, Aham, acredito” ou “Este é o cúmulo da infâmia”. “Tanta gente lá fora, querendo isso, e eu aqui apenas seguindo a minha jornada sem acreditar que sou eu.” “Por quê Lúcifer e não Satã?” – Relembrando que na época via-os como gêmeos negros, não uma totalidade de opostos complementares.

    Não foi algo simples, e pra piorar fiz uma cota de inimigos, que achavam que eu não era digna. – E não ligava muito, pois também concordava com isso, só brigava quando se tratava de mim, não da minha suposta “herança”.

    Até hoje sigo duvidando, mesmo que bem lá no fundo, saiba que é verdade, e que aceitar isso é o melhor caminho. Só que sou muito cética, para abraçar tal fé sem provas mais consistentes, e outra eu nunca quis sentar no lugar de Lúcifer, só de está na sua presença, com meus dragões, e meus aliados, já me sentiria feliz. –Apesar das reservas, que tenho, por ele ter interferido para que soubesse, como era ser a ovelha negra da família, e iniciar uma conquista, com apenas as asas e a essência. Todavia há sinais de quê sou da sua linhagem, e vou citá-los, para quê fique claro, quando alguém é um filho, e quando não é. São eles: 

     Nascimento que parece milagroso, mas é maldito: Quando minha mãe engravidou, ela teve rubéola, e o caso foi tão grave, que o médico mandou-lhe me abortar, mas ela se opôs a isto, e fez promessa a uma santa, para garantir minha segurança, e vim saudável. — A igreja Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, quase pegou fogo em 2013, quando houve um incêndio de grandes proporções em Macapá- AP, que foi inclusive noticiado no jornal nacional, mas a causa por muito tempo, foi um mistério insolúvel.

     O meu número da sorte ligado a data do meu aniversário: 15/02/1995 foi quando nasci, e 15 é o meu número da sorte desde criança. – Afinal ganhava festas e presentes. O mesmo dígito é considerado o número do Diabo no Tarot. Além disto se somar todos os algarismos de maneira cabalística, resultará em 5, que lembra o pentagrama, um símbolo bastante comum na magia, e o 1,5 é uma das partes presentes da Deusa Babalom, de Aleister Crowley, representada em sua totalidade por 156.

     Os fenômenos de 15/02: O dia é marcado por grandes eventos históricos, ligados a Nova Era, e ao mesmo a antiga. É no dia 15 por exemplo, que comemora-se a Lupercália, o “dia dos namorados pagão”, em que se celebra Lupercos – que é tido como uma das faces de Lúcifer na Itália – e o dia da fundação de Roma. Foi também no dia 15, que logo após o Papa renunciar, um meteorito caiu na Rússia, e muitos acharam que era um sinal apocalíptico. Desde então no mesmo dia: O exército de fanáticos, chamados de gladiadores do altar se levantou – Estes são responsáveis pela destruição ilegal de terreiros.  Até o material midiático foi direcionado para o caos do fim do mundo. Procure pela série mais assistida por quase um mês: The Umbrella Academy que foi baseada na HQ da Dark Horse, e Doom Patrol, um dos poucos sucessos da DC comics. – Que a propósito, fazem parte do meu gênero favorito de programação, e soou como um presente. Mas você já deve saber, afinal o oculto influencia a mídia... e o resto já deve ter gravado não é?

     Sinais físicos: “Os olhos são a janela da alma”, já dizia o ditado popular. – Embora tenha nascido sem uma alma, meu espírito segue me precedendo. Portanto vez ou outra, os olhos se alteram de maneira expressiva, (quase inumana em alguns casos).

     A minha descendência física: É evidente que carrego uma grande herança Africana, mas o quê poucos percebem, é que a minha forte ligação é com a Itália, inclusive meu sobrenome é dessa origem, e tenho parentes originalmente italianos. Por quê é um sinal? Lá é único lugar onde as bruxas cultuam, e aceitam que Lúcifer teve uma filha enviada a Terra, e também o primeiro local do mundo, onde ouviu-se o nome do Deus Romano. – E eu não sabia disto até 2016. Quando tive um sonho, sobre ter ficado adormecida por 500 anos, que me levou até um conflito na terra da minha descendência de sangue, onde até mesmo encontrei, uma música relevante ao meu nome secreto em 2013. Mas nunca tinha pesquisado mais a fundo, até aquele dia, quando tive o estalo “E se eu focasse na minha magia hereditária para me desenvolver?”.

     A falta de empatia satânica: Lúcifer não é aquele que se diverte entre os demônios, é o quê os mantém na linha, então é normal, que muitos demônios, ou espíritos perturbados, tenham aversão a mim, pois sou filha do “carcereiro da prisão cósmica”.

     Poderes, que podem ser terríveis ás vezes: Odeio ferir pessoas inocentes, mas por vezes a minha ira, se manifesta de tal forma, que consigo interferir neste plano. – Se você é um de nós ou dos nossos, sabe bem a que me refiro.

     A ausência de Lúcifer e Lilith: Eles são deuses, tem seus afazeres, não podem ficar me mimando a cada 24 horas, só porquê vim deles. – A não ser que eu necessite exclusivamente de sua proteção. No entanto é mais fácil enviarem guardiões, antes de tomarem partido, pois querem filhos fortes e dispostos a lutar.

     Loucura racional: Não pertenço a um lado, estou ligada ao todo. Conceitos separativos pertencentes a humanidade, me parecem antiquados. “Magia não pode se unir a Religião” é o tipo de frase que me faz rir por exemplo.– Mas sigo respeitando cada crença, assim como quero, que a minha seja respeitada.

     Relatos autênticos: Devido ao conhecimento sobre os grimórios – e a grande quantidade de gente cética sobre quem sou – registrei tudo datado num site, que serviu como meu diário por um tempo. O nome do mesmo é: Os pensamentos infernais de Carry Manson. – Tenha em mente que na época eu tinha 18 anos, havia acabado de aceitar que era a primeira filha de Lúcifer, e meus textos soavam completamente insanos (e até vergonhosos.) Além disso há os livros Sobre mim de 16/05/2018 e The Angel In Earth de 28/05/2019 no site da Autores, onde podem ler melhor sobre a minha história, e tirarem as suas conclusões. – Os conceitos apresentados acima, são apenas para diferenciar a fantasia do verdadeiro.

    Queria dizer que a verdade é o máximo, um conto de fadas, ou tudo o quê aparece na TV, em quê do nada os esquisitos se tornam legais, e imediatamente são reconhecidos como os maiorais da história da Terra. Mas não é assim que funciona.

    Diga que é filho de um Deus, e prepare-se para as risadas, insultos, e pessoas que imediatamente se acham melhores que você.

    Levante-se contra aqueles que não tem consciência, e eles vão apontar o dedo, achando que surtou, e se por acidente acabar os machucando, farão a tua caveira.

    Estou revelando sobre mim, não para que venham tirar satisfações mais tarde. – Mas se quiserem tenho muito mais material para provar quem sou.  – E sim para lhes mostrar, que há sim semideuses entre os humanos, e que nem todos pertencem ao 90% dos mergulhados em mentiras, somente para aparecer.

    Vocês não estão sozinhos. Eu posso ouvi-los, e acreditar em suas histórias, se forem sinceros sobre o quê houve. – Quem realmente é, percebe as inconsistências dos fatos, por isso é mais fácil saber, quem carrega a mesma dádiva ou maldição.

    Cada de nós tem uma missão, seja ela grandiosa, ou parte de um grande plano, e seria bom que nos apoiássemos, pois o universo é grande o suficiente para quê todos consigamos, alcançar a merecida glória. – E isso vale para humanos e predispostos.

    Acham que apenas por ser filha de Lúcifer e Lilith, sou uma criatura suprema e imbatível? Não, não é por aí. Há os filhos que nasceram da própria Tiamat ou de Apsu, e outros Titãs, que são muito mais poderosos. – No entanto ter muita energia, não significa  automaticamente, que sabe usá-la.

    Capítulo 7 – DIY MÁGICKO

     DIY é um conceito em inglês que significa Do it Youself, ou Faça você mesmo, e foi adotado por alguns grupos dos E.U.A que preferem fabricar seus materiais, e se abstém do uso das grandes marcas conhecidas. É claro que tal ideal parece implícito para muitos, e embora haja uma corrente chamada Magia do Caos,  que foi desenvolvida Austin O. Spare, e trabalha com isso de maneira bem expressiva, é importante que saiba como praticar.

    Você pode naturalmente criar feitiços, rituais, e cerimônias, para cultuar o teu deus, e lhe mostrar a sua devoção. Mas infelizmente há leis que por hora são permanentes.

    Não adianta por exemplo usar um baphomet para fechar um portal, quando o mesmo é usado a décadas por diversas seitas satânicas, para invocar os príncipes infernais.

    Assim como não adianta tentar invocar um demônio, atribuindo energias negativas ao pentagrama, que há muito tempo é considerado pelas bruxas, como um símbolo de proteção. – Pode até funcionar devido o grande descaso da sociedade, que segue achando que é o símbolo do Diabo, mas a entidade em questão vai rir de você.

    Sempre crie meios de se proteger, mesmo que seja na hora de criar um servidor – No caso da Chaos Magic. – Você pode ter a linhagem dos demônios, sem saber, e atrair um ser de luz, que tenta te destruir, somente porquê tu nascestes como determinado herdeiro. – E vá por mim, luz não significa ausência de combate violento.

    Verifique as condições ideais para realizar a prática mágicka. – Não só a atmosfera mística, como a física também.

    Se a lua é negra, e não condiz com o teu objetivo, evite-a, ou vibre de acordo com o instrumento, de onde saiu o acorde.

    Se o tempo está ruim, (e você não foi responsável), vivem te perturbando, e tudo parece dá errado no dia em questão, já tem a resposta para o teu intento, que é: Não. O universo está se manifestando contra, então fica por sua conta e risco. – Caso queira ir adiante.

    Procure conhecer os presságios. O chamado do universo é comum, por seguir um padrão lógico de repetições, que foge do binário computacional 0 e 1, e passa a ser 0,0,0 ou 1,1,1 – Quanto mais frequente, mais chances há de ser o Cosmos falando de maneira silenciosa. – Será um alerta, se Todos os itens estiverem presentes:

     Números: Números iguais, são portais de consciência – e energia mágicka – se abrindo. Mas quando surgem várias vezes, em conceitos diversos, é bom avaliar o quê significam através do estudo da numerologia, cabala, e gematria em geral.

     Sonhos : O plano onírico é um dos mais interessantes, pois revela sobre o mundo, que há dentro do ser. – Freud estudava os sonhos, para compreender melhor seus pacientes, e você também pode, embora o método não seja recomendado, pois dificilmente será objetivo para ter resultados plausíveis. Além disto, se o indivíduo está conectado com o oculto, tem a capacidade, de prever as linhas dos próximos acontecimentos. Assim sendo deve-se avaliar, quando um sonho, é apenas sonho, ou um sinal. 

    Por ex: Se você tem tido sonhos com elementos semelhantes isolados. Como: a presença constante de pregos em evidência. O resto do contexto se aplica a ti, mas a presença dos pregos é um comunicado. – Como se fosse um código morse do Universo.

     Frases incomuns: Sejam de ameaças, ou que transmitam segurança. – Devem ser avaliadas, se sentir algum tipo de calafrio na espinha, quando as ouvir. Não importa se é da boca de um estranho, na tela do pc, ou em uma canção, pesquise sobre a questão, e tente decifrar o quê significa.

    É relevante salientar que o Padrão Ressoante é a chave, e que embora tenha citado apenas 3 exemplos, o fato de o presságio acontecer 3 vezes, não é o suficiente para se definir como um sinal. Será um sinal, se houver persistência do oculto em te mostrar a mesma mensagem, do contrário pode ser somente uma bela coincidência. A(o) Bruxa (o) saberá intuir a partir disso, e definirá se quer seguir tal caminho, ou optar por outro.

    Respeite as Leis Antigas, apenas atribua algo condizente a tua personalidade no Culto a teu Deus.

    Se lá no teu grimório diz que deve usar a violeta, use a violeta, não o  eucalipto – Com exceção a sacrifícios humanos e de animais, sem razão lógica. Como por ex: Mate um carneiro para o deus, e se livre do cadáver. (Se for para matar um bicho, que seja para deleitar-se da sua carne, ou trazer alívio para alguma dor.)

    Siga os antigos, estude-os, respeite-os, mas adore somente aos deuses. – Não trate grandes nomes da vertente da magia, como se fossem a entidade a que te dedica. – Por ex: Aleister Crowley Não É Um Deus Supremo. Em vista disso não haja como se fosse. ( Leia seus escritos, mas sempre com a consciência crítica, do quê condiz com a tua realidade.)

    Você pode imitar alguns rituais, feitiços, e poções. Mas o ocultismo é o campo da criatividade, então quando estiver pronto, inove, entregue-se, e DIY (Faça você mesmo) – Não é porquê fulana usa sempre os métodos 100% tradicionais, que tu devas utilizar também, afinal para ela pode ser fácil, arrancar a cabeça de um cervo, e para ti não.

    Como é errado falar de um ideal, sem aplicá-lo na vida, a experiência que lhes trago é a minha própria língua, que batizei de Lovlicos, pois me baseei em escritos de H.P Lovecraft, e nos sinais da linguagem cósmica, e ela consiste em: 

    Alfabeto tradicional  português- BR. 3 Palavras abreviadas com 3 siglas no total.

    III. Formação de frases, com no máximo 3 sentenças.

    Dicção forte, com acentos ocultos, que somente 

    quem já presenciou os mistérios do universo, 

    consegue aplicá-los.

    Timbre doce para o uso benéfico, timbre

    sombrio, beirando o demoníaco para o

    maléfico.

    Ex: 

    Em português é: 

    A lua brilha sem parar

    Em Lovlicos é: 

    Alub separ

    Em português é:

    Sim e não, talvez

    Em Lovlicos é:

    Sie nata

    Em português é:

    Não vou

    Em Lovlicos é:

    Navo

    Parecem palavras de uma raça antiga de alienígenas – ou com os Enn’s demoníacos que conheci ano passado. Mas é apenas um sistema simples, que apliquei aos meus rituais, e até agora rendeu bons resultados. – Ainda que alguns fatos tenham me assombrado, pois apesar de não ter uma egrégora forte (por ser minha criação) é uma expressão muito poderosa. – A melhor explicação, é que o cérebro se impressiona com coisas estranhas, e o uso das mesmas, intensifica o poder mágicko.

    A intenção aplicada nela pode variar, mas pelo que percebi com as minhas experiências e análises, é uma força que mexe com a ordem mundana, e traz a tona o quê é considerado impossível. – Tanto pro bem, quanto pro mal.

    Fora a Lovilicos, também realizo meus próprios rituais, baseados na filosofia com a qual tenho mais afinidade. – Uma qualidade, que me fez inclusive criar uma seita chamada Sees- Seguidores da Estrela, que obviamente representava Lúcifer, mas para acessá-la bastava acreditar em algo. -  Através dela introduzi algumas pessoas no mundo místico, após comprar-lhes a sua alma. – Quando acreditava em tais falácias.

    O Sees tinha um propósito comum: Realizar desejos, sejam eles nobres ou atrozes. Assim como também gerava consequências, para aqueles que traíssem o círculo.

    No total formávamos 4 componentes. Todos os membros eram femininos, e a nossa crença no poder oculto, era tão grande, que quando nos tornamos A constelação – O quê uma sente, as outras também. – O efeito foi imediato.

    Da mesma maneira que quando uma das moças, escolheu um homem, em vez do círculo. Acabou possuída, e tentou matar o seu amado, diante dos familiares. – Tinha 16 anos na época, e até chorei, me sentindo culpada, por um demônio tomar-lhe posse. – Nem sempre ter poder, é um sonho, na maioria das vezes parece mais um pesadelo. (Ao menos para mim.)

    Nossos rituais incluíam derramamento de sangue, como prova de lealdade, e devorar as doces frutas do cemitério, onde nos reunimos para realizar nossas práticas ocultas. – Que fique claro, não tolerava sacrifício de animais, o fluído da vida, vinha das moças, que faziam parte do círculo.

    Era pura brincadeira de criança, como uma versão da vida real de jovens bruxas. – Mas não cheguei a me tornar uma maníaca como a Nancy, apesar de me vestir como tal.

    Tivemos poucas reuniões, pois após chegarem as consequências, duas garotas, queriam pular fora. Uma perdeu o namorado, e a outra começou a ver as sombras, e isso lhe fez ter medo de onde colocava o pé. Então só restou eu e outra garota, que me apoiou por um bom tempo. – E até me ajudou quando minha vida ficou em risco, após romper o círculo de vez.

    Lembro-me do nosso último encontro. Foi o mais marcante de todos, pois ali tive o primeiro vislumbre da vida passada. – Fomos até o cemitério, e lá um estranho homem de chapéu branco, e camisa vermelha nos recebeu, fazendo perguntas interessantes, a respeito de estarmos ali para passeio ou trabalho, e nos avisou para tomar cuidado com as visagens (termo para espíritos) minha companheira riu, disse temer só os vivos, e eu disse que a morte era uma escapatória para os covardes, frase esta que não saia da minha cabeça.

     Ao ouvir a minha resposta, ele fez uma reverência, e sumiu no meio do matagal. Após a sua partida, as sombras começaram a ganhar forma, e tanto eu, quanto a menina vimos coisas. Primeiro vi uma mulher enforcada no topo de um pinheiro, por um cipó cheio de espinhos, e logo deduzi que era uma bruxa. Em seguida seu corpo sem vida caiu, e um ser de chifres meio homem meio touro, veio para recolhê-lo. Tão grande foi a minha surpresa, ao ver como ele a pegava nos braços. Não a arrastava para o inferno, nem levava como um pedaço de carne, parecia mais que era a sua noiva, e tinha um aparente carinho por ela. – Conseguia sentir que aquela imagem, era um retrato da minha vida passada, e aquela conexão era fantástica. – Ambos desapareciam na névoa, e 7 ou 8 rostos, não lembro ao certo, apareceram, sendo 5 femininos e os restantes masculinos. Nós voltamos para a causa da minha amiga, e acabei por desmaiar sem razão aparente.

    Mais tarde a noite, quando estava sozinha em meu quarto, vi que haviam várias sombras chifrudas ao meu redor, e as mesmas pareciam que iam sair das paredes. – Isso me deu um calafrio tão grande, que naquela noite, resolvi dormir no sofá. – Neste tempo nem imaginava que era a herdeira de Lúcifer, então não tem como ser algo influenciado por tal descoberta, que veio acontecer no ano seguinte, e só foi aceita, quase 2 anos depois, pois precisei analisar toda a gama de fatores, para poder aceitar tais fatos.

    Então tome muito cuidado com o quê aplica no seu DIY mágico, pois tudo o quê fizer, expressará a sua real natureza. – É por isso que estou lhe dando estes conselhos de maneira direta, pois apesar de ser uma conhecedora dos mistérios, com grandes saberes, por ter estudado sempre sozinha. Queria que alguém tivesse me dito estas palavras, para evitar todos os desastres que aconteceram.

    A magia independente do quê faça, sempre trará consequências. Mas não é como colher o quê plantar, e sim por causa do valor que atribui a tua responsabilidade pelos atos. Portanto sempre pratique, somente aquilo que a sua consciência é capaz de suportar, do contrário além de ser taxado como louco pela sociedade, vai realmente acabar como um. – Ouça esse conselho de quem foi recentemente diagnosticada com transtorno de personalidade, após inúmeras tentativas de suicídio e agressão, antes de conhecer formas de lidar com a própria escuridão.

    Capitulo 8 – A bruxa que vive entre os santos e os pecadores.

    Viver em sociedade é uma tarefa difícil para um bruxo. Sabemos de tantas coisas maravilhosas, e verdades indizíveis, que nos sentimos criaturas superiores, que precisam interferir na jornada dos demais, para que experimentem de toda a beleza ou conhecimento que adquirimos. – Isso é inegável, mesmo que sirva a luz da magia, e diga que acredita que todos são iguais, a igualdade não é a resposta para o quê quer.

    Imagine que todos no mundo são lagartas, e que algum dia se tornarão lindas borboletas. – Se você interferir no processo, eles certamente morrerão, antes de conseguirem sair do casulo. Este é um exemplo que li em Lex Satanicus, e achei algo absurdo na época, mas hoje percebo que é o melhor a ser feito.

    Assim como as pessoas, podem ser simbolizadas como insetos majestosos, também podem ser descritas como música, e cada uma tem um ritmo ou melodia própria, que pode ou não agradar os nossos ouvidos. – Portanto procure sempre andar, com aqueles que tem um ideal em comum contigo.

    É lindo abraçar as diferenças, mas uma coisa é aceitar o outro, outra bem diferente, é querer ser como ele. – A verdadeira beleza do mundo, não está em rostos padronizados e iguais. Mas sim em suas peculiaridades. O quê quero dizer com isso? Seja fiel a ti mesmo, e se aceite acima de tudo, não tente se adequar aos demais, somente porquê eles não te aceitam. Procure pelo teu próprio nicho, pois não importa qual seja, sempre há um espaço para ser ouvido. 

    Evite se expressar em sociedade, se não aceitam a tua crença mística. – Não é porquê você respeita os outros, que eles farão o mesmo por ti. – “Mas Lux você falou para não me adequar aos demais!” Sim, e não se adequar, significa ser leal aos teus ideais, não importa o ambiente em que se encontra. – Eu sou bi, e mesmo em meio aos héteros, continuarei sendo, não importa o quê digam. E se encontrar aqueles que me apoiam, me abrirei e direi a verdade, se não, seguirei em silêncio, pois o mundo é um lugar perigoso, e há aqueles que em seu fanatismo, apenas precisam de um “A”, para virem para cima. – E não quero mais responsabilidades por danos aos outros. É uma questão de sobrevivência.

    Enfiar nossas crenças na goela alheia, é como forçar a pessoa a aceitar nossas filosofias. – Eu sei que funcionou para os cristãos, mas o medo é tão eficaz, que hoje os fiéis se uniram a outras crenças, por não aceitarem a intolerância religiosa. Então o temor, embora funcione, não se compara a força do amor pelo quê se faz. Por isso se quer mesmo trazer, alguém para o seu lado – Vá na mãe de santo mais próxima, e coloque o nome da pessoa numa roda. Brincadeira!

    Tente explicar-lhes sobre a sua fé, e quando for confrontado, apenas faça comparações, que o ajudem a perceber que no fim seu amor pela divindade, não é tão diferente, do quê o quê sentem por Cristo. – Sua vida está tão difícil por quê não larga dessa tal magia e abraça o nosso senhor? Já me disseram e respondi Da mesma forma que você ama o seu senhor, apesar das dificuldades, eu também amo a Lúcifer, e assim como tu se identificas com Cristo, eu me sinto mais confortável andando com o deus romano. Foi o suficiente para seguir em paz, nunca mais tocou-se no assunto, e a amizade seguiu  a mesma.

    Não tente humilhar ninguém, a não ser que a pessoa realmente mereça tal castigo. – Eu pessoalmente odeio “lacrações”, porquê é algo desnecessário para sociedade, e trata-se de gente, que quer “arrasar” apenas repetindo o discurso alheio, como se fosse uma verdade absoluta. A pessoa aparentemente refletiu sobre algo, mas no fundo não se deu o trabalho de questionar, e apenas uniu a ideia do autor, a coisas que ouve no cotidiano. Chega a ser – me perdoe pela expressão – Patético, pois a preguiça intelectual se torna mais do quê evidente. – Por isso fica a seu critério Expor a sua ideologia ou não–  Mas lembre-se Bruxos (a) de verdade, não tomam os problemas da sociedade como seus. – Eu sei soa frio, todavia é assim que funciona, pois devido a enorme gama de poder, que um ser desses possui, se ele coloca as suas emoções em jogo, certamente isso traz consequências, que dificilmente são agradáveis. Hoje destrói um ditador, amanhã impede o seu país de prosperar, e todos acabam na miséria por exemplo.

    Não estou dizendo,  que não deve defender aquilo em quê acredita, estou apenas esclarecendo, que precisa ter noção do quê defende, antes de ir as ruas ou redes sociais. – Não seja mais um papagaio da fé, e somente parta para a guerra, se o conceito do outro, realmente te ferir, de uma forma, que precisa colocar todo o ácido para fora. – Este livro não é para passivos, ou atacados, mas sim guerreiros que sabem quando devem erguer a voz.

    Isto nos leva a um tópico interessante. Não ataque a tudo e todos, apenas porquê não te aceitam. Aprenda a si amar, e não ligar para opiniões repulsivas. – Não ligar mesmo, ou seja ouvir, e entrar por um lado e sair pelo outro, sem sair por aí dizendo “Eu não ligo! Não adianta tentar me atingir! Pois não vai conseguir!” já que se o fizer, estará claramente agindo de maneira contrária, ao que disse.

    Aprenda a controlar a sua raiva, ou ela te controlará. – Não haja por impulsos, pois isto pode custar muito caro para você, ou os seus colegas. – A ira nos faz ter pensamentos num segundo, cuja responsabilidade pesa por uma década.

    Haverão muitos grupos, que exaltarão a fúria, e te dirão para destruir tudo e todos. Mas não te falarão, que você pode ferir alguém gravemente, ou até mesmo matar o alvo escolhido. – Porquê a maioria que venera estas forças, não se dá ao trabalho de conscientizar os seus do perigo.

    Aprender a controlar a sua raiva interior, não te fará mais fraco. Mas sim capaz de realmente arrancar o coração, de um inimigo velado, sem sequer se importar se isto pesa ou não na consciência, pois terá ciência, de quê se chegou a tal ponto, foi algo necessário, e será mais difícil de se arrepender. Só que se o fizer, apenas por causa de um segundo de raiva, a culpa mais tarde vai te consumir, e caso isto não aconteça, sugiro que vá urgente ao psiquiatra, pois a sua falta de empatia, é algo assustador.

    Aceite a natureza, e a proteja, não tente modificar a ordem das coisas. – Nós somos carnívoros, está no nosso DNA, desenvolvemos caninos para devorar carne. Se você quer cuidar da natureza, comendo apenas frutas e vegetais, tudo bem, mas não venha tentar obrigar os outros a seguirem a tua doutrina. – Cada um em seu nicho lembra?.

     “Um leão pode devorar um ser humano, mas o ser humano não pode devorar o leão”? A onde isto é natural na cadeia alimentar? Por quê o leão tem que ser superior ao homem, em vez de haver um termo de igualdade entre ambos? A ciência não tem dito a anos, que o homem tem parentesco com os primatas, e logo é um animal também? – Eu sei isso pode ser desagradável, mas o natural não se baseia em veados e leões, andando lado a lado como amigos, da mesma forma, não pode acontecer com os humanos e os seus irmãos animalescos. Não importa se é racional. A falta do instinto caçador, nos torna dóceis, e mais fáceis de sermos manipulados por entidades obsessoras. – É claro esta é a minha opinião, escolher seguir ou não é de você, mas antes de sair levantando bandeiras a favor do meio-ambiente, pelo menos conheça o quê defende.

    Isto significa que eu, Lux Burnns, sou um monstro, a favor da caça por diversão, e outros meios de entretenimento humano, que humilham os animais? Não, o preto e branco, não se encaixa a mim. Uma coisa é respeitar a natureza, outra é usá-la como posse, da maneira que bem entender. – Por mim as fábricas de comida, deveriam promover o abate misericordioso, semelhante aos dos banquetes de festividades africanas.

    Sempre respeite a crença alheia. Você ama Odin e seu parceiro a Lúcifer. Mas e daí? Cada um segue a divindade que desejar, e aprende com a mesma. – Novamente lembre-se da metamorfose da borboleta, se mexer no casulo, ela morre.

    O mesmo vale para os seus pais. Se você vive com eles, lhes deve muito, por te darem um teto, comida, e as vezes até roupa lavada. Então não os desafie, ou os desmereça por causa de crenças diferentes. Vocês são de tempos diferentes, foram colocados juntos, para aprenderem uns com os outros, não se destruírem. – Seja maduro, saiba argumentar, e lutar como um nobre, pelo seu ponto de vista. Se agir assim, eles provavelmente verão, que a tua filosofia está te tornando alguém melhor, e que não precisam se preocupar. Agora se sair berrando, quebrando os móveis da casa, batendo a porta do quarto, mesmo que eles só queiram conversar, tudo o quê vai ganhar com isso, é mais abordagens, que demonstrem medo do caminho que está tomando. – Falo por experiência. Iniciei minha vida mágica da pior forma, e só depois que adotei esta postura, por causa de Anton Lavey, a guerra em casa acabou. Rebeldia com causa é algo louvável, mas rebeldia por rebeldia, nada mais é que tolice. – Se eles  ainda sim, não permitirem que faça os cultos dentro de casa, vá para fora, se for ruim, procure algum canto seguro, onde possa praticar, sem causar problemas em seu lar. – Nem sempre será um método efetivo, mas é melhor ter aliados dentro de casa, do quê inimigos.

    Por fim sempre tenha em mente, que sentir-se superior, não significa ser superior. Para torna-se assim, terá que ter atitudes que condizem com tal postura. – Não me mande beijos de luz, se a sua única intenção é me queimar. GsolitaryDevil.

    Capitulo 9 – Os Deuses e o Fim da farsa da realidade dualística.

    Este é o fim da sua jornada comigo, e o ínicio de algo ainda maior. Como disse lá no início, há autores infinitamente melhores, e não estou aqui para me apropriar dos seus cargos ou teorias. – Apenas estou apresentando-as com uma linguagem mais direta, para que saibam exatamente o quê praticam, de acordo com a interpretação aceita por outros ocultistas. 

    Até aqui temos trabalhado sobre as grandes causas sociais, que afligem a comunidade mística, e muitas vezes defendi que a realidade não é dualística. Mas para fechar este pequeno guia, me aprofundarei nesta questão com uma explicação mais extensa. – É neste ponto que você vai decidir, se quer continuar sendo ocultista, ou prefere tomar o caminho mais simples, adotando alguma religião por exemplo.

    Desde que éramos jovens, nos ensinaram a dividir o mundo entre homens e mulheres, bem e mal, fogo e gelo, guerra e paz. Nossos pais – na maioria das vezes – nos diziam “No mundo há Deus que é o bem, e há Satanás que é o mal. Deus é luz, Satanás escuridão. Deus é água, Satanás é chamas.” 

    Apesar de não discordar, dos conceitos acima apresentados – com exceção a Deus ser luz, mas é pessoal – creio continuarmos a segui-los é errado. Já aprendemos muito sobre as duas metades, então por quê deveríamos continuar trabalhando-as de maneira separada? 

    Está certo, a iluminação é importante, mas as sombras também são. É preciso que haja um ou o outro, para quê o todo exista. Não adianta tentar tirar um dos números da equação, senão dificilmente encontrará o valor de X ou Y.

    Devido a minha conexão cósmica, estudei não somente astrologia, como astronomia, física, e biologia. Pensei a príncipio, como muitos magos, que era apenas uma imposição social, para nos manter ignorantes perante a verdade do universo. Mas foi então que percebi, que a culpa da divisão não era dos cientistas, em sua maioria religiosos, e sim dos novos filósofos da internet, que empregam o conhecimento científico, apenas para atender os seus próprios conceitos mesquinhos.

    “Deus não existe.” Dizem todos os ateus, que esqueceram-se de questionar, adotando uma conduta massificada, e muitas vezes tomam como prova inconstetável, as palavras de grandes pensadores, que foram queimados como hereges. Oras meus amigos, se Deus não existe, naturalmente nada mais do mundo místico é real também. Inclusive Lúcifer, Odin, Hel, Osíris, Ísis, Seth, Zeus, Deméter, Amon, Baal, Krishina, e vários outros deuses, pois se o suposto supremo não é real, o resto dificilmente pode ser considerado como tal. O velho barbudo de sandálias que conhecemos, nada mais é do quê uma imagem criada por homens, que compilaram antigos escritos, num livro chamado bíblia sagrada. – Então quando se entrega a crença, de adorar o Deus do impossível, você indiretamente está se conectando com alguma destas divindades do velho mundo, por isso o uso de versículos, para atingir determinados objetivos.

    Espera Lux Burnns, filha de Lúcifer e Lilith, neta da gigante Tiamat, você está sugerindo que devo me converter? Calma! Não, isso jamais. Alimentar a ideia de quê este deus é supremo, é o quê torna ainda mais forte, não lembra? 

    Só que também não se pode descartar o inegável, de quê esse grande mosaico mal feito, também é parte da nossa cultura, e que desprezar alguns dos seus fatos, é o mesmo que massacrar a própria doutrina. – Por isso se prender ao lado A ou B, é errado. 

    “Ah mas a deusa x é maior que o deus y.” ou “O deus y é maior que a deusa x” Já chega de se prender a isso. Queres realmente acessar o poder máximo, nesta realidade limitada? Então pare de abraçar apenas a causa que te convém, e aceite que o quadrado é feito de dois triângulos, ou o círculo é formado pela união dos mesmos. – O quê isto significa? Que a realidade não se resume, a deuses C e D, e que não é necessário comprar as suas brigas, para que adquira o seu respeito, ou realizem os seus objetivos.

    Nem mesmo estes deuses são originários do príncipio feminino ou masculino, mas sim da união de ambos, que nasceram do verdadeiro ser supremo, que não é Jeová, Cerridween, ou nem mesmo Tiamat, apesar do quê muitos acreditam.

    Se você é iniciante, será um choque, mas a realidade precisa mostrada desde aqui, para que entenda a perda de tempo, que é lutar apenas de um lado. Então prepare-se, pois a origem do universo, de acordo com os antigos, lhe parecerá absurda, se ainda continua abraçado apenas a positivos e negativos:

     Mitologia súmeria

    Cosmogonia

    “Antes de todos os antes, nada existia, a não ser Nammu, o abismo sem forma. Um dia, Nammu resolveu espreguiçar-se, e novamente voltou a enrolar-se. Com esse gesto, ele criou Ki e Anu, respectivamente a Mãe Terra e o Firmamento. Deles nasceriam todos os demais deuses, o tempo e, no futuro, o homem, que seria feito de argila.”

    Superinteressante 28/05/2019

     Mitologia Egípcia: 

    Cosmogonia 

    Neterus Primordiais:

    São os deuses mais importantes os quais estão associados com o mito de criação (origem do universo):

    • Nun (Nu ou Ny): simbolizava a água ou o líquido cósmico que deu origem ao Universo.• Atum (Atum-Rá, Tem, Temu, Tum e Atem): representa a transformação de Nun, sendo considerado aquele que deu origem a explosão do Universo (semelhante ao Bing Bang) e que gerou os diversos corpos celestes, separando assim, o céu e a Terra.• Amon (ou Amun): esposa de Mut, ele é considerado o rei dos deuses.• Aton (Aton ou Aten): relacionado ao sol, ele foi o deus do atomismo que estava relacionado com o disco solar.• Rá (ou Ré): deus da criação, sendo um dos principais deuses do Egito.• Ka: força mística que representava a alma dos deuses e dos homens.• Ptah: marido de Sekhmet e de Bastet, representava o deus criador e protetor da cidade de Mênfis. Além disso, era considerado deus dos artesãos e arquitetos.• Hu: representava a palavra de criação do Universo.

    Toda Matéria 28/05/2019

     Mitologia Hindu

       Comosgonia 

    A Mitologia Hindu está fundada nos Vedas, que são os livros sagrados dos hindus. Segundo a crença, o próprio Brahma os  escreveu. Brahma é o Deus supremo da tríade hindu. Seus atributos são representados pelos três poderes: criação, conservação e destruição, que formam a Trimuri ou trindade dos principais deuses: Brahma, Vishnu e Shiva, respectivamente, da criação, da conservação e as destruição.

    Brahma é o deus criador de todo o universo e de todas as divindades individuais e por ele, todas serão absorvidas. Ele se transformou em várias coisas, sem nenhuma ajuda externa e criou a alma humana que, de acordo com os Vedas, constitui uma parte do poder supremo, como uma fagulha pertence ao fogo.

    Infoescola 28/05/2019

     Mitologia Grega

    Cosmogonia

    No princípio de todos os mitos, houve um tempo em que nada existia no Universo além do Caos – a mais antiga, a mais inexplicável, a mais absurda das divindades. Nenhum poeta e nenhum filósofo grego imaginava o que teria existido antes dele: era o primeiro dos deuses, a sombra de loucura e confusão que está nas profundezas de tudo o que existe.

    O Caos ocupava todo o espaço do Universo. Nele, estavam misturadas as sementes de todas as coisas futuras: mas não havia ordem alguma, apenas um turbilhão sem sentido e sem fim. No poema As Metamorfoses, escrito no século 1 a.C., o poeta romano Ovídio descreve assim a terrível divindade que deu origem a tudo: “Antes que a terra, o mar e o céu tomassem forma, a natureza tinha apenas uma única face, chamada Caos: uma massa crua e desestruturada, um conglomerado de matéria composta por elementos incompatíveis… Nenhum elemento estava em sua forma correta, e tudo estava em conflito dentro de um mesmo corpo: o frio com o quente, o seco com o molhado, o pesado com o leve”.

    O Sol não iluminava o dia, e a Lua não brilhava à noite. Não havia chão para firmar os pés, nem mar para se nadar – todos os elementos estavam misturados num caldo primitivo. E as coisas, embora sempre em convulsão, não saíam do lugar: pois não havia sequer direita e esquerda, em cima ou embaixo, Norte ou Sul, dentro ou fora. O Caos era tudo e, ao mesmo tempo, nada.

    Superinteressante 28/05/2019

     Mitologia Nórdica

    Cosmogonia

    A narrativa das Edas conta que, no princípio, não havia nem céu nem terra, apenas uma enorme abismo sem fundo e um mundo de vapor, no qual flutuava uma fonte. Dessa fonte surgiram doze rios que, após longa viagem, congelaram-se e com o acúmulo das camadas de gelo umas sobre as outras, o abismo se encheu.

    Ao sul desse mundo de vapor, havia um mundo de luz, que soprando vapores quentes, derreteu o gelo que havia se formado. Esses vapores, ao elevarem-se no ar, formaram nuvens e destas surgiu Ymir, o gelo gigante e sua geração. Surgiu, também, a vaca Audumbla, que alimentou o gigante com seu leite e alimentava-se da água e sal contidos no gelo. Certo dia, quando a vaca lambia o gelo, surgiu o cabelo de um homem; no segundo dia, a cabeça e no terceiro, todo o corpo, com grande beleza, força e agilidade.

    O novo ser era um deus e dele e de sua esposa surgiram Odin, Vili e Ve, que mataram o gigante Ymir. Com o corpo do gigante morto, fizeram a terra, com o sangue, os mares, com os ossos ergueram as montanhas, dos cabelos fizeram as árvores, com o crânio fizeram o céu e o cérebro tornou-se as nuvens carregadas de neve e granizo. A moradia dos homens foi formada pela testa de Ymir e ficou conhecida como Midgard ou terra média.

    Infoescola 28/05/2019

    Notou uma semelhança? É novato, e A e B nada mais são que A+B, que resulta em AB, que é a resposta sobre o quê o cosmos é. Eu detesto matemática, mas é um cálculo aceitável. Só que esta presença de uma força, que é a soma de partes, não se encontra presente apenas no misticismo, ou em algebra.

    Na física por exemplo um átomo, é formado por prótons e elétrons, que significa respectivamente o positivo e o negativo trabalhando juntos. Isto é algo caiu para mim na sexta-série, mas estava tão focada em renegar o aprendizado mundano, que não pude perceber, o quanto isto podería me ser útil.

    Na biologia há os casos de partogênese, quando uma espécie assexuada, gera uma prole. Mas isto só é possível, porquê as mesmas carregam tanto os genes xx quanto o xy. 

    Esta é a natureza meu caro, esfregando em sua face, que as espécies não são definidas por machos ou femêas, e sim por aqueles que são dotados de capacidades, para dominar o reino em quê habitam. – No reino dos insetos a louva deus fêmea, fica no poder, porquê o ambiente a tornou capaz. No reino felino, especificamente dos leões, é o leão quem comanda, e assim por diante.

    Os humanos, pré-dispostos ou não, continuam sendo animais, por isso também são livres, para definir quem é apto ou não para determinado cargo, desde que estejam cientes, de quê os gêneros feminino e masculino, atuam como formas da valor equivalente, não desigual. Já que novamente, um sem o outro, tem poder, mas os dois juntos, geram a perfeita união que representa o nosso Universo.

    Portanto não se entregue a falácias dualístas, que só agregam valor a determinado grupo. Abrace o todo, entenda-o, e perceba que a união de muitos, é o quê realmente faz a força.

    Por fim guarde isto em sua mente: Bem e mal é relativo sim. Mas uma conduta, realmente correta, pode ser alvo de piada entre os demais. Não importa, se tu segues a luz ou as trevas. Sempre que resolver pensar fora da caixa, haverão aqueles que tendem a te “apedrejar” ou “queimar na fornalha ardente”, por sua postura nobre.

    Um satanista pode sim ser amigo de um cristão. Um bruxo pode sim ser amigo de um mundano. A única coisa que me parece imperdoável, é que ambos continuem, a tentar se destruir, por comprar a briga de seres, que claramente andam de mãos dadas.

    Sem o Inferno não há quem puna os criminosos pelos seus pecados terríveis, da mesma maneira que sem o Paraíso não tem recompensas maravilhosas. Sem a Guerra, não há razão para o Amor existir. Sem a luz não dá para ver na escuridão, assim como sem um pouco escuro, é impossivel enxergar na luz. Sem o fogo para aquecer, o frio nos congela. Sem o frio para nos aliviar, o calor nos queima. Sem a lança para atacar, o escudo pode não ser mortal. Sem o escudo, não há como se defender da espada. A magia branca nos ajuda a alcançar nossos objetivos, mas a magia negra, nos ajuda a sobreviver. O tudo é o todo, e o todo é a junção de todas as metades.

    Agora a sua jornada se encerra comigo, nobre peregrino, e espero ter te ajudado a encontrar o teu cálice dourado. Pegue-o, encha-o do vinho do saber, e embriague-se de conhecimento, pois como pôde ter notado, não importa o caminho que tomares, o destino sempre será o mesmo, mas é a perspectiva do conceito, que te trará paz ou desespero.

    Com muito carinho, Lux Burnns.

  • Não existe final feliz

    1
    Roberto tinha uma infância feliz. Não era de uma família rica, seu pai era mecânico, dono de uma oficina, com uma renda que permitia não faltar nada à família. Contudo não tinha luxos. Matriculou seu filho mais novo em uma das melhores escolas da cidade, prezava muito pelo seu futuro. Já  o mais velho, Victor, com nove anos, o ajudava na oficina depois da escola.
    Era uma noite chuvosa, seis meses depois de seu quinto aniversário, Roberto brincava com seu bonequinho do aliens, que lutava incessantemente contra seus comandos em ação. Esses soldados precisavam defender o forte montado em cima da cama, com cobertores, a qualquer custo, o futuro do universo dependia disso. Ótimos brinquedos da década de 90.
    Neste dia, ele brincava sozinho, seu irmão fora dormir na casa de um amiguinho, mas se lhe perguntassem ele preferia quando seu vizinho o visitava. Felipe era apenas um ano mais novo, praticamente um irmão menor, e quando ele o visitava, Roberto podia montar uma fase de vídeo game na sala, passando pelo corredor até seu quarto. Escondia os bonecos do mal e com o avanço de Felipe, essas forças se revelavam aos poucos. Roberto sempre deixava Felipe ganhar a brincadeira, se por algum motivo ele morria, Roberto inventava uma forma de “continue”. Uma vez até deixou seu amigo mudar de boneco para seguir com a brincadeira. Ficava feliz com a companhia, com as risadas, não precisava de nada além disso.
    Era uma criança com felicidade plena, não sabia que isso não duraria para sempre. E naquele dia, ele não sabia, mas a felicidade de todo o seu futuro começava.
    Na cidade de São Caetano, um casal transava apaixonadamente. Eles batalhavam muito todos os dias, chegavam em casa estressados. A renda não era suficiente para cuidar da filha de dois anos e as dívidas cresciam. Por alguns meses parecia que o amor não existia mais por ali (mas existia, pressionado por todas as preocupações) e naquele dia, com o anúncio da promoção de Alberto e a expectativa de Carmem ser contratada, o alívio foi instantâneo. Na cama lágrimas felizes rolaram, de ambos.
    Foi uma noite única e intensa...
    Ainda não sabiam que desse amor uma semente germinou e nove meses depois nasceu aquela que iria ganhar o coração de Roberto para sempre.
    2
    Sarah nasceu uma linda menina, saudável. Aquele dia, no hospital, era só de risos e sorrisos. A família toda presente, primos, avós, tios e tias, e, principalmente, sua irmã mais velha. Thais, ao vê-la sorriu como nunca antes, aproximou seu rosto daquela infante e disse “você é, e sempre será, minha melhor amiga, vou cuidar muito de você”.
    Carmen conseguiu se consolidar no emprego de caixa de banco, a família planejava se mudar para São Paulo, ficar mais perto do trabalho e economizar tempo, pois este era o bem mais valioso que possuíam. Conseguiram comprar um apartamento na planta, com um preço incrível, e se mudaram pouco depois do aniversário de 2 anos de Sarah.
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    Roberto era tímido, pouco conversava com garotas, tentava ser bonzinho com elas. Sempre torceu para que alguma visse a bondade em seu coração e se apaixonasse por isso. Foi apenas com 15 anos que beijou pela primeira vez e foi incrivelmente bem, não bateram os dentes nem nada parecido, foram apenas um pouco desajeitados, mas foi bom. Era o primeiro beijo daquela garota também, que era dois anos mais nova do que ele.
     Namoraram por algum tempo, só que ela sempre o deixou como opção, pois preferia sair com outras pessoas. Não o traia, contudo, dava atenção para diversos homens que a cortejavam. Talvez por isso ela tenha terminado com ele. Ela procurava algo que não encontraria ali, não sabia explicar, ou talvez apenas quisesse se divertir, era nova demais para algo sério.
    Com 17 anos, Roberto perdeu sua virgindade. Conheceu uma garota pela internet, usavam Orkut, ele achava que essa rede social iria durar para sempre, era tão divertida.
    A garota foi até sua casa e não havia ninguém lá além dele. Tiraram a roupa, fizeram um pouco de preliminares e, então, transaram. Roberto achou estranho durar tanto tempo, nos filmes a primeira vez dos rapazes é sempre tão rápida, ele levou pelo menos meia hora antes de terminar. A garota ficou grata, ela não sabia que ele era virgem, pois ele lhe disse que não era (pequenas mentiras de flerte), achou que seria perdoado por isso. O contato deles diminuiu e nunca mais saíram.
    4
    Sarah era um anjo na Terra, todos gostavam de sua companhia, ela emanava uma luz própria deixando todos ao seu redor felizes. Com 12 anos o menino que ela gostava, Marcelo, agiu rapidamente e encostou seus lábios nos dela, sem que ela tivesse tempo de reagir. Estavam no pátio da escola, vazio, ela tinha atitude e disse “venha fazer direito” dando seu primeiro beijo de verdade.
    Deste dia em diante, andavam sempre de mãos dadas na escola, fosse no começo da aula, no intervalo ou depois, e foi com ele que, aos 16 anos perdeu, a virgindade. Foi um momento mágico, ela gostava de assistir filmes pornográficos femininos, tinha uma boa ideia do que fazer e o guiou, ela já parecia bem experiente, mesmo sendo sua primeira vez. Ele gozou, ela não, teve que continuar sozinha depois. Quando ele viu isso se ofereceu para ajudá-la, ela aceitou e teve seu primeiro orgasmo com outra pessoa.
    Ele sempre a tratou bem, mesmo dois anos mais velho, lhe dava flores, fazia juras de amor e a idolatrava. Ela nunca entendeu porque dezoito meses depois ele terminou com ela e foi morar junto com outra garota.
    Aquilo a magoou profundamente, mesmo entrando na faculdade de psicologia aos 18 anos, ela estava triste, deprimida e de coração partido, então resolveu se dar um tempo. Por quase um ano não se relacionou com nenhum homem, pensou em virar lésbica, mas sabia que não era algo que “se virava”. Nunca sentiu vontade de beijar uma garota, então conheceu Fernando que parecia um cara legal. Talvez as coisas começassem a se acertar.
    5
    Roberto entrou na faculdade administração de empresas aos 20 anos. Não conversava com muitas pessoas, não herdou a “boa praça” do pai. Seu primeiro semestre foi horrível, até que chegou na sala de aula e leu na lousa “Roberto, o sem amigos”. Aquilo partiu seu coração, principalmente porque, de certa forma, era verdade. Resolveu sair daquela aula e foi quando começou a beber. Logo, conseguiu sim fazer seus amigos na sala e na faculdade, conversava com um ou outro, e no semestre seguinte conheceu Adriana. Tornaram-se bons amigos.
    Ele a acompanhava até o metrô, embora tivesse que fazer todo o caminho de volta para pegar o ônibus para casa. Um dia torceu o pé feio, precisou andar de muletas por duas semanas para cuidar do ligamento do tornozelo. No primeiro dia, mesmo assim, a acompanhou até o metrô, ela achou lindo, mas pediu que não fizesse mais enquanto estivesse naquela condição. Ele não gostava de dar trabalho aos outros, se considerava bem independente, contudo, pediu para seu pai lhe buscar na faculdade durante esse tempo e deixá-la no metro antes de irem para casa.
    Seu pai tinha facilidade em captar as coisas no ar. Perguntou se ela era namorada dele, ele respondeu que não, talvez no futuro, então percebeu que gostava dela pra valer. No dia seguinte ele a beijou, foi um beijo bom, ela ficou vermelha e também gostou. Assim que seu pé ficou melhor e pôde largou as muletas, convidou Adriana para sua casa. Ela achou que ele iria tentar transar com ela, ficou um pouco receosa. Sua surpresa foi enorme quando ele apareceu com uma rosa, de toblerone, e apenas a pediu em namoro. Ela aceitou.
    Três meses depois a banda preferida de Roberto iria para São Paulo, ele a convidou para ir, ela disse que não, pois se conheciam há pouco tempo para isso. Ele não entendeu, mas foi com seu irmão. Foi o melhor show de sua vida. Uma garota pediu um beijo para ele e ele disse que não, pois namorava. Ela perguntou “onde está sua namorada, então?”, ele não soube responder e aquilo o chateou.
    Com o passar do tempo, Adriana se revelou uma garota muito ciumenta e controladora, exigia sempre ver o celular de Roberto, ele não gostava daquilo, mas deixava. Descobriu que a mãe dela era ainda pior com o pai, talvez fosse genético, talvez fosse ensinado, não sabia o motivo real por trás daquele ciúmes, contudo começou a ver uma aura muito negativa ao redor dela.
     Um mês depois, estavam sozinhos na casa de Adriana. Ela mexia no computador e decidiu ir tomar banho. Roberto não tinha muito o que fazer naquela casa e Adriana tinha trancado o banheiro, não pode se juntar a sua namorada. Decidiu mexer no computador desbloqueado à sua frente e viu o Orkut dela aberto assim que a tela preta ficou colorida. Ali olhou o grupo de amigos e observou um grupo chamado “peguetes”, tinham 6 caras naquele grupo.
    Resolveu não olhar mais a fundo, apenas escreveu uma mensagem no computador dela dizendo “que bom que tem outras opções, mas não tem mais a minha”. Levantou, pegou seu carro e foi embora, de certa forma aliviado.
    6
    O relacionamento de Sarah e Fernando durou bastante. Seu coração parecia curado e ela se apaixonou, amou aquele rapaz como amou Marcelo, não tinha certeza se mais, ou menos, julgou melhor considerar como iguais. Cinco anos se passaram até que ela descobrisse as traições dele. Ficou deprimida de novo, fechou seu coração.
    Não sabia, mas mesmo com todo o sofrimento, seu brilho aumentava, era um ser iluminado que ainda não encontrara o par perfeito, contudo, aprendeu que o par perfeito não era algo necessário e que deveria ser algo que lhe acrescentasse, não aquilo que precisasse para viver.
    Sarah refletiu sobre seus amores antigos, pensou onde errou, onde acertou e dai cresceu em maturidade. Via como não gostava de ser contrariada, costumava abaixar a cabeça ou ficar irritada, descobriu que nenhuma das duas soluções era boa. De uma forma ou de outra acabava por guardar mágoas. Seu coração era nobre, sabia que poderia encontrar uma outra forma, poderia ser mais compreensiva. Ela não precisava aceitar tudo o que lhe impunham, também não tinha de ser rude, tinha que assimilar os erros dos outros, tentar entender, compreender sem julgamento, e, assim, ajudar as pessoas a encontrar um caminho melhor. A história de vida de cada um refletia em suas ações. Se uma pessoa não tem a perna e ganha uma prótese, ela não poderia esperar sair correndo no mesmo dia. A maturidade de Sarah demoraria, só que chegaria antes do que da maioria.
    Fechou-se novamente para os homens, apenas para coisas sérias, ainda queria aproveitar de outras formas e adorava sexo. Começou a sair mais com os amigos, a beber, a se divertir, ia para baladas e beijava um cara ou outro. Era uma garota linda em todos os sentidos da palavra, ficaria sozinha apenas se quisesse e quando a vontade apertasse conseguiria transar tranquilamente. Também resolveu aproveitar mais a família, era apaixonada por aquelas pessoas, desde sempre. Eles lhe faziam um bem imensurável.
    7
    A ficha de Roberto caiu e ele se cansou de tratar todos bem e ser usado, mal tratado e ter o coração partido. Resolveu mudar, começou a sair na noite com seus amigos, bebia, ao ponto de perder o controle e a memória, e ficava com a maior quantidade de mulheres possível. Não se importava mais, queria apenas transar, não queria relacionamentos. Dai em diante, diversas mulheres passaram por sua cama, diversas tiveram o coração partido por ele. Sua luz brilhava com uma intensidade cada vez menor e escurecia. Ele não sabia, talvez até não se importasse, achava que vivia os melhores dias de sua vida, ao custo de diversas pessoas entristecidas por suas ações e deixadas no caminho. Pelo menos ele não ficaria mais triste e desiludido. Tornou-se egoísta, egocêntrico e começou a tratar as garotas como simples objetos de prazer.
    No fundo não assumia para ninguém, nem apenas para si mesmo, que sentia o vazio no peito, seu coração não partia, pois estava oco, essa  sensação era pior. Não importava quantas vezes transasse ou com quantas, aquilo já não parecia certo, era tão fútil, superficial e aos poucos via que apenas o prazer carnal não era a solução de seus problemas.
    Dois anos se passaram e o buraco em seu peito crescia mais e mais, foi quando começou a sair menos. Já estava formado há dois anos, decidiu focar em sua carreira e arrumou um trabalho na Avenida Brigadeiro Luis Antonio. Todo dia pegava o metrô da linha verde de volta para casa, descia na Vila Madalena e de lá as vezes caminhava até sua casa ou se estivesse muito cansado pegava um ônibus. Preferia ir a pé, gostava de observar a cidade com calma, o céu escuro com calma, as vezes via algumas estrelas, gostava de ver a lua, principalmente cheia, seus pensamentos viajavam. Sentiu uma felicidade maior assim, com dias mais tranquilos.
    Certo dia, andando de volta para casa foi assaltado. Eram três garotos com uma faca, deviam ter 13 anos. Eram garotos mal trapidos e sujos, davam risada enquanto o roubavam. Aquela noite era muito fria. Por sorte esqueceu seu celular em casa e sua mochila estava cheia de casacos. Os garotos pediram para revirá-la e revistaram Roberto. Como demorou muito tempo, exigiram só o que ele tinha na carteira, havia apenas uma nota de dez reais, Roberto ainda pediu desculpas por ter só isso. Os três foram embora, dando gargalhadas.
    Antes de chegar em casa, com pesar no coração, Roberto sentou em um banco de praça e olhou para o céu. Era noite de lua cheia, linda, que irradiava sua luz, uma cena linda de se ver. E, então, ele sorriu sem reparar. Não sabia que alguns quilômetros dali, Sarah também olhava aquela lua, seu coração também triste, suplicava por dias melhores.
    8
    Sarah andava pela Avenida Paulista com alguns currículos na mochila. Imaginou que para ajudar no pagamento da faculdade um estágio em Recursos Humanos traria um salário maior do que nas outras áreas da psicologia, embora quisesse ter seu consultório próprio quando se formasse. Começou na Avenida Brigadeiro Luis Antonio, estação mais próxima de sua casa, e andou até a Rua da Consolação distribuindo seus currículos para todas as empresas no caminho.
    Todos ficavam impressionados com sua energia positiva, sua luz e alegria. Não demorou muito até ser contratada por um escritório de engenharia, próximo à estação consolação do metrô. Sarah tinha um poder incrível, ela atraia pessoas boas para seu entorno e nesse escritório não foi diferente. Muito embora uma ou outra pessoa não lhe tratassem tão bem, nunca foi desrespeitada, mesmo sua chefe sendo ríspida em algumas situações e muito exigente, sentia-se bem ali.
    Imaginou se teria uma carreira boa em recursos humanos, mas o pensamento não durou muito. Sarah era uma garota muito decidida, alguns podem dizer que ela era cabeça dura, mas decidira por um consultório e é isso que ela teria.
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    Era uma quarta feira nublada de outono, Roberto saiu do trabalho no seu horário, 18h00, como sempre saia.
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    Era uma quarta feira nublada de outono, Sarah saiu do trabalho no seu horário, 18h00, não era algo tão comum, mas lhe agradava muito.
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    Roberto, com seu fone de ouvido tocando ACDC, não viu que na estação Trianon Masp, aquela linda garota de cabelos ruivos saiu do trem dela correndo para pegar o metrô no sentido contrário, o mesmo que Roberto estava.
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    Sarah correu para o vagão à sua frente. Um antes que Roberto se espremia entre dezenas de pessoas que tentavam voltar para casa ou iam para seus cursos. Ela precisava correr de volta ao escritório, pois esqueceu o trabalho da faculdade em sua mesa. Era dia de entrega e apresentação. Essas trapalhadas de Sarah sempre fizeram parte de seu charme.
    13
    Durante meses ambos passaram pela mesma estação, a Trianon, sem saber da existência um do outro, ele indo sentido Vila Madalena, ela indo Sentido Sacomã. Por algum milagre ambos passavam, quase sempre, ao mesmo tempo naquela estação. Infelizmente, ficavam em seus vagões, ali, uns 50 metros de distância um do outro.
    Roberto não se lembra disso, só que uma vez viu Sarah por um breve instante. Seu coração parou por um segundo, apenas para poder vê-la melhor sem tremer, então voltou a bater. Ali o dano fora feito, aquele rapaz tinha se apaixonado sem saber.
    No mês seguinte, Roberto andou pela calçada impar da Paulista e Sarah andou pela caçada par. No meio do caminho passaram um pelo outro, cada um pela sua calçada. Entraram em restaurantes distintos para almoçar e, quando saíram, passaram um pelo outro, cada um em sua calçada. O coração de Roberto acelerou e ele nunca entendeu o porquê.
    No carnaval ambos foram ao mesmo bloco, com pelo menos um milhão de pessoas entre eles. Roberto viu três pessoas bêbadas, ajudou duas a se levantarem. A terceira não conseguia, então, Roberto pediu para que as três ficassem por ali e conseguiu chamar uma bombeira para ajudar. Logo, uma cadeira de rodas passou e levou o trio embora. Sarah nesse momento beijava um rapaz que acabara de conhecer, era o terceiro do dia, mas este foi o único que lhe pediu o contato. Ela deu, achou-o simpático, não se importaria de transar com ele algumas vezes.
    Sarah e Roberto andaram de encontro um ao outro, no meio do caminho ele teve seu celular furtado. Um reboliço aconteceu, pessoas se aglomeraram, alguém viu quem furtou o celular e uma briga generalizada aconteceu. Sarah viu de perto o que acontecia, talvez até tenha visto Roberto de relance, ela não sabe. Conversou com seus amigos e decidiram que o carnaval tinha acabado naquele momento. Foram embora.
    Roberto caminhou até a delegacia mais próxima, sentiu uma sensação estranha, não soube explicar. O que ele não compreendia é que enquanto entrava naquele local cheio de policiais, se tivesse parado naquele momento e olhado para trás, veria os cabelos ruivos deslumbrantes de sua amada. Talvez ainda não fosse a hora, não estivessem prontos um para o outro.
    Em quatro dias de carnaval, Roberto não ficou com ninguém, sentia aquele vazio crescer e sua tristeza aumentar. Também sabia que beijar outras pessoas, naquele estágio de sua melancolia, tão somente faria sua tristeza aumentar. Contudo, dois meses depois, conheceu Ana Clara e sua amiga Natália. Em quatro dias de carnaval, Sarah beijou uns 10 caras, entre eles William, com quem saiu algumas vezes e dois meses depois conheceu seu amigo Flávio.
    No mesmo dia em que Roberto levou duas garotas para sua cama, Sarah foi ao motel com dois homens. Ele gostou da experiência, mas ainda preferia a privacidade e exclusividade de uma casal, a atenção mútua de um para o outro, a entrega de um ao outro, não que fosse recusar participar de outros ménages se tivesse chance, era realmente uma experiência incrível, mas nada superaria o que o futuro lhe reservava. Sarah, por sua vez, gostou do ménage, os dois homens foram carinhosos e a trataram bem. Foi uma experiência única, gostou, mas não faria de novo.
    14
    Chegou a formatura de Sarah, que transbordava felicidade com sua nova profissão. Podia fazer aquilo que amava, ajudar outras pessoas a melhorarem de seus conflitos pessoais e a se sentirem bem, se conhecerem melhor e a se aceitarem. Abriu seu tão sonhado consultório com uma amiga da faculdade. Seus pacientes a adoravam, alguns até ficavam “tristes” em serem curados e não precisarem mais visitá-la.
    Naquela tarde tinha decidido almoçar com sua irmã e aguardava ansiosamente por aquela hora tão rara que poderiam partilhar. No meio do caminho o carro de Thais quebrou perto da Avenida Doutor Arnaldo. Faltava pouco para chegar à Avenida Paulista. Havia decidido ir antes para dar uma volta no shopping em seu dia de folga, enquanto esperava sua irmã, agora temia pelo atraso que aquele carro iria lhe causar. Abriu o capô e viu, tristonha, a fumaça sair.
    Decidiu pegar o celular da bolsa e tentou ligar para o seguro, mas não achava o cartão de jeito nenhum. Pensou em procurar na internet pelo seu Smartphone. Contudo, o dono do restaurante, que ficava em frente de seu carro quebrado e observou toda a cena, perguntou se poderia ajudar de alguma forma. Thais ficava feliz em ainda encontrar pessoas boas naquela cidade grande. Ele lhe indicou uma oficina mecânica por perto, o dono era um velho amigo que almoçava ali quase todos os dias, iria se aposentar logo, mas seu competente filho assumiria os negócios da família. Ela aceitou a ajuda e em poucos instantes, Victor apareceu em uma pick up Strada. Mexeu algumas coisas no motor do Clio velho de Thais e o rebocou até a oficina.
    Thais e Victor conversaram por muito tempo e, logo, pareciam velhos amigos.
    Ambos namoravam, quase casados. Moravam juntos com seus respectivos e isso não impediu de ali nascer uma amizade instantânea. Victor se ofereceu para dar carona a ela, seu pai permitiu, só pediu para que não demorasse muito. Thais ligou para seu namorado e explicou o que aconteceu, ele foi bem compreensivo, pediu para marcar um jantar de agradecimento em outra oportunidade. Victor aceitou e levou Thais até a famosa avenida.
    - Ali está minha irmã, é a ruiva. Pode parar, obrigada e desculpe pelo incômodo!
    - Incômodo nenhum! Por favor, este é meu telefone, mande mensagem amanhã que talvez o carro já esteja pronto. E tome cuidado na volta.
    Victor viu Sarah pela primeira vez, achou-a linda, ruiva de olhos verdes, imaginou que ela poderia ser perfeita para alguém que ele conhece, mas quem?
    15
    Mais um ano se passou, a amizade entre Thais e Victor se fortaleceu. Roberto saia com Aline, uma garota bondosa, mas seu coração ainda pertencia ao ex. Seu trabalho exigia longas horas de seu tempo e naquele sábado ela não pôde ir com Roberto e Victor à casa de Thais. Era um pequeno almoço e pela primeira vez Roberto e Sarah se viram. O coração dele bate mais forte, talvez, de alguma forma, lembrasse daquele dia no metrô, talvez não. De qualquer forma ele se apaixonou de novo.
    Mas dessa vez lembraria...
    Em poucos instantes decorou aquele rosto perfeito, aqueles olhos verdes maravilhosos, aquele cabelo flamejante, aquele brilho de luz incessante que emanava daquela garota e sorriu.
    Ela apenas pensou “que homão da  porra”, mas sabia que ele namorava ou algo do tipo.
    Foi uma tarde alegre, com muita conversa, muita risada, Roberto ficou amigo de Thais e de seu namorado. Pouco conversou com Sarah, afinal ele saia com alguém e tinha medo do que poderia acontecer se passasse muito tempo com aquela garota maravilhosa.
    16
    Aline era um amor de pessoa, só que quando bebia se transformava. Quando a viu virar uma taça inteira de vinho, em um gole só, Roberto já imaginou que coisa boa não viria dali. Eles terminaram por três vezes e voltaram, Roberto sempre acreditou em segundas chances, terceiras, quartas.... contudo a pessoa deveria entender seus erros e tentar melhorar. Ele não via mais isso nela.
    Dois meses se passaram desde que Roberto conhecera Sarah, os efeitos que ela lhe causaram foram enormes e seu coração balançava (na verdade seu coração sabia exatamente o que queria), a relação entre ele e Aline andava muito desgastada e nada mudava de nenhum dos dois lados, ela continuava bebendo e se transformando, ele continuava ignorando os problemas de ambos e não conversava.
    Até que um dia brigaram por algum motivo bobo. Ele não conseguia se lembrar qual e, simplesmente, ficaram sem se falar. O orgulho de Roberto era muito grande, o silêncio perdurou por três dias, sendo quebrado apenas por uma mensagem dela no celular dizendo “acho melhor sermos apenas amigos”. Foi a última vez que se falaram.
    17
    Roberto passou seis meses solitário e refletiu sobre sua vida. Pensou em seus erros, como fora egoísta, mesquinho, orgulhoso e, mesmo quando imaginava fazer o melhor para as outras pessoas, normalmente tomava as decisões erradas. Não por ser uma pessoa ruim, mas por imaginar estar sempre certo. Ao invés de conversar, expor suas fraquezas, fragilidades, suas opiniões e fazer com que lhe entendessem, preferia ficar quieto e cortar qualquer discussão logo no começo, tinha um gênio explosivo que não queria botar para fora. Foi então que descobriu a verdade sobre si. Era medroso, tinha medo de encarar os problemas, de expor esse seu lado mais humano, só não sabia ainda o porquê.
    Seis meses foram um longo tempo, mas o necessário para que Roberto finalmente amadurecesse. Ele não sabia, mas, enfim, estava pronto para os melhores dias de sua vida.
    18
    Em uma conversa com Thais, Roberto descobriu que Sarah era solteira e achou a oportunidade perfeita para saírem. Chamou todos para um pub, todos gostavam de ouvir Rock, então aceitaram. As duas famílias torciam para que aquilo desse certo, Roberto e Sarah eram muito queridos.
    Quando Sarah chegou, as pernas de Roberto ficaram moles, borboletas voaram em seu estômago, seu corpo ficou frio por um breve momento. Então, seu coração acelerou como se ele tivesse corrido uma maratona. Respirou fundo, tomou duas garrafas de cerveja e ficou pronto para conversar com ela que, sem perceber, viria a ser o amor de sua vida.
    Roberto e Sarah saiam há 3 semanas quando marcaram um encontro e neste beberam muito, a ponto de quando voltaram para casa mal conseguiram achar a cama. Naquele impulso alcoolizado transaram pela primeira vez. Eles não fizeram amor naquela noite, fizeram um sexo bêbado, sujo e selvagem. Se ele, sem saber, havia se apaixonado a primeira vista naquele dia no metrô e a segunda vista (essa ele lembrava bem) quando a viu na casa de Thais, ela se apaixonou a primeira transada.
    Dali em diante os dois transavam sempre que podiam. Eram bem similares em libido e na forma como faziam, as peças tinham um encaixe perfeito. Sarah sempre via o brilho nos olhos de Roberto quando se encontravam, e Roberto se perdia no sorriso de Sarah toda vez que conversavam. O amor entre eles crescia cada vez mais, logo namoravam e não desgrudavam um do outro.
    19
    Então tiveram uma pequena briga. Roberto brincou com Sarah, disse que teriam uma ninhada de filhos se continuassem transando daquela forma e que ele iria gostar, Sarah disse que não queria ter filhos.
    A briga se intensificou, Sarah ainda tinha resquícios de não querer que discordassem dela, e Roberto tinha resquícios de seu orgulho tolo e de pensar apenas no próprio umbigo. Ela foi para casa chateada, ele foi para casa bravo. Ele mandou uma mensagem perguntando se ela chegou bem, ela respondeu que sim, e não se falaram mais naquela noite.
    No dia seguinte, Roberto apareceu de surpresa na casa dos pais de Sarah. Ela ainda morava lá. Ele pediu para ela sair, e ela fez, receosamente. Ele olhou nos olhos dela e pediu desculpas, disse que havia errado, que deveria ser mais compreensivo e, de fato, tentava ser, o que importava era ter ela ao lado dele. Continuou dizendo que se tivessem filhos ou não, parecia algo pequeno demais perto da felicidade que ela lhe trazia. Ela sorriu, aquele lindo sorriso de verão, pediu desculpas também, disse entender que ter filhos era um sonho dele, mas não era algo que ela queria, pelo menos não por enquanto.
    Ele queria ter dois filhos, ela não queria ter nenhum. O primeiro filho veio por acidente, em um final de semana romântico. Ela não tomava pílula e não quiseram usar proteção naquela noite. Ele pensou em tirar antes do gozo, ela falou que não, talvez tenha se levado pelo momento. Após o orgasmo dela, seu rosto de prazer mudou, por um momento, para uma expressão de desespero, para depois abrir espaço para um sorriso deslumbrante e um beijo rápido.
    - Acho que agora você será papai – disse Sarah sorrindo
    - Acho que agora você será mamãe – Disse Roberto antes de lhe dar um beijo apaxonado.
    20
    Roberto não entendia porque amava Sarah. Sarah não entendia porque amava Roberto. Eles eram tão diferentes, histórias de vidas diferentes, sensações diferentes, desejos diferentes, mas riam um do outro e de si mesmos sempre, a companhia que se faziam bastava para deixa-los felizes. Quando passavam tempo juntos esqueciam do resto do mundo. Existia apenas Roberto e Sarah, talvez por isso que se amassem, porque eram a melhor companhia um para o outro. O sentimentos deles era algo sem explicação, puro que apenas acontecia e eles decidiram parar de lutar contra para aproveitar aquele amor que não tinha interpretação, apenas a sensação.
    No mês seguinte, Roberto levou Sarah ao restaurante preferido deles. Era uma cantina italiana, onde beberam vinho, comeram um Fettuccine a Parisiense incrível e após um beijo apaixonado, ele ajoelhou, tirou de seu bolso um anel e disse:
    - Sarah, você é o amor da minha vida e te quero para sempre. Pensava que o melhor que poderia ter acontecido na minha vida seria ter te conhecido antes, mas vi que eu não estava pronto para ti. E você, talvez, não estivesse pronta para mim. Se te conhecesse antes, poderíamos ter nos separado, talvez para sempre, por alguma briga boba ou mágoas acumuladas. Crescemos muito e chegamos aqui. Você é perfeita para mim e se aceitar esse anel, quero passar o resto da minha vida tentando ser perfeito para você.
    Ela aceitou, o restaurante aplaudiu, algumas senhoras choraram, o dono do restaurante já conheci Roberto, disse que a janta era por conta da casa, mas em troca pediu um convite para o casamento. Roberto não sabia se era brincadeira ou não. Ee qualquer forma o convidou.
    Eles casaram um ano e meio depois. Leonardo foi carregado, no colo de Thais, e levou as alianças. Raquel, a preferida de Roberto e Arthur, o preferido de Sarah, nasceram nos anos seguintes e foram bem planejados.
    No aniversário de 15 anos de Leonardo, fizeram uma festa surpresa, todos os amigos da escola estavam lá e no mês seguinte viajaram para a Europa. Roberto sempre teve o sonho de morar por lá, sabia que teve que abrir mão disso por um amor, não teve um único dia que se arrependesse. Sarah queria conhecer todos os países do mundo, mas teve de abrir mão disso para construir sua família, não teve um único dia que se arrependesse.
    21
    Sarah morreu em uma noite quente de verão. Ela sempre gostou de se exercitar e naquela noite saiu para correr no parque perto de casa. Foi então que um mal súbito fez seu coração parar “por dois segundos”, enquanto corria e conversava com seu amor no telefone. Mesmo depois de tanto tempo eles não conseguiam desgrudar um do outro, o dia de tristeza veio em dobro, ela só tinha 53 anos.
    Roberto chorou, como nunca antes, não conseguiu se despedir do grande amor de sua vida e agora a perdera para sempre. Decidiu que era velho demais e apaixonado demais por suas memórias para procurar um outro amor. Sabia que aquela mulher era única, perfeita para ele e tudo o que pedia era ter cumprido a promessa de ter sido perfeito para ela. Nunca lhe perguntou, mas por todos os dias de sorrisos, risadas e juras de amor, achava que sim.
    Passou o resto de seus dias sozinho, mas não solitário, sempre teve a presença de seus filhos, netos e amigos. Não precisava de outra mulher, pois teve uma vida repleta de amor, de uma pessoa muito especial. A mais especial de todas.
    Demorou algum tempo, mas Roberto pensou ter sido melhor ela ir antes. Sabia da dor que ardia em seu peito, ficou grato por Sarah nunca ter sentido isso. Ela morreu como viveu, feliz. Era o ser mais iluminado que conhecera.
    22
    Deitado em sua cama de hospital, morria de câncer no pâncreas aos 86 anos. Naquela manhã seus três filhos estavam ao seu redor, então lhes disse.
    - Leo, Raquel, Arthurzinho, eu os amo e sempre os amei. Hoje eu sei que não existe final feliz, o final é sempre igual, é sempre a morte. A maior tristeza possível. Não se importem com as lágrimas deste velho tolo, apenas agradeço todos os dias por todos os começos e meios que tive com sua mãe e com vocês. Tive mais felicidades com ela do que uma vida poderia suportar, talvez por isso ela tenha ido embora tão cedo. Lembrem-se disso meus filhos queridos, aproveitem seus começos e meios, não pensem no fim.
    E com lágrimas escorrendo pela face e um sorriso esplendoroso, Roberto fechou os olhos naquela manhã melancólica de inverno, para nunca mais abrir.
  • NAVEGANTE DESTEMIDO

    Eu não temo a morte 
    Eu não temo a vida 
    Tenho arte atrevida 
    Não posso negar 
    Eu sou homem de sorte 
    E eu vivo sem norte 
    Navego sozinho 
    Por todo lugar
  • Notas sobre meu vizinho serial killer

    Eram exatamente 19:25 quando passei pela rua principal e lá estava ele de costas para mim, sempre de costas para mim... Às vezes, olho para cima e vejo mais que costas, talvez um sorriso ou um olhar de soslaio quem sabe. Talvez ele sinta a presença quando me aproximo e olho pro primeiro andar pelo gradeado da varanda, mas faz desdém e mostra as costas; ainda sim, sempre me vem aquela sensação de que no fundo, ele é mais que costas... talvez um peito largo, mãos bonitas com certeza tem.
    Meu vizinho não tem nome, está sempre sozinho, na rua anda em passos lentos, como que saboreando cada movimento dos bandos fúteis de jovens, dos risos falsos e alegrias fingidas. Às vezes me pergunto o porquê ele me ignora quando passo e várias respostas me vêm em mente, talvez o fato de eu ser jovem e fútil bastasse, mas não, nenhuma delas soa real ou convincente o bastante para eu poder deixar de lado.

    Quando eu era criança sentava na mesa com meus pais para o almoço de domingo, a comida posta, tínhamos que fazer a oração agradecendo a Deus pela benção de ter o que comer, hoje eu já não lembro das palavras que eu repetia por meio de sussurros, mas eu lembro muito bem das moscas que se aproveitavam dos olhos fechados e iam atacar nossa comida. Foi uma das grandes questões de minha infância pois deveria eu vigiar a comida enquanto meus pais agradeciam e ir para o inferno? Ou fechar os olhos e ignorar essa intrusão deixando assim que elas ganhassem?  Ah! Eu me lembro tão bem de como elas esfregavam as patas imundas enquanto se preparavam para o ataque.
    Dizem que as moscas só vivem 24h, para mim não, eram sempre as mesmas que perseguiam meu espírito, os mesmos rostos me arrastando para um poço de dúvidas sem fim. Pois bem, meu vizinho também esfrega as patas e essa é a sensação imunda que eu tenho quando estou perto dele. 

    Agora são 00:32 da manhã e do meu quarto posso ouvir os anjos cantarem ‘’Tende, pois, piedade dele, ó meu Deus! Ó Misericordioso Senhor Jesus, concedei-lhe o repouso eterno. Amém! ’’.  
    Certo dia eu li um livro que falava sobre anjos, os ‘’anjos caídos do paraíso’’ que foram condenados por Deus a viverem como mortais. Condenação pior existe? Creio que não. Segundo os relatos sagrados, Enoch, o homem que andava com Deus e, que também era pai de Matusalém, escreveu em seu livro, que os anjos chamados Vigias eram encarregados de vigiar os mortais aqui na terra, eram invisíveis ao homem e tinham uma pele tão alva quanto o amanhecer. Certo dia, no Monte Hermon, Semjaza, o líder do bando viu as filhas dos homens banhando nuas na fonte e gostou do que viu, sugeriu que todos desposassem as moças, e assim o fizeram. Por se rebelarem contra o Senhor, foram condenados. Às vezes eu também vejo anjos, vejo a morte em seus olhos de fogo, suas mãos largas, suas costas...

    Meu vizinho mata mulheres. Certo dia, passando pela rua principal, o vi com sacos plásticos pretos nas duas mãos, mais uma vez ele me ignorou; talvez saiba que sei ou talvez é a forma como ele faz tudo aquilo parecer normal, escondendo as provas do crime onde todos possam ver e ninguém desconfiar. É sempre assim que os bons fazem, mas eu sei, eu sei que sei. Ele mata mulheres, não mulheres como eu, mulheres. Tudo começa com a falta de vigia, almas vagas e flutuantes não observam ao seu redor, ele sabe disso, eu também. Esse é seu ‘’design’’, assim como as moscas, ataca quando fecham os olhos. Nem preciso falar que meu vizinho é um homem lindo, mãos largas, sua pele é o crepúsculo do dia, seu sorriso de canto sabe sempre a hora do lance, ele sente o cheiro das vítimas de longe, observa-as e se vangloria ‘’mais uma’’. Para pessoas bonitas a vida deve ser mais fácil, mas monótona com certeza, seduzir talvez nem seja preciso, um sorriso basta, a autoconfiança basta. Eu o observo sempre de cabeça baixa, sinto seus olhos em mim, sua inquietação, eu sei.
     
    Ele as chama para sua casa que fica no primeiro andar da rua principal, em baixo tem um jardim lindo onde as flores são tão vividas! Adubo orgânico, creio eu. Mas meu vizinho é lindo, acho que já disse isso; as mulheres aceitam seu convite tão satisfeitas, tão limpas... mal sabem que irão morrer depois de uma noite intensa de prazer e juras sussurradas. Elas deitam em seu peito e respiram fundo, sentem um cheiro de limpeza no ar, ou talvez um pouco de solvente, o importante é que elas sentem uma paz com ele, ou talvez a melhora que antecede a morte, agora isso eu já não sei.
    Um último beijo, devagar, bem devagar, ele sente a vida em suas mãos, tão frágil... na nuca, ela ri, expõe o pescoço para que ele possa melhor trilhar seus beijos suaves, ele ri.

    Às vezes eu penso de que maneira irei morrer, particularmente há dois tipos de morte que eu não gostaria de conhecer: acidente de transito ou carbonizada. Mas aí eu lembro de uma uma frase que minha mãe sempre dizia, ’’cuidado com as coisas que você deseja que nunca aconteçam com você, pois podem acontecer exatamente porque você teme’’. A morte sempre me fascinou, desperdiçava horas pensando em como seria o momento da minha ‘’passagem’’, isso sempre me intrigou; alguém vai segurar minha mão quando eu atravessar? A propósito, eu sempre pedia perdão pelas vezes em que deixava de orar para vigar as moscas.
    Meu vizinho não é rico, mas como eu disse e repito, é um homem lindo e, para as almas ociosas, isso basta. Ele desliza as duas mãos bem devagar sobre o pescoço dela, ela ri, acha que faz parte do ritual de amor, ele ri, pois é seu ritual de morte. Os olhos clamam por socorro, ninguém a ouve, olhos profundos, ele aperta com força, o corpo pesado sobre seu corpo nu...ela morreu.

    Ele a beija sem a vida, porém quente como um beijo de amor. Seus membros são cortados, ele sente prazer, é um dever, seu dever. Nada de guardar a cabeça no freezer como prêmio, meu vizinho guarda mechas de cabelo envoltas em um laço cor de rosa. Não as cozinha nem as come depois de mortas, ele faz adubo para o jardim, outras partes, mistura com seu lixo. Ele é um homem educado, fala com as senhoras que passam na rua, diz bom dia, e compra pão na mesma padaria que eu. Meu vizinho não deixa rastros, não deixa partes que possam ser identificadas posteriormente. Esse é o seu estilo.
    Sempre que o vejo, geralmente na rua principal, abaixo minha cabeça, não consigo olha-lo sem imaginar tais coisas. Certa feita planejei roubar um de seus sacos de lixo e comprovar minha teoria, mas sei que por uma obra do destino nada encontraria além de camisinhas usadas e litros de solvente. Me chamariam de louca, e isso eu não aceitaria jamais.
    Meu vizinho tem um jardim lindo, todo mundo o inveja.
  • Nunca Será

    Estava frio. Isso é tudo o que eu sou capaz de dizer sobre o tempo daquela noite. Você quer mais o que? Frio é frio, gelado, duro como um cubo de gelo, não há sentimentos no frio.
    Esse garoto apareceu do nada e já veio querendo conversar comigo. Engraçado que as pessoas sempre evitam moradores de rua, mas aquele cara era diferente, ou estava diferente.
    - Como vai? – perguntou.
    - Mal, está frio e eu estou dormindo em um ponto de ônibus.
    - Não deve ser tão ruim assim, morar na rua, quer dizer.
    - Quer trocar de lugar?
    - Bem que eu gostaria, minha vida está horrível.
    - Era só o que me faltava... – murmurei.
    A conversa poderia ter acabado bem ali, talvez tivesse sido o melhor para todo mundo. Percebi que aquele garoto não estava bem, mas fechei os olhos para isso.
    - Sua vida tá horrível? – continuei em voz alta. – Garoto, olha para mim, não tenho um teto decente sobre minha cabeça, nem uma cama quentinha para deitar. Tá reclamando de barriga cheia, coisa que, aliás, eu também não tenho, tanto no figurativo quanto na realidade.
    - Você não entenderia. Não é possível comparar a dor das pessoas.
    - Concordo. Mas isso não me impede de ficar puto quando me aparece um garoto reclamando a vida mesmo tendo coisas que algumas pessoas gostariam de ter.
    - Você nem sabe qual é o meu problema, e são dores diferentes.
    - Claro que sei. Uma garota, não é?
    - Não. Bem, em parte, mas ela não é tudo.
    - Qualquer que seja seu problema tenho certeza de que é capaz de aguentar. Deus não te daria uma cruz impossível de carregar.
    - Apenas o fato Dele dar uma cruz para gente O torna mal.
    - Falou e disse, na minha opinião Ele também deveria carregar uma cruz. Espera um pouco, acho que isso já aconteceu.
    - Não me importo. Ele me faz sofrer e ponto.
    - Você acredita em Deus?
    - Não de verdade. Se ele realmente existisse o mundo não estaria assim, eu não estaria assim.
    - Se Ele não existe quem te faz sofrer?
    - Então Deus existe e é culpado da minha miséria.
    - Ele nos dá a cruz, quem escolhe se vai ficar parado, suportando o peso dela para sempre, ou se vai continuar até que um dia essa cruz pare de pesar é você.
    - Tá dizendo que tenho que me conformar e continuar levando esse peso?
    - Eu não diria conformado, mas focado que um dia esse peso vai deixar de existir.
    - Quando?
    - Não sei, talvez na morte.
    - Então eu deveria me matar agora e todos os meus problemas iriam sumir?
    - Sim, mas aí você estaria escolhendo o caminho mais fácil.
    - E qual seria o problema disso?
    - Me diz você. O que é melhor? Experimentar o sofrimento agora, contudo suportar essa dor sabendo que um dia você irá experimentar a alegria, ou acabar com tudo agora apenas conhecendo o sabor da miséria?
    - Bom ponto, mas não é o suficiente.
    - Vai fazer o quê? Se matar?
    - É o plano.
    - Então vá, pelo menos assim eu durmo em paz.
    - Você não ficaria com peso na consciência? Por ter permitido que eu acabasse com a minha vida?
    - Quem deveria estar com peso na consciência é você, por querer fazer isso.
    - Se eu morrer ninguém vai sentir minha falta.
    - E você vive para eles ou para si mesmo?
    - O ser humano não é capaz de viver na solidão. É isso que está acontecendo comigo.
    - Você está solitário?
    - Sim, ninguém se importa comigo.
    - Pelo visto nem você.
    - Por que eu deveria?
    - Porque se nem você quer seu próprio bem como pode esperar que os outros queiram?
    - Às vezes nós mesmos não bastamos, precisamos de alguém.
    - E você vai achar esse alguém na morte?
    - Aqui é que não vai ser.
    - Errado, lá é que não vai ser. Mas como você sabe que não irá encontrar ninguém que se importe com você aqui?
    - Tenho 16 e nunca apresentei uma namorada pros meus pais.
    - Acha que precisa de uma? Isso é o necessário para te fazer feliz?
    - Bem, é um começo. Ter uma namorada é bom. É alguém para enfrentar os problemas ao seu lado.
    - Entendi. E você pretende encontrar essa companheira morrendo?
    - Não, mas ela não existe e nem vai.
    - E você por um acaso é Deus, aquele desgraçado, para prever o futuro? Porque se você for eu tenho algumas coisas para conversar contigo.
    - Não sou Deus, nem prevejo o futuro.
    - Então não venha me dizer que ninguém nunca vai gostar de você.
    - Até hoje ninguém gostou, e não falo só no sentido amoroso.
    - Você não gosta de si mesmo, por que acha que outra pessoa deveria?
    - As pessoas deveriam gostar de nós como somos, em qualquer situação.
    - É mesmo? Você tem mãe?
    - Tenho.
    - Quando ela está com raiva, você fica perto dela?
    - Não.
    - Por quê?
    - Ela começa a gritar comigo e me deixa irritado também.
    - Se você não fica do lado de alguém em qualquer situação, por que espera que as pessoas façam isso por você? Se quer reciprocidade não acha que deveria partir de você primeiro?
    - E por que nunca de outra pessoa? É sempre eu que tento falar com alguém, ou pergunto se está tudo bem. Estou esperando essa reciprocidade.
    - Entendo, você que se esforça e na hora do retorno nada acontece.
    - Exato.
    - Então existem dois caminhos, ou realmente essa pessoa não quer saber de você e insistir só vai te fazer mal, porque é verdade, pessoas decepcionam. A outra opção é que você não está enxergando o retorno.
    - Não enxergo?
    - Não, essa pessoa pode estar atuando indiretamente ou você está cego demais para ver o bem que estão te fazendo.
    - Faz sentido. Você é bem sábio, deve ter vivido muito.
    - Talvez, enfrentei problemas, como você, e ainda enfrento, mas não desisto, ainda espero ser capaz de experimentar a felicidade.
    - Não é feliz?
    - Não, mas continuo em frente, tendo esperança de que um dia vou ficar bem.
    - E se isso nunca acontecer? Terá vivido em vão?
    - A vida só é em vão quando você fecha os olhos para a esperança e mergulha no mar de tristeza.
    - Você vive a espera de algo, como isso pode ser bom?
    - Às vezes a espera guarda o que você precisa e não o que você quer.
    - Se eu sair daqui e me matar?
    - Terá jogado fora a chance de um dia poder ser feliz.
    - E se nunca fosse para eu ser feliz?
    - Se cometer suicídio nunca vai saber.
    - É arriscado e incerto.
    - Acabou de descrever a vida. A morte é bem certa e segura, mas não tem a recompensa que a vida pode ter.
    Aquele garoto foi embora e me deixou lá. No dia seguinte ouvi duas pessoas dizendo que um menino tinha se jogado de um prédio não muito longe dali, não tive dúvidas de que era ele. Preferiu a facilidade a dificuldade, mesmo sabendo que nunca haveria felicidade no caminho escolhido. Mas não era isso que ele queria? Ser feliz? Então por que
    decidiu ir por um caminho onde ele nunca será.
  • Nuvens Mortas

    Entrar naquele quarto seria o mesmo que quebrar mais ainda o meu coração partido.Todas as vezes que me olho no espelho vejo uma versão minha que eu não conhecia.A barba está grande,estou mais magro,sujo e olhos olhos inchados.Estou assim desde o dia daquele acidente.Aquele acidente que eu perdi as duas coisas mais importantes da minha vida.Eu pego meu celular para ver as fotos dela,mas ele está descarregado a dias.Eu com certeza perdi o emprego.Meus pais e meus amigos se afastaram,me dando tempo para recuperar daquele dia.Me lembro como se fosse ontem o dia que eu e meu amor estavamos colando nuvens rosas naquele quarto de boneca.Os olhos dela nunca haviam estado tão felizes,a barriga dela estava enorme e o sorriso estava tão vivo,assim como o meu estava.
      Arrasto meu corpo até aquele quartinho.Assim que abro a porta vejo o berço,as nuvens rosas na parede.Estava tudo pronto.Abro a cômoda e vejo aqueles sapatinhos rosas minuscúlos,as fraldinhas que nunca serão usadas.Uma vida que nunca será vivida.Estava tudo pronto.Agora aquelas nuvens rosas estão mortas assim como meus amores.Talvez um dia eu possa entrar nesse quarto para me consolar novamente.
  • O Anjo da Fazenda

    1
    Andy, meu querido Andy.... O conheci em uma tarde nublada. Pobre figura que apareceu em nossa porta. Mas isso é me adiantar na história. Acho que o antes preciso fazer as devidas apresentações. Eu morava em uma fazenda com minha esposa, após anos lutando pelos direitos negros, resolvemos que queríamos uma criança. Achamos melhor nos afastar de toda a turbulência dos protestos e da violência policial. Às vezes, me parecia uma causa perdida, às vezes parecia que dávamos passos curtos adiante.
    Assim, Sasha e eu decidimos nos mudar. Ela acabara de completar vinte e dois anos. Era meu amor de infância, nos conhecemos quando ela tinha apenas quatro anos e eu virava dos oito para os nove. Tivemos um pequeno romance infantil, andávamos de mãos dadas o tempo inteiro. Alguns meninos tiravam sarro, alguns branquelos nos agrediam. Isso nunca importou para nossa relação, sempre soubemos que éramos a coisa certa, sabe? Feitos um para o outro, o amor verdadeiro.
    Nunca nos separamos, abandonei o ensino médio para trabalhar, ela foi um pouco além. Sasha sempre foi um doce, a mulher mais inteligente que já conheci na vida. Também é a mulher mais linda do mundo para mim, mas se me perguntar a verdade, eu poderia dizer que ela parece que nasceu do avesso... Eu não sou lá essas coisas também, o importante é que nós dois nós amávamos... Sempre foi assim e sempre será. Nunca teria outra mulher.
    Com sete anos eu já lhe dizia que iríamos casar. Assim que ela completou dezoito fugimos e nos casamos. Foi uma cerimônia linda, apesar de ter sido pequena, apenas eu, ela e o padre. O padre, meio bêbado, nos casou em uma madrugada, éramos a senha cinquenta e sete, e atrás de nós havia uma fila enorme. Não foi o casamento dos sonhos, foi algo simples, feito por dois adolescentes fodidos e sem dinheiro, mas era o nosso casamento e ficamos felizes com a forma que aconteceu, aquele pedaço de papel de nada valia, O sentimento é que já éramos casados desde que nos conhecemos.
    Logo cedo trabalhei como empacotador em um supermercado, não era o melhor emprego do mundo, mas era fácil e pagava uma merreca. Sasha, com toda sua inteligência, conseguiu um emprego melhor e foi ser secretária em um escritório de advocacia. Foi quando os tumultos aconteceram, não lembro qual foi o estopim, contudo agora todos queriam lutar por um país melhor. No início participávamos, acreditávamos que traria mudanças. Bastou um policial mudar as balas de borracha por balas de verdade e uma dezena de protestantes morreu alvejada pela polícia. As coisas se tornaram violentas muito rápido.
    No protesto seguinte o número de mortos foi maior, cerca de vinte e sete. O terceiro foi um abatedouro, a quantidade de feridos passou de cem, não sei ao certo, acho que chegou perto da segunda centena. Os mortos foram quarenta e três, muitos por balas, muitos pisoteados. Foi quando decidimos ir embora daquela cidade grande. Com o dinheiro que guardamos. Conseguimos comprar uma pequena fazenda, nela colocamos nossa caixinha de correio escrito “Carter” na entrada. Aquele lugar era um lixo, precisou de muito trabalho e amor para se tornar a casa que os Carter mereciam.
    Tínhamos cerca de duzentos quilômetros entre nós e qualquer possibilidade dos tumultos, deixamos aquela cidade grande para trás, sem arrependimento algum. Um pouco mais próximo de nós, uns quinze qu quilômetros, tínhamos uma cidadezinha pacata para fazer nossas compras. Apenas o xerife da cidade nos visitava. Seu nome era Franklin, gostava dele, desde o começo nos tratou bem. Assim, resolvemos convidá-lo para almoçar em nossa casa, nunca vi um policial recusar uma refeição grátis. Depois de um tempo nos tornamos amigos, ele aumentou o perímetro de sua ronda para incluir nossa casa, sempre dividíamos as refeições, às vezes ele trazia algo, às vezes nós fazíamos e sempre tínhamos uma conversa agradável.
    Agora, lembro-me como eu adorava aqueles almoços saborosos sempre feitos por minha doce Sasha. Sim, ela fazia o almoço para nós dois e para as visitas que raramente apareciam, o xerife era o mais recorrente. Nosso combinado funcionava assim, o café da manhã era minha responsabilidade, às vezes levava na cama para ela, às vezes comíamos na sala, às vezes do lado de fora da casa. O jantar revezávamos, às vezes ela fazia, às vezes eu, mas sempre preferi quando fazíamos juntos.
    Em nossa pequena fazenda tínhamos paz, tranquilidade, uma vaca para o leite da manhã, seis galinhas para ovos e uma plantação suficiente para vender o excedente na cidade, na época certa.
    Eu não conseguia ir à cidade sozinha para vender nossos tomates e nossas cenouras. Por mais que não gostasse de deixar a casa sozinha, precisava que Sasha fosse comigo à cidade vender nossa colheita. Pretendíamos ter um filho e gostaríamos que ele tivesse as oportunidades que não tivemos e, meu amigo, oportunidades custam caro. O trabalho era duro e fazíamos apenas os dois. Acordávamos às cinco da manhã e acabávamos tudo perto das dez da noite.
    Depois de trinta e sete anos tentando ter uma criança, descobri que não poderia ter filhos, alguma coisa sobre baixa contagem ou fragilidade. Eu, honestamente, não sei, parei de escutar o doutor quando ele disse “você nunca poderá ter um filho”. Ainda tentávamos, minha doce Sasha sempre dizia que os médicos erram sempre nessas coisas e que se não fosse para ter meu filho, ela não teria com mais ninguém. Sabíamos que nunca teríamos uma criança e naquela região do país era difícil conseguir uma adoção.
    Foi quando meu aniversário de sessenta e sete anos chegou. Sasha fez um bolo de amora delicioso, como só ela sabe fazer. Sentamos em nossa varanda e passamos o dia conversando. Ela já estava doente nessa época, o sangue em sua tosse era normal de se ver. O médico disse que o câncer nos pulmões já era irreversível, que não havia muito a ser feito, não lhe faria bem algum ficar no hospital, presa e entubada. Sua recomendação foi que deveríamos aproveitar o tempo que nos sobrara. Nossa rotina não mudou muito, embora cada tosse dela fizesse meu coração partir um pouco mais.
    Foi quando o vi pela primeira vez...
    Andy apareceu em nossa porta. Era uma tarde nublada, chovera um pouco mais cedo, tornando a terra à beira da estrada em lama. Andy surgiu carregando uma pequena maleta de couro e vestia um terno surrado, grande demais para ele, e tinha lama até o joelho. Por sua aparência suja eu poderia jurar que ele caíra pelo menos uma vez em algum lamaçal, pobre criatura.
    - Senhor, desculpe lhe incomodar nesta linda tarde de verão, mas poderia lhe pedir apenas um copo de água, para que eu possa seguir minha viagem?
    Apenas um pouco de água para continuar sua viagem.... Olhando aquela aparência frágil, julguei que ele precisava de muito mais do que isso. Nós dessas cidades pequenas gostamos de ajudar, nos interessamos pelos outros, normalmente. Sua cara de bebê exclamava sua pouca idade, não tinha pelos no rosto, não poderia passar de vinte anos. Mas não caia nessa, nunca confio em um branquelo batendo na minha porta, sua educação sempre esconde alguma coisa. Achei melhor mandá-lo embora.
    Foi quando Sasha, que é quem tinha o coração maior, apareceu ao meu lado.
    - Boa tarde, menino, qual o seu nome?
    - Sou Andy Robbins, senhora. Muito prazer e uma ótima tarde. Teria a honra de saber o seu nome?
    - Somos os Carter, sou Sasha e este é meu marido George. Vou buscar sua água, espere um instante.
    - Muito obrigado.
    Sou uma pessoa muito sincera e preciso dizer que não fui com a cara de Andy. Não gostava de sua educação, não gostava de sua pouca idade e não gostava do fato de ele estar a pé, sendo que, por onde ele vinha, a cidade mais próxima tinha mais de cem quilômetros de distância. A parada de ônibus era mais perto, apenas uns três quilômetros, mesmo assim algo não me cheirava bem nele.
    - Para onde você está indo, branquelo?
    - Estou indo para a cidade, quero distribuir alguns currículos para conseguir algum emprego.
    - Você tem a cor certa para isso, não?
    - Desculpe? – ele indagou com uma expressão de dúvida.
    - A cidade que você quer está vinte quilômetros de distância, pelo menos se você for para oeste, para o leste terá que andar mais de cem.
    - Obrigado, senhor. Estou indo para o oeste, tenho uma boa experiência em trabalhos de fazenda e nunca estive em uma cidade grande, estou ansioso e com um pouco de receio. Sabe, desde que meu papai morreu e o banco tirou nossa terra, decidi arriscar na vida urbana.
    - Vem uma chuva forte por ai – diz Sasha voltando com um copo de  água – você não pode ir a pé até a cidade nesse clima. Por que não fica a noite aqui? Podemos armar uma cama no celeiro, se não se importar de dormir com Bibi, nossa vaca.
    - Amor, – eu disse em um tom baixo – não acho que devemos fazer esse convite.
    - Ora, George, você acha que um menino franzino e sujo desses pode.... – ela foi interrompida por um pequeno surto de tosse – Desculpe. Acha que ele pode fazer algum mal?
    Eu vi um pouco de sangue em sua boca, sujou seu queixo e ela não reparou. Mordi o lábio inferior com meu canino, para segurar a lágrima que queria escorrer. Não acho que ela se atentou a isso, então achei melhor concordar.
    - Por favor, entre. – Disse Sasha em sua doce voz melodiosa – já vamos almoçar. Você pode tomar um banho e depois se juntar a nós. George lhe emprestará alguma roupa limpa.
    Andy não falou muito naquele almoço. Tentamos descobrir de onde ele vinha, contudo, suas respostas eram vagas, como se fosse doloroso lembrar. Seu olhar era de certa forma vazio e penetrante. Quando lhe dirigíamos a palavra ele hesitava em responder, quando respondia, olhava em meus olhos como se pudesse ver o fundo de minha alma e, de certa forma, eu podia ver a dele. Não engoli aquela história de perder a fazenda para o banco, mas comecei a imaginar que, talvez, algo mais triste do que isso tivesse acontecido.
    Naquela noite, Andy se mostrou muito prestativo e, enquanto, fazíamos o jantar, ele pediu para ajudar. Não permiti, fazer o jantar era o momento especial em que passava com Sasha, assim, pedimos que ordenhasse a vaca para que tivéssemos leite fresco. Quando voltou o balde estava cheio.
    Na manhã seguinte acordei cedo e vi que Andy olhava nossa plantação. Andava entre os tomates e as cenouras, resmungava algo para si mesmo e voltava.
    - O que está fazendo, Andy?
    - Sabe George, se você plantar coentro com os tomates pode reduzir um pouco o número de pragas. Ele atrai predadores naturais dessas pragas, sua perda seria menor. Estou vendo muitos tomates estragados e isso meu deixa triste. Papi sempre dizia que a plantação cresce melhor se sua planta tiver uma companheira. – ele disse com um sorriso sonhador e encantador.
    - Sim, temos perdido grande parte da plantação. Não gostamos de usar esses agrotóxicos. Sua ideia pode ser útil, vamos tentar.
    Era uma ideia interessante, iria pesquisar alguns dados nos dias seguintes para saber se ele tinha alguma base. Primeiro precisaria lidar com Andy, aquele sorriso encantador não me parecia algo de uma pessoa ruim. Se estava dizendo a verdade sobre quem era, não teria chances na cidade. Era um garoto de fazenda e, por mais que eu odeie admitir, precisávamos de ajuda, Sasha não tinha muito tempo, um ano no máximo, e já não podia fazer esforços para cuidar do plantio.
    - Querido, por que não o convida para ficar conosco? Ele pode dormir no celeiro e trancamos tudo à noite. E uma mão para ajudar com a plantação nos faria bem, poderíamos crescer um pouco mais e você não ficaria sozinho quando.....
    - Sasha Carter, não se atreva a dizer isso! – minha voz soou falhada.
    - Quando eu me for, meu amor. Temos que falar disso. Sabemos que eu não tenho muito tempo e que não tivemos um filho. Com Andy você pelo menos terá companhia por algum tempo.
    - Quando você se for, eu vou junt....
    A batida da palma de sua mão contra minha face foi dura e ardida (não deixou de ser merecida). Ela colocou o dedo na minha frente. Não tive coragem de encará-la, apenas abaixei o rosto e chorei.
    -George Carter, você vai viver e vai viver por muito anos. – seu rosto estava vermelho e sua expressão não era exatamente de raiva, era uma mistura de repreensão e incredulidade, algo parecido com uma mãe que ouve seu filho dizer um palavrão - Se realmente me ama, e tenho certeza de que ama, pois nunca existiu um homem que tratasse tão bem uma mulher, você vai viver para honrar a minha memória. – Ela foi interrompida por uma crise de tosse - Poderá encontrar outra pessoa e cuidar de Andy, se ele precisar. Prometa isso, você viverá!
    - Eu prometo, mas nunca encontrarei outra pessoa.
    Nos próximos dias éramos uma família feliz. Sasha, Andy e eu. O menino sabia se virar na terra, para meu alívio. Sua ideia de planta companheira parecia dar certo e tínhamos um produto novo para vender. Com certo receio de minha parte, deixamos que ele se mudasse do celeiro para nossa casa, tínhamos um quarto vago. Eu lhe pagava pelos serviços que prestava, Sasha não precisava mais me ajudar, podia ficar em casa enquanto vendíamos a produção na cidade. A vida era boa, se não fosse pela doença de meu amor.
    Tudo isso iria mudar...
    2
    Com o passar dos meses a doença de Sasha se agravara, Andy tornou-se o filho que nunca tivemos, eu poderia passar mais tempo com minha esposa que raramente deixava o quarto. Agora todos os dias recebia o café da manhã na cama, o almoço na cama e o jantar na cama.
    Se não fosse por Andy a fazenda teria morrido naqueles meses de primavera e teríamos falido. Eu não conseguia deixar Sasha sozinha, não conseguia trabalhar e com certeza não conseguia ir até a porcaria da cidade vender nossas cenouras e nossos tomates e coentros. A vida fora daquele quarto não fazia sentido. Sua respiração era difícil e barulhenta. Eu chorava todos os dias, eram os únicos momentos em que saia de perto de Sasha, não queria que ela me visse nesse estado, embora ela soubesse.
    - Você é um bom homem George. Por favor, cuide de Andy, ele tem sido tão bom conosco, um verdadeiro anjo em nossa vida.
    - Sim, eu cuidarei.
    - E tenha uma vida longa, meu amor... Por favor, deixe-me um pouco, preciso fazer minhas pazes com Deus.
    Não contive as lágrimas, apenas levantei e saí. Acho que foi a primeira vez que Sasha me viu chorar. Lembrei-me de como via minha esposa, aquela mulher tão cheio de vida, ternura e bondade, morrer aos poucos, dia a dia, em um sofrimento que parecia não ter fim. Bom, o fim estava chegando, esse pensamento não me alegrou nem um pouco. Encontrei Andy na cozinha, ele olhou para mim e me abraçou. Tinha aquele sorriso encantador de Andy no rosto e foi em direção ao quarto.
    - Não, Andy, não entre ai! - Eu queria gritar, mas a voz saiu fraca.
    Ele seguiu seu caminho, entrou no quarto de Sasha, minha doce e frágil esposa, ela se assustou e permaneceu imóvel, com o ruído de sua respiração sendo ouvido de fora do quarto.
    - Andy, por favor, me deixe só. – Ela disse em sua voz amorosa.
    - Andy, SAI DAQUI! – foi rude de minha parte, ele tinha o direito de se despedir dela.
    Ele continuou se aproximando dela, seus passos eram firmes e decididos. Ele sorriu, ela retribuiu o sorriso.
    - Por favor, deixe-me ver.
    - Tudo bem, querido Andy.
    Ele a tocou, colocando suas mãos nas costelas dela, uma de cada lado. Eu não entendi o que ele tentava fazer, fiquei nervoso e decidi tirá-lo dali à força. Foi quando um brilho surgiu em suas mãos, o quarto inteiro ficou um pouco mais quente, um calor gostoso e reconfortante como uma lareira em uma noite de neve.
    Não entendi o que acontecera. Era realidade? Aquele brilho aconteceu ou tive um derrame pelo nervoso e alucinava?
    - Respire Sasha, encha seus pulmões. – falou em um tom descontraído.
    Eu vi o peito de Sasha inflar como não via há anos. Então ela soltou todo o ar, sem barulho algum.
    - Andy, meu querido, você realmente é um anjo?
    Ela não respondeu, apenas sorriu. Veio em minha direção e disse:
    - Não... Não sou um anjo. E ela não viverá para sempre, está vivendo em tempo emprestado agora..... Sabe, esse câncer é algo muito violento mesmo, os pulmões dela estavam quase mortos, ela não iria sobreviver até amanhã.
    - Muito obrigado, Andy. Ela está bem mesmo? Você a curou?
    - Por hora sim, ela viverá mais...
    - Eu consigo respirar amor... Eu consigo respirar! – ela chorava, dessa vez de alegria, como não fazia há muito tempo.
    Andy saiu do quarto sem dizer mais uma palavra e foi para o celeiro. Fui atrás dele e quando cheguei, ele já dormia em sua cama. Não sei que tipo de poderes aquele menino tinha, só sei que era algo exaustivo. Conversei com Sasha para fazermos um jantar especial para ele naquela noite e que arrumaríamos o quarto da casa para que ele não precisasse mais dormir no celeiro. Um anjo não deveria dormir ali com os animais.
    Quando Andy acordou já era quase meia noite. Mesmo assim sua aparência era de cansaço extremo. Ele andou vagarosamente até a casa e nos reunimos na sala de jantar. Gastamos um pouco mais em um champanhe, era uma ocasião única e o esperamos para o jantar tardio.
    - Andy, gostaríamos que você se mudasse aqui para casa, temos um quarto pequeno com algumas tralhas, vamos limpá-lo depois da janta, porque gostaríamos que viesse ainda hoje
    - Obrigado, senhor George. Fico muito grato por isso, mas não precisa de pressa, podemos fazer isso amanhã, com calma. Hoje à noite vocês deveriam aproveitar a companhia um do outro.
    - Tudo bem, Andy – disse Sasha – vamos aproveitar o jantar que é uma ocasião muito especial e tudo graças a você.
    Ele sorriu, pareceu um pouco desconfortável, embora seu sorriso tenha sido simpático, como sempre.
    - Posso fazer um pedido?
    - Claro Andy. O que quiser.
    - Poderiam guardar esse segredo? Também não seria bom se as pessoas vissem a senhora Sasha bem nos próximos meses.
    Concordei com ele, imaginei o que aconteceria se as cidades vizinhas soubessem de nosso anjo milagreiro. Com certeza a notícia se espalharia como fogo no feno seco. Logo o garoto teria que se exibir todos os dias. Percebi sua exaustão e o que aquilo lhe causaria. Será que aquele anjo poderia morrer por causa disso? Não sei, de qualquer forma esconderíamos Sasha e isso seria fácil, afinal, a única visita regular que tínhamos era do xerife que, geralmente, passava por ali uma vez a cada quinze dias e para demonstrar sua preocupação com minha esposa. Depois de alguns meses eu poderia falar sobre alguma cura milagrosa, afinal essas coisas acontecem.
    3
    A felicidade voltara aos meus dias, a vida fazia sentido novamente, Sasha e eu parecíamos um casal de adolescentes apaixonados depois de seu “renascimento”. Tudo porque Deus enviou seu pequeno anjo magrelo para nos ajudar. Andy seguia trabalhando em nossa fazenda, o rapaz tinha uma resistência incrível, às vezes imaginava se ele realmente dormia. Sempre acordava antes de mim e quando eu ia dormir o ouvia andando fora da casa. Era bom ter essa juventude por perto.
    Naquele começo de tarde resolvi ir com Andy até a cidade para fazer as compras do mês. Sempre que lhe perguntava sobre o paraíso e sobre o todo-poderoso, mas ele, delicadamente, mudava de assunto. Entendi que não era um assunto que quisesse falar (talvez nem pudesse).
    Enquanto entravamos em minha caminhonete Chevrolet vermelha, toda suja de terra, tentei conseguir alguma informação celestial dele.
    - Diga-me, Andy, quantos anos você tem? De verdade.
    - Eu não sei... – ele perdera aquele sorriso lindo e apenas encarava seus sapatos, no assoalho do carro.
    - Sabe há quanto tempo está na Terra?
    - Não, tenho apenas flashes, lembro-me de uma família antes de vocês vagamente, mas não consigo ver seus rostos. A lembrança dói, não sei por quê.
    - Então não é sua primeira vez na Terra?
    - Senhor George, desculpe. Poderíamos falar de outra coisa?
    - Claro Claro. Entendo que este assunto é delicado para você. Por favor, perdoe minha indelicadeza.
    - Não se preocupe. – ele finalmente olhou para mim, com seu sorriso de Andy – Não ligue o carro, o xerife está chegando. Ele ainda não sabe sobre mim, não é?
    - Fique sentado aqui no carro e abaixe a cabeça. Eu cuido disso.
    Desde que a doença de Sasha se agravara o xerife não entrou mais em nossa casa, nem me viu na cidade. A essa altura não achei que seria uma boa ideia ele saber da existência de Andy. Sai do carro e andei até Franklin.
    - Boa tarde, xerife. Em que posso ajudá-lo hoje.
    - Olá George. Como está a Sasha?
    - Está mal... Mas ainda temos esperança... Gostaria de convidá-lo para entrar, só que....
    - Você está de saída, não? Acha prudente deixar sua mulher sozinha nesse estado?
    - Preciso fazer as compras do mês, não pretendo ficar muito tempo longe.
    - E quem está no carro seu carro, o rapaz que abaixou a cabeça quando você saiu?
    -...
    - Vamos lá, George, somos amigos. O que está acontecendo?
    (ele nunca iria acreditar que um anjo estava morando comigo e que curou minha esposa. Talvez se eu mostrasse Sasha para ele, só que ai quebraria a promessa que fiz para Andy. Isso seria uma afronta a Deus? Achei melhor não arriscar)
    - É apenas um garoto que está ajudando nas tarefas. Ele não cobra muito caro e faz bastante. Não queria que você ficasse preocupado por termos um estranho por aqui, mas ele estava procurando trabalho e pareceu inofensivo.
    - E qual o nome desse rapaz inofensivo que está lhe ajudando?
    - Andy Robbins. Não sei ao certo de onde veio, para lhe dizer a verdade, nunca perguntei.
    - Tudo bem, George. Vá até a cidade, se não se importar, darei umas voltas por aqui, caso Sasha precise de algo. Quando você voltar me avise.
    - Claro Franklin. Muito obrigado.
    Enquanto saia da fazenda, reparei nos olhos azuis do xerife nos observando severamente, eu o vi daquela forma antes, não era raiva nem nada do tipo, era o olhar que ele tinha quando desconfiava de alguém, sempre me disse que era algo frequente em seus tempos de investigador. Talvez ele não tenha engolido a história e aquilo me preocupava.
    Quando voltamos o Sol já se punha, Franklin nos aguardava na porta da fazenda.
    - George, seu filho da mãe, safado. Meu turno já acabou há meia hora e ainda estou aqui te esperando. Sabe que não entraria na sua casa sem permissão, ainda mais na condição em que Sasha se encontra.
    - Tudo bem, Franklin. Desculpe a demora, trouxemos bastante coisa.
    - Sabe do que você precisa, meu velho? De um desses – ele disse retirando seu smartphone do bolso – Aí poderíamos conversar melhor. – Você pode me ligar, se Sasha precisar de algo eu não preciso ficar aqui do lado de fora esperando o pior. Olha só, ele faz tudo, – eu vejo um flash que quase me cegou – até tira fotos.
    - Olha xerife, você sabe que não me dou bem com tecnologia –respondi rindo – por isso nem máquina de lavar roupa nós temos. Sasha e eu somos de outra época e estamos felizes assim.
    - Eu sei bem disso. Não vou mais lhe incomodar. Boa noite George, se cuide.
    - Você nunca nos incomoda Franklin. Por favor, volte quando quiser. Boa noite.
    Na semana seguinte, vi a viatura do xerife todos os dias passando em frente à fazenda, aquilo me preocupou. Do que ele desconfiava?
    - Andy, você já viu o xerife? Já falou com ele?
    - Não lembro. Talvez... Talvez com a outra família... Eu não me lembro. Acha que é por isso que ele tirou a minha foto?
    - Tirou sua foto?
    Como eu pude ser tão burro? Ela não queria me mostrar a porcaria de um celular, ele queria uma foto do meu anjo (sim, eu já julgara aquele anjo como meu, talvez esse tenha sido meu pecado).
    - Não acredito que ele fez isso. Amanhã vou descobrir o que ele está tramando.
    Passei a noite rolando na cama, até que Sasha me expulsou do quarto. Desci para tomar um leite gelado. Minha cabeça era dominada por diversos pensamentos. O que aquele xerife de bosta estava tramando? Qual o interesse dele no meu anjo? Isso não poderia ficar assim. Olhei para o relógio e vi que eram cinco da manhã. Ele deveria estar acordando, não perdi tempo e fui para meu carro. Vi que a porta de Andy estava aberta, talvez ele estivesse vendo a plantação, sempre acordou cedo aquele rapaz.
    Dirigi rápido, como um garoto inconsequente. Em minha pressa esqueci de trocar o pijama. Isso não importava, Franklin iria ouvir poucas e boas de mim. Consegui chegar em sua casa antes que saísse para a delegacia.
    - Bom dia, George. O que lhe traz tão cedo aqui?
    - Precisamos conversar, Franklin! Eu quero sab....
    - Sim, precisamos. – ele disse com firmeza - E tenho um assunto muito sério para tratar com você. Ia te chamar na delegacia um pouco mais tarde. Já que está aqui, por favor, me acompanhe, tenho cópia de tudo aqui em casa.
    Ele me levou até um quarto com diversos recortes de jornais, fotos e desenhos. Três fotos em particular eu reconheci, foram em minha fazenda, todas eram de Andy. A que ele tirou em meu carro, uma arando a terra e outra entrando em minha casa.
    - O que é tudo isso Franklin?
    - Apenas veja que irá entender. Olhe esse recorte.
    A notícia dizia:
    “HERÓI SALVA FAMÍLIA DE INCÊNDIO.
    Segundo testemunhas, o homem entrou no imóvel sozinho e entre cinco e dez minutos depois saiu com toda a família e seu cachorro pela porta da frente.
    Andy Mitchell não concedeu entrevista e se esquivou de qualquer foto.”
    - O bombeiro chefe era meu amigo, disse que não entendia como a família toda sobreviveu. Eles passaram tempo demais lá dentro, respirando fumaça e em um calor absurdo. Todos deveriam ter morrido, até a porra do cachorro escapou. Olhe essa foto, está em preto e branco, um pouco desfocada, mas.... é ele. E não parece ter envelhecido um único dia.
    O nome embaixo da foto dizia “Andy Mitchell” e o que mais me impressionou foi a data... era de 25 anos atrás. Isso só queria dizer que meu anjo operou outro milagre. Ele falou sobre outra família que não lembrava, talvez seja isso. E tentou se esquivar das fotos para não ser reconhecido, ele não quer publicidade.
    - George, ainda está comigo? Isso é importante.
    - Mas só mostra que ele é um herói.
    - Não. Olhe esse outro recorte.
    “FAMÍLIA RESGATADA DE INCÊNDIO É ESQUARTEJADA 4 MESES DEPOIS”
    - Eu era o investigador encarregado desse caso. Eu tinha certeza de que tinha sido esse tal herói, só que ele sumiu. Ninguém ouvia dele desde o incêndio. Acabei arrancando do pai da família, Brandon Brooks, que esse tal Andy morava com eles, em segredo. Isso foi uns três dias antes das mortes. Tá vendo esses recortes e casos na parede? Desconfio que todos têm a participação dele e não consegui provar ainda. Essa chacina da família Brooks é o único que conseguiram uma foto e um nome. Esse cara parece que sabe onde uma tragédia vai acontecer, ajuda as pessoas e depois mata quem salvou. E é por isso que estou patrulhando sua casa desde que o vi. Se a Sasha ainda não melhorou temos tempo, se bem que eu não faço ideia de como ele poderia ajudá-la. Mas também não faço ideia de como ele não envelheceu em tanto tempo.
    (ela está vivendo em tempo emprestado...)
    (ela está vivendo em tempo emprestado...)
    (ela está vivendo em tempo emprestado...)
    A frase martelava na minha cabeça. O mundo girou ao meu redor e senti que iria desmaiar. Não, não podia ser verdade. Não o anjo Andy que curou minha esposa.
    - Eu... Eu.... preciso sair daqui.
    - Você está bem George?
    - Sim, eu preciso ir para casa.
    - Tudo bem. Eu tenho alguns compromissos agora pela manhã. Tudo bem se eu passar na sua casa no final da tarde? Gostaria de ter uma palavrinha com esse Andy.
    - Tudo bem... eu só preciso ir...
    Não me lembro do caminho de volta, nem da velocidade que atingi, apenas sei que o motor gemeu o caminho inteiro.
    - Sasha! Amor! Você está ai? ANDY???
    (por favor, Deus, que ela esteja cuidando das galinhas)
    Entrei correndo na casa, não ouvi nenhum ruído e ninguém me respondia. Subi as escadas para o cômodo em que amei Sasha pela maior parte de minha vida e a porta estava fechada.
    - Sasha? – perguntei com a voz falhando
    Girei a maçaneta, temendo o que poderia encontrar. Abri a porta e o que vi, não imaginaria em meus piores pesadelos. O corpo desfigurado de Sasha jazia no chão. Onde as mãos salvadoras de Andy encostaram para lhe devolver a vida havia diversas perfurações com o líquido vermelho escorrendo. O sangue dela pintava as paredes do quarto, como uma obra impressionista pintada pelo próprio Satã, retratando a cena de horror que ali se passara, apenas poucos instantes antes de minha chegada. E o mais horripilante foi ver Andy, banhado em sangue, sentado na cama, com minha esposa a seus pés, a faca ensanguentada na mão e aquele sorriso de Andy no rosto.
    - Por favor, senhor George. Não se assuste. Eu pretendia limpar tudo antes que o Senhor chegasse. Eu lhe disse que ela viveria em tempo emprestado... Chegou o dia do pagamento. Uma vida salva vive de tempo emprestado... Ás vezes dura bastante, ás vezes não. Você aproveitou um bom tempo com sua esposa, eu deveria ter cobrado antes, mas gostei muito do senhor, sabia que iria sofrer no dia que o pagamento fosse devido.
    Eu ajoelhei no chão, incrédulo com o que via, com aquele anjo... Não, aquele demônio... Não pude pensar em nada, apenas na pergunta mais idiota que veio a mente...
    - Por que?
    - Entenda, Senhor George, o tempo emprestado dela acabou, eu apenas recolhi o que era justo....
    De alguma forma, aquilo parecia fazer sentido para ele, como se fosse a verdade absoluta e irrefutável. Talvez isso... não, o sorriso, com certeza foi o sorriso que me fez explodir. Arremessei-me em direção a Andy, como nos tempos em que brigava com a polícia em nossos protestos, contudo a idade não era mais a mesma. Não fui páreo para a juventude dele, pelo menos para a juventude que ele aparentava ter. Ele me dominou facilmente, me jogou contra a parede e encostou a faca na minha garganta, aquela faca ainda tinha o sangue da minha amada, que agora escorria em mim.
    - Acabei de salvar a sua vida, Senhor George – ele disse perdendo o sorriso do rosto – Eu não queria fazer isso, não com o senhor, mas você me obrigou e agora também está vivendo em tempo emprestado – ele disse jogando a faca para longe.
    Não lembro exatamente o que aconteceu, apenas que a raiva me dominou e pulei em cima dele com ambas as mãos apertando seu pescoço. Ele sorriu para mim, de novo. Isso apenas aumentou minha ira.... E continuou sorrindo daquele jeito encantador até a vida sumir de sua face.
    Naquele dia eu matei Andy com minhas próprias mãos. Queria enterrá-lo no porão. Depois pensei melhor, não queria aquele corpo perto de mim. O coloquei no porta-malas da caminhonete, enrolado no cobertor, que ele usou por tanto tempo em minha casa e joguei alguns tomates em cima para disfarçar.
    Depois de morar tantos anos em uma fazenda afastada, você sabe todos os lugares da região que seriam bons para esconder um corpo. Não que você pense nisso, só que na hora em que você precisa, esses lugares vêm à mente. Lembrei-me de uma vala que eu poderia colocá-lo, ela tinha algumas falhas, o exército costuma treinar explosivos por ali uns 10 anos antes. Ninguém passa por ali, seria preciso apenas jogá-lo no buraco e colocar um pouco de terra em cima. Seria temporário, depois de uma semana eu voltaria para achar um lugar melhor.
    Chegando em casa precisaria limpar o quarto e enterrar Sasha com dignidade. Ninguém poderia ver o corpo e todos acreditariam que ela morreu de câncer. No dia seguinte compraria um caixão e a enterraria no quintal. Faria uma lápide para ela, não era a melhor solução, era a única que tinha.
    Foi só então que lembrei de ver o quarto de Andy por seus pertences, vi algumas roupas que comprei para ele e sua pasta de couro. Quando a abri, não havia nada ali dentro, como se nunca tivesse sido usada. Queimei tudo e apreciei ver aquilo ardendo, imaginando que o corpo dele estaria ali. Talvez eu devesse ter queimado ele. Pensaria durante a semana qual opção seria melhor.
    No final da tarde Franklin apareceu. Eu disse que Andy fugira, talvez por ver a polícia rondando mais a área, também disse que Sasha estava piorando, não deveria viver muito tempo. Ele pediu para vê-la. Consegui chorar e pedi para que não entrasse na casa, ele acreditou e foi simpático comigo, deu-me um abraço. Foi a segunda vez que nos abraçamos, na primeira, quando descobrimos a doença de Sasha, foi algo rápido, com dois tapinhas nas costas. Este não, foi longo. Eu chorei, e de verdade, pela primeira vez com outro homem. Franklin me deu um celular velho, disse que se eu precisasse de qualquer coisa, a qualquer horário, poderia ligar e ele apareceria. Pedi para ele vir almoçar em uma semana. Já havia decidido enterrar Sasha antes dessa visita.
    Na semana seguinte, já havia arrumado a casa, limpado qualquer vestígio do que acontecera por ali e na caminhonete. Depois de uma pequena cerimonia solitária para enterrar Sasha, era hora de mudar de lugar o corpo daquele desgraçado. Eu passei quase um dia inteiro cavando uma cova em um lugar isolado, desisti da ideia de queima-lo, de certa forma me parecia um sacrilégio. E, pensando bem, no dia que encontrassem esse filho da puta, eu já teria morrido há muito tempo e Franklin me enterraria ao lado de minha esposa. Passei a semana inteira refletindo e decidi que contaria toda a verdade para ele em nosso almoço no dia seguinte. O que eu tinha a perder?
    Dirigi até onde larguei o corpo de Andy e joguei a faca que ele usou por ali, era a única evidência que poderia ser usada contra mim, só que estava bem limpa e era uma faca comum jogada em lugar nenhum. Não me preocupei com isso.
    Peguei minha pá e, embora cansado, consegui desenterrar o cobertor em poucos minutos. Quando o puxei para fora da vala, algo não batia. O cobertor estava leve demais. Meu coração parou por um instante e o choque percorreu meu corpo todo. Minha boca ficou seca e permaneci completamente imóvel. Tive medo, muito medo, então puxei o cobertor para ver que não havia nada ali. Nada de Andy, nada de corpo.
    Dei dois passos lentos para trás, meus olhos vidrados naquele pano grosso, cheio de terra e vazio. Corri para o carro e procurei o telefone, era hora de falar com o xerife. A porcaria ficou em casa. Liguei o Chevrolet e pisei fundo.
    Por Deus, será que alguém encontrou Andy e tirou o corpo de lá? Por que deixariam o cobertor enterrado? A terra não parecia remexida quando eu comecei a cavar. Será que eu errei o lugar e tudo foi uma incrível coinc....
    - Andy?
    Aquele sorriso... Ele me olhou com aquele sorriso... no fundo de meus olhos. Andava tranquilamente pela terra ao lado da estrada. Isso me perturbou profundamente e perdi o controle do carro. Encontrei um poste e nunca descobri se agradeço ou não pelo cinto de segurança.
    4
    Passei duas semanas no hospital, esse ossos velhos demoram para cicatrizar. Franklin me visitou quase todos os dias, ele se tornara um grande amigo por isso pedi desculpas por ter lhe escondido a história toda. Na primeira chance que tivemos sozinho eu lhe contei tudo, como Andy aparecera em nossa porta, com aquele sorriso encantador, como mesmo sem pedir ele nos convencera a abrigá-lo, como ele salvara a vida de Sasha, como ele a esquartejara e como eu o estrangulei com todas as minhas forças. Então, respirei fundo e lhe disse o motivo de meu acidente.
    Ele acreditou em tudo que lhe disse. Também me falou de um detetive particular com quem trabalhara certa vez, um tal de Sean Corbyn, que investigava alguns casos estranhos, Franklin acreditava que talvez pudesse ajudar. Eu disse que não. Queria apenas me recuperar e ir para casa. No mesmo dia o xerife verificou os locais que falei, até o corpo de Sasha. Olhou nos meus olhos e disse, com certo ressentimento, que se não me conhecesse diria que eu sou culpado de ter esquartejado a minha mulher. Eu queria espancá-lo quando disse isso, ele pediu desculpas, por ter escolhido as palavras erradas, mas que acreditava em tudo que eu falei e que iria me ajudar no que fosse preciso. Apenas agradeci e pedi para que fosse embora.
    Foi a primeira noite que Andy me visitou...
    Estava dopado de morfina, então minha memória não é muito clara, ou certa. Lembro das luzes apagadas, era tarde da madrugada. Ouvi passos caminhando em minha direção, o que eu ouvi em seguida foi mais horripilante.
    - Boa noite, senhor George. Não era assim que eu queria que aproveitasse seu tempo emprestado. Espero que me perdoe por causar seu acidente.
    - Enfermeiraaaaa!!! ENFERMEIRAAAA!!!! – gritei a plenos pulmões.
    A enfermeira de plantão apareceu correndo com uma médica. Nenhuma delas viu ninguém nem ouviu nada. Disseram que poderia ser algo da minha cabeça e fizeram diversos exames. Eu sabia que não era nada da minha cabeça, foi por isso que decidi ir embora do hospital assim que minhas dores melhoraram.
    Franklin era contra eu ir para casa tão cedo, talvez não acreditasse na visita de Andy. Mesmo assim, resolveu me visitar todos os dias. Andy também.
    Eu o via andando na rua em frente à minha casa, ás vezes ele apenas parava e observava. Eu ouvia sua voz nas paredes da casa. Pedi ao xerife um rifle emprestado. Ele foi contra, contudo cedeu algo menor, uma Smith Wesson 9mm que não saia de minha cintura. Um pente nela e outra em meu bolso.
    Quatro dias depois de sair do hospital, vi a porta do celeiro aberta e eu sempre tranco aquela porcaria depois de colocar a Bibi lá dentro. Eu tinha certeza de que era ele, Andy voltara para sua antiga cama e me aguardava. Peguei minha pistola e sai da casa, fui em direção ao celeiro. A escuridão lá dentro era intensa, mesmo com a fazenda banhada pelo luar. Ouvi movimentos e atirei. Cinco tiros no escuro, um mugido e uma queda ao solo. Bibi agonizava, por minha culpa.
    Liguei as luzes para revistar aquele lugar, sem sinal de Andy. Dei um último tiro de misericórdia em Bibi e estava cansado demais para qualquer coisa. Deixe-a deitada ali, sem vida. Ela não iria a lugar nenhum mesmo. Voltei para minha cama. Naquela noite sonhei com Andy batendo na janela, com aquele sorriso encantador, falando “senhor George”.
    Acordei tarde, perto do meio dia. Não tinha ânimo para sair da cama, então ali continuei até as duas da tarde. Quando levantei, vi o carro de Franklin na porta. Contei-lhe das visitas de Andy e como matei Bibi na madrugada. Ele se espantou:
    - George, não acha melhor me devolver a pistola?
    - Não Franklin. É minha única proteção.
    -Tudo bem. Por favor, tome cuidado. Agora me mostre o animal.
    - Eu a deixei lá no fundo. É por aqui.
    Seguimos nosso caminho até o celeiro. A porta estava trancada. Eu não lembro se a tranquei antes de ir dormir. De qualquer forma, desde que Sasha morreu, a chave sempre fica no meu bolso. Destranquei a porta e a abri. Foi quando ouvimos.
    - Muuuuuuu.
    - Essa é a Bibi, George?
    - Eu não entendo... Acho que sim...
    - Ela não me parece morta.
    - Eu a vi. Dei um tiro de misericórdia ainda. Andy.... ele trouxe ela de volta à vida! Só pode ser isso.
    - George... Não há nem sangue aqui, não há nada.
    - Você não entende....Cada dia eu ouço a voz dele mais forte.... Ele fica andando por aqui, me observando.... Ele tirou minha mulher de mim e agora tira minha sanidade, mesmo depois de morto.
    - Você não quer ir ao hospital comigo? Podemos pedir para o médico ver se há algo errado com você. Eu realmente acredito em você, mas não temos nenhuma evidência, além de um cobertor sujo e sua mulher esfaqueada.
    - E você precisa de mais do que isso? Ou você acha que eu matei minha mulher? O amor da minha vida, que passei todos os meus anos idolatrando?
    - Por favor, George. Eu não disse isso. Tenha calma.
    - Saia da minha propriedade! E só volte aqui com uma porra de um mandato!
    Ele não teve coragem de pedir a arma de volta. Pediu desculpas e foi embora. Naquela tarde não vi nem ouvi Andy. O que foi um alívio. Também não fui no celeiro ver Bibi, aquele animal me assustava agora. Decidi ir à cidade para tentar espairecer. Minhas voltas me levaram até um mercado e uma garrafa de Jack Daniels. Eu nunca fui muito de beber, mas acho que não havia hora melhor para começar.
    Metade da garrafa se fora e eu estava de volta ao volante, em uma mão a Smith Wesson, na outra minha garrafa que transitava entre mão direita, meio das pernas e minha boca. Seguia em direção à fazenda amaldiçoada. Sim, era isso. A fazenda era amaldiçoada pelo espírito de um demônio, de uma vaca e do meu amor. Olhei para o lado e vi Andy sentado ao meu lado na caminhonete. Não pensei, usei meus dois pés no freio e dei três tiros. Consegui estourar minha garrafa, o vidro do carro e não faço ideia de onde foi parar o terceiro, a única coisa que sei é que não foi para a cabeça de Andy.
    Chegando a fazenda, vi um clarão atrás da casa. Eu já estava bem bêbado e meus movimentos eram difíceis, contudo consegui abrir o portão, só esqueci a caminhonete do lado de fora e entrei com a pistola na mão. Nos fundos da casa, vi aquele fogaréu. Eram minhas roupas queimando em um semicírculo e, no meio, estava Bibi, morta de novo. Quando me aproximei, vi encravado profundamente em sua pele “Vivendo em tempo emprestado”.
    Cai de joelhos e atirei algumas vezes sem direção alguma. Gritei
    - ANDYYYY!!!! ANDYYYY!!!!
    Não tive resposta. Não sentia minhas extremidades, não sabia se por medo ou pelo álcool. Ouvi o som das chamas, o que era reconfortante. Andy me trouxe para o inferno, é de onde ele veio, não?
    Olhei para frente, consegui focar meus olhos embriagados e Andy surgiu em meio ao fogo. Ele tinha sua pasta de couro na mão direita. Ele a abriu e de dentro tirou uma faca... com sangue... por Deus, será a mesma faca que matou Sasha? Será o Sangue de Sasha?
    Dei três tiros em sua direção, acertaram seu peito. Com a mão tremendo, levantei a mira e atirei mais três vezes. O primeiro atravessou seu olho, deixando um buraco aterrorizante, o segundo foi no meio da testa, de onde escorreu um fiapo de sangue, o terceiro lhe decepou a orelha direita. Nenhum fez com que ele parasse. Embora com o rosto disforme, ainda tinha aquele sorriso de Andy, mesmo ali era um sorriso bonito. Como eu odiava aquele sorriso.
    Foi quando senti sua mão gelada em volta de meu pescoço, apertando com força, uma força que aquele rapaz franzino não deveria ter.
    - Você.... deveria..... você deveria estar morto... Eu te matei e enterrei.... Por que, Andy?
    - Hoje é dia de pagar a vida emprestada Senhor George. Saiba que não tenho prazer nenhum em tirar sua vida.
    Seu sorriso sumiu. Ele olhou para baixo, viu minha pistola e deixou sua faca cair na grama. Uma pequena lágrima escorreu do olho que ainda tinha. Sua mão alcançou a minha. Por Deus, como ele é forte. Ergueu a pistola até minha têmpora direita. Então atirou.
  • O ANJO DO JULGAMENTO

    Prólogo
    A maldade silenciosa.
    Vivo num mundo cruel e sem salvação. Onde monstros se disfarçam de homens, e crianças são tratadas como adultos. Sigo por ruas pavimentadas, pagas com o sangue dos trabalhadores, e a dor dos inocentes. Criminosos crescem como pragas, e andar por qualquer cidade, já não é mais seguro. Ligo minha TV para esquecer que a perversão cresce lá fora, e me deparo com materiais doentios direcionados aos menores. A maior rede social de vídeos do mundo, proíbe minhas denúncias, garantindo que o material não chegue aos adormecidos. Mas minhas palavras não podem ser caladas. Há uma inútil luta na sociedade, para saber qual religião é melhor que a outra, ou se o homem é maior que a mulher, e vice e versa. Enquanto todos dão atenção para assuntos tão triviais, verdadeiros males ocorrem em torno do mundo com um único objetivo: manter a dominância de uma Elite doentia, que tem pervertido a magia, desde que o homem era somente um projeto de uma raça superior. Não me diga que ainda acredita, que os demônios vivem abaixo dos seus pés, e que Deus não é uma inteligência magnânima, que deu origem a isto tudo. Não, não me confunda como uma religiosa fanática, pois estou bem longe de ser. Não, também não me chame de satanista, este é um nome que não cabe a mim. Estou muito além destes rótulos, para ser definida somente por eles, por isso peço que me respeite, e me chame apenas por anjo do julgamento. Já que estou acima do bem e do mal, e apta para determinar a sentença dos seus homens e mulheres. Vim para este mundo, como uma de vocês, nasci de uma barriga humana, embora fique cada vez mais claro, que não sou deste mundo. Cresci como uma criança normal, sem saltos no tempo, ou perseguições de um grupo secreto. Porém sempre carreguei comigo, uma maldade gigantesca, que me levava a manipular, me aproveitar, e torturar os outros. Talvez tenha sido uma menina psicopata, talvez somente acima da média, mas uma coisa é muito clara, esta crueldade frívola nunca me abandonará, e dado as atuais circunstâncias, é melhor que assim seja. Na minha fase adulta, o meu destino ficou cada vez mais claro, quando seres poderosos, entraram em contato comigo através de pensamentos obscuros, e sinais nos céus, que jamais cessariam, até eu aceitar a minha conduta. Em janeiro de 2020, fui seguida por um grupo de frades tradicionais, após ter tido vários pesadelos, com inúmeras mortes causadas pelas minhas mãos. Eu senti medo, pois após tantos anos de terapia, enfim tinha descoberto que sofria de um mal psicológico, que poderia me transformar numa assassina de uma hora para a outra, o quê para mim, era cruel e demoníaco, e eu precisava controlar, senão vidas inocentes iriam pagar pelo meu problema. Eles me chamaram por um nome, que tentei esconder debaixo do tapete, todavia evitar o quê era, não foi o suficiente para me deixarem em paz, e assim tive de seguir com eles. Muito antes de evitar as minhas asas negras, já havia imaginado que um grupo viria até mim, e me levariam a algum lugar sombrio, por isso implorei aos deuses para me protegerem, ou me deixarem escapar. Infelizmente cheguei ao meu destino, e ninguém me salvou. Eles eram assustadores, e tentaram me atacar, mas o meu desejo insaciável por sangue, me levou a ficar viva e ilesa. Manchada de vermelho, me afastei do monte de cadáveres, pronta para me entregar a polícia. Só que dois padres surgiram, e aplaudiram o meu desempenho. “Ela é perfeita.” Concordaram entre si, e fiquei desconfiada, esperando que me dessem uma explicação. Eles pestanejaram, e me vi obrigada a puxar a faca. “Digam quem são, e o quê fazem aqui.” Perguntei sentindo a adrenalina fluir. “Somos os filhos de Jesus. Pertencentes a ordem sagrada de Cristo.” Eles me responderam, e eu gargalhei. Afinal o quê uma ordem de tamanho poder religioso, iria querer com um anjo caído, que negava a própria alcunha? Eles me disseram que precisava ir com eles ao mosteiro de Santa Marta, e que lá receberia explicações mais detalhadas. Naturalmente opinei por não ir, contudo cedi a minha curiosidade, e com eles eu segui. Muitas horas se passaram, até me levarem ao topo de uma montanha rochosa. Outra vez o medo de ser destratada, e sofrer torturas preencheu o meu ser, até que o vi. Era um homem loiro, de cabelos escuros, olhos penetrantes e claros, que intercalavam entre o rio e o mar, muito bonito , que vinha em minha direção. “Minha filha.” Ele disse, e eu não segurei o riso. Até ali tinha noção que de quê havia conhecido o paraíso, porém filha daquela figura bíblica? Era cômico demais. “Preferes desta forma?” Disse ao fazer chifres de bode crescer em sua cabeça, enquanto o corpo mudava. “Não pode ser.” Fiquei catatônica, e acabei por desmaiar em seus braços. Ao acordar ele me explicou tudo, e pude reagir de outra maneira, o abraçando forte, por saber que estava diante do meu verdadeiro pai. Assim me tornei uma dos seus seguidores, e me dediquei a cumprir a minha missão, de destruir os ímpios, e iluminar a terra, com a minha chama sagrada. Pois ele só havia voltado, para que o julgamento se iniciasse, e o mesmo só poderia ser feito com o poder da sua amazona, e filha mais velha, a própria morte, ou seja eu. No início senti culpa pelas vidas que ceifei, no entanto bastou ver a lista dos culpados, para que o arrependimento se transformasse em paz. Não estava tirando aqueles homens e mulheres de suas famílias, e sim devolvendo demônios de volta para o inferno, do qual nunca deveriam ter saído, e seguiria fazendo isso até limpar o planeta, desta maldita escória de covardes.
    Capitulo 1- Verdades
    Inconvenientes
    A MORTE NARRA:
    Um dia eu tive uma amiga, que acreditei que seria para sempre, mas agora era somente outra neblina de inveja e prepotência, que precisava se dissipar. Ela era bonita, e de corpo desejável, mas embora tivesse tais atributos, não era feliz ou satisfeita consigo mesma, por mais que escondesse isso, através de um sorriso tão vazio quanto a sua cabeça sonhadora. Sei que parecem sinais de ódio, todavia posso assegurar-lhes que é somente mágoa. Eu confiei nela, depositando em suas mãos todos os meus sonhos, medos, e anseios, como se fosse a única confidente que tive na vida, e o quê achei que duraria até o Armagedom, hoje era apenas um motivo de dor e tristeza. Ela seguiu uma vida criminosa sem retorno a cidadania de bem. Algo que tentei lhe alertar, que não teria um fim nobre. Já eu me juntei a Ordem secreta, que conhecia as duas faces do demônio, e passei a julgar os meliantes que trucidavam inocentes. Desde sempre estava claro, que éramos o lado diferente da moeda. Só que para a minha surpresa, não fui eu, a servir as trevas, cometendo iniquidades, apesar dos demônios que sempre me acompanharam, nas profundezas da minha mente. “Thamara.” Meu superior me chama, enquanto sigo pelo escritório, olhando os relatórios da empresa, com um par de óculos, que por intervenção divina, não mais necessitava, porém precisava para manter as aparências. “Seu desempenho foi excelente neste mês. Logo se formará com louvor.” Ele me elogia, e o olho sem muito interesse nas finanças. “Que bom. Não vejo a hora de terminar o curso, e voltar a trabalhar em casa.” Deixo escapar, e isso o magoa, já que acha que eu não valorizo seus esforços para me sentir bem ali. Não me importo muito, pois após ter conhecido tantos que usavam a máscara de bons moços, para esconder seus crimes. Gentilezas não mais me atraem. “Tha.” Ouço a voz do meu amado, e sorrio ao ver o belo moreno de terno que vem na minha direção. Ao chegar o abraço com todas as minhas forças, pois ele é a minha luz, neste mundo sombrio. Nós terminamos as simulações de compra e venda de ações, e descemos pela escadaria. Ao entrarmos no carro, nossas feições de alegria mudam, e ele segura a minha mão. “Sei que não será fácil. Mas é preciso.” Diz tentando me dá forças, e eu aceno com a cabeça, me preparando para tempestade que há de vir. Ele estaciona o carro, eu desço com o cabelo amarrado, num coque para trás, luvas, e tudo o quê é necessário para cometer um crime. Estamos numa floresta densa e escura, e o cheiro de morte impregna o ar. “Ela esteve aqui.” Aviso, ao o seguir sem fazer muito barulho. “De fato.” Meu marido pega duas cabeças de recém-nascidos, mortos, que tiveram seus olhos arrancados, e pela quentura do sangue, percebo que o infanticídio foi praticado a poucas horas. “Droga!” Esbravejo furiosa, e nós abandonamos o local do sacrifício. Assim me livro das vestimentas que nos ligam aos assassinos, exatamente como os filhos de Jesus me ensinaram, e seguimos como inocentes. Meu celular toca, e o atendo com grande desgosto.
    _Thamara.
    _Não chegamos a tempo de capturá-la.
    _Eu sei. Sua irmã pode ser uma
    cabeça oca, mas ordem a qual ela
    serve, é cheia de membros
    perigosos.
    _Para uma menina, ela tem me
    causado uma bela dor de cabeça.
    _É porquê tem sentimentos por ela,
    e no fundo se sente culpada pelo
    caminho que tomou.
    _Pai. Eu sou o monstro da família.
    Se tivesse controlado meu ego,
    talvez pudesse salvá-la.
    _Não, não poderia. Ela tinha o livre
    arbítrio, e optou por seguir para
    as trevas.
    _Ela não é tão má. Eu sei, porquê
    na hora das mortes...
    _Thamara. Você desliga as emoções
    , para julgar os que merecem. Ela o faz
    para sorrir, se divertir, e você já viu.
    Não há comparação.
    Meu pai estava certo. Minha irmã, e antiga melhor amiga, agora era um monstro imparável, que não se preocupava com o dia de amanhã, e já tinha cometido mais de 10 assassinatos, em nome da Ordem das Corais. Uma seita religiosa que tem planos malignos para o planeta, e precisa ser detida, pois apesar de seu número ser pequeno, a mesma é responsável por todo o serviço sujo, da ordem piramidal dos Iluminados. Algo terrível, que me trouxe memórias cruéis... “Katherine!” Gritei ao vê-la arrancar a cabeça de uma criança, mas ela me ignorou, tinha se entregado a escuridão, e nada poderia ser feito para regressar. “Ela nunca vai parar.” Conclui retornando aos tempos atuais. Era hora de matá-la, mas não sabia se teria a mesma frieza que desenvolvi ao exterminar os outros.
    A viagem de volta para casa foi longa e silenciosa. Bartolomeu sabia o quanto aquela situação me afetava. Ao chegarmos, notei que os portões da minha luxuosa casa estavam abertos, então coloquei um dos pares de luvas, e amarrei os cabelos. “Thamy.” Meu marido segurou o meu pulso, assim que coloquei o pé para fora, já com a adaga na mão. Meus olhos subiram, e vi a silhueta de minha mãe Lina, brincando com minha filha e cópia Ramona. “Não traga os seus trabalhos para casa. Seu pai jurou que manteria sua identidade protegida, e enviaria os melhores guardas para cuidar do nosso lar. Confie na palavra dele.” Ele me disse, porém não quis ouvir, andava tendo visões de que a casa seria invadida pela Ordem das Corais, e seria arrastada pelos Iluminados para dentro de um abismo, e não podia abaixar a guarda. A noite...Jantamos lasanha, com muito refrigerante, agindo como a família normal que não éramos, para manter a mente de Ramona sã. Um acordo que firmei com Bart, para garantir que a menina tivesse a infância que não tivemos, e somente mais tarde viesse a saber O quê nós somos. A pequena sempre carinhosa, nos deu beijos de boa noite, e foi para o seu quarto, ler seus contos favoritos dos irmãos Grimm. Apesar de sua doçura, ela sempre teve inclinações para assuntos obscuros, pois as histórias contadas para outras crianças, lhe davam sono. Era uma prodígio, e por isso eu ficava cheia de dores de cabeça, quando minha mãe vinha em casa. “Thamy você tem que colocá-la numa escola especializada.” Disse minha mãe, enquanto eu colocava os pratos na lava louça. “Já falamos sobre isso. Nem eu, nem Bartolomeu gostamos da ideia. O mundo não é seguro para uma garota gentil como ela.” Respondi esperando o furacão Lina, derrubar todos os objetos da cozinha, mas a idade a deixou mais calma, e isso me surpreendeu. “Filha você sempre reclamou por não termos explorado o seu potencial quando criança. Nós não fizemos isso, porquê não percebemos, seu pai não percebeu, mas você e Bart veem, não acha justo lhe darem a oportunidade?” Usou o velho argumento irritante, de quê fui um prodígio não reconhecido, por culpa do meu pai terrestre, e isso me chateou muito, contudo respirei fundo, e sentei a mesa, ligando o meu notebook. “Venha aqui.” Chamei-a, e a mulher baixinha e empinada, se juntou a mim, com seus óculos fundos. “Está vendo estas notícias?” Mostrei o novo sistema de pesquisa inteligente, conhecido como SIP-I. O programa que substituiu o Google em 2022, quando a Deep Web, deixou de ser uma rede subterrânea, para se tornar superficial, devido a grande popularidade de materiais distribuídos como inofensivos. Ao contrário do programa do Bill Gates, o SIP-I, era controlado por uma inteligência artificial, criada por um gênio e pai de família, que a desenvolveu exclusivamente para garantir que os filhos, ficassem longe dessas mídias danosas. O Google ainda existe, porém é uma ferramenta usada por criminosos, que agora podem agir a olho nu, graças a intervenção da Elite, para satisfazer seus desejos doentios. A policia, os guardas, os seguranças, os advogados, e todas as ferramentas para se fazer a justiça, não passam de teatros financiados pelo grupo piramidal, para fingir que ainda há um meio de salvar a todos. Sim, o mundo está um completo Caos, e não posso colocar a minha preciosa herdeira do verdadeiro Novo Mundo, nas garras dos monstros do atual. Não tive todo o cuidado de filtrar a sua programação, lhe formar em cursos a distância, para agora entregá-la de mãos beijadas ao sistema deles. “Menina de 10 anos, é estuprada em banheiro unissex por garotos da mesma idade. -Menina desaparece em escola, sem deixar rastros- Menina é agredida ao voltar para casa sozinha- Meninas tendem a sofrer 75% das agressões e abusos no país -Professor é preso por molestar as alunas. Preciso ler mais?!” Disse ao configurar o SIP-I com a minha biometria, para conteúdo adulto no meu computador portátil. “O mundo não é só isso Thamara.” Ela tenta me convencer, e eu acabo rindo, pois praticamente todo mês tenho que matar muitos, por conta da perversão que se expandiu. “Pode até não ser. Mas tudo o quê vejo é esse descontrole, e enquanto Ramona não for capaz de matar, em vez de ser morta, ela fica em casa.” Disse com frieza, e minha genitora se calou. A conversa que tive com a Dona Lina, me deixou bastante apreensiva, e trouxe de volta demônios, que há anos não me perturbavam. “Cuidado em casa.” Disse uma das vozes de minha consciência. “Você não deve confiar em nenhum homem.” Repetiu, e o medo se apoderou de mim. A passos lentos segui pelo corredor do quarto da minha menina, a porta estava entreaberta, e o meu bebê de 10 anos dormia totalmente embrulhado em sua coberta lilás, que por meu intermédio havia se tornado a sua cor favorita, desde que era menor. Entrei no cômodo, e me sentei ao seu lado, fiquei lhe fazendo cafuné, e vi o seu sorriso. “Você é a coisa mais importante do mundo para mim.” Disse-lhe, e ela me abraçou forte. Foi então que ouvi ruídos, e me vi obrigada a me esconder. Como não tinha para onde ir, usei um dos poderes da morte, a invisibilidade. Bart apareceu ali, e sem perceber acabei por deixar a menina descoberta, com o seu pijaminha de short curto. Respirei fundo, se algo ruim fosse acontecer, teria que ser naquele momento, pois meu marido pensava que eu ainda estava a conversar com a sua sogra. Ele a observou sorridente, e a cobriu, dando-lhe um beijo no rosto. “Sua mãe e você, são tudo para mim.” Falou com ternura, e eu não consegui me conter. Meu corpo tremulou entre o intangível e tangível, e acabei por surgir no canto da parede. “Thamara? Mas o quê faz aqui?” Disse já incomodado. “Eu precisava ver se a Ramona estava bem.” Foi o meu primeiro impulso a dizer. “Se era só isso, por quê se escondeu atrás da cortina?” Questionou com o ar de inteligência, sabendo no fundo o quê aquilo significava. “Nem precisa dizer.” Concluiu me deixando para trás, e sai atrás dele, pronta para me explicar.
    _Bart.
    _Thamy. Você lida com o mal o tempo todo.
    Como é que ainda pensa isso de mim?
    _É só que você é todo liberal, e gosta muito
    de mim, sendo que pareço uma menina
    de 14 anos.
    _15. Mas você tem 24, há diferença.
    _Até o dia que envelhecer...
    _Primeiro se envelhecer, sempre será a minha
    mulher. Segundo você não envelhece, é
    parte de ser a morte.
    _Mas se não consigo julgar nem a Katherine,
    que é minha irmã, imagine a você que é
    o amor da minha vida?
    _Eu não sou a Katherine. Tenho prazer de matar
    pela mesma razão que você. Pra limpar o mundo
    dessa escória maldita, que se tornou uma
    epidemia!
    “Tem prazer de matar? Pela mesma razão que ela?” Ouvi uma terceira voz na discussão, e meus olhos se arregalaram, lá estava a minha mãe na porta do quarto da minha filha, que se escondia atrás da sua longa camisola azul. “Ah! Fantástico!” Explodi, e ele lutou para se manter calmo. “Agora todos os meus planos para a Ramona foram por água abaixo. Está feliz?!” Deixei fluir o ódio. “Espera, vai me culpar? Foi você que iniciou a discussão!” Ele rebateu, e embora tivesse razão, preferi negar a culpa, e inspirei “todo o ar do ambiente”, até me tranquilizar, para explicar tudo o quê tinha acontecido, pois embora tivesse o dom de tirar a vida das pessoas, não tinha a capacidade mudar seus rumos. O tempo nunca volta para a morte, isto se dá por uma força maior que a minha, e até mesmo a de meu pai.
    Nos sentamos a mesa, a mesma onde deveriam haver conversas comuns e entediantes, em vez do grande “elefante” que estava entre nós. Ramona ficou a me observar com seus olhinhos negros, que estavam esperando uma explicação, enquanto minha mãe tremia como um rato diante do gato, achando que minha doença, tinha enfim chegado ao estágio final, e agora eu matava sem ter um código de conduta. “Eu poderia mentir para vocês, e acreditem em mim quando digo: Adoraria fazer isso. Mas esconder a verdade, as levariam a pesquisar por conta, e tirarem conclusões mais absurdas que o próprio axioma, por isso vou lhes contar tudo.” Tentei soar culta e fria, mas por dentro temia que não me entendessem, e me jogassem numa casa de apoio emocional e psicológico, um nome bonito para hospício do século XXI. Bart mesmo magoado pela acusação, segurou a minha mão me dando apoio, e apesar de meus demônios o odiarem, por me fazer tão fraca, uma pequena parte de mim, se sentiu segura por tê-lo ali, e assim ambos sorrimos sem vontade, um para o outro. “Lembram-se quando sumi por mais de 6 meses, quando estava perto de fazer 28 anos?” Iniciei o meu relato, com uma pergunta, para adaptá-las ao ambiente do passado. “E que Bart lhes disse que tínhamos tirado um ano de férias longe da Ramona, que tinha se tornado cada vez mais pestinha?” Conclui, e a velha conservada Lina, revirou os olhos, já se recordando do fatídico tempo. “É claro que sim, foi o seu ato mais egoísta em relação a pobrezinha.” Resmungou seca, e isso me fez sorrir com satisfação, pois agora ela se calaria com a verdadeira razão do meu sumiço. “A verdade é que eu tinha sido recrutada por uma antiga Ordem que...” Tentei terminar mas a avó, já veio atropelando a minha narrativa. “Você entrou para os Iluminados?! Depois de tudo o quê me falou sobre eles e sua maldade e...” Desta vez eu atropelei suas palavras. “Não! Eu entrei para a Ordem de Cristo. Na qual os verdadeiros devotos da luz celestial, ou estrela da manhã, são treinados pelo filho de Deus, para limpar o mundo de tamanha crueldade, provocada pela má interpretação das Escrituras Sagradas, que foram corrompidas pelo homem, para atender suas ambições.” Respondi quase automaticamente, e ela ficou emudecida. “Mas você é má. Como o filho de Deus, a aceitaria em seu rebanho?” Inquiriu desapontada com o seu grande ídolo divino. “Eu sou má, porquê preciso ser, e Jesus me escolheu porquê sou a filha dele e Madalena.” Disse com desgosto. Após ter entrado em tantas casas, para matar homens merecedores desta sorte, não gostava de ser associada a maldade diabólica, pregada por palavras vãs, de homens loucos por poder. “Mas você não é filha de Lúcifer?!” Ela ficou ainda mais confusa. “Tive a mesma reação ao descobrir. Mas sim Lúcifer e Jesus são o mesmo ser.” Esclareci, e ela cuspiu a água que tinha começado a beber. “Meu pai cometeu muitos erros mãe. Um deles foi tentado introduzir neste mundo, virtudes para os quais não estava preparado.” Baixei a cabeça, lamentando pelo surgimento da outra face, do príncipe do mundo. “Seu pai é o Alexandre! Esse homem que a induz a matar é um blasfemo!” Gritou como uma fanática, e com o meu dedo indicador apontei minha energia para a planta no meio da sala, que por “mágica" começou a secar, enquanto meus olhos mudavam de castanho para violetas. “Tudo é um, e o um é tudo.” Disse ao abrir a palma, e soprar a vida de volta para a flor, que brotou ainda mais linda e brilhante.
    _Como fez isso? Esse Homem. Esse homem é um alien?!
    _Não, bom é, mas não da forma que está pensando.
    Eu sou o cavaleiro do Apocalipse mãe, eu sou
    a Morte.
    _Mas como isso é possível? Sua gestação foi normal,
    embora houvessem complicações!
    _E você rezou a Nossa Senhora do Perpétuo Socorro,
    para que eu não morresse, e me chamou de seu
    milagre.
    _Minha filha. É um peso tão grande para carregar.
    _Eu sei que é mãe. Sei que posso ficar louca. Mas pela
    primeira vez na vida, tudo realmente faz algum sentido,
    e principalmente, eu não preciso mais ficar de braços
    cruzados, vendo o mundo ruir.
    _Mas você é tão jovem, bonita, e inteligente.
    Ele não pode escolher outra em seu
    lugar?
    _Eu tenho 666 irmãos. Mas nenhum deles tem o
    meu poder mãe.
    _Eu sabia que um dia isso ia acontecer.
    _Não tá planejando me colocar no hospício não é?
    _Não, não minha filha. Apenas espero que saiba
    o quê está fazendo, pois um erro e...
    _Mamãe eu não morro.
    _Mas pode se ferir, e depois de tudo o quê já passou, não
    quero que se machuque ainda mais.
    Ela me abraçou, e Ramona ficou calada, ponderando sobre tudo o quê sabia a respeito de Cristo e Lúcifer. Naquela madrugada tive de falar tudo a minha pequena, de uma forma que ela pudesse entender, e acabamos por adormecer.
    O MISTERIOSO MARIDO NARRA:
    Thamara dormiu junto de nossa filha, e eu fiquei a mesa, arrumando os pratos, cheio de doces que devoramos ao ouvir as palavras da minha esposa. Lina não conseguia dormir, por isso ficou sentada no sofá com o olhar vazio. Embora quisesse transmitir confiança a filha, ainda não tinha aceitado os fatos, e suas mãos tremulantes, alegavam que estava a beira de um surto. Olhei-a por cima dos ombros, e respirei fundo. Se não a ajudasse agora, a Thamy iria sofrer as consequências mais tarde, e não podia deixar isso acontecer. Como quem não quer nada, sentei-me ao seu lado, e ela como que por desespero virou-se para mim, dando-me um baita susto, com seus grandes olhos vermelhos e enrugados, marcados pelo pânico do desconhecido.
    _Bart.
    _Eu mesmo Lina.
    _Thamara não me contou como você foi envolvido
    nessa matança.
    _Ah, é simples. O par da Morte, sempre será
    o Peste.
    _Espera você também acredita que é um dos Cavaleiros
    do Apocalipse?
    _Mas é claro que sim. Fui treinado junto com
    a Thamy.
    _Isso é loucura Bart!
    _Não, não é. Basta parar de ver a Thamy como somente
    sua filha, que verá os sinais entorno dela.
    _Vocês tomaram alguma droga, quando conheceram
    esse guru que acha que é Cristo?!
    _Lina. Se acalma. O tal “guru" salvou sua filha de ficar
    cega.
    _Então é um alien! Um alien maldoso!
    _Lina. Ele é realmente Cristo, sua filha é a Morte, e
    eu sou o Peste. Precisa aceitar isso.
    _Por quê?!
    _Porquê com você como nossa aliada, podemos
    iniciar o quanto antes, os treinos de Ramona para
    esta seguir o destino que lhe foi escrito.
    _E seria?
    _Herdar nossos poderes e manter o mundo
    em equilíbrio.
    A conversa com Lina, não me pareceu muito proveitosa. Era evidente que Thamara tinha puxado a cabeça dura dela. Todavia obtive algum êxito, e por isso pude dormir em paz naquela noite. “Você tem que matá-la.” O sussurro de minha própria voz passou pelos ouvidos. Minha esposa não estava de todo errada, haviam demônios na minha mente, só que ao contrário do quê ela pensava, não representavam perigo algum a nossa filha, não da forma que com veemência me acusava, pelo menos. Meus pensamentos eram mais piedosos, me falavam sobre matar a família inteira, e depois a mim mesmo, não torturá-las com maldade, como fazia com minhas “vítimas”, ou de maneira sexual, como algumas das “vítimas” faziam com terceiros.
    Mergulhado no vazio obscuro dentro de mim, eu os vi. Eram vários de mim, cada um com uma ideia de diferente, e como eu sou o rei deste Inferno mental, caminhei lentamente entre eles, mostrando-lhes a minha força e imponência. O meu eu assustado se recolheu de imediato, ou meu eu raivoso, saltou na minha direção, e por isso o peguei pelo pescoço. “Ela nunca vai te amar! Não é capaz de amar a alguém!” Ele gritou e isso me fez sorrir, ao puxar seu crânio ensanguentado para fora do esqueleto. “Eu que mando aqui, e se não respeita a minha amada deusa, deve morrer como todos os outros.” Esclareci, e o frio e calculista veio até mim. “Ela não é controlável como a Célia. Não é um bom negócio, seguir com aqueles que estão além dos fios de nossa manipulação.” Olhou para mim, e eu lhe acertei com um machado que projetei. Não tinha tempo para ouvir as asneiras, de partes minhas, para as quais somente a Thamara ainda dava vida. “Ele seguiu por aquela direção.” Disse o meu eu viciado em violência, e por isso segui cautelosamente até a escuridão, que crescia da direção em que aquele demônio tinha se enraizado. “Ela te deixou uma vez.” Foram as suas primeiras palavras. “Ela seguiu com Dave, e te ignorou. Só retornou porquê Dave não a ama.” Continuou com seu monólogo de mágoa. “Só há uma razão para odiá-la tanto. Sr. Tristeza.” Brinquei ainda atento ao ataque dele. “É Sr. Melancolia.” Ele gritou enfurecido. “Pra mim parece mais o bebê chorão. Aquele tempo se foi Bart Melancólico.” O alfinetei, e depois recobrei o sentido, se somos o mesmo, não cairia numa provocação barata. “Não para mim. Eu ainda a vejo nos braços do outro, exatamente como ela desenhou.” Respondeu com mais intensidade, e pude chegar até ele, porém ao pisar no topo de uma colina, iluminada pela luz da lua, percebi que aquela voz vinha do meu inconsciente. “Ela nos ama. Me ama, e é só o quê importa.” Disse ao olhar para baixo. “Não é tão simples.” Suas sombras se materializaram, agarrando meus pés como tentáculos, e me arrastando para dentro do breu. Uma vez disse a Thamara que eu tinha entrado em depressão quando me deixou, mas eu menti, ela tinha criado algo muito pior dentro de mim, pois nunca havia amado tanto alguém antes dela, e agora esse mesmo monstro queria me puxar para o fundo, com o intuito de se tornar o 70% de mim, que controlava os meus outros demônios. Isso já tinha acontecido uma vez, e até hoje sofro com consequências do Bart Melancólico, que me levou a trair a minha esposa, mesmo que só emocionalmente, e ela nunca me perdoou. “Ela irá fugir com o primeiro homem bonito que aparecer.” Ele disse tentando me desnortear, mas desde que tinha completado 30 anos, não era o garoto de antes, o emprego e pequenas intervenções de Thamy, tinham me tornado atraente o suficiente, para não me sentir ameaçado, caso surgisse mais um novo rival, na batalha pelo coração da minha companheira. Por isso concentrei raios de luz na minha palma, e cortei os braços da criatura, antes de chegar na ponta do precipício. “Eu não entendo por quê você ainda existe. Eu já superei o passado, então faça o mesmo. Não importa as batalhas que perdemos, e sim que vencemos a guerra, e teremos a Thamara para sempre.” Disse iluminando o meu corpo ao máximo, para ser intocável pelo poder obscuro, do ser que habita as profundezas da minha cabeça. “Dave, Thomy, e outros, não foram os últimos.” Ele me disse, e retornei ao meu estado ativo.
    Já eram 7: 30 da manhã, e Thamara já havia iniciado suas negociações com o Robô da Ibov. “Me atrasei?” Brinquei com o meu sorriso mais sem graça, e ela seguiu com os seus olhos vazios, procurando por algo que nem a mesma sabia. “Está atrasado em 15 minutos, e só não perdeu 140 USD, porquê entrei em seu Login.” Respondeu seca, e isso me preocupou bastante. Se ela soubesse a luta que vivo toda noite, para continuarmos juntos, talvez valorizasse o meu amor, ou não. Conhecendo a senhorita “Não te amo há muito tempo.” Certamente não. “Obrigado meu peixe.” Agradeci citando o nosso apelido próprio, na intenção de alcançar as suas emoções. Só que ela seguiu inerte, me ignorando, e isso fez com quê o pesadelo da noite passada, parecesse bem real. Sentei-me do seu lado, meio desarrumado, tinha apenas escovado os dentes, e lavado o rosto. Sua pequena e delicada mão procurou pela minha, e isso me fez sorrir. “Não Bart Melancólico estava errado. Ela me ama sim.” Pensei tentando esconder o riso de alegria, e sem dizer nada ela se encostou no meu ombro, ainda focada na tela da FT. Era o seu jeito de dizer Eu te amo, sem o uso das palavras, e eu adoro isso, pois depois do carinho silencioso, sempre vem o beijo, e neste sinto toda a sua energia amorosa fluir com bastante gosto.
    A MORTE VOLTA A NARRAR:
    Ainda estava enfurecida pela noite passada, ele me traiu com uma garota mais jovem, de 18 anos, quando tinha 22. O quê quer que eu pense? Que é um homem digno que não se interessa por garotinhas? É difícil. Pois achei que o fato de ser 2 anos mais nova, me dava uma vantagem que as outras não podem ter. Afinal desde nova, sempre sofri muita rejeição dos caras da minha idade, e recebi bastantes pretendentes mais velhos. Assim conclui que meu par teria de ter sempre um ou dois anos acima de mim, do contrário sempre seria sempre um fracasso. Meus planos caíram por terra! Mesmo sendo mais nova, ele procurou por uma ainda mais nova, 4 anos mais nova. O quê me levou a concluir que se tivesse 17, teria um relacionamento com uma menina de 13 anos, algo tão patético, quanto o quê Roger, o lixo que me desvirginou fez. Depois de tal fato, nunca mais o vi com os olhos do encanto, porém ainda sim, mesmo ferida, e quebrada por dentro, não deixei de amá-lo. Só que como ele nunca valorizou os meus esforços, para manter longe os abutres que queriam destruir o nosso relacionamento, sempre que esse rancor crescia dentro de mim, acabava por dizer que não sinto mais nada, pois a verdade é que não queria sentir, mas por alguma razão era o único que não era capaz de deixar de amar totalmente. Talvez fosse o pacto que fizemos, quando ele tinha 18 e eu 16, ou quem sabe somos almas gêmeas. Já não sei mais, pois cansei de fazer inúmeros rituais para nos desamarrar, e continuarmos voltando aos dias de intensa paixão da juventude, e nos amando ainda mais. Como uma maldição sem fim, da qual nunca poderia escapar. Karma também é uma opção, consequência por desafiar a ordem divina. Contudo poderia ter me prendido a um homem cachaceiro, que me bateria, ou não me reconheceria nem mesmo com magia. Porém acabei junto dele, e apesar de ter sido o maior dos idiotas, foi a melhor opção, entretanto se pudesse voltar no tempo, eu teria impedido essa união de todas as formas, e com certeza me espancaria até desmaiar, antes de juntar nossas gotas de sangue, e transformá-las numa só, envolvendo o nome de Lúcifer e Lilith. Talvez fosse melhor ter invocado a própria Afrodite e o seu Adônis endeusado, mas isso é duvidoso, pois muitos no círculo dos magistas alegam que Lilith é Vênus, e se isso é verdade, então Lúcifer seria Áries ou será que era o pobre Efestos? Aquele que foi expulso do Olimpo pela própria mãe, e se tornou um Deus por sua cruel astúcia, ao descobrir as fraquezas daqueles que um dia o humilharam. Tanto faz. Só sei que rezei aos deuses errados, pois mesmo que a minha vítima cedesse, passamos por vários problemas ligados a este bendito ritual diabólico. O amo muito, ele é a minha vida, não vivo sem ele, parece que quem se amarrou fui eu. É duro sentir tal coisa, sendo que nunca tive tal emoção, por nenhum outro homem antes, e pior ainda é gostar dele deste forma, depois de tudo o quê aconteceu. Eu piso, humilho, chuto como se fosse outro psicótico a ser julgado, e na hora de partir o agarro forte, e faço o quê estiver ao meu alcance para não deixá-lo ir. Meus médicos dizem, que é culpa do meu mal, que não o amo de verdade, só gosto de sua submissão, e de torturá-lo friamente. É tudo tão simples para eles, que chega a me dar raiva. Não é que não o ame, pois se assim fosse, não perderia a cabeça só de imaginar ele com outra. “E isso se dá porquê o trata como sua posse, e acredita que ninguém mais pode tocá-lo.” Já até ouço o Doutor Fernand dizer, e reviro os olhos. Oras se não quero que ninguém toque nele, é porquê é importante para mim, e as mãos impuras de terceiros não devem corromper o meu imaculado amado.
    _O quê está pensando Thamy?
    _Nada.
    _Olha lá a mentira patológica gente.
    _Não importa.
    _Ainda é sobre aquele assunto irritante?
    _Em parte sim.
    _Hm.
    _O quê quer para o café?
    _Nada.
    _Isso só funciona comigo. Deixa de graça.
    _Eu realmente estou sem fome.
    _Então vou fazer bolinhos de queijo
    , presunto, salsa, e recheio de
    requeijão.
    _Quero 2.
    _Ótimo. Vou aguardar você terminar
    aqui.
    Sorri da maneira mais cínica, e isso o contagiou. É nessas horas que percebo o quanto me ama. “Eu vou. Mas só porquê me garantiu 140 dólares ainda pouco.” Fez a face de senhor da razão, e eu gargalhei. Está querendo enganar a quem querido? É evidente que expande a quantidade de oxitocina no seu organismo por mim. Tomamos o café-da-manhã, já em clima de harmonia, sorrindo como se por alguns minutos todos os males tivessem ido embora. Uma perfeita relação abusiva, na qual para surpresa de todos, era a mulher que estava pisando de salto alto nos sentimentos do homem. O telefone tocou, e fechei a cara, pois não era Lúcifer que estava me ligando, e sim a minha irmã que tinha se bandeado pro lado dos Iluminados.
    _Luciféria.
    _Pai!
    _Precisa vim a Santa Marta o quanto antes.
    _O quê? Por quê?
    _Sua irmã despertou da lavagem cerebral
    das Corais, e está a beira da morte!
    _Ela... O quê?
    _Venha ao mosteiro, e explicarei tudo.
    _Está bem.
    Ele desligou, e eu olhei para Bart. Nós entramos no carro, e dirigimos até o monte dourado. Katherine estava totalmente desidratada, caída no piso, como se implorasse pelo seu último suspiro. Sem dizer nada, afastei todos os frades, e me ajoelhei diante dela. Concentrando minhas energias na palma, vi ambas se tornarem esferas de luz radiante, e soprei para dentro da sua boca, infelizmente minha irmã não estava só morrendo, e sim tinha sido acometida por um vírus, e somente o sangue do Peste, poderia curá-la. “Vai em frente.” Disse ele estendendo o pulso, e com minha unha de energia, perfurei sua pele rasgando-a, até pingar gotas vermelhas na língua da moça, que pouco a pouco se restabeleceu de sua doença.
    Passadas algumas horas...Caminhei pelo mosteiro, e fumei um cigarro de maconha para me acalmar. Meu pai viu, e sorriu, erguendo a mão, para tirá-lo da minha. Sem questionar o entreguei, e para a minha surpresa, ele o levou aos lábios, e puxou toda a fumaça com gosto. “Parece que o lado Lúcifer segue aí dentro.” Brinquei, e ele olhou para o céu. “Lúcifer nunca irá embora, Magda.” Respondeu com calmaria. “É Luciféria, Luciferiel.” O corrigi. “Luciféria no céu, Magda na Terra, Arádia na Magia, Matheuccia na Religião...São apenas nomes. O quê importa é a sua essência, pequena princesa.” Citou meus “20 nomes", e me fez entender o seu propósito. “De fato. Lúcifer no céu, Jesus Cristo na Terra, Agrippa na Magia e na Religião.” Devolvi na mesma moeda, e ele riu com compaixão. “Então reconheceu minhas palavras, até mesmo através de um homem? A eduquei direito pelo visto.” Olhou para o lado, e ergui os ombros. “Quando falou que o Ar não era um elemento, e sim uma cola que unia os outros 3, como se o mesmo fosse o mais poderoso dos elementos, ficou bem óbvio na verdade.” Completei, e ele seguiu a fumar a erva sagrada, que aos olhos do sistema, era maldita, pois fazia o cérebro trabalhar mais rápido, e se tornar menos passivo ao controle. “Pena que nem todos os meus filhos aprenderam direito a respeito da palavra sagrada.” Olha para a frente, e a silhueta de violão da Coral, surge querendo se aproximar de nós. “As deixarei a sós.” Ele de imediato se retira. “Espera, ela é sua filha. A minha está em casa lendo e aprendendo.” Resmunguei colocando minha mão em seu peito, não o deixando passar. “Mas quando sua mãe criou ódio dos homens, você cuidou dela, como se fosse sua. Queria uma chance de se redimir? É esta.” Me relembrou, e acabei por ficar sem argumentos. Como uma criança, a morena veio até mim, e eu segui com a postura fria de mágoa.
    _Lucy.
    _É Thamara.
    _Pra mim sempre será Lucy, a minha irmãzinha
    mais velha.
    _Irmã mais velha, não venha com diminuitivos
    para despertar meus sentimentos.
    _Como sempre fria como gelo não é?
    _Diria mais fria como a Antártica.
    _Não vai querer saber como te encontrei?
    _Você sempre se fez de lesa, mas é inteligente.
    Não há nada surpreendente em ter chegado
    até aqui.
    _Eu ouvi um elogio da Sra. Crítica?
    _O quê quer aqui Katherine? Já não nos traiu
    o suficiente, ao se misturar as Corais?
    _Isso está além do quê pode compreender
    Thamara Mary.
    _Que você tinha sede de poder, e se meteu
    com as pessoas erradas? Não, é bem
    fácil.
    _Se me ver como a velha Lilá, sim, é só isso.
    Mas entrei na Ordem das Corais, para vigiá-las,
    e te entregar constantes relatórios sobre os
    crimes.
    _É Agarath e disso eu me lembro. Então num fatídico dia, simplesmente me levou para uma armadilha, e por pouco não morri.
    _Eu me apaixonei Lucy, e assim como você
    e Bart, ele era o meu parceiro de outras
    vidas.
    _Outro loiro de olhos claros com o rosto
    de uma estátua grega?
    _Guarde o seu sarcasmo. Ele era moreno,
    de olhos castanhos, e sem um gigante
    porte físico.
    _Deixe-me adivinhar, era o líder das Corais?
    _Não. Era outro subalterno como eu, e quando as
    Corais descobriram que tinha traído elas, juraram
    matá-lo, e me entregar o seu coração numa
    folha.
    _Então por um amor de verão traiu
    alguém de seu próprio sangue.
    Interessante.
    _Ele não era um amor de verão Lucy!
    Estávamos juntos, desde que me infiltrei
    na Ordem das Corais!
    _E já se passou pela sua cabecinha infantil,
    que ele pode ser o vigia delas, para testar
    a sua lealdade queridinha?
    _Já! É claro que já! Você me treinou lembra?
    _Então como ainda pode me trair?
    _Porquê ele era diferente do John. Me ligava,
    Mandava flores, fazia planos comigo, e me
    fazia ver que Bart não era o único homem
    na face da Terra, a amar uma mulher.
    _Não te usava? Não te ignorava? Não
    pisava em você? Não dava sinais claros
    de manipulação, e que não estava
    afim?
    _Não. Havia tanta devoção da parte dele,
    que várias vezes as Corais tentaram o matar,
    somente por me proteger.
    _Então te amava mesmo.
    A conversa prosseguiu, e vi os olhos de Katherine. Apesar dos sinais de um amor realmente recíproco, estava claro que aquela história não tinha tido um final feliz.
    A MEMBRO CORAL NARRA:
    Quando entrei no clube das Corais, que até aquele momento não era uma ordem reconhecida pelo mundo, tinha apenas um objetivo, orgulhar a minha mestra, irmã, e segunda mãe que já tinha conhecido. A tarefa era simples, apenas observar os relatórios através do Whatsapp e repassá-los para a minha superior, que havia praticamente retornado dos mortos. Contudo praticamente da noite para o dia, o Clube das Corais, ganhou destaque, e passou a ser notado por diversos países. Assim em vez do pequeno grupo que só tinha conversas online, agora os membros ganhavam passagens, para se encontrarem pessoalmente. Entrei num lugar com estátuas de Gárgula, cheio das mais diversas artes clássicas e góticas. Quem tivesse conhecido a líder antes, não acreditaria, que Ane Marrie agora era uma das mulheres mais ricas do Brasil. Mas isso tinha um preço, que era caro demais para pagar. “Olá meus filhos. Eu sou a deusa. Lúcifer não virá, mas os homens de Cristo, bateram a nossa porta, e não podemos deixá-los esperando.” Disse Ane, enquanto os 9 membros principais, se aproximavam de seu trono de mármore, uma regalia necessária, oferecida por ninguém menos que os iluminados. “Luz é o quê este mundo precisa, e é a ela que agora serviremos, sem perder a nossa autonomia.” Prosseguiu, sentindo-se a dona do mundo. “Se Lucy assistisse a essa cerimônia, teria revirado os olhos, e cochichado algo sarcástico.” Pensei ao me ajoelhar perante os pés da “deusa Marrie". A festa foi bastante recatada, até o momento em que ela pediu que nos despíssemos. Tremi um pouco, pois só havia eu e mais uma garota, chamada Pauline, e um dos homens veio até mim. Seu nome era Timothy, e o olhar cheio de desejo, me fez ter repulsa, por achar que era um pervertido qualquer. Porém quando segurou minha mão, e a beijou, soube que mesmo sendo um tarado, era um cavalheiro. “Não é bem o lugar para ser educado.” Joguei verde, para ver se era um teatro e ele riu. “Com alguém tão bela quanto você, é sempre hora de ser educado.” Ele me olhou com os seus escuros olhos penetrantes, e sem graça deixei meu riso escapar. Após o evento, em que por nome dos deuses tivemos de copular, Ane Marrie notou uma conexão entre nós, e nos fez um par, segundo ela éramos deuses antigos, que agora tinham reencarnado para clarear a sociedade. Novamente se Lucy ouvisse tal coisa, iria surtar, pois parecia uma cópia malfeita da historia dela e do marido, e se saísse da minha boca, certamente brigaríamos, pois ela iria pensar que a ideia teria sido minha, por conta dessa “mania de poder". Timothy andava pela cidade, sentindo-se o Senhor das Ruas, por conta do título que a “deusa" lhe proporcionou. Eu seguia ignorando isso, minha deusa era outra, e a mesma dizia que eu só me tornaria como ela, no dia em que finalmente despertasse, de maneira tanto física quanto intelectual. Só que o meu parceiro achava mesmo que Ane Marrie, era alguma entidade poderosa, por isso tentava fazer a minha cabeça para ver a sua grandeza, e jamais seguir a renegada filha de Lúcifer, que não fazia parte das Corais, por ser uma egocêntrica, metida, que achava ter mais poder que a “nossa" majestade. “Sempre não é Lucy?” Mas estes embora pareçam ser defeitos, no fim eram suas qualidades, e eu admirava esse desempenho frio e turrão de ser. Percebendo que a glória da Rainha Cobra, não me tocava o coração, ele desistiu de falar de seus feitos, e passou a mudar de assunto. “Obrigado Satã por sinal.” Foi então que vi que Timothy, não era só um ingênuo seguidor da “deusa nada virgem", como Lucy costumava chamar, e pouco a pouco, meus pensamentos sempre focados na minha irmã, foram desaparecendo, e sendo substituídos por todos os segundos e minutos que ficava perto dele. É claro cometíamos muitos crimes hediondos, em nome dos Iluminados, por intermédio da majestosa Marrie. Mas tudo o quê ficava na minha mente, eram os milk-shakes com hambúrguer que comíamos na volta para casa. Os meses se passaram, e a minha aproximação com ele, se tornou cada vez maior. O quê deveria ser somente uma parceria de negócios, logo se tornou um romance, e quando dei por mim estávamos vivendo juntos, no apartamento simples dele, que nós chamávamos de ninho do amor. Mesmo que um filho de Eva morresse em minhas mãos todos os dias, tudo o quê importava, era o calor do seu colo no final da noite, pois nada mais era importante além de nós dois, ou assim pensei.
    Certa noite cheguei em casa, e Timothy não estava lá. Somente o nosso cachorro Vlad, se encontrava no apartamento. Logo o medo de algo ter acontecido invadiu o meu pensamento. Liguei em seu telefone, e o mesmo estava desligado. Estaria ele aprontando sem mim? Questionei. Só que o meu amor, me deixou um pouco mais lúcida, e por isso decidi verificar os meus recados. “Amor. O Vlad tá com saudades.” Foi a primeira mensagem, as 7:30. “Amor hoje vai ter pizza na janta, quer escolher o sabor?” Foi a segunda, na hora do almoço. “Amor trouxe sua pizza favorita, com muito queijo e...” A ligação caiu as 19:45. “Merd...!” Deixei escapar, e fui para a próxima e última mensagem. “Sabemos de sua conexão com a deusa renegada, e se quiser ouvir outra declaração patética do seu amado, vai ter que fazer o seguinte...” Anotei as instruções com a mão trêmula. Sabia que Thamara jamais me perdoaria, pelo que ia fazer. Contudo Timy era o amor da minha vida, e eu não me perdoaria se algo acontecesse a ele. Precisava tomar uma decisão, que mudaria a minha vida sempre, e tinha apenas alguns minutos para cruzar a linha da traição. Foi então que segui o plano delas, e enviei uma falsa localização para a minha irmã, que a enviaria direto para o abate. Ela não havia despertado ainda, mas assim como eu tinha alguém que me amava, ela também tinha, e certamente ele iria resgatá-la, e caso isso falhasse, havia uma força celestial disposta a mudar o tempo, para salvá-la, e sendo assim ela era importante o suficiente para o universo intervir. Ao contrário do Timothy que tinha menos de 2 horas de vida, e poderia desaparecer para sempre, pois era um criminoso, e mesmo sendo um filho do Inferno como eu, ficaria preso ali, por sua afronta a ordem natural, ao seguir as leis erradas. Era o fim da minha parceria com a minha irmã, e por isso não conseguia aguentar as lágrimas, mas mesmo assim, eu segui em frente, e entrei naquele depósito. Timy estava preso dentro de um vidro cheio de água, acorrentado até o pescoço, com panos brancos que estavam vermelhos de sangue. Só haviam 7 minutos de vida agora, e eu precisava encontrar o painel. Corri de um lado para o outro, tentando achá-lo, até que notei os olhos do meu amado, e segui na direção indicada por estes. Quando o líquido já tinha ultrapassado o queixo, eu consegui desligar, e sem pensar duas vezes, entrei no tanque, e usei a chave que me entregaram, após mandar minha irmã para a morte. Ao nos encontrar nos abraçamos mais forte do quê nunca, e nos beijamos ali dentro. Mas após ter comprometido toda a Ordem das Corais, eu mesma paguei o preço. O tanque se fechou, na parte de cima, e a própria Ane Marrie, veio nos executar. Pensei que ia morrer, pois agora não só subia água, e sim um liquido verde, que segundo a mesma estava contaminado, com um vírus que tinha ficado adormecido há 7 mil anos. Eu gritei, e me debati, enquanto Timothy ficou parado. Não entendi a razão, até ver a enorme e gosmenta criatura na sua nuca, que brilhava mais que neon, e que seus olhos estavam vazios. “Este? É um presente da nossa bióloga renegada, que antes de sair me ensinou sobre todos os poderes da ciência... e seus malefícios.” A rainha sorriu, e entrei em desespero. Sem saber o quê fazer, passei a me empurrar na ordem contrária ao apoio do tanque. A queda poderia me machucar, só que era melhor que morrer. Empurrei várias vezes, impulsionando o meu corpo, até que a cúpula caiu no piso e se partiu. Me arrastei entre os cacos, e peguei a mão do meu namorado. Sabendo que não éramos mais bem vindos, sai correndo até a saída mais próxima. Nós dois corremos até a floresta, e quando vi um frade passar por ali, gritei pedindo por ajuda. “Eu sou Úrsula, a outra irmã de Thamara a filha mais velha de Cristo!” Foi tudo o quê pude pronunciar, antes de desmaiar. Se falasse meu nome verdadeiro, eles não nos ajudariam, Thamara tinha deixado isso bem claro, na sua “doce” carta de despedida, por isso fui obrigada a mentir. Mas ainda bem que fiz isso, pois me trouxe até o único lugar, em que Timothy pôde ser curado, para que possamos iniciar uma nova vida, longe dos crimes da Ordem das Corais. Sei que somos dois ímpios, mas se meu pai é mesmo Cristo, ele ensinou os outros a perdoarem, e certamente não negaria uma segunda chance, para uma das suas filhas, e o sobrinho, filho de seu irmão Belial.
    _Então mentiu para chegar aqui?
    _É só o quê ouviu?!
    _Não, foi apenas a parte mais marcante, pois pensei
    que tinha me rastreado de alguma maneira, algo mais
    inteligente, do quê apenas sorte.
    _Foi inteligente, do contrário Timothy teria morrido.
    _E agora espera que a Ordem de Cristo os abracem
    , e ofereçam um banquete pela sua chegada?
    _Queremos somente redenção Thamy.
    _Sem coroas, deuses, ou as velhas regalias que
    foram ofertadas por Marrie, para tentá-los ?
    _É claro que sim.
    _Estão prontos para o trabalho duro,
    que lhes confere alguma nobreza
    entre nós?
    _Se tiver um quarto, comida boa, e bons
    livros.
    _Acha que está no direito de exigir?
    _É o mínimo para um ser humano.
    _Então terá de se dirigir ao pai.
    Ele quem lida com essas
    coisas.
    Thamara era bastante firme em suas palavras, porém era evidente o alívio que sentia no peito, por me ter de volta ao seu comando. Uma vez irmã, sempre irmã, e mesmo com toda a frieza, ficava claro que se importava do contrário, não teria feito o seu marido “O Peste" me dá o sangue da cura.
    A MORTE NARRA:
    A volta da minha irmã mais nova deveria me trazer alegrias, mas por mais feliz que estivesse pela sua volta, não podia me esquecer dos males que tinha causado, e de quê nem Ramona escapou das suas teias diabólicas. Inspirei fundo, e caminhei para longe dela, deixando-a sem respostas. Tudo sempre foi muito fácil para Katherine, então não me admira a sua “cara de pau”, de vim até Santa Marta em busca de perdão. Nosso pai poderia lhe perdoar, afinal ele sempre foi o cara que perdoo as faltas do mundo, mas eu neste sentido, era tão implacável quanto minha mãe Madalena Lilith.
    A noite... Timothy e Katherine ficaram agarrados um ao outro, sorrindo, ao beberem a sopa do nosso chefe e padre João. Quem os visse ali, pensaria que eram almas gêmeas, puras e inocentes, entregues aos desejos da juventude. Fiquei com o cotovelo apoiado na mesa, pousando a mão abaixo do queixo. Os observando com cautela e fúria. Vendo o meu estado, Bart deitou sua cabeça no meu ombro, dando-me beijinhos no pescoço, até me fazer rir, e sussurrou para nos afastarmos de todos. De mãos dadas, nós seguimos até a beira do rio cristalino, e nos sentamos na ponta da terra, deixando a água cobrir os nossos pés. “Não gostei da volta dela.” Ele iniciou, e dei graças aos deuses, por não ser a primeira a dizer. “Ela é minha irmã, mas eu também não estou satisfeita com isso.” Concordei, e ele se deitou no meu colo, deixando a água fria cobrir metade do seu corpo, já que a fenda estava rasa, e “secando”.
    _Por pouco você e Ramona não morreram
    naquele dia. Não é algo fácil de se perdoar.
    _Se Ele não tivesse parado o tempo...
    _E ainda tem essa. Graças a ela o Arcanjo voltou.
    _Ciúmes, bonitinho?
    _Sempre terei ciúmes de você. É o amor da
    minha vida.
    _Você também é o amor da minha...
    _Mas?
    _Você sabe...
    _Está muito magoada comigo, para sentir
    alegria por isso.
    _Olha, não é que é esperto?
    _Engraçadinha.
    _Sou mesmo.
    _Eu te amo Thamy. Sei que falhei feio contigo, como marido,
    mas não vai se passar um dia da minha vida, que não deixarei
    de lutar para ser digno do seu perdão.
    Ele ergueu a face para cima, e pude vê as estrelas se refletirem nos seus olhos. Aquelas íris brilhantes, e a pupila tão dilatada ao olhar para mim, me fizeram entender porquê mesmo depois de tantos anos, sofrendo por ser incapaz de dar uma segunda chance a alguém, ainda seguia ao seu lado, e afastava todos os possíveis pretendentes, tornando-o minha primeira e única opção. “Também te amo Bart. É difícil pra mim perdoar, qualquer pequena falha que seja. Mas por você estou tentando.” Me esforcei para me declarar. Escrever é fácil, porém falar dos meus sentimentos, sempre foi algo complicado, pois é como se eu não fosse capaz de amar, ao ponto de literalmente esquecer de mim, e levar um tiro para proteger alguém que não está dentro desse corpo. Contudo Bart era o único por quem eu realmente me esforçava para ser melhor, e por mais que o Dr. Fernand ou o Dr. Augusto dissessem o contrário, isso para mim, era o mais perto do amor que podia conhecer. Sem que percebesse, meus dedos fizeram carinho em sua cabeça, e meus lábios foram até os seus. Talvez amar, não fosse algo que trouxesse somente felicidade e satisfação, e sim a caminhada longa e tortuosa, na qual os dois enfrentam todas as barreiras para continuarem juntos.
    O PESTE NARRA:
    Outra vez seus impulsos românticos a traíram, era óbvio por causa da sua face corada de vergonha, ao afastar o rosto depois de me beijar, e praticamente criar alguma distância emocional, ao se recostar para trás. Ainda bem que tínhamos voltado a brigar por nosso relacionamento, não queria me lembrar, do dia em que quase perdi a mulher da minha vida, e o fruto desse amor que nunca se apaga. Droga. Estou começando a lembrar outra vez...Já ouço o som do temporal que caia, e a voz dela ao telefone. “Bart por favor me ajude.” Foi tudo o quê ouvi, antes de ligar sua localização, e seguir até o meio da mata escura. A mesma em que há poucos dias, havíamos encontrado sacrifícios infantis, em nome dos “ofídios em forma de humanos”. O sangue estava espalhado por toda parte, - ao contrário do quê fizeram com Marcele, outra membro que abandonou as corais, antes da mesma se transformar numa ordem mundialmente famosa, por suas atrocidades. – Eles queriam mesmo executar a Thamara, sem fazer parecer suicídio. Minha respiração era calma, porém a cada passo que dava, o medo crescia dentro de mim, e os suspiros pouco a pouco se aceleravam. As folhas se quebraram abaixo dos meus pés, mesmo tentando ser sorrateiro, e isso fez meu coração subir até um pouco acima das costelas. Um pouco trêmulo, me aproximei das árvores, para observar o ambiente. Sentindo a força de Gaia fluir pela copa, ganhei energia para enfrentar os monstros que tinham levado a minha amada, e a minha filhinha. Minha áurea obscura cresceu, e por alguns segundos o Bart viciado em violência, tomou 70% do controle do meu corpo, pois estava pronto para me “banquetear” com a carne de certas corais. Meus dedos arranharam o tronco, como se fossem obsidianas, e por um momento senti que meus olhos queimaram, e se tornaram amarelos como ouro, dando-me o poder de ver no escuro. Foi então que a vi, nos braços dele, e minhas íris se tornaram vermelhas como rubi, pois o Bart melancólico quem assumiu. “O quê faz aqui?” Perguntei ao ver o homem de longos e cacheados cabelos negros, que segurava a minha esposa, e ficava ao lado da minha filha, me encarando com seus olhos azuis, que brilhavam de maneira tão inumana quanto os meus. “Se soubesse cuidar dela. Eu não precisaria intervir.” Ele me respondeu, e isso me fez rir de raiva, pois jamais deixava de salvaguardar a minha amada. “O quê aconteceu?” Perguntei lentamente, pronto para matá-lo com todos os requintes da maldade, assim que me entregasse a minha companheira. “As corais vieram atrás dela.” Disse sem parecer se importar, e ela despertou. “Você?” Perguntou para ele, com certa mágoa, e este sem querer sorriu. “Estou fazendo hora extra.” A colocou no piso, e levantou voo. “Ela precisa de proteção. Não importa quem você seja, sabe que somente o Pai tem tal poder.” Disse ao passar por mim. Apesar de ser um engomadinho celestial, ele estava certo, porém conhecendo a mulher que tinha, havia a certeza de quê ela não seria a favor de tal intervenção, por isso só deixei escapar um barulho de lata de refrigerante sendo aberta.
    No caminho de volta para casa...Thamara ficou em completo silêncio, segurando Ramona que tinha dormido em seus braços. Pelo retrovisor pude vê-la. Seu olhar era vazio, tinha marcas de garras nos ombros, o lábio estava roxo, como se tivessem torturado e depois a forcassem a beber veneno. Eu queria saber o quê tinha acontecido, mas ela parecia sem reação. Ao passar pela entrada de casa, ela pulou no meu colo e me abraçou forte. “Ela saiu. Eu preciso ir embora.” Foram as suas palavras. Sem pensar, a segurei contra o meu peito. “Não.” Foi tudo o quê consegui sussurrar, e ela me deu um beijo no rosto, seguido de um beijo na boca, que pareceu sugar as minhas energias. Era como se ela fosse a Hera Venenosa das revistas em quadrinhos, mas seus olhos ficavam violetas e vítreos, quando minha vida era engolida por sua boca roxa. “Eu te amo muito. De verdade. Mas meu ódio pode te machucar, então adeus.” Ela disse e dei o meu último suspiro, caindo desmaiado no piso.
    Os dias se passaram...Minha sogra entrou em desespero, e veio para dentro da nossa casa, me oferecer ajuda para cuidar de Ramona, enquanto eu procurava por minha esposa. Cheguei a voltar a beber e fumar, coisa que só fiz na adolescência após termos terminado por conta dos seus inúmeros pretendentes, e querer vivenciar todos os prazeres da juventude. Ela certamente diria que o fez, pra ficar com o tal Dave, porém anos mais tarde, vim saber que não tinha só o babaca, outros estavam aos seus pés. Não acho isso negativo, porquê eu também era o homem de muitas, após termos nos afastado. Pra mim isso só significava que a separação nos tornou duas criaturas frias e maldosas, que deixaram um rastro de destruição por onde passaram, mas se reencontraram mesmo nas trevas, pois eram perfeitos um para o outro. Infelizmente acho que ela não via assim, e por isso tinha partido de vez. Ela, seu outro Eu sempre saia em momentos de adrenalina. Então isso pra mim, era uma desculpa mais do quê esfarrapada. O sino da porta do bar tocou, e foi tudo muito rápido. Um grupo de mascarados, com uma braçadeira vermelha, jogaram um frasco ovalado no piso, que se partiu e deixou todos doentes.
    No meio daquela névoa verde, eu via mulheres e crianças gritando, ao chorarem lágrimas de sangue, enquanto os homens vomitavam sem parar pelos cantos, e alguns tremiam como se sofressem o efeito colateral de um remédio psiquiátrico. O quê quer que seja, era mortal, mas me sentia normal, por isso caminhei por ali, até chegar a saída, onde encontrei um grupo de homens de túnica branca. “Eis que o filho do nosso senhor enfim aparece entre as sombras, iluminando-as com a sua luz.” Disseram em coro, e ergui uma sobrancelha de incredulidade. “Saudamos-te ó grande cavaleiro iluminado, que deve acompanhar a amazona negra que com a sua mortalha e foice limpará o mundo.” Eles se ajoelharam diante de mim, com itens em suas mãos. “Eu sonhei que muitas pessoas morriam por minhas mãos.” Me recordei, com a voz dela. “Não podia ver o rosto, mas andava a cavalo com um guerreiro de armadura prata, que me levava até os outros dois. Era como se eu fosse a Morte” Foi o segundo lampejo. “E se um dos cavaleiros, não for apenas uma corrupção machista, e a Morte na verdade é uma amazona?” Foi o quê me fez ter certeza que era dela que se tratava. “Onde ela está?!” Peguei um deles pela túnica, e ergui contra a parede, pronto para destrui-lo caso tivesse feito mal a minha amada. “Está em Santa Marta, porém assim como a mesma está treinando, você deverá fazê-lo, para terem controle dos seus poderes, e não serem controlados por eles.” Me respondeu aquele ficava ao lado do outro. “Olha pra minha cara. Vê se eu me importo com isso? Só quero achá-la.” Disse com impetuosidade. “Se quiser ver a minha filha. Terá de ser merecedor dela.” O quarto e último homem impôs, e quando olhei para trás, vi seus olhos brilhantes como uma lâmpada no escuro. “Lúcifer?” Questionei desconfiado. “É apenas um dos meus nomes, meu filho rebelde.” Me respondeu. “Ela está bem? Não estão abortando seus filhos, e lhes dando o feto para comer não é?” Inqueri me recordando das terríveis visões da minha companheira. “Não somos Os Iluminados. Nosso treinamento é mais rigoroso e evolutivo. Ela está aprendendo a controlar o poder da Morte, e não se tornar o próximo grande Demônio, já temos você pra isso.” Respondeu e brincou no final. “Do quê está falando?” Perguntei sem entender a razão de tal acusação. “Então o bloqueio de memória foi um sucesso.” Se aproximou de mim, e pousou a mão no meu ombro direito. “Infelizmente Baal Hadad, não poderá viver para sempre nesta mentira, de quê só Thamara Mary, viveu no Inferno, e tem o meu sangue.” Tais palavras me deixaram um pouco receoso. “É hora de enfrentar o seu grande demônio, e fazer juiz ao fato de ser o príncipe deste mundo.” Ele prosseguiu. “Esse não é o teu título?” Perguntei com certa curiosidade. “Eu sou o novo Deus, meu filho, o título de Diabo é, e sempre será seu.” Ele me respondeu, e meus olhos se engrandeceram. “Isso não seria uma blasfêmia para o Altíssimo?” Notei os aspectos bíblicos dos quais Thamy sempre falava. “Seria, se ele não tivesse concedido esta glória, para se tornar o sucessor do seu bisavô.” Outra vez ele respondeu algo de quê não tinha muito conhecimento, a não ser pelas aulas da minha linda descendente dele.
    _Eu tenho um bisavô?
    _É muito para explicar. Mas sim. Você é parte da terceira
    gerações dos deuses.
    _Então este bisavô é o Caos da mitologia nórdica?
    _Sim, e dele nasceram os primeiros deuses supremos,
    que são os seus avós.
    _É muito para processar...
    _Ficará mais fácil depois que desbloquearmos sua memória.
    _Não.
    _O quê? Por quê?
    _Se sou mesmo o Diabo, não quero machucar Thamara
    ou minha filha, é melhor deixá-lo adormecido.
    _Isso é um excelente sinal. Porém embora tenha machucado
    muitos com a sua frieza e sadismo, tenho certeza que não
    praticou algum mal contra elas.
    As palavras de Lúcifer me acalmaram, e por isso segui com os frades, para receber o devido treinamento de meu poder, e ver a minha amada outra vez. Foram 6 meses de teorias e práticas, sobre o meu porte físico e espiritual. Os cientistas da ordem diziam, que minha saliva era uma fonte de doenças nocivas, que se transformava no quê minha mente desejasse, e que o meu próprio sangue, continha antígenos praticamente sobre-humanos para cada um desses males. Por vários meses fui estudado numa estufa, ás vezes dentro de um tanque, outras numa maca, para definir o limite dos meus poderes, que faziam de mim, uma bomba biológica, com a cura para as mesmas doenças que causava, por isso me chamaram de Peste. Contudo embora fosse parte das minhas habilidades, ter esses vírus vivendo em meu corpo, e os curar, não era todo o meu poder, pois graças aos seres microscópicos, poderia modificar o meu DNA, para me tornar qualquer ser existente na galáxia...Mas não vem ao caso, como dizia...No sexto mês finalmente pude encontrá-la, ela continuava linda e radiante como a lua. Como tanto gostava, estava usando um vestido preto longo e decotado, sendo seguida por homens e mulheres cobertos por capuzes amarelos. Ao contrário dos costumeiros olhos vazios, parecia tão serena quanto na adolescência, e sorria com a confiança, que nós dois acreditávamos que tinha morrido.
    _Bart?
    _Thamara...
    _Como chegou até aqui?
    _Digamos que nossos caminhos se cruzaram.
    Você não é a única filha cósmica.
    _Sério? Eu sabia! Você é meu par eterno!
    _Não, não sou. Sou apenas o deus que ficou
    louco de amores por você, e não te deixou
    viver na solidão.
    Eu segurei em sua face e a beijei com carinho. Ao sentir o seu corpo no meu, meu coração pulsou com muita intensidade. Foi assim que as memórias do passado tomaram conta da minha mente... Eu era somente um garoto loiro, semelhante um viking, quando nos reencontramos. Ela era somente uma menina de cabelos vermelhos, com olhos violetas e vítreos. Nós discutimos no começo, pois a figura baixinha, tinha contas para acertar comigo. Mas como sempre fomos estranhamente um atraído pelo outro, acabou por me contar a verdade. Sentia-se vazia, e nem sempre do nada, nascem as melhores coisas, por isso ela tomou a pior decisão. Com o uso dos seus poderes, ela abriu a porta da minha cela, e me soltou no universo. Então o quê Deus havia decretado como um caso resolvido, voltou para lhe assombrar. Pouco a pouco me infiltrei no paraíso, e fiz com quê os anjos ficassem encolerizados. Os fracos pereceram diante de meu poder, e o caos se fez no cosmos. Para mim, era como uma festa sem fim, com muitos gritos, sangue, e desespero. Mas para ela, era como uma falha grotesca, que precisava ser corrigida antes que descobrissem o quê fez. Eu espalhei entre as multidões, todo o sofrimento possível para me fortalecer, e ela veio com a sua foice, para lhes dá paz mesmo no Inferno, entre os seres materializados. Seu pai tinha sido o anjo que tirava a vida dos vivos. Porém após o seu nascimento, ele foi coroado como príncipe celestial, e outro teve de assumir o seu posto. Muitos dos seus bravos filhos, lutaram para provar que eram dignos de tal glória. Assim eles limparam a galáxia, ceifando todas as almas que pudessem, com suas armas especiais. Contudo foi na única menina, que o poder se manifestou, e por isso esta que recebeu a sorte grande. Ao contrário dos irmãos, ela não matava somente para se provar merecedora da foice de seu pai, mas sim de acordo com o seu código de conduta, no qual os culpados eram friamente punidos, e os justos levados cuidadosamente para o outro lado. Seus irmãos só se focavam em quantidade, ela não, e esta era a virtude secreta do seu pai, quando ele atuava como tal. Eu a admirava, tanto pela sua impetuosidade violenta com os ímpios, quanto pelo cuidado que tinha com os inocentes. Por isso também tomei a pior decisão. Certa vez a Morte, estava a tomar banho no rio sagrado, e eu entrei na água, infectando-a, para lhe tornar inofensiva. Ela lutou com valentia, usou seus poderes para tentar curar a água, mas por algum mistério da natureza, a pobrezinha não tinha forças para vencer a mim, pois eu era a própria doença, era o vírus que carregava outros dentro de mim, era a própria Peste, em forma humanoide. Ela não suportou a enfermidade que lhe provoquei, e caiu em meus braços. Estava fraca, e bastante vulnerável, quase irresistível. Passei a mão por sua face pálida, ela me olhou preocupada, quase dizendo "não" para a minha proximidade, porém mesmo assim a beijei, e a tomei para mim. Por alguns anos, ela desapareceu, e os homens deixaram de respeitar o poder celestial, assim como acreditaram que não havia punição para os seus crimes, pois eu também não atuava. "Vou beber até cair hoje, pois o meu fígado não mais adoce vadia!" Disse um bêbado ao espancar a esposa, que segurava o símbolo dos celestiais. "Deus porquê não me permite morrer, e me deixa sofrer? Não pequei tanto para acabar assim!" Chorou com a boca toda ensanguentada. Ela não era a primeira a perder a fé. Outros estavam em níveis mais avançados, chegando até mesmo a acreditar, que Deus os tinha abandonado a mercê do mal, do qual tinha lhes prometido proteção. Inúmeras criaturas iam as ruas, protestar contra as iniquidades divinas, e haviam os que tentavam assumir o papel, da única juíza consagrada pelos deuses, deste universo. “Então você queria encontrar a paz, depois de tudo o quê me fez?" Um homem num plano de vingança, apontou a arma para a cabeça de outro. "Eu lamento te informar, mas não existe mais morte, e por isso sou livre para estourar a tua cabeça, quantas vezes desejar." Atirou na testa do culpado, várias e várias vezes, com um sorriso cada vez maior, que o tornava pior do quê aquele que ele julgava. Este não era um caso isolado, os assassinatos se expandiam mais do quê as doenças, que costumava espalhar. Para uns era um parque de diversão macabra, e para os que não tinham tal coragem, parecia a visão mais do quê realista do Inferno dos mortais. Cabeças decepadas, gritavam pelas ruas, e os sádicos lhe perfuravam os olhos, e chutavam-nas para a lama, afogando-as sem parar. Pessoas que tinham perdido o corpo na briga para sobreviver, se arrastavam pelos cantos, para tentar se livrar daquela tortura sem fim. As mulheres se uniam em instalações, para cuidarem uma das outras, já que nesta realidade sem final ou consequência, os pervertidos também ganhavam espaço, e se sentiam no poder de abusar das mesmas. Nem mesmo as crianças, conseguiam manter a inocência, e por isso ficavam divididas: Entre aquelas que matavam, e as que corriam. Meu ato egoísta, tinha feito da galáxia, o próprio Tártaro dos Gregos, e o Inferno dos Católicos, pois eu os privei de manter a bondade, e de receber a devida a punição, ao levar a nossa Morte, para o único lugar, no qual somente o seu Eu daquela realidade, tinha a permissão de julgar, e esta era somente como qualquer criatura que habitava aquele Cosmo. Como desde cedo trabalhei para o céu, como o auxiliar do meu pai, o veneno de Deus. Sabia de todos os pontos fracos da Morte, desde a sua jurisdição, até o quê poderia prendê-la para sempre. Acorrentada no fundo do universo, ela brigava para sair, amava o seu trabalho, e não queria ver ninguém lhe substituir. Só que nunca me dirigia a palavra, e evitava até olhar em meus olhos, devia me odiar bastante. Todavia eu não conseguia deixá-la ir, pois só o fato de tê-la por perto, era o suficiente para me sentir bem, e não me importava com quantos sofreriam no processo. "Já não basta o quê fez?" Ela finalmente disse, com seus braços presos ao aço, banhado com a luz do buraco branco, que sintetizei para imitar o poder supremo, do pai do príncipe celestial. "Foi culpa de nossa mãe, e você sabe." Respondi de imediato. "É só o quê sabe dizer. Mas se fosse forte, teria dito não." Ela retrucou. "Você não pode me culpar por aquilo para sempre. Se soubesse lutar, também teria impedido.” Rebati, e ela ficou indignada. “Vai culpar a vítima? É sério?” Sua voz era alegre, mas cheia de raiva. “Eu sou o Peste. O quê esperava? Que eu me arrependesse? Fui treinado para ser impiedoso!” Mostrei a minha ira, e ela voltou ao silêncio. “Ao menos sentiu algo por mim?” Aquele tom me deixou desnorteado, parecia triste, quase magoada. “Você sabe que sim. Haviam dois destinos naquela noite: te possuir, ou te fazer desaparecer para sempre da minha realidade.” Desabafei com tristeza, quase me encolhendo de vergonha. “Eu não podia ficar sem você.” Segurei em sua face, erguendo seu queixo, e olhei no fundo daquela neve, coberta pela luz do rouxinol. “Mas você sempre foi o pior dos filhos. O Forte, O Implacável por ser incapaz de amar.” Argumentou, sem acreditar. “Parece que a única fraqueza da Peste é a própria Morte.” A beijei, e mesmo com as mãos acorrentadas, ela me puxou para a si. Aquela atração mortal e doentia, tomou conta de nós dois, e a boca mais fria que existe, pareceu quente por uns minutos. Com suas pernas salientes e fatais, ela montou em mim e me arranhou, se entregando a enfermidade do amor. Logo arranquei a sua mortalha, e tirei a sua armadura, enquanto ela me despiu as vestes de cavaleiro. Minhas mãos desceram pela sua costa frágil e nua, a sua boca não quis desgrudar, e quando o fez, foi somente para me beijar o corpo inteiro, e voltar ao meio das coxas, onde fez vários movimentos de vai e vem, deixando sua doce saliva escorrer por meu membro. Contudo não a deixei somente me satisfazer. A deitei no piso, segurei seus pulsos, e passei a minha língua por entre os seios delicados, descendo, até chegar no ponto do prazer, do qual bebi todo o júbilo com gosto, até escorrer pelo canto dos lábios, e quando vi que praticamente implorava, para que a completasse, sorri maldosamente. “Você realmente me deseja ?” Beijei-lhe a virilha, e ela corou de vergonha. “Sim.” Respondeu com sua voz doce como chocolate amargo, o meu favorito. “Então peça por mim.” Impus, e ela relutou, até que se deu conta de quê só havia nós dois, como na segunda vez, em que estivemos juntos, e cedeu a sua vontade. “Me possua Peste.” Aquelas palavras me deixaram eletrizado, e por isso entrei dentro dela com ímpeto, arrancando-lhe suspiros tão intensos, que foi capaz de suar. Aquele rosto, aquele sorriso, aquelas bochechas rosadas de prazer, seguido de seus gemidos, me deixaram louco. Por dias repetimos o feito, e creio que a Morte, foi a primeira a desenvolver a Síndrome de Estocolmo, por isso esta doença é vista de maneira tão mórbida. Mas ela não mais se importava, nem sequer ligava para o quê fazia, só com quem fazia. Se ela me amava, eu não sabia, acreditava que estava usando seu charme fatal somente para ganhar a liberdade. Porém no dia que enfim a libertei, esta saiu voando para fora do cativeiro, e se deparou com a luz de uma das luas do planeta em que estávamos. Estava tão feliz, que pensei que nossos momentos de amor doente, ficariam para trás, assim que retornasse, para impor a ordem ao nosso “mundo". “Vamos?” Segurou em meu pulso, e fiquei paralisado. “Quer que eu vá? Eu o Peste, o demônio, o...” Me silenciou com o dedo indicador. “Nem tudo é preto e branco Peste. Você causou sim muito sofrimento, mas graças a ti famílias se mantém unidas, homens mudam a conduta, e mulheres valorizam a felicidade.” Seus olhos eram de uma criatura sã, contudo suas palavras me pareciam insanas. “Se isso é verdade, por quê sempre atrapalhou a minha tarefa? Como se quisesse me corrigir, após ter me libertado?” Questionei incrédulo, e ela sorriu. “Porquê tua execução é tão sombria e implacável, que mesmo as vítimas dos criminosos, se apiedavam destes. Que de acordo com o meu dever, mereciam uma punição ainda mais severa, por toda a eternidade.” Ela explicou. “O meu erro foi te libertar, mas você quem escolheu atender o meu pedido. Portanto é só você que pode corrigir isso. O quê já se passou, não dá para voltar atrás, sem alterar todo o equilíbrio já existente. ” Ela completou, e eu percebi que estava errado, não era uma falha grotesca que tentava controlar. Nós retornamos para a nossa galáxia natal, tudo estava destruído, e muitos imploravam por seu regresso, enquanto me destetavam mais do quê nunca. Pouco a pouco, ela fez o seu trabalho, não haviam muitos para receber o atestado de óbito, por isso eliminou os executores com punhos de ferros e sem piedade, e trouxe enfim o descanso para os que tinham temido, que aqueles dias jamais teriam fim. Nosso pai quis julgá-la, porém eu assumi a responsabilidade por tê-la raptado, e assim a livrei de perder o manto que tanto adorava. Achei que após a confissão, voltaria para a cela, contudo por ter me provado um pouco mais maduro, o pai decidiu me tornar o segundo juiz consagrado, que auxiliaria a Morte em seu trabalho. Tão grande foi a minha alegria, ao ouvir tal coisa, pois em vez de me afastarem dela, nos juntaram como a metade oposta e complementar da mesma moeda. Desde então, as duas criaturas mais perigosas do universo, seguiram de mãos dadas por toda a eternidade, se amando de uma maneira que os mortais não seriam capazes de compreender. Já que onde Morte fosse, a Peste certamente ali estava... “Bart?” Ouvi a voz dela dizer, e outra vez estávamos a beira do rio. Todavia enquanto me perdia em lembranças passadas, já havíamos trocado de lugar, e agora ela tinha se sentado em meu colo, e ficava a olhar para os peixes na água, ao entrelaçar seus dedos aos meus. “Oi...” Falei olhando para as nossas alianças, próximas uma da outra, por causa da união das palmas. “Promete nunca me deixar?” Disse se encolhendo, quase sem voz, e a luz da lua brilhou sob o aço dos anéis. “É claro que sim meu amor. Não importa o quê os astros digam, sempre seremos um do outro.” Beijei sua cabeça, e ela retribuiu beijando as minhas mãos.
  • O Banquete

    Ted se achava melhor que todo mundo só por ser consagrado em sua profissão. Não tinha amigos, mas tinha bajuladores que encheram a sala do memorial no seu velório.

    No auge da carreira, curtia cada degrau de sua ascensão, mas tinha problemas com peso, pois mais que tudo na vida ele adorava comer. E foi isso que o matou em uma tarde ensolarada. Descendo do ônibus perdeu o equilíbrio, caiu e o motorista não viu. Jamais conseguiria levantar-se sozinho. O enterro foi feito com o caixão fechado.

    Para o falecido aconteceu rápido. Primeiro estava rolando no meio fio, em seguida abria os olhos em uma sala branca. Um homem calvo de pele oleosa e camisa azul listrada o encarava. Toda religião tem um representante para recepcionar seus mortos. Ted era ateu e, portanto, seu guia só poderia ser um contador.
    "Que porra é essa?" Perguntou com seu jeitinho peculiar. O contador não se abalou, começou exatamente como havia planejado: "Estás prestes a passar pelo…" E foi subitamente interrompido. "Passar é o caralho. Chama teu chefe!" O contador ficou em silêncio e não demonstrou emoção. "Traz alguém que resolva!". Ted observou um sinal com a mão e à contra-gosto seguiu o caminho indicado. Uma porta enorme se abriu e na outra sala havia uma surpresa. Um aroma delicioso de comida fresquinha o lembrou que estava mais faminto do que nunca. "Sei que acreditas ser o melhor chef da atualidade. Mesmo que o fosse, isso seria nada ante os cozinheiros daqui." O falecido nem pensou em retrucar. Sua boca estava cheia d'água e seus olhos fixos em uma mesa longa coberta por iguarias de todos os tipos. Foda-se a vida e os falsos amigos, estava onde queria. Era o céu.

    "Eis as regras" continuou o contador: "Todo o banquete será servido pelo Maitre em certa ordem. Não sairás daqui sem teres comido cada migalha ou definhado e morrido novamente por inanição. Se tocares a comida ou os pratos com qualquer parte do corpo que não o interior da boca, ela apodrecerá instantaneamente. Tens todo o tempo para dar cabo à provação". Ted ostentou um sorriso obsceno ao se deixar guiar pacificamente até à mesa. O primeiro prato foi posto e a cúpula de metal foi levantada revelando uma generosa porção de azeitonas. Ted já ia pegando a primeira quando lembrou que não poderia tocá-las. "Cadê os talheres? Como vou banquetear?" O contador tirou do bolso um palito de dentes. "Deverás usar esse instrumento que não será reposto sob nenhuma circunstância". Nem daria para argumentar, pois o contador sumiu sem se despedir.

    Encarando seu palito, Ted tentou imaginar como comeria bifes, ovos ou arroz. A fome estava insuportável e ele resolveu começar pelo princípio. Espetou a primeira azeitona e, com desgosto, percebeu que estavam com caroço. O palito quebrou em dois e o homem chorou. Sem se dar por vencido usou metade do palitinho, limpou cada carocinho e esperou pelo próximo prato. O Maitre veio, suspendeu a cúpula e dessa vez era sopa.
  • O cruzamento

    1

    O som alto, próximo do máximo, ilustrava sua viagem. Tocava thunderstruck do AC/DC, a música preferida de Alfred que pisava no acelerador com vontade. Sentia o assoalho do carro impedindo o pedal de ir além. Sorriu quando o velocímetro passou dos 110 km/h. Era madrugada e não havia uma alma na rua. 

    Balançava a cabeça no ritmo da bateria, e as vezes dedilhava guitarra no volante. Lembrou-se de quando foi ao show da banda, aqueles canhões no palco, a garota inflável, Angus dançando de cuequinha naquele frio de 3 graus.

    (Melhor banda de todos os tem....)

    See you walking 'round like it's a funeral

    Not so serious, girl, why those feet cold?

    We just getting started, don't you tiptoe

    Porra, sério que você saiu de um AC/DC para Cake by the ocean? Eu nem sei de quem é essa música? Qual a lógica dessa setlist? – grita para ninguém, o jovem embriagado que ria divertidamente, contudo, não trocou a música e já balançava a cabeça no ritmo da batida.

    Alfred deixa a melodia continuar e lembra da festa que acabou de sair. Várias garotas bonitas por lá, conseguiu diversos números, alguns devem até ser verdadeiros, foi um evento incrível. A bebida era servida a vontade e totalmente inclusa no preço do convite. Deve ter tomado uma garrafa inteira de Jack Daniels e não ligava. Transou com a garota mais gostosa dali atrás de um banheiro químico, só não lembra se usou camisinha ou não. Provavelmente a garota não lembraria dele no dia seguinte também. Não conseguia lembrar se ela lhe deu o número de telefone ou não. Não importa, estava no topo do mundo a 115km/h.

    Um vulto branco passa rápido no cruzamento, ele aperta o freio com os dois pés e joga o carro para a direita. Não deve ter tido um centímetro entre seu carro e aquele BMW. O filha da puta do outro carro nem desacelerou, nem buzinou e nem nada, apenas continuou com o pé no acelerador.

    - Babaca!

    O carro morreu, isso só aconteceu porque Alfred esqueceu de desengatá-lo ao levantar de seu banco, para xingar o outro motorista. Não tem problema, girou a chave na ignição e continuou seu caminho. O celular preso ao para-brisa por um ventosa, dizia a localização das blitzes e radares de velocidade, passava um pouco das duas da manhã e até agora nenhum problema. Voltou a acelerar e testou toda a potência de seu motor 2.0. Chegou aos 125km/h, talvez um pouco mais, não conseguia ter certeza em seu velocímetro analógico, que apresentava-se, estranhamente, embaçado. Passou pelo próximo cruzamento como um raio, no segundo decidiu diminuir um pouco, já no terceiro desacelerou para 70km/h.

    O solo de bateria inicial do First Date do Blink 182 começara. Ele acompanhou com seu pé e nas mãos, embora nunca tivesse chego perto de uma bateria na vida. Foi quando viu faróis brancos vindo da sua direita. Tentou brecar e perdeu o controle. A tentativa de bateria, bebida e manobra rápida não foram uma boa combinação. Bateu no poste à sua esquerda com força. O air bag não funcionou, sua testa encontrou a direção com força. Ficou grogue por alguns instantes, pelo menos vivo. O cinto lhe ajudou, provavelmente, salvou-lhe a vida.

    Ficou sentado ali no banco do motorista, passou a mão na testa e sentiu o úmido grudento de seu sangue. Ele tem um pano no porta luvas, é uma flanela velha

    (dane-se deve servir).

    Coloca pressão ali e não percebe que a música ainda toca no volume máximo, então fecha os olhos. Ele não reparou os dois homens do lado de fora de seu carro.

    2

    - Cara, você tá vivo?

    - Cara, você tá vivo!?

    - CARA, VOCÊ TÁ VIVO!!!!!!!!?

    Alfred olha para a esquerda e desliga o som do carro. Ele vê dois sujeitos morenos, com os braços cheios de tatuagem. Em um deles outras tatuagens eram visíveis no pescoço e no rosto. Vestiam regatas pretas, um de boné azul e outro de gorro preto. Ambos usavam óculos escuro para o Sol das duas da manhã. Do carro deles conseguiu ver fumaça saindo pelas portas e um cheio de mato queimado no ar.

    - Droga! Que merda que eu fiz - diz Alfred saindo do carro. - Vocês estão bem?

    - Sim, nós brecamos a tempo. Para falar a verdade, se você tivesse seguido reto nada teria acontecido.

    - Bom saber, da próxima vez vou correr mais – diz Alfred rindo sozinho.

    - Cara, isso é sério, você podia ter se matado, olha como está sangrando. Olha como seu carro está detonado.

    - Estou vendo. E vejo que nada aconteceu com vocês, não é?

    - Não é bem assim, tivemos que usar bastante nosso freio, dá para ver a marca no asfalto. Estávamos indo para um racha e agora não chegaremos a tempo, também não é bom arriscar com os pneus gastos. Ficamos uns 30 minutos gritando com você, até conseguir te acordar!  Achei que tinha morrido. Cara, vamos perder muita grana por sua causa

    (eu desmaiei? Tenho quase certeza de que não. Mas talvez sim)

    - Não se preocupe. Quanto você costuma ganhar nesses rachas?

    - Facilmente uns 2000 reais por noite. Nosso carro é um dos campeões e atração de lá.

    - E quanto custa os pneus novos?

    - Acho que conseguimos o conjunto por uns 700 reais.

    (um pouco caro, não? Quanto dinheiro estão me tirando aqui? Foda-se, eu tenho de sobra)

    - Você tem conta? – diz Alfred lhes mostrando o celular na tela de transferência com o valor de 5.000 reais.

    - Cara esse valor está ótimo – diz o outro motorista digitando sua conta.

    - Espero que compense vocês por qualquer inconveniente. E aqui está o meu cartão caso tenham algum problema. Minha assistente irá lhes ajudar.

    - Tá na paz, irmão. Precisa de carona ou alguma coisa?

    - Não, acho melhor esperar aqui pela ambulância, afinal, bati a cabeça bem forte.

    A dupla vai embora em seu Mitsubishi Lancer preto que solta uma pequena labaredas pelo escapamento

    (Essa foi por pouco)

    Sim, Alfred. Foi por pouco, mas foi a última que você escapou por causa de seu dinheiro...

    3

    O cruzamento que Alfred se encontrava era delimitado por quatro fábricas abandonadas e seus longos muros altos, pichados, de tijolos com arames farpados, enferrujados, no topo de seus cerca de 5 metros. O asfalto daquela região era bem castigado, repleto de buracos

    (fui louco de correr tanto por aqui),

    o poste em que bateu não sofreu muitos danos, o que era bom, se ele caísse era tchau, tchau, querido Alfred.

    Pegou seu celular e ligou para o serviço de emergência. Todas as linhas ocupadas (MERDA!), então sentou em seu carro e ligou o som novamente. Abaixou o volume, cogitou que seria melhor não incomodar ninguém na região, e abriu uma garrafa de cerveja da pequena caixa que comprou no mercado, depois que saiu da festa. Não estavam muito geladas. Contudo, aquele primeiro gole foi saboroso e voltou em um arroto alto, seguido de risadas. Os goles seguintes desceram bem também, era o mais importante, logo, metade do líquido maravilhoso daquela garrafa já havia sumido.

    - Quanto tempo tenho que esperar essa porcaria de resgate!? – gritou para ninguém.

    Pegou o celular de novo e viu sua barra de sinal vazia. Tentou ligar para a emergência, mesmo assim, e nada conseguiu.

    - PORRA! Porcaria de celular! Acabei de usar, como pode perder os sinal assim?

    Tentou reiniciá-lo. Sua paciência se esgotava rapidamente. Quando isso não deu resultado jogou-o no banco de trás com raiva e sentou no porta malas terminando sua cerveja, arremessando a garrafa contra um muro e  abrindo a segunda.

    O vento soprava gentilmente um ar frio, mas não era uma sensação desagradável. Uma persiana balançava na fábrica e batia contra a parede bam....bam.... BAM! BAM! Esse último ruído soou bem mais forte e chamou a atenção de Alfred. Então olhou para trás e viu a persiana caindo. Era uma altura considerável e ao acertar o chão fez um estrondo ensurdecedor. Sem perceber sua reação, tampou os ouvidos e fez uma careta, como qualquer pessoa assustada faria, e logo se recompôs, contudo a cerveja respigara em sua camisa clara.

    Ia xingar novamente, quando ouviu um choro infantil...

    - Meu Deus, será que aquilo caiu em alguém?

    Alfred procurou seu celular no banco de trás, demorou um pouco para encontrá-lo no assoalho. A porcaria deve ter quicado e caído. Ligou a lanterna e procurou, em vão, alguma entrada ou portão naquele paredão de tijolos. Provavelmente o portão estaria na avenida principal e teria que dar a volta naquele quarteirão enorme. Com isso em mente, resolveu se aproximar do muro para analisá-lo mais de perto.

    - Tem alguém ai? Precisa de ajuda? – Gritou para o além.

    - Socorro... – respondeu uma voz frágil – Por favor, me ajuda...

    - Estou indo, não se preocupe!

    Olhando ao redor viu uma grande fissura no muro e se aproximou, reparou que, na verdade, era um buraco de tamanho considerável, grande o suficiente para se passar, abaixado e um pouco espremido. Deixou sua garrafa na calçada, com cuidado para que não caísse, e se esforçou um pouco para caber naquela pequena passagem.

    Do outro lado viu o cimento interminável no chão, todo rachado. Em alguns pontos era clara a batalha entre homem e natureza, pois pequenas plantas lutavam contra aquele solo cinzento, tentando se erguer e algumas conseguiam. Também via lixo espalhado, em sua maioria garrafas de plástico, isopor e um colchão de casal. Imaginou como alguém poderia ter jogado aquilo por cima daquelas muradas enormes.

    Andou com cuidado, com seu celular iluminando o caminho. Não deveria estar longe de onde a persiana caíra e não via nenhum sinal dela ou da criança.

    - Cara, eu bebi demais ou isso está ficando estranho? Melhor ir embora daqui! – murmurou em voz baixa.

    Alfred acelerou seu passo e foi acompanhando o muro para encontrar sua passagem de volta e o caminho para seu carro. Andou e andou, até chegar onde os dois muros se encontravam em 90 graus e não viu aquele maldito buraco.

    - Eu tenho certeza de que ele deveria estar aqui! Não andei tudo isso. Mas que porra. – resmungou, chutando um tijolo exposto.

    Seguiu seu caminho na direção contrária, dessa vez mais devagar e examinando o muro com cuidado. Não havia nenhum sinal de dano algum.

    - AAAAAAAHHHHHH!!! – era um grito alto e agudo, vinha de dentro da fábrica.

    - O que foi isso? – disse Alfred encostando suas costas contra a parede.

    Achou estranho que o muro pareceu fofo quando encostou. Então virou-se, devagar, afastando-se dois passos. Viu que agora os tijolos sumiram, ou ficaram cobertos de grama vertical e musgo.

    - O que? – Diz Alfred incrédulo – Como isso é possí...

    - SOCORROOO! ELE ME PEGOU!

    Foi um grito apavorado, como Alfred começava a se sentir. Ele tinha que sair dali de alguma maneira, não poderia escalar aquele paredão, teria que encontrar um acesso à rua. E o único jeito era atravessando aquela fábrica sombria...

    4

    Uma ponte estreita levava à uma pequena porta de ferro, fechada por uma corrente com um cadeado, que provavelmente era o maior que Alfred vira em sua via. Não conseguiria entrar por ali. Certamente era a rota mais rápida, provavelmente, apenas uma linha reta até o outro lado da fábrica. Espiou lá dentro e era possível ver a porta de saída do outro lado. Tentou chutar aquela porta algumas vezes, sem resultados. Agora seria necessário descer naquele fosso e tentar alguma passagem pelo subsolo.

    Não foi preciso muito empenho para descer. Tratava-se de uma altura de uns três metros e era possível descer por uma espécie de escada escavada na terra. Dali encontrou uma outra porta. Esta era de madeira frágil e seu estado de conservação era péssimo, sendo visível sua podridão. Com cuidado, puxou-a sem nenhuma resistência e conseguiu adentrar na fábrica escura.

    O subsolo da fábrica era composto por diversos corredores e muito deles levavam a fornalhas e caldeiras, Alfred imaginou que foram utilizadas pela última vez meio século atrás.

    Caminhando por aquele prédio, ouvia-se ratos se movendo rapidamente a procura de comida

    (espero não virar essa comida)

    e teias de aranha a toda volta, o que gelava a espinha de seu visitante. As paredes em tijolos deveriam ser lindas à luz dos raios de sol da região, contudo, nesta escuridão, mesclado com musgo e teias, formavam uma cena arrepiante.

    - Por favor... me ajude... – soou como um sussurro no além.

    - Quem está ai? Onde posso te encontrar?

    Não houve resposta.

    Alfred seguiu seu caminho no labirinto que era aquele piso inferior, quando sentiu um calor intenso e observou um clarão vigoroso a sua frente. Era uma fornalha acesa. Aquilo não fazia sentido, porém, contra todos os seus instintos, ele foi verificar o que acontecia.

    Chegou até a fornalha e o cheiro horrível de carne humana queimando invadiu suas narinas como um soco. Olhou para o lado e viu uma pequena criança, branca como a neve, com ambas as cavidades oculares escavadas e metade de seu crânio exposto. Jazia ali, deitada no meio das chamas. Seu rosto pendeu para o lado, como se olhasse diretamente na alma de Alfred.

    -AAAAAAAAAAHHHHHHHH

    O grito era ensurdecedor, Alfred se jogou para trás, bateu com as costas na parede e caiu sentado. Foi quando diversas crianças surgiram daquele fogo infernal. Todas brancas como a neve, mesmo sujas, com tufos de cabelo saindo de partes da cabeça, crânios expostos e muitas com membros faltando como braços ou pernas. Era possível ver marcas de mordidas que arrancaram pedaços de barriga, peito ou pescoço. Outras marcas pareciam ser de pancadas e outras ainda eram similares a cortes profundos. A cena era aterrorizante e todas encaravam o intruso em absoluto silêncio, interrompido apenas pelo crepitar das labaredas.

    - Meu Deus, o que é isso? – disse Alfred levantando-se rapidamente.

    Não sabia para onde ir. Por um instante pairou a dúvida se arriscava voltar e tentar outro caminho ou se seguia mais a fundo naquela fábrica macabra.

    - Foda-se, vou voltar, é mais seguro lá fora!

    De súbito, todas as crianças pareciam gritar de pavor, um gritos agudos e aterradores. Alfred tampou os ouvidos e começou a se dirigir para o caminho de onde viera. Foi quando avistou outro ser. Aquela criatura deveria ter dois metros de altura, com formas semelhantes a de um homem. Observou que sua boca era costurada, os olhos eram brancos e o rosto tinha marcas de queimaduras intensas, além de cortes profundos. Vestia um sobretudo rasgado, velho e sujo que cobria toda a imensidão que era seu  corpo. Também, arrastava, vagarosamente, uma espécie de martelo enorme no chão, atrás de si. O ruído que emitia fez com que as pernas de Alfred tremessem fora de controle, seu coração palpitava descoordenadamente e a criatura veio em sua direção.

    Sua opção agora mudara, Alfred seguiu correndo para o desconhecido. O caminho a sua frente bifurcou, escolheu a direita e correu mais alguns metros, até perder completamente o fôlego. Parou e colocou a mão dos joelhos para recuperar o ar.

    Sentiu uma tremida de seu celular e viu uma barra de sinal. Não perdeu tempo e ligou para a emergência. Foi em vão, o sinal logo caiu novamente. Contudo, a iluminação de seu smartphone mostrou que ele entrara em um fornalha, uma espécie de cômodo enorme, circular com apenas duas saídas. A porta pela qual ele entrara e o topo da chaminé, com mais de cem metros de altura. Tentou voltar pela porta que acabara de utilizar, deu o primeiro passo, cauteloso, em sua direção, e quando deu seu segundo naquela direção, a porta ela se fechou em uma batida forte a alta.

    Correu para tentar abri-la, mas parecia trancada. Forçou-a de todas as maneiras e a maldita coisa não se movia. Um tijolo caiu ao seu lado levantando uma pequena nuvem de poeira.

    - Droga, esse lugar está caindo aos pedaços.

    Iluminou ao seu redor para ter certeza de que não havia nada nem ninguém por ali, também tentou encontrar uma outra saída, não viu coisa alguma. Apenas uma porta, tijolos e o céu acima dele, agora, cheio de nuvens carregadas.

    - Há quanto tempo estou aqui? O céu estava limpo quando entrei na fábrica. – resmungou baixinho.

    As primeiras gotas de chuva encontraram seu rosto. Trovões eclodiam no céu. Uma tempestade logo se formou. O chão da fornalha também era de tijolos com poeira ou areia, Alfred não sabia diferenciar em seu estado, mas viu pequenos ralos então a chuva não seria um problema muito grande.

    Seu telefone vibrou em seu bolso. Ele sempre deixava aquela coisa para vibrar, não gostava de atrapalhar os outros com seus toques espalhafatosos e, se fosse bem sincero, gostava de ter uma desculpa para ignorar ligações. Entretanto, era um número desconhecido. O temor em seu estômago lhe dizia para não atender, todavia, sua teimosia e curiosidade venceram...

    - Alô?

    - Boa noite, já temos sua localização e enviaremos a ambulância para seu acidente o mais rápido possível – era uma voz feminina simpática e amigável.

    - DEUS! Muito obrigado.

    - De nada, Alfred...

    - Espera ai, como você sabe meu nome?

    -...

    Tuuu tuuu tuuu

    A linha caiu.

    5

    A chuva apertou, tornando-se quase uma tempestade e ensopou Alfred. O frio era intenso e ele começou a tremer encolhido em um canto

    (só espero que essa fornalha continue desligada, não quero acabar como aquele garoto...)

    e torcia para que a chuva parasse. Sua sanidade sentia a dificuldade de entender o que acontecia. Crianças apareciam e gritavam, uma criatura medonha o perseguiu, aquela chuva não poderia ter começado tão rápido e a porta fechara à sua frente, sem nenhuma alma por perto.

    (Estou sonhando? Estou louco? Ainda estou desmaiado em meu carro?)

    Alfred sabia que tudo aquilo que acontecia era a mais horripilante realidade e isso lhe embrulhava o estômago, sentia vontade de chorar, raiva e era completamente incapaz de mentalizar qualquer solução. Contudo, sentia-se seguro naquela fornalha, pensou que o pior passra, até ouvir aquela voz feminina e suave, mas apavorante.

    - Alfreeeeeed..... Alfreeeeeed...

    - Quem está ai?

    - Aposto que você não se lembra mais de mim....

    Ele olhou para trás e viu uma mulher, ligeiramente familiar, com metade do cabelo na altura dos ombros, e a outra metade não existia, via apenas seu escalpo, com o crânio amassado e sangue escorrendo, vagarosamente, por fissuras em toda sua cabeça. Seu rosto era desfigurado, com ferimentos profundos, os lábios rasgados, mas ainda se mostravam carnudos e, de certa forma, vívidos.

    (seria possível que essa mulher desforme use batom?)

    Vestia uma calça jeans rasgada, andava mancando pois seu fêmur direito aparecia para fora da coxa, seu tornozelo esquerdo fazia pelo menos duas curvas erradas e seu pé era virado para trás. Ela tinha apenas um braço, sua mão era incrivelmente impecável e delicada, com suas unhas pintadas por esmalte rosa e sua camisa preta do Ramones, rasgada e suja, expunha parte de seu intestino dentro de sua barriga.

    - Que confusão você se meteu querido Alfred. E dessa vez seus amigos ricos não irão te salvar.

    - Quem é você?

    - Não se lembra do seu pequeno acidente, dois anos atrás?

    - Mary? Você morreu. Eu não pude fazer nada, liguei para a ambulância, eles disseram que não havia nada a ser feito.

    - Eu ainda respirava... Podia ser salva... Eles te conheciam, sabiam que era melhor sumir comigo...

    - Eu.. eu... eu sinto muito Mary... O que vai fazer comigo?

    A mulher se aproximava, morosamente, em um caminhar que beirava a sensualidade, embora mancasse acentuadamente.

    - Eu não vou fazer nada Alfred... Você já fez tudo o que podia por mim. Mas fique tranquilo, não busco vingança, sei que ela chegará em breve, não precisa ser pelas minhas mãos, não meu querido. Você sempre dirigiu bêbado, não é? O dinheiro sempre te livrou de tudo, não é?.... Quem você irá subornar agora? Deus? O diabo? Não Alfred, não... Nenhum deles está aqui esta noite. – sua voz mantinha-se em um tom baixo e suave, quase um sussurro sinistro aos ouvidos.

    O rosto daquela mulher encontrava-se a centímetros de Alfred. O horror daquela pessoa, daquela face macabra, lhe paralisou. Balbuciou alguma reza, não tinha certeza se as palavras eram as certas, aprendera quando era criança e sua mãe o obrigará a fazer a catequese. Não sabia há quanto tempo fora isso, apenas sabia que se tratava de uma época longínqua, quando ainda acreditava em um Deus maior do que o dinheiro.

    A criatura lhe deu um beijo no rosto, a sensação era gelada e o lábio parecia, simplesmente, errado. Também sentiu alguns vermes ou insetos estranhos rastejarem dela para ele e rapidamente teve sua cabeça completamente cercada por esses seres nojentos. Em um acesso de pânico Alfred tento expulsá-los com a mão e, sem se dar conta, tropeçou em si mesmo e bateu a cabeça na parede de tijolos.

    Acordou, minutos depois com o barulho de um novo trovão, sem saber quanto tempo se passara (espero que não tenham sido horas). Passou a mão no rosto para se certificar de que não havia mais nenhum inseto por ali e viu que seu super cílio abrira novamente. Olhou para cima e abriu a boca, sua sede era enorme e não parecia ter problema algum beber água da chuva, aproveitou para esfregar seu ferimento. Foi então que reparou na porta aberta. Poderia sair e não perdeu a oportunidade, correu o máximo que pode. Chegou novamente à bifurcação, imaginando que agora voltaria pelo caminho que veio.

    Seguiu aquela trilha apertada, começou correndo, mas, logo, andava vagarosamente, seu físico não era dos melhores. Finalmente alcançou a bifurcação novamente. Viu todas aquelas crianças bloqueando a passagem de volta, sentiu o desespero, seu coração bateu acelerado, suas pernas tremiam descontroladamente em pequeno compasso, por pouco sua urina não escapou. Seu suor era frio e deslizava em grande parte por suas costas, sentia sua camiseta grudando em seu corpo, neste ponto já não tinha certeza se aquele molhado que lhe cercava era por conta da chuva ou de sua transpiração que fluía ferozmente.

    O medo dominava seu ser e o sangue havia abandonado suas extremidades, assim, ficou pálido e de aparência frágil. Atrás das crianças que surgiram à sua frente avistou Mary, que apontou, delicadamente, para o caminho da esquerda, com um pequeno sorriso diabólico, como se dissesse “siga por ali, meu querido”.

    (não tenho outra opção)

    Alfred seguiu pelo caminho indicado. Logo, a escuridão consumiu seu redor, tentou alcançar seu telefone em seu bolso, mas não o encontrou (merda, deve ter caído quando bati a cabeça). Olhou para trás e viu aquele grupo sinistro parado, diversas crianças mórbidas e a aparição de Mary com aquele sorriso demoníaco, lhe observando de longe. Fixou seus olhos na mulher, apenas por um instante. O sorriso dela crescera, revelando a falta de diversos dentes. Então, ergueu a mão com o celular, aquele pequeno brilho de esperança, logo foi esmagado por uma mão frágil de um ser nefasto.

    Sem opções, Alfred seguiu seu caminho tropeçando e se erguendo até encontrar claridade. Chegou em uma passarela de metal que o guiou a uma escadaria e outra passarela. Essa era alta, passava perto do teto da fábrica. Lá de cima, de relance, viu a saída, bastava atravessar aquela passarela e descer a próxima escadaria. Seu coração se encheu de esperança, logo, poderia deixar aquele pesadelo para trás e seguir com sua vida.

    6

    A passarela se estendia por cerca de 100 metros, atravessando toda a extensão da fábrica e deveria ter, pelo menos, 20 metros de distância do solo. Alfred podia imaginar o capataz ali em cima, observando seus trabalhadores, mas aquela não era uma fábrica normal, agora ele sentia a energia maligna que aquele local emitia.

    (Quanto sofrimento se passou neste lugar? O que essas crianças sofreram? E por que Mary está aqui?)

    Nada fazia sentido, só que não se fazia necessário entender naquele instante, afinal, sua única preocupação era sair dali.

    Alfred se aproximava da escadaria para descer rumo à liberdade, contudo, sua visão era encoberta por uma coluna de tijolos. Não se importou, seguiu o mais rápido que pode, sem se importar com o barulho tenebroso que causava na passarela de metal, que balançava de maneira mais acentuada a cada passo.

    A escadaria jazia há apenas 1 metro ou 2 de distância, quando sentiu o impacto daquele martelo esfarelando os ossos de seu joelho direito. Alfred caiu, gemendo de dor e chorando copiosamente. Aquele ser enorme o encontrara. Pegou-lhe de surpresa e as lágrimas em seus olhos lhe impediram de ver o segundo golpe que destroçou seu ombro esquerdo.

    A dor se intensificava, contudo, não era hora de se preocupar com isso. Sua vida dependia de uma ação rápida. Com seu braço bom, rapidamente secou os olhos e,  em seguida, agarrou o corrimão da passarela. Usou toda a força que ainda tinha em seu corpo, usou sua perna esquerda para impulsionar seu corpo e ficou de pé. Conseguiu manter-se em um posição ereta, meio cambaleante, e o próximo golpe do martelo acertou o piso metálico, com um barulho aterrador .

    Pulando com uma perna só, gemendo de dor e se equilibrando com a mão apoiada no corrimão, Alfred retrocedeu pelo caminho que veio, apenas para ver Mary e algumas crianças do outro lado. Ela, sorrindo, fez o gesto de não com a cabeça.

    (Essa é sua vingança? Pelo menos aquela vadia morreu rápido, não posso acreditar que estava viva quando os médicos chegaram. Disse a verdade que não iria me matar? Talvez, prefira não sujar suas mãos mortas, não é?)

    O perseguidor de Alfred movia-se vagarosamente, contudo seus golpes eram intensos e faziam a passarela tremer. Logo aquela merda de estrutura velha iria desmoronar.

    (Se vou morrer, pelo menos controlarei como.)

    A criatura levantou seu martelo e golpeou o corrimão, errou o braço bom de Alfred, por pouco. E quando levantou para o próximo ataque, Alfred concentrou todas as suas forças e se atirou na direção dela, derrubando ambos daquela plataforma.

    Durante aqueles breves segundos de queda livre, Alfred abraçou a criatura e se posicionou acima dela. Isso não era importante, a dor já não era importante, a conta bancária recheada não era importante, a garota que fodeu no banheiro naquela noite não era importante. Se ia morrer, pensou em se redimir

    (desculpe Mary, eu acabei com sua vida de uma maneira tola e descuidada, mereço tudo o que me aconteceu nesta noite. Espero que algum dia possa me perdoar),

    mas não sabia como. Era tarde, o impacto com o chão veio, era possível ouvir a criatura se quebrando por dentro. De alguma forma, Alfred sobreviveu. Sentia suas costelas quebradas, claro, a dor incessante naquele joelho que não existia mais e no ombro, só que estava vivo e pôde sorrir ligeiramente.

    Com muito esforço, conseguiu virar com a barriga para cima e tossiu. Olhou aquelas crianças ao seu redor e Mary.

    - Mary, você está linda.

    Agora lembrava daquela mulher que atropelara dois anos antes. Não tinha certeza, mas talvez fosse perto dali. Lembrou de seu lindo cabelo negro, olhos negros e sardas. Alfred adorava sardas, não havia mais vermes ou lesões, quando olhou para ela ali perto de si, apenas uma forma linda, com seu jeans intacto e camiseta preta do Ramones, amarrada para mostrar aquela bela barriga torneada.

    - Obrigado tio. Você nos salvou.

    - Era isso? Vocês realmente queriam apenas a minha ajuda?

    - Sim, o grande Hammond era o capataz da fábrica, nos mal tratava há anos, ele pegava e destruía as crianças para sempre.

    Alfred tossiu duas vezes, sentiu um gosto metálico, mas não saiu sangue, talvez não estivesse tão mal assim. A ambulância logo chegaria e poderiam ajudá-lo. Voltaria para sua vida normal, negociando contratos, enganando clientes para que lhe pagassem mais e esbanjando seu dinheiro em festas chiques ou em bebidas caras. Encheu os pulmões de ar e expirou, a pontada de dor foi intensa, contudo, seus músculos conseguiram relaxar. Com certo esforço, e aos poucos, conseguiu se ajoelhar.

    - Fico feliz em ajudar. – tossiu mais duas vezes, dessa vez um pouco de sangue saiu em sua mão – tem algo mais que eu possa fazer?

    - Sim... Você pode morrer. – disse a criança abrindo a garganta de Alfred com seus dedos nus.

    7

    Eram 4h da manhã quando a ambulância chegou...

    - Central, chegamos ao local e não há nenhum veículo acidentado. Provavelmente foi apenas um trote, embora veja vidros no chão.

    - Confirmado. A noite está devagar, se quiserem dar uma olhada por mais alguns minutos, não farei oposição. Depois lembrem de ir para casa, seu turno acabou. Câmbio desligo.

    Frank olhou para seu colega Antony, com um sorriso peculiar.

    - Pro inferno com esse chamado. Não tem nada aqui.

    - Cara, há quanto tempo essas fábricas estão abandonadas?

    - Eu sou da região, elas tiveram um incêndio enorme há uns 70 anos, o pessoal da época não sabia ou não se importava, mas diversas crianças trabalhavam aqui, quase como escravas. Eram crianças de rua, e o dono da fábrica as pegava e colocava ai, uma história bem trágica e ninguém ligava. Se não me engano, todas morreram nessa época.

    - Acho que não tem nada aqui pra gente. Vamos embo....

    BAM!

    - Socorro... – respondeu uma voz frágil – Por favor, ajudem. Eu me machuquei – disse uma voz infantil.

    - Meu Deus Antony, parece uma criança dentro da fábrica, temos que ajudá-la!

    - Sim, rápido. Eu vejo uma fenda no muro, acho que podemos passar por ali, se nos apertarmos bem.

  • O Esquarterjador

    Eu caí em desespero. Vi meus punhos fecharem e a minha garganta secar ao me deparar com aquela cena. Ela estava morta, bem na minha frente. O corpo, caído ao lado da cama, todo ensanguentado, a cabeça espatifada e os braços esticados, igual Jesus Cristo na cruz. Não sabia o que fazer e como fazer. Comecei a caminhar de um lado ao outro daquele cômodo, mas parei de repente, com medo de que algum vizinho do andar de baixo pudesse ouvir aquela orquestra de passos regida por mim.
    Chamar a polícia não seria uma boa ideia, pois me colocariam como suspeito número um e isso me poria em maus lençóis. Ela estava ali. O corpo envolvido em sangue seco, os dedos dobrados e a camisola rasgada, quem a matou foi cruel e sem escrúpulos. Sentei na beirada da cama e fiquei ali admirando aquele cadáver e pensando em como resolver aquela terrível situação.
    Fui para a cozinha. Abri as gavetas e as portas dos armários na tentativa de achar algo que pudesse me servir para uma ideia que tive. Seria muito simples. Eu cortaria cada parte do corpo, meteria em alguns sacos plásticos, e sairia com os restos por aí, em seguida os jogaria bem longe, num lugar onde ninguém suspeitaria. Depois voltaria e limparia tudo. Nem a polícia, caso viesse investigar, conseguiria descobrir algo, de tão bem feito que eu fizesse o serviço.
    Armei-me com uma faca de cortar carne, daquelas bem grandes e com dentes afiados e uma serrinha de cor vermelha, aquelas eram as únicas coisas ao meu alcance naquele momento. Parti em direção ao quarto. Abri a porta. O corpo permanecia ali. Aproximei-me, me abaixei e olhei, mais uma vez para aquilo. Comecei a cortar. Felizmente não espirrou sangue. Minha roupa ficaria limpa, sem nenhum vestígio e isso seria mais um álibi a meu favor. Botei os braços e as pernas no primeiro saco. O tronco, dividido em três partes meti em outro e o que lhe sobrara da cabeça, inclusive os olhos azuis foi colocada em outra. Pronto, serviço feito. Com pressa desci as escadas, não esperei pelo elevador. Imaginem me deparar com algum vizinho. Eu com aqueles sacos nas mãos e ele ou ela me olhando desconfiado.
    Meu carro estava parado na vaga a mim reservada. Com um clique na chave abri o porta malas e enfiei tudo lá dentro. Entrei no carro, arrumei o retrovisor, olhei para trás e não vi pessoa. Virei à chave e o maldito veículo não ligou. Só faltava ter acabado a gasolina, mas o painel mostrava o contrario, tinha combustível o suficiente para ir até a lua e voltar.
    Finalmente o carro ligou e eu saí. A rua estava escura e uma floresta de prédios me envolvia. Nada de árvores, muito menos, de plantas, tudo cinza e triste. Desci com meu carro numa estradinha de terra batida, nenhuma casa, nem um sinal de vida humana naquele lugar. Parei e com os faróis baixos continuei com aquilo que me propusera a fazer. Cavei um buraco fundo e enterrei os restos mortais daquela pobre mulher. Bati com a pá em cima do túmulo, pisei e fui embora.
    Capítulo 2
    Estava tudo limpo, cheiroso e organizado. Era madrugada e finalmente poderia dormir. Seriam poucas horas de sono, pois toda aquela tarefa havia me deixado exausto. Despertei com o barulho do despertador do celular, peguei o aparelho, olhei para a tela e vi que eram sete horas da manhã.
    Calcei meus chinelos e vesti minhas calças, dormi sem roupa por causa do calor. Estava pronto para ir ao trabalho. Vestia um terno preto, sapatos da mesma cor e gravata num tom mais claro, cinza é a cor mais apropriada a se dizer. Cheguei ao escritório. Aquele prédio imponente, todo espelhado e a enorme fila do elevador.
    - Atrasado dez minutos, senhor Fabiano!- Era meu chefe, doutor Bernardo, um velho de mais se setenta anos, magro igual a um esqueleto e com os olhos grandes e saltados para fora do crânio.
    - Me perdoe! – Eu disse.
    - Tudo bem, mas que isso não se repita! - Falou ele me lançando aquele olhar desafiador.
    Comecei a trabalhar naquela empresa há pouco tempo. Desculpe, mas não me apresentei. Meu nome é Fabiano Batista, tenho 26 anos e sou contador, sim, formado em contabilidade, cálculos e mais cálculos invadem o meu cérebro diariamente. Com muito esforço consegui entrar nessa empresa, muita gente trabalha aqui, todos legais, com exceção do meu chefe, o doutor Bernardo Villela. Um filho da puta asqueroso e nojento, um comedor e menininhas, garotas essas que vem trabalhar com ele e que rapidamente são levadas para a cama com promessas de presentes e aumento de salário, coisa que nunca aconteceu.
    Minha mesa estava do mesmo jeito, uma bagunça sem igual. Um a um fui distribuindo oi, bom dia e como vai para todos os meus colegas de trabalho. Amigos? Bem, havia poucos, três para ser mais exato. O mais próximo era o Ruan, um rapaz da minha idade, gordinho e inteligente pra caramba. Os outros dois eram a Rose e a Kátia. O Ruan era apaixonado pela Rose, um espetáculo de mulher, loira, seios e bunda grande, o rosto bem redondo e os cabelos lisos. A Kátia, coitada, era o avesso, baixinha, com alguns quilinhos a mais e a pele do rosto bastante ressecada devido à falta de protetor solar.
    Liguei o computador e iniciei meu dia. Tinha muito trabalho a fazer e eu adorava, principalmente porque precisava apagar certas coisas da memória. Fechei os olhos por um instante e a imagem daquele corpo que eu não matei, mas esquartejei vieram na hora. Abri os olhos, assustado. Todos me olhavam, um deles me perguntou:
    - Tudo bem por aí, Fabiano?
    Tentando disfarçar a tensão, respondi:
    - Sim, tudo ótimo. Só foi uma tontura, mas já passou.
    O sujeito se deu por satisfeito e não me questionou mais, ainda bem. Não estava com vontade e muito menos paciência para ficar explicando certas coisas, principalmente sobre o que ocorrera em meu apartamento na noite passada.
    Capítulo 3
    Faltavam alguns detalhes para fechar o serviço daquele dia. Já tinha até passado da minha hora, mas tive que ficar mais um pouco devido ao meu atraso. Precisava ir, estava com sono e cansado. Meus braços doíam e as costas, pobre delas, pareciam que iriam se quebrar a qualquer momento. A dor era suportável até certo ponto, mas bastava me mexer um milímetro para tudo arder feito brasa quente na pele.
    Quase pulei de alegria quando vi a hora no relógio de parede da firma. Arrumei rapidamente a minha mesa, peguei minhas coisas e saí em disparada. Meu carro estava a minha espera e a minha cama também. Saí a toda velocidade; na rua pessoas saindo de seus empregos e indo embora para suas casas. Umas iam a pé, outras de ônibus e poucas iam de carro, ainda bem que eu tinha meu. Não era lá grande coisa, mas dava para me levar para onde eu quisesse.
    Abri a porta do apartamento e o encontrei tudo limpo e em ordem, nada de anormal acontecerá por lá, a não ser pela noite anterior, no entanto, isso era coisa do passado. Fui direto para o chuveiro, necessitava de um bom banho. Deixei a agua quente escorrer pelo meu corpo. Coloquei a cabeça embaixo da água e permaneci naquela posição por alguns minutos. A cabeça estava quente por culpa de um desgraçado que deixou uma moça morta dentro do meu apartamento.
    Já trocado eu fui arrumar algo para comer. Na geladeira havia apenas ovos e algumas salsichas, seria aquilo mesmo. Cozinhei as salsichas em uma panela pequena e fiz ovos mexidos, comi tudo vigorosamente. Fui para cama de banho tomado, barriga cheia e consciência tranquila. Dormi com os anjos.
    Capítulo 4
    Decorria mais de um mês desde que eu esquartejara aquela pobre moça. Coitada! Aquela tinha sido uma noite diferente de todas as demais noites desses meus vinte e seis anos. Lembro-me de ter dado uma festa para o pessoal do escritório e de ter bebido um pouco a mais da conta. Mas não me recordo de ver ninguém ser assassinado, também pudera como alguém no meu estado de embriaguez poderia se rememorar de algo?
    O trabalho no escritório de contabilidade ia muito bem obrigado. Os honorários foram tão bons que eu decidi convidar a gostosa da Rose para sair. Queria comer aquela mulher! O Ruan que se dane! Se ele se interessou por ela, mas não comeu primeiro, problema dele.
    Fiquei numa esquina próxima ao prédio do trabalho. Esperei por alguns minutos até ela surgir. Naquele dia ela estava mais deliciosa como de costume. Vestia uma saia de couro marrom, uma blusa branca que lhe mostravam bem seus seios enormes e usava um batom vermelho. Que espetáculo de mulher era a Rose.
    Ela entrou no carro e logo de cara consegui ver suas coxas, eram lisas e bem grossas.
    - Oi Fabiano, me desculpa pelo atraso. - Disse ela dentro do meu carro.
    Estava hipnotizado por aquela mulher, tanto é que demorei alguns segundos para responder.
    - Não tem importância. – Respondi.
    - Para onde nós vamos? – Ela questionou
    - Para um motel. – Respondi para eu mesmo, mentalmente. – O que acha de uma pizza?
    - Bem, acho uma boa, afinal hoje é sexta-feira.
    Liguei o carro e saímos. Conversamos por todo o trajeto. Ela me contou que morava com os pais e que teve poucos namorados, ou seja, eu estava ao lado de uma quase virgem. Rose tinha 23 anos, mais nova do que eu que tenho 26 atualmente.
    Parei o carro numa rua perto da pizzaria, desci, dei a volta pelo veículo e feito um Lord inglês abri a porta para ela. Rose riu da minha atitude, não por deboche, mas eu agi de forma estranha ao fazer aquilo. Queria agrada-la.
    Comemos e bebemos. Rimos e conversamos ainda mais. Aos poucos fui tentando convence-la de ir comigo para o meu apartamento, Rose era difícil, ou se fazia, não sei.
    - A gente mal se conheceu e você tá querendo me levar pra sua casa. – Falou ela, num tom nada agradável. Parecia estar me condenando.
    - Não é nada disso. – Disse eu. – É que nesse lugar não podemos ter nenhum tipo de intimidade.
    Foi aí que ela jogou o balde de água gelada sobre mim.
    - Mas eu não quero ter nenhum tipo de intimidade com você Fabiano. Sou tua amiga apenas.
    Não sabia o que falar. Estava literalmente sem chão naquele momento.
    - Tudo bem, me desculpe.
    Ela tirou um papel da bolsa e com ela limpou o batom dos lábios.
    - Por favor, se for possível me leve até a estação de metrô mais próxima. – Pediu ela.
    Tentando ser gentil e ao mesmo tempo tentando contornar a situação sugeri:
    - Posso te levar para casa, se quiser.
    - Não precisa, é só me deixar na porta de qualquer estação, que eu me viro.
    Fomos embora. Durante o caminho até a estação palavra nenhuma foi trocada, antes de sair, sem jeito, ela me deu uma boa noite que eu correspondi sem graça. Esperei ela sumir da minha vista para começar a dar murros de raiva no volante. Estava entorpecido de cólera.
    Dormi o resto da noite. Não queria mais saber de mulher por um bom tempo, a Rose seria uma delas. No dia seguinte, um sábado, despertei de meu sono, descansado e revigorado. Como não costumo ficar em casa durante a semana, a não ser à noite para repousar, decidi fazer uma faxina. Armado de balde, vassoura, rodo, pano de pó e produtos de limpeza, iniciei uma senhora faxina. Comecei pelo banheiro, passei pela sala, quarto e finalmente a cozinha. Estava orgulhoso de mim. Suado por causa do trabalho em casa, fui tomar um banho. Deitei no sofá e entediado resolvi sair para dar uma volta na rua, algo não muito bom martelava a minha cabeça.
    Capítulo 5
    Passou um bom tempo desde o fora que eu levei da Rose, e para a minha felicidade, isso se eu posso chamar assim, o Ruan, meu melhor amigo, também não se deu bem no flerte e levou um sonoro não. O problema é que o infeliz resolveu cantar a gostosa da Rose dentro do escritório. Assustado ele me confessou certa preocupação com um processo por tentativa de assedio.
    - Eu te avisei Ruan. – Falei, tentando dar uma de experiente no assunto.
    - Como eu ia adivinhar, me diz? – Perguntou ele.
    Dei uma breve olhada para os lados, me certificando de que ouvidos alheios não estivessem a nos ouvir:
    - Que fique entre nós. Mas há dias eu tentei levar ela para o meu apartamento. A convidei para ir a uma pizzaria. Conversa vai conversa vem, então resolvi dar o bote, tomei um belo de um fora. – Contei. – E tem mais Ruan. Mulheres como a Rose, não são fáceis de conquistar.
    Não me intrometeria mais no caso. O idiota do Ruan poderia muito bem resolver os problemas dele, da Rose, momentaneamente, eu desejava distância. A minha preocupação não era me ferrar junto com ele, e eu tinha coisa pra caramba para me inquietar.
    Depois de uma longa conversa na sala do senhor Bernardo, o dono da empresa, foi decidido que tanto a Rose a acusadora, quanto o Ruan, o acusado, não seriam demitidos, eles apenas trocariam de horário. Ela trabalharia pela manhã e ele no período da tarde, tudo resolvido, Ruan veio em minha direção, à camisa molhada de suor e o rosto vermelho de tensão.
    - E aí, como foi? Resolveu alguma coisa? – Perguntei.
    Aos poucos o semblante do Ruan foi melhorando e ganhando uma coloração mais agradável.
    - Sim! – Ele respondeu monossilábico.
    - Que tal uma cerveja depois do expediente? Você tá precisando relaxar. – Sugeri.
    - Não é uma má ideia, vamos sim, tem um bar aqui perto.
    - Combinado então. – Falei.
    O dia transcorreu normalmente. Nada de anormal dentro do escritório de contabilidade. Como sempre eu estava muito atarefado, tão atulhado de coisas a serem feitas, que mal eu pude olhar para os peitos da Rose. A piranha reclamava de assédio, mas dava motivo para tal. Andava sempre com saias curtas e com um decote enorme, deixando a vista dos homens seus belos atributos.
    A cerveja estava gelada e a conversa melhor ainda. O Ruan era um sujeito incrível. Bom de papo, inteligente, mas um verdadeiro Zé Mané. Vivia reclamando de falta de mulher, mas foi ficar, justamente, de olho na Rose. Mas fazer o que, não se pode mandar no coração alheio. Bebemos três ou quatro cervejas, não me recordo. Fomos embora juntos em meu carro. No trajeto, visivelmente embriagado, fui obrigado e ficar ouvindo seus intermináveis lamentos.
    Capítulo 6
    Conheci o meu chefe na faculdade de contabilidade. Bernardo Villela foi um dos meus professores ao longo de todo o curso, um excelente educador, mas um tremendo de um mau caráter. Se na sala de aula ele era o cara rígido com seus alunos, da porta pra fora ele mostrava sua verdadeira face. Bernardo tinha como costume convidar alunas para sair, algumas aceitavam tantas outras, não. O velho era insistente em suas investidas. A armadilha era armada por ele da maneira mais torpe possível. As presas favoritas eram as alunas com notas baixas, que necessitavam de uma ajudinha do professor para passar tranquila no semestre, e muitas das garotas se sujeitavam a transar com o desgraçado em troca de uma nota.
    Ele as levava para um apartamento longe dos olhares dos mais curiosos e ali ele realizava suas fantasias. O maldito concretizava suas libertinagens, mas muitas garotas afirmavam em alto e bom som que o velho babão era ruim de cama e que tinha o pau pequeno, o que gerou em toda a faculdade o apelido de peru mole. Bernardo odiava ser chamado pelo apelido, mas a coisa pegou tão forte que outros professores começaram a chama-lo assim.
    Minha relação com ele era de professor e aluno, nada mais do que isso. Logo após me dar aula, ao final de mais um semestre, me convidou para uma cerveja, e lá me fez o convite. Trabalharia no escritório dele, um dos maiores da cidade, quiçá, do país.
    Pensando que os convites para noites de sexo se restringiam somente ao âmbito acadêmico, me surpreendi ao descobrir que ele fazia o mesmo com algumas de suas funcionarias.
    Depois disso sempre fiquei com um pé atrás com ele. Não gostava do modo em que olhava para as pessoas, inclusive seu olhar para com as mulheres me causava nojo e repulsa. Por vezes vi a Rose sair da sala dele totalmente sem graça e desconcertada. Mas infelizmente não podia fazer nada. Acusar o velho de algo seria assinar minha sentença de morte e o fim do meu futuro profissional. Bernardo era conhecido no meio de todos os contadores e um telefonema dele para qualquer um de seus amiguinhos poria minha carreira em risco.
    Por diversas vezes o vi sair de carro com varias secretárias, o destino, claro, era o apartamento do filho da mãe. De lá elas saiam enojadas e ele ficava feliz e satisfeito por ter traçado mais uma, entre tantas de sua enorme lista. Mas porque elas nunca o denunciaram? Fico com essa pergunta sem resposta, porém, levanto algumas hipóteses. Ameaça? Medo? Exposição? Ou ele simplesmente comprava o silêncio de cada uma delas?
    Capítulo 7
    Cheguei ao trabalho e logo de cara percebi uma movimentação um tanto quanto estranha. Meus colegas de escritório formavam uma roda e conversavam sobre algo que a principio eu não compreendi. Curioso para saber do que se tratava me aproximei para ouvir a conversa.
    - Como assim desaparecida? – Disse um de meus colegas, um magrinho de óculos e bigode mal feito.
    - Faz um tempo, ela simplesmente nunca mais veio trabalhar. O doutor Bernardo ligou para ela tentando encontra-la, mas até o momento nenhum sinal.
    Deixei o papo rolar entre eles, esperando uma boa oportunidade de colocar a minha colher no meio daquilo tudo.
    - Quem é essa moça de que estão falando? – Perguntei.
    - A Patrícia. Lembra-se dela? – Disse uma moça de cabelos curtos e loiros e olhos bem azuis.
    Então comecei a puxar pela memória, mas não recordava de nenhuma Patrícia. Aquele escritório era muito estranho, pois havia um rodizio grande de funcionários, principalmente mulheres.
    - Sinceramente não me lembro. – Disse eu enquanto me afastava do burburinho.
    Foi aí que veio um misto de susto, surpresa e pitadas de taquicardia. A moça loira de cabelos curtos sacou o celular e mostrou-me uma foto da tal Patrícia, tal qual foi a minha surpresa ao perceber que se tratava justamente da moça que apareceu morta em meu apartamento.
    Meu coração disparou. Tudo começou a rodar feito carrossel e eu simplesmente apaguei. Acordei com o Ruan, a Katia e a Rose quase que em cima de mim. Faltava-me ar, me faltava explicações, só me sobravam medo e desespero. Aquele povo em cima de mim não me deixava respirar. Já recuperado e devidamente sentado em uma cadeira confortável e com um copo de água na mão, comecei a ser interrogado pelos colegas.
    - Você saiu com essa moça? – Alguém perguntou.
    - Não, não sai. – Respondi.
    Veio outra pergunta e mais outra resposta negativa. Duvidas e mais duvidas e eu ficando cada vez menos a vontade com toda a situação. Não sabia mais o que fazer, até que o Ruan intercedeu por mim. Com seu jeito gentil e educado foi aos poucos tirando aquela gente chata do meu caminho. Mas quando eu pensei ter me livrado de um milhão de problemas, eis que o meu anjo protetor, meu salva-vidas se senta ao meu lado e dispara:
    - Essa moça estava em seu apartamento naquela noite da festa, não estava?
    Não poderia mentir, verdade seja dita, não teria como. O Ruan ficou com aquela moça, mas foi embora, ou pelo menos eu penso assim, entretanto eu estava totalmente embriagado, não me recordo de certas coisas realizadas naquela maldita noite, regada a bebida, cigarro e muitas drogas.
    - Estava sim, mas depois eu não a vi mais. – Inventei uma desculpa qualquer. Por nenhuma hipótese não poderia dizer a ele: meu caro amigo Ruan, sim, eu vi a Patrícia, morta, toda ensanguentada e com a cabeça espatifada feito melancia quando cai no chão. Mas foi evidente que menti e omiti a esse respeito.
    - E como ela foi sumir assim tão de repente? – Ele perguntou.
    - Não sei. Só sei que preciso comer. Não coloquei nada na barriga ainda. – Falei, mentindo sobre tudo, inclusive sobre a fome.
    . Saímos juntos para comer. Durante o breve lanche o assunto foi a Patrícia. Só o meu amigo falava e eu de boca cheia concordava com tudo, tentando disfarçar a tensão estampada em meu rosto.
    Capítulo 8
    Os dias pareciam tranquilos desde os derradeiros acontecimentos. Abri a janela do apartamento. O sol brilhava e os raios solares vinham em minha direção, tudo estava bonito e calmo. Na rua pessoas passeavam com seus cachorros, casais andavam de mãos dadas e um silêncio gostoso invadia meu ouvido me convidando a voltar para cama. Era meu dia de folga e fazia um bom tempo que isso não ocorria, e eu precisava aproveitar a oportunidade para sair um pouco.
    Vestido com uma bermuda da cor creme, camiseta branca agarrada ao corpo e sandálias, sai pela rua. O carro ficaria na garagem, iria a pé para algum lugar, um parque, sei lá. Apesar de morar em uma grande cidade, às vezes eu ouço o canto de alguns pássaros. Não sei especificar quais, porém, é bom escutar a natureza de vez em quando.
    Desde o sumiço da Patrícia minha cabeça anda a mil por hora. Por que ela foi aparecer morta no meu apartamento e por que eu fiz a besteira de sumir com o corpo? Sentado em um banco de cimento, em uma praça perto de casa, comecei a analisar os fatos. Quem eu convidei para aquela festa? Provavelmente o pessoal do escritório inteiro, menos o doutor Bernardo. Será que os meus convidados levaram alguém de fora? Talvez.
    Levantei-me. De longe avistei um homem e seu carrinho de sorvetes, fiz um sinal, o homem parou e eu fui a sua direção. Comprei um picolé e continuei andando, o sol cada vez mais forte e a pela queimando, não passei protetor solar, muito embora não tivesse um. Resolvi voltar para a casa.
    Já em meu apartamento liguei o rádio numa altura suficiente para não incomodar o vizinho de baixo, uma velha de uns oitenta e tantos anos, seu nome era Quitéria e sofria de reumatismo, doenças de gente igual a ela. No som tocava um rock antigo, Led Zeppelin, Stones... não tenho ideia, só sei que a melodia era muito boa. Comecei a dar uma ajeitada na bagunça, meu quarto estava um verdadeiro caos. A cama desarrumada, e algumas camisas jogadas pelo chão. Aos poucos fui recolhendo a roupa e dando um jeito no meu leito de dormir. Tudo estava devidamente em seu lugar, só restava agora relaxar, abrir uma cerveja e assistir televisão.
    Capítulo 9
    O tempo passou e o assunto Patrícia sumiu das bocas e das rodinhas de fofoca do escritório. Mais ninguém ousava ao menos pronunciar tal nome. Se ela sumiu, o problema era da família e posteriormente das autoridades competentes. Não havia nada a fazer, e eu em meu lugar só esperaria, com certa cautela, pois fui o responsável pelo sumiço do corpo, entretanto, não tenho participação alguma com seu triste fim.
    Ruan veio falar comigo. Vestia uma camisa rosa e gravata de um tom mais escuro, suas bochechas estavam vermelhas e seu andar engraçado.
    - Tudo bem parceiro? – Perguntou ele enquanto me dava um leve tapinha nas costas, algo que eu detestava.
    - Sim, estou ótimo! A folga me fez bem, estava precisando, o serviço anda meio puxado, como pode perceber. – Falei, mostrando a correria dentro do escritório.
    Ruan olhou, fez cara de estar pouco ligando para a situação.
    - Tem razão Fabiano. – Ele disse por fim. O vi se afastar e levar toda aquela banha nojenta para longe de mim.
    Fiquei ali no meu lugar, com meu computador, minhas coisas. De longe a Katia me deu um oi e eu retribui o gesto. A gostosa da Rose me deu uma piscada bem safada seguida por um sorriso que me fez por pouco não cair da cadeira. Tudo ia bem, até o doutor Bernardo surgir ao lado de dois homens desconhecidos por mim.
    Os três caminhavam lado a lado e pareciam vir em minha direção. A mão começou a suar e o coração a bater um tanto quanto confuso. Tremi. Senti a mão de o velho encostar-se a meu ombro:
    - Oi Fabiano! Quero lhe apresentar os senhores Duílio e o doutor Saavedra. - O primeiro era alto e gordo, a barriga cobria a cinta que segurava a calça, o outro era o oposto. – Eles são investigadores de polícia e vieram até aqui para te fazer algumas perguntas.
    Fudeu! Lasquei-me! Estou frito! Vou ser preso! Não poderia demonstrar o mínimo sinal de nervosismo. A voz deveria ser firme e as minhas respostas tinham de passar o máximo de confiança possível, e o meu álibi precisava ser o melhor dos melhores.
    - Podemos conversar em particular? - Questionou um deles, o mais magro.
    - Claro!
    Levantei-me e apontei para uma das varias salas ao redor do escritório. Fui à frente e os dois me seguiam. Notei o olhar de julgamento de ambos para mim, o jeito como me encaravam me dava medo. Já na pequena sala composta por uma mesa redonda, cadeiras almofadadas, um telão que era usado eventualmente para chamadas de vídeo conferência. Convidei-os a sentar e lhes ofereci café de uma maquina presa na parede perto da porta.
    - Bem. – Os dois me olhavam mais ainda.
    - Muito bem- Disse um deles, o sorriso sarcástico no rosto e os olhos injetados de cólera a me observar como uma presa fácil. – O seu nome é Fabiano Batista, correto?
    - Sim senhor.
    - Tem 26 anos, nasceu na Bahia, e atualmente mora...
    - Tatuapé. - Completei.
    - Isso mesmo. - Complementou.
    Enquanto o Duílio me perguntava, o Saavedra parecia estar no mundo da lua. Ele olhava insistentemente para o teto e batia com os dedos na mesa, e isso me irritava, mas era obvio que eu não podia demonstrar.
    - Como e quando o senhor conheceu a senhorita Patrícia Andrade?
    - Ela trabalhava aqui.
    - Alguma vez conversou com ela, dentro ou fora do ambiente de trabalho?
    - Aqui quase todos os dias, pois sempre trocamos informações uns com os outros, isso é normal por aqui.
    - Entendi.
    - É verdade que o senhor deu uma festa em seu apartamento e que a senhorita Patrícia era uma das convidadas?
    - Dei sim, e além dela estavam também outros colegas da firma, só o doutor Bernardo que não.
    - A festa tinha algum objetivo? Era seu aniversário?
    - Não. Faço aniversário em outubro, dia quatro.
    Ok! Todas essas pessoas aí fora participaram da sua festa?
    - Todas. Menos aquela moça ali. – Falei apontando para a secretária nova, uma jovem de cabelos loiros e corpo roliço, seu nome era Helen.
    - Correto. Você suspeita do que pode ter acontecido? Se ela tinha algum relacionamento? Consta aqui nos autos que ela havia terminado um namoro poucas semanas de seu desaparecimento. Alguma vez o senhor ouviu ou viu alguém aqui do escritório mencionar algo a respeito?
    Parei para pensar. Então respondi.
    - Sinceramente não. Chego aqui, faço meu serviço, pego meu carro e vou pra casa. Às vezes convido o Ruan, meu melhor amigo para irmos a um bar aqui perto, pra tomar uma gelada, porém, ele nunca sequer tratou de um assunto parecido com esse.
    Os dois me olhavam, provavelmente suspeitando de algo, e esse era naquele momento o meu maior receio. Meu temor cessou quando o Duílio se levantou me estendeu a mão e me disse:
    - Obrigado pelos esclarecimentos senhor Fabiano. Se precisar nós sabemos aonde encontrar o senhor.
    - Tudo bem, estou à disposição. – Falei, com vontade de fugir o mais depressa possível daquela sala.
    Os dois saíram. O Saavedra sem dar tchau, foda-se ele. Não preciso de machos nojentos e muito menos de dois policiais babacas me bajulando. Foi sair da sala para o Ruan vir em minha direção.
    - E aí o que eles queriam? – Questionou.
    - Me interrogar. A Patrícia sumiu no dia que eu dei aquela festa.
    De repente o Ruan começou a tremer, sua voz ficou diferente, parecia estar com a língua pesada, pois sua voz saia um tanto quanto estranha de sua garganta.
    - Você falou de mim pra eles, que eu fiquei com ela.
    A minha vontade era ter falado, mas livrei meu grande amigo de uma roubada.
    - Nem sequer disse teu nome, meu caro. Agora vamos voltar para o trabalho. – Disse colocando a mão em seu ombro.
    Capítulo 10
    Aquele depoimento realmente mexeu comigo. Foram noites longas até o telefone tocar no meio de uma madrugada de forte chuva e o meu coração disparar:
    - Alô? – Silêncio do outro lado da linha. Apenas um leve chiado podia ser notado, no entanto, me preocupei.
    Fui ao banheiro, encostei-me a pia, levantei a cabeça e vi meu reflexo no espelho. Eu estava realmente cansado, morto de sono. Joguei uma água na cara e fui caminhando em direção ao meu quarto quando de repente ouvi batidas, ou melhor, pancadas na minha porta. As batidas não cessavam. Corri até a cozinha e tirei uma faca grande da gaveta, instrumento, aliás, que me ajudou na terrível missão de esquartejar a pobre da Patrícia. Andei pé sobre pé, bem vagarosamente. Fiquei ao lado da porta, abri de uma vez, mas não tinha ninguém.
    Olhei de longe. O corredor outrora escuro se iluminou devido a minha presença ali, o maldito sensor de presença. Avistei alguém descer as escadas de emergência e resolvi ir atrás. A faca na mão e o coração acelerado no peito, finalmente eu pegaria o assassino e daria cabo naquele desgraçado. Segui a toda pelas escadas, degrau após degrau e o meliante ia fugindo. Com as trevas era impossível ver quem era, mas dava para notar que se tratava de um homem, ou ao menos parecia ser um. Vi o safado sumir da minha vista e eu parar bem detrás do meu carro. O porta- malas estava aberto e o que tinha ali dentro era deveras assustador.
    A cabeça da Rose parecia um bolo espatifado, ali não havia nada além de massa encefálica e sangue, muito sangue. Recuei um passo sem saber o que fazer. Senti a faca pesar em meus dedos. Admirei aquele corpo com um desejo fora do normal. O acariciei. Coloquei minha mão em seu seio esquerdo, puxei e dei um corte. Um dos deliciosos peitos da Rose agora estava em minhas mãos. Beijei aquele estranho objeto, lambi, mordi, fiz de tudo. Parecia uma criança faminta e um homem excitado, meu pênis quase saia da calça devido ao enorme tesão que passei a sentir ali.
    Depois do seio, comecei a destrinchar a Rose. Cortei seus braços e pernas, seu sangue jorrou em minha face, mas não liguei. Suas coxas eram lisas e grossas. Mesmo morta dentro do meu carro senti vontade de penetrá-la e assim o fiz. Estava louco, ensandecido, então resolvi parar.
    Sai a mil por hora de lá. Os pneus cantando e a adrenalina subindo. Tudo era tão forte e fora da realidade. As ruas estavam vazias de gente, mas cheias de silêncio. O assobio do vento batendo nas árvores me causava medo e minhas pernas tremiam, tinha as mãos sujas de sangue. Parei o carro em uma rua sem saída. Nada de luzes, nada de vida humana, mais calmaria para os meus já agitados nervos.
    O corpo jazia em meu carro, mais uma vez não fui eu quem matou, porém eu o esquartejara, assim como fizera com a pobre da Patrícia. Coitada dela e de sua família.
    CAPÍTULO 11
    Não quero me recordar onde eu desovei o corpo da Rose e muito menos o que eu fiz antes com ele. Depois que esse pesadelo acabar irei atrás de tratamento, um psiquiatra talvez seja a melhor escolha. Descobrir quem é o filho da puta que mata e coloca os corpos em meu caminho era a meta do momento. Há se eu pegar o desgraçado. O faria em picadinho, cortaria cada pedacinho dele igual os açougueiros fazem com os bifes no açougue.
    Estava transpirando, ansioso, preocupado. No escritório todos estavam preocupados pelo atraso da Rose que era sempre uma das primeiras a chegar e a iniciar seus trabalhos. Além de pontual era bastante prestativa e atenciosa com todos. Quando comecei na empresa, a Rose me ensinou muita coisa importante e isso tem me ajudado até hoje. Pobre mulher. Assassinada de forma cruel por um louco, e esquartejada por outro, pior ainda. Tirar a vida de alguém é algo muito ruim, mas destrinchar o corpo é muito pior Mas por via das dúvidas o melhor era permanecer em silêncio.
    Estava decidido. Sairia na caça do verdadeiro assassino e acabaria com ele, mas para isso teria que pedir afastamento das minhas funções. Levantei-me da cadeira e fui caminhando até a sala do doutor Bernardo. Girei a maçaneta e a porta se abriu com um estalo, com certeza era falta de óleo, pois o barulho se parecia muito com caixões se abrindo naqueles filmes de terror com vampiros.
    - Posso falar um minuto com o senhor?
    Sentado em sua poltrona giratória, Bernardo levantou a cabeça o suficiente para notar a minha presença em sua sala.
    - Se for pra pedir aumento, esqueça.
    A sala era grande e lotada de quadros. Diplomas, fotos de família, viagens, certificados de bons serviços. O chão era todo acarpetado e as paredes pintadas na cor creme. Os móveis eram escuros e muito bem cuidados. Todos os dias, a dona Marli limpava cada canto daquele lugar como se ali fosse à casa de um santo.
    - Não senhor. Gostaria de me afastar da empresa por um tempo. – Disse.
    Os olhos do velho brilharam de surpresa e de espanto:
    - Qual o motivo? Posso saber?
    Pensei em várias desculpas durante meu breve trajeto entre a minha mesa e a fortaleza que era sala do grande chefão, mas na hora inventei outra, provavelmente a mais convincente.
    - Minha mãe está muito doente, pode morrer a qualquer momento.
    - Sinto muito. – Ele falou. – O que ela tem, posso saber?
    Ele não poderia saber, pois ela não tinha nada e gozava de boa saúde. Oxalá eu tivesse a sorte da dona Antônia. Nunca ficou doente na vida, a não ser uma pneumonia forte na infância, mas depois dessa nunca teve mais nada. Aos sessenta e cinco de idade ela toma vitaminas, e faz caminhada todos os dias. Já eu, vivo o meu sedentarismo diário, prestes a ter um ataque do coração a qualquer momento.
    - Câncer, ela tem câncer, senhor.
    - Meu Deus.
    Lágrimas mentirosas começaram a brotar dos meus olhos. E como um ator experiente, iniciei uma das maiores encenações da minha breve carreira. Falei de todo o sofrimento dela, das dores, das trocas de hospitais, da cirurgia que por pouco deu errado e até clamei a Deus pedindo uma intervenção divina. A minha interpretação era perfeita, e isso convenceu o doutor Bernardo a me liberar pelo tempo que eu precisasse. Na saída do escritório ele me deu um abraço, me desejou força e pronto restabelecimento a minha pobre mãezinha.
    Peguei minhas coisas e fui embora. Precisa chegar a casa, sentar e pensar em uma forma de pegar o desgraçado. Ninguém, nem mesmo o Ruan meu melhor amigo saberia disso, seria um segredo só meu.
    Capítulo 12
    Deixei o tempo passar só para ver como as coisas caminhariam. Por falta de provas as investigações da polícia deram uma estagnada, porém, eu poderia resolver toda a situação; não à maneira deles, mas sim do meu jeito. Precisava pensar em como atrair o verdadeiro assassino para perto de mim, no entanto seria arriscado. A hipótese de servir-me como isca estava descartada, porque eu já sabia que o desgraçado tinha preferência por matar mulheres e não homens, muito provavelmente por elas serem mais frágeis e não terem força o suficiente para revidar, isso se os crimes fossem limpos, é claro.
    A sorte estava lançada. Passei os últimos dias trabalhando bastante em um plano perfeito, ao menos para mim ele era. Era tarde da noite, alguém bate a minha porta, faço silêncio. Aproximo-me e dou uma espiada pelo olho mágico e vejo que são os dois investigadores, abro a porta e cumprimento lhes apertando as mãos.
    - Olá, que surpresa, não esperava receber os senhores aqui. – Disse, tentando disfarçar o nervosismo.
    Saavedra deu uma geral com os olhos em todo o apartamento, estava uma bagunça só. Passei os dias estudando sobre o maldito assassino e me esqueci das tarefas de casa.
    - Você mora aqui há quanto tempo? - Ele perguntou.
    - Três anos, se eu não me engano, sou ruim em datas.
    Os convidei para entrar e sentar. Ofereci café, mas recusaram, eles só queriam me fazer algumas perguntas. O interrogatório durou mais de uma hora. Questionaram-me sobre a minha rotina, meus horários, meus hábitos, se eu gostava do meu trabalho, se estava satisfeito com ele, e é claro, se eu tinha inimigos. Não menti em relação a isso, só omiti quando me perguntaram sobre a Patrícia e a Rose. Os dois queriam saber de mim tudo sobre elas, mas não disse muita coisa. O Duílio era um sujeito legal, diga-se de passagem. Magro, calvo, usava óculos e era às vezes brincalhão. Já o Saavedra era o oposto. Sério e bastante observador. Enquanto o Duílio me fazia às perguntas olhando diretamente nos meus olhos, ele ficava em pé andando pelo apartamento, fuçando em tudo, parecendo procurar alguma prova que comprovasse que eu era o responsável pelo sumiço das moças, na verdade eu era, em parte, e essa situação estava me deixando péssimo. Finalmente foram embora. O Duílio parecia satisfeito até então, entretanto, o Saavedra, nem um pouco, o que me fez ficar um tanto quanto preocupado.
    O dia amanheceu e eu despertei de um sono nada bom, mal consegui cochilar, dormir, era algo improvável no momento. A arapuca estava pronta. Se o assassino veio até mim há poucos dias, seria fácil atrai-lo, mas para isso precisava me armar. Decidi desaparecer por uns dias, uma semana ou um pouco mais. Era mais do que necessário tirar um tempo longe de todo burburinho para arejar as ideias. Iria visitar minha pobre e doente mãezinha, coitada, um câncer estava lhe comendo tudo por dentro, ri baixinho.
    Capítulo 13
    Estou de volta! Descansado, renovado e com as baterias recarregadas. Agora era chegada a hora de acabar com tudo aquilo que tem tirado o meu sossego. O plano estava pronto. Resolvi dar uma festa em meu apartamento, convidando a todos inclusive o doutor Bernardo, meu suspeito número um. Era uma noite de sábado. Estava muito quente naquela noite. Aos poucos meus convidados foram chegando, um a um eles paravam seus carros, outros chegavam a pé. Recebi meus convidados na porta, apertei a mão e abracei muita gente. Pronto, a festa, mas principalmente a armadilha estava armada, agora era só aproveitar e esperar o assassino morder a isca.
    A festa rolou a noite toda, álcool e drogas, as minhas reuniões eram regadas a muita cocaína e heroína. Tudo andava muito bem, até eu ouvir um grito, fraco, quase inaudível vindo do meu quarto. Sem aparentar alarmismo sai, andei poucos metros e descobri que veio de dentro do meu quarto. Lentamente girei a maçaneta e me deparei com algo assustador, era a Katia, toda suja de sangue ao seu lado com um buraco na cabeça estava Ruan, meu melhor amigo, morto. Parei. O cenário era de um filme de terror. O vestido branco que a Katia usava naquela noite estava tingido de vermelho. O corpo do Ruan com os braços abertos, igual Jesus Cristo na cruz. Ajoelhei-me, levantei meu olhar em direção a ela e a questionei:
    - Por que fez isso comigo? – Ela me olhou por um instante viu a janela aberta e se atirou rumo à morte.
    Fui preso, acusado pelos crimes que não cometi julgado e sentenciado a passar o restante dos meus dias preso em um manicômio judiciário. A promotoria alegou que eu era perigoso para a sociedade, quanto aos corpos esquartejados, ninguém sabe. Escrevo esse relato de dentro da minha cela, cansado, após fazer picadinho de mais um, se isso vai acabar um dia, eu não sei, mas se precisar matar alguém mande o corpo que eu sei o que fazer com ele.
    Fim...
  • O funeral de Emílio Dantas

    Da última vez que o vi com vida, o estado de saúde de Emílio Dantas era muito delicado. Terminal, na verdade.
    – Acho que desse funeral eu não fujo – ele disse, encarando a parede do quarto, um sorriso singelo, até um pouco perturbador.
    Dantas detestava eventos sociais. De todos os tipos. De batizados a funerais, de aniversários a casamentos. Muito calor humano, ele dizia.
    Inusitado era o fato de que ele não evitava esses eventos. Muito pelo contrário, ele fazia questão de comparecer. Somente para, no momento propício, desaparecer.
    Sim, desaparecer é o termo correto. Não importava qual fosse o evento, ela dava um jeito de sumir do local. E não apenas sumir. Ele desaparecia misteriosamente. Não importava a situação, fosse rodeado de pessoas ou em locais restritos, era só perdê-lo de vista e, num estalar dedos, ele não estava mais lá. Entrando por uma porta, no meio de um brinde, num piscar de olhos. Ele dominava a arte de desaparecer em público.
    As pessoas achavam divertido e extravagante, mas não entendiam exatamente porque ele fazia aquilo. Alguns diziam que era pela fama, que crescia com o tempo. Outros achavam excentricidade. Eu sempre achei que era pelo desafio. No fim, não importava muito o motivo, as pessoas só queriam vê-lo desaparecer.
    Duas semanas depois de minha última visita, Dantas morreu.
    O funeral foi realizado em sua cidade natal, no interior, numa capelinha bucólica, próxima à casa onde ele morou na infância. Era uma velha construção, pouco movimentada, mas um local realmente agradável. Estava fechada dias antes do funeral, passando por uma reforma.
    Uma vez, Dantas me confessou que passava muito tempo naquela capela quando era criança, escondido dos garotos mais velhos que o perseguiam na escola, fugindo das brigas da família em casa, ou simplesmente por querer sumir.
    É verdade que não erámos amigos chegados. Nos conhecíamos do trabalho. Mas dividíamos alguns hobbys, o que acabava gerando conversas divertidas em nosso horário de almoço.
    Bem, além dos parentes e amigos, estavam presentes ali muitos “fãs” e curiosos. Até uma emissora de TV local veio cobrir a cerimônia fúnebre, então pode-se imaginar a quão cheia estava a pequena capela.
    Em frente ao altar, sobre um carrinho adornado, em um belo, mas simples caixão de mogno, o corpo de Dantas repousava. No rosto, aquele mesmo sorriso calmo de dias atrás.
    Um vigário, amigo da família, veio de outra cidade para a cerimônia. Ele havia preparado uma comovente homenagem ao falecido. Acredito que teria sido uma despedida linda.
    Se não fosse o ocorrido, claro.
    Aconteceu muito rápido, do nada. O vigário preparava-se para o discurso fúnebre quando, numa batida forte, a tampa do caixão se fechou. Quase que imediatamente, toda a estrutura de madeira se colapsou, ficando perfeitamente achatada sobre o carrinho e levantando uma espessa nuvem de fumaça branca.
    Algumas pessoas se afastaram, assustadas. Outras, poucos segundos depois, se aproximaram, perplexas. Os que estavam mais próximos, como o vigário, ficaram sem ação.
    Demorou um pouco até que o vigário tomasse a iniciativa de verificar o caixão desmanchado. Receoso do que iria encontrar, com a mão trêmula, levantou a tampa lentamente.
    Nada além do tecido que forrava o caixão.
    Iniciou-se o alvoroço, mulheres chorando, homens discutindo. Houve bagunça. A imprensa se deliciava. Em meio à fumaça branca, fui acudir o vigário que, pobre coitado, sofria de pressão alta.
    A polícia foi chamada. Aquela brincadeira não passaria impune.
    Levaram o caixão e o carrinho para a perícia. Descobriram um pequeno mecanismo controlado por relógio que, ao ser acionado, fechava a tampa, abrindo o fundo do caixão e depositando o corpo no carrinho. O fundo era fechado novamente através de molas e travas eram liberadas por dentro do carrinho para colapsar o caixão. Para complementar, uma pequena bomba de nitrato de potássio era detonada por um mecanismo elétrico, soltando fumaça no ambiente.  
    Os fabricantes do caixão e do carrinho? Coincidentemente, eram a mesma empresa. Empresa que aliás, nem existia.
    O corpo? Também não estava lá. O mistério permanecia.
    Eu estava entre as pessoas que foram chamadas para depor na noite do ocorrido. Algumas outras passaram a noite toda na delegacia, prestando depoimento.
    Na manhã seguinte, a capela ainda recebia visitas. Além da imprensa e dos curiosos de plantão, a família, inconsolável, ainda persistia no local, prestando suas últimas homenagens e sentimentos.
    Lhes fiz companhia, prestando-lhes meus pêsames, até que o último familiar se foi. Mas, diferentes da maioria, eu não estava inconsolável com o desaparecimento do meu colega.
    Talvez fosse melhor dessa maneira. Emílio Dantas seria lembrado como o homem que desapareceu em seu próprio funeral. O seu melhor truque.
    Fiquei sentado ali, nos bancos de madeira da capela melancólica, devaneando. Imaginei se, quando eu morresse, alguém teria essa mesma ideia, prestaria uma homenagem como essa. Eu quis imaginar como seria, mas já não tinha muito tempo. A capela já estava vazia, a noite vinha caindo eu precisava aproveitar o momento oportuno para esvazia o fundo falso, embaixo do altar.
  • O Grotesco Prazer

    “Schadenfreude ist die schönste Freude, denn sie kommt von Herzen." 
       “Schadenfreude é a alegria mais bela, já que vem do coração.” 
       - (ditado popular alemão).
       
       Um homem sai do saguão de um grande edifício e começa a caminhar pela calçada. Passam das cinco horas da tarde, final do expediente deste sujeito bem vestido, de terno e gravata acinzentados; o terno, por sinal, de lapela curta, e como estava fechado, apenas se via a gola e uma pequena parte da camisa social branca que vestia por baixo. Um homem chique, que se veste bem para ir ao seu trabalho um tanto quanto burocrático e chato, mas que lhe rende uma quantia de dinheiro bem salgada todo o mês. E ele estudou para isso, para conseguir um trabalho que possa fornecê-lo uma conta bancário aceitável para alguém da classe alta.
       Logo mais à frente, naquela calçada muito bem feita – com paralelepípedos aparentando um estado tão bom que deveriam ter sido colocados há pouco tempo –, ele seguiu até seu carro; um Renault Duster da cor branca. Saiu da calçada para dar a volta no carro, abriu a porta e se sentou no banco do motorista. Começou a desabotoar o paletó, fechou a porta e pôs a chave na ignição a girando para ligar o painel. Se ajeitou no veículo, ligou o precioso ar condicionado, e logo deu a partida. Como sempre, soltou o freio de mão e engatou a primeira marcha. Ao sair do acostamento e entrar na via, rapidamente desenvolveu uma segunda e terceira marcha. Estava com pressa, queria logo chegar em casa.
       Em casa, após passar pelo portão, deixou o veículo na garagem, que, assim como o portão da frente, se abriu com um feitiço de mágica chamado “tecnologia”. É, este homem tem uma vida que poucos têm. Desceu do carro e caminhou até a porta que leva à grande sala de sua formosa residência de dois andares.
       Estava cansado pelo serviço entediante, mas esse cansaço logo passaria agora que está em casa e pode fazer o que quiser para relaxar. Mas então surge barulhos na escada, logo mais ao lado, que leva para o segundo andar. O homem, ainda bem vestido e que acabara de chegar em casa e estava cruzando a sala para subir justamente aquelas escadas, olhou para aquilo que causava os barulhos de passos. Era sua filha.
       - Pai! Olha só o que eu... – Falava a menina agitada, com um papel a balançar na mão direita, quando deu um pequeno tropeço na escada e não pôde terminar o que queria dizer.
       - Meus Deus, Letícia! Quase que você caí! – Fala o homem, apavorado por quase ter visto sua pequenina rolar escada à baixo.
       - Foi nada. – Disse a garotinha, aparentando ter seus quatro ou cinco anos de idade.
       - Como assim “nada”? Você me deu um grande susto, menina! – Exclamou o sujeito, ainda puxando fôlego depois daquele susto.
       A garotinha terminou de descer as escadas e foi direto ao seu pai. O abraçou, e ele a levantou em seu colo e disse:
       - Te amo muito, se você se machucasse, eu ficaria muito triste. Por isso, não quero mais te ver descendo rapidamente essas escadas, certo? Desça com calma de agora em diante. – Falou ele, beijando a bochecha de sua filhinha.
       - Aqui, pai, eu desenhei isso pra você. – Disse a loirinha, levantando o papel que tinha em mãos na altura dos olhos do pai.
       O homem, segurando carinhosamente sua filha – já meio pesada – no colo, pegou o papel da mão da menina e deu uma boa olhada nele.
       - Que lindo! É uma bela... Garrafa pet marrom? – Disse o pai, sorrindo para a filha, que por sinal não ficou muito feliz com aquelas palavras.
       - Não é uma garrafa marrom, pai. É um cavalo! – A menina quase chorava, estava magoada porque o pai zombou de sua bela garrafa... digo, cavalo que desenhou com tanto amor para aquele homem que ama tanto, mas que pouco tempo passa ao lado dela.
       Quando viu a burrada que fez, o sujeito elegante com aquele paletó aberto, resolveu se desculpar com a filha:
       - Oh, meu amor, eu estava apenas brincando... Claro que eu sabia que é um cavalo, e bem desenhado! – Disse o pai, abraçando a filha e a beijando no canto da boca. – Vou pendurar esse desenho na parede da minha sala lá no trabalho. – Ele continuou a falar, mas é claro que era mentira. Aquele desenho feito com tanto amor para ele, um presente da pequenina e ingênua filha, acabaria em uma gaveta ou pior.
       A menina continuou um pouco decepcionada, mas aceitou as desculpas do pai por conta da sua inocência de criança. O homem então a largou no chão e ficou com o desenho em mãos.
       - Onde está a mamãe? – Ele perguntou.
       - Lá na quarto, ela tá dobrando roupa. – Respondeu a criança.
       Sem mais palavras, o sujeito bem vestido começou a subir as escadas; lá em cima, seguiu para o seu quarto. Entrou nele, passando pela porta aberta, e viu sua esposa de frente para a cama à dobrar as roupas e à empilhá-las. Se aproximou da mulher e a abraçou por trás.
       - Me larga... tenho que terminar isso aqui. – Disse a esposa, meio ranzinza. Devia estar em um mau dia.
       - Olha só o que a Lelê desenhou. – Falou o homem, largando a esposa e colocando o desenho que Letícia fez para ele.
       - Sim. Vê se não joga fora, ela levou quase a tarde toda para desenhar isso pra você.
       - Mas é claro que não vou jogar fora, de onde tirou isso? Eu nunca jogo nada fora. – Embrabeceu o marido, mas logo abaixou a voz para não irritar a querida esposa. – Eu vou deixar na gaveta e amanhã eu...
       - Você leva pro trabalho e pendura na parede? – Disse a mulher, não deixando o marido terminar.
       - Sim. – Ele apenas disse, e ela, com os olhos fixos na roupa que dobrava, deu um sorriso sarcástico e forçado. Ela sabia que o papel seria esquecido na gaveta e nunca terminaria na parede de seu escritório.
       Mas o homem não se importou, logo virou as costas para a esposa e foi até o guarda-roupa pegar uma peça de roupa para levar com sigo para o banheiro, onde tomaria um banho.
       Mais tarde, após o banho, foi até a sala, já usando uma roupa mais confortável, e sentou-se no grande sofá. Por lá ficou descansando, até que Letícia apareceu para ligar a barulhenta TV de led grudada à parede. O sossego acabou!, pensou o homem que queria apenas relaxar com o silêncio pairando no ar. Mas para seu azar, ele tem uma filha pequena. Na verdade, nem é azar. Ele ama a menina, e ela é uma boa filha. Às vezes se estressa e também deixa de dar atenção para a filha, porém nunca deixará de amá-la. Ela é sua filha, ora bolas! Não é dos outros, ela é sua. Criação sua; com a grande ajuda de Bianca, sua esposa, é claro. Sem a mulher, nunca teria conquistado uma filha tão linda como Letícia. 
       Foi então que o pai, ainda sentado no sofá, chamou a filha para perto de si. Passou o resto do dia ao lado da menina, olhando programas infantis e jogando alguns joguinhos de criança. Queria descansar, óbvio, e ficando próximo da filha conseguia apenas agitação e dor de cabeça, mas pela menina valia a pena.
       Ás oito horas e meia, mais ou menos, Bianca chamou da cozinha o marido e a filha para irem jantar. A mulher havia preparado tudo, como sempre. Tinham uma empregada que limpava a casa durante o dia, mas as demais tarefas era Bianca que fazia e não se queixava. Era uma verdadeira dona de casa. Pai, mãe e filha jantaram alegres à mesa, até mesmo a esposa não estava mais aborrecida como antes. Talvez ver o marido e a filha brincando junto na sala tenha a alegrado, já que ultimamente o marido vivia um pouco distante.
       Ali pelas dez horas, Letícia já estava cansada demais pelo agito de logo à pouco com o pai, por isso não demorou para a garotinha começar a bocejar.
       - Edu, leve a Lelê pro quarto. – Disse Bianca, mandando no marido. E como todo bom marido, ele obviamente obedeceu a ordem sem pestanejar.
       O homem foi até sua filha, quase dormindo no sofá, e a agarrou no colo.
       - Não tenho sono, pai... – Disse a menininha com a voz cansada e dengosa.
       - Você já tá quase dormindo, filha. – Disse o pai, já ajeitando a filha em seus braços. – Vou ti levar pra cama.
       A menina não discutiu, apenas se entregou nos braços do pai. Os dois subiram as escadas e entraram no quarto da menina. O pai colocou a menina de pé ao lado da cama, para então puxar o cobertor. Letícia não queria soltar o pescoço de Eduardo, de tão molenga que estava grudada ao seu pai, mas acabou o largando por segundos até o homem a pegar novamente em seus braços e a colocar deitada sobre a cama. Puxou o cobertor fino sobre a menina e fez um carinho nos ombros dela quando a ponta de cima do cobertor chegou ao ombro dela. A filha sorriu.
       Por fim, Eduardo beijou sua filha na testa e ainda inclinado sobre a garotinha ele disse:
       - Boa noite, meu amorzinho. 
       A menina se agitou, fez uma carinha melancólica e disse:
       - Fique mais um pouco, pai... – Disse ela, quase suplicando.
       - Já passa das dez horas, Lelê. Tem que fechar os olhinhos e dormir. – Falou o pai, não se comovendo muito com as palavras e expressão facial de sua filha, pois a conhecia e se ficasse mais tempo com ela no quarto acabaria deixando ela mais agitada e não dormiria nunca desse jeito.
       - Mas eu tenho medo do escuro. – Disse ela, mas não consegue mais enganar o pai.
       Faz já alguns meses que Letícia dorme sozinha em seu quarto, e no começo a menina berrava e corria para dentro do quarto dos pais, mas com o tempo perdeu esse medo de ficar sozinha e no escuro em seu próprio quarto. Não há o que temer quando está debaixo do coberto e sobre seu aconchegante colchão, ela já sabe disso, o seu único problema é quando sente vontade de ir ao banheiro e tem medo de ir até lá naquela escuridão onde o interior da casa mergulha depois que todas – ou quase todas – as luzes se apagarem. Mas estando já na cama, cansada e molenga, e provavelmente sem vontade de ir ao banheiro, Letícia não tem nada que à impeça de cair logo em um sono profundo.
       - Você não tem mais medo, nos últimos dias dormiu sempre sozinha. – Disse o pai, já de pé e dando meia volta. 
       - Mas agora ele voltou! Tenho medo! – Birrou a filha, desesperada ao ver seu pai se afastando de si.
       - Ah, amorzinho meu, o pai está cansado. Brinquei e assisti TV contigo o tempo todo desde que cheguei em casa já cansado do trabalho. – Falou em um tom bastante sério.
       - Tá bom. – Falou a menina, emburrando e puxando o cobertor, tapando o seu rosto.
       Aquilo entristeceu o homem. Podia ficar um pouco mais com sua filha, fazer companhia por mais alguns míseros minutos. Não custaria nada, mas... A menina não pode ser mimada, e um pai de verdade sabe disso. Resolveu sair do quarto; apagou as luzes, saiu e antes de fechar a porta, olhou para Letícia e disse:
       - Boa noite, Lelê. – E fechou a porta.
       Não sentiu remorsos. Não fez nada de errado. Letícia não pode ser mimada, senão irá se tornar uma jovem despreparada para as tristezas do mundo. E amanhã o pai pode muito bem passar mais algum tempo com a filha quando voltar do trabalho, isso se ele se lembrar disso amanhã. Nunca poderemos saber como iremos estar no dia seguinte. Mas se Eduardo não quiser se arrepender futuramente, acho melhor não se esquecer ou ignorar sua filha nunca mais, pois quando ela crescer, não poderá voltar no tempo para aproveitar novamente o amor daquela doce e inocente menina. 
       Mas agora que já colocou Letícia na cama, seguiu até a sala e deu de cara com a esposa logo ao descer as escadas.
       - Já vou dormir. – Disse Bianca, com cara de sono.
       - Claro. – Ele apenas disse.
       - Você não vem?
       - Daqui a pouco eu vou, tenho um negócio do trabalho pra fazer. – Disse Eduardo, mas podia-se notar algo de estranho em sua voz.
       - Então tá, eu já vou. – Finalizou a esposa, logo seguindo seu caminho e subiu as escadas. Ela nem se importou com a estranheza de seu marido.
       Essa “estranheza” tem um nome, mas o homem prefere ignorá-lo, pois este soa um pouco doentio. 
       Seguiu até a cozinha. Em frente à pia, limpa e com pratos e talheres e copos lavados a secar sobre o suporte de plástico ao lado, o homem pegou um copo limpo e o encheu com a água da torneira. Levantou o copo cheio e o bebeu de uma vez só. Largou o copo seco solto sobre a bancada da pia e logo partiu até o canto da cozinha onde desligou as luzes no interruptor que lá havia. Fez o mesmo na sala, apagando todas as luzes da casa.
       No escuro, caminhou sem dificuldade alguma até as escadas. Conhecia sua casa como a palma da sua mão, por isso até com os olhos vendados conseguiria alcançar qualquer lugar que quisesse. Subiu as escadas e no corredor seguiu reto até o seu final, pois bem lá no fim ficava uma porta invisível naquela negritude. 
       O homem sabia que, mesmo sem enxergar, seguindo reto pelo corredor alcançaria a porta para seu escritório. Podia ir dormir, não havia trabalho há ser feito em casa nessa noite, mas o que o atrai até seu escritório é algo mais prazeroso. Algo para saciar um vício, ou melhor, uma doença. Não é algo normal, o sujeito sabe disso, mas ainda assim prefere ignorar.
       Como perdeu boa parte do resto de seu dia com sua filha, teria menos tempo para se deleitar com aquilo que lhe aguarda dentro de seu isolado escritório. Está cansado, claro, mas o cansaço não diminui a vontade de ocupar a mente com algo prazeroso para si. Um hobby, talvez seja, que se tornou uma espécie de tradição. Todas as noites – ou quase todas – ele tem aquele desejo, aquele passatempo, que o prende de minutos à horas trancado em sua base fortificada, onde nem sua esposa e nem sua filha estão por perto. Pode fazer o que quiser lá dentro, pode ser outra pessoa.
       Chegou ao final do escuro corredor e entrou no escritório. Ligou as luzes, fechou a porta e caminhou até a sua mesinha de trabalho, bem no centro mais ao fundo do cômodo. Se sentou em sua cadeira macia e giratória, uma dádiva para suas costas acostumadas com uma boa e confortável vida. Havia um notebook sobre a mesinha, juntamente de outras tralhas. Levantou a tampa do computador portátil e apertou o botão power.
       Demorou até o notebook ligar, cerca de dois minutos – que para Eduardo já era tempo demais para esperar. Quando a tela acendeu e ele colocou a sua senha, logo foi direcionado para sua área de trabalho.
       O papel de parede na tela do aparelho, por trás dos vários ícones, era um lindo horizonte suavemente azulado em uma tarde fresca de verão. Uma imagem linda, que trazia paz, mas o homem não quer paz agora. Ele quer apenas saciar o seu gosto exótico. Quer matar a fome, encher a mente com o suco da vida. Absorver forças inexplicáveis e se deleitar com tais magníficos sentimentos que afloram sua pele.
       Com a mão sobre o mouse, ao lado direito do notebook, o deslizou para o lado até o seu ponteiro no televisor alcançar um ícone em especial. Depois de dois cliques, uma janela do navegador se abriu. É hora de acessar o e-mail, ele pensou, mas então teve outra ideia melhor. Deixaria o principal para o final, primeiro iria visitar um site em específico e depois dar uma olhada em um certo fórum para então acessar por fim o e-mail e ver se chegou algo de novo.
       Abriu a guia anônima do navegador e começou a digitar letra por letra o endereço do tal site que iria visitar. Sabia de cór o nome, de tanto que já o digitou nas noites em que passa sozinho em seu escritório. Nos outros dias tinha mais tempo, podia deleitar-se o quanto quisesse, mas como hoje demorou para vir até o seu “porto-seguro” já que com sua filhinha passou a maior parte do tempo, teria no máximo uma hora. Logo teria que se deitar e dormir, porque amanhã é um novo dia onde terá que acordar às sete horas para se aprontar para ir trabalhar como sempre.
       A interface do site tinha duas cores predominantemente, vermelho e preto. Fundo todo escuro e letras em sangue. Era um aviso, e nele estava escrito em letras bem grandes: “O conteúdo deste site é impróprio para menores de dezoito anos”, e embaixo havia um ícone escrito: “Acessar”, e é claro que Eduardo clicou sobre ele.
       Logo foi direcionado para a verdadeira interface do site, e as mesmas cores de antes ainda eram predominantemente, porém agora tinha também ícones de vários e vários vídeos. Não é todo o dia que o homem acessa esse site, pois nem sempre os responsáveis por ele postam algo, por isso costuma ficar sempre uma semana sem vê-lo para então na noite do sétimo dia acessá-lo e ver todos os novos vídeos e matérias postados durante toda a semana que se passou. E o homem sorriu ao ver quantos novos vídeos haviam ali agora.
       As imagens dos ícones que direcionam para os respectivos vídeos estavam meio borradas, não porque a internet não as carregou, foi porque elas são mesmo impossíveis de serem detalhadas de propósito. E para o cidadão saber o que aquele curto vídeo apresenta – ou imagens, pois nem sempre eram vídeos mesmo estes sendo a maioria e o foco principal – uma série de linhas escritas ao lado dos respectivos ícones, explicando o que aquilo é.
       O homem focou no primeiro ícone e então leu por cima o que ali estava escrito. A única coisa que leu ali e acabou instigando sua mente a clicar para ver o vídeo foi o fato de haver a palavra “criança”.
       Após clicar e ser levado a uma página com o tal vídeo, início o player para assisti-lo. Foi então que começou a ver uma filmagem amadora, de apenas três minutos, e pelo que pôde notar pelo ambiente e pela fala das pessoas, devia ter sido filmado no sul dos Estados Unidos. 
       Era um aglomerado de gente, circundando a certa distância algo que prendiam seus olhares assustados ao centro da roda. Ali estavam dois homens, uma menina, e uma ave de rapina enorme – bem provável que seja uma águia. E o que fazia as pessoas em volta se espantar com aquilo era porque a menina gritava muito. Estava desesperada, e a ave estava bem ao lado dela, mas pouco se via pois um dos dois homens a tentar acalmar a menina estava bem na frente. E a mão do corajoso sujeito a filmar tudo, tremia bastante. 
       Mas foi então que aquele sujeito que bloqueava a visão mais detalhada da menina, resolveu dar alguns passos para o lado é o que a câmera focou foi bem chocante. A ave de rapina estava com o bico cravado no braço da pobre menininha, que devia ser só um pouco mais velha que a Lelê. 
       Podia-se detalhadamente ver o braço mutilado da garotinha a agonizar enquanto aqueles dois homens tentam tirar o bico do animal de sua carne branca. A ave estava sendo esganada por um dos rapazes, que por sinal vestiam algum tipo de informe idêntico, como se trabalhassem em um zoológico ou coisa parecida; mas pelo ambiente que pode se vê ao redor, aquilo é uma grande área aberta, grande demais para se localizar dentro de um zoológico por mais grande que este fosse.
       O vídeo acabou e não teve desfecho. A águia seguiu com seu bico cravado na menina a gritar. O homem em frente ao notebook ficou pensando: “Porque não mataram a porcaria da águia? Se fosse eu, degolaria a criatura para salvar a criança... Bom, pensar é fácil, difícil é fazer. E quem teria uma faca ou facão em mãos naquele lugar, que mais parecia um tipo de reserva ambiental?”.
       Foi a vez de retornar à interface principal do site e acessar o vídeo à baixo deste último que Eduardo viu com tanta curiosidade, ficando indignado e sentindo prazer inexplicável nesse seu sentimento estranho ao assistir desgraça alheia. E ainda mais por ser uma criança a sofrer, isso o deixou impactado. E deleitou-se com este saboroso sentimento. Logo clicou sobre o próximo ícone de vídeo, sem nem ler sobre o que era, então foi direcionado para um novo player que começou a rodar um novo vídeo quando o homem clicou sobre ele.
       Outro vídeo amador, e o ambiente era semelhante ao do anterior, a diferença era nas pessoas que agora apareciam na sua tela do notebook. Eram todos negros, por isso supôs que fora gravado na África. Provavelmente em algum país pobre e com conflitos internos, pois ali se via várias mulheres mal vestidas junto de seus pobres filhos, uns nos colos de suas mães e outros a caminhar ao lado. Mas não havia somente mulheres e crianças, o sujeito que estava gravando era homem, pelo tom de voz, porém ainda haviam outros homens ali. Todos negros e com farda de uma espécie de exército ou grupo de guerrilha, e em mãos empunhavam rifles que o nosso sujeito sentado na macia cadeira de seu escritório e a assistir tudo aquilo por uma tela não pôde reconhecer o modelo ou calibre – E como poderia? Eduardo nem sequer serviu o exército.
       Os homens fardados conduziam aquelas mulheres e crianças, como se estivessem às escoltando. Porém aquela caminhada teve um fim, e então os soldados deram ordens para as mulheres e seus filhos em uma língua esquisita. Foi aí que aquelas pessoas indefesas foram se alinhando lado a lado e se ajoelharam de costas para os homens armados.
       Um tiroteio se iniciou. Mulheres, crianças grandes e pequenas – até no colo de suas mães – foram sendo abatidas. Os primeiros disparos atingiram as mulheres, em seguida os filhos, e por fim os assassinos fardados, de cor de pele idêntica ao das inocentes almas sacrificadas, foram se aproximando dos corpos e acertaram um tiro na cabeça de cada um para ter certeza de que estão mortos. 
       Bem no final daquele vídeo de quase seis minutos, o câmera, falando em uma língua desconhecida, aproximou a imagem de uma criança que devia ter no máximo dois anos de idade. Estava com a cabeça estourada e ainda grudado aos braços de sua mãe igualmente morta. As vozes do câmera e dos soldados ao redor eram de pura zombaria, dava para notar pelo tom e pelas risadas.
       Eduardo absorveu cada segundo daquele vídeo incrível. Estava impressionado, pois já vira outros vídeos com execução, mas nunca havia visto uma criança sendo executada. Foi a vez de procurar outro vídeo na interface, e este terceiro era o último, pois os demais o homem em sua confortável cadeira já tinha visto em outros dias já que eram antigos e este site demora para publicar algo. O terceiro e último seria clássico, logo pensou, pois em sua descrição tinha “acidente de trabalho” em letras vermelhas.
       Sem mais enrolação, logo começou a assistir o último vídeo. Nele aparecia um homem solitário ao lado de um tipo estranho de máquina que rodava e estava enrolando algo que se assemelha a tecido. O sujeito solitário começou a tentar ajeitar o tecido, que estava ficando desparelho, e acabou prendendo a mão. Foi jogado ao chão e logo levado para cima estando com o braço inteiro preso agora. A máquina não parou de rodar, e o homem ia rodando junto em uma velocidade considerável. Suas pernas se chocavam brutalmente todas as vezes que era jogado para baixo e depois levantado para então descer outra vez. Foi se formando um rastro de sangue onde as pernas de borracha do rapaz se chocavam contra o chão. Não havia ninguém ali para ajudar. O vídeo acabou e o homem continuava rodando, provavelmente morreu, pensou o nosso homem de mais sorte, sentado a assistir o que mais lhe chama a atenção e mais lhe trás curiosidade. A desgraça alheia!
       Decidiu sair do site e procurar algo de “bom” nos fóruns perdidos na internet, nos quais consegue acesso porque já fora a tempo convidado por “amigos” para participar de ambos. 
       O primeiro fórum era um aglomerado de pornografia do tipo mais variado tipo, e ilegal. Decidiu ver o que havia no outro fórum, pois pedófilo o nosso homem aqui não é, ele é apenas um curioso. Alguém que busca prazer naquilo que é pútrido na humanidade. Fatalidades, crueldades, é isso o que mantém mais a atenção desse sujeito estranho, mas ainda assim tão comum.
       No segundo fórum achou um melhor prato para se deliciar. Haviam muitas imagens de pessoas sendo torturadas, pessoas mortas e até crianças com membros mutilados.
       Por fim, chegou a hora do principal. Já é meio tarde, e deve logo ir dormir, mas um último deleite ainda pode vir antes de ir para a cama. Acessou o e-mail e logo viu algo de novo em sua caixa de mensagem. Era uma mensagem estranha, em uma língua semelhante a árabe, mas o que importa é que ali havia um arquivo de vídeo anexado. 
       Abriu o player do sistema do Windows e logo começou a assistir. Ali havia uma jovem, de aparência europeia, amarrada há uma cadeira. Em frente a ela estava um sujeito encapuzado, segurando uma faca. Ele se aproximou e ela gritou. Eduardo viu aquele homem encapuzado cortar um dos dedos da jovem, e este foi trazido até a frente da imagem como se fosse um troféu a ser segurado pelo maníaco, enquanto isso a jovem agonizava.
       O homem, em seu escritório com os olhos vibrados naquilo que via, escutou o som da porta sendo aberta. Olhou e viu que era Letícia que entrava para atrapalhar o pai nesse momento de puro êxtase.
       - Lelê? Porque não está dormindo? – Ficou nervoso e o mais rápido possível desligou o notebook enquanto falava. Será que sua filha escutou os gritos vindos de seu computador? Bom, o volume estava baixo, mas...
       - Não consigo dormir, fica comigo pai? – Perguntou a menina, com uma cara fechada e esfregando os olhos e bocejando. Não deve ter escutado nada. 
       - Porque levantou da cama?
       - Acordei e não conseguia dormir de novo. Estava sozinha no escuro, e...
       - Tudo bem, filha. – Eduardo se levantou e foi até a menina. A pegou no colo e lhe deu um beijo na bochecha.
       Naquela noite o homem dormiu ao lado de sua filha, que levou consigo para o seu quarto onde sua esposa já roncava. Dormiu abraçando as duas. Antes de pegar no sono, chegou a pensar sobre o porque de sentir tanta vontade de ver aquele tipo de coisa no seu notebook, mas logo desistiu de procurar uma resposta para aquela sensação instigante. É difícil de explicar, o que ele sente é apenas um grotesco prazer.
  • O Guardião da Floresta

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      - Aitniê. - Disse em voz alta o indígena que guiava o barco, quando avistou a primeira luz do sol tocar o céu. Causou um reboliço no pequeno convés atrás de si.
      - É o quê? - João se pos de pé num pulo desejeitado. Pos uma mão no cabo dum revólver na cintura e a outra agarrou a borda do barco. Olhava para todos os lados, nitidamente assustado.
      - Significa 'Bom dia'. - O índio respondeu achando graça. Todo os tripulantes acordaram com a sua saudação.
      - Vai se foder índio. - João disse cuspindo na'gua.
      - O nome dele é Ubiratan! - Zé 'Tinhoso' o corrigiu com sua voz rouca. Sua expressão anulava qualquer objeção que o outro tivesse. Era o líder do bando.

      João era o novato, no total eram cinco malfeitores navegando rio acima em busca de algumas madeiras para o 'contato'. Zé esticou os ossos e foi até a ponte ter com o 'capitão'. Todos já estavam de pé.


       - Onde estamos? 
      - Sei lá. - Ubiratan respondeu sorrindo, sacudindo os ombros. Antes de qualquer reação, apontou para um mapa estirado no painel. - Por aqui. - Seu dedo estava perto da área marcada pelo Contato.
      - Logo logo tá nas vista! - Zé disse virando as costas. - Saruê, Pequeno… prepara as ferramentas. João, fica de oio nas margens. Vou prepara um trago pra nois.
    O, graças a Deus! - Saruê disse erguendo as mãos indo para o seu afazer.

     Uma conversa fiada tomou conta do barco rapidamente, depois que Zé abriu uma garrafa de cachaça e o copo foi de mão em mão, uma dose pra cada. Duas para o chefe, como de costume. João era o único que cumpria as ordens, seus olhos saltavam de uma margem para outra sem descanso, participava minimamente da conversa. O barco de pesca seguia num ritmo constante e tedioso, Ubiratan gostava de falar para espantar o sono e matar o tempo. 

      - Fala aí "Biratan", diga o significado de seu nome, diga. - Pequeno pediu apontando para o João. 
    Lança Dura! - Ubiratan disse e todos riram.
    Essa desgraça faz sucesso com as quenga, acredita? - Saruê olhava para João. - Nois conta isso nas Birosca já vem umas treis pra confirmar. - Gargalhou.
    Bora ajeitar essas serras, seus carniça! - Zé disse em meio às histórias. 

      O sol estava a meia altura quando Ubiratan avistou as copas coloridas das árvores. 


      - Oh lá Zé!
     - Bora ganha um dinheiro! - Respondeu animado pegando uma Serra elétrica pra si.

      Dez minutos depois o barco foi amarrado na margem. Ubiratan desembarcou rapidamente e entrou no mato a esquerda, carregava um pedaço de corda e um saco de fumo nas mãos.


      - João, fica de zóio no barco até ouvi a serra canta, beleza?
      - Po'deixa chefe! - Estava se afeiçoado ao grupo.
    Bora cambada! - Zé foi seguido pelos demais, todos carregavam uma Serra e facões. 

       Alguns passos depois, sumiram na mata fechada. O índio reapareceu andando de costas, desenrolando a corda com cuidado no chão cortando-a.


      - Que isso? - João perguntou curioso.
      - É pro Demônio da Floresta. - Ubiratan respondeu sério. -  Por onde eles foram?
      - Curupira? - João explodiu numa gargalhada - Puta que pariu - Ele não conseguia parar de rir, mesmo com o índio o encarando sério. - Foram por ali. - apontou em meio uma torção causada pelo riso exagerado. Ubiratan sumiu no rastro dos demais.

       Algum tempo depois o barulho da serra se fez mata adentro, era hora de agir. João ainda sorria, tirou o excesso de lágrimas dos olhos e deu mais uma olhada nos arredores antes de iniciar a caminhada. No segundo passo, viu a ponta da corda deixada por Ubiratan e resolveu segui-la. Dez passos a frente achou um punhado de corda enrolada, escondendo um pacote de fumo lacrado. Deu um riso largo e pegou a prenda olhando em volta, desconfiado. Sorriu mais uma vez e foi até às serras. 

      O serviço foi mais rápido do que Zé esperava, havia apenas duas dúzias de jacarandás na área, "árvores da flor roxa", como disse o Contato.  O bando preparou os troncos em formatos iguais e os arrastaram para a margem, Zé estava mal-humorado. Ubiratan, desconfortável.

      Como calculado, no final da tarde o barco estava descendo o rio puxando as madeiras encomendadas. Ubiratan guiava para a segunda marcação do mapa.

      - Esse contato seu é fraquinho, hein Zé. - disse entediado. 

     Zé estava olhando a margem com uma perna apoiada na borda e o pensamento distante.

      - Um punhadinho desse vai dá nada pra nois. - Saruê endossou 
      - Eta Febre do rato! Confia em mim mais não é? Oxem! - Zé se voltou para eles. - Esse Cabra é peixe grande. Disse que se nois levasse esses tronco pra ele, ele ia arrumar um serviço grande pra nois!
      - Ma rapais, e tu vai fica no preju é? Alugar barco, as serras, o óleo, tu tá se arrombano pra trabaia é? - Pequeno indagou.
      - Fecha essa boca, desgraça! O cara que tá bancano tudo, seu porra. Da minha parte é só a mão de obra podi de voceis! - Zé se satisfez com a expressão de admiração dos demais. - E o miseravi ainda vai dá 100 conto por cada tora! - Concluiu rindo de seu trunfo. 
      - Tu é o Cabra da peste memo hein. Rapais, que negoso doido é esse!? - Pequeno estava admirado, igual aos demais.

     Cada um disse alguma coisa sobre a sorte de ter pego um contato desse tipo e começaram a imaginar e discutir sobre qual seria o trabalho futuro, prometido. 

       Zé estava preocupado antes, quando estavam na margem preparando as toras, achou que era uma armadilha da polícia ambiental e/ou do IBAMA, o trabalho era o melhor que ele já pegou nessa vida de malfeitor. Na verdade iria receber R$ 200  por cada tronco e agora que seu bando acreditou no R$ 100, seu lucro seria maior ainda. Quando o barco entrou no "canal esquecido" Tinhoso relaxou de vez. Ali sabia que estava seguro, aquelas águas eram esquecidas pelas autoridades. 

      No início da noite avistaram o porto clandestino, exatamente onde o cliente marcou no mapa. Zé desceu sozinho, um capataz bem vestido o recebeu e mandou um qualquer seu contar os troncos e levou Zé num canto. Dez minutos depois todos estavam montados em seus cavalos com os bolsos cheios, em direção a Birosca mais próxima dali.

    Zé ainda repetia as palavras do homem em sua cabeça, "Meu patrão mandou dizer pra encontrar ele no mesmo lugar, daqui seis dias".

    Não se aguentava de empolgação. O bando chegou a galope numa cidadezinha precária. Uma avenida bem iluminada, tomada de comércios fechados e no final uma Birosca acesa com mesas para fora e clientes beberrões. 

       O bando chegou barulhento, tomou duas mesas e animou o lugar que já estava pronto para encerrar o dia mas, diante da disposição dos recém chegados, foi obrigado a estender o horário. Antes de mergulhar na cana e fumo, Zé Tinhoso passou o olho no bar e nos clientes, não queria ser importunado por gatunos. Não viu nada além de molengas chorões, então mergulhou de cabeça junto com seus homens na 'mardita'. Mais tarde, algumas 'Damas da noite' se juntaram ao bando e a coisa animou de vez. 

       No alto da madrugada os rapazes foram levados para os quartos cada um acompanhado por uma dama. Cada um tomou um quarto. Depois de satisfazerem seus clientes as senhoras saiam de cena, deixando-os sozinhos, dormindo. 

    Os quartos ficavam no andar superior, lado a lado, dividos por uma parede de taipa. Ubiratan não estava bem, fingiu dormir para dispensar sua senhora e sozinho, não conseguia dormir de jeito nenhum, um desconforto o tomou. Ouviu a porta de seu vizinho abrindo e fechando e o som de passos curtos e risadinhas, escada abaixo. Um minuto depois ouvi a porta se abrir de novo mas, não os passos, aprumou os ouvidos e teve certeza que seu vizinho estava se engasgando. Se levantou num pulo e correu até ele. A má iluminação impedia de ver quem era.


      - Oxe cabra tá morrendo aí é? - Disse se aproximando da cama e virando o homem de lado. - Que porra é essa? - perguntou quando sentiu um líquido quente saindo de seu colega. - Socorro! - Gritou quando sentiu o cheiro de sangue.

     Ouviu um grunhido no outro quarto.

      - Que diabo é isso? - A voz de Zé se fez no corredor. 
    Vem cá Zé olha isso…
    Crendeuspa… - A voz de Zé começou e deu lugar a um grito sufocado. 

    Ubiratan saiu do quarto correndo e viu com a luz da lua que entrava na única janela do corredor, seu chefe ajoelhado segurando a garganta que se desmanchava por entre seus dedos. 

      - Sai daqui demonio! - João gritou do último quarto. Alguma coisa o jogou no chão.

    Ubiratan estava desnorteado, gritou por socorro novamente enquanto corria até o quarto de João. Viu a silhueta de uma criatura pequena sobre seu colega cochichando alguma coisa em seu ouvido. Era tarde demais

    Essa era a única certeza que o índio tinha.

    Caiu de joelhos diante da porta  aberta enquanto explicava que deixou uma prenda, suplicava por perdão. O som da garganta de João se torcendo até quebrar fez um calafrio desesperado percorrer seu corpo. A criatura o encarou das sombras, em um segundo se pos diante dele, era pequena cabelo espetado e vermelho como fogo aceso, tinha um riso malicioso de dentes pontudos e amarelados a pele esverdeada usava apenas uma tanga de couro. Os pés virados para trás. Ubiratan tremia descontroladamente.

      - Aiacaqui... ai-có [ Cortamos só algumas árvores]  - Ubiratan conseguiu dizer com muito esforço
      - Aiacaqui aiacá [ Cortei só algumas cabeças] - O Curupira respondeu com uma voz sombria, fria como gelo, enquanto passava suas garras debaixo do queixo do infeliz e ria com seu sangue jogando.

      

  • O Natal de Betinho

    Era fim de tarde e Betinho soluçava solitário encostado à porta da capela, a bunda magra torturada pelo frio da calçada. A palma da mão aberta mostrava uma moeda antiga deixada pelo pai em seu leito de morte, mas era antiga demais para comprar um presente para a mãe, outro para a irmã pequenina e doente, e outro para o irmão mais velho.
    Betinho odiava o Natal.
    Betinho odiava o Vigário.
    Há dias sua mãe não trabalhava mais para ele; não lavava o chão da igreja, nem ajeitava as velas do altar, nem tirava o pó das imagens... O vigário dizia que as beatas podiam fazer aquilo sem cobrar um centavo sequer, por quê pagaria a uma mulher preguiçosa e pouco religiosa como ela?
    Quando despediu a mãe do Betinho, o fez na sua frente, ignorando a existência do menino. Pensava que Betinho não entendia? Pensava que Betinho era burro?
    Betinho entendia tudo. Betinho sabia bem o significado da palavra “humilhação”.
    Por isso que Betinho odiava o vigário. Se pudesse dava-lhe um presente. Um presente tão asqueroso que o vigário jamais esqueceria.
    Mas aquela moeda não servia para nada, a não ser para lembrar da noite em que o pai se foi.
    Para quê ficar com ela? Para quê guardar aquela dor no bolso da bermuda, ou sob o travesseiro quando se deitava.
    Olhou bem para ela, a visão turva. As lágrimas partilhavam aquele momento. Das narinas escorria o catarro e a boca sentia uma mescla de sabores.
    Atirou a moeda para longe e enxugou a boca com o punho da camisa do irmão mais velho que usava quando estava suja. Só nessas ocasiões tinha um camisa: quando o irmão a atirava no cesto de roupa suja e usava a outra.
    Por que seu irmão tinha duas camisas e ele, nenhuma?
    Betinho odiava o irmão.
    Por que sua mãe nunca lhe comprou uma camisa e comprou duas para seu irmão?
    Betinho odiava sua mãe.
    E, ele agora pensava enquanto via a moeda rolar escada abaixo, sua mãe não lhe comprava uma camisa porque o dinheirinho que às vezes sobrava servia para comprar os remédios de sua irmã doentinha.
    Betinho odiava sua irmã doentinha.
    A única coisa que realmente amava era a lembrança do pai. O melhor a fazer era pegar a moedinha de volta. Descer aquela escada escura e fria apressadamente era o que devia fazer, caso quisesse reaver a moeda antes que algum delinquente o fizesse.
    Betinho desceu, os pés grudados nas costas, tamanha a pressa.
    Deteve-se no último degrau, junto ao chão.
    Um vulto esguio e negro como a noite que chegava segurava a moeda e abrindo-lhe um largo sorriso, perguntou:
    — Teu nome é Betinho?
    — Sim, senhor.
    — Queres comprar presentes de Natal com esta moeda?
    — Sim, mas não vale nada, senhor.
    — Vale bem mais que pensas.
    — O senhor acha?
    — Tenho certeza.
    — O que posso comprar com ela?
    — Muitas coisas. Mas antes, sentemos aqui, que te explico.
    O homem sentou primeiro naquele degrau.
    — Mas é tão gelado esse degrau! — Reclamava Betinho. — Prefiro ficar de pé, se o senhor não se importa.
    — Me importo, sim — o homem o encarou como se quisesse mata-lo, mas ao abrir um novo sorriso, continuou: — Por isso que já o esquentei para ti.
    Betinho sentou e mal pôde acreditar. O degrau estava quente.
    — O senhor é mágico? Está bem quentinho agora.
    — Não sou mágico. Sou um comerciante. E tenho uma proposta para ti. Quero te vender esta moeda.
    Betinho sorriu, inocentemente.
    — Mas esta moeda é minha!
    — Ora, mas é claro que não! Não a jogaste fora depois que descobriste que não queres mais lembrar do teu pai, que te amava tanto?
    — Como o senhor sabe disto?
    — Ora, mas não foi assim que pensaste quando jogaste esta moeda fora? Depois que descobristes que odeias o vigário, o teu irmão, a tua mãe e a tua irmãzinha doente?
    Betinho agora estava com muito medo. Com medo, mas com muita raiva e queria sua moeda de volta.
    — Dê-me a minha moeda, seu ladrão! — Gritou, avançando sobre aquele desconhecido.
    — Ela agora é minha porque a encontrei perdida nesta calçada — volvia ele, levantando-se e levando consigo o calor da calçada, transformando-a de volta naquela pedra de gelo. — Queres ela de volta?
    — Claro! — Betinho levantava-se e estirava a mesma mão que há pouco possuíra a moeda — Por favor!
    — Como disse antes, posso ti vendê-la.
    — Mas não tenho como pagar.
    — Claro que tens, olha só! Posso contar nos dedos! Conta comigo: O vigário, teu irmão, tua mãe, tua irmãzinha doente e teu falecido pai.
    Betinho sorriu. Agora havia descoberto: aquele homem era um louco qualquer, falava qualquer besteira que lhe passasse pela cabeça.
    — Por que ris? — Perguntou ele.
    — Porque o senhor é besta.
    — Sou mesmo?
    — Quer que eu pague com o vigário ou com meu irmão ou minha mãe ou minha irmã ou meu pai?
    — Sim, e por que não?
    — Está bem. Dê-me a moeda.
    — Não, não. Eu te vendo esta moeda. O que me ofereces em troca?
    — Deixe-me pensar... — Betinho nem precisou pensar muito. Era claro que já sabia. Era uma brincadeira, mas já sabia como brincar. —...O vigário.
    — Hum... — ele entregava a moeda a Betinho — Esta moeda deve valer muito para ti. Deste-me o mais valioso.
    — O canalha do vigário não vale nada — maldizia Betinho saindo correndo com sua moedinha de volta. Agora podia voltar para casa. Logo mais teria uma sopinha na ceia de Natal. Não era um peru, mas dava para encher a barriga.
    Enquanto cobria-se por uma densa nuvem de enxofre aquele homem dizia:
    — Verás o quanto ele vale.
    E lá ia Betinho feliz da vida para casa...
    A moedinha era sua novamente, agora era só entrar no beco e pronto já estava em casa.
    Mas, e aquele alvoroço?
    E aquela música? Não, não! Não era música, não! Era choro. Mas o que significava aquele aglomerado de beatas na frente da casa de Betinho? Que dor era aquela que todas sentiam em plena noite de Natal?
    Betinho pensou na mãe. O coração apertou quando entrou em casa e não a encontrou.
    — Cadê a mamãe? — Perguntou ao irmão, que ninava a irmã doentinha.
    — Foi na igreja cuidar das coisas do vigário.
    — Que tem o vigário?
    — Morreu, coitado. E parece que se enforcou, não sei porquê. Mas deixou uma carta que mamãe leu e correu para lá chorando como uma desesperada.
    — E o que dizia a carta?
    — Não sei. Mas tem teu nome, Betinho. Isso tem.
    Betinho correu para a porta, as beatas o olhavam com rancor, mas ele não entendia o porquê. Nunca havia dito nada que machucasse o vigário; o odiava, era verdade, mas somente seu coração sabia daquilo.
    Encontrou a mãe ao lado da cama onde o vigário jazia, coberto de flores brancas. Enquanto um terço pendia da mão que apontava para o alto em orações, uma folha de papel era esmagada pela outra, que se escondia às suas costas.
    Betinho olhou aquele papel que sua mãe segurava, mas antes que pudesse dizer qualquer coisa foi surpreendido por ela, que notou sua presença.
    — Betinho — ela virava-se e esbofeteava-o — viste o que fizeste?
    — Mas eu não fiz nada!
    — Toma! — Ela jogava-lhe o papel na cara. — Some daqui e lê. Depois verás o quanto fostes uma criança má.
    Betinho saiu resmungando “Eu? Eu não fiz nada! Não fiz nada, não! Ele morreu porque quis! ”
    Sentou-se num dos bancos e leu.
    Senhor Deus, me perdoa. Não fui um bom filho. Aprendi tantas coisas Contigo, todos os Salmos, toda a liturgia, os dogmas da Santa Igreja, mas não consegui ensinar o Amor a uma criança. Sim, ensinei o Amor a tantas outras que cresceram, tiveram filhos e eu ensinei o Amor a esses filhos e aos seus filhos e aos seus filhos e assim por diante, mas não consegui ensinar o Amor a Betinho.
    Sim, a Betinho. Esse menino falava demais nas minhas aulas e isso me irritava. E eu, pobre criatura miserável e pecadora, ao invés de entender o quanto sua alma é livre como o vento, reprimia-o, expulsava-o e ainda despedi sua mãe, tão boa para mim.
    Que adianta rezar o Amor se não consegui fazê-lo brotar no coração de Betinho?
    Que eu sucumba no mar de arrependimentos que invade minha alma.
    Perdoa-me, Betinho.
    Adeus! O malcriado não foste tu, fui eu.
     
    O coração de Betinho apertou. Deveria chorar?
    Deveria.
    Deveria correr até o quarto, jogar-se aos pés do defunto e pedir-lhe perdão?
    Deveria.
    — Mas ele não vai te ouvir.
    Betinho olhou para o lado e lá estava seu amigo coberto de enxofre.
    — Senhor, eu estava brincando. Por que o senhor matou o vigário?
    — Eu? Eu não matei ninguém. Tu o vendeste para mim.
    — Mas pensei que o senhor estivesse brincando.
    — Brincando? Numa noite como esta? Numa noite em que as casas estão celebrando a vida eu procuro celebrar a morte de alguma forma. 
    Betinho encheu os pulmões e gritou:
    — Chega! Esta brincadeira acabou agora!
    — Engano teu. Começou agora.
    A força com que Betinho sentiu a mão da mãe puxar-lhe os cabelos foi tanta que ele gritou, agora de dor.
    — Para de gritar dentro da igreja e vai para casa, pensar em tudo o que fizeste ao coitado do vigário todos esses anos, Betinho.
    — Mas, mãe. É culpa do diabo.
    — A culpa é tua, Betinho. Vai para casa, que não quero olhar para ti.
    Ele já descia as escadas, aos soluços.
    Sua mãe finalizou dizendo:
    — E pensar o quanto ele te amava...
    Quando chegou em casa o irmão chorava. A irmãzinha parecia uma boneca de pano em seus braços e estava branca como cera. O que havia acontecido agora?
    — Está morta, Betinho — dizia o irmão. — Agora que o vigário está morto, quem lhe dará a Extrema Unção?
    — Meu Deus! O que isto quer dizer?
    — Que as portas do céu não se abrirão para nossa irmãzinha e sua alma vagará pelo Vale do Sofrimento para sempre, Betinho.
    — Misericórdia!
    — Será que nem isto aprendestes na igreja?
    Betinho saiu porta a fora, mas antes pegou uma vela e foi até os fundos da casa, no quartinho dos livros que o pai lia para ele. Ali era um bom lugar para acender uma vela e pedir que todo aquele pesadelo acabasse. Sentia a presença do pai ali; quem sabe ele não pediria a Deus por Betinho...
    Acendeu a vela, ali mesmo sobre uma pilha de livros e rezou...qual oração se não aprendera nenhuma? E o que deveria pedir? Não sabia falar com Deus; nunca procurou aprender. Mas sabia que uma vela acesa já era meio-caminho andado.
    Agora deveria caminhar um pouco. Talvez se fosse até a padaria da esquina poderia conseguir um pouco de pão dormido para trazer para casa e comer com a família, mesmo em meio a tanto sofrimento...
    Saiu com aquela esperança no peito.
    Encontrou com a mãe no caminho, que perguntou para onde ele iria.
    — Para qualquer lugar onde não me culpem por algo que não fiz! — Ele estava com raiva.
    — E teu irmão está em casa? E tua irmãzinha?
    — Melhor a senhora mesma ir lá e vê.
     — Ó, meu Deus! — Ela adivinhava e saía correndo.
    Betinho caminhou um pouco mais e contou sua história ao velho corcunda da padaria, que compadecido, entregou-lhe uma sacola com alguns pães.
    Mas a fome era tanta que preferiu comer um pedaço do pão ali mesmo na praça. Depois comeu outro pedaço e outro e outro e outro...quando se deu conta havia comido tudo.
    E agora? Voltaria para casa e diria o quê?
    Que não havia ganhado pão algum.
    Pôs-se de pé e já ia voltar quando o clarão no céu o fez relembrar daquelas tardes quando o pai lhe levava até ali para ver o pôr-do-sol...
    Mas aquele clarão não era no céu, era logo mais abaixo.
    E havia fumaça também.
    — Corre lá, Betinho! — disse uma beata que passava. — Tua casa pegou fogo.
    Ele lembrava-se da vela sobre os livros.
    — Parece que tua mãe entrou por uma janela para salvar teu irmão, mas não deu tempo. Agora estás sozinho no mundo. Que tristeza.
    Totalmente em desespero Betinho presenciou os últimos momentos da grande fogueira que sua casa havia se transformado. Os vizinhos jogaram agua a noite toda e, de manhazinha tudo eram cinzas.
    Os três dias seguintes Betinho os passou sentado defronte às cinzas da casa, até que sentiu o cheiro de enxofre novamente.
    — O que o senhor quer agora, Satanás? Sei que o senhor é o diabo, agora. Não sei como consegui ser tão burro.
    — Não foste burro. Foste imprudente. Olhaste apenas para teu umbigo.
    — Mas agora está tudo perdido. O que mais o senhor quer?
    — Eu, que pergunto: queres mais alguma coisa?
    — Quero minha família de volta.
    — Sei. Mas não posso te dar.
    — Claro que pode! O senhor a tirou de mim!
    — Mas que calúnia! Nunca tirei tua família de ti. Eu a comprei, assim como comprei o vigário, de ti!
    — Pois eu exijo que o senhor me venda, de volta!
    — Tens como pagar?
    Betinho enfiou a mão no bolso da bermuda e entregou a moeda a ele.
    — Aqui está! Se com ela eu te vendi o vigário e minha família, com ela poderei compra-los de volta.
    — Certamente — ele pegava a moeda e a guardava no bolso. — Mas nesses três dias ela perdeu um pouco de valor, então ficarás me devendo um trocado.
    — Não devo nada ao senhor!
    Aquele homem acariciou a cabeça de Betinho e este se afastou rapidamente. A Nuca havia esquentado, parecia que ia ferver.
    — Pronto. Agora não me deves mais nada. Vai para tua igreja rezar. Quem sabe...
    O cheiro repugnante de enxofre fez com que Betinho se afastasse, correndo de volta para a igreja.
    Parou no primeiro degrau e pensou: tentarei subir rezando. Tentarei lembrar das aulas do vigário. Quem sabe, lembro ao menos do Pai Nosso.
    — Pai Nosso... — ele começava a subida —...que estais...no céu.... Santificado seja Teu Nome...
    Ele mal podia crer no que se passava. Conseguia lembrar. Não havia sido tão mal aluno. Sabia rezar, sim, senhor!
    No último degrau sentou-se e encostou na porta como há três dias o fizera. Respirou profundamente e fechou os olhos pensando em tudo. Na irmãzinha, no irmão, na mãe, no vigário...
    A porta abriu-se rapidamente e quase que ele tombou para trás, pondo-se de pé rapidamente.
    — Betinho, meu querido!
    — Vigário! — Betinho mal podia crer. — É o senhor mesmo?
    — E quem mais seria? Venha! Entre meu querido. Têm uns alunos que não sabem rezar como tu. Mas graças a Deus que tu me ajudas. És precioso!
    — Sou nada. Sou malcriado.
    — Tu? Malcriado? Tua mãe precisa saber disso.
    — Minha mãe? Ela está viva?
    — Mas que brincadeira é esta, Betinho? — o irmão chegava naquele momento. — Olha o que trouxe para ti.
    Betinho abria um pacote e sua emoção era grande. Lá estava a camisa que tanto sonhara ter.
    — Como é linda!
    — Não é lá das melhores — sua mãe chegava com sua irmãzinha nos braços. — Mas tua irmã está tão bem de saúde que não precisará mais de remédios e eu pude comprar uma camisa para ti para cearmos o Natal de logo mais à noite contigo, teu irmão e tua irmã bem vestidos.
    — E hoje teremos pão, sopa e peru — finalizou o vigário. — Nosso Natal será inesquecível.
    Betinho, emocionado, disse:
    — Com certeza. Jamais esquecerei de todos que amo tanto e deste Natal especial!
    Durante a noite a ceia foi perfeita. As músicas das beatas, as gargalhadas, os elogios da beleza de Betinho e do cuidado que ele tinha com a irmãzinha, o irmão e a mãe.
    Era uma noite inesquecível, não fosse um único detalhe. Detalhe esse que Betinho queria saber, mas não lembrava.
    De madrugada sua mãe veio apagar a vela que ainda iluminava seu quarto, mas ele não deixou.
    — Ainda não apaga, mãe. Queria perguntar uma coisa antes?
    Ela sentou-se ao seu lado na cama e perguntou:
    — Pergunta, filho. Se puder responder...
    — Bem eu queria saber uma coisa... — ele esforçava-se. — Queria perguntar sobre uma pessoa...só não sei quem é.
    — E como vou sabe, né? — ela sorriu, beijou-lhe a testa, apagou a vela e se foi.
    Minutos depois Betinho tornou a acender a vela e foi até o quartinho dos fundos. Talvez alguma coisa ali o fizesse lembrar.
    Ao abrir a porta...
    Não havia nada. Nenhum móvel ou objeto, nada.
    Como poderia lembrar?
    A nuca latejou e uma voz sussurrou rapidamente:
    “Agora não me deves mais nada”
    Balançou a cabeça e sorriu. Não havia nada para lembrar. Era melhor voltar para cama e aproveitar o restinho do Natal. Voltaria até no escuro. Gostava do escuro. Gostava de sentir medo, de vez em quando.
    Soprou a chama e se foi para a cama.
    Betinho guardaria aquela noite para sempre. Aquele havia sido um natal especial: a ceia com o vigário amigo, a sopa, o pão, o peru...A mamãe, o irmão, a irmãzinha, algumas beatas...
    Havia sido uma noite inesquecível; ele adormeceu pensando assim.
    Mas..e a moeda? Que moeda, afinal, se não havia lembrança alguma da moeda que o pai que tanto amara havia lhe dado em seu leito de morte.
    Pai? Que pai que havia retirado da memória no momento em que comprou o vigário e a família de volta?
    Pobre Betinho que vendeu a família e o vigário...
    Pobre Betinho sem moeda...
    Pobre Betinho sem seu pai...
    Fim
  • O pequeno Johnny

    Steve  morava em um bairro de classe média alta, adornado por diversas árvores e jardins, ruas tranquilas com asfalto de boa qualidade (raridade naquela cidade) e calçadas bem trabalhadas, sem buracos. Quase todas as ruas tinham um guardinha para fazer rondas noturnas. Mas a vida de Steve nem sempre foi assim. Essa casa foi comprada com o esforço de um carreira brilhante como empresário do ramo alimentício, o que lhe  possibilitou uma vida de muitos luxos.
    Quando seu filho, o pequeno Johnny, veio ao mundo foi o melhor dia de sua vida. O bebê nasceu saudável, com 3 quilos, mas não chorava muito, parecia ser uma criança quieta. Aquela cabeça delicada tinha alguns poucos fios loiros, assim como a mãe. Tinha olhos castanho claro como o pai e a linda cara de joelho, como todos os recém nascidos.
    Dois dias depois teve um de seus piores dias. Saiu do hospital para comprar doces para sua esposa. Sua doceria preferida era na região, andou cantarolando alguma coisa inteligível, mas que parecia clara em sua mente. Seu relógio marcava perto das 7 da manhã, quando foi abordado por dois sujeitos armados. Bateram-lhe incessantemente, ameaçaram sua vida e o fizeram se despir em um beco sujo. Fugiram com todo seu dinheiro e roupas. Deixaram-no sangrando em uma caçamba de lixo que escorria algum líquido negro pegajoso. Dias depois Steve viu um vídeo seu na internet andando desnorteado, pelado e sangrando por uma avenida movimentada suplicando por ajuda.
    Foi quando decidiu que não permitiria que aquilo a acontecesse novamente, não dependeria da boa vontade de estranhos. Mudou-se para um bairro nobre. Conseguiu uma casa um pouco afastada das demais, não muito, mas seu quarteirão tinha apenas dois vizinhos, e comprou dois revolveres, um 38 especial e uma Magnum 357, os mais potentes que tinham para oferecer. O vendedor disse que eram mais confiáveis que pistolas, que nunca travariam. Era perfeito. Um mantinha sempre em sua cintura, o outro em casa, era guardado em sua escrivaninha, sempre carregado com seis balas para qualquer emergência.
    Sua esposa não gostava de armas na casa, agora com o bebê gostava menos ainda. Brigavam constantemente sobre esse assunto, contudo, Steve manteve a arma na escrivaninha e a outra sempre consigo, sentia-se seguro assim. Poderia se proteger, proteger a casa e sua esposa.
    Daí surgiu um dos maiores hobbys de Steve. Praticava tiro pelo menos uma vez por semana, quando sentia-se muito estressado ia ao estande de tiros duas ou três vezes. Ultimamente começara a ir quatro. Descarregava sua energia negativa naquele pôster e sua pontaria melhorava consideravelmente. Ás vezes pensava em sua esposa parada ali no lugar daquele poster, não desejava mal a ela, mas certas vezes ele estava apenas puto com ela, com o bebê que não lhe deixava dormir, com algum cliente safado que não lhe pagava. Começou a usar aquele estande como terapia, assim todos a sua volta continuavam seguros. Steve não acreditava em psicólogos, era coisa de frouxo, mariquinhas. Homens de verdade conseguem lidar com seus problemas sozinhos e escondidos do mundo. Afinal, ele tem uma família que depende dele, não pode dar sinais de fraqueza.
    Era a noite de aniversário dos 15 anos de casamento. Steve sairia com sua esposa para um jantar romântico e depois iriam ao bar que se conheceram para beber até as 3 da manhã. Sua vizinha, Judy, cuidaria de seu filho, como sempre fazia. Era uma garota adorável, de 16 anos, com longos cabelos negros, estudiosa que aproveitava o bico de babá para comprar livros e juntava dinheiro para poder conhecer a Europa. Steve adorava isso e geralmente lhe entregava algum livro velho, além do pagamento.
    Os dois se despediram da menina e do filho. Eram 19h e Johnny, agora com 4 anos, poderia ficar acordado até às 21h. Judy brincaria bastante com ele neste meio tempo. A criança adorava a babá, ela cuidava dele desde que nasceu, os pais consideravam ela a melhor amiga dele. Sabiam que seu filho estava em boas mãos. Assim, o casal seguiu para sua noite romântica.
    Judy sabia que caso o pequeno se cansasse antes do horário de dormir, teria mais tempo para falar com seu namorado pelo telefone e assistir televisão. Então brincou bastante com ele, seu brinquedo favorito era um do homem aranha, então juntos desbravaram a casa enfrentando as forças do mal, até acabarem na cozinha. Não levou nem uma hora para que a criança começasse a bocejar e mostrar sinais de irritação. Foi quando Judy lhe enrolou em seu cobertor favorito, leu a história dos três porquinhos e o viu dormir como um anjinho.
    A babá desceu para a sala, ligou a tv para assistir um seriado qualquer e mandou mensagem para seu namorado. Ele disse estar ocupado e que falaria com ela em breve. Ela desconfiava que ele a traia porque não se sentia pronta para perder a virgindade com ele, mas não tinha certeza. Gostava muito dele (o que os olhos não veem o coração não sente, certo?), achava que aquele rapaz de 18 anos estaria bom para namorar por enquanto. Ele a levava em alguns lugares bacanas e já dirigia, era bom não depender da carona dos pais. Então disse que tudo bem, iria apenas assistir tv até pegar no sono, afinal, a criança dormira e não havia muita coisa para fazer naquela casa.
    Judy pegou algumas frutas na geladeira e se aconchegou no sofá. Dava risada olhando a tv, algumas piadas inteligentes, mas aos poucos o sono chegava. Tudo parecia tão distante... seu namorado... a televisão... o senhor Steve... ela começou a ressoar baixinho, era um sono gostoso. Sonhava com Paris, como queria morar lá, talvez se apaixonar por um lindo francês e ouvir todas as manhãs aquele idioma maravilhoso em seu ouvido.
    Enquanto isso, o pequeno Johnny acordou. Mas não chorava ao acordar, continuava uma criança quieta. Em vez disso, sempre procurava a mamãe. Desceu de sua cama em silêncio. O quarto não era muito escuro, pois uma luz sempre ficava acesa, ligada em uma tomada no meio do cômodo. Era normal o pequenino acordar na noite. Andou até o quarto vizinho, que era o de seus pais.
    -Mama?
    Não teve resposta. Andando no escuro conseguiu subir na pequena escrivaninha para acender a luz. Quase caiu, mas se equilibrou e viu a gaveta entreaberta. Seu pai sempre esquecia de trancá-la, mas esquecer de fechá-la era algo mais raro. Deve ter saído com pressa, discutia com a esposa novamente, pois ela viu o coldre por baixo do terno o que lhe incomodava profundamente.
    Na gaveta daquela escrivaninha, tinha um brilho intenso refletindo a luz do teto e o pequeno Johnny adorava coisas brilhantes. Com um pouco de força a gaveta escorregou um pouco revelando aquele belo Magnum 357 cromado. Era pesado, mas Johnny conseguiu tirar da gaveta e derrubar em uma almofada no chão (sempre que seus pais saiam brigados deixavam o quarto bagunçado). Fez um barulhinho de “puf” que divertiu a criança e lhe tirou risinhos infantis.
    Ele desceu da escrivaninha, com um cuidado que não se espera de um infante dessa idade. Segurou aquele cabo negro e arrastou o revolver, que fazia um pequeno ruído com o atrito entre o cano e o piso de madeira. Esse ruído divertida Johnny que seguiu andando com um sorriso e pequenas risadinhas.
    - Mama?
    Seguiu andando vagarosamente pelo segundo andar de sua casa, arrastando a arma, até que chegou às escadas. Ali sentou e colocou a ponta da arma na boca por alguns instantes, até reparar no brilho que vinha da sala.
    Desceu as escadas arrastando seu novo brinquedo e viu a bela Judy deitada, ressoando tranquilamente. Parecia uma pintura da tranquilidade, enquanto a televisão passava um comercial sobre segurança doméstica.
    - Tá mimindo...
    O pequeno Johnny esboçou uma feição de decepção. Então largou o revolver no chão, entre o sofá e a mesa de centro, e foi para cozinha onde deixara seu boneco do homem aranha antes de dormir. Brincou ali por uns 10 minutos.
    - Iudy...
    Queria brincar com sua amiga. Voltou para sala engatinhando, com seu boneco nas costas. Gostava de brincar assim, lembrava das vezes em que seu pai o carregava nas costas e corria pelo jardim, esses dias eram cada vez mais raros. Mesmo assim, foi sorrindo até o sofá
    - Acódá Iudyy. – disse com cuidado
    Não teve respostas. Então sentou com seu boneco e com a arma de seu pai. Era bem difícil para ele levantar aquele pedaço de metal, então apenas inclinava o cano e atacava o super herói. O barulho do impacto começou a incomodar Judy que abriu os olhos vagarosamente.
    - Johnny, é você? Que horas são? JOHNNY O QUE É ISSO?
    Judy ficou aterrorizada ao ver aquela criança brincando com uma arma no chão, apontando em sua direção. Ainda deitada no sofá olhou para a criança e ficou petrificada.
    - Bincá cumigo Iudy! – disse Johnny levantando a arma pelo gatilho.
    O tiro ensurdecedor fez o pequenino chorar. De Judy apenas silêncio. A bala atravessou a cavidade de seu olho esquerdo, levando grande parte da traseira de seu crânio e seus miolos, para fora de sua cabeça em direção ao encosto do sofá branco.
    Alguns vizinho saíram para suas janelas, apenas para ver três motos descendo a avenida. Imaginaram que aquele barulho fora apenas um desses babacas estourando o escapamento para impressionar o outro.
    -Binca comigo? Binca? – diz o pequenino - Ta nanando. Nun qué acodá.  Acho que fez dodói. Vô ajuiá.
    Ele pega a arma pelo cano quente e queima a mão. Começa a chorar de novo.
    - Mau! Muito mau! Nun queió mais bincáááááá!
    Correu para a cozinha chorando e ali tentou subir na banqueta. Em cima do balcão estava seu suco, sempre deixavam algumas caixinhas ali e sabiam que o pequenino conseguia pegar. Ele conseguiu subir na banqueta e pegou sua caixinha. Já sabia furar com o canudinho, mas quase caiu lá de cima. Conseguiu se equilibrar e desceu com cuidado.
    Voltou para a sala com o suco na mão
    - Éga, Iudy. Vai aiudá! Éga, éga, é seu.
    Colocou o canudinho na boca de Judy, com gotas de sangue escorrendo e pingando em seu braço rechonchudo. Ela não queria suco de uva. Então a criança colocou, cuidadosamente, a caixinha no chão.
    - FEIAAA!!!!
    E saiu para brincar com seu homem aranha.
    - Pepeta! Adê a pepeta?
    O pequeno Johnny não encontrou a chupeta. Procurou pela sala e não achou. Foi então que viu a arma no chão. Se aproximou, tinha medo por conta de quando se queimou. Mesmo assim encostou a mão sem cuidado algum. O cano estava morno, agradável ao toque. Colocou a boca e mamou, a sensação era boa, mas a posição era incomoda. Tentou colocar a arma de pé, seus olhos fechados aproveitando os prazeres orais que Freud descrevia. Tentou apoiar a mão melhor para segurar aquele pedaço de ferro de pé. Achou. Era um pequeno pedaço de metal curvo. Relaxou o corpo um pouco, o sono apertou. Inclinou-se um pouco para frente e não ouviu aquele segundo tiro.
  • O Seu Sangue é Meu Veneno

    Saber que te odeio e não consigo parar é um erro;
    Saber que me odeio e não consigo parar é um fato;
    Sei que você é tudo o que quero ser, e isso é errado de um jeito tão ilusório;
    Ser quem eu sou me condena, querer ser o que você é me mata;
    De um modo tão perfeito você vive, de um jeito tão doente eu morro;
    Imaginar ser como você me vicia;
    O jeito como você é perfeita me envenena direto nas veias;
    Espero que eu morra de um jeito tão perfeito cmo você morreu.
  • O Sombra

           Capítulo 1: Noite chuvosa
         Tudo começa com Mike no dia 27/10 de 1987, eram oito horas da noite e chovia demais. Mike estava  sem muito o que fazer, resolveu ir na biblioteca antes que fechasse as nove horas. Quando estava saindo com sua capa de chuva amarela, sua mãe gritou:
        - Filho pegue a bombinha para usar caso tenha suas crise de asma e por favor não demore, já são oito e vinte.
        - Você não acha que sou um pouco louco para sair a essa hora só para pegar um livro? - pergunta Mike dando uma risadinha.
        - Só um pouquinho filho, você não acha melhor fica em casa? Pois ta chovendo demais e é de noite, a biblioteca abre amanhã, aí você pode ir bem cedo. - fala sua mãe com uma preocupação.
         - Mãe eu não demoro dez minutos para chegar na biblioteca, daqui a meia hora estou em casa com um livro bem legal. - fala Mike sorrindo para ela.
         Então sua mãe deixou ele ir mas antes de ir Mike pegou sua bombinha que estava em cima do bidé de seu quarto. Quando Mike saiu pela porta, ele sentiu o frio e o vento forte batendo em seu rosto, não havia ninguém na rua. No caminho para biblioteca Mike notou que a chuva estava mais forte e  que começaram os trovões e relâmpagos. Quando estava passando pelo último poste de luz antes de chegar na biblioteca viu que ele havia piscado três vezes direto, parecia um aviso dizendo perigo. Mike ignorou o poste e andou mais rápido em direção da biblioteca, quando estava entrando na biblioteca viu na janela uma pessoa passar. Isso deu uma certo susto em Mike pois ele achava que era o único que ía na biblioteca a essa hora.
         Quando entrou na biblioteca a senhora Amber falou: 
        -Mike já são oito e meia, por favor seja rápido e escolha seu livro. E por favor deixe sua capa de chuva ali na estante para não sair molhando tudo
         Mike deixou sua capa de chuva na estante e perguntou para senhora Amber:
        -  Foi a senhora que eu recém vi na janela agora a pouco? - pergunta Mike um pouco assustado.
        - Não, faz mais de quatro horas que não saio dessa cadeira e a última pessoa esteve aqui a três horas atrás, acho que está lendo demais senhor Foster - diz a senhora Amber ajustando seu óculos que estava torto.
        - Talvez seja isso mesmo mas agora vou ver o livro antes que a senhora feche a biblioteca - diz Mike indo para o corredor cinco.
        Enquanto Mike anda pelo corredor cinco, ele nota um livro com uma capa super legal, em sua capa diz: O mundo escondido. Quando Mike vai pegar o livro ele sente que algo cruza atrás dele, então ele se vira rapidamente mas não tinha nada, com o susto ele teve uma crise de asma, rapidamente ele pega a sua bombinha no bolso de sua calça, inclina sua cabeça para cima e da uma respirada enquanto pressiona a bombinha. Mike estava com muito medo, ele resolveu ir para casa e deixar para pegar um livro outro dia, mas quando ta saindo do corredor cinco, ele escuta um livro cair no final do corredor seis que fica ao lado direito do cinco. Mike sai do cinco e vai para o seis, quando pegou o livro na mão deu um trovão tão forte que fez Mike ficar mais assustado, mas ele não teve uma crise de asma.
         Depois de pegar aquele livro ele chega na bibliotecária e fala:
        - Vou levar esse, seu nome é Eli.
        - Tudo bem, qual é o nome do autor - pergunta a senhora Amber olhando para o livro para ver se achava o nome do autor.
         Mike olha o livro por fora e vê suas primeiras e últimas páginas para dizer o nome do autor, mas simplesmente não tinha. Então ele disse:
        - Não tem, coloque autor desconhecido.
         Assim escreveu a senhor Amber no caderno onde ela anotava o nome do livro, seu autor, a pessoa que levava e a data que levava, normalmente as pessoas tem quinze dias para ler o livro mas caso não terminem é só ir na biblioteca e dizer que não terminaram e que precisam de mais quinze dias. Então senhora Amber da mais quinze dias para ler, caso a pessoa não termine nesses outros quinze dias é só ela voltar e fazer a mesma coisa.
         Depois que a senhora Amber anotou em seus caderno, Mike desejou uma boa noite para ela e foi para casa. No caminho para casa aconteceu o mesmo que havia acontecido com o poste de luz mas só que ele se apagou e não acendeu depois da terceira piscada, Mike começa a correr e é perseguido por uma coisa preta que parecia uma sombra, quando Mike corria e passava pelo postes, eles iam se desligando depois de três piscadas rápidas. Quando passou pelo último poste antes de chegar na sua casa a coisa preta sumiu e os postes apagados acenderam. 
         Quando Mike notou que tinha voltado ao normal, ele já estava em frente a porta de sua casa, com mais uma horrível crise de asma que fez ele tirar a bombinha de seu bolso e respirar pressionando a bombinha com a cabeça inclinada. Depois disso entrou na sua casa. Quando estava entrando seu irmão George de sete anos e meio falou para ele:
        -Oi mano, recém cheguei com o papai do mercado. Eu pedi pra ele comprar moranguinhos que a gente  gosta e ele comprou.
         Então George tirou do seu bolso um morango e deu a Mike.
        - Obrigado George, muito obrigado - agradeceu Mike enquanto passava sua mão entre os cabelo de George.
         Mike comeu o morango e foi para cozinha com George para eles jantarem, quando sentaram na mesa seu pai falou:
        - Vamos orar para agradecer?
         Todo mundo responde que sim, então papai orava em voz alta enquanto Mike, mamãe e George oravam em voz baixa. George sempre repete o que Mike fala, pois ele não sabe orar muito bem. Depois da oração comeram a deliciosa massa com guisado que  mamãe havia feito.
        Logo em seguida, depois do almoço Mike e George foram escovar os dentes e depois foram para o quarto que os dois dividem. Como Mike é o irmão mais velho com doze anos, ele sente que tem a responsabilidade de ler para George. E George adora quando Mike lê, essa noite Mike leu uma parte do livro de fantasia que seu pai tinha comprado para ele ler para George. A história do livro era sobre um dragão que protegia um reino, mas o rei achou que ele era do mal e expulsou ele. George acabou dormindo bem na parte em que o dragão é expulso e vai parar em uma terra distante voando.
         Mike guardou o livro na estante de livro de seu quarto, deu um beijo na bochecha de George falando boa noite em voz baixa e foi dormir, resolveu deixar ler o livro Eli amanhã pois já eram dez horas e vinte da noite e ele teria escola pela manhã.
  • O Sombra: Capítulo 1

    Capítulo 1: Noite chuvosa
         Tudo começa com Mike no dia 27/10 de 1987, eram oito horas da noite e chovia demais. Mike estava  sem muito o que fazer, resolveu ir na biblioteca antes que fechasse as nove horas. Quando estava saindo com sua capa de chuva amarela, sua mãe gritou:
        - Filho pegue a bombinha para usar caso tenha suas crise de asma e por favor não demore, já são oito e vinte.
        - Você não acha que sou um pouco louco para sair a essa hora só para pegar um livro? - pergunta Mike dando uma risadinha.
        - Só um pouquinho filho, você não acha melhor fica em casa? Pois ta chovendo demais e é de noite, a biblioteca abre amanhã, aí você pode ir bem cedo. - fala sua mãe com uma preocupação.
         - Mãe eu não demoro dez minutos para chegar na biblioteca, daqui a meia hora estou em casa com um livro bem legal. - fala Mike sorrindo para ela.
         Então sua mãe deixou ele ir mas antes de ir Mike pegou sua bombinha que estava em cima do bidé de seu quarto. Quando Mike saiu pela porta, ele sentiu o frio e o vento forte batendo em seu rosto, não havia ninguém na rua. No caminho para biblioteca Mike notou que a chuva estava mais forte e  que começaram os trovões e relâmpagos. Quando estava passando pelo último poste de luz antes de chegar na biblioteca viu que ele havia piscado três vezes direto, parecia um aviso dizendo perigo. Mike ignorou o poste e andou mais rápido em direção da biblioteca, quando estava entrando na biblioteca viu na janela uma pessoa passar. Isso deu uma certo susto em Mike pois ele achava que era o único que ía na biblioteca a essa hora.
         Quando entrou na biblioteca a senhora Amber falou: 
        -Mike já são oito e meia, por favor escolha seu livro rápido. E por favor deixe sua capa de chuva ali na estante para não sair molhando tudo
         Mike deixou sua capa de chuva na estante e perguntou para senhora Amber:
        -  Foi a senhora que eu recém vi na janela agora a pouco? - pergunta Mike um pouco assustado.
        - Não, faz mais de quatro horas que não saio dessa cadeira e a última pessoa esteve aqui a três horas atrás, acho que está lendo demais senhor Foster - diz a senhora Amber ajustando seu óculos que estava torto.
        - Talvez seja isso mesmo mas agora vou ver o livro antes que a senhora feche a biblioteca - diz Mike indo para o corredor cinco.
        Enquanto Mike anda pelo corredor cinco, ele nota um livro com uma capa super legal, em sua capa diz: O mundo escondido. Quando Mike vai pegar o livro ele sente que algo cruza atrás dele, então ele se vira rapidamente mas não tinha nada, com o susto ele teve uma crise de asma, rapidamente ele pega a sua bombinha no bolso de sua calça, inclina sua cabeça para cima e da uma respirada enquanto pressiona a bombinha. Mike estava com muito medo, ele resolveu ir para casa e deixar para pegar um livro outro dia, mas quando estava saindo do corredor cinco, ele escuta um livro cair no final do corredor seis que fica ao lado direito do cinco. Mike sai do cinco e vai para o seis, quando pegou o livro na mão deu um trovão tão forte que fez Mike ficar mais assustado, mas ele não teve uma crise de asma.
         Depois de pegar aquele livro ele chega na bibliotecária e fala:
        - Vou levar esse, seu nome é Eli.
        - Tudo bem, qual é o nome do autor - pergunta a senhora Amber olhando para o livro para ver se achava o nome.
         Mike olha o livro por fora e vê suas primeiras e últimas páginas para dizer o nome do autor, mas simplesmente não tinha. Então ele disse:
        - Não tem, coloque autor desconhecido.
         Assim escreveu a senhora Amber no caderno onde ela anotava o nome do livro, seu autor, a pessoa que levava e a data que levava, normalmente as pessoas tem quinze dias para ler o livro mas caso não terminem é só ir na biblioteca e dizer que não terminaram e que precisam de mais quinze dias. Então senhora Amber da mais quinze dias para ler, caso a pessoa não termine nesses outros quinze dias é só ela voltar e fazer a mesma coisa.
         Depois que a senhora Amber anotou em seu caderno, Mike desejou uma boa noite para ela, colocou sua capa de chuva e foi para casa. No caminho para casa aconteceu o mesmo que havia acontecido com o poste de luz mas só que ele se apagou e não acendeu depois da terceira piscada, Mike começa a correr e é perseguido por uma coisa preta que parecia uma sombra, quando Mike corria e passava pelos postes eles iam se desligando depois de três piscadas rápidas. Quando passou pelo último poste antes de chegar na sua casa a coisa preta sumiu e os postes apagados acenderam. 
         Quando Mike notou que tinha voltado ao normal, ele já estava em frente a porta de sua casa, com mais uma horrível crise de asma que fez ele tirar a bombinha de seu bolso e respirar pressionando a bombinha com a cabeça inclinada. Depois disso entrou na sua casa. Quando estava entrando seu irmão George de sete anos e meio falou para ele:
        -Oi mano, recém cheguei com o papai do mercado. Eu pedi pra ele comprar moranguinhos que a gente  gosta e ele comprou.
         Então George tirou do seu bolso um morango e deu a Mike.
        - Obrigado George, muito obrigado - agradeceu Mike enquanto passava sua mão entre os cabelo de George.
         Mike comeu o morango e foi para cozinha com George para eles jantarem, quando sentaram na mesa seu pai falou:
        - Vamos orar para agradecer?
         Todo mundo responde que sim, então papai orava em voz alta enquanto Mike, mamãe e George oravam em voz baixa. George sempre repete o que Mike fala, pois ele não sabe orar muito bem. Depois da oração comeram a deliciosa massa com guisado que  mamãe havia feito.
        Logo em seguida, depois do almoço Mike e George foram escovar os dentes e depois foram para o quarto que os dois dividem. Como Mike é o irmão mais velho com doze anos, ele sente que tem a responsabilidade de ler para George. E George adora quando Mike lê, essa noite Mike leu uma parte do livro de fantasia que seu pai tinha comprado para ele ler para George. A história do livro era sobre um dragão que protegia um reino, mas o rei achou que ele era do mal e expulsou ele. George acabou dormindo bem na parte em que o dragão é expulso e vai parar em uma terra distante voando.
         Mike guardou o livro na estante de livro de seu quarto, deu um beijo na bochecha de George falando boa noite em voz baixa e foi dormir, resolveu deixar ler o livro Eli amanhã pois já eram dez horas e vinte da noite e ele teria escola pela manhã.
  • O Sombra: Capítulo 2

    Capítulo 2: Eli e sua mensagem
         Enquanto Mike dormia, sonhou que George estava morto em pedaços no chão, seu coração estava fora do peito, seu cabelo loiro cheio de sangue. Mike acordou gritando:
        - George não!
         Mike olhou para lado direito onde fica a cama de George e viu ele se acordando com o grito. George perguntou:
        - Mano, ta tudo bem? Eu fiz algo errado?
         Mike vai para cama de George e abraça ele chorando, dizendo:
        - Não fez nada de errado George, eu só tive um sonho horrível.
         - Como foi o sonho mano? - perguntou George secando as lágrimas de seu irmão.
        -Foi horrível, você estava morto e era muito horrível mesmo George. - responde Mike abraçando George tão forte como se não quisesse o largar mais.
        - Mas agora ta tudo bem, aquele sonho acabou. Você sabe que horas são? - pergunta George querendo saber se já estava na hora de ir para escola.
         Então Mike pega seu relógio de pulso que estava no bidé, olha as horas e diz:
        - São sete e dez, acho melhor a gente se levantar e comer uma torrada. E depois escovar os dentes.
         Então os dois se levantaram, foram para a cozinha, Mike fez duas torradas, uma para ele e a outra para seu irmão. George pergunta:
        - Tem suco mano?
        - Acho que tem um pouco do de laranja que sobrou ontem - responde Mike enquanto vai em direção a geladeira para olhar se tinha suco.
         Então Mike acha o suco mas só tinha para um. Então Mike deu para George o suco juntamente com a torrada. George olhou para Mike que estava sem suco e só com uma torrada, então falou:
        - Eu divido meu suco contigo.
        - Não precisa, eu tomo água - fala Mike bagunçando o cabelo loirinho de seu irmão.
         Depois do café da manhã foram escovar os dentes. Mike e George gostam de escovar os dentes um do outro. Então depois eles pegaram suas mochilas e foram para escola. Na escola Mike encontrou Jack seu amigo que usa uma toca escura e tem uma franja super legal.
        - Vou com meus amigos Mike, se não se importa.
        - Pode ir George mas antes quero um abraço.
         Então os dois irmão se abraçaram, Mike deu um beijinho na bochecha de seu irmão e lhe desejou uma boa aula. Enquanto George foi com seus amigos, Mike foi para o pátio da escola junto com o Jack para eles sentarem num banco e conversarem. Quando se sentaram, Mike tirou o livro Eli de sua mochila e falou para Jack:
        - Eu tive uma noite muito bizarra ontem, eu vi vultos, postes se apagaram e fui até perseguido por uma coisa escura que parecia uma sombra.
        - Mas o que esse livro tem haver? - pergunta Jack tentando acreditar em Mike.
        - Eu estava na biblioteca e tinha deixado para pegar um livro em outro dia, ou seja, nesse dia mas quando estava lá ontem ouvi o barulho desse livro caindo no corredor 6. Peguei ele na mão e bem na hora relampeou. Então cheguei na senhora Amber e ela anotou os dados no caderno e depois que tava vindo para casa fui perseguido por essa "sombra". Com certeza você não está acreditando em mim
         - Meu Deus Mike, isso é muita loucura, mas eu acredito em você. Você é meu melhor amigo Mike Foster, se me dissesse que laçou fogo pelas mãos, eu acreditaria. - fala Jack indo mais perto de onde Mike estava assentado no banco.
        - Obrigado Jack, também considero você como meu melhor amigo. - fala Mike assegurando a mão de Jack - Eu tive um sonho horrível onde George estava morto no chão, com seu coração fora do peito e seus cabelos coberto de sangue.
        Mas ta tudo bem agora Mike, isso já passou - fala Jack assegurando firme a mão de Mike.
         Quando foram realmente olhar o livro, acabou batendo o sinal para eles irem para sala de aula. Entraram na sala e se sentaram nas classe da frente. A aula favorita de Mike era a de história pois ele sempre descobria coisas incríveis que aconteceram a tempos atrás. Já a aula favorita de Jack é matemática, sua inteligência é impressionante.
         Depois dos dois primeiros períodos de aula que foi ciência e geografia  Mike e Jack foram para o recreio. No recreio Mike observava seu irmão brincando com seus amigos enquanto fala com o Jack.
         - Ei Mike pegue o livro para nós olharmos - fala Jack com muito curiosidade.
         Então Mike foi correndo e pegou o livro que estava em sua mochila, quando estava saindo da sala a porta se fechou sozinha. Mike tentou abrir mas não conseguia, ele começou a bater nela mas mesmo assim ela não se abria e ninguém escutava pois era muito alto o  barulho das crianças gritando enquanto brincavam no pátio da escola. Naquele momento Mike teve um ataque de asma, rapidamente ele pegou sua bombinha e fez os três passos que ele sempre fazia, que são:
       1: Inclina a cabeça para trás.
       2: Respira
       3: Pressiona o botão da bombinha.
         Isso sempre parava as suas crises. Mike não tinha muito o que fazer, então resolveu sentar em sua cadeira e ler o livro de Eli até bater para voltarem para a sala e alguém abrir a porta. No momento que sentou para ler, Jack apareceu e falou:
        - Por que a demora? O que está fazendo? Ía ler sozinho?
        - Iria pois a porta estava trancada e eu teria que esperar alguém destrancar, para não ficar com tédio eu iria ler.
        - Mas a porta estava normal. Ela não estava trancada. - fala Jack olhando seriamente para a cara de Mike.
         Mike levanta da cadeira e abraça Jack tão forte e depois diz:
        - Eu estou com medo, esta acontecendo essa coisas estranhas comigo. Por favor fica do meu lado e me ajuda.
        - O Mike, lembre que sempre te ajudarei, sempre estarei do seu lado, sempre poderá contar comigo, isso é uma promessa. - fala Jack prometendo não abandonar Mike.
         Depois do abraço eles foram ler o livro mas infelizmente acabou o recreio e eles não puderam ler, mas eles ficaram de ler na casa do Mike pela tarde. Depois de mais dois períodos de aula, um de português e o outro de matemática, os dois foram para casa juntamente com George. A casa de Jack fica do lado da de Mike, uma casa azul marinho de dois andares. Quando estavam na frente de suas casas, eles se despediram e combinaram de se encontrar as três horas da tarde para ler o livro.
         Mike entrou com George para sua casa e foram direto almoçar um estrogonofe muito gostoso que a mãe deles havia preparado, mas antes de comerem seus pai falou:
        - Vamos orar, hoje você pode orar Mike?
        - Sim, posso. - responde Mike nervoso porque fazia tempo que não orava pelo alimento em voz alta.
         Então todos fecharam seus olhos e Mike começou a orar:
        - Muito obrigado senhor pelo alimento que você não deixa faltar. Abençoe toda nossa família e perdoe qualquer pecado que temos cometido. Seja feita sua vontade, amém.
         Papai gostou muito que Mike orou e achou muito bonito. Então eles comeram, depois disso papai foi trabalhar as duas horas da tarde em sua oficina e mamãe foi trabalhar vendendo imóveis que é seu emprego. Acabou ficando só George e Mike em casa. Então eles foram construir uma pipa de papel. A pipa ficou tão bonita, ela era colorida e era cheia de detalhes. Eles ficaram brincando com aquela pipa até Jack chegar para ler o livro Eli.
         Quando Jack chegou, Mike subiu para seu quarto com ele, enquanto George ficou brincando com a pipa. Quando subiram foram direto para o livro e começaram a ler juntos. Na primeira página estava escrito:
        - Por favor se você esta lendo esse livro saiba que meu nome é Eli de... Meu sobrenome não importa, quero que saiba que eu estou morto por causa de um entidade que é tipo uma sombra, acabei colocando o nome Sombra nele. Se você viu essa criatura saiba que você pode morrer, mas da para ter um final diferente do meu, basta você enfrentá - lo sem ter medo, ele pode tomar a forma do que você mais tem medo mas você precisa superar o medo se quer derrotar ele. Eu acredito que estou morto enquanto você lê esse livro, pois sei que não conseguiria vencer meu maior medo. Nos primeiros dias ele vai brincar com você, vai te causar medo pois ele gosta de fazer isso, ele se alimenta do medo. Não esqueça que a chave para derrotar ele é não ter medo, se você tem um medo, saiba que você precisa superar. Nas próximas páginas verá relatos do que aconteceu com as pessoas que interagiram com o Sombra.
         Depois que Jack e Mike leram só isso já ficaram horrorizados. Ficaram fazendo perguntas pra si mesmo. De que maneira surgiu o Sombra? Por que ele faz isso com pessoas? Ele é um demônio? Nós vamos morrer?
         Essas perguntas ficaram repetindo na cabeça dos garotos até que Mike falou:
        - Jack você não esta envolvido nisso, isso é perigoso, é melhor ir embora e eu darei meu jeito.
        - Não vou ir embora de maneira nenhuma - reponde Jack cumprindo sua promessa. 
        - Posso falar o meu maior medo? - pergunta Mike enquanto começa a escorrer lágrimas de seu rosto.
        - Pode - responde Jack assegurando mão de Mike.
        - Meu maior medo é perder o George e você. Se você morrer ficaria um vazio de mim, eu não seria mais eu. 
        - Mike eu...
         Jack é interrompido por George batendo na porta e perguntando:
        - Posso entrar mano?
        Mike responde sim e seu irmão entra, ele acaba notando que Mike estava chorando e fala:
        - O que aconteceu mano, esta tudo bem? Eu não gosto de ti ver assim.
        - George vem aqui, senta na minha cama. - fala Mike sorrindo por ver o carinho de seu irmão.
         Quando George sentou Mike lhe deu um abraço bem forte dizendo que isso tudo iria passar. Quando Mike olhou pra Jack falou:
        - O que você ia dizer?
        - Nada - responde Jack escondendo algo.
        - Tem certeza? Parecia algo sério. - diz Mike insistindo pra ele dizer.
        - Ok, eu digo. Estou com fome mas tava com vergonha de falar - diz Jack novamente escondendo a verdade.
        - Não precisa ter vergonha, que tal a gente tomar um suco juntamente com o bolo de chocolate que mamãe fez? Você quer também George?
        - Sim - reponde George e Jack.
         Então os garotos vão se alimentar. Mike serviu seu irmão e Jack também. Quando já havia servido os dois, Mike se serviu e acabou derrubando o copo de vidro que caiu no chão quebrando em vários pedacinhos. Jack olha assustado e pergunta:
        - Você esta bem? 
        Mas Mike não respondeu pois estava tendo uma visão. Nessa visão ele viu um acidente de carro. Quem sofreu o acidente foi o senhor Russel e a senhora Russel que são os pais do Jack. Quando a visão acabou Mike olhou pra Jack e disse:
        - Jack eu vi seus pais sofrerem um acidente de carro.
        - Eu estava lá? Você estava? - pergunta Jack se lembrando de um acidente de dois anos atrás.
        - Sim você estava e eu também, só que a gente era...
        - Criança - completa Jack - isso já aconteceu, se lembra que você perdeu a memória?
        - Sim, me lembro. Vocês tinham falado que foi num acidente de carro mas eu não conseguia me lembrar. - respondeu Mike impressionado que uma parte que faltava da sua memória havia voltado.
        - Lembra que você foi na roda gigante?
        - Não, eu nunca fui numa roda gigante mas lembro que a gente foi no parque. - fala Mike tentando lembrar de alguma roda gigante.
        - Há, tá! - reponde Jack com uma expressão meio triste.
        - Mas já que você lembra que eu fui numa roda gigante me conta como foi. - fala Mike querendo lembrar.
        - Foi incrível, a gente foi junto e dava pra ver a cidade de Healdsburg inteira dali de cima - fala Jack escondendo uma coisa que havia acontecido na roda gigante.
        - Que legal. - fala Mike tentando imaginar como seria ver a cidade de Healdsburg em um roda gigante. - mas acho melhor eu limpar essa bagunça de suco.
         Então Mike limpou e pegou outro copo e tomou o suco e comeu o bolo de chocolate. Depois dos garotos terem comido foram jogar basquete no quintal. Sempre que eles faziam sexta eles gritavam: - Ponto pra mim!
         Os garotos foram parar de jogar basquete a seis horas da tarde, foi quando os pais de Jack chegaram em casa e chamaram ele para ajudar a carregar as compras. Mike e o pequeno George foram juntos para ajudar a carregar as sacolas. Depois disso Mike chegou em Jack e falou:
        - Quer possar lá em casa? Só vai ter que orar junto com minha família para agradecer pelo alimento.
        - Quero, não tem problema. O bom que amanhã não teremos aula pois é sábado - fala Jack feliz pois havia tempo que não pousava na casa de seu amigo. - só teremos que pedir para nossos pais.
  • O Sombra: Capítulo 2

    Capítulo 2: Eli e sua mensagem
         Enquanto Mike dormia, sonhou que George estava morto em pedaços no chão, seu coração estava fora do peito, seu cabelo loiro cheio de sangue. Mike acordou gritando:
        - George não!
         Mike olhou para lado direito onde fica a cama de George e viu ele se acordando com o grito. George perguntou:
        - Mano, ta tudo bem? Eu fiz algo errado?
         Mike vai para cama de George e abraça ele chorando, dizendo:
        - Não fez nada de errado George, eu só tive um sonho horrível.
         - Como foi o sonho mano? - perguntou George secando as lágrimas de seu irmão.
        -Foi horrível, você estava morto e era muito horrível mesmo George. - responde Mike abraçando George tão forte como se não quisesse o largar mais.
        - Mas agora ta tudo bem, aquele sonho acabou. Você sabe que horas são? - pergunta George querendo saber se já estava na hora de ir para escola.
         Então Mike pega seu relógio de pulso que estava no bidé, olha as horas e diz:
        - São sete e dez, acho melhor a gente se levantar e comer uma torrada. E depois escovar os dentes.
         Então os dois se levantaram, foram para a cozinha, Mike fez duas torradas, uma para ele e a outra para seu irmão. George pergunta:
        - Tem suco mano?
        - Acho que tem um pouco do de laranja que sobrou ontem - responde Mike enquanto vai em direção a geladeira para olhar se tinha suco.
         Então Mike acha o suco mas só tinha para um. Então Mike deu para George o suco juntamente com a torrada. George olhou para Mike que estava sem suco e só com uma torrada, então falou:
        - Eu divido meu suco contigo.
        - Não precisa, eu tomo água - fala Mike bagunçando o cabelo loirinho de seu irmão.
         Depois do café da manhã foram escovar os dentes. Mike e George gostam de escovar os dentes um do outro. Então depois eles pegaram suas mochilas e foram para escola. Na escola Mike encontrou Jack seu amigo que usa uma toca escura e tem uma franja super legal.
        - Vou com meus amigos Mike, se não se importa.
        - Pode ir George mas antes quero um abraço.
         Então os dois irmão se abraçaram, Mike deu um beijinho na bochecha de seu irmão e lhe desejou uma boa aula. Enquanto George foi com seus amigos, Mike foi para o pátio da escola junto com o Jack para eles sentarem num banco e conversarem. Quando se sentaram, Mike tirou o livro Eli de sua mochila e falou para Jack:
        - Eu tive uma noite muito bizarra ontem, eu vi vultos, postes se apagaram e fui até perseguido por uma coisa escura que parecia uma sombra.
        - Mas o que esse livro tem haver? - pergunta Jack tentando acreditar em Mike.
        - Eu estava na biblioteca e tinha deixado para pegar um livro em outro dia, ou seja, nesse dia mas quando estava lá ontem ouvi o barulho desse livro caindo no corredor 6. Peguei ele na mão e bem na hora relampeou. Então cheguei na senhora Amber e ela anotou os dados no caderno e depois que tava vindo para casa fui perseguido por essa "sombra". Com certeza você não está acreditando em mim
         - Meu Deus Mike, isso é muita loucura, mas eu acredito em você. Você é meu melhor amigo Mike Foster, se me dissesse que laçou fogo pelas mãos, eu acreditaria. - fala Jack indo mais perto de onde Mike estava assentado no banco.
        - Obrigado Jack, também considero você como meu melhor amigo. - fala Mike assegurando a mão de Jack - Eu tive um sonho horrível onde George estava morto no chão, com seu coração fora do peito e seus cabelos coberto de sangue.
        Mas ta tudo bem agora Mike, isso já passou - fala Jack assegurando firme a mão de Mike.
         Quando foram realmente olhar o livro, acabou batendo o sinal para eles irem para sala de aula. Entraram na sala e se sentaram nas classe da frente. A aula favorita de Mike era a de história pois ele sempre descobria coisas incríveis que aconteceram a tempos atrás. Já a aula favorita de Jack é matemática, sua inteligência é impressionante.
         Depois dos dois primeiros períodos de aula que foi ciência e geografia  Mike e Jack foram para o recreio. No recreio Mike observava seu irmão brincando com seus amigos enquanto fala com o Jack.
         - Ei Mike pegue o livro para nós olharmos - fala Jack com muito curiosidade.
         Então Mike foi correndo e pegou o livro que estava em sua mochila, quando estava saindo da sala a porta se fechou sozinha. Mike tentou abrir mas não conseguia, ele começou a bater nela mas mesmo assim ela não se abria e ninguém escutava pois era muito alto o  barulho das crianças gritando enquanto brincavam no pátio da escola. Naquele momento Mike teve um ataque de asma, rapidamente ele pegou sua bombinha e fez os três passos que ele sempre fazia, que são:
       1: Inclina a cabeça para trás.
       2: Respira
       3: Pressiona o botão da bombinha.
         Isso sempre parava as suas crises. Mike não tinha muito o que fazer, então resolveu sentar em sua cadeira e ler o livro de Eli até bater para voltarem para a sala e alguém abrir a porta. No momento que sentou para ler, Jack apareceu e falou:
        - Por que a demora? O que está fazendo? Ía ler sozinho?
        - Iria pois a porta estava trancada e eu teria que esperar alguém destrancar, para não ficar com tédio eu iria ler.
        - Mas a porta estava normal. Ela não estava trancada. - fala Jack olhando seriamente para a cara de Mike.
         Mike levanta da cadeira e abraça Jack tão forte e depois diz:
        - Eu estou com medo, esta acontecendo essa coisas estranhas comigo. Por favor fica do meu lado e me ajuda.
        - O Mike, lembre que sempre te ajudarei, sempre estarei do seu lado, sempre poderá contar comigo, isso é uma promessa. - fala Jack prometendo não abandonar Mike.
         Depois do abraço eles foram ler o livro mas infelizmente acabou o recreio e eles não puderam ler, mas eles ficaram de ler na casa do Mike pela tarde. Depois de mais dois períodos de aula, um de português e o outro de matemática, os dois foram para casa juntamente com George. A casa de Jack fica do lado da de Mike, uma casa azul marinho de dois andares. Quando estavam na frente de suas casas, eles se despediram e combinaram de se encontrar as três horas da tarde para ler o livro.
         Mike entrou com George para sua casa e foram direto almoçar um estrogonofe muito gostoso que a mãe deles havia preparado, mas antes de comerem seus pai falou:
        - Vamos orar, hoje você pode orar Mike?
        - Sim, posso. - responde Mike nervoso porque fazia tempo que não orava pelo alimento em voz alta.
         Então todos fecharam seus olhos e Mike começou a orar:
        - Muito obrigado senhor pelo alimento que você não deixa faltar. Abençoe toda nossa família e perdoe qualquer pecado que temos cometido. Seja feita sua vontade, amém.
         Papai gostou muito que Mike orou e achou muito bonito. Então eles comeram, depois disso papai foi trabalhar as duas horas da tarde em sua oficina e mamãe foi trabalhar vendendo imóveis que é seu emprego. Acabou ficando só George e Mike em casa. Então eles foram construir uma pipa de papel. A pipa ficou tão bonita, ela era colorida e era cheia de detalhes. Eles ficaram brincando com aquela pipa até Jack chegar para ler o livro Eli.
         Quando Jack chegou, Mike subiu para seu quarto com ele, enquanto George ficou brincando com a pipa. Quando subiram foram direto para o livro e começaram a ler juntos. Na primeira página estava escrito:
        - Por favor se você esta lendo esse livro saiba que meu nome é Eli de... Meu sobrenome não importa, quero que saiba que eu estou morto por causa de um entidade que é tipo uma sombra, acabei colocando o nome Sombra nele. Se você viu essa criatura saiba que você pode morrer, mas da para ter um final diferente do meu, basta você enfrentá - lo sem ter medo, ele pode tomar a forma do que você mais tem medo mas você precisa superar o medo se quer derrotar ele. Eu acredito que estou morto enquanto você lê esse livro, pois sei que não conseguiria vencer meu maior medo. Nos primeiros dias ele vai brincar com você, vai te causar medo pois ele gosta de fazer isso, ele se alimenta do medo. Não esqueça que a chave para derrotar ele é não ter medo, se você tem um medo, saiba que você precisa superar. Nas próximas páginas verá relatos do que aconteceu com as pessoas que interagiram com o Sombra.
         Depois que Jack e Mike leram só isso já ficaram horrorizados. Ficaram fazendo perguntas pra si mesmo. De que maneira surgiu o Sombra? Por que ele faz isso com pessoas? Ele é um demônio? Nós vamos morrer?
         Essas perguntas ficaram repetindo na cabeça dos garotos até que Mike falou:
        - Jack você não esta envolvido nisso, isso é perigoso, é melhor ir embora e eu darei meu jeito.
        - Não vou ir embora de maneira nenhuma - reponde Jack cumprindo sua promessa. 
        - Posso falar o meu maior medo? - pergunta Mike enquanto começa a escorrer lágrimas de seu rosto.
        - Pode - responde Jack assegurando mão de Mike.
        - Meu maior medo é perder o George e você. Se você morrer ficaria um vazio de mim, eu não seria mais eu. 
        - Mike eu...
         Jack é interrompido por George batendo na porta e perguntando:
        - Posso entrar mano?
        Mike responde sim e seu irmão entra, ele acaba notando que Mike estava chorando e fala:
        - O que aconteceu mano, esta tudo bem? Eu não gosto de ti ver assim.
        - George vem aqui, senta na minha cama. - fala Mike sorrindo por ver o carinho de seu irmão.
         Quando George sentou Mike lhe deu um abraço bem forte dizendo que isso tudo iria passar. Quando Mike olhou pra Jack falou:
        - O que você ia dizer?
        - Nada - responde Jack escondendo algo.
        - Tem certeza? Parecia algo sério. - diz Mike insistindo pra ele dizer.
        - Ok, eu digo. Estou com fome mas tava com vergonha de falar - diz Jack novamente escondendo a verdade.
        - Não precisa ter vergonha, que tal a gente tomar um suco juntamente com o bolo de chocolate que mamãe fez? Você quer também George?
        - Sim - reponde George e Jack.
         Então os garotos vão se alimentar. Mike serviu seu irmão e Jack também. Quando já havia servido os dois, Mike se serviu e acabou derrubando o copo de vidro que caiu no chão quebrando em vários pedacinhos. Jack olha assustado e pergunta:
        - Você esta bem? 
        Mas Mike não respondeu pois estava tendo uma visão. Nessa visão ele viu um acidente de carro. Quem sofreu o acidente foi o senhor Russel e a senhora Russel que são os pais do Jack. Quando a visão acabou Mike olhou pra Jack e disse:
        - Jack eu vi seus pais sofrerem um acidente de carro.
        - Eu estava lá? Você estava? - pergunta Jack se lembrando de um acidente de dois anos atrás.
        - Sim você estava e eu também, só que a gente era...
        - Criança - completa Jack - isso já aconteceu, se lembra que você perdeu a memória?
        - Sim, me lembro. Vocês tinham falado que foi num acidente de carro mas eu não conseguia me lembrar. - respondeu Mike impressionado que uma parte que faltava da sua memória havia voltado.
        - Lembra que você foi na roda gigante?
        - Não, eu nunca fui numa roda gigante mas lembro que a gente foi no parque. - fala Mike tentando lembrar de alguma roda gigante.
        - Há, tá! - reponde Jack com uma expressão meio triste.
        - Mas já que você lembra que eu fui numa roda gigante me conta como foi. - fala Mike querendo lembrar.
        - Foi incrível, a gente foi junto e dava pra ver a cidade de Healdsburg inteira dali de cima - fala Jack escondendo uma coisa que havia acontecido na roda gigante.
        - Que legal. - fala Mike tentando imaginar como seria ver a cidade de Healdsburg em um roda gigante. - mas acho melhor eu limpar essa bagunça de suco.
         Então Mike limpou e pegou outro copo e tomou o suco e comeu o bolo de chocolate. Depois dos garotos terem comido foram jogar basquete no quintal. Sempre que eles faziam sexta eles gritavam: - Ponto pra mim!
         Os garotos foram parar de jogar basquete a seis horas da tarde, foi quando os pais de Jack chegaram em casa e chamaram ele para ajudar a carregar as compras. Mike e o pequeno George foram juntos para ajudar a carregar as sacolas. Depois disso Mike chegou em Jack e falou:
        - Quer possar lá em casa? Só vai ter que orar junto com minha família para agradecer pelo alimento.
        - Quero, não tem problema. O bom que amanhã não teremos aula pois é sábado - fala Jack feliz pois havia tempo que não pousava na casa de seu amigo. - só teremos que pedir para nossos pais.
  • O último portal II Justice

    O Último Portal II:
    Justice































    POR: Carry Manson

    Nota da Autora: TODA TEM SEXTA NOVOS CAPÍTULOS.



    Prólogo

    Vivemos numa Nova Era de paz e harmonia

    diante da bandeira verde e azul de nosso país.

    Por muitos anos, lutamos pela liberdade, sem

    entender o quê isto significava. Mas quando

    a tivemos em nossas mãos, muitos a viram

    com os olhos do arco-íris, que foi a cor que a

    mídia pintou, enquanto outros mantiveram a

    mente cheia de conhecimento, e por total

    consequência a razão. Enquanto os jovens

    em sua maioria, e os adultos fingindo serem

    jovens pulavam, enchiam a cara, e se

    drogavam. Os sensatos, observam o caos,

    e não fechavam os olhos para todas as

    iniquidades cometidas. Felizmente chegou

    o momento em que uma luz brilhou. Ela veio

    em forma de escuridão, todos disseram que

    era coisa das obras ocultas, quando nem

    sequer percebiam, que a sociedade

    atual, era o palco destas

    forças.

    Há algum tempo atrás eu jamais lutaria

    a favor de um ditador, mas agora entendo

    porquês todos alemães adoraram a Hitler.

    Ele veio para salvá-los, da desolação que

    se aproximava, não era uma luta contra

    os judeus, haviam judeus no seu exército,

    mas sim uma luta para salvar o mundo,

    que claramente falhou, pois hoje

    Eles o dominaram.

    Ele era um radical, mas o povo precisava

    de um radical, alguém que fizesse algo por

    eles, e não para si próprio, um louco, cuja

    loucura, aceitando ou não, trouxe muito

    desenvolvimento para a sociedade.

    As mortes foram horríveis sim, inocentes

    morreram é claro, mas nenhuma guerra é

    ganha sem dor e sofrimento, nenhuma

    glória chega antes de sermos

    testados.

    Não podemos mais fechar os olhos para

    o certo, ou o errado. A justiça tem que ser

    feita, para que menos inocentes sofram

    , em nome dos falsos revolucionários,

    pois revolução mesmo, é aquela

    que é benéfica ao individuo,

    e os outros.

    Infelizmente nem todo mundo vê assim,

    e por isso em breve iremos lutar uns contra

    os outros, porquê os filhos das cores, não

    são capazes de ver o planeta, com os

    olhos dos filhos do sol nascente.













    Capítulo 1- O brilho no céu, visto pelos poucos.




    “Depois do ocorrido na floresta, nosso grupo se

    separou. Natasha seguiu com os Filhos das cores, 

    abandonando também ao seu par. Alexandra se

    casou com um humano, e apenas Victória 

    ficou ao meu lado.” Isabelle escreve em seu 

    diário, e sorri para o marido, que ao contrário do

    que se imagina, não está mais dentro de

    Dantas, mas segue com o demônio

    Leviroth, com quem outra vez trouxe ao

    mundo, a pequena Isandra, que antes era

    só um fantasma. Hoje a criança não se

    recorda do quanto já ajudou seus pais,

    mas tem constantes sonhos a respeito

    disso. “Nós trouxemos os demônios

    a Terra naquele dia? Será que eram os

    nossos pais? Ou libertamos o mal?” Belle

    morde a tampa da caneta. Infelizmente

    nem tudo são flores, após abrirem os

    últimos portais, Leviroth destruiu o

    corpo de Dantas, por conta da

    sua energia, e por isso teve de ir para

    o corpo de um amor secreto da Calligari.

    Um garoto por quem nutriu uma paixão

    muito forte, antes do metido a perfeito

    interferir. Seu nome era Bener De La

    Cruz. Um rapaz moreno, magro, de olhos

    castanhos, e pele amarelada, que um dia

    entregou a sua alma a filha do demônio,

    por ter alimentado uma paixão por

    ela, desde que tinha 15 anos. Que aliás

    tinha sido o corpo original do príncipe, mas

    como Isa não percebeu, ele foi obrigado a

    mudar, até ela finalmente o amar.

    Na hora da transferência, a energia do

    par de Isa se tornou tão densa, que o corpo

    o rejeitou de imediato, gerando uma triste

    consequência, Leviroth perdeu da memória

    , ao retornar para a casca vazia, e Isa se

    sentiu solitária sem ele, achando que

    o tinha perdido. Separados ambos ficaram

    sofrendo, Leviroth tentou cometer suicídio,

    e a bela feiticeira se jogou nos prazeres do

    mundo, viciando-se em certas manias

    humanas, que terminaram por

    destruí-la. Ao se reencontrarem, a chama

    ardente se reascendeu de imediato, só que

    o amor, outra vez veio com o tempo, e por

    isso eles tiveram problemas para enfim

    se adaptarem. Após algum tempo Isabelle

    reencontrou Victória, que como os outros foi

    para um caminho diferente, e esta veio lhe dizer a 

     triste notícia. Belliath, também tinha partido naquela

     noite, que elas batizaram como o banquete diabólico, e 

    isso lhe deixou muito triste e abatida. Ao ouvir as lamentações 

    a amiga, a jovem lhe abraça forte, e conta-lhe que passara 

    pelo mesmo, só que teve um desfecho feliz, assim elas 

    passaram a trabalhar nas buscas pelo

     outro príncipe.

    _Olha Belle. Este aqui poderia ser o

    Belliath não acha?

    _Não, não tem a energia forte dele.

    _E este? É sedutor como ele...

    _De fato, mas tem a personalidade?

    _Isa o quê foi?

    Victória larga as fotos estiradas na mesa,

    e se volta para a amiga que se mostra bem

    pensativa, a respeito de algo. Esta para de

    pensar, e olha de forma alheia, como se

    tivesse saído de uma alucinação.

    _Não é nada Vic. São apenas sonhos

    que tem se mostrado curiosos.

    _Como assim? O quê tem sonhado?

    _Lembra que sumiu por uns anos?

    _Eu tinha perdido o meu amado,

    não comece a me julgar!

    _Não estou. É que desde aquela noite

    no bosque, tenho tido sonhos que

    não me deixam dormir.

    _Que tipo de sonhos? E com quem?

    _Um demônio, e é como se Dantas

    fosse ele.

    _Mas tinha um demônio no Dantas.

    O Leviroth seu atual marido.

    _Sim...Porém parece que tinha algo

    mais, dentro daquele mauricinho

    idiota.

    Isabelle respira fundo, e recorda-se do

    último contato que tivera com o namorado

    , e baixa a cabeça. “Você o colocou dentro de

    mim! Sua vadia maluca!” “Ele escolheu

    seu corpo! Eu não tive culpa!” “Ele só

    me escolheu, por sua causa!”. “Eu espero que

    você morra!” Gritou ao ver sua pele se dilacerando,

    no meio da mata, até que se foi. Deixando-a para o

    todo sempre, e então o demônio veio em forma

    de espírito, tentando se agarrar a ela, mas 

    desapareceu diante de seus olhos.

    _Isabelle. Estou falando com você.

    _Oi Vic. Me perdoa, estava lembrando

    dos últimos momentos, em que o

    Dantas foi ele mesmo.

    _Por quê?

    _Porquê ele desejou minha morte.

    _E daí?

    _E se ele foi pro Inferno, e fez um

    contrato para garantir isso?

    _Com o quê tem sonhado?!

    _Com o Anticristo, e ele vem para

    me buscar, todas as vezes...

    _Como um monstro, pronto para

    te arrastar para o outro lado?

    _Como um noivo no dia do seu

    casamento, e eu sou a noiva,

    não uma espectadora.

    Responde recordando-se dos sonhos

    que tem com uma criatura humanoide,

    de olhos verdes, cabelos negros e bem

    longos, de pele pálida, que está sempre

    sério, mas nunca perde a oportunidade

    de está ao seu lado, como o seu par, e

    antes que a converse se prolongue,

    alguém liga a TV do bar, e chama

    a atenção das belas.

    _Caos no novo governo. Isto é o quê

    vemos neste momento! As minorias

    se revoltaram, e pedem pela volta

    dos velhos ministérios!

    _Isto é uma luta pelos direitos

    humanos! Este ditador tem que

    ser derrubado! Senão mais

    gente vai morrer!

    _Jovens e adultos, invadem o

    congresso, para brigar pelos direitos

    dos presos, que estão sendo usados

    , para experimentos científicos.

    _Eles são humanos como eu e você!

    Comem, bebem, sentem frio e medo!

    Precisam de cuidados! Não desta

    opressão maldita!

    _A confusão gera um conflito entre

    militantes da bandeira vermelha, e

    os militares, que tem carta branca

    , para puni-los, caso haja algum

    sinal de violência física.

    _Isso, isso é resultado do fascismo,

    que Vocês seus desumanos, deram o

    apoio! Olhem pra esta foto! Olhem

    pra este homem! Isso parece

    certo pra vocês?!

    Uma mulher grita diante da câmera,

    e mostra a imagem de um sujeito bem

    magro, recebendo agulhadas nas veias,

    num estado deplorável. Ao ver aquilo,

    Isabelle revira os olhos. “Luan Alves

    de Andrade, o cara que estuprou

    7 bebês. Merece até pior que

    isso.” Se recorda da prisão

    do meliante.

    _Depois de tudo o quê ele fez

    com aquelas crianças, este castigo

    é até mediano. Se eu estivesse no

    projeto, o torturaria por total

    prazer.

    _Com certeza. Um ser destes

    nem merece ser chamado

    de humano.

    _É, mas ainda sim, estes cegos

    se reúnem diante do Congresso

    para lutar pelos direitos dele.

    _Sim Belle, a humanidade está

    mesmo perdida.

    _De fato.

    As duas se levantam, pagam a conta

    com código digitais, e vão embora, sem

    perceber que estavam sendo vigiadas por

    um homem de terno e chapéu branco, e

    este sorri, e pega as digitais dos copos

    , sem que o vejam fazê-lo, pois é um

    aparentemente profissional na área.

    “Isabelle S Calligari Marry De La Cruz.”

    É o quê aparece na tela do seu celular,

    junto da imagem da bela, parecendo a

    pior das anarquistas. “Victória Silverius

    S Haster.” É o segundo nome a vim,

    junto da imagem da bela no seu

    estado normal.

    “Elas são perfeitas para o caso.” Ele

    pensa, ao analisar o perfil das duas. Isa

    se mostra um gênio revoltado, enquanto

    que Vic mostra habilidades notáveis em

    trabalhos manuais, e muito carisma.

    “Isabelle é realmente a filha dele.”

    Conclui, desligando a tela.

    A noite...Isabelle digita uma extensa

    pesquisa no notebook, e do nada a sua

    tela escurece, preocupada, ela se cobre

    , e se afasta do aparelho. Dados com

    código são  descriptografados, e

    ela recebe uma mensagem.

    _1508? O quê isto significa?

    _Siga o Coelho Alice.

    _Eu não. É arriscado demais.

    _Você quer respostas sobre o seu

    sonho comigo, e eu posso te dá

    , mas precisa confiar em

    mim.

    _Usando robôs é fácil mesmo

    roubar informações.

    _Eu sei seu nome, e sei onde

    nasceu.

    _Basta ir no Facebook.

    _Eu sei que está roendo a

    fronha com medo.

    _Estudou meu perfil psicológico.

    _Eu sei de coisas que fez no

    sonho, e não teve coragem de

    contar a Victória, por sentir

    vergonha.

    _Algo mais?

    _Sei de tudo o quê já fez.

    _Por exemplo?

    _Suas orgias lésbicas com 6

    anos de idade.

    _Ok. Você venceu. O quê

    quer?

    _Siga o coelho e saberá.

    A tela volta ao normal, e então chega

    um convite para um baile de gala, para uma

    pessoa, em seu e-mail. “Leviroth não me

    perdoaria, mas preciso saber o quê me

    atormenta.” Morde os lábios, ao

    olhar para trás.

    Tomada pela curiosidade, respira fundo,

    e responde para o destinatário. “Agradeço

    a oportunidade, mas estou inclinada a ter

    que recusá-lo.” Envia, e recebe uma outra

    mensagem. “Doce Alice, precisa encontrar

    o Chapeleiro, o quanto antes. Não pode

    recusar.” A dama olha para os lados, e por

    fim escreve outra conclusão. “Tenho medo

    do Tempo. Ele pode não entender.”, E por

    fim recebe a última mensagem. “Farei

    um convite duplo, mas preciso vê-la

    para o chá.” Desta vez a antiga rebelde não

    recua. “Mostre-me o caminho para o Chá.”

    Enfim diz, e as mensagens se apagam

    Restando um convite para o

    casal.

    Com Victória acontece a mesma coisa,

    porém o roteiro é outro. “Sei que deseja

    encontrar alguém que não é deste mundo.”

    Diz a sua frase. “Não ignore este aviso, nós

    podemos te ajudar a encontrar Belliath.”

    Ao ver o nome de seu amado, o seu

    coração salta pela boca.

    _Como sabem de Belliath?!

    _Sabemos tudo sobre você.

    Senhorita Haster.

    _Quem são vocês afinal?!

    _Se queres saber, o caminho para

    a floresta deve seguir, Branca

    de Neve.

    _Não são os caçadores, não é?

    _Somos os mineradores, e

    podemos encontrar ao seu

    príncipe.

    _Os Anões?!

    Victória gargalha diante do computador,

    e leva um pequeno choque na ponta do seu

    dedo, que a faz chacoalhar a mão devido a

    dorzinha nele provocada. “Ai que anões

    irritados.” Pensa, colocando

    o indicador na boca.

    _Não se trata de uma brincadeira.

    _O quê podem me provar sobre

    o meu príncipe?

    _Que Ele a perdeu para anjos

    furiosos, e está entre os

    nossos agora.

    _O quê?!

    _Vá para a floresta, e o verá.

    A tela escurece, e Victória recebe um

    individual, para a mesma festa que Belle

    e Ben foram chamados. Só que enquanto

    no convite de uma está impresso o coelho, 

    no da outra é uma maçã mordida só de 

    um lado.




































































































    Capítulo 2- O baile misterioso




    No dia seguinte... Victória e Isabelle se

    arrumam para a festividade, sem saber que

    elas vão se encontrar no mesmo lugar. “ A

    fantasia certa para cada convidado.” Diz os

    bilhetes, em cima das estranhas caixas

    grandes, cor de ovo, que recebem. “Espero

    vê-la hoje, mesmo acompanhada do Tempo

    , senhorita Alice. Ass: Chapeleiro” É o quê

    o bilhete somente de Isabelle diz. “Logo a

    princesa irá receber o seu beijo, mas o feliz

    para sempre dependerá dela. Ass: Dunga”

    É o bilhete de Victória. Ambas pegam as suas 

    fantasias, e observam, que mesmo as

    respectivas personagens, não precisem de

    máscaras, elas precisaram usar. Ben chega

    do trabalho, e encontra a caixa enviada a

    ele, e pega a sua fantasia de Tempo, que

    vem com um aviso. “Olá senhor tempo,

    pode ter pensado que enlouqueci, mas eu

    preciso encontrar a Alice para o chá.” Diz

    o papel que ele esmaga revirando

    os olhos.

    _A gente já não teve problemas demais?

    _Por favor Leviroth. Eu preciso ir neste

    lugar, há respostas que você não pode

    me dá, não com essa memória.

    _Está bem. Mas se o Chapeleiro tentar

    ficar com você, ele vai conhecer o punho

    do Tempo.

    _Que bonitinho da sua parte, ainda ter

    ciúmes, depois de anos de casados.

    _Eu não lutei com aquele mauricinho

    Idiota, para ficar sem você depois.

    _Disso cê lembra né!

    _E de como você se sentia nos meus

    braços também.

    _Se controla bonitão. Não quero dá

    o Odin para a Isandra tão cedo.

    Diz Isabelle fazendo menção ao nome

    do próximo filho, que terá com o príncipe

    do Caos, e ele a puxa para si, beijando-a

    com intensidade, e deixando-a úmida

    entre as pernas, ao ponto de ficar

    corada.

    _Continuo tendo jeito para a coisa.

    _Continua sendo meio idiota.

    _O idiota que te ama.

    _O idiota com quem me casei.

    _E que vai amar por mais uma

    eternidade.

    _Pode ter certeza que sim.

    O beija, e ele a carrega, pronto para

    lhe tirar as roupas. Mas quando abre a

    sua camisa, e vai em direção aos seios

    dela, Isandra entra na sala, cortando o

    clima quente entre os dois. Sem jeito,

    eles sorriem, e a bela ajeita o cabelo

    para ir pegar a menina.

    _Depois desta festa odiosa...

    _Quando Isandra dormir...

    _Vou te mostrar os prazeres do Sol.

    _Vou ser uma com você como a

    Lua.

    _Agora vai lá com a nossa

    filha. Gostosa!

    Ele diz vendo-a de costas, e lhe dá

    um tapa na bunda, com o olhar safado,

    deixando-a vermelha de vergonha, ao ir

    até a menininha de 5 anos, que corre até

    os braços da mãe, com os olhos brilhando

    de alegria. Ao ver o sorriso da esposa, ele

    se sente realizado, por tudo o quê eles

    viveram, ter acabado tão bem.

    “Eu preciso encontrar a Alice para o

    chá.” Lhe vem a mente, transformando a

    sua face aliviada, em grande mau humor.

    “Como se não bastasse ter que ficar no

    corpo daquele moleque. Agora isso.”

    Pensa com raiva, temendo o quê

    está por vir.

    Sua memória pode ser sido afetada,

    mas não a mente de estrategista natural, e

    esta lhe diz que esta festa não vai terminar

    nem um pouco bem. Porém devido as atuais 

    circunstâncias, ele não pode dizer não a

    sua amada.

    A noite...Eles chegam ao local, é um

    museu antigo, e há muitos homens e

    mulheres bem de vida. Leviroth põe a

    máscara depois de entrar, e Isabelle

    o faz logo em seguida, grudando no

    marido com medo do quê vai ter

    encontrar ali. Infelizmente, assim que

    entram, há pelo menos 5 Alices dentro

    do salão, e quando o demônio se afasta

    para pegar as bebidas, a bela desaparece

    em meio as outras, e é puxada para o

    centro do lugar, onde dança com

    o Chapeleiro.

    _Olá Alice. Fico feliz que veio

    para a festa do Chá.

    _Quem é você? E o quê quer

    exatamente?

    _Você já me conhece dos seus

    sonhos querida.

    _Esta é a pior cantada de todos

    os tempos. Senhor Chapeleiro.

    _Estou falando sério.

    Pega em suas costas, e então aproxima

    sua boca do ouvido da bela, que fica por

    procurar pelo seu par, ignorando o ser

    misterioso, que se irrita, e a aperta

    colando-a em seu peito.

    _Meu reinado se aproxima.

    E a prostituta deve caminhar

    ao meu lado.

    _Que coisa romântica de se

    dizer no primeiro encontro...

    _Você pensa que casou-se com o

    príncipe. Mas também já foi a

    mulher de um Rei.

    _Anticristo?

    _Nesta noite sou só o Chapeleiro.

    Tira a máscara para a dama, e esta que

    já não conseguia respirar, perde o ar por o

    ver ali diante dela, segurando-a nos seus

    braços. Ele era idêntico ao sonho, só

    que neste momento está a sorrir,

    com bastante confiança.

    _Silêncio. Não grite.

    _Por quê está aqui?!

    _Porquê é chegada a hora de

    assumir o poderio do mundo.

    _E o quê isto tem a ver

    Comigo?!

    _Você é a mulher de vermelho,

    e deve ficar comigo.

    _Eu já pertenço a outro ser.

    _Será que é verdade?

    _É claro que é, eu vi a minha vida

    passada com ele!

    _Mas a viu por completo? Acha mesmo

    que alguém como você só teve um

    amor?

    _E o quê sabe sobre mim?!

    _Sei que ajudou a me libertar.

    É a última coisa que diz, dando-lhe um

    beijo rápido, e se misturando a multidão ao

    ver que Leviroth tinha percebido, que a sua

    Alice, tinha uma pulseira negra envolta do

    pulso, que a diferenciava das outras, e

    estava vindo resgatá-la.

    _Vamos sair daqui agora.

    _Está tudo bem meu amor?

    _Ele me beijou!

    _O Chapeleiro?!

    _O Anticristo!

    Berra claramente traumatizada com

    tal encontro, e abraça o marido, sentindo-se

    mole, como se fosse desmaiar de tanto

    nervosismo. Do outro lado do salão, que está

     decorado com árvores semelhante a floresta.

    Victória dança nos braços de um belo príncipe

     com máscara, que fica em  silêncio, até que 

    ele a beija, e esta sente tanto fervor, que 

    não há como negar,

    é Belliath ali.

    _Eu senti a sua falta minha princesa.

    _O beijo foi ótimo, mas como posso

    ter certeza que você é você?

    _Pergunte algo que só nós dois

    sabemos.

    _Como foi a nossa primeira vez?

    _Comigo sendo romântico, ao contrário

    do Roger.

    _Algo mais?

    _Você me expulsou do corpo dele,

    e voltei a ser grosso, mas mesmo

    assim nos envolvemos naquela

    noite.

    _Belliath!

    _O corpo do Roger não suportou.

    Tive mudar, antes que a insanidade

    dele me afetasse.

    _Tudo bem. Contanto que eu

    esteja com você.

    _Sim meu amor...

    Ele a abraça e olha para o outro lado, no

    qual O chapeleiro passa fazendo o sinal de

    que é hora de ir. Ao vê-lo, pede-lhe mais

    tempo, mas o líder nega, e o príncipe

    beija a sua amada com furor, deixando-a

    sem fôlego por alguns segundos, então

    segura em sua face, e olha em seus

    olhos.

    _Eu preciso ir agora.

    _Para onde?

    _Não posso dizer no momento.

    Mas tenha certeza de uma coisa,

    eu vou te achar de novo.

    _Me promete?

    _Sim, fique com isso, é algo

    que tenho esperado muito tempo

    para te dá outra vez.

    _Isso é?

    _Sim, quando eu puder voltar,

    nós iremos nos casar. Diga

    a Isabelle, que mandei um

    “Oi.”

    _Isabelle está aqui?

    _Sim, Ele queria muito vê-la

    , mas não podia se expor.

    _Quem?

    _O Anticristo.

    Responde deixando a amada com o anel de

    noivado, e parte com o Chapeleiro. Isabelle tira

    a máscara, e sai do salão de festas, e já se senta no sofá 

    onde os bêbados deitam, e fica no colo do marido, que lhe

     faz um carinho na cabeça, acalmando-a, pois apesar da

    forma atraente do tal ser, ela está em estado de

     choque.

    _Belle!

    _Vic!

    _Como veio parar aqui?!

    _Recebi um convite.

    _Eita quanta grosseria.

    _Desculpe, eu vim por respostas

    , e acabei por me deparar com

    o meu pesadelo vivo. E

    você?

    _Vim encontrar Belliath, que

    está junto do seu pesadelo

    vivo.

    _Olá Victória, eu também

    estou aqui.

    Diz o demônio erguendo a mão, como

    um aluno na hora da chamada. E é quando

    a bela nota que há mais alguém junto de sua

    amiga, e fica constrangida por ter ignorado

    o coitado sem querer.

    _Oi Leviroth. Desculpe, estava

    tão doida para encontrar a Belle,

    que nem te vi.

    _Depois dizem que não tem um

    “relacionamento lésbico”.

    _Para com isso Levi. Como foi

    reencontrar o Belliath?

    _Foi lindo e perfeito. Do jeito com

    o qual sonhei Belle. Olha só!

    _Nossa trabalhar pro Anticristo

    compensa hein?! Mor será que

    ele me arranja um emprego?

    _Nem pensar. Se você faltar um

    dia, em vez de descontar no salário,

    ele fala que tá no contrato chamar

    a sua esposa para um jantar!

    _Se for como os sonhos que ela

    me contou, é melhor ficarem bem

    longe dele. Ele quer tanto ela,

    quanto você já quis.

    _Já quis? Eu continuo louco

    por essa mulher! E juro que ainda

    quero arrebentar esse cara, por ter

    beijado ela. Aliás cadê ele hein?

    _Se aquieta bravão. Ele correu assim

    que te viu. Não deve mais nem sequer

    está por aqui. O quê significa que: É

    hora de beber!

    _Opa!

    Victória fica no bar admirando a aliança

    que seu amado lhe deu, com tanta alegria

    que nem nota outros rapazes. Já Isabelle

    bebe sem parar, querendo perder a sua

    consciência, para esquecer que tudo o

    quê temia, tinha vindo a tona.

    _Mais um por favor.

    _Já chega Camelinho. Eu vou no

    banheiro, e vamos para casa

    certo?

    _Está bem. Vou chamar, a Vic.

    A bela se prepara para se levantar, só

    que seu corpo está pesado. O efeito da bebida

    é tão forte, que vê tudo rodando, vários Chapeleiros

     caminham pelo salão, e ela não sabe se está alucinando, 

    até que um deles, a ajuda a ficar de pé,  lhe entrega uma carta. 

    Ela rapidamente a abre, percebendo que deve ler antes do marido

    voltar. “Você seguiu o Coelho, e esta é a sua recompensa. Te vejo lá

    , junto da Branca de Neve.” É tudo o quê diz no papel, e dentro do 

    envelope acha um pendrive, que tem esculpido nele a estranha 

    numeração...“1508.” Olha para o drive, e o guarda no bolso. Victória 

    vem ao seu encontro, depois de sair do trem do amor, e a moça 

    logo lhe mostra a carta, e o tal aparelho que veio junto. Ao 

    ver aquilo, a jovem fica estática, e curiosa para entender

     qual é a relação de Belle com o Anticristo.

    _Belle...Você é um imã para demônios!

    _Há há engraçadinha. Deve ter algo muito

    errado comigo isso sim.

    _O quê ele queria com você esta noite?

    _Eu não sei. Acho que me traumatizar.

    _Com um beijo?

    _Qual é. Foi só um selinho. Mas o fato

    de vim da boca dele, é que me assustou.

    _Não foi como quando Leviroth...

    _Não! Eu tenho medo dele!

    _Então não gostou nem um pouco?

    _Eu sou casada. Com o amor da

    minha vida. É claro que não.

    _Eu não entendo Belle. Você e

    Leviroth são almas gêmeas, por quê

    surgiu mais alguém nessa história?

    _Boa pergunta. Ele diz que foi porquê

    Eu fui mulher dele.

    _Mas toda a sua vida passada foi

    Revelada, com a chegada de

    Leviroth.

    _Foi o quê eu pensei, só que ele

    garante que há mais para

    saber.

    _Então no pendrive...

    _Deve ter mais pistas sobre quem eu

    já fui.

    Conclui observando o marido se

    aproximar, então esconde o pendrive e a carta.

    Eles vão para dentro de um Uber, e ali longe dos

    olhos curiosos, a jovem pega o tal papel e

    mostra para o conjugue.

    _Ele não queria que soubesse.

    _Que horas recebeu isso?

    _Foi ainda pouco. Antes de partimos.

    _Ele está te atraindo para alguma

    armadilha.

    _Eu sei, por isso estou te contando.

    _Devia cortar relações com

    esse cara.

    O motorista os observa pelo retrovisor,

    e aumenta a velocidade em que está indo,

    mudando o percurso do caminho de volta

    para casa. Notando a estranha situação, a

    moça olha para o marido, e os dois se

    jogam em cima do motorista.

    _O quê está fazendo?! Pra onde está

    nos levando?!

    _Responda para ela, ou vai acabar

    morto.

    _Por favor não façam nada comigo!

    Ele me obrigou! É a única forma

    de sair! De sair!

    _Você está trabalhando para

    O Anticristo?!

    _Responda ou quebro o seu pescoço!

    _Não! É para O Chapeleiro! Ele quer

    vê-la de novo senhorita Alice da

    pulseira negra!

    _Droga!

    Grita ao sentir o impacto do carro colidindo

    com outro. Leviroth é jogado contra o painel,

    e ela se bate no banco, ficando com

    uma linha de sangue na testa. O Chapeleiro

    entra na parte do passageiro, e pega a moça em

    seus braços, olhando para o rival, que se mostra

    desesperado, por não poder fazer nada, já que sem 

    memória, não sabia como ativar os seus poderes 

    caóticos. Isabelle acorda, sendo carregada pelo

    estranho, e sente o cabelo negro dele,

    caindo sob o seu rosto.

    _O quê, você, quer comigo?

    _Apenas a sua lealdade. Deixei bem

    claro que não devia contar a ele, só

    quê fez, e a consequência foi essa

    querida Alice.

    _Está dizendo que isso, isso é um

    Jogo?!

    _E o quê não é? Tudo se trata de

    ganhar uma recompensa por algo. Até

    um bebê sorri apenas, porquê sabe

    que vai receber um agrado.

    _Eu não sei, qual é, o, seu problema,

    mas juro, vou, te arrebentar!

    Grita usando o seu dom, para jogar um

    poste em cima dele, só que ele sorri, ergue

    a mão, e estala o dedo destruindo-o em mil

    pedaços. Ela entra em pânico, e para de

    reagir, fazendo-o sentir o doce gosto da

    vitória, obtida através do medo.

    _Esqueceu quem tem mais força?

    _Como eu, poderia saber? Nunca

    te vi, na minha vida!

    _Não adianta fingir. Eu provoquei

    aqueles sonhos.

    _Eu não sou, a prostituta.

    _Como pode ter tanta certeza?

    _Como você pode?!

    _Porquê fui eu quem te devolveu

    para este mundo Luciféria.

    “Como ele pode saber que este é o meu

    outro nome?!” Ofega, aterrorizada pelas

    coisas que o sujeito tem conhecimento a

    seu respeito. “É ele. Não há mais nem

    uma dúvida.” Termina, enquanto

    entram em outro carro.

    _Pode respirar. Não vou te fazer nada.

    Pelos sonhos já deveria saber.

    _Eu não estou destinada a você!

    _De fato antes não estava. Mas na

    hora que alterei o seu destino,

    passou a ser.

    _Por quê eu?! Com tanta mulher no

    mundo, muito mais bonita. Por quê

    tem que ser eu?!

    _Porquê foi você Isabelle, quem

    Eu escolhi, e não há anjo ou demônio

    que possa impedir, o quê agora nós

    somos um para o outro.

    _O pesadelo e uma bruxa que

    quer fugir dele?!

    _Um só espírito. Uma só carne.

    Uma única...

    _Eu sou a Alma Gêmea de Leviroth!

    Lúcifer nos revelou isso!

    Esbraveja, horrorizada pela palavra que

    ia sair da boca do poderoso homem. “Isso

    não pode ser verdade. Não pode! Eu amo

    Leviroth! Como nunca amei ninguém

    antes!” Suas mãos tremem sem

    parar.

    _Não é mais. Agora é a minha.

    _E a Minha opinião sobre isso?

    Eu não te dei permissão de

    se tornar meu par!

    _Não deu nesta na vida. Mas na

    outra foi apaixonada por mim, de

    tal forma, que governou o Egito

    ao meu lado.

    _Eu sempre fui do Leviroth.

    _Defina sempre. Porquê até onde

    Eu sei, nós passamos um bom

    tempo juntos.

    _Escuta aqui. Ôh falso messias do

    caralho. Eu já fui encantada por um

    demônio, e ele usou a sua mesma

    jogada. Por isso não vou cair...

    O belo se debruça em cima dela, e a

    beija, segurando-a com firmeza. Desta

    vez ela luta para se livrar dele, não por

    não resistir, mas sim porquê só é

    capaz de pensar em Leviroth,

    neste momento.

    Não é como da outra vez, em que o

    toque do demônio, a fazia ir as nuvens, e

    se sentia culpada por desejá-lo. Ela sente

    total desespero, desgosto, e desprazer

    em tal atitude, por isso o morde bem

    forte, ao ponto de sangrar, só que

    isto o faz rir.

    _Aposto que ele nunca calou sua

    boquinha desta forma.

    _Eu sou casada! Com o amor da minha

    Vida e existência! Encoste em mim de

    novo, e eu vou...

    _Vai o quê?! Me morder como uma

    gatinha assustada que é?!

    _O quê eu fiz para merecer isso?!

    _Me soltou para o universo.

    _Eu nem me lembro disso!

    _Não lembra porquê faz muito

    tempo, mas desde daquele dia eu

    soube que era perfeita, e que a deusa

    mãe a tinha feito para mim...

    Se recorda da menina ruivinha, que foi até

    o Tártaro, e o libertou para o cosmos. “Você

    sabe que posso destruir o universo?”

    “Sim, sei, e eu quero que faça isso, é uma

    forma de me agradecer.” Ele a vê lhe dando as

    costas, então seus olhos ficam fixos na miniatura

    da Rainha da terra do não retorno. “Um dia ela será

    a minha rainha.” pensa ao escapar, virando-se para 

    trás, só para ter certeza de que vai ver a criança

     maldosa outra vez, mas esta já tinha

    desaparecido.

    _Eu me apaixonei por você naquele dia.

    _Pelo que me disse eu era uma criança

    , uma criança bem estúpida por

    sinal.

    _Sim era. Mas aguardei ansiosamente

    , até que crescesse, só que quando fui

    lhe buscar, o seu coração já tinha

    sido tomado por Ele.

    _Não foi tomado. Eu o dei para ele.

    _Foi tomado sim. De mim. Eu deveria

    ter sido o seu par, não aquele idiota

    do príncipe.

    O ódio e a mágoa nos olhos do belo

    estranho, são bem visíveis, e dão fortes

    calafrios na jovem mulher, que não se

    sente nada a vontade, na presença

    da ilustre figura.

    _Se isso é verdade, por quê Lúcifer

    nunca o mencionou!? Ou te vi na

    hora que despertei?!

    _Lúcifer apoia sua união com Leviroth,

    e por culpa pelo o quê um dia sentiu por

    mim, você apagou nossas memórias.

    _História bonita! Mas eu sempre fico

    com Leviroth, por quê insiste!? É

    óbvio que a deusa mãe não

    me fez pra ti!

    _Porquê Eu quero você. Tanto que

    roubei as tábuas do destino, que a tal

    deusa destinada a mim, um dia pegou

    do deus aquático, e lá escrevi que é

    para sermos um só.

    _Você é louco.

    Ele se prepara para responder, porém antes

    que o faça, é atingido por um dardo na nuca, e

    desmaia. Preocupada com quem possa ser, ela

    empurra o corpo dele, se rasteja para fora do

    carro, pronta para correr, antes que a

    peguem também.Ele se prepara para responder, porém antes

    que o faça, é atingido por um dardo na nuca, e

    desmaia. Preocupada com quem possa ser, ela

    empurra o corpo dele, se rasteja para fora do

    carro, pronta para correr, antes que a

    peguem também.













    Capitulo 3- Mais mistérios no ar.




    A moça passa por trás do carro, e aumenta a velocidade 

    de seus passos, correndo para longe do veículo, antes que

    seja atingida como o homem que a sequestrou. Os seus

    cabelos esvoaçam ao vento, é evidente que há medo

    em seu olhar, ela precisa sair dali, pois como 

    nas outras vidas, os inimigos são 

    perigosos.

    _Isabelle S Calligari De La Cruz.

    _Como sabe o meu nome?

    _Não há tempo para responder.

    Venha comigo.

    _Socorro!

    Um ser alado levanta voo, pegando-a em

    seus braços, e este a coloca dentro de um carro

    em movimento, através do teto solar, e entra logo

    em seguida. A morena olha para os lados, e vê que

    o marido, está recebendo os cuidados médicos

    logo a frente, e se não estão tentando-a

    lhe separar dele, inimigos não

    devem ser.

    _Para onde estamos indo?

    _Logo irá saber senhorita Calligari.

    _Por quê estão nos ajudando?

    Quem são vocês?

    _São respostas que logo irá obter.

    Mas antes há outras pessoas

    a serem encontradas...

    Responde-lhe o anjo, com um sorriso, e lhe

    aplica um sonífero no pescoço, que a faz desmaiar

    em seu ombro. Não permitindo-a vê-lo, e talvez o

    reconhecer de algum lugar. O carro segue a

    viagem, e entra num túnel, no qual

    desaparece. Olhos se movem, ainda fechados, e se 

    abrem em sincronia, outra vez As 4 fases da Lua está

    reunida, porém uma integrante não está presente, e 

    esta é Natasha, que neste momento lidera as atuais

    tropas da bandeira vermelha, por ter sido uma

    dos convertidos em Filhos das cores.

    _Onde estamos?! Belle?! Victória?!

    _Alexandra?! (Dizem em uníssono)

    _O quê aconteceu para virmos 

    parar aqui?! Horácio?!

    _Alexandra? Está tudo bem meu

    amor?!

    _Isabelle...Isabelle não vá com ele...

    Leviroth parece ter pesadelos, e a sua

    amada, pula do sofá negro, correndo para 

    acordá-lo, e antes que haja mais confusão, 

    o agente que salvou a Senhora De La 

    Cruz, caminha no meio da sala.

    Ele é pálido como a lua, tem olhos azuis,

    e cabelos negros curtos. Apesar da roupa de 

    agente de elite, este não se mostra muito 

    formal, e se escora na beira mesa, 

    atraindo a atenção deles.

    _Olá para todos.

    _Isso daqui não é um dos jogos

    mortais não é?!

    _Alexandra isso não tem sentido!

    _Garotas...

    _Ué é Belle, os caras não nos deixaram

    ver como se chega aqui. Preciso saber

    se estamos em perigo.

    _E você acha que eles nos diriam?

    _Ninguém está em perigo aqui.

    Não ainda pelo menos.

    _Viu como foi bom perguntar?!

    _Seria melhor não saber.

    _Vocês foram convocados, porquê

    precisamos da sua ajuda.

    O agente revira os olhos, e os rapazes ficam

    analisando aquilo friamente. Tentando saber a

    onde isso dará. Sabendo que as palavras não

    serão o suficiente, o rapaz liga a TV LCD atrás 

    dele, e mostra as imagens do fatídico dia

    do banquete diabólico.

    _Não! Algo deu errado! 

    _Leviroth! Leviroth! 

    _Sua vadia! Espero que morra!

    _Victória ele quer o controle 

    de volta! Não vai dá!

    _Belliath! Não!

    _Samalast! 

    _Alexandra!

    _Não confie neles Natasha!

    _Meu amor!

    Vários corpos ficam atirados ao piso sem as

    suas órbitas, como se tivessem queimado por

    dentro. As 4 bruxas olham para os cadáveres,

    e ficam em estado de pânico, sem saber o

    quê fazer. Forças obscuras saem de dentro do

    tal portal, dando gargalhadas, por enfim ficarem

    livres de suas prisões. Elas giram entorno das

    feiticeiras, até por fim irem para cima

    delas, fazendo-as berrar em

    desespero.

    _Sim nós sabemos o quê fizeram.

    _Éramos jovens, não sabíamos que o 

    resultado seria este! 

    _Só queríamos ver nossos pais!

    _Eu só queria saber se real!

    _Sim, sabemos disso. Se acalmem.

    _Eu não matei o Dantas.

    _Eu não mandei o Roger pro

    hospício.

    _Eu não destruí o meu namorado.

    _Não exagerem. Nisso são culpadas.

    Diz o moreno, e Isabelle fica irritada com

    a atitude fria dele. Por isso se levanta e vai

    ao seu encontro, pronta para bater nele

    se preciso, afinal de contas tinha sido

    um idiota, e merecia uma bela

    correção.

    _Como você ousa dizer isso?!

    Não vê o estado em que elas

    estão?!

    _Pensassem nisso antes de querer

    brincarem de Deus. Luciféria!

    _Como sabe o meu nome real?!

    _Não importa. Me perdoe eu

    fiquei nervoso.

    _Como sabe disso?!

    _Ele sabe porquê é um arcanjo

    Izzy.

    Diz Leviroth os separando, antes que ele

    se matem ali mesmo. Porém quando vê o

    rosto do agente de perto, de imediato o

    reconhece, e isto o faz ficar catatônico,

    e implorar com o olhar, para que não

     diga nada para Isabelle.

    _Um Arcanjo?!

    _É. Um dos que te levou para o céu.

    _Isso mesmo. Eu quem te assassinei

    na outra vida, para impedir que

    abrisse outro portal.

    _Agora que não confio mesmo em

    você! Pior que os Filhos das Cores 

    é a tua raça!

    _Calma Izzy.

    _É a mesma que a sua. Então cuidado

    na hora julgar. Eu abri minhas asas e voei

    contigo, pensou que fosse o quê?

    _Eu sou diferente! Eu sei lá um

    mutante?!

    _Já chega vocês dois.

    O marido a leva de volta para o sofá, e

    olha para trás, o ser alado agradece com

    gestos, e o demônio olha com indiferença,

    sentando-se junto da esposa, que ao se

    ajeitar, o encara com raiva latente.

    _Não estou aqui para achar um

    culpado, e sim uma solução.

    _Como se Lúcifer ou Satã fossem 

    nos permitir, ajudar anjos imundos 

    como você.

    _Eu permito, e aliás sou um só.

    Diz um homem tão louro, que parece ter

    sido coberto pela luz mais radiante do mundo.

    Ao vê-lo Isabelle cai para trás, e Victória fica

    de queixo caído. Junto dele vem Belial, e

    o deus sumério Enki, agora batizado

    como Leviatã.

    _Papai?

    _Eu e Victória somos irmãs?!

    _Não entendo por quê estão tão 

    surpresas. Já os viram antes.

    _Venham cá, dá um abraço minhas

    princesas queridas.

    Lúcifer abre os braços,  tornando-se agora 

    um belo moreno de olhos vermelhos, e com o

    par de chifres exposto, e Victória corre para

    abraçá-lo. Isabelle fica congelada ali, sem

    se mover, e por isso o pai vai ao 

    seu encontro.

    _Ainda bravinha e ciumenta não é

    Luciféria?

    _Só estou assustada. Foi me dito que

    um dia herdaria o seu reino, e a 

    Vic o reino de Satã.

    _ E ambiciosa, como o pai...

    Confundiram as suas mentes minha

    Princesinha. Ninguém vai herdar reino

    algum, porquê sou eterno.

    _Que animador...

    _Mas você e Victória, tem os seus

    próprios, que foram feitos com muito

    carinho pela sua amada mãe Lilith.

    _Então ? 

    _Vocês não são só princesas do

    Caos. São rainhas de reinos

    distintos.

    _Interesseira!

    O agente tosse, chamando a atenção de

    Isabelle, e o imperador do Caos, ri daquilo

    notando o raio que está saindo dos olhos de

    ambos, que estão se fulminando sem parar,

    como se houvesse alguma história, por

    trás de tanto ódio mútuo.

    _Algumas coisas nunca mudam...

    _Não, não diz...

    _Não diz o quê? Estrupício de asas?

    _Não é Miguel?

    _Ela vai me matar agora.

    _Miguel? Arcanjo Miguel?!

    _Isso mesmo querida.

    A bela de imediato se afasta, e Victória e Alexandra vão 

    atrás dela. Miguel e Lúcifer discutem um com o outro. “Não 

    tínhamos combinado que ela não saberia?!” “E te dá a chance 

    de desgraçar a vida dela de novo?” “Eu nem queria voltar a me

    envolver com aquela maluca! Estou trabalhando aqui contra

    a minha vontade!” “Não pareceu isso Nergal.” “Dá pra parar

    de entregar meus nomes de bandeja?” “Então pare com a

    sua procura, por motivos pra discutir com Ereshkigal, 

    foi assim que começou da outra vez.”

    _Belle está tudo bem?

    _Parece que cê tava certa...

    _Eu tô bem Vic, e concordo Alex.

    _Vai conseguir fazer a sua missão com ele?

    _Ele não parece muito interessado em voltar,

    então pode ficar fria.

    _É, eu vou ficar calma. Não é nada demais.

    Olha para o agente que continua a brigar com o irmão,

    que segue gargalhando, zombando das desculpas do pobre

    , que se mostra incomodado com as alegações. Seu olhar de

    medo, se cruza com os da jovem, e ambos ficam parados,

    totalmente desconsertados. O Anticristo não tinha lhe dito 

    mentiras, ela realmente teve outros pares, e o arcanjo era um 

    deles, mas como o seu amor por Leviroth era maior, ela fingia

    que não existiam. Ele passa a mão no cabelo cortado, e por

    fim respira fundo, indo ao seu encontro. Ao chegar as

    amigas o observam como leoas prontas para

    avançar.

    _Me perdoe. Eu só fiquei irritado por

    falar mal dos anjos.

    _Tudo bem.

    _O quê aconteceu no passado, fica enterrado lá.

    _Concordo plenamente com você.

    _Podemos trabalhar juntos?

    _Certamente.

    Apertam as mãos como adultos maduros, e ele se 

    distancia, recompondo-se, após engolir a verdade seca,

    que lhe dói a garganta. “Fica no passado.” Olha para ela

    e Leviroth juntos, sorrindo um para o outro. “Enterrado

    lá.” Fecha os olhos com tristeza, e se esforça para 

    fingir que está tudo bem.  

     Olha para ela

    e Leviroth juntos, sorrindo um para o outro. “Enterrado

    lá.” Fecha os olhos com tristeza, e se esforça para 

    fingir que está tudo bem.

    _Todos reunidos. Agora podemos seguir adiante.

    O agente começa a descrever por quê cada um foi

    convocado ali. Contando toda a história que veio dá 

    origem, a esta estranha união entre iluminação e 

    trevas, com o auxílio de slides. “É dito na bíblia 

    que após a queda dele, escuridão e luz não devem 

    se misturar. Mas dado as tristes circunstâncias em que

     tanto anjos quanto os demônios, estavam a mercê da 

    extinção não tivemos outra escolha, senão nos

     juntarmos.” Inicia, com

    o olhar fixo no nada, e mostra imagens da luta

    entre o céu e o inferno. “Eles queriam paz, e nós

    a guerra porém ambos utilizamos os mesmos meios 

    para isso, e foi assim que o libertamos.” Mostra a 

    imagem do Chapeleiro para todos, e a filha de 

    Lúcifer sente um incômodo. “Todo o nosso ódio e

    mágoa, nos deixou tão cegos, que nem percebemos

    quando ele se apossou de nossos mundos, e quando

    voltamos a razão, era tarde demais.” Mostra o paraíso

    devastado, e o inferno dominado. “Por muitos séculos

    vagamos sem um lar, até acharmos este planeta no

    qual nos estabelecemos.” Mostra a chegada dos 

    Anunnakis e os reptilianos, e como eles se

    desenvolveram. “Haviam alguns conflitos vez ou 

    outra, pois somos como água e óleo. Mas nós criamos

    uma bela comunidade, tanto para anjos, quanto para

    os demônios.” Aponta para o Egito, e demonstra os

    deuses, mas não há bons ou maus, apenas os

    iluminados, e os obscuros. “Infelizmente ele nos

    encontrou. Meu povo foi escravizado outra vez, e os

    demônios se curvaram para ele, para sobreviver. Só

    restou um punhado de anjos e demônios, seguros

    do Pacto de Harmonia.” Ele mostra os seres de

    amaduras vermelhas, se curvando para o 

    ser. “Ele é aparentemente só um garoto, mas não

    se enganem, seu poder era tão grande, que o próprio

    pai, tentou devorá-lo, para o impedir de reinar.” As

    cenas agora se passam na Grécia antiga. O garoto

    é um homem agora, que domina as terras sombrias

    , e o Olimpo. Sim ele é Zeus e Hades, mas em 

    períodos diferentes. Pois o verdadeiro Zeus é o

    próprio Lúcifer, renascido após ter sido preso pelo

    próprio filho, quando era o Titã Prometheus. “Você

    será jogado na Terra do não retorno.” Diz-lhe o titã. 

    “Eu voltarei, e tomarei o trono de ti outra vez Zeus.”

    Declara o inimigo. “Dizem que Perséfone é assim.

    Mas esta foi uma forma que propagamos para 

    garantir a segurança dela.” Ele olha para

    o anjo das bruxas.

    “Só que a sua verdadeira forma é essa.” Surge o

    retrato da deusa, e as bruxas se viram para Isabelle

    , que fica transtornada com aquilo. “É idêntica a ti.”

    Diz Victória fascinada com isso. “Tem até as suas

    Tetas.” Alexandra brinca, e a jovem se cobre

    com os braços. “Ao contrário do quê os humanos

    dizem, Koré não era uma virgem, e tão pouco estava

    livre naqueles tempos, tinha um relacionamento 

    com Thanatos, sob a alcunha de Macária, e com ele teve um 

    bebê. Algo que enfureceu  bastante o

    deus dos infernos gregos, e por isso 

    ele a tomou para si.” O rapto da deusa, é mostrado

    em obras de artes, que não condizem com a sua forma

    verdadeira. “Os humanos inventaram também que a deusa

    Afrodite, era um equivalente de Inanna, a deusa mesopotâmica

    , e que esta tinha descido ao Inferno, apenas para rever o seu

    amante Adônis.” Imagens de Afrodite e Adônis surgem na

    tela. “Mas como devem saber, assim como a descida dela, a

    sua identidade também é uma mentira. Esta é a antiga forma

    dela.” A imagem da deusa é idêntica a Victória. “Isso explica

    porquê sempre acreditou no amor, mais que todos.” Diz

    Isabelle. “Ou porquê teve tantos namorados.” A outra

    bruxa brinca. “Afrodite não nasceu da espuma do mar, esta

    é uma metáfora, que esconde o seu outro nome Despina. A

    deusa renegada.” Segue contando a história sem muito

    interesse. “Ao contrário do quê a humanidade prega, ela não

    foi deixada para trás, porquê Deméter era má, ou por ser fruto

    de um abuso. Mas sim porquê Despina compactuou com os

    titãs, na guerra, para roubar o trono de Perséfone, a sua

    irmã mais velha.” Victória se sente triste, mas Isabelle segura

    sua mão, dando-lhe apoio. O quê ocorreu naqueles tempos, é

    para ser esquecido, pois hoje em dia são melhores amigas. “

    E foi assim que garantiu que Perséfone fosse levada

    ao Inferno.” Prossegue. “Despina teve orgulho de seu ato

    cruel, até sofrer as consequências. Deméter ficou desolada pela

    perda da filha, e por esta razão esqueceu dos outros filhos, não

    se importando com nenhum deles, exatamente como quando

    a caçula nasceu.” Ao ouvir aquilo Isabelle fica de queixo

    caído, pois nas suas visões em que tinha uma irmã

    , esta parecia ser muito mais amada. “Hera não queria deixar

    que Deméter fizesse um acordo para devolverem a filha. Afinal

    de contas, ela era o pilar de Despina neste plano, pois tudo o

    quê desejava, era fazer a sua rival sofrer, por tira-lhe o

    amor de Zeus.” Ao verem a história, as irmãs se entreolham,

    e lembram das vezes que viam sobre Ninlil e Inanna, que

    desde o principio queria o amor de Enlil, mas como este era 

    da irmã, ela ficou furiosa. “Me perdoa Belle.” Victória se

    sente incomodada, e chora, abraçando a sua 

    irmã. “Esta tudo bem. Nos preparamos para este dia Vic, ou

    esqueceu de como foi que nos conhecemos?” A dama ri, e a 

    moça fica sem jeito. “Despina se arrependeu, e foi até

    Hades, desfazer o acordo, mas o deus tinha se apaixonado 

    pela deusa, e não a queria deixar ir, pois temia que nunca

    mais voltasse.” Isabelle sente uma dor na garganta. “Triste

    pela derrota, a deusa renegada caminhou sem rumo, até cair no

    mar, e se encontrar com outra divindade, que estava morrendo em

     meio a tantas guerras e desavenças.” Surge a primeira Afrodite 

    celestial, sentindo-se fraca. “Me perdoe. Eu não sabia que meu ódio 

    poderia causar tantas desgraças.” Implora o perdão da deusa, esta sorri 

    e toca em seu rosto, puxando-a para perto. “Este é o meu fim Despina.

    Por tua causa, Eu o Amor estou morrendo, e é por isso que precisa

    consertar o teu erro.” Disse-lhe a deusa a beira da morte.

    “Como? Se tudo o quê consigo fazer é congelar e destruir o quê a

    minha mãe cria.” Chorou a menina de cabelos brancos e rosto jovem.

    “Através do amor minha querida. Através do amor.” Disse-lhe com

    as mãos em sua face, e a beijou calorosamente, preenchendo o

    frio em seu coração, com tanto calor, que seus cabelos

    mudaram de neve para vermelhos como as

    rosas. A luz brilhou, e por fim ela saiu das espumas renascida, a

    velha Despina, amargurada e louca por destruição tinha morrido, e

    dado espaço para a segunda Afrodite, que faria o quê estivesse ao

    seu alcance, para salvar a sua irmã do marido. “Despina não foi a

    única a receber o beijo de uma deusa, que lhe deu novos poderes.

    Koré também tinha passado por este processo, e por isso sua irmã

    se sentiu tão mal.” O anjo explica, e Isabelle fica

    a se questionar.

    _Perdão mas está errado. Eu vi o meu passado.

    Eu era a invejosa, não Despina.

    _Até onde exatamente você viu? Na infância sim,

    teve suas razões para detestar a sua irmã, pelo tipo

    de carinho que Deméter dava a ela. Mas depois que

    ficou mais velha, e recebeu a graça de Nyx, sua

    mãe teve muito orgulho de você.

    _Sim, mas Despina era mais amada e 

    querida.

    _Não, quem te disse isso?

    _Uma bruxa chamada Ariadna.

    _Ela mentiu para você. Sempre foi muito amada

    por seus pais, por ser a primeira filha deles, e mesmo

    achando que não, eles te deram tudo o quê podiam

    , para te fazer feliz. Só que o fato de dividirem 

    este amor com Despina, que te deixou

    tão chateada.

    _Mas Ariadna...

    _Claramente não é de confiança.

    Responde e prossegue ignorando os outros apelos. “Eu disse que

    nós duas fomos bem amadas.” Resmungou Victória com alegria, por

    saber que não deixou sua amiga sofrer. “Para chegar no lar

    do deus do submundo. Afrodite foi até a deusa Tétis, e pediu-lhe

    para levá-la ao fundo do mar. Para assim chegar as águas,

    que passaram pelo Tártaro.” Contou a história, e como já era de

    se esperar, Tétis tinha traços idênticos aos de Alexandra, que fez logo

    um sinal, para que as irmãs se calassem. “Em várias culturas, estas 3 deusas

    foram muito conhecidas, e como ambas tiveram domínio do submundo, logo

    formaram a egrégora de Hécate, que deu origem ao surgimento de uma

    nova deusa na mente humana.” Eis que aparece a imagem da deusa

    de três cabeças. “Afrodite, representava a jovem. Tétis a mulher,

    e Perséfone a anciã, por herdar o poder de uma titã.” Mostra a estátua,

    e aponta para o símbolo lunar na cabeça da deusa. “Esta imagem das três

    fases da lua, foi muito presente nas culturas, e suas histórias se repetiram,

    fazendo-as serem conhecidas por outros nomes. Por isso é muito comum

    , encontrar deusas equivalentes.” Diz  apontando

    para as deusas semelhantes, de outras culturas, e Isabelle ergue

    a mão, o fazendo revirar os olhos, por temer que isso

    gere uma nova discussão.

    _Sim Isabelle pode falar...

    _O meu equivalente nórdico é a Hel. O quê não coincide

    em nada com a Perséfone.

    _Não coincide com o quê os humanos sabem, mas você

    é como uma segunda Nyx, portanto faz sim sentido.

    _Se diz...

    Ele sorri forçadamente e prossegue com as explicações. Sabendo 

    agora dos seus reais poderes, que vão além dos 4 elementos, as jovens 

    são conduzidas para fora da sala, e levadas até o ginásio, onde uma das

    belas tem uma surpresa devastadora. “Você é minha agora.” Se recorda

    Victória, ao ver um belo homem de cabelos longos e negros, pálido, e

    de olhos azuis escuros, que está com o olhar vazio de um

    assassino mortal.

    _Com licença, mas o quê ele faz aqui?

    _Ah, perdão Victória. mas devido

    ao seu poder como Despina, você deu

    origem aos seres vampíricos, e por isso

    Gabriel, irá te ajudar a manipular os

    seus dons.

    _Nunca odiei tanto o fato de ser vampira.

    _Vai dá tudo certo. Você e Bóreas se

    separaram, já faz alguns séculos.

    Ele segura em seu ombro, e a empurra para os braços do irmão, lhe

    deixando, numa bela saia justa. Alexandra, e Horácio são chamados pelo

    anjo Salatiel, e ao ver este a jovem da moda caveira, cospe a água que usou

    para se acalmar, por encontrar o aparentemente ex ali. Vendo-a ali, o loiro

    de olhos verdes, sorri e acena sem más intenções, mas esta não retribui e

    sai correndo até Isabelle. “Eu não sei quem vai te ajudar. Mas você não

    me deixar sozinha com aqueles dois.” Aponta para os alados, e

    Belle arregala os olhos, puxando-a para o canto, onde

    conversam baixo.

    _Pelo visto não sou a única “ferrada” aqui.

    _Para de brincar Belle. Sabe como me sinto como

    sobre isso.

    _A gente teve tempo para se preparar, mas fomos

    ingênuas. Agora é respirar fundo, e trabalhar

    com eles.

    _Como você está sobre Miguel?

    _Bem ué. Eu temi a toa, ele me quer tanto

    , quanto eu quero peixe.

    _Detesta mais que a própria vida?

    _Exatamente.

    Ri e o arcanjo ouve aquilo com desgosto. “Sem querer

    interromper esta conversa, mas é hora de ir.” Ele chama

    a bela, e a pega pelo pulso, afastando-a da amiga. “Eu sou

    adulta.” Diz de má vontade. “Então haja como tal, e não

    se atrase para a sua aula.” Ele a arrasta, e ela se solta.

    “Eu não vou. A minha amiga precisa de mim.” Ela

    volta para Victória, que está pálida.

    _Ela vai ficar com o Gabriel. Você sabe o quê

    eles vão fazer, e não vão se matar.

    _Ela está noiva de Belliath!

    _Ah é? É costume da família dormir com outro

    no noivado. Vamos embora.

    _Não tínhamos parado de brigar?!

    _Tínhamos. Até você fofocar com a sua 

    amiga, que me odeia mais que a comida

    que detesta. Sendo que eu só te salvei

    , daquele maluco.

    _E não é verdade?! 

    _Só porquê eu disse que te acho maluca.

    Não quer dizer que te detesto.

    _E o quê quer dizer então?!

    _Que você é louca oras. Agora larga ela,

    seu marido e eu iremos te treinar.

    O anjo a afasta outra vez, e Victória fica com os

    olhos arregalados, sentindo Gabriel vindo por trás

    dela. “Vamos treinar. Preciso te ensinar a arte da

    caça.” Sussurra em seu ouvido, segurando em

    seu pulso, e inspirando a pele do seu 

    fino pescoço.

    _Eu sou noiva de Belliath.

    _Sua irmã era noiva do meu irmão.

    _Corta essa, eu sei que é filho de Bael.

    _Não sou. Bael foi um tio amável que me

    reconheceu, até se tornar Deus, e agir

    como tal.

    _E eu devia ter pena?

    _Não. Mas devia se lembrar, que nem

    sempre conseguiu resistir a mim.

    Responde dando-lhe um beijo no pescoço, que

    a deixa arrepiada. Mas para disfarçar, ela o segue e

    pega a luva de garras. Isabelle caminha ao lado do tal

    arcanjo, e entra na sala de tiro. Leviroth está acertando

    até os menores alvos com exatidão, e para não ficar

    para trás, Miguel pega uma arma, e também 

    atira, como se os dois competissem.

    _Preste atenção Isabelle.

    _Fique em silêncio e calma.

    _E se não conseguir... Apenas pense

    em algo que odeia.

    _Verdade. Imagine o prazer de atirar na

    cabeça deste ser.

    _Mire na garganta para acertar o alvo.

    Os dois atiram na mesma direção e acertam. A dama

    fica de queixo caído, e se afasta pelos raios produzidos 

    pela tensão deles. Mas Leviroth a pega por trás, e lhe

    dá uma arma para treinar. “É a sua vez amor.” Ele

    diz e lhe ajuda a mirar. Ao ver a bela, sendo

    guiada, o agente se incomoda.

    _Eu preciso tomar um ar.

    _Eu cuido das aulas.

    _Por mim tudo bem.

    _Até mais.

    O agente acena de má vontade, e sai do local, não

    querendo mais ver aquilo. Leviroth ri e abraça a esposa,

    dando-lhe um beijo caloroso. “Alguém se chateou.” Ri da

    dor do rival. “Se chateou? E você não perdeu a chance

    de piorar as coisas.” Ela brinca, e ele volta a lhe

    pegar pela cintura, encostando-a na

    parede.

    _É evidente que ele quer lembrar os

     velhos tempos.

    _Não quer nada. A gente se detesta.

    _Vai por mim, sou um espécime masculino.

    Ele não te olha com desprezo.

    _Acho que você está paranoico.

    _Não estou. Você pode não ter se preparado

    para este momento, mas eu sim.

    _Foi em vão. As chances de eu ficar com Miguel

    , são iguais a gostar de peixe.

    _Você já comeu peixe 3 vezes Izzy.

    _Comer, não significa gostar.

    _Mas que quis experimentar. Eu sei que disse

    que te deixaria ir, só que não vou fazer isso

    sem lutar, ok?

    _Você não precisa. Já me tem há mais de 9

    anos.

    Diz beijando-o com fervor. Tomado pelo medo de

    perdê-la, ele a carrega, segurando-a com força, e com

    vontade. Seus lábios vão para o pescoço dela, passando

    a língua com todo o desejo de sua licantropia, e lhe

    descendo as garras pela costa, por dentro do

    seu vestido já aberto.

    _Podem nos ver...

    _E isso importa? São adultos. Vão ignorar.

    _Você é um louco.

    _E você ama isso em mim.

    Ele abre as calças, e a deixa de joelhos. “Prove que

    é minha.” Coloca-lhe no piso, e ela se ajoelha. O órgão

    está rígido, apontando para o céu, e a bela o abocanha

    com as mãos para trás, enquanto ele lhe acaricia o

    topo da cabeça. Há tanta sede nela, que sua

    boca transborda saliva.

    _Você é minha?

    _Sim.

    _Somente minha?

    _Sim.

    _Então mostre-me o quanto me ama.

    Ela faz movimentos com a língua, saboreando seu

    membro, como um picolé encontrado no deserto. No

    entanto quando se cansa, o morde, e arranha o seu

    peito, erguendo-se como uma deusa soberana,

    sob um daemon. Algo que o faz sorrir, pois

    é sua hora de amá-la.

    _Ah Tempo cruel. Gosta do sabor de sua

    doce Alice?

    _Adoro!

    _Quanta sede. Parece está me devorando...

    _E você não quer ser devorada pelo

    Tempo?

    _Não! Eu quero devorá-lo!

    O empurra, e então monta sob o seu corpo, como

    uma amazona, e escorre liquido do meio das sua pernas,

    envolta do falo dele. O agente resolve voltar, e se depara

    com a cena. Ao ver os olhos de prazer intenso da moça,

    ele de imediato desaparece. O demônio não está

    errado, há interesses obscuros no anjo.

    _Devemos terminar... logo...Tempo.

    _Não, enquanto você não provar o seu desejo.

    _O quê deseja de mim?

    _Que se entregue, e esqueça onde estamos.

    Ele a abraça, e a coloca deitada no piso. Mergulhando

    seus dentes nos seios dela, e a fazendo delirar de loucura

    amorosa. Ao ponto de gemer tão alto, que sofre uma

    represália. Seu amado puxa-lhe o cabelo na nuca,

    e lhe cala com um beijo.

    _Ah!

    _É esse rosto que gosto de vê...

    _Ah! Eu vou! 

    _Sim querida, me pinte com sua 

    tinta deliciosa...

    _Ah! 

    Ela o beija, sentindo seu corpo trêmulo, e suas palmas

    afundam no peito, enquanto ele a prende em cima, com

    um sorriso maldoso, não a deixando escapar, até não ter

    mais gotas peroladas. Os olhos dela se apertam, é uma

    energia muito grande, até que não suporta, e os

    dois se derretem no fogo do amor.

    _Eu preciso tomar uma pílula. 

    _Eles devem ter por aqui.

    _E se não tiverem?

    _Odin vai nascer...

    _Vai me prender de novo com um filho?

    _Funcionou da outra vez, por quê

    não?

    _Você é um idiota.

    _Mas você não vive sem mim.

    Ele se deita e ela se recosta em seu peito adormecendo.

    Mais tarde... os efeitos da paixão foram tão fortes, que o ser

    das trevas continua adormecido. Contudo o medo de Isabelle

    de engravidar uma segunda vez, a faz se levantar, e dá uma

    volta pelo corredor, onde por coincidência se encontra

    Miguel, que está sentado na parede, e nota o seu 

    medo.

    _Precisando de uma pílula do dia seguinte?

    _O quê? Como sabe?!

    _Eu voltei a sala... e vi tudo.

    _Ah sim... Não tem nada demais a 

    gente é casado, é o quê pessoas casadas 

    fazem oras. Elas transam!

    _É, eu sei. Sei também que praticam

    isso há mais tempo, que a sua 

    união.

    _Por quê minha vida pessoal te

    interessa tanto? 

    _Não interessa só não pude deixar

    de refletir a respeito.

    Ele se levanta, e entrega a cartela a ela. Seus olhos

    azuis estão frios, magoados por alguma razão. Na sua

    mente, se passam pensamentos dos quais pode vim a se

    arrepender, se colocar em prática. “Como ela ainda mexe

    tanto comigo?” Pensa ainda parado ali, imerso em sua

    cabeça. “Ele está cada vez mais estranho.” Ela

    o olha, e se afasta.

    Sem dizer nada, sua mão agarra o pulso dela, não

    a deixando ir. Ele fica cabisbaixo, sabe que o quê quer

    que esteja planejando, pode ser um risco gigante dado

    ao fato, de que Leviroth, Lúcifer, Enki, Belial, e todos

    os deuses que não aprovaram esta união, podem

    puni-lo a sangue frio.

    _Eu preciso ir.

    _Não precisa. É noite, todos estão dormindo.

    _Você está me assustando...

    _Eu não sou o Anticristo. Não tentarei nada.

    Apenas fique.

    _O quê há com você? Horas diz que me odeia,

    minutos depois parece que...

    _Eu ainda te amo? 

    Aquelas palavras a quebram em mil pedaços. Numa

    explosão tão impactante, que ela fica sem palavras. Ele

    da um passo a frente, ela dá dois para trás, e acaba “no

    muro”. Suas mãos tremem sem parar, Leviroth está

    certo, ele não a olha com desprezo, e quer

    reviver os anos dourados.

    _Você me odeia lembra? Não quer se envolver

    com uma maluca, não tem a intenção de

    cometer esse erro de novo.

    _Eu disse aquilo para me proteger. Mas ainda

    sim, te deitei em meu ombro antes de 

    chagarmos aqui.

    _Não tem nada demais...

    _Eu te quis perto de mim.

    _Você, tá confuso, não sente nada por

    mim, não mais. Você mesmo disse “o

    passado fica enterrado lá.”

    Diz ela e ele segura em sua face, e tudo acontece rápido 

    demais, para que consiga impedir. Seus lábios estão ligados

    aos dele, seus olhos se fecham por um breve segundo, mas

    ela luta para ficar acordada. Não se entregando aos seus

    impulsos românticos, e ficando petrificada diante dele.

    O quê o leva a entender que só um dos lados

    sente algo, e não é ela.

    _Me desculpa.

    _Tá tudo bem...

    _Eu só me deixei levar pelo ciúme...

    _Não diga nada. 

    _O quê?

    _É melhor se convencer que não sente nada

    , absolutamente nada por mim.

    _Eu não posso. Não dá mais.

    _Você teve o seu tempo, e não veio. Me deixou

    cartas, mas nunca se aproximou.

    _Como você...

    _Eu te amei naquele tempo, de verdade.

    Mas você não sentiu o suficiente para

    lutar por nós.

    _Você corria risco de vida!

    _Eu queria me arriscar!

    Grita tão alto que sua voz ecoa pelo local, e ela

    mesmo se cala. Lágrimas escorrem pela sua face, e

    tudo vem a tona. Ele esteve presente nesta vida, só

    que era como um admirador secreto, um vampiro

    a espreita, que por mais que se comunicasse,

    nunca podia se aproximar.

    _Eu esperei incansavelmente por você.

    _Eu não podia... Isso ia te matar.

    _Eu nunca me importei em morrer e você

    sabe.

    _Mas Isabelle eu não queria te perder de novo,

    como quando se atirou para fora do paraíso

    , e se matou.

    _Você sabia quem eu era...

    _Sempre soube. Tive uma minha memória intacta

    sobre o passado. 

    _Então por quê não lutou pra ficar comigo?!

    Lhe bate no peito, e ele segura seu pulso, abraçando-a

    forte em seguida. “Fora o risco. Você tinha que fazer a sua

    escolha sozinha. Te mandar cartas foi uma trapaça.” Ele diz

    em seu ouvido, e uma lágrima cai no piso. “Era lindo ler 

    que seria minha até depois da morte. Mas eu não

    podia te condenar a mim outra vez.” A

    aperta.

    _Minha vida, assim como a sua, não foi um

    mar de rosas. Também tive uma mãe louca,

    só que a minha matou todas as minhas

    namoradas.

    _Forma bonita de preservar o amor...

    Com muitas namoradas.

    _Você não era uma humana estúpida,

    tinha valor para mim, e merecia ser feliz

    , longe de todo este...este inferno.

    _Eu teria enfrentado as chamas com

    Você.

    _Teria acabado morta, por não ter despertado.

    _Então me deixou ir...

    _Sim. Mas não totalmente...Sempre te protegi

    de longe, mesmo quando pensou está só.

    _Isso não é verdade...

    _Acha que aquele bandido que te abordou

    pegou fogo por acidente?

    _Mas quem me protege desta forma é o diabo.

    _Lamento te informar...mas ele não é o

    único.

    O belo se lembra do tempo que tinha os cabelos longos

    até o ombro, e a vigiava, quando não fingia ser humano. A

    salvando de malfeitores, que poderiam chegar ao lugar no

    qual se encontrava. Algumas vezes não resistia, e entrava 

    em seu quarto, no escuro, e ficava vendo-a dormir. Mas 

    tudo isso parou, quando Bener entrou na vida dela, pois

    o anjo tinha consciência, de que o demônio também 

    poderia protegê-la, por isso partiu. Ela respira fundo

    , e o afasta, deixando-o sem jeito.

    _Obrigada pela ajuda.

    _Mas?

    _O quê aconteceu, não 

    vai se repetir.

    _E ?

    _Você vai contar ao meu 

    marido, mesmo sabendo 

    das consequências.

    _Estou ciente.

    _Não precisa. Eu vi tudo.

    Leviroth aparece na porta do lugar,

    com os braços cruzados. A bela corre

    para o marido, e este fica parado. Os

    olhos dela imploram pelo abraço

    dele, e este a envolve contra o

    peito, encarando o 

    outro.

    _Eu já sabia que isso aconteceria.

    _Você me odeia?

    _Não a culpe Leviroth.

    _Como eu disse, vi tudo Miguel.

    Você a cercou, e ela não cedeu.

    _Não mesmo.

    _Se estão resolvidos. Não tenho

    mais o quê fazer aqui.

    _Vai descansar Izzy. Tá tudo bem.

    Ele a conduz para a sala, e a deixa lá, com um sorriso. 

    Mas ao se virar, a sua raiva cresce tanto, que os seus olhos

    ficam negros por completo, e ele flutua em alta velocidade

    , e pegando o rival pela gola da camisa. O erguendo no

    topo da parede, com completa fúria.

    _Fique longe dela.

    _Depois da rejeição, não tinha

    a intenção de fazer algo 

    mais.

    _Estou falando sério "filinho de

    papai"! 

    _O principe renegado está 

    de volta?

    _Ele nunca saiu. 

    _Eu não vou tentar mais nada

    com a sua esposa. 

    _Ótimo.

    O demônio o coloca no piso. Se sentindo mais calmo, 

    ao ponto dos olhos negros, voltarem ao estado normal.

     "Mas eu não vou ficar longe dela." O agente da um

    escorão no rival, e passa por ele.

     

     

     

     

     

    Capitulo 4- O demônio, o anjo

    e a simbiose.

    .

     

    Leviroth respira fundo, e caminha pelo local, até 

    encontrar o templo do deus Enki, que está sentado em

    um trono, acima das águas. Ao ver o rapaz, o deus o

    chama, e este se curva perante a ele.

    _Levante-se garoto. Tu és um

    nobre.

    _Sou um nobre apenas porquê

    me destes a graça, meu 

    Senhor.

    _Isto não é verdade meu jovem.

    _Não é?

    _É hora de saberes a verdade,

    então observe a tua resposta.

    O deus ergue as águas, e cobre o  príncipe com elas. 

    Ele viaja até o seu passado, e se depara com três bebês.

     "Eis o nascimento da luz, das trevas, e do equilíbrio." Diz a 

    voz de Enki. O primeiro bebê brilha mais que o sol, já o segundo 

    enegrece como o cosmo, e o terceiro, ao contrário dos outros, é 

    escuro com a luz em seu interior. "Tem se falado muito da trindade

    feminina, mas há também a trindade masculina, e aliás esta foi a

     primeira a existir." Prossegue com aquela narração. "O pai é a

     existência, e os gêmeos são vida e morte." Conta, e

    surge Samael, segurando dois bebês, junto de Lilith."Antes do 

    nascimento da escolhida, e se tornar Lúcifer, Samael teve dois filhos 

    inicialmente. Um nasceu de sua sede de sangue, o outro surgiu de sua

     justiça." Gêmeos enfrentam um ao outro na barriga. "A luz forte do

    primeiro filho, obrigou Samael a lhe esconder do mundo, para não o 

    queimar. Enquanto a escuridão se  fez viva." Os irmãos se separam. "A 

    primeira filha de Samael  nasceu. A escuridão não se conteve e tomou-a 

    para si, e com ela, a princesa angelical se juntou." A jovem ruiva abraça

    ao demônio de olhos vermelhos. "A menina ao  contrário dos seus 

    irmãos, não herdou nem luz, nem as sombras, mas sim o controle 

    de ambos." Diz o deus com a sua sabedoria, e surge a bela 

    dançando com o amado acima da terra, enquanto o 

    gêmeo de 

    poder solar, olha para ela. "Os três bebês que viu, são os primeiros filhos 

    sagrados." Agora eles estão mais velhos, cada um 

    reinando de uma forma. O gêmeo solar, lidera um império de fogo. O gêmeo 

    negro, lidera a escuridão, e a jovem deusa fica entre ambos, usando forças de luz 

    e trevas. "É dito que Lúcifer reina no inferno. Isso é uma mentira. Ele está acima disso, e reina nos céus como o senhor do ar, da vida, e da criação." Prossegue. "Ele separou

    Anu e Namu, mas criou tudo isto, e seus filhos ficaram responsáveis pela 

    governança de suas terras."  Diz o deus. "Após os mais velhos, seguirem seus 

    rumos, os mais jovens vieram a se preparar, para serem deuses." Os outros deuses surgem, e cada um tem um dom diferente. "Luciféria treinou os deuses que cuidavam das forças da natureza. Bael cuidou dos seres das profundezas. E você, jovem príncipe Azazel, ensinou os seres das sombras." Ao ouvir o nome Leviroth, respira e se 

    afoga.  O quê obriga o deus, a tirá-lo das águas. 

    _Eu sou Leviroth. O príncipe 

    renegado. O rebelde.

    _Não. Você é Azazel o príncipe

    do caos, e grande mago das 

    sombras.

    _Eu sou filho de Deus e Asherah.

    _Não. Você é filho de Enlil e

    Ninlil. Como seus irmãos.

    _Eu sempre servi a Odin e Gaya.

    _Sua mãe é Nyx e seu pai Eros.

    _Mas Luciféria é filha de Zeus e

    Deméter. Outras faces de seus 

    pais, depois de Hades e Hera 

    prendê-los. 

    _Eu sou o filho de Odin. Não do amor.

    Ali por trás da porta, Isabelle ouve a discussão, e vai

    até os aposentos do pai. No qual o encontra sentado no

    seu trono, e se curva perante a ele. “Minha princesa erga-te,

    e jamais se curve a outro nobre, que não seja você mesma.”

    Diz o deus supremo, e a jovem moça, fica de pé indo 

    até ele, que já tem todas as respostas na

    ponta da língua.

    _Quer saber quem é o Anticristo,e o quê ele 

    e você tiveram. Se Enki mentiu ou não para o

    demônio Leviroth. E porquê o chama por

    Azazel.

    _Sim...Primeiro acreditei que ele era meu

    tio. Depois conclui que era meu irmão.

    _Descobriu o certo minha querida.

    _E por quê sonho que sou mulher dele, se

    sou casada com Leviroth?

    _Porquê a luz busca a escuridão...

    _Então ele devia ter um relacionamento

    gay com Leviroth, ou incestuoso com

    minha mãe.

    _Você não sabe mesmo, qual é o seu

    papel nisso tudo não é?

    _Sou a “messias negra”, nascida para

    guiar o teu povo.

    Isabelle revira os olhos, pois desde o episódio da 

    floresta, deixou de acreditar no seu destino grandioso,

    e Lúcifer ri disso, pois nota na filha, a mesma forma com

    a qual a esposa demonstra desgosto. Elas são parecidas,

    até quando a menina deseja se desvencilhar de tudo, pois

    encontrar a si mesmo no escuro, é o mesmo que achar 

    os demônios insaciáveis de Lilith, que ficam a 

    espreita no fundo da mente.

    _E você sabe o quê significa?

    _Que tenho que liderar suas tropas. Sendo que

    só consigo falar com meus amigos?

    _Não tem a ver com o povo Lucy. Tem a ver com 

    você.

    _Eu não tenho poderes como Afrodite e Tétis.

    Controlo ervas e escrevo o futuro.

    _Sua mãe lhe deu o maior dom dela. O dom

    da noite minha querida, com o qual você fez

    de seus irmãos, deuses abissais.

    _E o quê é esse “dom da noite”?

    _É o dom que dá vida as coisas, e que mantém

    o universo em equilíbrio.

    Isabelle se mostra confusa, e o deus se levanta,

    para lhe ajudar a entender melhor do quê se trata.

    A bela recua temendo o quê está por vir, mas o pai

    a segura, e lhe guia até a câmara, onde mostra os

    velhos tesouros da família luciferiana, e o seu

    diário.

    _E o quê isso tem a ver com o Anticristo?

    _Abra o livro da sabedoria, que seu tio Enki

    fez para mim, e saberá.

    _Acha que estou pronta? 

    _Teve 13 anos para se preparar minha

    querida. Vá em frente.

    _Você vai me proteger?

    _Sempre.

    As mãos dela pousam no livro, e com cuidado ela

    o abre. As folhas se passam rapidamente, até que por

    fim viram vultos, e a bela desmaia nos braços do seu 

    pai, deixando seu corpo para trás, até chegar no inicio

    da civilização da Terra. Luciféria está sentada no 

    lado de uma rocha, com lágrimas em sua

    face.

    _Por quê chora criança?

    _Porquê perdi meus pais para sempre.

    _Eles morreram?

    _Não...Mas Ela nasceu.

    _Ela?

    _Minha irmã...

    _Irmãos são complicados. Por isso quis

    matar os meus.

    _Eu entendo.

    Sem saber de quem se tratava. Ela desenvolveu uma

    amizade com o sol do subsolo, e este também sentiu-se

    ligado a moça, ao ponto de fazer crescer uma flor para 

    sentir seu toque. Ela o via como um amigo, um cão de 

    guarda, para quem podia contar todos os seus 

    segredos.

    _Será que brilho tanto quanto o sol?

    _Consegue ver aí dentro?

    _Sim... mas não estou brilhando no momento.

    _Então como está vendo?

    _Joguei minhas chamas nas velas.

    _Entendo.

    _Tudo bem com você criança?

    _Para de me chamar assim. É só a minha irmã...

    Eu só queria matá-la. Mas não quero acabar

    como você Sr. Rá.

    _É, é melhor tomar cuidado. O escuro pode

    não ser agradável.

    A advertiu. Luciféria tinha tanta estima pelo amigo,

    que a entendia como ninguém mais, que passou a ler

    os arquivos de Miguel, para encontrar uma brecha que

    o libertasse, e o devolvesse para este mundo. Sim, ela

    usou o anjo, para conseguir ajudar o ser que vivia

    nas profundezas, e assim o tirou daquele

    lugar sombrio.

    _Você?

    _Você? É a garotinha...

    _Que você molestou.

    _Luciféria me perdoa...Eu não sabia...

    _Você vai voltar pra jaula!

    Tenta empurrá-lo, mas ele segura sua mão, e a olha nos

    olhos, com suas íris cor de sangue. Ele realmente se sente

    culpado, por ter a tocado indevidamente, mas ela só quer

    mandá-lo de volta para a prisão. Miguel presencia este

    momento, e corre para ajudá-la, assim ambos o

    colocam de volta na caverna. Mas ele percebe que foi a

    princesa que o libertou, e fica chateado. Ela se justifica por

    ele ter lhe entregado a Inanna, que queria matá-la quando

    era um bebê, só que o arcanjo continua magoado. 

    “Luciféria?” Pergunta a voz do submundo.

    _Eu nunca mais quero falar com você!

    _Eu sempre te avisei que era um monstro.

    _Não achava que era o Meu monstro!

    _Se acalme. Não há motivos para gritos.

    _Você me tocou, e abusou de outras!

    _Eu lhes dei a escolha.

    _Engraçado, eu não tive esta escolha.

    _Isso porquê Inanna te odiava.

    Ao ouvir a última frase, ela o deixa falando sozinho,

    e tenta retomar a sua vida como se nunca tivesse lhe

    conhecido. Miguel segue ignorando-a. Céu e Terra não

    devem se misturar mesmo, desde que Enlil ficou entre 

    eles. O arcanjo e novo brigadeiro das tropas do deus 

    Anu, e não o esconde o desgosto, pois realmente

    tinha um sentimento forte pela primogênita 

    de Lúcifer. 

    _Vai me ignorar para sempre?

    _Só por quê me usou para libertar o Diabo?

    Não imagina.

    _Me perdoa. Eu não sabia de quem se

    tratava.

    _Só há um prisioneiro terrível no universo.

    _Como eu ia saber que era ele?

    _Eu não estou nem aí para o quê acha Luciféria.

    Só me importa o fato de ter me traído, para

    ficar com ele.

    _Trair? Nós somos amigos!

    _Correção éramos amigos. Até mais.

    O arcanjo a deixa, e ela olha para o seu irmão mais

    velho, que também não aprova a sua atitude. Ao chegar

    no castelo, Luciféria vê os pais brincando com a irmã, e

    sorrindo, e ela sente muita raiva daquilo, pois os pais

    estavam tão focados em cuidar de Aggarath, que

    nem perceberam o risco no qual ela se meteu.

    “Ninguém me ama. Eu estou sozinha. Sendo esquecida.

    Perdendo o quê me importa.” Se senta encostada de costas

    para a parede, e coloca as mãos na cabeça, como se algo no

    seu interior, quisesse se libertar, e ela não pudesse deixar. 

    Só que como ninguém a vê ela perde o controle, e

    retorna até a floresta proibida.

    Seus pés caminham pela terra molhada. Os olhos violetas

    ficam vazios. O vento bate em seu cabelo que está a mudar de

    cor, deixando de ser vermelho, para virar roxo escuro. A pele

    alva, empalidece até ficar cor de papel. Ela desenha os

    símbolos na rocha, e invoca a destruição.

    _Luciféria?

    _Você precisa me compensar pelo ocorrido.

    _Por quê me libertou de vez? Sabia que posso 

    destruir o universo?

    _Sim, eu sei, e eu quero que faça isso, é a uma

    forma de me agradecer por te libertar.

    _Eles vão te matar, se descobrirem. 

    _Eu não quero viver Sr. Rá.

    A gigantesca e bela criatura, fica assustada com as fortes

    palavras proferidas pelos lábios da criança de 13 anos, e antes

    de fazer alguma coisa para tirá-la dali, ela desaparece, e deita

    na sua cama com os pés sujos. Na manhã seguinte...Há muito

    alvoroço a respeito da fuga de Bael, e ela fica transtornada

    com o fato de se encontrar tão suja. “Não resistiu ao

    amor que tinha por ele não é?” Diz Miguel

    sentado no canto da janela.

    _Do quê você está falando?!

    _Só uma criatura se compadeceu pela solidão

    do demônio. Não há duvidas de que tem culpa

    no cartório.

    _Eu não fiz nada Miguel. 

    _E estes pés sujos?

    _Eu não me lembro. Só estava muito triste,

    Irritada, e fui dormi.

    _Não foi você?! 

    _Não. 

    _Não está mentindo para proteger o seu amado?

    _O quê? Eu não o amo! E sim, não há porquê

    mentir pra você.

    Luciféria cresceu, sem saber do seu lado negro, 

    e por sorte e ajuda do ser do outro mundo, ninguém 

    nunca soube do seu segredo, até aquele dia. Ela agora

    tinha 16 anos, muita coisa tinha acontecido. Azazel e

    ela haviam se envolvido, pouco antes de se casar

    com Miguel, algo que o deixou furioso, ao

    ponto de castigá-la.

    _Não faça nada comigo por favor...

    _Você gosta da escuridão não é? Pois

    vai conhecê-la!

    _Por favor não faça isso!

    _Divirta-se demônio.

    Disse deixando-a trancada na cela do demônio, e

    este estava tão insano de raiva, que não se conteve, e

    tirou-lhe as roupas ali mesmo. “Socorro!” Ela berrou por

    não saber quem estava no escuro. Suas mãos passaram

    pela janela da porta, e só ouviu-se o impacto do seu

    corpo sendo violado friamente. Até que ele viu

    seu rosto na luz, e ficou em pânico.

    _Luciféria?

    _Bael?

    _Eu não sabia...

    _Você...Continua...Sendo um monstro.

    Ela desmaiou em seus braços, e ele derramou 

    lágrimas sob seus pequenos seios. Miguel chegou a 

    este ponto, pois desde pequenos Luciféria e Azazel eram 

    quase inseparáveis. Um cuidava do outro, e  se protegiam

    do resto mundo, por isso mesmo quando ela nutriu uma

    forte paixão por Miguel, o príncipe rebelde sempre foi

    um empecilho. Desta forma, para livrar-se do rival,

    o arcanjo com a ajuda de Inanna, adulterou o 

    DNA dele, e o fez crer ser filho de Anu.

    _Azazel por favor fica.

    _Este não é o meu lugar Lucy.

    _É claro que é. Meu pai te ama como

    se fosse filho dele. Te dará um reino

    também!

    _Eu não quero viver de caridade mais.

    Adeus Lucy.

    Disse dando-lhe um beijo de despedida. “O quê?”

    Olhos confusos o encararam. “Não deixe o idiota do 

    noivo saber.” Riu se preparando para ir. “Por favor 

    fica” Agarrou-lhe o braço. “Me perdoa mas não

    posso.”  Beijou-a na testa, e foi embora.

    A tristeza por não ser filho de Samael, o deixou tão

    devastado, que ele deixou o palácio do pai, para viver

    com o verdadeiro, abandonando sua irmã e melhor

    amiga, e fazendo-a se sentir tão só, que esta

    encontrou refúgio nos braços do

    Diabo.

    “Ela sempre encontra um demônio! Um maldito

    demônio para amar!” Pensava Miguel entorpecido pelo 

    ódio, passando a mão pelos longos cabelos. Após algumas

    horas, ele volta a cela, e tira suas roupas para que

    Luciféria pense que foi ele, e não Bael, pois se

    descobrirem que Anu o protege, todos

    se voltarão contra o supremo.

    Mas esta não é a pior parte de tudo...A irmã de

    Luciféria com seus poderes de criar ilusão, fez a mãe

    crer que esta tinha copulado com o próprio pai, quando

    a culpada pelo crime era a acusadora. Ela foi expulsa

    de Irkala, e mandada de volta a Dilmun, onde

    sofreu grandes humilhações.

    A raiva de Miguel a perseguiu, por todos os cantos,

    até virar uma prisioneira, e quase sofrer abusos na mão

    dos deuses menores. Azazel a reconheceu de imediato

    , e por isso correu até cela, para impedir que o ato

    chegasse ao objetivo. Ao ouvir a voz do grande

    general, todos se curvaram para ele, e este

    foi até a cruz.

    O rosto dela estava vermelho de tanto chorar,

    os cabelos mais escuros que o normal, e ao contrário

    dos cachos, tinham alisado, e caiam sem parar. Ao 

    vê-la naquele estado, ele segurou em sua face

    , quase que em desespero.

    _Quem foi o responsável por isso?

    _Oras Senhor. O brigadeiro Mikael nos deu

    carta branca para fazermos o quê quisermos

    com ela.

    _E alguém fez?

    _Eu fiz. Penetrei o corpo dela com os dedos,

    até fazê-la gritar.

    Disse um deus grande e robusto. Ao ouvir aquilo 

    o jovem sorriu, e o jogou contra a parede, o retalhando

    com a sua adaga, com tanta cólera, que só parou após

    deixá-lo em pedaços. Vendo aquilo, os deuses se

    cobriram, e saíram correndo assustados, por

    temor as suas vidas

    _Você está a salvo agora.

    _Obrigada.

    _Que confusão aprontou para vim parar aqui?

    _De todas as vezes que fui culpada, esta é

    a única que não sou. Nossa mãe me

    expulsou de casa.

    _O quê? Por quê?

    _Ela jura que eu dormi com meu pai.

    Mas eu não fiz isso.

    _Não mesmo?

    _Está desconfiando de mim?

    _É que você nutria sentimentos pelo meu

    Irmão mal, então...

    _Eu estava sendo estuprada na hora.

    Por isso não tem lógica.

    _E quem fez isso com você?!

    _Miguel.

    Ouvindo o famoso nome, e ele a tira da cruz, e a 

    carrega para o canto, onde lhe deita, e a deixa para

    dormir, enquanto sai a caça do rival. “Vigie a cela 13.”

    Ordena para o soldado, e este se recusa. “É melhor

    fazer o quê digo. Pois sou seu superior.” O pega

    pela gola da camisa, e seus olhos ficam

    negros como carvão.

    O gêmeo mal procura pela moça, em forma de 

    luz, e quando a encontra se materializa. Seus dedos

    tiram o cabelo da face dela, e ao vê-la tão maltratada,

    o pouco de sentimento que lhe resta, o faz ter ódio

    do céu, e todas as espécies que a machucaram,

    por isso ele inicia sua vingança.

    Isabelle não suporta todas as visões dolorosas

    do seu passado, e volta a si mesma, acordando no

    sofá dourado de seu pai, que está lhe aguardando

    com um relógio, e uma bandeja com comidas

    apetitosas.

    _Sem refrigerante?

    _Precisa se alimentar melhor e sabe disso.

    O refrigerante é uma arma pra matar

    as células dos mortais.

    _E os pesticidas nas frutas, são tão

    diferentes disso né?

    _Apenas coma. Mandei preparar especialmente

    para você, achei que voltaria faminta da sua

    jornada. Então como foi?

    Pergunta empurrando a bandejinha para ela, e

    esta rejeita. Ele revira os olhos, estala os dedos, e

    lhe dá o refrigerante. Assim ela pega o murffy de 

    morango com chantilly, e o devora numa 

    bocada só.

    _Azazel me ama...

    _Sim.

    _O Anticristo também...

    _De fato. 

    _Mas Miguel é um babaca que merece morrer.

    _Não está tão longe da verdade, mas porquê

    Miguel está entre seus pares?

    _É que aquele idiota me beijou.

    _Ah ele te beijou? Interessante.

    “Esse garoto tá morto. Não vou deixar desgraçar a

    vida da minha filha de novo, ao ponto dela se jogar na

    água, e se perfurar com a matadora de deuses.” Pensa

    sorrindo e ignorando metade do quê a moça diz, pois

    já sabe de que respostas se tratam. Mas ela está

    tão entusiasmada, que não se cala.

    _Eu cheguei a ficar com o anticristo?

    _Sim... Depois que o prendemos outra vez 

    no subsolo, ele a roubou para si.

    _Então o rapto...os meus pesadelos...

    _São reais.

    _Sim, mas por quê me chamavam de virgem?

    _Porquê o cristianismo perverteu o sentido

    da palavra Koré. Devia significar apenas

    jovem e não virgem.

    _Ah sim.

    Ao ouvir aquilo ela fica feliz, e quase salta de alegria,

    pois o tema virgindade, pesava-lhe demais a consciência,

    e saber que o nome foi corrompido, lhe trouxe paz de

    espírito. “Maldita seja a igreja católica, e sua mania

    de demonizar tudo.” Conclui, mas logo a alegria

    vai embora, e dá espaço para a 

    tristeza.

    _ Por quê você e a mamãe me esqueceram?

    _Nunca a esquecemos.

    _Nem viram, quando eu estava falando com

    Bael.

    _Na verdade vimos. Mas acreditávamos que com

    o seu dom poderia equilibrá-lo.

    _Então eu posso curar o ódio dele?

    _Sim, se atravessar a escuridão, e lhe puxar

    para a superfície.

    _Ou seja me envolvendo com ele...

     

    _Me envolvendo com ele... 

    _Sim, mas é uma escolha sua , caso opte por seguir o caminho atual, também pode matá-lo. Isso é o quê poder de Nyx representa para você. _Ele é seu filho...como eu e  Aggarath. 

    _Ele deixou de ser meu filho,  quando cometeu todos aqueles  crimes abomináveis. Ao ouvir a dureza na voz do pai, Isabelle salta para trás, pois pelo  quê o anticristo disse, ela já esteve do seu lado, e deve ter sido renegada da mesma forma, por caminhar com as trevas verdadeiras do universo. Por isso se preocupa, e tenta ficar calada, mas não consegue. 

    _Eu já andei com ele. 

    _Não teve culpa de amá-lo. 

    Com você ele foi bom. 

    _Epa eu nunca o amei. _Será mesmo? Quase destruiu o mundo quando o prendemos. _Eu não me lembro disso... 

    _Você se esforçou para apagar , nas duas vezes. Mas ele não vai deixar assim, então venha e veja... 

    Lúcifer mostra os retratos dos deuses traidores, e na maioria deles , a deusa meio lunar e solar caminha com o sol. Ela julga os inimigos dele, e ele destrói os que a ferem. Para a infelicidade da moça, dá para  notar a ligação entre eles. 

    _Esta... 

    _Sim é você. 

    _Por quantos séculos estive  

    com ele? 

    _Uns 500 anos. No começo ele a  raptou, depois você voltou por vontade própria. _Ele me raptou e eu retornei?! _Sim. Até se casou com ele, como não fez nem com Azazel, nem com Miguel. 

    _Foi forçado né?!  

    _Ele fingiu ser Azazel na verdade, mas depois você descobriu, e não lhe pediu o divórcio. _Eu sei... Já tinha visto isso. Só queria que não fosse real. _É bem real, e você tem que decidir se vai ajudá-lo ou matá-lo. Aquelas palavras ficam na mente  da moça por vários dias. "ajudar ou matar." Fica a refletir, sem saber que partido deve tomar. Afinal era do próprio Diabo que se tratava, porém  apesar dos pesares, ele tinha sido bom pra ela em  alguns momentos, e isto tornava seu julgamento  turvo. 

    Certo dia ele a chama para sair, e ela aceita,  para tirar a dúvida da sua cabeça. Preocupada em ser raptada, pede para irem a um lugar público, e eles ficam sentados na beira de uma escada, em frente a um  museu todo branco. Ao contrário da outra vez, ele não  está mascarado, e está vestido como no helloween,  enquanto ela está mal vestida, lembrando os  nerds da antigas. Não querendo atraí-lo. 

    _Sem máscaras desta vez? 

    _Sem marido?  

    _Ele me deu permissão para vim. _Você sendo submissa? Esse cara tem que me dá o manual! 

    _Vamos nos engalfinhar ou conversar? 

    _Certo. O quê quer saber de mim? 

    _Foi você que me chamou para sair. 

    Achei que você tinha perguntas. _Eu li o escreveu no seu site...Apenas quis ser gentil. 

    Responde bebendo um copo de refrigerante, e  ela olha para o lado, ele oferece a bebida, mas a dama recusa, e por isso ele avança na sua direção,  deixando-a do seu lado. "O quê ele está fazendo?" se afasta dali, mas o copo fica onde ele quer. 

    _Certo. Como perguntar isso? 

    _Sim, você me amou. 

    _Não era o quê ia perguntar. 

    _Mas é o quê quero esclarecer. 

    _Não seja um idiota.  

    _Está certo. Pergunte. 

    Ele passa o braço envolta dela e pega a bebida. Seus olhos frios cruzam os dela, e esta sente o rosto esquentar de vergonha. Por isso se afasta um pouco mais, e ele segura seu pulso, imobilizando-a com gentileza. 

    _Fica calma. Não vou fazer nada. 

    _Foi o quê disse da outra vez... 

    _Nada que Você não queira. Mas enfim veio pra falar de relacionamento, ou quer um esclarecimento útil? 

    _Então relacionamento não é útil?  

    Tanto faz. Como isso aconteceu? 

    _Não, quando quem eu queria não me quer. Foi bem simples você teve síndrome de Estocolmo, e ficou comigo. 

    Responde de forma seca e ela se levanta para ir embora. Outra vez ele respira fundo, e agarra no seu braço, impedindo-a de seguir em frente. Ela volta , e se senta a alguns centímetros de distância. “Isso não vai acabar bem.” Olha para o lado, sentindo arrependimento, e pega o celular. _Eu sei que está aqui para saber se deve me matar ou não.  

    _Mas eu não escrevi isso no site. 

    _Não sou burro, e você sempre foi previsível. Banca a rainha do mal, mas no fundo tem uma gota de piedade. 

    _Esta é a Victória, não eu. _Se veio até mim, o próprio ato contradiz suas palavras. Você sabe que te torturei, que te machuquei, e destruí o teu psicológico. Mas mesmo assim veio me dá uma chance de me redimir. 

    _Não vim para isso. 

    _Não minta para si mesma. Foi usando a justiça a teu favor, que não se tornou tão abominável, mesmo exterminando 75% da humanidade. 

    _Não me lembre disso... 

    _Tem medo? 

    _Não vem ao caso. 

    Ela sente as mãos dele em sua face, e recua. Ele sorri, e se levanta, outra vez bloqueando as chances dela escapar. Preocupada com estes avanços sutis, ela clica na tela para ligar para Victória, mas ele toma o seu aparelho. 

    _Confie em mim. Se quer a verdade. 

    _Por quê me escolheu? 

    _Eu não escolhi, aconteceu, e não fui capaz de deixar pra lá. 

    _Eu cometi atos de crueldade ao seu lado? _Não, embora me dissesse que sentia prazer em torturar alguns pecadores. _Por quê não me deixou ir se não tenho nada a ver com você? 

    _Você se engana. Somos bem parecidos,  mas eu abracei a escuridão, e você ficou com medo dela. 

    _Então fiquei no lado da luz? 

    _Não, você habitou o purgatório. Nem luz , nem escuridão. Tinha desprezo 

    pela primeira, e temia a segunda. Então ficou num lugar próprio. 

    Ela inspira fundo, e ele ri, erguendo a mão. “Segure-a, e saberei que tenho uma chance.” É o quê ele pensa. Ao sentir calafrios, ela evita-o, e  os dois voltam para a escada, onde se sentam. “ Droga. Mas não vou desistir, ela vai ceder. É o destino que escrevi, e a própria deusa mãe abençoou.” Ele revira os  olhos. 

    _Então isso é O equilíbrio... _Não, esta é a sua personalidade. O  equilíbrio é teu dom. _Razão pela qual busca por mim... _Não. Eu te procuro por outro  motivo... 

    Já cansado das escapadas da moça, ele olha em  seus olhos, e a beija de surpresa. Naturalmente as mãos dela sofrem espasmos, e ela o evita, porém por uns segundos seus dedos agarram os dele, não lhe permitindo se afastar. Ele a solta, para ver sua reação, e ela fica com a cara de choro. Os olhos dela ficam vazios, e seu braço se movimenta estapeá-lo, mas este segura sua mão, com tanta facilidade, que é como se tivesse lido seus pensamentos, por isso eles se encaram. 

    _9 mil anos, e ainda reage do mesmo jeito. 

    _9 mil anos? Está de brincadeira?!  _Não. Praticamente toda a sua vida na Terra, foi ao meu lado, até um dos seus amantes  vim te resgatar. 

    _Amantes?! 

    _Azazel e Miguel.  

    _Eles vieram bem antes de você. _Mas foi pra mim que disse “sim” no fim  das contas. E o tapa no rosto, era o primeiro sinal de que acabaria nos meus braços. 

    _Não. Não pode ser. Eu detestei! _Eu senti seus dedos, e eles prendiam os meus. Você queria continuar mas sua consciência, amargou o sabor deste doce prazer. 

    _Não, não queria. Eu levei meses pra te esquecer, e você não vai apagar meu desenvolvimento. 

    _Me esquecer? 

    O interesse dele se intensifica, e ela tenta correr, contudo ele a agarra, fazendo-a ficar contra o seu  peito, para que as mulheres ao redor não vejam o assédio, e criem algum alvoroço, que possa lhe prejudicar de alguma forma. 

    _Fica calma. 

    _Me solta. 

    _Eu vou, e também devolverei o celular. 

    _Mas em troca quer o quê!? Outro beijo!? _Que me responda... Você se lembrou de mim? 

    _Com tantos sonhos foi impossível não lembrar.  

    _Você acreditou me amar em algum momento? 

    _Não importa. 

    _Quer ser livre ou não? 

    _Sim... 

    _Sim quer ou sim me amou? _Sim para o segundo. Mas já matei esse sentimento, agora pode me deixar ir? 

    _Tudo bem.  

    Ele a solta, e entrega o aparelho. Ela de imediato lhe dá as costas, e sai bufando de raiva. “Mesmo que diga não, eu sei que ainda sente algo por mim, e não é desprezo.” Ele se recorda do beijo, e de ter aberto um pouco o olho, ao sentir que os dedos dela ficaram a pressionar os seus. Não havia ódio no ato, no  lugar disso estava uma paixão, que ele poderia usar contra ela. 

    Capitulo 5- O alvorecer do futuro  

    5 meses depois... Isabelle está mudada, não mais passa tanto tempo tempo dentro de casa, ou com os amigos. Caminha por várias ruas e lugares, com uma lata de cerveja na mão, passando por maus bocados vez ou outra, por sua aparência de 16, permanecer mesmo nos seus 25. Sem dizer nada a ninguém foi ao salão, e alisou e repicou o cabelo, algo que seria benéfico, se não fosse pelo o quê veio depois, pintou as unhas de preto, passou a usar batom escuro e se manter em silêncio. Algo que preocupou a todos, menos uma pessoa, que já havia visto esta reação em outras vidas, e não estava nada surpreso. 

    _Está com sérios problemas não é? 

    _Não começa Leviroth. Só me deixa em paz. _O quê aconteceu que te deixou assim desta vez? 

    _Nada. Só voltei a ser mesma Isabelle obscura de antes oras. 

    _A Isabelle de antes era como a lua, obscura mas com brilho, tudo o quê vejo é uma estrela morta. 

    _Volta pra casa. Eu não quero falar com ninguém. 

    _Eu volto mas você vem comigo. 

    Ele a carrega no ombro, e a leva como um cadáver abatido, ela   o olha com indiferença, e fuma um cigarro de menta, bebendo logo  depois. No entanto antes de saírem do viaduto, outro ser também não  muito preocupado surge, trajando roupas bem chamativas. Ao vê-lo  Leviroth, a coloca no piso, porém fica na sua frente, impedindo-o  de chegar tão perto dela. 

    _Velhos hábitos nunca mudam, não é irmão? 

    _O quê você quer? Não vê o estrago que causou? 

    _Vocês dois parem, não quero falar com ninguém. _Eu não fiz nada desta vez. Mas temo trazer más noticias, e acho melhor que ouçam. _Diga e se retire, se não quiser relembrar como foi preso naquela rocha mística. 

    _Já chega, eu não vou ficar aqui. 

    _Fique. Se forem para casa, podem morrer. 

    _O quê? A minha filha está lá! 

    _Não, não tá, quando vi que veio atrás de mim , sem ela, pedi a Victória que a levasse para a minha mãe. 

    _E eu coloquei demônios envolta da moradia, para matar qualquer ser que tente atravessar a barreira. 

    _Por quê faria isso? 

    _É óbvio que é pela Isabelle. 

    Ao ver a onde a discussão daria, a bela os deixa discutindo, sobre “quem é o macho alfa”, e passa entre eles. No entanto ao  chegar perto da rua, sente duas mãos diferentes em seus pulsos,  que a fazem ficar. O espectro deles é muito forte, tanto que a jovem sente tontura ao receber o impacto da  suas energias. 

    _Porquê deveríamos confiar em você? 

    É o filho traidor. 

    _Não se faça de herói Azazel. Esteve ao meu  lado, quando iniciei uma nova gerência dos  mundos. 

    _Gerência dos mundos? É assim que chama o seu golpe de estado? 

    _É até perceber, que meu próprio irmão, queria matar a deusa bebê, que viria a ser minha esposa. 

    _Eu não sabia que também me apaixonaria por ela. 

    _Olha isso não melhora as coisas. 

    _Não melhora mesmo. 

    _São um só espírito mesmo não é? Naquela época , eu só conhecia um amor, o da minha mãe. 

    _Espera dizem que somos gêmeos, está dizendo que... 

    _Não mesmo. 

    _Nós somos filhos de Inanna e Gulgalana. _Mas me disseram que eu era filho de Nyx, ou seja Lilith, como Luciféria e Aggarath. _Inanna é a mãe de vocês? Lúcifer traiu Lilith? _Não. Lilith é a metade de Lúcifer, ele não faria isso com a minha mãe! _Sim. Ele a traiu, mas Lilith nunca soube, por isso ele a fez crer que estava grávida, e quando nascemos, nos roubou de Inanna , e nos deu para ela. 

    _Por quê? 

    _É, posso pensar em mil razões, mas qual delas? 

    _Inanna iria nos devorar. 

    Imagens do passado inundam a mente do anticristo, e este respira fundo, nem sempre fora um pequeno mal, porém ao descobrir que não era filho de Lilith, entendeu que Azazel era,  e por isso ela o tratava melhor, assim se juntou a sua mãe, e tramou as ruínas do atual império em que se vivia. Infelizmente foi só na adolescência, quase na fase adulta que veio descobrir que Azazel também era filho dela, e que ela o fez entender de outra maneira, para que seus planos se realizassem. Lilith não tratava um melhor que o outro, apenas reconhecia as suas qualidades, e ele não era capaz de ver as  suas. Após saber das artimanhas da sua mãe e amante, ele tentou desfazer todo o erro, mas só piorou ainda mais a situação, pois a verdade, destruiu a rainha do Inferno de tal  maneira, que esta enviou o próprio marido para a morte, e este criou um ódio profundo do próprio filho. Todos o julgaram, pelos atos que cometera antes, e desta forma ele enlouqueceu.  

    _Eu deveria ter sido o sol e meu irmão aqui a lua. 

    _Você deveria ter sido luz e eu escuridão. 

    _Então eu nasci para realinhara-los?  

    _De certa forma sim, você desperta coisas boas em  mim, e sombras profundas nele. 

    _Eu inverto a ordem... não a equilibro. _É, e o escuro cresce ainda mais, quando lembro que você quer a minha esposa. 

    _Ela não é a sua esposa. Nasceu para luz e para as trevas, portanto pertence a nós dois. _Sem querer ser estraga prazeres, mas sou monogâmica, e não poligâmica. E não pertenço a ninguém só a mim mesma, o máximo que podem ter de mim é meu coração, mas eu sou eu. 

    _Pensei que era dele. 

    _Eu também pensei, agora estou na  dúvida. 

    A dama revira os olhos e outra vez lhes dá as costas, mas sem fazer alarde, ergue o celular, e se afasta um pouco deles, para tentar conversar com alguém, que não participa desta profecia, ou loucura toda. Os irmãos se entreolham, e se debruçam sob o parapeito do viaduto. 

    _Então qual é a má notícia? 

    _Temos uma mãe ciumenta, que quer que a filha de Lilith morra. 

    _Se afaste de Isabelle, e ela a deixa em paz. Pois não vai representar alguma ameaça. 

    _Não é tão simples. Inanna sabe que enquanto 

    Lucy existir, meus sentimentos serão dela, e por

    isso quer aniquilá-la. 

    _Por quê a quer tanto? É pela profecia de ela ser o equilíbrio? 

    _Não. Quando você e meu pai me jogaram na masmorra dos condenados,  Luciféria foi a única que veio falar comigo... 

    _Porquê não sabia quem você era. 

    _É, mas você bem sabe, que depois ela ficou comigo , por nossa similaridade. 

    _É, tal como eu e ela temos. Mas pelas armações de Miguel, acabei por abandoná-la, e isso te deu certa liberdade de se aproximar não é? 

    _Ou foi o destino que quis que nos conhecêssemos. _Oras Bael não seja tão tolo. Sabe tão bem  quanto eu que nós fazemos o próprio destino. 

    _Não vou discutir. Luciféria, Isabelle, te escolheu. Mas eu a escolhi, e é meu dever protegê-la de nossa mãe. 

    _Está bem, mas tente reviver os velhos tempos  com ela outra vez, e serei o único filho de  gêmeos. 

    Olha de canto para o irmão e este ri, enquanto a bela  liga para alguém do seu celular. Na tela surge o número que termina em 12, mas ela não consegue completar a ligação, e vozes começam a ecoar na linha, como se fossem indistinguíveis. Ela desliga o aparelho assustada , e caminha até os irmãos. Tudo começa a se iluminar a sua volta, fazendo-a ficar em desespero. Seus gritos não tem som, o Anticristo olha para trás, e se transforma em pó ao vento. Leviroth agarra seus pulsos , e ela segura em seu braço, tudo se destrói envolta deles , e a pobre cai no vazio, mergulhando numa escuridão profunda, na qual desaparece. O despertador toca, são 06:03, a jovem se levanta da cama, e corre para tomar seu banho. Está evidentemente atrasada. “Vamos Izzy vai se atrasar!” Grita Benner, e ela desce as escadas , já arrumada para sair. Ele sorri, e os dois entram no carro, seguindo viagem para o quê parece ser os seus empregos. 

    _Tive aquele sonho outra vez. 

    _O do Anticristo? 

    _Sim. Eu não suporto isso, é sempre o mesmo enredo e patético, onde sou o centro de alguma coisa importante, quando na verdade não sou. _Izzy. Eu sou o príncipe do Caos, e seu marido, nós já vimos Lúcifer, e ele te chamou de filha, como pode pensar ainda que não é especial? Você o libertou sabia? 

    _Não sem ajuda. Sozinha, ele teria continuado  preso, e o aconteceu depois disso? Ah é, ele me abandonou, e se fez ser notado pelo mundo! _Izzy. Lúcifer sabe o quê faz. Se ele ficasse do seu lado, certamente você iria sofrer as consequências de carregar o sangue dele, por isso se afastou. 

    _Pois eu preferia “sofrer as consequências”.  Do quê continuar sendo ninguém. _Mas você é alguém. É a rainha do primeiro reino do Caos. 

    _É? Mas quem sabe disso? Aliás quem teme , ou quer fazer pacto com Luciféria? 

    _Os vampiros Italianos?  

    _Não começa. 

    _Ué foi você que perguntou. 

    _Aff. Tá certo. Até mais, chegamos na escola. Ela desce do carro furiosa, e ele ri, observando-a partir, com sua saia longa, salto alto e blazer, como  se fosse a um enterro. “Essa é a minha mulher.” É o quê pensa apaixonado, e então dá a partida. Ela entra na sala, e todos param de fazer suas atividades, para se sentarem no seus lugares. A aula do dia, é sobre como o elo perdido foi desconsiderado, e que apesar dos estudos antigos mostrarem o homem como semelhante ao macaco, este era na verdade uma junção de todas as espécies de mamíferos, répteis, aves, e anfíbios. 

    _Então o Dr. Thomas John percebeu a discrepância na antiga pesquisa, e concluiu que a espécie humana é parente de todos os vertebrados, e não apenas o macaco, como se acreditava antes. _Professora Isabelle. Por quê defendiam tanto que o maior parentesco do homem era com o macaco? 

    _Devia prestar mais atenção na aula senhorita 

    Lina. Como disse Antes, por conta dos velhos estudos , que indicavam que 99.1% do DNA humano era igual ao dos primatas, concluía-se que o parente mais próximo do homem era este. _Professora Isabelle, então a teoria do  elo perdido na verdade é um erro? _Sim, Bill. Esse erro dos cientistas de acreditar que tinha apenas um elo, é uma piada. Já que agora foi comprovado, que o elo não existe, mas a conexão entre as espécies sim. _Professora essa descoberta do Dr. John , não abre ainda mais espaço para se defender a existência do elo? 

    _Sim e não Luíza. Pois a nova teoria de parentesco múltiplo, liga o homem aos vertebrados, mas não unifica todas as espécies. Bom já é 12:00, tenham um bom descanso, a palestra foi longa, e não mandarei dever de casa. 

    A bela termina a aula, e ajeita algo no computador, com um sorriso tristonho. Os alunos se despedem, e vão embora para os seus lares, porém quando a bela chega no corredor, se depara com um grupo de adolescentes de preto, que estão desenhando um pentagrama rubro no piso, e por isso para de caminhar, e observa o feito dos alunos. 

    _O quê estão fazendo senhoritas? 

    _Nada que seja da sua conta santarrona! _É, vai entrar no seu carrinho estúpido, e nos deixe em paz falou?! _Um pentagrama... Querem invocar algo eu presumo. 

    _E se quisermos? Seu Deus falso, não vai poder impedir! 

    _É, aceita que dói menos titia! 

    _O quê acham que são? Filhas do Inferno , que podem atormentar os outros por prazer? 

    _Não que seja do seu interesse, mas é o quê somos. Nós ouvimos o chamado do senhor das trevas! E iremos obedecer cada ordem do libertador! 

    _É nós vmos devastar, esse centro de ensino , para que o apocalipse se inicie aqui. _Vão para casa. Saiam disso. Satã não é senhor de ninguém, na verdade é um idiota , tão mesquinho e mentiroso, quanto o Pai. 

    _O quê você ousou dizer?! Satã irá cortar tua língua! 

    _Tá querendo morrer veia?! 

    _Vocês são uma piada.  

    A professora ri, e vai embora deixando as garotas góticas  para trás. “Essa vagabunda da Isabelle tem que pagar!” Pensa  a líder do grupo, e lhe lança um feitiço quebra ossos, porém ao receber aquela energia tão tenebrosa, a dama abre suas asas , e o poder da bruxa se torna inofensivo. Ao ver aquilo as jovens se apavoram, pois percebem que a educadora , é na verdade um anjo.  

    _Deixem-na em paz!  

    _Aaaah! 

    _Olá... 

    _Ela pode destruir suas almas se quiser. 

    _Sa-Satã... 

    _Pai. 

    _Olá minha garotinha favorita. 

    _Satã é seu pai?! Mas você é um anjo! 

    _Perguntem a Lilith, foi ela que me gerou. 

    _Isso é verdade. 

    _Você é filha de Lúcifer e Lilith?! _Não. Sou filha de Bruna, a bruxa mestiça que deveria reinar ao lado de Satã, segundo uma série tosca de televisão. 

    _As aparências realmente enganam não é? O rei do inferno, se transforma em uma pilha de pó, e rapidamente volta a sua forma humana, que é idêntica a do ator do programa de TV.  As meninas se escondem atrás da líder, e esta faz sinal para que se afastem, e se curva  aos pés do belo homem, que acha graça do fato,  e segura no ombro da professora. 

    _Você está aqui em busca da próxima Bruna, como A madame escuridão? 

    _Em primeiro lugar, eu detesto Bruna. Em segundo jamais procuraria pela próxima bruxa poderosa, pois depois de Lilith eu sou a única. 

    _Pode parecer arrogante mas é verdade, ela é a primeira da minha linhagem com Lilith, e portanto carrega mais genes divinos que os demais. 

    _Mas você odeia magia, só se foca em ciência e fatos concretos. Isso não tem lógica! 

    _Tenho minhas razões, não é papai? 

    _Ela me odeia porquê quis protegê-la, e dei fama e poderes as suas irmãs.  

    _E o quê isso tem a ver?  

    _Tem a ver que graças a esse idiota, eu não alcancei o meu status de Deusa, e por isso sofro humilhações nas mãos de humanos estúpidos feito vocês. 

    _Desculpe. 

    _É por ser tão simpática, que ainda não tem tantos  seguidores minha bravinha. 

    _Desculpa, mas sorrisos falsos não são pra mim. Olha com indiferença, enquanto os olhos vão para o teto, com certo desprezo, e ela cruza os braços. Ele ri e a abraça forte, ela fica com os braços colados ao corpo, evitando aquele gesto de carinho, o quê deixa as garotas horrorizadas, pois dariam suas almas para serem filhas. 

    _Igual a mãe quando sente raiva. São as únicas mulheres, que tem tanto poder sobre mim. _Não é o quê soube. Afinal sua filha com Inanna , tem o prazer de jogar isso na minha cara, enquanto está lá no topo por sua voz de sereia. 

    _Sexo e amor é diferente. Eu tenho responsabilidade por Victória, pois ela e o seu marido são frutos do meu deslize. Mas eu amo você e sua mãe. 

    _É um deslize antes e depois do meu nascimento. Tem certeza que nos ama mesmo? Eu duvido. _Está bem, não estou aqui para discutir o quê é o certo ou errado.  Vim para te ajudar, mas já vi que pode se virar sozinha. 

    _É o quê acontece, quando o próprio pai nos abandona no mundo! A gente tem que saber se cuidar! E aliás eu votei na família Messiânica pra presidente! 

    _Grande coisa eu fiz o mesmo nos E.U.A! 

    Ele berra, e ela vai embora fazendo o sinal do cotoco , ignorando todo o tumulto. Ao ver aquela discussão, as meninas notam que mesmo no Inferno há conflitos, como  na vida humana, e correm para abraçar o papai renegado, mas este faz um sinal para que não se aproximem, pois se sente muito triste pela rejeição da sua primeira e única filha com Lilith. 

    _Ela é uma grata senhor. 

    _Não, não é. Aquela menina sofreu demais por minha culpa, ela tem razões para me odiar. _Como pode defendê-la depois de tamanha recusa? 

    _Ela é filha do meu grande amor, e este amor se 

    estende até a minha menininha. 

    _Deixe-a ir senhor. Ela é apenas uma, enquanto nós somos muitas, e daríamos tudo para sermos suas filhas. 

    _Eu não preciso de mais filhas.  Preciso é de menos, e se querem tão desesperadamente o meu apreço , devem começar por ela. 

    _Mas senhor! 

    _Sem mais. Se querem ter alguma importância no inferno, devem fazer a minha princesinha se sentir como tal. 

    No dia seguinte... Isabelle está no computador, preparando o material para a aula do antigo DNA lixo, que agora é conhecido como DNA Ouro, pois graças a esta brilhante descoberta, que o Doutor John fez uma revisão da antiga pesquisa, que mostrava os humanos como parente mais próximos dos primatas, e isto seria útil para a futura prova. Uma das meninas do dia anterior, a olha sem jeito, e entra na sala. 

    _Veio trazer algum recado das suas amiguinhas adoradoras de Satã? 

    _Não. Eu vim pedir uma trégua, e que me ajude pois se as outras descobrirem, elas me matam. 

    _Por quê eu deveria te ajudar? 

    _Eu não levantei a voz para a senhora, ao contrário das minhas amigas. 

    _Mas também não teve coragem para ficar ao meu lado, então repito por quê deveria te ajudar? _Eu posso te tornar uma deusa, por quê acredito em 

    Você. Depois de ontem encontrei o seu site Senhora Noturna, e percebi que você não é só a filha de Lúcifer. 

    _O quê quer dizer com isso? 

    _Você é a Arádia. A nossa messias sagrada, que veio para proteger o povo da escuridão, e nos guiar junto do Anticristo. 

    _Ah meu outro segredinho foi descoberto. O quê acha que ganhará com isso? Fama, sucesso, poder? Não sei se notou mas sou só uma professora do segundo grau. 

    _Nada. Apenas poderei ajudar a minha mãe, a subir no trono que sempre lhe pertenceu. 

    _Do quê está falando?! A minha única filha é Isandra! _Não segundo essa marca. Eu sou filha de Arádia e o Arcanjo Miguel, portanto pertenço a  

    você. 

    _Como posso saber que isso não é um jogo de manipulação , para saberem as minhas vulnerabilidades? 

    _Porquê ela não está mentindo Luciféria. 

    Diz um homem de cabelos longos entrando no lugar, e a dama se afasta, empurrando o computador com as unhas pintadas de preto, totalmente atordoada pela figura. Sim era o próprio anjo que estava ali diante dela, confirmando a história da menina, e para ter certeza, este abre as asas, e seus olhos mel se tornam azuis, enquanto os dela ficam violetas, iguais aos de um dragão. 

    _Eu soube que tive filhos de Belzebu, mas de você? _Foi há muito tempo, quando desisti do céu para que pudéssemos ficar juntos. Infelizmente você morreu no parto, e Bael apagou sua memória para não te perder pra mim. 

    _E quem é a mãe dela desta vez? Posso saber? _Ela não tem uma mãe específica, foi feita no  laboratório, com os genes e a essência de  nossa filha Laura. 

    _Espera eu só posso produzir meninas? 

    _Sim, mas houve uma vez que gerou um garoto, só que  ele seguiu seus passos e virou bissexual. _Faz sentido. Desculpe Laura, eu não me recordo mesmo, mas isso não significa que vou te abandonar certo? Agora se me derem licença, eu preciso ir  para a minha vida humana. 

    Ela tenta sair daquele local, mas o arcanjo segura no seu braço, e lhe diz algo no ouvido. Ao ouvir tais palavras, ela engole aquilo com desgosto, e lhes dá as costas. “Qual o tipo de vadia que eu fui na outra vida? Já é o 5 filho que me aparece.” Pensa entrando no carro, e então dirige para a casa. 

    Ao contrário do quê se possa imaginar, a professora não mora numa casa qualquer, mas sim numa enorme  mansão, com detalhes antigos, e não é o seu salário que arca com isso, mas sim os seus investimentos em ações da bolsa. Ao vê-la a pequena Isandra corre para lhe abraçar, e as duas entram na casa. 

    Benner está sentado na frente do computador, verificando os lucros da família Calligari de La Cruz, mas ao vê a esposa e a filha larga tudo, e vai lhes dá atenção. Os três entram numa sala escura, onde tem um sofá marrom bem confortável, com uma gigantesca tela de plasma, e todos os tipos de eletrônicos , de realidade virtual, que se possa imaginar. Cada um coloca o seu capacete, e então os três vão para outra realidade, que se passa no tempo medieval, mas tem muitos detalhes bem futuristas, na qual Isabelle é um anjo, Benner um arqueiro demoníaco, e a filha uma curandeira. 

    _Lá vem o dragão! 

    _Se abaixa Isa! 

    _Você também Izzy! 

    _Socorro! 

    _Isaaa! 

    _Izzy!  

    _Mãe! 

    _Deixem comigo! Grito de Tiamat! 

    _Flecha da Fênix! 

    _Cura mágica! 

    Ondas devastadoras saem dos lábios de Isabelle, e ela flutua no ar. Uma fênix gigante em forma de fogo, cobre o gigantesco dragão, e este gargalha sem parar, enquanto o escudo protege a família. O dragão se transforma em um homem de longos cabelos pretos, e olhos vermelhos, que quebra a cúpula de energia, e sequestra a avatar ruiva. 

    _Mamãe! 

    _Isabelle! 

    _Benner! Isandra! 

    A dama grita e então todos retornam para a mansão, menos Isabelle, que é puxada para a França.  Onde acorda nos braços de um homem semelhante ao avatar, mas de olhos castanhos quase vermelhos, em vez de brilhantes cor de rubi. Ao ver que não voltou para casa, ela tira o capacete em estado de choque , e se afasta da estranha figura loira e vitoriana, pegando a primeira faca que aparece para se defender. 

    _Quem é você?! E o quê quer comigo?! _Sou um velho amigo, que tem te acompanhado  a vida toda. 

    _Você se ferrou. Miguel apareceu ainda pouco. 

    _Não sou Miguel. Sou Bael. 

    _Bael não é meu amigo, e você não é Belzebu. 

    _Garota eu te transferi do seu país para o meu , enquanto estava jogando. Literalmente distorci a realidade ao meu bel prazer. Tem certeza de que não sou? 

    _Tem uma possibilidade de 75%. _Sempre cabeça dura.  Quer que te prove de  outra forma? 

    Os dedos com unhas grandes seguram o rosto da bela dama, enquanto ele sorri pronto para beijá-la, mas ela se afasta dando um passo para trás, com o olhar de nojo. Ele revira os olhos bem irritado, e a pega pelo pulso, levando-a a força para o sofá, onde a joga de mal jeito, fazendo-a fechar as pernas com rigidez, por temer que ele veja o quê tem por baixo da sua saia longa. 

    _Acabou o romance? Que rápido! 

    _Você é uma idiota. 

    _Me trouxe da América do Sul, só para me xingar? 

    Eu devo ser muito importante mesmo pra você! 

    _Você é, e sabe disso. Não se faça de tonta. _Certo. Eu estaria horrorizada, se não tivesse sido quase abduzida por você há 4 anos. Pode falar então por quê me sequestrou dessa vez? 

    _Estava com saudades. 

    _O idiota agora é você pelo visto. 

    _Eu não pude resistir. Você e sua família devem ir para o subsolo, daqui há 3 horas  se quiserem viver. 

    _Por quê? 

    _Tenho planos para iniciar a fundação do Novo Mundo. Por isso estou te avisando. 

    _E a minha casa? Eu levei 3 anos para conseguir a mansão!  

    _Ah para de choramingar. Eu te arrumo 3, em apenas 4 minutos. 

    _É se me tornar a Senhora Zebu. 

    _Não, isso vai ser em breve, mas não vem ao caso. Apenas arrume as suas coisas, e vá para o local indicado. Quando sair de lá, tudo estará  normal. 

    _Eu nunca vou me casar com você! _Disse isso da outra vez, mas aceitou de bom grado, minha querida Ishtar. 

    _Me mande logo para casa, e nunca mais me chame por esse nome maldito, dado em homenagem a sua primeira esposa. 

    Diz dando as costas para o homem, que segura em seu ombro, e lhe dá um aparelho com as coordenadas  do local para onde ir. Ela pega o tablet, e ele lhe dá um  abraço forte, como se quisesse evitar o seu sofrimento, porém ela não retribui, age da mesma forma que fez com o pai, e ele se obrigado a apelar, e a beija  

    no rosto, perto da boca. 

    _Se controle. Tudo o quê aconteceu foi há  mais de mil anos. 

    _Pra mim foi ontem. Há alguém mais que queira proteger, e alertar? Meus homens podem cuidar disso. 

    _Deixa que eu mesma aviso. Quanto tempo ficaremos lá?  

    _Até a fumaça se dissipar.  

    _Fumaça? 

    _Para o novo mundo existir, o velho precisa ser destruído. Em breve saberá mais detalhes. 

    _Eu tive muitas visões...Não é o quê... _É exatamente isso, e enquanto o seu poder  não for desbloqueado, é melhor que esteja em  segurança, junto dos seus amados. 

    _Não vai me separar deles vai?  _Não, mas quero que coopere e nos ajude a  libertar o seu poder. 

    _Por quê? 

    _No novo mundo, o homem vai caçar as bestas, e só eu não vou poder proteger a todos. _A velha história do Anticristo e a Messias negra. _É, mas não iremos nos casar, a não ser que queira. 

    _Pode ter certeza que não quero.  _Então assim será, mas te garanto que não vou desistir, não programei todo o mundo , para ficar sem a princesa no final. 

    _Me manda pra casa! 

    Ela grita com raiva, e ele a manda de volta para a mansão. O corpo dela se materializa, e a bela retorna para o lar. Tudo está escuro, e Isandra e Benner foram atrás dela. Sem pensar duas vezes, pega o telefone, e liga para eles. Infelizmente não há sinal, por isso ela pega o punhal na gaveta,  e vai atrás deles. 

    Há um céu cinza, com névoa por toda parte. Em vez de usar os sapatos altos, ela está com uma bota de plataforma baixa, e uma bolsa preta com a alça envolta do corpo, na qual guardou a lâmina. Ela sai da moradia, olhando para os lados em total desespero, preocupada que não os ache a tempo. 

    _Bael? 

    _Oi. Precisa de ajuda? 

    _Sim, essa sua manobra idiota, custou a minha família! 

    _O quê? Como assim? 

    _Eles desapareceram! Se isso foi alguma armação sua, eu juro que vou libertar meu poder pra te matar! _Se acalma princesa mimada. Eu vou localizá-los, e os mandar para o bunker em segurança. 

    _Eu não confio em você! 

    _Vai precisar. Desça e aguarde a minha ligação. 

    _O estranho é que seu número funciona. Bael! _É criado para ser um número de emergência,  por isso funciona. Agora desça. 

    _Eu... 

    _Eles estarão lá acredite em mim. Até mais. 

    _Bael! 

    _O quê é? 

    _Vou escrever uma lista de 10 pessoas que quero proteger. 

    _Ainda bem que não é amada pelo mundo, senão não iria me deixar destruído. Vou salvar todos. 

    Ele desliga, e ela fica preocupada, em vez de obedecer, pega o carro, e vai para a cidade. Ao perceber que ela não o ouviu, o anticristo se enfurece, e toma controle do veículo prendendo-a contra o banco, com o cinto de segurança, que agora é feito  de nano filamentos  automatizados, e por isso podem ser manipulados por hackers. 

    _Não pode ir pra cidade sua maluca! 

    _Você não vai me impedir de salvá-los. 

    _Eu já disse que vou te ajudar! 

    _Eu já disse que não confio em você! _Ah finalmente! Pronto! Eles estão há 10 km de você! E ainda tem 2 horas para achá-los! Se acalma! 

    _Avise-os. Eu vou até lá! 

    _Eu vou te guiar.  

    _Avise-os! 

    A voz do rádio para de responder, e ele lhe devolve o poder de dá a partida. A professora dirige até o local indicado, e não  acha ninguém ali, por isso pega o seu celular e volta a ligar para os seus familiares. Novamente não há sinal, e por isso ela bate violentamente contra o painel, com tanta raiva que parte do  seu poder desperta, e ela quebra o motor. “Porra!” Grita furiosamente, e se agarra ao volante entre lágrimas. 

    _Luciféria? 

    _O quê quer?! Me mandou pro meio do nada! 

    _Levante o rosto... 

    _Leviroth!  

    Ela abraça o marido, e olha para o lado procurando pela filha, mas ele explica que a menina está dormindo dentro do carro, pois desmaiou após caminhar por horas, procurando a mãe. Ao ouvir isso, a dama se sente culpada, e se lembra de Laura, que deve está em casa sem saber o quê está para acontecer. 

    _Bael? 

    _Sim.  

    _Por favor avise Laura Miller e Nicolas Miller. 

    _A sua aluna e o pai? Por quê? _Ela é uma das minhas futuras aprendizes, e aquela que já demonstrou lealdade, ela merece isso. 

    _Tudo bem mais sua lista de 10 pessoas com conexões, fecha aqui ok? Não sou Jesus para  salvar todos. 

    _Na verdade é sim. 

    _É mas o “todos” a que me referia eram os meus escolhidos, o resto são pecadores. 

    _Agora a bíblia faz sentido. 

    Brinca e o demônio ri desligando o aparelho. Ao notar algo errado, o príncipe do Caos quebra o rádio, e entra no veículo. Sentando-se com ela, no seu colo. Ele lhe dá uma  mordida no pescoço, tentando arrancar a toda a verdade  dela, mas a mulher percebe, e ri da tentativa. 

    _Está bem eu conto demônio chato. 

    _Então não perdi o jeito. 

    _Laura é minha filha. Minha filha da época em que era Arádia e Miguel caiu. 

    _E Nicolas é  Miguel. 

    _Sim, ele tem cuidado sozinho da Laura, e ela é uma boa garota mas tem andado com más companhias. 

    _Já se apegou a garota. 

    _Sim. Promete que não vai armar pra ela morrer? 

    _É claro. Elisa foi uma lição. 

    _Se algo der errado, eu mesma a destruo. 

    _Está bem. 

    Ele a abraça, e os dois mudam de carro. Ao entrar no Saveiro prateado do marido, ela encontra a filha dormindo, enrolada na sua jaqueta, e sorri, fazendo carinho na cabeça do seu par. Eles seguem até uma estação abandonada, na qual encontram outras famílias sobrenaturais, que aguardam  pelo metrô. Laura e Nicolas, estão no canto, junto das  amigas da filha de Isabelle, e isto não lhe agrada nem um pouco. 

    _Fiquem aqui. 

    _É a Laura Miller? 

    _Sim. 

    _Izzy. Faltam 23 minutos para o trem chegar. 

    _Eu resolvo isso em 2! 

    Diz caminhando em direção a adolescente e as amigas, e para diante delas, olhando para Laura com bastante fúria. Ao vê-la entre o sobreviventes a menina arregala os olhos, e cospe o sorvete que o pai comprou. Sem dizer uma palavra, a garota vai até a professora, e as duas se afastam. 

    _Eu quis te proteger. Não essas inúteis. _Elas são minhas amigas Isabelle, não podia deixá-las morrer. 

    _Aliás cadê a rainha boca suja de vocês? 

    _Essa daí eu posso deixar pra trás. _Está dando um golpe de estado? É isso que Nicolas tem te ensinado? 

    _Mãe eu preciso assumir o meu lugar. 

    _Se é um lugar roubado. Não é para ser seu. _Você teria feito a mesma coisa no meu lugar. 

    _Não, eu teria deixado Todas para trás, ou escolhido quem fosse leal a mim. Essas garotas não gostam de você Laura! Elas só gostam de permanecerem vivas! _E o quê quer que eu faça?! Deixar que todos me odeiem como você?! _É melhor ser odiada por idiotas, do quê ser amada por eles por 2 minutos, e morrer com uma faca cravada nas costas. _Ninguém nunca vai te matar, porquê não tem uma pessoa te seguindo. _Escute aqui pirralha. A única razão para sobreviver a este Armagedom, é porquê o Anticristo me escolheu. Então dobre a língua ao falar comigo. 

    Diz furiosa, e se afasta da garota, indo para a sua outra família, que a recebe de braços abertos, e sorrindo. Laura estava iludida, sobre o quê ter poder, e se chateia muito , ao ver que a irmã, é muito mais parecida com Arádia , do quê ela, por isso engole sua raiva, e volta para as amigas. 

    Isabelle se senta ao lado de Benner, e carrega Isandra no seu colo, enquanto revisa os nomes das 10 pessoas que ela escolheu para sobreviver. Os primeiros 4 nomes são os mais conhecidos. Não é porquê ela e as amigas perderam o total contato, que ela não iria lhes querer bem. Infelizmente o nome de Natasha é riscado, pois esta se recusa a “Viver em paz, em cima de um castelo, que é sustentado pelo sangue de negros e homossexuais.” Ao ler isso a bela ri com compaixão. 

    Natasha tinha sido tão cegada pela mídia, que nem era capaz de perceber, que não havia mais distinção entre os ricos e os pobres, mas sim entre os seres paranormais, e os humanos. Nada era mais azul ou branco, e sim um perfeito e profundo negro, que unificava as espécies mais fortes. 

    O trem chega e as portas se abrem. No tablet de Isabelle se encontra a recomendação de que siga no segundo trem com a sua família. No entanto por manipulação da própria, Laura deve mandar as amigas no primeiro, e pegar o  próximo. Sem sequer se despedirem da menina , as bruxas entram no transporte. 

    É quando Laura percebe que não tem mesmo amigas, pois estas seguiram o caminho, abandonando-a para trás, por acharem que há mais chances se entrarem no primeiro trem. Ao ver isso Nicolas abraça a menina, que chora sem parar, implorando para que fiquem com ela, mas as garotas só prezam por sua sobrevivência. 

    O segundo trem chega, e por ironia do destino, ou mesmo manipulação do anticristo, Isabelle, Benner, e Isandra, dividem o dormitório com a família Miller, que fica feliz e triste por se juntarem aos De La Cruz. Nicolas e Benner se encaram de imediato, e Isandra e Laura também, o quê faz Isabelle se sentir desconfortável, ao ponto de se sentar no meio deles. 

    _Isa diga olá para Laura, ela é sua irmã. Sim Benner. Nicolas é Miguel. Sim Miguel , Benner é o Rei Leviroth. _Olá “irmã.” _Olá “irmãzinha”! 

    _É um “prazer” Nicolas. 

    _Digo o mesmo Benner. 

    _Por favor não briguem.  

    _Não tenho porquê mamãe.  

    _Eu menos ainda mãe. 

    _Posso conviver com isso. 

    _Eu também. 

    _Alguém me trás muita cerveja! 

    _Eu quero 1! 

    _Eu quero 3! _Isandra Sônia Calligari De La Cruz, Você não tem idade para beber. 

    _Nem você Laura Irina Miller! 

    _Pelo menos concordaram em algo. 


    Capitulo 6 – O Ataque 

    O vagão para por um momento, ao chegar diante de um túnel. A família De La Cruz e os Miller acordam de seus sonos leves. Um grupo de serviçais de branco e mascarados, entra nos quartos, com bandejas, nas  quais se encontram máscaras de aves, para impedir a entrada do ar. A maioria delas é de corvo, mas há uma de coruja, que traz um bilhete específico para Isabelle. “Os líderes devem ser distintos dos sobreviventes. Você entrou no transporte vip do Inferno, aproveite a sua estadia.” Ao ler tais palavras, ela engole seco, e coloca a sua proteção estilizada. Curiosa para saber o quê está havendo, a bela cutuca um dos serventes. 

    _Qualquer um pode colocar essa máscara? _Não senhorita. O senhor Bael disse que a coruja é especificamente para você. 

    _Por quê precisamos das máscaras? 

    _Logo entraremos no Novo Mundo. Mas para este Nascer, o velho deve deixar de existir. 

    _Será uma bomba de gás? _Sim. Queremos destruir os impuros, não o planeta. 

    _Está bem. O quê ele faz? 

    _Logo verá em primeira mão. 

    A mulher sorri, colocando a máscara de pombo negro, e se retira. Após todos se vestirem adequadamente, um alarme é ressoado, e  se abre uma porta no escuro. Dentro de cada corredor, desce uma tela de plasma, que transmite o quê está ocorrendo no mundo  afora. O caos se espalha por cada continente, muitos se escondem nos bunkers, e bem ao lados dos trilhos, é possível presenciar toda a confusão. O gás é inspirado pelos cidadãos, que foram pegos  desprevenidos, e estes morrem em questão de segundos , vomitando sangue. O metrô do novo mundo para. Os que estavam conspirando contra o sistema, surgem em grande escala, e tentam abrir as portas. Há uma mãe segurando um bebê recém-nascido nos braços, que não para de chorar, com a sua pequena máscara de gato azul. Ao vê-la Isabelle, corre para lhe ajudar, só que antes que chegue a porta, surge uma mulher leoa. “Uma cobaia de Thomas John?” Nicolas conclui, ao olhar para a marca de um T e um J entrelaçado nas costas da criatura, que está a devorar os órgãos saindo do peito da mãe, com a boca toda suja de vermelho, enquanto o bebê mole se rasteja pelo piso, tentando sobreviver, machucado por suas garras. “Ele vai morrer!” Isabelle grita ao ver a criança. Notando o olhar de Nicolas e de Benner, ela percebe que ninguém está disposto a ajudar, por isso escapa pelo meio da  multidão, e abre as portas deixando o gás venenoso entrar. A bela coruja corre até o bebê, e a mulher leoa sente o seu cheiro. “Isabelle!” O outro ser com fantasia de coruja, fica apavorado pela situação, só que por medidas de segurança, o esquadrão dos brancos, fecham as portas. “Eu sou o chefe de vocês! Não podem deixá-la para morrer!” Discute com a equipe das aves noturnas, e enquanto isso Benner e Nicolas tentam sair para salvar a jovem mulher. “Eu, eu vou te proteger.” Ela diz com lágrimas, pegando o pobre bebezinho, que não para de chorar. Os seus berros são detestáveis,  só que naquele momento, tudo o quê quer é salvá-lo. A barriguinha dele, está coberta pelo fluxo escarlate, que não para de sair. “Não, não, não”  Ela abraça o menininho, segurando sua cabecinha chorona, ao correr da leoa humana. Porém esta pousa na sua frente, e atira a cabeça da mãe, ao seu lado. Fazendo-a ficar rígida de medo. 

    _Me dá a sobremesa. 

    _É uma criança! Não pode fazer isso! 

    _Ele iria crescer e destruir o novo mundo! 

    _O quê? 

    _O olho de Deus nos mostrou o futuro. 

    _O futuro não é inalterável. 

    _A única chance do mundo prosperar é se ele morrer. 

    _Então o mundo vai ser destruído. 

    Por quê eu não vou entregá-lo! 

    Ela grita, e a fera vai para cima dela. Ao ouvir o rugido, Benner, Bael,  e Nicolas, olham para a direção da moça, e ficam em pânico, pois há  uma falha na contenção, e sua roupa é rasgada, fazendo-a absorver   a névoa venenosa. Ela grita, e gotas vermelhas mancham o piso de  azulejo branco. Pouco a pouco, sente o veneno fazer o efeito, e se torna difícil respirar, só que ainda sim não larga o  nenê. 

    _Já chega Esfinge! 

    _Mas senhor ela está com o bebê! _Não importa! Encoste um dedo  nela, e eu juro que te mato! 

    _Sim senhor. 

    Esfinge se retira do local, e o anticristo vai até a moça, que segura o menininho contra o peito, cuspindo sangue sem parar. Ele a pega em seus braços, e passa a mão em seus cabelos, vendo-a empalidecer cada vez mais. “Isabelle que bobagem foi fazer?!” Pensa ao olhar para os seus braços, que seguram o garotinho, que também está prestes a morrer. “ 

    Isso foi idiota! É apenas um mortal!”  Mostra o olhar desaprovador 

    , então a bela agarra em sua gola com a mão livre, e o olha 

    implorativa. 

    _Salva o meu bebê. 

    _O quê? Surtou? A mãe dele é outra! 

    _A mãe dele sou Eu agora. _Isabelle não! Você vai ter que ficar pra trás se o quiser! 

    _Odin. Odin é o nome dele! 

    _Você está morrendo! 

    _Salva o meu bebê! 

    Ela berra em desespero antes de desmaiar no seu colo. Notando que não há como convencê-la de abandonar o garotinho, ele descobre o rosto, e morde o seu pulso, sugando o próprio sangue, para guardar na bochecha. Os lábios não param de pingar, e por isso ele transmite a cura da morte para ela com o  seu beijo fervoroso, que não é retribuído. Os olhos se abrem, mas não são  cor de mel, e sim violetas azulados, semelhantes aos de um dragão. Ela percebe  que foi salva por ele, e lhe bate para que ajude a criança também, obrigando-o a alimentar o bebê, como se fosse um passarinho. O olhinho da criança se abre, e a bela sorri, estranhando aquela reação o anticristo fica  desconfiado.  

    _Por quê fez isso? 

    _Eu não suportei ver um bebê morrer. _Para o novo mundo existir sacrifícios serão feitos, precisa se acostumar. Não vai poder salvar todas as crianças do mundo. 

    _Eu sei. Mas quem puder salvar com toda certeza eu irei. 

    _E o quê vai fazer com isso? 

    _É um menininho. 

    _Tanto faz. Não pode entrar no bunker com ele. 

    _Então eu vou ficar aqui. 

    _Ah não. Eu não te avisei como proteger os seus amados, para você ficar no velho mundo. 

    _Então terá de aceitar a mim e o  bebê. 

    Benner e Nicolas se aproximam com as meninas, que ficam assustadas pela forma como mãe segura o bebezinho. É claro que ninguém aprova a decisão da moça, mas como Bael tem autoridade sob o conselho, ela entra no transporte, e é levada para o novo mundo. Todos ficam descontentes pela conexão que ela teve com o recém-nascido, e por isso quando esta dorme ao lado do bebê  e as suas filhas, estes se reúnem fora do vagão, e discutem sobre o quê  está havendo. 

    _O quê foi aquilo lá fora? 

    _Acho que tenho uma ideia. 

    _Também acho. 

    _Desembuchem. Ela é a mulher mais complexa do mundo, não deu para ler todos os seus arquivos. 

    _Isabelle sempre quis ter um menino. _Mas de acordo com os avanços científicos , ela só pode produzir meninas. _Então ao ver o menino que perdeu a mãe, ela não perdeu a oportunidade... _Sim. Ela o chamou de Odin não foi? Odin é o nome que daria para o  nosso filho. 

    _Ela deve pensar que é coisa do destino. Ninguém vai separá-la desse menino. _É mas segundo o olho divino ele é  o homem que vai destruir o meu império. 

    _Não vejo mal nisso. 

    _E eu menos. 

    _Típicos dos homens que não fazem a diferença. 

    No dia seguinte... Isabelle cuida da criança que adotou, com a ajuda da  equipe de cientistas do anticristo. Em vez de se opor a criação de Odin, o belo e ardiloso homem de negócios, se aproxima da bela e o novo filho, e tenta manipulá-los. “Leviroth não quer ser o pai dele, não é? Eu assumo  a responsabilidade.” Ele se oferece para dar seu sobrenome ao novo membro da família de Isabelle, e ela nega com educação, pois  ao que parece Leviroth aceitou o nenê. 

    _Ele tem o meu DNA. Eu o salvei da morte. 

    Mereço ser o pai dele. 

    _Bael. Benner já aceitou. 

    _Mas fui eu que salvei vocês. 

    Não é justo. 

    _Qual é o seu interesse no Odin? 

    _Ele vai destruir o meu império Isabelle. Mas acredito que se for o pai dele, posso mudar isso.  

    _Vai manipular ele? 

    _Se eu for um bom pai, não haverá razões para odiar o quê construí _Na boa Bael. Cê surtou. 

    _Me dá ao menos uma chance. 

    _Não. Ele será um De La Cruz. 

    Não um Baltazar. 

    Benner chega a estufa onde a esposa brinca com o bebê, e se depara com ela e o anticristo conversando de maneira bem íntima. Seus olhos ficam vazios, e este se recorda de quando ela estava para morrer, e ele a tomou nos braços, acariciando o seu rosto, e lhe dando sangue com um beijo. É claro que ela não retribuiu, porém na mente do príncipe do Caos, este ato de heroísmo poderá custar tudo o quê ele batalhou para manter, o seu casamento. Simulando uma tosse, ele dá passos longos para perto da amada, e o bebê, e a beija com carinho, mas  quando os lábios se desgrudam, encara o rival. _Eu pensei que era contra a adoção do menino Odin. _Ele carrega o nome do único Deus acima de mim,  e ao qual eu respeito. Além disso veio para te destruir, é o suficiente pra mim. 

    _Não precisa disso. O pai de Odin é o Benner, não há discussão. 

    _Não me obrigue a isso. 

    _Obrigar a quê ? 

    _O quê está escondendo? 

    _Esse menino é meu filho com aquela mulher. 

    _Você é o pai biológico do Odin?! 

    _Sim, e ela é a mãe biológica dele. _Opa. O quê aconteceu naquela abdução  há 4 anos?! Eu não me lembro de muita coisa.  Só de um lugar branco como um laboratório  alien, e está muito drogada. 

    _Nós colhemos seu material genético. 

    Foi assim que Nicolas reviveu Laura, e eu criei esse bebê. Só que ao perceber o quê ele faria, dei a ordem para impedir a continuação da gravidez. 

    _Vocês realmente abduziram minha mulher, para fazer experiências bizarras?! 

    _O quê você fez? 

    _Não foram tão bizarras. Ela tem o sangue e a essência de Lúcifer, era perfeita para o meu herdeiro. 

    Eu mandei matar a barriga de aluguel, e ela fugiu , descobriu que sou o anticristo, e se juntou aos conspiradores. 

    _Não há escrúpulos pra você mesmo. 

    _Você tentou assassinar meu único menino? 

    _Isabelle você tem vários filhos mundo a fora. 

    Odin é um de milhares. 

    _Eu ia ver a morte de um ser que é DNA do 

    meu DNA. O único menino que pude ter, e você ia  tirá-lo de mim! Nunca mais se aproxime da gente! 

    Grita furiosa, pegando o bebê no seu colo, que não para de chorar, e sai da estranha instalação. Bael bufa de raiva, e Benner o encara com indiferença. Fica claro que logo vão discutir, mas mesmo assim o belo loiro, respira fundo, e abre espaço para que se sentem a mesa, e conversem de forma civilizada. O marido se acomoda, e junta as mãos com um sorriso de fúria, enquanto o senhor  do novo mundo, apenas aguarda o quê está por vir. _O quê queria com esses herdeiros sintéticos? 

    _Um exército de seres fiéis a mim e a minha rainha. 

    _Ela é a Minha Rainha.  

    _Não por muito tempo. No outro mundo você é alguma coisa. Aqui eu sou, e não sei se lembra mas a sua amada ama tudo o quê se refere a minha cultura diabólica. 

    _Ela ama tudo o quê se refere ao Pai dela. _Ou será que é ao seu verdadeiro marido? Nunca houve um divórcio adequado, esqueceu? 

    _Luciféria morreu Bael. Esta é Isabelle. 

    Elas não são a mesma pessoa. 

    _Então terei que te roubar Isabelle também. 

    Porquê ela tem o espírito da minha Lucy. _Depois de tentar matar o Odin, ela nunca vai  te querer. Não importa quantas vezes venha a salvá-la. 

    _Ah qual é. Eu fiz coisas bem piores na outra vida, e ela ainda sim casou comigo, e tivemos a Memphis  , da maneira tradicional. 

    _Que ela foi obrigada a matar, porquê tentou eliminar Elisa e Marisa.   

    _Mas ainda sim a tivemos. 

    O loiro ri com malícia, e o demônio se controla para não acerta-lhe um golpe. Horas mais tarde...A jovem mulher olha para o bebê, e este ri para ela. As filhas não se sentem felizes com tanto apego, e reviram os olhos. Isandra e Laura partem pelos corredores, e vão até Nicolas que está sentado no refeitório,  falando seriamente com Leviroth, que demonstra desagrado, porém  não para com ele, e sim com a ousadia do seu rival. 

    _Não queremos ter um irmãozinho! 

    _É verdade papai. Já me basta a Laura! 

    _Hey!  

    _Desculpa Laura. Você é legal, mas não é aquele moleque remelento, que nem tem o nosso sangue. 

    _Isso é verdade. Que amor é esse?! 

    _Acalmem-se as duas. 

    Nicolas respira fundo, e os pais puxam as cadeiras para as garotas, que se sentam com alguma dificuldade. Os pais se entreolham, com a certeza de que as duas crianças mimadas tem tendências psicopatas, e podem fazer como a filha de Bael. Por isso tomam as rédeas da situação, e tentam evitar o quê pode acontecer, para que Isabelle não tenha que se voltar contra  as meninas. _Odin é irmão de vocês _O quê?! 

    _Como assim?! Isabelle pulou a cerca?! 

    _Laura! 

    _Não, ela não pulou a cerca. Pelo que o idiota do meu irmão explicou, foi criado por manipulação genética. 

    _Em laboratório? 

    _Como eu? 

    _Ao que parece sim. Não consegui destruir todas as amostras de DNA de Isabelle pelo visto. 

    _Então foi assim que conseguiu o material genético dela? 

    _Foi? Papai achava que era de maneira tradicional. _Eu também achei, até papai me contar que  sai de uma barriga de aluguel, de um clone dela. 

    _Nunca pensei isso. Isabelle não pularia a cerca uma segunda vez Isandra. 

    _É? Pelo ciúme que sentiu da mamãe, duvido viu? _Senhor De La Cruz posso assegurar, nasci  em uma instalação de pesquisa genética. 

    _Podemos nos focar em questões mais importantes? 

    Isabelle e Bael tem um filho. Isso não é assustador? o quê ele ganha com isso? 

    _Uma ligação eterna com Isabelle. Está convicto de que ela pode voltar a mesma Lucy, que largou todos os que amou, para ser sua rainha. 

    _Minha mãe já teve um caso com ele? 

    _Arádia e o Novo Senhor do Inferno? 

    _Sim. Houve uma época, que ela sentiu um ódio extremo do pai e a mãe, de mim e Leviroth, e se juntou a ele. _Não só isso. Destruiu milhares de povos, julgando-os a favor do seu então marido. 

    _Como Ishtar. 

    _Ela também é Ishtar? 

    _É um lado sombrio da vida da mãe de vocês. Só que tudo começou por causa de um  

    Bebê. 

    _E agora está se repetindo... 

    A dama coloca o bebê para dormir, e sente uma forte pontada na cabeça, que a faz se debater contra o vidro da janela.  Um vulto negro surge e a carrega, embora  se pareça muito com Bael, não é ele que vem acudi-la, mas sim o seu pai, que a deita na cama, e a cobre notando a sua palidez. “O quê ele fez contigo?” Passa a mão na cabeça da filha, que está ardendo em febre, e suas veias brilham um forte  tom de roxo florescente. Fazendo-o entender o quê houve. Furioso este sai do  quarto, e vai atrás do anticristo, pronto para corrigir o seu filho rebelde, da mesma forma que o seu pai fez com ele, quando descobriu que ele lhe roubou, o seu bem mais precioso, a sua rainha. No caminho, este se depara com Victória e o neto Dave Haster. Ao vê-lo a mulher com roupas de caveira, corre para o abraçar, e este o retribui relutante. 

    _O quê foi pai? 

    _Isabelle foi infectada com a essência de Caesta. 

    _E o quê isso significa? 

    _Significa que seu irmão Bael, está tentando matar Isabelle, para reviver Ishtar  outra vez. 

    _Mas Isabelle é Ishtar  não ? 

    _Sim, e não. Ishtar é uma das 3 personalidades da sua irmã. A  1-Luciféria Lilith II, o anjo justo. A  2-Nahemah Hela, a deusa do julgamento. E por fim a 3 é Babalon Ishtar. 

    _Isabelle é Babalon?!  

    _E também é Koré. 

    _Mas Babalon é a prostituta e Koré a virgem! 

    _São estágios da vida da sua irmã. Ela foi Koré, a meninas dos olhos de Bael, e se tornou Babalon, a mulher dele. _Isabelle e Bael são realmente casados?! _Não exatamente. Ela como Babalon Ishtar é a mulher dele, mas como Isabelle é mulher de Azazel. 

    _Então Bael quer exterminar as outras duas versões dela, para só uma existir? _Sim. Babalon surgiu de todo o ódio que sua irmã sentiu por cada sofrimento, ela é o lado mais negro que existe nela. 

    _Então o quê ocorre se ela virar Babalon? _Ela se torna a Messias Negra das verdadeiras trevas. 

    _E  isso quer dizer? 

    _Que não há um futuro livre para as próximas 

    gerações. 

    Ele respira fundo, e Victória fica catatônica. Isabelle  gira de um lado para o outro, sentindo-se desconfortável. Corpos estão espalhados por toda parte, queimando em brasas ardentes. Sua mão segura uma espada e um estandarte, como se fosse uma amazona egípcia. Seus pés caminham pelo chão, cobertos de sangue. O medo lhe preenche o âmago. Que criatura grotesca teria feito tamanha chacina no antigo Egito? Sua respiração se torna ofegante, o coração palpita rapidamente,  e logo esta começa a correr pela areia. Há risadas em uníssono, e isto a deixa desconfiada. “Inanna.” Pensa com certeza e raiva em seu olhar, dando  passos longos em direção as vozes. Uma mulher, com o corpo pouco coberto, vestida de branco, está sentada no colo do Deus do local, com um cálice dourado em suas mãos.  Ao vê-la sorridente e maléfica, larga suas armas, em estado de  pânico. Os lábios da mulher misteriosa, beijam os lábios profanos do Deus iniquo. A mão do homem pálido, e de olhos vermelhos, agarra os seus cabelos  ruivos, e eles se encaram como dois dragões prestes a acasalar. As suas unhas negras  arranham carinhosamente a coxa dela, enquanto as mechas dos longos cabelos lisos, caem sob suas pernas, fazendo-a corar e abrir seus olhos violetas. Ao assistir a cena, a bela, fica de queixo caído. “Por favor não faça isso!” Grita em sua mente, ao tapar o rosto com os dedos abertos, e os olhos arregalados. Por não  conseguir suportar ver a cena, já que a mulher de cabelos 

    de fogo é ela mesma, em outra vida. Aterrorizada, pela visão que acabara de  ter, dá passos errados e escorrega para trás. Ao vê-la os demônios sorriem, e vão ao seu encontro, avançando em seu corpo, e beijando-a dos pés a cabeça, até Babalon desaparecer ao entrar no seu corpo, fazendo-a se sentir muito atraída, pelo novo Senhor do Céu e do Inferno. 

    _Você vai ceder a mim. Sempre cede. Basta sofrer o suficiente. 

    _Aquela, vadia, ali, não, sou, eu! 

    _,É uma parte sua. Uma parte que sempre desejou  toda a minha escuridão e iniquidade. 

    _Para! 

    _Você ama o Inferno, porquê ama a mim. 

    _Não! Eu! Não! Te amo! 

    _Ama sim. Pare de fingir o contrário. 

    _Não...Não... 

    Ela sente os dedos dele em suas costas, logo está com a roupa da Deusa Escarlate, e a sua coroa. “Eu não sinto atração, eu não sinto atração, eu não sinto atração!” É o  quê repete na sua mente, tão concentrada em não sentir, que é pega desprevenida no escuro, e ele a beija com ferocidade. De inicio ela não retribui, mas seu corpo reage contra a sua vontade, fazendo-a sentir algum prazer ao ser dominada, pela poderosa criatura. A língua dele entra em sua boca, por vários minutos, deixando-a sem ar, enquanto eles giram no meio do nada, como fantasmas se tornando um só ser 

    , de duas cores, a luz violeta, que se torna levemente rubra e a ausência de cores, o Ayin. “Eu Não...” Tenta o impedir de chegar, só que não resiste, e acaba em  seus braços, emanando a luz completamente em cor de rubi. 

    _Socorro! 

    _Filha? 

    _Mana? 

    _Me tirem daqui! Me tirem daqui! 

    _O quê aconteceu Isabelle?! 

    _Ela teve um pesadelo com o anticristo. 

    Certeza. 

    _Eu, e ele... A gente... Ai minha nossa Eu não acredito no quê vi! 

    Ela se ajoelha ao lado da cama, e o pequeno Odin acorda assustado, em estado de desespero. Ela treme se aproximando do bercinho, está em choque, sem acreditar no quê aconteceu, e no quê sentiu. O pai e a irmã tentam lhe acalmar, mas nada funciona, seu corpo não para de vibrar. É como se estivesse na Antártida, usando somente um biquíni. Lúcifer abraça a filha mais velha, impedindo-a de carregar o seu neto, pois na situação em  que encontra, pode derrubá-lo. Victória pega o bebê draconiano, e fica a niná-lo, junto do filho que luta para distrair o seu primo. A bela  volta a empalidecer, e sua pressão desce a tal ponto, que esta perde a consciência, nos braços do anjo das virtudes. Percebendo a gravidade do caso, a irmã mais nova, passa a mão no cabelo, e se ajeita ao lado da consanguínea fazendo-lhe carinhosos cafunés. 

    _É muito para Isabelle suportar. 

    _Sim. Sua irmã foi a que mais sofreu de vocês. 

    _Como que ela acabou nos braços dele?! Todo mundo sabe que ela é do Azazel! 

    _Ela e ele tem um destino, criado por Caesta , a grande deusa matrona. 

    _Mas você disse uma vez que ela e Azazel nasceram um para o outro! 

    _Sim, e é verdade. Só que ela foi castigada, por fazer Miguel se apaixonar, e destruir o seu destino com a outra sobrinha. 

    _Eke?  

    _Sim. Por se meter com uma das favoritas, ela a fez cair nos braços do demônio. Ficando assim dividida pelos gêmeos primários. _E o quê ela pode fazer pra mudar isso? _Somente controlar o quê sente pelo seu carrasco. 

    _Isso é horrível. Por quê Caesta é tão ruim? _Não há uma resposta. Mas Caesta odeia a sua irmã, tanto quanto a sua tia Lilith. Então creio que a motivação vem daí. 

    Lúcifer segura o netinho, e este gargalha no seu colo, sentindo-se muito confortável.  Ao vê-lo ele franze o cenho, e se recorda de quando segurou os gêmeos Bael e Azazel em seu colo. Azazel era uma criaturinha coberta por uma mortalha de energia escura, com um sinuoso brilho em seu peito. Já Bael era um bebê que brilhava tanto quanto o sol, mas em seu olhar havia a mesma fúria, do pai, quando ainda recebia o nome de Samael, e isto o preocupou. Os meninos, cresceram aos cuidados de Lilith, que em sua sabedoria sobre gestação, logo viu o futuro devastador daquele que pensou ser seu filho. Um calafrio percorreu-lhe a espinha, ao se lembrar de como Lúcifer era antes, e por isso o temeu por quase toda a sua vida. Bael cresceu se sentindo odiado pela mãe, e quando Luciféria nasceu, ele tentou matá-la afogada. Se a rainha do Inferno não chega a tempo, ele teria conseguido. É claro que a princesa não morreria de fato, mas esta seria enviada para o reino de Caesta, onde sofreria com o seu julgamento rígido e cruel, mesmo sem saber pensar. Lilith teve ódio dele, e por isso ela o enviou para uma floresta, na qual suas criaturas o puxaram para o subsolo do Éden Negro, e o manteve lá. Como no sonho de Isabelle, ela  foi até o lugar proibido, e teve com o terrível demônio, uma espécie de amor platônico, no qual ele a quis como sua futura rainha do submundo, e ela o quis como um amigo, com quem dividia suas aflições sobre a família, Miguel ou Azazel. Isso o devastou, e foi assim que ele acabou nos braços da sua verdadeira mãe, Inanna, que o educou para tomar posse do  céu de Ninlil, e o Inferno de Ereshkigal, que basicamente são a face da mesma deusa. Caesta os favoreceu, Bael tomou posse do mundo de Anu, e Chaos o marido e o oposto complementar dela, não gostou nada da afronta, e por isso lhe mostrou o poder da desordem. Enquanto céu e inferno lutavam entre si, o novo Deus, inventava meios para se aproximar outra vez de Luciféria. Só que ao vê-la nos braços do odiado gêmeo, ele mesmo a empurrou para a Terra, onde ela sofreu  

    até se matar. O quê só o pai sabe, é que quando ela se foi, ele saiu do trono, e entrou na água, sujando-se com o sangue da bela, enquanto via que poderia salvá-la. Só que nada conseguiu, e esta agora na adolescência, foi mandada para o reino de Caesta. A deusa anciã, recebeu sua essência, e quis destrinchá-la, mas ele atravessou o reino fatal para os deuses, só  para lhe trazer de volta. “Caesta. Você disse que quer que ela sofra. Ela sofre ao meu lado. Devolva-me a minha boneca.” O mentiroso profissional piscou diante da gigante, que gargalhou como louca, com as suas duas vozes entrelaçadas, entre a roca e a fina, como a de Akasha, em A Rainha dos condenados. O novo Deus, se curvou para a velha Tiamat, sem saber que decisão tomar. 

    _Está apaixonado pelo anjo maldito! 

    _Não, não estou mais. Eu só quero feri-la. _Não me engana Bael Lúcios  _Eu sou o carrasco dela.  

    _Não é mais. Designarei outro para esse 

    serviço. 

    Ao ouvir a ordem, o demônio ri sem acreditar, e então pega a deusa pelo pescoço, e a parte ao meio, banhando-se no sangue da draconesa, com seu olhar frio e sem vida. “Ninguém me diz o quê fazer. Nem mesmo você minha  querida avó.” Ele diz ao olhar para a cabeça dela, então olha para o coração desta, e o pega. A bela filha de Lúcifer, aparece presa em um cristal verde,  num sono profundo, que o jovem deus quebra com seu punho, só que nem assim ela desperta, e por isso ele rasga o seu peito, e coloca o miocárdio da deusa no lugar do seu. 

    _Bael o quê está fazendo?! Ela não é digna! 

    _Eu a escolhi. Quer você queira ou não. _Ela não vai suportar! É filha de um demônio e meu coração de carne é puro!  

    _Ah é? Esqueci de lhe contar  Luciféria não é filha de uma demônia. Mas sim da deusa que foi violentada. 

    _Ela é filha de Ninlil?!  

    _Você entende rápido.  

    _Então isso foi uma armadilha?! 

    _Achou mesmo que depois de tudo o quê fizeram Comigo, eu seria fiel a vocês?! Ah vovó isso foi uma tolice. 

    _Você vai morrer! 

    A Deusa Berra se materializando, mas os olhos de Luciféria se abrem, tão  verdes quanto esmeraldas, e esta surge diante da gigante, segurando o seu punho violento, com relativa facilidade. Ao ver que a menina agora, tem uma parte importante do seu poder, ela voa para longe, e decide criar um exército para deter Bael e a amada.  Aos poucos ela recobra a consciência, porém não se recorda de nada da outra vida, por isso o novo deus agarra a oportunidade, e se aproxima dela, fingindo o seu par. É claro que ela reconhece, e se afasta , só que quando recua, ele avança, como uma serpente, e lhe dá o bote, fazendo-a não resistir, e até retribuir aos seus desejos. 

    “E depois dele a manipular e mentir, ainda sim ela se tornou sua rainha, e nos traiu.” É o quê reflete o imperador do Inferno nos dias atuais, olhando para a filha no colo da irmã, com certo receio. Por isso coloca o pequeno  Odin para dormir, e volta para o caminho anterior. Contudo ao chegar na porta ouve uma voz familiar, e por isso para. 

    _Papai? A onde está indo? 

    _Vou resolver alguns problemas querida. 

    _Não o enfrente. Ele está poderoso demais. _Ele nunca foi mais poderoso do quê eu. 

    _Como pode ter tanta certeza?  

    _Eu ainda estou aqui. 

    O coroa charmoso pisca, e vai embora. Bael fica sentado diante da mesa,  fazendo anúncios em nome do seu pai, em relação ao Apocalipse, como se este patrocinasse suas atrocidades, em prol do novo mundo. No entanto ao terminar o seu discurso raso, o próprio deus da justiça aplaude com ironia, entrando no local, com o seu sorriso mais confiante, que faz o diabo ficar em choque, por acreditar que este vai desmascará-lo, mas por total educação, o pai espera a reunião acabar, para poder  repreendê-lo. 

    _Lúcifer. 

    _Olá filhinho. Está prestes a dominar o mundo, e ainda sim precisa do meu nome para ter algum sucesso? 

    _O quê quer?! 

    _Que fique longe de Isabelle. A menina não é a sua Ishtar, e eu não quero vê a reencarnação da minha filha  morrer. 

    _Você pode tentar enganar a Aggarath, o Azazel, o Miguel, e as crianças. Mas Eu sei que é a minha Luciféria. 

    _Em primeiro lugar Luciféria é o par de Azazel. Em segundo ela não tem mais a mesma personalidade. A Luciféria que conhecemos não existe mais. 

    _Então nunca a conheceram de verdade. Porquê Isabelle é exatamente a mesma Luciféria da qual me lembro. 

    _Você não vai machucá-la outra vez. 

    _Você e eu sabemos que eu nunca a machuquei de fato. O único que mais se feriu com a nossa união foi Você. 

    _Você fez com ela se odiasse, e enlouquecesse! 

    Não venha me dizer que não a machucou! 

    Lúcifer perde a cabeça, e agarra o filho pelo colarinho, o jogando contra a parede. O loiro ri da afronta, como se aquilo não o ferisse, e o quê o pai estava dizendo fosse somente ladainha. Todavia basta sentir a pressão da flamejante luz gloriosa do deus renegado, para se controlar, e deixar de agir feito um idiota. Infelizmente o momento de juízo  não dura, e este volta a defensiva agressiva. 

    _Ela surtou apenas porquê não se aceitou. 

    _Ela não é assim. Não é uma...! 

    _Uma o quê? 

    _Uma aberração como você! 

    _Desculpe informar reencarnação de Chronos. Mas a sua doce Perséfone, não é tão pura quanto você acredita.  

    _Eu nunca disse que ela era pura. Não seja idiota. 

    Ela apenas não é monstruosa como você. 

    _Ah ela é. E toda vez que desceu ao meu reino,  

    provou da minha escuridão e quis mais. 

    _Você a obrigou! 

    _No começo sim... Mas depois ela voltou ao Tártaro, pelo prazer que somente as trevas podem proporcionar. 

    _Está bem. Já vi que discuti não vai levar a  nada. Só fica esperto. Porquê Eu estou por  perto, e não te deixarei tirá-la de nós. _Interessante é um desafio? Porquê se for Eu já ganhei. Ela te odeia, pois se deu conta do péssimo pai que é. 

    Ele diz com um sorriso cruel, e o deus que domina o Tártaro, lhe acerta um soco no rosto, com a mão tão quente, que se ele não desvia, em vez de receber um arranhado no canto dos lábios, teria tido a face queimada. A raiva consome o progenitor, e este sente seu punho tremer, o deus do novo mundo, se enfurece pela humilhação, e urra para que saia imediatamente da sua  presença. 

    “Eu já pretendia tomar Isabelle para sempre, mas agora isso não é mais uma pretensão, e sim uma certeza.” Os olhos dele ficam sombrios, e o anjo caído, caminha pelo vagão, suando frio. Ao verem Lúcifer, Azazel e Nicolas correm para cumprimentá-lo, e saber o quê houve de tão grave, para que tenha se deslocado da Boulevard, para os trilhos do  trem da perdição. 

    _Olá irmão. 

    _Oi pai. 

    _Olá garotos. 

    _O quê aconteceu? Está trêmulo! 

    _Tem a ver com a Izzy? 

    _Apenas tive uma conversa com meu filhinho rebelde. 

    _Parece mais que discutiu. 

    _E espancou. 

    _Ah isso? É porquê ele não quer deixar a minha filha em paz, e me chamou de péssimo pai. 

    _É um soco e tanto. 

    _O quê ele ainda quer com Isabelle?! 

    _Tê-la de volta. 

    _Mas mesmo depois de muito tempo? 

    _Eu vou matar ele antes de conseguir uma segunda vez! 

    Azazel se prepara para ir atrás do irmão, mas Lúcifer o impede, e então avista a sua sobrinha Alexandra, e tem um plano, que resolve colocar em prática. Como quem não quer nada, se aproxima da moça, e tenta convencê-la a lhe ajudar, mas como a menina tem o sangue das deusas, percebe logo que é uma jogada, e o       faz confessar a verdade. Ele se envergonha, só que ainda sim, a bela bruxa resolve ajudá-lo, por ver o seu desespero, ao pensar que vai perder  

    a filha do seu grande amor outra vez. 

    _Então Isabelle realmente teve um relacionamento com  O Anticristo? 

    _Sim. 

    _E há ainda alguma chance de quê ela caia nos abraços dele? _Infelizmente há. Ele percebeu que a fonte do amor, vem do  seu ódio pelo resto do Universo, e por isso desgraçou a vida dela. 

    _Se ela souber que ele fez isso, certamente ficará longe dele. 

    _Não. Isabelle é louca como Luciféria, pode acabar se apaixonando, só por saber que ele gastou metade da vida, focado em obtê-la. 

    _E ele realmente gastou?! 

    _Ele não está vigiando-a de agora Alexandra. 

    _Ele é um psicopata! Isso é ruim... 

    _Eu sei... Isabelle tal como Luciféria abraçou As trevas com que a humanidade me vestiu. 

    Isabelle acorda no colo da irmã e se assusta, pois jamais imaginou que Victória  seria capaz de perdoá-la, após a sua coroação de rainha do pop no Madison Square Garden. Na qual a melhor amiga e irmã, se enfureceu pelo grande sucesso que seu pai proporcionou a mais nova, enquanto a manteve longe dos holofotes, porquê segundo ele Victória era mais digna, por ter o amado cegamente. Foi a gota d’água para Isabelle, que fez até o mais virtuoso dos seres ficar em silêncio, quando disse “É muito fácil ser fiel aos sentimentos por 3 anos de espera. Ela não ficou, por mais da metade da vida, esperando todos os dias que aparecesse, e chorou achando que tinha enlouquecido, quando nada aconteceu. Mas se isso a torna mais digna, então a partir de hoje corto meus laços com você e o satanismo, não importa  se tenho o teu sangue, Eu não sou mais tua filha.” Mal sabia ela, que o pai não fez aquilo por duvidar da sua nobreza, afinal nunca foi fã de adoração, e sim do amor  que poucos tinham por ele. O pobre imperador foi obrigado a agir dessa forma, renegando-a, ou Inanna, teria cortado-lhe a garganta, assim que fugiu da Dimensão prisional, junto com os demônios que enganaram as princesas e os príncipes do Caos. 

    _Então recebeu o meu pedido de desculpas. 

    _Sim, e eu aceitei. Você é minha irmã, sempre vai ser. _Posso até ser Vick. Mas te salvei por compaixão, e não pelo babaca do nosso pai. 

    _Devia pegar menos pesado com ele Izzy. 

    _Primeiro só Azazel me chama de Izzy. Segundo Você lembra o quê aconteceu no Madison. Ele me chamou lá para ser humilhada e rebaixada a serva! 

    _Primeiro Tô nem aí. É Izzy e ponto. Segundo já parou para se perguntar por quê ele fez isso? 

    _Porquê não o amei o suficiente e era indigna. 

    Ele mesmo disse. 

    Ela revira os olhos, e a dama lhe entrega o celular, na página oficial do site do pai.  “Leia a carta, Ao fruto do meu grande amor 19/08/2020.” Ela respira fundo apontando o dedo para onde a bela deve clicar. Isabelle se mostra relutante, mas Victória lhe dá, Insistindo para que o faça. “Ao contrário do quê ele disse a mídia, não foi um single barato, para iniciar sua carreira com chave de ouro. “ Diz, então isso desperta a curiosidade da bruxa mais velha do convém.  “Ao fruto do meu grande amor. Me perdoe por te abandonar naquela noite de horror. Você não entenderia, então te deixei ir. Se eu te coroasse como sonhava, não haveria como fugir. Sua mãe é a minha rainha, mas você sempre será minha garotinha. Me perdoe por  ser tão cruel. Mas havia algo terrível por baixo do véu. Seu sorriso, sua esperança. Sempre estarão em minha lembrança. Não podia permitir aquela matança. O relógio se move lentamente. Fazendo com que eu me lamente. Contudo não posso voltar atrás. Os monstros te devorariam no Alcatraz. Então tenho que seguir de coração partido. Sem poder está contigo.” Ao ler a parte “Seu sorriso, sua esperança” Ela fecha o cenho, e se esforça para terminar. Ao ver o seu incômodo,  Victória percebe que há algo errado, e pega o telefone de volta, pronta para abrir o inquérito. 

    _Não basta ter conseguido o topo que sonhei?! 

    Tem que jogar na cara o quanto ele te ama?! 

    _O quê?! Não Izzy. Não é pra mim! 

    _É claro que é, eu quase nunca sorrio ou tenho esperanças! 

    _Mas já teve! E nosso pai se recorda disso! Por favor Izzy! 

    Inanna não é o grande amor do nosso pai! Sua mãe É! 

    _Se isso é verdade, por quê ele pulou a cerca tantas vezes com ela?! 

    _Porquê ela o enfeitiçou! 

    Grita como se revelasse um segredo cruel e obscuro, e Isabelle recobra o fio  da sanidade. Olhando para ela em estado de choque, as duas que estavam em pé,  se sentam na cama, e a mulher com roupas moda caveira começa a chorar sem parar, o quê desperta um pouco de compaixão na irmã que a abraça, lhe acolhendo, e confortando-a, enquanto tenta secar as suas 

    lágrimas. Só que Victória, fica inconsolável, praticamente a beira de um surto, como se a sua vida de pop star, não fosse o paraíso que a professora acreditava  que era. Então pouco a pouco, ela se recompõe, passando a luva na sua face, para limpar o lápis borrado dos cílios inferiores. 

    _O quê tem demais nisso? Todo mundo sabe que Inanna é uma vadia. _Tem que Eu nasci de uma noite de prazer Isabelle. Não de amor , como você! 

    _Mas você disse que Inanna e ele se amavam. 

    _Eu menti. Estava furiosa por como me tratou. A minha vida é uma mentira! Eu sou uma deusa do amor, que literalmente nasceu do testículo do mar! 

    _Todos nós nascemos de um testículo Victória. 

    _Você não entende. Eu sou só o esperma que evoluiu, e Inanna usou para prender o nosso pai, e quando não tive serventia , ela me jogou fora! 

    _Minha nossa Vick. Mas Lilith te acolheu como filha lembra? _É mas eu sempre soube que ela não me amaria como amou a você. Esse tipo de conexão, só se tem através do sangue.  

    _Então por isso fez aquelas coisas terríveis comigo? _Sim. Eu me arrependi depois. Mas era tarde demais, tinha finalmente cumprido com a vontade Inanna, e você já era pura escuridão como eu e Bael. 

    _Se você é tão má assim. Por quê está confessando? _Porquê você é minha irmã! E eu te amo. Lilith me aceitou na casa dela, mas foi você que me criou, não fui justa contigo. 

    _Tudo bem. 

    _Não, não tá. Inanna continua a te odiar, e foi por isso que nosso pai agiu daquela forma. Se ele não te tirasse do caminho dela, ela ia te matar diante todos. 

    _Ela o quê?! 

    _Ela ia te matar. Por isso pai cedeu a entrada na fama pra mim. Como sou filha dela, ela iria adorar me ver ali, no seu lugar. 

    _Então ela desgraçou minha ida ao topo?! 

    _Sim. Mana me perdoa mesmo, sério. 

    _Bom pelo menos me contou. 

    Responde abraçando a irmã, reatando os laços de uma amizade que tinha sido destruída, há 9 anos. Então elas olham para o vazio, como se houvessem outros pecados escondidos. Enquanto isso... Bael sorri, com o seu mais perverso olhar, e o trem finalmente chega a velha cidade  subterrânea, na qual, se estabilizará o novo mundo. 

    Capitulo 7 – A cidade dourada 

    As portas do transporte se abrem, e todos descem outra vez mascarados. Porém o anticristo passa por todos, e é o primeiro a tirar a sua proteção, os deixando de queixo caído. “O homem em sua enorme ignorância, sempre acreditou que está no topo era o quê mais importava. Mas hoje meus queridos, estamos provando o valor das terras do subterrâneo.” O anfitrião abre os braços, com suas caras roupas amarelas, mostrando o paraíso que os aguarda. “Os humanos nunca entenderam, que o quê está acima, é o que está abaixo.” O loiro imita a estátua de Baphomet. “Que a sua morada , pode ser tanto o céu, quanto a terra.” Prossegue, e então olha para a única coruja entre as outras aves, com forte fixação. “Que o amor e o ódio provém da mesma energia.” Segue encurralando a jovem mãe. “E que podem ser convertidos. Portanto aquele que odeia hoje, pode ser a quem venha amar no dia de amanhã.”  Sorri com malevolência, e a bela recua. Percebendo o desconforto da amada, Leviroth resolve acolhê-la, e está o abraça forte, mas seu olhar continua preso a figura do rei do novo, que continua a sorrir confiante. O novo mundo dos escolhidos, é diferente do quê muitos se acostumaram, principalmente os que enriqueceram por obra de Bael. Há uma enorme fonte de água potável no meio da cidade, que é cheia de prédios dourados, que possuem várias tecnologias, as quais a comunidade tem acesso para resolver as suas causas, não importa se são significativas ou fúteis. Um 

    verdadeiro Éden. Ao entrarem no local, cada família é colocada numa casa, de acordo com a quantidade de membros, e dentro desta encontram roupas, comidas, e alguns brinquedos para se distraírem. Só que depois de ser raptada, Isabelle evita o capacete de realidade virtual, e prefere usar o aparelho, no qual reproduz livros. Já Os Miller optam por passar horas, enfrentando um ao outro num jogo de corrida de carro. Victória e Dave ficam num jogo de música, enquanto o par dela assiste TV, e Alexandra , e sua família escolhem vê um filme de terror de possessão.  “Amo Lovecraft.” A mãe de Isandra diz com um sorriso, cruzando as pernas, e balançando o berço de Odin, para mantê-lo dormindo. 

    _Isabelle encontrei seu pai ontem. 

    _O meu pai?! Aquele desgraçado que me renegou?! 

    _Não, o seu outro pai, com compartilha a essência única. _Ah o outro desgraçado que me renegou. O quê tem ele? 

    _Ele falou que o Anticristo está focado em ti. _É, eu sei, o fato de Odin ter o nosso DNA, me deixou bem desconfiada. Mas não acho que sou o Foco dele. 

    _Você é. Ele deixou claro para mim também. 

    _Eu não entendo o porquê de tudo isso. 

    Sou só uma professora de biologia. 

    _Eu entendo. Ele acha que você é Luciféria. 

    _E eu sou. Só que o quê isso tem a ver? _Não, não é. Tem o sangue e a essência, parte da forma, mas não é ela. 

    _Então eu não sou a princesa mesmo? 

    _É claro que é Izzy. Mas vocês tem personalidades diferentes, e não é só isso... 

    O marido respira fundo, lutando contra o seu ciúme, que quer o dominar, como um dono domina o seu animal. As imagens da sua amada ruiva nos braços de Bael, lhe vem a mente, e os seus dentes rangem sem parar, enquanto ele treme de raiva. A dama fecha o livro, e o coloca na cadeira branca. Suas mãos tocam o rosto do  amado, que retorna para a realidade, e a encara tomado pelo medo,  e a tristeza. 

    _O quê está havendo meu amor? 

    _Você lembra que sempre me disse que tinha um ser obscuro  dentro de ti, que você mantinha enjaulado no fundo da sua mente.  Porquê se saísse iria ferir os que ama? Sem dó ou piedade,  exatamente como a deusa descrita por Crowley? 

    _Sim é claro. Por quê? 

    _Você é mais que Koré, é Babalon também. _Aquela criatura arrogante e cheia de si?! Impossível. Eu sofro de depressão por ter Pouco amor próprio. 

    _É uma longa história. Mas em resumo você e Bael estiveram juntos, sim exatamente como desconfiava. Por isso teve os pesadelos em que se envolvia com o Anticristo. 

    _Por quê não me confirmou antes? 

    _Estávamos em crise, e eu achei que iria preferir a ele. 

    _Leviroth está inseguro? 

    _É claro que estou. Tudo o quê gosta, é baseado nele. 

    _Isso não é verdade. 

    _Você mesma disse uma vez. Há diferenças entre Lúcifer e o Diabo, e eu amo mais o Diabo do quê a Lúcifer. 

    _Você leu minhas mensagens para Victória?! _Eu sempre leio. Não tem por quê ficar surpresa, fez  a mesma coisa comigo. 

    _É, eu fiz. Só me preocupo que não confie em mim. 

    _Eu confio. Só que temia que ele fosse te procurar. 

    As mãos dele continuam a tremer, e a bela as segura. No começo ele se mostra relutante, mas ela é firme no ato. É difícil ver o demônio chorar, só que está claro  que aquilo o assusta, e que as lágrimas querem sair. Por isso ela o abraça forte, e este acaba se deixando retribuir, apertando-a forte contra o seu peito,  como se aquilo pudesse impedir a sua separação. 

    _Eu estou aqui B. 

    _É, mas por quanto tempo? 

    _Eu sempre vou está aqui. 

    _E se um dia sentir algo por ele outra vez? 

    _Eu arranco meu coração, e faço uma lavagem cerebral , para ficar somente amando você. 

    _Não. Isso não. 

    _Eu te amo muito. Não precisa se preocupar certo? 

    _Eu também te amo muito. 

    Eles olham um para o outro, e então como duas serpentes, inclinam a cabeça para frente, encostando os seus lábios um no outro. Como se quisessem algo mais, então os seus olhares transmitem mensagens, e eles se beijam fervorosamente. O demônio a  pega em seus braços, carregando-a para o quarto, no momento que suas línguas se enrolam uma na outra. A mão máscula tranca a porta, a dama tira sua roupa, e ele também. Como uma fera, ele fica por cima dela, mordendo seu pescoço com ferocidade, enquanto seus dedos agarram as costas femininas. Arrancando-lhe fortes gemidos, sem sequer começarem. Porém quando as coisas vão esquentando, os olhos da bela se tornam reptilianos, e esta sente muito desejo por sangue. Percebendo que há algo errado, o marido para com os estímulos, e com a unha arranha o pescoço, permitindo-a beber da sua vida. 

    _Não. Eu posso não ter controle. 

    _Eu sou um demônio. Me curo rápido. 

    _Tem certeza disso? 

    _Tenho. Pode se alimentar de mim, assim não precisará ir atrás do meu irmão. 

    Ele diz e a sua companheira, o ataca, sugando sua energia com tanta sede, que  parecia está no deserto. Ele sorri, contudo percebe que ela não vai parar, e a afasta. Os olhos deles se encontram, nos dela há fome, e no dele receio. Por isso esta salta pela janela, e o deixa para trás. Os seus sentidos ficam apurados, ela segue o cheiro  de sangue, vendo as cores da aura de cada um, enquanto tudo vibra ao seu redor. Um rapaz se encaminha para um dos becos do local, e ela o segue, com as mãos para trás expondo as suas garras. Bael percebe que está fora de controle , e vai ao seu encontro. O jovem tenta gritar, só que ela arrancou a sua língua fora, e está prestes a devorá-lo. Vendo aquela cena, ele sorri com crueldade, e estala o dedo, reconstruindo a língua do garoto, que está aterrorizado. 

    _Você pode falar outra vez. 

    _Ela, ela me perseguiu. 

    _Eu sei. Mas se não quiser voltar a ficar mudo, não conte a ninguém o quê viu. 

    _Está bem. Eu, eu só quero ir pra casa. 

    _O caminho é livre. 

    Isabelle respira fundo no canto, tremendo, como se estivesse doente. Seus olhos mudam de cor, e alternam entre draconianos e normais. Os dentes se tornam afiados , e os caninos pontudos. O loiro se aproxima lentamente, e ela se afasta, mas está fraca, e ele sabe disso. A unha do seu dedo indicador cresce como uma lâmina, e ele faz o mesmo que Leviroth, porém em vez de arranhar o pescoço, ele fura o lábio inferior, e a segura contra a parede, deixando o liquido pingar na sua blusa branca. 

    _Eu não vou. 

    _Vai morrer de fome assim. 

    _Eu já bebi o sangue de Leviroth. 

    _Ele é um Demônio mas não é um Deus. Não tem sangue  suficiente para alimentar uma Deusa. 

    _O quê você quer? Eu não sou Babalon! 

    _Quem te falou isso? 

    O anticristo fica desconfiado da afirmação, e ela vira o rosto para o lado, evitando olhar para as gotas vermelhas. Só que ele passa o dedo no ferimento, e coloca entre os seus dentes, fazendo-a chorar, por ter que lutar contra o seu desejo. “Eu vou matar todos no seu reino.” O ameaça, e ele ri do seu desespero. “Será julgada, e morta, pois não há necessidade de matar alguém por alimento, quando eu sou uma fonte  inesgotável.” Ele responde em voz baixa, aproximando-se  dela. 

    _Eu não tenho medo da morte esqueceu? 

    _Deveria ter, pois se perder a consciência posso te fazer minha. 

    _Você não...Necrofilia sério?! 

    _Hahaha, Embora a ideia me agrade bastante, não é isso que quero dizer.  

    _Então? 

    _Eu vou lavar a sua mente, para que me ame. Mais ainda. 

    _Eu não te amo. 

    _Será que não mesmo? Sempre soube quem era o Diabo, e quem era Lúcifer, mas seguiu me cultuando. 

    _Eu não achava que você era real. Acreditava que era só uma ideia da minha mente perturbada. 

    _É? Mas eu sou, e sim eu te quero. 

    _Eu não sou mais uma das suas mil garotas. Aliás eu não acredito nas suas palavras, pois como o seu nome diz, é “O caluniador”. 

    Ela lhe dá as costas, e ele ri. De repente a pega nos braços, e segura seu pulso contra a parede, respirando pela boca, perto da boca dela, enquanto esta absorve o aroma do sangue, lutando para não beber da nascente em seu corpo. Gargalhadas histéricas se fazem presentes, e a sombra do demônio da dimensão do caos se desfaz, e refaz diante do seu inimigo, o afastando da sua amada. Ao receber o golpe de Leviroth, o ser de amarelo fica surpreso, só que não desiste, e voltar a ficar de pé, pronto para lutar, no entanto o marido joga a mão para trás, e exibe a lâmina do seu punhal, como se estivesse pronto para matá-lo, algo que é cômico para o rival. 

    _Acha mesmo que pode me matar? Eu sou Deus! 

    _Não, nunca pensei nisso. Mas sei que posso te ferir bastante. _Será que pode? Só conseguiu alguma coisa, porquê eu estava inerte no olhar da sua mulher. 

    _Eu sempre fui melhor na batalha do quê você irmão, por isso não precisei roubar o poder de nosso avô, para ser um Deus. 

    _Você é apenas um demônio, um demônio bastardo! 

    _Somos gêmeos,idiota. Se eu sou bastardo, você também é. 

    _Eu sou o ser supremo do universo. O alfa e o ômega. 

    O principio e o fim. O nada e o tudo. 

    _Nascido da prostituta de Lúcifer. Tal como eu. 

    _Você quer desaparecer para sempre? 

    _Isso só seria possível se não fosse um fracassado. 

    Então tenta filhinho de Inanna, tenta. 

    O demônio ri, com crueldade, e o diabo perde a cabeça, e vai para cima dele. 

    “O seu problema Bael, é achar que uma chama roubada te faz digno! Você é só Lixo!” Ele provoca, acertando golpes violentos no seu irmão mais novo, e tirando sangue deste com facilidade. “Você queria oferecer o seu sangue pra ela !? Que tal eu ajudar um pouco?!” O demônio corta o pescoço do diabo, e inclina a sua cabeça, em cima da bela, que estava sentada no piso assistindo  a luta. “Ele é uma fonte inesgotável amor. Pode beber.” A dama olha para o marido assustada. “Beba. Sei que está com sede.” Ele olha para o outro lado, e a moça salta para o pescoço do anticristo, lambendo cada gota rubra que sai do seu corte, enquanto este se debate sem parar, mas não consegue escapar do seu ataque faminto. “Eu era conhecido como o clone de Lúcifer. Mas não  era por um senso de justiça distorcido...” Ergue o queixo dele, fazendo-o olhar para cima. “Mas sim porquê tal como Samael. Eu ceifei muitas almas, sem dó , ou piedade, e antes de matar as torturei por dias.” Ele diz no ouvido do inimigo, enquanto a esposa se alimenta. “Nunca se esqueça disso,  ou volte a cercar a minha amada.” Diz entredentes. “Você tirou a Luciféria de mim uma vez, porém não deixarei que tire também a Isabelle.” Ele percebe que a dama se saciou, e o arremessa contra a parede. Percebendo que está em desvantagem, o diabo olha para a dama, e o seu irmão, e desaparece , deixando um rastro de fumaça negra. Benner está bufando de  raiva, contudo abraça a sua companheira. “Eu disse uma vez que te deixaria ir se quisesse ser feliz com outro, mas a verdade é que não posso Isabelle. Não quero, te deixar partir.” Ele confessa, e a jovem o beija com a boca toda suja de vermelho. Ele não resiste, e retribui ao beijo com fervor, carregando-a em seus braços. A adrenalina que percorre o seu corpo, lhe faz  tirar a blusa rapidamente. Então se faz ser colocada no piso, para abrir-lhe a calça, e encher sua boca com o membro pulsante dele, que está rígido e duro. 

    Ele não consegue aguentar, e solta gemidos, ao sentir a saliva dela escorrendo por seu símbolo fálico. Toda aquela situação de guerra e morte, os deixa bem excitados. Por isso escorre o liquido de prazer, no meio das pernas dela, e cai no chão. Notando o quanto está molhada, ele a levanta, e a joga na parede, pronto para penetrá-la. Ela respira ofegante, e então o sente entrando no seu corpo encharcado, tornando-se um só com ela. A boca dele vai até o seu pescoço, fazendo-a revirar os olhos de prazer, enquanto ele aperta  o seu seio, e a agarra pela cintura. A sua costa dói por conta dos tijolos, só que em vez de parar, ela o arranha nas costas, e morde a sua jugular, afundando sua unha na pele dele, ao ponto de sangrar. Só que ele gosta da dor, e retribui lhe pegando pelo pescoço com força, sorrindo com maldade, ao ter noção do seu poder. Logo a vira de costas, e esta se empina. Ele entra em seu corpo outra vez, segurando as suas mãos na parede. Outra vez a boca dele vai para o seu pescoço, só que a pega pelo cabelo e lhe morde na nuca, deixando-a bastante excitada com tanta violência. As mãos dele pegam os seus seios, e seus dedos se entrelaçam aos dela. Eles gemem, gemem sem parar. Outra vez ela vira para ele, só que em vez dela descer 

    , ele quem o faz. De joelhos como um escravo, ele bebe do seu leite feminino , beijando-a entre as pernas, como se estivesse fazendo isso com a sua boca. É impossível não sentir prazer, por isso mais e mais quantidades do liquido cor de pérola, chegam a sua língua, enquanto as bochechas dela ficam  coradas, pela falta de pudor. Notando que ela está mole de tanto gozar, ele ri, e sinaliza negativamente, com o dedo indicador, e volta a prensá-la na parede, mergulhando seu membro no buraco carnoso, com vontade, até que não suporta mais segurar o prazer, e jorra seu liquido branco contra o solo. Regorjeando-se de satisfação. _Eu devia tentar matar o Bael mais vezes. _Você sabe que sempre amei os psicóticos  com tendências assassinas. 

    _É, por isso se casou comigo. 

    _E continuarei para resto da vida. 

    _Eu te amo Izzy. 

    _Também te amo B. 

    Os dois se abraçam, e então colocam as suas roupas de volta. Nem os mais de 9  anos de casados, havia apagado o fogo da sua relação. Eles dão as mãos, e caminham risonhos como dois adolescentes pelo centro. Ao vê-los Victória deixa Dave com o marido, e vai até o casal, curiosa para saber, porquê Isabelle estava com a boca toda suja do liquido vital. A bela identifica o olhar observador da amiga, e se afasta de 

    Benner. As duas caminham para uma maloca abandonada, e se sentam na mesa que está no meio do local. Victória capta que algo aconteceu, por conta dos lábios vermelhos, e as machas na blusa branca de Isabelle, e por isso inicia a conversa apontando para os seus seios. 

    _Você matou alguém? 

    _Não. Mas foi por pouco. 

    _Você machucou alguém?! 

    _Sim, só que Bael ajudou a pessoa a se curar. 

    _Mas você saiu toda feliz com o Benner. 

    Então Bael não conseguiu nada. 

    _Sim. Só que também foi por bem pouco. 

    _Pode me contar tudo. 

    _Bael me fez uma bebedora de sangue... 

    Isabelle começa a narrar os fatos para Victória, que fica de queixo caído  porquê o seu sonho era se tornar vampira, e quem tinha se tornado era a sua  amiga. Já o sonho de Isabelle era ser famosa, mas quem se tornou foi ela. “Que  mundo injusto” Ela sorri com tristeza, e a professora lhe olha desconfiada. “Vic? 

    Tem algo errado?” segura as suas mãos, e a dama sorri com tristeza. “Não, Está tudo bem.” Tenta mentir, só que não consegue, e por isso a mulher volta a lhe questionar. “Está tudo bem?” Insiste, e a bela se segura para não sorrir, e negar os fatos outra vez. 

    _Você percebeu. 

    _É. Você ficou triste do nada. 

    _É que Isabelle, este era o meu sonho lembra? _Sim mana, mas também era o meu ser famosa, e ter muitos seguidores. Só quem conseguiu foi você. 

    _É. Isso é tão injusto quanto você disse que seria uma vez. 

    _Você está com raiva de mim? 

    _Não Isabelle. Estou triste. Por quê não conseguimos realizar os nossos sonhos? 

    _Porquê nossos destinos eram esses. Mas Vic nem sabemos se sou uma vampira, é provável que eu seja outra coisa. Ser uma criatura da noite, atrapalharia aos planos de Bael. 

    _Não, quando todos vivem na cidade subterrânea. 

    _Tenho que concordar. Porém te prometo uma coisa, se eu for uma vampira mesmo vou te transformar também. 

    _Por quê faria isso? Eu sou uma estrela, e nunca te puxei para o palco. _Porquê ser vampira, já foi um dos meus sonhos, e creio que no novo mundo, eu realizarei os outros. 

    _Você merece irmã. Apesar de dizer que tem trevas profundas, sempre foi uma pessoa maravilhosa. 

    _É, ser boa, sempre foi a minha maior fraqueza. 

    _Pra mim não. Esta é a sua qualidade, boa na medida certa. 

    Ao longe o diabo quebra todos os seus objetos dentro do escritório, entregando-se aos seus instintos mais primitivos. “Maldito seja!” Berra destruindo tudo ao seu redor, recordando-se de que ficou a segundos de ter o quê ele queria. “Por muito pouco ela não foi minha!” Brada socando a mesa de pedra negra, e volta a razão. “Por muito  pouco...” Se acalma, e começa a alegrar-se. “Eu só preciso criar uma situação, e ela será minha.” Seus olhos se tornam obsessivos. “Um beijo. Isso vai confundir o seu coração.” Conclui confiante da aposta. “Um beijo, e ela voltará a ser a minha Babalon.” Ele prossegue, e então ajeita os fios do seu rabo de cavalo desgrenhado, amarrando-o outra vez. “Uma festa em homenagem a Dionísio deve funcionar.” Termina, bebendo Whisky da boca do copo quebrado. Com o olhar fixo  no seu grande  objetivo Recuperar Luciféria. 

    A noite... Todos são convocados ao baile do anticristo, sob pena de perderem suas  moradias, caso não o prestigiem por uma hora. Outra vez Isabelle recebe a máscara de coruja, e ela e Leviroth se entreolham com a certeza de quem veio aquele presente, por isso trocam a fantasia, e vão para a festividade. Ao chegar lá, eles se separam por alguns minutos, para que o demônio vá comprar bebidas, mas a fila no bar é enorme, e demora mais que o esperado. Um homem de máscara 

    negra, a puxa para dançar, e pela ousadia ela o  reconhece. 

    _Achou que eu não ia te reconhecer? 

    _Você quer levar outra surra?  _Não me importo em apanhar mil vezes, se tiver a chance de ficar na sua companhia. 

    _Eu tenho mais o quê fazer. Licença. 

    _Do quê tem medo? 

    _Medo? Eu não tenho medo. 

    Tenho pavor. Agora... 

    _É só um beijo Isabelle Caligari. Nada que não queira vai acontecer. 

    _Vê isso? Significa que sou casada. 

    _Isso é só um circulo envolta do seu dedo. Eu ergui estátuas gigantescas, para te mostrar ao mundo. 

    _Esse é o seu problema. Acha que exagerando, pode conseguir alguma coisa. 

    _Eu sempre consegui, ou nunca sentiu falta de  

    ter todos os seus caprichos realizados? _Eu senti. Mas o Leviroth me ensinou, que são as pequenas coisas que fazem o amor. _É uma pena, pois eu adorava te exaltar, e te fazer ser reconhecida. 

    Ele aproxima os lábios dos seus, e os olhos dela crescem por baixo da máscara. Lentamente nega com a cabeça, tentando escapar da sua investida. O dedo dele segura o seu queixo, e a mão a segura por trás. “Cadê o seu príncipe sombrio para te socorrer?” Ele brinca apertando-a, e aproximando-a do seu peito. Os braços da pobre se esticam, e ela fecha os olhos com medo do quê vai acontecer. “Não  resista.” Ele tira as suas mãos do ombro, e a deixa bem perto dele. “Não faça isso.” Os lábios imploram. “Quietinha. Nós dois sabemos.” A unha dele cresce. “Que se o seu marido não interrompesse...” Corta o meio dos lábios inferiores. “Você teria me beijado...” Diminui ainda mais a distância da boca, e ela sente  a sua respiração. “E gostado.” Completa, beijando-a. É claro que ela não quer lhe  dá o gosto da vitória, mas o sabor do sangue, altera os seus sentidos, e faz sugá-lo como um animal faminto. Ele ri, e se aproveita da situação, para colocar a sua língua cheia do liquido vital, para trabalhar. Outra vez é difícil resistir, há uma luta no começo, que termina em retribuição. Porém Victória vê a cena, e corre para separá-los. Fazendo algum esforço, ela os afasta. 

    _Fica longe da minha irmã! 

    _Eu até vou ficar. Mas garanto que Ela não vai querer isso. 

    _Vai embora Bael. 

    _Viu? Ela mandou!  

    _É assim? Depois de praticamente arrancar  o meu ar, com o seu beijo cheio de volúpia? 

    _Eu vou te matar! 

    _Saia. Antes que Leviroth volte. _Está bem. Aguardo a sua ligação para uma parte 2 desse momento. 

    _Só nos seus sonhos! 

    _... 

    _Lá também.  

    Ele gargalha indo embora todo vitorioso. Victória pede para que saiam, e ela envia uma mensagem ao marido, avisando que estarão num local mais tranquilo. Ao ver a SMS, ele sorri encantado, mas sua paz vai embora, ao ver quem chegou exibindo os dentes com felicidade. “Eu quero uma dose do seu melhor Whisky. E uma rodada de bebida para todos!” Berra, e os alcóolatras comemoram. Vendo o irmão  no canto, ele se aproxima cheio de arrogância, e este revira os olhos. 

    _Olá irmãozinho. 

    _E aí. 

    _Sabe por quê estou tão feliz? 

    _Por coisas boas, não deve ser. 

    _É. Mas o quê não é bom pra você, é ótimo  pra mim. 

    _Eu sei. 

    _Sabe? 

    _Quem você acha que avisou a Victória? _Então também deve saber que sua mulherzinha, estava pegando fogo em meus braços. 

    _Porquê você se cortou? Engraçado. Nunca precisei jogar tão baixo para seduzi-la. Sabe por quê? Porquê sou um homem de verdade , sei como encantar uma mulher. Fica na paz “irmãozinho”. 

    Ele sai aparentemente por cima, contudo basta sair da frente dos olhares curiosos, para deixar a máscara cair, está triste, e até magoado. “Não vou tomar outra decisão estúpida, deve ter havido uma razão. Ela pode realmente só ter tido abstinência de sangue.” Pensa ao caminhar pelo local, evitando as piscadas, das biscates que 

    aparecem no caminho. As damas pousam seus braços no apoio, e olham para o fundo abismo. Como se estivessem em silêncio a horas, respiram profundamente. Isabelle está trêmula, e envergonhada pelo aconteceu, e a irmã está receosa, como se já tivesse visto este filme antes, e não quisesse reiniciar a fita. “Bel. Eu não vou te julgar só quero te advertir, essa história não tem um 

    final feliz. Ele não é diferente de Gabriel.” Inicia, e ela fica calada,  procurando uma resposta. 

    _Eu não sinto nada por Bael. 

    _Depois daquele beijo cheio de volúpia?! Tá zoando! _Tá. Foi uma atração momentânea pelo sangue dele. 

    _Só o sangue? Porquê parecia que a sua língua estava na goela dele. 

    _Já chega Vic. Nem eu sei o quê aconteceu certo?! Também queria entender! 

    _Você não saboreou o momento? 

    _Meu deus não! Talvez... um pouco! 

    _Você tá confusa Isabelle! Igual a mim. 

    Quando beijei o Gabriel! 

    _É! Mas a diferença é que não quero casar e ter filhos com ele! Eu sou casada Vic! Isso nunca deveria ter acontecido! 

    _Você tem que evitar o Bael tá? 

    Depois do beijo as coisas só pioram. _Tudo bem, eu não pretendo ficar perto dele. 

    Garante, mas no dia seguinte, enquanto todos estão dormindo em seus quartos. 

    Ela envia uma mensagem para ele, e este deixa claro que só lhe dará uma resposta , se for vê-lo, em um jardim distante da cidade. Algo que ela se reluta a fazer, até ele jurar por escrito, que não fará nada com ela. Preocupada pelo quê possa acontecer entre eles, ela escreve uma carta, porém quando a deixa na mesa,  o seu marido acorda, e percebe algo errado. Por isso pega o seu celular, e olha a conversa que ela está tendo com o seu irmão. “É sério isso Isabelle? Esta bem na cara que ele quer bem mais que um beijo.” Ele diz empurrando o aparelho. “Eu preciso entender Leviroth.” Ela se arruma para sair. “A última vez que ficou dividida, 

    houveram graves consequências. Só não esqueça disso.” Ele lhe 

    dá as costas, e a bela sai. Ao chegar no local, ela fica em pânico, pois a estátua de anjo, e a iluminação é semelhante aos seus sonhos com o anticristo, e todos eles tinham algum contexto romântico. Ela respira fundo, está vazio. “Talvez ele só esteja me testando, e...” Ele chega, com o cabelo desgrenhado, e um sorriso totalmente sem vergonha. “A noite deve ser sido boa.” Brinca com desgosto. “Tenho uma reputação a zelar.” Ele rebate, e se sentam perto um do outro na fonte. 

    _Vamos ser bem diretos ok? 

    _Eu sempre sou Isabelle. 

    _Isso tem que parar. Eu sou casada e respeito  muito o meu marido. 

    _Engraçado. Quando era eu o marido, você não tinha piedade de mim. 

    _Eu não te amava, e você me traiu antes, ou se já se esqueceu das doces noites  com Aggarath? 

    _Não, não esqueci, mas isso só aconteceu por  culpa do seu desprezo. 

    _Hahaha' Essa é boa. Você é o  cafajeste, e eu que levo a culpa? 

    _Tem razão. É idiota. Já aconteceu, mas não muda o fato de que esteve casada comigo. _É, quando descobri fiquei me perguntando como pude ser tão idiota. 

    _Já chega. Assim você vai acabar tirando a roupa, e eu não vou resistir. 

    _Eu vou é te esganar. Não está me escutando? 

    Eu não quero isso. O passado morreu certo?! 

    _Estou, só não quero ouvir.  

    _Foi uma total perda de tempo. Até mais. 

    Ela se levanta para ir embora, só que ele segura o seu pulso,  e fica de pé diante dela, sem o comum semblante zombeteiro. O quê a deixa bem preocupada, pois o quê quer que venha a dizer, é algo sério. “Eu não quero ouvir porquê também estou confuso.” Diz em forma de confissão, apertando o seu braço para não deixá-la se mover. Seus olhos denotam tristeza, e por alguma razão, isso lhe desperta um pouco de compaixão, e ela resolve esperar por sua explicação. Eles  retornam para a fonte, e ele passa a mão nos cabelos, cobrindo a sua face. 

    _Eu sei que sou um babaca. “Imperador dos  Babacas” pra você. 

    _Victória te disse isso?! 

    _Eu te vigio Isabelle. Sei o quê fala de mim. _E quer se vingar fazendo eu me apaixonar, só porquê disse que não seria uma das mil, que acreditam nos seus falsos “eu te amos"? 

    _Não. Eu não me importo com o quê diz. _Então porquê tudo isso? Eu briguei com Leviroth pra está aqui. Preciso saber. 

    _De verdade? Eu só sinto a falta da minha Amada. 

    _É. Eu não sou aquela prostituta fria! _Esse é apenas um rótulo, que você recebeu por ser uma criatura livre de amarras. 

    _Bael. Eu sei que quer me matar, para trazer ela de volta, mas não é justo comigo. Eu não sou mais 

    Luciféria, nem Babalon, Hell, ou qualquer outra Deusa. Sou apenas Isabelle, mas eu sinto, e isso me assusta. 

    _Eu não tenho a intenção de te matar. Se fosse como  diz, já teria morrido. Sinto algo por ti, sendo Babalon  ou Isabelle.  

    _Não pode. Terá que viver com isso. 

    Nem tudo pode ser seu. 

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

     

  • O Vazio

    Tudo se desfez. Seu lar. Seus amores. Sua vida. Seu mundo. O vazio agraciou todas as coisas, sendo elas, reduzidas ao nada. Mas ela, somente ela, restou. O vazio a repudiava. Ele não a dava o direito da não existência. Ela estava sozinha. Restando somente ela e o nada, e mesmo esse nada, ainda a neglicenciava.
    E então ela vagou.
    Um ser semelhante a ela, avistou.
    Sua pelagem negra, de início, a assustou.
    Mas ainda assim, ela continuou.
    Seus movimentos, em direção a ele, quase vacilaram mas ele era o único que restou.
    Ao redor dele, inúmeras telas se dispunham a flutuar; ela não sabia como aquilo estava acontecendo. “Isso é magia?” As palavras atrevidas saíram de sua boca, quase sendo inaudíveis.
    -Magia? O que seria magia pra você? - Uma voz grave saiu do ser, que estava postado à frente de uma tela.
    Aquilo a pegou de surpresa, mesmo de tão longe ele a havia notado. Sem dar sua resposta, ela parou de caminhar até ele e contemplou um pequeno quadro. Esse quadro flutuava por dentre outros que, sendo maiores que ele, desviavam de sua atenção.
    -Não toque nisso. - Em uma fração de segundos, o ser estava ao lado dela. Ele retirou aquele pequeno quadro dali e o implodiu. - Foi um erro dele ter feito tal quadro. - Disse aquele ser, com um ar distante.
    Ela evitava olhar para aquele ser. Seus olhos dourados a desconcertaram e abaixo da pelagem negra se via um homem; embora não pudesse o chamá-lo assim. Ela sentia que conhecia tal quadro.
    Em suas longínquas lembranças, sua tia havia lhe apresentado: uma linda obra de Monet, chamada Nenúfares. Isso a encantou e, por impulso, ela embarcou numa tentativa falha de se tornar artista. Mas aquilo foi erro. Ela se recusou a pensar naquilo.
    -O que é você? - De súbito, ela perguntou. Aquele ser estremeceu e pigarreou antes de responder.
    -Não se espante. Posso parecer estranho, mas já vi muitos de vocês antes. - Não era uma resposta que ela esperava, mas ele prosseguiu. - Não planejo fazer mistérios por aqui. Todas as artes que teço, em meus aposentos, refletem o fim de seu mundo. - Ele apontou para as inúmeras telas à sua volta. - Eu já vaguei pelo seu mundo. - O tom de sua voz abaixou.
    -Você ainda não respondeu o que lhe perguntei. - Sua surpresa foi, subitamente, substituída por uma expressão séria. Seus olhos o encararam, enquanto aquele ser divagava em seus pensamentos.
    -Eu sou parte do nada. E por isso mesmo, sou neglicenciado por ele. - Ele fez uma pausa e a encarou. - Talvez você também seja, huh? É a primeira vez que um humano pisa por aqui.
    Ela continuou a encará-lo; ela não era cética como os ateus, mas sua crença estava sendo desafiada a todo momento naquele lugar. Ao seu redor, ela percebeu: diversas pinturas lúgubres e trágicas - indubitavelmente lindas, embora ela se esforçasse para não admitir-, a traziam para seu torpor. Em um dos quadros, se via, tal ser, pintado fracamente enquanto destilava caos pelo mundo.
    -Era você, não é? - Com um riso satírico, ela desviou os olhos para ele. Em resposta, ele meneou com a cabeça.
    O ser que havia levado seu mundo para desgraça, estava a seu lado, enquanto a encarava seriamente com um olhar penoso.
    -Não me olhe assim. - Ela tornou a olhar para as pinturas. - Na verdade, acho que você fez bem em destruí-lo.
    O ser pensou em falar algo. O olhar dela era tão inexpressivo quanto o de uma coruja e, com solenidade, ele se afastou dela.
    “Talvez haja um motivo para ela estar aqui.” ele pensou na medida em que seus passos iam cruzando a porta.
     
    O ar era rarefeito, mesmo para ele era difícil respirar. Ele ergueu suas asas e alçou voo. Embaixo dele, tundras se estendiam pelo térreo. Ele havia a deixado sozinha. “Talvez ela precise de tempo para pensar.”.
    Já era tarde, ele tinha que se apressar. As bombas escorriam pelos ares e dizimavam os arredores. Aquelas criaturas eram insistentes. Tais criaturas surgiram no momento do fim de seu mundo e, desde então, ele resguarda seu lar e detêm-os.
    As pequenas gramíneas eram afugentadas e queimadas por eles, ele se ergueu rapidamente e perfurou uma daquelas criaturas com suas garras. Restavam mais cinco. Com seu toque rápido, a outra criatura implodiu, não restando nenhuma migalha de seu corpo. As outras fugiram e, sendo elas tão rápidas quanto a luz, tornava difícil a perseguição atrás delas.
    Com uma aparente preocupação, ele retornou para seu lar. A menina estava dormindo em sua cama, os cabelos esvoaçando com o ar que saía da janela. Ele se aproximou dela e a cobriu.
    Novamente, pegando seu cavalete, tornou a pintar. Em suas memórias tais lembranças estavam frescas: o fim daquele mundo, seja em chamas, em névoa ou gelo, o inspirava. Ele, sendo tomado pelo torpor, pintava rapidamente as imagens que passavam pela sua cabeça.
    A menina se levantou e, com os olhos entreabertos, vislumbrou a pintura daquele ser. Uma pintura que não remotava a um fim, mas sim a um começo. Ele tecia, calmamente, cada pincelada daquele nascimento. Ao se aproximar dele, lágrimas eram visíveis. Aquilo a surpreendeu.
    Ele terminou sua pintura e, ao se virar para o lado, viu os olhos dela fixos na pequena tela. Ele não havia percebido a presença dela antes. Permanecendo minutos sem se falarem, ele se levantou. O silêncio, tão costumeiro e sufocante para ele, era uma espécie de agradecimento por ela estar ali.
    Novamente, ele saiu mundo afora. Ela, sendo deixada sozinha, se indagava ainda mais de seus pesares. Não sendo contaminada pelas dúvidas, aceitou viver ali. Mas algo estranho ocorria: em apenas um dia, uma fraqueza tomou posse de seu corpo como nunca antes em vida. “De qualquer forma, eu já deveria estar morta.”, e nisso ela se tornou indiferente ao destino de que tais sintomas poderiam levá-la.
    Novamente aquele ser retornou. Sua respiração estava ofegante e ela não se conteve em perguntar.
    -O que você faz lá fora?
    -Evito a decadência deste mundo, embora soe irônico. - Mesmo a respondendo, ela continuava com curiosidade no olhar. - Lá fora, não há lugar para ti. Mas posso lhe afirmar: lá não é tão belo quanto seu mundo.
    -Então é por isso que ainda não o destruiu? - Com um tom sarcástico, ela o questionou.
    Ele apenas deu de ombros e retornou a pincelar.
    A noite caía vagarosamente, ela imaginava o que estava além dali; impedindo seus pensamentos de permanecerem apenas para si.
    -O que você acha da morte? - Com um longa pausa, ele respondeu.
    -Apenas invejo vocês, humanos, por saberem de seu fim. A morte, para mim, é apenas um retorno ao nada. Ao vazio. No momento que ele a renega, você se torna incapaz de morrer. -Disse ele, com um olhar taciturno.
    -Sabe, talvez seja o contrário. -Disse ela, sem continuar o pensamento.
    -O que quer dizer?
    -Digo, talvez ele não te renegue como achas. Quem sabe o que há no final? Mesmo você, uma criatura tão estranha, não tem certeza. -Disse ela, com uma voz baixa. - Você não é tão diferente de nós humanos.
    Aquilo o estremeceu. Como ela poderia dizer aquilo? Sendo ele, um ser tão poderoso como era, sentiu-se ofendido. Mas depois de um tempo, ele também acreditou naquilo. Suas frustrações, sua inveja, seus desejos… tudo era tão similar a ele e, ao mesmo tempo, tão diferente. Tais discrepâncias eram tão superficiais que o tornavam iguais em essência.
    A noite caiu por completo, dando lugar ao sol. Na tundra afora, ele saiu. O dia estava estranho; “talvez seja pela conversa de ontem”, pensou. Seu corpo estava mais pesado que o habitual, tornando difícil a locomoção e o voo. Ele se feriu bruscamente, machucando sua pata direita e ferindo seu rosto.
    Ao retornar para casa, a expressão dela, quase inexpressiva, tomou-se pela preocupação. Ela cuidou de seus ferimentos e, com uma pequena repreensão, disse a ele para não voltar para lá. Mas de nada adiantou.
    Mais uma vez, alçando voo, ele percebeu que tudo havia ficado pior. A secura, a queimação, tudo se inundava em fuligem e fumaça. Ele se recusava a perder seu novo lar. Com uma fúria latente, ele dizimou as vinte criaturas que voavam em seus dispositivos. Ele se machucou a ponto de não retornar ao lar.
    Enquanto a noite se aprofundava, seu ser clamava pelo vazio. Pela morte. Mas o vazio, novamente, o rejeitou. Ainda havia algo que o mantinha ali além de sua inspiração. Sua afeição por ela, de forma quase pueril, ele se deu percebeu. Um sentimento jamais sentido antes; ele não estava mais sozinho.
    A noite foi longa, sendo transbordada em palavras não ditas e em lágrimas derramadas.
    Quando retornou para casa, se encontrou na solidão novamente. Ela não estava mais lá.
    Depois de infinitos dias, infinitas dores; seu estado de torpor não era mais suficiente. Sua inspiração estava se esgotando, como da última vez. Ele estava enlouquecendo, com a sede de destruição crescendo cada vez mais em seu ser.
    Quando, pela última vez, impediu o bombardeamento de seu mundo, ele decidiu se entregar.
    Chegando ao ninho daquelas criaturas, descontou sua sede, seu descontentamento e sua tristeza nas vidas inocentes que se manifestavam ali. Não restando nada, retornou ao seu lar sem conseguir voar. Depois de quase um ano, se viu novamente em sua casa. Nada havia mudado. Exceto uma coisa.
    A presença dela havia retornado.
    Um monstro se erguia perante a mim. Com suas longas asas negras e seus pés feridos de tanto andar, ele se debatia enquanto era tomado por um sentimento desconhecido. Ele tossia e, cada vez mais, sua respiração se enfraquecia. Tentei ajudá-lo mas eu era apenas uma miragem de sua imaginação. Eu não existia. Eu não era real. Não poderia eu, ultrapassar a barreira que me desconectava do mundo dele. Eu era apenas uma ideia. Uma concepção. Aquilo me dilacerava, embora não houvesse nada para me dilacerar. Ele sorriu para mim em meio sua dor, e seu corpo foi se desfazendo em fagulhas. Mas quem, na verdade, se desfez fui eu. Eu o esperei por tanto tempo, embora não houvesse mais ele em minhas memórias. O que restava a mim, agora, era simplesmente retornar ao vazio. “Finalmente.”
  • O Velho e a Ponte

    Diversas coisas podem despertar lembranças de sentimentos que nunca mais existirão da mesma forma e, com o passar do tempo, essas coisas só aumentam de tamanho. Todas essas lembranças ativadas por lugares, objetos ou qualquer outra coisa podem ser chamadas de fantasmas já que tem a possibilidade de produzir a saudades ou a repulsa.
    A maior parte dos fantasmas do Velho estavam presos a uma antiga ponte que ligava dois parques de ilhas diferentes. O rio que passava por debaixo dela não era muito grande, mas a correnteza podia ficar muito forte dependendo da quantidade de chuva. Quando era criança, costumava brincar no rio, mas isso era antes de descobrir e se importar com o quão poluído ele era. Após isso, sempre brincava no parque e aos dezesseis anos passou a correr cotidianamente lá. Mesmo com as suas visitas se tornando cada vez mais raras com o aumento da idade, aquela ponte sempre o marcou. Inicialmente, era a fonte das aventuras das suas brincadeiras de infância. Já nos momentos de corrida, essa era a parte mais difícil devido a subida. Também foi lá onde viu e sentiu as coisas mais maravilhosas como diversos pores do sol e o seu primeiro beijo. Entretanto, também já viu coisas horríveis lá.
    Nos dias de hoje, no auge dos seus setenta anos, não consegue mais ir com muita frequência tanto no parque como na ponte. O velho vai no máximo uma vez por semana para que as dores não atinjam as suas articulações com maior intensidade. Mesmo assim, vai tão lentamente que não é sempre que consegue atingir a ponte. As dores são uma lembrança constante de que a juventude não lhe pertence mais, rivalizando com as dores da saudade que as lembranças dessa época trazem. A cada nova dor que descobria sabia que esses tempos estavam cada vez mais distantes e que o fim de tudo cada vez mais perto.
    No final de uma tarde de outono, o que em sua cidade significava tempo nublado e ventos frios, decidiu que iria até a ponte. Era uma vontade repentina e arrebatadora, impossível de não ser cumprida. O velho não sabia se seria uma coisa boa ou não ir lá, se traria uma bela lembrança que o faria sorrir ou um horrível demônio que o faria chorar, mas tinha que arriscar.
    No longo caminho até a ponte, ele tentava se lembrar de tudo de bom que havia acontecido naquele lugar. Em sua cabeça vinha a cena de um velho tocando saxofone em um pôr do sol. Essa foi uma das poucas vezes que parou a sua corrida por tanto tempo naquela ponte e foi só para ver um homem tirando notas musicais de seus pulmões. Até hoje não conseguiu entender o que viu naquela cena e talvez por isso a chamava de poética.
    É claro que essa não era a única cena que vinha em sua cabeça. Havia também a imagem de diversas mulheres que havia beijado naquela ponte e em diferentes partes do dia, épocas do ano e climas. Apesar disso, dentre todas elas, tinha uma que sempre ocupava a sua mente e eliminava a imagem de todas as outras. O velho tinha sido casado com essa mulher, e ela já tinha morrido há doze anos. Lembrava-se de andar abraçado com ela nos dias frios e, nos dias quentes, de comprarem grandes potes de sorvete que não duravam mais do que duas horas. Certo dia, quando já era muito tarde e não havia quase ninguém no parque, parou de repente no meio da ponte. Ela não estava entendendo nada quando ele pegou a mão direita dela, começou a cantarolar uma valsa de maneira um pouco desafinada e perguntou se ela daria a honra de dançar com ele. Nenhum dos dois sabia dançar aquele tipo de música, então só ficaram dando passos de um lado para o outro. Mesmo assim, esse foi um dos momentos mais marcantes da sua vida e que, se pudesse, o reviveria em um loop eterno. Sempre quando lembrava desse momento, sorria e chorava ao mesmo tempo. Chorava pela saudade que isso causava e sorria por poder se lembrar.
    Entretanto, ele sabia que aquelas lembranças não eram geradas pela ponte. Ele lembrava daquilo tudo porque queria lembrar, mas nem sempre a ponte se apresentava para ele com clemência. De certo modo, logo quando acordou já sabia que os pensamentos gerados por ela não seriam tão bons. Afinal, ameaçava chover e isso nunca é um bom sinal. Ao se deparar com início da ponte, parou. A sua mão tremia mais do que o normal e os seus joelhos ameaçavam parar de sustentá-lo. Os seus olhos vidrados começaram a se lembrar de coisas que há muito tempo conseguiu esquecer. Estava correndo de manhã bem cedo antes que o parque lotasse quando uma moto passou tão rápido à sua direita que só conseguiu perceber que ela era azul. Ele sabia que isso não era permitido, mas, pela velocidade, sabia que ela já estaria fora do parque antes que pudessem fazer alguma coisa. No momento em que escutou um miado esganiçado, se arrependeu de não ter tentado impedir o motoqueiro ou ao menos o xingado. O velho ainda jovem correu o mais veloz que pôde, mas ao ver o gato já sabia que não conseguiria fazer nada por ele. A moto havia passado por cima da metade de trás do gato e nem sequer parou para tentar ajudá-lo. O sangramento era intenso e um corte profundo na barriga jogou metade do intestino para fora. A respiração do gato já estava pesada, os olhos verdes não tinham mais brilho e não era possível distinguir nem mais a cor do pelo dele em meio a tanto sangue. O jovem sabia que só havia uma coisa que poderia fazer já que não tinha como pedir ou levá-lo até a ajuda, então procurou a pedra mais pesada que havia a sua volta, a levantou e, com lágrimas nos olhos desejando que um milagre acontecesse, a abaixou com toda a força possível na cabeça do gato. Ainda em choque e sem acreditar no que teve que fazer, pegou o corpo do gato morto nos braços, o abraçou e o jogou no rio, achando que aquele fim seria mais digno do que ser deixado no meio da ponte. Mesmo acreditando que o que tinha feito foi para livrar o gato de um sofrimento que poderia durar horas, sabia desde o início que aquele seria um fantasma que nunca o deixaria em paz.
    O velho, agora de volta a sua desalentadora realidade, tomou coragem em meio as suas lágrimas para continuar a caminhar. Com passos lentos e medo de ser pego de surpresa novamente por alguma lembrança indesejada, chegou a exata metade da ponte. Como ele sabia disso? Através de seu amigo Henrique. Em uma noite parecida com a que estava hoje, também tinha decidido caminhar no parque. Colocou o seu casaco e caminhou até chegar a ponte. Lá estava o seu amigo Henrique sentado na mureta da ponte com o seu cabelo curto, barba bem aparada e vestindo o seu terno azul-marinho. Em um primeiro momento, o velho de meia idade não viu nada de errado com o amigo, mas logo percebeu que ele estava chorando. Ainda tentando entender o que estava acontecendo, o cumprimentou e perguntou se ele estava bem. Henrique o encarou e o velho percebeu pelo brilho dos seus olhos que o seu velho amigo havia se perdido dentro da própria mente. A resposta de Henrique foi a simplicidade da falta de sentido: “Sabe onde estou? Na metade exata da ponte. Uma perna para um lado e a outra do outro. Fiz um trabalho no ensino fundamental que era simplesmente medir essa ponte, então marquei essa pedra com uma faca para saber a metade exata. Sem sentido, não? Talvez seja por isso que, nesse momento da vida, resolvi colocar um sentido nisso tudo.”. Antes que o velho pudesse responder qualquer coisa, Henrique deixou o corpo mole e permitiu que a gravidade fizesse o seu trabalho. Tanto o velho da lembrança como o velho da atualidade correram para a borda da ponte e ficaram encarando um rio extremamente violento por causa das chuvas dessa época do ano.
    Não conseguiu entender o porquê de ele fazer o que fez. O velho simplesmente não tinha a resposta, não sabendo como poderia ter ajudado e feito as coisas serem diferentes. Ele só sabia que não fez nada para ajudar e isso o corroía tão profundamente como se algo extremamente ácido estivesse sendo jogado no seu peito. Não havia nada que pudesse fazer para aliviar a dor. E é claro que não ajudou ter que dar a notícia para os familiares e ter que responder dezenas de perguntas para afastar as suspeitas dos policiais e daqueles para quem dera a notícia. “Você foi o último a vê-lo, então ele deve ter te dado o motivo”. Mas o Velho não sabia de nada e nem poderia saber. Foi somente com o passar de meses que conseguiu amenizar as lembranças desse fato e a lentamente começar a esquecer.
    Agora lá estava ele no auge dos seus setenta anos e décadas depois do acontecido encarando o mesmo rio. Foi nessa hora, no exato momento em que diversas lágrimas começaram a rolar dos seus olhos, que tudo a sua volta ficou preto. Sentia todo o medo, a raiva, a desconfiança, a dor e a pressão que sentiu durante meses em um único momento. O ódio predominava. Tinha ódio por não ter feito nada para evitar. Tinha ódio por ter deixado que todos desconfiassem dele. E tinha ódio principalmente porque, se tivesse a oportunidade de fazer alguma coisa, não saberia o que fazer. Tudo isso causava dor. Essa era impossível de sanar e não havia como externalizá-la. Nem mesmo através de lágrimas ela saiu, ficando lá dentro se alimentando do crescente remorso.
    Agora estava com essa dor na escuridão, o seu inferno particular. Não havia nem fogo como num inferno tradicional já que uma fonte de luz seria muita bondade. No seu inferno não podia enxergar nada, não havia odores, nada para ouvir e nenhuma coisa para comer ou encostar. Sem sentidos para usar como ponto de fuga, apenas a dor para sentir. Sendo torturado de forma lenta e eterna por aquilo que fez em vida, sem escapatória alguma. Sozinho com a sua mente e sem a necessidade de demônios, ele mesmo fazia o trabalho de forma eficaz. A dor que o Velho fazia o Velho sentir o forçava a querer morrer para que pudesse ir para o inferno tradicional. Assim, talvez conseguisse parar de pensar.
    Contrariando os seus desejos, lentamente a escuridão foi se afastando e o Velho começou a ver a iluminação das lâmpadas fluorescentes do parque. Só então percebeu que as suas velhas pernas não foram capazes de sustentar tanta dor e que estava sentado de maneira desajeitada no chão. Ficou ali um bom tempo até recuperar minimamente a sua força emocional. Os seus olhos ficaram marejados todo esse momento como se tivesse uma lágrima presa que se recusasse a descer.
    Depois de umas duas horas, se levantou e começou a voltar lentamente para a sua casa. Os olhos do Velho o acusavam e dava para saber que os seus pensamentos estavam distantes. Mesmo assim, ele sabia que nem ele e nem ninguém poderia amenizar o que ele estava sentindo. O máximo que poderia fazer no momento era aproveitar a noite fria, dormir e esperar um dia seguinte melhor. Assim, o tempo poderia fazer o seu trabalho e amenizar as suas longínquas dores.

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